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www.esab.edu.br Desenvolvimento humano e aprendizagem Desenvolvimento Humano e Aprendizagem Vila Velha (ES) 2013 Escola Superior Aberta do Brasil Diretor Geral Nildo Ferreira Diretora Acadêmica Beatriz Christo Gobbi Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Beatriz Christo Gobbi Coordenadora do Curso de Administração EAD Rosemary Riguetti Coordenador do Curso de Pedagogia EAD Claudio David Cari Coordenador do Curso de Sistemas de Informação EAD David Gomes Barboza Produção do Material Didático-Pedagógico Delinea Tecnologia Educacional / Escola Superior Aberta do Brasil Diretoria Executiva Charlie Anderson Olsen Larissa Kleis Pereira Margarete Lazzaris Kleis Conteudista Andreia de Bem Machado Lélia Florisbal Pereira Angela Mendes Ana Clotilde Zimmer de Cerqueira Cezar da Cunha Coordenação de Projeto Andreza Lopes Patrícia Battisti Líderança Técnica Design Educacional Renata Oltramari Líderança Técnica Revisão Gramatical Tiago Costa Pereira Supervisão de Design Gráfico Laura Martins Rodrigues Design Educacional Adriana Novelli Giovana Spiller Aline Batista Revisão Gramatical Bárbara Seger Zeni Daniela Piantola Elaine Monteiro Seidler Laís Gonçalves Natalino Paulo de Tarso Vieira Suzana Raquel Bisognin Zanon Design Gráfico Fernando Andrade Neri Gonçalves Ribeiro Diagramação Karina Silveira Dilsonir José Martins Junior Equipe Acadêmica da ESAB Coordenadores dos Cursos Docentes dos Cursos Copyright © Todos os direitos desta obra são da Escola Superior Aberta do Brasil. www.esab.edu.br Av. Santa Leopoldina, nº 840 Coqueiral de Itaparica - Vila Velha, ES CEP 29102-040 Apresentação Caro estudante, Seja bem-vindo à disciplina Desenvolvimento Humano e Aprendizagem. Esta disciplina abordará a psicologia do desenvolvimento humano e suas relações com a aprendizagem. Primeiramente, contextualizaremos o significado da psicologia, pois percebemos que esta está presente em nosso cotidiano. A cada dia, necessitamos dela mais e mais para atuarmos nas escolas, nas instituições, nas empresas e até mesmo nas relações familiares. Quem nunca perguntou a alguém ou surpreendeu-se com algum amigo questionando sobre a vida e as relações humanas? Quando somos muito pacientes em escutar um assunto, um recado ou até mesmo um desabafo, somos meio psicólogos. Esta disciplina abordará aspectos relacionados ao desenvolvimento humano nas diferentes fases da vida: infância, adolescência e maturidade, enfatizando as relações entre o desenvolvimento humano e a aprendizagem. Trata-se de uma área do conhecimento das ciências humanas composta pelas seguintes áreas do saber: Filosofia, Antropologia, História, Linguística, Pedagogia, Economia, Administração, Geografia, Direito, Arqueologia, Psicologia, entre outras, e que aborda questões do ser humano como indivíduo e como ser social. Neste caderno de estudos utilizaremos como referências Barros (2008), Biaggio (2011), Bock, Teixeira e Furtado (2009), Coll, Marchesi e Palacios (2004a, 2004b), Lakomy (2008), Moyles (2006) e Vygotsky (1998). Conte sempre conosco em sua caminhada nesta disciplina. Sucesso e bom estudo! Objetivo É compreender os processos de desenvolvimento humano por meio do conhecimento das teorias da psicologia do desenvolvimento e do entendimento dos métodos de aprendizagem nas diversas interações no contexto escolar. Habilidades e competências • Elaborar atividades pedagógicas para as diferentes realidades da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. • Elaborar, executar e avaliar planos de ação pedagógica na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. • Relacionar as contribuições da psicologia do desenvolvimento humano nos processos de aprendizado, em diferentes etapas do desenvolvimento humano e em diferentes níveis e modalidades do processo educativo. • Compreender a relação entre teorias de desenvolvimento humano e teorias da aprendizagem humana. • Entender as contribuições da psicologia da aprendizagem para o desenvolvimento da criança. • Entender limites e possibilidades no processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança na escola. Ementa Contribuição da psicologia à educação. Introdução aos movimentos e escolas da psicologia: behaviorismo, construtivismo, sociointeracionismo. Paradigmas e teorias do desenvolvimento humano. Estudo da epistemologia genética: raízes epistemológicas e históricas, a relação sujeito e objeto do conhecimento, assimilação, acomodação e processo de equilibração. Características gerais dos principais períodos do desenvolvimento: da primeira infância à idade adulta. Desenvolvimento na infância e adolescência e suas implicações para o processo de ensino-aprendizagem. Teorias da aprendizagem humana. Sumário 1. Histórico e conceito da psicologia e sua relação com a educação .....................................7 2. Teoria do desenvolvimento humano: a concepção behaviorista de Skinner ..................14 3. Teoria do desenvolvimento humano: a concepção construtivista de Piaget ..................19 4. Teoria do desenvolvimento humano: Vygotsky e a relação entre aprendizado e desenvolvimento humano ............................................................................................24 5. Memória, pensamento, percepção e atenção ................................................................29 6. Brinquedo, aprendizagem e desenvolvimento humano ................................................35 7. Relação entre teoria do aprendizado humano e desenvolvimento humano ..................41 8. Memória e pensamento no contexto escolar .................................................................46 9. Percepção e atenção no contexto escolar ......................................................................51 10. A linguagem segundo Vygotsky ....................................................................................56 11. A importância do brinquedo para o desenvolvimento humano no contexto escolar .....61 12. Teorias da aprendizagem humana ................................................................................68 13. Teorias do condicionamento e a educação escolar I: Thorndike e Skinner ......................74 14. Teoria do condicionamento e a educação escolar II: Bandura ........................................84 15. Teorias cognitivistas de aprendizagem e educação escolar I: Ausubel e Bruner .............89 16. Teorias cognitivistas de aprendizagem e educação escolar II: Piaget .............................96 17. Construtivismo em sala de aula...................................................................................100 18. Teorias cognitivistas de aprendizagem e educação escolar III: Vygotsky ......................106 19. A Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) e o processo de ensino-aprendizagem ...114 20. Teorias cognitivistas de aprendizagem e educação escolar IV: Wallon e Gardner .........120 21. Teorias cognitivistas de aprendizagem e Educação Escolar V: Rogers ..........................127 22. Psicologia: aspectos da personalidade e aprendizagem ..............................................131 23. A inteligência e o processo de aprendizagem ..............................................................135 24. A motivação e a aprendizagem ...................................................................................140 25. Apresentando tipologias para a aprendizagem ...........................................................145 26. O processo de ensino-aprendizagem e as interações professor-alunos .......................151 27. A Epistemologia Genética e a Teoria Psicanalítica ........................................................155 28. O comportamento social na infância ...........................................................................161 29. O desenho na infância .................................................................................................166 30. As emoções e o aprendizado .......................................................................................17331. Interações sociais e a aprendizagem ...........................................................................179 32. A agressão e sua influência no aprendizado ................................................................184 33. A adolescência sob múltiplos olhares ..........................................................................189 34. Problemas de aprendizagem ......................................................................................194 35. Dificuldades na aprendizagem ....................................................................................200 36. Dificuldades educativas especiais relacionadas à linguagem ......................................206 37. Problemas no comportamento ...................................................................................213 38. A relação entre os alunos e a aprendizagem ...............................................................220 39. Propostas de ensino e a prática pedagógica ................................................................225 40. Transtornos globais do desenvolvimento ....................................................................230 41. O apoio pedagógico dentro do contexto escolar ..........................................................237 42. A avaliação e o processo de aprendizagem ..................................................................242 43. Relações entre as diferenças individuais e o aprendizado humano .............................250 44. Contribuições da psicologia e a formação de docentes ................................................258 45. Relação entre a atividade docente e a psicopedagogia ...............................................265 46. As inovações educacionais facilitadoras da aprendizagem propostas na escola ..........272 47. Os problemas relacionados à leitura textual e às estratégias de aprendizagem e compreensão de textos ...............................................................................................277 48. Panorama das dificuldades e desafios no processo de ensino e aprendizagem na matemática.................................................................................................................284 Glossário ............................................................................................................................295 Referências ........................................................................................................................312 www.esab.edu.br 7 1 Histórico e conceito da psicologia e sua relação com a educação Objetivo Estudar as fases históricas da psicologia, compreendendo cada etapa dessa área do conhecimento, e analisar o significado da palavra psicologia e sua relação com a educação. Você já percebeu que toda a produção humana tem sua história? Tudo ao nosso redor tem história: um lápis, um computador, o tablet em suas mãos; enfim, cada objeto, cultura e situação tem sua história. Então, não poderíamos deixar para trás a história da psicologia. Como você já teve contato com esse assunto na disciplina de Psicologia da Educação, encontrará, nesta disciplina, alguns pontos em comum que serão retomados ou mesmo relembrados. Vamos ao estudo? Para compreender algo com profundidade, em primeiro lugar temos que recuperar a sua história. Acreditamos que você, que está lendo este material, tem sua história de vida pessoal, não é mesmo? Tem um passado, um presente e terá um futuro. Temos de entender um pouco da nossa história para compreendermos quem somos e por que pensamos ou agimos de determinada maneira. E você, já pensou quanto tempo de história tem a psicologia? A história da psicologia como ciência tem por volta de 130 anos. Seu surgimento se deu com os gregos, no período de 700 a.C., e se destacou pelo avanço no pensamento humano. Essa foi uma época marcada por grandes conquistas: destacamos a construção das cidades-estados (polis), cuja manutenção estava atrelada à aquisição de riquezas. Com isso, novas estratégias foram traçadas para conquistar novos territórios (Mediterrâneo, Ásia Menor, chegando até a China), o que gerou riquezas devido ao domínio dessas novas terras e ao aumento dos impostos pagos pela população. www.esab.edu.br 8 Nessa época, existiam alguns homens que se preocupavam em estudar as coisas do espírito, como também a filosofia e a arte. Entre eles, destacamos os filósofos Aristóteles (384-322 a.C.) e Platão (428-348 a.C.), que se dedicavam a estudar, refletir, observar e compreender o espírito empreendedor do conquistador grego. Figura 1 – Aristóteles e Platão. Fonte: <www.commons.wikimedia.org>. A partir do estudo desses filósofos, surge, na Grécia, a primeira tentativa de sistematizar o pensamento do espírito humano e, consequentemente, o conceito de psicologia. Podemos nos questionar: qual a origem dessa palavra? Como já mencionamos, esse termo tem origem nos gregos e, para entendê-la, temos de dividi-la nos radicais psico e logia. A primeira expressão significa psyche (alma ou atividade mental). A segunda significa logos (razão ou estudo). Juntando-as, temos psico+logia, que apresenta o seguinte significado: o estudo da alma ou o estudo da atividade mental. Afinal, o que é psicologia? Trata-se de um termo que designa o estudo da alma. Hoje, não se concebe mais o mundo psíquico como sinônimo de alma, e sim como registros simbólicos e emocionais que vamos construindo a partir de nossas vivências no mundo material e social (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009). www.esab.edu.br 9 Psicologia é o estudo dos métodos/processos do comportamento humano e das suas interações/intercâmbios com o ambiente físico e social. A partir desse princípio, podemos chegar à seguinte questão: qual o objeto de estudo da psicologia? É difícil respondermos a essa pergunta. Esse fato explica-se por se tratar de uma ciência relativamente nova, referente ao final do século XIX! Para Bock, Teixeira e Furtado (2009, p. 21), “[...] o objeto de estudo da Psicologia é o comportamento humano”. O objeto de análise da psicologia é o ser humano em todas as suas expressões, as tangíveis (o comportamento) e as intangíveis (os sentimentos), as individuais (cada pessoa é um ser) e as coletivas (todos somos seres humanos). A psicologia é responsável pelo estudo do nosso ser, da nossa atividade mental. Mas o que permeia essa atividade mental? Para estudarmos nossa mente, é necessário fazermos uma análise das sensações, das emoções, dos pensamentos, das percepções e de outros estados motivadores do comportamento humano. O começo aproximado da psicologia como ciência ocorreu no ano de 1879, com a fundação do Laboratório de Psicologia Experimental pelo cientista Wilhem Wundt (1832-1920), em Leipzig, na Alemanha. Figura 2 – Wilhem Wundt. Fonte: <www.commons.wikimedia.org/>. www.esab.edu.br 10 A respeito das fases da psicologia do desenvolvimento humano, podemos abordá-las em cinco grandes períodos: período formativo (de 1882 a 1912), primeira fase (de 1920 a 1939), segunda fase (de 1940 a 1959), terceira fase (de 1960 a 1989) e quarta fase (de 1990 até os dias atuais). Vamos ver o que demarcou cada uma dessas fases? No período formativo, os estudos desenvolvidos eram voltados à psicobiologia, à psicologia da personalidade e ao desenvolvimento cognitivo. O que marcou esse período foi a publicação do livro “The mind of the child”, de Wilhelm Thierry Preyer. Segundo alguns estudiosos, essa obra literária marcou a expansão dos estudos na área do desenvolvimento psicológico infantil. É importante ressaltar a você que pesquisas e publicações sobre essa temática estavam sendo desenvolvidas na França e nos Estados Unidos simultaneamente. Na primeira fase da psicologia do desenvolvimento, que compreende o período de 1920 a 1939, os estudos desenvolvidos nesse período histórico estiveram relacionados ao desenvolvimento intelectual, à maturação e ao crescimento. É importante destacar que nesse períodohistórico notamos os primeiros estudos sobre envelhecimento e adolescência, porém o destaque maior é dado aos estudos sobre o desenvolvimento humano infantil. Na segunda fase da psicologia do desenvolvimento humano, o foco foi o estudo da criança e a análise das modificações que afetam o desenvolvimento humano nessa faixa etária. Lembramos que esse período foi marcado pela falta de investimento em pesquisas sobre o conhecimento científico direcionado à psicologia do desenvolvimento em virtude da Segunda Guerra Mundial. A terceira fase da psicologia do desenvolvimento humano é marcada pela influência da Teoria Behaviorista e de conceitos relacionados à Teoria da Aprendizagem Social. Também podemos notar que há uma influência das teorias piagetianas na estrutura do desenvolvimento de pesquisas na área da psicologia do desenvolvimento nesse período. A quarta fase, período histórico iniciado na década de 1990 e que se estende até os dias atuais, é um período histórico marcado por inovações na psicologia do desenvolvimento humano. Temos como www.esab.edu.br 11 destaque a importância em estudar, discutir e analisar os vários contextos de desenvolvimento do homem, dando ênfase também à dimensão histórica. Nesta disciplina, nosso foco será a psicologia científica, uma das áreas desta ciência. É necessário compreender e conceitualizar a ciência para entender que também a psicologia é uma ciência. Embora tal conceitualização seja algo complexo, é de fundamental importância. Ciência compõe-se de um conjunto de conhecimentos sobre os fatos ou aspectos da realidade (que chamamos de objetivo de estudo), expresso por meio de uma linguagem precisa e rigorosa. (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009, p. 20) Como já comentamos aqui e na disciplina Psicologia da Educação, a psicologia é um ramo da Ciência Humana que estuda os mais variados aspectos do ser humano de maneira subjetiva, estabelecendo conhecimentos distintos e específicos sobre o indivíduo. Cada um de nós possui sua própria subjetividade. Afinal, o que é subjetividade? Podemos entender que subjetividade é o que acontece no nosso íntimo. É como nós percebemos, analisamos e emitimos opiniões sobre determinado assunto. Nossa subjetividade também é influenciada pela nossa cultura, religião e educação. A matéria da subjetividade – a Psicologia – contribui para o entendimento da totalidade da vida humana. Porém, queremos deixar claro que a forma como a psicologia será abordada ou estudada dependerá da concepção de ser humano adotada pelas diferentes escolas psicológicas. Essa diversidade de escolas e correntes psicológicas acaba por formular um conhecimento fragmentado do ser humano, separando sua subjetividade e suas manifestações. Essa fragmentação pode ser superada por meio de uma psicologia que compreenda esse ser humano em sua totalidade, sendo o papel de uma ciência crítica perceber o ser humano inserido no mundo em sua totalidade de sentimentos e emoções. E qual a relação entre psicologia e educação? www.esab.edu.br 12 Continuemos nosso estudo abordando o surgimento da Psicologia da Educação, que iniciou aproximadamente no ano de 1903, com a publicação do livro do psicólogo Thorndike. Edward Lee Thorndike (1874-1949) é considerado o pai da psicologia da educação, da psicologia da aprendizagem. Em sua obra, pela primeira vez essa área de estudos foi nomeada e ganhou corpo doutrinário. Nas edições da obra em questão, nos anos de 1913 e 1914, Thorndike deixou claro em suas conclusões que todo conhecimento da psicologia que tivesse a possibilidade de ser quantificado podia ser aplicado à educação. Figura 3 – Edward Lee Thorndike. Fonte: <www.commons.wikimedia.org/>. Ao refletir sobre a concepção de psicologia da educação, Coll, Marchesi e Palacios (2004b, p. 27), a conceituam como uma “disciplina-ponte”, ao mesmo tempo psicológica e educativa, com um objeto de estudo próprio. Segundo os autores, a psicologia da educação deve ser entendida como “[...] uma disciplina de caráter aplicado”, com um objeto de estudo próprio e com a preocupação de gerar um conhecimento novo sobre esse objeto específico, sem dissociar-se dos conhecimentos originados na psicologia. www.esab.edu.br 13 A finalidade principal da psicologia da educação é empregar e aplicar os conhecimentos, os princípios e os métodos da psicologia para a análise e o estudo dos fenômenos educativos (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b). Por esse motivo, a procedência e a evolução da Psicologia da Educação seriam inseparáveis tanto da origem e do desenvolvimento da psicologia científica como do progresso das práticas educativas, dos empregos que são atribuídos a ela socialmente e da sua ligação com as outras áreas da atividade humana. É importante refletirmos sobre a passagem da psicologia da educação aplicada à educação para uma concepção da psicologia da educação como disciplina-ponte, que pode estar atrelada ao conceito de aplicação do conhecimento psicológico. Nesse caso, a disciplina-ponte tende a considerar a ligação entre a psicologia e a educação, com o objeto de estudo próprio e, sobretudo, com a finalidade de gerar um conhecimento novo acerca desse objeto de estudo (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b). As duas concepções compartilham a ideia de que a psicologia da educação está fundamentada no uso ou na aplicação do conhecimento psicológico para enriquecer e melhorar a teoria e a prática educacional, e partem de métodos epistemológicos que respondem a duas lógicas de aplicação radicalmente distintas. Pois bem, caro aluno, nesta unidade vimos a evolução histórica da psicologia, o significado do termo e sua relação com a educação. Compreendemos também que a psicologia pode enriquecer as práticas educacionais. Na próxima unidade, vamos conhecer mais sobre o terreno da concepção behaviorista do desenvolvimento humano. Até lá! www.esab.edu.br 14 2 Teoria do desenvolvimento humano: a concepção behaviorista de Skinner Objetivo Conhecer a Teoria Behaviorista do desenvolvimento humano a partir dos conceitos de Skinner. Na unidade anterior, vimos que a psicologia pode contribuir para o engrandecimento das práticas educacionais. Vamos nos concentrar agora no estudo da Teoria Behaviorista, com a qual você já teve contato em outro momento do curso. Frederic Skinner (1904-1990) foi um cientista que estudou o comportamento humano que, para ele, é influenciado por estímulos internos ou externos. Entre outros, Skinner acreditava que os comportamentos observáveis são resultado do processo da aprendizagem humano. Sendo assim, o estudo do comportamento com fins de prevê-lo e, em algumas circunstâncias, modificá-lo é parte do foco de análise da psicologia. Os comportamentalistas entendem que essa modificação causada pela mudança no comportamento é causada pelo processo de condicionamento. O processo de condicionamento está atrelado ao comportamento. É um processo que envolve um estímulo ambiental que provoca no ser humano uma resposta a esse estímulo e essa resposta acarreta uma aprendizagem nesse ser. O primeiro estudioso a pesquisar esse processo foi o russo fisiologista Ivan Petrovich Pavlov (1849- 1936), em 1901. Ele estudou esse processo observando o reflexo salivar condicionado nos cães, como você estudou na unidade 23 da disciplina Psicologia da Educação. Você deve se lembrar de que foi a partir deste experimento que Pavlov chegou à Teoria do Reflexo Condicionado, observando que se repetidas vezes a campainha tocasse e nenhum alimento fosse dado aos cachorros, eles não iriam mais salivar ao ouvir o som da campainha. O reflexo condicionado é a resposta que é dada a um estímulo de forma involuntária ou seja, uma ação realizada www.esab.edu.br 15 involuntariamente (sem pensarmos) após um estímulo que nos é fornecido. Pavlov, nas suas pesquisas com cães, descobriu esse fato por meio da observação do comportamento dos animais. Ele motivou, ou seja, estimulou os cães com um pedaçode carne. Quando ele ofereceu esse pedaço de carne os cães salivaram. Tal ação foi repetida por uma mesma pessoa diariamente. Pavlov percebeu que os cães começavam a salivar ao ouvirem o ruído dos passos da pessoa que ofereceria a carne, associando esse barulho ao ato de receber a carne das mãos dessa pessoa específica. Nos dias em que essa pessoa não lhes dava carne, ao ouvir os ruídos dos seus passos, os cães continuaram a salivar. Essa salivação é o que Pavlov chamou de reflexo condicionado. Esse comportamento, intitulado como respondente, é o que conhecemos como ato não voluntário. Podemos exemplificar esse comportamento nos lembrando de quando uma pessoa aproxima sua mão do nosso olho. O que fazemos? A primeira reação é fecharmos os olhos, não é isso? Desse modo, estamos respondendo a um estímulo com uma ação não voluntária, algumas vezes imperceptível. Keller (1973 apud BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009, p. 61) nos apresenta outro tipo de comportamento, o comportamento operante, nos elucidando que esse tipo de comportamento Inclui todos os movimentos de um organismo dos quais se pode dizer que, em algum momento, têm efeito sobre ou fazem o mundo em redor. O comportamento operante opera sobre o mundo, por assim dizer, quer direta ou indiretamente. Vamos a alguns exemplos de comportamento operante? Tocar um instrumento musical, ler um livro, chamar um táxi com a mão, escrever, dirigir etc. Pavlov e Skinner foram cientistas que observaram a importância do estudo do comportamento e também dos efeitos do contexto em que o indivíduo está inserido durante a mudança desse comportamento. Eles acreditavam que novos comportamentos são ensinados conforme a punição e a recompensa utilizada no processo de aprendizagem. Dentro dessa ótica, a Teoria Behaviorista estuda a relação entre estímulo e resposta, que podemos abreviar por E (estímulo) e R (resposta). Nessa www.esab.edu.br 16 perspectiva o indivíduo que aprende é analisado como uma tábula rasa que aprende assimilando as informações que são emitidas pela realidade externa. Por exemplo: em uma sala de aula, o aluno aprende por meio das informações que são repassadas pelo professor. Figura 4 – O professor como detentor do conhecimento. Fonte: Elaborada pela Esab (2013). Na perspectiva de Skinner, a aprendizagem ocorre somente quando o comportamento é adquirido, sendo reforçado por meio de um estímulo qualquer, seja ele negativo ou positivo (LAKOMY, 2008). De acordo com essa teoria, a aprendizagem foi observada por meio de experimentos realizados em animais como macacos, pombos e ratos. Tais experiências permitiram que esse cientista elaborasse algumas afirmações que foram chamadas de leis comportamentais. Os cientistas observaram o comportamento dos animais a partir de estímulos positivos (a comida e o agrado) e de estímulos intitulados aversivos (algum castigo que cause dor ao animal). www.esab.edu.br 17 Agora pense: quais os efeitos da inserção dessa teoria psicológica no ensino? No contexto escolar, percebemos a concepção behaviorista quando se oferece um ensino repetitivo, reprodutivista, mecânico e pouco reflexivo, no qual o aluno, considerado uma tábula rasa, está em sala de aula apenas para ganhar conhecimento, como na Figura 4. Dessa forma, não é permitido que o educando seja um ser atuante no processo de aprendizagem. O material didático é sempre planejado com exercícios prontos, a serem respondidos de modo mecânico por meio da memorização, em que as respostas são previstas e que não exigem do aluno a capacidade de análise ou de reflexão. Estudo Complementar Conheça mais sobre a ideia da tábula rasa, ou estudo repetitivo, principalmente no que diz respeito à passividade por parte do aluno no processo de ensino-aprendizagem. Leia o texto “Saber e prática docente na transformação do ensino médico”, disponível clicando aqui. Vamos analisar brevemente como essa teoria pode ser aplicada em crianças? Para Skinner, o melhor método de aprendizagem a ser utilizado com crianças seria o método repetitivo e mecânico, “[...] isto é, o ensino programado, que parte de duas premissas básicas que são: o método de programas e a necessidade do uso de máquinas.” (LAKOMY, 2008, p. 23). Para esse cientista, esse método parte de duas diretrizes: necessidade de programar e necessidade do uso da máquina de ensinar. Vejamos com mais detalhes cada uma delas, conforme Lakomy (2008): • necessidade de programar: enfoca detalhadamente os reforços que serão ofertados ao educando para cultivar a magnitude de seu comportamento. Uma sugestão desse cientista para obter essa magnitude no comportamento do educando por meio do reforço é dividir o conteúdo em partes muito pequenas, diante das quais http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0100-55022006000200009&script=sci_arttext www.esab.edu.br 18 o estudante conseguirá responder constantemente. Ele estudará o conteúdo em partes pequenas e ordenadas, estabelecendo uma concepção de programa, ou seja, uma série ou sequência ordenada de partes pequenas da matéria, que se apresentam ao aluno do nível menos complexo ao mais complexo; • máquinas de ensinar: serão programadas para instigar a aprendizagem. São equipamentos responsáveis por corrigir as respostas dos educandos, reforçando-os positivamente ou negativamente. Dependendo das respostas emitidas pelos alunos, esse reforço será positivo ou negativo. Um exemplo bem claro: o aluno que responder a uma conta de multiplicação corretamente receberá um elogio, um 10 com estrelinhas, ou seja, um reforço positivo. Essa criança ficará feliz quando receber o elogio à resposta correta e ficará estimulada a continuar a aprendizagem de outro conteúdo. De acordo com Skinner, essas máquinas devem ser programadas sistematicamente para cada matéria de estudo, seguindo uma lógica de dificuldade, do nível mais fácil ao mais difícil. Nessa proposta de ensino, o professor deverá realizar periodicamente a avaliação de conteúdos com os seus alunos. Caro aluno, encerramos esta unidade com a apresentação do método mecânico desenvolvido por Skinner. Vimos que o estudo do comportamento visando prevê-lo e, em algumas circunstâncias, modificá-lo é parte do foco de análise da psicologia. Na sequência, vamos concentrar nossa atenção na concepção construtivista desenvolvida por Piaget. Vamos em frente! www.esab.edu.br 19 3 Teoria do desenvolvimento humano: a concepção construtivista de Piaget Objetivo Compreender o conceito da teoria do desenvolvimento humano sob a ótica construtivista, estudando os conceitos de Piaget. Nesta unidade, vamos estudar a concepção construtivista desenvolvida por Jean Piaget (1896-1980), um dos grandes cientistas na área da psicologia do desenvolvimento humano conhecido não somente na Europa, mas também nos Estados Unidos e em outros países do mundo inteiro por seus estudos relacionados ao desenvolvimento intelectual da criança. Esse cientista nasceu em uma pequena cidade universitária de Neuchâtel, na Suíça, em 1896. Influenciado por seu padrinho Samuel Cornut, Piaget, ainda na adolescência, iniciou seus estudos nas áreas da filosofia, da lógica e da religião. Devido às leituras realizadas nessas áreas do conhecimento, esse cientista começou a interessar-se pela Epistemologia (Ciência que estuda o conhecimento humano). Sua formação foi na área de Ciência Natural, com ênfase na Biologia. Formou-se Doutor em Filosofia. Segundo Biaggio (2011), Piaget “[...] estudou crianças apenas como um meio para o estudo do conhecimento”. Ele observava como o recém-nascido não reconhece sua individualidade frente ao mundo que o cerca, condição que se estende até a adolescência, na qual já se tem o início de operações de raciocínio mais complexas; então percebeu que o conhecimento se constrói na interação do sujeito com o meio em que ele vive. Piaget é responsável por uma das mais importantes teorias na educação, a Teoria Construtivista. Essa teoria surgiu no séculoXX, a partir das suas experiências realizadas com crianças. O trabalho desse cientista foi muito importante para compreendermos muitas questões educacionais relacionadas à aprendizagem, e, por isso, discutidas e incorporadas às www.esab.edu.br 20 teorias pedagógicas. Para ele, as pessoas desenvolvem a inteligência conforme os estímulos que recebem do meio em que estão inseridas. Figura 5 – Jean Piaget. Fonte: <www.commons.wikimedia.org/>. Piaget trabalhou o conceito de desenvolvimento humano a partir de períodos, etapas, fases, faixas etárias e/ou estágios que o indivíduo passa ao longo da vida. Para esse psicólogo, o desenvolvimento humano é atrelado aos estágios do desenvolvimento humano, desde a infância até a adolescência. Isso implica dizer que o desenvolvimento cognitivo se realiza por meio de estágios. Iremos aprofundar essa questão na unidade 15, porém, resumidamente, os estágios do desenvolvimento intelectual são: sensório-motor (0 a 2 anos); pré-operacional (2 a 6 anos); operações concretas (7 a 11 anos); e operações formais (12 anos em diante). www.esab.edu.br 21 Saiba mais Sugerimos que você assista a um vídeo sobre a psicologia do desenvolvimento, o qual apresenta, como foco principal, as principais ideias defendidas por Piaget sobre o desenvolvimento da criança de modo descontraído! Acesse o link clicando aqui. Segundo Lacomy (2008), Piaget identifica quatro fatores que influenciam no desenvolvimento intelectual da criança: • o biológico; • as interações sociais que ocorrem por meio da linguagem e da educação; • os exercícios e as experiências adquiridas na ação da criança sobre os objetos; • a equilibração. A seguir, vejamos detalhadamente cada um desses fatores. Vamos lá? O fator biológico destacado por Piaget refere-se à maturação orgânica e desenvolvimento do sistema nervoso do indivíduo. Por exemplo: o aluno aprende a escrever à medida que desenvolve a coordenação motora fina e o movimento de pinça. A interação social compreende as ações que proporcionam as relações entre os seres humanos. Na escola, todas as relações estabelecidas uns com os outros (professores-professores, professores-alunos, alunos- alunos etc.) são mediadas por meio das interações. Isso quer dizer que nas instituições escolares a interação social ocorre nos momentos de sala de aula, quando o educador está ensinando determinado conteúdo referente a uma disciplina: nesse momento, ele está interagindo com os seus alunos. Quando o aluno tem dúvidas com relação ao conteúdo que está sendo explicado pelo professor, ele levanta a mão para questioná-lo. Assim, uma relação de interação do aluno com o professor é estabelecida. http://www.youtube.com/watch?v=5WA1pmu-pQ8 www.esab.edu.br 22 Da mesma forma os educandos entre si, ao discutirem algum conteúdo estudado, realizam um momento de troca, ou seja, um momento de interação. Em relação às experiências vivenciadas com objetos físicos, a ação da criança exercida sobre os objetos desenvolve sua motricidade e proporciona o seu desenvolvimento intelectual. Conforme Lacomy (2008), a criança desenvolve a inteligência por meio de trocas constantes com o meio, visando constantemente um processo de equilibração. Mediante um problema, a criança é capaz de organizar e pensar estratégias de ação para solucioná-lo. Em outra condição em que o problema é mais complexo, a criança também organizará novas ações para solucionar essa questão. Para Piaget, se as estruturas intelectuais das crianças resolverem essa questão, ou seja, forem suficientes para operar novas situações, ocorre o que o cientista chama de equilibração majorante. Para ocorrer esse processo, é necessário que se desenvolvam dois esquemas: assimilação e acomodação. O que significa cada um desses esquemas? Vamos às respostas com base em Lacomy (2008). • Assimilação: é o procedimento pelo qual a criança intelectualmente interage com o ambiente e o organiza, possibilitando o crescimento de seus esquemas de ação mediante a um problema e/ou situação, seja em casa ou na escola. Um exemplo de assimilação é observado nos bebês, que utilizam o processo de sucção para se alimentarem através da mamadeira ou no seio de sua mãe, e também para chupar os dedos levando-os até a boca. Outro exemplo claro é quando as crianças aprendem a segurar a colher, esse esquema de assimilação permite que segurem também um garfo, uma faca e outro objeto parecido com esse utensílio doméstico. • Acomodação: é a alteração de um processo/esquema em função da peculiaridade do objeto a ser assimilado. Podemos notar esse esquema quando a criança aprende a segurar/agarrar objetos pequenos com uma mão, e mais tarde a criança aprende que outros objetos maiores só podem ser agarrados com as duas mãos e que outros nem podem ser erguidos. www.esab.edu.br 23 A equilibração seria, então, o processo de equilíbrio entre a assimilação e a acomodação. É o procedimento de elaborar esquemas de ação de uma situação de menor equilíbrio para uma de maior equilíbrio. Por exemplo, uma criança vê e conhece uma bola de futebol. Ela interage com a bola e percebe, através da relação com esse objeto, que ela pode ser chutada e que se pode brincar com ela. Ao ver outra bola, a criança tentará chutá-la e brincar com ela. Se nesse processo de interação a criança não conseguir chutar, por ser uma bola de golfe ou uma bola de boliche, seu conhecimento ficará desequilibrado e ela precisará modificá-lo, precisará interagir com essa nova bola para classificá-la de forma diferente da bola de futebol. Percebendo que uma bola pode ser chutada e a outra não, reconquistará seu equilíbrio, pelo menos, até encontrar outra bola diferente. Vimos, nesta unidade, alguns conceitos que fundamentam a teoria do desenvolvimento humano sob a ótica construtivista, como equilibração, acomodação e assimilação. Na próxima unidade, estudaremos sobre a relação entre aprendizado e desenvolvimento humano na concepção de Vygotsky. Fórum Caro estudante, dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem da Instituição e participe do nosso Fórum de discussão. Lá você poderá interagir com seus colegas e com seu tutor de forma a ampliar, por meio da interação, a construção do seu conhecimento. Vamos lá? www.esab.edu.br 24 4 Teoria do desenvolvimento humano: Vygotsky e a relação entre aprendizado e desenvolvimento humano Objetivo Entender o conceito da teoria do desenvolvimento humano de acordo com a visão sociointeracionista, compreendendo as relações entre aprendizado e desenvolvimento humano. Após o estudo da Teoria Behaviorista e da concepção construtivista, refletiremos sobre a teoria sociointeracionista. Esta teoria foi desenvolvida pelo russo Lev S. Vygotsky (1896-1933), educador e pesquisador contemporâneo de Piaget. Como professor, dedicou-se às áreas de pedagogia e psicologia. Ministrou várias palestras em colégios e faculdades versando sobre as temáticas pedagogia, psicologia e literatura. Ele acreditava nos ideais da Revolução Russa, idealizando uma sociedade mais justa, sem conflito e exploração social. Ele buscou no materialismo dialético soluções para o problema entre a teoria idealista e mecanicista da psicologia. Seus seguidores, Luria e Leontiev, partilhavam das mesmas ideias e propuseram ensinamentos inovadores sobre assuntos relacionados à ligação entre pensamento e linguagem, o processo de desenvolvimento da criança e também o papel da educação no desenvolvimento. A teoria elaborada por Vygotsky, da qual você já teve uma noção na disciplina de Psicologia da Educação, tem como base o desenvolvimento humano como resultado do processo sócio-histórico. Ele enfatiza o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento, sendo essa teoria conhecida como Teoria Sociointeracionista. Como nos informa Lakomy (2008), o processo intelectual da criança, segundo Vygotsky, é desenvolvido por meio da apropriação das informações histórico-sociais existentes nasociedade em que ela está inserida. Esse conhecimento adquirido na sociedade na qual a criança www.esab.edu.br 25 nasceu é internalizado e modificado por ela por meio das trocas realizadas com outras crianças, com familiares, enfim, com as pessoas que a rodeiam. Nessas interações, o elemento que desempenha uma função fundamental, segundo esse cientista, é a fala. Esta é fundamental na organização de um pensamento mais difícil para um mais abstrato. Ao pensarmos a relação entre a aprendizagem e a teoria do desenvolvimento humano, Vygotsky (1998) pontua que a aprendizagem é mediada pela utilização de instrumentos e signos. E o que é um signo? Para Vygotsky (1998), signos são estímulos condicionais criados artificialmente pelos homens e que cumprem uma função mediadora no domínio da própria conduta ou na conduta do outro, como a linguagem, tanto a escrita como a falada: “Os sistemas de signos (a língua, a escrita, o sistema de números), assim como o sistema de instrumentos, são criados pelas sociedades ao longo do curso da história humana e mudam a forma social e o nível de seu desenvolvimento cultural” (VYGOSTKY, 1998, p. 11). Na Teoria Sociointeracionista, a aprendizagem é uma prática social de interação entre a linguagem e a ação (VYGOTSKY, 1998). E qual seria o princípio ou o motor da aprendizagem e do crescimento intelectual, de acordo com essa teoria? A interação social. Vamos ver um exemplo? O processo de interação social ocorre em sala de aula, no contexto da Educação Infantil, quando uma criança está aprendendo a ler e a escrever. No início desse processo, a criança imita o professor recontando com suas próprias palavras a história que ouviu. Quando a criança resgata o livro que o professor utilizou, vai passando as páginas e recontando a história conforme visualizou e aprendeu no processo de interação estabelecido no momento da contação de história. www.esab.edu.br 26 Figura 6 – Processo de interação social. Fonte: <www.123rf.com>. Para Vygotsky (1998), a fala tem papel fundamental e acompanha a experiência prática ou física da criança. Para esse cientista, a fala organiza o pensamento, ou seja, para a criança adquirir entendimento de um conceito científico, é precisa ensiná-lo por meio da fala, pois é assim que percebemos se aprendeu ou não o ensinamento. Outra questão muito importante no processo de aprendizagem, para Vygotsky (1998), é a mediação. Ao comparar a inteligência humana com o comportamento animal, esse cientista chegou à conclusão de que o ser humano necessita de signos para aprender. Na Teoria Sociointeracionista, a linguagem exerce uma função primordial na sistematização das práticas da criança e/ou do educando. Você sabe por quê? Porque a linguagem é necessária para organizar a conduta social! www.esab.edu.br 27 Percebemos isso quando o ser humano nomeia objetos e com essas nomeações vai estabelecendo associações e relações. O adulto, ao nomear e repassar à criança, vai ajudando-a na construção e na elaboração de sua concepção sobre o significado de certos objetos na nossa sociedade. Um exemplo claro é quando um professor ou um familiar chama a atenção de uma criança ou educando para um objeto, pessoa ou para um fenômeno (a chuva, por exemplo). Esse adulto está proporcionando à criança uma forma de organizar sua percepção daquele signo que passou a ter um sentido. Saiba mais Conheça mais sobre as ideias-chaves da Teoria Sociointeracionista, entre elas a importância da linguagem, da interação social e da mediação. Assista ao vídeo disponível clicando aqui. Vygostky (1998) relata que, ao longo do desenvolvimento intelectual da criança, ocorrem algumas modificações na relação entre a fala e a ação. • Fase da fala social: essa fase irá até os três anos de idade, aproximadamente. Percebemos nessa fase que a fala acompanha as ações da criança, porém ela se manifesta de maneira atrapalhada. É um reflexo das dificuldades que a criança enfrenta ao se deparar com alguns problemas que são colocados a ela. • Fase da fala egocêntrica: essa fase irá dos três aos seis anos de idade. Nessa fase, a fala chega antes da ação, ou seja, a fala passa a fazer parte do plano de ação do pequenino. • Fase da fala interior: essa fase inicia-se após os seis anos de idade. Nessa fase, a fala externalizada vai desaparecendo até tornar-se internalizada. Essa fase permite que a criança elabore o pensamento, que seja capaz de perceber e controlar seu comportamento, sua atenção e também consiga solucionar problemas, mesmo que estes sejam abstratos. http://www.youtube.com/watch?v=_BZtQf5NcvE www.esab.edu.br 28 Considerando o que vimos nesta unidade sobre o desenvolvimento humano a partir do sociointeracionismo, vemos que, para Vygotsky (1998), não é suficiente ter toda a grandeza biológica da espécie humana para realizar uma determinada tarefa se o homem não interage com os ambientes e as práticas sociais que proporcionam esta aprendizagem. Isso significa que a criança não se desenvolverá, com o tempo, se ficar sozinha e isolada! Vimos que é necessário o processo de interação com outros da sua espécie para que a aprendizagem ocorra. Ou seja, os instrumentos de que o professor se utiliza para que a criança possa percorrer sozinha o caminho do desenvolvimento dependerão das aprendizagens da criança mediante as experiências a que foi exposta. Por fim, caro aluno, na Teoria Sociointeracionista, a criança é considerada um ser pensante cuja ação está vinculada à representação do mundo que constitui a sua cultura, e a escola é é um dos locais onde esse processo é vivenciando. A escola é o cenário onde o processo de ensino-aprendizagem envolve interações entre os educandos e educadores, crianças e adultos. Na próxima unidade, partiremos para o estudo das relações entre memória e pensamento, percepção e atenção e aprendizagem. Até lá! www.esab.edu.br 29 5 Memória, pensamento, percepção e atenção Objetivo Explicar as relações entre memória e pensamento, percepção e atenção e aprendizagem. Após o estudo da relação entre aprendizado e desenvolvimento humano sob a ótica sociointeracionista, vamos conhecer conceitos como memória, pensamento, atenção, percepção e relacioná-los à aprendizagem a partir das concepções de Vygotsky (1998) e Piaget. Conforme a criança vai se desenvolvendo, a memória e as funções psicológicas vão se alterando. Essas funções se modificam em cada etapa e de forma diferenciada em crianças menores e em crianças maiores. A memória também é diferente em crianças de menor idade e em crianças de maior idade. O ato de pensar nos pequeninos está associado à sua memória, ou seja, à sua lembrança e ao seu pensamento. Nas crianças maiores, o ato de lembrar está associado ao pensar! A memória de crianças mais velhas não é apenas diferente da memória de crianças mais novas; ela assume também um papel diferente na atividade cognitiva. A memória, em fases bem iniciais da infância, é uma das funções psicológicas centrais, em torno da qual se constroem todas as outras funções. Nossas análises sugerem que o ato de pensar na criança muito pequena é, em muitos aspectos, determinado pela sua memória e, certamente, não é igual à mesma ação em crianças maiores. Para crianças muito pequenas, pensar significa lembrar; em nenhuma outra fase, depois dessa muito inicial da infância, podemos ver essa conexão íntima entre essas duas funções psicológicas. (VYGOTSKY, 1998, p. 66) Para entendermos um pouco melhor esse processo, vamos a alguns exemplos? Se perguntarmos a uma criança de menor idade o que é uma tartaruga, ela responderá que é pequena, que tem uma casa e quatro patas. Ela resume por meio de sua fala as impressões que tem sobre o animal em questão, ou seja, aquilo que é capaz de lembrar. www.esab.edu.br 30 Para um adolescente, a questão da memória e o ato de pensar são diferentes em relação à criança, pois nessa fase a memória do adolescente é enriquecida e carregada de coerência,e o processo de lembranças está associado a estabelecer relações lógicas. Portanto, nessa faixa etária, o conhecer transpõe em encontrar o objeto e/ou elemento que a tarefa estabelecida exija que seja descoberto. Percebemos, assim, que essencialmente a memória do ser humano baseia-se no fato de que o homem é capaz de lembrar/pensar com o auxílio dos signos. A memória é um processo básico vital para o processamento do material percebido. Como dependemos da linguagem para decodificar o que percebemos, precisamos ter armazenado um repertorio dos signos de nossa cultura. (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2011, p. 157) Um exemplo é quando amarramos um lenço ou sinalizamos com a caneta um ponto em nossa mão para nos lembrarmos de alguma informação. Você já fez isso? Esse ato significa que você utiliza do pensamento para a sua memorização. Figura 7 – As funções desenvolvidas em cada hemisfério do cérebro. Fonte: Elaborada pela Esab (2013). www.esab.edu.br 31 Conforme vimos na unidade 4, a linguagem é, na teoria de Vygotsky, fundamental na organização das interações sociais. Essa linguagem destacada por esse cientista recebe o nome de linguagem simbólica, pois permite a troca de informações conscientes entre os sujeitos. Destacamos a seguir dois processos dentro do pensamento humano que foram importantes na construção do conhecimento: a percepção e a memória. Segundo Vygotsky (1998), o ser humano se diferencia do animal, pois o reflexo psíquico do animal é a realidade, já para o homem, é o reflexo consciente da realidade. O animal interage com o meio ambiente por meio dos seus instintos, ou seja, não é algo pensado, uma vez que o animal não possui inteligência e nem pensamento, apenas instintos. Por possuir intelecto, o homem é um ser inteligente e desenvolve sua capacidade intelectual todos os dias. Reflete e pensa sobre suas ações de modo consciente dentro da realidade em que vive. Sendo assim, nossa percepção é conduzida pela história de vida de cada ser humano e pela cultura de cada um. O que é, então, percepção? É o que sentimos, o que degustamos, o que tocamos, ou seja, aquilo que faz parte da história de vida de cada ser humano. Conforme nos indicam Bock, Teixeira e Furtado (2006, p.157), “Nossa percepção é dirigida pela nossa própria história de vida e pela nossa cultura. Vemos, ouvimos, degustamos, tocamos de acordo com nossa história de vida e a história de nossa cultura”. Um exemplo sobre a percepção pode ser atrelado à sensação que sentimos quando ouvimos uma música. A sensação não está ligada às notas proferidas pela música, mas sim à emoção que sentimos quando a ouvimos e que nos remete a uma sensação agradável ou desagradável, dependendo da circunstância em que essa música foi ouvida. www.esab.edu.br 32 Figura 8 – Percepção auditiva. Fonte: <www.shutterstock.com>. Para Vygotsky (1998), temos de atrelar percepção, atenção e memória, interligando-as por meio de uma abordagem psicológica, relacionando o desenvolvimento humano e a aprendizagem e distinguindo as informações mais importantes daquelas mais especificamente relacionadas ao ser humano. A percepção humana não se manifesta isoladamente, ela tem de estar atrelada a objetos, experiências e vivências que o indivíduo viveu na cultura em que está inserido, que podem estar ligadas a atividades passadas ou a alguma situação presente. Vamos tomar a nossa audição como exemplo. Ela nos permite perceber os ruídos e os sons do lugar em que estamos. Com relação à atenção, a audição não se diferencia muito da percepção, pois o ser humano usa da capacidade de seleção do estímulo do ambiente que é apropriada para a sobrevivência na sociedade. Assim, o campo de atenção da criança engloba não uma, mas a totalidade das séries de campos perceptivos potenciais que formam estruturas dinâmicas e sucessivas ao longo do tempo. A transição da estrutura simultânea do campo visual para a estrutura sucessiva do campo dinâmico da atenção é conseguida através da reconstrução de atividades isoladas que constituem parte das operações requeridas. (VYGOTSKY, 1998, p. 46) www.esab.edu.br 33 Um exemplo disso pode ser notado quando um determinado aluno está ouvindo uma música com apenas um fone e também está estudando para o conteúdo da prova. Esse estudante foca no conteúdo da prova e desliga-se dos outros estímulos provocados pela música. Um adulto pode dirigir e também ouvir o rádio do carro, pois ele volta a sua atenção apenas para a direção, desligando-se do ato de ouvir aquela música. Figura 9 – Percepção e memória. Fonte: Elaborada pela Esab (2013). Para Vygotsky (1998), a atenção, no transcorrer do processo de desenvolvimento da aprendizagem humana, passa de automática para dirigida, norteada de forma intencional e atrelada ao pensamento humano. A atenção é influenciada pelos signos que são atrelados à cultura do ser humano, orientando nossa percepção. Já para Piaget, a atenção está relacionada ao entendimento que temos sobre algo, considerando que, se conseguirmos compreender algo, daremos atenção a esse algo ou objeto, pois este tem uma representação e um significado que estão ligados a ele. Nesta unidade, concluímos que a atenção, a memória e a percepção influenciam no desenvolvimento da aprendizagem humana e também do pensamento, pois todas estão interligadas. A seguir, estudaremos as relações entre o brinquedo, a aprendizagem e o desenvolvimento humano. www.esab.edu.br 34 Estudo complementar Nesta unidade, estudamos um pouco sobre a memória, o pensamento, a percepção, a atenção e a aprendizagem. Tendo em vista a complexidade do processo de aprendizagem, o número cada vez maior de alunos com dificuldades escolares e de responsabilidade atribuída a quem ensina, destacamos a necessidade de você aprofundar seus conhecimentos sobre esses temas. Leia o artigo “Distúrbios de aprendizagem na visão do professor”, disponível clicando aqui. