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A INAPETÊNCIA

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pela rua quando vi um troço bem esquisito. Vou contar para vocês. Era um paraplégico. Faltava-lhe uma perna. Juro que era impossível olhar para os olhos dele. Porém, eu não podia deixar de tentar fazê-lo. A falta da perna em si não era o mais impressionante, a perna ausente não era feia; agora, o lugar onde começava a ausência da perna... Dá para entender? Não era a falta da perna, era o lugar, era a fronteira. A beirada.
MAGALI: O cotoco. 
ROMITA: Isso mesmo. Estava todo torto. Não era uma ausência sem punição. Era desonesta, até. Tem outras perdas que são mais elegantes. Não querem comer? Tem muitas coisas faltando, tem crianças com fome e tudo mais, eu não estou negando isso. Mas, o que é feio mesmo é o cotoco.
Pausa. 
MAGALI: Cada coisa que vocês pensam, hein? Eu fico toda atordoada.
ROMITA começa a rir, a SRA. PERROTTA ri, a seguir MAGALI ri. Depois ficam em silêncio.
CENA 5
A SRA. PERROTTA está em casa. LEILA, uma garota de uns vinte anos, está frente a ela.
SRA. PERROTTA: Leila, pelo menos espera que chegue teu pai.
LEILA: Para que?
SRA. PERROTTA: Para falar com ele.
LEILA: Dá na mesma.
SRA. PERROTTA: Tive um dia de cão, não complica mais as coisas. Tudo está prestes a ir por água abaixo.
LEILA: Um dia de cão.
SRA. PERROTTA: Comeu alguma coisa?
LEILA: Comi.
SRA. PERROTA: Certeza?
Pausa.
SRA. PERROTTA: Escuta aqui, Leila. Eu vou sentar e ficar esperando teu pai chegar. 
LEILA: Faça do jeito que você quiser. Eu acabo de arrumar minhas coisas e me mando.
SRA. PERROTTA: Tudo bem. Você está cansada de saber que eu nunca me meti na tua vida. Nem na dos teus irmãos. Eu os eduquei do jeito que deu. Quando você quis fazer a tatuagem, que foi o que eu falei? Não dei um pio. É isso aí. Fez a tatuagem. Quanto tempo demorou em se arrepender?
LEILA: Você poderia ter avisado que ia me arrepender.
SRA. PERROTTA: Eu poderia sim criatura, mas e o poder da moda? O poder da moda sobre os jovens os deixam deslumbrados, os jovens querem experimentar tudo.
LEILA: Você poderia ter salvado meu peito, o que acabei tendo que tirar.
SRA. PERROTTA: Você tem toda razão de reclamar, toda. Pode reclamar.
LEILA: Não, se é para você ficar feliz, não vou reclamar.
SRA. PERROTTA: Você é ruim. Foi você quem quis a tatuagem. Depois, quis adiantar as matérias da faculdade, quis enfiar tudo de uma vez na sua cabeça, não queria poupar-se de nada. E no final de contas, como se saiu?
LEILA: Não sei.
SRA. PERROTTA: É lógico que não sabe. Porque fez o curso em dois anos.
LEILA: E daí?
SRA. PERROTTA: Dai! Os estudantes normais se formam técnicos em cinco, seis anos, isso se tiverem sorte. Por que Iugoslávia?
LEILA: Estão convocando voluntários. 
SRA. PERROTA: Mas, você é uma criança, porra. Uma criança meiga e delicada. 
LEILA: É, mas tem a guerra. As guerras arrasam os campos onde crescem milhares de rosas meigas e delicadas.
SRA. PERROTTA: Sim, mas isso é lá. Na Bósnia. Aqui é diferente. Aqui você tem o parque Lezama[footnoteRef:1]. Tem a casa da tia Olga. [1: Parque Gregório Lezama, no sul do bairro de San Telmo em Buenos Aires.] 
LEILA: Estou cheia disso. 
SRA. PERROTTA: Pelo menos espera pelo teu pai.
LEILA: Ok. (Pausa.) Tia Olga cheira mal. Suas festas cheiram mal.
LEILA senta-se. A SRA. PERROTTA manuseia uma mexerica, o faz com muita dificuldade. Descasca cuidadosamente, porém de maneira torpe. Ela sofre um pouco com isso, suja-se e deixa a fruta de lado. Black out rápido.
Quando volta a luz, o MARIDO também está sentado ao lado delas. LEILA está afundada no sofá. A SRA. PERROTTA tem aparência exaurida.
MARIDO: Peço que desculpem a minha falta de tato, mas não esperava encontrar semelhante situação familiar. O que aconteceu comigo hoje foi forte. Acredito que é bom vocês saberem. Fiz uma palestra sobre a remoção de grãos e os riscos nas apólices de seguro que me deixou esgotado. Fizeram-me perguntas que eu não conseguia responder. E vocês sabem muito bem que sou especialista na matéria.
Pausa.
MARIDO: Já comeram? Podemos pedir umas pizzas.
Pausa.
