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Respeitável público!
Chacovachi (seu nome real é Fernando Cavarozzi) é um palhaço e bufão
argentino, nascido em Buenos Aires em 21 de abril de 1962. Um dos
palhaços de referência na Argentina, este artista de rua é também criador
do Circo Vachi. Atuando como diretor de circo e diretor artístico, há mais
de 20 anos integra a Convenção Argentina de Circo, Palhaços e Artistas
de Rua. O Palhaço Chacovachi vem levando sua arte pelo mundo afora:
Marrocos, Cuba, Peru, Brasil, Venezuela, Espanha, Inglaterra, Holanda,
Colômbia, França, entre outros países.
Fotografia: Maku Fanchulsini
MANUAL E GUIA DO
PALHAÇO DE RUA
Tradução por Jeff Vasques
(Palhaço Magrólhos - www.eupassarinho.org)
Ilustrações por Highlander Artista y Karine Lebatard
Contato
chacovachi@gmail.com
Coletivo Contramar
colectivocontramar.wordpress.com
colectivocontramar@gmail.com
Feito o depósito como rege a lei N° 11.723
Impresso na Argentina
Palhaço Chacovachi
Manual e guia do palhaço de rua / Palhaço Chacovachi; Javier Miguel Yanantuoni;
Martin Vallejos; tradução de Jeff Vasques (palhaço Magrólhos); contribuições de
Lucía Salatino; ilustrado por Highlander Artista -
2a ed. - La Plata: Contramar, 2016.
156 p.: il.; 14 x 20 cm.
ISBN 978-987-33-8629-9
1. Artes Cênicas. 2. Circo. I. Yanantuoni, Javier Miguel. II. Vallejos, Martin. III. Salatino,
Lucía., colab. IV. Highlander Artista, ilus. V. Título.
CDD 791.3
MANUAL E GUIA DO
PALHAÇO DE RUA
PALHAÇO CHACOVACHI
COLECTIVO
CONTRAHAR
Todos somos palhaços,
só alguns trabalham com isso
ÍNDICE
Livro de viagem (Apresentação) ....................................................... 08
O método do Xadrez ........................................................................ 11
A apresentação: o palhaço, o material, a estratégia
O palhaço que você é ....................................................................... 26
Ofício, profissão e filosofia
O material que você tem .................................................................. 36
Piadas, rotinas e dramaturgias
Dramaturgia da apresentação de rua ............................................... 57
Convocatória, número participativo e passagem de chapéu
Circuito de rua ................................................................................. 74
Vida de piratas e mapas atuais
Apêndice ......................................................................................... 91
Estudo, autobiografia, entrevista e referências
Manifesto (Epílogo) ........................................................................ 113
Sumário ......................................................................................... 114
PRESENTAÇÃO
pelo Coletivo Contramar
Revisão e notas pelo Palhaço Chacovachi
Livro de viagem
Numa tarde de domingo na Bahia Blanca, ia um amigo pela praça e, de
uma roda, o chamaram. Fizeram com que ele se desviasse e participasse
numa apresentação. Um palhaço lhe falou com voz grave e sentido de
justiça: de igual para igual. Moleque! Você gosta de viver neste mundo?
Já vai passar... A lembrança do incômodo e do reconhecimento, no meio
da rua, perdurou em seu corpo até hoje, quando, depois de conhecer
pessoalmente o Palhaço Chacovachi, retorna como uma lição precoce.
Esse foi o primeiro encontro entre um integrante do Contramar e o
palhaço que armou seu caminho por entre as praças do mundo, hoje
trabalhando juntos no Manual e Guia do Palhaço de Rua.
♒
O Coletivo Contramar aproximou-se de Chacovachi fora da roda de
apresentação, em 2012, para lhe perguntar como havia visto a rua
durante os anos noventa e como se fazia humor em seu meio. Como
resposta, não obtivemos uma opinião geral, mas um estilo, uma
modalidade e estratégias de trabalho que implicavam um olhar político
e corporal sobre o fim do século passado. De certo modo, este Manual,
que recompila anedotas de suas experiências e de seu método para
montar um espetáculo de arte de rua, é uma resposta à pergunta que
fizemos. Descobrimos, então, que o ponto de vista de Chacovachi estava,
antes de tudo, em sua forma de trabalhar e sobreviver.
A partir dos anos 80, a globalização fez muitas promessas à classe média
argentina e latino-americana — participar de uma cultura mundial
através do consumo, tornar-se cosmopolita — mas não prometeu a rua
como espaço de encontro. Pelo contrário, a rua seria o que é preciso
atravessar, seria a competição, os movimentos de desocupados, os
protestos, os engarrafamentos, as multidões, atravessar a rua para
chegar ao espaço que pague. Enquanto essa ordem tácita do consumo
representava o sistema, grupos de teatro e artistas de variedades do
circuito alternativo enxergaram nas praças o espaço indicado para
renovar o pacto com seu público. O objetivo era recuperar o espaço
ocupado pelos temores remanescentes da ditadura de 76. Chacovachi
participou dessa ideia — sua primeira atuação foi em um festival contra
a ditadura militar no Parque Lezama -, mas, para além disso, encontrou
outros elementos na praça: as pessoas comuns e o fugidio dinheiro,
coisas difíceis de conseguir nos subsolos do Parakultural1. A praça passou
a significar, então, continuidade do trabalho.
Logo depois de atravessar uma experiência militar ou de emergência, a
continuidade é um problema. Continuar o quê? A praça era continuidade.
Não da vida que trazia Fernando Cavarozzi, senão de algo desconhecido,
já que o mundo da arte foi mais ou menos irrelevante — apesar de ter
tocado em uma banda e escrito canções — até que cruzou com a escola
de mímica de Ángel Elizondo. A descoberta do ar livre da praça, do sol e
das pessoas que passam não era necessariamente tranquilizadora. A
praça do bairro logo se converteu em todas as praças do mundo, com
suas nuvens de tempestade e festas populares; os vizinhos em procissão
domingueira se prolongaram no passante anônimo, estrangeiro e
impessoal que também teria que rir, ainda que fosse um par de gêmeos
suecos, uma bêbada, um louco. Aos personagens reconhecíveis da praça
se somou uma multitude de públicos possíveis. Aqui, ao menos, uma
promessa se cumpriu: o Palhaço Chacovachi atuou em festas populares
da Europa e da América do Sul como os imemoriais saltimbancos, os
bufões e os artistas nômades. Mas também nos povoados e paragens das
províncias da Argentina e da Pátria Grande, como os espetáculos
itinerantes da época do vice-reinado.
Como pode haver um método para resolver as incríveis situações que se
apresentam em uma odisséia como essa, como alguém se atreve a falar
de Manual?
1 Espaço cultural de Buenos Aires no qual se referenciou o movimento
alternativo de teatro, música e outras artes, desde a metade dos 80 ao princípio
dos 90. Em um primeiro momento, estava localizado em um pequeno e
explosivo sótão de San Teimo. Logo se mudou para outros lugares. Muitos dos
artistas que, desde os noventa em diante, trabalharam no teatro, nos meios de
comunicação e no circuito de rua, participaram de suas programações. Foi
fundado por Horacio Gabín e Ornar Viola, a quem Chacovachi reconhece como
um de seus Mestres.
Adiante se encontram os ensinamentos mais difundidos pelo Palhaço
Chacovachi, como o Método do Xadrez, e muitas histórias de sua
trajetória. Você encontrará, também, uma espécie estranha de escritor:
o escritor oral. Chacovachi compartilha a tradição oral dos bufões e dos
charlatões de feira, mas também dos pajadores2 e dos cômicos de stand
up. Quando nos ofereceu editar o Manual disse que tinha um livro
escrito. Onde? Na cabeça, disse. E assim foi. É o grupo de ensinamentos,
piadas e histórias que constituem seu Curso de Palhaço de Rua. Para
entrar em contato com essa escritura oral, não bastará ficarapenas
nestas páginas, porque um de seus componentes, do mesmo modo que
poderíamos descrevê-la como uma expressão clara, aforística, elaborada
e graciosa, é a espontaneidade. A mesma situação da qual surge e a qual
se dirige forma parte de sua estrutura oral. Esta abordagem permanente
à situação não o impede, no entanto, de transmitir os conhecimentos e
as informações que dão consistência ao diálogo e ao monólogo. Por isso,
Chacovachi forma parte da tradição dos escritores orais míticos da velha
Europa, o lumpen suburbano e provocador da América Latina.
Esta é outra forma de dizer que o Manual é um livro incompleto. Falta
que você o leve e o termine. Neste livro de viagem, há lugar para suas
anotações. Leve, te servirá para montar uma estratégia de sobrevivência
em uma praça marroquina, em um teatro chique, em uma barbearia do
subúrbio de Buenos Aires ou em um escritório do centro.
♒
O texto tem dois registros: de um lado, a dimensão expositiva do Manual
organiza conceitos e seus desenvolvimentos; de outro, os textos diretos
de Chacovachi, que aparecem como panfletos, e o registro de suas
anedotas dão uma cenografia precária para que a viagem comece desde
a primeira leitura.
2 "Payadores" são os artistas da "Payada", arte poético-musical vinda da cultura
hispânica e difundida no cone sul. O "payador" improvisa versos acompanhado
de violão. Aparece no sul do Brasil como "Pajada".
O MÉTODO DO XADREZ
A apresentação: o palhaço, o material, a estratégia
Fazer uma apresentação de palhaço é como jogar
xadrez. Todos nós sabemos como se joga. Joga-se
com e contra o público: move você, move o público;
conforme mova o público, move você. Por isso, com
o mesmo material, nunca sairão duas
apresentações iguais.
A apresentação de rua é como um jogo de xadrez. Na rua, a apresentação
é um jogo e também uma guerra. O palhaço de rua é um guerreiro: se
veste para a guerra, tem uma personalidade à prova de balas e sai pra
rua como "buscavidas" , a jogar seu jogo com o público.
O método do xadrez toma três aspectos dessa comparação para explicar
como montar uma apresentação de palhaço de rua em qualquer lugar do
planeta. De um lado, estão os aspectos que têm relação com o palhaço
que somos e com o material que temos. São as peças do jogo. E, de outro,
está a estratégia do jogador, que marcará o desenvolvimento da
apresentação.
As peças
No xadrez, cada jogador conta com seis tipos de peças. A mais
importante é o rei, seguida da rainha, depois vêm as torres, os cavalos e
bispos e, por último, os peões.
O rei é tua dignidade e tua fonte de energia, se você
perde alguma dessas qualidades, você está morto. A
rainha é tua personalidade e tua atitude, é a que
defende e ataca, a que pode ganhar sozinha uma
partida, a que vai para onde quer e quando quer.
Jogar sem atitude, sem personalidade, torna muito
difícil o triunfo. Os bispos, cavalos e torres são tuas
rotinas (pretextos para estar em cena), que podem
ser clássicas, paródias, de habilidades, números
participativos, excêntricos, etecetera. Os peões
são tuas piadas e gags que você pode usar a qualquer
momento.
Na apresentação de rua essas peças se organizam em dois grupos.
O rei e a rainha têm relação com o palhaço que cada um é, algo que pode
levar muito tempo para se descobrir e que vai tomando forma a partir da
experiência do palhaço. As torres, bispos, cavalos e peões são o material
que temos: nossas rotinas e todas as piadas que levamos prontas ou que
fazemos no momento.
Deve-se sempre lembrar que um palhaço é as duas coisas: o palhaço que
você é e o material que você tem. Para crescer como palhaço, você
deverá polir muito o material e, com esse trabalho de polir o material,
iremos conhecendo cada vez mais nosso palhaço.
O rei: a dignidade e a energia
O rei é a peça mais importante do jogo: se nosso adversário nos toma o
rei, perdemos a partida.
Na apresentação de rua, o rei é a energia e a dignidade.
Há três tipos de energia: emocional, física e intelectual ou cognitiva.
Deve-se fazer um forte trabalho sobre as três, há todo um treinamento
energético para poder fazer bom uso dos três tipos de energia na
apresentação. A energia cognitiva, que podemos associar com a atenção,
com a capacidade de responder rapidamente, tem que manter-se bem
alta. A energia física também: na apresentação temos que ter toda a
energia física carregada. O treinamento mais importante passa por poder
manter a energia emocional controlada, e isto significa nem alta nem
baixa: se é alta, a coisa sai de nossas mãos, perdemos a compostura; e,
se é muito baixa, não chegamos a contagiar o público.
Nisso o palhaço de rua é uma espécie de xamã: tem que trabalhar para
mobilizara energia emocional na roda e provocar sentimentos no
público.
Existem três tipos de ENERGIAS para atuar (e
para tudo):
-FÍSICA: sempre deve restar alguma
-COGNITIVA: a mais elevada possível
-EMOCIONAL: essa é a que se deve controlar mais;
se não há nenhuma, nada se transmite e, se há
muita, tudo explode (no sentido ruim).
A dignidade se relaciona diretamente com a função do rei como peça que
define se ganhamos ou perdemos a partida. Dignidade é crer no que se
faz. Perdemos a dignidade quando deixamos de crer no que estamos
fazendo. Um palhaço está preparado para o fracasso e não perde a
partida quando um número sai mal: até pode transformar essa falha no
ponto chave do êxito de sua apresentação. No entanto, quando mostra
em cena seu sofrimento pelo fracasso, perde a dignidade e perde a
partida. E nós, palhaços, como é sabido, não gostamos de perder nem
jogando bolinha de gude.
Palhaço amigo: se algo não sai como você esperav, é
absoluta responsabilidade sua. Nunca, nunca, nunca
se irrite com o público. Irritar-se é uma mostra de
debilidade e, se o público percebe, você está morto.
A rainha: personalidade e atitude
Como dissemos, o palhaço deve ter uma personalidade à prova de balas.
Para isso, faz falta uma atitude particular ou, para dizer de outra maneira,
faz falta muita atitude. Personalidade e atitude caminham juntas, porque
sua atitude tem relação com a forma como você encara as coisas,
partindo do seu olhar. E, aqui, trata-se de ser absolutamente você
mesmo. Repito: a proposta, com este Manual, não é que se faça tudo ao
pé da letra, nem proclamar uma verdade universal; a partir do que se diz
aqui, você terá que fazer a sua própria verdade. Isso tem relação com o
fato do palhaço não ser um ator, não se faz-de, mas é ele mesmo, ali, sua
personalidade exagerada jogando na roda.
A atitude do palhaço de rua tem que ser provocativa, agressiva. Isso não
implica, necessariamente, ser violento ou ser agressivo todo o tempo. A
rua impõe circunstâncias dinâmicas, imprevisíveis, e, muitas vezes,
complicadas. Para lidar com esse tipo de situação, é bom ser um pouco
agressivo. Essa atitude é a que nos permite arriscar e sermos
provocativos. Provocar é, antes de tudo, provocar sentimentos. Há
pessoas que podem ser muito doces e provocar candura. Outra pessoa
pode te provocar asco e está sendo provocativa. Promover no outro
sentimentos, que gerem reações com as quais podemos trabalhar para
avançar no jogo, é o que uma atitude provocativa, agressiva, pode nos
dar.
Bispos, cavalos e torres: as rotinas
Grande parte do trabalho do palhaço de rua se produz ao criar rotinas.
Os números ou rotinas são uma parte fundamental do material de que
dispõe um palhaço. Por isso, neste Manual, dedicamos quase um capítulo
3exclusivamente ao tema. Basta aqui dizer que as rotinas são nossos
pretextos para estarmos em cena, são a resposta à pergunta que surge,
necessariamente, antes de sairmos para a roda: o que estou indo fazer?
Uma vez que encontremos o pretexto, começaremos a repeti-la, e a
repetição vai aperfeiçoá-la.As piadas-peões
A outra parte importante de nosso material são as gags e as piadas. As
piadas são os peões, porque com eles vamos avançando na partida. O
palhaço não fica nunca em silêncio, não deixa passar nunca a
oportunidade de fazer uma piada. A qualquer momento, diante de
qualquer circunstância que o permita, o palhaço tem à mão uma piada-
peão para colocá-la em jogo e roubar umas risadas. No terceiro capítulo,
dedicado aos materiais, vamos desenvolver alguns pontos específicos de
elaboração e uso das piadas em cena.
Táticas e estratégia: o desenvolvimento da
apresentação
Uma vez que conhecemos as peças, precisamos saber o que fazer com
elas. Entramos assim no âmbito do como jogar. O Método do Xadrez
implica em uma estratégia que vamos desdobrar em uma série de táticas
para jogar este jogo em que o palhaço dialoga com o público e, ao
mesmo tempo, o enfrenta. A estratégia pode ser condensada em uma
frase: move você, move o público, e conforme move o público, move
você.
O palhaço trabalha com as reações das pessoas. Sabe que diante de um
determinado estímulo, de uma determinada provocação, há dois ou três
tipos de respostas, não muitas mais. E está preparado para cada uma
dessas possíveis respostas. Isso não exclui a possibilidade de que alguém
possa aparecer com uma resposta que deixe o palhaço sem reação (em
3 Ver: “O material que você tem”. “Piadas, rotinas e dramaturgias”
todo caso, um bom palhaço saberá transformar isso em uma gargalhada),
mas cada piada-peão ou cada coisa que façamos nos permitirá conhecer
nosso público, ver do que riem, ver como se reconhecem entre si e
começar, assim, a trabalhar com suas reações.
Como assinalamos mais acima, a energia cognitiva do palhaço deve estar
em seu máximo nível na hora da apresentação. O palhaço, como bom
jogador de xadrez, não pode distrair-se nem um segundo. Observo como
se move esta criança de sete anos! Atenção com o bêbado que dança
com o cachorro ao ritmo dos sinos da igreja! A roda é uma constante ida
e volta de emoções e energias, porque o jogo implica uma atenção quase
permanente e de dupla via: das margens até o centro e do centro sempre
em movimento até fora também. Ninguém pode se esconder, tudo se vê,
tudo se escuta. Prove isso numa experiência prática: distancie-se alguns
passos da roda e já não verá nem escutará nada. O palhaço está todo o
tempo comunicando-se com o público: quando deixa de fazê-lo, deixa de
existir.
O palhaço é comunicação
No palhaço, a cumplicidade com o público é
fundamental. O público não só deve escutar o que
você diz, como, também, o que você pensa.
Dos diferentes canais de comunicação que pode empregar o ser humano,
cada arte deve privilegiar um. O teatro prima pela palavra falada sobre o
resto; a pantomima se concentra no gesto; a música, no som; a dança, no
movimento; e a mímica, na ação. O palhaço, que se comunica
permanentemente com o público, tem que trabalhar
independentemente sobre os diferentes canais. Assim conseguirá maior
amplitude de possibilidade para criar. Não se trata de tornar-se um
virtuose em cada uma dessas artes, mas de explorar todas as
possibilidades que lhe permitem comunicar-se verdadeiramente com o
público, encontrar esse sentimento em cena que pode ser
compartilhado, contagiar, mobilizar
O palhaço é comunicação. Quando deixa de comunicar-se, deixa de
existir. Existem seis canais para se comunicar e cada um tem uma arte
que o desenvolve em sua plenitude.
A PALAVRA: ..................... O TEATRO
A AÇÃO: ..................... A MÍMICA
O MOVIMENTO: ..................... A DANÇA
O GESTO: ..................... A PANTOMIMA
O SOM: ..................... A MÚSICA
O RUÍDO: ..................... O GUTURAL
Ao identificar quais são os canais que você usa ou os mais afins ao teu
palhaço, você pode aprender as técnicas da disciplina que melhor os
desenvolvem. De toda maneira, convém fazer as primeiras experiências
sem informação, sem estudar nada, descobrir primeiro o ofício de
entreter e, depois, aprender outras técnicas para adequá-las a sua
personalidade. Há gente que estuda e estuda e, depois, tem dificuldade
na hora de encarar o trabalho porque se torna muito consciente do que
faz.
A partir dos canais que se utiliza, há dois grandes tipos de palhaço: o
falador e o que não fala. Ao primeiro, também se chama bufão
shakespeariano. Conta histórias, delira, em seus números fala muito com
o público, se mete com o público, faz piadas faladas. Hoje em dia, as
técnicas de stand up são úteis para esse tipo de palhaço. E há o que não
fala. Abandonar a palavra o leva a potencializar outros canais como o
movimento, a música, o gesto. A expressão sem palavras, que é o canal
privilegiado, pode ser muito interessante.
Nós, argentinos, temos uma grande palhaça: Maku Fanchulini. Sim, oh,
que casualidade!, é minha esposa, a mãe de meus filhos, minha
companheira. Em suas apresentações solo, Maku trabalha com a ação
física e com a comunicação direta, criando situações cômicas, frescas e
surpreendentes. Maku quase não fala em suas rotinas, vai criando uma
linguagem universal que lhe permite comunicar-se com crianças e
adultos. Os principais canais de comunicação de Maku, por exemplo, são
a ação e o gesto, o terceiro é o movimento. Usa muito poucas palavras,
se move muito e, no entanto, não atua.
Cada palhaço tem um canal prioritário, um
secundário, e assim até completar os seis canais.
Dedique-se ao que está fraco em sua comunicação.
Comunicação corporal: o corpo de palhaço
O palhaço trabalha com seu corpo e com alguns poucos materiais
acessórios. Assim, deverá preparar e executar seus números e sua
apresentação desde o ponto de vista da comunicação corporal. Como se
comunica o corpo? O que deve ter em conta o palhaço na hora de pensar
o que fazer com seu corpo? Não falamos de qualquer corpo: falamos de
um corpo de palhaço.
Os cinco órgãos
O palhaço de rua trabalha a partir de quatro órgãos: coração, estômago,
cabeça, e culhões. A esses quatro, soma-se um externo, o bolso, que —
como veremos — é bem parecido com o estômago.
1) Coração. O coração é o órgão ao que se atribui o poder de querer e
amar. Não importa se você tardará dez ou cem anos para conseguir seu
objetivo, se você triunfa ou fracassa. Primeiramente, você tem que
querer. E querer se faz com o coração. É a esse primeiro órgão que você
tem que perguntar se segue ou não. E é uma pergunta que não se faz
todos os dias. O amor é inconsciente. Quando se põe muito consciente,
é quando há outros interesses no meio.
Veja, teu coração te diz do que rir, do que zombar. Porque é ele quem
banca os fracassos. E também é ele o órgão que age contra esse diabo,
esse pensamento malvado, que de toda forma precisamos em cena.
2) Estômago. É um órgão muito primitivo. Se o coração é o querer, o
estômago é a gana. Tenho gana de comer, e até posso ter fome, sentir a
fome. Junto com o medo e o esgotamento, a fome acompanha o homem
desde sua criação. O estômago, então, é também a exigência de fazer
frente a essa fome com nosso trabalho. De alguma maneira trabalhamos
para ele: você pode trabalhar com a cabeça ferrada, com o coração feito
uma bola de futebol, mas se o estômago não funciona, o cu fecha que
não passa nem agulha, e você não consegue sair pra cena.
Este órgão é o visceral e nos vai permitir dizer o que não se pode. O
visceral é uma força que necessitamos, uma força extra que não vem dos
músculos.
Também é o órgão que nos vai permitir digerir os momentos ruins.
A risada tem muito de digestão: para transformar uma tragédia em
comédia é preciso ter o estômago bem forte.
3) Cabeça. A cabeça4 te pode explodir. É o mais perigoso dos três, porque
não te mata: te deixa estúpido. No capítulo sobre o ofício do palhaço
vamos ampliar um pouco mais essasidéias, mas é importante sempre ter
4 Ver: “O palhaço que você é. Oficio, profissão e filosofia”.
presente isto: a consciência, a razão, a cabeça, é uma ferramenta, mas,
como toda ferramenta, devemos saber como usá-la; se não sabemos
como usá-la, se a colocamos em jogo quando não deveriamos, nos deixa
loucos.
4) Culhões. Não há muito a esclarecer a respeito dos culhões. Nas
mulheres falaremos de ovários, mas do que se trata é da coragem: é
preciso ter culhões para se por na praça, para manter-se em cena, para
não fraquejar, para encarar a qualquer um, para enfrentar as coisas mais
loucas ou perigosoas que te podem acontecer na rua.
Há pouco falamos que fome, esgotamento e medo acompanham o
homem desde seus primeiros momentos; a esse medo sempre presente
é preciso opor culhões bem grandes.
Os três olhares
O do palhaço é um olhar triplo. É um olhar ao mesmo tempo físico (que
ordena, que separa e identifica espaços dentro e fora da roda), periférico
(que permanece atento aos movimentos e reações de mais de meio
círculo permanentemente), e intelectual (profundo nos olhos de cada
uma das pessoas do público). De alguma maneira, esse triplo olhar está
condicionado também pelo trabalho na roda, nesse movimento
constante de caminhar para trás sem dar as costas e passeando o olhar.
Esse triplo olhar é o que o palhaço sustenta na roda. Esse é o triplo olhar
do palhaço.
A rua como meio
Todo palhaço ou clou/n tem que ter sua
experiência de rua, meter os pés no barro,
estourar a garganta, sentir-se sem nada que te
contenha, trocar medo por adrenalina e
transformar as risadas em orgulho e moedas.
