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CAPRINOS - HISTÓRIA E MITOLOGIA 
(Texto de Leopoldo Costa) 
 
Os caprinos foram domesticados cerca de 14.000 a.C., nas montanhas Zagros, 
no atual Irã. O caprino foi um dos primeiros ruminantes que foi criado pelo homem 
para fornecer carne, leite e lã, especialmente nas regiões áridas e de topografia 
irregular. Eles são poucos exigentes no tocante a alimentação e podem sobreviver 
se alimentando de tudo, folhas de arvores, arbustos do deserto, rizomas e 
tubérculos. Os caprinos consomem por dia a média de 4,5 kg de matéria seca por 
cada 100 kg de peso vivo. 
Em sítios arqueológicos datados entre 6.000 e 7.000 a.C como os de Jericó, 
Choga Mami, Djeitun e Cayonu, foram encontradas evidências da domesticação de 
caprinos. 
 
 O ancestral do caprino moderno é o 
‘bezoar’ ou ‘pasan’ (Capra aegagrus) 
que sobrevive ainda hoje nas 
montanhas da Ásia Menor, no 
Afeganistão, no Paquistão e em algumas 
ilhas do mar Egeu. Uma particularidade 
da espécie que mesmo depois de 
doméstica, se for abandonado na 
natureza, retoma rapidamente o seu 
estado selvagem. 
Existem oito espécies de caprinos: 
 
Espécies Nome Vulgar 
Capra aegagrus Bezoar ou Pasan 
Capra hircus Caprino doméstico 
Capra ibex Íbex comum 
Capra walie Íbex walia 
Capra caucasica Ibex do Cáucaso Ocidental 
Capra cylindricornis Íbex do Cáucaso Oriental 
Capra pirenayca Íbex espanhol 
Capra falconeri ‘Markhor’ 
https://stravaganzastravaganza.blogspot.com/2011/05/caprinos-historia-e-mitologia.html
http://4.bp.blogspot.com/-H4nJz_V59KE/TePupmojbXI/AAAAAAAABRE/gAr5Zl3SzV4/s1600/Caprinos+antiguidade.jpg
http://2.bp.blogspot.com/-7t9BHXq50og/TePlwDmjrYI/AAAAAAAABQ4/93k7U4LukGM/s1600/caprinos-+bezoar.jpg
O íbex comum (Capra ibex) subdivide-se em duas subespécies o íbex alpino 
(C. ibex ibex) e o íbex nubiano (C. ibex nubiana). O íbex alpino foi extinto pela caça 
predatória na Suíça na primeira metade do século XIX e na Alemanha e Áustria em 
1720. Só restaram alguns exemplares que foram confinados numa reserva florestal 
em Aosta no norte da Itália. Em 1911 alguns animais da reserva foram cedidos ao 
governo suíço para repovoar as suas montanhas. 
 
O íbex nubiano vive em pequenos grupos, ameaçados pelos caçadores, nas 
montanhas do deserto da Judéia, nas colinas da costa do mar Vermelho e na Arábia 
Saudita. Algumas gravuras encontradas em escavações arqueológicas podem 
indicar que foram domesticados no antigo Egito. 
 
O íbex ‘walia’ (Capra walie) pode ser encontrado nas montanhas do norte da 
Etiópia, porém é também bastante ameaçado pelos caçadores. 
 
O íbex do Cáucaso ocidental (Capra caucasica) e o íbex do Cáucaso oriental 
(Capra cylindrocornis), também conhecido como ‘kuban’ são encontrados nas 
montanhas do Cáucaso. 
 
O íbex espanhol (Capra pyrenaica) era encontrado em todas as montanhas da 
península Ibérica. Foi quase extinto no começo do século XX e isso só não aconteceu 
devido à ação do governo espanhol, que criou uma reserva na serra de Gredos para 
preservar algumas dezenas de animais. Alguns estudiosos reconhecem quatro 
subespécies: C. pyrenaica pirenayca (extinta em 2000), C. pirenayca victorae (os 
animais mantidos na serra de Gredos), C. pirenayca hispanica (animais do sul da 
serra Nevada na Espanha) e C. pirenayca lusitana (que viviam em Portugal e foram 
extintos em 1892). 
 
