Prévia do material em texto
DJULIE H M DE ANDRADE 1 Meningite Bacteriana − Infecção purulenta das meninges e do espaço subaracnoide, relacionada a uma intensa reação inflamatória do SNC. − Pode ocorrer de forma aguda (horas a dias) ou crônica (4 semanas). − Pode ser causada por bactérias, fungos, parasitas, traumatismo e asséptica. − 90% dos casos são crianças de um mês aos cinco anos de idade. − Depende da idade, estado imune e da epidemiologia. − RN e lactente até os 3 meses: Streptococcus agalactiae (estreptococo do grupo B), Listeria monocytogenes e bactérias gram- negativas entéricas (E. coli, Enterobacter spp., Klebsiella pneumoniae, Salmonella enteritidis). A aquisição dessas bactérias se dá no momento do parto (colonização da mucosa vaginal). − 3 meses aos 18 anos: Neisseria meningitidis (meningococo), Streptococcus pneumoniae DJULIE H M DE ANDRADE 2 (pneumococo) e o Haemophilus influenzae tipo b. − S. pneumoniae: quadros clínicos de maior gravidade. Pneumonia, sinusite, OMA ou crônica, alcoolismo, diabetes, esplenectomia, hipogamaglobulinemia, trauma cranioencefálico com fratura de base de crânio e fístula liquórica, anemia falciforme e deficiência de complemento são fatores de risco. − N. meningitidis: raramente deixa sequelas. Deficiência do sistema complemento é fator de risco. − H. influenzae: menos letal, mas costuma deixar sequelas com maior frequência. − Staphylococcus aureus e o Staphylococcus epidermidis, principalmente o último, são os microorganismos mais envolvidos em meningite após procedimentos neurocirúrgicos. − Bastonetes Gram-negativos: alcoólatras, diabéticos, pacientes com infecção crônica do trato urinário e em indivíduos com estrongiloidíase disseminada. − Pós-punção lombar: S. aureus e Pseudomonas aeruginosa. − Colonização de VAS por germes patogênicos, que podem invadir o epitélio e se disseminar para a corrente sanguínea → a depender da virulência do microrganismo e da competência das defesas do hospedeiro. − Microrganismos alcançam o plexo coroide, invadem o espaço subaracnoide e se multiplicam no líquor. − A lise bacteriana leva a liberação de elementos de sua parece celular, como o lipopolissacarídeo (gram-negativas) e ácido teicoico e peptideoglicano (gram-positivas) que induzem inflamação intensa das meninges pela produção de citocinas (TNF-α e IL-1). − Citocinas alteram as propriedades da barreira hematoencefálica, a permeabilidade capilar → favorece o aparecimento do edema cerebral do tipo vasogênico e permite o extravasamento de proteínas e leucócitos para o líquor → formação de exsudato espesso. − O exsudato pode bloquear a reabsorção liquórica pelas granulações aracnoideas, levando à hidrocefalia e ao edema cerebral do tipo intersticial. − As citocinas também levam ao surgimento de selectinas (receptores para leucócitos presentes em células endoteliais), que favorece migração destas células para o líquor. − Liberação de radicais livres derivados de oxigênio e a degranulação de neutrófilos contribuem ainda mais para o edema citotóxico que se instala. − Com todo esse processo, a autorregulação cerebrovascular é perdida. Esse mecanismo de autorregulação é fundamental para preservar a perfusão cerebral adequada frente a variações da pressão arterial média (PAM). Se houver hipotensão: hipofluxo cerebral pode determinar alterações isquêmicas; Se houver hipertensão: agravamento do edema cerebral. − Processo inflamatório no espaço subaracnoide pode acometer os vasos sanguíneos, ocasionando trombose e infarto cerebral isquêmico (isquemia do SNC ocasiona edema citotóxico) ou favorecer a disseminação do processo infeccioso para o encéfalo, determinando o aparecimento de abscessos cerebrais. DJULIE H M DE ANDRADE 3 − Espectro variado. Lactentes: febre ou hipotermia, irritabilidade, letargia, hipoatividade, recusa alimentar, vômitos, diarreia, dificuldade respiratória, fontanela abaulada, convulsões e alterações do nível de consciência. Crianças maiores: febre, prostração, anorexia, fotofobia, cefaleia, vômitos, bradicardia, hipertensão