Depois, a rua se transformará em muitos lugares e
te permitirá transitar por eles com a segurança de
quem dormiu feliz, em uma cama de pedras
O método do xadrez serve para atuar em qualquer espaço, mas é
fundamental para estabelecer uma dinâmica na rua.
O palhaço no qual estamos pensando está muito próximo daqueles que
animam festinhas infantis, com pouca informação e quase nenhum
material. A necessidade de sobreviver está à flor da pele neles. E alguns
são muito bons. Olhem os palhaços de festas infantis. Esses palhaços
trabalham em mil lugares, com samba tocando do lado, para gente que
nem liga pro que fazem, servindo suquinhos, sem informação de nenhum
tipo; se a esse palhaço você dá bom material e uma vestimenta
adequada, o figura destrói, porque é um palhaço que está preparado
para sobreviver a qualquer situação. Para ir animar festas infantis em
Lugano 1 e 2 ou a qualquer bairro de monoblocks é preciso ter culhões
de verdade, atitude e rua.
Marcelo Ferrari diz que os palhaços de rua são como uma tropa de elite,
podemos trabalhar em qualquer parte, num cenário, numa esquina
muito movimentada, em um povoado perdido de um país que você não
conhece.
Uma das vantagens que você encontra na rua é que as pessoas que se
aproximam para ver o espetáculo não esperam nada, então, o pouquinho
que você lhes der já vai ser muita coisa. Ao mesmo tempo, você tem que
saber que o êxito depende de suas pretensões. Se você entende estas
duas coisas, você sempre terá na rua um lugar onde trabalhar, que te vai
dar muitíssimas satisfações.
A honestidade, na rua, não é somente um valor, é também uma atitude.
Quando estamos na roda, não interpretamos um personagem diferente
de quem somos; se atuamos, o que o público vê é um palhaço que se faz
de outra coisa, são os Três Patetas se fazendo de encanadores, de
caçadores em um safari ou de doutores, mas sempre são os Três Patetas.
Sempre está muito claro o que ocorre em cena. Quando o público
percebe a honestidade no que você diz e no que você faz, te permite
seguir, te aceita. É verdade: você é um artista de rua tratando de entreter
e divertir, que está ganhando a vida.
Por isso, na rua ninguém ganha um peso maior do que merece. Porque,
uma vez que as pessoas se colocam desse lado da roda, colocam no
chapéu o que lhes parece justo. Resta ao artista educar o público sobre
quanto é "o justo" de acordo com o espetáculo que acabaram de ver, e
permitir, se eles quiserem, que ponham a mais. De qualquer maneira,
vão fazer o que querem.
O primeiro ponto que você deve ter em conta quando vai fazer uma
apresentação na rua é sobreviver. Para sobreviver, você faz qualquer
coisa e, nesse sentido, é preciso ter uma estratégia; depois você vai
querer ganhar o jogo, mas primeiro tem que sobreviver. Você faz disso
algo cotidiano, mas a rua é um lugar hostil, é um lugar onde não há
segurança de nada, não há filtros para o público que chega.
Em São Bernardo eu trabalhava em uma praça com o Circo Vachi e no
espetáculo anterior ao meu estava o palhaço Rober. Ele trabalhava às
nove. Justo nesse dia, eu cheguei um pouco mais cedo e havia meio
círculo e ele trabalhando. Já de longe notava algo raro, estava fazendo
outras coisas diferentes das que sempre fazia, como se estivesse
esticando a apresentação. Mas ele não podia esticá-la tanto, porque
havia nossas apresentações em seguida; uma situação rara. Olho um
pouco melhor e vejo que, apoiado contra uma árvore, havia um homem
que falava com ele, fazia sinais. Enquanto esse figura falava com ele,
Rober me olha como dizendo "estou em perigo". O homem estava muito
bêbado, apoiado contra a árvore e lhe dizia "quando você terminar, vou
te matar com um tiro", e meio escondido tinha um revolver. Rober não
lhe dirigia a palavra, mas não podia deixar de olhá-lo. Eu me aproximo,
vejo o revolver, e ele me diz "ah, Chacovachi" — se vê que comigo não
havia problema — "este me disse..." não sei o quê. Me afasto e,
obviamente, chamo a polícia. Chega a polícia no meio da apresentação.
Estávamos todos esperando que chegasse. Eu estava atrás do palhaço,
mas teria sido muito bom ver a partir do público o palhaço esticando sua
apresentação, o bêbado com o revólver e o carrinho da polícia chegando
por trás. Parece que o bêbado passava caminhando e Rober lhe disse
algo. Isso acontece. Na minha convocatória eu subo em cima de algo e
começo a dizer qualquer coisa a qualquer pessoa que passe pelo lugar. E
pode te acontecer isso. Então, primeiro tem que pensar em sobreviver.
Nós, palhaços de rua, possuímos TRES
LIBERDADES que nenhum outro artista possui:
-LIBERDADE FÍSICA: trabalhamos onde
queremos-
-LIBERDADE PSÍQUICA: não temos que ser os
melhores, sermos, apenas, basta-
-LIBERDADE ECONÔMICA: vamos ganhar o
dinheiro somente em relação ao nosso próprio
esforço e capacidade.
SOBRE CLOWNS E PALHAÇOS5
Geralmente, os clowns não trabalham de clown, ou, ao menos,
muito poucos vivem de pisar nos palcos. Terminam dando aulas...
de clown. Para ser clown parece que é preciso estudar e fazer
prova. E todo o tempo se questionam o que é que são, se são
atores cômicos ou se lhes falta alcançar algum êxito para
receber o título de clown. Ser palhaço é mais simples (não a
partir de sua concepção, mas a partir de sua ação) e, sobretudo,
mais prático. Os palhaços nascem metade artistas, metade
“buscavidas" (a odisséia do artista de rua). Somente é preciso
ter muita coragem e atitude, convicção ou inconsciência para
bancar o ridículo (de não ser bom) e uma grande necessidade —
com sonho incluso — de fazer rir; entreter; assombrar, delirar
e tudo mais, custe o que custar.
Então... se você pode: sair de tua casa sozinho (ser palhaço é
algo que se faz por conta própria), chegar a uma praça, ou
farmácia (para entregar filipetas), ou a uma festinha infantil ou
à porta de um evento e chamar a atenção das pessoas, criar um
ou mais momentos de risada, entreter, divertir e assombrar,
ainda que seja a partir da intenção ou da inconsciência; e depois
5 Com “clown” nos referimos aos palhaços que vêm do teatro, como tradição,
não como espaçode trabalho. Ver “O palhaço é o por ator do mundo”, no
capítulo seguinte
passar o chapéu, ou ter vendido muitas bexigas, ou que o cara da
farmácia ou do evento ou da festinha infantil te tenha pagado,
juntar tuas coisas e voltar vivo para tua casa, então, ninguém,
mas ninguém poderá dizer que você não é um palhaço. E nesses
espaços, as próprias pessoas te chamarão de PALHAÇO e
ninguém irá se referir a você como personagem ou clown. Depois
você será bom, ruim, famoso, regular, exitoso, desprezado ou
ignorado, mas será um PALHAÇO com algum desses adjetivos.
Nem mais nem menos que o princípio do caminho. B, daí em
diante, se projetar como artista — se é que você conseguirá ser
— é outra história-
Estas diferenças nos fazem diferentes dos palhaços que
trabalham em circos e dos clowns de teatro, nem melhores, nem
piores, nem mais nem menos necessários mas distintos.
¿Que é ser um palhaço-artista?
jVeja no próximo capítulo!
O PALHAÇO QUE VOCÊ É
Ofício, profissão, filosofia
Palhaço de profissão: sobrevivendo com o ofício
Um profissional é quem vive de sua profissão. O palhaço de rua será
palhaço desde o primeiro dia em que comece a trabalhar de palhaço.
Viver disto tem um ponto de partida, um momento inicial no qual, talvez,
o chapéu seja pequeno e ganhe destaque a faceta "buscavidas" sobre a
de artista. Uma vez que fez a experiência — você já é um palhaço — deve-
se adquirir um ofício e, logo, com o tempo, sentir-se e converter-se em
artista...
O aprendizado do ofício é um processo no qual nosso palhaço irá se
transformando, crescendo à medida que encontra materiais, caso
desenvolva destrezas e consiga efetividade nas apresentações.
Como se transformar num palhaço artista?
Primeiro, aprenda o ofício: ENTRETER,
DIVERTIR, ASSOMBRAR. O que existe, o que
fazem os outros. Assim se aprende. Como um
músico que aprende tocando canções de outros.
Mas, depois, para se transformar em ARTISTA (é
uma decisão), você precisa apaixonar-se e tratar
de criar... e para criar você já precisa adicionar
coisas pessoais, e essas coisas são a CRITICA, a
DENÚNCIA e o DELÍRIO. E isso tem que ser
verdadeiro.
Aí unimos duas coisas fundamentais para o riso: a
VERDADE e a PAIXÃO. Depois, e sem ser dono do
que acontece, você vai INSPIRAR outros palhaços
e vai se dissolver neles.
Para um palhaço adquirir um ofício precisa passar, ao menos, por três
etapas. Em um primeiro momento deve aprender a entreter, a divertir e
a assombrar. É o nível básico, essa é a prova de que você é capaz de reter
um grupo com um pretexto qualquer. Tente fazer rir com o que você tem
à mão, uma rotina ou uma loucura improvisada.
Depois tem que ser capaz de delirar, provocar e denunciar. Uma vez que
o público confia em você e fica, ou espera tua apresentação, você tem
que redobrar as apostas, mostrar algo que você conseguiu como palhaço
ou artista de rua. Você atrai o público até teu delírio, até o que você quer
transmitir como denúncia ou crítica. Você os leva. Você os provoca e os
faz sair de si mesmos.
Cada uma dessas aprendizagens se orienta para algo maior: inspirar. A
inspiração é o que se provoca nas pessoas, é a possibilidade de contagiar
com energia, esperança, amor à liberdade, é uma das maiores conquistas
de um palhaço. Se você é capaz de inspirar, é porque pode doar,
devolver, oferecer energia ao público. Não há nada maior que essa
capacidade, porque algo do que você provoca no outro também volta e
te transforma como pessoa e artista; é como uma espécie de sistema
autossustentável.
Para chegar a esse ponto, se requer uma trajetória. Não falamos de
reconhecimento pelo caminho realizado, do direito de ocupar o chão da
praça, algo que se coloca, às vezes, justamente por parte de quem já foi
reconhecido. Trajetória é, aqui, experiência, trânsito: horas de vôo. E um
ponto chave para acumular experiência é aceitar todos os desafios: se
você está se formando, não pode dizer não a nada, tem que acumular
horas de vôo.
A partir do ponto de vista do ofício, o palhaço tem que atravessar essas
três etapas: reter, atrair e doar.
Mas há algo mais: o próprio desse aprendizado está em conseguir duas
habilidades por vez, porque o palhaço de rua, artista e "buscavidas", vai
desenvolver um aprendizado simultâneo como artista e como
"buscavidas". Somente crescendo como artista fará mais abundante seu
chapéu e poderá dizer que é disto que vive. Nesse sentido, o chapéu se
torna de alguma maneira a medida da efetividade como artista, e os
aprendizados se cruzam.
O êxito se dá na medida de nossas pretensões (e isto implica que,
necessariamente, teremos que mantê-las baixas no começo); se minhas
pretensões são entreter e repetir a experiência, eu consigo, tenho êxito.
Deve-se buscar sempre a efetividade na relação com nossas pretensões.
No entanto, um bom chapéu afugentará essas dúvidas e esses fantasmas
dos quais precisamos nos desprender para seguir crescendo. Se em um
fim de semana juntamos a grana para passar até quinta, podemos nos
esquivar, durante esses dias, das vozes que nos falam de trabalhos
"decentes", artistas "consagrados" e toda essa classe de comparações, e
estar novamente no sábado na praça com o ato muito mais polido. E se
ganharmos o suficiente para não ter que voltar no fim de semana
seguinte, voltaremos de todo modo, e nossas pretensões serão então
maiores.
Para aprender este ofício é necessário, basicamente, duas coisas: querer
fazer e tentar. Tentar: ir, ir, ir e seguir indo até que saia; provar, falhar,
mudar e voltar. A única possibilidade de aprender o ofício é fazer a
experiência, a única forma de aperfeiçoá-lo é repetindo.
Artista era minha avó... que fazia um ravióli
bárbaro.
Deve-se evitar ser palhaço nas 24H horas do dia.
Se você se faz palhaço todo-poderoso com o
motorista do ônibus, o mais provável é que te encha
de pancadas. E assim com tudo: que tua namorada
te deixe, que as pessoas pensem que você é um
idiota...
Dentro da roda, o palhaço toma outra dimensão.
Fora da roda, deve-se controlá-lo. Não entender
isso me fudeu a vida por muitos anos.
A consciência mata a arte. Apenas vá e tente.
A razão, a consciência, é uma ferramenta formidável. Mas, deve-se
saber usá-la e, sobretudo, deve-se saber não usá-la, apagá-la, suspendê-
la. Há momentos preciosos no qual a dúvida não pode surgir, em que
você não pode deixá-la surgir. Quando você está na apresentação não
pode se perguntar se as pessoas gostam ou não do que está fazendo. Se
você está trabalhando e há quarenta pessoas olhando e só uma rindo,
essa pessoa é tua apresentação. Você não pode se por a questionar
porque não ri o outro: tem que seguir. Não deve permitir isso enquanto
está trabalhando (ainda que depois seja muito bom que você se pergunte
e possa reformular as rotinas).
No princípio, quando você mal começou a ir pra rua, se passa o mesmo:
não pode começar a se perguntar o que vai pensar a senhora da padaria
que vai te ver na praça vestido assim, ou se está bom ou não fazer uma
piada carregada de crueldade com uma criança. Não: deve se permitir,
tem que sair, mandar-se pra praça e começar.
A relação consciente ou não com seu trabalho marca o desenvolvimento
do palhaço.
No princípio, você é ruim, mas inconsciente. É ruim porque não é
efetivo. Tuas piadas não fazem rir, mas sua graça inconsciente arranca
uma ou outra risada das pessoas. Talvez riam de você, o chapéu é pouco,
mas se você não se pergunta e segue adiante e volta mais um par de
vezes, muito provavelmente entra em um segundo estado: é ruim e
consciente. Você sabe que teu material não funciona, que errou no
vestuário, que as pessoas só riem quando você erra.
Este estado não pode durar muito, porque aí se deve fazer intervir essa
consciência para começar a polir tudo isso de que você vai se dando
conta que está ruim6. Assim, você chega ao estado maisduradouro, em
que você cresce funcionando: você é bom e é consciente disso. Não é
que você saiba tudo, porém, mais do que dos erros, você se torna
consciente dos acertos, e através do polir e não parar de polir, a coisa
toma brilho.
E, em algum momento, você se torna bom e inconsciente, e
praticamente tudo o que faz funciona e, assim que chega a esse ponto,
você pode ser capaz de inspirar.
No entanto, tudo pode voltar ao começo, você pode pirar e cair de novo
em um estado em que nada funciona e não entende o porquê. Pois o
processo não é acumulativo. Mas se trata de destreza, de afinar o ouvido,
medir os tempos, conhecer as reações. Há dois ou três modos pelos quais
uma pessoa pode reagir diante de um determinado estímulo, mas o
palhaço entra na roda sabendo e, ali dentro, deve esquecer disso: o tem
à mão, mas se na apresentação você se põe a pensar em como vai
reagir... está frito. Não há tempo para pegar o papel, para refletir na
mente sobre o esquema de interpretação que nos permitirá mover. Já
estamos nos movendo. Destreza, intuição, mais que acumulação de
esquemas na consciência. Mente em branco, corpo em ato.
Eu digo que o palhaço não pensa, porque se pensa, sofre. Quando você
está trabalhando não está pensando. Sabe como vão se desenrolar as
coisas porque já esteve ali, porque tem uma rotina na qual confia, a qual
pode voltar, mas, na verdade tudo está em aberto. E mais, se aparece
algo imprevisto na cena, você a toma e vai se relacionar com isso. Tem
uma rotina planejada, conhecida, tem uma estrutura, mas, por favor, que
caia algo do céu, porque tudo que aparece joga a teu favor: uma tosse,
uma chamada no telefone, o que for. Quando eu estou fazendo minha
apresentação, fico o tempo todo observando o que se passa, estou
passando texto e ao mesmo tempo olhando por onde posso ir, e não me
dê meia possibilidade, que já me vou por aí. E depois verei como volto.
Minha experiência me fala e diz: "as pessoas vão gostar".
Nada pior do que um palhaço de tênis.
6 Ver a seção “Polindo o diamante” no capítulo “O material que você tem”.
Correr riscos
A primeira coisa que aprendemos, nós palhaços, quando incorporamos
uma destreza, é ter, por sua vez, uma piada para quando a técnica não
sai, e uma piada para a segunda vez que lalhamos, e outra para a terceira
vez. Sabemos que o número pode sair e também pode não sair. O
palhaço usa a destreza para fazer humor, mas, de qualquer forma, em
algum momento você precisa conseguir executá-la bem. O esquema seria
assim: precisa ter uma piada para a primeira falha, uma piada para a
segunda falha, um salva-vidas terrível caso, na terceira vez, não saia, mas
depois tem que sair.
A atitude diante da técnica deveria ser a de mostrar que mais Importante
que o resultado é a valentia de tentar e se por à prova, de mostrar que o
palhaço está jogando. Sem ser um acrobata, faz um número de destreza
física; sem ser músico, toca o trompete; o palhaço assume o risco, o
busca realmente. Isso o torna cada vez mais receptivo às respostas do
público, ao ponto que, quando leva um tempo explorando essa atitude,
de que foda-se se as coisas saem ou não (Método Ricardo Streiff7),
converte qualquer resposta em uma deixa para catalisar a apresentação.
Eu manejo uma técnica extravagante: aprendi a atirar para cima duas
bolinhas de ping pong com a boca. No circo, você vê que atiram três sem
ajuda das mãos e até sete com ajuda das mãos. Ou seja, no circo atirar
bolinhas não é uma grande habilidade, mas para um palhaço é uma
grande habilidade. O público se pergunta: "afinal, que faz esse cara?
Como aprendeu a atirar bolinhas?". As atiro a três ou quatro metros para
cima sem a ajuda das mãos e queria atirá-las bem sempre. Em geral, se
tenho alguma falha é de propósito. Mas eu planto no público que me
aplaudam se sai bem e que me vaiem se sai mal. Na primeira vez, atiro
só uma e sai bem; aplausos, peço que aplaudam mais forte. Na segunda,
atiro uma, duas, três vezes super bem, mas a quarta cai. O público passa
do grande aplauso para a vaia. Aí faço todo um discurso. Anuncio que, na
próxima vez, vou com duas bolinhas. Esse lançamento tem que sair bem.
As atiro uma, duas, três, quatro, cinco vezes para cima, as agarro, as
7 Ricardo Streiff, ator, palhaço, roteirista argentino; baixista da mítica banda de
rock cômico dos ano 90: Triciclosclos. Método Ricardo Streiff: “foda-se o que vai
acontecer, isto eu faço por mim”.
pessoas aplaudem como loucas. Aí triunfei e consegui o crédito para
seguir. Os aplausos são créditos que te permitem começar de novo.
Nessas apresentações, o público tem que aplaudir, porque assim
participa. E quando participa e se diverte te dá permissão para seguir, te
dá créditos.
Pode acontecer que o truque falhe ainda mesmo quando eu quero que
saia bem. Para essa situação tenho duas ou três piadas. Nunca precisei
usá-las, mas vai acontecer. Eu já estou velho, me faltam dentes, não vejo
muito bem. É preciso ver muito bem para fazer este truque. Tenho que
saber como agir se, por fim, não der certo. A atitude que deveria ter cada
vez que faço esse número é que não me importa se perco, porque sou
capaz de transformá-lo em um êxito.
Depois, é preciso ver até onde você arrisca. Há palhaços que não
terminaram de se desenvolver porque não se arriscaram o suficiente.
Estar próximo desse lema é fundamental para manter-se buscando, para
assumir desafios e conhecera si mesmo. Quando quero fazer minha rotina
número vinte e um e não consigo, eu tenho a mesma sensação do palhaço
que não tem nenhuma rotina e recém começa. Mas sei que me arriscar é
o ponto.
O palhaço é o pior ator do mundo
Há três formas de atuar: INTERPRETAR,
REPRESENTAR e SER.
A interpretação é o métier dos atores. Eles
aprendem a interpretar vidas alheias. A
representação é uma forma de atuação menor,
assim atuam as crianças ou nas cerimônias
religiosas. "Ser" é a forma que tem o circo: um
malabarista "é”, um domador "é”, ninguém diria que
há um ator interpretando ou representando. Nós,
palhaços, “somos” e, quando atuamos,
"representamos”, nunca "interpretamos". Não
poderíamos. Somos os piores atores do mundo... não
podemos deixar de sermos nós mesmos.
Uma confusão em que se cai muito é a que confunde palhaço e clown. É
verdade que há muitos tipos de palhaço e que, aqui, estamos falando
deste palhaço, de rua, xamã, provocador, etecetera. Mas a diferença
entre este palhaço e o clown vai muito além de serem diferentes tipos
de palhaço. Tampouco se trata de que sejam melhores ou piores; de fato,
há muitos clowns que são muito bons e que nos fazem gargalhar ou nos
surpreendem como poucas vezes nos surpreenderam. Falamos, na
verdade, de uma diferença de substância, é outra coisa.
Falamos do clown pensando no ator que chega, a partir da atuação, no
clown. O palhaço não é um ator, é o pior ator do mundo. Por outro lado,
se um clown pode chegar a ser tomado como palhaço, não deixará, no
entanto, de ser um ator fazendo-se de palhaço. Há uma vinculação muito
forte entre o clown e a atuação, e é essa, precisamente, a diferença
central com este palhaço. O palhaço não atua como... : é.
Há três modos de apresentar-se frente ao público: interpretar,
representar e ser. A representação é o mais básico desses três modos: é
a arte da imitação, o que para as crianças é atuar. A interpretação é o
trabalho dos atores. Trata-se da arte de compor um personagem, vesti-
lo como quem veste um traje, e atuar como se o ator fosse o
personagem. Busca em seu interior alguma partezinha de si mesmo que
queira sair e compõe um clown que interpreta, então, no cenário: o
caminho do clown está marcado pela consciência, por uma busca
consciente e pessoal, individual.
Ser, por outro lado,é algo muito mais simples. O palhaço não gera uma
personagem que o representa de alguma forma, mas se encarrega de
expor e jogar sua personalidade na roda, exagerando alguns aspectos e
tomando em suas mãos todo o material disponível para seguir jogando.
Essa forma de atuação mais leve libera um pouco o palhaço de buscar um
personagem criativo e original. Porque é a exageração de si mesmo,
afirma sua autenticidade. Não se trata de uma caricatura. A caricatura
unifica os personagens. A exageração os distancia.
Para ser clown você precisa dizer com quem
estudou; para ser palhaço somente precisa
dizer que você é.
Uma arte menor
Liberar-se do peso da Arte com maiuscula permite falhar, correr riscos e
renovar-se, reinventar-se. Quando você se desfaz de certos pré-juízos
vinculados à qualidade do material, ao que se pode e não se pode fazer,
ao que está bem ou está mal visto pelos Artistas e pelos Críticos, tira de
cima de si um peso enorme. E, então, você já pode começar a soltar o
corpo e imaginar-se jogando, sem esse peso já se pode dar o jogo.
Nada pode te acontecer exagerando tua personalidade. Não pode
acontecer nada em cima do cenário; salvo fracassar. O palhaço se
prepara para que isso não aconteça, mas é parte do jogo. Não se deve
ter medo de fracassar porque isso dá a energia suficiente para não
fracassar. Você não pode lutar com um cara que não tem medo de
morrer. Se você vai lutar com uma cara que pára, saca uma faca, se corta
três vezes no braço e te diz "venha!", saia correndo. Esse tipo não tem
medo de morrer, você sim. Se você sai pra cena, sem subestimar as
pessoas, mas convencido interiormente que não tem medo de fracassar,
isso sente o público. E o público não pode lutar com alguém que não tem
medo de fracassar. Te dá um plus de permissão. O público pode te dar
permissão ou não, e você pode tomá-la ou não. Se você tomar a
permissão para fazer as coisas que quer fazer, tudo sai mais fluído. O
palhaço, na cena, tem uma autoridade, o público lhe dá uma autoridade,
e ele deve usá-la. A não ser que o público lhe faça uma revolução e o
destitua, mas isso geralmente não ocorre.
O palhaço é como um ser primitivo. Distingue-se dos atores e dos clowns
por seu produto e por sua procedência e, principalmente, porque seu
ofício como "buscavidas" faz de sua máxima preocupação — sustentar-
se na cena tentando fazer rir — a premissa que se antepõe à criação de
qualquer personagem ou representação.
Isto de ser palhaço é uma ARTE MENOR. Estou
seguro de que é assim. E não quero ferir
sentimentos, que sei que existem. Porque há os
que se acham muito. Deve-se crer nela na cena,
onde você não deve crer nela é na vida — o
efeito é inversamente proporcional.