O ‘markhor’ (Capra falconeri) é encontrado nas montanhas do sul do 
Usbequistão, Tadiquistão, Afeganistão, Paquistão central e norte da Índia. A palavra 
‘markhor’ em farsi significa ‘comedor de serpente’. Podem ser distinguidas quatro 
subespécies de ‘markhor’: C. falconeri falconeri, C.falconeri cashmirensis, C.falconeri 
megaceros e C. falconeri jerdoni, que são diferenciadas pelo formato dos chifres. 
 
No passado, a pele dos caprinos era usada para fazer odres usados para 
transportar água e vinho. Também com ela era fabricado o pergaminho, usado na 
escrita no mundo ocidental, até a descoberta e o conhecimento da fabricação de 
papel. 
A melhor pele de caprino é a da raça Black Bengal, nativo de Bangladesh. 
 
No condado de Stafford na Inglaterra existia uma raça de caprinos chamada 
Bagot. Dizem que estes animais foram trazidos para a Inglaterra quando do regresso 
dos Cruzados. Alguns destes animais foi um presente do rei Ricardo Coração de Leão 
(1157-1199) ao fazendeiro John Bagot que morava em Blithfield. Isso foi em 
reconhecimento por um bom dia de caça do rei que tiveram juntos no Babots Park 
em Blithfield. Estes animais foram soltos, procriaram e tornaram-se 
semisselvagens. 
 
Na África sub-sahariana, as associações assistenciais, na maioria dirigida por 
religiosos de diversas crenças, costumavam doar cabras para as famílias pobres para 
que eles possam ter leite para as crianças. Como não é um animal exigente é fácil e 
barato cuidar delas. O leite de cabra é um dos mais parecidos com o leite humano, 
sendo de mais fácil digestão do que o leite de vaca e por isso recomendado para 
crianças e pessoas idosas. É um leite naturalmente homogeneizado por não conter 
aglutinina. Uma cabra leiteira pode produzir entre 650 litros e 1.800 litros de leite 
por período de lactação, que dura em média 305 dias. Famosos queijos são 
fabricados com leite de cabra como o Rocamadour e o Feta. 
 
Algumas raças de caprinos produzem a lã ‘cashmere’, Ela cresce sob a 
primeira camada, de lã mais grossa, sendo uma das mais macias e finas do mercado. 
Entre nós, o tecido produzido com estes fios é conhecido como casimira inglesa e 
usado para a confecção de elegantes ternos para homens. A raça Angorá produz lã 
de fibras longas, aneladas e lustrosas, conhecida como ‘mohair’. Os animais da raça 
não têm a camada superior de proteção de lã mais grossa. O ‘mohair’ tem o poder de 
manter a temperatura do corpo com mais eficiência do que qualquer outro tipo de 
lã de carneiro. 
 
Os caprinos podem se reproduzir em qualquer época do ano. A gestação dura 
150 dias e normalmente são paridos gêmeos e até trigêmeos. Depois do parto a 
cabra come a placenta o que é um benefício, pois ela contém oxitocinas que fornecem 
importantes nutrientes que ajudam a diminuir os corrimentos vaginais e melhorar 
a lactação. Também é uma maneira de despistar os predadores, pois se percebessem 
a placenta deixada no meio ambiente, poderiam ser alertados sobre o nascimento 
de uma presa fácil. 
 
Michel Eyquem, senhor de Montaigne (1533-1592), ensaísta francês, 
escreveu que as cabras depois de paridas se ensinadas a cuidar de crianças recém-
nascidas, tornavam-se excelentes amas-secas (cuidadora), o que ele argumenta que 
seria uma solução para as crianças cujas mães morressem no parto. 
 
Na Antiguidade, nos lugares onde não havia abundância de lenha, o estrume 
dos caprinos era usado como combustível. Os excrementos em forma de bolinhas 
eram bem mais fáceis de serem coletados, do que outros estrumes. 
 
Como curiosidade, destacamos a seguir alguns termos da língua inglesa, 
concernente aos caprinos: 
 
. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Português Inglês 
Manada de caprinos Flock 
Cabra adulta apta para criar Doe 
Cabrita com crias Nanny 
Bode adulto apto para procriar Buck 
Bode adulto reprodutor Ram 
Bode adulto reprodutor castrado Wether 
Cabrito jovem Billy 
Cabrito recém nascido Kid 
Carne de caprino Chevron 
NA MITOLOGIA 
 
Capricórnio, um dos signos do zodíaco, embora tenha uma semelhança com 
a figura do bode, representa Ea uma divindade da Suméria. 
 