arterial, convulsões, alterações do nível de consciência, exantema maculopapular, petéquias e púrpura e sinais de irritação meníngea. CONVULSÃO: pode ser febril ou meningoencefalite ou abscesso. PETÉQUIAS: pensar em meningococo. − 3 síndromes concomitantes: Síndrome toxêmica; Síndrome de irrtitação meníngea; Síndrome da hipertensão intracraniana. Síndrome toxêmica − Febre alta + mal-estar + prostração + agitação psicomotora. − Pode ter rash cutâneo (40-60%), há rash hemorrágico marcado pelo surgimento de petéquias e equimoses disseminadas, pode ser encontrado dano endotelial nos capilares da derme pela “semeadura”. Síndrome da irritação meníngea Síndrome de Hipertensão Intracraniana − Vômitos, cefaleia holocraniana intensa, abaulamento de fontanela, paralisia de DJULIE H M DE ANDRADE 4 abducente, anisocoria, hipertensão arterial, bradicardia e bradipneia → pode evoluir para decorticação, herniação e coma. − Os sinais clínicos de elevação na PIC são papiledema, que se desenvolve em algumas horas, nível alterado de consciência e/ou paralisia unilateral ou bilateral no sexto nervo craniano (abducente). As varreduras por TC geralmente são normais em pacientes com PIC elevada ou que apresentam perdas de marcas nos sulcos. Marcadores de mau prognóstico das meningites bacterianas − Rebaixamento do nível de consciência à admissão hospitalar; − Convulsões dentro de 24h da admissão hospitalar; − Extremos das idades (crianças e adultos > 50 anos); − Sinais de aumento da pressão intracraniana; − Choque ou necessidade de ventilação mecânica; − Atraso no início da terapia; − Líquor com glicose < 40 mg/dL ou PTN > 300 mg/dL. Exame físico − Rigidez de nuca: surge nas situações em que a flexão passiva ou ativa produz dor. Surge nas situações em que o pescoço resiste à flexão passiva. Tomar cuidado: os lactentes podem não ter rigidez de nuca! − Sinal de Kernig: Com a pessoa em decúbito dorsal (deitada de barriga para cima), o profissional de saúde segura a coxa do paciente, fletindo-a sobre o quadril e depois esticando-a para cima, enquanto a outra se mantém esticada e depois faz o mesmo com a outra perna. Se no movimento em que a perna é esticada para cima, ocorrer a flexão involuntária da cabeça ou a pessoa sentir dor ou limitações para executar este movimento, pode significar que tem meningite. − Sinal de Brudzinski: com a pessoa em decúbito dorsal, com os braços e pernas esticadas, o profissional de saúde deve colocar uma mão no peito e com a outra tentar fletir a cabeça da pessoa em direção ao peito. Se ao realizar este movimento, ocorrer a flexão involuntária das pernas e, em alguns casos, dor, pode significar que a pessoa tem meningite, o que se deve à compressão nervosa causada pela doença. − Sinal de Lasegue: Com a pessoa em decúbito dorsal e os braços e pernas esticadas, o profissional de saúde realiza a flexão da coxa sobre a bacia. O sinal é positivo se a pessoa sentir uma dor na face posterior do membro que está a ser examinado (atrás da perna). − Confirmação com punção lombar. Punção lombar − Posição para coleta: DJULIE H M DE ANDRADE 5 Os joelhos e o pescoço devem permanecer flexionados. As costas devem ser mantidas retas e bem próximas da borda da mesa de exame. A agulha deve ser inserida através do interespaço L4/L5. Se houver sangramento, significa que a agulha penetrou no plexo venoso. Retire a agulha e prossiga no sentido ascendente até atingir um interespaço. Mantendo o paciente na posição lateral recumbente, deve-se apontar a partebiselada da agulha no sentido ascendente. − Neuroimagem antes da punção SE: Convulsão; Papiledema; Déficit focal; Imunodeprimidos; grave da consciência. − Indicações: doenças infecciosas e/ou inflamatórias do SNC; Febre sem sinais localizatórios nos lactentes < 3 meses; doenças desmielinizantes; neoplasias no SNC; aminoacidopatias; distúrbios neurotransmissores; síndromes demenciais (indicação relativa para exclusão de etiologia infecciosa); seguimento de conduta diagnóstica, mediante alterações neurológicas inexplicadas (p. ex., convulsões, polineuropatia