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A INAPETÊNCIA

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A INAPETÊNCIA de Rafael Spregelburd
Tradução: Hugo Villavicenzio
Personagens:
SRA. PERROTTA
MARIDO
FUNCIONÁRIO
SARA
VIRGÍLIO
CIGANO
MAGALI
ROMITA
LEILA
CENA 1
A Senhora Perrotta e seu MARIDO estão sentados à mesa. Comeram pouco ou estão acabando de comer. Um televisor ligado aumenta as pausas com sua ladainha de ozônio.
SRA. PERROTTA: Contei o que aconteceu ontem?
MARIDO: Acho que contou.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Pensei que não tivesse contado.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Cheguei exausta. 
Pausa
SRA. PERROTTA: Saí ontem à noite. É por isso que queria saber se já tinha contado. Nunca pensou em adoção? 
MARIDO: Pensei.
SRA. PERROTTA: A gente poderia ter um filho. Ter um filho sem confusões. Ultimamente fico pensando em adoção.
MARIDO: Se você quiser.
SRA. PERROTTA: É lógico. Todo pai sempre prefere ter um filho, um filho de verdade.
MARIDO: Por mim, tanto faz.
SRA. PERROTTA: Você quer falar disso? Além do mais, acho que sendo a mãe tenho o direito de falar alguma coisa.
MARIDO: Não estou ligando pra o jeito de tê-lo. Pode até ser adotado.
Pausa.
MARIDO: Bom, fala o que você queria falar.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Isso já vai passar. Eu fiquei animada feito uma boba. Mas, foi só por um momento. A ideia da adoção, a burocracia, tudo isso. Veja bem, quando a gente faz uma adoção pode escolher o sexo do menino. Podemos adotar uma menina, o que seria uma benção. Achei que poderíamos falar disso.
MARIDO: Tudo bem.
SRA. PERROTTA: Não, deixa pra lá. Estou morrendo de fome!
MARIDO: Não, se a gente discorda de algo temos que encara-lo. Pelo menos uma vez na vida. É uma coisa sobre a qual eu penso que sim e você pensa que não, só isso. Não estou a fim de adiar nada.
SRA. PERROTTA: Nossa, que exótico. Não quero acabar divorciada.
MARIDO: Não é para tanto. Não seja exagerada. Todo casal é obrigado a discutir certos assuntos. Isso é normal. Mesmo sendo doloroso, acho. Ao final de contas, estamos falando da adoção de um filho, e não da guerra na Bósnia. Certo?
SRA. PERROTTA: Você falou, tanto faz.
MARIDO: Não. Falei que estava tudo bem. Inclusive, cheguei a admitir várias vezes que tivesse pensado em adotar.
SRA. PERROTTA: Então? Do que você está falando?
Pausa.
MARIDO: Bom, achei que era uma discussão possível.
SRA. PERROTTA: É.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Na Bósnia ou na Sérvia?
Pausa.
SRA. PERROTTA: Desculpa. Então, a gente concorda, podemos adotar.
MARIDO: Podemos.
Pausa.
MARIDO: Não ficou com fome? Você falou o que?
SRA. PERROTTA: Que comeria uma criançinha de Deus.
MARIDO: Posso preparar um espaguete. Ou, mais omelete.
SRA. PERROTTA: Não, pode deixar. Comi demais.
MARIDO: Eu também.
SRA. PERROTTA: Aquele lugar é a Iugoslávia, não é? 
Pausa.
SRA. PERROTTA: Tem laranjas.
MARIDO: Mmm, ótimo. É a ex Iugoslávia.
SRA. PERROTTA: Vai querer?
MARIDO: Não, obrigado, tudo bem. Depois compro um chocolate.
SRA. PERROTA: Tem.
MARIDO: Mmm.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Quando foi que pensou em adotar?
MARIDO: Sempre estou pensando em um monte de coisas.
SRA. PERROTTA: Quando foi?
MARIDO: E no meio disso, um dia imaginei esta casa tomada por um ou dois garotos pequenos. Miúdos, mesmo. Depois eles iam para escola, se formavam, tomavam conta da gente quando ficarmos velhos. Ficavam nos alimentando.
SRA. PERROTTA: Eu ainda estou jovem.
MARIDO: É verdade. Pensei em outras coisas também.
SRA. PERROTTA: Você deveria praticar algum esporte. Tênis, ou qualquer outra coisa. Por isso fica pensando besteiras. Porque você não faz nada que preste.
Pausa.
MARIDO: Você vai sair?
A SRA. PERROTTA olha surpresa e fica em silêncio. Depois de um tempo.
SRA. PERROTTA: Vou sair sim. Estou saindo. Muito bem. Fui.
CENA 2
A SRA. PERROTTA está num escritório.
FUNCIONÁRIO: Não quer sentar?
SRA. PERROTTA: Dá na mesma.
FUNCIONÁRIO: A senhora queria falar comigo?
SRA. PERROTTA: É. Olhe essa fatura. É de vocês.
FUNCIONÁRIO: É sim.
SRA. PERROTA: Então, é por isso.
FUNCIONÁRIO: Não estou entendendo.