O MATERIAL QUE VOCÊ TEM
Piadas, rotinas e dramaturgias
Uma coisa é o artista e outra o material com o
qual joga: a criação (própria) ou seleção (alheia)
do material traz muitos enfrentamentos entre
a criatividade e o orgulho.
A criação é própria e a seleção (de material já
existente) é obviamente de outro.
O palhaço é um ser único, livre, exagerado ("um ser livre, exagerado e
com o objetivo de fazer rir"). E parte de seu trabalho consiste em
construir por si mesmo as oportunidades e os materiais que lhe
permitam estar em cena e expressar-se, potencializar suas habilidades
para sentir, para reconhecer e apreciar a liberdade. Tem que ganhar
essas aptidões, ganhá-las à força ao sair e experimentar o mundo. Provar
o sentimento de estar em uma roda com pessoas desconhecidas,
entretê-las e levá-las a distintas emoções. Nesta parte do Manual,
oferecemos uma série de técnicas e conselhos que não são únicos, mas
surgem do trabalho que venho realizando em distintos lugares do
mundo, convocando o público para uma reunião popular primitiva e
sempre atual: uma apresentação de palhaço de rua.
Piadas
Os peões de nosso jogo de xadrez são as piadas e as gags. Nas piadas,
falamos; a gag é, fundamentalmente, física, gestual. A fórmula básica da
piada é: a + E + fator surpresa. É uma construção em que "a" consiste em
uma linha de texto, se faz uma pergunta ou se apresenta uma cena. Logo
se dá uma resposta, se espera uma resposta do público ou se continua a
série. O terceiro elemento, fim desta construção, é o fator surpresa: algo
inesperado, disparatado, contrário ao sentido comum.
Fórmula básica da piada: A + B + Fator Surpresa
A — “Pequeno, você gosta de viver neste mundo?”
B — “Sim”
Fator Surpresa — “Bom... já passa..."
As piadas têm um ritmo e um remate: construímos, construímos,
construímos e arrematamos. O remate tem um tempo exato. É
necessário muito domínio para respeitar o ritmo e o tempo preciso do
remate. Quando você arremata, não duvide, não pense, e muitas vezes
seja cruel. Se não se diz as piadas com a emoção necessária e no
momento certo, não funcionam. As piadas têm que funcionar para que
apareça a risada. A risada do público relaxa e permite assimilar o que foi
dito, permite assimilar a piada inteira e o que está por trás dela. E por
trás de cada piada há uma tragédia. A única intenção que deve
predominar nas piadas, nas centenas de piadas e gags que fazemos em
uma apresentação, é a de chegar à risada, a de abrir essa emoção que
libera angústias e renova energias.
Há piadas ruins que você usa para que as pessoas baixem a guarda e, em
seguida, mande outra.
Quanto MENOS você ri, MAIS ri o
público.NUNCA, nunca, nunca ria de suas
próprias piadas
Há as piadas orgânicas, que são as que causam graça especificamente
em uma apresentação, não são uma bomba quando escritas, mas só ali,
quanto as atira no momento certo. A piada salva-vidas, para solucionar
um imprevisto, como uma criança que acaba de cair e começa a chorar.
Necessito de uma pessoa que me ajude a fazer
o próximo número!
-Eu!
-... eu disse uma pessoa...
Vou lhes presentear com uma piada salva-vidas que
vai te ajudar a levantar muitíssimas apresentações.
Uma criança cai na roda:
Palhaço (para o menino): Pequeno, você está bem? —
em seguida olha para o público.
Palhaço (para o público): já se deram conta de que
quando as crianças caem não se lastimam muito?
(espere que o público pense e possa imaginar)
Sabem por quê? Porque os pequenos têm um anjinho
da guarda que os protege e quando caem se colocam
embaixo (fazer o gesto e a ação de um anjinho
colocando-se embaixo do menino) para que não se
lastimem.
(espere que o público possa imaginar)
Palhaço (para o pequeno): Garoto, você está bem?
Garoto: Sim...
Palhaço: Ah, que bom... porque o anjinho está feito
merda!
Rotinas
Para criar uma rotina...
Primeiro é preciso ter uma idéia
Depois produzir o necessário para preencher essa idéia
Depois aprender a técnica que essa rotina necessita
Depois treiná-la
Depois montar o número completo
Depois ensaiá-lo
Depois mostrá-lo a qualquer um que queira vê-lo enquanto vai
polindo
Logo poderá estrear formalmente para que nasça
Depois precisa fazê-la 50 vezes mais...
E então, aí, “a terá“, para desfrutá-la por toda a vida.
O palhaço não trabalha com um script, tampouco é pura Improvisação.
Em algum lugar intermediário entre esses dois polos, está a parte mais
importante de seu material: as rotinas. Os números ou rotinas são
fragmentos de uma apresentação que têm um começo, um
desenvolvimento do que se propõe no começo e um final. Dura o
quanto quiser o artista, ainda que, geralmente, levem de cinco a vinte
minutos cada uma. Por apresentação podemos fazer várias rotinas ou
somente uma, de acordo com sua duração.
Uma rotina pode consistir de um número participativo, um número de
início, uma proeza, um sketch em que saio a cantar, etc. O conteúdo de
uma rotina pode ser quase qualquer coisa e cada parte de uma
apresentação pode ser trabalhada de maneira que receba uma rotina.
Por exemplo, eu posso ter uma rotina para convocar opúblico e outra
para passar o chapéu, como vamos ver mais adiante, no capítulo da
dramaturgia da atuação de rua.
O nascimento das rotinas
Nós, palhaços, vamos à cena com um pretexto: para jogar malabares com
três bolinhas, para anunciar um truque de magia, ou para realizar uma
prova física. Quando você está começando, pode sair quase com
qualquer recurso, porque de todas as maneiras o importante é conseguir
esse pretexto que te leva a estar no meio do círculo. Uma rotina nasce
desta pergunta: saio para fazer o quê? Pode-se ter centenas de rotinas,
centenas de pretextos para estar em cena, mas o certo é que depois de
ter trabalhado 30 anos, você não inventa números novos todas as
semanas. Dentro das rotinas que se maneja, um palhaço pode ter
algumas feitas há vários anos. Esses números praticamente não falham,
porque de tanto repeti-los, já foram polidos de maneira tal que o público
já as pode ler perfeitamente.
As rotinas nascem junto com a necessidade de armar o roteiro do que
você vai fazer em cena. Quase todas as piadas e expressões cômicas que
funcionam na vida cotidiana também funcionam com o público. Por isso
uma fonte de recursos prolífica é tua própria vida fora de cena, a vida
cotidiana. Há idéias de rotinas que nascem em um churrasco com amigos
ou no supermercado. Se, na sobremesa de domingo, um tio conta uma
piada e todos riem, seguramente, algo dessa piada vai funcionar também
diante do público. Essa piada apareceu desinteressadamente, pelo
prazer de fazer rir. Se causa graça no clube ou em uma mesa de bar, o
mais provável é que também funcione na cena, onde se está esperando
a piada ou a gag.
Chaplin dizia que as piadas são vinte e sete. Há obras de teatro que se
vêm repetindo há milhares de anos. Ou seja, ainda antes que alguém se
decida a trabalhar, já existe um repertório universal do qual todo mundo
tira as piadas, argumentos e Idéias. Algumas rotinas já são universais,
você as encontra em diferentes regiões do mundo e, mesmo que
pareçam muito similares, sempre são diferentes, porque quando uma
rotina funciona para você é porque você a adaptou, a converteu segundo
sua personalidade ou de acordo com o tipo de palhaço que você é, e
então essa rotina clássica se converte em única.
Seja buscando nos repertórios populares e anônimos ou em nossa vida
cotidiana, uma vez que apareça uma idéia cômica, deve-se trabalhá-la.
"Deve-se polir a rotina como a um diamante", diz um personagem de
Mortos de rir (Muertos cie risa), o filme de Alex de Ia Iglesia. O trabalho
sobre as lotinas não tem fim, mas, se tivesse, estaria no ponto em que as
incorporamos até conhecê-las como o caminho de volta para casa, e
podemos nos permitir esquecer a parte técnica.
O fundamental da atuação do palhaço é encarar cada rotina como se
fosse nova, com a mesma inconsciência, com a mesma tensão e emoção
da primeira vez. Se conseguirmos nos aproximar desse sentimento de
perigo ao executar números que já conhecemos, vamos obter rotinas
eternas, diferentes com cada troca de público. O palhaço é comunicação
e em sua apresentação assume riscos e mostra seu ser exagerado, livre,
diante de pessoas que não conhece, pessoas de todo tipo como as que
andam pela rua e param para ver um espetáculo. As rotinas podem ser
as mesmas, mas a apresentação é sempre única e irrepetível, porque as
pessoas com quem você se comunica são distintas e porque você mesmo
varia a maneira de fazer as coisas, assumindo a liberdade de decidir em
que sentido fará a próxima piada.
O segredo das rotinas não está, como poderia se supor, em ser original o
tempo todo. Está em conseguir que o público sinta que faz parte de algo
único quando a repetimos.
Por último, sabemos que uma rotina funciona quando se pode roubá-la.
Se outra pessoa pega sua rotina e faz com isso outra versão, própria,
significa que a rotina foi lida e bem compreendida por outros, despertou
emoções e inspirou em outros artistas algo que eles também desejaram
comunicar. Quando uma rotina pode ser roubada é porque já tem vida
própria, existe realmente e já começa a ser parte desse repertório
anônimo e da rua.
Códigos no roubo
No começo, você faz quase qualquer coisa para provocar riso e entreter,
inclusive tomar emprestado recursos que vemos em outros artistas. Pra
isso existem os recursos clássicos, as piadas clássicas que, desde antes
que alguém a tome, já pertenciam a iodos, e também os materiais de
outros companheiros de rua. Você pode se sentir muito irritado se um
dia vir outro palhaço fazendo piadas e rotinas que você inventou,
trabalhando com fosse material na mesma praça em que você vai
trabalhar uma hora mais tarde. Ou no mesmo festival. Depois nos damos
conta que o roubo ocorre todo o tempo no circuito de rua, em parte
porque é uma das condições que favorece o surgimento de novos
artistas. Em algum momento, você aceita essa condição até pode ficar
cheio de orgulho ao saber de artistas em outros países, em outros
continentes, que usam uma piada que você inventou. Como disse
Atahualpa Yupanqui, o destino dos artistas populares é converter-se em
anônimo.
Sexto mandamento: “Nunca usarás material de
outro palhaço que trabalhe no mesmo lugar, na
mesma praça ou na mesma cidade”.
O lugar da improvisação
O palhaço de rua entende a improvisação de uma forma diferente do ator
ou do clown de teatro. Quando um artista leva adiante uma história ou
um argumento pronto, pode fugir do script, seguir por alguma linha
imprevista ou fazer variações sobre um ponto. Essa é uma forma de
compreender a improvisação. Mas o palhaço não representa uma
história, o palhaço é ela, livre e exagerado. Se está improvisando é
porque decide o que fazer, e usa coisas que já conhece. Pode ter um dia
em que você é mais tolerante ou mais cruel na apresentação, mas você
está decidindo o que fazer a partir dessa permissão que temos, como
palhaços, de nos expressar livremente.
Você não é malabarista, mas pode fazer malabares; não é músico, mas
certamente toca algum instrumento; não é acrobata, mas faz provas de
destreza. O palhaço joga para falhar, para que os truques não funcionem.
Mas como, tampouco é ator, cada número se faz verdadeiramente; não
há especulação. No meio do número não se pensa. A apresentação
continua de acordo com o resultado de cada número de um modo
imprevisto. O que você já precisa saber é como sair em cada caso, seja o
truque exitoso ou um truque que falhou. Então o palhaço não se põe a
improvisar. O palhaço vai decidindo a cada passo para onde leva sua
apresentação de acordo com o resultado de seus truques e da
comunicação com o público. A improvisação não tem lugar preciso para
o palhaço de rua, mas é o tom geral de suas apresentações, únicas e
irrepetíveis, ainda que ponha em cena rotinas velhas como seus sapatos.
O palhaço é comunicação, e a comunicação não se pode prever de
antemão. Ninguém te assegura como vai se comportar o público na
próxima apresentação. Será a maioria adultos?
Virão muitas crianças? Teremos um bêbado aplaudindo entre as
pessoas?
Por isso, para o palhaço de rua, a única improvisação que serve é a que
se pode repetir. Pode soar contraditório, mas esse é o segredo.
Encontrar rotinas de dois minutos ou de quinze, não importa, o
importante é que quando a coloca em cena, funciona. E, em certo
sentido, isso se deve ao fato de que toda rotina termina de ser construída
com a participação do público que a recebe (sobretudo nas primeiras
apresentações).
Pode ser maravilhoso que no meio de um número que é um fracasso
improvisemos algo que nos levante na apresentação. Mas se não
podemos tornar esse arrebatamento de lucidez ou de criatividade e
repeti-lo, reiterá-lo e melhorá-lo, torná-lo parte de nosso material, ficará
perdido nesse momento passageiro.
A rotina é uma estrutura que te permite voar, te dá um chão firme para
saltar.É uma restrição que te dá liberdade. As rotinas, como a fala que
dizemos nelas, devem estar incorporadas em nós como o caminho de
volta para casa, para abandoná-lo e retomá-lo sem que isso requisite
nosso pensamento. Acima de tudo, na rua, continuamente aparecem
oportunidades para fazer piadas, para convertê-las em material da
apresentação e mudar o rumo do que se vinha fazendo. Quanto mais
incorporada se tenha a estrutura de uma rotina, mais sensível e receptivo
você se encontra para converter o imprevisto em uma oportunidade de
êxito, em um trampolim para voar. Isso é a improvisação para o palhaço,
ser capaz de fazer com as mesmas rotinas de sempre, funções
irrepetíveis.
Uma vez disseram a Tortell Poltrona8: "Tortell você é genial, te vi mil
vezes, conheço teu espetáculo de memória". E Tortell disse: "que bom,
me diga como é, porque eu, no entanto, não o conheço".
A única improvisação que serve ao palhaço (e que
não se ofenda nenhum bom improvisador) é a que
se pode repetir.
Esse é o segredo, o de criar algo que funcione
sempre, que te permita se apresentar em
qualquer lugar deste planeta e funcione (bom,
pode ser que alguma vez não funcione).
Podem ser rotinas clássicas, participativas,
virtuosas, inovadoras, mudas, faladas ou
musicais, de dois minutos ou de quinze; não
8 Tortell Poltrona é um dos pioneiros da renovação do palhaço na Europa e um
grande amigo, sua energia contagia a quem o rodeia e sua arte em cima do
cenário inspira a viver. Através do “Palhaços Sem Fronteiras”, organização que
fundou e preside, apresentou-se diante de crianças do mundo todo,
especialmente em situações de vulnerabilidade social. Seu compromisso com
seu pensamento o transforma em um de meus ídolos dentro e fora de cena.
importa, o que importa é que voei a repete e
funciona.
Arte, técnica e criatividade
Nós, palhaços, aprendemos muitos recursos que vêm do circo, como os
malabares e as provas físicas. Realizamos destrezas, tocamos
instrumentos, dançamos, mas é muito difícil que um palhaço aprenda
bem uma disciplina e seja um virtuoso de verdade. Os segredos que
sabemos e as destrezas que desenvolvemos são parte fundamental de
nosso material. Por isso, temos que potencializar o que sabemos fazer,
os pontos fortes dos recursos que manejamos e de nossa personalidade
para aproveitá-los em função de nosso propósito.
Todos os números têm uma parte artística, técnica e de criatividade. Se
trabalharmos nossas rotinas nesses três aspectos, vamos nos assegurar
que o público as compreenderá perfeitamente. Devemos buscar, então,
em tudo que fazemos: o que há de artístico, o que possui de criatividade
e de técnica.
As habilidades, as provas de destreza, são predominantemente técnicas.
A parada de mãos, o flic-flac, caminhar pela corda bamba, tocar um
instrumento musical, os jogos de magia, cada um desses recursos têm
um modo mais ou menos estabelecido que é preciso aprender e praticar
para que funcione. Se temos uma habilidade, ainda que a execução
técnica não seja perfeita, podemos explorá-la artisticamente e
transformá-la em uma rotina. Ainda que haja técnicas menos visíveis que
também se deva aprender e trabalhar.
O aspecto artístico diz respeito a como usamos essa habilidade, com
nossa maneira particular de apresentá-la, a eleição da música e do
vestuário, etc, porque, de acordo com o modo pelo qual a levamos a
cabo, conseguiremos um efeito ou outro. Para isso, posso me perguntar
o que busco com essa rotina, qual é o melhor modo de fazê-la?
Todas as rotinas possuem uma parte técnica ou de destreza,
outra artística, de acordo com sua aplicação em cena, e outra de
originalidade, em relação aos números similares de outros
artistas. Como exercício, busque uma rotina, própria ou alheia, e
se fixe em como está em cada um destes aspectos. Pontue:
Aspecto Técnico: 7
Aspecto Artístico: 5
Aspecto de Originalidade: 0!
SEGUIR POLINDO...
Uma vez que estudamos o aspecto técnico do que fazemos — por
exemplo, de uma apresentação de marionetes — e que encontramos o
modo adequado para levar a cabo — fazer um sketch cômico podemos
pensar na originalidade, na criatividade da rotina.
Eu faço um número em que saio de evangelista, com uma bexiga e uma
agulha. São elementos de um jogo de magia que vinha de Fu-Manchú,
mas esse pretexto me permite desenvolver uma rotina. A forma é a
seguinte: é um número em que saio a perguntar às pessoas uma coisa,
faço que me digam que fazer tal coisa é impossível, eu busco convencê-
las de que sim, é possível, as convenço, as faço cantar uma canção para
festejar isso e, quando as tenho bem convencidas, demonstro que não se
pode; então as faço dizer que não se pode, e quando me dizem que não,
demonstro que sim, é possível. Essa rotina dura cerca de vinte minutos,
e a verdade é que só trabalho ( om uma bexiga e uma agulha, e o truque,
a técnica de passar a agulha, faço apenas uma vez.
O truque de atirar as duas bolinhas de pingue-pongue para cima com a
boca, dura oito, dez segundos. Mas deve-se buscar uma forma de
apresentar as habilidades, porque você pode ser um palhaço com umas
habilidades incríveis, mas se as apresenta rapidamente e as gasta em
meio minuto, que fará com o resto do tempo? Se você tem uma
habilidade, deve tirar dela o melhor proveito. Sobretudo quando se trata
de uma técnica, de uma habilidade. Os palhaços são um pouco de tudo,
mas não fazem bem quase nada. Ou seja, aprendemos quase tudo,
malabares, tocamos instrumentos, dançamos, mas é muito difícil que um
palhaço aprenda bem uma disciplina e seja um virtuoso de verdade. Por
isso deve-se pensar o que mostramos e como mostramos, devemos ter
em conta o que há de artístico, de criativo e de técnico no que fazemos,
qual a forma de mostrá-lo que melhor comunica o que queremos. E se
não há técnica, que ao menos haja criatividade.
Não há pior palhaço que aquele que quer agradar.
Polindo o diamante: análise e escritura
Dissemos, mais acima, que polir as rotinas é polir o palhaço, mas
entendamos, antes de tudo, que há muitas maneiras de polir. Uma
dessas maneiras poderia ser a prática constante. Realmente, quando se
trata de polir uma técnica, não há outra forma: deve-se praticar e praticar
e seguir praticando até atingir o brilho desejado. Em parte, com nosso
palhaço e com nossas rotinas se passa o mesmo. Como dissemos, trata-
se de ir, ir, ir até que saia. Provar no cotidiano, com público amigo, com
crianças pequenas. Ver o que sai mal e corrigir, tomar nota do que
funciona. Mas para isto é preciso ter à mão algumas ferramentas além
das que falamos há pouco, e que seria um engano deixar de lado na hora
de buscar o brilho.
Para conseguir que uma ideia, clássica ou delirante, tomada de outros
artistas ou original, converta-se em uma rotina e que logo essa rotina
funcione perfeitamente na cena, deveríamos estudá-la por partes desde
os distintos pontos de vista e em relação com a estrutura da atuação de
rua.
Uma mesma rotina pode ser polida nos diferentes pontos de vistas que
fomos mencionando.
Por um lado, devemos estar atentos aos diferentes canais de
comunicação que o palhaço possui com o público, um primeiro ponto de
vista tem relação com a dimensão comunicacional.
Também podemos tomar a distinção que acabamos de fazer entre
componentes artísticos, técnicos e criativos.
E, finalmente, o mais importante, temos algo como um ponto de vista
emocional: o que estamos tentando provocar no outro? Quais são as
diferentes reações que o público pode ter frente a isto que nós estamos
planejando? Como pensamos aproveitar essas reações para ganhar o
jogo?
Sobre cada rotina que queiramos trabalhar, polir, fazer funcionar ou
melhorar, podemos tomar o trabalho de escrevê-la e dividi-la nos
diferentes momentos que a compõem. Isto implica também identificarcada ação, cada gesto, cada movimento, e cada fala que colocamos em
jogo. Este primeiro passo no trabalho com os números vai nos servir para
limpar a cena, para retirar dali tudo o que está sobrando.
Em um segundo momento, com a rotina já escrita e já dividida, podemos
começar a aplicar os três pontos de vista que mencionávamos:
comunicacional (com a ferramenta que trabalhamos na seção
"Comunicação corporal e corpo de palhaço, do Capítulo 1); analítico
(reconhecendo componentes artísticos, técnicos e criativos); e
emocional (para cada ação, buscar responder o que quero provocar com
isso, até onde posso guiar essa reação).
Entenda-se o seguinte: não cremos que estes sejam os únicos pontos de
vista a partir dos quais se pode analisar uma rotina para trabalhá-la e a
polir, tampouco pensamos que seja garantia de êxito ir a fundo com um
deles. Como dissemos, trata-se de poder trabalhar as rotinas, mas, ainda
mais, trata-se de praticá-las e de trabalhar e praticar toda uma série de
habilidades que o palhaço desenvolve na roda e que extrapolam as
rotinas. Do que se trata aqui é de por à disposição algumas ferramentas
que sirvam na hora de trabalhar nossos números e é sobre eles que
devemos voltar e praticar e saber medir quando funcionam e quando
não.
Número participativo
O número participativo é o de vaudeville, o varietté, é Tony Clifton9. Se
tomamos uma definição simples do que é um número participativo (uma
rotina em que participa o público) nos daremos conta, em seguida, de
que o palhaço de rua está permanentemente fazendo números
participativos: o público voluntário é um dos materiais fundamentais de
todo espetáculo de rua.
Isso tem relação com uma característica deste tipo de espetáculo, a qual
já aludimos, que é certa austeridade de materiais. O palhaço de rua conta
com aquilo que possa meter na sua mala e com o que encontra na rua.
Um componente fundamental de suas apresentações será, então, o
público. Assim como usa o público para construir o espaço onde se
9 Tony Clifton é um personagem criado pelo comediante Andy Kaufman, quem
o personificou nos anos 70, ainda que logo o personificassem outros atores e
comediantes. (Wikipédia)
desenvolverá a função, o palhaço de rua necessita do público para
apoiar-se nele e gerar com ele as situações das quais brotará a risada. É
com o público que tem em cada apresentação, diante desse público e
com esse público, que o palhaço de rua responde à pergunta que o
persegue por toda sua vida: como podemos provocar com o que temos?
Em cada público, em cada apresentação, o palhaço vai encontrando
indícios de por onde pode se meter a provocar.
Neste tipo de número se joga o que a princípio definimos como parte
fundamental da estratégia do xadrez: o palhaço vai medindo reações,
pesando sensações, lendo emoções e vai tecendo, a partir dali, sua
apresentação. Deve-se escutar o público. Há muitos artistas que seguem
adiante sem escutar o público e isso lhes custa caríssimo. No número
participativo, atualiza-se ao máximo isso de que as pessoas reagem de
duas ou três maneiras, e a arte do palhaço de rua é sobre antecipar-se a
essas lições e trabalhá-las a seu favor. Dependendo de como reage a
pessoa, o número vai se armando de uma forma ou de outra. Os
participativos são assim: alguém pode te romper o esperado, mas
literalmente você julga ter feito esse número milhares de vezes e que se
você dá tal estímulo essa pessoa, muito provavelmente, responde de um
modo já conhecido.
Classificação
Há vários tipos de números participativos. Em primeira Instância, deve-
se distinguir os números participativos corais, aqueles no qual participa
todo o público. Também podemos dar uma atenção à parte para os
números combinados, aqueles um que se trabalha com uma ou várias
pessoas que já sabem como é o número e têm indicações expressas de
como devem atuar que os pautam previamente. E também podemos ter
à mão uma maneira muito útil de classificá-los com critérios de
atividade/passividade do público (isto é, níveis ou graus de
participação). Vamos dividir essa perspectiva em dois critérios: por um
lado, se a ou as pessoas participantes entram na roda (ativo) ou
participam de seu lugar (passivo); ou se as pessoas envolvidas podem
tomar decisão sobre suas ações (ativo) ou estão completamente à mercê
do palhaço (passivo). Temos, portanto, a seguinte classificação:
— O ativo-ativo é quando o palhaço chama uma pessoa do público que
passa para a roda e tem que fazer algo por uma decisão dela mesma. De
acordo com o que ela faz é que se termina de armar o número.