ou rebaixamento do nível de consciência). − Contraindicações: Absolutas • recusa do paciente ou do seu responsável legal; • herniação do SNC; • lesão neurológica com efeito de massa; • espinha bífida;9 • infecção de pele no local da punção ou no trajeto (p. ex., varicela, abscesso epidural). Relativas • sinais clínicos de hipertensão intracraniana não pesquisada ou não tratada; • suspeita de efeito de massa intracraniana (p. ex., sinais neurológicos focais); • alterações da coagulação sanguínea (p. ex., plaquetas < 30.000; RNI > 2,0); • comprometimento cardiorrespiratório grave que impeça a mobilização adequada; • cirurgia lombar prévia; • obesidade mórbida (por dificuldade técnica e falta de agulha adequada). − Quando repuncionar? Persistência dos sintomas em 48/72h; Pneumocócica em 24 a 36h (?); − Também é possível coletar na região da nuca (punção cisternal ou sub-occipital). Estudo do LCR − Pressão de abertura: medida com o paciente em decúbito lateral. O valor de referência é < 18 cm H2O. − Coloração: turvo e de aspecto purulento. − Contagem de células: > 500 células, com predomínio de neutrófilos (70%). − Bioquímico: hipoglicorraquia (glicose < 40mg/dL) ou por relação inferior a 0,04. As proteínas excedem o valor de 45 mg/dL. O certo da glicorraquia é estar a 2/3 da glicemia do paciente (< 45)! − Aglutinação pelo látex: pesquisa de antígenos bacterianos. DJULIE H M DE ANDRADE 6 − Exame microbiológico: detectar a presença de bactérias (bacterioscopia pelo gram e cultura). DJULIE H M DE ANDRADE 7 Neuroimagem − Evidenciam com clareza áreas de edema ou isquemia. − RM é melhor que TC. − TC: indica a presença de alguma lesão de massa que possa resultar em herniação cerebral, que pode acontecer em casos de punção lombar ou de PIC. Hemoculturas e biópsias de lesões cutâneas − Em casos de meningite associada à meningococemia, as hemoculturas costumam ser positivas e a biópsia de lesões petequiais costuma revelar o micro- organismo, inclusive de forma rápida pelo método de Gram. Bacterioscopia − Emergência infecciosa, que deve ser tratada sem demora. − Aplicar dose inicial de atb (apesar de alterar um pouco a sensibilidade dos testes diagnósticos, de forma significativa a letalidade da doença). DJULIE H M DE ANDRADE 8 − Glicocorticoides: preconizado o uso em todas as formas de meningite bacteriana aguda, visando reduzir a inflamação do SNC. Deve ser iniciado 15-30 min antes do início do atb ou no máximo junto com a primeira dose de atb. Início após 6h do tratamento antimicrobiano é inútil. Dexametasona 10mg IV 6/6h por 4 dias. Se utilizarmos a dexametasona para a meningite por pneumococo resistente à penicilina, a rifampicina deve ser acrescentada ao esquema, uma vez que os glicocorticoides diminuem a penetração da vancomicina no sistema nervoso central. − Medidas importantes: Isolamento respiratório por 24h em meningite por meningococo ou hemófilo; Hidratação com solução isosmolar evitando a hiper-hidratação, o que agravará o edema cerebral e a secreção inapropriada do hormônio antidiurético. Elevar a cabeceira da cama. Manitol: promove diurese osmótica, melhorando o edema cerebral nos pacientes com HIC. Feito em dose de ataque de 0,5-1,0 g/kg, EV e manutenção de 0,25g/kg a cada 4 horas. Diazepam para o tratamento das convulsões e hidantoína ou fenobarbital para controle. Ventilação mecânica: coma ou arritmias respiratórias. − Nova punção lombar em 72h de tratamento para avaliar a evolução das alterações do líquor. NÃO FAZ PROFILAXIA PARA PNEUMOCOCO! Meningite meningocócica Indicada em contatos familiares e íntimos do paciente (crianças em creches, escolas, orfanatos, jardim de infância ou maternal DA SALA), indivíduos que permaneceram em contato com o paciente por cerca de 4h por dia durante 5 a 7 dias e profissionais da saúde que foram expostos às secreções respiratórias do paciente. Rifampicina 10 mg/kg a cada 12h por 2 dias (crianças) e 600 mg/kg de 12/12h (adultos). Gestante: ceftriaxona em dose única (250 mg IM). DJULIE H M DE ANDRADE 9 − O caso índice deve receber ceftriaxona