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Os irmãos Allport e a Psicologia Social
Embora a Psicologia Social tenha surgido como ciência independente nos Estados Unidos, suas raízes são encontradas na Europa. A Psicologia Social tem origem nos estudos comparativos que Wundt (1832-1920) desenvolveu acerca da Psicologia dos Povos, Völkerpsychologie, na Universidade de Berlim, entre 1900 e 1920. As gerações seguintes de experimentalistas europeus, principalmente Külpe e Ebbinghaus, contestaram a afirmação de Wundt sobre a impossibilidade de estudar os fenômenos mentais com o método experimental. Eles acreditavam que o corpo humano delimitava o objeto de estudo da Psicologia. Assim, Külpe estudou o pensamento sem imagem e Ebbinghaus a memória. Ambos pesquisadores foram responsáveis pelo reducionismo do projeto wundtiano pois não se tratava mais de estudar os fenômenos mentaiscomo Wundt havia proposto, mas o organismo (FARR, 2000). Com esta substituição de objeto de estudo a Psicologia Social torna-se uma ciência natural, deixando de estar vinculada à Filosofia e passando a se conectar à Biologia. Portanto, as posições assumidas pelas novas gerações de experimentalistas foram cruciais para o esquecimento da Psicologia Social de Wundt. Já nos Estados Unidos podemos identificar que o paradigma positivista encontrou solo fértil somado a ideologia individualista. Na primeira metade do século XX, no campo da Psicologia Social ocorreu o mesmo fenômeno de substituição do objeto de estudo. Porém, desta vez o protagonista foi o norte-americano FlodyAllport (1890-1978) que publica Social Psychology (1924) tornando ciência experimental e comportamental o que Wundt tratava como ciência da mente. Flody Allport delimita o campo da Psicologia Social na medida em que relaciona behaviorismo e individualismo, utilizando argumentos reducionistas como: a realidade última é o comportamento; só os indivíduos se comportam; uma multidão não possui sistema nervoso central, logo, a consciência é individual. Também se encontra perpetuado o paradigma positivista na Psicologia Social cognitivista proposta pelo irmão de Flody Allport, Gordon Allport, o qual individualizou os conceitos de atitude e de personalidade. As teorias dos irmãos Allport integram o rol das psicologias sociais psicológicas, caracterizadas por possuírem um aspecto empírico e individualizante, as quais vão ao encontro da Psicologia Cognitiva, pois tendem a utilizar predominantemente metodologias Momento, ISSN 0102-2717, v. 25 , n. 2, p. 9-18, jul./dez. 2016 14 experimentais. As psicologias sociais psicológicas têm por objetivo analisar e explicar as influências do meio social e avaliar e promover o ajustamento do indivíduo na sociedade. Trata-se aqui de uma perspectiva adaptacionista, de origem estadunidense, fundamentada a partir do Behaviorismo e da Gestalt. Entretanto as raízes destas teorias encontram-se na Alemanha, como vimos anteriormente, com o surgimento da universidade moderna e seu “modelo laboratorial” de ciência. Modelo este que encontrou solo fértil na ideologia individualista norte-americana (FARR, 2000). Entretanto a aceitação norte-americana desta Psicologia Social cientificista não se deve apenas a convergência entre um modelo de sociedade individualista e uma ciência reducionista, mas, sobretudo, ao aparato técnico que esta Psicologia Social ofereceu tanto durante a Segunda Guerra Mundial como no período pósguerra (FARR, 2000).
Floyd Allport
Floyd Henry Allportt é reconhecido como o fundador do campo moderno da psicologia social. Ele foi o primeiro a escrever uma dissertação nos EUA sobre psicologia social (chamada "A influência social: um estudo experimental do efeito do grupo sobre os processos mentais individuais"). Ele desafiou grande parte do modo de pensar de seus dias, concentrando-se nas interpretações comportamentais de temas sociais e enfatizando indivíduos, e não grupos, como agentes do comportamento social, em cujo contexto ele cunhou os termos facilitação social e produção de tendência. Seu trabalho inclui pesquisas sobre influência social , convergência e conformidade , teoria da personalidade e medidas de atitudes.
Seu livro Social Psychology (1924) foi o meio pelo qual a psicologia social começou a se firmar como uma ciência experimental. Em vez de enfatizar questões e temas sociológicos , o que havia sido feito exclusivamente até esse ponto, a Psicologia Social enfatizava os comportamentos individuais e as medidas de atitudes. Neste livro, ele pediu um design de pesquisa muito mais rigoroso, após o qual desenvolveu a metodologia que acrescentou um foco maior nas reações experimentais e objetivas dos indivíduos. Ele examinou a convergência do julgamento individual em contextos de grupo, grupos de referência e normas de grupo por meio de pesquisa em laboratório. Esse exame empírico ajudou a solidificar a psicologia social como um campo de estudo legítimo. Allport mostrou como foi fácil transformar certos relatos psicanalíticos em uma linguagem mais orientada ao comportamento para explicar como desenvolvemos certos hábitos.