— O ativo-passivo é quando o palhaço chama alguém do público e essa
pessoa não pode fazer nada. Por exemplo, o número clássico dos
malabaristas que põe um voluntário com um cigarro na boca e fazem
passing (a técnica de troca de claves em diferentes formas e tempos) para
lhe tirar o cigarro com as claves. Esse tipo é passivo, não pode fazer nada.
Tudo depende dos malabaristas.
— O passivo-ativo é quando o palhaço fala com uma pessoa do público,
fala diretamente com ela, e essa pessoa responde de seu lugar. "Senhora,
por favor, pode fechar os olhos, esticar o braço e por a mão como uma
tigela para cima? Bom, segura o casaco?". É passivo, porque a pessoa não
entra na roda, mas, ativo, porque lhe peço que faça algo. O clássico dos
passivos-ativos é dividir a platéia, a metade faz uma coisa, a outra
metade faz outra, e fazê-los cantar: todo mundo está participando de seu
lugar. Isto seria, por sua vez, um número coral, porque participam todos.
— O passivo-passivo é o público normal, que não faz nada. E que de
alguma maneira não pode ser teu público, porque esse público, com a
primeira brisa que passa, voa.
Estrutura dramatúrgica
Como estávamos assinalando com respeito às dramaturgias, trata-se de
estabelecer uma estrutura que nos permita trabalhar os números: armá-
los, poli-los, melhorá-los. Podemos trabalhar individualmente cada um
dos oito momentos que apresentamos a seguir, de acordo com os
critérios que apresentamos na seção "Polindo o diamante".
1. Criação de expectativa sobre a possibilidade de ser escolhido.
Primeiro, você precisa criar uma expectativa sobre a possibilidade de ser
escolhido. Se você disser "Preciso de um voluntário!", já vai gerar em
todos inquietude: "serei eu?". Estamos jogando, agora, para que uma
pessoa do público, que não sabia que iria dar um passo adiante, dê um
passo adiante, se exponha diante das pessoas, sendo bem ou mal tratada
pelas risadas, que é uma situação muito particular e pode ser dramática.
Saibamos que as pessoas não estão acostumadas a uma exposição desse
tipo. Nós passamos por isso todo o tempo e até estamos manejando isso.
É muito particular essa situação, e se você maneja bem essa tensão, ela
vai se transformar em risada. Sempre é assim se você a maneja bem.
Então, primeiro, deve-se criar expectativa.
2. Encontrar uma forma criativa de chamar essa pessoa do público.
Como convocar essa pessoa? Há três ou quatro formas básicas, mas,
além disso, há a criatividade que você pode exercer e se, mesmo assim,
não existir: encontre um jeito! A mais comum de todas é: "Senhor, por
favor, venha para o centro.". Outra, mais elaborada: em um momento
você tira o casaco e diz para uma pessoa que o segure, e chegado o
momento, você diz: "Por favor, me traz o casaco!". Há muitas formas de
convocar e em cada número participativo a forma de convocar pode ser
feita de maneira criativa.
3. A apresentação dessa pessoa do público para a roda. É algo muito
natural e que deve se fazer sempre. Isto ocorre em quase todos os
espetáculos de rua: convoca-se uma pessoa e pede-se para que ela se
apresente, peça aplausos das pessoas e assim se afrouxa um pouco a
tensão e, ao mesmo tempo, a pessoa convocada se sente mais
comprometidacom o que está fazendo e legalizamos a situação.
4. Explicação. Como você explica a essa pessoa o que você quer dela?
Neste ponto, você tem que transmitir claramente a essa pessoa o que
deseja que faça, o motivo de você a ter convocado. Aqui, deve ser claro,
mas, além disso, devemos ter em mão todas as artimanhas para que essa
pessoa aja como você precisa, para que, depois, você possa se adiantar
às suas ações para gerar a risada ou a surpresa.
5. O ensaio. Com o ensaio se prova se entendeu.
6. Aproximação da tragédia. Nos aproximamos do número que parece
que nunca chega: parece que tudo vai cair, que tudo vai fracassar. A idéia
é que não fracasse, mas se ocorrer, devemos transformá-lo em êxito.
7. O êxito e o festejo do êxito. Como festejo? Cada vez que perguntamos
"como" estamos pondo em jogo o que dissemos antes sobre a
criatividade. Isto define uma exigência: encontrar a forma.
8. Despedida. A despedida do voluntário é outro momento dramatúrgico
que nós podemos trabalhar individualmente. Como me despedir dela?
Exemplos
Um dos melhores números participativos que eu vi é o seguinte. Há um
palhaço norte-americano que se chama Fred, o sujo, Dirty Fred, um
estadunidense que vive na Holanda, eu o vi em uma rua perdida de
Amsterdam. Minha primeira imagem do tipo foi uma cena na qual ele
estava apertando um grãozinho de granito no abdômen e um moleque
de uns dez anos segurando para ele um espelhinho a centímetros do grão,
a ponto de fazê-lo estalar contra o espelho. Mas o melhor número
participativo que vi dele essa noite, e que nunca mais me esqueci, e quinze
anos depois me inspirou a fazer um número (o das garrafas e dos gestos),
é um no qual ele chama seis pessoas do público, ele está vestido de
militar, com boina, botas e tudo, e dá aos participantes uns coletes, põe
neles uns capacetes, os faz desfilar, grita com eles, faz toda uma paródia
dos recrutas. Em um momento, dá a cada um deles uma garrafa e um
pau. Os coloca em fila e se posiciona atrás deles, parado sobre uma mesa,
e dali lhes ensina a tocar as garrafas. Toca o capacete de um e esse toca
a garrafa com o pau, e soa um tom puro; logo a outro, e soa outro tom
puro, e assim com cada um dos seis. O palhaço, parado atrás e por cima,
vestido de militar, começa a tocar os capacetes e soa o hino da alegria.
E, então, joga os dois paus para trás e saca dois revólveres de umas
cartucheiras que tem prontas e começa a disparar nos capacetes dos
voluntários, que reagem ao tiro, mas seguem tocando o hino da alegria.
Um tipo atirando na cabeça das pessoas e abaixo soando o hino da
alegria! Maravilhoso.
Há um excelente palhaço de Rosário, Salvador Trapani, que dá a cada
pessoa do público um canudo cortado de tal maneira que, quando o toca,
soa como um instrumento musical e, em um momento, todo o público
está tocando. Eu o vi no Brasil e éramos quatrocentos, são quatrocentos
canudos; ele ensina como assoprar e como segurá-lo, e é um número
coral que é passivo, porque ninguém entra, mas é ativíssimo porque todos
estão fazendo música.
Há números participativos preparados em que uma ou várias pessoas do
público sabem que em certo momento vão participar. São números
combinados que surpreendem igualmente a quem não conhece esse
acordo prévio. Leo Bassi é um mestre nesse tema. Leo Bassi é um palhaço
italiano que eu admiro muito, vem de uma família de gente do circo, é um
provocador em tudo que faz, um louco e um gênio. Grandalhão como é,
se veste com um traje inglês porque diz que, caso ele se vista como
palhaço, as pessoas vão ter menos medo. Ele tem um número em que sai
de cena e começa a relatar que está cansado das pessoas que se vestem
com roupa de marca, com inscrições totalmente alheias para a pessoa
que veste. Depois de vociferar contra o consumismo, diz despreocupado:
"Alguém sabe o quer dizer Adidas?" E continua: Adolfo Didasi!
Um colaboracionista italiano, um nazi que ajudou a matar seis milhões
de pessoas! Por isso é melhor que não encontre ninguém que tenha um
Adidas! Então começa a percorrer a saia, enquanto caminha entre o
público com uma tesoura enorme, até que ali encontra uma pessoa
aterrorizada, querendo esconder sua camiseta Adidas. Quando o
encontra, sentado entre o público, corta sua camiseta. "Antes você tinha
um Adidas", diz, "agora você tem um Leo Bassi". O número está
combinado. Mas, isso, sei eu e depois de dez anos de seguir vendo.
Trabalha com pessoas que podem ser atores ou não. Imagino que os vê
cinco minutos antes e faz um acordo com eles; não lhes diz realmente o
que vai ocorrer, exatamente, assim consegue uma resposta real da
pessoa, ainda que seja um colaborador.
Tortell Poltrona, em um de seus espetáculos, a cada criança que entra no
circo (tem um circo maravilhoso, Santa Maria de Paiautordera, situado
no pé do Parque Natural de Montseny, Catai unia) lhes dá um sa pinho de
lata, desses que quando você aperta as costas faz um ruído. Claro que só
com um apertando se faz pouco ruído. Mas mil sapinhos juntos fazem
muuuuuito ruído. Tortell, em certo momento, canta uma canção (com a
excelente banda musical do circo) e lhes pede ao público que acompanhe
ritmicamente. O ruído das rãzinhas é então tão estrondoso que o circo
começa a romper-se, caem as paredes e lâmpadas sobre o cenário, o
público maravilhado sente o poder das massas. Uma pessoa com um
pouquinho de algo é pouco, muitas pessoas com um pouquinho de algo
cada uma são muito mais que muitíssimo. Este é um número maravilhoso
em que participam os espectadores. Um número participativo coral.
OS 10 MANDAMENTOS DO PALHAÇO DE RUA
1 - Serás a exageração, não a caricatura de tua pessoa
2 - Nunca te irritarás com o público (não convém)
3 - Quando estiveres na roda, serás o centro do universo
4 - Nunca duvidarás de teu material em cena
5 - Diante do fracasso, usarás a frase: “to nem aí!’’
6 - Nunca usarás material de outro palhaço que trabalhe no
mesmo lugar/praça/cidade
7 - Estarás convencido de que, se não é hoje, será na próxima
vez, mas encontrarás o sentimento que estás buscando
8 - Não negarás nenhum desafio
9 - Estarás agradecido por toda sua vida aos que te inspiraram,
ainda que não te caiam bem
10 - Serás politicamente incorreto
DRAMATURGIA DA APRESENTAÇÃO DE RUA
Convocatória, número participativo e passagem do
chapéu
Uma coisa é um espetáculo na rua e outra coisa é
um espetáculo de rua.
Em um festival de teatro no Brasil conheci Eugênio Barba10 e tratando-se
do contexto da cena lhe perguntei a definição de dramaturgia, e assim
obtive uma definição em primeira mão do dramaturgo mais importante
da arte de rua. Uma dramaturgia, me disse, é uma sucessão de
acontecimentos. Para um palhaço na cena, isso implica saber de onde
venho e para onde vou. Com as estruturas dramatúrgicas nos
preparamos para reconhecer as partes de uma apresentação, para
prepará-la e trabalhá-la pensando no que queremos fazer e no que temos
que fazer.
Trabalhar na rua implica em algumas condições das quais o artista tem
que se ocupar e que, em outro circuito, como no teatro, seriam tarefas
de outras pessoas. o palhaço que quer trabalhar em uma praça não tem
ninguém que o anuncie, nem um programa que informe ao público no
que consiste o espetáculo, nem alguém que acomode, as pessoas e cobre
a entrada. Essas são algumas das obrigações do artista de rua. E como
não pode deixá-las de lado, porque escolheu esse espaço, integra essas
condições a seu espetáculo. O ideal seria que um artista de rua
convertesse suas necessidades em números e rotinas.
Por isso, para nós, as estruturas dramatúrgicas em parte são respostas
às condições que nos põe o espaço da rua para trabalhar e viver de nossa
profissão. Quem divulga o espetáculo? Quem atrai as pessoas e indica
como e onde se sentar? Quem se ocupa de cobrar pelo espetáculo
oferecido? O PALHAÇO. Sim, senhorita.10 No mundo do teatro é amplamente reconhecido a influência de Eugenio Barba
como dramaturgo, diretor e pensador dessa prática. Com a companhia Odin
Teatret percorreu países da América Latina e se interessou por uma maneira
particular de encarar o teatro, popular, variado e irreverente, a que chamou
Terceiro teatro.
Conhecer qual é o objetivo de cada número forma parte de nosso
material, porque aí está a resposta à pergunta "como faço para viver
disto?". Todos somos capazes de fazer rir porque, de certo modo, todos
somos palhaços, só que alguns vivem disto. Os artistas que não podem
aproveitar e desenvolver seu material têm problemas para conseguir o
que esta profissão pode dar: liberdade física, psíquica e econômica.
A estrutura dramatúrgica que vamos apresentar a seguir responde às
necessidades concretas que tem o artista para trabalhar neste circuito.
Estamos falando de um rock'n'roll quadrado de três notas, para começar,
para tomar posição e entrar. Há muitos tipos de espetáculos de rua: há
estátuas animadas, há semáforos, há mágicos de bar, há terraças
(quando um artista trabalha em frente a um bar). Esta estrutura
dramatúrgica se aplica a um tipo específico de espetáculo de rua, com
determinadas condições gerais entre as quais destacamos uma duração
de aproximadamente 45 minutos, um espaço de uns quinze metros de
diâmetro rodeado por uma roda de gente sentada (não gente de
passagem). Isso não quer dizer, no entanto, que aqui não haja nada que
não possa servir para qualquer outro tipo de espetáculo de rua.
A princípio, falaremos de sete momentos que trataremos
individualmente a seguir: Pré-convocatória; Convocatória; Farsa de
começo; Número de início; Número participativo; Passagem do chapéu;
Despedida e Final. Um rock'n'roll quadrado de três notas, sim... mas
rock'n'roll.
A CONVOCATÓRIA e a PASSAGEM DO CHAPÉU
são dois temas que não têm relação com o aspecto
artístico (ou têm), mas de saber otimizá-los depende
o futuro de uma artista de rua. Vi bons artistas
fracassando e abandonando seu ofício por não terem
boas passagens de chapéus e boas convocatórias.
Havia outros que, apesar de não possuírem bom
material artístico, manejavam uma boa convocatória
e passagem de chapéu. Com o tempo (perdurando) se
transformaram em grandes artistas, pois puderam
viver de sua profissão.
1. Pré-convocatória Ainda não começou
Enquanto aproveita para fazer coisas fundamentais da preparação, o
artista já cria um centro de interesse, algo que intrigue as pessoas na rua
ou na praça. A pré-convocatória consiste em deixar tudo pronto, se
trocar e se preparar para a apresentação sabendo que já estão te
olhando.
Forma parte da dramaturgia, mas o traço principal é a não atuação. Na
pré-convocatória o artista está em seu estado natural. Ele ainda não se
apresenta diante do público. Pode ser dramático se a convocatória não é
efetiva porque veriamos um artista que depende de pessoas para fazer a
apresentação e que não atinge as condições para começar. Por isso,
abrimos espaço na pré. Nós necessitamos que as pessoas venham, que
confiem em nós para que, quando estejamos prontos para dar início ao
espetáculo, haja uma quantidade importante de público. Sabemos que
se começamos uma apresentação com a roda cheia há mais
probabilidades de que seja um êxito, porque você mesmo se encherá de
energia.
É a prévia. Onde você vai se trocar? Na frente do público. "Essa pessoa é
quem vai trabalhar; no entanto, não é o artista, não começou." Na pré-
convocatória você tem que jogar à meia energia, porque quanto menos
você fizer um show, mais gente vai se aproximar. Se for um show, não
chamaria tanto a atenção como um tipo que precisa se trocar e não pode
porque as pessoas estão olhando. Além disso, não estão prestando
atenção cem por cento. Estão prestando outro tipo de atenção, uma
atenção mais voyeurística, menos comprometida. A apresentação não
começou. É alguém que está se trocando. ws. Clark Kent que ainda não
saiu da cabine de telefone.
Se vão a uma praça que costumam frequentar, as pessoas sabem que
logo começará uma apresentação e, mesmo assim, ainda não se
aproximam, porque ainda falta um pouco, mas já te olham. Talvez seja a
primeira vez que você vai a essa praça. Não importa. A situação se passa
da mesma forma. Estão te espiando. Olham se você está com sua
namorada?, "que faz?", eles te vêem falar com as pessoas da praça, e a
tudo isso se deve aproveitar. Se você faz que o som não funciona e você
se põe nervoso, as pessoas vêem um tipo em dificuldades, isso chama a
atenção. Essa mesma cena dramática que pareceu acontecer
espontaneamente, depois você pode retomar na apresentação. Não é
real — não sempre — que não te funcione o som, isto vem checado antes
de chegar à praça, mas você pode induzi-lo, fazer uma gambiarra, ficar
alerta; você não quer que as pessoas se dêem conta, mas funciona da
mesma forma.
Na pré-convocatória você deve testar o som, deixar o equipamento
pronto, maquiar-se (se é que você o faz), delimitar o espaço; enquanto
isso, as pessoas estão te olhando. As pessoas olham o tempo todo. Mas
você, contudo, não é o artista, não está atuando, é como se nem
quisesse. As pessoas te olham assim mesmo. Um pouco de psicologia
reversa sempre funciona na rua.
Supostamente, na rua, não ocorrem coisas como se prevê. Mas o palhaço
de rua, que já conhece mais ou menos como reagem as pessoas, em uma
pré-convocatória — como na apresentação — se move antecipando-se
ao que vai ocorrer. No teatro, pelo contrário, as condições estão mais
controladas. Entre essas condições (além do espaço físico, o tipo de
público, etc.) estão as expectativas do espectador. Um espectador pode
se aproximar quase sem se dar conta, ou pensando que vai ver um show
infantil, e terminar no centro da cena com uma torta de creme na mão.
Os artistas de rua, então, trabalham permanentemente com essas
expectativas. E a pré-convocatória é um momento chave para criar
expectativa, a de que algo (estranho, maravilhoso, ou simplesmente
algo) está prestes a acontecer.
Na rua é preciso contextualizar, marcar, criar o lugar da atuação. A não
ser que estejamos num espaço preparado, uma praça em que
usualmente há espetáculos e então a roda é delimitada por uma fileira
de assentos ou uma tribuna, é o artista quem deve assinalar seu lugar de
atuação.
Delimitar o espaço é a primeira ação que deve tomar o artista na pré-
convocatória. Deve marcá-lo com um giz, com cones, com o que seja.
Este lugar é meu, é mágico. Aqui, esta tarde, vai açontecer algo. Deve
sinalizá-lo, estabelecer o limite. Uma boa maneira de fazê-lo é com as
pessoas: senta uma primeira fila e eles delimitam a borda.
Depois é preciso ocupar esse espaço. Aí entram o equipamento de som,
as coisas que você vai usar; enquanto você caminha, vai enchendo o
espaço.
Na apresentação, vamos ter um vestuário, mas também é bom
considerar um vestuário para ir à praça. Desde quando você pisa na praça
até que você seja o palhaço, é importante ter uma particularidade. Seria
muito engraçado chegar com sapatões e uma roupa colorida, vestir-se
com roupa normal para fazer o número e voltar ao vestuário de palhaço
para ir embora. Você, como pessoa, tem que ser parecido com teu
personagem.
Eu não creio no falsete ou em formas diferentes de caminhar; o palhaço
é você, mas exagerado, com outro dinamismo. Então a pessoa que chega
à praça tem que ser um pouco esse personagem que a gente vai ver
expandir-se na cena.
E se desejam, há uma pré-pré-convocatória. Quando vamos trabalhar
em uma praça que não conhecemos absolutamente, podemos fazer uma
pré-pré-convocatória passeando pela praça, falando com os mendigos
por ali, com os policiais, com as pessoas. É uma pré-pré: você acabou de
chegar, está ali, mostre tua presença.
Então na pré-convocatória temos que realizar alguns passos
fundamentais:— delimitar o espaço,
— fazer um primeiro chamado, quase sem querer, das pessoas,
— testar o equipamento,
— alguns colocam um cartaz que diz: "Em 10 minutos. Apresentação de
palhaço de rua". Outros põem música porque há praças em que é
costume fazer espetáculos com contribuição no chapéu e as pessoas
quando escutam a música se aproximam.
Agora, bem, se você está em uma praça em que vão apresentar outros
artistas, a pré-convocatória é muito diferente porque aí realmente está
competindo. Aqui não estamos pensando em competição.
A dramaturgia do espetáculo de rua sempre vai
buscando a otimização do chapéu.
2. Convocatória
O objetivo que temos na convocatória é juntar o mais rapidamente
possível uma quantidade suficiente de pessoas para começar a
apresentação. O recomendável é começar a convocar quando haja dez
ou vinte pessoas sentadas. Você as tem que sentar separadas. As pessoas
são a melhor delimitação que há. Se você conseguiu as primeiras quinze
pessoas do público, depois, com eles, você tira o medo de outros
duzentos. Por isso, se você tem quatro amigos que foram e se sentaram
em frente, depois o resto vem sozinho.
Na convocatória você declara sua intenção de convocar mais pessoas.
Já não é como na pré, onde as coisas se passam como se você não
quisesse nada. Agora temos que ser honestos com as pessoas, explicar:
"isto é um espetáculo de rua, vamos buscar um pouco mais de pessoas".
Peça a elas que te ajudem, os faça cúmplices. Eles já são parte do
espetáculo e entre todos se deve buscar que saia o melhor possível.
Senão, para que vieram?
Para convocar, use seja lá o que for, um "caça bobo11", um truque
clássico; mas tem que ser algo que se sustente, que tenha sua própria
tensão para persuadir aos que chegaram a que participem e fiquem. A
esta parte temos que dar um tom de anúncio: algo está para começar.
11 Técnica convocatória onde o palhaço, com a cumplicidade do público,
consegue o interesse e, por conseguinte, a aproximação de um público que é
enganado pelo mesmo público a partir de grandes aplausos e ocações sobre algo
que não existe. O palhaço esclarece a questão e os caçados se transformam em
caçadores do próximo grupo de pessoas.
Você já começou faz um bom tempo, mas as pessoas têm que pensar que
algo está para começar.
A convocatória é um momento chave no espetáculo de rua. Há artistas
que têm grandes espetáculos, mas que a convocatória se faz um
problema enorme como uma casa. Não conseguem boas convocatórias,
não conseguem começar com uma quantidade suficiente de pessoas. A
convocatória deve ser rápida, não enfraquecer, tem que ser tão
profissional como os demais números. Pode durar pouco ou o que dura
qualquer dos outros números do espetáculo. Por isso, deve-se pensá-la
e trabalhá-la buscando alternativas efetivas. De novo: nós somos o
palhaço que somos e o material que temos. E o material que temos é
fundamental. Você pode ser um grande músico, mas se não tem cinco
temas para gravar um disco... É fundamental encontrar esse material e
saber que cada momento requer um material em particular.
Uma das chaves da dramaturgia da atuação de rua é converter suas
necessidades em números ou rotinas. Na convocatória necessitamos
reunir gente. Para isso, temos que encontrar o texto justo, o ritmo justo
e saber que se uma alternativa não funciona, temos outra para conseguir
a quantidade de público que precisamos.
A forma que usamos deve ser definida de acordo com o lugar. Se você
está trabalhando em um país estrangeiro, onde se fala um idioma
diferente do seu, vai ter que se preparar para atrair gente que não
entende o que você diz. Por isso, com os primeiros vinte é mais simples
conseguir outros duzentos. Porque, então, eles atraem o restante, lhes
tirando o medo; há uma roda, alguma coisa na praça, um tipo fala, tem
algo para mostrar. O que fala? Nesse ponto, você já está quente, e já se
envolve com as pessoas. Temos vários canais de comunicação, nem
sempre nos comunicamos com a palavra. O som, o gesto, a mímica são
muito importantes na convocatória. Se você toca um bumbo parado
acima de uma escada, torna-se visível em toda a praça: todos te vêem e
todos te escutam.
O porco inteligente
A melhor convocatória que eu vi na minha vida foi na Praça Onze (praça
popular de classe média baixa de Buenos Aires). Eu esperava um ônibus
na praça e, de repente, veio um tipo grandalhão, deixa uma bolsa no
chão, a abre, tira uma garrafa e a põe parada no chão. Da bolsa tira ainda
um rato e o deixa na boca da garrafa. Enquanto o rato se equilibrava
sobre a boca da garrafa, esse homem começou a caminhar em um círculo
grande, ao redor da garrafa, gritando "Juan Pablo! Tem que trabalhar,
Juan Pablo!", que me parecia ser o nome do rato. Ele não olhava pras
pessoas. Era como se ele não se importasse se chamava a atenção ou
não. Falava forte, mas supostamente para que escutasse só o rato
(grande engano). Enquanto caminhava, ia marcando com um giz o chão,
com linhas de uns sete ou oito metros que iam desde a garrafa até uma
palavra, também escrita no chão, uma caixa de fósforos, uma pedra e
uma vela. "Esta noite é preciso trabalhar, Juan Pablo!". Era algo muito
estranho. Nessa hora, a praça era muito movimentada. Qualquer um que
comece a gritar ou a convocar pode chamar a atenção. O difícil é que as
pessoas parem e fiquem, e isso aconteceu imediatamente, éramos uns
duzentos curiosos os que foram se aproximando (do homem e do que era
mais interessante: do rato equilibrista). Em um momento vejo que o
suposto domador de ratos adverte estar cercado pelo público (somente
olhava os sapatos das pessoas e não fazia contato visual com ninguém).