se estiver tratando com penicilina. Haemophilus Influenzae − Indicada para contatos familiares somente quando houver uma criança com menos de 4 anos além do caso-índice. − Uso de atb para todos os membros da família. − Para creches ou escolas onde existam crianças expostas com idade inferior a 24 meses e diante da ocorrência de um segundo caso confirmado, indica-se, então, a profilaxia para os contatos íntimos, incluindo os adultos. − Rifampicina 20 mg/kg 1x ao dia por 4 dias (crianças) 600 mg 1x ao dia por 4 dias (adultos). − Crianças vacinadas Vacinação completa: não fazer a quimioprofilaxia. Vacinação incompleta: completar. • < 1 ano: começar e/ou completar a vacinação + quimioprofilaxia; • > 1 ano até 5 anos: uma dose + quimiprofilaxia. Adultos e/ou contatos domiciliares em ambiente onde existam crianças com menos de 4 anos, além do caso-índice, vacinadas: não fazer quimioprofilaxia. Adultos e/ou contatos domiciliares em ambiente onde existam crianças com menos de 4 anos, além do caso-índice, não vacinadas: fazer quimioprofilaxia. − Vacinação Faz parte da vacina PENTAVALENTE (DTP + Hib + HBV) preconizada pelo calendário vacinal. “quanto mais perto da meningite, melhor/menos grave (afastar da sepse)”. Quando suspeitar de abscesso: quando não houver melhora dos sintomas (febre, cefaleia, convulsão) mesmo com tratamento adequado. Se anaeróbio: associar metronidazol. Se Listeria: associar ampicilina. − Coma: edema cerebral com herniação dos lobos temporais ou cerebelo/lesão cortical difusa (aumento da PIC, oclusão de vasos cerebrais). DJULIE H M DE ANDRADE 10 − Choque séptico: mais comumente associado à meningite meningocócica. − Comprometimento de pares cranianos: na criança, o facial (VII par) e o ramo acústico do vestibulococlear (VIII par) são os mais afetados. − Secreção inapropriada do ADH: levando à hiponatremia e piora do edema cerebral. − Efusão subdural estéril: típica dos lactentes infectados por pneumococo ou hemófilo; caracteriza-se por retorno ou manutenção da febre, irritabilidade, vômitos, crises convulsivas. A ultrassonografia (USG) de crânio geralmente diagnostica. O tratamento consiste em punções repetidas. − Empiema subdural: menos frequente que a efusão, tem as mesmas características clínicas e epidemiológicas da efusão, porém, aqui existe infecção da coleção. − Ventriculite: mais comum em crianças menores de dois meses. Está relacionada à demora do início da terapia e à meningite por enterobactérias. O comprometimento ventricular leva a aumentos da PIC e hidrocefalia. A USG é diagnóstica e revela aumento da ecogenicidade da membrana ependimária e duplo contorno da parede ventricular. A conduta muitas vezes envolve o posicionamento de uma válvula de derivação externa e a administração intraventricularde antibióticos. − Hidrocefalia: pode surgir durante o episódio de meningite ou após a resolução do processo infeccioso. É importante o acompanhamento ambulatorial de crianças, através de medidas seriadas do perímetro cefálico. − Sequelas: a surdez, a hidrocefalia, a epilepsia, a cegueira, a hemiplegia, o retardo psicomotor e o déficit intelectual são as sequelas mais comuns. − Ocorrem em crianças > 1 ano, adolescentes, adultos jovens. − Vírus mais comuns: caxumba, Epstein-Barr, enterovírus, outros (coxsackie, echovirus), CMV e o HIV. Quadro clínico − Agudo. − Náuseas, vômitos, cefaleia, diarreia, rash maculopapular (enteroviroses). − Envolvimento encefálico: agitação, rebaixamento do nível de consciência e crises convulsivas. Diagnóstico − O diagnóstico etiológico é feito com cultura do líquor, sorologia pareada, com intervalo de 10 a 14 dias entre as amostras de sangue colhidas, coprocultura para vírus (na suspeita de enteroviroses) e cultura de secreções da nasofaringe (até três dias de início da doença). Tratamento − Suporte, com reposição hidroeletrolítica e controle das convulsões quando presentes. − Isolamento respiratório em casos de meningite pelo vírus da caxumba enquanto durar o aumento das parótidas ou até 9 dias a partir do início da doença.