Allport também estudou extensivamente a atitude. Ele estava insatisfeito com os meios existentes de medição de atitude, então criou uma técnica original. Forneceu listas de itens nos quais os sujeitos podem ter atitudes diferentes nas quais foram classificados de um extremo ao outro e, em seguida, as classificações médias em cada posição foram pontuadas.  Esse foi um dos primeiros esforços sólidos de quantificação de atitudes, outra maneira pela qual a psicologia social trabalhou para se verificar no campo da pesquisa psicológica.
Gordon Allport
Gordon Allport foi um psicólogo norte-americano que entrou para a história por estabelecer as bases da psicologia da personalidade. Sua teoria da personalidade foi considerada uma das primeiras teorias humanistas por sua concepção do ser humano como um ente autônomo com livre arbítrio. Allport defendia que as pessoas não são motivadas unicamente por instintos e impulsos, nem são governadas pelo passado. 
Além de sua teoria sobre a personalidade, Gordon Allport contribuiiu com informações muito importantes para a psicologia nos campos de motivação, do preconceito e da religião dos indivíduos. Desse modo, seu legado é muito amplo e ele se transformou em uma figura realmente interessante no campo da psicologia. 
Gordon Allport enfatizou fortemente as motivações e os pensamentos conscientes dos indivíduos,  provocando um grande interesse pelo desenvolvimento da personalidade. Allport tentou buscar um equilíbrio entre as principais correntes do momento. O behaviorismo parecia incompleto, superficial, enquanto a psicanálise era muito complexa. Como consequência de um encontro com Freud, seu interesse por desenvolver uma teoria própria se consolidou. 
Gordon Allport é conhecido por ser muito influente em muitas áreas da psicologia, sendo especialmente conhecida sua teoria dos traços de personalidade. Essa teoria determina que cada ser humano possui centenas de traços. Ele classificou 4.500 palavras que definem uma pessoa e as agrupou em três níveis: Traço cardinal: é o traço dominante de uma pessoa e é o que molda a identidade, as emoções e os comportamentos do indivíduo; Traço central: são traços principais, embora não sejam dominantes. São inerentes à maioria das pessoas e estabelecem as bases de sua personalidade e suas ações; Traço secundário: são traços pessoais, particulares de cada indivíduo. Frequentemente, só se revelam de maneira confidencial e em determinadas condições.
Além de sua Teoria dos Traços de Personalidade, ele identificou genótipos e fenótipos; em outras palavras, as condições internas e externas que motivam o comportamento de uma pessoa. Em sua obra Personalidade: uma interpretação psicológica (1937) define a personalidade como: “a organização dinâmica dentro do indivíduo daqueles sistemas psicofísicos que determinam sua adaptação ao ambiente”. 
Além disso, enfatizou que essa personalidade é diferente em cada indivíduo. Allport se interessou também pela natureza da vontade, da motivaçãoe da determinação das pessoas. Deu destaque para a importância da aprendizagem, dos comportamentos e dos pensamentos de um indivíduo, que são produto de toda uma história de vida. Ou seja, o que determinado indivíduo pensa em um momento é fruto de seu passado, mas também de seu presente.
Gordon Allport promoveu o “movimento interdisciplinar” da Universidade de Harvard, do qual surgiu o departamento de ciências sociais dirigido por Talcott Parsons. De acordo com Allport, a psicologia social é a disciplina que usa métodos científicos para “entender e explicar como o pensamento, os sentimentos e os comportamentos dos indivíduos são influenciados pela presença real, imaginada ou implicada de outros seres humanos”. Além de suas contribuições, também criticou a psicanálise de Freud e o behaviorismo radical. Por sua vez, desenvolveu o conceito de propium, ou seja, a parte da personalidade que parece desempenhar um papel íntimo e central para a pessoa.
Abordou, além disso, outras questões como o preconceito e a religião. Allport realizou uma exaustiva análise sobre a questão do preconceito, exemplificando e aprofundando-se nas discriminações que os judeus e os afro-americanos sofriam.  Tudo isso está reunido em uma de suas obras mais reconhecidas: A natureza do Preconceito.
Após sua morte, deixou um inconfundível legado no campo da psicologia. Considerado um dos pioneiros da psicologia humanista, Allport é, sem dúvida, uma importante figura do século XX.
D’OCA, K. N. M.; SANTOS, R. R. G.; SANTOS, R. C. G.. A constituição da Psicologia Social e sua diversidade epistemológica.. 2016, n. 2, pp. 13-14.
Gordon Allport: a biografia do pai da psicologia da personalidade.2003. Disponível em <https://amenteemaravilhosa.com.br/gordon-allport-pai-psicologia-da-personalidade/>. Acesso em 11 set. 2019
SOUZA, Felipe. O que é psicologia social. Disponível em <https://www.psicologiamsn.com/2011/07/o-que-e-psicologia-social.html> Acesso em 11 set. 2019

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