Aí se aproximou da garrafa, devolveu o rato para a bolsa, olhou
fixamente para toda a platéia e disse "Boa noite, este é um espetáculo de
rua no chapéu." Logo continuou explicando o que iria fazer. A essa altura
já havia umas duzentas pessoas na roda, a convocatória havia sido um
total sucesso... O rato nunca mais apareceu no espetáculo.
Muito tempo depois de ver isso, lendo uns livros ingleses, encontrei que
se trata de um número clássico, que se realiza há mais de quatrocentos
anos. O truque se chama "O porco inteligente", The Intelligent Pig. O
usam os artistas de rua ciganos desde sempre. Colocam um animal e
começam a anunciar que vai acontecer algo extraordinário, falam todo o
tempo com o animal, não com as pessoas, ou seja, não enganam as
pessoas. Se vier a polícia, não se pode dizer que estava armando um
golpe. Quando atingem um bom número de público, param de fazer o que
estavam fazendo e começam com outro número.
O fazem com cabras na Espanha, com víboras em Marrocos e vá saber
em quantos lugares mais e com que tipo de bichos ou animais. É algo
muito antigo, O Porco Inteligente — evidentemente na Inglaterra faziam
com porcos. Mas ainda funciona.
Depois de muitos anos eu encontrei uma convocatória que funciona
perfeitamente para mim. No princípio, faço um número tocando o
trompete em cima de uma escada. As pessoas pedem músicas e eu toco
qualquer coisa, sempre (a altura que me dá a escada, o som do trompete
e a risada das pessoas faz com que toda a praça perceba que estou aqui
e que vou começar a apresentação). Depois, me troco ali mesmo
enquanto converso com eles (o fato de fazer algo tão íntimo como trocar
de roupa e se deixar ver, sem mostrar as partes íntimas, mantem a
atenção). Depois faça a ola (um movimento que envolve todo o público,
famosa nos jogos de futebol). E no final, eu saio e entro (farsa de começo).
Mas, claro, fazer a ola não é simplesmente fazer a ola. Deve-se orientar
e motivar para fazer esse movimento, há que ser um médico bruxo que,
no meio da roda, transforma as pessoas que não se conhecem em uma
unidade, em uma só coisa. A ola é vista de toda a praçae isso aumenta o
interesse. O que será que está acontecendo ali onde tem tanta gente
reunida? Em cada parte
dessa convocatória é importante atrair a atenção das pessoas, e uma vez
que chegue à roda deve-se fazê-los cúmplices do que vai acontecer em
cena. Eu gosto que eles se sintam responsáveis por convocar para que o
espetáculo comece rapidamente.
3. Farsa de começo
Uma vez que fizemos a convocatória e temos armado um círculo com boa
quantidade de gente, vem o começo oficial que estávamos anunciando.
E esse começo oficial é na realidade a farsa de começo.
Na farsa de começo temos a necessidade de dizer quem somos, de nos
apresentarmos. É básico o que temos que fazer, mas fundamental. Tudo
isso que fizemos até agora, nos teatros, é fqito por outras pessoas. Ou
seja, outro convoca e faz a divulgação, outro vende a entrada, outro os
acomoda e os senta, a descrição do espetáculo está escrita em um
programa. Essa pré, essa convocatória e essa farsa de começo não
existem no teatro, não são necessárias. Nós temos que fazer porque
acabamos de inventar o espaço em que vamos trabalhar. Vamos
inventando esse espaço junto com as pessoas. Ainda que saibamos que
esse espaço que acabamos de inventar vá morrer em torno de quarenta
minutos.
Na farsa de começo, você tem que dizer quem você é, o nome do
espetáculo para que as pessoas o saibam, quanto vai durar (sempre se
deve diminuir um pouco, não dizer a duração real, mas um pouco menos,
para que as pessoas fiquem) e, além disso, é preciso dizer que é um
espetáculo no chapéu. Isto é importante porque mesmo que, hoje em
dia, todo mundo conheça os espetáculos no chapéu, ao deixar claro,
desde esse momento, você se assegura que estejam todos inteirados de
como se mantém a apresentação. Depois, as pessoas do público não vão
poder dizer que não os tinham avisado.
Para todas essas coisas, que devemos deixar bem claro, há uma
estratégia, uma forma como devem ser ditas. O ideal é repetir várias
vezes o seu nome e o nome do espetáculo, mas não diretamente, mas
como se fosse não intencional; assim ficará mais bem gravado na cabeça
do público, do que se o anunciássemos como um título formal. Vamos
pensar que acabamos de começar, as pessoas não estão completamente
envolvidas ainda: daqui a pouco começaremos a fazê-las entender
algumas coisas. Este trabalho continuará na passagem do chapéu, e aí
veremos um pouco melhor do que se trata isso de ter uma estratégia
para dizer as coisas que queremos que o público entenda.
O "saio e entro" é um clássico da farsa de começo. Dizemos, "vou e
quando entrar aplaudam e começo a apresentação". Podemos pegar o
"saio e entro" como uma base e logo deformá-lo, adaptá-lo segundo
nosso palhaço ou o que estejamos buscando. Mais clássico e mais
complexo, o "saio e entro" é quase obrigatório. E assim é porque faz vinte
minutos que você está em cena e precisa marcar um princípio; e, além
disso, porque você não tem uma cortina de palco.
4. Primeiro número
Vem o primeiro número. Aqui é onde se deve colocar toda a carne na
churrasqueira. Os primeiros cinco minutos são fundamentais para um
artista de rua. Se você tem uma boa rotina, a coloque no início. O início
e o final são os momentos mais importantes. Segundo Tortell Poltrona, o
que vem no meio pode ser quase qualquer coisa. Então, se tem algo
muito bom, mostre no inicio para ganhar o respeito das pessoas; elas vão
te dar créditos para seguir.
Você pode perceber que não tem virtudes para mostrar. No entanto, o
que se passa com um palhaço é que com qualquer coisa pequenininha
que saiba fazer pode enganar e pode funcionar. As pessoas acreditam
que eu toco trompete, porque sei quatro músicas. As pessoas não tem
que escutar cinco, com quatro já está bom. E pensam: "este palhaço toca
trompete, evidentemente estudou trompete...".
"Este palhaço estudou?". Então, se você tem um número que te permita
ganhar o respeito tem que ser posto no princípio. Se há algo que
realmente fale de você, tem que estar no princípio para que rapidamente
ganhe a confiança das pessoas e se transformem em seus cúmplices.
5. Número participativo 12
Numa estrutura dramatúrgica básica, o segundo número é o
participativo. No desenvolvimento da função, é o ponto mais alto de
envolvimento do público. Mesmo que estejamos permanentemente
jogando com o público e possamos ter pequenos números participativos
que na realidade cumprem outras funções (por exemplo, um número
participativo coral como convocatória), neste segundo número é onde se
definirá, em grande medida, o êxito da apresentação. Depois de um
primeiro número onde conquistamos a confiança do público em nós,
vamos agora desenvolver um número que os envolva. É importante
atingir um nível de tensão tal que nos permita cortar o número antes do
final e fazer aí a passagem do chapéu. Talvez não seja o melhor se formos
analisar de um ponto de vista artístico, mas a realidade marca que o
ponto mais alto do espetáculo em nível de emotividade é o momento
mais efetivo para passar o chapéu. E não nos esqueçamos de que
estamos em busca dessa efetividade: estou para saltar através do aro de
fogo, já ameacei quarenta vezes e agora sim, vou saltar, então aí paro e
passo o chapéu.
Ver a seção "Número participativo" no capítulo anterior.
6. O chapéu
Honestidade, dignidade e humor
12 Ver a seção “Número participativo” no capítulo anterior.
Dizíamos que o primeiro número é fundamental para o desenvolvimento
da apresentação. Igualmente é o seguinte: se o melhor que você tem vai
ao início, o mais emocionante você tem que guardar para o final. O
chapéu é um ponto fundamental. Toda a dramaturgia do espetáculo de
rua está orientada para a otimização do chapéu. Existe um aprendizado
fundamental sobre o chapéu, de que falamos muito em outra parte deste
livro’ e que, independentemente de como leiam, vão senti-lo na própria
carne, se é que já não o sentiram ainda: se você otimiza o chapéu, você
pode projetar teu futuro. Se compreendermos isto, entenderemos
porque se deve prestar muita atenção à passagem do chapéu.
Há muitas formas de passar o chapéu. Há muito tempo, na Europa, os
artistas de rua não faziam o trabalho de passar o chapéu. Como tinham
atrás de si toda uma tradição de arte de rua e, por sua vez, talvez, tinham
uma boa arrecadação (isso tem relação com o que tratamos em outra
parte: o estômago como órgão que mobiliza o palhaço, a fome como
força que o força a buscar melhorar), era suficiente deixar um chapéu ou
uma lata no centro da roda.
"Bom, eu sou um artista, este é o meu chapéu, vocês são o público, já
sabem o que têm que fazer". E funciona. É digno, o artista não toca no
dinheiro. Mas recebe a quarta parte do que recebería se trabalhasse um
pouco mais a passagem do chapéu. *
Há outras formas mais agressivas, não com o público, mas sim com os
bolsos. Uma muito popular é o que os contadores de estórias chilenos
batizaram como Teletón, nome que vem de um programa de
beneficência da TV. Em um momento do espetáculo paravam e diziam:
"muito bem, vocês estão gostando do espetáculo, que alegria! Agora,
para seguirmos, precisamos de mais sessenta pesos". E quando
apareciam os sessenta pesos, recomeçavam a apresentação. Outra
forma é a marroquina. Em Marrocos, geralmente se trabalha com três
posições em um espetáculo de rua: há um chefe e que geralmente está
sentado no chão, tomando chá; outro fala com todo mundo, com o chefe,
com o artista, com o público e até com deus (o apresentador); e depois
está o artista que pode ser um malabarista, contorcionista, duas crianças
boxeadoras, um encantador de serpentes ou o que seja. O apresentador
diz o que está por fazer o malabarista, o apresenta e logo fala: "Isto vale
vinte dírham". Começam a dar na sua mão o dinheiro, o tipo morde a
moeda ea joga no chão e caminha entre o público até que consiga os
vinte. Quando consegue os vinte, os junta, passa para o chefe que
também os conta, põe num cantinho, faz um sinal ao speaker e o speaker
dá a ordem ao malabarista para que comece. É similar ao teletón, porque
se as pessoas aplaudem muito o tipo diz: "Parem, parem! Isto vale mais
dez", e busca dez mais. Assim passam toda a tarde e a noite. Sempre
pedem em nome de Deus, param, oram. É uma loucura, mas muito
bonito. E é muito efetivo, o que se nota na hora de contar as cédulas.
Como tornar mais efetiva nossa passagem de chapéu? Analisemos com
algumas ferramentas em mãos, mas deve-se ter em conta algo que
também falamos em outra parte, que tem relação com o fato de que o
êxito depende de nossas pretensões. Na hora de passar o chapéu,
devemos conhecer nosso espetáculo, e a partir disso saber o que é para
nós um chapéu apropriado. É necessário fazer esta avaliação porque logo
se nota: no chapéu tem que haver honestidade, porque as pessoas
percebem. Honestidade ao considerar nossa apresentação como um
espetáculo no chapéu que tem suas próprias características, mas
também firmeza e convencimento ao pronunciar nosso discurso.
Também há uma dramaturgia para o chapéu: primeiro há um discurso ou
speech, e depois vem a ação, que é a passagem. Esse speech deve tocar
em certos pontos, são uns poucos conceitos chaves que é preciso
transmitir ao público para que o chapéu se faça mais efetivo. Como é
uma coisa grave, e as pessoas não gostam que lhe passem o chapéu, você
deve dizer de tal maneira que esclareça e não confunda. Diga algo que
eles precisam entender, mas termine com uma piada para que assimilem.
Carregamos de tensão, fazemos a piada, descarregamos em risadas. Um
tapa e um carinho. O chapéu disfarçado não serve. Somos artistas de rua
que entretemos e depois passamos o chapéu, não temos um
personagem que nos camufle isso. Todo mundo sabe.
Temos então um speech, uma estratégia (um tapa e um carinho) e quatro
pontos fundamentais que não se pode passar por alto. O primeiro é que
se deve dizer claramente que você vai fazer: "Vou passar o chapéu".
Também é preciso dizer aqui que o espetáculo não terminou ainda, para
que as pessoas fiquem. Se apresentamos adequadamente nosso
espetáculo, na farsa de começo dissemos que era um espetáculo no
chapéu. É difícil que hoje alguém se faça de desentendido, mas sempre é
bom lembrá-los. Para que essa oração ("vou passar o chapéu") tenha um
sentido para o público, você precisa ter se visto antes nessa dualidade do
artista de rua: tanto artista, como "buscavidas". Eles viram o lado
"buscavidas", entenderam que não é momento de se fazerem de tontos.
O segundo ponto importante do speech é esclarecer que se não tem
dinheiro não precisam ir embora, que podem ficar.
O palhaço não pode se irritar nunca. Se uma pessoa vai embora, é o
momento certo para uma piada: "Adeus, senhora! Vai buscar troco?"13
A piada os deixa entregues para o tapa. E, depois, a piada justiceira outra
vez. Mas nunca, nunca irritar-se. Como dissemos, quando o palhaço se
irrita, perde a dignidade.
O terceiro ponto é explicar porque devem contribuir. Há milhares de
razões, mas enumeraremos algumas. Porque é um código, porque
quando pararam para observar sabiam que o pagamento seria dessa
maneira. Porque dessa maneira os artistas de rua seguem existindo e se
algum dia o público não tiver dinheiro, podem desfrutar do espetáculo
igualmente. Porque é muito mais barato que pagar uma entrada de
algum espetáculo e este o fez rir muito. Porque não esperava nada e lhe
deram algo. Porque a vida é karmática e se não valoriza o trabalho de
outros, outros não valorizarão seu trabalho.
E o quarto é que deve dizer com quanto devem contribuir. Hoje em dia,
as pessoas são muito felizes de poder pagar uma apresentação. Às vezes
não a entendem, creem que é uma esmola, ou uma gorjeta, que você é
o moço do bar. O moço tem um salário, você vive disto. Temos que
expressar esse conceito na passagem do chapéu com humor. Como
dizíamos no princípio, é preciso ser honesto com o público e com nós
mesmos.
Honestidade, dignidade e humor são as três chaves
para um bom chapéu.
13 Esta piada é fundamental, se ninguém dá a deixa deve-se planta-la, porque
ajuda muito a instalar uma pressão com a qual você quer trabalhar
Depois do speech, vem o momento da ação: a passagem do chapéu.
Convém ter em conta três questões muito práticas:
Um: primeiro passamos o chapéu para as crianças, na cena, no centro
da roda; depois aos adultos, um por um, em seu lugar. Esta estratégia é
fundamental por várias razões: por um lado, dividir os espaços faz com
que as crianças ressaltem o centro da cena, e aí se joga tanto com a
vontade dos pequenos em passar pelo centro (todos querem estar ali),
como com um sentimento dos pais de não deixar o pequeno fora do jogo
(todos querem ver seu filho ou filha no centro, jogando com os demais e
colocando a nota no chapéu); por outro lado, diferenciar o público,
porque as crianças são o pretexto, o espetáculo é tanto para eles como
para os adultos.
Então, uma vez que as crianças colocaram o dinheiro, é como um esboço
e começa de novo, se bem que o speech já foi dito, começamos a juntar
de novo com um novo speech orientado agora para os adultos, como se
as crianças não servissem, fora puro jogo. Começamos de novo, passando
um por um através do público.
Dois: no meio de tudo, piadas, e mais piadas, "Deus vai te devolver,
porque, eu, nem em peido", "Deus te vai ajudar... a você vai ajudar
menos, e se tiver tempo", "Vão, mas voltem, vão e voltem com dinheiro",
"Que bairro bom este, muito dinheiro...", "Hã? Esta é uma favela?",
sempre há uma piada por detrás de outra piada para descomprimir a
situação de estar pondo dinheiro onde, talvez, não se esperava por. E
quando ninguém se move do seu lugar é possível plantar uma piada para
criar um ambiente favorável.
O palhaço distrai o público (prepara a piada) dizendo a cada pessoa que
põe dinheiro no chapéu "obrigado, obrigado, obrigado" e em um
momento ele pisa o pé de um espectador e diz "Perdão! Pisei em você?".
Espera que o espectador diga "sim, mas não importa" (geralmente
sempre dizem o mesmo). O palhaço fecha: "Foi de propósito, porque não
colocou dinheiro no chapéu!".
Um espectador põe uma nota de muito valor, digamos que R$50. O
palhaço grita em voz alta: "Cinquenta reais! Cinquenta reais! Um aplauso
para este senhor que colocou cinquenta reais". Espera que a platéia
aplauda e arremata em voz um pouco mais baixa: "Eu nem bêbado ponho
cinquenta reais para alguém".
Três: não colocar música, dizer onde vai começar e passar um a um, sem
encobri-lo, dando a oportunidade de que todos se vejam. As pessoas se
sentem pressionadas, pensam "aí vem, aí vem", e claro que há pressão:
nós geramos essa pressão, e podemos alongá-la ou descomprimi-la com
o humor. Obviamente, não deixa de ser um momento dramático; você
deve bancá-lo.
Quando eu comecei a trabalhar como artista de rua, não existia a
passagem de chapéu desta maneira. No anos 80, havia grupos teatrais
que iam às praças e parques, mas lhes dava uma vergonha atroz passar
o chapéu. Não sabiam onde enfiar a cara. Mandavam outro passar,
faziam toda uma coisa cerimoniosa, formal. E eu comecei a fazer piadas
porque me dei conta que essa tensão estava estabelecida efetivamente,
mas que eu tinha que aproveitá-la. Que a tensão seja do público; eu sou
o palhaço. Ou seja, se eu soubesse as palavras certas, a cadência justa, a
intenção precisa para fazer que as pessoas saquem tudo o que têm, como
se fosse um pastor evangélico, e o ponham no chapéu, eu as diria. E as
ensinaria.
7. Despedida e final
Depois da passagem do chapéu, vem o final do número participativo, a
despedida e o final daapresentação. Antes de me despedir, guardo
minhas coisas: isto é fundamental por várias razões. Na despedida e no
final, deve haver um pouco de emoção, mas é um momento
eminentemente prático. Devemos ter em conta que estamos vindo de
um speech cru e emotivo que foi o do chapéu, mas é um bom momento
para deixar uma mensagem. E, assim como na farsa de começo, é preciso
deixar claro certas coisas, nesse momento deve-se recordar quem você
é, como se chama o espetáculo e quando vai voltar a trabalhar. Depois
um aplauso final (aqui se concentra a emoção), sem cair na demagogia
de pedir um aplauso para o público: a vitória é nossa.
Há muitas formas de passar o chapéu, é cultural e
sempre se “convida" o público a pagar.
Há algumas formas mais passivas e outras mais
agressivas, mas sempre se trata de induzir a que as
pessoas ponham o mais que possam dentro de nosso
chapéu.
Os europeus deixavam uma latinha e ao final diziam:
“Vocês são o público, eu, o artista, e essa, minha lata”,
e as pessoas iam e colocavam.
Quando chegamos, há 25 anos à Europa, com a forma
argentina, COMEÇARAM A USÁ-LA E NÃO A
DEIXARAM DE USAR, PORQUE 6ANHAM O
DOBRO.
CIRCUITO DE RUA
Vida de piratas e mapas atuais
Odisséia do palhaço de rua:
Primeiramente, você tem que trabalhar na praça da
esquina de sua casa. Depois viajar ao centro da
cidade.
Depois viajar e apresentar-se em lugares que nunca
pensou que existiam. E, logo, tem que voltar à praça
da esquina de sua casa. o palhaço tem que fazer-se
na praça de sua comunidade, porque logo levará suas
formas e costumes aderidas a seu estilo de humor
por todo o mundo. Logo voltará à esquina de sua casa
para contar a sua comunidade como é esse mundo,
através de seu humor.
Chegou à rua a classe média. A maioria dos rapazes e moças que |é de
classe média baixa e classe média. No entanto, nos anos oitenta não era
comum encontrar números de palhaços nas praças. Recentemente,
estavam aparecendo alguns grupos de teatro que representavam obras
clássicas em um parque. As pessoas não compreendiam bem.
Perguntavam se por trabalhar na rua, vivia-se na rua. Mas viam o palhaço
como um lumpen que fazia loucuras na praça.
No princípio dos anos noventa, começa a tomar forma um tipo de
espetáculo de rua que se caracteriza por convocar a maior quantidade de
gente possível em um espaço público, apresenta rotinas e números nos
quais predomina a comicidade, e passa o chapéu até o final da
apresentação. A isto se dedica o palhaço de praça.
Se hoje podemos falar de palhaço de praça como um tipo de espetáculo
particular, reconhecido por todo mundo, deve-se, pelo menos, a três
causas: em primeiro lugar, à recuperação do circo e de outros
espetáculos e personagens da cultura popular como os arlequins, os
palhaços e os bufões; em segundo lugar, o uso da rua, das praças e dos
parques públicos, dos calçadões e das terraças, como espaços para
apresentações; e, em terceiro lugar, teve incidência a aparição de escolas
e espaços de formações durante os anos oitenta e noventa que ajudaram
a difundir essas artes especialmente para os jovens.
Estas três séries se entrelaçaram em anos posteriores ao regresso da
democracia na Argentina e favoreceram a aparição de diversas
expressões culturais, frequentemente contestatórias, irreverentes,
livres, populares.
Foi uma época em que grupos de teatro, coletivos de artistas e gente que
provinha do circo coincidiram no uso dos espaços públicos para fazer
suas apresentações e entreter. Foram uns anos loucos em que não se
tinha muito diferenciada uma coisa da outra, nem o circo da mímica, nem
o clown do palhaço. Em todo caso se impunha a necessidade de se
expressar e de conseguir um meio de trabalhar. o palhaço de rua leva ao
máximo esse matrimônio da expressão com as necessidades, e por isso
soube resolver, desde seu estilo e seu afã de fazer rir, os problemas
básicos da sobrevivência e das particularidades práticas da apresentação
de rua.
Neste capítulo vamos abordar alguns elementos relacionados com essas
três causas que ajudaram a dar forma ao palhaço de praça, personagem
clássico da cultura cômica que, não obstante, se renova e adquire outras
características neste último período.
O palhaço vem de um ventre primitivo
A cultura popular é o conjunto das expressões de um povo, e em especial
dos setores e extratos majoritários, populares, de uma sociedade.
Costuma se contrapor à cultura oficial, séria, religiosa, própria das elites.
Na cultura popular, a comicidade esteve presente desde sempre. A risada
e o humor aparecem nas Saturnálias romanas da Antiguidade, nos
carnavais da Idade Média, nos ritos e celebrações, nas festas, nas praças
públicas. Não existe a cultura popular sem a risada, sem imagens
grosseiras, exageradas, graciosas, sem gigantes ou anões, sem monstros,
disfarces, sem paródias, piadas, sem pregar peças. Por trás de todas essas
expressões há um espírito positivo, alegre e humano. Mesmo quando na
festa há risadas e também sofrimentos, mesmo quando se celebra ou se
molesta, o norte sempre está em função do renascimento e da vida.
Durante os carnavais da Idade Média, a rotina diária do povo se inundava
de um ambiente festivo, interrompiam-se provisoriamente as
hierarquias sociais, instalava-se a linguagem grosseira e delirante. Nesses
dias, vivia-se como uma segunda oportunidade, uma revanche a favor do
regozijo e do prazer.
Esquecia-se a diferença entre a vida do trabalho e do festejo, unificavam-
se, eram vividos como partes do mesmo. E quando não era tempo de
carnaval, ou de uma festa em especial, a cultura cômica aparecia na praça
pública, nos mercados, nas feiras.
Escutei muitas vezes que o palhaço é a criança que levamos
dentro... Que pensamento limitado. É a criança, o velho, o
louco, o enfermo, o tolerante, o intolerante, o idiota, o fanático,
o amoroso, o assassino... enfim, o humano que levamos dentro,
livre, exagerado e com o objetivo de fazer rir.
Os bufões e os palhaços eram os personagens característicos da cultura
cômica popular. Não eram atores de alguma obra teatral, nem estúpidos
ou "bobos". Conectavam o mundo do carnaval, da cultura cômica, com a
vida cotidiana do povo.
A palavra palhaço tem mais de 200 anos e se
popularizou chamando assim aos cômicos do circo.
Por suas características, a palavra se estendeu ao
jargão popular usando-se de forma depreciativa
contra as pessoas que, por distintas razões,
fracassavam, enlouqueciam ou simplesmente se
animavam a ser pessoais e absolutamente distintas,
geralmente indo contra o estabelecido e empunhando
como bandeira uma invejada e perigosa humanidade.
A palavra é recente, mas o palhaço provém de um ventre primitivo. É
primo de todos esses personagens da cultura cômica, dos histriões
romanos, dos charlatões de feira, dos bufões e dos trovadores da Idade
Média, da Comédia dei Arte do Renascimento. É herdeiro dos
saltimbancos de todos os séculos que com suas piruetas e graças
divertiam as pessoas que iam ao teatro ou passeavam pelas praças. Ou,
ainda, de charlatões de feira que sobreviviam de suas promessas
proféticas e com o anúncio de exibições excêntricas que nunca ocorriam
como anunciavam.