As pupilas dos olhos dos caprinos são longitudinais como a dos felinos, rãs e 
cobras, que dão a eles um olhar cheio de istério e magia. Foi por esta razão que na 
Idade Média a figura do bode era associada com a do diabo. 
 
Os caprinos eram os animais preferidos para sacrifício ao deus hitita Hirta 
Wurusemu. Outras divindades que tinha preferência para sacrifícios de caprinos 
eram o deus tibetano Tara e o deus etíope Atete. 
Existe uma pequena figura de bode entalhada em Jokhang, Lhasa no Tibet, 
homenageando Dungtse Rama Gyelmo. Ela mostra um bode tentando encher um 
lagocom terra para construir nele um altar. 
 
Na Grécia, no século VI a.C. Cleistenes foi incubido de escolher um lugar para 
a edificação de um templo dedicado a Febo Apolo, o deus do sol. Escolheu um 
íngreme rochedo em Delfos, no monte Parnasso, que fica a 700 metros de altitude. 
O local foi escolhido porque uma lenda dizia que as cabras e bodes que ali pastavam 
tinham o dom da fala. Este foi o templo onde Pítias ficou conhecido como grande 
oráculo. Diodorus Siculus escreveu que os sacerdotes gregos descobriram a erupção 
dos gases subterrâneos que saem das fissuras do solo em Delfos, ouvindo o que 
diziam os caprinos. 
 
 
Na mitologia grega, os Sátiros eram 
criaturas que tinham dorso e braços de 
homem, cabeça e patas de bode e 
orelhas e rabo de cavalo. Fazia parte da 
corte do deus Dionísio, sendo seres 
libidinosos vivendo apenas para 
copular, beber e dançar. 
Sua equivalência eram os 
Faunos dos romanos, protetores dos 
rebanhos e das lavouras. Pã, o mais 
famoso Sátiro quando nasceu a parteira 
viu aquele rosto tão assustador saiu 
correndo apavorada deixando a 
parturiente sozinha. A palavra ‘pânico’ 
tem essa origem. Quando ainda criança, 
Pã confeccionou e aprendeu a tocar um 
instrumento que é hoje conhecida como 
flauta de Pã ou flauta de pastor. Ela 
servia para alertar os rebanhos de 
algum perigo. 
 
http://1.bp.blogspot.com/-UN781r3lqWs/TePmo8HRHYI/AAAAAAAABQ8/plQDdqCAi_M/s1600/caprinos+pan.jpg
Buda era contra o sacrifício de animais. No ‘Matakabhatta Jataka’ temos o 
relato que certa vez Buda foi inquirido sobre o benefício desses sacrifícios e como 
resposta ele contou a seguinte parábola: 
‘Um bode estava sendo preparado pelos discípulos para o sacrifício, quando 
começou a rir e imediatamente depois passou a chorar alto. Com muito medo os 
discípulos foram até o Mestre e contaram o que tinham presenciado. O Mestre foi até 
onde o bode estava, perguntou e ouviu a ele o que estava ocorrendo. O bode disse que 
ria porque esta seria a sua última encarnação, já que tinha sido sacrificado 499 vezes 
e esta seria a 500º vez, encerrando o ciclo. Chorava de pena da pessoa que iria cortar 
a sua cabeça, pois, ela seria condenada a encarnar-se num bode para ser sacrificado 
durante 500 vezes. O Mestre ordenou que o bode não fosse sacrificado e solto no 
bosque. O bode argumentou que o seu destino já estava traçado e isto não iria 
modificar nada. Para evitar qualquer acidente o Mestre pediu aos discípulos que segue 
o bode e não deixasse que nada de mal acontecesse com ele. O bode caminhou até 
chegar a um rochedo onde começou a pastar os brotos dos arbustos. De repente, com 
o céu limpo um raio atingiu o rochedo, soltando uma afiada lasca de pedra que voou 
pelos ares e decepou a cabeça do bode’. 
 
Na Índia, a divindade Prakriti é representada como uma cabra. Suas cores são 
vermelho, preto e branco, remetendo aos três ‘gunas’ do sistema metafísico hindu. 
Em honra da deusa Kali, toda manhã eram sacrificados bodes pretos no seu templo 
em Calcutá. Existem representações da divindade que aparece montada num bode 
preto. 
 