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0103-84862007000300003&script=sci_arttext www.esab.edu.br 35 6 Brinquedo, aprendizagem e desenvolvimento humano Objetivo Reconhecer a importância do brinquedo para a aprendizagem e o desenvolvimento humano na infância. Após concluirmos que a atenção, a memória e a percepção influenciam no desenvolvimento da aprendizagem humana e também do pensamento, por estarem interligadas, vamos ver agora o papel do brinquedo para a aprendizagem e o desenvolvimento humano infantil. Para tanto, continuaremos tomando como referência para o estudo desta unidade as contribuições de Vygotsky (1998). Você já teve curiosidade de pesquisar no dicionário o significado da palavra brincar? Se você fizer uma breve pesquisa em algum dicionário sobre o significado dessa palavra, irá verificar que brincar pode ter vários significados, e todos nos levam a interpretar como diversão, distração, agitação, faz de conta. A brincadeira é o lúdico em ação! Para percebermos a importância desse ato no processo da construção do conhecimento, é necessário analisar uma criança brincando, o que você certamente já deve ter observado. É possível observar e extrair vários aprendizados com essa observação. Se formos minuciosos, atentos e sensíveis – uma postura importante para um futuro professor –, verificaremos os caminhos que a criança percorre para aprender algo sem a intervenção de um adulto. É por meio das brincadeiras e dos brinquedos que a criança aprenderá a enfrentar situações que ocorrem na sociedade em que ela está inserida. No ato de brincar, ela irá formar sua personalidade, criar e recriar circunstâncias do cotidiano e experimentar algumas sensações e emoções. O brinquedo proporciona à criança uma maior aproximação do mundo real, permite que adquira novos conhecimentos, interaja e se integre culturalmente com a nossa sociedade. www.esab.edu.br 36 Figura 10 – O desenvolvimento humano por meio do brincar. Fonte: <www.sxc.hu/>. O ato de brincar faz com que a criança fantasie e crie situaçõesimaginárias, assumindo diferentes papéis: ora é adulta, ora é um animal, ora é um herói. Nessa fantasia impressa no ato de brincar, ela pode ter um comportamento e agir como se fosse uma pessoa mais velha, como assumir o papel de mãe, podendo agir como esta. A brincadeira é fundamental em todas as fases da vida, porém na infância ela é mais importante, pois, além de ser uma diversão, ela também significa aprendizagem. O pequenino, ao brincar, pode expressar sua linguagem através de gestos e atitudes que serão cheios de significados, pois a criança imprimiu sua afetividade nessa ação de brincar. Devido a isso, a brincadeira deve ser estudada, analisada, pesquisada e levada a sério pelos adultos, professores, pesquisadores e cientistas, pois ela é muito importante para o desenvolvimento humano. As crianças usam o brinquedo para expressar suas sensações, para criar um mundo e as atividades que dele fazem parte. Para Vygotsky (1998, p. 144), “[...] as maiores aquisições de uma criança são conseguidas no brinquedo, aquisições que no futuro tornar-se-ão seu nível básico de ação real e moralidade”. O brinquedo compreendido com a ação de brincar, para o pequenino, pode ter o significado de muita importância no universo imaginário e simbólico da criança, criando situações que fazem parte da realidade dela. www.esab.edu.br 37 Figura 11 – Processo de aprendizagem por meio do brinquedo. Fonte: <www.sxc.hu/>. Vygotsky (1998) relaciona o desenvolvimento humano, o aprendizado e o brinquedo, temas centrais em suas obras. Esse cientista desenvolveu pesquisas sobre a atividade infantil que têm claras relações com o ato de brincar. Para compreendermos o desenvolvimento da criança, segundo Vygotsky (1998), temos de levar em conta as necessidades do pequenino e os estímulos que são necessários para que ele possa se motivar para a ação de brincar. Por exemplo: uma brincadeira ou um brinquedo que é do interesse de um bebê não é interessante para uma criança mais velha. Com isso, concluímos que o pequenino satisfaz certas carências no brinquedo, mas essas carências vão modificando-se no decorrer do tempo e do desenvolvimento infantil. Dica Você lembra que estudamos a importância do brincar na disciplina de Fundamentos da Educação Infantil? Sugerimos que você retome a leitura da unidade 9 para relembrar esse assunto! O brinquedo ativa na criança a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) na criança, um tema já abordado na disciplina Psicologia da Educação. Essa zona de desenvolvimento proximal é uma propriedade www.esab.edu.br 38 psicológica em constante desenvolvimento, atrelada ao amadurecimento de suas funções psíquicas superiores. Isso significa que as ações que a criança realiza hoje com a ajuda de alguém mais velho, amanhã poderão ser realizadas por ela sozinha. Assim, faz-se necessária a utilização, no contexto escolar, do planejamento de brincadeiras na rotina infantil, conforme você já estudou. É nas brincadeiras que a criança se libera e se permite ir além do comportamento habitual para seu tamanho e idade e das suas habilidades cotidianas. Isso quer dizer que a criança se imagina maior do que realmente é, em suas brincadeiras, e, desse modo, assume papel de criança mais velha. Desse modo, a brincadeira vai aprimorando aprendizagens que irão se processar e se desenvolver, tornando-se parte das funções psicológicas consolidadas. Se o aprendizado e o desenvolvimento estão ligados desde que a criança nasce, conforme Vygotsky (1998), podemos concluir que o aprendizado da criança se inicia muito antes dela iniciar o processo escolar! Há o processo biológico natural para o desenvolvimento da maturação humana, porém é o aprendizado vivenciado com as interações humanas e com um ambiente cultural que possibilitam o desenvolvimento dos processos psicológicos internos. O desenvolvimento do ser humano está atrelado às suas interações com o contexto sociocultural e ocorrerá somente pelas mediações com outros seres humanos. Por fim, destacamos que o ato de brincar é fundamental para o processo de aprendizagem da criança. Esse ato irá gerar situações imaginárias que proporcionem o desenvolvimento cognitivo e auxilie nas interações com outras pessoas, as quais contribuirão no processo de crescimento do conhecimento. A seguir, buscaremos compreender as relações entre teoria do aprendizado humano e desenvolvimento humano. Vamos lá! www.esab.edu.br 39 Resumo Nestas primeiras seis unidades, ganhamos maior compreensão da história da psicologia, do conceito e de suas relações com a educação. Procuramos compreender a teoria do desenvolvimento humano: a concepção behaviorista, a concepção construtivista de Piaget e a concepção sócio- histórica de Vygotsky. Buscamos entender as relações entre memória e pensamento, percepção e atenção e aprendizagem. Vimos a importância do brinquedo para a aprendizagem e o desenvolvimento humano na infância. Percebemos que a psicologia contribui para o entendimento da totalidade da vida humana e deixamos claro que a forma como será abordada dependerá da concepção de ser humano adotada pelas diferentes tendências psicológicas. Porém, vimos que essa diversidade de escolas e correntes psicológicas acaba por formular um conhecimento fragmentado do ser humano, separando sua subjetividade de suas manifestações. Por outro lado, essa fragmentação será superada por meio de uma psicologia que compreenda esse ser humano na sua totalidade, sendo o papel de uma ciência crítica perceber o ser humano inserido no mundo em sua totalidade de sentimentos e emoções. A Teoria Behaviorista do desenvolvimento humano acredita que o educando é uma tábula rasa, sem conhecimento, e que aprende por meio de informações repassadas pelo professor. Na Teoria Construtivista do desenvolvimento humano, Piaget destaca o processo de equilibração. Esse processo é constantemente vivenciado pelo ser humano, por exemplo, quando temos um aprendizado adquirido ao caminhar, mas temos de aprimorá-lo no ato da corrida, isto é, passar de uma situação de menor equilíbrio para uma de maior equilíbrio. Por fim, observamos que a ligação entre o desenvolvimento, o brincar e a aprendizagem são essenciais para a elaboração de novas aprendizagens por parte da criança. Vimos que as atividades lúdicas são atreladas às www.esab.edu.br 40 funções psíquicas superiores e à importância da Teoria Sociocognitiva para a Educação Infantil. As brincadeiras e as atividades lúdicas poderão ser a melhor opção, ou seja, o melhor caminho para a interação entre os adultos e as crianças e dos pequeninos entre si, gerando assim novas formas de desenvolvimento e de construção de conhecimento. www.esab.edu.br 41 7 Relação entre teoria do aprendizado humano e desenvolvimento humano Objetivo Compreender as relações entre a teoria do aprendizado humano e desenvolvimento humano. Na unidade anterior, constatamos a importância do brincar no processo da construção do conhecimento da criança. Abordaremos, agora, a relação entre teoria do aprendizado humano e desenvolvimento humano utilizando as concepções de Vygotsky (2002). Essa é uma discussão que vem de longe e, a princípio, podemos nos embasar nas concepções que estudamos nas unidades de 1 a 6 para compreendê-la. Quando estudamos o histórico e o conceito da psicologia e sua relação com a educação, mesmo que brevemente, vimos a concepção behaviorista, a concepção construtivista, a teoria de Vygotsky, a relação entre aprendizado e desenvolvimento humano, a memória, o pensamento, a percepção e a atenção e, por fim, vimos o brinquedo, a aprendizagem e o desenvolvimento humano. Neste momento, iremos trazer as concepções de alguns filósofos e pensadores, reunidas na obra de Vygotsky (2002), intitulada “A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores”, para entendermos as relações entre a teoria do aprendizado humano e o desenvolvimento humano, entre eles Jean Piaget,Alfred Binet, e Kurt Koffka. Para Vygotsky (2002), existem três grandes posições teóricas que abordam a relação entre desenvolvimento e aprendizado em crianças. Para a primeira posição teórica, aprendizagem e desenvolvimento são independentes um do outro; na segunda teoria, aprendizagem é desenvolvimento; e a terceira posição teórica é composta pela combinação entre a primeira e a segunda. Vamos entender um pouco mais esses processos analisando detalhadamente essas três grandes teorias. www.esab.edu.br 42 7.1 Aprendizagem e desenvolvimento: processos independentes A primeira posição teórica, segundo o pesquisador Vygotsky (2002, p. 103), “[...] centra-se no pressuposto de que os processos de desenvolvimento da criança são independentes do aprendizado”. Conforme o pesquisador, os processos de desenvolvimento cognitivo da criança em idade escolar ocorrem naturalmente, independentemente do aprendizado (VYGOTSKY, 2002). Sendo assim, podemos entender que a aprendizagem ocorre se o desenvolvimento do corpo e da mente estiver preparado ou organizado para determinado conteúdo. Vygotsky afirma que Jean Piaget aceita essa posição teórica e a adota em sua metodologia experimental, pois “[...] procura obter as tendências do pensamento da criança na forma pura, completamente independente do aprendizado” (VYGOTSKY, 2002, p. 103). Isso ocorre quando fazemos a uma criança de quatro anos uma pergunta que está muito além do alcance do seu desenvolvimento mental e intelectual. Por exemplo, se perguntarmos a uma criança por que o céu é azul, ela não terá habilidades intelectuais e conhecimentos prévios para responder nem formular questões científicas desse tipo. As pesquisas do pesquisador do desenvolvimento humano Alfred Binet apontam que o desenvolvimento humano é condição para o aprendizado (VYGOTSKY, 2002). A partir desta concepção, que tem como principais representantes esses dois teóricos (Piaget e Binet), concluímos que o desenvolvimento humano compõe o fundamento para o aprendizado. Isso implica dizer que o primeiro é primordial para o segundo e que, considerando este pressuposto, o desenvolvimento estará à frente do aprendizado. Vamos à segunda posição teórica? www.esab.edu.br 43 7.2 A indissociabilidade entre aprendizagem e desenvolvimento Em uma segunda posição conceitual, aprendizado é desenvolvimento. Sendo assim, aprendizagem e desenvolvimento são inseparáveis. Segundo Vygotsky (2002), ocorre sincronia entre a aprendizagem e o desenvolvimento. Essa concepção tem como cerne os reflexos, ou seja, o desenvolvimento é analisado como o: [...] domínio dos reflexos condicionados, não importando se o que se considera é o ler, o escrever ou a aritmética, isto é, o processo de aprendizado está completa e inseparavelmente misturado com o processo de desenvolvimento. (VYGOTSKY, 2002, p. 105) O que essa teoria tem em comum com a teoria de Jean Piaget? A proposição na qual o desenvolvimento é formulado com a elaboração e substituição de respostas inatas. Saiba que a diferença entre a teoria de Piaget e essa segunda posição teórica consiste na temporalidade entre os processos de aprendizado e das etapas do desenvolvimento. Para Piaget, em cada etapa do desenvolvimento humano estamos preparados ou desenvolvidos intelectualmente para aprender determinados conteúdos. Isso porque houve uma discussão muito grande nas décadas de 1980 e 1990 sobre as questões da maturação e o aprendizado da leitura e da escrita. Alguns teóricos acreditavam que a criança de seis anos não era madura e também não estava desenvolvida cognitivamente para aprender a ler e a escrever. Vamos recapitular as duas primeiras posições teóricas que tratam da relação entre desenvolvimento e aprendizado em crianças, conforme Vygotsky (2002): a primeira defende que as etapas do desenvolvimento humano antecedem os ciclos de aprendizagem, ou seja, o amadurecimento intelectual antecede o aprendizado e o conhecimento deve seguir o crescimento mental; a segunda aponta que a aprendizagem e o desenvolvimento humano ocorrem simultaneamente, coincidindo em todos os pontos. Vamos conhecer a terceira posição teórica, que é uma combinação entre as duas primeiras teorias. www.esab.edu.br 44 7.3 Aprendizagem e desenvolvimento: mútua influência A terceira posição teórica propaga a fusão entre aprendizado e desenvolvimento, concebendo o primeiro como parte integrante do segundo. Trata-se de uma concepção defendida pelo pesquisador Kurt Koffka e os gestaltistas. Para Vygotsky (2002), o aprendizado não coincide com o desenvolvimento, ou seja, o aprendizado leva ao desenvolvimento. Segundo esse autor, ao avançar um passo no aprendizado, a criança avança dois passos no desenvolvimento. Por meio do aprendizado, o ser humano desenvolve-se intelectual e cognitivamente. Ao interagirem e se relacionarem com crianças de faixa etária diferente em sala de aula, as crianças adquirem outros aprendizados. Agora que tal um exemplo no contexto escolar? Podemos pensar em uma criança de dois anos que entra para a escola. Antes de entrar na escola, essa criança não falava uma palavra completa e chamava, por exemplo, mãe de “ma” e pai de “pa”. Ou seja, não pronunciava as palavras completas. Ao entrar para a escola, é possível perceber que essa criança começará a desenvolver a fala. Desse modo, sua linguagem e sua comunicação por meio das palavras serão ampliadas. Ao completar alguns meses no processo de interação na escola, percebemos que essa criança fala as palavras completas e consegue realizar algumas ações sozinha, como sentar-se à mesa sem a ajuda do professor ou de um adulto. Esse exemplo ilustra que a aprendizagem leva ao desenvolvimento, como explicitado anteriormente por Vygotsky (2002). Na unidade 18 estudaremos mais profundamente a teoria do desenvolvimento humano segundo Vygotsky. Por fim, é importante ressaltarmos que há alguns aspectos do desenvolvimento humano que devem ser compreendidos e analisados para uma aprendizagem efetiva, conforme Bock, Teixeira e Furtado (2009). São eles: www.esab.edu.br 45 • aspecto físico-motor: diz respeito ao crescimento fisiológico/ orgânico e está atrelado à capacidade de manuseio com os objetos e também à capacidade de realizarmos atividades com o nosso corpo; • aspecto intelectual: é a capacidade de pensarmos, raciocinarmos; • aspecto afetivo-emocional: é a capacidade de sentirmos, quando integramos nossas experiências ao nosso emocional; • aspecto social: é a forma como o homem reage diante das situações que estão atreladas a outras pessoas. Dentro da aprendizagem humana, esses fatores influenciam direta ou indiretamente o processo de ensino-aprendizado no contexto escolar. Nesta unidade, centramos nossos estudos na relação entre teoria do aprendizado humano e desenvolvimento humano. Conhecemos as três grandes posições teóricas destacadas por Vygotsky (2002), que abordam a relação entre desenvolvimento e aprendizado em crianças. Na próxima unidade, conheceremos mais de perto dois mecanismos que auxiliam as funções psicológicas superiores: a memória e o pensamento. Estudo complementar Vimos que as concepções de desenvolvimento e de aprendizagem foram objeto de estudo de Vygotsky e de outros importantes pesquisadores. Leia o texto “Relações entre aprendizagem e desenvolvimento em Piaget e em Vygotsky: dicotomia ou compatibilidade?”, disponível aqui. Nele você encontrará as aproximações e os distanciamentos entre Piaget e Vygotsky no que se refere à aprendizagem e ao desenvolvimento. Bom estudo! http://www.redalyc.org/pdf/1891/189117303016.pdf www.esab.edu.br 46 8 Memória e pensamento no contexto escolar Objetivo Analisar as relações entre memória e pensamento no contexto escolar. Na unidade 5 estudamos as relações entre memória e pensamento, percepção e atenção e aprendizagem. Vamos agora dar ênfase às relações entre o pensamento e a memória no contexto escolar. Para isso, conheceremosos conceitos atribuídos por Vygotsky (2002) para duas funções psicológicas superiores: a memória e o pensamento. Primeiramente, é necessário entendermos o que é pensamento. Buscando essa informação em alguns dicionários, verificamos que pensamento significa ato particular da mente, modo de pensar, ideia. Já a memória significa a faculdade de poder lembrar-se. Tanto uma quanto a outra são atividades necessárias para que o aprendizado aconteça. Vamos, então, rever o pensamento de Vygotsky sobre esses dois temas para nos aprofundarmos nesta questão. Vygotsky estudou amplamente os mecanismos que auxiliam as funções psicológicas superiores (memória, pensamento, percepção, atenção) para que haja uma efetiva transformação do funcionamento mental. Esses mecanismos que auxiliam nas funções psicológicas superiores são intitulados de signos (VYGOTSKY, 2002), como vimos na unidade 5. Lembramos que, para esse autor, signo representa a linguagem simbólica representada pela espécie humana. Os signos são as formas de comunicação e interação entre os seres humanos. www.esab.edu.br 47 Figura 12 – Inteligência e memória. Fonte: <www.123rf.com>. Saiba que a origem social da memória mostra dois tipos diferentes: natural e mediada (VYGOTSKY, 2002). Comecemos pela memória natural, que está ligada à percepção sensorial e à atenção involuntária. Essa memória está, ainda, interligada à percepção, pois é consequência direta dos estímulos externos, caracterizando-se pelo imediatismo. Já a memória mediada transforma a estrutura psicológica (a estrutura cognitiva) do ser humano de forma a ampliá-la para além das dimensões biológicas do sistema nervoso, coligando a ele estímulos artificiais. A memória mediada tem como atributo a função ambiental, que se relaciona com os estímulos que recebemos do meio ambiente. Essa memória é interligada por signos. Ao analisarmos a história da humanidade, notamos que o ser humano utilizou signos como instrumentos psicológicos em várias situações atreladas ao contexto em que vivia. O homem utilizava-se de varetas, gravetos e ou pedras para registrar a contagem de cabeças de gado. A função psicológica superior era armazenar informações por meio da representação da realidade com signos, permitindo o estabelecimento de comparações (VYGOTSKY, 2002). Destacamos que a memória mediada por signos tem a capacidade maior de lembrar determinado conteúdo do que a memória não mediada. A memória mediada abrange a ação voluntária do ser humano no sentido de se sustentar em elementos mediadores, signos e instrumentos para auxiliá-lo na recordação ou na lembrança de conteúdos específicos. www.esab.edu.br 48 Leontiev, pesquisador companheiro de Vygotsky nas investigações da mente humana, detectou, por meio de suas experiências, que o papel dos signos na atenção voluntária e na memória indicam que o processo de lembrança mediada existe. É por meio da memória que o ser humano consegue se lembrar de alguns acontecimentos e de determinados conteúdos. Podemos transpor esse conceito para a sala de aula. Um exemplo disso ocorre quando um aluno precisa lembrar-se de um conteúdo de adição, para resolver um problema matemático. Para o aluno ter lembrado aquele conteúdo, foi necessário utilizar a mediação por meio da interação com o problema que proporcionou a lembrança do conteúdo para esse estudante. Vygotsky (2002) afirma que esse processo é marcado por alguns estágios de desenvolvimento: • 1º estágio (idade infantil): a criança não consegue controlar seu comportamento pela organização de estímulos; • 2º estágio (criança): o estímulo auxiliar é uma ferramenta psicológica que opera iniciando no meio exterior; • 3º estágio (adulto): nessa fase do desenvolvimento humano, o comportamento continua mediado e os estímulos auxiliares são deslocados de suas formas primárias (formas elementares relacionadas ao biológico). Assim, gradualmente ocorre a internalização como uma ação para a memorização, verificando-se as formas externas de comportamento mediado. Ressaltamos que, na história da utilização de signos pelo ser humano, observamos que eles são utilizados como resultado de um processo prolongado e complexo, atrelado ao desenvolvimento psicológico. Essa atividade de utilização dos signos não é ensinada e nem inventada pelos adultos às crianças. A partir das ideias de Vygotsky (2002), observamos que a memória é atributo das primeiras fases do desenvolvimento cognitivo, como estudamos na unidade 5. Na infância, a memória é uma das funções psicológicas principais, e é a partir dela que se constroem as demais funções. www.esab.edu.br 49 Você deve recordar que, conforme a concepção de Vygotsky (2002), a memória é diferente em crianças de menor idade e em crianças de maior idade. Para as crianças pequenas pensar significa lembrar. A criança pequena, por exemplo, tem a lembrança de um livro de história contado pelo professor em um determinado momento da Educação Infantil. Em outro momento, essa mesma criança pega o livro e tenta, por meio da lembrança, recontar o livro (lembrando do que estava escrito nele). Mencionamos a comparação entre o ato de pensar de uma criança e de um adolescente. Você se lembra da conclusão a que chegamos? Para uma criança, pensar tem o significado de lembrar e, para um adolescente, lembrar tem o significado de pensar. É importante ressaltarmos com esse estudo que a característica de lembrar com o auxílio de signos é um atributo essencialmente da memória humana. Para sua reflexão Pense sobre o significado dos signos para o nosso desenvolvimento cognitivo. Reflita sobre as questões da nossa memória mediada: é importante o uso de signos na nossa comunicação? Como utilizamos nossa memória mediada? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. Dentro do contexto escolar, determinados signos são utilizados para lembrar conteúdos repassados nas aulas de matemática, português, biologia entre outros. A criança muito pequena se lembra de determinadas situações vivenciadas em muitas circunstâncias em um período de tempo curto. À medida que a criança cresce, esse prazo de lembrança de um determinado acontecimento escolar aumenta. Vygotsky (2002) analisa a diferença entre o pensamento da criança e do adolescente (14 a 16 anos), que ele intitula “idade de transição”. Este autor ressalta que a adolescência é a fase de transição da vida de jovem para a vida de adulto. www.esab.edu.br 50 Segundo este pesquisador, a memória torna-se mais interiorizada para o adolescente. Vygotsky (2002, p. 118) explica: “[...] o que para uma criança é externo no âmbito da memória lógica, da atenção arbitrária, do pensamento, torna-se interno no adolescente”. E complementa dizendo que para um adolescente, lembrar significa pensar, ao passo que para a criança, pensar significa lembrar (VYGOTSKY, 2002). A memória, ou seja, o ato de pensar ou lembrar é uma função psicológica muito utilizada em sala de aula. Sendo assim, as atividades que poderão contribuir para o desenvolvimento da memória precisam ser pensadas e planejadas pelos professores. Isso por meio da oferta de exercícios que tenham um valor significativo para a criança e que possibilitem a ela aprimorar o pensamento e a memória cognitiva. Para tanto, cabe ao professor considerar as concepções aqui estudadas quando for elaborar seu planejamento. Esteja ciente ainda de que a escola pode contribuir para o desenvolvimento da memória e do pensamento de seus alunos, à medida que pode proporcionar atividades que estimulem o desenvolvimento dessas funções psicológicas superiores. Algumas escolas se utilizam de jogos para aprimorar e explicitar alguns conteúdos e estimular o uso da memória e do pensamento no contexto escolar. Nesta unidade foi possível percebermos que o desenvolvimento da memória e do pensamento segue determinados estágios e que a escola podecontribuir para tal desenvolvimento. A seguir, prepare-se para estudar mais a fundo a relação entre percepção e atenção e o contexto escolar. Até lá! Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. www.esab.edu.br 51 9 Percepção e atenção no contexto escolar Objetivo Relacionar o processo de percepção com o contexto escolar. Após compreendermos que a memória e o pensamento são utilizados na escola e que atividades que desenvolvam essas funções devem ser planejadas pelo professor, voltaremos agora nossos estudos para as conexões entre a percepção, a atenção e o ambiente escolar. Neste momento, abordaremos a percepção e a atenção, funções que fazem parte de um processo dinâmico do comportamento humano. Percepção e atenção fazem parte das organizações psicológicas superiores e são objetos de estudo de muitos psicólogos, pedagogos e cientistas. Retomaremos esse assunto que já foi abordado na unidade 5 sobre o significado de percepção e de atenção, tomando por base os estudos de Vygotsky (2002). Vamos lá? Procurando o conceito de percepção em alguns dicionários, observamos que significa perceber algo, o modo como vemos ou julgamos determinada situação, a maneira como apreendemos a realidade ou uma situação objetiva. Essa palavra pode ser estudada e conceituada sob o ponto de vista biológico, fisiológico e também psicológico. Nesta unidade, esse termo será abordado sob a ótica psicológica envolvendo outro processo mental – a atenção, que influencia na forma como interpretamos as situações vivenciadas no nosso dia a dia, nos diferentes espaços. Quanto ao conceito de atenção, o Dicionário do Houaiss (2009) define o termo como “concentração da atividade mental sobre um objeto”. Esse conceito é muito utilizado em outros dicionários, porém essa palavra pode ter diversos significados dependendo da área em que se insere. Como mencionamos anteriormente, trabalharemos com a área da www.esab.edu.br 52 psicologia. Nessa área do conhecimento, a atenção é uma característica da percepção. Figura 13 – A atenção em sala de aula. Fonte: <www.123rf.com>. E qual seria a função da percepção? Para Vygotsky (2002), a principal função seria a de filtrar os estímulos ambientais, considerando os que são mais relevantes. E a atenção é compreendida como um organismo que controla e regula os processos mentais ou cognitivos. A percepção é parte de um sistema dinâmico de comportamento; por isso, a relação entre as transformações dos processos perceptivos e as transformações em outras atividades intelectuais é de fundamental importância. (VYGOTSKY, 2002, p. 44) Conforme Vygotsky (2002), as funções psicológicas superiores como a percepção, a atenção e a memória, estudadas à luz da psicologia, são relacionadas ao desenvolvimento e à aprendizagem. Tratando mais especificamente da percepção, esta tem como base as questões relacionadas ao ambiente no qual o ser humano está inserido, porém temos de levar em consideração que a mediação simbólica e o processo sociocultural são muito importantes para o funcionamento da percepção. www.esab.edu.br 53 A mediação simbólica é como analisamos determinado objeto! Mediação simbólica é toda influência de um terceiro componente que permite a interação entre os autores de uma relação. Ela é utilizada para indicar a função de cada elemento dos signos na comunicação entre os seres humanos e na construção do contexto social e cultural do ser humano (VYGOTSKY, 2002). Para exemplificarmos melhor essa definição, considere a imagem a seguir. Figura 14 – Formas. Fonte: <www.123rf.com>. Algumas pessoas podem olhar para a Figura 14 e verificar que é a foto de uma árvore. Outras, ao olharem atentamente a mesma foto, percebem que a árvore tem formas e que essas formas podem ser relacionadas à figura humana. Para Vygotsky (2002), a percepção de situações reais e de objetos tem início nos primeiros anos de vida do indivíduo. O termo percepção é analisado por este autor por meio do sentido e do significado que atribuímos a determinadas palavras e/ou situações. Ao abordar a percepção, Vygotsky (2002) enfatiza que ela acontece devido aos processos utilizados nas funções superiores do pensamento humano, www.esab.edu.br 54 interagindo com a representação simbólica e sociocultural desses processos. Isso ocorre quando percebemos informações do mundo real e atrelamos essas percepções às nossas experiências, ou seja, às vivências armazenadas em nosso cérebro. A situação ou o artefato são percebidos como um instrumento completo e não como um amontoado de informações processadas pelos sentidos. Essa situação está atrelada à trajetória do desenvolvimento do ser humano, ao seu conhecimento do planeta e também às suas vivências e experiências armazenadas no intelecto. Vamos ver como Vygotsky (2002) classifica a percepção? Para o autor, a percepção pode ser natural ou verbalizada. Saiba que na infância, a criança rotula: observa cada parte de uma situação e, por meio da fala, vai ressaltando o que está vivenciando isoladamente e cada parte da cena na qual está inserida. Essa rotulação desenvolve na criança a capacidade de escolher apenas um elemento, deixando-o isolado, facilitando o processo de percepção. Esse processo de percepção vai se desenvolvendo e a criança passa a perceber o mundo não apenas com os olhos, mas por meio da fala. A criança começa a perceber o mundo não somente através dos olhos, mas também através da fala. Como resultado, o imediatismo da percepção “natural” é suplantado por um processo complexo de mediação; a fala como tal torna-se parte essencial do desenvolvimento cognitivo da criança. (VYGOTSKY, 2002, p. 43) A percepção natural passa por um processo complexo de mediação, em que a fala se torna elemento essencial no desenvolvimento cognitivo da criança para uma percepção verbalizada. Esses mecanismos intelectuais associados à fala encadeiam uma nova função que está ligada à percepção verbalizada. Nessa percepção verbalizada, a criança não se limita apenas a rotular, ela desenvolve na fala a função sintetizadora. Essa função tem a característica de rotular cada palavra. Em seguida, esses termos são conectados a uma sentença e que formarão uma expressão com sentido analítico. No contexto escolar, é muito importante que o professor trabalhe com a percepção e a atenção das crianças. A criança tem percepção aguçada para determinados objetos, como jogos pedagógicos, vídeos e livros de www.esab.edu.br 55 histórias infantis. Desse modo, na Educação Infantil, o planejamento dos professores deve ser elaborado para que esse foco/atenção seja canalizado para os conhecimentos científicos que podem ser desenvolvidos com muito sucesso nessa faixa etária. Um exemplo que pode ser explorado na Educação Infantil pelo professor é o desenvolvimento de um projeto sobre animais. Esta pode ser uma importante estratégia pedagógica para desenvolver a percepção das crianças, pois é por meio do conhecimento de diversos tipos de animais e seus modos de vida que o professor pode oportunizar às crianças a construção de valores e conceitos relacionados à preservação da natureza. Ao partirmos desse pressuposto, algumas atividades podem ser desenvolvidas dentro do contexto escolar, principalmente na Educação Infantil, para desenvolver a percepção e a atenção das crianças. Como exemplo, poderíamos citar: a observação de fatos e de situações que envolvam aspectos do ambiente escolar; a manipulação de objetos de formatos variados e de diferentes texturas; e a realização de experiências que proporcionem o levantamento de hipóteses. As crianças poderão realizar atividades de memória utilizando jogos como quebra-cabeça e caça ao tesouro. Tais atividades também permitem um maior desenvolvimento da percepção e da atenção. Vimos, nesta unidade, que a percepção e a atenção têm um importante papel no contexto escolar, nosentido de construir e reconstruir o conhecimento. Para isso, cabe ao professor propor atividades nas quais o educando tenha de atribuir variados sentidos e significados ao contexto em que vive. Na sequência, conheceremos a visão de Vygotsky sobre a linguagem. Vamos lá? Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidades 1 a 9. Para isso, dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 56 10 A linguagem segundo Vygotsky Objetivo Compreender o desenvolvimento da linguagem proposto por Vygotsky. Na unidade 8, iniciamos nosso percurso de estudo sobre as funções psicológicas superiores (memória, pensamento, percepção e atenção), trilhado a partir do pensamento de Vygotsky (2002). Todas essas questões são abordadas por este pesquisador de modo entrelaçado à questão da linguagem. Neste momento, vamos compreender como Vygotsky apresenta o conceito de linguagem. Incialmente, tenhamos em mente que a análise que Vygotsky faz sobre o desenvolvimento da espécie humana está ligada a dois fenômenos: o pensamento e a linguagem. Na teoria desenvolvida por esse autor, esses dois processos – pensamento e linguagem – estão interligados, apesar de se desenvolverem distintamente. A linguagem depende do pensamento para ser efetuada. Em outros termos, Vygotsky (2002) afirma que a fala organiza o pensamento, ou seja, dependemos dela para nos relacionarmos com os outros. É a partir do uso da linguagem e das interações provocadas por ela que vamos adquirindo conhecimento em nossas relações interpessoais e intrapessoais. Esse mesmo autor destaca que encontramos respostas para questões do pensamento e da fala por meio do significado da palavra. A linguagem está imbuída de dois processos: individual e social (VYGOTSKY, 2002). Assim, a fala humana é um fenômeno que se utiliza do uso de signos durante todo o processo de desenvolvimento humano. www.esab.edu.br 57 Utilizando da linguagem, a criança consegue superar certas limitações do contexto em que vive, controlando assim seu próprio comportamento. O que distingue o ser humano dos outros seres vivos? A linguagem, por meio da qual o homem consegue expor seu pensamento e se comunicar (VYGOTSKY, 2002). Podemos nos questionar como a criança adquire a linguagem. Você já parou para pensar nisso? Na concepção de Vygotsky (2002), a criança adquire a linguagem por meio de dois processos: a interação com o meio social e a apropriação de significados conhecidos por meio do convívio social. Vamos discutir brevemente sobre eles? No primeiro ano de vida, a criança amplia suas funções psicológicas superiores, e a percepção, o cérebro e a atenção se desenvolvem a cada dia. A sua interação com o mundo social também se expande, havendo um crescimento de todo o seu organismo. Com esse desenvolvimento emocional, afetivo e social, a criança vai interagindo com outros seres da sua espécie. Quando maior, a criança se utiliza da linguagem e do pensamento nessa interação. Figura 15 – Modelo de comportamento – processo de interação. Fonte: <www.123rf.com>. www.esab.edu.br 58 Saiba que é por meio dessa troca de informações que a criança vai criando modelos mentais que serão utilizados pelo pensamento em alguma situação semelhante à que vivenciou no passado. Como exemplo, podemos imaginar uma criança brincando de boneca. Essa interação que a criança faz com a boneca permite que ela se lembre das interações que ela estabelece com sua mãe e/ou com um adulto e faz com que ela faça a mediação com aquele objeto por meio da fala, utilizando a linguagem que aprendeu e vivenciou com sua mãe. Vygotsky (2002) observou que, por volta dos dois anos de idade, o pensamento e a linguagem se entrelaçam, alterando o comportamento da criança. Essa alteração faz com que a criança passe a verbalizar esse pensamento, surgindo a fala racional e o pensamento verbal. A partir dessa fase, a criança passa a ter pensamentos e percepções próprias detectadas a partir da interpretação de situações vivenciadas no seu cotidiano. Os acontecimentos do contexto social vivenciados por meio das interações com outros seres de sua espécie despertam na criança a comunicação por meio da linguagem e organizam o pensamento. Com essa interação, a criança verbaliza o que vê, o que sente e o que percebe, atribuindo significado a essas situações por meio da palavra que profere. O significado da palavra proferida pela criança consiste na união do pensamento e da fala, originando o pensamento verbalizado (VYGOTSKY, 2002). Na fase inicial de aquisição da linguagem, a criança utiliza da linguagem externa disponível em seu contexto social para existir comunicação com os seres da sua espécie. Nessa fase, a criança utiliza a linguagem expressada por adultos e ou crianças mais velhas que ela para se comunicar. Um exemplo disso pode ser notado nas crianças que começam a falar: no primeiro momento, por exemplo, a criança pede água apontando para a garrafa. E a mãe e/ou adulto próximo fala para ela: você quer água? E assinala mostrando a garrafa e a água. E repete várias vezes: água. Após algumas cenas, a criança expressa água, ou seja, evidencia a palavra água. Note que a linguagem é de suma importância, considerando-a como instrumento por agir na modificação do desenvolvimento e na estrutura das funções psicológicas. O ser humano pensante é um sujeito ativo e www.esab.edu.br 59 participante no processo do conhecimento, pois interage com os outros por meio das suas mediações intra e interpessoais. Ao longo do processo de desenvolvimento, a criança vai incorporando suas ações à fala e ao uso dos signos, expressando, assim, suas percepções e sensações do mundo social. Com o desenvolvimento do processo cognitivo, a fala desenvolve uma função essencial na organização das funções psicológicas superiores. A fala faz com que a criança foque sua atenção de maneira mais direta e dinâmica. A linguagem é um instrumento simbólico do ser humano, ela estabelece a mediação entre os sujeitos e o objeto do conhecimento (VYGOTSKY, 2002). Ao escrever sobre a linguagem escrita, Vygotsky (2002) se utilizou de outros pesquisadores, como Hetzer e Montessori. Elas enfatizam a questão da linguagem escrita iniciar-se nos primeiros anos da Educação Infantil e ser despertada na criança de forma lúdica e natural. A criança tem de sentir-se motivada e também sentir a necessidade de desenvolver a interpretação das letras, formando palavras e futuramente desenvolvendo a escrita e a leitura. Conforme afirma Vygotsky (2002), o professor deve ensinar a linguagem escrita e não a escrita de letras. Nesse sentido, apenas desenhar/escrever letras não traz nenhum sentido e nem significado para as crianças. As primeiras garatujas que as crianças fazem, ou seja, desenhos que aparentemente não têm sentido para os educadores, expressam o primeiro traçado na tentativa de expressar ou de comunicar algo. Por exemplo, a escrita da palavra “formiga” com apenas algumas letras significa que a criança começou a associar o som com a letra. Porém, as crianças precisam entender o que significa formiga, ou seja, o conceito de formiga. E isso vai além de saber escrever a palavra formiga! Por fim, a fala organiza nosso pensamento, e é o que podemos concluir a partir das contribuições de Vygotsky (2002). Por meio da fala, podemos perceber quando compreendemos, ou não, determinada situação. Você www.esab.edu.br 60 já percebeu que, ao explicar um conteúdo para um colega, você nota se aprendeu ou não? Vygotsky afirma que ao explicarmos algo por meio da verbalização sobre determinado assunto, estamos aprendendo e compreendendo sobre o assunto explicitado. Para o autor, a fala organiza o nosso pensamento, sendo assim, notamos que aprendemos sobre determinado conteúdo se conseguimos explicar aquele conteúdo para umcolega próximo. Conhecemos, nesta unidade, como se desenvolve a linguagem para Vygotsky. Vimos que a linguagem é um instrumento simbólico do ser humano e que a criança pode superar determinadas limitações do contexto em que está inserida por meio da linguagem. Na próxima unidade, estudaremos sobre a importância do brinquedo para o desenvolvimento humano no contexto escolar. Estudo complementar Vygotsky é ainda um dos autores de referência no embasamento do trabalho educacional. Aprofunde seus conhecimentos sobre os principais pontos da psicologia sociointeracionista proposta por este pensador que, como vimos, toma como ponto de partida as funções psicológicas dos indivíduos. Acesse o link, clicando aqui. http://www.ugr.es/~recfpro/rev102COL2port.pdf www.esab.edu.br 61 11 A importância do brinquedo para o desenvolvimento humano no contexto escolar Objetivo Entender a importância do brinquedo para o desenvolvimento humano na fase da infância no contexto escolar. O que vamos estudar nesta unidade tem a ver com o que abordamos na unidade 6. Vamos recapitular, então, um pouco do que vimos lá? Tratamos de questões como o brinquedo, a aprendizagem e o desenvolvimento humano a partir do pensamento de Vygotsky (2002). Ressaltaremos a importância do brinquedo para o desenvolvimento humano no contexto escolar. Primeiramente, destacamos que o brinquedo é muito importante nas fases do desenvolvimento infantil. Esta ferramenta auxilia a criança a interagir com o contexto social. O brinquedo permite que a criança sinta-se adulta, ou seja, brinque com alguns utensílios utilizados pelo adulto. Um exemplo disso é quando a criança brinca “de cozinhadinho”. Nessa brincadeira, ela utiliza brinquedos como fogão em miniatura, bonecas, pratos, talheres, mesas. Todos esses utensílios utilizados na cultura do adulto são incorporados e utilizados pelas crianças na brincadeira. Através dela, a criança interage com a cultura social, simbolizada por esses brinquedos e por essa brincadeira. Também trabalha com problemáticas que a criança vivencia no contexto social por meio do imaginário infantil e da ludicidade, com o objetivo de superá-las (VYGOTSKY, 2002). Quando a criança tem algum problema no contexto social em que vive, essa problemática aparece na brincadeira. Um exemplo: ao ser agredida pela mãe, a criança pode reproduzir a situação em uma brincadeira em que ela utiliza uma boneca. Ou seja, essa boneca (que ela sente que é a criança representada por esse brinquedo) irá vivenciar tudo o que essa criança vivencia em sua casa. Por meio dessa vivência, a criança tentará www.esab.edu.br 62 superar os acontecimentos que estão sendo vivenciados por ela no seu ambiente doméstico. Vygotsky (2002) nos lembra que o ser humano é um ser social e, sendo assim, interage com a natureza e com outros seres da sua espécie. Logo, a criança aprende por meio da interação com os outros seres humanos, utilizando-se de signos e símbolos, e estes fazem parte do contexto social. Destacamos que entre os elementos que compõem nosso contexto social está a cultura, e entre os instrumentos desta, o brinquedo. Assim, o brinquedo também é um elemento que representa nossa cultura. Um exemplo disso está nos brinquedos que são utilizados em determinados contextos regionais. Em alguns locais da Região Sul do Brasil, por exemplo, os brinquedos utilizados como brincadeiras regionais são o Boi de mamão; no Nordeste, podemos ressaltar o Bumba meu boi. Destacamos aqui que a brincadeira faz parte da cultura de um povo. E a cultura se caracteriza pelo conjunto de práticas, conhecimentos e artefatos construídos pelos seres humanos na sua vivência secular histórica. O processo de brincar identifica o que homem (criança) conhece e vivencia, reformulando o meio cultural no qual está inserido. Para Vygotsky (2002), por meio das brincadeiras, as crianças desenvolvem a imaginação. Este processo psicológico inicia-se na infância, permitindo ao adulto desligar-se das advertências impostas pelo contexto em que vivem, tentando transformá-lo. www.esab.edu.br 63 Figura 16 – A brincadeira no contexto social e cultural. Fonte: <www.123rf.com>. A ação do brincar faz parte da cultura infantil. Essas culturas podem ser compreendidas como os significados e os signos que as crianças utilizam nas ações sociais; o modo como representam, interpretam e agem sobre o mundo em que vivem. Sendo assim, podemos considerar o brincar como produto e prática cultural! Essa ação está intrinsecamente relacionada ao desenvolvimento do ser cultural e também à constituição de culturas em espaços e tempos em que esses seres convivem diariamente. Retomando Vygotsky (2002), o brinquedo é um elemento essencial no processo psicológico, gerador do desenvolvimento e da aprendizagem em diferentes idades. A brincadeira cria a chamada zona de desenvolvimento proximal, fazendo com que a criança ultrapasse as ações do conhecimento já adquirido pelo desenvolvimento real, motivando-a a conquistar novas possibilidades de compreensão e de ação sobre o mundo. Sendo assim, destacamos que o brincar é uma atividade essencialmente humana, criadora e que utiliza a imaginação e a fantasia na interação e produção de novas possibilidades de expressão, comunicação e ação pelas crianças. O brincar pode proporcionar novas relações sociais com outros sujeitos, outras crianças e com adultos. Agora, pensemos sobre a brincadeira inserida no ambiente escolar. Podemos destacar que, dentro do contexto escolar, a brincadeira possibilita à criança: http://www.123rf.com/photo_10199270_children-playing-in-dunes-on-winter-beach.html www.esab.edu.br 64 • compreender o mundo e sentir-se parte desse contexto, desenvolvendo a sua identidade; • criar vínculos afetivos com os amigos do seu contexto escolar; • ampliar a habilidade de criação pela invenção, imaginação e fantasia; • trocar e assimilar outros papéis sociais que estão inseridos em nossa sociedade; • desenvolver as funções psicológicas superiores (percepção, atenção, linguagem etc.), provocando o amadurecimento afetivo, psicológico e cognitivo; • desenvolver a consciência moral e ética; • desenvolver e estimular a utilização de múltiplas linguagens; • produzir novos significados, saberes e práticas para situações já conhecidas; • desenvolver a autonomia; • fazer a distinção entre realidade e fantasia; • despertar o conhecimento sobre a dinâmica social e cultural; • desenvolver a curiosidade; • exercitar a inteligência; • aprimorar suas próprias capacidades de apreensão da realidade; • criar situações de aprendizado sobre determinados conteúdos, desenvolvendo seu pensamento e sua linguagem etc. Vemos que o brincar leva a criança a uma gama de descobertas e soluções que envolvem o conhecimento da própria história, da cultura, da sociedade em que vive, ampliando, assim, sua capacidade de imaginação e de recriação da realidade. www.esab.edu.br 65 O professor que compreende o brincar como uma forma de aprender passa a conhecer os gostos das crianças, seu cotidiano familiar e cultural e a proporcionar mediações durante o brincar, possibilitando às crianças novas experiências de apropriação de signos culturais e da linguagem, por meio de interações com outros sujeitos e com objetos do conhecimento. Por meio das brincadeiras, as crianças reelaboram conflitos e ansiedades, evidenciando sofrimentos e angústias que, em muitas situações, não conseguem explicar. As crianças, em algumas situações do contexto familiar, angustiam-se com vivências de pais autoritários, e para superar esse sofrimento, elas representam essas situações através de brincadeiras. A brincadeira no contexto escolar, bem planejada, pode estimular a memória, demonstrando sensações emocionais, ampliando a linguagem interior (VYGOTSKY, 2002). Vamos entender melhor esse processo? Em algumas circunstâncias, o brincar desenvolve a atenção e amplia a motivação. Quando a memória,a emoção, a linguagem, a atenção, a criatividade e a motivação são acionadas pelo ato de brincar, transformando as sensações em percepções e essas em conhecimentos, efetiva-se a construção de significados pelo cérebro. Por meio das brincadeiras, as crianças edificam seus próprios planetas e deles fazem a conexão essencial para entender o mundo adulto. Na ação do brincar, elas ressignificam e reelaboram situações que estruturam seus esquemas de vivências, sua diversidade de pensamentos e podem ampliar suas percepções sobre o mundo. Sendo assim, a brincadeira é uma ferramenta, um instrumento essencial para ser solidificado no currículo da educação, principalmente nas séries iniciais da Educação Básica. Tanto que a importância do brincar é destacada no RCNEI (BRASIL, 1998), justamente por proporcionar a possibilidade de a criança experimentar o mundo ao seu redor. Esse documento lembra ainda que a brincadeira é um elemento da cultura, conforme já se destacou aqui. www.esab.edu.br 66 Saiba mais Sugerimos que você acesse o vídeo (clicando aqui) e assista à entrevista da professora da Faculdade de Educação da USP, Tizuko Morchida, sobre o papel das brincadeiras na Educação Infantil. No interior do contexto escolar, é importante ainda, principalmente na Educação Infantil, que o professor esteja atento à organização do tempo e dos espaços. Esses dois elementos têm assumido um papel fundamental dentro do contexto infantil. Nesta abordagem, o que significaria organizar o “tempo” e o “espaço” nas Instituições de Educação Infantil? Consiste, basicamente, em criar um ambiente que considere as singularidades das crianças, seus ritmos de aprendizagem e oportunize o contato com diferentes formas do sistema simbólico (oralidade, escrita, desenho, pintura, gesto, imitação). Na Educação Infantil, o planejamento e a organização do tempo e espaço são responsabilidades dos professores dessa etapa da educação básica. É necessário que os professores observem a diversidade de ritmos de culturas, de fantasias e de saberes das crianças, a fim de proporcionar a elas conhecimentos valiosos por meio de descobertas e de sensações. Nesta unidade, compreendemos que o brinquedo é um importante elemento para o desenvolvimento humano na fase da infância, inclusive no contexto escolar. Nesse contexto, as atividades que o professor desenvolve em sala de aula precisam ser organizadas e planejadas de modo que a brincadeira possa contribuir para o desenvolvimento infantil. Esperamos ter contribuído para que você, como futuro professor, possa olhar cuidadosamente para esta atividade pela ótica das inúmeras possibilidades de desenvolvimento que o ato de brincar pode proporcionar à criança. A seguir, conheceremos as principais teorias da aprendizagem humana e seus principais representantes. http://www.youtube.com/watch?v=HpiqpDvJ7-8 www.esab.edu.br 67 Dica A disciplina de Fundamentos da Educação Infantil abordou sobre a organização do tempo, do espaço e a seleção de materiais. Sugerimos que você retome a leitura da unidade 23 e faça o exercício de relacionar esses elementos à importância do brinquedo. www.esab.edu.br 68 12 Teorias da aprendizagem humana Objetivo Conhecer as teorias da aprendizagem humana. Até aqui conseguimos estudar várias funções psicológicas superiores como: linguagem, pensamento, percepção, atenção, entre outras. Nesta unidade, iremos estudar as teorias da aprendizagem humana – Teoria do Condicionamento e Teoria Cognitivista – por meio das contribuições de Bock, Teixeira e Furtado (2009). Antes, porém, vamos abordar a questão da aprendizagem. O que é aprender? Nos diferentes dicionários da língua portuguesa, aprender significa adquirir um determinado conhecimento. Percebemos que esse processo de aquisição do conhecimento precisava ser estudado, passando a ser objeto de estudo da psicologia. Piaget, Emilia Ferreiro, Skinner e Vygotsky são alguns teóricos estudiosos da aprendizagem. Há várias formas de aprendizagem: quando decoramos algo, estamos aprendendo; e quando nos é transmitido um conhecimento por meio do compartilhamento do saber, também estamos aprendendo. Há várias situações de aprendizagem e estas deram origem às seguintes correntes da Psicologia da Aprendizagem: Teoria do Condicionamento e Teoria Cognitivista. Vamos começar com a Teoria do Condicionamento, a qual encontra em Thorndike, Skinner e Bandura seus principais representantes. Nesta teoria, a aprendizagem é derivada do processo de repetição e é mecânica, ressaltando que o ambiente tem grande influência no processo de ensino-aprendizagem. Nesta concepção, a aprendizagem é uma ligação entre um estímulo e uma resposta e ocorre por meio das consequências comportamentais. O aprendizado ocorre, segundo esses teóricos, por meio da repetição de uma determinada ação. Por exemplo, como vamos www.esab.edu.br 69 aprender a tabuada? Vamos aprender a tabuada decorando e repetindo muitas vezes 2 x 2, 3 x 2 e assim sucessivamente. Vejamos um exemplo dessa questão do condicionamento. Uma criança aprende a amarrar seu tênis na escola, esse processo de amarrar pode ser utilizado por ela em outros aspectos de sua vida, como amarrar uma caixa de presentes, amarrar uma corda para brincar de pular cordas, entre outras coisas. Conforme Bock, Teixeira e Furtado (2009), a corrente da psicologia do condicionamento é também intitulada behaviorista. Para os teóricos do condicionamento, também chamados de behavioristas, a aprendizagem é um processo de vinculações entre estímulos e reações. Eles destacavam que a motivação para aprender era processada por impulsos internos e reações externas de recompensa ou castigo. Vamos ressaltar, brevemente, o que pensam alguns psicólogos da corrente da psicologia do condicionamento: Bandura, Skinner e Thorndike. Albert Bandura também foi um psicólogo pertencente à psicologia do condicionamento. Ele destacou que a experiência dos outros pode acarretar a aquisição de novos comportamentos. Sendo assim, o ser humano pode adquirir um novo comportamento tomando como ponto de partida a observação de um modelo. Esse psicólogo delineia um processo para a aquisição de um novo conhecimento, conhecido como modelação, e este envolve a observação, a imitação e a integração. Skinner, psicólogo adepto desta corrente psicológica, ressalta que a aprendizagem deve ser bem planejada e organizada para que possa alcançar os resultados desejados na “modelagem” do aluno. Para Thorndike, outro psicólogo do condicionamento, a aprendizagem ocorre por meio do processo de associação de ideias. Aprofundaremos nossos estudos sobre as teorias do condicionamento na unidade 13, quando veremos as relações entre elas e a educação escolar. www.esab.edu.br 70 A segunda corrente da Psicologia da Aprendizagem é a Teoria Cognitivista. O que seria essa teoria? Responder a essa pergunta nos exige uma volta à história. Por volta de 1950, a ciência cognitiva enfatizou que a aprendizagem deveria ocorrer de maneira multidisciplinar. Foram explicitadas metodologias inovadoras e postulados, os quais possibilitaram aos cientistas estudar mais consistentemente o funcionamento mental por meio de análises qualitativas que enriqueceram as pesquisas experimentais. Alguns teóricos representantes dessa teoria são: Ausubel, Bruner, Piaget, Wallon, Gardner e Vygotsky. Para a Teoria Cognitivista, a aprendizagem ocorre na relação entre o sujeito e o mundo externo. Essa relação irá provocar um processo de desenvolvimento cognitivo. David Ausubel apresentou essa teoria no livro “Aprendizagem significativa”. Para os cientistas da Teoria Cognitivista, aprendemos a relação entre ideias (conceitos) abstraindo-as de nossa experiência. Ausubel alerta que o fato de a escola transmitir conhecimentos de forma mecânica desmotiva o aluno, que passa a considerar a escola uma cadeia. Essa percepção foi extraída da própria experiência escolar que esse psicólogo teve quandoera aluno. Por isso, ele defendia que o processo de aprendizagem significativa ocorre quando o aluno aprende algo que faz sentido para ele (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009). Nessa concepção de ensino, o contéudo deverá interagir e ancorar-se nos conceitos relevantes já existentes em sua estrutura. Vamos conhecer alguns conceitos básicos dessa abordagem? Cognição, aprendizagem e pontos de ancoragem são alguns deles. Vamos ver, resumidamente, a definição dos conceitos que estruturam a Teoria Cognitivista. • Cognição: processo que identifica as origens dos significados. Estes não são estáticos, mas são pontos de partida para outros significados. • Aprendizagem: processo de organização de conhecimentos e de conexão do material à estrutura cognitiva. Ela pode ser mecânica ou signficativa. www.esab.edu.br 71 • Pontos de ancoragem: são construídos com a incorporação, à estrutura cognitiva, de informações e/ou ideias importantes para a aquisição de novos conhecimentos e com a organização dessas informações, elaborando novos conceitos. A Teoria de Bruner sobre o ensino, integrante da corrente cogntiva, abrange a organização dos contéudos de maneira competente e significativa para o aprendiz. Nesta concepção, o educador deve focar- se não somente na extensão dos conteúdos, mas se preocupar com a estrutura deles. Este psicólogo se utilizou do metódo da descoberta, considerado por ele como um método básico para o trabalho educacional. Pelo método da descoberta, o educando pode percorrer os caminhos da descoberta do conhecimento científico por meio da elaboração de perguntas, da investigação, da experimentação e da descoberta de conceitos. Desse modo, o ensino deve estar fundamentado na compreensão (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009). Também é importante focarmos a motivação como facilitadora ou dificultadora da aprendizagem. Destacamos que a motivação pode ser a chave para o sucesso dos professores ao ensinar um conteúdo aos alunos. Como mencionamos anteriormente, Jean Piaget também fez parte da Teoria da Cognição. Elaborando suas obras entre os anos de 1918 e 1980, as ideias deste pesquisador centram-se no modelo biológico, como vimos na unidade 3. De acordo com a concepção de Piaget, o ser humano vive em busca do equilíbrio entre necessidades biológicas essencias para a sua sobrevivência e as agressões ou restrições impostas pelo meio para o contentamento dessas necessidades. Embora Piaget não tenha elaborado uma teoria do processo de aprendizagem, deixou diversos postulados na década de 1980 que foram utilizados pela pedagoga Emilia Ferreiro para o estudo da teoria da aprendizagem da escrita, e por muitos outros pensadores. Analisamos, nesta unidade, algumas teorias da aprendizagem humana. Percebemos que as teorias que encontram destaque na área da educação atualmente são as desenvolvidas pelos psicólogos Piaget e Vygotsky. Destacamos que cada teoria aqui explicitada teve uma grande influência na década em que ocorreu, dentro do cenário educacional dessa época www.esab.edu.br 72 histórica. Por fim, essas questões aqui abordadas sobre a teoria cognitivista de aprendizagem serão aprofundadas em unidades posteriores. Na próxima unidade, entraremos no estudo das implicações das teorias de aprendizagem na prática pedagógica, centrando nas contribuições de Thorndike e Skinner. Saiba mais Conheça um pouco mais sobre a vida e as contribuições da pedagoga Emilia Ferreiro para a educação, principalmente para a questão da alfabetização. Disponível aqui. http://www.youtube.com/watch?v=kOphx1H3ukE www.esab.edu.br 73 Resumo Na unidade 7, estudamos sobre as questões da teoria da aprendizagem e o desenvolvimento humano, destacando as três posições de Vygotsky que abordam a relação entre desenvolvimento e aprendizado em crianças. Para a primeira delas, aprendizagem e desenvolvimento são independentes; na segunda, aprendizagem é desenvolvimento; e a terceira posição teórica é a combinação das duas primeiras. Na unidade 8, trabalhamos com a memória e o pensamento dentro do contexto escolar. Concluímos que a memória é de suma importância dentro do contexto escolar e que as atividades que serão desenvolvidas nessas condições devem ser repensadas pela equipe de professores para que desenvolvam o pensamento infantil de modo adequado. Vimos, na unidade 9, que o contexto escolar é um espaço em que a percepção e a atenção podem ser desenvolvidas. Analisamos que a atenção e a percepção são aspectos fundamentais a serem trabalhados dentro do cenário educacional. Na unidade 10, conhecemos a organização da linguagem segundo Vygotsky, para quem a fala organiza o pensamento. Percebemos, por meio da linguagem, que as crianças desenvolvem o conhecimento científico sobre o contexto social em que vivem. Estudamos, na unidade 11, a importância do brinquedo para o desenvolvimento humano no contexto escolar. O brinquedo amplia a capacidade de imaginação e de recriação do mundo em que a criança está inserida. Por fim, na unidade 12, enfatizamos as questões relacionadas à teoria da aprendizagem humana, configurada em duas correntes: teorias do condicionamento e as teorias cognitivistas. www.esab.edu.br 74 13 Teorias do condicionamento e a educação escolar I: Thorndike e Skinner Objetivo Conhecer as implicações das teorias de aprendizagem associacionista e condicionamento operante na educação escolar, na organização do sistema educacional e na prática e atividade pedagógica. Continuando nossos estudos, abordaremos nesta unidade as Teorias do Conhecimento e a educação escolar em relação aos pensamentos de Thorndike e Skinner a partir das concepções de Bock, Teixeira e Furtado (2009). Lembramos a você que para retomar os conceitos de Teoria do Conhecimento e educação escolar, caso seja necessário, você pode retornar à unidade 6 da disciplina Psicologia da Educação e também à unidade 2 desta disciplina. Bock, Teixeira e Furtado (2009) afirmam que Edward Lee Thorndike foi um cientista norte-americano que ajudou a fundar a psicologia educacional moderna. Seus estudos sobre o comportamento animal e o processo de aprendizagem levaram-no a criar a Teoria Associacionista, também chamada de conexionismo. É importante destacar que: [...] o termo associonismo origina-se da concepção de que a aprendizagem se dá por um processo de associação de ideias – das mais simples às mais complexas. Assim para aprender um contéudo complexo, a pessoa precisaria primeiro aprender as ideiais mais simples, que estariam associadas àquele conteúdo. (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009, p. 42) Também conhecida como teoria de aprendizagem por ensaio e erro, essa teoria levou Thorndike a caracterizar a aprendizagem como um processo de seleção e conexão. Para esse cientista, um comportamento que gera uma resposta positiva realiza uma conexão firme em termos www.esab.edu.br 75 de aprendizagem, gerando o que chamamos de lei do reforço. A lei do reforço pressupõe que o comportamento do ser humano pode ser estimulado e controlado mediante o reforço (recompensa) dos comportamentos esperados (desejados), ignorando as ações não desejadas (o castigo do comportamento não desejado deve ser evitado na medida em que tal contribuiria para o desenvolvimento de sentimentos de constrangimento ou mesmo de revolta). Nesse momento é importante ressaltar que foi Thorndike quem formulou a Lei do Efeito. De acordo com essa lei, todo comportamento de um organismo vivo (um homem, um pombo, um rato etc.) tende a se repetir, se nós recompensamos (efeito) o organismo assim que ele emitir o comportamento. Por outro lado, o comportamento tenderá a não acontecer, se o organismo for castigado (efeito) após a sua ocorrência. E, “[...] pela Lei do Efeito, o organismo irá associar essas situações com outras semelhantes.” (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009, p. 42) Podemos levar essa definição da lei do efeito para o contexto escolar. Nesta concepção, o professor deverá proporcionarao aluno um reforço positivo (um elogio, por exemplo), caso o aluno tenha dado uma resposta desejada. Desse modo, o aluno tenderá a agir novamente da mesma forma (repetição) para ser novamente elogiado pelo professor. Ou um reforço negativo (por exemplo, uma punição ou um castigo) quando o aluno responder de modo indesejável. Acompanhe a seguir como a lei do efeito se processa no organismo vivo. www.esab.edu.br 76 Organismo vivo Organismo vivo Comportamento desejado Comportamento indesejado Comportamento Comportamento Recompensa Castigo Re pe te Efeito Efeito To rn a- se a r ep et ir Re pe te To rn a- se a r ep et ir Figura 17- Lei do Efeito de Thorndike Fonte: Elaborada pelo NDE pedagogia (2013). Repare na Figura 17 que o organismo vivo (ser humano, animais...) repete o comportamento várias vezes se esse for reforçado através de uma recompensa. Após a recompensa, o organismo repete o comportamento desejado. Caso haja um castigo, ao invés de uma recompensa, o comportamento não é repetido. Lembrando que, segundo a Lei do Efeito de Thorndike, o castigo é aplicado a um comportamento indesejado do organismo. E o que podemos esperar de uma aprendizagem baseada no associacionismo de Thorndike? Um exemplo dessa teoria que ainda vemos acontecer nos dias atuais são as aulas de História sobre o descobrimento do Brasil: no primeiro momento, o aluno aprende um conceito referente ao descobrimento do Brasil, repetindo-o e logo esse conceito é ligado pela professora a uma pergunta. Em um segundo momento, a professora faz a mesma pergunta: caso a resposta esteja certa, o aluno tira uma nota alta (recompensa); caso esteja errada, tira uma nota baixa (castigo). No caso do aluno tirou nota alta, cada vez que seja perguntado sobre o conceito em questão, www.esab.edu.br 77 ele tenderá a repetir a mesma resposta. No caso do aluno que tirou nota baixa, cada vez que seja perguntado pelo conceito em questão, tenderá a não repetir uma resposta considerada errada. Isso também ocorre nas aulas de matemática, quando o aluno aprende a tabuada decorando-a, e o professor faz com que ele repita cada multiplicação em voz alta; também nas aulas de português, em que o aluno decora a conjugação dos verbos em tempos diferentes. Segundo Bock, Teixeira e Furtado (2009), com base na teoria desenvolvida por Thorndike, a aprendizagem em sala de aula era efetivada por meio da repetição e da memorização de conteúdos. Nessa teoria, a aprendizagem do aluno era baseada na repetição de conteúdo e temas que faziam parte do currículo escolar. Como exemplo, podemos recordar das aulas de matemática, afinal todos já tivemos que decorar a tabuada, não é mesmo? E como fazíamos isso? Decorando e repetindo inúmeras vezes a mesma sequência, por exemplo: 2x2 = 4. É importante destacar que o foco desssa teoria estava na metodologia, o professor deveria dominar as formas de estimular a aprendizagem do aluno. Emocional -Aparência -Sentir -Estima -Marca -Segurança -Medo Decisões de Compra Racional -Preço -Qualidade -Característ ica -Con�ança -Garantia Figura 18 – Teoria conexionista: repetição e memorização do conteúdo. Fonte: <http://www.123rf.com>. www.esab.edu.br 78 A concepção de Burrhus Frederic Skinner, representante do behaviorismo, como já ressaltado na unidade 2 desta disciplina, aborda as questões relacionadas ao condicionamento operante e ao comportamento respondente. Assim, segundo Bock, Teixeira e Furtado (2009), Skinner elucida dois tipos de aprendizagem: • por condicionamento respondente: é visualizado por meio dos reflexos ou atos involuntários. Esse condicionamento não tem grande destaque no ser humano; • por condicionamento operante: esse condicionamento está atrelado ao comportamento operante e é voluntário. Para Skinner, a aprendizagem do ser humano seria o resultado desse condicionamento, que está relacionado aos estímulos que recebemos, seguidos de resposta às ações – o que chamamos de reforço, e que pode ser positivo ou negativo. Note que, para Skinner, o comportamento é algo que pode ser estudado e modelado pela aplicação de reforços positivos e negativos, o que resulta também em uma relação causal entre reforço (causa) e comportamento (efeito). Assim, nessa concepção de ensino é utilizada a sistematização de reforços, a fim de ensinar e incentivar o aprendiz, aumentando a frequência com que ele apresenta um comportamento esperado para determinado contexto. Podemos ver, então, que o efeito do reforço tem relação com a proximidade temporal e espacial, as quais estão vinculadas ao comportamento que se deseja modelar. Bock, Teixeira e Furtado (2009) destacam que Skinner divide os reforços em dois tipos: • reforço positivo: incentiva o comportamento por meio de um estímulo reforçador, de uma recompensa. Depois de ser inúmeras vezes beneficiado ou recompensado por executar uma tarefa de determinado modo, o aprendiz condiciona-se a sempre executar essa tarefa daquele mesmo jeito, a fim de receber o prêmio ou o benefício. Por exemplo, o comportamento de dedicar-se ao estudo é incentivado com a atribuição de boas notas (que podem dar www.esab.edu.br 79 benefícios como a facilidade para entrar em uma boa universidade), com o reconhecimento pela dedicação, com uma premiação de mérito estudantil ou com presentes dados pelos pais. Estes são estímulos reforçadores positivos que aumentam a probabilidade de o aluno dedicar-se aos estudos, que é o comportamento esperado no contexto escolar; • reforço negativo: incita um comportamento esperado por meio da retirada de um estímulo aversivo, ou seja, há um estímulo que causa desprazer que é retirado após o aprendiz comportar-se como o pretendido. Por exemplo, se um aluno que sofre bullying tem o comportamento de denunciar quem está infligindo a violência, a denúncia será um comportamento incentivado pelo distanciamento daquele que inflige o bullying e pela interrupção da violência. Isto é, o comportamento de denunciar é um reforço negativo que exclui o estímulo aversivo caracterizado pelo bullying. É comum haver confusão entre o reforço negativo e a punição, mas eles são conceitos diferentes. Bock, Teixeira e Furtado (2009) explicam que o reforço negativo busca aumentar a frequência de um comportamento por meio da exclusão de um estímulo aversivo, desagradável, do ambiente. Já a punição tenta reduzir a frequência de um comportamento, até extingui-lo, com a inserção de um estímulo aversivo (punição positiva) ou com a retirada de um estímulo positivo (punição negativa) depois de um comportamento indesejado. Como exemplo de punição positiva, podemos pensar em uma criança que, ao brincar, quebra o vaso da mãe que estava em cima da mesa. Consequentemente, a mãe a repreende com um beliscão. Nesse caso, a probabilidade de a criança quebrar outras coisas será menor. Para exemplificar a punição negativa, podemos considerar um pai que retira a bola de seu filho porque este tirou notas baixas na escola ou porque desobedeceu a uma ordem. Portanto, a punição difere do reforço negativo porque ela é a inserção de um estímulo aversivo, por meio do ato de punição, que gera um desprazer após um determinado comportamento. www.esab.edu.br 80 Nas figuras a seguir, podemos ver mais claramente a diferença entre uma punição positiva e um reforço negativo. Figura 19 – Mãe chamando atenção da filha. Fonte: <www.123rf.com>. O caso de um pai, ou uma mãe, que está brigando com o filho – ou seja, chamando a atenção dele – seria um exemplo de um ato de punição positiva (em que é inserido um estímulo aversivo). Este praticado na tentativa de diminuir a frequência do comportamento indesejado, que poderia ser tirar notas baixas na escola ou brigar com um colega, por exemplo. Já na próxima figura, temos um reforço negativo bastante utilizado pelos pais: obrigar as crianças a fazer os deveres primeiro para só depois brincar. Com isso, a criança fica desmotivada,pois é uma imposição, não uma opção. Acompanhe. http://www.123rf.com/photo_17252038_mother-berates-child-in-interior-focus-on-woman-only.html www.esab.edu.br 81 Figura 20 – Reforço negativo. Fonte: <www.123rf.com>. Nessa figura, as meninas estão tendo um determinado comportamento que irá retirar o estímulo aversivo. Elas estão terminando de fazer o dever de casa (comportamento desejado) para poderem brincar, excluindo o estímulo aversivo, que é o adiamento da hora da brincadeira. Portanto, os termos positivo e negativo não indicam um reforço bom ou ruim, mas a retirada ou a inserção de estímulos de modo que a frequência de um comportamento desejado seja aumentada. Para diminuir a frequência de comportamentos, também é possível trabalhar com reforços em vez da punição, pois o aumento de um pode influenciar na diminuição do outro. Por exemplo, imagine que um jovem aluno tem problemas na escola por dormir em sala de aula, pois passa a noite jogando video game. Após uma conversa com os pais, ele passa a dedicar-se aos estudos, recebe boas notas e o reconhecimento por sua mudança e dedicação (reforço positivo para um comportamento esperado). Com esse reforço positivo, incentiva-se o aluno a aumentar o comportamento de estudar e diminuir o de jogar em horário inapropirado e, consequentemente, dormir em sala de aula (comportamento indesejado tem a frequência diminuída). Por outro lado, também é possível incentivar comportamentos indesejados, como o choro de uma criança que deseja um produto no mercado. Se os pais derem esse produto, poderão estar aplicando www.esab.edu.br 82 um reforço positivo para um comportamento indesejado, mesmo que inconscientemente. É interessante percebermos que o comportamento incentivado, independentemente do reforço que se usou, pode continuar ocorrendo mesmo se não acontecer mais qualquer reforço, pois o indivíduo já se condicionou a agir assim. Para sua reflexão Assista ao vídeo disponível clicando aqui e reflita sobre a teoria proposta por Skinner. Você já viu algum ponto da Teoria Behaviorista ser aplicado na sociedade? E no abiente escolar, você pode relatar algum ponto da Teoria Behaviorista sendo aplicado? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. Na aprendizagem, segundo o modelo de condicionamento operante abordado por Skinner na Teoria Behaviorista, o professor é detentor do conhecimento e o aprendiz é um assimilador. Ele planeja as atividades e elabora os exercícios para os seus alunos, bem como estabelece, para seus educandos, os critérios, os comportamentos iniciais e as regras que devem ser seguidas durante todo o ano letivo. O procedimento de ensino é descrito em um currículo elaborado pelos educadores, e a aprendizagem ocorre quando o estudante executa determinada tarefa com êxito, recebendo posteriormente o reforço. Observe que, nessa Teoria do Condicionamento, o educando apenas absorve o conhecimento que o professor possui. Os conteúdos são repassados de forma mecânica e repetitiva e o educando passa por avaliação, que é realizada através de perguntas que favoreçam a memorização dos conteúdos. https://www.youtube.com/watch?v=mzhewH2mXzE www.esab.edu.br 83 Saiba mais “Os behavioristas são interessados no efeito do reforço e da motivação externa sobre uma rede de associações e comportamentos aprendidos” (LAKOMY, 2008, p. 22). Com base nessa fala, assista ao vídeo, clicando aqui, e reflita sobre o condicionamento operante. http://www.youtube.com/watch?v=_BVoq3zt_oc www.esab.edu.br 84 14 Teoria do condicionamento e a educação escolar II: Bandura Objetivo Conhecer a teoria da aprendizagem social por imitação e suas implicações no processo de ensino-aprendizagem, na organização do sistema educacional e na prática e atividade pedagógica. Vamos a mais uma etapa do nosso estudo. Depois de termos estudado a Teoria do Associacionismo, de Thorndike, e a Teoria Behaviorista, de Skinner, nesta unidade veremos a Teoria do Condicionamento e a educação escolar, enfatizando a Teoria Social Cognitiva. Esta foi desenvolvida pelo psicólogo canadense Albert Bandura, e estudaremos suas implicações no processo de ensino-aprendizagem. Figura 21 – Albert Bandura. Fonte: <http://cogpsy.info/background/top-25-most-eminent-psychologists/>. A teoria de Bandura aborda a aprendizagem por imitação, destacando o papel das influências sociais na aprendizagem. Ele considera rudimentar a ideia de que o meio influencia nas mudanças de comportamento e entende que o que exerce influência nessa mudança é a interação de vários fatores, os quais têm ascendência também no processo de aprendizagem de um novo comportamento. www.esab.edu.br 85 Bandura, assim como Skinner, segue a linha behaviorista, mas foi além das ideias deste, pois acredita que o processo de aprendizagem é mais complexo do que acreditavam os comportamentalistas tradicionais (entre eles, B. F. Skinner). Para Bandura, a aprendizagem por observação é mais aceitável do que sugere a perspectiva do comportamento operante. Para pesquisar sobre o processo de aprendizagem, Bandura observou os processos cognitivos. Dica Relembraremos aqui um pouco sobre as questões abordadas na unidade 15 da disciplina Psicologia da Educação (p. 82), por isso é importante rever os conceitos da psicologia cognitivista. Nessa perspectiva, os processos de aprendizagem estão nas expectativas, nos desejos, nas crenças, no ambiente físico e nas escolhas. Bandura, segundo Lakomy (2008), separou-os em: • fatores pessoais: expectativas, pensamentos, desejos e crenças; • fatores ambientais: recursos, ambiente físico; • fatores comportamentais: atos individuais ou escolhas. Para Bandura, o processo de modelagem da aprendizagem acontece devido a alguns elementos. Vamos ver quais são eles, na perspectiva de Lakomy (2008). 14.1 Atenção Na aprendizagem, os professores devem estimular os alunos a terem e a manterem a atenção nos processos que ocorrem no contexto escolar. Por exemplo, para uma aula de português envolvendo um poema de Carlos Drummond de Andrade, seria muito interessante utilizar uma peça teatral para ter a atenção dos alunos. www.esab.edu.br 86 Também é necessário ficar atento aos fatores que influenciam, às vezes negativamente e às vezes positivamente, o processo de atenção dos educandos, como o sono, o nervosismo e também o estímulo competitivo. Figura 22 – Elemento de influência na aprendizagem segundo Bandura: falta de atenção. Fonte: <www.123rf.com>. 14.2 Retenção Esse elemento refere-se ao fato de que nós necessitamos lembrar daquilo que aprendemos, pois só assim temos certeza de que aprendemos, isto é, de que retemos aquilo que devíamos aprender. Por exemplo, quando você precisou reler a página 82 da apostila de Psicologia da Educação, esse processo fez com que você recordasse o conceito de psicologia cognitivista, e também proporcionou relações desse conteúdo com o aqui exposto. Como afirma Bandura, o educador tem de proporcionar ao educando relações entre o conteúdo da aula e as figuras e/ou imagens mentais, podendo utilizar, em alguns momentos, descrições verbais. Desse modo, quando as relações que os educandos estabelecem com o conteúdo se interiorizam, o educando pode trazer à mente a figura ou a descrição, proporcionando a recordação daquilo que aprendeu. Também podemos perceber essas concepções de Bandura na Educação Infantil. Quando contamos uma história que uma criança goste muito, ela assimila toda a descrição contada pela professora. Em outro momento, http://pt.123rf.com/photo_11184198_student-sleeping-on-her-desk-in-a-classroom.html www.esab.edu.br 87 quando a mesma história for contada, a criança traz à mente aquilo que lembra e pode recontar a história utilizando-se apenas de gravuras para estabelecer a relação com o conteúdo e a ordem correta da história. Figura 23 – Elemento de influência na aprendizagemsegundo Bandura: retenção. Fonte: <www.123rf.com>. 14.3 Reprodução Esse elemento refere-se ao aprendizado por imitação, ou seja, quando reproduzimos algo que nos é ensinado. Também ocorre quando a criança vê o adulto fazendo algo e repete o que ele faz. Observamos esse comportamento ocorrendo quando a criança repete várias vezes um determinado comportamento que por ela é observado. Um exemplo pode ser notado nas aulas de educação física, quando uma criança mais nova observa as aulas de capoeira de crianças mais velhas. Ela observa muitas vezes e, depois, imita o comportamento dos mais velhos tentando reproduzir os movimentos executados por eles. 14.4 Motivação Esse fator é muito importante em sala de aula, pois alunos motivados aprendem muito mais. O papel do professor no processo ensino- aprendizagem, segundo a Teoria Social Cognitiva, é motivar seus alunos utilizando o método tradicional de reforço e punição, ou por meio de http://pt.123rf.com/photo_10122244_portrait-of-smart-schoolchildren-and-their-teacher-reading-book-in-classroom.html www.esab.edu.br 88 incentivos futuros. Para Bandura, são os reforços que proporcionam uma efetiva aprendizagem, ao contrário da punição, que não a proporciona. Podemos dar como exemplo de situação de reforço, uma circunstância em que o professor promete dar estrelinhas para o aluno que se comportar melhor ou promete uma surpresa no final do semestre para aquele aluno que obtiver a maior nota. Observamos que todos os alunos, mediante um reforço positivo como esse, parecem mais estimulados para aprender. Estudo complementar Para complementar o estudo sobre a Teoria Social Cognitiva, leia o artigo “A teoria social cognitiva e o ensino-aprendizagem da matemática: considerações sobre as crenças de autoeficácia matemática”, disponível clicando aqui. Finalizamos destacando que a abordagem de Bandura, enfatizada nesta unidade, e a de Skinner, estudada na unidade 13, contribuíram para um entendimento de parte do processo de aprendizagem. Suas concepções são consideradas por muitos pesquisadores como parciais e incompletas, pois acreditam que Bandura e Skinner não destacam os processos interiores que acontecem durante a aprendizagem. Porém, para esses pesquisadores esses processos são internos e dificilmente podem ser mensurados e observados Para Bandura e Skinner, o ser humano é influenciado pelo meio em que vive, sendo este o principal modelador do comportamento do homem. Desse modo, o ser humano é visto como um ser passivo, que sofre as ações advindas do contexto social, incluindo nesse cenário o meio educacional. Na próxima unidade, seguiremos estudando as teorias cognitivistas que influenciam o processo de ensino-aprendizagem, a educação e a organização escolar. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1806-58212009000300014&script=sci_arttext www.esab.edu.br 89 15 Teorias cognitivistas de aprendizagem e educação escolar I: Ausubel e Bruner Objetivo Conhecer as implicações das teorias de aprendizagem significativa e instrucional no processo de ensino e aprendizagem, na organização do sistema educacional e na prática e atividade pedagógica. Na unidade 14, estudamos sobre a Teoria Social Cogntiva desenvolvida por Bandura, e também a de Skinner, que trata da aprendizagem como fruto do meio social. Agora, abordaremos as implicações das teorias de aprendizagem significativa e instrucional no processo de ensino e aprendizagem, enfatizando os estudos de David Paul Ausubel e Jerome Seymour Bruner. Vamos aos estudos! Ausubel foi um grande psicólogo da educação nascido nos Estados Unidos da América (EUA), em 1918. A teoria apresentada por ele é chamada Teoria da Aprendizagem Significativa e foi divulgada no ano de 1985. Nessa concepção, a organização cognitiva dos conteúdos aprendidos de maneira sistematizada conduz o educando a vastas possibilidades de associações de conceitos, de maneira a gerir a consolidação do aprendizado ou levar a um novo aprendizado. Estudo Complementar Conhecer um pouco sobre a história dos estudiosos pode ser uma boa forma de compreender melhor sua teoria, pois assim conseguimos entender a sua forma de pensar. Por isso, leia a reportagem “David Ausubel e a aprendizagem significativa”, disponível clicando aqui e descubra um pouco mais sobre a vida e o pensamento desse cientista. http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/david-ausubel-aprendizagem-significativa-662262.shtml www.esab.edu.br 90 Para entendermos essa teoria, é importante sabermos o que significa cognição. Lakomy (2008) explica que, na percepção de Ausubel, cognição é um procedimento, ou método, através do qual o contexto social dos significados tem origem. Conforme vamos nos familiarizando com o mundo, estabelecemos relações de significação. Ou seja, em nossas interações, vamos designando significados a tudo o que está relacionado ao contexto em que estamos inseridos. Esses significados são dinâmicos, pois a partir de um significado atribuído a uma coisa, isto se torna ponto de partida para a atribuição de novos significados. Ausubel explica ainda que, assim, temos a origem da estrutura cognitiva, em que os primeiros significados elencam pontos básicos de ancoragem, dos quais irão derivar outros significados. Podemos visualizar um exemplo da Teoria de Ausubel quando planejamos ensinar às crianças as noções de generosidade. Podemos proporcionar a elas um passeio na cidade e, durante esse tempo, ensiná- las a ajudar um idoso ou falarmos sobre a importância de colocarmos o lixo nas lixeiras disponíveis no caminho que está sendo trilhado. Essas crianças atribuirão significados às informações analisadas durante o percurso (pontos de ancoragem), e passam a compreender o conceito de generosidade e que podemos ser generosos em diversos momentos. Como podemos ver, essa teoria lida com a necessidade de criar sentido para o aluno durante o processo de ensino e aprendizagem, ao contrário do que ocorre com processos mecânicos de aprendizagem. Assim, a fim de tornar sua ideia mais clara, Ausubel destaca a diferença entre a aprendizagem significativa e a aprendizagem mecânica. Vamos estudar um pouco mais sobre cada abordagem, na perspectiva de Lakomy (2008). www.esab.edu.br 91 15.1 Aprendizagem mecânica A aprendizagem mecânica acontece quando aprendemos novas informações, sem relacioná-las a temas ou conceitos já existentes em nossa estrutura cognitiva. Um exemplo claro dessa concepção é quando decoramos algo, como uma poesia, os verbos ou a tabuada. Pois, quando realizamos esse procedimento, não somos capazes de relacionar o conteúdo absorvido com algum conhecimento que já possuímos na nossa estrutura cognitiva e, assim, realizar uma nova aprendizagem. 15.2 Aprendizagem significativa Essa aprendizagem ocorre quando o ser humano é capaz de relacionar um novo conteúdo, um novo conceito ou uma nova informação com outros existentes na sua estrutura cognitiva. Esse conteúdo, já presente na estrutura cognitiva do indivíduo, é chamado de ponto de ancoragem para a aprendizagem (como vimos anteriormente no exemplo de ensino sobre a generosidade). Assim, o professor, segundo a teoria da aprendizagem significativa, tem de realizar um planejamento que tenha como objetivo tornar possível aos educandos momentos que proporcionem o ponto de ancoragem. O educador pode, por exemplo, propor um passeio a um jardim botânico ou a um zoológico. E nesses locais proporcionar aos alunos um contato muito próximo com as plantas e os animais, fazendo com que essas relações estimulem os educandos a perceber as diferenças entre os seres vivos e a adquirir noções a respeito destes, de seres inanimados, de respeito ao meio ambiente e de sustentabilidade. Essas informações proporcionarão às crianças os pontos de ancoragem e, assim, elas aprenderão a categorizar os diferentes seres, ou seja, vão adquirindo novos conhecimentos. www.esab.edu.br 92 Figura 24 – Aprendizagem extraclasse.Fonte: <www.123rf.com>. Portanto, note que para ocorrer a aprendizagem significativa é necessário que o material didático e o planejamento pedagógico sejam elaborados de forma a proporcionar ao educando a possibilitade de estabelecer os pontos de ancoragem. Também é necessário que o educador identifique as estruturas cognitivas que o educando já consolidou, para que, dessa maneira, o professor priorize o emprego de um procedimento de ensino que privilegie as relações e associações de conceitos das matérias que fazem parte do currículo escolar. Saiba mais É importante refletirmos como ocorre a aprendizagem significativa. Analise como essa aprendizagem acontece no ser humano assistindo ao vídeo “Aprender a aprender”, disponível clicando aqui. Muito bem, agora que já estudamos a Teoria da Aprendizagem Significativa, vamos conhecer a teoria do psicólogo estadunidense Jerome Seymour Bruner, chamada Teoria da Instrução. Essa teoria foi divulgada em 1980 e, com ela, Bruner defendeu o método de aprendizagem por descoberta como componente básico do contexto educacional. https://www.youtube.com/watch?v=Pz4vQM_EmzI www.esab.edu.br 93 As pesquisas de Bruner têm referências nos trabalhos de Piaget e de Vygotsky, que veremos posteriormente. Bruner observou e analisou o contexto escolar e destacou informações sobre a concepção do desenvolvimento cognitivo no ser humano. Com sua teoria, esse psicólogo explica como as crianças, nas várias etapas da vida, tendem a representar o contexto social no qual interagem. Na teoria proposta por Bruner, a criança passa por três níveis de representação cognitivista: enativa, icônica e simbólica (LAKOMY, 2008). Portanto, para entendermos a Teoria da Instrução, precisamos saber do que trata cada um dos níveis apontados por Lakomy (2008). Vamos vê-los? Representação enativa Neste nível, a criança interage com o mundo a partir da ação ou função. Por exemplo, quando a criança diz que o prato é para comida, ela está definindo uma função para o prato, que é o de colocar comida. Assim, a criança irá compreender o contexto social através de suas próprias ações, por isso, é necessário que o adulto represente suas ações para a criança. Um exemplo disso pode ser relatado quando vamos ensinar para a criança que o cachorro caminha com as quatro pernas e, para isso, engatinhamos para imitar o animal. Por isso, é necessário que as histórias infantis sejam dramatizadas para o efetivo entendimento das crianças, e os elogios (que podem ser reforços) são compreendidos por elas apenas quando o adulto bate palmas ou passa a mão na cabeça dela, por exemplo. Representação icônica Neste nível, a criança não tem mais tanta necessidade de interagir diretamente com os objetos, pois ela já tem autonomia de realizar representações mentais sobre algo, ou uma circunstância, sem utilizar sinais ou ações. Podemos citar como exemplo o momento em que a criança desenha a figura de um prato sem representar o ato de comer. www.esab.edu.br 94 A criança começa a observar e compreender figuras, fotos, ilustrações e imagens no contexto familiar, social e educacional. Representação simbólica Neste nível, a criança passa a interagir e a compreender, de maneira abstrata, o contexto social por meio de símbolos, sem precisar usar ações ou imagens. Dizemos, então, que a criança passa a ser capaz de fazer a representação mental, que é o processo pelo qual se cria na mente um símbolo ou modelo simbólico para representar algo externo. A criança compreenderá e conseguirá transpor experiências ou sentimentos por meio da linguagem oral, bem como interpretar mensagens verbais mais difíceis e abstratas. Na Teoria da Instrução de Brunner, Lakomy (2008) apresenta quatro características, as quais serão abordadas a seguir. • Motivação – refere-se à questão de a criança nascer com o desejo de aprender, ou seja, temos uma motivação interna, ou intrínseca, que favorece a aprendizagem. É necessário que o professor proporcione atividades que estimulem essa motivação, para que o educando perceba que a forma organizada e formal de aprendizado pode ser mais significativa do que a aprendizagem autodidata. • Estutura – está ligada à organização e ao planejamento do conteúdo. Para que o educando compreenda determinado conteúdo, é necessário que este seja estruturado e organizado cognitivamente. A matéria, ou o conteúdo, pode ser minstrado pelo educador de três maneiras: (1) modo de apresentação, que diz respeito à forma utilizada pelo educador para apresentar um conteúdo; (2) economia na apresentação, que diz que o professor deve ser breve e conciso em sua apresentação para que o educando motive-se a aprender mais; e (3) poder de apresentação, que refere-se ao conteúdo ser apresentado de forma simples e direta para que o educando possa compreendê-lo melhor. • Sequência – o procedimento que o professor utiliza para apresentar um tema determina o grau de facilidade ou dificuldade do educando www.esab.edu.br 95 em compreender o assunto que está sendo apresentado. O professor deve apresentar o conteúdo seguindo o desenvolvimento cognitivo do educando, o qual é sequencial, devendo partir da fase enativa para a icônica e, então, para a simbólica. • Reforçamento – o educando precisa receber um feedback do seu trabalho ou do seu desempenho acadêmico para que se torne autossuficiente. É importante o professor fornecer esses elementos no momento certo dentro do processo educativo: não muito cedo, pois pode confundir os educandos quanto a sua própria capacidade de aprendizagem; e não muito tarde, pois eles já podem ter incorporado elementos errados. Para finalizar esta unidade, é importante destacarmos que, na Teoria da Instrução, o professor deve cuidar para não se confundir com o sentido da palavra reforço. Note que o reforço não deve ser entendido como uma recompensa, e o educador deve planejar e organizar esse reforço para que a criança não se torne dependente dele. O educando deve ser capaz de refletir sobre sua própria ação, tornando-se apto a perceber, analisar e corrigir, quando necessário, suas próprias fragilidades acadêmicas. Como vimos no início desta unidade, a Teoria da Instrução foi desenvolvida por Bruner a partir do trabalho de Piaget, um dos grandes pensadores da Teoria Construtivista. Na próxima unidade, veremos de que trata o pensamento piagetiano que deu base à teoria de Bruner. www.esab.edu.br 96 16 Teorias cognitivistas de aprendizagem e educação escolar II: Piaget Objetivo Refletir sobre as contribuições de Jean Piaget na teoria de aprendizagem construtivista e suas implicações na educação escolar, abordando os conceitos e sua influência na organização do sistema educacional brasileiro e na prática e atividade pedagógica. Vamos avançar um pouco mais em nossos estudos sobre as teorias cognitivistas de aprendizagem. Na unidade anterior, vimos que a teoria desenvolvida por Jerome Bruner, chamada Teoria da Instrução, foi baseada nos estudos de Jean Piaget, um estudioso suíço que deu grandes contribuições para a educação contemporânea. Veremos agora a teoria desse pesquisador. Você já viu algumas concepções desse cientista na unidade 26 da disciplina de Psicologia da Educação, e também na unidade 3 desta disciplina. De um modo geral, nos conceitos já estudados, vimos quem foi Jean Piaget, estudamos um pouco sobre os conceitos de assimilação, acomodação e equilibração e a respeito dos estágios do desenvolvimento cognitivo. Nesta unidade, iremos abordar as contribuições de Jean Piaget na Teoria de Aprendizagem, as implicações desta na educação escolar e a sua influência dentro do cenário educacional brasileiro. Para isso, iremos rever alguns desses conceitos. 