A grande maioria desses personagens não tinha um lugar reservado nas
celebrações oficiais. Era preciso conseguir um por conta própria na praça
pública, nos mercados ou feiras. Só uns poucos conseguiram converter-
se em celebridades. Por isso, uma característica que atravessa tanto os
palhaços como os charlatões de feira, os arlequins como os saltimbancos,
era a capacidade de adaptar-se ao espaço e às situações para entreter.
Ao não ter um espaço garantido, eram artistas nômades, viajavam de
uma cidade a outra seguindo os festejos e as oportunidades para
trabalhar. Logo, o engenho e a arte de cada um deles desapareceram
junto com seu criador.
Há distintostipos de palhaço. O "tony", ou "augusto", é o homem de
palha, o zoado, "bobo", o ausente. No outro lado, está o clown que
representa o cômico elegante, o inteligente, o palhaço branco. Quando
o tony e o clown atuam juntos no circo recriam uma dupla histórica, que
teve outras denominações e que vem de culturas muito antigas, mas que
começam a se repetir, como a conhecemos hoje, desde o circo moderno,
ou seja, desde o princípio do século XIX. Às vezes, se soma às entradas
cômicas outro personagem: o contra-augusto. Segundo Castagnino
(historiador do teatro nacional argentino e do circo crioulo), a missão do
contra-augusto é desbaratar o que armam seus companheiros, os
desconcertando e os colocando em situação de ridículo ante o público.
Um contra-augusto é um tipo de tony que quer viver como um augusto.
Segundo Chacovachi, é um clown que os clowns não gostam. Desbarata
o que se arma na roda de piadas, com honestidade, às vezes com
crueldade, com uma zombaria que atravessa tanto o público como os
personagens. Não se vê por fora, porque o faz desde uma posição similar
ao do augusto. É um contra-augusto, e é a imagem mais adequada que
estamos buscando para nosso palhaço.
Um artista de rua não tem porque preocupar-se com a história, e ao
mesmo tempo deveria a ter presente. As duas afirmações valem. O
palhaço é expressão de uma sociedade, e na América Latina as
sociedades compartilham acontecimentos comuns, desde a colonização,
a exploração e o extermínio das comunidades nativas até as ditaduras
dos sessenta e setenta, os movimentos revolucionários, a terra, e a coca-
cola. As sensações e as idéias com as que se nutre o palhaço para armar
seus materiais provém do terreno de vivências próprio de nossas
sociedades terceiro. mundistas, latino-americanas.
Por trás de cada piada há uma tragédia14. O artista não vai mudar nada
indo sábados e domingos para divertir quatrocentas pessoas. E, no
entanto, há, no círculo que reúne e nas pessoas que se aproximam ao
redor, um gesto primitivo, arquetípico, que se repete desde épocas
imemoriais e que renova, a cada vez, a oportunidade de comunicar
sentimentos, de informar a "verdade" ainda que estejamos mentindo o
tempo todo. Um palhaço tem que ser honesto inclusive em sua
exageração, em sua improvisação delirante. E nestas terras, se você
trabalha e faz rir desde sua humanidade, o fará como um palhaço latino-
americano e terceiro mundista.
O sonho de um sol e de um mar e uma vida perigosa
Há um espaço para trabalhar que está te esperando. É, na verdade, todo
um mundo, o dos artistas de rua de todos os tempos. Dentro do caos que
parece ser esse mundo, há certos circuitos que se mantém. Alguns dados
podem te facilitar o acesso para trabalhar neles e projetar teu ofício.
14 Chacovachi te desafia a contar uma piada, e ele diz onde está a tragédia.
A primeira coisa que temos que dizer é que neste universo você sempre
vai encontrar lugares e possibilidades para trabalhar. A condição é que o
prove por tua conta e te convença. A equação é simples: um palhaço
pode fazer sua apresentação em qualquer praça; praças e lugares
públicos há em todas as cidades do mundo. Uma vez que você tenha a
técnica para reter o público durante quarenta minutos, você pode buscar
as rotinas que melhor se adaptem ao lugar que você escolha e explorar
os distintos canais de comunicação. O idioma não é um impedimento
para entreter e trabalhar. Nós, palhaços de rua, somos como uma tropa
de elite em missões nas quais o valor e o afã de fazer rir formam uma
mesma atitude.
Temporadas na costa
Se eu fosse desenhar uma trajetória para o artista de rua argentino,
poderia ser a seguinte: teria que ter uma praça em sua cidade, uma praça
natal; depois tem que aprender a fazer temporada na costa argentina; e
depois tem que fazer a temporada de inverno na Europa.
A costa argentina é um circuito tradicional para todos os artistas
nacionais e para os que se dedicam ao entretenimento em geral. O país
se lança ao veraneio nas cidades do Atlântico, há tempo, boa disposição
e provavelmente dinheiro nos bolsos. Nós, artistas de rua, vamos nos
conectar com eles nos passeios, nos calçadões, nos lugares públicos,
praças e praias, em rodas improvisadas ou nos teatros.
Para fazer uma temporada na costa, deve-se mandar o material do
espetáculo para a cidade onde você deseja trabalhar e comunicar-se com
a área de cultura da municipalidade. Pergunte quais são os requisitos,
como está a atual temporada, quais são as normas para a atividade. Cada
municipalidade deve ter suas ordenanças, convocatórias, normas,
registro e sua metodologia dedicada à atividade dos artistas de rua.
Talvez eles já saibam quais são os lugares em que se pode trabalhar e
outras questões de organização. Depois, apresente um projeto. Se você
puder, combine os lugares e as datas antes de ir. Alugue um
apartamento. Compre os elementos que precisará para fazer 120
apresentações. E mentalize para trabalhar a maior quantidade de dias
que você estiver ali nessa temporada.
As temporadas são duras.
Compartilho a cidade com muitíssimos artistas de rua e sempre
é igual.
No dia 1 de janeiro você está contente.
No dia 15, você se sente um pouco cansado.
No dia 30, com mal humor:
No dia 15 de fevereiro, você quer se matar...
E, no dia 26, você é o cara mais feliz do mundo. É assim.
Europa
Os países europeus são outro destino chave para trabalhar. A tradição de
festas populares está muito mais desenvolvida e cuidada; algumas dessas
festas são celebradas desde a antiguidade. Carnavais, festas de
padroeiros, festas religiosas e, mais recentemente, festivais e
convenções são destinos importantes para os artistas de rua de todo o
mundo.
Na Europa, as temporadas são de piratas. Você tem uma tática e uma
estratégia. Sabe que vai estar ali por três meses porque como sul-
americano não pode ficar mais tempo. Se conseguir um passaporte
europeu você está feito! Chegue, compre um carro, ou alugue, ou peça
emprestado um. É uma boa opção alugar um carro no aeroporto mesmo,
porque você consegue automóveis com pouco dinheiro, estão novos e
com todos os papéis em ordem. E, no momento de escolher qual, o
melhor é uma caminhoneta ou furgão. Depois disto já está em condições
de começar a trabalhar no dia seguinte.
Você tem que levar pronto um cronograma com as datas das festas
populares e um mapa com os lugares onde se pode trabalhar durante a
temporada: nas grandes cidades e nas cidades balneárias sempre há
passeios, parques e lugares visitados por turistas. Se você conseguir
cidades balneárias nas que se celebre uma festa popular, melhor ainda.
É recomendável organizar bem a viagem: saber que vai a festas maiores,
cidades turísticas e festivais previstos, e que no meio disso pode somar-
se uma ou outra apresentação que o tempo permita. Você tem que
decidir aonde vai, ainda que não conheça como é a cidade, ainda que não
conheça Pontevedra, em Galícia, nem a festa de San Fermín no País
Basco.
Para obter informação de cidades que você não conhece, o mais óbvio é
o mais efetivo: vá até o posto de informações e pergunte tudo, onde você
pode se alojar ou acampar e qual é a programação artística oficial.
Uma vez que você esteja na Europa, você precisa abrir uma conta
bancária. Assim você vai administrando o dinheiro. As moedas na
carteira, todas misturadas, não têm valor. Você vai acabar comprando
algo com isso. Quando chegar a sua casa ou no lugar onde você está
hospedado, conte as moedas e as embale em pacotes: aí já tem valor. E
vai te custar pegar um novo pacote desses. Mas enquanto não conta suas
moedas, não têm valor. Por isso você precisa contar imediatamente,
porque se você terminou a apresentação às 8h da noite, tem moedas no
bolso, vai comer e depois sai por aí, são quatro da manhãe já vai sacar
dinheiro aos punhados como se isso que você comprou fosse ser pago
por outro que não você mesmo. Então você precisa contar o dinheiro do
chapéu e depositá-lo em um banco; converter as moedas em um
número, saber quanto e quando entrou, saber quanto saca. Assim você
pode calcular como vai indo tudo, porque nesses giros também há um
fim econômico.
E conveniente fazer esse percurso com um amigo que também tenha um
espetáculo, porque assim se compartilha o carro, a solidão, os medos e,
além disso, você tem um espelho para aprender.
Há uma forma de aprender que é a mais básica: apresentar o tempo todo,
todos os dias. Há garotos que se fizeram assim desde seus começos.
Talvez não tivessem bom material, mas fizeram um cálculo como este:
um chapéu bom são €600 (euros); uma apresentação normal, em
qualquer lugar, são €300 ou €400; um chapéu excelente €1000; mas, se
eu posso fazer três apresentações por dia de €50, são €150, em 90 dias,
são
€14.000; gasto sete, volto para Buenos Aires com €7000. E com 270
apresentações. Então esses garotos não competiam nos festivais, faziam
apresentações ao lado dos carrosséis, na saída de uma alameda. É menos
grana, menos gente, mas dava um bom resultado nesse cálculo da
temporada completa.
Ir a Europa é assim, há muitos artistas dando volta e você tem que lidar
com tudo. Há um monte de artistas que querem trabalhar e há um
espaço que é o melhor, outro que não é tão bom como o melhor, há
outros que são incômodos, outros nos quais você tem que lutar e você
vai se acomodando continuamente dentro disso, e teu equipamento de
música tem que funcionar, o microfone tem que funcionar sempre, vai
em um carrinho, você alugou uma casa por três dias, e parou quatro em
um camping, todo o tempo é como se você fosse um pirata que vai
buscando moedas, sempre acompanhado por outras pessoas. O sonho
de um sol e de um mar, e de uma vida perigosa.
Isso o faz muita gente deste mundo. São artistas de rua que viajam e se
movem por lugares que conhecem e estão preparados para o que os
aguarda, e por outros que são desconhecidos para eles. Se em alguma
parte da Europa a situação não está boa, os artistas de rua buscam outro
país que esteja melhor, outros destinos, outros continentes, vão à
Indonésia, Japão, América do Sul. Primeiro você os vê sozinhos, indo de
uma cidade a outra; depois se juntam, têm filhos e terminam trabalhando
na porta de casa. Para seguir neste circuito e com essa vida, você deve
ser como um pirata, jovem e sem muitas responsabilidades.
De quem são os lugares?
Se há um artista trabalhando em um espaço público podemos perguntar,
por que ele sim e eu não? Na Argentina, há décadas, quando não existia
nada e você conquistava um espaço como um pioneiro, esse espaço era
teu. É o caso do vendedor de cachorro quente que chega e se coloca em
algum lugar da praça. Se passam cinco anos, a praça se enche de gente e
outros comerciantes: "este é meu lugar, quando eu cheguei não havia
ninguém", diz o vendedor de cachorro-quente. É um código da rua. "Mas
é público, não é de ninguém!". "É de ninguém, e depois é meu" te vão
dizer. Com o palhaço se passava o mesmo.
Os espaços para trabalhar se ocuparam na medida em que se habilitou a
rua como lugar de trabalho e começaram a se difundir as disciplinas de
palhaço e de circo. A princípio, havia poucos. Bastava animar-se,
conseguir fazer uma convocatória estridente ou que chamasse a atenção
das pessoas e mantê-las, e manter tudo o que fosse possível, porque
então podia contar com esse espaço. Se havia outros artistas na mesma
praça, se fazia um acordo: "você se coloca ali e eu vou para aquele lado".
Aproveitava-se a amplitude do espaço. No começo era assim, iam se
armando os códigos à medida que se tornavam necessários (como o de
não convocar sobre a passagem do chapéu de outro artista para não
atrapalhar esse momento sagrado). Nesse código de rua, o mais
importante era quem havia chegado primeiro, quem se havia animado e
descoberto esse território para conquistá-lo, o havia mantido e gerado a
ideia de que ali é possível encontrar espetáculos no chapéu.
No entanto, nós palhaços não fomos os primeiros artistas de rua, por isso
você ia encontrando outros códigos, outras maneiras de ocupar o espaço
público. Na Europa, você descobre que essa atividade tem toda uma
tradição e por isso há um circuito e formas de organização bastante
estabelecidas.
Na Argentina, especialmente na década de 80 e 90, o código era bastante
territorial. Os lugares eram de quem chegasse primeiro e o mantivesse.
Mas na França, o critério é outro. Se dois artistas pretendem o mesmo
lugar, "trabalha o melhor" dos dois. Acaba se impondo o talento, o
reconhecimento, ou o que seja que convença sobre a qualidade do
trabalho.
A rua tem códigos. Mas não estão escritos em nenhum
lugar, e cada dia é cada dia e cada lugar é cada lugar.
Lamentavelmente, hoje em dia é preciso de autorização
para acessar a maioria dos espaços de rua.
A batalha foi perdida. Não gosto de permissões.
Creio que todos os lugares públicos deveriam ser livres
para os artistas, e deveríamos lidar com todos os
problemas que acarretam, porque a liberdade faz mais
forte aos mais aptos e a rua não é para todos: uma
permissão o consegue qualquer um.
Nos festivais europeus, onde chega gente de todo o mundo e fazem isso
há séculos porque são festas populares medievais, deve haver outros
códigos. Geralmente, na Espanha, trabalha o que chega primeiro. Assim
que chegar à cidade ou ao povoado, busque um bom espaço, e te fixe se
não houver ninguém o ocupando, e se não há ninguém, então você se
torna uma referência ali. O critério que deve ser seguido é o de ordem
de chegada. Essa maneira de organizar as apresentações é muito comum
no mítico parque do Retiro, em Madrid. Se você vai por essa região,
acorde cedo. Isso vai durar até que chegue outro artista com o mesmo
interesse e se tenham acabado os bons lugares.
Há uma anedota que quero contar, que envolve dois grandes e
inseparáveis amigos. Parque do Retiro, duas da tarde. Jesus Fornier
(grande malabarista) chega tarde ao parque e com muita necessidade de
trabalhar. Busca espaço e não há. Segue buscando e perguntando aos
amigos se lhe dão o seu, coisa que, claro, não acontece facilmente. Jesús
insiste com Barjot (antológico faquir e o mais trabalhador e madrugador
de todos). Depois de longa negociação, Barjot lhe responde (com sua voz
monocórdica): — "Jesús, querido amigo, nós, artistas de rua, temos dias
bons e dias ruins. Hoje, para você, é um dia ruim."
Em algum momento, esta outra estória me chegou. Chegam três artistas
a uma cidade onde acontecerá um festival, vão comer juntos e até podem
dormir na mesma casa. De manhã, vão trabalhar. Como fazem o acordo
entre si? Avaliam. Saem caminhando à noite e encontram um lugar que
é o melhor, está no meio da praça, onde estão os barzinhos, não passam
carros, há uma luz grande, o piso é liso e limpo, há uma estátua que
protege as costas. Há outro lugar, mas que está mais distante da
concentração de pessoas, com menos trânsito. Aí começam os
problemas. Um diz ao outro: "Pera aí, vocês têm vinte anos a menos que
eu, sou mais velho... vou eu". O outro: "Não, eu trabalhei muito menos
que você e necessito de mais experiência, ao menos que me ajude um
bom lugar". E como esses há muitos argumentos, todos válidos.
Estes são problemas bastante comuns nos festivais. Com o tempo se
encontrou uma forma que me parece a mais democrática: os artistas se
encontram cedo, em uma hora estipulada, e sorteiam os horários e
espaços de apresentação entre risadas e bons agouros. Porque, ao final,
somos companheiros, colegas que amamos o mesmo e isso nos une
desde muitos lugares.
As escolas
Além de tentar, e tentar até que se tornem inconscientes os números
que você quer fazer e não saem, emalgum momento você pode recorrer
a alguém que seja bom no que faz, fazer um curso. O lugar das escolas de
circo, de mímica, clown e de palhaços foi muito importante para o
crescimento dessas disciplinas, porque habilitaram a reflexão e a
renovação nesses âmbitos. Muita gente que vinha de outro lado e queria
avançar nesse caminho passou pelas escolas e encontrou técnicas,
segredos e companheiros com os quais seguiu trabalhando durante anos.
As escolas são algo novo, não têm mais de cinquenta anos. O circo
tradicionalmente se reproduziu de boca a boca (te contavam), ou por
herança (você nascia ou formava parte de uma família que já se dedicava
ao circo), ou via uma foto e então copiava o aparato, a idéia. Um segredo
tinha muito valor. Quando alguém te contava a técnica de um truque ou
número, te dava outras informações para que essa gag ou essa destreza
tivessem o efeito buscado na apresentação. Toda essa informação era
fundamental para que um número fosse um êxito. Quando se fundaram
as primeiras escolas, começou-se a difundir essa experiência. Daí
surgiram novas gerações que se incorporaram ao circo tradicional, mas
também a outros circuitos como o teatro, a televisão e ao circuito de rua.
A primeira escola de circo na Argentina foi fundada por Jorge Luis e Oscar
Videla, em 1982. É a atual escola de Circo Criollo. É a segunda experiência
desse tipo na América Latina, logo depois da escola cubana de circo, de
1976. A história da relação entra essa família e o circo remonta ao bisavô
dos irmãos Videla, o Tony Panchito, que escapou de sua casa, em
Mendoza, para ir com um circo itinerante que passou pela cidade. Na
atualidade, o Circo Criollo já é um espaço de ensinamento emblemático
da história das artes circenses.
A Escola Argentina de Mímica, de Ángel Elizondo15 foi fundamental. Ángel
Elizondo foi e é o mestre indiscutível da arte da mímica na Argentina, um
inovador, delirante e profundo, distante da mímica tradicional de
camiseta listrada e que faz parede. Em 1964, fundou a Escola Argentina
de Mímica, Pantomima e Expressão Corporal, espaço de formação pelo
qual passaram inumeráveis gênios artísticos, alguns que se destacaram
no mundo artístico argentino e global. Elizondo e seus projetos tiveram
um papel ativo na abertura da cena teatral no regresso da democracia
(1983). Sua escola completou 50 anos de existência em 2014.
Desde a década de oitenta, foram aparecendo alternativas para
aprender. Os cursos de Cristina Moreira ensinavam técnicas de atuação
e clown com base em sua experiência na França, onde havia conhecido o
método de Jacques Lecoq. Nos cursos de Elizondo y Moreira se
cozinharam muitas obras e atuações que logo se apresentavam no
Parakultural, ou nos distintos circuitos de Buenos Aires. Dali saíram as
Gambas al Ajillo, o Clú dei Claum, La Cuadrilla e outros grupos, em sua
maioria referenciados no teatro e logo na televisão e no cinema.
Um processo chave na formação e na transmissão da arte de rua foi a
base das Convenções de Circo, Palhaços e Espetáculos de Rua que teve
impulso na metade dos noventa. Por aqui também passaram artistas que
vinham do circo e do teatro, mas o protagonismo era para os espetáculos
de rua que, a esta altura, além do circuito nacional, traziam as
experiências dos festivais e das temporadas na Europa.
15 Ángel Elizondo foi e é o mestre indiscutível da arte de mímica na Argentina,
um inovador, delirante e profundo, distante da mímica tradicional de camiseta
listrada e que faz parede. Em 1964, fundou a Escola Argentina de Mímica,
Pantomima e Expressão Corporal, espaço de formação pelo qual passaram
inumeráveis gênios artísticos, alguns que se destacaram no mundo artístico
argentino e global. Elizondo e seus projetos tiveram um papel ativo na abertura
da cena teatral no regresso da democracia (1983). Sua escola completou 50 anos
de existência em 2014
Por último, o braço da formação dos palhaços de rua foi e segue sendo a
rua, com todos os personagens que habitam e a fazem distinta, nova,
difícil, onde se cruzam vendedores ambulantes, faquires, malabaristas,
bufões, dançarinos, toda classe de seres e você.
Um bom artista de rua deveria ter distintas possibilidades para trabalhar
em lugares diferentes, por isso poderia buscar sua formação em âmbitos
diferentes. Mas também deveria observar a outros artistas de rua. Há
malabaristas que não têm um espetáculo, que trabalham no meio da
praça jogando o diabolô para cima, o fazem rebater contra a parede de
um edifício, com um semáforo, no meio das pessoas, e depois passam o
chapéu e se vão. Os olham de todos os lados, aplaudem. O show dura
cinco minutos e o tipo com isso vai, trabalha tudo o que quer e pode.
Você na rua não precisa ter necessariamente um grande espetáculo de
rua. Tem mais importância a experiência de rua. Se você é músico e não
quer trabalhar na rua, não quer passar o chapéu, faça a experiência de
parar na rua e começa a tocar algo. Você verá o que vai receber como
pessoa. Trate de comunicar-se, não faça mais que isso, e verá o que
receberá.
Convenção de Circo, Palhaços e Espetáculos de Rua
Quando as artes de rua e os espetáculos já eram conhecidos nas praças
e nos lugares turísticos da Argentina, se fez notória a falta de espaços de
encontro entre os mesmos artistas que \ trabalhavam nesta profissão. As
Convenções permitiram reunir essas vidas extraordinárias com o fim de
habilitar intercâmbios, aprendizagens e a possibilidade de mostrar diante
de seus colegas qualquer tipo de material, o genial e o "imostrável".
A primeira convenção argentina de Circo, Palhaços e Espetáculos de rua
foi em dezembro de 1996. Nasce numa casa em que vivia Chacovachi, no
bairro de Barracas, um pequeno hotel de princípios do século, de três
pisos e vinte duas habitações. Durante anos foi uma usina de arte de
onde saíram grandes artistas. Chacovachi havia voltado de uma viagem
pelas convenções européias e iniciou a série do que seriam as
convenções argentinas, singulares em si mesmas, com diferenças éticas,
estéticas e ideológicas a respeito de suas antecessoras na Europa. Mais
adiante, surgiram convenções em outros países da América do Sul,
tomando como inspiração a experiência em nosso país.
Nas edições seguintes, cresceu o número de participantes e de duzentas
pessoas que assistiram à primeira, se passou a receber quinhentos, e logo
cerca de mil artistas.
Durante os quatro a seis dias que durava a Convenção se convivia as vinte
e quatro horas em um grande prédio, repleto de barracas, tendas e
trailers, e artistas dispostos a aprender e ensinar. Em cada Convenção
havia cursos de formação de todo tipo, maratonas de espetáculos,
competições, jogos, debates, fóruns, projeções, cabarés, desfiles pelas
ruas da cidade e outros projetos criativos impulsionados pela
organização. Buscava-se que todos tivessem a possibilidade de oferecer
um curso e mostrar seu trabalho, partindo de um princípio de igualdade:
todos podemos nos imaginar artistas, todos temos algo para ensinar.
Alguém pode pensar nas crianças, por favor!
O trabalho com as crianças é um ponto fundamental de meu palhaço. Eu
tenho um trato muito particular com eles. Me criticaram muito até que
finalmente terminaram por me aceitar, porque eu falo com elas como
gostaria de falar um pai irritado e que se segura, porque se ele faz alguma
coisa, então aí vem Piaget e estraga tudo. Que os palhaços fazem
apresentações para crianças e que são parte do mundo infantil é uma
invenção dos yanquis que colocaram o palhaço para vender hambúrguer
e servir refrigerante. Tivesse colocado outro personagem, um skatista,
não importa! Colocaram um palhaço! Mas isso é recente, é uma
invenção. Se voltamos mais atrás no tempo para ver que tipo de coisas
fazia um palhaço, vamos descobrir que denunciavam, que eram temidospelos políticos e suas apresentações não eram só para os pequenos. As
pessoas iam ver os palhaços que chegavam aos circos porque diziam as
coisas que ninguém dizia. Pepino o '88 era um tipo crítico, um palhaço
temido pelos governantes.
Há uma anedota muito conhecida: Pepino tinha um burro amestrado que
se chamava Pancho e ele dizia que o animal lia o jornal. No meio da
apresentação da tarde, quando colocava um jornal aberto diante do
focinho do burro, este movia a cabeça dizendo Que barbaridade! Pepino
traduz e diz: segundo Pancho esta noite vai ter desordem! Todos riam
pela graciosidade do burro. Essa mesma noite estourava a revolução de
90. Obviamente, no dia seguinte, buscavam Pancho por todos os lados.
O palhaço como um personagem do mundo infantil é algo recente
porque, nos fins do século XVII não existiam crianças. Eram adultos
pequeninos que não tinham importância, salvo em alguma família meio
progressista que lhe dava um lugarzinho. Nos bairros nos quais se
trabalhava todo dia, assim que o garoto já conseguia usar os braços e
ficava sobre as próprias pernas, já começava a "realizar as tarefas dos
adultos.