SRA. PERROTA: Entende perfeitamente bem.
FUNCIONÁRIO: (Fechando a porta.) Fiquei sabendo que provocou um escândalo no guichê. Apesar da fatura estar correta.
SRA. PERROTTA: Eu sabia que estava correta. Devolva pra mim, por favor, não quero perde-la. (Guarda a fatura na sua bolsa.)
Pausa.
FUNCIONÁRIO: Então?
SRA. PERROTTA: Então, eu estou aqui.
FUNCIONÁRIO: Não teve nenhum sobrepreço, o endereço está certo, o nome confere. Você é a senhora Perrota.
SRA. PERROTTA: Meu nome não tem importância. Neste caso prefiro o anonimato. 
FUNCIONÁRIO: Neste caso?
SRA. PERROTA: Não complique as coisas, tá? Eu já sei quem são vocês, então, você já deveria saber o que eu quero.
FUNCIONÁRIO: Quem somos nós?
SRA. PERROTTA: Não falo mais nada. Se estivesse errada já teria sido jogada na rua. Eu quero experimentar. Estou sabendo que estão aceitando novos membros.
FUNCIONÁRIO: Por que não fala direito o que você quer?
SRA. PERROTTA: Não, não falo mais nada. Tenho vergonha. Ficarei esperando você falar o que devo fazer. Suponho que o lugar não é aqui, no próprio escritório.
FUNCIONÁRIO: Aceita um cafezinho?
SRA. PERROTTA: Aceito.
FUNCIONÁRIO: (Chamando pelo interfone.) Sara. (Senta-se, tem os braços cruzados sobre a escrivaninha e a cabeça apoiada nos braços.)
Pausa.
SARA: Olá.
SRA. PERROTTA: Olá.
SARA: Eu sou Sara.
SRA. PERROTTA: Um prazer.
Pausa.
SARA: Bom, então?
FUNCIONÁRIO: Sei lá. Ela...
SRA. PERROTTA: Não é nada fácil pra nenhum de nós três, falar disso. O que me deixa um pouco aliviada. Cheguei bastante apavorada. Eu sou uma mulher normal. Suponho que tão normal quanto vocês. Moro com meu marido. Com minha família. Algumas vezes escapo de casa. Tenho minhas amigas. Elas também são normais. Todas nós somos pudicas. Minhas amigas também são casadas, mas às vezes traem os seus maridos. Nunca fizemos sexo em grupo. O meu marido é um tanto quanto quadrado. Desculpem, mas alguém tinha que começar a falar disso.
SARA: Não se preocupe, continue, por favor.
SRA. PERROTTA: No entanto, somos muito independentes. Educamos nossos filhos com total independência, para eles conseguirem escolher entre o bem e o mal. Além do mais, quando o assunto é o desejo...
SARA: Quando o assunto é sexo, pode falar, não tem problema.
SRA. PERROTTA: É isso aí. A gente não pode falar: isso está certo, aquilo está errado.
FUNCIONÁRIO: Tem quantos filhos?
SRA. PERROTTA: É, tem dados que é melhor não... No caso de... Vocês compreendem, não é? Se eu quiser, também posso pegar minha bolsa neste momento e sair por aquela porta do mesmo jeito que entrei. E a gente nunca se conheceu. Eu mal sei o nome de vocês. 
SARA: Sou Sara.
SRA. PERROTTA: Isso é o que você fala. Posso chama-la de você
FUNCIONÁRIO: O seu nome consta na fatura Sra. Perro...
SRA. PERROTTA: Não fale meu nome, por favor. Não estrague tudo. Um sobrenome é sempre um sobrenome. Se bem que alguns sobrenomes nem são verdadeiros. São sobrenomes de casada, nomes de outros.
SARA: Haja paciência. O que a senhora está querendo dizer?
SRA. PERROTTA: Eu sei que aqui são organizadas sessões de...
SARA: Sadomasoquismo?
Pausa.
SRA. PERROTTA: Minhas amigas transaram entre elas e também com desconhecidos, com homens e mulheres. Temos discutido muito o assunto. Quando nos juntamos para bater papo. E tudo bem.
SARA: E elas falaram para vir aqui?
SRA. PERROTTA: Eu preferia ter vindo com meu marido. Más ele não topou. Provavelmente por vergonha. Ele fica envergonhado se eu estou presente. Já faz um bom tempo que não temos relaciones normais. Mas, alguém olhando de fora pode até achar que somos um casal muito feliz. Hoje no almoço tivemos uma discussão horrível. Falamos de assuntos dolorosos, de coisas muito antigas. Chegou a insinuar que eu estava envelhecendo muito mais rápido do que ele. O que é verdade. Ele pratica esportes, chego a acreditar que ele tem uma vida sexual muito ativa, extraconjugal é claro. Eu, por minha vez, não faço nada. Só as reuniões com minhas amigas.
SARA: Não trabalha?
SRA. PERROTTA: Eu trabalhava. Mas, fiquei grávida do primeiro filho, tive que largar, depois veio o segundo muito mais de pressa do que eu esperava, então, vocês podem imaginar. Então fui ficando