16.1 Teorias cognitivas de aprendizagem Jean Piaget, um epistemólogo suíço, abordou várias questões sobre o desenvolvimento cognitivo e produziu, entre os anos de 1918 e 1980, muitas obras a respeito dessa temática. Ele é representanteda chamada www.esab.edu.br 97 Teoria Construtivista, ou Construtivismo, e através dela tentou explicitar o surgimento de inovações, modificações e alterações na trilha do desenvolvimento intelectual, bem como os mecanismos atrelados a essas modificações. Figura 25 – O pensamento das crianças e a escrita: desenvolvimento cognitivo. Fonte: <www.sxc.hu>. As obras de Jean Piaget foram marcantes, principalmente na década de 1970, quando ele passou a trabalhar somente com observações sobre o mecanismo de mudança, o qual explicita o progresso do desenvolvimento humano. Para Piaget, a construção das intervenções cognitivas no homem está interligada a um procedimento de equilíbrio que o impulsiona para o desenvolvimento cognitivo total. Na década de 1970, as teorias associacionistas e empiristas exerciam grande influência. Elas enfatizavam a experiência com os estímulos proporcionados pelo ambiente, isto é, o contexto em que o ser humano vive. Piaget não ignorou as ideias e a influência dessas teorias, apenas destacou em sua obra a “[...] existência de uma organização própria dos sujeitos da experiência sensível, organização que submete os estímulos do meio à atividade interna do sujeito” (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009, p. 138). Piaget ressalta que durante a vida do ser humano existirão estágios de desenvolvimento humano. Cada estágio de desenvolvimento equivalerá a www.esab.edu.br 98 um tipo de estrutura mental, o qual indicará diversos estágios biológicos do ser humano. É essa estrutura mental-cognitiva que permite prever o que se pode analisar naquele instante da evolução biológica do ser humano. Saiba que, a fim de realizar as análises necessárias para o seu estudo, Piaget utilizou o modelo biológico, no qual o homem almeja encontrar o equilíbro entre as necessidades biológicas essenciais à sobrevivência e as violências ou restrições colocadas pelo ambiente. Como já vimos na unidade 3, Piaget ressalta os elementos de sua teoria, que são: adaptação, assimilação e acomodação. A adaptação entrelaça-se com a assimilação e a acomodação, formando uma ligação indissolúvel. Nessa mesma unidade, também vimos que Piaget aborda os estágios do desenvolvimento humano. Os estágios são apresentados a seguir (LACOMY, 2008): • estágio sensório-motor (0 – 2 anos); • estágio pré-operatório(2 – 7 anos); • operação concreta (7 – 13 anos); • operatório formal (13 em diante). Percebemos que Piaget não desenvolveu uma concepção do processo de ensino e aprendizagem, porém proporcionou obras de referência para que outros pensadores procedessem seus estudos. Como exemplos de estudiosos que utilizaram as pesquisas de Jean Piaget para elaborar sua teoria, temos, além de Bruner, a psicóloga e pedagoga argentina Emilia Ferreiro, que desenvolveu uma teoria sobre a aprendizagem escrita. Como ressaltam Coll, Marchesi e Palacios (2007, p. 53): [...] vale acrescentar agora que seu interesse pelos problemas educacionais, ou pelas aplicações da teoria genética à educação, foi secundário, como atesta o fato de que entre sua imensa obra – centenas de livros e artigos de natureza teórica experimental – apenas dois livros (Piaget, 1969;1972) e alguns artigos versem sobre temas estritamente educacionais. www.esab.edu.br 99 Assim, podemos notar que Piaget deixou um legado de referências para renovarmos o pensamento pedagógico contemporâneo. Suas obras servem de reflexão para entendermos o desenvolvimento humano em vários estágios, e também para desenvolvermos um planejamento pautado nas diferentes etapas do ser humano. Observe, ainda, que as obras de Piaget procuram ampliar as respostas referentes à questão de como se constrói o conhecimento científico. Esse cientista procurou estudar e analisar como o ser humano passa de um estágio de menor conhecimento para um de maior conhecimento. Essa questão é, sem dúvida, de grande influência no cenário educacional, mas não é somente a ela que se restringe o trabalho de Piaget, cujas obras ainda podem servir de base para descrever e observar as competências intelectuais de indivíduos, desde a sua primeira infância até a adolescência. E nessa descrição de competências, podemos analisar alguns conceitos desenvolvidos, e ampliados fase a fase, do desenvolvimento humano, como as noções sobre tempo, espaço, movimento, lógica etc. Enfim, podemos ver que para entendermos o desenvolvimento cognitivo das crianças e os processos de aprendizagem que ocorrem em sala de aula, é importante estudarmos as fases cognitivas propostas por Piaget. Por isso, vamos seguir estudando as contribuições da Teoria Construtivista na próxima unidade. www.esab.edu.br 100 17 Construtivismo em sala de aula Objetivo Conhecer as contribuições da teoria da aprendizagem construtivista no processo de ensino-aprendizagem. Agora que já vimos um pouco sobre Piaget – e de que trata a teoria por ele desenvolvida, a qual é chamada de Teoria Construtivista, ou Construtivismo –, vamos estudar sobre como essa teoria aparece em sala de aula. Vamos ver mais detalhadamente de que trata o construtivismo e quem são os principais estudiosos dessa concepção de ensino. Como vimos, Piaget foi o percussor dessa teoria e posteriormente vários outros pesquisadores foram influenciados por ela. Entre estes, como já ressaltado na unidade anterior, encontra-se Emilia Ferreiro, psicóloga e pedagoga argentina que fez sua pesquisa de doutorado sob a orientação de Jean Piaget, na Universidade de Genebra. Saiba mais Emília Ferreiro revolucionou o método de alfabetização utilizando os conhecimentos de Piaget. Veja mais sobre a autora no artigo “Emilia Ferreiro, a estudiosa que revolucionou a alfabetização”, disponível clicando aqui. Emilia Ferreiro realizou vários estudos sobre a psicogênese do sistema de escrita. Ela procurou estudar, analisar e observar o processo de construção da linguagem escrita elaborado pela criança. Dessa maneira, ampliou os estudos propostos por Jean Piaget. http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/alfabetizacao-inicial/estudiosa-revolucionou-alfabetizacao-423543.shtml www.esab.edu.br 101 Figura 26 – Criança estudando. Fonte: <www.sxc.hu>. Você já deve ter notado que a proposta construtivista procura interpretar e explicitar o processo de ensino e aprendizagem como um processo social e dinâmico. Nessa teoria, o conhecimento é derivado da construção pessoal e interativa do estudante. Essa concepção exerce grande influência na proposição de práticas pedagógicas que levem em consideração o desenvolvimento do aluno como ser social. Dessa forma, procura contextualizá-lo no ambiente físico e social. Essas práticas pedagógicas são de imenso valor para o desenvolvimento integral do estudante, porque interligam competências cognitivas, de equilíbrio subjetivo, de relações sociais, intrapessoais, interpessoais e as competências motoras. O construtivismo pode ser desenvolvido em escolas, instituições de ensino formal e não formal, nas quais o objetivo seja planejar atividades em que o conteúdo da aprendizagem tenha como base o contexto social e cultural em que está inserido o indivíduo. Nesse caso, o educador é um sujeito que faz a mediação entre o aluno e o contexto social, ou seja, cria possibilidades para que o aluno assimile o conteúdo que está sendo estudado, e o educando é um agente ativo no desenvolvimento do seu conhecimento. Isso significa que o educando constrói seu próprio conhecimento por meio da interação com o contexto físico e social em que ele está inserido. www.esab.edu.br 102 Dessa forma, dizemos que o educando aprende no momento em que ele se torna capaz de entender um tema e de estabelecer uma representação subjetiva de um objeto do contexto social. Essa construção da aprendizagem do estudante é interligada com suas experiências, seus interesses e seus conhecimentos prévios sobre o assunto abordado, possibilitando uma compreensão do conteúdo proposto. Perceba que é assim queo estudante consegue interpretar os fatos novos, além de modificar e reorganizar todo seu conhecimento, integrando o novo conteúdo ao seu pensamento de tal forma que passa a incorporá-lo. Figura 27 – A sala de aula tem que proporcionar um ambiente de aprendizagem. Fonte: <www.123rf.com>. Ressaltamos a você que a teoria construtivista pode ser utilizada como um referencial explicativo, pois comporta várias considerações teóricas que auxiliam os educadores na elaboração do planejamento, da aplicação e da avaliação do ensino. Dessa forma, percebemos que o construtivismo não é uma receita de bolo, algo pronto ou um manual de como ensinar. Trata-se de uma teoria; portanto, deve ser usada como um embasamento teórico para ser utilizado pelos professores no contexto escolar. Porém, cada educador deve usá-la relacionando-a com a sua realidade. E essa teoria deve servir como suporte na reflexão sobre sua prática didática, ou seja, sobre como se ensina e se aprende, levando em consideração o contexto educativo em que educador e educandos estão inseridos. www.esab.edu.br 103 Nessa proposta, a responsabilidade na educação de qualidade não depende apenas do professor, é necessário também levar em consideração o trabalho coletivo dos educadores, o projeto político-pedagógico da escola e a equipe pedagógica da instituição de ensino. Note que essa equipe, a direção e a comunidade escolar devem estar integradas de forma a elaborar um contexto educativo participativo, compartilhado, no qual as decisões sejam deliberadas de forma organizada. Assim, a escola que adota essa concepção de ensino é caracterizada como um local de socialização do conhecimento, o qual proporciona aos indivíduos a interação com a cultura historicamente acumulada. Nessa teoria, aprender não é algo mecânico e estático, que se reduz a apenas copiar ou reproduzir, mas sim, aprendizagem significa elaborar e reelaborar uma representação subjetiva do contexto social, tendo como ponto de partida as experiências e os conhecimentos prévios sobre este. É importante que o aprendizado tenha significado e, dessa forma, não se restrinja a acumular conhecimentos, e sim procure desenvolver significados únicos, a partir da interação entre a experiência do sujeito e de seu contexto social. Então, você consegue perceber a importância dessa abordagem? O educador necessita tomar decisões conjuntas, compartilhadas com toda a equipe de docentes, discentes e comunidade escolar. Portanto, o seu trabalho de desenvolvimento de projetos pedagógicos e das rotinas do ambiente escolar é realizado em parceria com essa equipe. É necessário destacarmos que o construtivismo não é uma proposta acabada e fechada, mas aberta a novas contribuições e pensamentos. Assim, a construção dessa proposta é dinâmica e acontece em várias instâncias, atreladas ao contexto escolar, do processo de ensino e aprendizado. Caro acadêmico, é importante lembrarmos que nesta proposta de ensino, cabe ao professor proporcionar para seus alunos as atividades de interação com o ambiente. E para que esse planejamento obtenha êxito, é necessário que o professor leve em consideração os fatores que motivam os estudantes a aprender. Além disso, o educador deve compreender que o processo de ensino e aprendizagem é uma espiral do conhecimento. www.esab.edu.br 104 Mas por que espiral? Porque cada conhecimento serve como ponto de partida para aquisição de novos conhecimentos e assim sucessivamente. A imagem a seguir ilustra essa concepção. Observe! Aprender Aprender Aprender Aprender Comprometer-se Comprometer-se Comprometer-se Atuar Atuar Atuar Figura 28 – Espiral do conhecimento. Fonte: Adaptada de Gomes (2013). Finalizamos esta unidade destacando que, dentro da proposta do contrutivismo, o professor também necessita analisar as potencialidades dos estudantes, segundo as fases do desenvolvimento cognitivo deles. Somente a partir dessa etapa ele poderá determinar as habilidades e competências que os alunos têm para trabalhar com determinados conteúdos propostos no currículo escolar. A partir daí, deve planejar atividades que incentivem a interação dos alunos com o contexto escolar, para que proporcione o desenvolvimento cognitivo e também estimule o uso da linguagem como maneira de proporcionar esse desenvolvimento nos estudantes. Destacamos a você que a Teoria Construtivista influenciou a evolução da psicologia educacional e propiciou repensar o modelo de ensino e a educação escolar. No entanto, ela não foi a única que contribuiu para a educação contemporânea. Na próxima unidade, conheceremos a Teoria Sociointeracionista e a contribuição do cientista Vygotsky. www.esab.edu.br 105 Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. www.esab.edu.br 106 18 Teorias cognitivistas de aprendizagem e educação escolar III: Vygotsky Objetivo Refletir sobre as implicações da teoria de aprendizagem sociointeriocionista na educação escolar, na organização do sistema educacional e na prática e atividade pedagógica. Na unidade 15, vimos que os estudos de Bruner tiveram como base a Teoria Construtivista, da qual Piaget foi um importante pensador. Mas Piaget não foi o único a influenciar os estudos de Bruner, assim como o de muitos outros pensadores. Lev Vygotsky, nascido na Bielorrússia, foi pioneiro dos estudos sobre o desenvolvimento intelectual relacionado às interações sociais e às condições de vida. Essa abordagem ficou conhecida como sociointeracionismo, como veremos a partir de agora. Nesta unidade, vamos refletir sobre as implicações da teoria de aprendizagem sociointeriocionista na educação escolar, na organização do sistema educacional e na prática e atividade pedagógica. 18.1 Lev Vygotsky e a Teoria Sociointeracionista Como já estudamos na unidade 4 desta disciplina, Vygotsky é considerado o pai da Teoria Sociointeracionista. Em suas obras, há muitas referências para serem seguidas no ambiente escolar, pois contextualizam os problemas de aprendizagem sob a ótica das interações sociais que caracterizam o processo de ensino e aprendizagem. Para esse psicólogo sociointeracionista, a aprendizagem está embasada nas relações socias entre os seres humanos, isto é, a interação do homem com o contexto social é mediada pela ligação e troca com outro ser humano. www.esab.edu.br 107 Não há aprendizado se não existir essa interação de um ser humano com o outro, pois é por meio dela que o ser humano denota significados que o permitem refletir, pensar, observar e analisar o contexto social em que vive (VYGOTSKY, 1998). Segundo Vygotsky, o desenvolvimento intelectual não é algo natural, pronto e acabado, mas sim um processo influenciado por nossas vivências e experiências adquiridas ao longo de nossa vida, recebendo também as influências externas do contexto social. Sendo assim: O desenvolvimento não é pensando como algo natural nem como produto exclusivo da maturação do organismo, mas como um processo em que estão presentes a maturação do organismo, o contato com a cultura produzida pela humanidade e as relações sociais que permitem a aprendizagem. (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009, p. 141) Perceba que isso quer dizer que nossas interações com o outro são imprescindíveis, pois são elas que nos impulsionam ao processo de apropriação da cultura, isto é, ao processo de apropriação dos significados sócio-históricos da sociedade em que interagimos. Na Teoria Sociointeracionista, o desenvolvimento é um processo que acontece influenciado pela interação. A criança começa sua jornada rumo ao conhecimento muito antes de chegar à escola, e isso ocorre devido às interações que ela estabelece com outro ser humano, o qual faz a mediação entre a criança e a cultura na qual ela está inserida. Como podemos observar na figura a seguir, um exemplo de desenvolvimento é a apropriação da linguagem por parte da criança. Essa apropriaçãose faz por meio da interação com outro adulto ou criança mais velha e faz parte do produto cultural humano formado historicamente. É por meio da linguagem que todas as outras relações e apropriações acontecem. www.esab.edu.br 108 Figura 29 – A criança aprendendo a andar. Fonte: <www.sxc.hu>. Essas relações da criança com o outro (um adulto ou uma criança em idade mais avançada) é que proporcionam a ela o conhecimento do nome dos objetos que a rodeiam, bem como a forma como deve se comportar nesse ambiente e as respostas para questões que tenha sobre o mundo que a cerca. Podemos observar um exemplo bem claro disso na Educação Infantil, quando a criança faz perguntas sobre o mundo, como: “Por que o céu é azul?”; “Como eu nasci?”; “Por que os pássaros voam?”, entre outras. São esses instrumentos ou elementos que, por meio desse processo de apropriação do contexto social realizado pelo ser humano, proporcionam o desenvolvimento do organismo e das funções psíquicas superiores que intitulamos de psiquismo humano. Agora reflita: e a escola, como é vista nessa concepção de ensino? A instituição escolar é um espaço que proporciona a interação do ser humano com a cultura de maneira planejada, organizada e sistemática. www.esab.edu.br 109 Figura 30 – Brincadeiras em uma escola incentivam a interação. Fonte: <www.123rf.com>. Em uma escola que trabalha com a concepção sociointeracionista, o ritmo da ampliação do conhecimento e do desenvolvimento cognitivo é acelerado e muito mais dinâmico do que em outros espaços. E quem proporciona essa aceleração do desenvolvimento intelectual no espaço escolar são os agentes provocadores desse desenvolvimento: os docentes, os próprios alunos e a comunidade escolar, os quais são mediadores entre esse sujeito e a cultura social. Já o conceito de zona de desenvolvimento proximal, desenvolvido por Vygotsky, refere-se às aprendizagens que o educando pode adquirir a partir do ensino sistemático. Essa zona é a distância entre o nível de desenvolvimento real e o de desenvolvimento potencial. Estudaremos mais sobre esse assunto na próxima unidade. Por enquanto, seguiremos estudando a base dos pensamentos de Vygotsky. Como estamos vendo, a aprendizagem, segundo essa teoria de ensino, faz parte de um processo social. Por isso, o professor deve planejar suas aulas a partir do que os alunos já sabem. Ou seja, é necessário que ele perceba o nível cognitivo do grupo, tornando isso um ponto fundamental para a elaboração do seu planejamento escolar. A respeito disso, Bock, Teixeira e Furtado (2009, p. 143) explicam que “[...] a educação passa, então, a ser vista como processo social sistemático de construção da humanidade”. www.esab.edu.br 110 Assim, o foco da Teoria Sociointeracionista está na relação entre aluno e professor, e nas relaçãoes entre os alunos e os instrumentos constituídos pelo ser humano e também entre aluno e aluno, pois é por meio dessas interações que ocorre o conhecimento. O educador é, então, um mediador entre o aluno, o contexto social e o conhecimento. O aprendizado ocorre com a apropriação do meio em que se vive, analisando o que já foi descoberto e processando e organizando o conhecimento junto com o professor e os outros integrantes do ambiente escolar. Poderemos observar alguns reflexos em sala de aula produzidos por essa Teoria Sociointeracionista. Primeiramente, haverá um maior planejamento de atividades e trabalhos em grupo e o ponto de partida será o contexto social para chegar-se ao conhecimento científico. Nesse contexto, o educador planejará atividades que desafiem os educandos, sendo que os erros, nessa teoria do aprendizado, são considerados parte do processo de aprendizagem, pois demonstrarão ao professor que o aluno está desenvolvendo o raciocínio. Assim, o professor saberá o momento e a melhor forma para levar o aluno ao conhecimento científico sobre determinado assunto. Portanto, os erros fazem parte do processo de ensino-aprendizagem e são uma etapa na alavanca do conhecimento. Para melhor compreendermos como ocorre o ensino com base na Teoria Sociointeracionista, vamos ver um exemplo. Imagine uma aula em que o tema são os animais em extinção. O professor poderá planejar sua aula utilizando vários materiais como filmes, imagens e reportagens arqueológicas, por exemplo. A partir daí, poderá levar os alunos para uma visita ao zoológico e procurar um biólogo, arqueólogo ou historiador com experiência no assunto para que os alunos entrevistem esse profissional. Com isso, o professor estará mediando a aprendizagem de seus alunos sobre biologia, história e a necessidade de cuidarmos do meio ambiente, e essa aprendizagem estará acontecendo por meio da interação com outros indivíduos e com o ambiente. www.esab.edu.br 111 Desse modo, finalizamos esta unidade relembrando que na Teoria Sociointeracionista, a instituição escolar é um espaço que proporciona a interação do ser humano com a cultura, de maneira planejada, organizada e sistemática. Na próxima unidade, veremos mais sobre a Teoria Sociointeracionista e alguns dos conceitos abordados aqui. Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidades 10 a 18. Para isso, dirija- se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 112 Resumo Na unidade 13, estudamos os conceitos propostos por Thorndike e Skinner. Thorndike é representante da Teoria Associacionista, ou conexionismo, para a qual a aprendizagem é originária de conexões nervosas consolidadas entre impressões sensoriais e impulsos para a ação. Já Skinner, representante do behaviorismo, menciona questões relacionadas ao condicionamento operante e ao condicionamento respondente. Em seguida, na unidade 14, estudamos as Teorias do Condicionamento, de Bandura, responsável pela criação da Teoria Social Cognitiva, que enfoca o papel das influências sociais na aprendizagem. Na unidade 15, vimos as teorias cognitivistas de aprendizagem de Ausubel e Bruner. O primeiro destaca que o professor, dentro da teoria da aprendizagem significativa, tem de realizar um planejamento que tenha como objetivo incentivar os educandos, criando momentos que proporcionem o ponto de ancoragem. Bruner, que desenvolveu a Teoria da Instrução, afirma que a criança passa por três níveis de representação cognitivista: enativa, icônica e simbólica. Na unidade 16, estudamos a Teoria Cognitivista proposta por Piaget. Para esse cientista, a construção das intervenções cognitivas no homem está interligada a um procedimento de equilíbrio, o qual impulsiona o desenvolvimento cognitivo total. Na unidade 17, destacamos o construtivismo em sala de aula e vimos que, segundo essa concepção de ensino, o conhecimento é derivado da construção pessoal e interativa do estudante. www.esab.edu.br 113 Por fim, na unidade 18, estudamos a Teoria Cognitivista de aprendizagem chamada Sociointeracionismo, da qual Vygotsky foi pioneiro. Vimos que, para ele, a aprendizagem está embasada nas relações socias entre os seres humanos, sendo que a interação do homem com o contexto social mediada pela ligação com outro ser humano é o que gera a aprendizagem. www.esab.edu.br 114 19 A Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) e o processo de ensino-aprendizagem Objetivo Analisar as implicações, no cotidiano escolar, da Zona de Desenvolvimento Proximal no nível de desenvolvimento real dos alunos. Na unidade anterior, refletimos sobre as implicações da Teoria Histórico- Cultural no âmbito da educação escolar no que tange à questão da organização do sistema educacional, da atividade e da prática pedagógica. Nesta unidade, faremos um “mergulho” na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), importante conceito proposto por Vygotsky (1998) e apreendido por você, nas unidades anteriores. Aqui, nossa pretensão é ultrapassar o patamar do conceito,propondo a ruptura de antigas formas de pensar e produzir conhecimento, inaugurando, em seu lugar, novos olhares e leituras da realidade. Quer dizer, imbricando teoria e método e pondo-os como mediadores em uma leitura de “mundo” que contemple sujeitos como seres de relações. Em nossas discussões evocaremos o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal à medida que identificaremos os níveis de desenvolvimento a ela relacionados: o Real e o Proximal. Mais que dar visibilidade ao conceito de ZDP, pretendemos auxiliar você, futuro educador, como sujeito de sua profissão, na construção de novos “pensares” e “fazeres” na Educação, identificando e, sobretudo, colaborando com os avanços na aprendizagem dos seus alunos. Vamos juntos! Como seres de concretude, temos conferido a cada um de nós, seres humanos, na Perspectiva Histórico-Cultural de Vygotsky, o lugar de produtor e produto de nossa própria história, produtor e produto de si e do outro. Ou seja, ao passo que transformamos a nossa realidade, somos por ela também transformados. Essa noção institui um valioso exercício de pensar, o pensar por relações, ou ainda, o pensar por movimento. Em outras palavras, um exercício de pensar que rompe com a ideia de www.esab.edu.br 115 estaticidade do fenômeno, conferindo a ele uma historicidade. Logo, toda e qualquer ação humana deve ser compreendida como uma ação que provoca “marcas” em si e no outro, pensando esse outro como outro ser qualquer ou ainda como um objeto da própria materialidade concreta. Vamos compreender melhor essa noção, criando alguns recortes de situações cotidianas de ensino-aprendizagem, dentro do contexto das relações sociais escolares, com possibilidades de análise. Tomemos, como exemplo, a relação de uma professora de Educação Infantil com uma criança que frequenta a escola, com idade em torno de um ano. Essa criança, como qualquer outra, institucionalizada (inserida num contexto educacional formal) ou não, previsivelmente, apresenta uma fala caótica e dispersa, característica que se estenderá até, mais ou menos, os três anos de idade. Essa fala, que acompanha as ações práticas da criança, reflete os seus processos de pensamento. Ou seja, há um deslocamento temporal da fala, uma mudança na sua função: a fala começa a auxiliar no plano da ação concebido, mas ainda não realizado pela criança, uma forma de aliviar as tensões mediante os desafios vivenciados por ela. Esse momento de desenvolvimento da linguagem, Vygotsky denomina de fala social. Imaginemos, então, um momento específico do seu desenvolvimento: o do gesto de indicar. Esse exemplo foi bastante vislumbrado nos trabalhos de Vygotsky para ilustrar a relação do sujeito com o signo. Imaginemos que essa criança tenha apontando para um passarinho. Inicialmente, o ato de apontar possui o desejo único de pegar esse “objeto”. Mas, no instante em que a professora percebe esse gesto e o atende, algo muda radicalmente. A professora passa a atribuir significado ao ato de apontar da criança. O ato, antes genuíno, passa a ser transformado em signo gestual ou conduta instrumental. Ou seja, o gesto passa a adquirir significado quando a criança começa a estabelecer a relação entre o seu intento e a reação da professora, desenvolvendo, assim, uma nova função. Explicamos melhor. O movimento de pegar, que outrora estava orientado para o “objeto”, passa a ser voltado à professora. O movimento transforma-se, então, no ato de indicar. Essa transformação implica uma condensação, quer dizer, uma simplificação física do ato que possibilita sua internalização. Portanto, o gesto passa de instrumento externo para um instrumento interno (signo). Essa situação de aprendizado nos permite visualizar a presença da Zona de Desenvolvimento Proximal, à medida que a relação com a professora conduz a criança a processos www.esab.edu.br 116 internos do desenvolvimento. Esses processos são decorrentes das interações sociais com sujeitos adultos ou com outras crianças mais experientes ou capazes. Agora, imaginemos essa mesma professora significando a ação da criança de outro modo, trazendo um novo (e valioso) elemento à interação: a palavra. Quando faz uso da palavra – mesmo a palavra falada, dizendo “piu, piu” para referir-se ao passarinho –, a professora passa a mediar o desenvolvimento da linguagem da criança, inserindo-a nesse importante universo simbólico e humano. A inserção da criança no universo linguístico provoca alterações valiosas no psiquismo, propiciando o desenvolvimento das funções da consciência. A linguagem é, dentro da Perspectiva Teórica de Vygotsky, o principal mediador do processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança. Agora, imaginemos outro exemplo: a realização de uma atividade lúdica proposta por uma professora contadora de histórias para crianças em processo inicial de alfabetização, do período Pré-Escolar. Uma atividade em que as crianças devam, em um primeiro momento, relatar histórias aos colegas e, por conseguinte, dramatizá-las e produzir um registro, que pode ser feito através de desenhos ou da escrita (no caso das crianças mais capacitadas). No início, os desenhos são constituídos basicamente de garatujas, sem significados consistentes para os que observam. Aos poucos, é que vão adquirindo forma e significado de modo a se aproximarem cada vez mais do “real”, podendo até serem reconhecidos fora do contexto. Esse registro, antes feito através de garatujas e depois de desenhos mais previsíveis, graças às mediações possibilitadas pelo outro, vai cedendo lugar à escrita. Esse avanço no desenvolvimento cognitivo só é possível em razão da mediação. Essa mediação vai permitindo a regulação da conduta da criança, possibilitando que ocorram vários processos internos de desenvolvimento, entre eles, o cognitivo. Os jogos lúdicos estabelecidos entre as crianças se traduzem em uma atividade cuja função envolve a sua imaginação. A imaginação possibilita, por sua vez, que elas (as crianças) se expandam para além dos limites de suas capacidades – estamos falando das capacidades reais (Nível de Desenvolvimento Real) –, exercitando-as nas relações (Zona de Desenvolvimento Proximal) e fazendo-as entrar em contato com capacidades futuras (Nível de Desenvolvimento Potencial). Temos então a presença da Zona de Desenvolvimento Proximal e a forte evidenciação da importância da relação aluno-aluno como estratégia www.esab.edu.br 117 eficaz para o desenvolvimento das aprendizagens escolares. A Zona de Desenvolvimento Proximal estabelece aqueles processos cognitivos que ainda não amadureceram, porém, estão em processo de desenvolvimento, isto é, em estado incipiente. Ela permite descrever o processo dinâmico do desenvolvimento da criança, possibilitando o acesso tanto àquele conhecimento adquirido quanto àquele em estado de desenvolvimento, ou seja, em processo de maturação. Vejam um exemplo ilustrativo de como atua a Zona de Desenvolvimento Proximal. Zona de Desenvolvimento Proximal Real ZD P Potencial Figura 31 – Zona de Desenvolvimento Proximal. Fonte: <http://piagetvygostky.wordpress.com/quem/>. Como futuro educador, após os estudos da teoria de Vygotsky, você deve vislumbrar o espaço de sala de aula como um lugar rico e heterogêneo. Um espaço composto por alunos em diferentes níveis de desenvolvimento, tanto real quanto potencial e, portanto, oportunizador de diversas possibilidades de interações e aprendizagens. Você se lembra de quando falamos de um “pensar por movimento”? Não podemos desconsiderar, em hipótese alguma, o movimento dialético presente no processo de ensino-aprendizagem – ao ensinar, vamos também aprendendo. Nessa perspectiva, se em um determinado momento o aluno aprende, em outro, ele ensina, podendo, em momentos específicos, ser um valioso agente de aprendizagem do outro. Sendo assim, o educador comprometido com o desenvolvimento potencial de seus alunos, deve planejar suas atividades de modo acontemplar as interações e relações sociais e, sobretudo, as trocas de experiências significativas entre os sujeitos. Posto que o educador é o www.esab.edu.br 118 principal mediador do processo de ensino-aprendizagem, sua atuação deve ter como foco a ZDP dos alunos. Todavia, essa atuação só se concretiza através de intervenções intencionais. Daí a importância de elaborar/planejar adequadamente as atividades educacionais escolares, atentando quanto à natureza e à qualidade de suas intervenções. É preciso investir em atividades que estimulem não só a imaginação das crianças, mas também o sentimento de cooperação entre elas na perspectiva da colaboração para a resolução de problemas, isto é, atividades propiciadoras da Zona de Desenvolvimento Proximal que promovam o desenvolvimento de competências não só cognitivas, mas também afetivas e sociais, e que levem em conta a riqueza da coletividade. É importante lembrar que o desenvolvimento não é um processo linear. Ao contrário, é um processo dinâmico e sofre modificações qualitativas. Atividades de carácter lúdico e dinâmico – tais como: jogos cooperativos, dramatizações e brincadeiras – podem potencializar a aprendizagem da criança e promover o processo de maturação das funções psicológicas, a exemplo da memória e da atenção concentrada. Como dissemos anteriormente, esse avanço no desenvolvimento dependerá essencialmente da natureza e da qualidade de suas intervenções na aprendizagem dos alunos. Nesta unidade, fizemos um importante “mergulho” na ZDP, buscando ultrapassar o patamar do conceito e agir na perspectiva da construção de novos “pensares” e “fazeres” na Educação, identificando e, sobretudo, colaborando com os avanços na aprendizagem dos seus alunos. Na unidade seguinte, vamos conhecer as teorias cognitivistas de aprendizagem, defendidas por Wallon e Gardner. Ainda há muito o que se descobrir. Continue conosco! www.esab.edu.br 119 Fórum Caro estudante, dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem da Instituição e participe do nosso Fórum de discussão. Lá você poderá interagir com seus colegas e com seu tutor de forma a ampliar, por meio da interação, a construção do seu conhecimento. Vamos lá? www.esab.edu.br 120 20 Teorias cognitivistas de aprendizagem e educação escolar IV: Wallon e Gardner Objetivo Conhecer as contribuições das Teorias de Aprendizagem de Afetividade e das Inteligências Múltiplas e sua interface no processo de ensino-aprendizagem. Na unidade anterior, analisamos as implicações no cotidiano escolar da Zona de Desenvolvimento Proximal no Nível de Desenvolvimento Real dos alunos. Nesta unidade, vamos conhecer outras duas teorias importantes do campo da aprendizagem: a Psicologia da Infância, de Henri Wallon, e a Teoria das Inteligências Múltiplas, proposta por Howard Gardner. Para essa discussão, partiremos das contribuições de Lakomy (2008) e Barros (2008), dois renomados autores do campo das Ciências Humanas. Vamos juntos! 20.1 Teoria da Afetividade A Psicologia da Infância – também conhecida como Teoria da Afetividade, pelo papel de centralidade que a emoção adquire no processo de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo da criança – foi defendida por Henri Wallon, que desenvolveu suas concepções nas décadas de 1950 e 1960. Segundo sua teoria, a inteligência e a afetividade caminham e se desenvolvem juntas, desde o nascimento da criança. O desenvolvimento cognitivo está embasado na preparação das condições sensório-motoras da criança, como olhar, pegar e andar. Essas condições se configuram como fundamentais no segundo ano da vida da criança, pois permitem que ela explore sistematicamente o meio social no qual está inserida. O aperfeiçoamento e desenvolvimento cognitivo é o estágio no qual ocorrem as relações emocionais do bebê com o contexto social em que vive, representadas através de reações fisiológicas de emoção em função do toque e da tonalidade de voz (BARROS, 2008). www.esab.edu.br 121 Lakomy (2008) diz que Wallon ressalta outra etapa importante do desenvolvimento, que ocorre quando a afetividade dá espaço ao desenvolvimento cognitivo, ou seja, quando a criança desenvolve/constrói o contexto social por meio da inteligência prática ou das situações. Concomitantemente, nasce a função simbólica a partir do desenvolvimento da fala e dos comportamentos representativos da criança, iniciando-se, assim, o pensamento discursivo. Nessa fase, o desenvolvimento humano passa por uma sequência de momentos alternados: predominantemente afetivos ou predominantemente cognitivos. Outro estágio primordial do desenvolvimento da criança, também observado por Wallon, é o da afetividade simbólica, caracterizado pela demonstração da afetividade usando os símbolos orais e escritos; essa forma é nomeada pelo autor de forma cognitiva de vinculação afetiva. Na adolescência, é intitulada de afetividade categorial, pois as demonstrações de afeto são embasadas na racionalidade. Resumidamente, segundo as contribuições de Wallon, o desenvolvimento da inteligência está atrelado ao desenvolvimento da afetividade e ambas são responsáveis pela construção de um sujeito afetivo, individual, concreto e social. Esse cientista criticava as teorias tradicionais de educação, que não enfatizavam o caráter afetivo, social e político da educação. Para ele, a instituição escolar deve proporcionar às crianças um maior desenvolvimento afetivo e social, pois é nesse local que ocorrem as convivências, interações e trocas de conhecimentos entre elas. Nesse espaço, a criança tem a oportunidade de fazer escolhas em relação ao grupo social com o qual convive, seja na família ou na escola. Para Wallon, é de grande importância que, dentro do contexto escolar, sejam respeitadas as capacidades cognitivas e as necessidades afetivas dos educandos. Dessa forma, os conteúdos programáticos ensinados a eles serão melhor apreendidos e utilizados futuramente. Para planejar os conteúdos que serão abordados e as estratégicas didáticas a serem desenvolvidas no processo ensino-aprendizagem, o professor, dentro da proposta de Wallon, deverá considerar as diversas fases do desenvolvimento cognitivo da criança, as estratégias deverão levar em consideração a motivação, a curiosidade e também incentivar o desenvolvimento de competências, como trabalhar em grupo e realizar pesquisas. Em resumo, é de responsabilidade do educador desenvolver www.esab.edu.br 122 relações de afetividade com os seus educandos, para que esses vínculos facilitem o processo de ensino-aprendizagem. 20.2 Teoria das Inteligências Múltiplas Você já ouviu falar sobre Inteligências Múltiplas? Essa teoria foi difundida na década de 1980 e seu defensor foi Howard Gardner. Esse psicólogo e cientista afirma que nós, seres humanos, apresentamos capacidades distintas ou diversas inteligências. Ou seja, enquanto determinadas pessoas possuem inteligência para compor uma música, outras possuem habilidades para solucionar problemas lógico- matemáticos, algumas para elaborar projetos e outras para estudar e compreender o contexto social e cultural em que vivem. Lakomy (2008) ressalta ainda que, segundo Gardner, existem oito tipos de inteligências relacionadas às competências cognitivas, motoras e sociais aperfeiçoadas durante nossa vida. Gardner admite a existência de outras inteligências ainda não descobertas ou estudadas. A partir da abordagem de Lakomy (2008), fundamentado em Gardner, vamos conhecer as oito inteligências principais. • Inteligência linguística: é a capacidade de usar criativamente as palavras e frases na expressão oral e escrita. Os poetas, escritores, jornalistas, publicitários, vendedores e pessoas que trabalham com a escrita possuem essa inteligência. • Inteligência lógico-matemática: é a capacidade de trabalhar com o raciocínio lógico. As pessoas com essa inteligência possuem facilidade na resolução de problemas que envolvam números e elementos matemáticos. Ela se destacanos cientistas, contadores, matemáticos, físicos e outros profissionais ligados às ciências exatas. • Inteligência musical: é a capacidade de trabalhar com notas musicais, reconhecendo tons e sons musicais. As pessoas dotadas dessa inteligência conseguem ouvir uma música e reproduzi-la, utilizando muita criatividade e maestria, o que impressiona a quem ouve. É interessante destacar que a grande maioria dos músicos é autodidata. www.esab.edu.br 123 • Inteligência espacial: é a capacidade de distinguir padrões, identificar similaridades geométricas e manipular formas e objetos a partir da percepção inicial. Entre os profissionais com esse tipo de inteligência, podemos destacar os arquitetos e pilotos. • Inteligência corporal-cinestésica: é a capacidade de movimentar, controlar, perceber e usar o corpo para solucionar problemas ou gerar conceitos, ideias e objetos. Essa inteligência pode ser percebida em atores, dançarinos, cirurgiões, mecânicos, atletas e malabaristas. • Inteligência interpessoal: é a capacidade de ter bom relacionamento com as pessoas e compreendê-las. Essa inteligência é destacada em vendedores, terapeutas, políticos, professores e pessoas que estão ligadas a cargos de liderança e comando. • Inteligência intrapessoal: é a capacidade de conhecer a si, estar em paz consigo mesmo, de analisar os desejos, os medos e de conduzir seus sentimentos para atingir seus objetivos. Essa inteligência pode ser visualizada em terapeutas e políticos. • Inteligência naturalista: é a capacidade de interagir com o meio ambiente no qual estamos inseridos. Os biólogos possuem essa inteligência. Como educador, você precisa identificar o perfil dos seus alunos no que concerne à Teoria das Inteligências Múltiplas, a fim de planejar atividades ajustadas a cada perfil de inteligência. Acompanhe, no quadro a seguir, as características da inteligência pensadas para cada educando. www.esab.edu.br 124 Inteligências Características apresentadas de acordo com as inteligências Linguística Gosta de ouvir, ler, escrever poesia, produzir textos criativos, bom em debate, oratória etc. Lógico-matemática Gosta de cálculos, precisão, resolução de problemas, explicações claras, boa argumentação, experimentar etc. Espacial Gosta de geometria, construir maquetes, facilidade para indicar trajetos e ler mapas, gráficos e plantas, criar imagens e movimenta-se facilmente entre os objetos etc. Musical Sensível à entonação, ritmo, timbre e à emoção contida em uma música, gosta de cantar ou tocar instrumentos, reconhece e discute diferentes estilos e gêneros musicais etc. Corporal-cinestésica Possui controle excepcional sobre o corpo e os objetos, boa sincronização de movimentos, gosta de explorar o ambiente com movimentos, tem habilidade para dramatização, esporte, mímica ou dança, torna-se irrequieto e aborrecido se fica muito tempo parado, brinca enquanto escuta, memoriza melhor se faz algo etc. Interpessoal Tem um bom relacionamento e comunicação, pode manipular opiniões (poder de influenciar), gosta de atividades grupais, de cooperar, percebe as intenções dos outros, adapta-se facilmente etc. Intrapessoal É independente, motivado, consciente dos seus sentimentos, metas, limites e possibilidades, deseja ser diferente do geral, estabelece um sistema de valores éticos etc. Naturalista Mostra habilidade em reconhecer objetos na natureza, bem como tem predileção por atividades ao ar livre. Quadro 1 – As características das inteligências múltiplas. Fonte: Adaptado de Lakomy (2008). Lakomy (2008) afirma que, para Gardner, a instituição escolar deve inserir em seus planejamentos atividades que proporcionem ao educando o desenvolvimento de várias inteligências e competências, preparando- os para serem mais participativos na sociedade na qual estão inseridos. Gardner defende que o educador tem de considerar que todos os alunos têm capacidades para desenvolver suas inteligências, desde que sejam devidamente motivados. A instituição escolar deverá considerar a diversidade entre os educandos, garantindo o desenvolvimento de todas as suas potencialidades. Nesse sentido, Lakomy (2008) destaca que, para Gardner, o educador deverá: • entender a diversidade de inteligências que existem entre os alunos; www.esab.edu.br 125 • propor que a comunidade escolar discuta a respeito das diferenças que existem entre os educandos; • incentivar o educando a demonstrar, de maneira eficaz, o que está aprendendo; • oportunizar diferentes possibilidades para que os discentes aprendam os conteúdos propostos no currículo escolar. Por exemplo, ao ministrar uma aula sobre o reino animal, o professor poderia planejar uma visita ao zoológico com os alunos. Dessa forma, possibilitaria ao educando analisar o tema sob outras perspectivas que estão muito além do livro escolar; • planejar novos métodos de avaliação. Ainda segundo Gardner, o contexto escolar deverá oportunizar ambientes que motivem o educando a questionar, pesquisar, criar metodologias e procedimentos para a pesquisa e que também o leve a resolver “situações- problema” e, assim, o auxilie na construção de sua aprendizagem sobre os conteúdos trabalhados em sala de aula. O professor deve repensar seus projetos e inovar sua forma de ensinar e de elaborar o planejamento educativo. O educador deve propor atividades que desenvolvam a autonomia e a responsabilidade, buscando orientar os educandos para que despertem para novos conhecimentos. Lakomy (2008) destaca ainda a proposta de Gardner para que o educador utilize recursos, como: trabalhos em equipe, jogos pedagógicos, dramatizações, projetos científicos, leitura, produção e interpretação de textos. Enfim, que o educador explore ao máximo a sua criatividade para trabalhar o conteúdo do currículo escolar de forma integrada e interdisciplinar. Nesta unidade, conhecemos a Teoria da Infância, de Henri Wallon, e a Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner. Wallon afirma que a inteligência e a afetividade desenvolvem-se concomitantemente, desde o nascimento da criança. Já Gardner acredita que existem inúmeros tipos de inteligência e apresenta oito delas como principais: inteligência linguística, lógico-matemática, musical, espacial, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal e naturalista. Vamos conhecer, a partir da próxima unidade, a concepção de mais um importante estudioso da Psicologia Científica: Carl Rogers, a respeito do desenvolvimento e aprendizagem humana, com vistas a compreender suas contribuições à Educação. Vamos a sua teoria! www.esab.edu.br 126 Saiba mais Para saber mais sobre a influência da Teoria das Inteligências Múltiplas na Educação, assista ao vídeo sobre a conferência “Educação no Século XXI”, com o psicólogo Howard Gardner. Aproveite! Disponível clicando aqui. http://www.youtube.com/watch?v=FDCGcekPhss www.esab.edu.br 127 21 Teorias cognitivistas de aprendizagem e Educação Escolar V: Rogers Objetivo Conhecer a Teoria Humanista de aprendizagem e suas implicações no processo de ensino-aprendizagem. Iniciaremos, agora, mais uma discussão importante no campo da Educação: falaremos sobre a Teoria Humanista de Aprendizagem. Na unidade anterior, conhecemos as contribuições das Teorias da Afetividade e das Inteligências Múltiplas no processo de ensino-aprendizagem. Nesta unidade, abordaremos a Teoria Humanista de Aprendizagem, defendida pelo psicólogo norte-americano Carl Rogers, e ainda abordaremos suas implicações no processo de ensino-aprendizagem. Coll, Marchesi e Palacios (2004b) serão os autores com quem teceremos importantes diálogos