MARIDO: Queria relaxar. Fui ao circo Gustavo Rodó. Estavam desmontando a carpa, tinha três sujeitos quando cheguei. Pedi para eles me sodomizarem. Eu sei Leila, que isso acaba com um monte de expectativas que você poderia ter feito sobre nós, sobre integrar conosco uma família, uma família padrão.
SRA. PERROTTA: Família padrão são duas pessoas com dois filhos. Um homem e uma mulher. Um casal com dois filhos.
MARIDO: É isso. Um deles era o administrador. A temporada não tinha sido muito boa para eles. Estavam indo para Baradero.[footnoteRef:2] Depois fomos tomar um café. Como o café me provoca acidez, eu só fiquei olhando e ouvindo. Contavam histórias fascinantes, números com porcos amestrados. Falamos do futuro. Não sei. Talvez viaje com eles. Depois voltamos para o circo e continuou a função. [2: Cidade ao nordeste da província de Buenos Aires.] 
SRA. PERROTTA: Olha! A Leila vai como voluntária para Bósnia.
MARIDO: Para Bósnia?
SRA. PERROTTA: Pedi para ela ficar, pelo menos, para falar contigo.
MARIDO: Mas, aquilo não é a ex Iugoslávia?
LEILA: Se achamos que já acabou, é a ex. Se, pelo contrário, conseguimos juntar a energia de milhares de jovens e nos empenharmos em semear os campos de rosas que foram destruídos pelos tanques, aquilo continuará sendo a grande Iugoslávia, a grande pátria, o jardim onde eu quero que brinquem meus filhos.
SRA. PERROTTA: Você é uma ingrata. Nem poderia amamenta-los direito. Você é muito teimosa.
LEILA: Não é “ex” Iugoslávia. Vocês são a minha ex-pátria, eu quero me expatriar, cuspo nos pratos de comida que recebi aqui, apanho as minhas coisas e vou embora.
LEILA sai de cena. Depois, atravessa o palco algumas vezes, recolhendo objetos cenográficos que pretende levar.
SRA. PERROTTA: Vai ficar aí olhando o mundo desabar sem fazer nada?
MARIDO: Cala essa boca, está bom?
SRA. PERROTTA: Fiquei com fome, Vou ligar para a pizzaria.
MARIDO: Liga.
SRA. PERROTTA: (Disca um número no telefone.) Alô? Sim. Quero pedir algo para comer. Isso, uma grande. (Para o MARIDO.) Posso pedir napolitana? (O MARIDO concorda.) Sim, isso mesmo. Uma napolitana grande. (Para o MARIDO.) Você quer fainâ?[footnoteRef:3] Estou perguntando para você. [3: Fainâ, acompanhamento feito com farinha de grão de bico.] 
MARIDO: Sim, eu falei que sim. Quantas vezes você quer que eu repita?
SRA. PERROTTA: Não escutei, está bom. Não, não é com você. É aqui, na minha casa. São dois fainâs, sim. Para a família Klein, Klein com “E”. Dá na mesma. Quanto vai demorar? Bom, que seja o mais rápido possível, por favor. (Para o MARIDO.) Peço para eles cortarem? (O MARIDO faz um claro gesto de infelicidade, parece querer falar, mas finalmente acaba cruzando os braços, está aborrecido.) Ótimo, obrigado. (Desliga o telefone. Pausa.) Tenho uma fome enorme. Olha que comi alguma coisa à tarde na casa de Romita. Ela fez panquecas com doce de leite. Comimos feito formigas. A Magali beijou a minha boca. Eu estava toda lambuzada de doce de leite nos lábios, então ela beijou a minha boca.
MARIDO: Você pediu cortada?
SRA. PERROTTA: Eu achei que...
MARIDO: Pediu ou não pediu?
SRA. PERROTTA: Bom, eles sempre mandam cortada.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Bem que você poderia tirar a bunda da cadeira e procurar uma faca.
MARIDO: Acabaram de me arrombar o cú. Você é besta ou idiota?
SRA. PERROTTA: Olha, estou ficando de saco cheio.
MARIDO: Foram três. Um deles era o administrador do circo.
SRA. PERROTTA: Tudo bem, tudo bem, já entendi.
LEILA: (Entrando.) Bom...
SRA. PERROTTA: A que hora parte o avião?
LEILA: Não é hoje, é daqui a uma semana. Mas, eu queria deixar tudo pronto.
SRA. PERROTTA: Promete que você vai escrever para a gente.
LEILA: Claro que vou.
SRA. PERROTTA: Pedi uma pizza. Por que você não fica, senta e a gente come junto.
LEILA: Vai dar para nós três? 
SRA. PERROTTA: Claro que sim, vem cortada em oito pedaços.
MARIDO: Pediu para trazerem cortada?
LEILA: Será que vai dar? Eu não quero atrapalhar vocês. 
MARIDO: (Aborrecido.) Cala a boca, se tua mãe diz que dá, então dá.
LEILA senta-se. Pausa.
SRA. PERROTTA:
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