Na época de Pepino o '88 também trabalhava Frank Brown, que era um
clown inglês muito querido das crianças, mas não fazia apresentações
para crianças. Era um palhaço inglês, com um humor muito refinado e
isso permitia aos pais levarem suas crianças às apresentações. Não
podiam fazê-lo, por exemplo, com um tal Bradley que, assim como Frank
Brown, era também um clown e acrobata inglês, mas que terminava suas
apresentações pelado e, segundo os jornais, tinha um humor
demasiadamente "desinibido". Ao contrário, as apresentações de Frank
Brown estavam cheias de crianças. Era um palhaço que dava balas ao
público, atuava para os pobres em algum evento de filantropia e tinha
uma linguagem muito nobre. Sua fala era um exemplo total de boas
formas e educação para crianças e adultos. Por isso tudo, deixou as
acrobacias e teve que continuar como apresentador e clown depois de
um dia em que, fazendo um número em que saltava sobre doze cavalos,
destroçou uma perna. A Frank Brown iam vê-lo, inclusive, todos os
políticos e cavalheiros da época. Sarmiento* escreveu que Frank Brown
"não voa por pura cortesia".
O espetáculo que estamos pensando a partir deste Manual é para toda a
sociedade, para qualquer um que passe pela rua ou que venha, tenha
onze ou setenta anos. Deve-se falar com as crianças sem ridicularizá-las
ou tratá-las como se fossem estúpidas. Se você fala com ela de igual para
igual, elas respondem, a sua maneira, com seriedade e honestidade, que
é a sensação que permite rir sabendo que por trás de cada piada há uma
grande tragédia. Porque, para isso inventou-se a piada, para fugir das
tragédias.
O palhaço é completamente inofensivo para as crianças e elas percebem
isso. Mas quando se faz piadas muito próprias de nossa sociedade, com
temas sensíveis, pode parecer cruel com elas porque são textos muito
mais profundos, tirados de contexto, diante de uma criança. Todos nós
rimos: o pequeno, o grande; todos podemos ser felizes e infelizes. Todos
significam todos e essa piada nos afeta a todos.
As crianças são mais um personagem das apresentações e não se deve
rir deles, e sim da sociedade na qual eles se põem a crescer. Além disso,
estão ali, são personagens da praça, da feira. Em um teatro você pode
limitar seu público. Com o título de uma apresentação já orienta o tipo
de público, mas o palhaço de rua trabalha com todos os que chegam à
roda na praça ou ao cenário. E as crianças são os primeiros que se
aproximam, sentam na frente, participam e se divertem muito. Por isso,
devemos passar o chapéu para elas também, porque a apresentação
avança com e graças a elas.
Apêndice
Estudo, autobiografia, entrevista
OS DEZ MANDAMENTOS DO PALHAÇO DE RUA
por Lucía Salatino — Área de Investigação em Ciências da Arte (AICA) /
Área de Varieté Centro Cultural da Cooperação.
A última ditadura civil-militar da Argentina, que transcorreu entre os
anos 1976 e 1983, marcou uma das épocas mais obscuras do país. O
regresso à democracia foi um processo lento cuja consolidação contínua
vem até a atualidade. E no início deste processo de transição até a pós-
ditadura que Fernando Daniel Cavarozzi, mais conhecido como Palhaço
Chacovachi, começou sua carreira no ano de 1983.
Nesse período, estudava na escola de mímica de Ángel Elizondo. Ali se
inteirou, por azar, de uma convocatória de atores para desenvolver uma
série de encontros artísticos que se realizariam em diversos parques da
cidade de Buenos Aires em modo de festejo pelo iminente regresso da
democracia. Já havia acontecido as eleições presidenciais que
culminaram com o triunfo do candidato do Partido Radical, Raúl Alfonsín.
Esses encontros representavam a recuperação do espaço público que
havia sido literalmente arrancado pela ditadura civil-militar, já que estava
proibida a livre circulação em grupo, assim como qualquer manifestação
artística ou política. Foi nesse marco que Cavarozzi se apresentou pela
primeira vez numa praça. A partir dessa experiência que constituiu "uma
forma de demonstração cívica", começou a formar-se de maneira
autodidata e intuitiva como palhaço de rua.
Chacovachi carrega mais de trinta anos de carreira nos quais se
desenvolveu como palhaço, diretor e ator, e é considerado um dos
precursores do regresso e da reivindicação do teatro de rua, do circo e
dos malabares depois da última ditadura. Desde seus começos,
apresentou seus espetáculos solo em diversas praças e parques da cidade
de Buenos Aires, como Parque Centenário e Praça França, onde atuou
durante mais de quinze anos. Levou seus espetáculos a diversos países,
como Brasil, Espanha, Marrocos, França, entre outros e é convidado para
numerosos festivais internacionais. Junto com o Circo Vachi (proposta
grupai da qual foi diretor), realizou doze temporadas consecutivas na
costa argentina. Desempenha o papel de diretor da Convenção Argentina
de Circo, Palhaços e Espetáculos de Rua desde sua gestação em 1996 e
de presidente da Fundação Humor e Circo Argentino para o Mundo.
Ao longo de sua carreira, Chacovachi desenvolveu uma sólida teoria da
dramaturgia e da poética do palhaço de rua centradas na figura do
palhaço e de seu corpo em trabalho, na experiência de fazer e na
ocupação do espaço público no qual o palhaço decide realizar seu
espetáculo. Nos últimos anos, além disso, tem se dedicado a dar cursos
nos quais compartilha suas experiências: Guia e Manual do Palhaço de
Rua e "Avivando Giles" . Ambos são destinados a todos aqueles que se
interessam em incursionar no mundo do palhaço de rua, tendo ou não
experiência. Neles, compartilha sua teoria sobre a dramaturgia e a
poética próprias do ofício. Cabe destacar que a dramaturgia do palhaço
de rua de Chacovachi é inerentemente auto-reflexiva e isso a converte
em uma poética explícita. Segundo Jorge Dubatti, as poéticas explícitas
"[...] são metapoéticas, ou seja, expressam explicitamente sua
compreensão das chaves que regem uma poética (pode-se encontra-las
em metatextos, manifestos, preceituário, docência, discurso teórico,
etc.)" (111). É assim que muitos de seus números e de seus espetáculos
em geral se compõem fundamentalmente da reflexão sobre a essência e
o fazer do palhaço. Dentro dessa poética, encontra-se o que para
Chacovachi são os Dez mandamentos do palhaço de rua. Neste trabalho,
se realizará uma análise e desenvolvimento dos dez pontos que nenhum
aspirante a este ofício deveria descuidar. Estes apresentam uma
coerência própria que faz impossível pensar uma parte sem ter em conta
o todo.
1. SERÁS A EXAGERAÇÃO, NÃO A CARICATURA DE
TUA PESSOA
Chacovachi define o palhaço como "o pior ator do mundo". Para ele é um
ser livre, exagerado, cujo fim é fazer rir através do delírio,da provocação
e da denúncia. O palhaço de rua conta com três liberdades que quase
nenhum outro ofício possui: a liberdade física, psíquica e monetária. A
liberdade física consiste na possibilidade de abrir o que logo chamaremos
"o campo de batalha", o espaço no qual o palhaço decide fazer sua
apresentação. Chacovachi descobriu que poderia trabalhar "onde
quisesse; a cidade estava cheia de praças, o país cheio de cidades e o
mundo cheio de países". A liberdade psíquica consiste na necessidade
ontológica do palhaço de Ser. Não tem porque ser um expert nas
ferramentas que emprega, simplesmente já basta com ser. Isto o libera
da pressão do qualitativo e o permite produzir com o que tem à mão,
abrir e ampliar os recursos com o que conta sem deixar-se limitar e sem
deixar de ser afetivo. Isto se vincula com a liberdade econômica, que se
baseia num princípio fundante: “ganhar o dinheiro em relação a minha
capacidade e esforço”. Assim, vemos que a pressão que poderia interferir
na qualidade é revertida em um sentido positivo, em um sentido de
motivações que se relaciona com a condição de “busca-vidas” do palhaço
de rua. O palhaço, de acordo com Chaco, não atua e, se o faz, representa,
nunca interpreta. Não existe uma distância entre o palhaço e a pessoa.
Segundo ele, há três formas de atuação: representar, interpretar e ser.
Ao palhaço lhe corresponde a ser. Neste ponto, é necessário fazer uma
distinção entre o palhaço e o “clown”: “Os clowns e os palhaços são
irmão, filhos da mesma arte, só que o palhaço é um filho não reconhecido
e o clown é um filho gestado em um ventre alugado ao teatro (...) Para
ser palhaço só é preciso atrever-se, para ser clown é preciso estudar”. O
clown requer mestres. Ao contrário, o palhaço se vai criando de maneira
autodidata, em sua própria prática. O modo de trabalho é o teste e o erro
e a reformulação constante dos números e rotinas. Chaco assinala que
“(...) se você sai de sua casa com uma malinha, com figurino e vai a uma
praça, convoca as pessoas, faz uma apresentação, passa o chapéu e volta
pra tua casa, você é um palhaço de rua”. O clown, em contrapartida, está
em constante busca e questionamento de sua definição.
2. NUNCA TE IRRITARÁS COM O PÚBLICO (NÃO
CONVÉM)
Chaco diz que fazer uma apresentação de palhaço na rua é como jogar
xadrez. Todos sabem como se joga. O palhaço joga com e contra o
público. Move o palhaço e move o público. De acordo com o movimento
do público, move o palhaço. Parece uma obviedade dizer que sem o
público a apresentação não se pode realizar, mas há que se ressaltar que
o público que assiste os espetáculos de rua têm características próprias
que o diferencia do que assiste em uma sala de teatro. O público que vê
uma apresentação de rua é muito heterogêneo, tanto nas idades como
nas profissões, classes sociais, etc. Muitas vezes é pego desprevenido, já
que não sabe com o que vai encontrar, em certas ocasiões ao ponto de
ser um encontro casual. Não tem o tipo de expectativas tão definidas
como as tem aquele que paga uma entrada para uma poltrona no teatro.
Se o espectador não está interessado, tem a possibilidade de ir embora
sem sentir-se incômodo. Por este motivo, a relação que o palhaço tem
com o público é muito estreita. Sem os espectadores, o palhaço não pode
"jogar" sua partida. No lugar onde se desenvolve a apresentação, se
estabelece um verdadeiro "campo de batalha" entre o público e o
palhaço, produzindo-se uma relação de reciprocidade e proximidade
muito maior que em outros tipos de espetáculos mais convencionais.
3. NA RODA SERÁS O CENTRO DO UNIVERSO
Um dos principais desafios de trabalhar no âmbito público é o de manter
a atenção dos espectadores. Na rua, como se disse anteriormente, o
público tem uma relação muito próxima com o Palhaço. É por esse
motivo que, segundo Chacovachi, o Palhaço de Rua deve ter a capacidade
de chamar e reter a atenção do público. Uma das coisas que joga a seu
favor é o trabalho em roda. As pessoas o rodeiam. O trabalho em círculo
permite que o público veja seu próprio reflexo, o que faz com que a risada
ricocheteie. Tem algo de ritual. A risada une as pessoas. E isso é ancestral.
Chacovachi assinala que é importante delimitar o espaço e percorrê-lo
para construir o espaço de trabalho constantemente. Isso permite que o
público possa ver o palhaço com maior facilidade. Há outros
elementos/com os quais o palhaço conta para manter o público cativo.
Um deles é ter um pouco de maldade. Uma maldade que é também um
pouco de zombaria, mas que não é nem agressiva nem estupidizante: não
busca fazer rir a partir da estupidez pela estupidez mesma, senão desde
a estupidez do palhaço. Isto se vê claramente, por exemplo, no trato que
Chaco tem com as crianças. Não as rebaixa, se põe na mesma altura e as
trata como se tratam entre elas. Não lhes diria nada que um pai não lhe
quisesse dizer estando bravo como quando, por exemplo, lhes pergunta:
"Vocês gostam de viver neste mundo? Sim? Já vai passar."
4. NUNCA DUVIDARÁS DE TEU MATERIAL EM CENA.
Uma vez na roda, o palhaço só conta com seu material: suas piadas,
números e rotinas, seu espetáculo. Quando duvida de seu material de
trabalho, duvida do que é e, deste modo, perde a dignidade. Seguindo
com o paralelismo com o jogo de xadrez, Chaco diz que o rei é a dignidade
e a fonte de energia do palhaço. "Se você perde alguma dessas
qualidades, deve dar-se por morto. A rainha é sua personalidade e sua
atitude, é a que defende e ataca, a que pode ganhar sozinha uma partida,
a que vai para onde quer e quando quer. Jogar sem atitude e sem
personalidade torna muito difícil o triunfo."
5. DIANTE DO FRACASSO USARÁS A FRASE "TÔ NEM
AÍ!"
O palhaço deve ter em conta que o fracasso é parte fundamental no
processo de criação de um espetáculo. O método é de teste e erro, a
reformulação constante dos números e das rotinas. Os números de um
espetáculo de palhaço de rua não se podem ensaiar. Só se pode provar
sua "efetividade" no jogo com e contra o público no "campo de batalha"
que é a roda. Um número pode levar vários anos de trabalho, testes e
erros. O palhaço pode ter a idéia da estrutura de um número que logo
passa pela fase de teste, que só pode acontecer diante do público. Nesse
momento, se testa a efetividade ou o fracasso da rotina ou da piada. A
reformulação ocorre logo depois da apresentação. Isto está intimamente
relacionado com o mandamento número sete que se baseia na
possibilidade de voltar a testar mudanças na apresentação seguinte.
6. NUNCA USARÁS MATERIAL DE OUTRO PALHAÇO
QUE TRABALHE NO MESMO LUGAR / PRAÇA /
CIDADE.
Chacovachi, em seus trinta anos de experiência como palhaço de rua,
entendeu que um número é um número quando se pode "roubá-lo". Do
mesmo modo, uma piada pode ser considerada como tal quando se torna
anônima. Não deveria haver maior honra para uma rotina de palhaço que
a de tornar-se anônima e passar a ser "clássica". No mundo das rotinas,
poderia se afirmar que não há nada verdadeiramente novo. Dentro do
trabalho do palhaço, as gags e as piadas podem renovar-se, mas a
estrutura mantem-se com o correr dos anos. Por esses motivos, é
fundamental que entre os palhaços de rua existam certos códigos de
convivência. É importante estar em contato com o trabalho dos colegas
e saber reconhecer o trabalho de outros. /
7. ESTARÁS CONVENCIDO DE QUE, SE NÃO É HOJE,
SERÁ NA PRÓXIMA VEZ, MAS ENCONTRARÁS O
SENTIMENTO QUE ESTÁS BUSCANDO.
Como se disse anteriormente, é fundamental que o palhaço nunca perca
a dignidade, para isso deverá confiar em seu material de trabalho já que
é só com isso que conta na hora de jogar com e contra o público no
"campo de batalha". Parte dessa dignidade do palhaço é sua
autenticidade, já que não existe distância entre o palhaço e a pessoa. O
palhaço deve crer plenamente no que está fazendo para poder seguirno
jogo e manter o público interessado. Se alguma piada, gag ou número
não é de todo efetivo, sempre há a possibilidade de voltar a tentar e
reformulá-lo. Isto, por sua vez, está relacionado com a liberdade psíquica
que tem esse ofício, já que se o palhaço, uma vez que sai à rua com seus
elementos de trabalho, escolhe um lugar no espaço público, consegue
atrair o público, consegue levar a cabo sua função, faz rir, passa o chapéu
e volta pra sua casa vivo, ninguém pode dizer que não seja um palhaço.
Porque para Chacovachi o palhaço "é".
8. NÃO RECUSARÁS QUALQUER DESAFIO.
O ofício de palhaço de rua está cheio de desafios que podem ter diversas
naturezas. É esse risco que o mantém andando e sempre alerta. O
palhaço que propõe Chacovachi é um palhaço que trabalha consigo
mesmo e com seu público, formado em parte com quem o está
observando. Do olhar do outro vem o risco, e esse risco alimenta o
trabalho do palhaço de rua. Em outras palavras, trata-se de um palhaço
"terreno", alguém que "é". E isto repercute por sua vez em alguns
princípios éticos próprios. Essa presença no mundo, no "campo de
batalha", o vínculo com o outro e o compromisso vital confluem no
método do xadrez, nas três liberdades do palhaço, e no componente
"buscavidas" que tem esse ofício. Toda experiência, má ou boa, servirá
ao palhaço em sua formação.
9. ESTARÁS AGRADECIDO POR TODA SUA VIDA AOS
QUE TE INSPIRARAM. AINDA QUE NÃO TE CAIAM
BEM.
Este ponto está relacionado com o mandamento número seis: nunca
usarás material de outro palhaço que trabalhe no mesmo
lugar/praça/cidade. O que implica no reconhecimento e respeito pelo
trabalho de outros. Além disso, está vinculado com o fato de que
qualquer um pode ser um palhaço, inclusive sem saber. Qualquer um
pode nos servir de inspiração. Chaco afirma que há muitos palhaços
escondidos em ofícios sérios: midiáticos, políticos, comentaristas de
futebol, poetas, críticos de arte, familiares, etc...
10. SERÁS POLITICAMENTE INCORRETO.
Distante dos estereótipos do palhaço todo colorido e com voz fininha
(que parece estupidizado e, por isso, perdendo a dignidade), o palhaço
de rua, para Chaco é, quase por natureza, politicamente incorreto. Um
claro exemplo deste ponto foi o legendário Pepino, o 88, Pepe Podestá,
que era temido pelos políticos pelas coisas que dizia. Talvez, esta
característica se deva ao âmbito no qual o Palhaço de Rua se desenvolve:
no espaço público. O palhaço se gesta de acordo com o público que o
rodeia, define e reflete a sociedade a que pertence e para a qual se
apresenta. Logo depois de algum tempo trabalhando no Parque
Centenário, no bairro de Caballito, localizado no centro da Cidade
Autônoma de Buenos Aires que é um dos bairros com maior população
da capital, Chaco passa a trabalhar na Praça França, em frente à entrada
do Centro Cultural Recoleta, em um bairro em que há um maior nível
econômico e um status de vida superior. Além disso, nos fins de semana
é um lugar muito concorrido. A mudança de público, principalmente a
classe social deste, marcou uma mudança na carreira de Chaco, não só
no montante que arrecadava ao passar o chapéu. Esse foi o público com
o qual se gestou a época pós-ditadura em que o palhaço simbolizava a
volta da democracia e a recuperação dos espaços públicos. Os
espectadores disfrutavam os espetáculos com certas tintas de crítica
social e política. Em certa medida, Chaco criticava a classe social para a
qual estava trabalhando. Surpreendentemente, o público parecia
disfrutar e festejar seu espetáculo. O palhaço dizia o que os espectadores
não se animavam a dizer. "Aos palhaços é permitido dizer coisas que os
comuns mortais não podem dizer." Sobre isso, Chaco acrescenta: "Nossa
função foi denunciar, criticar, delirar, tudo isso encoberto com humor
porque se o humor pode ser com um pouco de justiça, melhor. De alguma
maneira, os palhaços têm utilizado o humor para fazer justiça."
Conclusão
A poética do palhaço de rua de Chacovachi baseia-se na pura experiência.
Na prática e reflexão constante do fazer do palhaço. Os Dez
Mandamentos aqui trabalhados formam parte de um todo. Cada um dos
pontos está relacionado com os demais. Um dos eixos fundamentais de
sua poética e de sua dramaturgia é a consciência da existência de uma
ética do palhaço, na qual a dignidade é de suma importância. O palhaço
"é", não é um ator interpretando um personagem. É um ser livre e
exagerado, que desenvolve seu trabalho "no campo de batalha", que é
delimitado a um espaço público, como uma praça ou um parque. O
palhaço está longe de ser um "gênero menor". É um ofício que requer
coragem, algo de "buscavidas" e persistência diante do fracasso, que é
um elemento necessário para a criação de um espetáculo de palhaço de
rua. O palhaço é reflexo da sociedade em que se gesta. É por natureza
politicamente incorreto. Ao palhaço só lhe basta o "ser". Não há distância
entre o palhaço e a pessoa. Porque como disse Chacovachi "(...) o palhaço
é a humanidade mesma, é a paródia da humanidade, com tudo de bom
e de ruim que tem o ser humano."
Bibliografia
❖ Burgos Nidia, Dubatti Jorge (compiladores). "El Payaso Chacovachi:
una dramaturgia dei payaso callejero" Lucía Salatino y Ricardo Dubatti en
La actuación teatral. Bahia Blanca, Editorial de Ia Universidad Nacional
dei Sur. 2013. 321-328
❖ Dubatti, Jorge, "Poiesis, Poética/poética, Poética Comparada", en
Cartografia Teatral. Introducción al Teatro Comparado, Buenos Aires,
Atuei. 2008. 73-112
❖ Grandoni, Jorge (compilación y entrevistas). Clowns. Saltando los
charcos de Ia tristeza, Ciudad Autônoma De Buenos Aires. Libros dei
Rojas. 2006
❖ Koss, Natacha, "Jacques Lecoq: el viaje", en Historia dei actor
II. Del ritual dionisíaco a Tadeusz Kantor, Buenos Aires, Colihue.
2009
❖ Lecoq, Jacques, El cuerpo poético. Una pedagogia de Ia creación
teatral, Barcelona, Alba. 2007
❖ López, Mónica y Lucía Salatino, "Manual dei payaso callejero", en
diário Tiempo Argentino, edición impresa 3 de Junio. Disponible en línea
http://tiempo.infonews.com/2012/06/03/suplemento-cultura-77363-
manual-del-payaso-callejero.php 2012
AUTOBIOGRAFIA
pelo Palhaço Chacovachi
Quando começamos a planejar este livro, entendi que o mesmo tinha que
ter uma biografia. Mas de quem? Do palhaço Chacovachi? Do Fernando
Cavarozzi? De quem? E entendi que dava na mesma. Que Chacovachi não
podería ter existido sem Fernando Cavarozzi e Fernando nunca teria
vivido o que viveu e vive sem Chacovachi, assim que naturalmente as
mesclei.
Não nasci sozinho. Além de minha parteira e de minha mãe, também
estava meu irmão (Fabián) comigo, ele é meu gêmeo, ou seja, não estive
só nunca, nem na barriga da minha velha. Sou um animal social, gosto
das pessoas, gosto de vê-las felizes, gosto de brigar, gosto de
compartilhar e também de mandar à merda. Vivi toda minha infância em
Argaharaz no bairro de Almagro. Na mesma casa onde viveu minha
família há mais de 100 anos. Compartilhei minha infância com meus avós,
tias, irmãos e pais, cheio de amigos e basicamente na rua com tudo o que
vem com ela. E creio que essa vivência (aprender a brigar, a compartilhar,
a me cuidar, a disfrutar coisas básicas e estar sempre atento às
circunstâncias) me deu esse treinamento que mais tarde desenvolvería
como palhaço.
De fato, uma das coisas que eu mais gostava de fazer era estar na esquina
com meus amigos e esperar que passassem pessoas para dizer algo que
fizesse rir, coisas provocativas, mas não suficientemente ofensivas que
tornassem a coisa toda num problema, como faço agora,
profissionalmente (as piadas-peões). Uma senhora passeava com um
cachorro: "senhora, que cara de cachorro tem seu filho!". Passava um
careca: "por favor, deixem passar o senhor da peruca transparente".
Passava um menino com um gorrinho: "uh, parece que eu te conheço, tira
esse gorrinho, tiraesse gorrinho"; o garoto tirava o gorro: "uhhhh, por
deus, põe o gorrinho, põe o gorrinho!".
Minha infância foi bonita, era o melhor jogador de futebol da escola,
todas as meninas se apaixonavam por mim, sempre ganhava as lutas e
todos faziam o que eu queria porque me amavam e respeitavam. Na
realidade, não creio que foi bem assim, mas eu o vívi assim e isso me dava
um plus. Não era um fabulador, era um sonhador com os olhos abertos e
disto me dou conta agora (de que, certamente, não era assim) porque
meu filho é igual... os filhos... Ahahaha. Eles te dão uma grande bofetada
de realidade.
Mas essa atitude me deu o caráter para Chacovachi muitos anos depois.
Um palhaço de rua é isso, o melhor de todos, seguramente sem ser e isso
faz rir.
Foi em um colégio de padres, o Benito Nazar, onde aprendi a me rebelar,
onde me irritei com deus até entender que os padres são os farsantes e
que deus, como eles me contam, não existe. Fui expulso no 3o ano,
quando repeti pela primeira vez. Logo essa circunstância se repetiu no
Mariano Moreno e no William Morris, colégio onde supostamente
terminei meu ensino secundário de noite (supostamente).
Tive uma bande rock de garagem (de quintal, para ser mais preciso). Fui
sempre um músico muito ruim, não tenho condições para a música, mas
era aceito por minha capacidade de enfrentar o público. Nessa época
fudida (78, 79, 80), quando os militares assassinos governavam de fato o
país e todos os músicos tocavam escondidos atrás das caixas de som, eu
apresentava a banda, fazia piadas fudidas e até me dava o direito de
cantar, somente a pura atitude, inconsciente claro, mas necessária para
viver nessa época sem estar fechado na sua casa.