a esse respeito. Continuemos juntos! Antes de vislumbrarmos a Teoria Humanista de Aprendizagem, vamos procurar conhecer um pouco a respeito de Carl Rogers. Carl Rogers nasceu em 1902, em Chicago, nos Estados Unidos. Formou-se na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. A maior parte da sua vida profissional foi dedicada a atendimentos na área dapsicologia clínica. Como terapeuta, suas ideias foram revolucionárias. Sua experiência lhe mostrou que a aprendizagem centrada no cliente promove mudanças verdadeiras. Ele entende que a pessoa é mais que um organismo vivo, é um ser que pensa, escolhe, decide, sente e é capaz de mudar. Nesse sentido, a aprendizagem deverá possibilitar um processo de aprimoramento do indivíduo de forma integral e não apenas do conhecimento. Segundo Coll, Marchesi e Palacios (2004b), Rogers transpôs para o ambiente educacional sua técnica como psicólogo. Ele entende o aluno como um sujeito com potencial para aprender, mas que precisa ser envolvido em situações de aprendizagem que tenham significado para ele. Coll, Marchesi e Palacios (2004b) ressaltam ainda www.esab.edu.br 128 que, sob essa perspectiva, quando a aprendizagem envolve mudança na percepção de si mesmo, ela só será bem sucedida se o educando estiver disposto a aprender. Por isso, a participação efetiva no processo de aprendizagem é fundamental para que o educando construa seu conhecimento. Rogers enfatiza que a aprendizagem significativa envolve sentimentos, atitudes, comportamentos e estes devem mediar as relações entre educador e educandos. Para ele, ensinar é despertar a curiosidade, instigar, orientar e desafiar o aluno para que ele mesmo construa o seu conhecimento. Assim, o professor passa de detentor a facilitador do processo de ensino-aprendizagem. Isso mesmo, facilitador. Pois a ideia de mediação só emerge posteriormente, com a divulgação dos postulados teóricos de Vygotsky. Coll, Marchesi e Palacios (2004b) explicam que, para Carl Rogers, ensinar não é manter a ordem na sala, despejar conteúdos e fazer provas. Ensinar é mais difícil que aprender, porque o que o ensino exige é uma postura mais flexível por parte do educador, permitindo que o aluno aprenda, alimentando sua criatividade. O aspecto prático é muito enfatizado na teoria de Carl Rogers. Ele explica que a aula experimental levará os alunos a uma série de aprendizados sobre temas direta ou indiretamente relacionados à experiência vivenciada. Ressaltamos que, para esse psicólogo, a educação escolar tem como finalidade proporcionar condições que facilitem a aprendizagem do educando. Para ele, é necessário que o educador planeje suas aulas, suas estratégias didáticas e suas práticas de ensino de modo que estas motivem os alunos a aprenderem os conteúdos propostos no currículo escolar (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b). Como facilitador, o professor é responsável por propor recursos pedagógicos e didáticos que facilitem o processo de ensino-aprendizagem, como livros, revistas, apostilas, jogos, filmes, documentários etc. Dentro da proposta de Rogers, possibilitar ao educando um clima facilitador de aprendizagem é fundamental, pois nos contatos com os professores, nos trabalhos em grupos, nas interações com os colegas de classe, a aprendizagem é tão valiosa e produtiva quanto aprender através de livros. Assim, a ênfase da aprendizagem não está somente no conteúdo, mas em proporcionar um processo de aprendizagem permanente. De acordo com Rogers, os educandos querem estudar, adquirir conhecimentos, criar, www.esab.edu.br 129 conhecer, e os educadores devem proporcionar momentos para estimular essas tendências naturais dos educandos. Você pode estar se perguntando: como fazer isso na prática? Como empregar essa teoria no ambiente escolar? De acordo com Coll, Marchesi e Palacios (2004b), Rogers indica como métodos de trabalho: • trabalhar problemas significativos para os alunos; • disponibilizar aos alunos os recursos relevantes às suas necessidades de aprendizagem. Para citar alguns: livros, artigos, revistas, vídeos, pesquisas, laboratórios, entre outros; • estabelecer metas com os estudantes e orientá-los para o cumprimento de seus objetivos; • envolver os alunos com a vida e os problemas da comunidade; • incentivar a troca de experiências e novas formas de aprendizagem; • estimular os trabalhos em grupo; • utilizar a autoavaliação. O facilitador e os alunos chegam a um acordo sobre as maneiras de cada um se avaliar. Nesse cenário o desafio do professor é sair da posição de detentor do conhecimento para facilitador do conhecimento. Rogers sugere ao educador refletir continuamente sobre o seu papel no processo de ensino- aprendizagem, de modo a contribuir para o enriquecimento da ação pedagógica. Nesta unidade, conhecemos a Teoria Humanista de Carl Rogers, que compreende o professor como facilitador e o aluno como um sujeito com potencial para aprender. Vimos que o psicólogo defende também que, para que ocorra o aprendizado, é necessário envolver o aluno em situações de aprendizagem que tenham significado para ele e que o remetam a sua realidade e o estimulem na busca de novos conhecimentos. O desafio do educador está em facilitar esse processo, a fim de encontrar o equilíbrio entre a liberdade e o limite no processo de aprendizagem. Na próxima unidade, estudaremos os aspectos da personalidade e da aprendizagem. Ainda há muito o que se descobrir. Continue conosco! www.esab.edu.br 130 Estudo complementar Para complementar nossos estudos sobre Carl Rogers, sugerimos que você acesse e leia o texto “Revisitando as fases da abordagem centrada na pessoa”, de Virgínia Moreira, disponível clicando aqui. Confira! http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v27n4/11.pdf http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v27n4/11.pdf www.esab.edu.br 131 22 Psicologia: aspectos da personalidade e aprendizagem Objetivo Conceituar os aspectos da personalidade e da aprendizagem. Na unidade anterior, conhecemos a Teoria Humanista de Carl Rogers, que compreende o professor como facilitador e o aluno como um sujeito com potencial para aprender. Nesta unidade, vamos conhecer os principais aspectos da personalidade e da aprendizagem. As teorias de Biaggio (2002) e Bock, Teixeira e Furtado (2009) fundamentarão essa importante discussão. Sigamos juntos! Falamos muito em aprendizagem, correto? Você saberia conceituar aprendizagem? Pense um pouco. Difícil? Talvez porque aprendizagem é um conceito muito abrangente. Para alguns teóricos, é vista como um processo de modificação de comportamento, alcançado mediante a aquisição de conhecimentos. Os conceitos culturais do grupo social em que vive o indivíduo, a interação entre os fatores emocionais e neurológicos e, ainda, as estruturas mentais e o contexto social no qual ele está inserido, influenciam consideravelmente na aprendizagem. Segundo Biaggio (2002), aprendizagem vem de apreender e esse termo significa chegar perto de algo para explorar. Aprender faz parte da vida do ser humano desde o seu nascimento. Através das experiências e vivências com outros seres da sua espécie, o ser humano aprende a andar, a comer, a comportar-se, a sentir emoções, a brincar e a trabalhar. O ser humano adquire conhecimento de formas diferentes, atribuindo a ele significados e sentidos diferenciados, pois estão ligados à história de vida de cada um, bem como à história do grupo social em que está inserido. O desenvolvimento da aprendizagem é um processo muito complexo, pois abrange as características cognitivas, emocionais, orgânicas, psicossociais e culturais. Essas características (cognitivas, emocionais, orgânicas, psicossociais e culturais) se referem à personalidade do indivíduo, tema www.esab.edu.br 132 que estudaremos mais profundamente na sequência das unidades, embora vislumbremos essas duas temáticas aqui. A aprendizagem tem como ponto de partida a motivação, que ocorre internamente. Convém destacar que o processo de desenvolvimento cognitivo abrange o ser humano em todos os aspectos. Esse processo é subjetivo e individual, variando conforme a personalidade e vivências pessoais. Desde muito cedo, Biaggio (2002) passou a se interessar pela análise da estrutura da personalidade humana. Segundo a autora, as variáveis externas (a exemplo, as culturais) e internas aos indivíduos(a exemplo, os aspectos da estrutura de personalidade) levam a mudanças importantes no comportamento humano em momentos transitórios da vida, como a infância, a adolescência e o envelhecimento. Em seus estudos, Biaggio (2002) abordou as mais diferentes definições de personalidade. Para a autora, a personalidade é como uma unidade individual, isto é, uma resultante psicofísica da interação entre a hereditariedade e o meio, manifestada através do comportamento e cujas características são peculiares a cada pessoa;. ou seja, uma unidade que leva em conta as experiências passadas e os estímulos atuais do meio no qual o indivíduo está inserido. Mas qual a importância de se compreender tudo isso? Qual a relação, exatamente, existente entre essas duas esferas em questão: aprendizagem e personalidade humana? Sua importância, como educador, em conhecer o que é aprendizagem e personalidade humana, está justamente em entender que a cada ser humano cabem formas, estilos e ritmos diferenciados de aprendizagem e que essas características específicas precisam ser respeitadas para a obtenção de aprendizagens mais significativas. Como você pôde perceber, a aprendizagem humana está intimamente relacionada às vivências e à personalidade do aprendiz. Ela depende das relações que o sujeito estabelece com o contexto social, cultural, físico e também com as pessoas com quem ele convive. www.esab.edu.br 133 Para sua reflexão Após essa valiosa discussão acerca da aprendizagem e personalidade humana, reflita: qual a relevância de se pensar/escolher as melhores estratégias pedagógicas para que as crianças aprendam os conhecimentos científicos, acumulados historicamente? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. Abordaremos aqui as influências que a escola, como agência de formação, exerce na personalidade da criança. Você já parou para pensar quanto tempo passa nos bancos escolares? No mínimo, convivemos na atmosfera escolar por 12 longos anos de nossas vidas. Então, imagine quão forte é essa influência no desenvolvimento da nossa personalidade. Segundo Bock, Teixeira e Furtado (2009), as principais influências podem ser destacadas pelos professores que participaram da nossa formação, a metodologia de ensino que a instituição adota, o meio físico onde está localizada a escola e também as interações que estabelecemos com os nossos colegas de classe. Todo esse conjunto de fatores influencia, e muito, na personalidade da criança e do adolescente. Educadores costumam se preocupar consideravelmente com as condutas inadequadas dos alunos, o que faz com que as crianças mais calmas e de personalidade mais contida passem despercebidas. Entretanto, essas crianças também podem apresentar, futuramente, uma grave situação de desajustamento psicológico, ou seja, um funcionamento cognitivo, social e/ou comportamental fora do esperado pelos padrões de normalidade, caracterizado por um autocontrole excessivo ou insuficiente e, ainda, por um forte sofrimento, como no caso da depressão. É importante que a escola fique atenta às crianças com dificuldades de aprendizagem. Se essas crianças não receberem a devida atenção, não conseguirão atingir as expectativas escolares e é muito possível que sua personalidade seja alterada (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009). Em resumo, destacamos que um bom relacionamento familiar tem uma grande www.esab.edu.br 134 importância na formação da personalidade da criança. Porém, temos que ressaltar também a importância da convivência e da interação entre as crianças, com a comunidade escolar e com todo o contexto social em que elas vivem durante sua formação. Nesta unidade, vimos que o conceito de aprendizagem é bastante abrangente. O ser humano tem várias formas de aprender e as relações que ele estabelece com o contexto social, cultural e físico influenciam diretamente esse processo. Outro destaque desta unidade é a personalidade humana, que é influenciada por fatores como a cultura, o meio social, as relações familiares e escolares. Na unidade a seguir nosso desafio será analisar a inteligência no âmbito educacional escolar mediante o processo de ensino-aprendizagem. Vamos em frente! www.esab.edu.br 135 23 A inteligência e o processo de aprendizagem Objetivo Analisar a inteligência dentro do processo de aprendizagem. Agora que sabemos que o conceito de aprendizagem é bastante abrangente e que a personalidade do ser humano é influenciada por fatores diversos (como a cultura, o meio social, as relações familiares e escolares), vamos conhecer como a noção de inteligência é trabalhada dentro do contexto educacional escolar, no processo de aprendizagem. Nesta unidade, vamos contar com a fundamentação teórica de Coll, Marchesi e Palacios (2004b) e de Bock, Teixeira e Furtado (2009). Como pode perceber, elegemos bons parceiros para essa discussão. Vamos a ela! O conceito de inteligência foi estudado na unidade 20, na qual abordamos as teorias de Gardner. Mais à frente voltaremos a esse autor. Antes, vamos analisar o significado de inteligência. Bock, Teixeira e Furtado (2009) explicam que durante algumas décadas os cientistas estudaram a inteligência como algo de natureza única e mensurável e através dos testes de Quociente de Inteligência (QI) mediam a inteligência de cada ser humano. Na década de 1960 e 1970, Gardner e outros estudiosos chegaram à conclusão de que a inteligência é uma capacidade única e nata do ser humano, porém, ela pode abranger várias outras inteligências. Coll, Marchesi e Palacios (2004b) abordam a temática sob uma perspectiva diferencial-psicométrica. Ou seja, segundo esses autores (2004b, p. 132), essa perspectiva centra-se: “[...] no estudo das diferenças individuais, no âmbito intelectual e na busca de instrumentos para medir tais diferenças”. Os estudiosos dos séculos XIX e XX analisaram as questões educacionais relacionadas à inteligência. Um dos pioneiros nesses estudos foi Binet, que foi designado pelo Ministério Francês para elaborar um instrumento para mensurar as diferenças entre os alunos que eram mentalmente www.esab.edu.br 136 atrasados em relação a outros e que não tinham um rendimento escolar adequado, em decorrência de fatores alheios ao ambiente escolar (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009). Segundo Binet (1904 apud BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009), é possível mensurar nossos aspectos cognitivos complexos (forma de pensar expressa verbalmente e o raciocínio lógico-matemático), e essas descrições embasam nossas diferenças individuais na estrutura intelectual. Outro ponto analisado por Binet (1904 apud BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009, p. 154) é a inteligência entendida como um “[...] conjunto de faculdades, capacidades ou habilidades que inicialmente podem ser estudadas em separado, a fim de, posteriormente, compreender sua síntese”. Outros estudiosos foram Simon e Stern. Para esses, os procedimentos e métodos adotados por Binet deveriam ser aperfeiçoados e aplicados futuramente nos testes de inteligência (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009). Para sua reflexão Você, futuro educador, consegue pensar as possíveis repercussões de um diagnóstico de baixo quociente de inteligência na vida de uma criança? É, de fato, ético fazermos do uso dos testes psicológicos um meio para justificar o insucesso escolar, atribuindo-o a um problema individual, a um déficit? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. Alguns teóricos se opuseram aos testes de QI por não acreditarem que a inteligência poderia ser mensurada. Entre eles, destacamos Gardner, cuja teoria apresentamos anteriormente. Ele destaca que há oito tipos de inteligências: linguística, lógico-matemática, musical, espacial, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalista. Em sala de aula, o professor tem de planejar atividadesque motivem e incentivem as crianças a interagirem com as diferentes competências e habilidades que possuem para a construção dos conhecimentos científicos. Na década www.esab.edu.br 137 de 1990, surgiu outro importante estudioso, Sternberg. Ele afirma que a inteligência bem-sucedida: [..] é realmente importante na vida, a que se emprega para alcançar objetivos importantes e a que se apresenta àqueles que tiveram êxito, seja segundo os padrões pessoais, seja segundo os dos demais. (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b, p. 141) Sternberg considera a inteligência bem-sucedida quando pressupõe a existência de três importantes aspectos: o analítico, o criativo e o prático. Vamos entender cada um deles e refletir em que medida cada aspecto nos diz respeito? A inteligência analítica “[...] é a capacidade de analisar e avaliar ideias, resolver problemas e tomar decisões” (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b, p. 142). Essa inteligência permite tomar decisões sobre inúmeras questões relacionadas a vários setores da vida do ser humano. Permite que o ser humano planeje, formule estratégias de ação mediante algum problema e elabore um planejamento para alcançar algum objetivo por ele traçado. Com base no conhecimento sobre inteligência analítica, o educador pode, por exemplo, projetar ou simular os comportamentos dos alunos em uma sessão de cinema, ou seja, fazer uma previsibilidade desse comportamento e, dessa maneira, construir regras para a condução da atividade. A inteligência criativa “[...] é a capacidade para ir além do dado e engendrar novas e interessantes ideias, para descobrir novos e bons problemas” (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b, p. 142). São as pessoas que geram novas ideias, que são questionadoras e percebem as ligações e interligações existentes entre os conteúdos e fatos. Dessa maneira, conseguem criativamente resolver problemas e criar projetos, estruturas. Fundamentado no conhecimento sobre inteligência criativa, o educador pode, por exemplo, fazer análises minuciosas em seus históricos de planejamento e identificar quais atividades escolares despertam mais interesse dos alunos sob determinado conteúdo, criando, a partir daí, oportunidades inteligentes, inovadoras e criativas de ensino-aprendizagem. Enfim, os seres humanos têm um potencial muito grande para inovar e criar. A inteligência prática é “[...] a capacidade para traduzir a teoria prática e as teorias abstratas em realizações práticas; é a que habilita as pessoas a solucionarem problemas no mundo real” (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b, p. 142). São as pessoas que conseguem adaptar-se facilmente aos lugares, que têm habilidade para ação, são práticas e solucionam as questões de forma eficaz. Com www.esab.edu.br 138 base no conhecimento sobre inteligência criativa, o educador pode, por exemplo, explorar atividades laboratoriais, para que os alunos vivenciem a experiência e a relação teoria-prática, ou seja, a práxis do fazer pedagógico. Sternberg fez uma adaptação desses aspectos da inteligência para o contexto educacional. Afinal, qual a importância da Teoria de Sternberg sobre a inteligência humana para o fazer pedagógico? Para esse cientista, o principal objeto do ensino é a criação da habilidade. Essa criação se torna possível através da construção de conhecimentos organizados sistematicamente e que sejam facilmente acessados. A avaliação deve ser planejada, fazendo uso de atividades que promovam a reflexão, a criatividade e a prática. Enfim, tanto o ensino como a avaliação devem proporcionar aos educandos momentos de integração, de união, de interação e de mediação, integrando os diversos elementos da inteligência. Historicamente, os testes psicológicos passaram a ser fortemente empregados no contexto educacional, especialmente para classificar alunos de acordo com o seu coeficiente de inteligência. Educadores devem estar atentos para que a ideia de inteligência aplicada à Educação (no âmbito escolar) não siga classificando e estigmatizando indivíduos que apresentam diferenças em relação ao desempenho escolar, e não justifique tais diferenças em função de diferenças individuais. Nesta unidade, procuramos compreender a noção de inteligência no âmbito educacional escolar, mediante o processo de ensino- aprendizagem. Na unidade a seguir, nosso foco de estudos será a motivação, esse importante recurso pessoal que pode nos levar a uma aprendizagem significativa. Procuraremos compreender, então, a influência da motivação no processo de ensino-aprendizagem escolar. Vale a pena continuar conosco. Vamos juntos! www.esab.edu.br 139 Saiba mais Antes de ir para a próxima unidade, assista ao vídeo, disponibilizado no link a seguir de uma palestra sobre a Teoria de Sternberg a respeito da inteligência humana. Acesse clicando aqui. http://www.youtube.com/watch?v=l84bvWNJ-20&feature=player_detailpage www.esab.edu.br 140 24 A motivação e a aprendizagem Objetivo Relacionar a motivação e a sua influência no processo de aprendizagem. Na unidade anterior, descobrimos que a inteligência faz parte do processo de aprendizagem. Agora, vamos entender a influência da motivação no processo de aprendizagem. Bock, Teixeira e Furtado (2009) fundamentarão teoricamente nosso estudo. Vamos adiante. Você sabe o que é motivação? Motivar é um assunto muito estudado pela Psicologia científica e é um tema muito complexo, principalmente se direcionarmos a questão ao ensino e à aprendizagem. A motivação pode ser tanto uma importante aliada quanto uma dificultadora do aprendizado. No contexto educacional escolar, a forma como os professores planejam suas aulas pode determinar o sucesso ou o fracasso escolar. O professor motiva os alunos quando elabora atividades dinâmicas e interessantes e que estimulam a criatividade e a curiosidade. Porém, ao não planejar as suas aulas, o educador pode causar o fracasso escolar e tornar o estudo apenas uma transmissão do conhecimento, de uma forma monótona e, muitas vezes, autoritária. Ao analisarmos a motivação, temos que levar em conta três aspectos defendidos por Bock, Teixeira e Furtado (2009, p. 137). 1. Ambiente. 2. As forças internas ao indivíduo, como a necessidade, desejo, vontade, interesse, impulso, instinto. 3. O objetivo que atrai o indivíduo pode ser fonte de satisfação de fator interno que o mobiliza. A motivação é um procedimento que impulsiona o organismo a agir, partindo de uma correlação estabelecida entre o meio físico, a necessidade e o que causa alegria ao ser humano. Em outras palavras, o alicerce da motivação é o ser humano com desejos, interesses, vontade www.esab.edu.br 141 e predisposição a agir. Além disso, a motivação pressupõe a existência de um organismo ligado a um objeto de satisfação. Há um termo que utilizamos muito em nossa linguagem coloquial que é “estou a fim de”. Empregamos a expressão em situações nas quais queremos explicitar a nossa motivação pessoal, a exemplo de: “Hoje estou a fim de ir à praia, o dia está lindo”. Essa expressão implica que estamos motivados a fazer algo. Isso cria uma cadeia motivacional que, segundo Bock, Teixeira e Furtado (2009, p. 137), é estabelecida por fatores como “[...] ambiente- organismo-interesse ou necessidade-objeto de satisfação”. Assim, chegamos à conclusão de que a motivação faz parte dessa cadeia que é ambiente e objeto, e que faz com que o indivíduo procure agir em busca da satisfação dessa necessidade. Se por algum motivo esse objeto não é encontrado, o ser humano frustra-se. Quando a motivação interfere no processo de ensino e aprendizagem? A motivação está expressa e aparece em todas as dimensões da vida do ser humano: no trabalho, no lazer, na escola, na universidade e no lar. A maior preocupação da educação e das instituições de ensino deve ser proporcionar ambientes favoráveis ao aprendizado do educando. Existindo o problema, surge a necessidade de resolvê-lo, estabelecendo, assim, ações e fazendo com o que o ser humanoprocure soluções para resolvê-lo. Por exemplo, as crianças no processo de alfabetização. O professor deverá criar necessidades de leitura para que o aluno se conscientize de sua importância, e o professor pode fazer isso elaborando atividades que façam com que as crianças percebam em que situações elas precisarão utilizar a leitura. Por exemplo, a leitura de receitas de bolo, elaboração de bilhetes ou, até mesmo, a visita a um supermercado. No supermercado, elas terão contato com as palavras por meio dos rótulos dos produtos, de cartazes, de imagens e poderão fazer a pseudoleitura, como forma de decifrar o que é necessário comprar. Assim, a criança começará a se conscientizar da importância da leitura e da escrita no dia a dia. Segundo Bock, Teixeira e Furtado (2009, p. 138), o educador deverá levar em consideração alguns pontos sobre as questões motivacionais atreladas ao processo de ensino e aprendizagem. 1. Uma possibilidade é que o trabalho educacional parta sempre das necessidades que o aluno já traz, introduzindo ou associando a elas outros conteúdos ou motivos. 2. Outra possibilidade, não excludente, é criar outros interesses no aluno. www.esab.edu.br 142 Outra questão crucial dentro desse processo motivacional no âmbito escolar é a criação de interesses nos educandos. A pergunta é: como criar esses interesses? A primeira questão que temos que levar em conta é proporcionar momentos de descoberta. Como ressaltamos na unidade 15, Bruner é o idealizador dessa corrente da Psicologia do Desenvolvimento, quando defende que o professor deve planejar momentos de descoberta do conhecimento. O educando deve ser instigado a querer saber, criando situações de descoberta e de pesquisa, que despertem o desejo e o interesse em conhecer e aprender sobre determinado assunto. Outro ponto é gerar nos alunos uma postura investigativa que proporcione o anseio pelo saber, ou seja, fazer com que os educandos queiram saber sempre e cada vez mais. Estimular a motivação pode iniciar com atividades bem simples, ligadas ao cotidiano e à realidade do educando, ou seja, eles devem observar e pesquisar a respeito do contexto social, físico e ambiental do qual fazem parte. Essas observações diárias vão fazer com que os educandos criem perguntas e dúvidas sobre esse ambiente no qual estão inseridos. E através dessas dúvidas é que será necessário agir, ou seja, investigar, pesquisar, descobrir e aprender sobre questões relacionadas ao contexto vivenciado. Outro elemento que temos de levar em consideração é a nossa linguagem. É preciso adotar uma linguagem de fácil entendimento aos educandos. Por exemplo, em relação à Biologia, ao invés de somente utilizarmos termos científicos muito difíceis de serem falados e que, às vezes, não fazem sentido para a criança, podemos utilizar os respectivos nomes populares. Ressaltamos aqui que também devemos utilizar o nome científico, porém não é necessário darmos tanto destaque a ele. Outro ponto fundamental está relacionado às tarefas e aos exercícios. O professor tem de fazer com que essas atividades desafiem os alunos a descobrir e aprender. As atividades não podem ser muito difíceis, para não causarem frustração, e também não podem ser muito fáceis, para não desestimularem os alunos. Outra questão é fazer com que os alunos saibam a importância e a utilidade que o conhecimento tem em nossa vida cotidiana. O educador precisa retomar em suas aulas a importância do conhecimento no contexto social em que vivemos. www.esab.edu.br 143 A motivação foi o tema desta unidade, e vimos que ela aparece em todas as dimensões da vida do ser humano, seja no trabalho, no lazer, na escola, na universidade e no lar. Então, cabe ao educador elaborar atividades que reforcem a criatividade, a participação, que desafiem o educando, de modo que ele se sinta motivado a aprender. Na próxima unidade, abordaremos algumas estratégias que podem ser desenvolvidas para melhorar a aprendizagem. Há muitas descobertas ainda pela frente. Continue antenado! www.esab.edu.br 144 Resumo Começamos os nossos estudos destas unidades refletindo sobre a importância de considerar a Zona de Desenvolvimento Proximal no processo de ensino-aprendizagem, conforme proposto por Vygotsky. Em seguida, abordamos a teoria de Wallon, que propõe um lugar de destaque para a dimensão afetiva no processo ensino-aprendizagem. Também conhecemos as inteligências múltiplas estudadas e propostas por Gardner, teoria que destaca a existência de oito tipos de inteligência: linguística, lógico-matemática, musical, espacial, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalista. Na unidade 21, conhecemos a Teoria Humanista de Aprendizagem, de Carl Rogers, e suas implicações no processo de ensino-aprendizagem. Vimos que esse psicólogo utilizou os métodos aplicados em seu consultório de Psicologia para o processo de ensino-aprendizagem. Na concepção de Rogers, o educador precisará envolver o educando em situações de aprendizagem que tenham algum significado real para este. Na unidade 22, vimos que aprendizagem vem de apreender, ou seja, chegar perto de algo para explorar. Vimos que o ser humano adquire conhecimento de formas diferentes, conforme a história de vida de cada um e também a história do grupo social em que está inserido. A personalidade também é influenciada pelas relações sociais, escolares e familiares. Depois, abordamos a inteligência e a aprendizagem, e destacamos que existem vários tipos de inteligência. Destacamos que o professor tem de planejar as aulas de modo a possibilitar o aprimoramento das distintas inteligências presentes em cada aluno. Por fim, na unidade 24, estudamos sobre a motivação no processo de ensino e aprendizagem. Dentro do contexto escolar, os educadores têm de incentivar seus alunos a realizarem tarefas que criem o desejo e a necessidade de aprender sobre determinado conteúdo. www.esab.edu.br 145 25 Apresentando tipologias para a aprendizagem Objetivo Apresentar algumas tipologias de ensino a serem desenvolvidas com vistas a atribuir qualidade à aprendizagem. Na unidade anterior, refletimos sobre a importância de considerarmos a motivação pessoal no processo de ensino-aprendizagem escolar, tendo em vista a sua forte influência na construção do conhecimento pedagógico. Estabelecer ações pedagógicas estimuladoras, atrativas e que de alguma forma abram espaço à motivação dos alunos é, sem dúvida, uma boa maneira de torná-la aliada nesse processo. Nesta unidade, daremos continuidade aos nossos estudos sobre a aprendizagem, fundamentados nas contribuições de Coll, Marchesi e Palacios (2004b). Esses autores nos cumpliciarão na construção de algumas tipologias para a aprendizagem com vistas a refletir sobre o processo pedagógico. Siga conosco! Quando falamos em tipologia de aprendizagem, nos referimos a uma concepção teórica/metodológica embasada nos processos de aprendizagem dos alunos e na forma como eles aprendem. Lembra-se de quando falamos da importância de considerarmos o conhecimento trazido pelos alunos? E que os alunos possuem formas, estilos e ritmos diferentes de aprendizagem – como vimos nas unidades 26 e 27 da disciplina Psicologia da Educação, no 1° MEG/Módulo? Tipologias de aprendizagem que não enxergam a necessidade de ir além dela e, por isso, desprezam o conhecimento que o aluno traz da sua história (com o qual possui familiaridade) acabam prendendo-se a conhecimentos localizados e de pouco interesse para o educando, pouco acrescentando ao seu desenvolvimento. Estudiosos como Entwistle (1987 apud COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b) e Selmes (1987 apud COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b) evidenciaram duas tipologias de aprendizagem a serem consideradas por nós, educadores. Uma delas é a aprendizagem associativa, cuja aprendizagem se baseia na repetição www.esab.edu.br 146 do conhecimento. Você consegue identificar essa forma de aprendizagem na sua realidade, no seu contextoeducacional? Estamos nos referindo à educação tradicional, na qual há a supervalorização do ensino (enquanto técnica de transmissão ) em detrimento da aprendizagem do aluno. Nessa perspectiva, o ser humano é tido como uma folha em branco: quanto maior a acumulação de respostas aprendidas por ele, maior será a sua aprendizagem e o seu desenvolvimento, pois estes decorrem de estímulos proporcionados pelo ambiente. Na perspectiva da aprendizagem associacionista, o entendimento de desenvolvimento humano funde-se (e confunde-se) com o de aprendizagem, pois ambos são representados pelo acúmulo de respostas aprendidas. Assim, um passo (avanço) na aprendizagem é também um passo no desenvolvimento. Logo, o aluno é produto do meio em que vive, sendo produto dos condicionamentos que recebe (um sujeito passivo que recebe e reproduz o conhecimento). O desenvolvimento de sua personalidade, valores, hábitos, crenças, pensamento, emoção e conduta social dependerão essencialmente desse acúmulo. Utilizando-se de técnicas eficazes, o educador pode estimular a reprodução de um conhecimento. Um exemplo disso é o uso da tabuada, cuja aprendizagem se apoia na memorização e não na compreensão lógica e relacional entre os termos. Ainda vemos resquícios desse enfoque na estrutura educacional, seja por meio da metodologia que privilegia a memorização, seja na própria organização escolar. A outra tipologia diz respeito à aprendizagem cognitivista, ou seja, uma aprendizagem que se fundamenta na integração, na comparação e na relação conceitual hierárquica, isto é, na busca de significado pessoal e com orientação interna para o aluno. Esse modelo de aprendizagem vem sendo bastante difundido nas últimas décadas e tem importantes representantes teóricos, como Piaget e Vygotsky. Conhecemos suas bases teóricas nas unidades 26 e 27 da disciplina de Psicologia da Educação, lembra-se? Embora suas bases teóricas possam ser agrupadas nesse modelo, elas se distinguem no modo como concebem o sujeito, a aprendizagem e o desenvolvimento humano. www.esab.edu.br 147 Na perspectiva piagetiana, a aprendizagem se beneficia dos progressos do desenvolvimento. Embora a Teoria de Piaget considere a interação entre o biológico e o social, prioriza a maturação e entende que a aprendizagem deve aguardar pelo desenvolvimento. O desenvolvimento humano é estruturado a partir de mecanismos próprios, que não se reduzem ao social na forma como propõe a aprendizagem associativa, representada pelo ensino tradicional. Entretanto, o entendimento de que o desenvolvimento humano independe da aprendizagem, desconsidera, por sua vez, as determinações históricas e sociais na construção do psiquismo humano, conforme a Teoria de Vygotsky. Para Vygotsky, a relação entre o desenvolvimento e a aprendizagem difere daquela apresentada por outras concepções, e aqui incluímos a de Piaget. O desenvolvimento humano, para Vygotsky, não é um processo universal e linear, pois não depende das estruturas cognitivas (maturação biológica) para que possa ocorrer. Ao contrário, é construído no contexto social, na interação com a aprendizagem. Esta, por sua vez, promove o desenvolvimento na medida em que promove a Zona de Desenvolvimento Proximal, transformando o Desenvolvimento Potencial em Real (como vimos na unidade 19). O que significa dizer isso? Significa que, ao fazermos com que determinada função psicológica aconteça na interação, possibilitamos que ela seja apropriada pela criança e torne-se uma função individual. Isso implica dizer que o professor deve considerar que há certa aprendizagem anterior ao ingresso escolar e que a escola, por possibilitar interações intencionais, é um local privilegiado para o seu desenvolvimento. Coll, Marchesi e Palacios (2004b) apontam a importância de o educador utilizar a tipologia da aprendizagem cognitivista, por esta possibilitar que o aluno empregue os conceitos trabalhados em sala de aula na realidade em que vive. Dessa maneira, incorporando a informação e, quando necessário, reelaborando-a no próprio contexto social. Vamos a um exemplo? Suponhamos que um aluno esteja estudando o seguinte tema: sistema de medidas. Ao ensinar sobre quilômetros, metros, quilos e outras unidades de medida, o educador poderá identificar a aplicação desse conhecimento na vida real de seus alunos, por exemplo, solicitando que observem quantos metros e/ou quilômetros percorrem para chegar à escola partindo de suas casas. Lançando mão de algumas indagações e reflexões, o educador pode fazer com que os alunos analisem a situação por diferentes ângulos: “Será que se eu for de bicicleta, levarei www.esab.edu.br 148 menos tempo? E se eu for a pé, quanto tempo levarei?”. Dessa forma, o educador pode analisar se o aluno apreendeu bem determinado conteúdo, se compreendeu bem um texto ou uma história contada em sala de aula. Dentro da tipologia da aprendizagem cognitivista, o currículo escolar pode ser organizado por meio da identificação de determinados eixos procedimentais, sob os quais o educador pode estruturar os conteúdos e relacionar o uso e a aplicação do conhecimento científico ao ensino estratégico. Observe atentamente o quadro a seguir. Eixos procedimentais Aspectos orientadores Aquisição Observação, busca da informação, seleção de informação e transmissão e retenção. Interpretação Decodificação ou tradução de informação. Aplicação de modelos para interpretar situações e uso de analogias e de metáforas. Análise e raciocínio Análise e comparação de modelos; raciocínio e realização de inferências e pesquisa e solução de problemas. Compreensão e organização Compreensão do discurso oral e escrito, estabelecimento de relações conceituais e organização conceitual. Comunicação Expressão oral, expressão escrita e outros recursos expressivos (gráficos, numéricos, mediante imagens etc.). Quadro 2 – Eixos procedimentais para o ensino estratégico. Fonte: Pozo e Postigo (2000 apud COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b, p. 167). No Quadro 2, você pode perceber cinco tipos valiosos de procedimentos destacados por Pozo e Postigo (2000 apud COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b), os quais podem servir como eixos estruturadores do currículo dentro da tipologia de aprendizagem cognitivista. Observe, a seguir, mais detalhes sobre os diferentes eixos estruturadores do currículo, apoiados por exemplos (estratégias de ensino) para facilitar o seu entendimento. • Aquisição: refere-se à obtenção de novos conhecimentos por meio da busca, seleção, transmissão e retenção da informação. Em termos de ensino estratégico, diante da necessidade de trabalhar as noções de repartir e dividir com crianças do 2º ano do Ensino Fundamental, o educador pode, por exemplo, explorar uma situação-problema propondo a seguinte questão aos alunos: “Sete pessoas se hospedarão www.esab.edu.br 149 em uma pousada que possui apenas cinco quartos. Como poderemos distribuir as pessoas nos quartos”? A partir dessa problemática, inicia-se o processo de pesquisa sobre as noções de repartir e dividir. • Interpretação: refere-se aos modelos de ensino, técnicas e estratégias que poderão ser utilizadas para obter interpretações de fatos ou situações. Diz respeito ainda às maneiras de utilizá-los para estimular a capacidade de decodificar, refletir e analisar dos alunos. O educador pode fazer uso de metáforas para interpretar/ criar situações. Para exemplificar, podemos retomar a situação anterior. Nesse caso, os alunos refletirão: “Podemos colocar homens e mulheres no mesmo quarto? Como você distribuiria essas pessoas se as recebesse na sua casa”? A distribuição das pessoas nos quartos é o tema de reflexão das crianças, é a essência do trabalho nessa segunda etapa de construção do conhecimento. Perceba que ao indagar a criança sobre como faria essa distribuição em sua casa, estamos lançando mão de comparativos (estratégias) e trazendo a realidade proximal do aluno (modelo de ensino) para auxiliá-lona decodificação, na reflexão e na análise do problema, objetivando à construção de maneiras científicas de pensar. • Análise e raciocínio: refere-se à pesquisa, análise e comparação das informações, visando às conclusões. Uma estratégia que pode ser aplicada, considerando o exemplo anterior, é o desenho. O desenho permitirá às crianças racionalizar a distribuição das pessoas nos quartos. Ao desenhar a distribuição das pessoas, as crianças trarão o problema – que antes estava no nível do abstrato – para o nível do concreto, facilitando a sua compreensão e resolução. Obviamente, a correta interpretação do problema criado dependerá das intervenções intencionais do professor, que deverá conduzir o raciocínio da criança à análise matemática esperada. Poderíamos também fazer uso de uma dramatização, com cada criança representando um hóspede, e as distribuindo em diferentes partes da sala de aula (quartos). É dessa forma que a análise e o raciocínio poderão ensejar a resolução do problema pelo aluno. • Compreensão e organização: a partir do conhecimento conceitual prévio convocado, um leque de possibilidades pode surgir na perspectiva da resolução do problema. Considerando o exemplo, depreendemos que as crianças do 2º ano do Ensino Fundamental www.esab.edu.br 150 poderão desenvolver as noções de divisão, porque possuem noções de adição e subtração (já adquiridas no 1º ano). Noções de divisão devem suceder noções de adição e subtração, uma vez que exigem operações mentais ainda mais complexas, convocando-as como conhecimento prévio. Considerado isso, o professor pode, por exemplo, trabalhar não só com o desenho e a dramatização, mas com outras possibilidades –exercícios envolvendo palitos de fósforos, grãos de feijão ou outros recursos materiais, além de canções, animações etc. Lembremos da importância da sequenciação didática, ou seja, de se estabelecer relações conceituais entre os conteúdos a serem trabalhados em sala de aula. • Comunicação: capacidade do educando de transmitir o que foi apreendido anteriormente, utilizando expressões como a escrita, a fala e a arte. Por exemplo: histórias contadas pelo educador às crianças, envolvendo noções de repartir e dividir. Para identificar se a criança apreendeu as noções lógico-matemáticas presentes na história, o educador poderá, por exemplo, solicitar que o aluno faça um registro (por meio de desenho, fala ou escrita) da história contada. Com base no desenho, o professor poderá organizar uma exposição de arte com os trabalhos produzidos pelas crianças. A partir da escrita, o professor poderá propor um varal literário. Partindo da fala, o educador pode propor jogos lúdicos entre as crianças: um jogo de perguntas e respostas, estimulando a compreensão das noções lógico-matemáticas subjacentes à história, entre outras. Portanto, vemos a importância de o professor organizar o currículo escolar por meio da identificação de determinados eixos procedimentais, sob os quais poderá estruturar os conteúdos dentro de uma aprendizagem cognitivista. Além disso, evidenciamos algumas tipologias de ensino importantes às aprendizagens educacionais escolares, entre elas a associativa e cognitivista. Na próxima unidade, nossa discussão se pautará no processo de ensino-aprendizagem, tendo como foco, essencialmente, as interações professor-alunos. Continue conosco! www.esab.edu.br 151 26 O processo de ensino- aprendizagem e as interações professor-alunos Objetivo Relacionar o processo de ensino-aprendizagem e as interações entre professor e alunos. Na unidade anterior, analisamos algumas estratégias valiosas com o intuito de otimizar o processo de ensino-aprendizagem. Nesta unidade, procuraremos refletir sobre o processo de ensino-aprendizagem com foco nas interações e relações sociais estabelecidas entre professor e alunos. Nossos estudos estarão demarcados durante todo o percurso por essa discussão e fundamentados nas contribuições de Coll, Marchesi e Palacios (2004b). Contamos com você também como interlocutor. Vamos lá! Mesmo que de forma bem pontual, você já teve contato com essa temática em outras unidades de estudo, quando vimos que a sala de aula é um local de interações e relações sociais. Lembra-se? Lembra-se, ainda, quando refletimos, em unidades anteriores, que somos seres de concretude, de relações? Ora, se somos seres de relações, somos seres que compartilham, trocam, comunicam e medeiam experiências e/ ou vivências, certo? Sendo assim, podemos concluir que as interações e relações sociais estabelecidas entre professores e alunos ocupam um importante terreno que suscita troca, comunicação e mediação. Coll, Marchesi e Palacios (2004b) destacam que as interações sociais são mediações ocorridas em pequenos grupos e, por isso, não podem ser estudadas isoladamente. Por serem fundamentais, os componentes que integram esse contexto de interação devem ser considerados pelo professor. Estamos falando do currículo, da cultura em sala de aula e das práticas de avaliação. Então, é necessário focar o contexto das interações em sala de aula, analisando minunciosamente cada componente do processo: o aluno, o professor e a instituição escolar. É a partir das www.esab.edu.br 152 interações que se concretizam na sala de aula que o professor deve exercer o importante papel de mediador do conhecimento. Visto isso, vamos dar destaque à relação professor-aluno. Nessa relação, a afetividade, a confiança, a empatia e o respeito tornam-se elementos essenciais, especialmente se considerarmos que essa relação só se concretiza se tiver como base a confiança. Figura 32 – Interação professor-alunos. Fonte: <www.123rf.com>. Essa noção dá ao professor uma responsabilidade importante no sentido de criar vínculos com os alunos, aproximando-se deles em momentos de interações valiosas em sala de aula. De maneira geral, a relação entre ambos os atores (aluno e professor) no contexto de ensino-aprendizagem é compartilhada, isto é, existe uma influência mútua. A verdade é que há um imenso valor pedagógico subjacente à interação professor-aluno, pois é por meio das mediações e trocas por ela oportunizadas que se constrói o conhecimento científico. Sendo assim, o educador deve refletir sobre como organizar os grupos de trabalho em sala de aula. Essa organização deve se dar de forma intencional, pois será essencial não só à construção/ socialização do conhecimento mas também à intervenção adequada e à aproximação com (e entre) os alunos. Coll, Marchesi e Palacios (2004b, p. 292) afirmam que: [...] tais intervenções supõem que o professor modele estratégias específicas de trabalho cooperativo e ajude os alunos, de forma contextualizada, a empregá-las. Por exemplo, o professor ouve as intervenções dos diferentes alunos do grupo, interage com eles, resume adequadamente a conversa do grupo, pede e proporciona informações e ajuda os demais membros do grupo, medeia com acerto na gestão de situações conflituosas. www.esab.edu.br 153 A gestão de situações de conflito entre os alunos pede, por parte do educador, um olhar sensível às “coisas da relação” e ainda requer uma experiência para a organização de grupos cooperativos que possam proporcionar crescimento e aprendizagem aos educandos. As mediações intencionais promovidas pelo educador no contexto de sala de aula devem incluir, portanto, o respeito às diferenças – quaisquer que sejam elas (diferenças de gênero, de personalidade etc.) –, contribuindo para o crescimento coletivo e de cada membro do grupo. Para sua reflexão Como você, futuro professor, poderá trabalhar as relações afetivas entre os seus alunos em sala de aula? Como é possível atuar para que os alunos aprendam a conviver com as diferenças sem segregações e que eles possam crescer com o conflito e o intercâmbio? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. Um aspecto que merecedestaque em relação à potencialização dos grupos de trabalho é a intervenção do educador. O educador tem o papel de ajustar a metodologia de ensino às necessidades específicas de cada grupo, maximizando a interação com cada equipe, proporcionando ajuda quando necessário e compartilhando informações adicionais sobre as atividades para o(s) grupo(s) que sentir(em) necessidade (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b). Para que isso ocorra, é fundamental que o professor estabeleça critérios de avaliação para cada grupo e, sempre que necessário, altere os objetivos propostos. Nesses trabalhos cooperativos entre os alunos, a delegação da autoridade é de responsabilidade do educador. É importante que consideremos que a interatividade acontece tanto em sala de aula quanto fora do contexto escolar, quando, por exemplo, alunos se reúnem fora da escola e em pequenos grupos para estudar ou discutir determinado assunto – seja por meio de fóruns ou chats, seja por meio de mensagens eletrônicas. www.esab.edu.br 154 Nesta unidade, estudamos a relação entre o processo de ensino- aprendizagem e as interações professor-alunos, constatando que cabe ao professor a responsabilidade de intermediar as interações entre os sujeitos nos contextos educacionais escolares. Na próxima unidade, vamos revisitar a Epistemologia Genética, de Jean Piaget, e a Teoria Psicanalítica, de Sigmund Freud, duas outras importantes teorias do campo da Psicologia Científica com contribuições valiosas à educação. Antes de darmos prosseguimento aos nossos estudos, vamos à seguinte atividade dissertativa: Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. www.esab.edu.br 155 27 A Epistemologia Genética e a Teoria Psicanalítica Objetivo Aproximar a Teoria da Epistemologia Genética e a Teoria Psicanalítica e evidenciar suas contribuições para a Educação. Na unidade anterior, entendemos a necessidade de estimular a interação entre professores e alunos. Agora, faremos um rápido “sobrevoo” sobre duas importantes contribuições do campo da Psicologia Científica à Educação: a Epistemologia Genética, de Jean Piaget, e a Teoria Psicanalítica, de Sigmund Freud – ambas apreendidas por você, em unidades anteriores. Como na ocasião em que vislumbramos a Teoria Histórico-Cultural de Vygotsky, na unidade 19, faremos também aqui um esforço de ultrapassar o patamar do conceito, sobrepondo teoria e método na construção de novos olhares sobre a relação entre as fases do desenvolvimento infantil e o fazer docente. Nossas reflexões a respeito das contribuições dessas teorias à educação estarão fundamentadas em Barros (2008). Vamos juntos! Em momentos anteriores de nossa disciplina (nas unidades 3 e 16), estudamos alguns fatores apontados por Piaget que influenciam o desenvolvimento intelectual da criança, bem como os elementos da teoria de Piaget (adaptação, assimilação e acomodação). Neste momento, vamos retomar esse assunto e aproximar os conhecimentos científicos elaborados por Piaget e Freud à educação. Tomemos como exemplo a relação entre uma professora de berçário e uma criança com idade em torno de quatro meses e que frequenta uma instituição escolar. Piaget (apud BARROS, 2008) defende que é essencial ao desenvolvimento da criança que nesse período sensório-motor ela seja muito estimulada a interagir com o meio ambiente. Suponha que esse bebê está de posse de um mordedor. Quando o bebê percebe o mordedor, busca, de imediato, incorporar a relação que estabelece com esse novo objeto ao seu padrão habitual de comportamento, www.esab.edu.br 156 transformando-o em algo conhecido: um objeto a ser agarrado. Por se tratar de uma oportunidade inédita de interação e considerando que a criança jamais havia manipulado um mordedor antes, sabemos que ela precisará adaptar-se a esse novo objeto. Ou seja, precisará acomodar várias de suas estruturas internas a essa nova interação, a exemplo da acuidade visual, para localizar o mordedor no espaço, e do tônus muscular, para ajustar os movimentos dos braços à distância (exata) entre o seu corpo e o objeto e, ainda, adaptar os seus dedos à forma do mordedor para agarrá-lo. Perceba que o ato de agarrar o mordedor envolve uma série de atos de acomodação. Lembremos que a acomodação das estruturas remete à ideia de equilibração. Ao mesmo tempo, agarrar o mordedor também envolve assimilação.Agora, pensemos outro exemplo. Imaginemos uma criança não mais tão pequena, também institucionalizada, com idade em torno de quatro anos e que, ao se bater contra uma porta, reclama à professora dizendo: “A porta me bateu. Porta boba!”. Já sabemos que nesse período de desenvolvimento pré-operatório a criança inicia o uso de símbolos mentais, ou seja, começa a fazer uso de imagens ou palavras para representar objetos. Piaget (apud BARROS, 2008) destaca características singulares do desenvolvimento infantil nesse período, entre eles, o egocentrismo. No exemplo da “porta que bate na menina”, temos um objeto que passa a ser animado, isto é, dotado de vida e intenções. Logo, um comportamento típico do egocentrismo, o animismo. Imaginemos agora a situação a seguir. Uma professora de Ciências e algumas crianças com idade entre sete e oito anos, todas participantes de uma importante experiência em laboratório: a de conservação de quantidades. Esse exemplo foi bastante difundido por Piaget para explicitar comportamentos típicos do desenvolvimento infantil nesse período. Imaginemos que nesse experimento a professora tenha apresentado às crianças dois recipientes transparentes (A e B), com quantidades iguais de líquido, de modo que a igualdade pudesse ser facilmente identificada. Depois da apresentação dos recipientes, a professora fez a seguinte indagação: “Este recipiente tem a mesma quantidade de água do que esse?”. Sem hesitarem, as crianças responderam: “Sim”. A professora resolveu, então, tornar a experiência mais complexa, passando o líquido de um dos recipientes para outro, www.esab.edu.br 157 de formato diferente. Depois de realizada a transposição, lançou mão da mesma indagação e, para a sua surpresa, as crianças responderam: “Não”. Embora a igualdade não pudesse ser constatada/percebida pelas crianças, ela continuava existindo. E você sabe por que as crianças não a identificaram? Justamente porque crianças nesse período de desenvolvimento – período operatório concreto – não têm assimilada a ideia de conservação e tendem a acreditar que ocorreu uma mudança na quantidade de um dos recipientes. O mesmo não aconteceria com crianças maiores, do período operatório formal, pois estas já adquiriram a certeza da conservação sem mais necessitarem manipular a realidade. Cabe ao educador criar situações desafiadoras à aprendizagem do aluno, levando em conta a etapa em que este se encontra, bem como as características próprias do seu desenvolvimento. Nessa perspectiva, o educador passa a ser um importante orientador da aprendizagem, cabendo a ele instigar o aluno, criando situações desequilibradoras e levando-o a observar, experimentar e estabelecer relações com o objeto de sua aprendizagem, com vista à resolução de problemas que o educador cria, sem oferecer a solução. Aprendido isso, vamos tentar empreender um esforço na compreensão da Teoria Psicanalítica Freudiana, buscando entremeá-la às vivências pedagógicas. Um esforço, como dissemos antes, para sobrepor teoria e método. Então, comecemos fazendo os nossos recortes. Pensemos a dificuldade com a qual se defronta uma professora de Educação Infantil, no cotidiano escolar, em conduzir a relação estabelecida entre uma criança de aproximadamente três anos e as(os) demais coleguinhas, considerando o fato de essa criança mordê-los costumeiramente. Em sua vida pessoal (como aluno) ou profissional (como educador), você já se deparou em algum momento com situação semelhante? Freud (apud BARROS, 2008) evidenciaque nessa fase do desenvolvimento psicossexual da criança – a fase oral – seus desejos e satisfações são manifestados oralmente. Ou seja, a criança até sente prazer igualmente erótico, mas um prazer, diga-se de passagem, que não se confunde jamais com uma ideia sexual/genital, uma vez que as pulsões sexuais nessa fase não se realizam por completo, não antes da puberdade – momento em que atingem o seu cume. Portanto, essa noção precisa ser estendida para a situação da masturbação infantil, www.esab.edu.br 158 característica da fase fálica, que tanto escandaliza os adultos. Nesse aspecto, pais e educadores precisam conhecer a fase de pré-genitalização, para que não se sintam escandalizados e entendam que não existe nenhum teor sexual/genital nesse período; trata-se essencialmente de uma erotização liberadora de prazer. Como dissemos, as pulsões sexuais não se realizam por completo até que se dê a culminância na fase genital. Antes disso, a organização sexual é parcial, isto é, a erotização está voltada a uma região específica do corpo – para a boca (fase oral), para o ânus (fase anal) ou, ainda, para o pênis (fase fálica) – sem, contudo, significar uma realização sexual genitalizada. Figura 33 – Fase fálica. Fonte: Elaborada pela Esab (2013). Outra situação desafiadora para o educador refere-se à questão do desfraldamento. Aqui, estamos nos referindo a outra fase importante do desenvolvimento psicossexual infantil: a fase anal. Quem ainda não se deparou com essa situação? Com crianças ora autorizadas a largarem as fraldas, ora desautorizadas? Igualmente, a fase anal remonta a criança a um prazer também erótico, neste caso, pela possibilidade de poder e controle, ocasionados pelo amadurecimento dos esfíncteres anais. A forma com que pais e educadores conduzem o desfraldamento pode levar a criança a recalques. Se conduzida com repressões, pode levar a constipações intestinais. Há quem relacione essa fixação na fase oral à avareza na fase adulta, e aqui entra a relação com o dinheiro, posto que é tido popularmente como sujo, sem contar que o enriquecimento daquele www.esab.edu.br 159 que o possui remete-o igualmente à ideia de poder e controle. Cabe ainda destacar os desafios com os quais se defrontam educadores na fase da latência, que é marcada por um período de interesse pela aquisição de habilidades, competências, valores e papéis culturalmente valorizados. Outra característica dessa fase é a nítida separação e rivalidade entre meninos e meninas. Você deve conhecê-las bem, não é mesmo? Porque a rivalidade e a consequente segregação entre os polos meninos/meninas e masculino/feminino, decorrentes das diferenças entre os gêneros, costumam ser comuns no espaço educacional escolar. Pensando o gênero como um fenômeno contextual – portanto, como algo mutável –, é imprescindível ponderar uma concepção relacional sobre gênero ao problematizar a oposição binária entre os polos homem/mulher e masculino/feminino. Cada polo existe na relação que estabelece com o outro, com a sua oposição, no processo infinito de reconhecer-se no outro e também de diferenciar-se dele. Para sua reflexão Reflita: como um educador pode atuar no contexto de sala de aula para evitar oposições fixas entre os gêneros, as quais possam esconder as diferenças e singularidades de cada lado dessa polaridade? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. A Teoria Freudiana trouxe numerosas contribuições à educação. Uma delas é a importância de considerar a criança em sua totalidade, contemplando a dimensão da sua sexualidade, tão negada historicamente, no processo de ensino-aprendizagem. Considerar tal dimensão nesse contexto implica trabalhar para romper com o mito que se configura historicamente, de que a criança é assexuada até a sua adolescência. É preciso inserir esse tema de maneira transversal nas abordagens educacionais e romper com a tradição judaico-cristã de negação do corpo e dos desejos infantis. Cabe ao educador, portanto, promover interações www.esab.edu.br 160 intencionais para que a sexualidade dos alunos se desenvolva em uma dimensão afetiva e prazerosa. Nesta unidade, pudemos perceber as formas como a Teoria Genética, de Jean Piaget, e a Psicanálise, de Sigmund Freud, concebem o desenvolvimento infantil, a partir de suas contribuições à Educação. Mais que dar visibilidade aos conceitos que norteiam e referenciam as teorias, pretendemos auxiliar você, professor-aluno, como sujeito de sua profissão, na construção de novos “pensares” e “fazeres” na Educação, identificando e, sobretudo, colaborando com a aprendizagem dos seus alunos. Na próxima unidade, vamos estudar o comportamento infantil a partir de sua dimensão social. Continuemos juntos! Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidades 19 a 27. Para isso, dirija- se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 161 28 O comportamento social na infância Objetivo Compreender o comportamento social na infância. Na unidade anterior, conhecemos as teorias de Jean Piaget e Sigmund Freud sobre o desenvolvimento infantil, tendo como referência para essa produção Barros (2008). Nesta unidade, vamos nos debruçar sobre o comportamento social na infância, partindo também da concepção de Barros (2008) para a construção desse entendimento. Inicialmente, partiremos das análises do autor sobre o relacionamento mãe-bebê para, em seguida, avançar para outros momentos do desenvolvimento social da criança, considerando que essa relação representa o ponto de partida comum entre estudiosos. Acompanhe-nos! Barros (2008) aponta que as primeiras relações da mãe com o seu bebê se fundamentam, sob a ótica dos psicanalistas, na noção de saciação da fome. Ao saciar a fome, o bebê passa a estabelecer uma relação de afeto com a sua mãe ou com seu agente cuidador. Sob o ponto de vista dos psicólogos behavioristas, as ligações afetivas estabelecidas entre a mãe e o bebê se dão por meio do condicionamento operante, lembra? Pesquisadores do campo da Psicologia Científica – partidários de uma concepção etologista, como Barros (2008) – identificaram, por meio de estudos e observações, que o contato físico entre mãe e bebê é imprescindível ao desenvolvimento da criança, até mais que a própria alimentação. www.esab.edu.br 162 Figura 34 – Interação e socialização entre a mãe e o bebê. Fonte: <www.sxc.hu>. É importante destacar que os bebês que manifestam uma maior ligação com a mãe são aqueles que têm mais chances de interações significativas com ela. Ou seja, o laço afetivo entre eles é fortalecido por meio dessa interação, que privilegia trocas, diálogos, afetos e cuidados. Alguns cientistas e estudiosos desse assunto acreditam que a primeira ação social do bebê é o primeiro sorriso, o chamado sorriso social. Você já ouviu falar a respeito? O sorriso social é aquele emitido quando o bebê reconhece os que interagem com ele, reagindo aos seus estímulos quando os ouve e/ou os vê. Esse comportamento também indica que o aspecto psicológico está se desenvolvendo. O sorriso social não deve ser jamais confundido com o sorriso resultante do bem-estar e conforto proporcionados ao bebê quando da saciação da fome e outras necessidades biológicas (BARROS, 2008). A segunda ação social é o ato social, manifestado pela criança após o oitavo mês de vida: é a ansiedade da separação. Como podemos identificá-la? Muito fácil. Esse comportamento ocorre quando o bebê é separado da figura materna ou agente cuidador. Ao não conseguir visualizá-lo, o bebê chora e demonstra, assim, a ansiedade. A terceira ação social desenvolvida pela criança é a sua ida à escola maternal. Esse momento requer uma adaptação ao novo contexto e às novas relações sociais, que ampliamo mundo da criança. Essa adaptação deve se dar paulatinamente, respeitando os seus tempos/ritmos, ao mesmo passo que impulsionando a criança a se aventurar por esse novo mundo de relações. É importante ressaltar que aos dois anos de idade as crianças brincam com outras crianças, porém não brincam coletivamente. Ao atingir quatro a cinco www.esab.edu.br 163 anos, as crianças modificam esse comportamento social, passando a maior parte do tempo brincando organizadamente em conjunto com outras crianças e com o mesmo brinquedo (BARROS, 2008). No desenvolvimento infantil, há uma evolução das capacidades físicas e cognitivas, o que contribui para a participação das crianças em atividades mais complexas e cooperativas. Também é relevante observarmos que na escola maternal os adultos estão sempre reforçando os aspectos positivos das crianças que são amistosas e cooperativas. Isso as incentiva a serem cada vez mais interativas e amigas umas das outras. Notamos que, ao atingir esse grau de cooperação – ou seja, esse grau de interação social –, elas estarão maduras e “prontas” a participar efetivamente da vivência nas escolas de Educação Infantil e também nos grupos de brinquedos (BARROS, 2008). A quarta ação social da criança se refere aos aspectos do comportamento social na Educação Infantil, o qual possui uma ampla relação com o brincar. Não podemos nos esquecer de que na Educação Infantil os professores se deparam com vários perfis: algumas crianças tendem a mostrar traços de agressividade; outras são dominantes; algumas são dependentes de afeto e de atenção por parte do adulto; outras tentam o tempo todo chamar a atenção para si e para as atividades que realizam. Você já deve ter notado que, desde pequenas, algumas crianças tendem a ser mais cativantes do que outras, ou seja, a ter um número maior de amigos, enquanto outras mais tímidas vivem mais isoladas dos colegas. Para sua reflexão Como os professores podem conduzir as relações escolares, tendo em vista crianças com dificuldades de formação de vínculos sociais e afetivos? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. www.esab.edu.br 164 A quinta e última questão está relacionada ao grupo de brinquedo. Trata-se de uma reunião em grupo, composto de duas ou mais crianças, para realizar uma atividade recreativa. Esses grupos costumam reunir crianças de várias faixas etárias. Na constituição desses grupos, o sexo não é levado em consideração pelas crianças, isto é, os grupos são formados de meninas e meninos. Barros (2008) ressalta que geralmente há um líder para cada grupo de brinquedo. Esse líder é estabelecido por sua capacidade de ser o mais forte, mais corajoso, mais velho e, portanto, o mais experiente, ou por saber o maior número de jogos ou ser o dono do brinquedo. Esse grupo proporciona à criança uma nova forma de ver e agir sobre o mundo que a cerca, pois em muitas ocasiões ela poderá agir de acordo com o comportamento de seu grupo. Crianças que participam de atividades cooperativas e grupais tendem a ser mais independentes e têm mais confiança em si. Portanto, em razão da evolução das capacidades físicas e cognitivas, o comportamento social da criança passa por mudanças ao longo de seu desenvolvimento infantil, o que contribui para a participação das crianças em atividades mais complexas e cooperativas. De um modo geral, podemos identificar em crianças maiores, inseridas no contexto do Ensino Fundamental, um comportamento social ainda mais particularizado e marcado pelos seguintes aspectos: • o aumento da atenção e da concentração na atividade, permitindo à criança um distanciamento cada vez maior das atividades espontâneas (sem organização), fazendo com que ela envolva-se em atividades intencionais; • a brincadeira, agora intencional, é o terreno de trocas valiosas (de ideias, gostos e valores) entre as crianças, enriquecendo a identidade delas e as tornando cada vez mais sociais. As brincadeiras são, agora, potencialmente desafiadoras ao seu desenvolvimento físico e intelectual; • é possível perceber a formação de pensamentos e atitudes comuns entre as crianças maiores, um comportamento que vai se intensificando aos poucos até atingir o seu ápice na adolescência, com a formação do grupo de amigos (os chamados pares). É nesse momento que a opinião/modelo dos amigos ganha importância demasiada, em detrimento da opinião/modelo dos pais. Começam, então, as preocupações típicas desse período, como a expectativa das crianças em www.esab.edu.br 165 serem aceitas em um determinado grupo social. É nesse momento que certas particularidades em relação aos demais são notadas, podendo representar, se mal conduzido, um agravante na adolescência. Dica Por meio de uma brincadeira, o professor poderá avaliar a aceitação e popularidade das crianças em sala de aula, conforme sugere Barros (2008). Sim! Para isso, as crianças devem retirar um número de uma sacola. Por ordem crescente, cada criança escolherá algum colega da roda para sentar ao seu lado. A criança que for mais escolhida, obviamente, é a mais popular da sala e com maior aceitação pelas outras crianças. Por fim, Barros (2008) nos faz pensar sobre a importância da Psicologia do Desenvolvimento para a melhoria das condições de vida e dos estudos do comportamento. É a partir desses estudos que programas educacionais e de assistência social poderão ser criados para auxiliar pais e professores a orientar melhor crianças e adolescentes, assim como métodos educativos que possam conduzir as crianças a apresentar comportamentos altruístas e que contribuam com a sociedade. Nesta unidade, nos debruçamos sobre o comportamento social na infância, partindo da concepção de Barros (2008) para a construção desse entendimento. Partimos das análises do autor sobre o relacionamento mãe-bebê, considerando que essa relação representa o ponto de partida comum entre estudiosos. Esperamos que tenham gostado das contribuições de Barros (2008), pois o autor continuará conosco na discussão sobre o desenho infantil que veremos na próxima unidade. Vamos juntos! www.esab.edu.br 166 29 O desenho na infância Objetivo Analisar os significados do desenho na infância. Na unidade anterior, estudamos o comportamento social da criança na infância. Na unidade que segue, iremos refletir sobre as noções em torno dos desenhos infantis, apresentando instrumentos valiosos para a análise dos seus significados. Faremos esse olhar sob a ótica de um importante interlocutor, que tem nos acompanhado ao longo de várias construções teóricas por estas unidades. Estamos falando de Barros (2008). Continue conosco! Em algum momento, você, já parou para pensar que o desenho produzido pela criança pode ser recheado de significados? Historicamente, o desenho infantil vem sendo convocado nos contextos pedagógicos como uma atividade que envolve estudo e lazer. Barros (2008) afirma que por meio do desenho a criança representa suas emoções, seus sentimentos, anseios, medos, enfim, o que ela não pode ou não consegue expressar por meio da linguagem falada. Esse autor ressalta que o desenho é um importante instrumento pedagógico, uma vez que ele permite perceberem os interesses, as preferências e os conflitos emocionais infantis e, em alguns casos, até avaliar o nível de desenvolvimento cognitivo das crianças. Em termos educacionais, quais aspectos realmente devem ser observados no desenho infantil? Barros (2008) enfatiza que alguns aspectos devem ser considerados na análise do desenho infantil, a exemplo dos temas preferidos, dos traços utilizados, das cores predominantes, das expressões da criança em relação ao desenho e, ainda, das palavras que ela expressa ao desenhar. www.esab.edu.br 167 Barros (2008) apresenta dois métodos a serem empregados pelo educador para a análise dos desenhos infantis: o estatístico e o biográfico. • O métodoestatístico é realizado por meio de amostras obtidas a partir do estudo de desenhos de um grande número de crianças em diferentes idades. Com esse método, o educador pode chegar rapidamente a importantes definições, pois através dele é possível descobrir quais são os desenhos preferidos e suas caraterísticas peculiares, considerando a idade e o sexo. A desvantagem na utilização desse método é justamente o fato de o educador perder um aspecto valioso de observação enquanto a criança produz o desenho: a observação das expressões fisionômicas dela. Considere que as expressões da criança são carregadas de afetividade, de emoções e de sentimentos, tal como nos postulou Henri Wallon, em sua Psicologia da Infância, lembra-se? Desse modo, ao perdermos as expressões emitidas pelas crianças, podemos estar perdendo também significações valiosas de suas histórias e comportamentos. • Já o método biográfico é realizado a partir da análise de um conjunto de desenhos produzidos pela criança, desde os seus primeiros rabiscos até os desenhos produzidos aos 12 anos de idade. Com base nesses desenhos, são produzidas diversas observações importantes, a exemplo das vivências da criança, das cores que costuma utilizar para criar esses desenhos e de suas expressões fisionômicas enquanto desenha. Esse método permite uma análise mais aprofundada do desenho infantil, embora exija mais tempo para a sua realização. Em seus estudos, Barros (2008) procurou fazer um recorte importante dos múltiplos olhares sobre os desenhos infantis. Ele buscou, então, os olhares de outros autores, também estudiosos do assunto. Vejamos o que nos aponta Sylvio Rabello (1970 apud BARROS, 2008) a partir de sua análise sobre os desenhos de 1.300 alunos, de 4 a 16 anos de idade: • as crianças entre 0 a 5 anos têm preferência em desenhar figuras humanas (bonecos); • as crianças de 6 a 12 anos gostam mais de desenhar casas; • após os 13 anos, há uma diferenciação entre meninas e meninos; as meninas gostam de desenhar casas e os meninos voltam a desenhar figuras humanas. www.esab.edu.br 168 Barros (2008) nos diz que, ao observar os conteúdos relacionados aos desenhos infantis, o comitê de estudo da criança dos Estados Unidos da América, nas décadas de 1960 e 1970, chegou a importantes conclusões. • Nos desenhos infantis, predominam os temas relativos ao contexto social (tais como: casas, veículos e objetos) e quase não há representação da natureza, como montanha, rios e paisagens. O que há é uma diferenciação dos desenhos realizados por meninas e meninos. As meninas criam representações de crianças através do desenho de bonecas com laço na cabeça. Já os meninos criam representações de adultos a partir de desenhos de bonecos com chapéu e calça. • Por meio da representação no desenho, as meninas manifestam o gosto por coisas domésticas e os meninos, por coisas mecânicas. Interessante, não acha? É importante notarmos, como educadores, que a criança não tem noção de proporcionalidade e, consequentemente, em muitos desenhos os braços são enormes em relação à cabeça e/ou vice-versa. Outra questão a ser observada pelo professor é a orientação na disposição das partes do corpo: alguns desenhos são representados de frente, enquanto outros, de perfil. Essas características estão relacionadas à desproporção do desenho infantil (BARROS, 2008). Observe atentamente o desenho infantil apresentado a seguir e analise-o considerando os dois aspectos mencionados (proporcionalidade e disposição das partes do corpo). Figura 35 – Desenho infantil. Fonte: <www.123rf.com>. http://www.123rf.com/photo_10684068_children-s-drawing-of-happy-family-having-good-time-together.html www.esab.edu.br 169 Conforme podemos perceber no desenho, partes do corpo das pessoas, representadas aqui por bonecos (representação de uma família), estão desenhadas de frente e partes, de perfil, revelando um misto de orientação. É importante que analisemos a mudança de posição dos elementos da figura humana, porque ela vai mudando com o passar do tempo. Quando a criança é bem pequena, representa a figura humana de frente. O primeiro elemento que a criança representa de perfil são os pés, ora voltados para um lado, ora para o outro. Em um segundo momento, a criança tenta representar a cabeça de perfil e podemos observar claramente a boca, ainda que esteja representada de frente e apareçam duas orelhas. O último elemento que a criança consegue representar de perfil é o tronco. Como o professor pode interpretar a orientação na disposição das partes do corpo e a posição das figuras humanas no desenho? Primeiramente, ele deve estar atento e identificar a fase de desenvolvimento da criança. Quando a criança consegue representar de perfil toda a figura humana, com seus elementos completos, há um grande desenvolvimento em sua inteligência (BARROS, 2008). O autor nos relata ainda que o desenho universalmente escolhido pelas crianças é justamente o da figura humana. Veja o recorte que Barros (2008) fez dos olhares de outros autores que perceberam no desenho infantil a presença de elementos específicos nos traços, denotando, entre outros aspectos, detalhes, rigidez e transparência: • preocupação por detalhes: neste caso, a preocupação com outros detalhes, como enfeites e acessórios, é tão grande que a criança se esquece de partes indispensáveis da figura humana, por exemplo, o tronco, as orelhas e o nariz; • falta de apoio: os desenhos infantis podem ser analisados dentro de uma perspectiva psicanalítica. No caso de um desenho que apresente a figura humana solta, dispersa no ar, podemos concluir a ausência de apoio por parte dos adultos na formação da criança, em seus diferentes aspectos, que incluem os afetivos e intelectuais. É ao se desenvolver essas dimensões que ela vai situando o seu desenho no espaço; www.esab.edu.br 170 • rigidez: bonecos dispostos de modo rígido, duro e imóvel, com braços, dedos e pernas esticados costumam revelar rigidez por parte da criança na sua criação; • transparência: é a representação que a criança transpõe para o desenho. Por exemplo, podemos percebê-la quando a criança, no intento de desenhar uma menina, apresenta-lhe de saia ou vestido. Ou, seja, cria elementos que tornam transparente a intencionalidade de sua criação. Visando evidenciar a evolução do desenho infantil, Barros (2008) pontua algumas fases: a fase da garatuja; a fase esquemática ou simbólica; a fase do realismo lógico; e a fase do realismo visual. Acompanhemos atentamente cada uma delas. A fase da garatuja ocorre após o segundo ano de vida da criança, quando ela passa geralmente a ser estimulada a desenhar, lançando mão de recursos como lápis, gizes de cera e canetas hidrográficas. Nós já mencionamos sobre as garatujas em unidades anteriores, lembra-se? Os desenhos são representados por rabiscos e traços amontoados, que não apresentam qualquer semelhança com algum objeto. Essa fase pode ser subdividida em pré-intencional e intencional. Na garatuja pré-intencional, não há uma intencionalidade definida por parte da criança. O que há é uma grande necessidade do movimento, dos exercícios de coordenação motora. Já na garatuja intencional, com o desenvolvimento intelectual, a criança passa a anunciar a sua finalidade na criação dos rabiscos, apresentando os objetos ao mesmo tempo em que os desenha. Nessa fase, ela ainda os representa de forma pouco reconhecível. Na fase esquemática, os desenhos são constituídos de pouco traços e intitulados de esquemas. A figura humana, por exemplo, é representada por um círculo com alguns pontos na parte inferior e duas pequenas linhas. Nessa fase, a criança desenha a figura humana (boneco) sem tronco, apresentando a cabeça e os membros inferiores. Esse desenho da figura humana é classificado por alguns autores como a fase do girino. Essa fase é também intitulada de simbólica, pois a criança adota traços como símbolos para certos objetos. Por exemplo,o rosto é simbolizado por um círculo com pontos, seja na representação de um adulto, seja na representação de uma criança ou de um animal. Todo prédio e/ou casa é representado por um retângulo coberto por duas linhas inclinadas, seja a sua casa, seja a dos outros ou a escola. Observe no desenho a seguir. www.esab.edu.br 171 Figura 36 – Desenho de uma criança de seis anos: o interior visto por meio das paredes. Fonte: Barros (2008, p. 194). A fase do realismo lógico é também intitulada a fase áurea do desenho infantil. Nela, a criança adora desenhar e mostrar os seus desenhos às outras crianças. Para uma representação completa da realidade, a criança emprega alguns processos nos seus desenhos, tais como: a transparência, a descontinuidade, a perspectiva absurda, a projeção em plano e a representação da duração. Resumidamente, na transparência as crianças costumam representar seus desenhos de maneira mais completa possível. Na descontinuidade, a criança desenha certas partes dos objetos separadamente, para que apareça um número maior de elementos. Na perspectiva absurda, a criança representa pontos de vista diferentes em um desenho. Na projeção em plano, a criança desenha objetos como se os estivesse vendo do alto. E, por fim, na representação da duração, a criança desenha cenas animadas e uma pessoa em diferentes lugares. Por fim, na fase do realismo visual, o desenvolvimento cognitivo e intelectual da criança está bem desenvolvido e a criança representa objetos e seres como eles são vistos; parecem querer desenhar e representar o retrato do objeto ou do ser. Ou seja, nessa fase a capacidade crítica da criança está mais desenvolvida graças à elevação do nível mental que a acompanha com o aumento da idade. Como futuro professor, você pode auxiliar a criança em cada fase da evolução do desenho, apresentando a ela situações de ensino-aprendizagem que promovam o diálogo sobre suas produções. Ou seja, é preciso estimular as trocas entre as crianças e o professor e realizar atividades que www.esab.edu.br 172 estimulem e contribuam para o desenvolvimento delas. Há uma série de atividades que podem ser empregadas indistintamente nos diferentes momentos/fases do desenho infantil, contribuindo para o desenvolvimento global da criança, a exemplo da “corrida do saco”, do “jogo de varetas”, do “jogo da memória”, do “amigos de jó”, do “coelho sai da toca”. Obviamente que, antes de pensarmos em aplicar um jogo de memória às crianças na fase da garatuja, é preciso considerar a complexidade desse jogo, isto é, o nível de exigências nele implícito, além das fases de desenvolvimento psíquico e comportamentos típicos da criança. As trocas entre as crianças e o professor, possibilitadas por meio do diálogo, vão permitindo o domínio e a ampliação dos conceitos, a consequente apropriação da realidade e o amadurecimento global da criança. Ela passa, então, à medida que vai amadurecendo, a alcançar patamares cada vez mais elevados na produção dos desenhos infantis. O diálogo, quando em conjunto com um olhar sensível para as “coisas infantis” e bem empregado pelo professor, pode ajudar no trato com as emoções e os sentimentos e, inclusive, a aliviar os traumas e medos infantis. Obviamente que isso requer, por parte do professor, uma habilidade na abordagem dos conteúdos subjacentes aos desenhos. Há também várias atividades lúdicas, dinâmicas e jogos recreativos propostos na educação escolar que podem auxiliar o desenvolvimento global da criança, a exemplo de atividades físicas que trabalham a imagem corporal, a coordenação motora fina. Na educação física, podemos citar, por exemplo, a atividade que pede à criança demarcar a silhueta de outra deitada sobre o papel; ou a que instrui a criança a andar sobre uma risca de giz, no chão. Essas são ótimas sugestões para o desenvolvimento da imagem corporal, da coordenação motora ampla e do equilíbrio. Lembramos que a coordenação motora fina vai se desenvolvendo, paulatinamente, a partir de solicitações cada vez mais elaboradas à criança, do ponto de vista físico e corpóreo, requerendo traços de precisão, que começam com a coordenação motora mais ampla. Nesta unidade, vimos que no âmbito escolar os educadores podem se munir de instrumentos para avaliar o significado do desenho infantil. Na próxima unidade, vamos abordar as emoções e sua influência no processo de aprendizagem. Vamos em frente! www.esab.edu.br 173 30 As emoções e o aprendizado Objetivo Relacionar as emoções e a sua influência no processo de ensino- aprendizagem. Na unidade anterior, conhecemos o significado de alguns desenhos produzidos pelas crianças. Nesta unidade, vamos estudar as emoções e a sua influência no processo de ensino-aprendizagem. Nossos diálogos e reflexões acerca desse assunto serão fundamentados nas contribuições de Coll, Marchesi e Palacios (2004b) e de Bock, Teixeira e Furtado (2009). Vamos juntos! Você sabia que as interações estabelecidas entre você e seus alunos podem influenciar diretamente na motivação pessoal, no desejo e nas expectativas dos educandos? Há uma relação inconteste entre aquilo que o aluno deseja aprender e a sua motivação para a aprendizagem, a sua emoção em aprender. No contexto educacional escolar, especificamente no que diz respeito aos objetivos traçados na proposta de atividade, o processo de aprendizagem costuma ser avaliado pelos educadores de duas formas: sob a ótica do êxito e do fracasso (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b). Consideremos que os resultados da avaliação realizada pelos alunos muitas vezes são expostos ao público escolar e à comunidade e que, portanto, essa prática terá consequências emocionais e afetivas para os educandos e podem, ou não, serem sentidas pelo professor. Logo, a relação que o aluno estabelece entre a avaliação e os resultados esperados na aprendizagem está intimamente atrelada às características pessoais de cada um e aos fatores emocionais que influenciam a percepção dos resultados, os quais incidem diretamente em sua autoestima. www.esab.edu.br 174 Estudiosos como Coll, Marchesi e Palacios (2004b), que se dedicam ao estudo da influência das emoções no processo de ensino-aprendizagem, explicitam que a falta de elogios e recompensas e a apresentação de críticas ou reprovações levam educandos ao êxito ou ao fracasso em seu processo de aprendizagem. As críticas, recompensas e elogios são feitos normalmente pelos educadores e/ou familiares. Há, portanto, uma ligação entre o êxito e/ou o fracasso escolar e o autoconceito e a autoestima do aluno. Por exemplo, se o aluno tem boas notas, obviamente seu autoconceito e autoestima se elevam – uma vez que ele se sente bem e também mais confiante sobre suas capacidades. Da mesma maneira podemos esperar o contrário, caso o aluno tenha notas ruins. O autoconceito e a autoestima estão, portanto, atrelados às representações que os alunos têm de si mesmos, às crenças sobre suas capacidades e remetem à necessidade de bem-estar pessoal para que possam aprender com tranquilidade e segurança (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b). Logo, a necessidade de elevar o autoconceito e a autoestima conduz os alunos à adaptação de suas expectativas ao ambiente escolar, evitando o máximo possível fatos e situações que possam gerar sentimentos arbitrários. Considerando que as relações estabelecidas no âmbito educacional escolar não são neutras, a autoproteção ajuda a compreender o caso de alunos com o autoconceito e autoestima comprometidos e que, por se sentirem desencorajados a solicitar ajuda ao professor, se anulam em meio aos processos de aprendizagem. Como exemplo, é comum encontrarmos nos espaços escolares crianças que não reagem, que se emudecem e manifestam um olhar de medo e insegurança ao serem questionadas. Nesses casos, cabe ao educador averiguar as razões que levem a esses comportamentos, com vistas a evitar a queda do rendimento escolar e a consequente reprovação. É preciso que você,como sujeito de sua profissão, mantenha olhar atento para aquilo que as crianças vivenciam nas escolas, criando uma atmosfera favorável ao desenvolvimento delas e de sua autoestima. É fundamental observar o que a criança sente ao ser avaliada em seu processo de aprendizagem. www.esab.edu.br 175 No contexto escolar, podemos observar que tanto alunos quanto professores experimentam emoções positivas e não tão positivas nas relações escolares. Há uma cultura que impele professores e alunos a camuflarem as emoções. Isso pode gerar um alto nível de estresse na sala de aula, contribuindo para que alunos e professores se concentrem mais nessas questões do que nos aspectos racionais e cognitivos que envolvem o conteúdo escolar. Para Coll, Marchesi e Palacios (2004b), as interações estabelecidas entre professor e aluno requerem uma reciprocidade, visando à construção não só de um saber mas também de uma afetividade entre ambos. Desse modo, as emoções que experimentam cumprem uma importante função autorreguladora, a exemplo de um aluno que tem sua aflição na espera de uma nota relativizada pelo professor, o qual lhe dá sinais verbais e/ou comportamentais de que obteve um bom desempenho na atividade. As crianças sentem/percebem as emoções vivenciadas pelo professor e as identificam à sua maneira. Podemos dizer que até conseguem identificar, em dados momentos, se ele está triste, bravo ou enfadado, e essas percepções as afetam e podem representar a causa do fracasso escolar, embora esses sentimentos possam ser melhorados em um futuro próximo, quando o professor estiver com as emoções mais equilibradas. “As emoções, os sentimentos e os afetos não desempenham um papel unicamente nos processos interativos que ocorrem em sala de aula, mas também estão envolvidos no próprio ato de aprender” (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b, p. 221). Podemos perceber que o aluno aprende com mais facilidade ao estabelecer uma relação de afeto com o professor. Alunos com autoestima elevada obtêm maior sucesso em seus processos de aprendizagem, uma vez que evocam sua motivação para aprender. Já alunos com baixa autoestima não conseguem atribuir motivação ao que aprendem e, por isso, sentem-se, em muitos casos, desestimulados e/ou incapazes de aprender um determinado conteúdo. www.esab.edu.br 176 Figura 37 – Emoções e expressões das crianças no contexto escolar. Fonte: <www.123rf.com>. Ao observar atentamente a Figura 37, vamos construindo algumas percepções sobre as crianças e suas emoções, de modo a arriscar perceber uma timidez em uma e certa apreensão em outra, entre outras emoções percebidas. O professor deve observar atentamente as crianças dentro e fora do contexto educacional escolar, nos momentos de trocas e brincadeiras, instantes recreativos e festivos, pois esses momentos permitem conhecer mais profundamente as emoções que as crianças experimentam. Essas observações oferecem informações valiosas ao educador, as quais devem ser somadas ao processo avaliativo dos alunos. Ao considerá-las, o educador terá maiores subsídios para perceber o grau de desenvolvimento de seus alunos, propondo atividades que possam contribuir para o seu aprendizado de forma mais significativa. Outro fator a ser observado quando falamos da influência das emoções no processo de ensino-aprendizagem diz respeito às relações interpessoais que ocorrem na escola. As relações afetivas na interação professor-aluno são essenciais para o processo de ensino-aprendizagem. As instituições educativas representam um espaço no qual se concretizam relações emocionais e afetivas diversas, com inúmeras formas de manifestação. Entre os aspectos que constituem essas relações interpessoais, podemos destacar a percepção e a comunicação. http://www.123rf.com/photo_15669411_muang-mahasarakham--october-5--unidentified-children-are-parading-in-healthy-way-of-life-festival-on.html www.esab.edu.br 177 Com isso, concluímos as nossas reflexões acerca da influência das emoções no processo de ensino-aprendizagem. Esperamos que os nossos interlocutores – Coll, Marchesi e Palacios (2004b) e Bock, Teixeira e Furtado (2009), tenham auxiliado você na compreensão da importância de empreender um olhar sensível às “coisas da relação” nas interações com os seus alunos, identificando, respeitando e acolhendo as suas emoções nos contextos educacionais escolares. Na próxima unidade, retomaremos essa discussão com vistas a refletir sobre a violência escolar e seu impacto na aprendizagem. Continue antenado! www.esab.edu.br 178 Resumo Na unidade 25 conhecemos duas tipologias de aprendizagem: a associacionista e a cognitivista. Estudamos ainda alguns procedimentos que poderiam servir como eixo estruturador do currículo dentro de uma perspectiva cognitivista de aprendizagem. Os tipos de procedimento estudados foram: aquisição, interpretação, análise e raciocínio, compreensão e organização e comunicação. Na unidade 26, estudamos e analisamos que a interação entre educandos e educadores abrange interesses e intenções. É importante destacarmos que a interação entre alunos e professores tem muito valor pedagógico, pois pode favorecer as trocas de conhecimento entre esses agentes, facilitando o processo de ensino- aprendizagem. Na unidade 27, estudamos as fases do desenvolvimento infantil partindo das abordagens de Jean Piaget e de Sigmund Freud. Piaget defende quatro estágios no desenvolvimento infantil: sensório- motor, pré-operacional, operações concretas e operações formais. As fases do desenvolvimento infantil assinaladas por Freud são: oral, anal, fálica, latência e genital. Na unidade 28, foram abordadas questões sobre o comportamento social infantil, enfatizando temas como o relacionamento mãe-bebê, o comportamento social do bebê, as crianças na escola maternal e na Educação Infantil, grupo do brinquedo e contribuições ao bem-estar humano. Na unidade 29, abordamos o desenvolvimento do desenho infantil e as formas de analisar essa expressão artística da criança. Por fim, na unidade 30, aprendemos que as interações dos alunos com os professores são atreladas às emoções positivas e/ou negativas que podem ser geradas dentro do contexto escolar. www.esab.edu.br 179 31 Interações sociais e a aprendizagem Objetivo Compreender os processos de interações sociais atrelados à aprendizagem. Na unidade anterior, estudamos a relação entre as emoções e o processo de ensino-aprendizagem escolar. Nesta unidade, nossos estudos terão como foco as questões de interações sociais relacionadas à aprendizagem escolar. Para isso, tomaremos como base os conceitos de Coll, Marchesi e Palacios (2004b). Sigamos juntos! Muitas pesquisas relacionadas ao tema ocorreram entre as décadas de 1970 e 1980 e, a partir delas, percebemos que nas relações/interações os alunos adquirem inúmeras habilidades sociais, cognitivas e psíquicas. Como vimos na unidade 26, quando estudamos os processos de interação entre professores e alunos – e entre estes, o processo de ensino- aprendizagem –, notamos que essas relações sociais são fundamentais para que a aprendizagem ocorra no contexto educacional. Através dessas interações, os alunos aprendem a se colocar no lugar do outro, relativizando os seus pontos de vista e superando o egocentrismo. Por meio das interações sociais, os educandos também exercitam sua capacidade de adaptação às regras e normas estabelecidas no contexto social e educacional. Percebemos que os alunos, a partir desse convívio com outros alunos e com os professores, progridem significativamente no processo de socialização e também no rendimento escolar. Na proposta de Coll, Marchesi e Palacios (2004b) as interações sociais dentro do contexto escolar podem ser descritas através de três modelos de organização social atrelados às atividades escolares: organização cooperativa, competitiva e individualista. www.esab.edu.br 180 Você sabe o que significa cada uma delas? Na organização cooperativa,os educandos atingem seus objetivos à medida que os outros educandos também atingem os seus, ou seja, um membro do grupo beneficia aos demais componentes do grupo. Já na organização individualista, não há nenhuma relação entre as metas/objetivos que cada educando/ aluno/participante pretende atingir. Os objetivos são perseguidos individualmente, sendo que os resultados alcançados pelos outros companheiros são irrelevantes. Por fim, na organização competitiva, os educandos/indivíduos alcançam os objetivos, somente se os outros não conseguirem alcançá-los. Notamos que, nessa organização, o que beneficia um, certamente, não beneficia o outro. Dessas organizações listadas, a que beneficiará a interação e o aprendizado dos alunos é a organização cooperativa. E você já parou para pensar qual a razão disso? Saiba que essa estrutura beneficia/favorece a aprendizagem entre os alunos, porque permite que se estabeleça a troca de conteúdos entre os colegas de classe. Também é importante salientar que essa organização favorece o estabelecimento de relações de respeito mútuo entre os educandos, constituídas pela cortesia, pela atenção e pela simpatia entre eles; são relações positivas que se estendem por todo o contexto educacional. Em um grupo, as dúvidas e/ou conflitos cognitivos sobre um conceito podem ser o ponto de partida para algumas diferenças de opinião e/ou alguma inconsistência conceitual, o que pode gerar, nos componentes desse grupo, alguma incerteza ou algum desequilíbrio cognitivo, não é mesmo? Essas inseguranças podem provocar uma revisão/análise de alguns pontos de vista por intermédio das novas informações e, a partir destas, criar novas perspectivas de informações e conceituações sobre determinado assunto. A questão das contradições sobre o mesmo tema, analisada por vários teóricos, pode ter resultados diferentes, mesmo que estes analisem o mesmo conteúdo. Essa hipótese nos permite fazer a seguinte reflexão: qual o benefício de compartilharmos opiniões com outras pessoas? É através dessa interação e de pontos de vista diferentes que conseguimos interpretar certas situações e/ou conceitos de maneira mais complexa, sob vários aspectos e perspectivas. www.esab.edu.br 181 Figura 38 – Interação entre os alunos. Fonte: <www.shutterstock.com>. Nas interações sociais, dentro de um modelo de organização cooperativa, percebemos que os componentes do grupo ajudam-se, mutuamente, na solução de dificuldades que possam surgir durante a resolução de um problema e/ou durante a realização de uma tarefa proposta no contexto escolar. Um aluno pode sentir dificuldade em um conteúdo escolar e procurar outro colega de sala para saná-la. Esse aluno pode conseguir resolver a dúvida com esse amigo, de uma maneira fácil, mediada pelas relações afetivas e de simpatia que há entre eles. Você deve se dar conta de que a criança pode receber de seus companheiros de classe vários tipos de ajuda, das mais simples às mais complexas. E pode ser que esse aprendiz não receba nenhum tipo de auxílio, caso ele consiga resolver suas dúvidas e suas dificuldades através da reflexão e de sua capacidade cognitiva. A interação entre os educandos na construção do conhecimento acadêmico pode ser analisada sob dois aspectos: em relação à interação entre os alunos, por si só, e em relação à aprendizagem que essa interação possa permitir. É importante percebermos que há alguns processos interativos que provocam um aprendizado significativo nas crianças. Relatamos um fato ocorrido em uma escola referente a duas faixas etárias distintas: crianças da Educação Infantil e do segundo ano do Ensino Fundamental. Uma vez www.esab.edu.br 182 por semana, essas duas turmas encontravam-se para realizar atividades que eram intituladas como “atividades integradas”, as quais eram planejadas pelos professores responsáveis pelas turmas. Os exercícios estavam atrelados à contação de histórias. Toda semana, narrava-se uma história às turmas que, juntas, ouviam e a registravam. Porém, no registro da história, sempre era solicitado que um aluno do segundo ano se sentasse com um aluno da Educação Infantil. Através dessas atividades, notamos que as crianças da Educação Infantil, que no início só riscavam e realizam garatujas no papel, começaram a realizar seus primeiros traços e, com o passar do tempo, a desenhar formas. Isso, certamente, está relacionado à interação social entre esses grupos. Outro aspecto positivo desenvolvido nas crianças do segundo ano é que elas começaram a ler – processo que foi iniciado no começo da atividade –, porém, tinham muita dificuldade. Notamos que, com a motivação de querer contar histórias às crianças menores, as maiores passaram a aprender a ler mais facilmente. Figura 39 – Processo de interação entre alunos no momento de escrita. Fonte: <http://www.shutterstock.com>. Esse processo citado anteriormente faz parte do que Vygotsky sinaliza como Zona de Desenvolvimento Proximal. Lembramos que a ZDP é a distância existente entre o Nível de Desenvolvimento Real – marcado pela capacidade da criança em resolver um problema de modo independente – e o Nível de Desenvolvimento Potencial – caracterizado pela capacidade de resolver um problema com a ajuda de um adulto ou um colega mais experiente, como vimos na unidade 19. Atualmente, essas interações www.esab.edu.br 183 sociais são analisadas como um fator positivo dentro do contexto escolar; quando executadas através de um planejamento pedagógico coletivo, realizado com todos os componentes desse contexto, elas têm um valor educativo. Você, futuro professor, deve ter em mente que uma atividade de interação precisa ser pensada e elaborada para que ela tenha um valor positivo dentro da conjuntura escolar de aprendizagem. Quando planejadas, essas atividades proporcionam aos alunos uma aprendizagem significativa, além de competências e habilidades necessárias à formação de seres humanos responsáveis e participantes de uma sociedade que compartilha o conhecimento científico. Assim, encerramos nossos estudos sobre a importância da interação social para a aprendizagem escolar. Na próxima unidade, vamos discutir sobre um importante componente de influência na aprendizagem educacional escolar: a agressividade. Continue conosco! Fórum Caro estudante, dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem da Instituição e participe do nosso Fórum de discussão. Lá você poderá interagir com seus colegas e com seu tutor de forma a ampliar, por meio da interação, a construção do seu conhecimento. Vamos lá? www.esab.edu.br 184 32 A agressão e sua influência no aprendizado Objetivo Entender o contexto da agressão e a sua influência na aprendizagem. Em um momento anterior, discutimos sobre as interações sociais e suas influências na aprendizagem. Nesta unidade, traremos à discussão um tema que tem despertado, na contemporaneidade, grande preocupação de estudiosos e profissionais envolvidos com a educação no país: a agressividade. Sob a ótica psicanalítica, autores buscam, aqui, refletir sobre as influências da agressividade – fenômeno muitas vezes naturalizado nas relações e nos processos de ensino-aprendizagem. Partiremos, então, das contribuições de Bock, Teixeira e Furtado (2009) para a construção desse entendimento, considerando as diferentes formas de expressão da agressividade no cenário educacional escolar. Como você pode perceber, há muito que discutirmos sobre o assunto. Vamos juntos! Enquanto um fenômeno constitutivo do ser humano – isto é, inerente à dinâmica de nossa personalidade, conforme afirmam Bock, Teixeira e Furtado (2009) –, a agressividade se reveste, muitas vezes, de uma sutileza capaz de diluí-la no cotidiano das relações, pondo-a (quase que) naturalizada e despercebida entre nós. Sob a ótica psicanalítica, a agressividade é entendida como um impulso que reúne a oposição binária entre os polos amor/ódio e pulsão de vida/pulsão de morte. É uma força que tanto podeser canalizada internamente, no caso da autoagressão, quanto externamente, no caso da agressão a outrem (heteroagressão). Tudo vai depender de como são conduzidos os impulsos destrutivos. É importante que saibamos que a agressividade – que se concretiza muitas vezes por meio da violência – está intimamente relacionada às atividades de pensamento, imaginação e ação humana, o que explica os rompantes (reações impetuosas que, às vezes, temos) decorrentes de sentimentos de fúria. Desse modo, considerando esse aspecto da www.esab.edu.br 185 violência, podemos depreender que uma criança de personalidade aparentemente tranquila pode perfeitamente esconder pensamentos e sentimentos agressivos. O desenvolvimento da agressividade dependerá, então, da maneira como ela lida com esse impulso, tendo em vista as suas características individuais e o contexto social em que está inserida. Em uma leitura psicanalítica, esse impulso tanto pode ser sublimado e canalizado para a produção intelectual, artística e/ou desportiva quanto absorvido pela criança, desencadeando desejos e sentimentos de agressão ainda mais intensos, no caso de algum tipo de humilhação ou repressão. Para sua reflexão De que modo você, como futuro educador, abordaria a questão da agressividade infantil no contexto educacional escolar para criar condições à canalização dos impulsos destrutivos na aprendizagem? Como seria possível abordá-la, no campo da literatura, da produção artística ou mesmo das artes? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. Ainda em uma leitura psicanalítica, a agressividade é socialmente reprimida nas relações, por meio de instrumentos reguladores da conduta humana, a exemplo da educação e da cultura ou, mesmo de outros mecanismos sociais – como as leis – que a subordinam e a controlam. Mas, alto lá! Não pense que a educação e a vida em sociedade também não disseminam a violência. Você sabia que a agressividade está assentada nas relações sociais, entremeando, de forma nem sempre explícita, as relações que nós, seres humanos, estabelecemos em diferentes segmentos da vida em sociedade? Você sabia que muitas vezes a violência está presente no íntimo da família, que é tida por muitos de nós como um lugar mitificado, dada a sua função social de cuidado e proteção? Ou você nunca ouviu falar da família enquanto um lugar sagrado? Você sabia, ainda, que a escola, a partir das relações de poder nela www.esab.edu.br 186 historicamente constituídas, representa uma forte agência formadora e propagadora da violência? Temos assistido, aos poucos, à diluição (e ruína) de valores essenciais à vida em sociedade (como o respeito, a amizade, o senso de justiça, de coletividade e de solidariedade humana) e à consequente materialização (e banalização) das mais diversas formas de violência (como o abandono, a negligência e a violência psicológica). É imprescindível que nós, educadores, reflitamos como a sociedade contemporânea, em sua estrutura, promove, legitima e perpetua as formas de violência social, e que levemos essa reflexão para o campo da educação formal. Temos assistido a muitos educadores relacionando, em circunstâncias variadas, o comportamento agressivo dos alunos à esfera da família, sem visualizar também a escola como um lugar possível de agenciamento de tal comportamento. Pensemos: se a agressividade se fundamenta nas relações sociais, não deve nos causar estranheza imaginar que a relação professor-aluno também esteja permeada pela violência. Essa é uma violência de mão dupla! Ou seja, que encontra eco em ambos os polos dessa relação. Talvez, seja mais difícil considerarmos (e admitirmos) a hostilidade sofrida pelos alunos e realizada por educadores, nos contextos escolares. Consideremos que a agressividade, em sua caraterização enquanto comportamento, não se expressa tão somente como ato, através da violência física; ela também pode se revelar a partir de pensamentos (preconceituosos e marginalizantes) e da comunicação. As práticas disciplinares que sujeitam e conformam o incentivo à competição acirrada e às práticas autoritárias (e sem espaço para o diálogo e a crítica), surgidas na relação com o professor, representam alguns dos componentes que configuram a violência vivenciada por alunos nos espaços educacionais escolares. Bock, Teixeira e Furtado (2009) chamam a atenção para a violência exercida nas escolas sobre crianças e jovens de camadas populares. É sabido que a escola tem contribuído para dissimular as desigualdades sociais resultantes de fatores econômicos, relativizando as dificuldades que crianças e jovens das classes trabalhadoras enfrentam e atribuindo exclusivamente a eles a responsabilidade pelo baixo desempenho escolar. Antigamente, nas escolas os alunos com desempenho abaixo do esperado eram tidos como www.esab.edu.br 187 incapazes, sendo transferidos para as chamadas “classes especiais”, que na maioria das vezes os levavam à exclusão e ao fracasso escolar. Atualmente, os documentos oficiais orientam que as escolas ofereçam serviços e apoios diferenciados oportunizando inclusão escolar. Você, futuro professor, consegue pensar nas possíveis repercussões na vida de uma criança que foi diagnosticada com um baixo desempenho escolar e excluída da escola em razão do seu fracasso? É justo a escola tratar essa responsabilidade sob o ponto de vista individual? Bock, Teixeira e Furtado (2009) também chamam a atenção para a violência que permeia a elaboração de cartilhas e livros didáticos escolares. Para os autores, os conteúdos didáticos incluem, muitas vezes de forma subjacente, uma representação de gênero, etnia e classe social comprometida e impregnada de preconceitos, fomentando as distorções e desigualdades sociais, além de sentimentos de oposição e hostilidades. Os diversos significados pejorativos que “brotam” desses conteúdos, frequentemente de forma subliminar, também estimulam outro tipo de violência conhecida: a lesão física e moral. Sim! Pois sabemos que o preconceito leva à discriminação de grupos sociais e, consequentemente, à violência contra algumas parcelas da sociedade. A agressividade é considerada pelos educadores um fator imensamente prejudicial ao processo de ensino-aprendizagem, um verdadeiro dificultador das relações e desorganizador do ambiente/atmosfera escolar. Porém, o educador não se percebe como igualmente portador dessa agressividade, sendo, em muitos momentos, provocador nos conflitos. Geralmente, alunos inseridos em um contexto de agressão são diagnosticados, em sala de aula, como um problema e incapazes de aprender. É comum esses alunos terem suas ações fortemente repreendidas ou até mesmo ignoradas pelos educadores, que despendem, por sua vez, pouca (ou nenhuma) atenção a eles. Rótulos e estereótipos também são facilmente veiculados nos espaços das relações sociais escolares, sendo muitos de forma aberta (para quem quiser ver) e outros, de forma sutil (quase que imperceptível e invisível aos olhos pouco atentos). Não é raro vermos uma criança ser rotulada como agressiva, por conta de um único ato de agressão que cometeu. www.esab.edu.br 188 Mas como abordar a agressividade em sala de aula, na sua relação estreita com a violência? Vamos responder a essa pergunta com uma única palavra: contextualizando-a. Como vincos em uma peça de roupa, os rótulos e estereótipos disseminados, dificilmente são desfeitos, deixando cicatrizes profundas na vida e identidade das pessoas. Daí, a importância de você, enquanto educador, estar atento às mais diversas formas de expressão da violência, para intervir nos momentos exatos em que elas se exprimem nas relações, entendendo as suas causas e auxiliando na sua condução/relativização. Assim, o educador, ao presenciar um ato de agressão, deve atribuir-lhe o devido significado, e isso conseguirá ser feito, contextualizando-o e refletindosobre ele. Só depois, o seu significado deve ser trabalhado. Nesta unidade, trouxemos à discussão um assunto de grande preocupação, na contemporaneidade, para estudiosos e profissionais envolvidos com a educação no país: a agressividade. Sob a ótica da psicanálise, buscamos compreender as influências da agressividade em sua relação estreita com a violência e nos processos de ensino-aprendizagem. Bock, Teixeira e Furtado (2009) foram os autores que contribuíram para o enriquecimento desse debate, permitindo-nos descobrir as inúmeras formas potencializadoras da agressividade. Você sabia que ela também é vivenciada/experimentada na adolescência? É por essa razão que continuaremos a abordar esse assunto na unidade que segue. Outras descobertas sobre a adolescência também nos aguardam. A nossa discussão está só começando. www.esab.edu.br 189 33 A adolescência sob múltiplos olhares Objetivo Conhecer as diferentes definições e características da adolescência, tendo em vista as contribuições de autores importantes da Psicologia e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Na unidade anterior, refletimos sobre as influências da agressividade, em sua relação estreita com a violência nos processos de ensino- aprendizagem escolar. Uma vez que a agressividade é vivenciada/ experimentada também na adolescência, continuaremos abordando esse assunto. Nesta unidade, levaremos em consideração, além de Bock, Teixeira e Furtado (2009), outros importantes intercessores da Psicologia, como Jean Piaget, Sigmund Freud e Erick Erikson (1976 apud BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009). Concentraremo-nos nas contribuições sobre a quinta idade, que corresponde ao estágio entre a infância e a idade adulta. Não podemos deixar de trazer, também, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por representar um importante documento norteador dos direitos e medidas de proteção à infância e à adolescência no país. Contamos com você como nosso mais novo interlocutor nesses diálogos. Vamos juntos! Embora inúmeros autores abordem o tema “adolescência” em suas teorias, não encontramos um consenso sobre o que define e caracteriza esse momento essencial da vida. O que há são aproximações sobre um ou outro aspecto de seus estudos. Encontramos autores que, como Bock, Teixeira e Furtado (2009), acreditam que a adolescência e a juventude não têm uma definição precisa. Logo, não é possível saber, em termos cronológicos, quando ela começa ou termina. Nos termos do artigo 2º da Lei nº 8.069 (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA), de 13 de julho de 1990, considera-se adolescente aquele(a) com idade compreendida entre os 12 e 18 anos. Para efeitos dessa Lei, considera-se criança aquele(a) antes dos 12 anos completos. www.esab.edu.br 190 É importante lembrar que o ECA criou mecanismos de proteção à infância e à adolescência, com tratamentos diferenciados a ambos, em diferentes áreas, como educação, saúde, trabalho e assistência social, e estabeleceu o fim de punições para adolescentes. Adolescentes devem ser tratados a partir de medidas de proteção (em casos de desvio de conduta) e medidas socioeducativas (em caso de cometimento de atos infracionais). Apesar do ECA, enquanto valioso instrumento de ordenamento jurídico, definir, em termos cronológicos, o momento exato de inserção na adolescência, ainda impera um grande desencontro, do ponto de vista de autores, sobre o que seja (e quando) se inicia exatamente a adolescência. Mas, por que razão encontramos tantas diversidades de opiniões entre os teóricos? Justamente por esse evento não representar, para muitos deles, um momento específico do desenvolvimento humano, e sim uma transição – muitas vezes passageira e nem sempre (bem) demarcada – entre a infância e a juventude ou, ainda, entre a infância e a vida adulta (dependendo da concepção). A noção de adolescência também está fortemente atrelada à estrutura socioeconômica e cultural na qual o indivíduo está inserido. Logo, os critérios e características que definem esse evento são construídos social e culturalmente e, portanto, dependem do “lugar” de onde esses autores falam. Podemos lembrar das diversas maneiras de manifestação dos chamados “ritos de passagem”, presentes em algumas culturas indígenas, por exemplo. Em algumas tribos, os meninos são obrigados a introduzir a mão em uma luva cheia de formigas venenosas, cuja picada é quase mortal, para demarcar com dor e glória a sua passagem ao e inserção no “mundo adulto”. Mas, como os autores que aqui convocamos entendem a adolescência? Barros (2008) nos diz que o que inaugura a inserção de uma criança na adolescência é o envolvimento pessoal com três dimensões fundamentais da vida: a profissional, a sexual e a filosófica. Para ele, durante esse período – caracterizado essencialmente por indecisões e buscas –, o sujeito tende a ser mais introvertido, contido, ou seja, mergulhado nos seus próprios sentimentos e emoções. Considerando a sua adolescência, você consegue se identificar com essa visão do autor www.esab.edu.br 191 sob algum aspecto? Bock, Teixeira e Furtado (2009) afirmam que não temos adolescência, e sim adolescentes. Essa noção se fundamenta, essencialmente, no entendimento de que a adolescência e a juventude não têm uma definição precisa. Logo, é difícil dizer quando elas iniciam e/ou finalizam. As inúmeras discordâncias entre autores da Psicologia a respeito da adolescência ressoam a partir das contribuições de Erikson (1976 apud BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009), importante discípulo de Freud que formalizou, pela primeira vez na história da Psicologia do Desenvolvimento Humano, um conceito sobre adolescência. Ele o demarcou a partir do conceito de moratória psicossocial, caracterizando-o como um estágio especial no processo de desenvolvimento humano, caracterizado pela confusão de papéis e dificuldades em estabelecer uma identidade própria, um estágio de transição entre a infância e a fase adulta (ERIKSON, 1976 apud BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2009). Erikson foi ainda o responsável pela elaboração da Teoria do Desenvolvimento Psicossocial e um estudioso da Teoria do Desenvolvimento Humano. A perspectiva de Erikson sobre o desenvolvimento psicossocial apresenta oito importantes idades do ser humano, conforme nos aponta Barros (2008). Observe, atentamente, o quadro a seguir, com as idades e características apontadas pelo autor e que dizem respeito aos diferentes momentos do desenvolvimento psicossocial. IDADE/ Intercessões ESTÁGIOS, segundo ERIKSON 1ª idade – 0 a 1 ano e meio Confiança x desconfiança 2ª idade – 1 ano e meio a 3 anos Autonomia x vergonha 3ª idade – 3 a 6 anos Iniciativa x culpa 4ª idade – 7 a 12 anos Domínio x inferioridade 5ª idade – 12 a 18 anos Identidade x confusão de papéis 6ª idade – 18 a 30 anos Intimidade x isolamento 7ª idade – 30 a 60 anos Generatividade x autoabsorção 8ª idade – 60 anos Integridade do ego x desesperança Quadro 3 – Estágios do Desenvolvimento, segundo Erikson. Fonte: Adaptado de Barros (2008). www.esab.edu.br 192 Agora, façamos um recorte sobre a idade diretamente relacionada a este importante estágio do desenvolvimento psicossocial: a adolescência. Busquemos refletir acerca das suas principais características subjetivas. A quinta idade, proposta por Erick Erikson (apud BARROS, 2008), corresponde ao estágio compreendido entre os 12 e 18 anos de idade. Observe que essa demarcação da idade coincide com aquela definida pelo ECA, de delimitação da adolescência. Como você pode ver no Quadro 3, esse período, na perspectiva teórica de Erikson, é demarcado pela busca incessante da construção da identidade e pela confusão de papéis que o adolescente desempenha dentro do seu contexto social. Portanto, é um estágio marcado por uma forte crise existencial. Daí, a importância de o adolescente estar sempre buscando refletir sobre quem é. Esse período de crise existencial é também uma época de numerosos e profundos conflitos, sendoprevisível a presença do sentimento de rebeldia (e aqui, consideremos a possibilidade de explosões agressivas) na relação estabelecida com os pais e com as demais autoridades. Na maioria das vezes, o adolescente mostra-se insubordinado às ideias e imposições dos pais, como uma forma de buscar singularizar-se e construir a sua identidade. Essa fase também é fortemente caracterizada pela necessidade de desenvolvimento do sentimento de pertença social, ou seja, a necessidade de fazer parte de um grupo; de constituir suas próprias “tribos”, compartilhando de valores, concepções, ideologias sobre a vida e o contexto em que estão inseridos. Depois de conhecer mais profundamente as ideias de Erick Erikson sobre a adolescência e relembrando esse momento de sua vida, você consegue encontrar identificações entre o que viveu e a teoria do autor? Já para Jean Piaget, a adolescência é descrita como um período caracterizado pelas operações formais – ou seja, pela capacidade de pensar abstratamente –, correspondendo ao período que vai dos 12 anos de idade em diante. Igualmente ao ECA, temos os 12 anos como a idade que delimita a entrada na adolescência. O desenvolvimento do pensamento filosófico, científico e matemático, característico do período operatório formal de Piaget, inclui a apreensão com o futuro, quer dizer, um olhar para os anseios, os valores e as ideologias adolescentes. Estudamos a Teoria da Epistemologia Genética de Jean Piaget nas unidades 3, 16 e 17 (retome sua leitura, se necessário). Outro autor que www.esab.edu.br 193 estudamos e que trouxe contribuições valiosas para a compreensão da adolescência foi Sigmund Freud. Você lembra que conhecemos a teoria psicanalítica freudiana na unidade 28? Pois é, Freud denominou a fase da adolescência como genital. Ela corresponde à fase de desenvolvimento psicossexual atrelada ao desejo/prazer, direcionados, predominantemente, aos órgãos genitais. Há, então, uma subordinação das pulsões parciais ao primado da genitália, não atingida, jamais, na infância (ao menos, não completamente). O estabelecimento desse primado genital se põe a serviço da reprodução, sendo esta a última fase por que passa o ser humano, na sua organização psicossexual. É importante que saibamos que a adolescência é também uma construção histórica, uma vez que as significações sociais atribuídas ao adolescente e a seu corpo (nas modificações por ele sofridas) suscitam o descontentamento e o desejo de transformação da realidade, muitas vezes, exprimidos por meio da agressividade. Por fim, lembremos que ao apontar a adolescência como uma fase transitória de mudanças, Erikson (apud BARROS, 2008) refletiu sobre a importância do estabelecimento de papéis responsáveis, pelos adolescentes. Inspirados em Erikson, em Piaget e nos demais autores, devemos instigar em nossos alunos o senso de responsabilidade individual e social, convocando-os a se comprometerem com o futuro, quer seja estudando, quer seja escolhendo uma profissão, mas agindo no sentido de assumir paulatinamente seu papel em sociedade. Nesta unidade, refletimos sobre as influências da agressividade vivenciada/ experimentada na adolescência e seus reflexos no processo de ensino- aprendizagem, apoiados em Bock, Teixeira e Furtado (2009) e outros importantes intercessores da Psicologia, como Jean Piaget, Sigmund Freud e Erick Erikson. Neste último, nos concentramos em suas contribuições sobre a quinta idade, que corresponde ao estágio entre a infância e a idade adulta. Mencionamos também o Estatuto da Criança e do Adolescente, por representar um importante documento oficial, norteador dos direitos e medidas protetivas à infância e à adolescência no país. Na próxima unidade, voltaremos ao tema aprendizagem, concentrando nosso debate nos problemas e dificuldades de aprendizagem. Contamos com você! www.esab.edu.br 194 34 Problemas de aprendizagem Objetivo Entender os problemas relacionados à aprendizagem. Na unidade anterior, dialogamos com diferentes autores a respeito dos seus múltiplos olhares sobre a adolescência, sendo a Psicologia científica e o Estatuto da Criança e do Adolescente os “lugares” dos quais partimos para a construção desses diálogos. Nessa unidade, focaremos nos problemas de aprendizagem das crianças e adolescentes causados por deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/superdotação. Nossas reflexões serão fundamentadas por Coll, Marchesi e Palacios (2004b), José e Coelho (2009) e, ainda, pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), enquanto importante documento norteador das ações educacionais do país. Vamos juntos! Pensar os processos de aprendizagem das crianças e adolescentes que apresentam necessidades educativas especiais causadas por deficiências, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação implica mergulhar em um universo de diversidades, dada a complexidade que o tema apresenta. Essa temática envolve conceitos sempre muito conflitantes e polêmicos – “normalidade” e “anormalidade”, “dificuldades”, “problemas”, “distúrbios” e “transtornos de aprendizagem” – e que às vezes se fundem e se confundem nas esferas teóricas e práticas, ou são empregados indiscriminadamente nas escolas. Assim, para começarmos a entender essa temática, iniciaremos nossa discussão conceituando “dificuldades”, “distúrbios”, “transtornos” e “problemas de aprendizagem”, para em um segundo momento, problematizarmos as dificuldades de aprendizagem das crianças e adolescentes no contexto educacional escolar. A vasta literatura existente costuma relacionar o termo dificuldade à perspectiva preventiva de problemas, problemas www.esab.edu.br 195 centrados exclusivamente no aluno. Já o termo distúrbio aparece mais atrelado à perspectiva clínica ou remediativa e, ainda, centrado no indivíduo, na medida em que sugere a existência de comprometimentos neurológicos no aluno. Sobre problemas e distúrbios de aprendizagem, Paz (apud JOSÉ; COELHO, 2009) ressalta o desafio em distinguir “problema de aprendizagem” de “distúrbio de aprendizagem”. O mesmo autor define problema de aprendizagem como um sintoma, algo passageiro e inscrito em um conjunto de comportamento muito peculiar, demarcado pela descompensação. Nesse contexto, todos os problemas de aprendizagem apresentados pelos alunos no processo de ensino e aprendizagem escolar adquirem o significado de anormalidade/ doença, tendo em vista a alteração da ordem “natural” da aprendizagem, obviamente presente em quem aprende. Essa compreensão nada mais é do que fruto de um pensamento médico. Apesar da maioria dos educadores nem sempre conseguirem explicar nitidamente o seu significado – ou os critérios sobre os quais embasam suas percepções, não tem sido incomum assistirmos à expansão do termo “problema” nos contextos educacionais escolares, um reflexo do processo de patologização dos alunos que apresentam tempos e modos diferentes de apropriação dos conteúdos escolares. Isso demonstra a presença de uma forte visão médico/clínica sobre os processos educativos voltados para esses educandos. E que implicações essa visão pode trazer ao ser incluída no ambiente escolar? Crianças com dificuldades de aprendizagem, mesmo sem apresentarem nítidos comprometimentos de ordem física, sensorial, intelectual ou emocional, têm sido facilmente confundidas (e apontadas) entre educadores como crianças com “problemas de aprendizagem”. Outro termo bastante recorrente na literatura especializada é “transtorno”. Ele tem sido empregado para sinalizar um conjunto de sintomas e/ou comportamentos reconhecidos clinicamente e que guardam íntima relação com a ideia de sofrimento e interferência. Ao contrário do que possamos pressupor, os transtornos relacionados www.esab.edu.br 196 às habilidades escolares não decorrem da falta de oportunidade para aprender nem de qualquer traumatismo ou doençacerebral adquirida; originam-se de anormalidades no processo cognitivo derivadas de algum tipo de disfunção biológica. Apresentada a discussão das bibliografias sobre os conceitos que fundamentam os processos de aprendizagem das crianças e adolescentes que apresentam necessidades educativas especiais causadas por deficiências, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/ superdotação nas escolas, vamos, agora, discutir o tema fundamentado no documento do MEC, denominado Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva. Esse documento orienta, na atualidade, a teoria e prática da Educação Inclusiva. A partir desse documento nacional, a terminologia “distúrbio” é alterada, não sendo mais empregada para se referir a alunos com problemas de aprendizagem, atualizando-se a maneira de se conceber os problemas apresentados no Desenvolvimento Humano. A Política Nacional de Educação Especial, diante da Perspectiva da Educação Inclusiva, apresenta suas noções de “normalidade” e “anormalidade” e define o que considera alunos com “deficiência”, “transtornos” e “altas habilidades/superdotação”. Vejamos algumas definições apresentadas por esse documento (BRASIL, 2008): • alunos com deficiência: aqueles que apresentam impedimentos de longo prazo, de qualquer natureza (física, mental, intelectual ou sensorial); • alunos com transtornos globais de desenvolvimento: aqueles que apresentam alterações qualitativas nos processos de interação e comunicação, em um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. É o caso de alunos com autismo, www.esab.edu.br 197 síndromes do espectro do autismo, conhecidamente como Síndrome de Asperger e psicose infantil. Por transtornos globais de desenvolvimento, entendemos aqueles que abrangem as diferentes áreas, a exemplo da linguagem e do comportamento, acometendo-os de maneira ampla, devido às perturbações conjuntas; • alunos com altas habilidades e/ou superdotação: por alunos com altas habilidades e/ou superdotação, entendem-se os que demonstrarem potencial elevado em quaisquer das áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de criatividade destacada, profundo envolvimento na aprendizagem e na realização de tarefas em áreas de seu interesse. Não se preocupe com o domínio dos casos, agora, pois aprofundaremos esse conhecimento nas unidades que seguem. Neste momento, importa conhecer as especificidades da Lei sobre a qual se assenta a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, no Brasil. A educação especial vem buscando atuar, de forma articulada, ao ensino comum, na perspectiva da inclusão de alunos com deficiência, transtornos globais e altas habilidades e/ou superdotação nos sistemas de ensino regulares. Os casos de transtornos funcionais específicos (dislexia, transtorno de atenção e hiperatividade, por exemplo) também estão incluídos na perspectiva de inclusão (nós os discutiremos detalhadamente nas unidades que seguem). A Política Nacional de Educação Especial considera, ainda, que a perspectiva inclusiva de ensino busca reparar os processos de exclusão historicamente experienciados pelos alunos que apresentam necessidades educativas especiais causadas por deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/superdotação nas escolas brasileiras por meio de ações articuladas na tentativa de garantir o acesso, a permanência e o sucesso escolar desse alunado. É sob essa noção que se fundamenta a ideia de inclusão, enfatizando a importância de ambientes heterogêneos para a promoção da aprendizagem de todos os alunos. De acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), o acesso desses alunos ao ensino regular deve incluir a sua participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais elevados do ensino. Portanto, os sistemas de ensino devem www.esab.edu.br 198 assegurar currículo, métodos, recursos e organização específicos, visando atender às suas necessidades, a exemplo da acessibilidade arquitetônica nos mobiliários, comunicação, informação e transportes. A Política Nacional também prevê a aceleração de estudos, com vistas à conclusão do programa escolar, aos considerados com altas habilidades e/ou superdotação. Os sistemas regulares de ensinos devem prever, ainda, a formação de professores e demais profissionais da educação. Fazer valer os direitos de alunos com deficiência, transtornos e altas habilidades/ superdotação é um dever do Estado, uma vez que esses alunos precisam ter assistidas suas necessidades para que efetivamente possam aprender. Daí, a importância de promover a melhoria das condições de ensino das escolas, no que diz respeito aos diversos aspectos relacionados ao atendimento de crianças e adolescentes com dificuldades e/ou problemas de aprendizagem. Diversos são os problemas que podem afetar a aprendizagem dos alunos, como os da linguagem, os da leitura, escrita e aritmética, os psicomotores, os da saúde física e os de comportamentos. Os problemas podem se desencadear tanto no início quanto durante o processo de aprendizagem, surgindo em situações específicas para cada aluno. Cabe ao educador detectá-los para fazer o devido encaminhamento ao profissional especializado na área em que a deficiência se apresenta. É imprescindível que o professor conheça as características e comportamentos típicos de cada etapa da evolução do pensamento infantil para evitar incorrer em erros como o de considerar a fase do egocentrismo, um momento previsível do comportamento pré-operatório da criança, um problema. Finalizamos essa unidade, procurando ressaltar a importância do seu papel, enquanto futuro educador, no sentido de auxiliar o aluno a aprender. Esteja ciente de que o despreparo profissional pode, facilmente, levar ao mau entendimento da necessidade educativa especial apresentada por alunos que demandam outras estratégias de ensino para acessarem o currículo escolar. Na próxima unidade, nós nos concentraremos na compreensão de alguns dos problemas de aprendizagem que podem apresentar os alunos com deficiências, transtornos e altas habilidades/ superdotação. Continue conosco! www.esab.edu.br 199 Saiba mais Para materializar a discussão que estamos fazendo até aqui, sugerimos o vídeo: A Política Nacional para a Educação Inclusiva: Avanços e Desafios, disponível clicando aqui. http://www.youtube.com/watch?v=AUL62tZIFYY www.esab.edu.br 200 35 Dificuldades na aprendizagem Objetivo conhecer as dificuldades de aprendizagem causadas por deficiências, transtornos e síndromes no contexto escolar. Na unidade anterior, trouxemos à discussão as necessidades educativas das crianças e adolescentes que apresentam deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/superdotação. Entendemos ser imprescindível que você, educador em potencial, possa não só identificar, mas compreender os tantos problemas relacionados à aprendizagem escolar de seus alunos, bem como as dificuldades de aprendizagem. Por essa razão, faremos, nesta unidade, um mergulho sobre algumas dessas dificuldades, na visão de Coll, Marchesi e Palácios (2004b). Centraremos esforços para defini-las e caracterizá-las e buscaremos refletir sobre as possibilidades de condução pelo educador. Vamos lá?! São inúmeras as dificuldades de aprendizagem com as quais podemos nos deparar, enquanto educadores, nos contextos educacionais escolares: as relacionadas à linguagem (como a mudez e a gagueira); as relacionadas à leitura, escrita e aritmética (como a dislexia e a disgrafia); as relacionadas à psicomotricidade (como a instabilidade e a inibição); as relacionadas à saúde física (como a visão e a audição); e as relacionadas ao comportamento (como a agressividade e o medo). Por dificuldade de aprendizagem entendamos um tipo de desordem manifestadapor impedimentos significativos na aquisição e uso da linguagem ou de qualquer outra área do desenvolvimento, gerando uma discrepância entre a capacidade do indivíduo de aprender e o seu nível de realização. Faremos, agora, um recorte das dificuldades de aprendizagem. Comecemos, falando dos transtornos funcionais específicos ‒ conforme preconiza o documento “Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva de Educação Inclusiva (BRASIL, 2008)”, relacionados à leitura, escrita e aritmética. Muitas das dificuldades de crianças e adolescentes encontradas na escola estão relacionadas à dislexia, disgrafia, www.esab.edu.br 201 discalculia, dislalia, disortografia e ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Certamente, muitas dessas nomenclaturas são novas para você, não é mesmo? Vamos conhecer cada uma delas? A dislexia é apontada por Coll, Marchesi e Palácios (2004b) como uma dificuldade que se configura no momento em que o aluno começa a tomar contato com o universo da leitura, impedindo a sua fluência, pois faz com que ele realize trocas e/ou omissões de letras, além de inverter sílabas e realizar uma leitura demasiadamente lenta. O estudante começa a dar “pulos de linhas” ao ler uma história e/ou um texto. Essa dificuldade de aprendizagem é bastante comum, concorda? Há estudos que apontam para a relação da dificuldade de aprendizagem a fatores genéticos, mas até o presente momento não há qualquer comprovação do ponto de vista médico. A disgrafia está correlacionada à dislexia, porque, igualmente, aqui, o aluno realiza trocas e inversões de letras, encontrando uma dificuldade considerável na escrita. A diferença é que na disgrafia, a dificuldade se assenta nas letras mal traçadas, ilegíveis, geralmente muito próximas umas das outras, terminando por imprimir um texto desorganizado. Crianças que apresentam esse transtorno costumam ser mal entendidas e traduzidas como “pouco caprichosas”. A disortografia está atrelada à dificuldade na escrita e é considerada, na literatura especializada, como consequência da dislexia. As principais características da disortografia são a desmotivação para escrever, as trocas de palavras e/ou fonemas, a falta de percepção, a desorganização na escrita, a incompreensão dos sinais de pontuação e acentuação e a aglutinação ou separação indevida de palavras. Não é incomum encontrarmos crianças com esse transtorno sendo consideradas “desinteressadas”, “pouco caprichosas” e “desatentas”. Essas dificuldades relacionadas à linguagem escrita estão ligadas a questões cognitivas, emocionais e sociais, diretamente vinculados ao processo de alfabetização infantil. Por sua vez, a discalculia se caracteriza por uma dificuldade associada a cálculos e números. No contexto escolar, ela é comum em alunos que apresentam dificuldades na identificação dos sinais das operações matemáticas. Quem apresenta essa dificuldade não consegue identificar e utilizar os sinais das operações. Em uma tarefa proposta em sala de aula, que requer a resolução de um problema matemático, o aluno com discalculia, ao ler o enunciado do problema, simplesmente não consegue interpretá- lo, fazer comparações, entender as sequências lógicas e quantificar. A dislalia é uma dificuldade associada à emissão da fala. A criança com www.esab.edu.br 202 essa dificuldade apresenta uma pronúncia de palavras caracterizada por trocas de fonemas e emissão de sons errados. Comumente, são as crianças que falam como o personagem Cebolinha, ou seja, trocam o r pelo l. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade tem sido muito citado entre educadores nos contextos educacionais escolares, liderando, muitas vezes, diagnósticos equivocados, relacionados a crianças que apresentam um comportamento consideravelmente agitado, somado a certo nervosismo e desatenção. Essas características do comportamento das crianças podem estar associadas a outras questões (a exemplo das de ordem emocional); por isso, é tão importante o olhar atento por parte do educador, evitando os rótulos. É importante que a criança e/ou adolescente seja encaminhada a um profissional especializado para um diagnóstico preciso. O TDAH é considerado uma dificuldade de ordem neurológica, caracterizada pela inquietude e impulsividade, e extremas falta de atenção e concentração. Lembremos que o TDAH faz parte do hall de transtornos globais de desenvolvimento, conforme o documento da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Sendo assim, o consideraremos como um problema que pode gerar perturbações em outras áreas do organismo. No contexto educacional escolar, também é muito comum encontrarmos distúrbios do comportamento, como a agressividade, o medo, a fobia escolar, o ciúme, a timidez, a fantasia, o negativismo, a agitação, a inquietude e instabilidade, os problemas relacionados à sexualidade, à família e ao autismo infantil. Certamente, algumas dessas dificuldades de aprendizagem são conhecidas para você. A depressão infantil está intimamente atrelada a problemas de ansiedade e de conduta no contexto escolar. Há vários fatores que podem levar a criança a um quadro de ansiedade, característica de um quadro patológico, a exemplo da angústia da separação em relação aos pais, a fobia escolar, a ansiedade diante de pessoas desconhecidas, a ansiedade excessiva e generalizada por qualquer motivo. As dificuldades emocionais podem se manifestar de diferentes www.esab.edu.br 203 formas, por intermédio de tiques, enurese, encoprese, terrores noturnos e/ou sucção do polegar. A falta de um olhar atento para a relação dos alunos entre si e deles com a aprendizagem, pode deixar passar despercebida uma dificuldade na aprendizagem, uma vez que tal dificuldade pode parecer invisível aos olhos pouco atentos, como é o caso da timidez. Alunos muito tímidos têm, geralmente, dificuldades de se relacionarem com os seus colegas, tendendo ao isolamento. O isolamento é também um aspecto marcante do autismo. O autismo infantil é caracterizado por uma profunda interiorização, um voltar-se para dentro, e um pensamento, muitas vezes, desconectado do “real”. Alunos com síndromes do espectro do autismo – conhecida como Síndrome de Asperger – também podem experienciar o isolamento. Ela se diferencia do autismo clássico por apresentar fala compreensível. Outras dificuldades de aprendizagem muito comuns nos contextos educacionais escolares são as ligadas à psicomotricidade, tais como: • instabilidade psicomotora: é considerada a mais complexa e capaz de desencadear uma série de outros transtornos. É caracterizada por uma atividade muscular incessante, de modo que o aluno quase nunca conclui a atividade iniciada. A agitação é tanta que alunos com esse transtorno não podem permanecer em um grupo comum, necessitando, muitas vezes, de atendimento individualizado; • debilidade psicomotora: é caracterizada pela presença da paratonia (rigidez muscular) e sincinesia (movimento involuntário dos músculos). Assim como os alunos com transtorno de instabilidade, alunos com debilidade psicomotora precisam de atendimento individual ou em pequenos grupos; • inibição psicomotora: é caracterizada pela presença da ansiedade mais contida, por isso, a inibição. Alunos com esse distúrbio costumam, entre outros comportamentos, franzir constantemente as sobrancelhas e apresentar problemas de conduta. Essas características também são comumente encontradas em pessoas que não apresentam esse distúrbio de aprendizagem; www.esab.edu.br 204 • lateralidade cruzada: a lateralidade cruzada diz respeito à dominância de membros que se encontram em lados opostos do corpo, a exemplo da mão direita e pé esquerdo, revelando a presença de um distúrbio psicomotor e consequente comprometimento da imagem corporal; • imperícia: trata-se de um distúrbio de menor gravidade e demarcado por certo grau de frustração diante de atividades que requeremhabilidades manuais, a exemplo da letra, que se mostra irregular. Veja a seguir um quadro com algumas possibilidades de atuação, pelo educador, diante de algumas dificuldades de aprendizagem. Trataremos daquelas relacionadas à linguagem, na unidade que segue. Área da dificuldade Dificuldades específicas Práticas pedagógicas (trabalho de estimulação). Psicomotricidade Esquema corporal Pular com os pés juntos e alternando pés e braços. Lateralidade Traçar o contorno da mão dominante; erguer a mão direita e esquerda, fazendo movimento de pinça. Ritmo Levantar e abaixar na ponta dos pés; andar com objeto sobre a cabeça. Coordenação geral e orientação espaço- temporal Andar devagar e rápido; bater bola e pular corda, devagar e rápido. Coordenação visomotora Fazer recortes a dedos ou com tesoura; colorir com pincel. Grafismo Traçados livres e garatujas; desenhos livres e orientados. Leitura, escrita e aritmética Dislexia Restaurar a confiança do aluno, ajudando-o a vencer o rótulo de “mau aluno”; sentar ao lado dele para diminuir a troca de posições (má orientação corporal). Comportamento Medo Ouvir os motivos do medo e amparar a criança amedrontada. Agressividade Estabelecer regras de comportamento, aceitando sugestões e argumentando, seriamente, sobre as consequências da agressividade. www.esab.edu.br 205 Saúde física Visão A visão embaçada pode ser corrigida com lente de contato; sistema braile (sistema de leituras com tato). Audição Tocar instrumentos; estimular a identificação de sons dos animais e da natureza. Epilepsia Durante a crise, não interferir nos movimentos; terminada a crise, agasalhar o aluno e deixá-lo em repouso até o despertar espontâneo. Disritmia cerebral Encaminhar ao neurologista e psicólogo; estimular a segurança e confiança pessoal. Quadro 4 – Pensando alternativas para as dificuldades de aprendizagem. Fonte: Adaptado de José e Coelho (2009). Existem também as dificuldades relacionadas à saúde física, como você pode observar no Quadro 4. As dificuldades relacionadas à aprendizagem podem estar atreladas aos aparelhos da visão e audição, além da disritmia cerebral e à epilepsia, todas por comprometimento do aparato físico/orgânico. Quando a criança não consegue ler alguma palavra e/ou escrever, começa a se aproximar muito do livro e quando troca a palavra ou se queixa frequentemente de dor de cabeça, pode ser indício de que não está conseguindo enxergar direito e possui um comprometimento do órgão da visão. As perdas de audição também podem ser detectados pelos comportamentos emitidos pela criança, como virar a cabeça em direção à produção do som, de modo incomum, e pelo uso demasiado do “o quê?” e “como?”. Pois bem, caro aluno. Obviamente, não devemos sair por aí “colando selos” nas pessoas, quer dizer, rotulando as crianças somente porque essa ou aquela franze a testa e apresenta problemas de conduta. Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. www.esab.edu.br 206 36 Dificuldades educativas especiais relacionadas à linguagem Objetivo Compreender as dificuldades educativas especiais relacionadas à linguagem apresentadas pelos estudantes na escola. Após o conhecimento das principais dificuldades de aprendizagem e de algumas alternativas para superá-las, nesta unidade, abordaremos as dificuldades educativas especiais relacionadas diretamente à linguagem, contextualizadas nas relações educacionais escolares, com vistas a refletir sobre as suas implicações no processo de ensino-aprendizagem. Partiremos dos preceitos teóricos de Coll, Marchesi e Palacios (2004b) e de José e Coelho (2009) para essa compreensão. Também utilizaremos as orientações da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Contamos com você como nosso parceiro de percurso. Vamos juntos! Inicialmente, saiba que as dificuldades educativas especiais relacionadas à linguagem decorrem, de acordo com Coll, Marchesi e Palacios (2004b), de duas dimensões essenciais: do orgânico/biológico ou do psicológico (considerado o aspecto emocional). Quando falamos em linguagem, logo nos vêm ao pensamento a fala e a possibilidade de comunicação que dela decorre. Trata-se da linguagem oral que empregamos em nossas relações cotidianas e sempre que queremos nos fazer compreendidos naquilo que comunicamos. Algumas das dificuldades educativas especiais estão diretamente relacionadas à capacidade de comunicação, envolvendo a fala e a compreensão. Entretanto, não caiamos no erro de achar que a linguagem se restringe ao falar e ao entender. Ao contrário do que imaginamos, a linguagem é mais ampla e vai muito além do ato de falar e entender uma mensagem. A Lei nº 10.436/2002 e o Decreto nº 5626/2005, referentes a códigos e linguagens, apresentam-nos a língua de libras, que segundo estes instrumentos legais citados, compreende uma língua capaz de expressar qualquer ideia por atender a todas as características das línguas orais. O sistema de libras visa retirar as www.esab.edu.br 207 comunidades surdas da margem cultural e linguística. A língua de sinais foi oficializada em 2002, pela Lei nº 10.436 e a partir desse instrumento, passou a ser considerada a segunda língua oficial no Brasil. Saiba mais Para saber um pouco mais sobre a língua de sinais, assista ao vídeo “Orquestra de sinais”, episódio da série “Toda criança é única”, disponível clicando aqui. Os transtornos de linguagem na escola, conforme explicitado por Coll, Marchesi e Palacios (2004b, p. 79): [...] recebem contribuições de disciplinas tão diversas como a psicologia, a educação, a medicina, a audiologia ou a linguística. Não há de se estranhar, portanto, que a denominação e a categorização dos transtornos sejam muito diversas e, às vezes, até mesmo confusas. Por isso, é importante que saibamos que quando falamos em transtornos de linguagem, correlacionando-os à aprendizagem escolar, estamos falando da necessidade diferenciada apresentada por uma criança ou adolescente em acompanhar o ritmo de aprendizagem dos demais. A diferença de ritmos na aprendizagem é facilmente perceptível em momentos iniciais do desenvolvimento psíquico da criança. Algumas crianças, aos dois anos de idade, conseguem formar frases completas, enquanto outras, com a mesma idade, conseguem apenas pronunciar palavras soltas. Mas isso não significa um atraso no desenvolvimento por parte daquela criança que não pronuncia a frase completamente. Daí, a importância de destacarmos que existe uma diferença entre transtorno e atraso. Coll, Marchesi e Palacios (2004b) afirmam que quando um aluno tem um atraso no desenvolvimento da linguagem, significa que ele apresenta um ritmo de desenvolvimento mais lento. Já um transtorno de linguagem reflete uma diferença entre esse aluno e as outras crianças, se considerada a etapa de desenvolvimento psíquico. Um transtorno de linguagem, em geral, é determinado comparando-se o desenvolvimento da linguagem de uma criança com o de outra de mesma idade e http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_zoo&view=item&item_id=2180 http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_zoo&view=item&item_id=2180 www.esab.edu.br 208 desenvolvimento. Os sinais de transtornos de linguagem sempre levam em consideração esses dois aspectos: o crescimento e o desenvolvimento da criança. Quando as habilidades pré-verbais (a exemplo do balbucio) e verbais iniciais (a exemplo das primeiras palavras) não se desenvolvem, temos motivos justificados para preocupação, pois o atraso na linguagem pode ser o primeiro sinal de uma alteração no desenvolvimento psíquico. Por volta dos dois anos de idade, a maioria das crianças de desenvolvimento “normal” está acrescentando vocabulário novo ao seu repertório de palavras e se apresenta como comunicadora entusiástica. Não é o caso de crianças com distúrbio de linguagem,pois estas utilizam vocabulário mais restrito e apresentam problemas em comunicar desejos e necessidades. As principais dificuldades educativas especiais relacionadas à linguagem são: os problemas graves de comunicação; o mutismo seletivo; a disfemia; a dislalia; as disglosias; os atrasos da fala; e a disfasia. Os transtornos de linguagem aparecem ligados às dificuldades de ordem morfológica, lexical, fonológica e sintática. Os problemas graves de comunicação estão ligados às dificuldades cognitivas que se relacionam a transtornos como o autismo e a psicose. O autismo foi apresentado como um transtorno global do desenvolvimento na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, certo? A psicose é uma designação genérica das doenças mentais caracterizadas pela perda do contato com a realidade. Esses transtornos são bastante comuns em crianças autistas. O mutismo seletivo ocorre principalmente em crianças por volta dos cinco anos de idade e em crianças muito tímidas. Segundo Coll, Marchesi e Palacios (2004b, p. 79): “[...] O mutismo seletivo é um transtorno pouco frequente que se caracteriza pela ausência total e persistente da linguagem [...]”. Esse distúrbio caracteriza-se pela ausência total da linguagem e ocorre em crianças expostas a situações e/ou circunstâncias que as deixam inseguras para se expressarem. Essa mesma criança pode falar e se expressar muito bem em outro contexto. A disfemia, também conhecida como gagueira, caracteriza-se como um transtorno que altera a fluidez da fala, podendo ter início entre os dois e os sete anos de idade e tem como principal característica a interrupção www.esab.edu.br 209 no ritmo e na harmonia do discurso. Há dois tipos de gagueira: a gagueira crônica, que consiste na repetição de palavras e/ou sílabas; e a gagueira tônica, que consiste em bloqueios. Normalmente, as duas aparecem juntas. É necessário diferenciá-las da disfemia fisiológica, que aparece por volta dos 3 anos de idade – nessa idade, a criança está em um momento importante de desenvolvimento da linguagem e a gagueira deve ser interpretada como um sinal dessa organização. Lembra-se de quando falamos da fala caótica, sugerida à criança até os seus 3 anos, por Vygotsky? Esse momento da fala começa a ser superado pela mudança de função da linguagem, quando a fala começa a auxiliar a criança no plano da ação. É disso que estamos tratando quando nos referimos à organização da linguagem. As disglosias (ou dislalias orgânicas) são dificuldades na produção oral, devido a alterações anatômicas e/ou fisiológicas dos órgãos articulatórios. Essas dificuldades estão associadas à fisiologia da boca, como os lábios leporinos. As carências referentes à fala estão relacionadas aos atrasos na linguagem. Como vimos, a expressão “atrasos” está relacionada a uma defasagem cronológica importante entre a linguagem que uma criança apresenta e o que é esperado que ela apresentasse na sua etapa de desenvolvimento psíquico. Esse termo é usado para caracterizar as dificuldades que alguns estudantes possuem no sistema fonológico, representando uma problemática global no desenvolvimento da criança. A disfasia é um transtorno profundo dos mecanismos de aquisição da linguagem e consiste na repetição de palavras e/ou sílabas. Poderíamos ressaltar que se trata de uma gagueira leve ou pseudogagueira. Compreende, de acordo com Coll, Marchesi e Palacios (2004b), transtornos relacionados à linguagem: • transtorno da linguagem expressiva: é caracterizado por uma diferença, uma defasagem entre o que é esperado pela criança, na expressão de sua linguagem, e o que ela realmente é capaz de realizar. Crianças com esse transtorno têm algumas características peculiares, como: “[...] vocabulário limitado, erros nos tempos verbais, dificuldades na produção de frases de extensão ou complexidade próprias do nível evolutivo do sujeito” (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b, p. 80); • transtorno misto da linguagem receptivo-expressiva: é uma modificação do desenvolvimento da linguagem, tanto receptiva www.esab.edu.br 210 como expressiva. Costuma ser identificado nas crianças por volta dos 4 anos de idade; • transtorno fonológico: é caracterizado pela dificuldade em utilizar sons da fala, próprios da idade e do idioma da criança. Um exemplo no contexto escolar ocorre com aquela criança que, ao se comunicar com o professor, não consegue se fazer entender. Como já vimos anteriormente, a gagueira é a alteração na fala caracterizada por repetição de palavras e/ou sílabas e palavras fragmentadas; • gagueira: desenvolve-se por questões emocionais e/ou por bloqueios; • transtornos da comunicação não especificados: é um distúrbio que não está atrelado a nenhuma característica do transtorno de comunicação, por exemplo, um problema na voz. Dentro do contexto escolar, é fundamental que o educador perceba essas diferenças/particularidades de cada um e conheça as características do processo de aquisição da linguagem pela criança, desde os seus momentos iniciais de vida até a sua última etapa de desenvolvimento, com todos os comportamentos que a integram, para que possa mediar o desenvolvimento de seus alunos. Quaisquer dificuldades educativas especiais relacionadas à linguagem requer um olhar atento para a família a fim de detectar/identificar, em sua estrutura, as situações que o suportam e as razões das dificuldades que estão obstaculizando a aprendizagem. São imprescindíveis, também, os conhecimentos advindos da biologia, para que se possa ter condições de detectar problemas oriundos dos órgãos físicos – por exemplo do aparelho fonador, diagnosticando distúrbios da fala como a mudez, os problemas de articulação e os atrasos na linguagem. Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidades 28 a 36. Para isso, dirija- se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 211 Resumo Na unidade 31, vimos que, por meio das interações sociais, os alunos aprendem a se colocar no lugar do outro, relativizando os seus pontos de vista e superando o egocentrismo. Percebemos que os alunos, a partir de tais interações, progridem significativamente no processo de socialização e também no rendimento escolar. Na unidade 32, trouxemos à discussão um tema que tem despertado, na contemporaneidade, grande preocupação de estudiosos e profissionais envolvidos com a educação no país: a agressividade. Sob a ótica psicanalítica, analisamos as influências da agressividade nos processos de ensino-aprendizagem. Na unidade 33, continuamos abordando esse assunto a partir das ideias de Bock, Teixeira e Furtado (2009) e de outros importantes intercessores da Psicologia, como Jean Piaget, Sigmund Freud e Erick Erikson. Em Erick Erikson, concentramo-nos nas contribuições sobre a quinta idade, que corresponde ao estágio entre a infância e a idade adulta. Vimos as orientações presentes no Estatuto da Criança e do Adolescente em relação aos direitos e medidas protetivas à infância e à adolescência no país. Na unidade 34, dialogamos com diferentes autores sobre os problemas de aprendizagem, buscando refletir sobre as situações de crianças e adolescentes que apresentam problemas de aprendizagem causados por deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/superdotação – Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). O debate apresentado baseou-se na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), por suas orientações a respeito da educação no Brasil. Na unidade 35, trouxemos à discussão as dificuldades educativas das crianças e adolescentes que apresentam deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/superdotação, terminologia utilizada pelo documento PolíticaNacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), na visão de Coll, Marchesi e Palácios (2004b). Centramos esforços para defini-las e caracterizá-las e buscamos refletir sobre as possibilidades de condução pelo educador. Por último, na unidade www.esab.edu.br 212 36, abordamos as dificuldades relacionadas diretamente à linguagem, contextualizadas nas relações educacionais escolares, buscando refletir sobre as suas implicações no processo de ensino-aprendizagem e apresentar alternativas pedagógicas para o desenvolvimento dos alunos. Para essa compreensão, partimos dos preceitos teóricos de Coll, Marchesi e Palacios (2004b), José e Coelho (2009) e da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). www.esab.edu.br 213 37 Problemas no comportamento Objetivo Analisar os problemas no comportamento dentro do contexto escolar. Nas unidades anteriores conhecemos alguns problemas de aprendizagem vivenciados por crianças no contexto educacional escolar, como os relacionados à linguagem, à psicomotricidade e ao comportamento. Nesta unidade, retomaremos nossos estudos sobre os problemas de aprendizagem relacionados ao comportamento, contextualizando-os na escola. Enfatizaremos o autismo, a agressividade, o medo, as fobias, o ciúme, a timidez, os negativismos e a agitação. Faremos isso à luz dos autores Coll, Marchesi e Palacios (2004b). Venha conosco! Inicialmente, destacamos que os problemas familiares graves compreendem uma das causas desencadeadoras dos problemas de comportamento, que por sua vez podem ainda estar relacionados às questões escolares, como o desentendimento entre adolescentes e adultos; à baixa autoestima e apatia diante dos insucessos escolares; e às divergências entre os valores e padrões trazidos das famílias e aqueles veiculados na escola. Coll, Marchesi e Palacios (2004b) nos chamam atenção para o autismo, comportamento caracterizado por um voltar-se para si, um mergulho sobre si mesmo que leva a criança ao profundo isolamento e desconexão com a realidade. A criança com autismo vive em um mundo particular e apresenta dificuldades de se relacionar com as pessoas, incluindo os familiares − característica que se manifesta já na infância. Outra característica marcante da criança com autismo é o costume de se referir a si mesma como se estivesse se referindo a outra pessoa, quer dizer, com certo estranhamento de si e falando na terceira pessoa do singular. Você já teve a oportunidade de presenciar isso? Geralmente, a criança com autismo apresenta dificuldades de compreender os conteúdos que www.esab.edu.br 214 são construídos e socializados na escola. Costuma apresentar crises/ surtos psicológicos, requerendo atendimento especial e individualizado por parte do professor, interrompendo as atividades em grupo. Uma saída encontrada pelas escolas para assessorar a criança autista tem sido a contratação de um profissional especializado, conforme sugerido pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Porém, a designação desse profissional vai depender da natureza da instituição de ensino (se é pública ou privada) e da sua localização geográfica dentro do país – tendo em vista as diferenças socioculturais e políticas existentes. Dentro desse contexto, esse profissional pode ser um “cuidador”, “professor especializado”, “estagiário” entre outros. A intenção da contratação desse profissional é evitar que tanto a criança autista quanto a turma sejam prejudicadas do ponto de vista da aprendizagem. Como futuros educadores, podemos empreender ações importantes na relação com a criança autista, como tentar reduzir o alheamento. Tirar um objeto de suas mãos e devolvê- lo em seguida, aumentando, aos poucos, o tempo de extinção do objeto para ver se a criança o busca, pode ser uma boa estratégia para aprofundar interações. Outras ações também podem trazer resultados interessantes, como estimular as percepções sensoriais; sensibilizar a criança para a percepção do próprio corpo, auxiliando-a na execução de movimentos; estimular o olhar focado; explorar a motivação e eliminar qualquer possibilidade de distração. Mas cuidado! As atividades propostas pelo educador devem proporcionar êxito em um curto prazo – caso contrário, estarão fadadas ao insucesso. A música é um elemento muito importante, pois a percepção auditiva das crianças autistas é muito peculiar. Crianças autistas costumam ainda ser muito seletivas. Portanto, uma figura com riqueza de detalhes poderá confundi-las. Primeiramente, é fundamental que procuremos explorar apenas um sentido para depois fazer novas integrações. Durante a execução das atividades, o educador precisa ter disponibilidade para prestar auxílio físico frequentemente às crianças autistas. www.esab.edu.br 215 Figura 40 − Criança autista. Fonte: <www. shutterstock .com>. No que tange à agressividade (outro problema presente no contexto escolar), podemos afirmar que alguns fatores influenciam diretamente no comportamento da criança, como o convívio social conflitante e as agressões constantes no ambiente familiar. Já estudamos sobre isso na unidade 45 da disciplina de Psicologia da Educação do 1º MEG/ Módulo. Você se lembra de quando refletimos nas unidades anteriores sobre a relação estreita entre a agressividade e a violência? Pois bem, no contexto escolar esse problema de comportamento se apresenta de formas variadas: quando a criança chora compulsivamente, esperneia, esbraveja, apresenta ataques de fúria, que podem incluir agressões verbais ou mesmo agressões físicas, como murros, pontapés e mordidas. Algumas estratégias para relativizar a agressividade da criança podem ser empreendidas pelo educador, como a de se aproximar dela para abrir a possibilidade de um diálogo importante sobre seus sentimentos e atitudes. Outra estratégia que pode trazer resultados significativos é o teatro de bonecos. Por meio dessa atividade, o educador pode: representar conflitos do cotidiano infantil; dialogar sobre as noções de certo e errado; estimular atitudes não agressivas; ensejar trocas afetivas entre as crianças e orientá-las a informar sobre a ocorrência de qualquer comportamento agressivo. Essas são algumas dicas para trabalhar o bom convívio do grupo no contexto escolar. www.esab.edu.br 216 O medo é outro problema do comportamento muito presente em crianças nos contextos escolares. Ele está relacionado a dois elementos essenciais: a insegurança e/ou a falta de amor e proteção, presentes muitas vezes na relação com a família. Alguns fatores podem desencadear o medo na criança, por exemplo, ameaças dos adultos ou a imaturidade da criança, que não se torna independente, muitas vezes, devido à superproteção dos pais. Crianças muito medrosas, quando não acompanhadas psicologicamente, tendem a estender seus medos à adolescência e à vida adulta. Como educadores, devemos falar sobre o medo com a criança e incentivá-la a narrar o que sente. Nunca devemos confrontá-la na relação com o medo, mas deixá-la à vontade para que, no momento em que se sentir segura, ela mesma busque enfrentá-lo. Estimular a criança a fazer um desenho descrevendo o que sente e propor exercícios de relaxamento também pode ajudá-la. Saiba que há crianças que, mesmo contando com o apoio de adultos, não se sentem capazes de superar seus medos sozinhas. Essa é a ocasião exata para que o professor conte com o auxílio de um profissional especializado, que desenvolva um trabalho psicológico que ajude a criança a compreender os mecanismos desencadeadores do medo e a construir mecanismos de defesa e orientação diante das situações de medo. Falemos, agora, da fobia escolar, outro problema de aprendizagem vivenciado pelas crianças. A fobia escolar é definida pela incapacidade total ou parcial da criança em frequentar a escola, podendo acontecer em todos os níveis sociais e tambémem todos os graus de escolaridade. É desencadeada por uma ansiedade que antecede a ida à escola; há ocasiões em que a criança manifesta um medo considerável, vomita e até chora em atitude de recusa. Em alguns casos, essa fobia pode provocar falta de apetite, palidez e até febre na criança. Não devemos confundir a fobia escolar com o temor natural, sentido pela criança nos seus primeiros dias de inserção no universo social escolar. A fobia escolar tem como uma de suas principais causas o medo do abandono na escola, que perdura nas relações ao longo do ano letivo. É diferente do medo sentido pela criança quando inicia sua trajetória escolar: um medo pontual, localizado, que tende a desaparecer paulatinamente. A fobia escolar pode aumentar quando a mãe demonstra insegurança na condução do problema ou apresenta uma estrutura de personalidade www.esab.edu.br 217 vulnerável. Por exemplo, mães muito carentes, inseguras afetivamente, costumam transmitir essa carência/insegurança para a criança. Dessa maneira, a mãe acaba comprometendo o desenvolvimento psicológico e emocional da criança e enfraquecendo, inconscientemente, o processo de construção da liberdade e autonomia e prolongando a relação de dependência da criança com a mãe. O tratamento da criança com fobia escolar deve incluir a participação efetiva da escola, dos pais e do psicólogo. A interação entre eles permitirá que a criança supere, aos poucos, a fobia. É necessária uma intervenção psicoterapêutica, de tempo determinado, para que a criança volte a sentir confiança em si mesma e também nos outros, retomando a sua vida normal. O ciúme, quando faz parte de um problema, gera reações imprevisíveis e das quais a criança não tem controle – reações, muitas vezes, acompanhadas de sentimentos como a raiva, o ódio, a pena, a vingança, a tristeza e a culpa. Quando se torna um problema escolar, o ciúme precisa ser devidamente acolhido e trabalhado pelos professores em conjunto com a equipe de apoio especializado. Figura 41 – Criança com ciúme da mãe. Fonte: <www.123rf.com>. A timidez em excesso também é outro problema que deve ser observado pelos pais e/ou responsáveis e, ainda, pelos educadores, pois pode estar intimamente relacionada à baixa autoestima e complexo de inferioridade. A criança pode apresentar dificuldades de aprendizagem em determinados conteúdos e também uma dificuldade de convivência com o grupo de amigos do seu contexto escolar. Geralmente crianças muito tímidas são também crianças inseguras, medrosas. A timidez costuma aderir-se ao http://www.123rf.com/photo_11176712_jealousy-in-family-boy-girl-and-mother.html www.esab.edu.br 218 medo, um medo irracional de falar e ser humilhado ou ignorado pelas pessoas. Auxiliar a criança a compreender sua timidez e seus pontos fortes, transformando a autoconsciência em autoconhecimento, pode ajudá-la a relativizar a timidez excessiva, que dificulta o seu desenvolvimento sob vários aspectos (afetivos, psicológicos e sociais). Auxiliar a criança a aliviar a ansiedade, por meio da respiração, pode ajudá-la na comunicação e no estabelecimento de novos laços e interações. A fantasia é um problema de comportamento que se manifesta quando a criança, dentro do contexto escolar, começa a viver em um mundo à parte, fora da realidade. Muitas vezes, ela é um recurso empregado pela criança para fugir de uma realidade marcada por conflitos e dores, uma forma não consciente de evitar o contato com aquilo que causa sofrimento. A fantasia pode aparecer intimamente ligada ao medo. Estimular a criança a expressar o medo que sente pode deixá-la mais segura para enfrentar sua própria fantasia. O negativismo é definido como um problema que faz com que a criança resista persistentemente às imposições de um adulto. Essa resistência pode se manifestar por falta de obediência e de reconhecimento, muitas vezes, da criança diante da autoridade dos pais. No início, manifesta-se quando a criança se recusa a cumprir normas e regras de convivência escolar. Porém, essa resistência vai aumentando, ao ponto de essa criança parecer não ouvir (ignorar) o que os pais e os educadores solicitam. Quando o negativismo está instalado, o não costuma ser a primeira resposta da criança, uma primeira reação ao diálogo. Antevendo a batalha a ser travada sempre após uma solicitação à criança, pais e educadores tendem a se impor falando em tom de ameaça, como se a recusa já tivesse ocorrido. Essa atitude estimula a criança a reagir no mesmo tom, uma vez que o clima de hostilidade já está instalado na relação. Atitudes de oposição podem evoluir para alterações ainda mais sérias no comportamento. Por isso a importância de um acompanhamento psicológico, uma vez que o psicólogo pode ajudar a criança a lidar com a frustração e encontrar canais mais saudáveis de escoamento dos sentimentos de hostilidade. Portanto, ao sentir que a criança resiste de modo persistente às solicitações que são feitas a ela, o professor deve sinalizar a necessidade de intervenção de um psicólogo para realizar um trabalho junto à criança e aos pais. www.esab.edu.br 219 A convivência com pais agressivos, impacientes e ansiosos pode ser um fator desencadeante da agitação na criança. Algumas estratégias podem ser pensadas pelos educadores para auxiliar as crianças a baixar a ansiedade, sentimento que muitas vezes explica o seu comportamento extremamente agitado. Estabelecer com as crianças relações fundamentadas na calma, criar ambientes de tranquilidade, proporcionar exercícios ao ar livre, ou mesmo encaminhá-las para escolas de música, grupos, corais, danças ou uma atividade desportiva pode auxiliá-las a trabalhar a agitação. Vemos, portanto, que podemos encontrar muitos problemas desencadeadores de um desequilíbrio social e emocional na criança no contexto familiar. Pelo comportamento que a criança exprime e pelo modo como se coloca na relação com os colegas e professores, esse desequilíbrio muitas vezes se torna nítido em sala de aula. Essa desarmonia familiar pode acarretar uma dificuldade em assimilar os conteúdos escolares, gerando mau desempenho escolar. Entre os principais problemas familiares, destacamos a morte de entes queridos, a separação dos pais, a superproteção dos pais para com os filhos e a agressividade no lar. Na próxima unidade, vamos estudar as relações entre os alunos e o processo de aprendizagem escolar. Siga conosco! Dica Para mobilizar os conceitos e as noções importantes sobre os problemas de comportamento, especificamente o autismo, assista ao filme “Missão Especial – Uma Viagem Inesperada”, dirigido por Gregg Champion (EUA, 2004). O filme conta a história de uma mãe que descobre que seus filhos gêmeos são autistas e mostra a superação dos obstáculos impostos pela sociedade. Vale a pena! www.esab.edu.br 220 38 A relação entre os alunos e a aprendizagem Objetivo Compreender as relações entre os alunos e o processo de aprendizagem escolar. Estudamos, em unidades anteriores, as concepções de aprendizagem sob a luz de alguns teóricos importantes. Em unidades como a 3, 16 e 17 abordamos o construtivismo em sala de aula, e ainda, o behaviorismo em unidades como a 2, 13 e a 14, entre outras teorias. Nesta unidade, estudaremos a relação entre os alunos e a aprendizagem contextualizada no ambiente escolar. Para falar sobre esse tema (relação aluno- aprendizagem), é necessário entendermos primeiramente sobre interação, como vimos em outros módulos/disciplinas. Por representar um dos mais importantes autores nesse campo, recorreremos a Vygotsky (2002) para tratar da relevância da interação social na educação. Apresentaremos também a visão de Coll, Marchesi e Palacios (2004b) sobre a relação entre a interação social e a aprendizagem. Vamos lá! O desenvolvimento humano, a aprendizagem e as suas relações têm sido discutidas por diversas teorias de aprendizagem, configurando-se também como temas centrais na teoria de Vygotsky(2002). Para o autor, a educação e a interação social relacionam-se intimamente, uma vez que as interações sociais estabelecidas na relação entre professor e alunos suscitam trocas valiosas entre os sujeitos. Isso permite a apreensão dos signos, habilitando o ser humano a passar de um estado interpessoal a um estado intrapessoal. O processo de formação das funções psicológicas superiores da criança ocorre em dois momentos essenciais do desenvolvimento: inicialmente, em um nível interpsicológico ou interpessoal; posteriormente, em um nível intrapsicológico ou intrapessoal. www.esab.edu.br 221 O nível interpsicológico ou interpessoal corresponde ao nível das interações sociais, no qual as operações com os signos são externas à criança. No nível intrapsicológico ou intrapessoal, a criança já apreendeu os signos, sendo assim, a capacidade de operar com eles se dá internamente, ao nível da estrutura psicológica. Esse processo pelo qual a criança reconstrói internamente as atividades e relações é denominado por Vygotsky de internalização. Através desse processo, a criança passa a operar internamente com os signos da sua cultura, apropriando-se de seus elementos principais (das regras, dos valores, dos significados, dos conceitos, por exemplo). Dessa maneira, passa a construir estruturas mais complexas de pensamento, as chamadas funções psicológicas superiores − a memória seletiva, a atenção concentrada, o pensamento abstrato, a vivência emocional e a intencionalidade da ação. Nesse momento, as crianças tornam-se capazes de representar mentalmente os objetos, as situações e as relações com o mundo concreto e humano. É importante salientar que quando nos referimos à internalização dos signos, não estamos falando de uma internalização ao pé da letra, mas estamos fazendo remissão a uma reconstrução interna, que requer compreensão, domínio e manejo dos próprios conceitos. Figura 42 – Relacionamento interpessoal e intrapessoal entre crianças. Fonte: <www.123rf.com>. Espera-se que o processo de interiorização aconteça sem fragmentações, isto é, que as crianças possam internalizar o produto das interações e relações sociais (quer sejam as regras, os valores, os significados e os conceitos), compreendendo-os de modo a bem reconstruí-los internamente. www.esab.edu.br 222 Coll, Marchesi e Palacios (2004b) afirmam que, ao planejar uma determinada atividade dentro do contexto escolar, em uma proposta ‒ cognitivista de ensino-aprendizagem, o professor denota um significado ao conteúdo proposto ao educando, de modo a enfatizar uma ligação entre o assunto e o seu contexto social. Em outras palavras, estamos dizendo que ao oportunizar que a criança – na interação com um adulto (no caso, o professor) ou na interação com outras crianças mais experientes e capazes – realize uma determinada atividade, estamos conferindo a ela a oportunidade de ampliar seu desenvolvimento tendo em vista a mediação. É com base nisso que Coll, Marchesi e Palacios (2004b) ressaltam a importância de a criança ser mediadora da aprendizagem do outro. Na medida em que auxilia o colega no desempenho da atividade, a criança vai se apropriando de novos conceitos, (re)elaborando os já existentes − um processo valioso de autorregulação dos saberes. Ainda segundo Coll, Marchesi e Palacios (2004b), essa regulação é o princípio determinante da interferência educativa que se faz presente entre os sujeitos em meio aos processos de aprendizagem. Parece implícita a necessidade, por parte dos alunos, de compor uma reorganização coerente não apenas dos saberes, mas também do seu comportamento dentro do cenário educacional e das relações que se estabelecem entre eles, e entre eles e os professores. Como toda atividade de carácter intencional, o nível de ajuda mútua entre os estudantes precisa ser devidamente guiado pelo professor, para que sejam obtidos melhores resultados no processo de aprendizagem. Precisamos ter em mente que em todo processo educativo envolvendo o ensino e a aprendizagem, sempre há no mínimo dois atores – sujeitos com uma bagagem social e cultural muito particular e permeada por valores, princípios e crenças que fazem parte das suas vivências no contexto social –, o que implica dizer que há uma troca de significados variados, advinda de cada um dos polos dessa relação. Ressaltamos que no processo de ensino-aprendizagem, de uma maneira direta ou indireta, sempre estará presente o relacionamento humano. Essas relações desenvolvem-se a partir do modo como os alunos interagem entre si, e constroem-se a partir de saberes complexos, que abrangem www.esab.edu.br 223 conhecimentos com os quais estão familiarizados e ainda outros, construídos social e historicamente. É no contexto das relações escolares que a criança se apropria ativamente dos saberes acumulados e sistematizados historicamente pela humanidade, exercitando a maneira científica de pensar. Esse é o papel social da escola, um papel insubstituível, diga-se de passagem. É a escola a responsável por essa apropriação, uma vez que representa a agência formadora. Outro ponto inerente à relação entre os alunos e a aprendizagem é o fato de que as experiências emocionais e psicológicas que se desenvolvem na prática didático-pedagógica fortalecem a definição da inter-relação entre o ensinar, o aprender, o produzir e o reproduzir manifestações entre a escola e os seus sujeitos atores. O educando traz para o cenário educativo sua bagagem de conhecimentos, crenças, valores e modelos mentais sobre a realidade que o cerca, e tudo isso é aprimorado pelo educador visando à construção de um saber científico. Esse processo de construção do saber confirma a importância que possui o educador como mediador, pois a atuação desse profissional está relacionada à influência da escolha dos conteúdos que fazem parte do currículo escolar. Os conhecimentos prévios são vistos como princípios norteadores para a interpretação de informações recebidas pelos alunos sobre determinado assunto. Esse conhecimento também auxilia o aluno na seleção e organização dos diversos significados que dizem respeito ao conhecimento que o aluno possa adquirir sobre um determinado tema e são essenciais no processo de aprendizagem. Figura 43 – Interpretação das crianças sobre um conteúdo. Fonte: <www.123rf.com>. http://www.123rf.com/photo_10823900_illustration-of-a-teacher-discussing-environmental-awareness.html www.esab.edu.br 224 Observando a imagem, podemos inferir que a leitura empreendida pelas crianças sobre a sua realidade pressupõe a existência de uma bagagem de conhecimentos muito particular, permeada por valores, princípios e crenças que fazem parte das suas vivências no contexto social. Como vimos, no processo de ensino-aprendizagem o relacionamento humano sempre estará presente e será responsável pelo modo como os alunos constroem a si mesmos e o conhecimento, exercitando a maneira científica de pensar. Para finalizar a discussão, uma perspectiva de aprendizagem que privilegia a interação entre os alunos permite que as informações e conteúdos acumulados culturalmente por meio de materiais impressos diversos (tais como livros e revistas, ou mesmo por sites de internet) sejam temas de trabalho pelos educandos, mediados pelo educador, de modo que os estudantes possam trabalhar esse conhecimento criticamente. As interações sociais estabelecidas entre os alunos podem permitir a transformação do conhecimento de senso comum a conhecimento científico, mais elaborado, crítico e reflexivo, além da compreensão da realidade em que vivem. Na próxima unidade, vamos abordar as relações entre concepções pedagógicas e a prática escolar. Contamos com você como nosso parceiro nesse debate. Estudo complementar Para compreender melhor a importância de ações pedagógicas que levam em conta a participação dos alunos no processo de ensino-aprendizagem para a construção do conhecimento, leia o artigo “Processo ensino-aprendizagemna perspectiva das relações entre: professor-aluno, aluno- conteúdo e aluno-aluno”, escrito por Átima Clemente Alves Zuanon e publicado na Revista Ponto de Vista. Disponível clicando aqui. http://www.coluni.ufv.br/revista/docs/volume03/processoEnsino.pdf www.esab.edu.br 225 39 Propostas de ensino e a prática pedagógica Objetivo Relacionar as propostas de ensino e a prática pedagógica no contexto escolar. Na unidade anterior, vimos a importância do professor propor uma metodologia de trabalho que incentive e promova a interação social entre os alunos, assumindo um papel de mediador do processo de aprendizagem. Nesta unidade, relacionaremos a proposta de ensino e a prática pedagógica no contexto escolar. Entre as propostas de ensino que escolhemos para abordar, está a concepção construtivista de ensino, assinalada, segundo Coll, Marchesi e Palacios (2004b), não como uma teoria, mas como uma concepção explicativa, constituída por diferentes teorias que ajudam os educadores na elaboração do seu planejamento, bem como na sua aplicação e na sua avaliação no ensino. Primeiramente, ressaltamos que as relações sociais e as práticas pedagógicas que se desenvolvem em todo contexto escolar carregam em si determinadas ideologias. Deixar de ser um instrumento ingênuo na manutenção da ordem ideológica vigente para combater as justificativas ideológicas que permeiam as relações sociais escolares não é um processo simples para um educador. Requer, antes de tudo, a compreensão de como esse processo de produção das diferenças sociais ocorre. É nesse ponto que reside a importância do educador refletir sobre a sua prática docente, buscando produzir, a partir de um viés crítico e aprofundado, o aperfeiçoamento do seu fazer pedagógico para estabelecer novas relações dentro e fora de sala de aula. Enquanto uma prática social orientada por objetivos, conhecimentos e fins específicos, a prática pedagógica aparece recheada de contradições. Ao subestimarem a capacidade intelectual do aluno, as pedagogias espontaneístas – tais como as que concebem o aluno como uma sementinha que precisa desabrochar ou pensam o aluno como uma folha www.esab.edu.br 226 em branco que precisa ser emoldurada pelo ambiente – representam teorias educacionais que atendem aos interesses da classe dominante, na medida em que atribuem ao aluno a inteira responsabilidade sobre seu insucesso escolar. Nós refletimos ainda há pouco sobre algumas dessas pedagogias quando nos referimos à tipologia de aprendizagem associativa, representada pela concepção tradicional de ensino. Dica Assista ao filme “Sociedade dos poetas mortos”, dirigido por Peter Weir (EUA, 1989). O filme evidencia o processo educacional vivenciado por uma escola conservadora, nos Estados Unidos dos anos de 1950, e relata a ruptura da visão tradicional de ensino por um professor. O filme estimula o debate sobre o processo de ensino- aprendizagem e a motivação dos educandos. Aproveite! A concepção construtivista de ensino, por sua vez, deve ajudar o profissional da educação a pensar sobre sua postura e didática pedagógica, sobre como se aprende e como se ensina, sempre concebendo o contexto em que os educandos estão inseridos. Essa reflexão sobre a prática pedagógica abrange a necessidade de entender os temas do currículo escolar como produções sociais e culturais, o educador como ator mediador do conhecimento para o educando e para a sociedade, e o discente como aprendiz social. É importante ressaltarmos que a responsabilidade de uma educação de qualidade, compreendida como aquela que atende às várias culturas, não é somente do educador, e sim de toda uma equipe pedagógica. www.esab.edu.br 227 Nessa proposta, é necessário um trabalho em equipe de todos os professores, em que as regras e os objetivos têm que ser compartilhados com todos. A direção acadêmica dentro dessa proposta visa a que o indivíduo se articule e tome decisões de forma coletiva de modo que os materiais didáticos sejam todos elaborados em conjunto. Ainda nessa proposta de ensino, a formação continuada dos educadores e de toda a equipe pedagógica é fundamental; também é necessária a participação constante dos pais e/ou responsáveis no cotidiano escolar. A escola é caracterizada pelo seu papel social e socializador, sendo que por meio dela é que os indivíduos interagem com a cultura dominante na sociedade em que estão inseridos. Nessa concepção, a aprendizagem é vista como uma elaboração, um desenho mental que representa a realidade em que o estudante está inserido, traçado a partir das reflexões, vivências e dos conhecimentos adquiridos nessa relação. É necessário que a aprendizagem seja significativa para o educando. Os conteúdos do currículo escolar devem estar relacionados aos significados que eles têm para os alunos, refletindo um sentido e significado do seu contexto social/sua realidade. Refletindo sobre a vivência do professor dentro do contexto escolar, devemos destacar que essa concepção construtivista deve ser utilizada no compartilhamento de decisões acerca dos projetos didáticos e também nas rotinas pedagógicas da escola. Ao partir da realidade do cotidiano dos alunos, ou seja, dos conhecimentos com os quais estão familiarizados, apreendidos nas relações cotidianas e familiares, a escola abre possibilidades para que efetivamente a aprendizagem ocorra, uma vez que suscita a motivação pessoal para aprender. Estudamos nas unidades anteriores a relação intrínseca entre motivação e aprendizagem e vimos que a motivação pode ser uma importante aliada no processo de ensino-aprendizagem, dependendo de vários fatores, dentre eles do modo como o professor conduz o seu trabalho em sala de aula. Podemos nos perguntar: como acontece essa motivação? O que faz o aluno se interessar por este ou por aquele conteúdo? A resposta a essas questões está relacionada ao fato de que o aluno tem interesses ligados às suas emoções, e esses interesses são justamente o que mais os motivam a aprender sobre determinado assunto. Em relação ao grau de motivação www.esab.edu.br 228 pessoal dos alunos para aprender, de acordo com Coll, Marchesi e Palacios (2004b), há dois aspectos a serem considerados pelo educador. • Aspecto profundo: nesse aspecto, o educando motiva-se a entender o significado do que estuda e relaciona os temas curriculares estudados aos conhecimentos que ele já tem sobre o assunto. • Aspecto superficial: nesse outro aspecto, a intenção do aluno é apenas realizar os exercícios propostos, limitando-se a responder satisfatoriamente às atividades, sem compreender os conteúdos explicitados nelas como algo relacionado à sua vivência. É importante destacarmos que a relevância que o aluno atribui a uma atividade pode alternar entre um aspecto profundo e superficial. Essa variação na motivação dos alunos para aprender sob um aspecto e/ou outro está relacionada, entre outros fatores, à situação de ensino da qual esse educando está participando. Porém, o aspecto profundo pode ser trabalhado no contexto educacional de maneira intencional, ou seja, por meio de um ensino planejado detalhadamente pelo professor e por toda a equipe pedagógica, de forma a suscitar que o aluno empregue esse aspecto profundo da motivação em sua aprendizagem de forma duradoura. Outro ponto que merece destaque é que o educador traz consigo sua bagagem pessoal, sua visão de mundo, suas impressões sobre si mesmo, suas concepções sobre o ato de ensinar e aprender (em parte, fruto de sua experiência como aluno) e percepções sobre o mundo que o cerca. Isso certamente influencia sua prática pedagógica e sua relação com os educandos. É fundamental que os professores, em sua prática pedagógica, analisem os aspectos afetivos e relacionais das interações que estão presentes no contexto educacional, já que esses aspectos são fundamentais para a construção do conhecimento. www.esab.edu.br 229 Esses aspectos estão relacionados ao autoconceitoe à autoestima e, consequentemente, às representações e expectativas do aluno sobre o processo educativo. As interações escolares devem ser caracterizadas pelo respeito mútuo e pelo sentimento de confiança do aluno para com o professor e vice-versa. É a partir dessas interações que iniciamos o processo de educação. É fundamental pensarmos a avaliação como um instrumento que deve ser contemplado no planejamento didático e no currículo escolar. Dessa maneira, o quê, como e quando ensinar e avaliar se unem caracterizando uma prática educativa globalizada, de modo que os exames de avaliação não fiquem desconectados dos outros exercícios de construção do conhecimento. Encerramos, assim, a nossa discussão sobre propostas de ensino e prática pedagógica. Na unidade que segue, abordaremos o atraso mental em crianças, uma deficiência que requer uma proposta pedagógica adequada. Continue conosco! Saiba mais Para você saber um pouco mais sobre aprendizagem, especialmente sobre a relação entre mediação e aprendizagem, assista ao vídeo “Aprender a aprender”, disponível clicando aqui. http://www.youtube.com/watch?v=Pz4vQM_EmzI www.esab.edu.br 230 40 Transtornos globais do desenvolvimento Objetivo Compreender os transtornos globais do desenvolvimento em crianças no contexto escolar. Na unidade anterior refletimos sobre propostas de ensino e prática pedagógica contextualizadas na escola. Nesta unidade, nossa discussão tem como foco os impedimentos mentais em crianças no contexto escolar. Fundamentaremos nossa discussão nas contribuições apresentadas pelo MEC com relação à formação de crianças com necessidades educativas especiais ocasionadas por deficiências, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, a partir do documento que orienta a teoria e prática da Educação Inclusiva contemporaneamente no país: a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), tendo em vista os aspectos históricos e normativos de sua constituição. Avançaremos na compreensão da importância do atendimento educacional especializado por meio das contribuições de Coll, Marchesi e Palacios (2004b) e do Decreto nº 7.611/11. Vamos juntos! No Brasil, historicamente, a educação especial ocupou o lugar de atendimento educacional especializado substitutivo ao ensino comum. Em face das diferentes disposições legais criadas ao longo da história para fundamentar o atendimento educacional especial às pessoas com deficiências na perspectiva da inclusão – a exemplo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 4.024/61 –, a educação das pessoas que apresentam necessidades educativas especiais ainda tem como desafio promover a organização de um sistema de ensino capaz de atender essa finalidade. Mesmo diante do esforço reconhecido do MEC de impulsionar, no decorrer dos anos, um conjunto de ações voltadas às pessoas com necessidades educativas especiais, ainda não vimos, no Brasil, uma política pública de acesso universal à educação tornar-se efetiva. Mesmo que o artigo 55 do Estatuto da Criança e do Adolescente www.esab.edu.br 231 (ECA) reforce os dispositivos legais supracitados, ao determinar que os pais ou responsáveis matriculem os filhos obrigatoriamente na rede regular de ensino, assistimos à reiteração de uma concepção de políticas especiais que reforçam o encaminhamento dos alunos às classes e escolas especiais. No que se refere ao caso de alunos com altas habilidades/ superdotação, apesar do direito de acesso ao ensino regular, não há a organização de um atendimento especializado que considere as singularidades de sua aprendizagem. Todavia, não se pode negar que ocorreram avanços do ponto de vista social, cultural, educacional e jurídico oportunizados pelas diferentes ações governamentais no tocante à educação especial, com o objetivo de potencializar a adoção de uma política de educação inclusiva na rede pública de ensino. Obviamente, tais movimentos incluem muitos vaivéns históricos, isto é, movimentos de avanços e recuos históricos evidenciando compreensões, concepções e terminologias ora voltadas à evolução das políticas de inclusão, ora voltadas às práticas que levam à criação de instituições especializadas, escolas e classes especiais. Pensar em termos de políticas educacionais no âmbito da educação especial, no Brasil, requer considerar todo um percurso histórico de (re)construção dessas políticas, suportadas por mobilizações nacionais e internacionais e pela implementação de leis, decretos e documentos essenciais, como a Declaração de Salamanca, de 1994. A Lei nº 7.853/89 instituiu a educação especial como modalidade transversal, quer dizer, a educação especial na perspectiva da educação inclusiva em todos os níveis e modalidades de ensino, que realiza o Atendimento Educacional Especializado (AEE) – o que representa um avanço importante em termos de princípios, políticas e práticas educacionais no âmbito da educação especial no país. Como vimos em unidades anteriores, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) trouxe avanços significativos à formação de pessoas com necessidades educativas especiais, ocasionadas por deficiências, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Esse documento www.esab.edu.br 232 orienta o processo de integração instrucional e condiciona o acesso ao ensino regular àqueles com condições de acompanhar e desenvolver as suas atividades curriculares programadas, em ritmo igual ao dos alunos ditos normais. De acordo com esse documento, Consideram-se alunos com deficiência aqueles que têm impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que em interação com diversas barreiras podem ter restringida sua participação plena e efetiva na escola e na sociedade. (BRASIL, 2008, p. 15) Em consonância com o que apresenta a Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), Coll, Marchesi e Palacios (2004b) argumentam que a educação visa possibilitar à pessoa com transtorno global do desenvolvimento maior qualidade de vida, considerando o desenvolvimento de sua capacidade cognitiva. É importante destacarmos algumas características essenciais da pessoa com deficiência mental. “Seguramente, o traço mais visível é a rigidez comportamental. Os sujeitos [...] são capazes de estar e de persistir muito mais tempo do que outras pessoas em uma determinada tarefa, por mais repetitiva que seja” (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004b, p. 199). Crianças com transtorno global do desenvolvimento costumam apresentar carência, especialmente, sensorial, uma característica que os profissionais e familiares que se relacionam com crianças que apresentam esse transtorno conhecem bem. Figura 44 – Criança portadora de Síndrome de Down. Fonte:<www.123rf.com>. http://www.123rf.com/photo_13282089_portrait-of-beautiful-young-girl-on-the-playground.html www.esab.edu.br 233 Pessoas com deficiência mental gostam de rotina e de repetição. Seu funcionamento cerebral também ocorre em ritmo diferente, quer dizer, o cérebro é mais vagaroso se comparado ao de uma pessoa dita normal, e quanto maior o comprometimento cerebral, mais lento é o seu funcionamento. É imprescindível que o educador conheça as suas singularidades, pois só assim poderá intervir de modo eficiente em sua educação, auxiliando em seu desenvolvimento. Vejamos, a seguir, algumas possibilidades de atuação do educador junto às crianças com deficiência mental. Para nutrir a carência que o aluno com deficiência mental normalmente possui, o educador pode possibilitar vivências sensoriais exploratórias da realidade que o cerca. No caso de crianças com capacidade de preensão, o educador deve oferecer a elas objetos com formatos e tipos de texturas variados, tais como: bichos de pelúcia, feltro ou tecidos; bolas lisas, moles e duras, de diferentes