Na região do Himalaia entre a Índia e o Tibet era costume depois de 11 dias 
da morte de uma pessoa, a celebração de um ritual para recomendar a alma do 
falecido. Um sacerdote, depois das preces rituais se servia de arroz, legumes e 
pedaços cozidos da carne do falecido. Hoje a carne humana foi substituída pela carne 
de cabrito. 
 
 Amaltéia, uma ninfa da mitologia 
grega, transformada em cabra, foi a 
ama-seca de Zeus, que vivia escondido 
de seu pai que tinha prometido matá-lo. 
Acidentalmente um dos seus chifres foi 
quebrado e Zeus fez dele a cornucópia. 
Quando Amaltéia morreu foi 
transformada em uma estrela, 
a Capella, da constelação de 
Capricórnio. Sua pele foi retirada e 
usada para guarnecer o escudo de 
Atena, que na mitologia grega era a 
deusa da sabedoria. Por isto, os 
caprinos não eram aceitos como 
animais de sacrifício nos templos de 
Atena. 
 
A Arca da Aliança, venerada pelos Hebreus, onde estaria guardada as tábuas 
da lei recebidas por Moisés no monte Sinai, era forrada com fino tecido preparado 
de lã de caprino. 
http://3.bp.blogspot.com/-sx6AimzU7Ig/TePnCr2PdXI/AAAAAAAABRA/12ayC5ZLyIw/s1600/Caprinos-+Amalt%25C3%25A9ia.jpg
Na mitologia escandinava, a história da cabra Heidrun (ou Hedrun) é muito 
popular. Ela subia nos telhados e comia as folhas dos galhos da maior arvore do 
mundo, que chamava Yggdrasil. Heidrun era montaria de Odin e também algumas 
vezes puxava a carruagem real. 
Bode Expiatório 
 
A figura do bode expiatório surgiu de um relato encontrado na Bíblia, no livro 
Levítico cap. 16, versículos 7 a 10: 
‘Também tomará os dois bodes, e os porá perante o Senhor, à porta da tenda da 
revelação. E Arão lançará sortes sobre os dois bodes: um pelo Senhor, e o outro para 
Azazel. Então apresentará o bode que cair a sorte pelo Senhor e o oferecerá como 
oferta pelo pecado; mas o bode sobre que cair a sorte para Azazel será posto vivo 
perante o Senhor para fazer expiação com ele a fim de enviá-lo ao deserto para 
Azazel’. Continua no versículo 20: ‘Quando Arão houver acabado de fazer expiação 
no lugar santo, pela tenda da revelação, e pelo altar, apresentará o bode vivo; e 
pondo as mãos sobre a cabeça do bode vivo, confessará sobre ela todas as 
iniquidades do povo de Israel, e todas as suas transgressões, sim, todos os seus 
pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á para o deserto, pela mão do 
homem designado para isso. Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades 
deles para uma região solitária; e esse homem soltará o bode no deserto.’ 
 
Esse ritual fazia parte das 
cerimônias hebraicas do Yom Kippur 
(dia da expiação) no templo de 
Jerusalém. Na teologia do Cristianismo 
é interpretado como uma visão do 
sacrifício de Cristo evocando para si 
todos os pecados da humanidade. 
Na Grécia antiga também existia a 
figura do bode expiatório, no qual um 
aleijado, mendigo ou criminoso era 
escolhido para representá-lo. 
Era um ritual para expiar a comunidade depois de um desastre natural, uma praga, 
fome ou guerra. 
Também podia ser para comemorar o final do ano. A vítima era chamada de 
‘pharmacos’. A tradição conta que era assassinado, o que é negado pelos estudiosos 
que não encontraram evidências para confirmar isso. As evidências é que eram 
maltratados, apedrejados, batidos e puxados pela multidão em delírio. 
 
Entre algumas tribos da América do Norte existia um ritual semelhante, 
porém, ao invés de um bode usavam um cachorro branco. 
 
Nas festividades de ano novo no Tibet usavam uma imagem de demônio 
preparada com massa colorida que era perfurada por punhais, enquanto eram 
enumerados por um leitor, os pecados da sociedade. Quando consideravam tudo 
enumerado, o demônio estava morto e todos livres dos pecados. 
 
http://2.bp.blogspot.com/-3d3E-xd4gMs/TePxH4cKdXI/AAAAAAAABRI/6qiucptupSE/s1600/bodeexpiatorio.jpg

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