Fui pro calabouço muitas vezes, e minha mãe respirava aliviada quando
lhe diziam na delegacia que eu estava realmente ali. Essa época era
muito, muito fudida.
Essas foram minhas primeiras experiências como "artista". Ahahaha. Na
primeira experiência como artista não saiu o músico, mas o palhaço
disfarçado de músico:
Ano 78. Apresentação no salão nobre do Colégio Nacional Mariano
Moreno. Primeira banda: Klerico (minha banda). Subo para testar o
baixo, digo ao técnico de som pelo microfone: "Sobe o baixo", ele não me
escuta, volto a dizer: "Sobe para mim o baixo". Ele não me escuta.
Então lhe digo: "Sobe o baixo, idiota". E deu merda. Não tocamos,
primeiro os organizadores queriam me matar e depois meus
companheiros de banda.
Ou seja: a primeira coisa que fiz como artista foi fazer cagada... bem de
palhaço.
Minha primeira namorada me deixou. Fiquei chorando uma semana...
bem de palhaço. No dia 5 de janeiro de 81, entro pro serviço militar. Saio
no dia 30 de julho de 82 — assim que terminou a guerra das Malvinas. E
com um mais de um milhão de estórias.
Fui o primeiro a ser preso de 2000 soldados e o último a sair de meu
batalhão. Fui atirador de metralhadoras preparando-me para a guerra e
garçom de um general quando a guerra nem existia. Fizeram um teste
psicológico para eleger cinco atiradores de metralhadoras e não sei por
que me escolheram... coisa de palhaço.
Ao general a quem eu servia como garçom, lhe dei de comer churrascos
que eu passava pelo cu antes de os por para assar, mijava na xícara de
café antes de lhe servir e exprimia o pano de chão na salada russa... coisa
de palhaço.
Tenho muita sorte, só me lembro das coisas graciosas. Há tempos caiu
um piano na minha cabeça, deve ser por isso. O piano estava cheio de
marijuana... coisa de palhaço. .
Tive três mulheres. A primeira era escritora. E se você pergunta a uma
escritora se pensa que vai ganhar ou perder na vida, ela vai te dizer que
vai perder: os escritores precisam de perdedores para poder escrever.
Foram dez anos com ela, onde meu palhaço era uma ilha. Não tinha
amigos artistas e meu palhaço se formava sem nenhuma informação. E
isso foi maravilhoso. As primeiras temporadas em Gesell e Necochea com
meu cachorro Filipo e fumando maconha escondido da minha mulher.
Ahahaha. Por deus!... coisas de palhaço.
Kari é uma mulher muito boa, mas eu queria mais, queria correr o mundo
e ela tinha fobia de viajar. Não me sobrou outra opção, tive que me
apaixonar por uma trapezista para deixá-la. E isto é, mais do que nunca,
coisa de palhaço. Os palhaços velhos se apaixonam por trapezistas
jovens, as quais os deixam uns anos depois à beira do suicídio e se
sobrevivem (somente se sobrevivem) se transformam em imortais...
coisas de palhaço.
Maria na Sánchez foi a trapezista, com ela corri o mundo (coisa que
sempre sonhava) e estive muito bem. Mas se a uma trapezista você
pergunta se ela crê que vai ganhar ou perder na vida, sem dúvida vai dizer
que ganhará. Elas são uma casta especial. Não se podem dar a chance de
perder, porque aí se vai a vida. E essa autossuficiência era um chute na
bunda. Estive bem, vinte anos depois a agradeço. Não era a mulher que
eu necessitava.
Eu precisava de uma palhaça. Porque se a uma palhaça você pergunta se
pensa que vai ganhar ou perder, ela vai responder que as duas coisas. E
essa palhaça é Maku Fanchulini, a mãe de meus filhos, a artífice de minha
felicidade. A criadora de Chacovachi feliz. Te amo, amor... amar de
verdade, coisa de palhaços.
Como palhaço teria que falar de minhas noites eternas e loucas no Circo
Vachi em San Bernardo, da bonita e fraterna loucura das Convenções
argentinas de Palhaços, Circo e Espetáculos de Rua, das viagens à
Espanha como artista nômade em festas populares com Maku, do Anjos
do Picadeiro no Rio de Janeiro, onde aprendí como se faz isto de mesclar
compromisso e festa, aprendizagem e loucura... das temporadas
argentinas em Necocha e em Villa Gesell, de meu cachorro Filipo e,
seguramente, algumas coisas mais... mas não vou fazer isso.
Como ser humano teria que falar de meu amor e respeito por minha
velha, de meus amigos vivos, de meus amigos mortos, de meus dois filhos,
Ringo e Lola, que me ensinaram a amar a todos os pequenos do mundo;
depois que nasceram não pude seguir fazendo certas piadas com as
crianças (minha consciência não me deixa... ahahah... a consciência mata
o humor selvagem). E de Maru (Maku Fanchulini): seu amor me tirou da
merda.
ENTREVISTA FINAL
Manual e Guia: a equação torta
Ao término da redação do Manual e Guia do Palhaço de Rua, ficamos
com uma sensação de que o método podia falhar. Nos pareceu que, de
todos os modos, ainda que seguíssemos apontando situações e buscando
soluções para os infinitos cenários com os que se pode encontrar um
artista de rua, as coisas poderíam sair de um modo inesperado. Por isso
decidimos reforçar os pontos frouxos com esta entrevista. Voltamos a
perguntar ao Palhaço Chacovachi sobre alguns temas do ofício do
palhaço para assegurarmos que a travessia tenha alguma garantia. E nos
voltou a surpreender.
No Manual encontramos técnicas e experiências que podem servir a
quem queira começar o caminho da arte de rua. E como foi o começo
no teu caso? Por que, dentre as diferentes artes, você escolheu ser
palhaço?
Eu chego ao palhaço buscando um personagem que fizesse rir. Eu era
músico e fui mímico na Escola Argentina de Elizondo. Ali se faziam mais
coisas dramáticas do que humor. Depois começo a trabalhar na rua e,
logo depois, me dei conta de que tinha que fazer rir, que essa era a
melhor maneira para que funcionassem meus espetáculos na rua. E que
faço?
Um mímico com a cara branca, fazendo a parede? Não. Tenho que ser
um palhaço, que é um personagem que se dedica a fazer rir. Mas meu
palhaço era raro, porque não se vestia como todos os palhaços, nem fazia
piadas comuns, de palhaços, tampouco falava como eles. Fui inventando,
aos tropeções, maneiras de fazer rir, que a sua vez tinha que ir impondo.
Os cirqueiros diziam que eu não era um palhaço, mas um excêntrico, os
palhaços diziam que eu era um cômico, os atores diziam que eu não eranada. Eu me fazia chamar O Palhaço Chacovachi. E mais, a primeira vez
que fiz um cartaz, na Villa Gesell, em 1985, dizia O Augusto Chacovachi.
As pessoas pensavam que Augusto era meu nome. Mas eu queria dizer
que não era clown, que era um agusto, o palhaço tonto. Não era nem o
triste nem o mau, era o tonto. Porque há três tipos de palhaços: o clown,
o augusto e o tony. O augusto é o povo, o tonto, o desalinhado. Mas
muita gente não tinha essa informação e se confundia. Então tirei o
"Augusto" e me pus O Palhaço Chacovachi. E finalmente estive bem
porque meu palhaço é um contra-augusto, é um clown que vai com os
augustos.
No caminho encontrei muitos outros motivos para me dedicar a isto. Dos
mais importantes é que o palhaço tem três liberdades. Entendí que no
meio dos artistas de rua se jogava com três liberdades que não estavam
em quase nenhum outro lugar. Primeiro, uma liberdade física. Eu
comecei trabalhando na praça da esquina de minha casa, depois fui para
a Praça França, depois descobri que há um monte de cidades com praças
e que havia, ainda, mais países com cidades e praças, e assim tens o
mundo. Trabalhei em vinte países diferentes. Isso o pressenti no primeiro
dia. Tenho que trabalhar, disse, nada mais. Estive no Marrocos,
trabalhando ao lado de um encantador de serpentes por três dólares,
mas com um desses três dólares pagava o hotel, com outro comia e com
o que sobrava, fumava. Além disso, há uma liberdade psíquica. Não há
competição. Eu ressalto isso, e isso é um dos princípios das Convenções.
A competição existe, claro. Mas não se trata de uma coisa selvagem. A
liberdade psíquica, a chamo eu, é não ter que ser o melhor porque com
"ser" já basta. Eu digo que a arte do palhaço é uma arte menor, e gosto
de dizer isso para que não me encham o saco. Sim, somos uma arte
menor. E depois há uma liberdade econômica. Você vai ganhar dinheiro
de acordo com tua capacidade e teu esforço. Se você vai a uma praça,
chega, convoca, trabalha, passa o chapéu e faz rir e volta para casa,
então, se você quiser pode afirmar que é um palhaço de rua e ninguém
poderá dizer o contrário. Se bom, ^ ruim, não tem importância. E se
ganhar cinquenta pesos quando precisa quatrocentos, terá que fazer oito
apresentações, irmão, mas vai conseguir os quatrocentos pesos porque
não corre o risco de que apareça outro fazendo o que você faz, ou de que
não tenha estudado, não depende disso.
Como você chegou até o nome "Chacovachi"?
Nessa época, os nomes de palhaços eram Verdurinha, Fosforiznho... mas
eu tive a sorte de que a literatura sempre me ajudou. Tive acesso a bons
livros. Poucos, mas bons. Um da Espanha, que me deu uma amiga,
contava a história de um montão de palhaços espanhóis, com fotos,
relatos. Havia um que se chamava Ramper. Ramón e Pedro eram dois
irmãos acrobatas, mas um morreu e o segundo se fez palhaço e escolheu
o nome de Ramper, uma composição de seus nomes. Nas apresentações,
sentava um boneco de seu irmão na cena, uma coisa muito louca. E era
famosíssimo. Até a rainha ia vê-lo. Há uma foto dele, com um triciclinho
na mão, falando com a rainha Isabel de Espanha. De Ramper eu peguei a
idéia para a maquiagem porque esse palhaço me emocionava. E me fui
dando conta que tinha que usar coisas que me emocionavam na
composição do palhaço. Na roupa, no nome, tinha que haver elementos
que me emocionem. E eu tratava de me rodear disso. Busquei um nome
durante dois anos, não queria cair em algo parecido com os que já
conhecia. Certa vez, estava viajando ao sul de trem, como mochileiro, e
quando o trem ia chegando aos povoados, passava o guarda tirando o
nome das estações. Em um momento, ficamos somente os mochileiros
que iam para Jacobacci para pegar o "Trochita", e daí para Esquel. Cada
vez que entrava o guarda, eu gritava "chacovachiii"! No entanto, não era
Jacobacci, era outra estação, outro povoado. O guarda, um gordo
enorme que chegava carregando um molho de chaves, dizia "não!". A
primeira vez não foi engraçado. A segunda, sim. A quinta era muito
engraçado. Me recordo perfeitamente dessa viagem. Estive dois meses
percorrendo o sul, sozinho, aos vinte anos, tinha me salvado da guerra,
nessa época eu via duendes de verdade... foi uma viagem transcendental.
Em um momento, eu estava em Esquel, lavando o saco em um rio gelado,
passam uns mochileiros acima na montanha e gritam "Chacovachiii!". Aí
me iluminei. Disse: é o nome que tenho que ter. Depois fui buscar outros
mil sentidos: que tinha dez letras, que tinha o ”ch" de Chaplin, de
Chapolin, que soa meio musical, e muito mais. E, em seguida, comecei a
difundir meu nome para que soubessem como me chamar, para que
comecem a ter confiança no que eu fazia. Não sei se era bom ou ruim o
que eu fazia, mas conquistei uma empatia, uma confiança. Me parece
que era como esses "maus bons" dos filmes. São maus, mas as pessoas
os adoram.
Há alguma etapa da sua vida depois da qual você começou a se
identificar mais com um contra-augusto do que com um augusto?
Eu me ponho punky depois que minha segunda mulher me deixa e minha
mamãe morreu. Mudei para uma fábrica abandonada e enlouqueço de
vontade de viver... outra vez.
Por que em uma fábrica?
Aos fins dos anos 90 comprei um loft em uma fábrica de fios (CELSA) onde
supostamente construíram lofts. A questão é que foi uma dor de cabeça,
entrei com processo e depois de um tempo ganhei. Me deram uns
metros quadrados dentro de uns galpões, e fui viver ali. Ficava sobre a
rua Enrique Finochietto, em Barracas. O lugar era muito particular. Em
frente ao presídio de Caseros, perto dos neuropsiquiatras Borda e
Moyano, ao lado do hospital de infectologia Muniz e colado a uma praça
que foi cemitério da febre amarela nos fins de 1800 ahahah. Depois,
outros amigos foram se instalando ali, porque te permitia comprar com
pouco dinheiro e fazer tua casa. Isso gerou um lugar de culto para os
artistas de rua. No princípio, éramos quatro vivendo em dois mil lofts,
porque a fábrica ocupava toda uma quadra. Éramos vinte e cinco, trinta
artistas. Todos fizeram suas casas ali, e não havia duais iguais. Foram
anos maravilhosos, até que chegaram os peruanos vendendo paco . Uma
vez, fizemos um festival para arrecadar dinheiro e melhorar o esgoto, se
chamou "por um mundo sem troços". Vieram milhares de pessoas para
os pátios de Finochietto. A proposta era uma loucura. Foi muito boa a
arrecadação. E, ainda por cima, me apaixonei pela Maru (Maku
Franchulini). Eu a vi da janela da minha casa. Quando se aproximavam as
temporadas, em dezembro, entravam no pátio os caminhões com os
semi-acoplados e se carregavam os circos. Todos os anos saíam de
Finochietto o Circo Vachi e o Circo Xiclo que iam e vinham pela costa e
para outras partes do país.
Você diz no livro que o palhaço de rua tem que se preparar para poder
trabalhar só. Como é para alguém que tem que enfrentar esse
problema, de bancar-se sozinho, saber que conta com outros
companheiros que estão na mesma situação? Como é a relação com
outros artistas?
Se eu estivesse começando por agora, iria para Europa com amigos que
estivessem na mesma situação. Vamos compartilhando a viagem.
Compartilhar é fundamental para o palhaço de rua. Se você tem quatro
ou cinco amigos que fazem o mesmo, vão a uma praça e a conquistem.
Vão aos sábados e domingos, ponham bandeiras, façam um cabaré,
passem o chapéu. É uma experiência bonita que você pode fazer com os
recursos que tem a mão. Depois, uma vez que viveu essa experiência,
precisa se jogar sozinho. E aí é todo um outro mundo. Precisa de muita
determinação, é um guerreiro jedi o que trabalha só. Trabalhar só é a
liberdade. A maioria dos benefícios começa a aparecer quando você
começa a trabalhar só.
E como você pensa que este Manual vai ajudar essa pessoa a trabalhar
sozinha?
Pode inspirá-lo, porque é o que fiz toda a vida e é doque trato de
transmitir aqui. Se o leitor está aberto, vai encontrar um monte de coisas
que vai reconhecer em si mesmo. Eu suponho que, além disso, o vai
ordenar e vai dar segurança para não se sentir o único idiota que sente
tal coisa, que na realidade há milhares de idiotas que sentimos e
necessitamos do mesmo, tudo isso com informação que sai por a haver
vivido. Uma vez o palhaço Papelito (grande palhaço de animação) me
disse algo que talvez pudesse ofender a outra pessoa, mas me encantou.
Me disse, "Sabe quando decidi ser palhaço? Uma vez que te vi na Praça
França, e disse, isto que faz esse palhaço é muito fácil, se ele faz, eu posso
fazer." Depois fez seu próprio caminho. Mas para mim é um orgulho que
me digam isso.
Há algum aperitivo para acompanhar este Manual e a experiência de
quem o carregue?
Eu creio que há duas coisas que você tem que aprender para ser artista.
Pergunte, pergunte a si mesmo o quê, como, por quê? E aprender a
escrevê-lo, traduzi-lo no papel para poder vê-lo e seguir criando. Eu
tenho quarenta cadernos. Vou anotando tudo que posso. E testei um
montão de coisas em relação com a criação. E uma das coisas das quais
me dei conta é que quanto mais cansado você está, mais criativo fica.
Com que personagens você cruzou que te permitiram aprender e te
inspiraram, sejam ou não reconhecidos?
Toda pessoa com quem aprendi é para mim um mestre, mesmo que
quisesse ou não ter me ensinado algo. Sempre falando de pessoas que
pude conhecer, com as que tomei um vinho, fumei algo, ou
simplesmente nos encontramos em um camarim várias vezes e nos
conhecemos os nomes. Eu creio que o que mais me influenciou,
lamentavelmente, é com quem eu menos contato tenho, Leo Bassi. Sem
dúvida. Também aprendi muitíssimo de dois figuras que são totalmente
distintos: Tortell Poltrona y Jango Edwards. Mas, se você me pergunta
qual foi o mais importante na minha vida para aprender esta profissão,
foi o Anjos do Picadeiro, o encontro internacional de palhaços que
acontece no Rio de Janeiro, e organizam meus amigos do Teatro de
Anônimos. Eu sou o palhaço que sou porque existiu Anjos do Picadeiro e
eu fui a quase todas suas edições. O primeiro foi em 1996, eu fui ao
seguinte em 98 e depois nunca deixei de ir. Já vão dezesseis encontros
de Anjos. É algo similar a Convenção. A Convenção e Anjos foram minhas
duas pontas de aprendizagem. Na convenção vi tudo o que existia nessa
profissão. E dar cursos também me ajudou muito, para aprender.
A partir de que situação você encara o humor?
Eu primeiro pensava que para fazer humor tinha que revirar na merda.
"Cuidado, um palhaço mau pode arruinar tua vida" é isso. E agora, que
estou em outro momento de minha vida, penso que você tem que revirar
na ideologia da merda, e isso é diferente. Aí você se encontra, já não com
o escatológico, senão com o humano que há na merda. Ele que te olha,
em seguida reconhece essa ideologia e reconhece uma parte de si
mesmo. Quem te vê, logo reconhece essa ideologia e reconhece uma
parte de si mesmo ali. Por isso, hoje, tento ser livre, busco ser
interessante, verdadeiro e fazer as coisas bem dentro do que "se está
fazendo mal". Quando toco o violão, não quero tocar bem. Na realidade
busco outra coisa. As pessoas vêem um figura fazendo mal as coisas, se
dão conta que está desafinada o violãozinho, os incomoda um pouco... o
que te incomoda? Que um figura se atreve e é feliz?
Que classe de trabalhador é o palhaço de rua?
O palhaço de rua é um artista. De segunda ou terceira classe, não
importa, é um artista. Qual é a diferença entre o artista e todos os
demais? O artista mostra a si, não a um personagem. Agrega algo mais à
vida, sua visão, que é o que a maioria das pessoas não se atreve a fazer.
E age como um artista, não perde a oportunidade de criar. Eu penso que
o palhaço de rua tem que buscar ser autêntico em suas criações. E o que
é ser autêntico? A resposta está em um filme de Almodóvar. A cena é
assim: um travesti está se pintando frente a um espelho. Uma amiga que
descobre nesse momento sua condição a reprova que não está bem, que
"ele" não é assim, que como e por que... em resumo, lhe diz que não é
autêntico. A travesti, sem deixar de se pintar, responde que a única forma
de ser autêntica é se parecer com seus próprios sonhos.
Quais são as palavras que te orientam antes de sair para a cena?
Creio que nos últimos minutos antes de entrar em cena não sei nem onde
estou. Há gente que tem que se alimentar, ou repassar uma letra. Eu fico
muito excitado meio minuto antes de entrar. Não tenho medo. Sou o
palhaço de "Balada Triste de Trompeta". Quando chega a guarda civil
franquista ao circo e interrompem a apresentação, o palhaço triste,
Santiago Segura, que está vestido de mulher diz: "Capitão, me troco para
lutar?" "Não", responde o outro, "assim você vai se apavorar". E ele sai
vestido de palhaço, aos gritos, e lhe acertam um tiro no pé. Bom, eu não
penso em uma palavra. Tomo ar, me testo. Melhor, me esvazio e tomo
ar como se fosse entrar em um lugar onde pode acontecer qualquer
coisa.
REFERÊNCIAS PARA SEGUIR
Filmes, Livros e Festivais
Livros
❖ Enriquez, Enrique. La nariz dei payaso y otros dibujos mentales.
Comala.com, Caracas, 2002.
❖ Jorge Grandoni. Clowns. Saltando Los Charcos de Ia Tristeza. Eudeba,
Buenos Aires, 2006.
❖ Bruno M. Gagliardini — Brunitus. Poesia cirquera. Edición dei autor,
Buenos Aires, 2012.
❖ Castro, Alice Viveiros de. O Elogio da Bobagem — palhaços no Brasil e
no mundo. Editora Família Bastos, Rio de Janeiro, 2005
Filmes
❖ Shakes the clown, Bobcat Goldthwait (Dir.), 1991.
❖ Los comediantes (Funny Bones). Peter Chelsom (Dir.), 1994.
❖ Muertos de risa. Álex de Ia Iglesia (Dir.), 1999.
❖ La última carcajada (Punchline). David Selzter (Dir.), 1988.
❖ Balada triste de trompeta. Álex de Ia Iglesia (Dir.), 2010.
❖ The Comic. Carl Reiner (Dir.) Dick Van Dyke (protagonista), 1969.
❖ Man on the Moon. Milos Forman (Dir.), 1999.
Festivais
❖ Anjos do picadeiro (Teatro de Anônimo). Rio de Janeiro, Brasil.
❖ Fira deTàrrega. Cataluna, Espana.
❖ Festival International de théâtre de rue. Aurillac, Francia.
EPÍLOGO
por Brunitus
* Texto extraído de "Poesia cirquera", Buenos Aires, 2012.
Manifesto
Morrer loucos tendo matado por nossas idéias.
Morrer tristes por tê-las visto morrer antes que nós.
Todos, alguma vez, desejamos matar alguém.
Um instante imperceptível em que o ponteiro do relógio nem chega a se
mover. Um desejo efêmero que eriça a pele. Um sentimento voraz que é
preciso conter. Punhos cerrados e dentes apertados. Um punhal manchado
de sangue.
Ali, onde nasce esse sentimento tão poderoso. Ali, nasce a arte.
Uma pincelada se sente como ao cravar de uma faca. Um poema é uma
bomba que explode. Ou que não explode. Um passo de dança é a bala que
atravessa a carne e atuar, atuar é envenenar. Fazer rir é matar lentamente.
Fazer rir a gargalhadas é tortura.
A verdadeira arte são as vontades de matar.
Matar.
Despedaçar a mediocridade. Esquartejar a apatia. Estrangular a hipocrisia.
Que se dessangrem os prejuízos, que agonize a repressão, que morra
lentamente a escravidão do espírito.
Matar. Porque se não nos adiantamos, a comodidade atará nossas idéias
sem nos darmos conta, a avareza lhe vendará os olhos e o conformismo
lhes dará um soro acético e diatópico.
E ali, imóveis, a indiferença lhes cortará as veias e a mentira os afogará
lentamente.
Se não nos adiantamos, nossas idéias morrerão no tinteiro o silêncio do
não aplauso nos fará envelhecer rapidamente até morrer de tristeza.
Disso se trata. De escolher.
Morrer locos. Morrer tristes.
SUMÁRIO
O método xadrez 11
As peças 12
O rei: dignidade e energia 12
A rainha: personalidade e atitude 14
Bispos, cavalos e torres: as rotinas 15
As piadas-peões 15
Táticas e estratégias: o desenvolvimentoda apresentação 15
O palhaço é comunicação 17
Comunicação corporal: corpo do palhaço 18
Os três olhares 20
A rua como meio 20
Sobre clowns e palhaços 24
O palhaço que você é 26
Palhaço de profissão: sobrevivendo com o ofício 26
A consciência mata a arte. Apenas vá e tente 29
Correr riscos 31
O palhaço é o pior ator do mundo 32
Uma arte menor 34
O material que você tem 36
Piadas 36
Rotinas 39
Códigos no roubo 42
O lugar da improvisação 42
Arte, técnica e criatividade 45
Polindo o diamante: análise e escritura 48
Número participativo 49
Classificação 50
Estrutura dramatúrgica 52
Exemplos 53
Os dez mandamentos do palhaço de rua 56
Dramaturgia da apresentação de rua 57
Pré-convocatória 59
Convocatória 62
Farsa de começo 65
Primeiro número 66
Número participativo 67
O chapéu 67
Despedida e final 72
Circuito de rua 74
O palhaço vem de um ventre primitivo 75
O sonho de um sol e de um mar e uma vida perigosa 78
Temporadas na costa 79
Europa 80
De quem são os lugares? 82
As escolas 85
Convenção de Circo, Palhaços e Espetáculos de Rua 87
Alguém pode pensar nas crianças, por favor! 88
Apêndice91
Os dez mandamentos do palhaço de rua 92
Autobiografia 101
Entrevista final 105
Referências para seguir 112
Epílogo. Manifesto, por Brunitus 113