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PARASITOLOGIA CLÍNICA PROF.A DRA. FABIANA NABARRO FERRAZ Reitor: Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira Pró-reitor: Prof. Me. Ney Stival Diretoria EAD: Prof.a Dra. Gisele Caroline Novakowski PRODUÇÃO DE MATERIAIS Diagramação: Alan Michel Bariani Thiago Bruno Peraro Revisão Textual: Felipe Veiga da Fonseca Letícia Toniete Izeppe Bisconcim Luana Ramos Rocha Produção Audiovisual: Eudes Wilter Pitta Paião Márcio Alexandre Júnior Lara Marcus Vinicius Pellegrini Osmar da Conceição Calisto Gestão de Produção: Kamila Ayumi Costa Yoshimura Fotos: Shutterstock © Direitos reservados à UNINGÁ - Reprodução Proibida. - Rodovia PR 317 (Av. Morangueira), n° 6114 Prezado (a) Acadêmico (a), bem-vindo (a) à UNINGÁ – Centro Universitário Ingá. Primeiramente, deixo uma frase de Sócrates para reflexão: “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida.” Cada um de nós tem uma grande responsabilidade sobre as escolhas que fazemos, e essas nos guiarão por toda a vida acadêmica e profissional, refletindo diretamente em nossa vida pessoal e em nossas relações com a sociedade. Hoje em dia, essa sociedade é exigente e busca por tecnologia, informação e conhecimento advindos de profissionais que possuam novas habilidades para liderança e sobrevivência no mercado de trabalho. De fato, a tecnologia e a comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, diminuindo distâncias, rompendo fronteiras e nos proporcionando momentos inesquecíveis. Assim, a UNINGÁ se dispõe, através do Ensino a Distância, a proporcionar um ensino de qualidade, capaz de formar cidadãos integrantes de uma sociedade justa, preparados para o mercado de trabalho, como planejadores e líderes atuantes. Que esta nova caminhada lhes traga muita experiência, conhecimento e sucesso. Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira REITOR 33WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 01 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................. 6 1. PROTOZOÁRIOS DE INTERESSE MÉDICO .......................................................................................................... 7 1.1 LEISHMANIA SPP – LEISHMANIOSE TEGUMENTAR E VISCERAL ................................................................. 7 1.1.1 MORFOLOGIA ...................................................................................................................................................... 8 1.1.2 CICLO BIOLÓGICO ............................................................................................................................................. 9 1.1.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA .............................................................................................................. 10 1.1.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ..................................................................................................................... 12 1.1.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ....................................................................................................................... 13 1.2 TRYPANOSOMA CRUZI – DOENÇA DE CHAGAS .............................................................................................. 14 1.2.1 MORFOLOGIA .................................................................................................................................................... 14 INTRODUÇÃO À PARASITOLOGIA E PRINCIPAIS PROTOZOÁRIOS DE INTERESSE MÉDICO PROF.A DRA. FABIANA NABARRO FERRAZ ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: PARASITOLOGIA CLÍNICA 4WWW.UNINGA.BR 1.2.2 CICLO BIOLÓGICO ........................................................................................................................................... 16 1.2.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ..............................................................................................................17 1.2.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA .................................................................................................................... 19 1.2.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL...................................................................................................................... 20 1.3 TRICHOMONAS VAGINALIS - TRICOMONÍASE ............................................................................................... 20 1.3.1 MORFOLOGIA ................................................................................................................................................... 21 1.3.2 CICLO BIOLÓGICO ........................................................................................................................................... 22 1.3.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ............................................................................................................. 23 1.3.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA .................................................................................................................... 24 1.3.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL...................................................................................................................... 24 1.4 GIARDIA DUODENALIS - GIARDÍASE ................................................................................................................ 25 1.4.1 MORFOLOGIA .................................................................................................................................................... 25 1.4.2 CICLO BIOLÓGICO ........................................................................................................................................... 26 1.4.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ............................................................................................................. 27 1.4.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA .................................................................................................................... 28 1.4.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ...................................................................................................................... 29 1.5 ENTAMOEBA HISTOLYTICA/ENTAMOEBA DISPAR – AMEBÍASE ................................................................ 29 1.5.1 MORFOLOGIA .................................................................................................................................................... 30 1.5.2 CICLO BIOLÓGICO ........................................................................................................................................... 31 1.5.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ............................................................................................................. 32 1.5.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA .................................................................................................................... 33 1.5.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ..................................................................................................................... 33 1.6 PLASMODIUM SPP. – MALÁRIA ....................................................................................................................... 34 1.6.1 MORFOLOGIA .................................................................................................................................................... 35 1.6.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA .............................................................................................................40 1.6.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA .................................................................................................................... 42 1.6.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ..................................................................................................................... 42 1.7 TOXOPLASMA GONDII – TOXOPLASMOSE ...................................................................................................... 43 1.7.1 MORFOLOGIA ....................................................................................................................................................43 1.7.2 CICLO BIOLÓGICO ............................................................................................................................................ 45 1.7.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA .............................................................................................................. 46 5WWW.UNINGA.BR 1.7.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ..................................................................................................................... 47 1.7.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ...................................................................................................................... 48 1.8 CRYPTOSPORIDIUM, CYSTOISOSPORA, E CYCLOSPORA – PROTOZOÁRIOS EMERGENTES .................. 48 1.8.1 CRYPTOSPORIDIUM ........................................................................................................................................ 48 1.8.2 CYSTOISOSPORA BELLI .................................................................................................................................50 1.8.3 CYCLOSPORA CAYETANENSIS ...................................................................................................................... 52 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................................................ 54 6WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO “A parasitologia é a ciência que estuda os parasitos, seus hospedeiros e as relações existentes entre eles”. Na natureza, os organismos vivos e o ambiente vivem em uma inter-relação conhecida como ecossistema. Entre as relações, encontramos associações diversas, como o parasitismo. O parasitismo é a associação entre duas espécies diferentes, em que existe unilateralidade de benefícios. Deste modo, o parasito é o agressor e o hospedeiro é o que alberga o parasito, ou seja, o hospedeiro é o meio ecológico onde vive o parasito, ocorrendo assim uma relação de dependência metabólica de natureza nutritiva, na qual o parasito retira do hospedeiro todo ou quase todo material de que necessita para sobreviver, causando-lhe geralmente algum tipo de dano. Cada espécie de parasito possui seu próprio hospedeiro. Alguns parasitos necessitam de somente um hospedeiro (hospedeiro definitivo) durante seu ciclo de vida (ciclo monoxênico). Outros só completam seu ciclo de vida (ciclo heteroxênico) passando sucessivamente por mais de um hospedeiro (hospedeiro intermediário e definitivo), podendo ser este um artrópode, que funciona como um vetor de doenças, ou, ainda, animais domésticos ou silvestres que funcionam como reservatórios, nas chamadas zoonoses. Neste aspecto, os hospedeiros (definitivos e/ou intermediários) podem abrigar os parasitos, em suas diferentes formas evolutivas do seu ciclo de vida, em diferentes hábitats, por exemplo, quando infectam o hospedeiro, alguns parasitos podem alojar-se em hábitats pobres em oxigênio, como no caso dos parasitos intestinais, ou em locais com elevada oxigenação, como no caso dos parasitos sanguíneos ou aqueles parasitos que fazem migração pelos pulmões. Além disso, no ciclo de vida de um parasito, fatores como transmissão, ação patogênica, epidemiologia e profilaxia são extremamente complexos e envolvem mecanismos específicos associados à espécie do parasito e ao hospedeiro, assim como a fatores ambientais (temperatura, umidade e oxigenação) que são importantes para manter a viabilidade e dispersão do parasito. Para mais informações sobre os conceitos dos principais termos utilizados em parasitologia clínica (como os destacados em negrito na Introdução), realizar a leitura da “Parte 1 – Conceitos Gerais” do livro texto: NEVES, D. P. Parasitologia humana. 13. ed. São Paulo: Atheneu, 2016. Disponível na biblioteca da UNINGÁ. 7WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1. PROTOZOÁRIOS DE INTERESSE MÉDICO Os protozoários são organismos protistas, eucariotos, constituídos por uma única célula que, para sobreviver, realizam todas as funções mantenedoras da vida como, alimentação, respiração, reprodução, excreção e locomoção. Na classificação sistemática, segundo Lavine et al. (1980), os protozoários pertencem ao reino Protista e estão distribuídos em sete filos, constituído por um total de mais de 60.000 espécies, dos quais apenas algumas dezenas de espécies pertencentes a quatro filos, tem interesse em parasitologia humana. A tabela a seguir (Tabela 1) lista os principais filos e exemplos de espécies de protozoários de interesse médico que serão abordados nesta unidade. Tabela 1 – Classificação sistemática dos protozoários de interesse médico. Fonte: Lavine et al. (1980 apud NEVES, 2016). 1.1 Leishmania spp – Leishmaniose Tegumentar e Visceral Os agentes etiológicos das leishmanioses humanas são protozoários pertencentes à ordem Kinetoplastida, família Trypanosomatidae e gênero Leishmania, transmitidos vetorialmente por fêmeas dos insetos hematófagos, conhecidos como flebotomíneos (Psychodidae da subfamília Phlebotominae, gênero Lutzomyia – são popularmente conhecidos como mosquito palha, birigui, mosquito-pólvora...). Assim, os parasitos do gênero Leishmania são agentes de zoonoses que infectam o homem em regiões tropicais e subtropicais, sendo os principais reservatórios do parasito roedores (silvestres e peridomésticos), canídeos (silvestres, peridométicos e domésticos), edentados (tatu, tamanduá...), marsupiais (gambá) e primatas. A taxonomia do gênero Leishmania ainda é assunto de considerável controvérsia, pois as espécies do gênero Leishmania são classificadas com uma enorme dificuldade, devido à grande semelhança morfológica entre elas. Apesar de suas semelhanças, as diferentes espécies causam doenças com características clínicas (cutânea, cutaneomucosa, cutânea difusa e visceral) e epidemiológicas tão distintas que não se pode atribuir sua etiologia a uma mesma espécie do agente patogênico. Esta variedade de manifestações clínicas depende da interação entre a resposta imune do hospedeiro vertebrado e o caráter invasivo, tropismo e patogenicidade do parasito. 8WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Atualmente a classificação taxonômica das espécies do gênero Leishmania baseia-se em características clínicas e epidemiológicas do parasito, associadas aos aspectos biológicos, imunológicos, bioquímicos e moleculares. Dependendo da espécie de Leishmania envolvida, a infecção pode resultar em uma doença cutânea, cutânea difusa, cutaneomucosas ou visceral. No Brasil, as principais espécies do gênero Leishmania, agrupadas nos subgêneros Viannia e Leishmania, que parasitam o homem estão listadas abaixo: • Leishmania (V.) braziliensis: causa lesões cutâneas e cutaneomucosas graves, podendo apresentar metástase. Possui ampla distribuição geográfica da América Central ao Norte da Argentina. • Leishmania (V.) guyanensis: causa predominantemente lesões cutâneas benignas, sem metástase. Ocorre na parte da América do Sul, restrita à Bacia Amazônica. • Leishmania (V.) laisoni: causa lesões cutâneas e ocorre no norte do Estado do Pará, na Região Amazônica do Brasil. • Leishmania (L.) amazonensis: causa lesões cutâneas e eventualmente difusas (anérgicas) e ocorre desde a América Central até o norte, o nordeste e o sudeste da América do Sul. • Leishmania (V.) naiffi: causa lesões cutâneas e ocorre no norte do Brasil e em outros países da América Latina como Guiana Francesa, Suriname e Equador. • Leishmania (L) infantum chagasi: causa a forma visceral com febre, anemia, hepatoesplenomegalia e emagrecimento. Ocorre do México ao norte da Argentina, com predomínio no nordeste brasileiro. 1.1.1 Morfologia O gênero Leishmania possui duas principais formas evolutivas (Figura 1). As amastigotas são formas intracelulares ovoides ou esféricas(medindo ente 1,5 e 3 x 3 e 6,5 µm), com pouco citoplasma, núcleo relativamente grande, redondo e excêntrico. O cinetoplasto (região especializada da única mitocôndria encontrada nos protozoários pertencentes à ordem Kinetoplastida) é bem visível, em forma de bastão e situado próximo ao núcleo, porém o flagelo, reduzido ao segmento intracelular, não é visível, não havendo flagelo livre. As promastigotas são formas alongadas cuja região anterior emerge um flagelo livre. Possui núcleo mediano e cinetoplasto próximo à extremidade anterior. O tamanho das formas promastigotas é variável, medindo entre 16 e 40 (comprimento) x 1,5 e 3 µm (largura). 9WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 1 – Formas amastigotas e promastigotas de Leishmania spp (esquema) e macrófago parasitado com amasti- gotas (corado com Giemsa; seta vermelha: núcleo e seta preta: cinetoplasto). Fonte: adaptado de Ferreira (2012) e CDC. 1.1.2 Ciclo biológico O ciclo de vida dos protozoários do gênero Leishmania é heteroxênico (Figura 2), envolvendo um hospedeiro mamífero e um inseto vetor. As diferentes espécies de Leishmania que causam as diferentes manifestações clínicas (doença cutânea, cutânea difusa, cutaneomucosas ou visceral) possuem ciclo de vida semelhantes, exceto que as células reticulo-endoteliais infectadas (principalmente macrófagos) encontram-se distribuídas no corpo do hospedeiro (baço, fígado, medula óssea, rins...) na leishimaniose visceral. Figura 2 – Ciclo biológico Leishmania spp. Fonte: adaptado de CDC. 10WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Os hospedeiros vertebrados (mamíferos) se infectam quando as formas promastigotas metacíclicas são inoculadas pela fêmea do inseto vetor (flebotomíneo), durante o repasto sanguíneo. Nesta ocasião, o inseto dilacera o tecido do hospedeiro com seu aparelho bucal, a saliva do inseto é inoculada e exerce papel anticoagulante, vasodilatador e antiagregante plaquetário, favorecendo o fluxo de sangue para alimentação do felbotomíneo e ao mesmo tempo imunossuprime a resposta do hospedeiro vertebrado, exercendo importante papel no sucesso da infectividade das promastigotas metacíclicas. A internalização do parasito se faz por endocitose mediada por receptores na superfície dos macrófagos. Após a internalização, o promastigota metacíclico é encontrado dentro do vacúolo parasitóforo, onde se transforma em amastigota e sofre os processos de multiplicações sucessivas (fissão binária). Esgotando sua resistência, a membrana do macrófago se rompe e as amastigotas liberadas serão, por mecanismos semelhantes, internalizadas por outras células fagocitárias. A infecção para o hospedeiro invertebrado (inseto vetor, flebotomíneo) ocorre pela ingestão de amastigotas, durante o repasto sanguíneo, de um indivíduo infectado. No intestino médio do inseto, todo o alimento é envolvido por uma membrana quitinosa secretada pelas células epiteliais do intestino, a matriz peritrófica. No interior dessa matriz, após cerca de 18-24 horas, as amastigotas se transformam em flagelados pequenos, ovoides, pouco móveis. Após 3-4 dias de multiplicação intensa (fissão binária), ocorre a transformação das formas promastigotas delgadas e longas. A matriz peritrófica se rompe, liberando os parasitos, que se ligam por meio do flagelo às microvilosidades intestinais do inseto, após aproximadamente 5 dias a diferenciação se completa e já são encontradas formas promastigotas flageladas migrantes no intestino médio. Estas formas migram para as porções anteriores do aparelho digestivo do inseto, atingindo probóscida. A grande multiplicação parasitária dificulta a ingestão de sangue pelo vetor. Assim, o flebotomíneo faminto é estimulado a picar e a sugar muitas vezes. Após esforço intenso para ingerir sangue, os músculos da sucção relaxam e causam a regurgitação do sangue aspirado junto com as formas promastigotas presentes na probóscida. Desse modo, fica assegurada a inoculação de formas infectantes em novos hospedeiros vertebrados, completando o ciclo. 1.1.3 Aspectos clínicos e patogenia As leishmanioses são caracterizadas pela variedade de manifestações clínicas. A leishmaniose tegumentar americana (LTA) é uma enfermidade polimórfica da pele e das mucosas, variando de uma lesão autorresolutiva a desfigurante. Esta variação clínica está intimamente ligada ao estado imunológico do hospedeiro e à espécie de Leishmania que o parasita. Apesar da ampla variedade de formas clínicas, podemos agrupá-las em três principais tipos: • Leishmaniose cutânea: lesões ulcerativas se desenvolvem no sítio da picada (confinada a derme), indolores, únicas ou múltiplas (Figura 3). São causadas pelas espécies: L. braziliensis, L. amazonensis, L. guyanensis, L. laisoni. • Leishmaniose cutaneomucosa: esta forma clínica é conhecida como nariz de tapir ou de anta, o agente etiológico é a L. braziliensis. O curso da infecção nas fases iniciais ocorre com a forma cutânea. Meses ou anos após as lesões primárias, o parasito produz lesões destrutivas secundárias, envolvendo mucosas e cartilagens, decorrentes da disseminação hematogênica ou extensão direta da lesão primária (Figura 4 A). 11WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA • Leishmaniose cutânea difusa (LCD): o curso da infecção nas fases iniciais ocorre com a forma cutânea. Cerca de 40% dos pacientes parasitados com L. amazonensis desenvolvem a LCD. A LCD caracteriza-se por lesões difusas ulceradas por toda pele, resultado de metástase do parasito por meio de vasos linfáticos ou migração de macrófagos parasitados. Esta forma clínica está diretamente associada a uma deficiência imunológica do paciente, levando a um estado de anergia (não respondem ao antígeno de Montenegro) frente à infecção (Figura 4 B). Figura 3 – Leishmaniose tegumentar em paciente da Amazônia. Aspecto das lesões ulceradas antes e após cicatri- zação. Fonte: Ferreira (2012). Figura 4 – A) Caso de leishmaniose cutaneomucosa, com intensa destruição nasal. B) Caso de leishmaniose cutâ- nea difusa, observe as lesões nodulares distribuídas pelo braço. Fonte: adaptado de Neves (2016). Na patogenia da LTA, a lesão inicial é manifestada por um infiltrado inflamatório composto principalmente de linfócitos e de macrófagos da derme, estando esses últimos repletos de parasitos. As lesões iniciais são semelhantes, independentemente da espécie do parasito. Essa lesão progride, desenvolvendo-se em uma típica úlcera leishmaniótica que, por seu aspecto morfológico, pode ser reconhecida imediatamente. Trata-se de uma úlcera de configuração circular, bordos altos (em moldura), cujo fundo é granuloso, de cor vermelha intensa, recoberto por exsudato seroso ou seropurulento, dependendo da presença de infecções secundárias. A lesão pode se curar sem tratamento em uma questão de meses, mas geralmente deixa uma área cicatricial despigmentada, com uma leve depressão na pele, com uma fibrose sob a epiderme, que está fina (Figura 3). 12WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Pode ocorrer ainda, seguida ao aparecimento da lesão inicial, lesões secundárias por extensão direta de uma lesão primária, ou então, uma disseminação linfática ou hematogênica, produzindo metástases cutânea, subcutânea ou mucosa. As regiões mais comumente afetadas pela disseminação metastática são: o nariz, faringe e laringe. O comprometimento mucoso manifesta-se por eritema e infiltrado inflamatório com posterior processo ulcerativo e destruição de toda a estrutura cartilaginosa. A leishmaniose visceral é uma doença sistêmica causada por parasitos do complexo L. donovani na África, na Ásia, na Europa e nas Américas. Na Índia, é conhecida como Kala-Azar. É uma doença crônica, grave, de alta letalidade, se não tratada, e pode apresentar aspectos clínicos e epidemiológicosdiversos e característicos para cada região onde ocorre. Os fatores de risco para o desenvolvimento da doença incluem a pobreza, desnutrição, uso de imunossupressores e a coinfecção com o HIV. A pele é a porta de entrada para a infecção. Alguns indivíduos podem desenvolver uma lesão local, quando ocorre, essa lesão é transitória e representada por reação inflamatória que determina a formação de um nódulo, o leishmanioma. O processo pode evoluir para a cura espontânea ou, a partir da pele, ocorrer a migração dos parasitos, principalmente para os linfonodos mais próximos, seguida da migração (disseminação linfática e/ou hematogênica) para as vísceras. O L. i. chagasi é um parasito das células do SFM, principalmente do baço, do fígado, do linfonodo e da medula óssea. Entretanto, no curso da infecção, outros órgãos e tecidos podem ser afetados, como o intestino, o sangue, os pulmões, os rins e a pele. Nas fases mais avançadas da doença, são raros os órgãos onde não se encontra parasito. Nas vísceras, os parasitos induzem uma infiltração focal ou difusa de macrófagos não parasitados, além de infiltrado de linfócitos e células plasmáticas. A relação parasito/hospedeiro na leishmaniose visceral assume caráter espectral, de maneira que é possível resultar em diferentes formas clínicas, desde uma forma assintomática, para uma forma aguda (período inicial da doença) ou até a forma crônica de evolução clássica. As formas sintomáticas têm início insidioso, com febre alta e intermitente. O quadro febril é acompanhado de astenia, mal-estar geral e perda de peso. No exame físico, são observadas hepatomegalia e esplenomegalia, sinais de desnutrição, com enfraquecimento geral. Progressivamente, no decorrer da infecção, o paciente pode apresentar anemia, epistaxes (hemorragia nasal), hemorragia gengival, edema, ascite, icterícia, sendo que a anorexia e a desnutrição aumentam a debilidade física. As hemorragias digestivas e a icterícia são indicativas de gravidade da infecção. A infecção mostra-se preocupante, principalmente, em indivíduos portadores de HIV, diabéticos e outras doenças crônicas, pois contribuem para o óbito antes mesmo do aparecimento dos principais sinais e sintomas clínicos. Nos pacientes coinfectados com HIV, a leishmaniose se manifesta como uma infecção oportunista, com detecção do parasito em locais atípicos associada a uma elevada mortalidade. 1.1.4 Epidemiologia e profilaxia As leishmanioses são endêmicas em 88 países, distribuídos na América, na África, na Ásia e na Europa, com cerca de 2 milhões de casos por ano. Nos últimos anos, a epidemiologia da leishmaniose tem-se alterado no Brasil. Com frequência cada vez maior, identificam-se novos focos de transmissão em áreas urbanas, decorrentes da adaptação do inseto vetor a esses ambientes. O ciclo de transmissão tem se adaptado aos ambientes peridomicilíares e a doença tem se espalhado em regiões não endêmicas como resultado da urbanização e do desmatamento, com animais domésticos funcionando como reservatórios em potencial, mostrando que as leishmanioses estão em franca expansão geográfica. 13WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Até o século XX, a leishmaniose visceral concentrava-se principalmente na região Nordeste, enquanto a transmissão de leishmaniose tegumentar estava relacionada preferencialmente em áreas com mata preservada, como a Amazônia e a faixa litorânea da Mata Atlântica. A urbanização da leishmaniose visceral, alastrando-se por cidades como Teresina, Belo Horizonte, Campo Grande e Araçatuba, é motivo de grande preocupação e um grave problema de saúde pública. As estatísticas do Ministério da Saúde relatam 12.690 casos de leishmaniose tegumentar e 3.200 casos de leishmaniose visceral no ano de 2016. A prevenção das várias formas de leishmaniose envolve o tratamento imediato das infecções humanas e o controle do hospedeiro-reservatório (por exemplo, o cão infectado que é o principal reservatório do parasito em área urbana) juntamente com o controle do inseto vetor. Esforços para a produção de vacinas eficazes contra a leishimaniose estão em andamento. 1.1.5 Diagnóstico laboratorial Os métodos mais utilizados para o diagnóstico laboratorial parasitológico da leishmaniose humana tomam como base a demonstração de formas amastigotas no tecido infectado, não sendo possível a diferenciação de espécies. Na LTA, o material a ser examinado é obtido por biopsia, punção ou escarificação de lesões cutâneas, principalmente de regiões das bordas da lesão, em local com tecido mais preservado. Na leishmaniose visceral, o material é obtido por aspiração da medula óssea ou, mais raramente, do fígado ou baço. O material obtido por punção ou escarificação é utilizado para o preparo de esfregaços, examinados após a coloração com Giemsa ou Leishman. Os mesmos procedimentos aplicam-se ao material coletado de medula óssea por aspiração ou biopsia, com a realização de esfregaços ou a inclusão em parafina e posterior coloração. O teste imunológico mais realizado no Brasil é o teste intradérmico de Montenegro. Este teste avalia a reação de hipersensibilidade retardada do paciente e é utilizado no diagnóstico. Nas formas cutâneas e cutaneomucosas o teste é positivo, com a formação de reação inflamatória, formando um nódulo ou pápula no local da aplicação do antígeno. Na forma cutânea difusa, a reação é negativa devido ao estado anérgico do paciente. Em pacientes tratados, a reação positiva do teste pode durar por anos. Na leishmaniose visceral o teste intradérmico de Montenegro é negativo durante o período de estado da doença, o que impede seu uso para o diagnóstico desta forma clínica. Outro teste imunológico muito utilizado para o diagnóstico é a reação de imunofluorescência indireta (IFI), sua sensibilidade é extremamente alta, no entanto, não é espécie-específico, ocorrendo reações cruzadas com outros tripanosomatídeos (por exemplo, Trypanosoma cruzi). O desenvolvimento de teste rápidos imunocromatográficos, aprovados pelo Ministério da Saúde, para diagnóstico rápido e tratamento precoce da leishmaniose visceral, vem sendo amplamente utilizado em regiões endêmicas, contribuindo para redução da letalidade desta enfermidade. Atualmente, métodos moleculares como a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), tem se mostrado uma nova opção de diagnóstico, principalmente devido a sua elevada sensibilidade, sendo possível também, dependendo do protocolo utilizado, identificar a espécie do parasito. 14WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.2 Trypanosoma cruzi – Doença de Chagas O Trypanosoma cruzi, agente etiológico da doença de Chagas (tripanossomíase americana), é um protozoário flagelado, pertencente à ordem Kinetoplastida e à família Trypanosomatidae. Este protozoário e a doença foram descobertos e descritos pelo médico e cientista brasileiro Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, em 1909. O ciclo de vida do T. cruzi inclui a passagem obrigatória por um hospedeiro vertebrado que pode pertencer a várias classes de mamíferos (animais silvestres – ratos, marsupiais, tatu... e animais domésticos – cães, gatos..., inclusive o homem) e insetos hemípteros da família Reduviidae, pertencentes principalmente aos gêneros Panstrongylus, Rhodnius e Triatoma (denominados popularmente como triatomíneos, barbeiros...). A doença de Chagas constitui uma zoonose endêmica nas Américas, sua área de transmissão abrange desde o sul dos EUA até a Argentina, e hoje também está presente em outros continentes em decorrência da imigração de latino americanos. Apesar dos avanços obtidos no seu controle, a Organização Mundial de Saúde classifica a doença de Chagas entre as treze doenças tropicais mais negligenciadas, constituindo um grande problema social e de saúde pública. 1.2.1 Morfologia Cada forma evolutiva do T. cruzi pode ser identificada com base em parâmetros como amorfologia geral da célula e as posições relativas do flagelo, do núcleo e do cinetoplasto. Nos hospedeiros vertebrados, são encontradas intracelularmente as formas amastigotas e extracelularmente as formas tripomastigotas no sangue circulante. Nos hospedeiros invertebrados, formas epimastigotas estão presentes em todo o intestino do inseto vetor e tripomastigotas metacíclicos presentes no reto. As amastigotas são formas arredondadas ou ovoides (3 a 5 µm de diâmetro), com um flagelo que ainda não emergiu do bolso flagelar e o cinetoplasto próximo ao núcleo. As amastigostas multiplicam-se por fissão binária no citoplasma das células infectadas (Figura 5 e 6). Os tripomastigotas são formas alongadas (15µm de comprimento), que apresentam um flagelo que emerge do bolso flagelar na parte posterior da célula e a percorre na direção longitudinal até a parte anterior, ligado à membrana, formando a membrana ondulante do parasito. No tripomastigota, o cinetoplasto está situado em posição posterior ao núcleo (Figura 5 e 6). Essa forma evolutiva é a principal forma de infecção do parasito. Na microscopia eletrônica, observa-se em todas as formas evolutivas do T. cruzi (amastigota, tripomastigota e epimastigota) uma organela, o cinetoplasto, que constitui uma mitocôndria modificada, rica em DNA. Essa organela dá o nome à ordem Kinetoplastida, na qual se inserem os tripanossomatídeos (lembre-se: esta estrutura também está presente nas formas evolutivas da Leishmania). 15WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Os epimastigostas são formas alongadas (20µm de comprimento), com o cinetoplasto situado em posição anterior e próximo ao núcleo. O flagelo também forma uma membrana ondulante, porém mais curta e menos evidente (Figura 5). Essas formas se multiplicam abundantemente por fissão binária no interior do intestino dos insetos triatomíneos. Figura 5 – Estágios evolutivos do T. cruzi. Fonte: Ferreira (2012). Figura 6 – A) Corte histológico que mostra ninho de amastigotas de T. cruzi na musculatura cardíaca. B) Tripo- mastigostas em esfregaço sanguíneo (coloração Giemsa). Fonte: Ferreira (2012). 16WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.2.2 Ciclo biológico O ciclo de vida do T. cruzi é do tipo heteroxênico (Figura 7), passando o parasito por uma fase de multiplicação intracelular no hospedeiro vertebrado e extracelular no inseto vetor (triatomíneos). Figura 7 – Ciclo biológico do T. cruzi. Fonte: adaptado de CDC. As principais formas de transmissão da doença de Chagas são: a transmissão pela picada do inseto vetor (infecção ocorre pela penetração de tripomastigotas metacíclicos, eliminados nas fezes ou na urina de triatomíneos durante o hematofagismo, em solução de continuidade com a pele ou mucosa íntegra), transmissão oral (ocorre a penetração do parasito, pela mucosa da boca, íntegra ou lesada, devido, por exemplo, ao consumo de alimentos contaminados), transfusão sanguínea e transmissão congênita (transmissão ocorre quando existem ninhos de amastigotas na placenta da mãe infectada). Considerando o mecanismo natural de infecção pelo T. cruzi, os tripomastigotas metacíclicos eliminados nas fezes e na urina do triatomínio, durante ou logo após o repasto sanguíneo, penetram pelo local da picada e interagem com células do sistema mononuclear fagocitário (SMF) da pele ou mucosas. No interior dessas, ocorre a transformação dos tripomastigotas em amastigotas, que se multiplicam por fissão binária. A seguir, ocorre a diferenciação dos amastigotas em tripomastigotas, estes rompem a membrana plasmática da célula hospedeira, sendo liberados no meio extracelular. Os tripomastigotas podem invadir células vizinhas ou atingir a corrente sanguínea, disseminando-se para outros órgãos e tecidos (SMF-fígado, baço, medula óssea; músculo liso; músculo esquelético e cardíaco). Quando o hospedeiro desenvolve uma resposta imune eficaz, há a diminuição da parasitemia (número de parasitos na corrente sanguínea) e a infecção tende a se cornificar. Na fase crônica, o número de parasitos é menor na circulação sanguínea. A evolução e o desenvolvimento das diferentes formas clínicas (indeterminada, digestiva, cardíaca ou mista – cardiodigestiva) na fase crônica da doença de Chagas ocorrem lentamente, após 10 a 15 anos de infecção ou mais. 17WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Os triatomíneos vetores se infectam ao ingerir as formas tripomastigotas presentes na corrente circulatória do hospedeiro vertebrado durante o hematofagismo. No estômago do inseto, eles se transformam em formas epimastigotas. No intestino, os epimastigotas se multiplicam por fissão binária, sendo, portanto, responsáveis pela manutenção da infecção no vetor. No reto, porção terminal do tubo digestivo, os epimastigotas se diferenciam em tripomastigotas (infectantes para os vertebrados) e são eliminados nas fezes ou na urina durante ou após o repasto sanguíneo no hospedeiro vertebrado, completando o ciclo. 1.2.3 Aspectos clínicos e patogenia A doença de Chagas apresenta duas fases: aguda e crônica (indeterminada ou sintomática digestiva, cardíaca ou mista – cardiodigestiva). A fase aguda inicia-se no momento da infecção, pode ser sintomática (aparente) ou assintomática (inaparente). Ambas estão relacionadas com o estado imunológico do hospedeiro. A forma assintomática é a mais frequente independente da forma de transmissão. O quadro clínico da doença de Chagas aguda se instala geralmente nos primeiros dias ou meses após a infecção. Caracteriza-se por febre, edema localizado e generalizado, poliadenia, hepatomegalia, esplenomegalia e, às vezes, insuficiência cardíaca e perturbações neurológicas. As perturbações neurológicas são raras e consequência da meningoencefalite, ocorrem apenas em crianças e pacientes imunossuprimidos. Podem ser observados sinais associados à porta de entrada do parasito, como o sinal de Romaña (edema bipalpebral unilateral com linfadenopatia-satélite, que sugere penetração do parasito pela mucosa da conjuntiva) ou o chagoma de inoculação (lesão cutânea eritematosa e endurecida, porém indolor, que se desenvolve no sítio de penetração do parasito após picada do vetor - Figura 8). Para entender melhor o ciclo biológico do T. cruzi, assista ao vídeo com a animação sobre “O ciclo de vida do T. cruzi no homem” disponível no site do YouTube link: <https://www.youtube.com/watch?v=0N4eB1c2xI0>. 18WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 8 – Sinais de porta de entrada do T. cruzi. A) Sinal de Romaña e B) Chagoma de inoculação. Fonte: Neves (2016). Após a fase aguda, os sobreviventes passam por um longo período assintomático (10 a 30 anos). Cerca de 50% dos pacientes chagásicos que tiveram a fase aguda apresentam esta forma da doença. Esta fase é chamada de forma indeterminada e caracterizada pelos seguintes parâmetros: positividade de exames sorológicos e/ou parasitológicos; ausência de sintomas e/ou sinais da doença; eletrocardiograma convencional normal, e coração, esôfago e cólon radiologicamente normais. Apesar de assintomáticos e de apresentarem lesões muito discretas (cardite), tem sido registrado morte súbita de pacientes com esta forma da doença. Alguns indivíduos após permanecerem com a forma assintomática por vários anos, com o correr do tempo (20 a 30 anos) podem apresenta sintomatologia relacionada com o sistema cardiocirculatório (forma cardíaca), digestivo (forma digestiva), ou ambos (forma cardiodigestiva ou mista). Estudos demonstram que a forma clínica desenvolvida na doença de Chagas envolve uma relação multifatorial entre aspectos relacionados ao parasito (polimorfismo, genética, tropismo, constituintes antigênicos e carga parasitária) e ao hospedeiro (gênero, idade, reposta imune e constituição genética). A formacardíaca é a manifestação clínica mais grave e frequente da doença de Chagas crônica. Na cardiopatia chagásica crônica sintomática, o fato clínico principal é a insuficiência cardíaca congestiva (ICC) e isto se deve a diminuição da massa muscular que se encontra muito destruída devido à substituição por áreas de fibrose interrompendo fibras e fascículos; a destruição do sistema nervoso autônomo simpático e parassimpático e o exsudato inflamatório são os responsáveis pelos sintomas (dispneia, insônia, congestão visceral, palpitações e edema dos membros inferiores). Pacientes com este quadro apresentam cardiomegalia intensa (Figura 9 A). Outro fator responsável pela cardiopatia chagásica é o aneurisma de ponta, ou seja, uma lesão encontrada no ápice dos ventrículos, na qual há pobreza de células musculares. Além da insuficiência cardíaca, devido ao retardamento da circulação e da hipóxia, são frequentes os fenômenos tromboembólicos. Os trombos cardíacos são frequentes e a partir destes trombos, desprendem-se êmbolos que podem originar infartos no coração, pulmões, rins, baço, encéfalo etc., causando assim a morte súbita. A morte súbita cardíaca é responsável por quase dois terços de todas as mortes na cardiopatia chagásica, seguida de insuficiência cardíaca e tromboembolismo. 19WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Na forma clínica gastrointestinal, o esôfago e cólon podem estar dilatados em graus variados (megas; Figura 9 B). As lesões do sistema nervoso entérico são fundamentais na patogênese da doença de Chagas digestiva e a estrutura frequentemente afetada é o plexo mioentérico de Auerbach (importante no controle do peristaltismo). As lesões neuronais ocorrem em graus variados, e leva à perda da coordenação motora e acalasia dos esfíncteres, impedindo o esvaziamento do órgão comprometido. Os sintomas principais do megaesôfago são, disfagia, regurgitação e dor retroesternal, além disso, a desnutrição pode ocorrer com a progressão da doença. O sintoma mais comum do megacólon é a obstipação intestinal. As complicações mais graves do megacólon são a obstrução intestinal e a perfuração, levando à peritonite. Figura 9 – A) Radiografia cardiomagalia crônica B) Radiografia de megacólon. Fonte: Neves (2016). 1.2.4 Epidemiologia e profilaxia Segundo a Organização Mundial de Saúde, calcula-se que 6 - 8 milhões de pessoas estão infectadas com T. cruzi em todo o mundo, principalmente na América Latina, onde a doença de Chagas é endêmica. As maiores prevalências da doença de Chagas foram relatadas na Bolívia (6,8%), Argentina (4,1%), El Salvador (3,4%), Honduras (3,1%) e Paraguai (2,5%). No entanto, Brasil e México com prevalências de cerca de 1%, juntamente com a Argentina, abrigam quase 60% de todas as pessoas infectadas com T. cruzi na América Latina. Estimativas recentes apontam 3 milhões de pessoas infectadas no Brasil, principalmente na fase crônica da infecção, com aproximadamente 6 mil mortes por ano. O Brasil é um dos países da América Latina que atingiu um nível de controle da doença de Chagas, reduzindo consideravelmente a transmissão vetorial. Em 2006, o Brasil recebeu o certificado de eliminação da principal espécie do vetor domiciliado, o Triatoma infestans. Também houve avanços consideráveis na profilaxia da transmissão por transfusão sanguínea. Cada vez mais, a prevalência da infecção tem sido menor na população mais jovem e crianças. No entanto, a infecção oral com T. cruzi representa atualmente a mais documentada via de transmissão no Brasil. Microepidemias de doença de Chagas aguda devido à ingestão de alimentos contaminados com triatomíneos infectados ou suas fezes (água, açaí, suco de cana- de-açúcar etc.) têm sido relatadas em vários estados brasileiros, incluindo o Rio Grande do Sul, Amazonas, Amapá, Santa Catarina e Bahia. 20WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Além disso, a presença crescente da doença de Chagas em áreas não endêmicas, principalmente devido à imigração, torna esta doença um problema de saúde não só de países endêmicos. Estima- se que mais de 300 mil pessoas infectadas com o T. cruzi vivem atualmente nos Estados Unidos e, embora relativamente limitado, os dados epidemiológicos da Europa estimam 59-108 mil casos de doença de Chagas, com números mais elevados na Espanha e Itália. Devido a situação atual, os EUA, França, Espanha e Reino Unido instituíram a triagem para detecção de T. cruzi nos bancos de sangue e órgãos para transplante. 1.2.5 Diagnóstico laboratorial Os métodos de diagnóstico laboratorial apresentam diferentes resultados quando aplicados na fase aguda ou crônica da infecção. Na fase aguda, observa-se alta parasitemia, presença de anticorpos inespecíficos e início de formação de anticorpos específicos (IgM e IgG). Nesta fase, recomenda-se: pesquisa direta (exame de sangue a fresco, exame de sangue em gota espessa ou esfregaço sanguíneo corado e métodos de concentração) e, se necessário, pesquisa indireta do parasito (xenodiagnóstico, hemocultura ou inoculação em animais de laboratório). Na fase crônica, observa-se baixíssima parasitemia e presença de anticorpos específicos (IgG). Recomenda-se, para o diagnóstico, métodos sorológicos (imunofluorescência indireta, ELISA, hemaglutinação indireta ou fixação de complemento) ou a pesquisa do parasito por métodos indiretos (xenodiagnóstico, hemocultura ou inoculação em animais de laboratório). Estes métodos de diagnóstico parasitológicos tomam-se necessários quando a sorologia é duvidosa ou quando se deseja verificar a eficácia de tratamento. Outra técnica recente que vem sendo amplamente utilizada é a Reação em Cadeia de Polimerase (PCR), esta consiste na amplificação in vitro de fragmentos de DNA de T. cruzi presentes em amostras de sangue, soro ou tecidos do paciente infectado. A PCR possui elevada sensibilidade e especificidade em detectar o DNA de T. cruzi, mesmo em casos de sorologia duvidosa ou negativa (capaz de detectar quantidades de DNA muito menores a de uma única célula do parasito). No Brasil, devido à ausência de protocolos definidos e de procedimentos operacionais padronizados, assim como de kits comerciais para uso na rotina da vigilância em saúde, a PCR não pode ser considerada um método de diagnóstico isolado para confirmação ou descarte de caso de doença de Chagas aguda ou crônica. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que o diagnóstico sorológico da doença de Chagas seja realizado utilizando sempre dois testes sorológicos diferentes em paralelo, para a obtenção de resultados mais precisos. No caso de resultados duvidosos, devem-se empregar outras técnicas e repetir as reações. Se dois métodos apresentarem resultados contraditórios, realizar um terceiro método de princípio diferente. Se permanecer a dúvida, realizar um quarto método de imunodiagnóstico e se ainda permanecer a dúvida realizar um método de diagnóstico não-imunológico. No caso de banco de sangue, recomenda-se o uso de três técnicas imunológicas de princípios diferentes para assegurar a detecção da maioria dos casos. 1.3 Trichomonas vaginalis - Tricomoníase O Trichomonas vaginalis é um protozoário flagelado, agente etiológico da tricomoníase. Parasita o trato geniturinário de homens e de mulheres e pode ser transmitido sexualmente, sendo considerado uma DST (doença sexualmente transmissível) de origem não viral mais prevalente no mundo. 21WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Embora menos de 20% das mulheres parasitadas sejam sintomáticas, o parasito pode causar vulvovaginite e doença inflamatória pélvica. Entre os homens, aproximadamente de 14 a 60% dos parceiros de mulheres infectadas também albergam o parasito, sendo geralmente assintomáticos, mas podendo desenvolver uretrite ou prostatite. 1.3.1 Morfologia O T. vaginalis apresenta apenas o estágiode trofozoíto, este possui uma forma tipicamente elipsoide ou oval, medindo de 7-32 µm de comprimento por 5-12 µm de largura, dependendo das características físico-químicas do ambiente em que se encontra. Possui quatro flagelos livres que emergem do polo anterior, chamado canal periflagelar. Ainda pode ser observado outro flagelo que emerge fora desse canal e fica voltado para trás, formando uma membrana ondulante que se mantém aderida por toda extensão do corpo do parasito. Próximo a membrana ondulante encontra-se a costa, estrutura de sustentação, que consiste em um complexo feixe de filamentos. A movimentação do trofozoíto se dá pela ação dos flagelos livres e da membrana ondulante. Outra importante estrutura presente nesse parasito é o axóstilo, com forma de fita, formado por microtúbulos que percorrem toda a extensão do corpo até o polo posterior. A principal função do axóstilo é provavelmente o suporte de célula, mas pode também auxiliar no processo de divisão celular. O núcleo celular é relativamente grande, alongado e situado na metade anterior do corpo celular (Figura 10 e 11). Figura 10 – A) Morfologia do T. vaginalis. B) Ultraestrutura do T. vaginalis, com as principais organelas. Fonte: Ferreira (2012). 22WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 11 – Trofozoítos de T. vaginalis (setas) em amostra de secreção vaginal corada pelo Giemsa. Fonte: Ferreira (2012). 1.3.2 Ciclo biológico O ciclo de vida do T. vaginalis é do tipo monoxênico. Este parasito habita o aparelho geniturinário da mulher (mucosa vaginal e uretra) e do homem (prepúcio, uretra e próstata). É um parasito anaeróbio facultativo, que se desenvolve bem em ambientes com baixa tensão de oxigênio, com pH entre 5,0 e 7,5 e temperatura entre 20 e 40°C. A reprodução ocorre por divisão binária. Não há formação de cistos e podem resistir no ambiente (fora do hospedeiro) por algumas horas em temperaturas elevadas (40°C). O mecanismo de transmissão desse parasito é principalmente a relação sexual (Figura 12). Alguns autores afirmam que o T. vaginalis poderia ser transmitido por meio de roupas de cama, assentos sanitários, roupas íntimas, artigos de higiene, entre outros. Atualmente admite- se que a transmissão não sexual é incomum, mas pode ser aceita para explicar tricomoníase em crianças e virgens. Além disso, mães infectadas podem contaminar suas filhas durante o parto (2 a 17%). A vagina, em condições normais, é resistente à infecção pelo Trichomonas vaginalis, e a infecção estaria associada a modificações do meio. Entre as alterações, podemos citar modificação da flora bacteriana (redução de Lactobacillus), aumento do pH vaginal e descamações do epitélio. Esses fatores estariam relacionados a alterações hormonais ou a processos naturais de inflamação e de infecção bacteriana. 23WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 12 – Ciclo biológico do T. vaginalis. Fonte: adaptado de Neves (2016) e CDC. 1.3.3 Aspectos clínicos e patogenia A infecção por T. vaginalis está associada a um amplo espectro de manifestações clínicas, cuja intensidade depende de fatores genéticos do parasito e do hospedeiro, da interação entre organismos da flora vaginal e da fase do ciclo menstrual em que ocorre o contato com o parasito. Além disso, a interação do T. vaginalis com seu hospedeiro é um processo complexo, no qual estão envolvidos componentes associados à superfície celular do parasito e células epiteliais do hospedeiro e também componentes solúveis encontrados na secreção vaginal e uretral. Vários estudos mostram que pacientes com tricomoníase apresentem um risco de adquirir infecção pelo HIV seis vezes maior do que as mulheres não infectadas. Os mecanismos biológicos propostos para explicar esse achado são a ruptura do revestimento epitelial, que facilita a penetração do vírus em camadas celulares subjacentes e o acesso à corrente sanguínea, e o recrutamento de linfócitos CD4+ por T. vaginalis, células - alvo do HIV. A tricomoníase durante a gravidez pode resultar em ruptura prematura das membranas, parto prematuro e baixo peso ao nascer. Além disso, predispõe mulheres à doença inflamatória pélvica, pois infecta o trato genital superior, causando resposta inflamatória que danifica as células ciliadas da tuba uterina, inibindo a passagem de espermatozoides e óvulos. Recentemente, estudos têm mostrado a associação da tricomoníase com tipos agressivos de câncer de próstata. 24WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Nas mulheres, o espectro clínico da tricomoníase varia de forma assintomática ao estado de vaginite aguda. A manifestação mais frequente é a leucorreia, que consiste em um corrimento vaginal abundante. Dependendo dos microrganismos associados, podem apresentar coloração, viscosidade, cheiro e aspecto diversos. Pode, dessa forma, variar de um corrimento esbranquiçado, sem sangue, a um corrimento esverdeado, bolhoso, de odor desagradável. A mucosa genital (vagina e cérvice), pode encontrar-se avermelhada, edemaciada e com pontos hemorrágicos (parede cervical com aspecto de morango), devido a um processo inflamatório associado, desencadeando vaginites, cervicites e vulvovaginites. O processo infeccioso é acompanhado por prurido, ardor e queimação, que se agravam à noite e durante as relações sexuais, além de dor ao urinar (disúria) e aumento da frequência miccional (poliúria). Os sintomas da tricomoníase são mais pronunciadas no período pós-menstrual e na gravidez. No homem, a infecção é geralmente subclínica. No entanto, T. vaginalis causa 3 a 17% das uretrites diagnosticadas em homens, com secreção pouco abundante, purulenta ou mucoide e mais frequente pela manhã. As complicações associadas à tricomoníase são: constrição uretral, prostatite, balanopostite e epididimite. 1.3.4 Epidemiologia e profilaxia A tricomoníase é uma doença cosmopolita, transmitida principalmente pelas relações sexuais, sendo considerada uma DST (doença sexualmente transmissível). A Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou, em 2008, uma incidência anual de 276,4 milhões de casos de tricomoníase no mundo. No Brasil, estima-se a ocorrência anual de 4,3 milhões de novas infecções por T. vaginalis. A incidência da infecção depende de vários fatores incluindo idade, atividade sexual, número de parceiros sexuais, outras DSTs, fase do ciclo menstrual, técnicas de diagnóstico e condições socioeconômicas. A perpetuação do protozoário depende da sobrevivência no hospedeiro, por não ter a forma cística, é suscetível à dessecação e às altas temperaturas, mas podem viver fora de seu habitat por algumas horas sob alta umidade. A profilaxia da tricomoníase é feita essencialmente com as estratégias utilizadas para as demais doenças sexualmente transmissíveis, com ênfase em hábitos de higiene pessoal e uso de preservativos. O diagnóstico e o tratamento precoce das infecções são medidas fundamentais para reduzir a fonte de infecção. Além disso, o tratamento dos parceiros de mulheres infectadas é outra estratégia importante para evitar reinfecções frequentes e assegurar a cura. 1.3.5 Diagnóstico laboratorial O exame microscópico convencional de preparação a fresco e de esfregaços fixados corados, junto com a cultura, são os procedimentos mais comumente empregados no diagnóstico da tricomoníase. Nas preparações a fresco, nos exames diretos das secreções urogenitais em salina, observam-se os trofozoítos, com tamanho aproximado de um leucócito, movimentando- se ativamente na amostra; quando o protozoário está em repouso, é possível ver seu batimento flagelar. Quando a análise das preparações à fresco e coradas são negativas, o diagnóstico deve ser complementado pela cultura do parasito. 25WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA O imunodiagnóstico por meio de reaçõesde aglutinação, métodos de imunofluorescência e técnicas imunoenzimáticas (ELISA) tem contribuído para aumentar o índice de certeza dos resultados. No entanto, estas técnicas não substituem os exames parasitológicos, mas podem completá-los quando negativos. Testes imunocroatográficos têm sido usados no diagnóstico da tricomoníase, são testes simples e rápidos, mais sensíveis que o exame a fresco, porém menos sensíveis que a cultura. Por apresentarem resultados falso-positivos em populações com baixa prevalência da infecção, estes testes são raramente utilizados na rotina laboratorial. 1.4 Giardia duodenalis - Giardíase O gênero Giardia inclui protozoários flagelados parasitos do intestino delgado de mamíferos, aves, répteis e anfíbios sendo nestes hospedeiros o agente etiológico da giardíase. Dentre as espécies descritas, Giardia duodenalis (= Giardia intestinalis = Giardia lamblia) é a única espécie que parasita o homem, podendo infectar outros mamíferos, incluindo animais domésticos como cães e gatos e uma variedade de animais silvestres. A giardíase em países em desenvolvimento é uma das causas mais comuns de diarreia, sobretudo em crianças, podendo impedir o desenvolvimento físico satisfatório. Entre indivíduos de países desenvolvidos G. duodenalis é principal parasito intestinal encontrado na população, sendo a causa mais frequentes de surtos epidêmicos de diarreias associadas a água para consumo. 1.4.1 Morfologia Giardia duodenalis apresenta duas formas evolutivas: trofozoíto e cisto (Figura 13 e 14). O trofozoíto é encontrado no intestino delgado, sendo a forma responsável pelas manifestações clínicas da infecção. No que se refere às características morfológicas esta forma evolutiva possui formato de pera (20µm de comprimento por 10µm de largura), com simetria bilateral e quatro pares de flagelo. A face dorsal é lisa e convexa, enquanto a face ventral é côncava, apresentando uma estrutura semelhante a uma ventosa, que é conhecida por disco ventral ou suctorial. Abaixo do disco, na parte ventral, é observada a presença de uma ou duas formações paralelas, em forma de vírgula, conhecidas como corpos medianos. No interior do trofozoíto, localizados na sua parte frontal, são encontrados dois núcleos. O Cisto, forma de resistência, responsável pela transmissão do parasito, possui forma oval (12µm de comprimento por 8µm de largura), quando corado, pode mostrar uma delicada membrana destacada do citoplasma. No seu interior, encontram-se dois ou quatro núcleos, axonemas de flagelos e os corpos escuros com forma de meia-lua situados no polo oposto aos núcleos. 26WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 13 - Representação esquemática do A) trofozoíto e B) cistos de G. duodenalis. Fonte: Ferreira (2012). Figura 14 - A) Trofozoíto de G. duodenalis em amostra de fezes corados com hematoxilina férrica e B) Cisto de G. duodenalis em amostra de fezes corados com hematoxilina férrica. Fonte: Ferreira (2012). 1.4.2 Ciclo biológico G. duodenalis possui um ciclo de vida do tipo monoxênico (Figura 15). A via normal de infecção do homem é a ingestão de cistos presentes na água (a cloração da água bem como o aquecimento a 60ºC não são suficientes para destruí-los) e alimentos contaminados (verduras cruas e frutas mal lavadas). Além da transmissão hídrica e por alimentos, a transmissão direta de pessoa a pessoa, por meio das mãos contaminadas, é comum em locais de aglomeração humana (creches, orfanatos, asilos, escolas etc.). São necessários de 10 a 100 cistos para que ocorra a infecção no homem. Após a ingestão dos cistos, o desencistamento é iniciado no meio ácido do estômago e completado no duodeno e jejuno. Os trofozoítos se multiplicam por divisão binária longitudinal, assim colonizam o intestino, onde permanecem aderidos à mucosa intestinal por meio do disco adesivo. O ciclo se completa pelo encistamento do trofozoíto e sua eliminação para o meio exterior juntamente com as fezes do hospedeiro (em caso de trânsito intestinal acelerado, pode ocorrer também a presença de trofozoítos nas fezes). A eliminação dos cistos não é contínua (intermitente), ocorrendo às vezes períodos de 7 a 10 dias durante as quais estão presentes em pequena quantidade ou ausentes. 27WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Os cistos podem permanecer viáveis por vários meses no meio ambiente, desde que em condições favoráveis de temperatura e umidade. Figura 15 - Ciclo biológico do G. duodenalis. Fonte: adaptado de CDC. 1.4.3 Aspectos clínicos e patogenia Em seres humanos, a infecção por G. duodenalis pode ser assintomática ou desenvolver quadros de diarreia, que variam de diarreia aguda e autolimitante a diarreia persistente com evidências de má absorção. Os fatores que possivelmente contribuem para esta variabilidade de formas clínica são: a virulência do parasito; idade e estado imunitário do hospedeiro no momento da infecção. As infecções previas por G. duodenalis produzem um certo grau de proteção imune em infecções subsequentes. Por isso, em áreas endêmicas a maioria das infecções sintomáticas ocorrem em indivíduos imunocomprometidos, como em crianças ou em viajantes não imunes, provenientes de áreas de baixa transmissão. A infecção assintomática ocorre tanto em adultos como em algumas crianças. A giardíase aguda caracteriza-se por ser uma doença diarreica com duração entre 2 e 4 semanas. Os sinais e sintomas mais comuns são a esteatorreia e o desconforto abdominal, podendo haver náuseas, vômitos e perda de peso. Embora a infecção seja autolimitada, indivíduos imunocomprometidos podem apresentar diarreia crônica com duração superior a 2 semanas. Em um quarto dos pacientes não imunes, os sintomas podem persistir por 7 semanas ou mais. Nesses casos, a perda de peso pode ser pronunciada devido as dificuldades de absorção de diversos nutrientes, como, vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), vitamina B12, ferro, ácido fólico, entre outros. 28WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Essas deficiências nutricionais raramente produzem danos sérios nos adultos, contudo em crianças, podem ter efeitos graves. Os mecanismos pelos quais a G. duodenalis causa diarreia e má absorção intestinal não são bem conhecidos. O parasitismo pode ocasionar mudanças na arquitetura da mucosa, observa-se que os trofozoítos aderidos ao epitélio intestinal podem romper e distorcer as microvilosidades do lado que o disco adesivo entra em contato com a membrana da célula. Além disso, há evidências que o parasita produz e libera substâncias citopáticas na luz intestinal, rompendo a integridade da membrana das células, além de processos inflamatórios desencadeados pelo parasito. Apesar dos vários estudos desenvolvidos, não há uma única explicação para a diarreia e a má absorção nas infecções por G. duodenalis. Na verdade, todo o processo parece ser multifatorial, envolvendo fatores associados às alterações da mucosa, do próprio ambiente intestinal e cepa do parasito. 1.4.4 Epidemiologia e profilaxia Segundo a Organização Mundial de Saúde, estima-se que haja 200 milhões de pessoas com giardíase sintomática no mundo. G. duodenalis tem sido referido como o parasito entérico mais frequentes nos inquéritos coproparasitológicos em diferentes regiões, sendo que esta situação é favorecida, pela facilidade com que estes cistos são acidentalmente ingeridos com água ou alimentos contaminados. A transmissão hídrica assume importância epidemiológica na transmissão da giardíase. Isso ocorre, porque os cistos, além da resistência as condições ambientais, resistem a ação de desinfetantes químicos, inclusive ao cloro empregado nas estações de tratamento de água. É também importante mencionar o papel de alimentos contaminados por manipuladores e dos insetos atuando como vetores mecânicos para o transporte de cistos deG. duodenalis. O contato pessoa-pessoa também são relevantes na transmissão, especialmente em instituições como creches e asilos. A transmissão pessoa-pessoa não se restringe necessariamente a situações em que as condições sanitárias são precárias. Explica-se, assim, em parte, a persistência da giardíase em comunidades com acesso adequado a água encanada e esgoto tratado, mesmo quando os demais parasitos intestinais se tornam raros. A importância do reservatório animal na infecção humana varia em diferentes contextos epidemiológicos. Em áreas urbanas da Austrália, proporções semelhantes de cães são infectadas com variantes de G. duodenalis, com potencial zoonótico e variantes exclusivamente caninas, sugerindo a possibilidade de transmissão de G. duodenalis entre animais de estimação e o homem. Como profilaxia da giardíase, são recomendadas medidas de higiene pessoal (lavar as mãos), destino correto das fezes (fossas, rede de esgoto), proteção e correta lavagem dos alimentos (frutas e verduras), tratamento correto da água (ferver), diagnosticar os animais domésticos infectados e trata-los (potencial zoonótico). 29WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.4.5 Diagnóstico laboratorial A giardíase é geralmente diagnosticada por meio de exame parasitológico de fezes. Em fezes diarreicas, geralmente, predominam trofozoítos do parasito, situação em que amostras recém-emitidas devem ser examinadas rapidamente por meio do método direto e coloração pela hematoxilina férrica ou pelo tricrômico. Nas fezes formadas predominam cistos. Para o diagnóstico, são geralmente necessárias técnicas de concentração, os métodos de sedimentação espontânea (Hoffman et al., 1934) e centrífugo-flutuação (Faust et al., 1938) são os mais utilizados. Como os cistos de G. duodenalis são eliminados intermitentemente nas fezes, sugerem-se a coleta e o exame de pelo menos três amostras fecais, colhidas ao longo de 1 semana, para aumentar a sensibilidade do exame parasitológico, evitando resultados falso negativos. Além disso, técnicas imunológicas de detecção de antígenos de G. duodenalis nas fezes (coproantígenos), empregando a técnica de ELISA, tem demonstrado resultados satisfatórios no diagnóstico desta parasitose (sensibilidade 85 a 95% e especificidade de 90 a 100%). 1.5 Entamoeba histolytica/Entamoeba dispar – Amebíase Amebíase refere-se ao parasitismo humano por Entamoeba histolytica e E. dispar. É considerada um importante problema de saúde pública, que leva milhares de pessoas a óbito no mundo todo. Apesar da alta mortalidade, muitos casos de infecções assintomáticas são registrados. Embora durante quase um século a E. histolytica tenha sido aceita como única espécie associadas à amebíase humana, definem-se atualmente duas espécies morfologicamente idênticas, que diferem em características bioquímicas, imunológicas, genéticas e epidemiológicas: E. histolytica, patogênica, e E. dispar, não patogênica. No entanto, casos de amebíase sintomática, denominado colite não disentérica (ausência de invasão da mucosa intestinal), foram identificados como produzidos pela E. dispar. Outras espécies de amebas do gênero Entamoeba, amebas dos gêneros Iodamoeba e Endolimax, embora não apresentem patogenicidade, são consideradas importantes nos aspectos sanitários, tendo em vista sua transmissão intimamente relacionada às precárias condições de higiene e de saneamento. A presença de amebas comensais no intestino humano, apesar de não causarem enfermidades (comensais), é um importante parâmetro de avaliação dos aspectos sanitários de uma determinada região, visto que sua presença indica elevado potencial de transmissão de parasitos patogênicos via oral-fecal. 30WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Neste tópico estudaremos a E. histolytica/dispar, devido à sua patogenicidade em humanos. 1.5.1 Morfologia A E. histolytica/dispar apresenta como principais formas evolutivas: os trofozoítos (parasitam o intestino grosso, sendo a forma responsável pelas manifestações clínicas da infecção) e os cistos (formas de resistência do parasito e também as formas infectantes). Trofozoítos (Figura 16A e 17A) são pleomorficos, medem de 20-40µm, podendo chegar a 60µm, devido ao aumento da sua atividade fagocitária e ao acúmulo de vacúolos digestivos, que podem conter hemácias fagocitadas no seu interior (forma invasiva). Estas formas evolutivas possuem núcleo esférico, arredondado e vesiculoso, com a cromatina periférica, formada por pequenos grânulos justapostos e distribuídos regularmente na parte interna da membrana nuclear, lembrando uma roda de carroça; o cariossoma é pequeno, central ou excêntrico. O citoplasma se distingue em ectoplasma (claro e hialino) e endoplasma (granuloso). Cistos (Figura 16B e 17B) são esféricos ou ovais, medindo de 8-20µm de diâmetro. Apresentam divisão múltipla por esquizogônia; podem conter um a quatro núcleos. Os cistos imaturos, isto é, aqueles com um ou dois núcleos, apresentam uma estrutura cilíndrica conhecida como corpo cromatoide (ribossomos agrupados), podem apresentar também vacúolo de glicogênio como fonte de reservas energéticas que são consumidas no processo de maturação. Figura 16 - Representação esquemática do A) trofozoíto e B) cistos de E. histolytica/dispar. Fonte: Ferreira (2012). 31WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 17 - A) Trofozoíto (stea branca) e cisto (seta preta) de E. histolytica/dispar em amostra de fezes coradas com hematoxilina férrica e B) Cisto de E. histolytica/dispar com corpos cromatoides bem evidentes em amostra de fezes coradas com hematoxilina férrica. Fonte: Ferreira (2012). 1.5.2 Ciclo biológico O ciclo biológico da E. histolytica/dispar é do tipo monoxênico (Figura 18). O ciclo se inicia quando o hospedeiro ingere os cistos maduros, juntamente de alimentos ou água contaminados. Os cistos passam pelo estômago, resistindo à ação do suco gástrico, chegam ao final do intestino delgado ou ao início do intestino grosso, onde ocorre o desencistamento, com a saída do metacisto, por meio de uma pequena fenda na parede cística. Em seguida, o metacisto realiza sucessivas divisões nucleares e citoplasmáticas, dando origem a quatro e depois oito trofozoítos, chamados trofozoítos metacísticos. Estes trofozoítos migram para o intestino grosso, realizando a colonização desse local. Em geral, os trofozoítos ficam aderidos à mucosa do intestino, vivendo como um comensal, alimentando-se de detritos e de bactérias. Sob certas circunstâncias, já na massa fecal, algumas formas trofozoíticas reduzem sua atividade, deixam de emitir pseudópodes, de fagocitar e de formar vacúolos digestivos, desprendem-se da parede intestinal, sofrem desidratação, eliminam substâncias nutritivas presentes no citoplasma e se transformam em pré-cistos. Em torno das amebas pré-císticas, é segregado um envoltório resistente – a parede/membrana cística –, transformam-se em cistos, inicialmente mononucleados. Por meio de divisões nucleares sucessivas, se transformam em cistos tetranucleados, que são eliminados com as fezes normais ou formadas. Os cistos são tipicamente encontrados nas fezes formadas, enquanto os trofozoítos são encontrados nas fezes diarreicas. Os cistos, forma de resistência e responsáveis pela transmissão do parasito, apresentam paredes bastante resistentes e podem sobrevivem por dias ou por semanas no ambiente externo. 32WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 18 - Ciclo biológico E. histolytica/dispar. Fonte: Ferreira (2012). 1.5.3 Aspectos clínicos e patogenia Habitualmente, os trofozoítos de E. histolytica/dispar ficam aderidos à mucosa do intestino, vivendo como um comensal, alimentando-se de detritos e de bactérias. Nesses casos, os trofozoítos assumem uma forma não invasiva,com ciclo não patogênico que evolui de forma assintomática. Embora clinicamente esse hospedeiro não apresente sintomatologia, ele elimina cistos nas fezes, sendo, dessa forma, muito importante do ponto de vista epidemiológico. Em alguns casos, o equilíbrio parasito-hospedeiro pode ser rompido e os trofozoítos invadem a submucosa intestinal, preferencialmente por meio do epitélio interglandular, multiplicando-se ativamente no interior das úlceras. As amebas invasivas desencadeiam a morte das células do epitélio intestinal, mediante dois processos distintos: citólise, devido a produção de uma proteína produtora de poros e morte das células epiteliais por apoptose. Além disso, a migração de neutrófilos e outros leucócitos, atraídos pelos mediadores inflamatórios liberados, agrava a lesão epitelial. Na submucosa, as amebas podem progredir em todas as direções, determinando inicialmente a típica ulceração chamada “botão de camisa”, caracterizada pela necrose liquefativa. As úlceras variam de tamanho e de forma e podem se estender a grandes proporções do intestino grosso, com comprometimento de toda a parede intestinal, com consequente perfuração, levando à peritonite fecal. Ocasionalmente, os trofozoítos podem penetrar nos vasos sanguíneos e, por meio da circulação porta, atingir órgãos, como o fígado principalmente e, posteriormente pulmão, rim, cérebro ou pele causando a amebíase extraintestinal. 33WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA As formas assintomáticas enquadram a grande maioria das infecções humanas por E. histolytica/díspar, e a infecção é detectada pelo encontro de cistos no exame de fezes. As formas sintomáticas da amebíase apresentam uma variedade de manifestações clínicas, que acompanha quadros de manifestações intestinais: a) forma diarreica; b) forma disentéricas; c) amebomas; d) apendicite amebiana. Em alguns casos, podem ocorrer complicações da amebíase intestinal, que compreendem perfurações, peritonites, hemorragia, invaginação, colites pós-disentéricas e estenoses (estreitamento de um segmento do intestino). A forma diarreica é uma das formas clínicas mais frequentes, caracteriza-se por duas a quatro evacuações, diarreicas ou não, por dia, com fezes moles ou pastosas, às vezes contendo muco. Desconforto abdominal ou cólicas podem ocorrer. A maioria das amebas provenientes deste quadro clínico foi identificada como E. dispar. A disenteria amebiana aparece mais frequentemente acompanhada de muco ou de sangue, cólicas intensas, tenesmo, náuseas, vômitos, podendo haver calafrios e febre, provavelmente produzidas pela E. histolytica. Nas formas extraintestinais (produzidas pela E. histolytica, forma invasiva), a patogenia está relacionada ao órgão parasitado. Na amebíase hepática, observa-se uma doença aguda não supurativa, com abscesso hepático e/ou necrose coliquativa. As principais manifestações clínicas são: dor, febre e hepatomegalia. 1.5.4 Epidemiologia e profilaxia Estima-se que existam cerca de 650 milhões de pessoas infectadas com E. histolytica/dispar no mundo, das quais 10% apresentam a forma invasiva (intestinal e extraintestinal), provavelmente produzidas pela E. histolytica. Pesquisas recentes, que utilizam técnicas moleculares, sugerem que a E. dispar seja dez vezes mais frequente em indivíduos assintomáticos. No Brasil, a infecção por E. histolytica/dispar apresenta grande diversidade no número de indivíduos infectados ou com sintomatologia da doença, variando entre as regiões. No sul e sudeste do país, a prevalência varia de 2,5 a 11%, na região Amazônica atinge até 19%, e nas demais regiões em torno de 10%. Na região Amazônica, a amebíase difere das outras regiões do país, pois, além de ser mais prevalente, manifesta-se com mais gravidade, sendo frequentes as formas disentéricas e os abscessos hepáticos. A amebíase é uma doença de transmissão fecal-oral, sendo os cistos formas infectantes do parasito, capazes de permanecer viáveis no ambiente (ao abrigo da luz solar e umidade) durante um período de 20 dias. Assim, a profilaxia desta doença depende de condições sanitárias adequadas e de educação sanitária. O principal veículo de transmissão de cistos é a água contaminada, embora alimentos como vegetais e frutas contaminados também desempenhem um papel importante. A principal fonte de infecção são os indivíduos assintomáticos, que eliminam cistos por longos períodos sem procurar tratamento; os pacientes com disenteria amebiana são relativamente pouco importantes para a disseminação da infecção, pois eliminam predominantemente trofozoítos, que se degeneram ao cair no meio externo e, quando confirmado o diagnóstico, são tratados. 1.5.5 Diagnóstico laboratorial O diagnóstico laboratorial da amebíase intestinal é geralmente realizado por meio de exame parasitológico de fezes. Em fezes diarreicas e disentéricas, predominam as formas trofozoíticas, nas fezes formadas predominam, os cistos. O encontro de trofozoítos nas fezes exige o exame de amostra fresca ou preservada; se não fixados adequadamente até 30 min após a sua eliminação nas fezes, os trofozoítos degeneram-se. 34WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Para a identificação das características morfológicas, que permitem distinguir trofozoítos de E. hystolytica/E. dispar de trofozoítos de amebas comensais, as preparações devem ser coradas, geralmente com hematoxilina férrica ou tricrômico. A pesquisa de cistos, em fezes formadas, é geralmente realizada com o auxílio de métodos de concentração. Entre eles, os mais frequentemente utilizados são os métodos de Hoffmann et al., 1934 (sedimentação de elementos parasitários por ação da gravidade), e Faust et al., 1938 (centrífugo-flutuação das amostras de fezes). Como a eliminação dos cistos nas fezes é intermitente e irregular, aconselha-se a coleta de fezes em dias alternados, esse procedimento pode diagnosticar 80 a 90% das infecções. Os métodos sorológicos (ELISA, imunofluorescência, hemaglutinação indireta...) estão sendo cada vez mais empregados, principalmente no diagnóstico da amebíase extraintestinal, em que os exames de fezes podem ser negativos. Outro método promissor é a pesquisa de coproantígenos pelo ELISA, este pode diagnosticar, com certa segurança, a presença de cistos e trofozoítos nas fezes, mesmo em pequenas quantidades não diagnosticadas no exame de fezes. 1.6 Plasmodium spp. – Malária A Malária é uma doença infecciosa febril aguda, potencialmente fatal, cujos agentes etiológicos são protozoários do gênero Plasmodium e transmitidos por meio da picada da fêmea infectadas do mosquito do gênero Anopheles. No Brasil, três espécies estão associadas à malária em seres humanos: P. vivax, P. falciparum (é responsável pela maioria das mortes relacionadas com a malária) e P. malariae. Uma quarta espécie, o P. ovale, só é encontrada em áreas restritas do continente africano. Recentemente, uma quinta espécie, P. knowlesi, tem sido associada a casos clínicos de malária no continente asiático. A malária é considerada um dos principais problemas de saúde pública no mundo, estima-se que a doença afete cerca de 200 milhões de pessoas, resultando em aproximadamente 600 mil mortes a cada ano, na grande maioria, crianças. Na América Latina, o maior número de casos é verificado na Amazônia brasileira, com registro anual de 120 a 200 mil casos/ano. Além das amebas que parasitam o intestino humano, existem amebas de vida livre que podem causar doenças em humanos. As principais espécies são: Naegleria fowleri, Balamuthia mandrillaris e espécies do gênero Acanthamoeba. Para mais informações sobre a morfologia, biologia, patogenia e diagnósticos destes parasitos realizar a leitura do “Capítulo 16 – Amebas de vida livre” do livro texto: NEVES, D. P. Parasitologia humana. 13. ed. São Paulo: Atheneu, 2016. 35WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NIDA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.6.1 Morfologia Os plasmódios variam individualmente em tamanho e forma, de acordo com a espécie e seu estágio de desenvolvimento. As formas evolutivas extracelulares, são os esporozoítos (formas evolutivas infectantes, inoculadas pelo inseto vetor), merozoítos (formas evolutivas capazes de invadir hemácias) e oocinetos (formas evolutivas formadas pela fusão dos gametócitos no estômago do inseto vetor), e as formas intracelulares, que se desenvolvem no interior dos hepatócitos e eritrócitos, são os trofozoítos (jovens e maduros), esquizontes e gametócitos (macrogametócitos e microgametócitos). A morfologia das diferentes formas evolutivas intracelulares eritrocitária (responsáveis pelas manifestações clínicas da doença), das principais espécies de plasmódios está descrita na Tabela 2. No geral, o citoplasma dos plasmódios, quando corado com Giemsa, apresentam uma tonalidade azul-arroxeada e a cromatina avermelhada. Quando presente, o pigmento malárico (aparece nos estágios mais evoluídos da infecção do ciclo eritrocítico), apresenta- se marrom-amarelado (Figuras 19, 20 e 21). De acordo com seu tropismo, o P. vivax parasita preferencialmente os reticulócitos; P. falciparum parasita hemácias jovens e maduras e P. malariae parasita preferencialmente hemácias maduras. Figura 19 - Morfologia das formas sanguíneas de P. falciparum. (1) eritrócito não infectado; (2), (3), (4) trofozítos jovens; (5) e (6) trofozoítos maduros; (7) a (10) esquizontes; (11) macrogametócitos; (12) microgametócitos. As formas 5 a 10 não são visualizadas nem esfregaços sanguíneos de sangue humano periférico. Fonte: Neves (2016). 36WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 20 - Morfologia das formas sanguíneas de P. vivax. (1) e (2) trofozítos jovens; (3) e (4) trofozoítos maduros; (5) a (6) esquizontes; (7) e (8) macrogametócitos; (9) microgametócitos. Fonte: Neves (2016) Figura 21 - Morfologia das formas sanguíneas de P. malariae. (1) eritrócito não infectado; (2) trofozítos jovens; (3) e (4) trofozoítos maduros; (5) a (6) esquizontes; (7) macrogametócitos; (8) microgametócitos. Fonte: Neves (2016). 37WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 22 - Características morfológicas de estágios sanguíneos de P. vivax em esfregaços sanguíneos corados pelo Giemsa. A) trofozoítos maduros, de aspecto irregular (ameboide) B) gametócito feminino (macrogametócito). Ob- serve a granulação de Schüffner (uma granulação fina e avermelhada) recobrindo toda a hemácia parasitada. Em C e D, observam-se esquizontes. Fonte: Ferreira (2012) Figura 23 - Características morfológicas de estágios sanguíneos de P. falciparum. Em E e F, observam-se trofozoí- tos jovens; em F, são vistos dois indicados por setas. Observe que os gametócitos têm formato de meia-lua. Fonte: Ferreira (2012). 38WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Características morfológicas das formas eritrocíticas das diferentes espécies de Plasmodium Características Espécies de Plasmodium P. falciparum P. vivax P. malariae P. ovale Formas encontradas no sangue periférico Trofozoítos jovens e gametócitos. Trofozoítos jovens, trofozoítos madu- ros, esquizontes e gametócitos. Trofozoítos jovens, trofozoítos madu- ros, esquizontes e gametócitos. Trofozoítos jovens, trofozoítos maduros, esquizontes e game- tócitos. Trofozoíto jovem Pequeno de deli- cado. Citoplasma delgado e núcleo com cromatina saliente. Polipara- sitismo frequente. Citoplasma espes- so. Núcleo com cromatina única e interna. Poliparasi- tismo raro. Citoplasma espes- so. Núcleo com cromatina média e única. Ocupa 1/3 do eritrócito. Citoplasma espesso. Núcleo com cromatina única e interna. Trofozoíto maduro Raro no sangue periférico. Citoplasma irregu- lar e com aspecto ameboide. Croma- tina isolada Citoplasma com- pacto, cromatina pouco visível. Disposição em faixa equatorial no eritrócito. Citoplasma irregular e com aspecto ameboi- de. Cromatina isolada Esquizonte Raro no sangue periférico. Forma ameboi- de. Citoplasma irregular vacuoli- zado. Cromatina segmentada. Cromatina pouco segmentada. Pou- co numerosos no sangue periférico. Posição em em faixa equatorial no eritrócito. Forma ameboide. Citoplasma irregular vacuolizado. Cromatina segmentada. Número de merozoí- tos no esquizonte 6-32 (média 22). 12-24 (média 16) 6-12 (média 8) 6-14 (média 8) Macrogametócito Alongados e curvos, em forma de foice. Citoplas- ma azul intenso e núcleo denso, cer- cado de pigmento malárico. Citoplasma abun- dante, contorno arredondado, núcleo grande, cromatina pouco densa. Ocupa quase todo o eri- trócito. Citoplasma cora-se fortemente de azul. Semelhante ao P. vivax, diferindo apenas por seu tamanho menor. Semelhante ao P. vi- vax, diferindo apenas por seu tamanho menor. Microgametócito Mais curto e menos encurvado, com citoplas- ma fracamente corado, cromatina difusa e pigmento malárico dissemi- nado por todo o citoplasma. Citoplasma azul pálido e cromatina azul frouxa. Cromatina única, menos distinta e mais difusa. Cromatina difusa. Tabela 2 - Características morfológicas das formas eritrocíticas das diferentes espécies causadoras de malária hu- mana. Fone: Neves (2016). 39WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.6.2 Ciclo biológico Os plasmódios humanos possuem um ciclo heteroxênico (Figura 24), ou seja, possuem um hospedeiro definitivo (por exemplo, homem) e um hospedeiro intermediário (fêmea de mosquitos do gênero Anopheles). A infecção malárica inicia-se quando os esporozoítos infectantes são inoculados nos humanos pela fêmea dos mosquitos do gênero Anopheles durante o repasto sanguíneo. Os esporozoítos são móveis e somente no hepatócito se processa o desenvolvimento parasitário (ciclo exo-eritrocítico). Após invadir o hepatócito, os esporozoítos se diferenciam em trofozoítos pré-eritrocíticos. Estes se multiplicam por reprodução assexuada do tipo esquizogonia, dando origem aos esquizontes teciduais e posteriormente a milhares de merozoítos. Nas infecções por P. vivax e P. ovale, o mosquito vetor inocula populações geneticamente distintas de esporozoítos, algumas se desenvolvem rapidamente, enquanto outras ficam em estado de latência no hepatócito, sendo por isso denominadas hipnozoítos. Estes hipnozoítos são responsáveis pelas recaídas, que são, portanto, ciclos exo-eritrocítico e eritrocíticos consequentes da esquizogonia tardia de parasitos dormentes no interior dos hepatócitos. O ciclo eritrocítico inicia-se quando os merozoítos tissulares, liberados dos hepatócitos, invadem os eritrócitos. Os merozoítos, ao penetrarem nas hemácias, se diferenciam em trofozoítos, estes se multiplicam por esquizogonia, dando origem aos esquizontes e posteriormente a milhares de merozoítos, que são liberados na corrente sanguínea e posteriormente invadirão outros eritrócitos. O rompimento das hemácias parasitas com consequente liberação dos merozoítos na corrente sanguínea, coincide com os picos febris periódicos característico da malária. Depois de algumas gerações de merozoítos sanguíneos, ocorre a diferenciação em estágios sexuados, os gametócitos, formas infectantes do inseto vetor. Os gametócitos, quando ingeridos por fêmeas do mosquito Anopheles, dão origem aos esporozoítos, que se instalam nas glândulas salivares para serem inoculados durante o repasto sanguíneo. O ciclo sanguíneo se repete sucessivas vezes, a cada 48 horas, nas infecções pelo P. falciparum, P vivax e P ovale (malária terçã), e a cada 72 horas, nas infecções pelo P. malariae (malária quartã). A fonte de nutrição de trofozoítos e esquizontes sanguíneos é a hemoglobina, a digestão ocorre dentro de um vacúolo digestivo, com a formação do pigmentomalárico, ou hemozoína. Para entender melhor o ciclo biológico do Plasmodium spp, assista ao vídeo com a animação sobre “O ciclo biológico do plasmódio no interior do homem” disponível no site do YouTube a seguir: <https://www.youtube.com/watch?v=xyc4gZsHEGQ>. 40WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 24 – Ciclo biológico do Plasmodium spp. Fonte: Ferreira (2012). 1.6.3 Aspectos clínicos e patogenia Apenas o ciclo eritrocítico assexuado é responsável pelas manifestações clínicas e patologia da malária. A passagem do parasito pelo fígado (ciclo exo-eritrocítico) não é patogênica e não determina sintomas. A destruição dos eritrócitos e a consequente liberação dos parasitos e de seus metabólitos na circulação provocam uma resposta imune do hospedeiro, determinando alterações morfológicas e funcionais. Os possíveis mecanismos determinantes das diferentes formas clínicas da doença baseiam-se na interação dos seguintes fenômenos patogênicos: • Destruição dos eritrócitos parasitados. • Toxicidade resultante da liberação de citocinas. • Sequestro dos eritrócitos parasitados na rede capilar, no caso específico do P. falciparum. Durante o desenvolvimento esquizogônico sanguíneo, o P. falciparum induz uma série de modificações na superfície da hemácia parasitada, que permitem a sua adesão a parede endotelial dos capilares. A citoaderência endotelial e o fenômeno de formação de rosetas ocorrem principalmente nas vênulas do novelo capilar de órgãos vitais. Dependendo da intensidade, podem levar a obstrução da microcirculação e consequente redução do fluxo de oxigênio. São alvos dessa agressão o cérebro, os rins e o fígado, cujos danos são responsáveis pelas complicações de malária cerebral, insuficiência renal aguda e hepatite, tão comuns nos quadros de malária grave. • Lesão capilar por deposição de imunocomplexos, causando glomerulonefrite no caso de malária causada por P. malariae. 41WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA A patogenia e sintomatologia da malária variam de acordo com a espécie do parasito (as três espécies têm patogenicidades diferentes, sendo o P. falciparum o mais patogênico), imunidade do paciente e quantidade de esporozoítos inoculados pelo inseto vetor. Na evolução do quadro clínico da doença, uma fase sintomática inicial, caracterizada por mal estar, cefaléia, cansaço e mialgia, geralmente precede a clássica febre da malária. O ataque paroxístico agudo, que coincide com a ruptura das hemácias ao final da esquizogonia, é geralmente acompanhada de calafrios e sudorese. Esta fase dura de 15 minutos a 1 hora, sendo seguida por uma fase febril, com temperatura podendo atingir 41ºC ou mais. Após o período de 1 a 6 horas, a febre desaparece e o paciente apresenta sudorese e fraqueza. Depois de algumas horas, os sintomas desaparecem e o paciente sente-se melhor. A periodicidade dos sintomas depende do tempo de duração dos ciclos eritrocíticos de cada espécie de plasmódio: 48 horas para P. falciparum, P. vivax, P. ovale (malária terçã) e 72 horas para P. malariae (malária quartã). Adultos não-imunes, bem como crianças e gestantes, podem apresentar manifestações mais graves da infecção, podendo ser fatal no caso de P. falciparum. A hipoglicemia, o aparecimento de convulsões, vômitos repetidos, hiperpirexia, icterícia e distúrbio da consciência são indicadores de pior prognóstico e podem preceder as seguintes formas clínicas da malária grave e complicada: • Malária cerebral: estima-se que ocorre em cerca de 2% dos indivíduos não-imunes, parasitados pelo P. falciparum. Os principais sintomas são fortes dores de cabeça, hipertermia, vômitos e sonolência. Em crianças ocorrem convulsões. O paciente evolui para um quadro de coma. • Insuficiência renal aguda: caracteriza-se pela redução do volume urinário e aumento da ureia e da creatinina plasmáticas. É mais frequente em adultos do que em crianças, e tem sido descrita como a complicação grave mais frequente. • Edema pulmonar agudo: é particularmente comum em gestantes e inicia-se com hiperventilação e febre alta. • Hipoglicemia: mais frequente em crianças, ocorre geralmente em associação com outras complicações da doença, principalmente a malária cerebral. • Icterícia: definida como coloração amarelada da pele e mucosa, em decorrência do aumento da bilirrubina sérica. Pode resultar de hemólise excessiva ou de comprometimento da função hepática na malária grave. • Hemoglobinúria: ocorre devido a hemólise intravascular aguda maciça, ocorre em alguns casos de malária aguda e também em indivíduos que tiveram repetidas formas de malária grave por P. falciparum. Nestes casos, necrose tubular aguda com insuficiência renal é a complicação mais frequente e que pode levar a morte. 42WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.6.4 Epidemiologia e profilaxia A malária é reconhecida como um grave problema de saúde pública no mundo, de acordo com o Relatório Mundial sobre a Malária, de 2017, houve 216 milhões de casos de malária no ano de 2016 com um número estimado de 445.000 mortes. No Brasil, a região Amazônica é considerada a área endêmica do país para malária, os casos de malária se concentram em seis estados da região Amazônica: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. No ano de 2016 a prevalência no Brasil foi de 129.251 casos, sendo o P. vivax a espécie mais prevalente (~80%). A transmissão nessas áreas está relacionada a fatores biológicos (presença de alta densidade de mosquitos vetores, agente etiológico e população suscetível); geográficos (altos índices de pluviosidade, amplitude da malha hídrica e a cobertura vegetal); ecológicos (desmatamentos, construção de hidroelétricas, estradas e de sistemas de irrigação, açudes); e sociais (presença de numerosos grupos populacionais, morando em habitações com ausência completa ou parcial de paredes laterais e trabalhando próximo ou dentro das matas). Outros fatores favorecem a disseminação desta enfermidade, como: a resistência dos plasmódios as drogas disponíveis, resistência dos vetores aos inseticidas e migração de pessoas com a doença. O controle da malária é centrado no diagnóstico rápido e tratamento imediato, combate ao inseto vetor, como o uso de mosquiteiros impregnados com inseticidas e a borrifação periódica com inseticidas de efeito residual em domicílios situados nas áreas endêmicas. 1.6.5 Diagnóstico laboratorial O diagnóstico da infecção malárica é realizado pela demonstração do parasito, ou de antígenos relacionados, no sangue periférico do paciente. A gota espessa é o método oficialmente adotado no Brasil para o diagnóstico da malária. É considerado um método simples, eficaz, de baixo custo e fácil realização. Quando adequadamente realizado, é considerada como padrão-ouro pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Sua técnica baseia-se na visualização do parasito por meio de microscopia óptica, após coloração com corante vital (azul de metileno e Giemsa), permitindo a diferenciação específica dos parasitos, a partir da análise da sua morfologia. Já os esfregaços sanguíneos (camada delgada), após coloração com corante vital (azul de metileno e Giemsa), são a melhor alternativa para diferenciação específica dos parasitos a partir da análise de sua morfologia e das alterações provocadas no eritrócito infectado, no entanto, possuem baixa sensibilidade. Após o surgimento da resistência do P. falciparum a cloroquina, a diferenciação específica dos parasitos tornou-se importante para a orientação do tratamento. Uma vez que o P. falciparum completa o seu ciclo eritrocítico assexuado aderido ao endotélio capilar, a sua detecção no exame do sangue periférico é suspeitada quando apenas trofozoítos e gametócitos são visualizados. Em contrapartida, a visualização de todos os estágios de desenvolvimento do ciclo sanguíneo nagota espessa e camada delgada sugere P. vivax, P. malariae ou P. ovale. Os testes imunológicos rápidos, desenvolvidos utilizando anticorpos monoclonais e policlonais dirigidos contra a proteína 2 rica em histidina do P falciparum (PfHRP-2) e contra a enzima - desidrogenase do lactato (pDHL) das quatro espécies de plasmódio, possui uma elevada sensibilidade e especificidade, além da vantagem de diferenciar o P. falciparum das demais espécies, as quais são identificadas como não - P. falciparum pelo teste. 43WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Entretanto, não são capazes de diagnosticar a malária mista. Por sua praticidade e facilidade de realização, são úteis para a triagem e mesmo para a confirmação diagnóstica da malária em locais onde não existem técnicos qualificados para o exame microscópico (gota espessa). A amplificação do DNA dos plasmódios, usando a reação em cadeia da polimerase (PCR), mostrou grande progresso em termos de eficácia, com elevada sensibilidade e especificidade, sendo possível a identificação das espécies de Plasmodium. O teste ainda não é empregado na rotina clínica e geralmente é restrito aos laboratórios de pesquisa ou para confirmar diagnóstico em casos de dúvidas. 1.7 Toxoplasma gondii – toxoplasmose Toxoplasma gondii é um protozoário intracelular obrigatório, agente etiológico da toxoplasmose. Essa enfermidade, possui distribuição mundial, com alta prevalência sorológica, podendo atingir de 40 a 80% da população. No entanto, os casos de doença com manifestação clínica são menos frequentes. A forma mais grave é encontrada em crianças recém-nascidas, forma congênita, com altas taxas de morbidade e mortalidade e em indivíduos imunocomprometidos (receptores de órgãos, indivíduos em tratamento quimioterápico e infectados com HIV). A toxoplasmose é uma zoonose, muito frequente em várias espécies de animais mamíferos (principalmente carneiro, cabra e porco) e aves, estes, assim como o homem, são considerados hospedeiros intermediários. O gato e outros felídeos são considerados os hospedeiros definitivos. 1.7.1 Morfologia O T. gondii pode ser encontrado em vários tecidos, células e líquidos orgânicos. Assim sendo, o parasito apresenta uma morfologia múltipla, dependendo do hábitat e do estágio evolutivo. Todas as formas podem ser infectantes para o homem, sendo elas os taquizoítos, bradizoítos e oocistos (com esporozoítos). Os Taquizoítos são encontrados durante a fase aguda da infecção, sendo também denominada forma proliferativa. Possui forma de meia-lua, com uma das extremidades mais afilada e a outra arredondada, medindo cerca de 2 x 6µm, com o núcleo em posição mais ou menos central (Figura 25 A e 26 A). Quando corado pela coloração de Giemsa, apresenta o citoplasma azulado e o núcleo vermelho (Figura 25). É uma forma móvel, de multiplicação rápida (por endodiogenia), são encontrados dentro do vacúolo parasitóforo de várias células. São poucos resistentes à ação do suco gástrico no qual são destruídas em pouco tempo. Os Bradizoítos são encontrados nos tecidos (musculares esqueléticos e cardíacos, nervoso, retina), geralmente durante a fase crônica da infecção. Estas formas evolutivas estão presentes dentro do vacúolo parasitóforo de uma célula, cuja membrana forma a cápsula do cisto tecidual. Os bradizoítos se multiplicam lentamente dentro do cisto (por endodiogenia ou endopoligenia), apresentam semelhança morfológica com os taquizoítos, porém seu núcleo é excêntrico e possui o metabolismo mais lento. A parede do cisto é elástica e isola os bradizoítos da ação dos mecanismos imunológicos do hospedeiro (Figura 25 C e 26 B). O tamanho do cisto é variável, dependendo da célula parasitada e do número de bradizoítos no seu interior, podendo atingir até 200µm. Os bradizoítos são muito mais resistentes ao suco gástrico e podem permanecer viáveis nos tecidos por vários anos. 44WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 25 – Formas evolutivas do T. gondii A) taquizoítos extracelulares; B) taquizoítos dentro do vacúolo parasi- tóforo; C) bradizoítos em tecido muscular. Fonte: Neves (2016). Figura 26 – A) taquizoítos extracelulares no exudato peritoneal (seta branca) e B) corte histológico de cérebro mostrando um cisto tecidual que contém numerosos bradizoítos (seta branca). Fonte: Ferreira (2012). Os Oocistos são formas de resistência que possui uma parede dupla bastante resistente às condições do meio ambiente. Os oocistos são produzidos nas células intestinais de felídeos não-imunes e eliminados imaturos junto com as fezes. Os oocistos são esféricos, medindo cerca de 12,5 x 11μm e após esporulação no meio ambiente contêm dois esporocistos, com quatro esporozoítos cada (Figura 27). Figura 27 – Representação esquemática dos oocistos. Fonte: Ferreira (2012). 45WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.7.2 Ciclo biológico O T. gondii apresenta um ciclo heteroxênico (Figura 28), no qual os gatos são considerados hospedeiros definitivos (possuem o ciclo sexuado nas células epiteliais do intestino e um ciclo assexuado ocorrendo em outros tecidos) e o homem, outros mamíferos e aves, são considerados os hospedeiros intermediários (possuem apenas o ciclo assexuado). O hospedeiro intermediário (homem, por exemplo), ao ingerir oocistos maduros (encontrados em alimentos ou água contaminada), cistos contendo bradizoítos (encontrados na carne crua) ou, mais raramente, taquizoítos eliminados no leite, poderá adquirir o parasito e desenvolver a fase assexuada. As formas de taquizoítos que chegam ao estômago são destruídas, mas as que penetram na mucosa oral podem evoluir do mesmo modo que os cistos e oocistos. Assim, ao infectar o hospedeiro intermediário, os esporozoítos, bradizoítos ou taquizoítos, sofrerão intensa multiplicação intracelular (por endodiogenia, fase proliferativa), como taquizoítos, após rápida passagem pelo epitélio intestinal e invadirão vários tipos de célula do organismo. Essa disseminação do parasito no organismo ocorre por meio da linfa ou sangue circulante, provocando sintomas, cuja gravidade depende da quantidade de formas infectantes adquiridas, cepa do parasito e suscetibilidade do hospedeiro. Com o aparecimento da imunidade, os parasitos extracelulares desaparecem do sangue, linfa e órgãos viscerais, ocorrendo uma diminuição do parasitismo, formação de cistos teciduais e diminuição da sintomatologia, caracterizando a fase crônica. Essa fase pode permanecer por longo período ou por mecanismos ainda não esclarecidos inteiramente (diminuição da imunidade ou da resistência, alteração hormonal etc.) poderá haver reagudização, com sintomatologia semelhante a primo-infecção. No homem, a forma de transmissão congênita ou transplacentária é considerada a mais grave, principalmente quando a gestante adquire a toxoplasmose durante a gravidez (fase aguda da doença), podendo transmitir o T. gondii ao feto (taquizoítas). Resultando, dependendo do tempo de gestação, em quadros clínicos de gravidade varável ou óbito do feto. No hospedeiro definitivo, o ciclo biológico se inicia quando os felídeos se infectam, ingerindo cistos teciduais (carne de ratos, aves ...), taquizoítos ou até mesmo oocistos presentes no ambiente. Os esporozoítos, bradizoítos ou taquizoítos ao penetrarem nas células do epitélio intestinal do gato sofrerão um processo de multiplicação por endodiogenia e merogonia (esquizogonia), dando origem a vários merozoítos. O rompimento da célula parasitada libera os merozoítos, que penetrarão em novas células epiteliais e se transformarão nas formas sexuadas masculinas ou femininas, os gametócitos, que após um processo de maturação formarão os gametas masculinos móveis - microgametas (com dois flagelos) e femininos imóveis - macrogametas. O macrogameta permanecerá dentro de uma célula epitelial, enquanto os microgametasmóveis sairão de sua célula e irão fecundar o macrogameta, formando o ovo ou zigoto. Este evoluirá dentro do epitélio, formando uma parede externa dupla, dando origem ao oocisto. A célula epitelial sofrerá rompimento em alguns dias, liberando o oocisto ainda imaturo. Esta forma alcançará o meio exterior com as fezes dos felídeos. A sua maturação no meio exterior ocorrerá por um processo denominado esporogonia, após um período de cerca de quatro dias, e apresentará dois esporocistos, contendo quatro esporozoítos cada. O gato jovem (não imune) é capaz de eliminar oocistos durante aproximadamente um mês. 46WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 28 – Ciclo de vida do T. gondii. Fonte: adaptado de CDC. 1.7.3 Aspectos clínicos e patogenia O quadro clínico da toxoplasmose no homem é bastante variável em função da cepa do parasito (virulência), imunidade do hospedeiro, tamanho do inóculo, idade do hospedeiro e o modo pelo qual ele se infecta. Assim, podem ser observados desde quadros assintomáticos até casos bastante complexos, como os observados na coriorretinites e na toxoplasmose congênita. A intensa multiplicação do parasito, na fase aguda da doença, pode provocar um quadro polissintomático. Assim, a evolução da infecção poderá levar o hospedeiro à morte, como em casos que ocorrem em fetos na infecção congênita ou em indivíduos com comprometimento imunológico, ou se resolver em função do aparecimento de uma resposta imune específica. Desse modo, podemos caracterizar a toxoplasmose como toxoplasmose congênita ou pré-natal e toxoplasmose adquirida ou pós-natal (ganglionar ou febril aguda e ocular). Para que se instale uma toxoplasmose congênita ou pré-natal é necessário que a mãe esteja na fase aguda da infecção ou tenha havido uma reativação da mesma durante a gravidez. As alterações ou lesões fetais mais comuns devido à toxoplasmose na gravidez variam conforme o período da gestação: • Primeiro trimestre da gestação: aborto (incidência de infecção 10-15%). • Segundo trimestre da gestação: aborto ou nascimento prematuro, podendo a criança apresentar-se normal ou já com anomalias graves, típicas (incidência de infecção 30%; “síndrome de Sabin”, como: coriorretinite, calcificações cerebrais, perturbações neurológicas, micro ou macrocefalia). 47WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA • Terceiro trimestre da gestação: a criança pode nascer normal e apresentar evidências da doença alguns dias, semanas ou meses após o parto. Há em geral um comprometimento ganglionar generalizado, hepatoesplenomegalia, edema, miocardite, anemia, trombocitopenia e lesões oculares, as quais são patognomônicas (incidência de infecção 60%). Algumas vezes, a infecção da retina, com encistamento do parasito, não provoca alterações no recém-nascido, mas, posteriormente, na idade adulta, poderá haver uma reativação, levando a uma toxoplasmose ocular. Na toxoplasmose pós-natal, a forma ganglionar ou febril aguda é a mais frequente, encontrada tanto em crianças como em adultos. Há um comprometimento ganglionar (linfadenopatia com gânglios enfartados) e febre alta, geralmente de curso crônico e benigno. A toxoplasmose ocular pós-natal caracteriza-se por coriorretinite, consequência de uma infecção aguda com a presença de taquizoítos ou crônica com a presença de cistos contendo bradizoítos na retina. O T. gondii alcança a retina por meio da corrente sanguínea na forma de taquizoítos livres ou taquizoítos residindo dentro de macrófagos circulantes nos capilares da retina. Esses taquizoítos são liberados quando as células infectadas são lisadas e podem invadir a retina adjacente. As lesões podem evoluir para uma cegueira parcial ou total, causar glaucoma ou catarata ou ainda podem se curar por cicatrização. 1.7.4 Epidemiologia e profilaxia A toxoplasmose é uma enfermidade de ocorrência mundial, que se encontra amplamente difundida entre as diversas espécies de animais, principalmente de interesse econômico, tais como carnes de aves, suínos, ovinos, caprinos ou bovinos, que quando servidas cruas ou malcozidas podem transmitir o T. gondii para o homem. Os cistos em carcaças ou carne moída permanecem viáveis a 4º C por mais de três meses, sobrevivem no congelador (- 1 a - 8ºC) mais de uma semana, mas morrem a temperatura acima de 56ºC. Além disso, a disseminação de oocistos na água e no solo (podem permanecer viáveis no solo úmido e sombreado por 12 a 18 meses) e o encontro de oocistos em ostras comercializadas no mercado de Santos, Brasil (filtram a água e podem reter os oocistos) interferem na ampla distribuição deste protozoário. A incidência da toxoplasmose varia consideravelmente entre as pessoas e animais de áreas geográficas distintas, ocorrendo uma prevalência mais alta da infecção em climas mais quentes e úmidos, pela melhor sobrevivência e transmissão dos oocistos. No Brasil, inquéritos sorológicos revelaram prevalências que variaram de 37 a 91%, no entanto, prevalências menores de 4 a 39% foram verificadas no sudeste Asiático, China e Coréia. O maior surto mundial de toxoplasmose devido à contaminação hídrica por oocistos, eliminados por gatos jovens, que permaneciam próximo ao reservatório de água, ocorreu em 2002, no município de Santa Isabel do Ivaí, PR. Neste caso, cerca de 462 pessoas que procuraram o serviço de saúde com sintomas característicos de toxoplasmose, apresentaram sorologia compatível com toxoplasmose aguda. Destes, sete casos ocorreram em gestantes, sendo que uma apresentou aborto espontâneo e seis tiveram filhos infectados, um deles com anomalia congênita grave e que foi a óbito. Ainda, dos 176 pacientes avaliados ao exame oftalmológico, 14 apresentaram alterações sugestivas da toxoplasmose ocular. “Vivendo o homem em um mar de toxoplasma”, é difícil fazer uma profilaxia efetiva, mas, baseados na epidemiologia, podemos inferir algumas medidas profiláticas: não se alimentar de leite cru (não pasteurizado) ou de carne crua; beber apenas água filtrada; lavar cuidadosamente os vegetais consumidos crus; controlar a população de gatos; proteger as caixas de areia de parques e escolas para evitar que gatos defequem nesses locais; tratar as gestantes em fase aguda da doença, assim como orientá-las na realização do exame pré-natal. 48WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.7.5 Diagnóstico laboratorial O diagnóstico parasitológico é utilizado em raras situações. Em geral, é obtida durante a fase aguda, em líquido amniótico, sangue etc., a forma encontrada é o taquizoíto. Faz-se então um esfregaço da amostra centrifugada e cora-se pela coloração de Giemsa. Pode-se também fazer nestas amostras a pesquisa de DNA do parasito pela reação em cadeia da polimerase (PCR). Na fase crônica, a biópsia de diversos tecidos poderá acusar a presença de cistos. No entanto, a demonstração do parasito não é de fácil execução. O diagnóstico rotineiro da toxoplasmose é realizado com base em testes imunológicos, os mais usados, atualmente, são Reação de imunofluorescência indireta (IFI) e Ensaio imunoenzimático (ELISA). Os testes sorológicos também permitem caracterizar a fase da doença pela detecção de diferentes classes de anticorpos. ELISA é um dos testes mais usados atualmente, principalmente, para a triagem inicial de toxoplasmose até a determinação da fase da infecção. É capaz de detectar anticorpos IgM (infecção aguda), IgG (infecção crônica) e IgA, além de permitir a avaliação da avidez de IgG. 1.8 Cryptosporidium, Cystoisospora, e Cyclospora – protozoários emergentes São considerados emergentes os parasitos que recentemente foram reconhecidos como patogênicos para o homem. Alguns deles assumiram importância significativa por causarem infecções oportunistas em indivíduos imunodeprimidos, causando manifestações clínicas graves, que podem levar o indivíduo parasitadoà morte. Outros podem acometer indivíduos imunocomprometidos, por terem adquirido novas propriedades de virulência ou em decorrência da proximidade entre seus reservatórios e o hospedeiro humano. Cryptosporidium hominis, Cryptosporidium parvum e Cystoisospora belli estão primariamente associados a hospedeiros imunocomprometidos. Cyclospora cayetanensis, embora possa acometer indivíduos imunocomprometidos, está mais ligada a quadros diarreicos de viajantes ou a surtos ocasionais em algumas comunidades. 1.8.1 Cryptosporidium O Cryptosporidium tem sido encontrado em várias regiões do mundo, de modo que a criptosporidiose é considerada a zoonose emergente mais importante da atualidade (infecta a maioria dos mamíferos). Antigamente, era considerada uma doença que acometia somente indivíduos imunocomprometidos, mas atualmente, tem sido observado que é uma doença relativamente frequente em imunocomprometidos, sobretudo após a emergência de surtos epidêmicos pela transmissão de água contaminada. Baseando-se na morfologia de oocistos, sítios de infecção, especificidade de hospedeiros e diferenças genéticas, atualmente são aceitas como válidas, do ponto de vista taxonômico, 27 espécies de Cryptosporidium. Dezessete espécies podem causar infecções humanas. Dentre elas, as responsáveis pela maioria de casos de criptosporidiose humana são C. hominis e C. parvum, mas é possível que todas as espécies do gênero Cryptosporidium sejam potencialmente patogênicas para o homem. 49WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Os oocistos de Cryptosporidium spp são idênticos; esféricos, medem cerca de 2,94 a 6,5 µm por 3,44 a 8,5 µm e contêm quatro esporozoítos livres (Figura 29). Podem ser de dois tipos, de parede rígida e de parede delgada, são eliminados esporulados, sendo possível a liberação dos esporozoítos no lúmen intestinal e consequente autoinfecção. Figura 29 – A) Esquema do oocisto de Cryptosporidium spp. B) Oocistos de Cryptosporidium spp. eliminados nas fezes corados com Kinyoun. Fonte: Ferreira (2012). A transmissão do Cryptosporidium spp é principalmente fecal-oral, pela ingestão de oocistos. Este desenvolve-se, preferencialmente, nas microvilosidades de células epiteliais do trato gastrointestinal e parasita a parte externa do citoplasma celular (intracelular extracitoplasmática). Possui o ciclo biológico do tipo monoxênico, compreendendo uma fase de reprodução assexuada por esquizogonia (ou merogonia) e outra de reprodução sexuada por gametogonia e esporogonia. Há duas divisões esquizogônicas: a primeira resulta em esquizontes tipo I, dando origem a seis ou oito merozoítos. Estas formas infectam novas células para uma segunda divisão esquizogônica, resultando em esquizontes tipo II, que originam quatro merozoítos. Os merozoítos tipo II dão início ao ciclo sexuado, com formação de gametócitos e gametas. O produto da fusão dos gametas é um zigoto, que desenvolve um oocisto com quatro esporozoítos (já são infectantes). Estes são eliminados juntamente com as fezes do hospedeiro (Figura 30). Figura 30 - Ciclo biológico do Cryptosporidium spp. Fonte: Ferreira (2012). 50WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA A patogenia e o quadro clínico da criptosporidiose são influenciados por vários fatores que incluem a idade, competência imunológica e a associação com outros patógenos. As principais formas clínicas desta infecção são: assintomática; diarreia autolimitada aguda; diarreia crônica; e fulminante. As duas primeiras formas são comuns em indivíduos imunocomprometidos e as duas últimas em indivíduos com imunocomprometimento grave. As formas intestinais caracterizam-se por diarreia aquosa, intermitente ou continua, vômitos, dores abdominais e perda de peso. A diarreia em indivíduos imunodeprimidos geralmente é grave, com várias evacuações, podendo levar à perda de mais de 20 L de líquido diariamente. A forma fulminante é uma doença que assemelha-se à cólera. O diagnóstico da criptosporidiose é realizado pela pesquisa de oocistos nas fezes, em material de biópsia intestinal ou obtido de raspado da mucosa. O exame de fezes é feito após técnicas de concentração, associado a métodos de coloração, como, Ziehl-Neelsen modificado ou Kinyoun modificado. Oocistos de C. hominis e C. parvum não são diferenciados morfologicamente. Os métodos de imunodiagnósticos também são usados, como a pesquisa de coproantígenos. Técnicas baseadas na reação em cadeia da polimerase (PCR) para a detecção de DNA de oocistos em amostras de fezes são também utilizadas com finalidade diagnostica. Os oocistos de Cryptosporidium podem permanecer viáveis por vários meses no ambiente, mas altas temperaturas (60°C) levam à perda de infectividade; resistem ao cloro; morrem quando congelados e não suportam a dessecação. A prevenção baseia-se em medidas de saneamento básico, educação sanitária, filtração da água, lavagem correta de vegetais e frutas consumidos crus e controle de contaminação ambiental com fezes de animais infectados. 1.8.2 Cystoisospora belli Neste gênero, duas espécies foram relatadas parasitando o ser humano: C. belli, originalmente descrita com Isospora belli e I. natalensis. C. belli é um protozoário de distribuição cosmopalita e sua ocorrência tem sido descrita em diversos países. Seu ciclo biológico é do tipo monoxênico e compreende duas fases uma assexuada e uma sexuada (Figura 31), semelhante ao ciclo do Cryptosporidium. O homem infecta-se pela ingestão de oocistos presentes em água ou alimentos. Os esporozítos liberados dos oocistos invadem a mucosa intestinal, onde ocorre a evolução do parasito. O produto final, forma infectante, é um oocisto ovalado que mede de 20 a 33µm por 10 a 19µm de diâmetro. Estes oocistos são eliminados não esporulados, necessitando de algum tempo (24 a 48 h) no meio exterior para se tornarem infectantes. Contêm dois esporocistos, cada um com 4 esporozoítos (Figura 32). 51WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 31 - Ciclo biológico do C. belli. Fonte: Ferreira (2012). Figura 32 – A) Esquema do oocisto de C. belli B) Oocistos de C. belli eliminados nas fezes corados com Kinyoun. Fonte: Ferreira (2012). A patogenia da cistoisosporose envolve alterações da mucosa do intestino delgado, que resultam na síndrome da má absorção. Em geral, as infecções humanas são benignas, e os pacientes curam-se espontaneamente. Os sintomas relatados incluem febre, diarreia, cólicas abdominais, esteatorréia, vômitos, náuseas, flatulência, desidratação, perda de peso, astenia e emagrecimento. A doença é mais grave em crianças e indivíduos imunocomprometidos, caracteriza-se por diarreia secretória, aquosa e curso prolongado o que causa desidratação intensa, acentuada perda de peso e, geralmente, requer hospitalização. 52WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA O diagnóstico laboratorial é estabelecido pelo achado de oocistos nas fezes, usando- se técnicas de concentração (flutuação ou sedimentação). A visualização é feita a fresco, com microscopia ótica comum com pouca iluminação ou microscopia de contraste de fase, ou com o material corado pelas mesmas técnicas usadas na identificação de Cryptosporidium. Técnicas baseadas na reação em cadeia da polimerase (PCR) para a detecção de DNA de oocistos em amostras de fezes são também utilizadas com finalidade diagnostica. A prevenção da cistoisosporose baseia-se em medidas gerais de saneamento básico, educação sanitária, filtração da água e ingestão de alimentos crus bem lavados. Indivíduos imunocomprometidos em viagem para zonas endêmicas devem ser orientados sobre os cuidados a serem tomados com a ingestão de água e alimentos. 1.8.3 Cyclospora cayetanensis A ciclosporíase é uma doença endêmica, como a criptosporidiose, com eventuais surtos epidêmicos. Uma intrigantecaracterística epidemiológica do C. cayetanensis é a existência de uma sazonalidade referente a infecções em áreas endêmicas, coincidindo com a estação chuvosa, no hemisfério sul. A explicação para este fato poderia estar ligada a fatores ambientais como umidade e temperatura, contribuindo para a esporulação e sobrevivência dos oocistos. É um parasito intracelular obrigatório, seu habitat é o intestino delgado e seu ciclo biológico também é monoxênico, e se assemelha aos parasitos descritos anteriormente, apresentando fases assexuada e sexuada, com transmissão oral-fecal. Os indivíduos parasitados excretam oocistos não esporulados em suas fezes. Estes oocistos necessitam de 7 a 15 dias para esporular no ambiente, sob condições ideais de temperatura (23 a 27°C). Quando atingem o homem, os oocistos liberam os esporozoítos, infectando as células epiteliais do duodeno e do jejuno. A multiplicação assexuada resulta em merozoítos tipos I e II. Os merozoítos tipo II diferenciam-se em formas sexuadas – os gametócitos. A fertilização das formas sexuadas femininas pelas masculinas dá origem ao zigoto. Formam-se os oocistos, excretados antes de sua esporulação, fechando-se assim o ciclo (Figura 33). Figura 33 – Ciclo biológico do C. cayetanensis. Fonte: Ferreira (2012). 53WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Os oocistos são esféricos e medem de 8 a 10 µm, contendo dois esporocistos com dois esporozoítos cada um, quando esporulado (Figura 34) Figura 34 – A) Esquema do oocisto de C. cayetanensis B) Oocistos de C. cayetanensis eliminados nas fezes corados com Kinyoun. Fonte: Ferreira (2012) Embora a diarreia na infecção por C. cayetanensis seja indistinguível daquela causada por criptosporídeos e C. belli, nem sempre a diarreia é a manifestação predominante. Em regiões endêmicas, as infecções podem ser assintomáticas. Em áreas não endêmicas, o quadro clínico apresenta diarreia aquosa (alternando-se com períodos de constipação intestinal), fadiga profunda, indigestão, sensação de queimação no estômago, náuseas, dores abdominais, perda de peso e vômitos. Em pacientes imunocomprometidos, a infecção pode ser prolongada e grave, com alto grau de recorrência. O diagnóstico laboratorial é feito pelo encontro de oocistos nas fezes, usando métodos de concentração (flutuação ou sedimentação). A visualização é possível com o material a fresco, em microscopia de contraste de fase ou com o material corado pelas mesmas técnicas usadas na identificação de Cryptosporidium. As medidas de prevenção são semelhantes àquelas que se aplicam ao C. belli e incluem saneamento básico, tratamento e filtração da água, cuidados na ingestão de alimentos crus e educação sanitária, além de orientação de viajantes para regiões endêmicas. 54WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade estudamos os principais conceitos da parasitologia clínica e os mais importantes protozoários de interesse médico que afetam a saúde do homem. Muitos destes parasitos possuem uma distribuição mundial e desenvolvem enfermidades que são reconhecidas como graves problemas de saúde pública. Assim, o entendimento e reconhecimento da morfologia das principais formas evolutivas, ciclo biológico, patogenia (relação parasito-hospedeiro), manifestações clínicas, epidemiologia, profilaxia e diagnóstico laboratorial de cada protozoário de interesse médico estudado, é de extrema importância para a formação do profissional biomédico. Na próxima unidade, para completar o conhecimento sobre os principais parasitos de interesse médico que afetam a saúde do homem, serão abordados os helmintos (hélmins = vermes), também conhecidos como vermes parasitos, que geralmente são encontrados no intestino do homem causando enfermidades importantes. 5555WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 02 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................... 58 1. SCHISTOSOMA MANSONI – ESQUISTOSSOMOSE ..........................................................................................60 1.1 MORFOLOGIA .......................................................................................................................................................60 1.2 CICLO BIOLÓGICO .............................................................................................................................................. 63 1.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ................................................................................................................ 64 1.4 ESQUISTOSSOMOSE AGUDA............................................................................................................................. 65 1.4.1 FASE PRÉ-POSTURAL ...................................................................................................................................... 65 1.4.2 FASE AGUDA ..................................................................................................................................................... 65 1.5 ESQUISTOSSOMOSE CRÔNICA ........................................................................................................................ 66 1.5.1 INTESTINO ........................................................................................................................................................ 66 1.5.2 FÍGADO ............................................................................................................................................................. 66 HELMINTOS DE INTERESSE MÉDICO PROF.A DRA. FABIANA NABARRO FERRAZ ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: PARASITOLOGIA CLÍNICA 56WWW.UNINGA.BR 1.5.3 OUTRAS LOCALIZAÇÕES ................................................................................................................................ 66 1.6 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ....................................................................................................................... 67 1.7 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ......................................................................................................................... 67 2. TENIA SPP – TENÍASE E CISTICERCOSE .......................................................................................................... 68 2.1 MORFOLOGIA ...................................................................................................................................................... 68 2.2 CICLO BIOLÓGICO .............................................................................................................................................. 70 2.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ................................................................................................................71 2.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ........................................................................................................................71 2.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ........................................................................................................................ 72 3. ECHINOCOCCUS GRANULOSUS - HIDATIDOSE ............................................................................................... 72 3.1 MORFOLOGIA ...................................................................................................................................................... 73 3.2 CICLO BIOLÓGICO .............................................................................................................................................. 74 3.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ............................................................................................................... 75 3.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA .......................................................................................................................76 3.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ........................................................................................................................ 76 4. HYMENOLEPIS NANA - HIMENOLEPÍASE ........................................................................................................ 76 4.1 MORFOLOGIA ...................................................................................................................................................... 76 4.2 CICLO BIOLÓGICO .............................................................................................................................................. 77 4.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ............................................................................................................... 78 4.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ....................................................................................................................... 78 4.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ........................................................................................................................ 79 5. ASCARIS LUMBRICOIDES - ASCARIDIOSE ....................................................................................................... 79 5.1 MORFOLOGIA ...................................................................................................................................................... 79 5.2 CICLO BIOLÓGICO .............................................................................................................................................. 81 5.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ............................................................................................................... 82 5.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ....................................................................................................................... 83 5.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ........................................................................................................................ 84 6. ANCYLOSTOMIDAE - ANCILOSTOMOSE ........................................................................................................... 84 6.1 MORFOLOGIA ...................................................................................................................................................... 84 6.2 CICLO BIOLÓGICO .............................................................................................................................................. 86 6.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ............................................................................................................... 87 6.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ....................................................................................................................... 88 57WWW.UNINGA.BR 6.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ...........................................................................................................................88 7. STRONGYLOIDES STERCORALIS - ESTRONGILOIDOSE .....................................................................................89 7.1 MORFOLOGIA ..........................................................................................................................................................89 7.2 CICLO BIOLÓGICO .................................................................................................................................................90 7.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ................................................................................................................... 91 7.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ..........................................................................................................................92 7.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ............................................................................................................................93 8. TRICHURIS TRICHIURA - TRICUROSE .................................................................................................................93 8.1 MORFOLOGIA .........................................................................................................................................................93 8.2 CICLO BIOLÓGICO.................................................................................................................................................95 8.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ..................................................................................................................96 8.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ..........................................................................................................................96 8.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ...........................................................................................................................97 9. ENTEROBIUS VERMICULARES – ENTEROBIOSE ................................................................................................97 9.1 MORFOLOGIA .........................................................................................................................................................97 9.2 CICLO BIOLÓGICO .................................................................................................................................................99 9.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA .................................................................................................................100 9.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA .........................................................................................................................100 9.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ..........................................................................................................................100 10. WUCHERERIA BANCROFTI – FILARIOSE LINFÁTICA ....................................................................................... 101 10.1 MORFOLOGIA ...................................................................................................................................................... 101 10.2 CICLO BIOLÓGICO .............................................................................................................................................. 101 10.3 ASPECTOS CLÍNICOS E PATOGENIA ................................................................................................................ 102 10.4 EPIDEMIOLOGIA E PROFILAXIA ....................................................................................................................... 103 10.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL ........................................................................................................................ 104 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................................................................... 105 58WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Os helmintos (hélmins=vermes) constituem um grupo muito numeroso de animais, incluindo espécies de vida livre e parasitos. Os parasitos de importância médica encontram-se distribuídos nos filos Platyhelminthes, Nematoda e Achanthocefala. A tabela 1, resume alguns helmintos que parasitam os seres humanos. Os Platyhelmintes (Platy = chato), estão agrupados em quatro classes, Turbellaria, Monogenea, Trematoda e Cestoda. As duas últimas englobam espécies de platelmintos que são patogênicos ao homem. Os trematodeos incluem vários parasitos importantes em Medicina e estão agrupados na subclasse Digenea. Os trematódeos digenéticos são vermes achatados dorsoventralmente, quase sempre providos de ventosas (importantes na fixação do parasito ao seu habitat no hospedeiro definitivo), são endoparasitos obrigatórios, com ciclos de vida complexos, que envolvem pelo menos dois hospedeiros distintos (ciclo heteroxenico). Os principais trematódeos digenéticosresponsáveis por doenças humanas de grande prevalência em diversas regiões do mundo são o Schistosoma mansoni e Fasciola hepatica. Os cestoides são endoparasitos, que possuem o corpo alongado, achatado dorsoventralmente, em forma de fita. O corpo desses helmintos é dividido em três partes: na extremidade anterior localiza-se o escólex, que apresenta estruturas de fixação como ventosas e pequenos ganchos conhecidos como acúleos; segue-se uma porção delgada conhecida como colo, que corresponde à região de crescimento; e o estróbilo, que compreende toda a parte restante do animal, este é formado por vários seguimentos, denominados proglotes. As proglotes mais proximais ou jovens contêm órgãos sexuais mal definidos, enquanto as proglotes maduras são hermafroditas (contêm simultaneamente órgãos reprodutivos masculinos e femininos). As proglotes distais ou grávidas contêm milhares de ovos, estas geralmente destacam-se do estróbilo e desintegram-se, liberando seus ovos. Os cestoides adultos possuem um ciclo de vida heteroxenico e habitam o lúmen intestinal do hospedeiro definitivo, mantendo o escólex fixado à mucosa. Os principais cestoides que causam doenças nos seres humanos pertencem à ordem Cyclophyllidea, compreendendo as tênias (Taenia solium e Taenia saginata), Echinococcus granulosus, Hymenolepis nana e Hymenolepis diminuta. O filo Nematoda (nêmatos=fio) compreende duas classes, Chromadorea e Enoplea, estas possuem várias espécies de parasitos de importância médica. Os nematoides são helmintos com simetria bilateral, cilíndricos e alongados, possuem tamanho variável, de poucos milímetros a dezenas de centímetros. Em geral, os vermes adultos são dioicos (sexo separado – macho e fêmea), sendo o macho menor do que a fêmea (dimorfismo sexual). A maioria dos nematoides possuem o ciclo biológico do tipo monoxênico, ou seja, direto, sem a necessidade de um hospedeiro intermediário, com exceção do parasito Wuchereria bancrofti, que necessita de um inseto hematófago para completar seu ciclo de vida. As principais espécies de nematodas que causam doença no homem são, Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura, Toxocara canis e Enterobius vermicularis, ancilostomídeos, Strongyloides stercoralis e Wuchereria bancrofti. 59WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA A seguir serão estudados os principais helmintos de interesse médico que afetam a saúde do homem. Tabela 1 - Quadro com os principais helmintos que parasitam os seres humanos. Fonte: Neves (2016). Para mais informações sobre os Helmintos, realizar a leitura do Capítulo 21 do livro texto: NEVES, D. P. Parasitologia humana. 13 ed. São Paulo: Atheneu, 2016. 60WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 1. SCHISTOSOMA MANSONI – ESQUISTOSSOMOSE Na classe Trematoda, encontram-se a família Schistosomatidae, que apresenta sexos separados e são parasitos de vasos sanguíneos de mamíferos e aves. Várias espécies do gênero Schistosoma foram relatadas parasitando animais e eventualmente os seres humanos, sendo o Schistosoma mansoni o principal agente etiológico da esquistossomose mansoni. No Brasil é popularmente conhecida como barriga d’água, xistose ou mal do caramujo, atingindo milhões de pessoas, em uma das maiores regiões endêmicas dessa doença em todo o mundo. Como é a única espécie existente em nosso meio, vamos estudá-la a seguir com mais detalhes. 1.1 Morfologia O S. mansoni possui em seu ciclo de vida as seguintes formas evolutivas: adulto (macho e fêmea), ovo, miracídio, esporocisto e cercaria. Os vermes adultos vivem no sistema porta, especificamente, nos ramos terminais da veia mesentérica inferior, na altura da parede intestinal do plexo hemorroidário do hospedeiro definitivo. O macho mede cerca de 1 cm, apresenta coloração esbranquiçada e tegumento recoberto por projeções (tubérculos). Possui duas ventosas (ventral e oral – acetábulo), um canal ginecóforo onde a fêmea se acopla para a cópula (Figura 1). A fêmea mede cerca de 1,5 cm, apresenta coloração mais escura e tegumento liso. Assim como o macho, possui duas ventosas (ventral e oral – acetábulo, Figura 1). Existem outras espécies de Schistosoma que possuem importância epidemiológica em medicina humana, como: S. haematobium, agente da esquistossomose visceral ou hematúria do Egito, encontrado na África, Oriente Próximo, Oriente Médio e Europa; S. japonicum, causador da esquistossomose japônica, encontrado na China, Japão, Filipinas e Sudeste Asiático; S. mekongi, espécie semelhante ao S. japonicum, encontrado no Camboja; e S. intercalatum agente da esquistossomose intestinal encontrada no interior da África Central. 61WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 1 - A) Esquema do S. mansoni em cópula. B) observa-se o par de ventosas (uma oral e outra ventral) que caracteriza os trematódeos; em C) observa-se um casal de vermes adultos, com a fêmea alojada no canal ginecófo- ro do macho. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). O ovo mede cerca de 150 µm de comprimento por 60 µm de largura, possui formato oval e na parte mais larga apresenta um espículo voltado para trás. O que caracteriza um ovo maduro é a presença de um miracídio no seu interior, visível pela transparência da casca (Figura 2). Figura 2 - Ovo de S. mansoni; observe o espículo lateral (seta). Fonte: adaptado de Ferreira (2012). O miracídio apresenta forma cilíndrica ciliada, que permite movimentação no meio aquático, com dimensões médias de 180 µm de comprimento por 64 µm de largura. A extremidade anterior apresenta uma papila apical, ou terebratorium, onde se encontram as terminações das glândulas adesivas, além de cílios maiores e espículos, que provavelmente auxiliam na penetração dos miracídios nos moluscos (forma infectante dos caramujos do gênero Biomphalaria, hospedeiro intermediário), e terminações nervosas com funções sensoriais e tácteis. Apresenta também células germinativas que darão origem ao esporocisto (Figura 3). 62WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 3 - Miracídio de S. mansoni. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). As cercárias apresentam comprimento total de 500 µm, cauda bifurcada, importante para a movimentação do parasito e, no corpo, duas ventosas. A ventosa oral, com glândulas de penetração, e a ventosa ventral ou acetábulo, com musculatura mais desenvolvida. São as formas infectantes do hospedeiro definitivo. Ao penetrar no hospedeiro, as cercarias perdem a cauda e recebem o nome de esquistôssomulos, até se tornarem vermes adultos (Figura 4). Figura 4 - Cercária de S. mansoni. A) representação esquemática B) fotografia. Fonte: Ferreira (2012). 63WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 1.2 Ciclo Biológico O ciclo biológico do S. mansoni é do tipo heteroxênico e encontra-se resumido na Figura 5. Figura 5 - Ciclo biológico de S. mansoni. Fonte: Ferreira (2012). O S. mansoni, ao atingir a fase adulta do seu ciclo de vida, no sistema vascular humano e de outros mamíferos, alcança as veias mesentéricas, principalmente a inferior, migrando contra a corrente circulatória. Nesse local, as fêmeas fazem postura em nível de submucosa, e os ovos colocados levam cerca de uma semana para tornarem-se maduros e atingirem a luz intestinal. A passagem dos ovos para a luz intestinal ocorre graças a fatores como: adelgaçamento da parede dos vasos provocados pela distensão, com a presença do casal na sua luz; pressão com que os ovos são postos pela fêmea (bombeamento); perfuração da parede venular, auxiliado pelo bombeamento e presença do espículo nos ovos; ação de enzimas proteolíticas produzidas pelo miracídio, causando lesão nos tecidos; e reação inflamatória que facilita a passagem desses ovos. Esse processo demora, no mínimo, seis dias, tempo suficientepara que ocorra a maturação dos ovos. Se em até 20 dias os ovos não atingirem a luz intestinal, ocorre a morte dos miracídios e os ovos podem ficar presos na mucosa intestinal ou serem arrastados para o fígado. Os ovos que atingirem a luz intestinal vão para o exterior, junto com as fezes, e têm um tempo de vida de 24 horas (fezes líquidas) a cinco dias (fezes sólidas). 64WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Alcançado a água, o miracídio é liberado, estimulado por fatores como temperatura elevada, luz intensa e oxigenação da água. Após ser liberado do ovo, o miracídio vai em busca do seu hospedeiro, o molusco do gênero Biomphalaria. Os miracídios são atraídos por substância liberadas pelo molusco. Ao encontrar o hospedeiro, os miracídios, pelo contato com o tegumento do molusco, fazem o terebratorium assumir forma de ventosa, ocorrendo simultaneamente uma descarga do conteúdo das glândulas de adesão e de penetração. Esse processo de penetração dura de 10 a 15 minutos. Após a penetração do miracídio no caramujo, ocorrem sucessivas perdas de estruturas e o parasito assume a forma de esporocisto. As células germinativas iniciam um intenso processo de multiplicação – esporocisto primário. Esse esporocisto primário continua seu processo de multiplicação, originando o esporocisto secundário, que migra através da musculatura do molusco, originando os esporocistos terciários, que formam as cercárias. A emergência das cercarias do interior do molusco parasitados segue o ritmo circadiano, ocorrendo pela influência de estímulos externos como luminosidade e temperatura. As cercarias podem viver de 36 a 48 horas, sendo que, nas primeiras 8 horas, apresentam sua maior atividade e capacidade infectiva. Nadam ativamente na água, podendo penetrar em vários mamíferos. Ao alcançarem a pele de humanos, fixam-se preferencialmente entre os folículos pilosos. Por ação lítica (glândulas de penetração) e ação mecânica (movimentos vibratórios intensos), promovem a penetração do corpo cercariano e a concomitante perda da cauda. Quando são ingeridas, as cercarias que chegam ao estômago são destruídas pelo suco gástrico, mas as que penetram na mucosa bucal desenvolvem-se normalmente. Após a penetração, o parasito, agora como esquistossômulo, migra para o tecido subcutâneo, atinge um vaso e chega aos pulmões. Dos pulmões, os esquistossômulos se dirigem para o sistema porta, podendo usar duas vias para migração: uma via sanguínea e outra transtissular. No sistema porta, os esquistossômulos se alimentam e se desenvolvem, transformando-se em machos e em fêmeas, 25-28 dias após a penetração. Posteriormente migram, acasalados, para veia mesentérica inferior, onde farão oviposição. Os primeiros ovos surgem nas fezes, em torno de 42 dias após a infecção. 1.3 Aspectos Clínicos e Patogenia A potogenia está ligada a fatores como cepa do parasito, carga parasitária adquirida, idade, estado nutricional e resposta imunitária do indivíduo infectado. De todos estes fatores, de acordo com estudos, os mais importantes são a carga parasitária e a resposta do sistema imunológica do hospedeiro. Assim, em indivíduos que eliminam uma média de número de ovos nas fezes muito elevada, são mais frequentes a forma hepatoespênica e forma pulmonar da doença. A esquistossomose mansônica é uma doença que decorre basicamente da resposta inflamatória granulomatosa, que ocorre em torno dos ovos vivos do parasito (Figura 6). 65WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 6 - Lesão histopatológica básica da esquistossomose crônica, o granuloma em torno dos ovos depositados no fígado. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). O processo de formação do granuloma deve ser considerado nas fases aguda e crônica da doença. Na fase aguda, a reação granulomatosa é exacerbada e atinge volume considerável, apresentando volume até 100 vezes maior do que o ovo. Na fase crônica, esse granuloma atinge dimensões bem menores, provavelmente devido ação imunomoduladora da citocina IL-10. Essas lesões granulomatosas são as principais responsáveis pelas variações clínicas e pelas complicações digestivas e circulatórias. Assim sendo, será descrito a seguir a evolução típica da esquistossomose depois da penetração das cercárias. 1.4 Esquistossomose Aguda 1.4.1 Fase pré-postural É uma fase com sintomatologia variada, que ocorre cerca de 10 a 35 dias após a infecção. Neste período, há indivíduos que não se queixam de nada (formas assintomáticas) e outros que reclamam de: mal-estar, com ou sem febre, problemas pulmonares (tosse), dores musculares, desconforto abdominal e um quadro de hepatite aguda. 1.4.2 Fase aguda As áreas de necrose, observadas no intestino, devido à disseminação dos ovos, podem levar a uma enterocolite aguda e, no fígado, provocar a formação de granulomas, caracterizando a forma toxêmica, que pode apresentar-se como doença febril aguda, acompanhada de sudorese, calafrios, emagrecimento, febre alta, fenômenos alérgicos, diarreia, disenteria, cólicas tenesmo, hepatoesplenomegalia discreta, linfadenia, leucocitose com eosinofilia, aumento das globulinas e alteração das funções hepáticas. A fase toxêmica pode ser letal. As lesões hepatoesplênicas devem-se a uma hipersensibilidade do hospedeiro a antígenos secretados pelos ovos. 66WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Essa hipersensibilidade é maior no início da infecção e decresce espontaneamente na fase crônica da doença, resultando na diminuição do tamanho do granuloma e, por meio da modulação da resposta imune, resulta na redução da sintomatologia. 1.5 Esquistossomose Crônica Pode apresentar grande variação clínica, de acordo com a localização de suas alterações: intestino, fígado e outras localizações. 1.5.1 Intestino Diarreia mucossanguinolenta, devido à passagem simultânea de vários ovos para a luz intestinal, ocasionando pequenas e numerosas hemorragias e edema; dor abdominal; e tenesmo. Nos casos crônicos graves, pode ocorrer fibrose da laça retossigmoide, levando à diminuição do peristaltismo e à constipação. A maioria dos casos crônicos é benigna, com predominância de alguns granulomas nodulares, e o paciente queixando-se, algumas vezes, de dores abdominais, com fases de diarreia mucossanguinolenta alternadas a fases de constipação e de longos períodos normais. 1.5.2 Fígado As alterações hepáticas surgem a partir do início da oviposição e formação de granulomas. Assim, temos um quadro clínico dependente do número de formas que chegam ao fígado. No início, esse órgão apresenta-se aumentado de volume e doloroso a palpação. Os ovos prendem-se no espaço porta, com a formação de numerosos granulomas. Com o efeito acumulativo das lesões granulomatosas em torno dos ovos, as alterações hepáticas se tornarão mais sérias. O fígado, que inicialmente aumenta de volume, em um estágio mais avançado, pode estar menor e fibrosado. Os granulomas causam uma endoflebite aguda e uma fibrose periportal, a qual provocará obstrução dos ramos intra-hepáticos da veia porta com formação de pequenos trombos. Essa obstrução trará, como consequência, a hipertensão portal responsável por uma série de alterações como: esplenomegalia – hiperplasia do tecido reticular e dos elementos do SFM, provocada por um fenômeno imunoalérgico; varizes – desenvolvimento de circulação colateral anormal intra- hepática (shunts) e de anastomoses do plexo hemorroidário, umbigo, região inguinal e esôfago, em uma tentativa de compensar a circulação portal obstruída e diminuir a hipertensão portal; e ascite (barriga d’água) – decorrente devido às alterações hemodinâmicas, principalmente a hipertensão. 1.5.3 Outras localizações Por meio das circulações colaterais anômalas e das anastomoses, alguns ovos passariam à circulação venosa, ficando retidos nos pulmões. Ali, originariam granulomasque podem dificultar a pequena circulação e causar um aumento do esforço cardíaco, chegando até a uma insuficiência cardíaca. Outra situação seria causada pela viabilização das ligações arteriovenosas (shunts), que permitiriam a passagem dos ovos para a circulação geral e encistamento em vários órgãos com formação de granulomas, até mesmo no SNC. 67WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 1.6 Epidemiologia e Profilaxia Schistosoma mansoni é endêmico em vários países africanos, desde o delta do Nilo, no norte, até o sul (Zimbábue, Moçambique). Na América do Sul e nas Antilhas, o parasito foi introduzido com o tráfico de escravos africanos. No Brasil, acredita-se que haja mais de 6 milhões de indivíduos infectados, concentrados principalmente nos estados da Bahia, de Minas Gerais, Alagoas, Pernambuco, Sergipe, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba, Espírito Santo e São Paulo. A ocorrência da esquistossomose mansonica está ligada à presença do seu vetor, o caramujo do gênero Biomphalaria glabrata. Outras espécies também constituem vetores dessa parasitose, como B. tenagophila, B. straminea, B. intermedia etc. O clima de país tropical permite o estabelecimento de focos de transmissão – criadouros de caramujos suscetíveis com fezes contendo ovos viáveis. Assim, a presença do vetor ideal, o clima apropriado para a transmissão e as condições socioeconômicas precárias (saneamento básico, educação sanitária etc.) permitem a manutenção da endemia nas áreas onde foi instalada. O hospedeiro definitivo com real importância na epidemiologia é a espécie humana. Os fatores epidemiológicos ligados à população humana mostram que a faixa etária mais jovem são as que apresentam a maior prevalência e as cargas parasitárias mais altas. Portanto, os fatores relacionados a esses casos seriam o sistema imunológico, sistema endócrino e aos aspectos comportamentais. A profilaxia da esquistossomose envolve fatores ligados ao hospedeiro, ao parasito, ao vetor e ao ambiente. Assim, além do tratamento da população infectada, as principais medidas disponíveis para o controle da esquistossomose são o saneamento básico, o controle de caramujos e a educação sanitária. 1.7 Diagnóstico Laboratorial O diagnóstico da esquistossomose geralmente se baseia no achado de ovos de S. mansoni nas fezes. Os métodos para exame de fezes compreendem técnicas qualitativas (que permitem somente determinar a presença de infecção), como o método de sedimentação espontânea e quantitativas (que permitem estimar a intensidade de infecção a partir da contagem de ovos eliminados nas fezes), como o método de Kato-Katz. Como a produção diária de ovos pelas fêmeas de S. mansoni é relativamente pequena, e nem todos os ovos produzidos atingem o lúmen intestinal, recomenda-se submeter pelo menos três amostras fecais às técnicas de concentração para o diagnóstico de infecções leves, por meio do exame parasitológico de fezes. Em pacientes com infecção crônica, a eliminação de ovos pelas fezes pode reduzir-se em função de sua progressiva retenção na mucosa do intestino grosso e no reto. Nessa situação, pode-se realizar uma biopsia ou raspagem da mucosa retal para a identificação dos ovos retidos na mucosa, em casos cujos os exames de fezes são repetidamente negativos. A detecção de anticorpos contra antígenos de S. mansoni tem valor relativamente restrito na prática clínica, exceto no diagnóstico dos quadros agudos. Outros testes imunológicos eventualmente utilizados são a detecção de antígenos parasitários circulantes e uma reação cutânea de hipersensibilidade imediata (leitura em 15 min). A técnica de Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) tem mostrado resultados promissores, sendo utilizada principalmente nos casos de controle de cura pós tratamento e nas infecções de baixa carga parasitária. No entanto, o custo da técnica e sua complexidade são fatores limitantes para seu uso generalizado. 68WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 2. TENIA spp – TENÍASE E CISTICERCOSE Os cestoides mais frequentes encontrados, parasitando os seres humanos, pertencem à família Taeniidae, na qual se destacam as espécies Taenia solium e Taenia saginata. São popularmente conhecidas como solitárias e são responsáveis por causar o complexo teníase- cisticercose, que são definidos como um conjunto de alterações patológicas causadas pelas formas adultas e larvares. A teníase é uma alteração provocada pela presença das formas adultas de T. solium e T. saginata no intestino delgado do hospedeiro definitivo, o homem. A cisticercose caracteriza- se pela presença das formas larvares (cisticerco) nos tecidos dos hospedeiros intermediários, normalmente suínos (T. solium) e bovinos (T. saginata). Hospedeiros anômalos como cães, gatos, macacos e seres humanos podem albergar a forma larvar de T. solium. 2.1 Morfologia Os vermes adultos de T. saginata e T. solium apresentam o corpo achatado, dorsoventralmente em forma de fita, dividido em escólex ou cabeça, colo ou pescoço (zona de crescimento do parasito) e estróbilo ou corpo (formado por vários seguimentos, denominados proglotes, cada proglote possui órgão genitais masculinos e femininos, são hermafroditas). O verme adulto de T. solium contém 800 a 1.000 proglotes (comprimento total: 2 a 4 m, podendo chegar a 8 a 9 m), enquanto os adultos de T. saginata contêm 1.000 a 2.000 proglotes (comprimento total: 4 a 12 m, podendo chegar a 25 m). O escólex de T. solium contém quatro ventosas e uma estrutura em forma de coroa, chamada rostro ou rostelo, em que se insere uma fila dupla de pequenos ganchos, os acúleos. O escólex de T. saginata também apresenta quatro ventosas, mas sem o rostro e acúleos (Figuras 7 e 8). Nas tênias as proglotes grávidas destacam-se periodicamente do estróbilo. As proglotes de T. solium são geralmente liberadas em grupos de cinco ou seis, durante a evacuação, enquanto as proglotes de T. saginata são geralmente liberadas individualmente e saem ativamente no intervalo das evacuações. Por meio do padrão de ramificações uterinas das proglotes grávidas é possível a diferenciação entre as espécies; em T. solium, o útero grávido apresenta 7 a 12 ramificações principais de cada lado da haste uterina, que distalmente se ramificam em padrão dendrítico, enquanto a proglote grávida de T. saginata apresenta 15 a 30 ramificações uterinas de cada lado da haste uterina, que distalmente se ramificam de modo dicotômico (Figura 7). Os ovos são liberados pela ruptura das proglotes grávidas, antes ou depois delas se destacarem do estróbilo, sendo eliminados nas fezes. Os ovos de tênia são esféricos, com uma casca espessa que contém estrias radiadas. No seu interior, encontra-se a oncosfera, um embrião maduro, contendo seis acúleos. Não é possível distinguir T. solium de T. saginata com base na morfologia dos ovos (Figura 7). 69WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 7 - Representação esquemática das principais diferenças morfológicas entre A) T. solium e B) T. saginata. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). Figura 8 - Escólex de exemplar adulto de T. solium (A) e de T. saginata (B), ambos corados pelo carmim. Observe as ventosas e, em T. solium, uma fila dupla de acúleos. Fonte: Ferreira (2012). 70WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Para visualizar a morfologia do verme adulto de Taenia spp. no intestino humano, assista ao vídeo “Teníase: achado colonoscópico” disponível no site do YouTube link: <https://www.youtube.com/watch?v=HRVNJzdG7tk>. 2.2 Ciclo Biológico O ciclo de vida da Taenia spp é do tipo heteroxênico (Figura 9), sendo o homem o hospedeiro definitivo. Os hospedeiros intermediários habituais de T. solium e T. saginata são respectivamente os suínos e os bovinos. Os ovos, eliminados nas fezes de seres humanosinfectados, encontram-se no ambiente, podendo contaminar água e alimentos. Um hospedeiro intermediário próprio ingere os ovos e, no tubo digestivo este, sofrem ação da pepsina e sais biliares e as oncosferas são liberadas. O embrião liberado penetra a parede intestinal e chega a pequenos vasos sanguíneos e linfáticos do intestino delgado. Nas circulações sanguínea e linfática, os embriões despertam resposta imune, mediada por anticorpos e componentes do sistema complemento, que podem impedir sua disseminação a vários órgãos e tecidos. Os sítios mais comuns para o desenvolvimento dos cisticercos são os músculos de maior movimentação (músculo esquelético e cardíaco) e o sistema nervoso central. Em 8 a 15 semanas, os cisticercos de T. solium (também conhecidos como Cysticercus cellulosae) e de T. saginata (Cysticercus bovis) tornam-se infectantes. Os cisticercos têm cerca de 5 mm de diâmetro e permanecem viáveis por cerca de 2 anos; quando se degeneram, dão origem a pequenos nódulos calcificados. Os seres humanos se infectam e desenvolvem a cisticercose ao ingerir os ovos de T. solium. Neste caso, os seres humanos fazem o papel de hospedeiro intermediário acidental. A T. saginata, no entanto, são incapazes de se desenvolver cisticercose em seres humanos. A teníase, nos seres humanos, ocorre pela ingestão de carne crua ou malcozida de porco ou boi infectados. Os cisticercos viáveis ingeridos sofrem a ação do suco gástrico, evaginam-se e fixam-se na mucosa do intestino delgado, transformando-se em uma tênia adulta. Três meses após a ingestão do cisticerco, inicia-se a eliminação de proglotes grávidas. 71WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 9 - Ciclo biológico Taenia spp. Fonte: Ferreira (2012). 2.3 Aspectos Clínicos e Patogenia Na teníase, o acelerado crescimento do parasito no interior do intestino delgado humano requer um considerável suprimento nutricional, que ocasiona uma competição com o hospedeiro, provocando: tontura, astenia, apetite excessivo, náuseas, vômitos, alargamento e dores no abdome e perda de peso. O quadro clínico da cisticercose humana depende de características dos cisticercos (se são viáveis, metabolicamente ativos ou inativos), da resposta imune do hospedeiro e do número e da localização dos cisticercos presentes. A neurocisticercose é a apresentação clínica mais comum e relevante da cisticercose humana. Os cisticercos podem localizar-se no córtex cerebral, nas meninges ou nos ventrículos. Com a morte das larvas, ocorre reação inflamatória intensa, que origina os sinais e sintomas. A reação do hospedeiro destrói o parasito, deixando em seu lugar um nódulo calcificado. Os sintomas dependem essencialmente da localização dos cisticercos. A manifestação clínica mais comum é a convulsão, mas podem ocorrer déficits motores e distúrbios visuais. Cefaleia e náuseas decorrentes de hipertensão intracraniana são observadas quando os cistos afetam a drenagem liquórica. A cisticercose cardíaca pode resultar em palpitações e ruídos anormais ou dispneia quando os cisticercos se instalam nas válvulas Outra forma clínica importante é a cisticercose ocular, com sintomas que variam desde a redução discreta da acuidade visual até a cegueira unilateral. Os cisticercos geralmente alojam-se no humor vítreo. 2.4 Epidemiologia e profilaxia As tênias são encontradas em todas as partes do mundo. Estima-se que cerca de 20 a 50 milhões de indivíduos em todo o mundo alberguem cisticercos de T. solium. Além disso, de acordo com os hábitos alimentares de determinadas populações, a teníase pode ser mais comum ou rara. 72WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA No Brasil, a T. solium e T. saginata possuem ampla distribuição, devido às precárias condições de higiene de parte da população, pelo método de criação extensiva dos animais e pelo hábito de ingerir carne crua ou malcozida. No entanto, os dados referentes à prevalência do complexo teníase-cisticercose são imprecisos, escassos e geralmente representam trabalhos pontuais. A resistência dos ovos às condições adversas do ambiente é fundamental para a disseminação do complexo, pois estas formas infectantes podem permanecer viáveis por meses em clima quente e úmido em áreas endêmicas. A contaminação humana por ovos de T. solium ocorre principalmente pela ingestão de ovos presentes nas mãos, água e alimentos contaminados. As principais medidas profiláticas contra o complexo teníase-cisticercose são: impedir o acesso de suínos e bovinos às fezes humanas; saneamento básico; tratamento dos indivíduos infectados; educação em saúde, orientar a população a não comer carnes cruas ou malcozidas; melhorias do sistema de criação de animais; e rigorosa fiscalização dos matadouros, sobre a cisticercose animal. 2.5 Diagnóstico laboratorial O diagnóstico laboratorial da teníase é realizada pela pesquisa de proglotes e, mais raramente, de ovos nas fezes. Para as duas tênias, nas técnicas rotineira de pesquisa de ovos nas fezes, o diagnóstico é genérico, pois microscopicamente os ovos são iguais. Para o diagnóstico específico, há a necessidade de fazer a tamização das fezes, recolher as proglotes e identificá-las pela morfologia das ramificações uterinas. Existem diversos imunoensaios enzimáticos (ELISA) de captura de antígenos de Taenia spp. em amostras de fezes (coproantígenos), que permitem realizar o diagnóstico com grande sensibilidade (em torno de 99%). Assim, os antígenos podem ser detectados na ausência de ovos na matéria fecal. A reação em cadeia da polimerase (PCR) é uma técnica sensível e possibilita o diagnóstico específico das tênias, embora esse procedimento diagnóstico não esteja disponível fora de laboratórios de pesquisa. O diagnóstico da neurocisticercose depende de exames sorológicos e de imagem. Anticorpos contra antígenos purificados de cisticercos podem ser pesquisados por ELISA, tanto no soro quanto no líquor. Mais recentemente, preconiza-se o uso de técnicas de immunoblot para a pesquisa de anticorpos específicos, com ganhos em sensibilidade e especificidade. Os métodos diagnósticos de imagem mais úteis são a tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética. 3. ECHINOCOCCUS GRANULOSUS - HIDATIDOSE O gênero Echinococcus pertence à família Taeniidae, e possui quatro espécies que podem parasitar o homem: E. granulosos, E. vogeli, E. oligarthus (encontrados no Brasil) e E. multilocularis. Estas espécies são agente etiológico da hidatidose. O ser humano é considerado um hospedeiro intermediário acidental, que se infecta devido ao seu estreito contato com os animais domésticos (cão), hospedeiros definitivos, que quando infectados albergam os vermes adultos em seu intestino delgado. Dentre as espécies citadas acima, o E. granulosos apresenta maior importância em saúde pública no Brasil, principalmente na região sul do país, área endêmica desta parasitose em animais e humanos. Em vista disso, neste tópico será estudada esta espécie. 73WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 3.1 Morfologia O verme adulto de E. granulosus (presente no intestino delgado dos hospedeiros definitivos) é o menor cestoide de importância clínica, apresentando, no máximo, 9 mm de comprimento. Possui um escólex globular com um rostro armado contendo acúleos e quatro ventosas, um colo e três proglotes, sendo a primeira imatura, a segunda madura e a terceira grávida (repleta de ovos) (Figura 10) Figura 10 - A) Esquema do E. granulosus, verme adulto. B) Escólex. C) Verme completo com três proglotes. Fon- te: Ferreira (2012). Os ovos (forma infectante dos hospedeiros intermediários) são ligeiramente esféricos, medem 32 µm de diâmetro, são constituídos por uma membrana externa espessa e possuem em seu interior a oncosfera, com seis ganchos. O cisto hidático (forma infectante do hospedeiro definitivo, encontra-senas vísceras dos hospedeiros intermediários), corresponde à hidátide envolta por uma membrana adventícia externa, resultado da fibrose tecidual no hospedeiro. O cisto hidático típico de E. granulosus é uma vesícula unilocular cheia de liquido, contendo em seu interior inúmeros protoescólices e restos de cápsulas prolígeras (areia hidática). O cisto consiste em uma camada interna de células germinativas, que formam as saliências conhecidas como cápsulas prolígeras, que por sua vez, originam os cistos secundários por brotamento, e uma camada laminada ou cuticular externa, de espessura variável. Em geral, os cistos hidáticos são esféricos e crescem de 1 a 5 cm por ano; podem alcançar cerca de 20 cm de diâmetro (Figura 11). 74WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 11 - Representação esquemática do cisto hidático de E. granulosus. Fonte: Ferreira (2012). 3.2 Ciclo biológico O ciclo biológico do E. granulosus é do tipo heteroxênico (Figura 12). Os ovos eliminados com as fezes dos cães (lobo, raposa – hospedeiros definitivos), chegam ao meio ambiente, contaminando as pastagens, peridomicílio e domicílio. Os ovos eliminados já são infectantes, permanecendo viáveis por vários meses em locais úmidos e sombreados. Os ovos ingeridos diretamente ou junto com alimentos pelos hospedeiros intermediários (ovinos, bovinos, suínos, caprinos e cervídeos), sofrem eclosão no duodeno, liberando a oncosfera após ação do suco gástrico e contato com a bile. A oncosfera, por meio dos seus ganchos, penetra na mucosa intestinal, alcançando a circulação sanguínea ou vasos linfáticos, instalando-se no fígado e pulmões e, mais raramente, em outros órgãos (cérebro, ossos, baço, músculos, rins, olhos etc.). Após seis meses, o cisto hidático estará maduro, permanecendo viável por vários anos. No hospedeiro definitivo, a infecção ocorre por meio de ingestão de vísceras, principalmente de ovinos e caprinos com cisto hidático fértil, ou seja, cistos contendo protoescóleces. Estes chegam ao intestino delgado dos canídeos, evaginam-se e fixam-se à mucosa intestinal, atingindo a maturidade após dois meses. Os vermes adultos vivem cerca de quatro meses, portanto, se não houver reinfecção, o cão estará curado desta parasitose. O homem, como hospedeiro intermediário acidental, geralmente se infecta ao brincar com cães, podendo ingerir diretamente os ovos, que podem estar aderidos ao pelo do animal, ou pela ingestão de alimentos contaminados. 75WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 12 - Ciclo biológico do E. granulosus. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 3.3 Aspectos Clínicos e Patogenia Como a evolução do cisto é lenta, as lesões e os sintomas podem levar anos para aparecerem, ocorrendo somente quando o cisto atingiu grandes dimensões. Assim, a patogenia da hidatidose humana dependerá dos órgãos atingidos, locais, tamanho e número de cistos. A hidatidose pode se desenvolver em diversos órgãos, com patogenia e sintomas decorrentes das alterações de suas funções vitais, seja por mecanismos irritativos, mecânicos e/ ou alérgicos. Em sua localização mais comum (cerca de 70% dos casos), no fígado (especialmente no lobo direito), os cistos hidáticos provocam certo desconforto abdominal depois de atingir um tamanho considerável. A pressão sobre as vias biliares pode levar a icterícia obstrutiva. Quando se rompem espontaneamente, os cistos hepáticos semeiam seus protoescólices em toda a cavidade peritoneal, levando à formação de numerosos cistos secundários. No pulmão (acometido em cerca de 20% dos casos), um cisto pode provocar certa dispneia, cansaço ao esforço físico e tosse com expectoração, mas frequentemente sua presença é diagnosticada apenas em exames radiológicos de rotina, ou quando o cisto se rompe, liberando seu conteúdo no interior dos brônquios ou da cavidade pleural. Dor torácica, tosse, dispneia e hemoptise são sinais e sintomas comuns nesta situação. A ruptura de cistos hidáticos geralmente provoca reações alérgicas, com prurido, reações cutâneas urticariformes, febre irregular e eosinofilia; podem ocorrer reações anafiláticas, muitas vezes fatais. Na hidatidose cística, cerca de 5 a 10% dos cistos hidáticos localizam-se, no cérebro, ossos e a musculatura esquelética. 76WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 3.4 Epidemiologia e Profilaxia A hidatidose humana é importante problema de saúde pública em diversas partes do mundo, incluindo a maior parte da Europa e da América do Norte. Na América do Sul, as principais regiões endêmicas são os Andes peruanos, o sul do Brasil, o Uruguai, a Argentina e o sul do Chile. As regiões de maior prevalência têm tradição na criação de ovinos associada à presença de cães de pastoreio. No Brasil, quase todos os casos de hidatidose têm origem no Rio Grande do Sul. Dados obtidos no período de 1997 a 2006, registraram 97 casos de hidatidose humana em Pelotas. Já na avaliação de 390.341 bovinos abatidos no Rio Grande do Sul no ano de 2013, sob inspeção estadual, a hidatidose apresentou média de 8,6%, com destaque para região de Bagé com 20,1% e Pelotas com 20,3% dos animais positivos. Estes dados mostram claramente que a hidatidose permanece endêmica no Rio Grande do Sul, com transmissão ativa, estando o habitante rural continuamente exposto a esta parasitose, principalmente pela grande quantidade de cães presentes nas propriedades rurais; ao hábito de alimentar cães com vísceras de animais abatidos; pela ausência de tratamento anti-hemíntico dos cães; e pela precária educação sanitária. As principais medidas de profilaxia são: a educação sanitária, alertando sobre o risco de alimentar os cães usados em atividades de pastoreio com as vísceras de herbívoros (especialmente carneiros) infectados e o tratamento em massa de cães. 3.5 Diagnóstico Laboratorial O diagnóstico da hidatidose humana é geralmente sugerido por exames de imagem: ultrassonografia ou tomografia computadorizada do abdome e radiografias simples de tórax. A confirmação é feita pela pesquisa de anticorpos específicos, os testes mais usados em triagem são ELISA, hemaglutinação indireta e reações de precipitação, mas somente a imunodifusão radial e o immunoblotting são confirmatórios. A sensibilidade diagnóstica da sorologia situa-se entre 80 e 100% e a especificidade entre 88 e 96%. 4. HYMENOLEPIS NANA - HIMENOLEPÍASE H. nana, agente etiológico da himenolepíase, é também conhecida como tênia anã, devido ao seu tamanho reduzido. O ciclo biológico desta espécie é o único entre os cestoides que pode ser direto, ou monoxênico. Como este parasito pode parasitar além de seres humanos, símios e roedores, ele pode se constituir em uma zoonose. 4.1 Morfologia Os vermes adultos (formas encontradas no intestino delgado do homem e outros hospedeiros definitivos) medem cerca de 3 a 5 cm, com 100 a 200 proglotes. O escólex apresenta quatro ventosas e um rostro retrátil armado com ganchos (acúleos; Figura 13A). 77WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Os ovos são semiesféricos (Figura 13B), medem cerca de 40µm de diâmetro, são transparentes e incolores. Possuem uma membrana, envolvendo um espaço claro; mais internamente, apresentam outra membrana envolvendo a oncosfera. Essa membrana interna apresenta dois mamelões claros em posição oposta, dos quais saem alguns filamentos longos. Figura 13 - A) Representação esquemática das principais características morfológicas das formas evolutivas de H. nana B) Ovo de H. nana. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 4.2 Ciclo Biológico Esse helminto pode apresentar dois tipos de ciclo: monoxênico (Figura 14) ou heteroxênico, quando possui como hospedeiros intermediários pulgas e carunchos de cereais. O ciclo do tipo monoxênico é o que ocorre mais comumente (Figura 14). O verme adultolibara as proglotes grávidas e consequentemente os ovos infectantes que são liberados no ambiente juntamente com as fezes do hospedeiro definitivo. Quando um novo hospedeiro ingere esses ovos, as oncosferas presentes em seu interior liberam-se no intestino delgado e penetram nas vilosidades intestinais. Em 4 dias, transformam-se em larvas cisticercóides. As formas larvárias rompem os vilos e entram no lúmen intestinal; o escólex fixa-se à mucosa e em 10 a 12 dias origina-se um verme com estróbilo. A oviposição inicia-se cerca de 30 dias após a infecção. Pode ocorrer autoinfecção interna, que resulta da eclosão de ovos no lúmen intestinal do próprio hospedeiro infectado. No entanto, a presença das larvas cisticercóides nas vilosidades intestinais estimulam a imunidade do hospedeiro, fazendo com que a maior parte dos indivíduos se tornem imune a uma segunda infecção. No ciclo heteroxênico os ovos presentes no meio externo são ingeridos por larvas de pulgas ou carunchos. Ao chegarem no intestino destes hospedeiros intermediários, liberam a oncosfera, que se transforma em larva cisticercóide. O ser humano acidentalmente pode ingerir este hospedeiro contendo a larva cisticercóide que, ao chegar no intestino delgado, desenvaginam- se, fixam-se à mucosa e após 20 dias tornam se vermes adultos. 78WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 14 - A – Ciclo biológico do tipo monoxênico do H. nana. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 4.3 Aspectos clínicos e patogenia As infecções são geralmente assintomáticas. Perda de apetite, dor abdominal e diarreia ocorrem ocasionalmente em crianças que albergam grande quantidade de vermes adultos (1000 a 2000 vermes), com possível repercussão em seu estado nutricional. A diarreia resulta de lesões causadas pelos vermes na superfície da mucosa. Pode ocorre ainda congestão da mucosa, infiltração linfocitária pequenas ulcerações, eosinofilia e perda de peso. Diferentemente do que ocorre em crianças mais novas, a infecção em adultos é autolimitante, em razão da imunidade protetora do hospedeiro. 4.4 Epidemiologia e profilaxia Acredita-se que a infecção, por cestoides, mais comum em seres humanos seja por H. nana, com ampla distribuição mundial. Estima-se em 50 a 75 milhões o número de pessoas infectadas por este parasito. Isto se deve ao fato de o H. nana possuir o ciclo direto, fazendo com que a infecção entre humanos seja facilmente espalhada. Outro fator importante é o curto ciclo de vida deste parasito, fazendo com que os ovos estejam rapidamente disponíveis para contaminar outros indivíduos. Para a profilaxia da infecção por H. nana é importante, hábitos de higiene, educação sanitária, saneamento básico, controle de insetos (pulgas e carunchos de cerais) e roedores, e tratamento dos indivíduos infectados. 79WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 4.5 Diagnóstico Laboratorial O diagnóstico laboratorial é realizado por meio do exame de fezes pelos métodos de concentração, como a sedimentação espontânea, e encontro dos ovos característicos. A repetição dos exames aumenta a sensibilidade do diagnóstico nas baixas cargas parasitárias. 5. ASCARIS LUMBRICOIDES - ASCARIDIOSE Na família Ascarididae são encontradas espécies de interesse médico, representadas principalmente pelo Ascaris lumbricoides, maior nematoide que parasita o intestino delgado humano. São popularmente conhecidas como lombriga ou bicha, causando a doença denominada ascaridose. O A. lumbricoides é encontrado em praticamente todos os países do mundo e sua frequência depende das condições climáticas, ambientais e, principalmente, do grau de desenvolvimento socioeconômico da população, sendo as crianças as mais atingidas por esta parasitose. 5.1 Morfologia Os vermes adultos são dioicos (macho e fêmea), longos, robustos, cilíndricos e apresentam as extremidades afiladas. Os machos medem cerca de 20 a 30 cm de comprimento (são geralmente menores do que as fêmeas) e apresentam cor leitosa. A boca está localizada na extremidade anterior e é contornada por três fortes lábios. A região posterior é fortemente encurvada para a face ventral e é o caráter sexual externo que o diferencia facilmente da fêmea. Possuem ainda, na região posterior, dois espículos grossos, curvos e iguais, que funcionam como órgãos acessórios da cópula (Figura 15). As fêmeas medem cerca de 30 a 40 cm, sendo mais robustas e maiores do que os machos. A cor, a boca e o aparelho digestivo são semelhantes aos do macho. A extremidade posterior da fêmea é retilínea (Figura 15). Hymenolepis diminuta é um parasito do intestino delgado de ratos e camundongos que eventualmente pode infectar seres humanos. O verme adulto, com 20 a 60 mm de comprimento, é semelhante a H. nana, mas seu escólex, ainda que apresente um rostelo, não possui acúleos. Os principais hospedeiros intermediários são pulgas; onde desenvolve-se a larva cisticercóide. Os seres humanos infectam- se acidentalmente ao ingerirem alimentos contaminados com os insetos infectados. Do ponto de vista clínico, a infecção é geralmente assintomática e cura espontaneamente em 5 a 7 semanas. 80WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 15 - Vermes adultos de A. lumbricoides. A) Fêmea e B) Macho. Fonte: Ferreira (2012). Os ovos adquirem cor castanha devido ao contato com os pigmentos fecais. A fêmea de A. lumbricoides pode produzir ovos férteis, quando fecundada pelo macho ou inférteis, quando não fecundada. Os ovos férteis são grandes, c om cerca de 60x45µm, ovais e com casca espessa, em razão da membrana externa mamilonada, secretada pela parede uterina e formada por mucopolissacarídeos. A essa membrana, seguem-se uma membrana média, constituída de quitina e de proteína, e outra mais interna, delgada e impermeável à água, constituída de proteínas e de lipídios. Internamente, os ovos apresentam uma massa de células germinativas. Algumas vezes, ovos férteis podem apresentar-se sem a membrana mamilonada, sendo denominados de ovos férteis decorticados. Além dos ovos férteis podemos encontrar nas fezes ovos inférteis, esses são mais alongados, possuem membrana mamilonada mais delgada e o citoplasma granuloso (Figura 16). Figura 16 - Na representação esquemática da morfologia dos ovos de A. lumbricoides, os ovos eliminados pelas fezes (A) tornam-se embrionados (B) em cerca de três semanas; alguns ovos inférteis, que contêm em seu interior uma massa amorfa de protoplasma, são também eliminados (C). As fotografias mostram três ovos férteis (D, E e F), sendo o terceiro (F) decorticado, e um ovo infértil (G). Fonte: Ferreira (2012). 81WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 5.2 Ciclo Biológico O ciclo biológico do A. lumbricoides é do tipo monoxênico (Figura 17), sendo o homem o único hospedeiro. Cada fêmea fecundada é capaz de colocar, por dia, cerca de 200.000 ovos, os quais chegam ao ambiente juntamente com as fezes do hospedeiro parasitado. Os ovos férteis, em presença de temperatura entre 25°C e 30°C, umidade mínima de 70% e oxigênio em abundância, tornam-se embrionados em 15 dias (geo-helminto). O ovo embrionado, possui uma larva em seu interior. A primeira larva (L1) formada dentro do ovo é do tipo rabditoide. Após uma semana, ainda dentro do ovo, essa larva sofre muda, transformando-se em L2 e, em seguida, uma nova muda, transformando-se em L3 (infectante) com esôfago tipicamente filarióides. Esses ovos permanecem infectantes no solo por vários meses, podendo ser ingeridos pelo hospedeiro, ao ingerir água ou alimentos contaminados. Após a ingestão, os ovos contendo a larva L3 (ovo infectante) atravessam todo o trato digestivo e as larvas eclodem no intestino delgado. A eclosão ocorre graças a estímulos como, a presença de agentes redutores, o pH, a temperatura, os sais e, o maisimportante, a concentração CO2, cuja ausência inviabiliza a eclosão. As larvas liberadas atravessam a parede intestinal na altura do ceco, caem nos vasos linfáticos e nas veias e invadem o fígado em dois ou três dias, chegam ao coração e, de quatro a cinco dias, são encontradas nos pulmões, para realizar o ciclo pulmonar. Cerca de oito dias depois da infecção, as larvas sofrem muda para L4, rompem os capilares e caem nos alvéolos, onde mudam para L5. Sobem pela árvore brônquica e pela traqueia, chegando até a faringe. Podem então ser expelidas com a expectoração ou serem deglutidas, fixando-se no intestino delgado. Transformam-se em adultos jovens 20 a 30 dias após a infecção. Em 60 dias, alcançam a maturidade sexual. Os vermes adultos têm uma longevidade de um a dois anos. Quando a infecção é adquirida pelo contato com o solo contaminado por formas infectantes, como ovos ou larvas, os vermes são conhecidos como geo-helmintos. As larvas L1 e L2 são conhecidas como larvas rabditoides, em função do aspecto do seu esôfago, que apresenta uma constrição no ponto de junção com o bulbo terminal; já as larvas L3 e L4 são larvas filariodes, ou seja, possuem o esôfago retilíneo, sem constrições. 82WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 17 - Ciclo biológico do A. lumbricoides. Fonte: Ferreira (2012). 5.3 Aspectos Clínicos e Patogenia A ação patogênica no hospedeiro desenvolve-se, habitualmente, em duas etapas: durante a migração das larvas e quando os vermes adultos já estão instalados no intestino delgado do hospedeiro. As migrações e as localizações ectópicas dos vermes adultos constituem uma terceira categoria de manifestações patológicas. A intensidade das alterações patogênicas está diretamente relacionada com a quantidade de vermes adultos, idade, estado nutricional e resposta imune do hospedeiro. Na fase de invasão larvária, nas infecções de baixa intensidade, normalmente são assintomáticas. Em infecções maciças, encontram-se lesões hepáticas e pulmonares. No fígado, quando são encontradas numerosas formas larvares migrando pelo parênquima, podem ser encontrados pequenos focos hemorrágicos e de necrose que, futuramente, tomam-se fibrosados. Nos pulmões, ocorrem vários pontos hemorrágicos na passagem das larvas para os alvéolos, podendo desenvolver um quadro pneumônico com febre, tosse, dispneia e eosinofilia (esse conjunto de sinais denomina-se síndrome de Loeffler). Na tosse produtiva, o catarro pode ser sanguinolento e apresentar larvas do parasito. Estas manifestações geralmente ocorrem em crianças e estão associadas ao seu estado nutricional e imunitário. 83WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Os vermes adultos, quando chegam ao intestino delgado, nas infecções de baixa intensidade (três a quatro vermes), não desenvolvem manifestações clínicas no hospedeiro. Por sua vez, nas infecções médias (30 a 40 vermes) ou maciças (100 ou mais vermes), podemos desenvolver: ação espoliadora, ou seja, os vermes consomem grande quantidade de proteínas, carboidratos, lipídios e vitaminas A e C, levando o paciente, principalmente crianças, à subnutrição e ao depauperamento físico e mental; ação tóxica, decorrentes da reação entre antígenos parasitários e anticorpos alergizantes do hospedeiro, causando edema, urticária, convulsões epileptiformes etc.; e ação mecânica que causam irritação na parede intestinal. Em alguns casos, nas elevadas cargas parasitárias os vermes podem enovelar-se na luz intestinal, levando à sua obstrução. A obstrução intestinal é a mais comum das complicações agudas. As crianças são mais propensas a esse tipo de complicação, causada principalmente pelo menor tamanho do intestino delgado e pela intensa carga parasitária. As manifestações clínicas mais frequentes, nos casos sintomáticos, são desconforto abdominal, que se manifesta geralmente sob a forma de cólicas intermitentes, dor epigástrica e má digestão, náuseas, perda de apetite e emagrecimento, irritabilidade, sono intranquilo, entre outros. Nos casos de pacientes com altas cargas parasitárias ou ainda em que o verme sofra alguma ação irritativa (febre, uso impróprio de medicamento e ingestão de alimentos muito condimentados), o parasito pode deslocar-se de seu hábitat normal, o intestino delgado, atingindo locais não habituais. Aos vermes que fazem essa migração dá-se o nome de “áscaris errático”, os quais podem ser encontrados no apêndice cecal, causando apendicite aguda; no canal colédoco, causando obstrução; no duto pancreático, causando pancreatite aguda; eliminação do verme pela boca e pelas narinas. 5.4 Epidemiologia e profilaxia O A. lumbricoides continua sendo o helminto mais frequente nos países pobres, com uma prevalência de aproximadamente 30%, ou seja, 1,5 bilhões de pessoas em todo mundo, atingindo principalmente crianças na faixa etária de 1 a 10 anos. Encontra-se amplamente distribuído nas regiões tropicais e temperadas do mundo, sendo mais prevalente em países com clima quente e úmido, bem como onde as condições higiênicas da população são mais precárias. A infecção humana por essa espécie de helminto está relacionada com a interação de diversas características que asseguram o processo de transmissão, como o parasito, o hospedeiro, o meio ambiente e a falta de noções ou de condições de higiene. Assim, alguns fatores interferem na prevalência dessa parasitose, são eles: a grande quantidade de ovos produzidos e eliminados pela fêmea; a viabilidade do ovo infectante por até um ano; a concentração de indivíduos vivendo em condições precárias de saneamento básico; a grande quantidade de ovos no peridomicílio, em decorrência do hábito que as crianças têm de ali defecarem; a temperatura e a umidade com médias anuais elevadas; a dispersão fácil dos ovos por meio de chuvas, dos ventos, dos insetos e das aves; a conceitos equivocados sobre a transmissão da doença e sobre hábitos de higiene na população. Quatro principais medidas são importantes para a profilaxia das infecções por helmintos: a) repetidos tratamentos em massa dos habitantes de áreas endêmicas com anti-hemínticos; b) tratamento das fezes humanas que, eventualmente, possam ser utilizadas como fertilizantes; c) saneamento básico; d) educação para a saúde – lavagem de frutas e de verduras, consumo de água filtrada, lavagem das mãos etc. 84WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 5.5 Diagnóstico laboratorial O diagnóstico laboratorial da ascaridiose é realizada pela identificação de ovos nas fezes. Como as fêmeas eliminam diariamente milhares de ovos por dia, não há necessidade, nos exames de rotina, de metodologia específica ou métodos de enriquecimento, bastando a técnica de sedimentação espontânea. O método que Kato-Katz é recomendado pela Organização Mundial de Saúde para inquéritos epidemiológicos, esta técnica permite quantificação do número de ovos e consequentemente estima o grau de parasitismo. Deve-se ressaltar que em infecções apenas com fêmeas, todos os ovos produzidos serão inférteis, enquanto que em infecções somente com machos o exame de fezes será negativo. 6. ANCYLOSTOMIDAE - ANCILOSTOMOSE A família Ancylostomatidae possui mais de 100 espécies, sendo que as de maior importância epidemiológica para o homem são Ancylostoma duodenale, Necator americanus e A. ceylanicum. A. duodenale, N. americanus e A. ceylanicum são agentes etiológicos da ancilostomose, popularmente conhecida como amarelão. Como nas demais geo-helmintoses, os ancilostomídeos são transmitidos pelo solo contaminado que prevê condições para o desenvolvimento do ovo não embrionado até o estádio larval infectante (larvafilarióides, estádio L3). N. americanus é a espécie predominante no mundo e ocorre principalmente em países de clima tropical, já o A. duodenale ocorre principalmente em países de clima tropical a frio. A infecçãopor A. ceylanicum é mais prevalente na Ásia, onde é considerada uma zoonose mantida por cães e gatos. 6.1 Morfologia Os vermes adultos são dioicos e o dimorfismo sexual é evidente, sendo as fêmeas maiores que os machos, além da presença da bolsa copuladora bem desenvolvida nos machos. Ambos possuem o corpo cilíndrico, cor esbranquiçada e medem aproximadamente 5 a 13 mm de comprimento. A diferença entre as diversas espécies pode ser notada pela identificação de duas estruturas muito características, a cápsula bucal e a bolsa copuladora (Tabela 2, Figura 18 e 19). Tabela 2 - Características das principais espécies de ancilostomídios que infectam o homem. Fonte: Ferreira (2012). 85WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 18 - Morfologia de exemplares adultos de ancilostomídeos. A) macho, B) fêmea, C) cápsula bucal de A. duodenale e D) cápsula bucal de N. americanus. Fonte: Ferreira (2012). Figura 19 - Cápsula bucal de A) A. duodenale B) N. americanus. Fonte: Ferreira (2012). 86WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Os ovos dos ancilostomídeos apresentam tamanho que variam de 50 a 75µm, são ovoides e apresentam uma fina casca, lisa e transparente. Entre a casca e a célula ovo, há um espaço claro. No momento em que o ovo é eliminado pelo parasito, a célula ovo é única e, posteriormente, começa a segmentar-se, formando quatro, oito ou mais blastômeros, até a formar a larva rabditoide (L1). A morfologia dos ovos eliminados não permite a diferenciação entre as diferentes espécies (Figura 20). As larvas rabditoides (L1) apresentam esôfago rabditoide, cutícula fina e hialina. Medem cerca de 250 µm de comprimento, dos quais o esôfago ocupa quase 2/3 dessa extensão. Essas larvas alimentam-se ativamente no solo e podem chegar a até 700 µm de comprimento, quando, então, começam a modificar-se, sofrem duas mudas, passando seu esôfago a ter formato filarióides. As larvas filarióides (L3) apresentam esôfago do tipo filarióides, longo, correspondendo à metade do comprimento da larva. Não se alimentam e apresentam dupla cutícula. São as formas infectantes, sendo capazes de penetrar na pele e/ou nas mucosas (oral, quando ingeridas) do hospedeiro. Figura 20 - Ovos de ancilostomídeos. A) ovo em processo avançado de segmentação, B e C) ovos com larvas no seu interior. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 6.2 Ciclo Biológico O ciclo biológico dos ancilostomídeos é do tipo monoxênico (Figura 21). O homem adquire a infecção pela penetração da larva filarióide (L3) na pele (N. americanus, A. duodenale e A. ceylanicum), geralmente na região dos pés e mãos, ou pela ingestão (A. duodenale e A. ceylanicum) das larvas juntamente com água ou alimentos contaminados. Em contato com a pele, as larvas estimuladas por sinais térmicos e químicos produzem enzimas proteolíticas, que juntamente com a movimentação da larva, auxiliam na penetração. Alcançando a circulação sanguínea ou linfática, as larvas são levadas para os pulmões. Chegam aos capilares pulmonares, onde se transformam em L4, atravessam a membrana alveolar e, por meio da migração pela árvore brônquica, chegam à faringe, podendo ser então expectoradas ou deglutidas, completando, assim, o ciclo pulmonar. As larvas que foram deglutidas chegam ao intestino delgado, onde sofrem nova muda e transformam-se em vermes adultos, crescendo e alcançando a maturidade sexual. Os vermes adultos se fixam na mucosa intestinal por meio dos dentes ou lâminas presentes na cápsula bucal, onde exercem o hematofagismo, com consequente perda de sangue pelo hospedeiro. Na infecção oral pela ingestão das larvas L3 em alimentos e água contaminados, as larvasfilarióides s não realizam o ciclo pulmonar. Nesta via, as larvas L3 deglutidas perdem a cutícula no estômago e migram para o intestino delgado, onde sofrem muda para L4 e posteriormente se transformam em vermes adultos. 87WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 21 - Ciclo biológico dos ancilostomídeos. Fonte: Ferreira (2012). 6.3 Aspectos Clínicos e Patogenia Após a penetração das larvas filarióides pela pele, o primeiro sintoma é o aparecimento imediato de erupções papulovesiculares pruriginosas eritematosos. Nos casos de reinfecção, pode ocorrer reação de hipersensibilidade com formação de edema, eritema, prurido, pápulas hemorrágicas e urticária. Nas infecções maciças, o processo migratório das larvas nos pulmões e na árvore brônquica provocam hemorragia e processo inflamatório que acompanha tosse com ou sem expectoração, febre, dispneia e crises asmáticas. O verme adulto, ao estabelecer-se no intestino delgado do hospedeiro, produz lesões da mucosa intestinal e espoliação sanguínea. As lesões da mucosa intestinal, causadas pela ação dos aparatos bucais cortantes, acompanhados por sucção e secreção de enzimas hidrolíticas e agentes anticoagulantes, resulta em uma intensa perda de sangue intestinal. A espoliação sanguínea causada pelo parasito adulto resulta em perda diária de ferro, com intensidade que varia de acordo com a carga parasitária do hospedeiro. A carência de ferro leva à anemia (microcítica e hipocrômica), que é revertida com o tratamento da parasitose e com a reposição nutricional. O hospedeiro desenvolve também hipoalbuminemia, que estaria associada à perda de plasma durante a hematofagia e à desnutrição. Os indivíduos com baixa carga parasitária são assintomáticos. As infecções moderadas e altas resultam em dores epigátricas, náuseas, dispneia, palpitações, dores no esterno e juntas, dor de cabeça, fadiga e impotência, além de anemia e subnutrição. 88WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 6.4 Epidemiologia e Profilaxia Estimativas recentes indicam que a ancilostomose acomete cerca de 440 milhões de pessoas, distribuídas principalmente nas regiões dos trópicos e subtrópicos do mundo. No passado, a ancilostomose estava limitada às áreas rurais. No entanto, muitos países da região da América Latina e do Caribe têm se tornado regiões extremamente urbanizadas, aumentando o número de indivíduos na miséria nas regiões urbanas (urbanização da pobreza) e exacerbação da segmentação socioeconômica. Enquanto o processo de urbanização não é necessariamente acompanhado por um sanitarismo apropriado, seu impacto na ancilostomose ainda não está totalmente claro. As principais medidas para a profilaxia das infecções por helmintos são: tratamentos de indivíduos infectados, saneamento básico, educação para a saúde – lavagem de frutas e de verduras, consumo de água filtrada, lavagem das mãos e higiene, uso de calçados ou equipamentos de proteção individual que impeça o contato com o solo contaminado. 6.5 Diagnóstico Laboratorial O diagnóstico laboratorial da ancilostomose é realizado pela identificação de ovos nas fezes, utilizando métodos qualitativos ou quantitativos. Os ovos das diferentes espécies de ancilostomídeos são morfologicamente semelhantes. O diagnóstico diferencial pode ser realizado pela coprocultura. Métodos imunológicos apresentam eficácia diagnóstica limitada uma vez que não diferenciam infecção recente de passada. A Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) tem sido aplicada em inquéritos epidemiológicos e desenvolvidos para uma futura aplicação na rotina. Já ouviu falar ou já adquiriu o “bicho geográfico”? O Ancylostoma caninum e Ancylostoma braziliense parasitam comumente o intestino delgado de cães e gatos, no entanto, acidentalmente podem infectar o homem. Nessas situações, as larvas do parasito (L3) penetram o tecido cutâneo do homem e migram sem completar seu ciclo biológico, causando a síndrome da Larva Migrans Cutânea, popularmente conhecida como “bicho geográfico”, devido ao aspecto da lesão que causa no paciente. Este tipo de infecção é frequentemente contraído em praias ou outros ambientescontaminados com fezes de cães e gatos infectados. 89WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 7. STRONGYLOIDES STERCORALIS - ESTRONGILOIDOSE O Strongyloides stercoralis, agente etiológico da estrongiloidose, é um parasito mundialmente distribuído, sendo encontrado com maior intensidade em países de clima tropical. Em indivíduos saudáveis, com o sistema imunológico íntegro, a doença geralmente é assintomática. No entanto, em pacientes imunocomprometidos, é responsável pela elevada morbidade e mortalidade, em consequência de um processo de autoinfecção, quando as larvasfilarióides s invadem maciçamente a parede intestinal, alcançando os pulmões (hiperinfecção), ou todo o organismo (estrongiloidose disseminada), contribuindo para a severidade desta hemintíase. 7.1 Morfologia O S. stercoralis apresenta morfologia variada, de acordo com a forma evolutiva em que se encontra em seu ciclo de vida direto e indireto, como: fêmea partenogenética, macho e fêmea de vida livre, ovos, larvas rabditoides e larvasfilarióides s (Figura 22). As fêmeas partenogenéticas, encontradas no intestino delgado do hospedeiro, possui corpo cilíndrico, filiforme e alongado, medindo cerca de 1,7 a 2,5 mm de comprimento. Apresenta uma cutícula fina, transparente. A fêmea é ovovivípara e elimina aproximadamente 30-40 ovos/ dia. O ovo eliminado já é larvado e a larva rabditoide eliminada no intestino do hospedeiro, geralmente, é a forma diagnosticada. Os ovos são elípticos, de parede fina e transparente, praticamente idênticos aos dos ancilostomídeos. Quando eliminado, já apresenta uma larva do tipo rabditoide no seu interior. Os ovos não são visualizados nas fezes (podem ser encontrados em casos excepcionais, como em indivíduos com diarreia grave ou após o uso de laxante), pois o parasito libera seus ovos na parede do intestino já embrionados, onde se rompem, eliminando as larvas rabditóides. As larvas rabditoides apresentam esôfago rabditóide, cutícula fina e hialina, medem de 0,2 a 0,3 mm de comprimento e apresentam vestíbulo bucal curto e primórdio genital visível. Estas características são importantes na diferenciação das larvas de S. stercoralis das larvas de ancilostomídeos. As larvas filarióides apresentam esôfago do tipo filarióide, longo, correspondendo à metade do comprimento da larva. Apresentam cutícula fina e hialina e medem de 0,35 a 0,50 mm de comprimento. Apresentam vestíbulo bucal curto e porção posterior afilada, terminando em uma cauda “entalhada” formada por duas pontas, a qual auxilia na diferenciação das larvas de S. stercoralis das larvas de ancilostomídeos. São a forma infectante do parasito, capazes de penetrar na pele e/ou nas mucosas. 90WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 22 - Representação esquemática das formas evolutivas de S. stercoralis. an:ânus; bo:boca; ca:cauda entalha- da; cl:cloaca; ep: espículo; es: esôfago; in: intestino; ov: ovário; pg: primórdio genital nítido; te: testículo; ut: útero; vb: vestíbulo bucal curto; vu: vulva. Fonte: Neves (2016). 7.2 Ciclo Biológico S. stercoralis apresenta uma complexa biologia com dois ciclos de vida distintos: o ciclo direto ou partenogenético, e o ciclo indireto, sexuado ou de vida livre, ambos monoxênicos (Figura 23) As fêmeas partenogenéticas que habitam o intestino, mergulhadas nas criptas da mucosa duodenal, principalmente nas glândulas de Lieberkühn e na porção superior do jejuno, fazem posturas eliminando ovos que eclodirão larvas rabditoides, ainda no intestino. As larvas rabditoides são eliminadas junto com as fezes do indivíduo parasitado e seguem duas vias: ciclo direto ou partenogenético – as larvas rabditoides, no solo, transformam-se em larvas filarióides s infectantes, em aproximadamente 24 a 72 horas; ciclo indireto, sexuado ou de vida livre – as larvas rabditoides sofrem transformações no solo e dão origem a machos e a fêmeas de vida livre. Os ovos originados da cópula desses parasitos apresentam larvas rabditoides que eclodem no solo e transformam-se em larvas filarióides s infectantes, podendo permanecer no solo, viáveis por cerca de quatro semanas. Os ciclos diretos e indiretos se completam pela penetração ativa das larvas filarióides pela pele ou mucosas. As larvas que alcançam a corrente sanguínea ou linfática seguem para o coração e pulmões. Chegam aos capilares pulmonares, onde se transformam em L4, atravessam a membrana alveolar e, por meio da migração pela árvore brônquica, chegam à faringe, podendo ser então expectoradas ou deglutidas, completando, assim, o ciclo pulmonar. As larvas que foram deglutidas chegam ao intestino delgado, onde se transformam em fêmeas partenogenéticas completando o ciclo biológico do parasito. 91WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 23 - Ciclo biológico do S. stercoralis. Observe a existência de um ciclo direto e de um ciclo indireto no solo, em que se desenvolvem adultos de vida livre. Autoinfecções interna e externa também são representadas. Fonte: Ferreira (2012). A transmissão da estrongiloidose ocorre por diversas vias: hetero ou primoinfecção – larvas filarióides penetram através da pele ou mucosas; autoinfecção externa ou exógena – larvas rabditoides presentes na região perianal de indivíduos infectados penetram pela mucosa e completam seu ciclo direto; autoinfecção interna ou endógena – larvas rabditoides, ainda na luz intestinal, transformam-se em larvas filarióides, que penetram na mucosa intestinal. Essa situação pode levar a uma cronificação da doença por meses ou anos. Ocorre com frequência em indivíduos com problemas de constipação intestinal, onde o retardo da eliminação das fezes faz com que ocorra a maturação das larvas. Ainda algumas situações peculiares, como uso de drogas imunossupressoras, radioterapia, transplantes, presença do vírus HIV, gravidez, alcoolismo crônico, idade avançada etc., podem contribuir para a autoinfecção interna. 7.3 Aspectos Clínicos e Patogenia Em baixas cargas parasitárias, os indivíduos são, geralmente, assintomáticos ou oligossintomáticos, mas isso não significa ausência de ação patogênica e lesões. Em cargas parasitárias mais elevadas e em indivíduos com carências nutricionais, alcoolismo crônico, com infecções associadas, com comprometimento da resposta imune e outras situações peculiares, formas mais graves podem ocorrer. As principais alterações observadas nessa parasitose estão relacionadas à ação mecânica, traumática, irritativa, tóxica e antigênica do parasito nas formas de fêmea partenogenética, larvas e ovos. Essas ações podem ser estudadas acompanhando a sua localização no hospedeiro. As alterações cutâneas, geralmente, são discretas, ocorrem nos pontos de penetração das larvas infectantes. Nos casos de reinfecção, ocorre a reação de hipersensibilidade com formação de edema, eritema, prurido, pápulas hemorrágicas e utricária. 92WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA As alterações pulmonares apresentam intensidade variável e ocorrem pelo processo migratório das larvas no interior dos capilares para os alvéolos, provocando hemorragia e processo inflamatório, que acompanha tosse com ou sem expectoração, febre, dispneia e crises asmáticas. Em casos mais graves, podem ser observados broncopneumonia, síndrome de Löeffler, edema pulmonar e insuficiência respiratória. No intestino, a presença do parasito pode provocar enterite catarral (reação inflamatória leve acompanhada de secreção mucoide); enterite edematosa (reação inflamatória com edema da submucosa, acompanha síndrome da má absorção intestinal de caráter reversível) e enterite ulcerosa (reação inflamatória com eosinofilia intensa, ulcerações, invasão bacteriana com substituição do tecido por tecido fibrótico, provocando alterações no peristaltismo – íleo paralítico).Os sintomas mais frequentemente observados são dor epigástrica, diarreia, náuseas, vômitos, síndrome disenteria com esteatorreia, desidratação, emagrecimento e comprometimento do estado geral do paciente, que pode muitas vezes ser fatal. A forma disseminada observada em pacientes infectados e imunossuprimidos, ocorre devido a fatores que favorecem a autoinfecção, gerando quadros de hiperinfecção, com grande produção de larvas rabditoides efilarióides s no intestino, às quais alcançam a circulação e se disseminam para outros órgãos como: rins, fígado, vesícula biliar, coração, cérebro, pâncreas etc. Esse quadro pode complicar-se com infecções bacterianas secundárias, uma vez que bactérias intestinais podem ser transportadas pelas larvas, para a circulação. Ocorrem dor abdominal, vômito, diarreia, pneumonia hemorrágica, broncopneumonia bacteriana, insuficiência respiratória e óbito. 7.4 Epidemiologia e profilaxia O geo-helminto S. stercoralis infecta aproximadamente de 30 a 100 milhões de pessoas no mundo, podendo também infectar cães, gatos e macacos, tornando-os importantes reservatórios para esta parasitose. No Brasil, um estudo, no período de 20 anos (1990 a 2009), utilizando métodos parasitológicos, revelou 5,5% de prevalência de S. stercoralis, o que confirma a hiperendemia no país. Os principais fatores epidemiológicos importantes para esta parasitose são: presença de fezes humanas ou de animais contaminando o solo; presença de larvas infectantes no solo; solo arenoso, argiloso, úmido, com ausência de luz solar direta; temperaturas entre 25-30ºC; condições sanitárias precárias; hábitos higiênicos precários; contato com alimento contaminado por água de irrigação contaminada com fezes e não utilização de calçados. As medidas profiláticas para estrongiloidíase são as preconizadas para as geo-helmintoses, ressaltando a atenção aos hábitos de higiene, principalmente hábito de usar calçados, lavagem adequada dos alimentos, educação e engenharia sanitária e melhoria da alimentação. Deve-se lembrar que o diagnóstico precoce e o tratamento dos indivíduos infectados são medidas de controle primordiais. Além disso, há a necessidade de diagnosticar e tratar os indivíduos que irão se submeter aos tratamentos imusossupressores, devido a elevada probabilidade de desenvolvimento de hiperinfecção ou disseminação da doença, o que pode ser fatal. 93WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 7.5 Diagnóstico Laboratorial O diagnóstico laboratorial parasitológico da estrongiloidose é realizado pela pesquisa de larvas rabditoides em fezes sem conservante pelos métodos de Baermann-Moares e Rugai. Estes métodos se baseiam em hidro e termotropismo das larvas. Ocasionalmente, podem ser vistas larvas filarióides s em fezes envelhecidas, em casos de ritmo intestinal lento, ou em fezes de indivíduos hiperinfectados. A identificação morfológica correta das larvas é fundamental pela semelhança com os ancilostomídeos. Atualmente, o método de coprocultura em placas de ágar, apesar de suas limitações, alcança a mais elevada positividade quando são utilizadas três amostras de fezes e é considerado o método de escolha para o diagnóstico parasitológica da estrongiloidose. Além disso, em consequência da disseminação do S. stercoralis pela circulação sistêmica, larvas podem ser encontradas em amostras de escarro e outros fluidos corporais, por meio do exame direto ou após centrifugação das amostras. Nos métodos imunológicos, na detecção de anticorpos, os testes sorológicos não podem distinguir infecções passadas de recentes. Apesar desta limitação, tem sido proposto o uso como screening em populações de risco, devido à baixa sensibilidade dos exames de fezes. Já a detecção de antígenos permite a diferenciação da doença em atividade ou infecção passada. As amostras utilizadas podem ser fezes (copoantígenos), soro e lavado broncoalveolar. A detecção de DNA de Strongyloides em amostras de fezes pela PCR pode ser uma alternativa para o diagnóstico, devido a sua alta sensibilidade e especificidade. 8. TRICHURIS TRICHIURA - TRICUROSE Na família Trichuridae, são encontradas espécies de interesse médico, representada principalmente pelo Trichuris trichiura, agente etiológico da tricurose. Apesar de o ser humano ser o principal hospedeiro do T. trichiura e o único hospedeiro relevante para a transmissão da infecção, existem relatos da infecção de porcos e de macacos por essa espécie. A tricurose, assim como a maioria das infecções causadas por geo-helmintos, é mais prevalente em regiões de clima quente e úmido e com condições sanitárias precárias. 8.1 Morfologia Os vermes adultos de T. trichiura são dioicos e apresentam forma típica semelhante a um chicote. Essa aparência é consequência do afilamento da região esofagiana, que compreende cerca de 2/3 do comprimento total do corpo, e do alargamento posterior, na região do intestino e dos órgãos genitais. O macho é menor (3 a 4,5 cm de comprimento) e possui a extremidade posterior curvada ventralmente. A fêmea mede 4 a 5 cm de comprimento e possui a região posterior retilínea (Figura 24) | 94WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 24 - A e B) Representa esquematicamente vermes adultos de T. trichiura; fêmea (A) e macho (B). C) três ovos recém-eliminados; D) ovo embrionado. Fonte: Ferreira (2012). Os ovos medem 50 µm de comprimento por 22 µm de largura, apresentam um formato elíptico, possuem a forma de um barril alongado, com polos salientes e transparentes em ambas as extremidades, preenchidos por material lipídico. A casca do ovo é formada por três camadas distintas, uma camada lipídica externa, uma camada quitinosa intermediária e uma camada vitelínica interna, que favorece a resistência desses ovos, no interior há uma massa de células germinativas que posteriormente, em condições ambientais adequadas, dará origem à larva L1 (Figuras 24 e 25). Figura 25 - Ovo recém eliminado de T. trichiura. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 95WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 8.2 Ciclo Biológico O T. trichiura possui um ciclo de vida do tipo monoxênico (Figura 26). Fêmeas e machos que habitam o intestino grosso se reproduzem e os ovos são eliminados para o meio externo com as fezes. A fêmea fecundada elimina de 3.000 a 20.000 ovos por dia. O embrião contido no ovo recém-eliminado se desenvolve no ambiente para se tornar infectante (3 semanas). Os ovos contendo a larva L1 são infectantes para o hospedeiro, sendo geralmente ingeridos por meio de alimentos e água contaminados. As larvas L1 eclodem por meio de um dos poros presentes nas extremidades do ovo, penetram preferencialmente nas criptas cecais. Durante este período as larvas sofrem mudas (quatro estágios larvais) e se desenvolvem em vermes adultos. O T. trichiura é considerado um parasito tissular, pois toda a região esofagiana do parasito penetra na camada epitelial da mucosa intestinal do hospedeiro, a porção posterior permanece exposta no lúmen intestinal, facilitando a reprodução e a eliminação dos ovos. Figura 26 - Ciclo biológico do T. trichiura. Fonte: Ferreira (2012). 8.3 Aspectos clínicos e patogenia A gravidade da tricurose depende principalmente da carga parasitária (distribuição dos vermes adultos no intestino), idade e estado nutricional do hospedeiro. Como não existe migração sistêmica das larvas, as principais lesões provocadas pelas larvas e pelos vermes adultos (a região anterior do parasito encontra-se mergulhada na mucosa intestinal) ocorrem no intestino. 96WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA A maioria dos pacientes com infecções leves é assintomática, a inflamação do ceco apresenta-se discreta e localizada, não produzindo sintomatologia expressiva. Pacientes com infecção moderada geralmente apresentamdores de cabeça, dor epigástrica e no baixo abdômen, diarreia, náuseas e vômitos em grau variado, que podem resultar em diminuição de ingestão de alimentos e aumento de perdas nutricionais, comprometendo o estado nutricional do hospedeiro. Normalmente o T. trichiura ocupa preferencialmente a mucosa da região do ceco do hospedeiro, entretanto, em infecções intensas, pode atingir todo intestino grosso, reto e ílio distal. Em infecções intensas, a inflamação da mucosa intestinal pode resultar em colite e em apendicite. O processo inflamatório pode ser particularmente intenso quando os vermes atingem o reto, sendo observado edema e intenso sangramento da mucosa local. A síndrome disentérica crônica é associada com as infecções intensas, caracterizando uma diarreia intermitente com presença abundante de muco, sangue, dor abdominal com tenesmo, desnutrição, perda de peso e, às vezes, prolapso retal (exteriorização do reto através do ânus). A reação edematosa, nas infecções intensas produzida pelo T. trichiura, produz um inchaço da mucosa retal, que provavelmente é responsável por iniciar o reflexo de defecação (tenesmo), mesmo na ausência de fezes no reto. O esforço continuado de defecação, associado a possíveis alterações nas terminações nervosas locais, pode resultar em prolapso retal, sendo possível observar os vermes aderidos na mucosa do ânus exteriorizado. O prolapso retal é relatado com maior frequência em crianças com infecções intensas. Como não ocorre comprometimento da musculatura pélvica, o prolapso retal produzido pelo T. trichiura é reversível após a eliminação dos vermes (tratamento) e a resolução da reação inflamatória local. No entanto, como comentado anteriormente, além da intensidade da infecção, a idade do hospedeiro e o estado nutricional também influenciam no desenvolvimento da sintomatologia, sendo relatado na literatura casos de crianças desnutridas com sintomatologia grave sem necessariamente ter uma infecção intensa e de adultos bem nutridos com infecções intensas, mas sem sintomatologia correspondente. 8.4 Epidemiologia e Profilaxia Estimativas de prevalência obtidas de levantamentos realizados a partir de 2010 indicam que 465 milhões de pessoas estejam infectadas por T. trichiura, das quais 72,2 milhões vivem na América Latina. As variações na prevalência são geralmente associadas ao nível de saneamento e às condições socioeconômicas e educacionais do local ou da população estudada. Áreas onde as condições ambientais, especialmente umidade e temperatura, com educação e saneamento precário e indisponibilidade de água potável, favorecem a contaminação do ambiente e sobrevivência do parasito. Estudos recentes de meta-análise de dados de geo-helmintoses, utilizando dados de 1995 a 2012, reportaram uma diminuição do risco de infecção por T. trichiura no Brasil partir de 2005. Entretanto as estimativas revelam cerca de 10% de prevalência de infecção pelo parasito no país, principalmente na região Norte e Nordeste. Assim como relatado para infecções por A. lumbricoides, a prevalência e a intensidade de infecção por T. trichiura são mais elevadas em crianças e diminuem nos adultos. As medidas profiláticas para o controle da tricurose são semelhantes às discutidas para controle da infecção por A. lumbricoides. 97WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 8.5 Diagnóstico Laboratorial O diagnóstico da tricurose é realizado pela demonstração dos ovos do parasito nas fezes do paciente. Como as fêmeas eliminam diariamente uma quantidade relativamente elevada de ovos por dia, não há necessidade, nos exames de rotina, de metodologia específica ou métodos de enriquecimento, bastando a técnica de sedimentação espontânea. O método que Kato-Katz é recomendado para estudos epidemiológicos, esta técnica permite quantificação do número de ovos e consequentemente estima o grau de parasitismo. 9. ENTEROBIUS VERMICULARES – ENTEROBIOSE O Enterobius vermicularis, pequeno nematoda da família Oxyuridae, é o agente etiológico da enterobiose ou oxiurose. Esta espécie possui distribuição geográfica mundial, com maior incidência nas regiões de clima temperado, atingindo principalmente a faixa etária de 5 a 15 anos, apesar de também parasitar adultos. 9.1 Morfologia Os vermes adultos de E. vermicularis são dioicos e apresentam um nítido dimorfismo sexual. No entanto, alguns caracteres são comuns aos dois sexos como: cor branca, filiformes e, na extremidade anterior, lateralmente à boca, possuem expansões vesiculosas, denominadas de “asas cefálicas”. A fêmea mede cerca de 1cm de comprimento por 0,4mm de diâmetro (geralmente maior do que o macho) e possui a cauda pontiaguda e longa. O macho mede cerca de 5 mm de comprimento por 0,2 mm de diâmetro e apresenta a cauda encurvada ventralmente, com um espículo presente (Figura 27). 98WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 27 - A) macho adulto e B) fêmea adulta de E. vermicularis. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). Os ovos de E. vermicularis medem cerca de 50µm x 20µm, apresentam o aspecto grosseiro de um D, pois um dos lados é levemente achatado e o outro é convexo. Possuem membrana dupla, lisa e transparente. No momento em que sai da fêmea, já apresenta uma larva no seu interior ainda em desenvolvimento (Figura 28). Figura 28 - Ovo de E. vermicularis. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). Para visualizar a morfologia do ovo de E. vermicularis, assista ao vídeo “Ovo de E. vermicularis com larva” disponível no site do YouTube link: <https://www.youtube. com/watch?v=W8Hxmlxu1Mk>. 99WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 9.2 Ciclo Biológico O ciclo biológico do E. vermicularis é do tipo monoxênico (Figura 29) e apresenta peculiaridades, as quais fazem com que seu ciclo seja diferente dos outros helmintos de importância em parasitologia humana. Após a cópula, os machos são eliminados com as fezes e morrem. As fêmeas, repletas de ovos (5 a 16 mil ovos), desprendem-se do ceco e dirigem-se para o ânus (principalmente à noite); as fêmeas rompem-se, por traumatismo ou por dessecamento, e eliminam os ovos na região perianal. Os ovos eliminados, já embrionados, tornam-se infectantes em poucas horas (4 a 6 horas, na temperatura da pele, 30°C). Os ovos quando ingeridos, chegam ao intestino delgado, as larvas rabditoides eclodem e sofrem duas mudas no trajeto intestinal até o ceco e transformam-se em vermes adultos. De um a dois meses depois, as fêmeas são encontradas na região perianal. Não havendo reinfecção, o parasitismo extingue-se (infecção autolimitante). Os principais mecanismos de transmissão que podem ocorrer na enterobiose são: heteroinfecção, quando ovos presentes na poeira ou nos alimentos atingem novo hospedeiro; autoinfecção externa ou direta, quando a criança (frequentemente) ou o adulto (raramente) levam os ovos da região perianal à boca – esse é o principal mecanismo responsável pela cronicidade dessa verminose; e retroinfecção, as larvas eclodem na região perianal (externamente), penetram pelo ânus e migram pelo intestino grosso, chegando até o ceco, onde se transformam em vermes adultos. Figura 29 - Ciclo biológico do E. vermicularis. Fonte: Ferreira (2012). 100WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 9.3 Aspectos Clínicos e Patogenia Nas baixas cargas parasitárias, o parasitismo passa despercebido pelo paciente, que só nota que alberga o verme quando sente prurido anal, principalmente à noite (logo após deitar- se), ou quando vê o verme nas fezes. Nestes casos, as lesões intestinais causadas pelos vermes, quando presentes, são mínimas, podendo haver erosões e discreta inflamação. No entanto, em infecções maiores, o ceco apresenta-se inflamado (ação mecânica e irritativa) e, às vezes, o apêndice também é atingido, instala-se uma colite crônica,com produção de fezes moles ou diarreicas, inapetência e emagrecimento. A sintomatologia mais frequente é o prurido anal. A mucosa local mostra-se congesta, recoberta de muco, contendo ovos e fêmeas inteiras. O ato de coçar a região anal pode lesar ainda mais o local, possibilitando infecção bacteriana, além de aumentar o risco de autoinfecção pela contaminação dos dedos, especialmente do leito subungueal. O prurido ainda provoca perda de sono e nervosismo, estes sintomas são mais intensos à noite, momento em que geralmente ocorre a migração do parasito para a região perianal. Excepcionalmente, é possível encontrar vermes adultos na cavidade uterina, nas trompas, na cavidade peritoneal e na bexiga urinária. 9.4 Epidemiologia e Profilaxia A enterobiose apresenta distribuição mundial, sendo o seu aspecto cosmopolita evidenciado pelos vários estudos epidemiológicos, os quais indicam prevalência significativa desta parasitose em diferentes localidades, climas e populações. E. vermicularis é o helminto intestinal mais comum em países desenvolvidos. As crianças são mais frequentemente infectadas do que os adultos, sendo a transmissão eminentemente doméstica ou de ambientes coletivos fechados (creches, asilos, enfermarias infantis etc.). Devido ao comportamento especial desse helminto, os métodos profiláticos recomendados são: a roupa de dormir e de cama usadas pelo hospedeiro não devem ser “sacudidas” pela manhã, mas sim enroladas e lavadas em água fervente, diariamente; devem ser tratados todas as pessoas parasitadas da família ou outra coletividade; cortar rente as unhas e lavagem frequente das mãos; tomar banho de chuveiro ao levantar-se; desestímulo ao ato de coçar a região perianal; fazer a limpeza doméstica com aspirador de pó e usar desinfetantes como medidas complementares. 9.5 Diagnóstico laboratorial O diagnóstico da enterobiose é realizado pelo encontro de ovos ou espécimes adultos do parasito. No entanto, devido às características biológicas do E. vermicularis, o método de escolha usado no diagnóstico difere das técnicas rotineiramente utilizadas na identificação de outros helmintos intestinais. Ao se considerar a sensibilidade, custos e exequibilidade, o método da fita adesiva ou de Graham é o mais adequado para o diagnóstico da enterobiose. Este método consiste no uso de uma fita adesiva, que é apoiada ao fundo de um tubo de ensaio com a parte colante voltada para fora, esta é encostado diversas vezes na região perianal do paciente. A fita adesiva é então colocada em lâmina e observada no microscópio para pesquisa de ovos e mais raramente de fêmeas presentes na região perianal. 101WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 10. WUCHERERIA BANCROFTI – FILARIOSE LINFÁTICA A filariose linfática no continente americano e na África é causada exclusivamente pela W. bancrofti, e devido a sua principal manifestação clínica na fase crônica é popularmente conhecida como elefantíase. A W. bancrofti infecta exclusivamente seres humanos, que são as fontes de infecção para a fêmea do mosquito Culex quinquefasciatus. 10.1 Morfologia As formas evolutivas que parasitam os seres humanos são os vermes adultos e as microfilárias. O estágio larvário se desenvolve no mosquito vetor. Os vermes adultos estão presentes nos vasos e gânglios linfáticos humanos, são dioicos, possuem o corpo delgado e branco leitoso. O macho é menor que a fêmea e mede cerca de 3,5 a 4 cm de comprimento, apresenta a extremidade anterior afilada e posterior enrolada ventralmente. A fêmea mede de 7 a 10 cm de comprimento. A microfilária se movimenta ativamente na corrente sanguínea do hospedeiro, mede cerca de 250 a 300µm de comprimento, possui uma bainha cuticular lisa que se encontra apoiada sobre numerosas células subcuticulares e células somáticas. A observação da bainha é importante como um dos critérios morfológicos para o diagnóstico diferencial das espécies de parasitos causadores das filarioses (Figura 30). Figura 30 - Microfilárias de W. bancrofti em gota espessa corada pelo Giemsa. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 10.2 Ciclo Biológico É do tipo heteroxênico (Figura 31). A fêmea do mosquito C. quinquefasciatus ingere as microfilárias durante seu repasto sanguíneo de hospedeiros infectados. As microfilárias perdem a bainha e originam larvas rabditoides, nos músculos torácicos do vetor. As larvasfilarióides s (L3), formas infectantes, surgem cerca de 20 dias depois. Movimentam-se ativamente pela cavidade geral do mosquito e alojam-se na probóscida do mosquito. 102WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Durante o repasto sanguíneo do vetor, as larvas L3 presentes em sua probóscida penetram ativamente, através da pele, e migram para os vasos linfáticos do novo hospedeiro. Meses depois, as larvas amadurecem e se transformam em vermes adultos. As fêmeas grávidas, após fecundadas, produzem as microfilárias que migram para a corrente circulatória do hospedeiro. Figura 31 - Ciclo biológico W. bancrofti. Fonte: Ferreira (2012). No hospedeiro definitivo, as microfilárias de W. bancrofti apresentam um padrão típico de periodicidade noturna, ou seja, as maiores contagens de microfilárias no sangue periférico do hospedeiro são detectadas entre as 22 h e 4 h. Esse pico de microfilárias no sangue periférico coincide com o horário preferencial de hematofagismo do inseto vetor, facilitando a propagação da infecção. 10.3 Aspectos Clínicos e Patogenia Considera-se um largo espectro de manifestações clínicas na filariose linfática, desde indivíduos assintomáticos até o desenvolvimento de formas irreversíveis como a elefantíase. As manifestações clínicas ocorrem devido a presença dos vermes adultos nos vasos linfáticos associada à resposta imune do hospedeiro contra as microfilárias e antígenos do parasito. As principais formas clínicas da filariose linfática são: assintomáticas, agudas, crônicas e eosinofilia pulmonar tropical. Os indivíduos assintomáticos não apresentam sintomatologia aparente, no entanto podem apresentar danos nos vasos linfáticos ou no sistema renal, merecendo atenção médica precoce. As manifestações agudas caracterizam-se por linfangite (inflamação dos vasos linfáticos), principalmente, dos membros e linfadenite (inflamação dos gânglios), associadas a febre e mal- estar, funiculite e orquiepididimite. 103WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA As manifestações crônicas são caracterizadas por linfedema (edema dos vasos linfáticos), hidrocele, quilúria (urina com aspecto leitoso) e elefantíase. Estas alterações geralmente se iniciam alguns anos após as manifestações agudas. A elefantíase geralmente acomete membros inferiores e escroto (Figura 32). Em geral, a sequência dos eventos que causam a elefantíase são: linfangite, linfadenite, linfangiectasia (dilatação e hipertrofia dos vasos linfáticos), linforragia, linfedema, esclerose da derme, hipertrofia da derme e aumento do volume do órgão, principalmente pernas, mamas e escroto. A eosinofilia pulmonar tropical é uma síndrome decorrente da resposta imunológica em excesso do hospedeiro a antígenos filariais, caracterizado por sintomas de asma brônquica, como tosse e falta de ar, sendo uma manifestação relativamente rara. ] Figura 32 - Elefantíase de membros inferiores (A) e do escroto (B). Fonte: Ferreira (2012). 10.4 Epidemiologia e Profilaxia A filariose linfática é, após a malária, a parasitose transmitida por vetores mais importante no mundo, devido à incapacidade física e perdas econômicas ocasionadas. Segundo a OMS, 112 milhões de pessoas estão infectadas pela W. bancrofti, em 73 países tropicais e subtropicais, sendo as principais áreas endêmicas localizadas na Ásia, África e ilhas ao oeste do Pacífico. Atualmente, no Brasil, a filariose linfática está em vias de eliminação, inclusive nas cidades de Recife, Olinda,Jabotão dos Guararapes e Paulista, consideradas como as últimas cidades endêmicas para esta parasitose no país. Assim, os principais fatores que interferem na epidemiologia da W. bancrofti são: presença do mosquito doméstico C. quinquefasciatus, conhecido popularmente como pernilongo e muriçoca; ser humano é o único hospedeiro definitivo; temperatura e umidade elevadas; pluviosidade mínima de 1300mm3 por ano; altitude baixa, tempo de residência em áreas endêmicas e taxa de infectividade do inseto vetor. A profilaxia da filariose baseia-se no tratamento do indivíduo parasitado, combate ao inseto vetor e melhoria sanitária. 104WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 10.5 Diagnóstico Laboratorial O diagnóstico parasitológico baseia-se na demonstração de microfilárias, ao exame microscópico de amostras de sangue periférico. A técnica da gota espessa corada com Giemsa é a mais utilizada. Devido a periodicidade deste parasito o ideal é que o sangue do paciente seja coletado à noite, entre 22 h e 24 h, para evitar falsos resultados negativos. Utilizam-se também métodos de concentração como a técnica de Knott, baseada em centrifugação, e a filtração de amostras de sangue venoso em membranas de policarbonato. Essas membranas são coradas com Giemsa e montadas em lâminas para o exame microscópico e pesquisa de microfilárias. Como nem sempre os indivíduos infectados têm microfilárias em seu sangue periférico, ou a parasitemia encontra-se muito baixa, a detecção de antígenos pode representar uma alternativa de maior sensibilidade. Existem produtos comercialmente disponíveis que consistem em um ensaio imunocromatográfico rápido em cartões impregnados com anticorpos monoclonais, que reagem contra antígenos do parasito. Uma vantagem desta técnica é que o sangue do paciente pode ser coletado durante o dia, além disso, um teste positivo indica infecção ativa, pois são revelados antígenos dos vermes adultos mesmo na ausência de microfilárias. 105WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, estudamos os principais helmintos de interesse médico, que afetam a saúde do homem. Muitos destes parasitos possuem uma distribuição mundial e desenvolvem enfermidades que são consideradas graves problemas de saúde pública. Portanto, o entendimento e reconhecimento da morfologia das principais formas evolutivas, ciclo biológico, patogenia (relação parasito-hospedeiro), manifestações clínicas, epidemiologia, profilaxia e diagnóstico laboratorial de cada helminto de interesse médico estudado, é de extrema importância para a formação do profissional biomédico. Na próxima unidade, serão estudados os principais artrópodes de interesse médico que causam doença nos seres humanos. Os artrópodes podem agir como vetores biológicos e/ou mecânicos, ou ainda causar doenças devido à infestação de alguma de suas formas evolutivas no corpo do hospedeiro. 106106WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 03 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................................... 108 1. CLASSE INSECTA ..................................................................................................................................................110 2. ORDEM HEMIPTERA ...........................................................................................................................................110 2.1 MORFOLOGIA EXTERNA .................................................................................................................................... 111 2.2 IDENTIFICAÇÃO DOS TRIATOMÍNEOS ............................................................................................................ 111 2.3 BIOLOGIA ............................................................................................................................................................112 2.4 PRINCIPAIS ESPÉCIES DE TRIATOMÍNEOS ...................................................................................................113 3. ORDEM DIPTERA .................................................................................................................................................114 3.1 FAMÍLIA PSYCHODIDAE E SUBFAMÍLIA PHLEBOTOMINAE ..........................................................................114 3.2 FAMÍLIA CULICIDAE ..........................................................................................................................................116 ARTROPODES DE INTERESSE MÉDICO PROF.A DRA. FABIANA NABARRO FERRAZ ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: PARASITOLOGIA CLÍNICA 107WWW.UNINGA.BR 3.3 FAMÍLIA MUSCIDAE .............................................................................................................................................120 3.4 MIÍASES .................................................................................................................................................................120 4. ORDEM PHTHIRAPTERA, SUBORDEM ANOPLURA ............................................................................................ 126 4.1 MORFOLOGIA ......................................................................................................................................................... 126 4.2 CICLO BIOLÓGICO ................................................................................................................................................. 127 4.3 TRANSMISSÃO E PREVALÊNCIA ........................................................................................................................ 127 4.4 ORDEM SIPHONAPTERA ......................................................................................................................................128 4.5 MORFOLOGIA ........................................................................................................................................................128 4.6 CICLO BIOLÓGICO ................................................................................................................................................ 129 4.7 PRINCIPAIS ESPÉCIES ......................................................................................................................................... 129 5. CLASSE ARACHNIDA .............................................................................................................................................. 131 5.1 SUBORDEM ACARI ................................................................................................................................................ 132 5.2 ORDEM IXODIDA ................................................................................................................................................... 132 5.3 ORDEM SARCOPTIFORMES ................................................................................................................................ 133 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................................................... 136 108WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Arthropoda significa pés articulados, é o filo que apresenta o maior número de indivíduos do reino animal, possuindo hoje mais de 1.500.000 espécies descritas. Os artrópodes apresentam o corpo segmentado, formado por um exoesqueleto de quitina. A existência de quitina rígida (exoesqueleto) impede o crescimento contínuo dos artrópodes; este crescimento é feito por meio de mudas ou ecdises, que são regulados por hormônios e outros processos endócrinos. Os apêndices locomotores ou alimentares são articulados e dispostos aos pares. O corpo é dividido em duas porções (cefalotórax e abdome, cabeça e tronco) outrês (cabeça, tórax e abdome). Internamente, apresentam uma cavidade geral (hemocele) cheia de líquido (hemolinfa) que banha os órgãos internos: os aparelhos respiratório, circulatório, nervoso, digestivo, excretor e reprodutor. Dentre as milhares de espécies de artrópodes, a grande maioria são consideradas úteis, devido a polinização, degradação de matéria orgânica, fornecimento de produtos para indústria alimentícia e farmacêutica, auxílio no controle de pragas, entre outros. Apenas cerca de pouco mais de cem espécies são consideradas nocivas ao ser humano (transmissão mecânica ou biológica de agentes patogênicos). Na parasitologia, a importância de vários artrópodes está relacionada à sua capacidade sinantrópica (capacidade de se adaptar e viver junto aos seres humanos) e ao fato de exercerem hematofagia em hospedeiros vertebrados. Essas ações fazem com que os artrópodes ajam como disseminadores de inúmeras doenças, inclusive de algumas parasitoses (Tabela 1). Os artrópodes podem agir como vetores biológicos e/ou mecânicos, ou ainda causar doença devido à infestação de alguma de suas formas evolutivas (ectoparasitos) no corpo do hospedeiro. Dentre todos os artrópodes conhecidos, a classe que apresenta maior número de espécies causando lesão ou transmitindo doenças aos humanos é a Insecta. Esta classe apresenta várias Ordens, das quais serão abordadas: Hemíptera (barbeiros e percevejos), Diptera (moscas e mosquitos), Phithiraptera (piolhos e chatos) e Siphonaptera (pulgas). Da Classe Arachnida serão abordados apenas a Ordem Acari (carrapatos e sarnas), que possui várias espécies de interesse médico – veterinário (Tabela 1). 109WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Tabela 1 - Principais grupos de Arthropoda de importância médica. Fonte: Neves (2016). Para mais informações sobre os Artrópodes, realizar a leitura da Parte 4 - ARTRÓPODES do livro texto: NEVES, D. P. Parasitologia humana. 13. ed. São Paulo: Atheneu, 2016. 110WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 1. CLASSE INSECTA É a classe que comporta o maior número de espécies do filo Arthropoda. Apresentam o corpo dividido em cabeça, tórax e abdome, possuem três pares de patas e podem ou não apresentar asas. Na cabeça, apresentam as seguintes estruturas: olhos – a maioria possui um par de olhos compostos e dois ou três olhos simples; antenas – são duas e apresentam forma e tamanhos variáveis (em algumas espécies são importantes para o dimorfismo sexual), além disso, possuem função sensorial; peças bucais – basicamente descrevem-se 3 tipos, mastigador (baratas), picador sugador (anofelinos, culicídeos, flebotomíneos, hemípteros...), lambedor (mosca doméstica). O tórax é formado por três metâmeros ou segmentos - protórax, mesotórax e metatórax. Cada segmento possui um par de pernas. Quando o inseto é alado, o par de asas anterior apoia-se no mesotórax e o posterior no metatórax. O abdome é formado pela união de oito a dez anéis, sendo o oitavo e o nono adaptados para a função reprodutora; o ânus abre-se no último segmento. Internamente apresentam os sistemas vitais que são: sistema digestivo, sistema respiratório, sistema circulatório, sistema reprodutor e sistema nervoso (Figura 1). Figura 1 - Organização externa geral dos insetos. Fonte: Ferreira (2012). A classe Insecta apresenta espécies que são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas, reciclando dejetos, controlando as populações de outros organismos e servindo como alimento. Apenas uma pequena parcela das espécies tem importância em saúde pública. Neste tópico serão estudadas as Ordens: Hemiptera, Diptera, Phithiraptera e Siphonaptera. 2. ORDEM HEMIPTERA São denominados de hemípteros os insetos que possuem o par de asas anteriores metade membranosa e metade coriácea. A ordem Hemiptera é muito numerosa e todos possuem o aparelho bucal especializado em sugar líquidos (sangue, hemolinfa ou seiva), duas famílias são as que possuem importância médica: Reduviidae (triatomíneos, barbeiros) e Cimicidae (percevejos), todas as espécies destas famílias alimentam-se de sangue humano e animal. Neste subtópico serão estudados especificamente a família Reduviidae (triatomíneos, barbeiros), estes assumem grande destaque por serem vetores do Trypanosoma cruzi e T. rangeli. 111WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 2.1 Morfologia Externa Os hemípteros são mais ou menos achatados, principalmente aqueles que vivem abrigados em fendas, como os “barbeiros” ou triatomíneos. O corpo apresenta variações morfológicas e cromáticas que ajudam a identificá-los. No abdome, na parte lateral, encontra-se o conexivo, de grande importância para a identificação das diferentes espécies de triatomíneos, devido às marcações com manchas claras e escuras. Os dois últimos segmentos do abdome compõem a genitália do macho e da fêmea. Nestas, a extremidade posterior, quando vista de cima, apresenta- se pontiaguda (ovipositor), enquanto nos machos ela é sempre uma linha contínua e regular (Figura 2). Figura 2 - Hemiptera detalhes da morfologia externa. Fonte: Neves (2016). 2.2 Identificação dos Triatomíneos Uma forma de se identificar os hemípteros hematófagos de importância na transmissão do T. cruzi é por meio da observação das características da probóscida. Nos hemípteros predadores e hematófagos a probóscida não ultrapassando o primeiro par de patas. Se essa probóscida é curva, trata-se de um predador (maioria das subfamílias de Reduviidae), e se é reta, de um triatomíneo hematófago, ou seja, triatomíneos transmissores do T. cruzi. Os hemípteros fitófagos apresentam a probóscida reta, constituída por quatro segmentos, sempre ultrapassando o primeiro par de patas (Figura 3). 112WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 3 - Características do aparelho bucal ou probóscida dos hemípteros. A) Hematófagos; b) Predadores e C) Fitófagos. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). Os triatomíneos hematófagos ou barbeiros pertencem a família Reduviidae e subfamília Triatominae e apresentam as seguintes características: cabeça alongada e mais ou menos fusiforme; pescoço nítido unindo a cabeça ao tórax; e probóscida reta e trissegmentada. Dentre os gêneros de maior importância epidemiológica, três se destacam e são facilmente identificáveis: Triatoma: possui cabeça alongada e antenas implantadas num ponto médio entre os olhos e a extremidade anterior da cabeça (clípeo); Rhodnius: possui cabeça alongada e delgada e antenas implantadas próximo ao clípeo; e Panstrongylus: possui cabeça robusta, curta e subtriangular e antenas implantadas próximas aos olhos (Figura 4). Figura 4 - Diferença morfológica dos hemípteros hematófagos (triatomíneos) pertencentes aos três gêneros de importância médica: Triatoma (A); Rhodnius (B); e Panstrongylus (C). Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 2.3 Biologia Todo triatomíneo hematófago só é capaz de evoluir e procriar realizando a hematofagia, desde a sua primeira fase de vida até adulto (tanto os machos como as fêmeas). São insetos de hábitos noturnos, durante o dia se escondem nos seus abrigos, mas à noite, enquanto o hospedeiro dorme, exercem o hematofagismo. Já os barbeiros, que vivem no peridomicílio ou em tocas de animais, podem voar até dentro de casa atraídos pela luz. Os triatomíneos são paurometábolos, ou seja, após a fase de ovo, passam por cinco fases imaturas (ninfas de primeiro a quinto estágio) antes de atingir o estágio adulto. Entre uma fase e outra, os triatomíneos precisam se alimentar de sangue. Nos estádios mais jovens (até terceiro estágio), um único repasto pode garantir a muda; a partir do quarto estágio, o inseto se alimenta mais de uma vez para obter o sangue necessário ao seu metabolismo. Naturalmente este fato tem importância epidemiológica, uma vez que, quanto maisrepastos ele realiza, mais aumenta a chance do inseto se infectar ou transmitir o T. cruzi. 113WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 2.4 Principais Espécies de Triatomíneos No Brasil, as espécies vetores mais importantes do T. cruzi são: Triatoma infestans, Panstrongylus megistus e Triatoma brasiliensis. São vetores secundários Triatoma rubrofasciata, Triatoma pseudomaculata e Triatoma sordida. No norte da América do Sul e em diversos países da América Central, Rhodnius prolixus é o principal vetor da doença de Chagas. O Triatoma infestans possui tamanho médio, variando o comprimento de 21-26 mm no macho e 26-29 mm na fêmea, cor negra ou marrom-escuro com marcações amarelo-pálido no cório, conexivo e patas. É o principal vetor do T. cruzi em grande parte da América do Sul. É uma espécie bem adaptada ao domicílio humano, encontrada particularmente nas frestas das paredes de casas não rebocadas. Em casas infestadas, geralmente são encontradas grandes quantidades de ovos, ninfas e adultos; como as ninfas e os adultos são suscetíveis à ação de diversos inseticidas, a borrifação dos domicílios com inseticidas de ação residual tem grande impacto sobre a população de vetores. Com o programa de controle vetorial, o Triatoma infestans foi eliminado de amplas áreas de nosso país, tendo sido declarada pela Organização Pan-americana de Saúde interrompida a transmissão por este vetor em 2006. O Panstrongylus megistus é uma espécie grande, medindo os machos de 26-34 mm e as fêmeas 29-38 mm, possui cor negra com machas avermelhadas no pescoço, pronoto, escutelo, cório e conexivo. É uma espécie de grande importância na transmissão da doença de Chagas ao homem no Brasil, sem, no entanto, produzir colônias tão grandes como as de T. infestans. Em Minas Gerais, Bahia, Alagoas e Pernambuco é a principal espécie autóctone transmissora. No entanto, é uma espécie pouco domiciliada no Sul do país, onde não parece desempenhar um papel importante no ciclo doméstico da doença de Chagas O T. brasiliensis possui porte médio, medindo os machos 22-25 mm e as fêmeas 23-26 mm, cor variando de marrom-escuro a negro, com manchas claras (geralmente amareladas) subtriangulares ou retangulares no conexivo. É considerado um importante vetor primário da doença de Chagas no sertão nordestino, onde é frequentemente o único triatomíneo encontrado no interior dos domicílios humanos. Figura 5 - Principais espécies de triatomíneo. (1) Triatoma infestans; (2) Triatoma brasiliensis; (3) Panstrongylus megistus (5) Panstrongylus geniculatus; (6) Rhodnius neglectus. Fonte: Neves (2016). 114WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Os principais métodos indicados para controle dos triatomíneos é a aplicação de inseticidas de ação residual nos focos do vetor presentes nas construções humanas, a melhoria habitacional e a educação em saúde. 3. ORDEM DIPTERA Pertencem a esta ordem os insetos que, na forma adulta, possuem um par de asas funcionais e um par de asas vestigiais - os alteres ou balancins. O ciclo de vida é do tipo holometabólica, isto é, passam pelas fases de ovo, larva, pupa e adultos. É uma das maiores ordens de insetos, com cerca de 100 famílias descritas e 85.000 espécies conhecidas. A importância médica deste grupo de artrópodes é maior que a de qualquer outro, entre os dípteros encontram-se hospedeiros intermediários e transmissores de doenças causadas por vírus (febre amarela, dengue, chikungunya, zika etc.), protozoários (Leishmaniose, malária, etc.) e helmintos (filariose linfática). Além disso, os dípteros são vetores mecânicos (mosca doméstica) ou causam lesões na fase larvária (miíases). 3.1 Família Psychodidae e Subfamília Phlebotominae Nesta subfamília estão presentes os insetos transmissores das leishmanioses (cutânea, mucosa e visceral), os flebotomíneos, popularmente conhecidos como: asa branca, birigui, mosquito-palha e tatuquira. Os flebotomíneos são considerados insetos pequenos, 2 a 4 mm, cor amarela ou castanho clara e possuem o corpo densamente piloso. O corpo é dividido em: • Cabeça: menor que o tórax (fortemente fletida para baixo, formando um ângulo de 90° com o eixo longitudinal do tórax), olhos proeminentes, antenas longas e pilosas nos 2 sexos, aparelho bucal picador sugador. • Tórax: pernas finas e longas, asas em forma de ponta de lança, quando em repouso permanecem abertas e em pé. • Abdome: é formado por dez segmentos, com os três últimos modificados para formar a genitália externa, nos machos é bifurcada e na fêmea ligeiramente arredondada (Figura 6). 115WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 6 - Flebotomíneos adultos. A) Macho e B) Fêmea. Fonte: Neves (2016). O ciclo de vida dos flebotomíneos é do tipo holometabólico (Figura 7). As fêmeas depositam os ovos em matéria orgânica úmida, cerca de 6-8 dias nascem as larvas, que após 20 dias se transformam em pupas e estas, 10 dias depois, liberam as formas adultas que vivem cerca de 20 dias. A fecundação da fêmea pode ocorrer antes ou depois do repasto sanguíneo. O sague é fonte de proteínas, necessários ao desenvolvimento dos ovos. A fêmea geralmente exerce o hematofagismo ao crepúsculo ou à noite. Durante o dia ficam em lugares sombrios e úmidos, protegidos do vento. Figura 7 - Principais características morfológicas dos flebotomíneos vetores da leishmaniose. Vale observar, no adulto, a cabeça fortemente fletida e as asas lanceoladas. Fonte: Ferreira (2012). Os principais gêneros de flebotomíneos do Novo Mundo (Américas) são, Brumptomyia, Lutzomyia e Warileya. Destes três gêneros, apenas o Lutzomyia apresenta numerosas espécies transmissoras de leishmaniose nas Américas. As principais espécies são, L. longipalpis (principal transmissor do agente etiológico da leishmaniose visceral), L. whitmani, L. pessoai, L. wellcomei, L. intermedia, L. fluviscutellata, entre outros (principais transmissores dos agentes etiológicos da leishmaniose tegumentar). 116WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 3.2 Família Culicidae A família Culicidae (latim culex = mosquitos) apresenta grande interesse em parasitologia médica, nela encontrarmos o maior número e os mais importantes insetos hematófagos, que podem transmitir doenças, como vírus (dengue, febre amarela e encefalites), protozoários (malária) e helmintos (filariose). Popularmente são conhecidos por mosquitos, pernilongos, muriçocas, mossorongos, sovelas, mosquitos-prego, entre outros. Os insetos adultos medem cerca de 3-6 mm de comprimento, possuem antenas com 15 a 16 segmentos, plumosa no macho e pilosa na fêmea; as fêmeas apresentam aparelho bucal picador (sugador pungitivo) e machos do tipo sifonadores-sugadores; palpos nítidos, com tamanho variável nas várias tribos e espécies; tórax, pernas (longas), asas e abdome revestidos de escamas. Os mosquitos também são holometábolos, isto é, passam pelas fases de ovo, larva (quatro estágios = L1, L2, L3 e L4), pupa e adultos. O número de ovos que a fêmea ovipõe é bastante variável para cada espécie, mas usualmente uma fêmea ovipõe de 100 a 300 ovos por postura, esta é sempre feita após o repasto sanguíneo. A oviposição pode ser feita de maneiras variáveis: isolados sobre a água. Ex.: Anopheles sp; isolados e fora d’água, na parede do recipiente. Ex.: Aedes aegvpti e; unidos, formando “jangada” sobre a água. Ex: Culex quinquefasciatus. Os ovos, após um período médio de dois a quatro dias, em temperatura média de 26ºC, dão origem as larvas. Estas movimentam-se ativamente e se alimentam constantemente de plâncton. Após um período variável de 10-20 dias, a larva de quarto estágio transforma-se em pupa. Esta não se alimenta, mas respira e movimenta-se ativamente. Permanece nesta fase por um período de um a três dias, dando então liberdade ao adulto. As fêmeaspodem copular com poucas horas de vida, enquanto os machos somente após 24 horas. Após a cópula, a fêmea alimenta-se de sangue uma ou mais vezes e vai fazer a postura dos ovos. Os criadouros podem ser permanentes ou temporário, naturais ou artificiais e, ainda, no solo ou em recipientes. Assim, podemos ter os mais variados tipos: lagoas, remansos de rios, pantanais, açudes, represas, cisternas, cacimbas, buracos de árvores, internódios de bambus, cascas de frutas, axilas de Bromeliaceae, caixas d’água, latas e pneus velhos etc. De modo geral, a hematofagia é crepuscular, mas algumas espécies podem fazê-lo preferentemente durante a noite (noturnos), outros durante o dia (diurnos) ou, ainda, tanto de dia como de noite. Há também espécies que só sugam dentro de casa (domésticos), outros fora de casa (silvestres), ou indiferentemente. Fora do horário de atividade alimentar e sexual, os mosquitos permanecem nos abrigos. De modo geral, os culicídeos voam bastante e apresentam boa capacidade de dispersão. Atualmente a família Culicidae apresenta apenas duas subfamílias: Anophelinae e Culicinae. A subfamília Culicineae possui somente a tribo Anophelini, enquanto que a subfamília Culicinae apresenta as tribos Culicini, Aedini, Mansoniini, Sabethini e Toxorhynchitini. As Figuras 8 e 9 e a Tabela 2 demonstram os detalhes para identificação dos sexos, subfamílias Anophelinae e Culicinae e suas tribos. 117WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 8 - Cabeças de Culicidae (A) fêmea de Culicinae; (B) macho de Culicinae; (C) fêmea de Anophelinae; (D) macho de Anophelinae. Fonte: Neves (2016). Figura 9 - As várias fases de desenvolvimento da família Culicidae e as diferenças entre as tribos Anophelini, Culi- cini e Aedini. Fonte: Neves (2016). 118WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Tabela 2 - Principais diferenças entre as subfamílias Anophelinae e Culicinae. Fonte: Neves (2016). As principais espécies transmissoras de malária são: Anopheles (Nyssorhynchus) darlingi, Anopheles (Nyssorhynchus) aquasalis, Anopheles (Nyssorhynchus) albitarsis, Anopheles (Kerteszia) cruzii e Anopheles (Kerteszia) bellator. Anopheles (Nyssorhynchus) darlingi é a mais importante espécie transmissora de malária no Brasil e o anophelino mais frequente no domicílio. Isto é devido a sua acentuada antropofilia, domesticidade, suscetibilidade ao plasmódio e densidade (número de exemplares). Pode picar fora das habitações, mas prefere fazê-lo dentro e principalmente aos crepúsculos vespertino e matutino. Tem como criadouros grandes coleções de água (represas e remansos de rios), desde que sejam límpidas e ensolaradas ou parcialmente sombreadas. É encontrado desde o México até a Argentina. No Brasil, é visto em todos os Estados, com exceção do Nordeste A principal espécie transmissora da filariose bancroftiana é o Culex quinquefasciatus. Este mosquito é altamente antropofílico, de hábitos hematofágicos noturnos, presente nos trópicos de todo o mundo, e o maior perturbador do repouso noturno humano em nosso país. Seu hábito hematofágico noturno e sua predileção pelo sangue do homem facilitam muito o contato das microfilárias com este mosquito, tornando-o mais eficiente que outros mosquitos suscetíveis. Pica só dentro de casa e durante a noite. Tem como criadouros água paradas, altamente poluídas por matéria orgânica, de aspecto sujo e malcheiroso. A principal espécie transmissora de febre amarela urbana, Dengue, Chikungunya e Zika vírus no Brasil é o Aedes aegypti. As fêmeas realizam a oviposição na parede de qualquer recipiente, próximo do nível da água. Os ovos são muito resistentes a dessecação, podendo permanecer viáveis por mais de um ano. Em nosso país, as fêmeas têm como criadouros preferenciais os mais variados recipientes de água domiciliares e peridomiciliares como: pneus sem uso, latas, pratos com vasos de samambaia, caixas d’água descobertas, piscinas sem uso etc. A hematofagia e cópula são diurnas. Exercem a hematofagia, tanto dentro como fora das casas, principalmente entre 7 e 10 horas e depois entre 16 e 19 horas. Morfologicamente o Ae. aegypti é facilmente reconhecido como um mosquito rajado, que possui cor escura, com manchas brancas pelo corpo e presença no dorso de um desenho em forma de lira (Figura 10). 119WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 10 - Esquema do Ae. aegypti. Fonte: Neves (2016). O controle dos culicídeos, como de quase todos os insetos, é ainda um problema. Estes são mosquitos de grande plasticidade genética, o que faz com que estes adquiram rapidamente resistência aos inseticidas usados inadequadamente. O controle dos culicídeos pode ser feito nas fases de larva e adultos, como ocorre frequentemente nas campanhas contra a Dengue. Assim, para entender melhor as diferentes formas de controle dos insetos, leia o Capítulo 53 – Controle de insetos, do livro texto: NEVES, D. P. Parasitologia humana. 13. ed. São Paulo: Atheneu, 2016. Para entender melhor o ciclo biológico do Ae. Aegypti, assista ao vídeo “DENGUE: o ciclo de vida do Aedes aegypti” disponível no site do YouTube. Acesse: <https:// www.youtube.com/watch?v=DIL5ZKgQ69M >. 120WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 3.3 Família Muscidae Nesta família, encontramos dípteros de tamanho médio, em geral de cor escura, com pequenos ornamentos no mesonoto e abdome, peças bucais lambedoras ou picadoras, sendo machos e fêmeas dicópticos (olhos grandes e separados), porém as fêmeas apresentam maior afastamento entre os olhos. Esta família é subdividida em duas subfamílias, conforme o aspecto do aparelho bucal: Muscinae, compreendem moscas com aparelho bucal lambedor; apresenta numerosas espécies, como a Musca domestica e Stomoxydinae, compreendem moscas com aparelho bucal picador- sugador, são espécies importantes: Stomoxys calcitrans, Haematobia irritans e Glossina palpalis. A M. domestica possui distribuição geográfica mundial, com alto índice de sinantropia, ou seja, é um frequentador constante de residências, em ambientes urbanos ou rurais. Invade também chiqueiros, galinheiros, currais etc. Aliás, o número desta espécie é muito dependente das condições sanitárias, ocorrendo milhares delas quando há deficiência no serviço de coleta de lixo urbano ou tratamento do esterco dos animais. M. domestica mede cerca de 6 a 8 mm, tendo cor geral acinzentada com quatro faixas longitudinais negras no mesonoto. Probóscida robusta, do tipo lambedor; arista plumosa, com cerdas. Como todo Diptera, a mosca é holometábola e depositam seus ovos em qualquer matéria orgânica fermentável, como lixo, fezes etc., cuja fermentação produz uma elevação da temperatura do substrato Os mecanismos pelos quais as moscas veiculam patógenos são: pela regurgitação alimentar (alimenta-se em fezes, feridas ou animais mortos e, depois, deposita a saliva contaminada sobre o alimento humano) e pela veiculação mecânica de patógenos aderidos as patas e cerdas do corpo. S. calcitrans é popularmente conhecida como «mosca dos estábulos». Esta espécie se assemelha muito a M. domestica, diferindo dela por possuir a probóscida rígida, adaptada para a hematofagia (machos e fêmeas); arista apenas com cerdas dorsais; abdome com três manchas escuras, dorsais; raramente invade os domicílios; tem como criadouros preferenciais fezes de equino ou de bovino e “cama” de galinheiro de granjas umedecida. A S. calcitrans é hospedeira intermediária de alguns helmintos de animais domésticos (Setaria, Habronema), transmite mecanicamente o Trypanosoma evansi, o Bacillus anthracis, pode veicular ovos de Dermatobia hominis etc. No entanto é sua hematofagia que realmente é grave. A introdução da probóscida na pele é bastante dolorosa e o traumatismo provocado pelas picadas sucessivas e próximas causa feridasenormes nas pernas, no corpo e nas orelhas dos animais, causando prejuízos aos criadores. O controle das moscas não é de fácil realização, em geral, as medidas de controle só são realizadas quando a população alcança um número elevado, capaz de provocar distúrbios ou transmitir doenças. As principais medidas de controle são: correto sistema de coleta e tratamento de lixo, recolher o esterco de animais, emprego de inseticidas (em casos de surtos, pois as moscas rapidamente desenvolvem resistência) e controle biológico, por meio do uso de patógenos capazes de matar pupas e adultos de moscas. 3.4 Miíases Miíase é a infestação de vertebrados vivos por larvas de moscas que, pelo menos durante certo período, se alimentam dos tecidos vivos ou mortos do hospedeiro, de suas substâncias corporais líquidas ou do alimento por ele ingerido. Dessa forma, larvas de moscas que completam seu ciclo, ou pelo menos parte do seu desenvolvimento normal dentro ou sobre o corpo de um hospedeiro vertebrado podem ser classificadas como causadoras de miíases. 121WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Atualmente as miíases são classificadas com base nas características biológicas da mosca, assim temos: as míiases obrigatórias, também conhecidas por miíases primárias. São as miíases causadas por larvas de dípteros que naturalmente se desenvolvem sobre ou dentro de vertebrados vivos; as míiases facultativas, também conhecidas por miíases secundárias. São as miíases causadas por larvas de dípteros que em geral desenvolvem-se em matéria orgânica em decomposição (vida livre), mas eventualmente podem atingir tecidos necrosados em um hospedeiro vivo; e as pseudomíiases que são as ocasionadas por larvas de dípteros ingeridos com alimentos e que passam pelo tubo digestivo sem se desenvolver, mas podendo ocasionar distúrbios. Quanto à localização, as miíases podem ser cutâneas ou cavitárias. As miíases cavitárias podem ser auriculares, nasofaríngeas, urogenitais, oftálmicas etc. As miíases primárias mais nocivas ao ser humano nas Américas são causadas por larvas de Dermatobia hominis e Cochliomyia hominivorax. Estão associadas a ambientes rurais, mas podem ocorrer em áreas urbanas. As principais moscas causadoras de miíases que serão abordadas neste tópico são: D. hominis, C. hominivorax, C. macellaria, Chrysomya e família Sarcophagidae A D. hominis, mosca causadora de miíase obrigatória, é popularmente conhecida como mosca-berneira. Ocorre desde o México até a Argentina. No Brasil, é vista em todos os estados, com exceção das áreas secas do Nordeste. É uma mosca robusta, que mede cerca de 12 mm de comprimento, os adultos possuem aparelho bucal atrofiado (não-funcional). A cabeça apresenta a parte superior e os olhos marrons. Tórax cinza-amarronzado, com manchas longitudinais, indistintas e de cor escura. Abdome azul-metálico. Asas grandes e castanhas (Figura 11). Figura 11 - Mosca do berne, D. hominis. Fonte: Ferreira (2012). A larva adulta de D. hominis, conhecida popularmente como berne, mede cerca de 2 cm de comprimento por 0,5 cm de diâmetro. Tem a forma grosseira de um pingo d’água, sendo que na parte mais afilada, estão situados os espiráculos respiratórios, e na porção mais volumosa, mergulhada nos tecidos, estão as peças bucais, além disso, as larvas apresenta o corpo com várias fileiras de espinhos curvos (Figura 12). 122WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 12 - Larva adulta (berne) de D. hominis. Fonte: Ferreira (2012). No ciclo de vida da D. hominis, os adultos não se alimentam. Logo após o nascimento, ocorre a cópula. A fêmea, estando fecundada, fica em locais protegidos, onde também se abrigam vários insetos hematófagos. A mosca-berneira captura um inseto hematófago e lhe deposita sobre o abdome os ovos. Cerca de seis dias depois, esses ovos já estão maduros e, quando o inseto vai realizar o hematofagismo, estimulado pelo calor do homem (ou animal), a larva sai rapidamente do ovo e penetra a pele do hospedeiro (cada lesão corresponde a uma larva). No tecido, alimentar-se ativamente e após sofrer duas ecdises (40 ou 60 dias), abandona o hospedeiro e cai no chão. Enterra-se na terra fofa, transforma-se em pupa e permanece nesta fase por 30 dias e então abandona o pupário (Figura 13). Figura 13 - Ciclo biológico de D. hominis. Fonte: Ferreira (2012). 123WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA No ser humano, as larvas de D. hominis causam miíase do tipo dérmico furuncular, geralmente em membros superiores e inferiores, costas e o couro cabeludo. Descreveram-se na literatura científica casos de miíase vaginal, oftalmiíase, rinomiíase e miíase cerebral por D. hominis. A penetração na pele causa prurido, mas pode passar despercebida. Estabelece-se uma reação inflamatória inicial como um furúnculo, com secreção serossanguinolenta ou purulenta. O tratamento desta miíase ocorre pela retirada da larva. Deve-se matar o berne antes de tentar retirá-lo. Estando vivo, a larva mantém os seus espinhos firmemente aderidos aos tecidos do hospedeiro, dificultando sua retirada. A melhor maneira de retirá-lo é matando-o por asfixia, obstruindo o orifício onde ele se localiza, com um esparadrapo. Após a morte da larva (aproximadamente 1 h), retirar o esparadrapo e com ligeira compressão, a larva consegue ser removida. C. hominivorax, mosca causadora de miíase obrigatória, é popularmente conhecida como mosca-varejeira. É a mais importante mosca causadora de miíase primária, desde o sul dos EUA até o norte do Chile e Argentina. É uma mosca robusta, medindo cerca de 8 mm de comprimento. Possui cor verde, com reflexos azul-metálico em todo o tórax e abdome; o mesonoto apresenta três faixas negras longitudinais (Figura 14). Figura 14 - Adulto de C. hominivorax. Fonte: UFRGS (2019, on-line). As larvas de C. hominivorax possuem cor branco-amarelada, as traqueias são bem pigmentadas até ao nível do terceiro ou quarto segmento larvar (Figura 15). 124WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 15 - Larva de C. hominivorax, observe a seta mostrando a traqueia pigmentada até o terceiro segmento da larva. Fonte: Gealh et al. (2009). No ciclo de vida da C. hominivorax, os adultos só copulam uma vez, cinco dias após o nascimento. Após a cópula, iniciam a postura nas aberturas naturais do corpo (narinas, vulva, ânus) ou em alguma solução de continuidade da pele (feridas recentes, incisão cirúrgica etc.). Põem de 10 a 300 ovos em cada local, aglomerados uns aos outros. O período de incubação é de cerca de 12 a 20 horas; após a eclosão, as larvas se nutrem vorazmente de tecidos vivos, formando bicheiras extensas que exalam odor atrativo para outras varejeiras. Com o acúmulo de larvas infestantes, a lesão amplia-se. Quatro a oito dias após, as larvas já estão maduras (sofrem duas mudas). Espontaneamente caem no solo, e transformam-se em pupas, cerca de oito dias após, dão liberdade aos adultos. As larvas produtoras de miíases secundárias ou facultativas são menos agressivas, pois não se alimentam de tecidos vivos. As lesões restringem-se às áreas necrosadas dos ferimentos. A C. macellaria, mosca causadora de miíase facultativa, é muito semelhante a espécie anterior, sendo um pouco menor. Pode ser diferenciada da C. hominivorax pelos seguintes detalhes: as moscas adultas possuem o esclerito na base da asa de cor clara; as larvas maduras possuem a traqueia com pigmentação até a metade do primeiro segmento larvar; e são encontradas em tecidos necrosados ou cadáveres. O ciclo de vida é semelhante a espécie anterior, mas a oviposição só é feita em feridas necrosadas ou cadáver. Moscas do gênero Chrysomya são causadoras de miíase facultativa. As formas adultas são robustas, com aproximadamente 8 mm de comprimento, de cor metálica, variando desdeo verde-brilhante com tons amarelados até o azulado. Apresenta duas faixas transversais escuras no mesonoto e três no dorso do abdome. Quatro espécies do gênero se estabeleceram no Novo Mundo: Chrysomya putoria, C. megacephala, C. albiceps e C. rufifacies. As moscas da Família Sarcophagidae, causadoras de miíase facultativa, medem cerca de 6 a 10 mm (ou mais) de comprimento. Apresentam cor acinzentada, sendo que o mesonoto possui três faixas negras longitudinais e abdome axadrezado (Figura 16). 125WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 16 - Adulto da família Sarcophagidae. Fonte: UFRGS (2019, on-line). Os Sarcophagidae desenvolvem-se geralmente a partir de larvas, e não de ovos, as fêmeas são larvíporas. Preferem depositar as larvas em cadáveres, matéria orgânica vegetal em decomposição, fezes etc., mas podem fazê-lo em feridas necrosadas. As larvas invadem os tecidos e alimentam-se vorazmente, cerca de dez dias já estão maduras. Caem no chão para puparem, os adultos emergem em cerca de 10 a 15 dias. Você já ouviu falar em terapia larval? Feridas necrosadas e infectadas têm seu processo de cicatrização acelerado quando infestadas por larvas de determinadas espécies de moscas. O mecanismo pelo qual as larvas atuam pode ser resumido como remoção mecânica de bactérias causada pelo aumento do exsudato seroso produzido pelo efeito irritativo das larvas sobre o tecido sadio; proliferação rápida do tecido de granulação resultante do estímulo constante, produzido pela movimentação das larvas sobre o tecido sadio; liquefação enzimática do tecido necrosado; destruição de bactérias no tubo digestivo das larvas; presença de alantoína, uma substância antibacteriana produzida pelas larvas; alcalinização do meio, devido à liberação de amônia e carbonato de cálcio pelas larvas, o que inibe a proliferação bacteriana. Para esse tipo de terapia, três espécies são as mais comumente utilizadas: Lucilia sericata, Lucilia ilustris e Phormia regina. 126WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 4. ORDEM PHTHIRAPTERA, SUBORDEM ANOPLURA Na subordem Anoplura, encontramos os insetos popularmente conhecidos como piolhos, são hematófagos (aparelho bucal sugador-pungitivo) e parasitos exclusivo de mamíferos. Essa subordem possui cerca de 532 espécies distribuídas em 15 famílias, das quais apenas duas apresentam espécies que parasitam o homem, a família Pediculidae, com as espécies Pediculus capitis - o piolho da cabeça e Pediculus humanus - o piolho do corpo; e a família Pthiridae, com a espécie Pthirus pubis – piolho da região pubiana, vulgarmente conhecida como “chato”. Chama-se pediculose a infestação por piolhos, podendo ser, pediculose do couro cabeludo e pediculose do corpo. A infestação por “chatos” é denominada pitiríase ou pitirose. Elas são caracterizadas por prurido, irritação da pele ou do couro cabeludo e infecções estafilocócicas secundárias (impetigo). Nestes casos, a picada do inseto ocasiona uma dermatite, causada pela reação do hospedeiro a saliva injetada ao início da hematofagia. O prurido leva o paciente a arranhar a pele, abrindo a porta de entrada para patógenos, ocasionando as infecções secundárias. Além do prurido intenso, esses insetos podem veicular o tifo exantemático (Rickettsia prowazeki), a febre das trincheiras (Bartonella quintana = Rochalimaea quintana) e a febre recorrente (Borrelia recurrentis). 4.1 Morfologia Estes ectoparasitos são pequenos, sem asas (ápteros) e possui o corpo achatado dorsoventralmente. A cabeça é mais estreita que o tórax e as antenas curtas, constituídas de cinco segmentos, na maioria das espécies. O aparelho bucal, é do tipo picador-sugador e posiciona-se na região anterior da cabeça. As pernas são fortes e possuem também uma forte garra em forma de pinça, com a qual o inseto fica firmemente “abraçado” ao pelo. A extremidade posterior é bifurcada nas fêmeas e arredondada nos machos (Figura 17). À medida que as fêmeas vão fazendo a postura, os ovos (lêndeas) aderem aos pelos ou fibras de roupas por um cimento secretado. As lêndeas são ovais (0,8 mm × 0,3 mm), branco-amareladas, com opérculo. Figura 17 - A) P. humanus (piolho do corpo) fêmea. B) P. capitis (piolho da cabeça) fêmea. C) P. capitis (piolho da cabeça) macho. Fonte: Ferreira (2012). 127WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Em Pediculus, o corpo é aproximadamente 2-3 vezes mais longo do que largo e os três pares de pernas são de mesmo comprimento e largura, diferente do Pithirus em que o corpo é pouco mais longo do que largo (1,5 vezes, assemelhando-se a um caranguejo) e o primeiro par de pernas é mais curto e estreito em relação aos posteriores (Figura 18). Figura 18 - A) P. humanus (piolho do corpo) fêmea. B) P. pubis (piolho da região pubiana) fêmea. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 4.2 Ciclo biológico Possuem metamorfose gradual (ovo, ninfa I, ninfa II, ninfa III e adultos), ou seja, são paurometábolos. Os piolhos são hematófagos em todos os estágios evolutivos e sexo, alimentando- se várias vezes por dia, de forma prolongada (10 min ou pouco mais). Cada fêmea de P. capitis bota cerca de 7-8 ovos por dia e pode viver até 40 dias. Já o P. humanos bota cerca de 10 ovos por dia e pode viver 60 dias. De maneira geral, o período de incubação dos ovos dos piolhos dura cerca de 1 semana e o ciclo pode ser completado em 18 dias. 4.3 Transmissão e Prevalência Os piolhos são transmitidos principalmente por contato, ou seja, coabitação em locais apertados, os transportes coletivos, abraços, brincadeiras infantis etc. Já os “chatos” são transmitidos por contato sexual. Os estímulos para que os piolhos mudem de hospedeiro são: temperatura, umidade e odor. Para observar a morfologia do piolho, assista ao vídeo “Piolho visto com microscópio de 1000x” disponível no site do YouTube, no link: <https://www. youtube.com/watch?v=1Rgw5kvssXI>. 128WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA A transmissão de P. capitis e P. pubis por meio de ovos seria um evento pouco provável, enquanto a transmissão indireta dos adultos e ninfas via fômites (pentes, escovas, gorros, bonés, toucas, fronhas etc.), bastante limitada, tendo-se em vista a curta sobrevivência do inseto fora da cabeça ou do sítio de parasitismo. Entretanto ambos os meios são válidos, em se tratando de P. humanus (vestes). O P. humanus é mais frequente na população adulta, principalmente indivíduos marginalizados da sociedade (prostitutas, mendigos, prisioneiros), P. capitis é mais prevalente em crianças e jovens, a faixa etária predileta é de 6 a 13 anos. P. pubis é infestante de pessoas com atividade sexual promíscua. 4.4 Ordem Siphonaptera Compreende insetos hematófagos, popularmente conhecidos como pulgas e bichos-de-pé. As pulgas podem viver sobre um determinado hospedeiro ou então, fora dele, geralmente em seu ninho. A maioria das espécies de pulgas enquadra-se no primeiro tipo, vivendo sobre a pelagem dos hospedeiros e neles alimentam-se intermitentemente (Xenopsylla spp, Ctenocephalides spp, etc.) ou então, penetrando sob a pele dos hospedeiros, e aí se alimentando permanentemente (fêmeas fertilizadas de Tunga spp). Outras espécies não vivem sobre o hospedeiro, só o procurando para exercer a hematofagia (Pulex irritans). As pulgas podem atuar como ectoparasitos, como transmissores (vetores) ou como hospedeiros intermediários. Como ectoparasitos: são agentes espoliadores sanguíneos (machos e fêmeas) e provocam irritação da pele devido à picada, ocasionando dermatite e reações alérgicas de intensidade variada e causam lesões cutâneas. Podem causar lesões cutâneas nos locais de parasitismo (Tunga penetrans, conhecido popularmente como bicho-de-pé), com a possível veiculação mecânica do tétano (Clostridium tetani), de gangrenas gasosas (Clostridiumperfrigens) e de esporos de fungos (Paracoccidioides brasiliensis). Como vetores de viroses e doenças bacterianas como: Yersinia pestis, agente da peste bubônica; Francisella tularensis, agente da tularemia, etc. Como hospedeiros intermediários de protozoários como: Trypanosoma lewisi; e helmintos como: Hymenolepis nana e Hymenolepis diminuta, que se desenvolvem posteriormente no homem e/ou roedores. 4.5 Morfologia As pulgas são insetos pequenos, possuem de 1 a 3 mm, apresentam cor castanho-escuro e corpo achatado lateralmente. São ápteras, o último par de pernas é adaptado para saltar e apresentam aparelho bucal do tipo picador-sugador. Os machos, além de serem menores que as fêmeas, diferenciam-se destas pela morfologia dos órgãos genitais, apresentam a extremidade posterior que alberga o órgão copulador pontuda e voltada para cima, nas fêmeas a extremidade posterior é arredondada. As pulgas possuem numerosas cerdas, de grande importância taxonômica (Figura 19). 129WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 19 - Esquema de uma pulga. Fonte: Ferreira (2012). 4.6 Ciclo Biológico As pulgas adultas são hematófagas obrigatórias. As larvas, que vivem no solo (frestas de assoalho) ou ninhos de animais alimentam-se de dejeções ressecadas (sangue e fezes semidigeridas) das pulgas adultas. Cada espécie de pulga tem um hospedeiro próprio, mas podem sugar outro animal, caso falte o seu preferido. Daí a possibilidade de transmissão de peste e outras doenças ao homem. São insetos que têm metamorfose completa, ou seja, são holometábolos (ovo, larva I, larva II, larva III, pupa e adultos, exceto no gênero Tunga, que possui dois estágios larvário). Após a fecundação, a fêmea necessita de repasto sanguíneo para começar a ovipor. A pulga fêmea ovipõe cerca de seis ovos por dia e o ciclo completo de ovo a adulto é em torno de 25 a 30 dias. 4.7 Principais Espécies As espécies mais importantes para a saúde humana, encontradas nos domicílios e pertencentes a diferentes famílias, são agrupadas da seguinte maneira: (a) pulga do homem (Pulex irritans); (b) pulgas de cães e gatos (Ctenocephalides canis, Ctenocephalides felis) e (c) pulgas de ratos e camundongos (Xenopsylla cheopis, Xenopsylla braziliensis, Nosopsyllus fasciatus, Leptopsylla segnis). Existem no Brasil apenas três espécies de importância médica: 1) Pulex irritans, a pulga que mais frequentemente ataca o homem, embora também se alimente de outros hospedeiros; é cosmopolita e muito encontrada em casas velhas e cinemas. Não é boa transmissora da peste bubônica, sua picada pode causar em pessoas mais sensíveis uma reação dérmica generalizada. Diferencia-se por: apresentar uma única cerda no occipício (parte posterior da cabeça); mesopleura não-dividida; e forma da espermateca, nas fêmeas; 2) Xenopsylla cheopis é a pulga dos ratos domésticos, cosmopolita e a principal espécie transmissora da peste bubônica entre roedores domésticos, podendo passar destes para os homens. 130WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Apresenta as seguintes características que a diferenciam da P. irritans: apresenta duas fileiras divergentes de cerdas no occipício, cujos pontos de inserção formam a figura de um V; mesopleura dividida por uma sutura; e morfologia das espermatecas (fêmeas); 3) Ctenocephalides felis e Ctenocephalides canis são as pulgas de carnívoros, e frequentemente podem ser encontradas parasitando indiferentemente, cães e gatos. Apresentam dois ctenídios evidentes: genal e pronotal. Ambas espécies podem, não raro, picar o homem. A diferenciação entre as duas espécies pode ser feita pelo ctenídio genal: o primeiro dente é bem menor que o segundo, em fêmeas de C. canis, e um pouco menor que o segundo, em fêmeas de C. felis (Figura 20). Figura 20 - Características morfológicas das principais espécies de pulgas de importância para humanos. A) X. cheopis. B) Pulex irritans. C) C. canis. D) C. felis. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 4) Tunga penetrans, popularmente conhecida como “bicho-de-pé”, apesar de ambos os sexos serem hematófagos, apenas a fêmea é que penetra nos tecidos, alimentando-se de líquido tissular e sangue, se enchendo de ovos, tomando uma forma hipertrofiada. É a menor espécie de pulga conhecida (1 mm). Os hospedeiros atacados mais frequentemente são: porco, homem, cão e gato. No homem, prefere penetrar principalmente na sola plantar, calcanhar, cantos dos dedos (dos pés e mãos). Machos e fêmeas permanecem em locais secos, próximos de chiqueiros, montes de esterco e no peridomicílio (jardins, hortas). Após a cópula, a fêmea procura um hospedeiro e penetra ativamente no local escolhido. Permanece com a cabeça e o corpo mergulhados nos tecidos, deixando para fora apenas a extremidade posterior que contém a abertura genital, o ânus e os estigmas respiratórios. Em alguns dias, começa a aumentar o abdome, que fica repleto de ovos. Ao fim de ±15 dias, todos os ovos estão eliminados e a fêmea morre. Os ovos no chão úmido e sombreado darão origem as larvas que passam por apenas dois estágios. As larvas dão origem às pupas e, essas, aos adultos. Cerca de 20 a 30 dias após a oviposição, já surgem os adultos (Figura 21). 131WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 21 - T. penetrans. A) Fêmea não ingurgitada. B) Fêmea penetrando na pele do hospedeiro. C) Fêmea grávida repleta de ovos. D) Ovo. E) Larva. F) Pupa. G) Lesão singular típica da tunguíase, com três ovos na superfície ungueal. Fonte: Ferreira (2012). As fêmeas, ao penetrarem, provocam um prurido intenso e em infestações múltiplas pode dificultar a movimentação do hospedeiro. O maior perigo da tungíase é a veiculação mecânica de tétano (Clostridium tetani), fungos (Paracoccidioides brasiliensis) e gangrena gasosa (Clostridium perfringens). O combate às pulgas deve ser realizado em três diferentes habitats: sobre os animais domésticos parasitados, no interior das habitações infestadas e no ambiente peridomiciliar. Em todos estes ambientes, o controle pode ser efetuado por métodos mecânicos e químicos. 5. CLASSE ARACHNIDA Esta classe é a mais importante dentre os artrópodes pertencentes ao subfilo Chelicerata (dotados de quelíceras e pedipalpos, sem antenas ou asas) e abriga a subclasse Acari, cujos integrantes são os que mais afetam a saúde dos humanos. Acari, assim como Insecta, apresenta enorme diversidade de formas, habitats e comportamento. O grupo inclui cerca de 55.000 espécies identificadas. No entanto, são os carrapatos e os ácaros produtores de sarna, além daqueles encontrados em produtos armazenados e em poeira domiciliar, os que mais se destacam pelas doenças que causam aos humanos. Os aracnídeos apresentam o corpo fundido em cefalotórax e abdome, apresentam quatro pares de patas e não possuem antenas. Na parte anterior, localizam-se as peças bucais: quelíceras e os palpos. As quelíceras possuem “pinças” em suas extremidades, utilizadas para cortar ou perfurar os tecidos. O corpo é constituído de uma única peça denominada idiossoma e uma região separada, o gnatossoma, onde situam os apêndices bucais: os palpos, as quelíceras (com movimento anteroposterior) e o hipostômio, estrutura resultante da fusão das coxas dos palpos, que se projeta para região anterior (Figura 22). 132WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Esses apêndices variam na forma, tamanho e função conforme os hábitos alimentares do grupo taxonômico (hematófagos, predadores, decompositores etc.). Como regra geral, as larvas possuem três pares de patas, enquanto ninfas e adultos possuem quatro. As larvas distinguem-se ainda por não apresentarem abertura respiratória ou genital, e as ninfas pela ausência de abertura genital. A classe Arachnida compreende os seguintes grupos de interesse médico e veterinário:ordem Scorpiones - escorpiões verdadeiros; ordem Araneae – aranhas; e subclasse Acari - carrapatos ou ixodideos, os ácaros das sarnas, dos grãos e do pó domiciliar e ainda os “micuins” e “piolhinhos” de ninhos de aves. Figura 22 - A) Esquema de um ácaro, em vista ventral, mostrando as principais divisões de seu corpo. B) Vista ventral, mostrando o hipostômio com dentes. C) Vista dorsal, mostrando as quelíceras. Fonte: adaptado de Ferrei- ra (2012). 5.1 Subordem Acari Possuem o corpo fundido, de formato globular e achatado dorsoventralmente. Esta subordem compreende quatro ordens de interesse médico e veterinário: Mesostigmata, Trombidiformes, Ixodida e Sarcoptiformes, sendo as duas últimas abordadas neste tópico. 5.2 Ordem Ixodida São comumente conhecidos como carrapatos, possuem porte relativamente grande e são ectoparasitas sugadores de sangue de vertebrados. Têm grande resistência ao jejum e, além da, espoliação sanguínea, algumas espécies podem transmitir patógenos (protozoários, bactérias, espiroquetas, riquétsias, vírus e filárias). Os ixodídeos são, depois dos mosquitos, os mais importantes vetores de doenças humanas. A ordem Ixodida possui duas famílias de interesse médico e veterinário: Argasidae e Ixodidae, sendo esta última abordada neste tópico. A Família Ixodidae, apresenta a maior quantidade de carrapatos de importância médica e veterinária no Brasil, apresentando altas prevalências e ampla distribuição, sendo vetores de doenças graves para os seres humanos e animais. Os carrapatos da família Ixodidae apresentam dimorfismo sexual acentuado, os machos são menores e possuem um escudo rígido que recobre todo o idiossoma; nas fêmeas, o escudo recobre apenas a parte anterior do idiossoma (Figura 23). 133WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Em jejum, o tamanho desses carrapatos varia entre 3 e 10 mm. Após o repasto sanguíneo, o tamanho dos machos pouco se altera, mas as fêmeas ingurgitadas podem atingir mais de 20 mm. As larvas medem cerca de 1 mm e as ninfas, aproximadamente, o dobro. A cópula, na maioria das espécies, ocorre sobre o hospedeiro, a fêmea ingurgitada e fecundada desprende-se e cai do hospedeiro, faz a postura dos ovos formando uma massa e morre a seguir. O ciclo biológico dos ixodídeos é semelhante ao dos demais ácaros, passando pelo estágio de ovo, larva, ninfa e adultos. Figura 23 - A e B. Carrapato ixodídeo Amblyomma cajennense (carrapato-estrela). A) Fêmea, com escudo dorsal restrito à região anterior. B) Macho, com escudo recobrindo todo o idiossoma. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). No Brasil, Ixodidae é representada pelos gêneros: Dermacentor, com uma espécie; Rhipicephalus, com duas espécies; Ixodes com oito espécies; e Amblyomma, com 30 espécies. As espécies mais encontradas parasitando seres humanos pertencem ao gênero Amblyomma, sendo Amblyomma cajennense, a mais importante delas. A. cajennense ataca principalmente os equídeos, porém tem pouca especificidade parasitária, principalmente nos estágios de larva e ninfa. Suas larvas são conhecidas por “carrapatinhos” ou “micuins” e atacam o homem vorazmente. Os adultos são conhecidos por “carrapato-estrela”. As picadas desta espécie provocam ferimentos (eritema e edema com intenso prurido), às vezes, de cura demorada. Além disso, pode reter o vírus da febre amarela e é, em nosso meio, a mais importante transmissora da febre maculosa (Rickettsia rickettsi). O A. cajennense é também o provável vetor da doença de Lyme (Borrelia burgdoferi) no Brasil. 5.3 Ordem Sarcoptiformes Nesta ordem, encontra-se algumas espécies de Acari muito importantes na parasitologia humana e veterinária, como as pertencentes às famílias: Sarcoptidae, com a espécie Sarcoptes scabiei, agente etiológico da sarna ou escabiose; e Pyroglyphidae, com as espécies Dermatophagoides farinae e D. pteronyssinus, responsável por manifestações alérgicas do aparelho respiratório. Neste tópico será dado ênfase a família Sarcoptidae. Os ácaros da família Sarcoptidae, especificamente a espécie S. scabiei, não são hematófagos e são considerados pequenos escavadores. Durante o parasitismo, fazem galerias na pele do hospedeiro, na qual penetram profundamente, produzindo prurido, dermatites e espessamento da pele. A escabiose ou sarna é uma doença contagiosa humana e de outros animais. Existem diversas variedades de S. scabiei, conforme o hospedeiro a que se adaptou. Assim, temos S. scabiei variedade hominis; S. scabiei variedade canis; S. scabiei variedade suis etc. De modo geral, a sarna de um hospedeiro não passa para outro, em alguns casos pode estabelecer uma dermatite transitória. As formas adultas do S. scabiei possuem o corpo globoso, pernas curtas sem garras com ventosas nos pares anteriores. A outra extremidade traz longas cerdas. Em seu ciclo biológico, passa pelos estágios de ovo, larva, ninfa e adultos. As fêmeas, que já copularam, penetram na epiderme e começam a fazer túneis ou galerias e vão deixando atrás de si um rastro de ovos. 134WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Ovipõem três a quatro ovos por dia. O período de incubação dura de três a cinco dias, quando eclodem as larvas hexápodas. Estas permanecem nas galerias ou saem para a superfície da pele, onde ficam nas crostas que recobrem as galerias. Elas se alimentam, sofrem mudas e transformam- se em ninfas octópodas; oito a dez dias após, transformam-se em machos e fêmeas. Ocorre a cópula e as fêmeas iniciam novas galerias ou túneis (Figura 24). Figura 24 - A) S. scabiei macho, vista ventral. B) Túnel escavado pela fêmea de S. scabiei para depósito de seus ovos. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). A principal forma de transmissão da sarna ocorre por contato direto, mas também pode ocorrer por meio de fômites como compartilhamento de objetos de uso pessoal (roupas, pentes etc.) ou contato com locais de uso comum (maçanetas, cadeiras etc.) A patogenia da sarna está diretamente relacionada com a escavação do parasito e formação das galerias na epiderme. Assim, a perfuração da epiderme, juntamente com produtos do metabolismo do parasito e a ação de sua saliva, gera um prurido intenso, devido a resposta inflamatória. Frequentemente, o hospedeiro se coça fortemente, abrindo a porta de entrada para infecções microbianas secundárias, especialmente por gêneros Staphylococcus e Streptococcus. A extensão das lesões pode variar desde pequenas até grandes áreas como observada na sarna crostosa. Esta caracteriza-se por pele espessa e descamada, sendo considerada muito contagiosa. É uma manifestação exuberante da sintomatologia causada por uma hipersensibilidade do paciente ou pela infestação em pacientes imunodeprimidos. Para observar a morfologia do S. scabiei, assista ao vídeo “Escabiose”, disponível no site do YouTube, no link: <https://www.youtube.com/watch?v=ERU7a3RBTWE >. 135WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA O diagnóstico laboratorial da sarna pode ser realizado aderindo-se uma fita gomada sobre as crostas, assim, as formas aí presentes ficarão presas na fita. Esta é colocada sobre uma lâmina (como se fosse uma lamínula) e examinada em microscópio com aumento 10 e 40x. 136WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade estudamos os principais artrópodes de interesse médico que afetam a saúde do homem, ao agir como vetores biológicos e/ou mecânicos, ou ainda causar doença devido à infestação de alguma de suas formas evolutivas (ectoparasitos) no corpo do hospedeiro. Na próxima unidade, serão estudadas as principais técnicas laboratoriais para o diagnóstico das parasitoses de interesse médico estudadas nas unidades I e II. Além disso, irão aprender a identificar os parasitos e seus estágios evolutivos por meio da observação macro/ microscópica, interpretaros exames e correlacioná-los com o diagnóstico clínico. 137137WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 04 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................140 1. EXAME PARASITOLÓGICO DE FEZES ................................................................................................................. 141 1.1 COLETA, ARMAZENAMENTO E IDENTIFICAÇÃO DE AMOSTRAS DE FEZES .................................................. 142 1.2 EXAMES MACROSCÓPICOS DA AMOSTRA FECAL ..........................................................................................145 1.2.1 PESQUISA E IDENTIFICAÇÃO DE PROGLOTES DE TAENIA SPP ..................................................................146 1.2.1.1 MATERIAIS E REAGENTES .............................................................................................................................146 1.2.1.2 MÉTODO .........................................................................................................................................................146 1.2.1.3 IDENTIFICAÇÃO DAS PROGLOTES - MÉTODO DO ÁCIDO ACÉTICO GLACIAL..........................................146 1.2.1 PESQUISA E IDENTIFICAÇÃO DE PROGLOTES DE TAENIA SPP ......................................................................... 147 1.2.1.1 MATERIAIS E REAGENTES ............................................................................................................................. 147 1.2.1.2 MÉTODO ......................................................................................................................................................... 147 DIAGNÓSTICO PARASITOLÓGICO PROF.A DRA. FABIANA NABARRO FERRAZ ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: PARASITOLOGIA CLÍNICA 138WWW.UNINGA.BR 1.2.1.3 IDENTIFICAÇÃO DAS PROGLOTES - MÉTODO DO ÁCIDO ACÉTICO GLACIAL.......................................... 147 1.4 MÉTODOS QUALITATIVOS ..................................................................................................................................148 1.4.1 EXAME DIRETO A FRESCO ...............................................................................................................................148 1.4.1.1 MATERIAIS E REAGENTES .............................................................................................................................148 1.4.1.2 MÉTODO ..........................................................................................................................................................148 1.4.2 TÉCNICAS DE CONCENTRAÇÃO ......................................................................................................................149 1.4.3 SEDIMENTAÇÃO ...............................................................................................................................................149 1.4.4 MÉTODO DE HOFFMANN, PONS & JANER OU LUTZ – SEDIMENTAÇÃO ESPONTÂNEA ..........................149 1.4.4.1 MATERIAIS E REAGENTES ............................................................................................................................149 1.4.4.2 MÉTODO .........................................................................................................................................................149 1.4.5 MÉTODO DE RITCHIE OU FORMOL-ÉTER - CENTRÍFUGO-SEDIMENTAÇÃO ................................................... 150 1.4.5.1 MATERIAIS ......................................................................................................................................................150 1.4.5.2 MÉTODO ........................................................................................................................................................150 1.4.6 FLUTUAÇÃO ....................................................................................................................................................... 151 1.4.7 MÉTODO DE WILLIS - FLUTUAÇÃO EM SOLUÇÃO SATURADA DE CLORETO DE SÓDIO ............................ 152 1.4.7.1 MATERIAIS E REAGENTES ............................................................................................................................. 152 1.4.7.2 MÉTODO .......................................................................................................................................................... 152 1.4.8 TÉCNICA DE FAUST ET AL. - CENTRÍFUGO-FLUTUAÇÃO EM SOLUÇÃO DE SULFATO DE ZINCO ........... 153 1.4.8.1 MATERIAIS E REAGENTES ............................................................................................................................ 153 1.4.8.2 MÉTODO ......................................................................................................................................................... 153 1.4.9 MÉTODOS PARA PESQUISA DE LARVAS .......................................................................................................154 1.4.10 MÉTODO DE BAERMANN MODIFICADO POR BRUG (MÉTODO DE RUGAI, MATTOS & BRISOLA - 1954)..154 1.4.10.1 MATERIAIS E REAGENTES ..........................................................................................................................154 1.4.10.2 MÉTODO ........................................................................................................................................................154 1.5 MÉTODOS QUANTITATIVOS ...............................................................................................................................156 1.5.1 MÉTODO DE KATO-KATZ ..................................................................................................................................156 1.5.1.1 MATERIAIS E REAGENTES .............................................................................................................................156 1.5.1.2 MÉTODO .........................................................................................................................................................156 1.5.2 MÉTODOS DE COLORAÇÃO PARA PESQUISA DE COCCÍDIOS INTESTINAIS .................................................. 157 1.5.2.1 MATERIAIS E REAGENTES ............................................................................................................................158 1.5.2.2 MÉTODO .........................................................................................................................................................158 1.5.3 MÉTODO DA FITA ADESIVA OU DE GRAHAM - PESQUISA DE ENTEROBIUS VERMICULARIS ...............159 139WWW.UNINGA.BR 1.5.3.1 MATERIAIS E REAGENTES ............................................................................................................................159 1.5.3.2 MÉTODO ........................................................................................................................................................159 1.5.4 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DO EPF .................................................................................................160 1.5.5 PREPARAÇÃO E COLORAÇÃO DE ESFREGAÇOS PERMANENTES - COLORAÇÃO PELA HEMATOXILINA FÉR- RICA ............................................................................................................................................................................ 161 1.5.5.1 MÉTODO .......................................................................................................................................................... 161 1.5.5.2 COLORAÇÃO ................................................................................................................................................... 162 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................................................................... 163 140WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CLÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO No laboratório de Parasitologia, nível de biossegurança 2, os profissionais trabalham com parasitos infecciosos ou com materiais que contêm ou podem conter tais microrganismo, que podem ser patogênicos de acordo com as circunstâncias e doses. Assim, medidas de biossegurança específicas devem ser adotadas pelos laboratórios e aliadas a um amplo plano de educação, baseado nas normas nacionais e internacionais quanto ao transporte, à conservação e à manipulação de microrganismos patogênicos. Normas de segurança laboratorial enfatizam o uso de boas práticas de trabalho, de equipamentos de contenção adequados, dependências bem projetadas e controles administrativos, que minimizem os riscos de uma infecção acidental ou ferimentos em trabalhadores de laboratório e que evitem a contaminação do meio ambiente. Portanto, o uso de equipamentos de proteção individual (EPI), equipamentos de proteção coletiva (EPC) e boas práticas laboratoriais, com adequação às normas de segurança, minimizam os riscos de contaminação. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), na Norma Regulamentadora 6 (NR 6), da Portaria 3.214, considera-se Equipamento de Proteção Individual (EPI), todo dispositivo, de uso individual utilizado pelo trabalhador, destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde do trabalho. Para o laboratório de parasitologia, os principais EPI(s) são: jaleco de manga longa e punho retrátil, luvas, máscaras, óculos e calçados fechados. Além disso, no laboratório de parasitologia as boas práticas minimizam riscos de acidentes nos laboratórios. A seguir serão descritos exemplos de práticas que proporcionam maior segurança nas atividades diárias de profissionais que atuam em laboratórios de parasitologia: sempre utilize jaleco e calçados fechados; qualquer acidente deve ser comunicado imediatamente; não fumar, comer ou fazer brincadeiras no laboratório; se algum ácido ou qualquer outro produto químico for derramado, lavar o local imediatamente com bastante água; evitar contato de qualquer substância com a pele, cuidado especial deve ser observado ao manusear material biológico; tenha cuidado com reagentes inflamáveis, não manipular em presença de fogo; fechar as torneiras de gás do bico de Bunsen após finalizar o trabalho; utilizar sempre materiais que possam garantir maior segurança no trabalho, tais como, pinça, luvas, óculos etc.; jamais pipete com a boca, utilize pipetadores; quando necessário, sair do laboratório, retirar o jaleco, o qual deverá permanecer dentro do laboratório; não abra portas ou atenda ao telefone usando luvas; as bancadas de trabalho deverão ser lavadas e desinfetadas antes e depois da rotina de trabalho; e lavar as mãos antes de sair do laboratório. Nesta unidade serão estudados os principais exames parasitológicos de fezes e de sangue utilizados para o diagnóstico parasitológico. Este consiste na identificação direta do parasito em tecidos ou secreções de indivíduos infectados, com ou sem o auxílio de métodos de concentração, isolamento ou cultivo. Embora diversos métodos imunológicos e moleculares permitam o diagnóstico indireto de doenças parasitárias, a visualização direta dos parasitos permanece como recurso essencial para o diagnóstico de determinadas parasitoses, como já descrito nas unidades anteriores. 141WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1. EXAME PARASITOLÓGICO DE FEZES O exame parasitológico de fezes (EPF) tem como objetivo diagnosticar os parasitos intestinais, por meio da pesquisa das diferentes formas evolutivas (ovos, larvas, trofozoítos, cistos, oocistos) que são eliminadas juntamente com as fezes do hospedeiro. O EPF inicia-se com a avaliação macroscópica das fezes, que permite a verificação da consistência, odor, presença de elementos anormais, como muco ou sangue, e de vermes adultos ou partes deles. Após a análise macroscópica, uma parte da amostra é processada por diferentes métodos e submetida ao exame microscópico. Este permite a visualização dos ovos ou larvas de helmintos, cistos, trofozoítos ou oocistos de protozoários. O EPF pode ser realizado com métodos quantitativos ou qualitativos. Os métodos quantitativos são aqueles nos quais se faz a contagem dos ovos nas fezes, permitindo, assim, avaliar a intensidade do parasitismo. Os métodos quantitativos mais conhecidos são o Método de Stoll-Hausheer e o Método de Kato-Katz, sendo o último mais empregado. Os métodos qualitativos são os mais utilizados, demonstrando a presença das formas parasitárias, sem, entretanto, quantificá-las. Muitas vezes, o número de formas parasitárias eliminadas com as fezes é pequeno, havendo necessidade da realização de técnicas de enriquecimento para concentrá-las. As principais técnicas de enriquecimento são: sedimentação espontânea: método de Hoffman, Pons e Janer, que permite o encontro de ovos e larvas de helmintos e cistos de protozoários. Por ser de execução simples e viabilizar a pesquisa de vários parasitos e formas evolutivas, é muito utilizado na rotina laboratorial; sedimentação por centrifugação (método qualitativo): método de MIFC e método de Ritchie. É o fundamento de alguns Kits comerciais, como o Coprotest®. Estes métodos permitem a pesquisa de ovos e larvas de helmintos, cistos e alguns oocistos de protozoários; flutuação espontânea (método qualitativo): método de Willis, método indicado para a pesquisa de ovos leves (principalmente ancilostomídeos); centrífugo-flutuação: método de Faust, método usado para a pesquisa de cistos e alguns oocistos de protozoários, permitindo, também, o encontro de ovos leves; concentração de larvas de helmintos por migração ativa, devido ao hidrotropismo e termotropismo positivos (método qualitativo): método de Baermann-Moraes e método de Rugai, métodos indicados para a pesquisa de larvas de helmintos; concentração de ovos mediante passagem das fezes por tela metálica ou de náilon (método quantitativo): método de Kato-Katz, este método concentra os ovos de helmintos por meio de filtração em tela metálica ou de náilon, que retém os detritos maiores e permite a passagem dos detritos menores e ovos, ocorrendo, consequentemente, a concentração destes últimos na amostra a ser analisada. As formas parasitárias eliminadas nas fezes variam quanto ao seu peso e sobrevida no meio externo. Portanto, não existe um método totalmente capaz de diagnosticar, ao mesmo tempo, todas as formas evolutivas dos diferentes parasitos. Dos métodos disponíveis para diagnósticos, alguns são mais gerais, permitindo o diagnóstico de vários parasitos intestinais (Hoffmann, Pons e Janer e os métodos de centrifugação), outros são métodos específicos, indicados para um parasito em especial (por exemplo, o método da fita adesiva para a pesquisa de Enterobius vermicularis). Alguns autores preconizam a realização de vários métodos com cada amostra fecal, entre eles um método geral (sedimentação espontânea ou centrifugação), um específico para larvas de helmintos (Baeramann-Moraes ou Rugai) e outro específico para cistos de protozoários (Faust), com o objetivo de aumentar a chance de detectar as diferentes formas parasitárias. No entanto na maioria das vezes, tal procedimento é inviável, seja por quantidade insuficiente de fezes, ou pelo elevado número de exames a serem realizados pelo laboratório. 142WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Na maioria dos pedidos de EPF, o exame é feito por um dos métodos gerais. Quando é solicitada a pesquisa de um parasito que exige um método específico, tanto este como o método geral devem ser executados. Assim, o EPF ficará mais completo, pois será feita a pesquisa dos vários parasitos intestinais e não apenas daquele solicitado. Portanto, para se obter maior qualidade no EPF, devemos levar em consideração que: algumas espécies de parasitossó são evidenciadas por técnicas específicas; um único exame negativo, não deve ser conclusivo, sendo recomendável a sua repetição com outras amostras; a produção de cistos, ovos ou larvas não é uniforme e depende do ciclo do parasito. 1.1 Coleta, Armazenamento e Identificação de Amostras de Fezes A coleta, armazenamento e conservação das fezes são extremamente importantes para a qualidade do EPF. O paciente deve ser corretamente orientado, dizendo-lhe que a evacuação deve ser feita em recipiente limpo e seco ou sobre superfície seca protegida com um pedaço de papel. Posteriormente, parte das fezes deve ser transferida para um frasco próprio (fornecido pelo laboratório), de boca larga (Figura 1) e corretamente identificado com o nome do paciente, idade, data e, se possível, a hora da coleta. As instruções sobre a coleta das fezes devem ser claras e passadas ao paciente por escrito. Caso um biomédico tenha que escolher um único método para a realização do EPF para a rotina laboratorial, qual deve ser o método de escolha? Neste caso, um método geral (sedimentação espontânea ou centrifugação) deve ser o método de escolha, por viabilizar a pesquisa de vários parasitos e diferentes formas evolutivas (ovos e larvas de helmintos e cistos de protozoários). No entanto algumas limitações, como grande quantidade de detritos fecais, pode dificultar a visualização de algumas formas evolutivas, principalmente cistos de protozoários, quando eliminados em pequena quantidade. 143WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 1 - Frasco para coleta de fezes. Fonte: PROLAB (2019, on-line). Fezes eliminadas no vaso sanitário, solo ou contaminadas com urina não são adequadas para o EPF e a coleta de nova amostra deve ser solicitada. A utilização de laxantes (alteram a morfologia do parasito), antiácidos, bismuto (formação de cristais de bismuto, obscurecem a visualização dos parasitos), sulfato ferroso, óleos minerais (gotículas de óleo interferem no exame), entre outros, interferem no EPF. Essas substâncias não devem ser utilizadas uma semana antes da coleta. Se as fezes forem coletadas e colocadas no frasco sem conservantes (fezes frescas), estas devem ser envidas rapidamente ao laboratório para que sejam imediatamente processadas, pois o tempo de coleta das amostras fecais influenciam diretamente na identificação do parasito (por exemplo, morte e degeneração dos trofozoítos, desenvolvimento contínuo de ovos e larvas de helmintos etc.). O tempo de exame recomendado para fezes diarreicas é de 30 minutos (as fezes diarreicas podem conter trofozoítos, por isso a importância do rápido processamento), enquanto amostras pastosas devem ser examinadas dentro de uma hora após a evacuação. Os limites de tempo não são críticos para fezes sólidas, podendo ser examinadas dentro de 24 horas. Quando não houver possibilidade de processamento imediato, as fezes devem ser mantidas a baixas temperaturas (5 a 10°C, em geladeira) e processadas assim que possível. As fezes também poderão ser coletadas e mantidas em conservantes, permitindo que o exame seja realizado semanas após a coleta. O ideal é que as fezes sejam colocadas e homogeneizadas com o conservante logo após a evacuação. Para tanto, o paciente deve receber, do laboratório, o frasco contendo o conservante. Qualquer conservante utilizado deve ser usado na proporção de três partes deste para uma parte de fezes. Os conservantes mais empregados são: 144WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA FORMALINA 10% - conserva por mais de um mês os ovos e larvas de helmintos e cistos e oocistos de protozoários. Formol comercial................................. 10mL Solução salina 0,85%.......................... 90mL MIF (Mercúrio cromo, Iodo, Formol) - conserva ovos e larvas de helmintos e cistos e oocistos de protozoários. Glicerina.............................................. 5mL Formol.................................................. 25mL Mercúrio cromo solução 1:500............ 250mL Água destilada...................................... 250mL SAF (acetato de sódio, ácido acético e formol) – conservam cistos e trofozoítos, sendo útil para fezes formadas e diarreicas. Acetato de sódio.................................. 1,5g Ácido Acético....................................... 2,9mL Formol comercial................................. 40,0mL Água destilada..................................... 92,5mL Os trofozoítos de amebas e Giardia spp. não se conservam na Formalina 10% e MIF. Uma desvantagem de todas os conservantes reside na diluição da amostra fecal a ser examinada. As que estão preservadas, portanto, não são adequadas para exame quantitativo pelo método de Kato-Katz e suas variantes, que requerem amostra de consistência firme ou pastosa. Existe no comércio, entretanto, um dispositivo para a coleta e preservação da amostra fecal, a seco, conhecido como Coproseco®, que utiliza paraformaldeído (formaldeído polimerizado sólido) como conservante. O dispositivo assegura a preservação dos elementos parasitários nas amostras fecais, com exceção de trofozoítos, à temperatura ambiente, por até 30 dias. A coleta de amostras múltiplas de fezes pelo paciente, quando solicitado pelo médico, poderá ser realizada. Sua utilização aumenta a sensibilidade do exame para a pesquisa dos parasitos intestinais. Nos casos em que as fezes são colocadas em geladeira ou em conservantes, pode ocorrer inviabilização das larvas de helmintos, caso estas estejam presentes. Por isso, em casos de suspeitas clínicas de infecções por larvas, as fezes analisadas devem ser recém-emitidas, principalmente, porque o método de escolha para pesquisa de larvas (método de Baermann-Moraes ou método de Rugai) fundamenta-se na migração ativa destas, devido ao hidrotropismo e termotropismo positivos. 145WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA O esquema mais recomendado é a coleta de três amostras em dias alternados. A possibilidade de encontrar parasitos aumenta pelo exame de amostras múltiplas, em razão da: intermitência na liberação de cistos de certos parasitos (ex; G. duodenalis); distribuição não uniforme de ovos de helmintos; do estágio dos protozoários; e das limitações das técnicas de diagnóstico. 1.2 Exames Macroscópicos da Amostra Fecal As amostras de fezes não preservadas devem ser examinadas macroscopicamente para determinar a consistência, odor, cor, a presença ou ausência de sangue, de muco, de proglotes e de vermes adultos ou outras condições anormais. Portanto, o exame macroscópico deve sempre anteceder o exame microscópico. As fezes variam quanto a sua consistência, e geralmente são classificadas em: fezes formadas, semiformadas, pastosas e líquidas (diarreicas). A consistência das fezes frescas pode ajudar na determinação do tipo de parasito que pode estar presente. Os trofozoítos são usualmente encontrados nas fezes líquidas, nas pastosas ou nas mucosanguinolentas, enquanto que os cistos são encontrados nas fezes formadas ou semiformadas. Ovos e larvas de helmintos podem estar presentes em todos os tipos de amostras fecais; entretanto eles podem ser mais dificilmente encontrados em espécimes líquidos. As formas trofozoíticas de protozoários se degeneram mais rapidamente do que as formas císticas, portanto, é de extrema importância que o estudo de espécimes fecais seja realizado o mais rápido possível (Figura 2). As fezes devem ser distribuídas no laboratório quanto a sua consistência. O material fecal líquido ou pastoso deve ser examinado primeiro, sendo seguido pelos espécimes semiformados e formados. Registrar a presença de sangue e muco nas amostras fecais, os quais podem indicar manifestações patológicas do trato gastrointestinal. O exame macroscópico pode ser realizado pela simples observação (revolvendo as fezes com um bastão de vidro) ou pela tamizaçãodas fezes. Figura 2 - Distribuição de cistos e trofozoítos em relação à consistência das fezes. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 146WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA O exame macroscópico das fezes é importante para a demonstração e coleta de vermes adultos de helmintos (por exemplo, A. lumbricoides e E. vermicularis) e proglotes de Taenia spp. 1.2.1 Pesquisa e identificação de proglotes de Taenia spp 1.2.1.1 Materiais e reagentes - Tamisador (ou peneira) - Pinça - Placa de Petri - Ácido acético - Lâminas 1.2.1.2 Método - Colocar as fezes sobre o tamisador (peneira) - Ligar um jato fraco de água pelo tempo necessário para que ocorra a dissolução do bolo fecal - Examinar macroscopicamente o sedimento 1.2.1.3 Identificação das proglotes - Método do Ácido Acético Glacial - Colocar em uma placa de Petri, contendo ácido acético glacial, a proglote a ser identificada, durante 15 a 20 minutos. - Após o período, comprimi-la entre lâminas. - Examinar sob iluminação intensa as características das ramificações uterinas, para identificação da espécie de Taenia spp. (Figura 3). * T. solium, o útero grávido apresenta 7 a 12 ramificações principais de cada lado da haste uterina, que distalmente se ramificam em padrão dendrítico. * T. saginata, o útero grávido apresenta 15 a 30 ramificações uterinas de cada lado da haste uterina, que distalmente se ramificam de modo dicotômico. Figura 2 - Distribuição de cistos e trofozoítos em relação à consistência das fezes. Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 147WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA O exame macroscópico das fezes é importante para a demonstração e coleta de vermes adultos de helmintos (por exemplo, A. lumbricoides e E. vermicularis) e proglotes de Taenia spp. 1.2.1 Pesquisa e identificação de proglotes de Taenia spp 1.2.1.1 Materiais e reagentes - Tamisador (ou peneira) - Pinça - Placa de Petri - Ácido acético - Lâminas 1.2.1.2 Método - Colocar as fezes sobre o tamisador (peneira) - Ligar um jato fraco de água pelo tempo necessário para que ocorra a dissolução do bolo fecal - Examinar macroscopicamente o sedimento 1.2.1.3 Identificação das proglotes - Método do Ácido Acético Glacial - Colocar em uma placa de Petri, contendo ácido acético glacial, a proglote a ser identificada, durante 15 a 20 minutos. - Após o período, comprimi-la entre lâminas. - Examinar sob iluminação intensa as características das ramificações uterinas, para identificação da espécie de Taenia spp. (Figura 3). * T. solium, o útero grávido apresenta 7 a 12 ramificações principais de cada lado da haste uterina, que distalmente se ramificam em padrão dendrítico. * T. saginata, o útero grávido apresenta 15 a 30 ramificações uterinas de cada lado da haste uterina, que distalmente se ramificam de modo dicotômico. Figura 4 - Avaliação sistemática e completa de toda a preparação no exame microscópico de fezes. Fonte: a autora. 148WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.4 Métodos Qualitativos 1.4.1 Exame direto a fresco O exame direto a fresco é um procedimento simples e eficiente para o estudo das fezes, permitindo observar as formas trofozoíticas vivas dos protozoários em fezes diarreicas recém eliminadas (máximo 30 minutos). Outras formas (cistos, ovos e larvas) podem ser detectadas quando presente em grande quantidade. Entretanto, se o número de parasitos for reduzido, o exame de pequena quantidade de fezes, usadas para a preparação de esfregaços a fresco, pode ser insuficiente para revelar a presença do parasito (baixa sensibilidade) 1.4.1.1 Materiais e reagentes Salina a 0,85% Bastão de vidro Lâmina e lamínula. 1.4.1.2 Método - Colocar 1 ou 2 gotas de solução salina à 0,85% em uma lâmina de microscopia. - Com um bastão de vidro ou palito de sorvete, pegar uma pequena porção de fezes do recipiente e emulsificar na salina (Figura 5). - Cobrir a preparação com uma lamínula. - Observar ao microscópio óptico com as objetivas de 10x e/ou 40x. A espessura do esfregaço não deve impedir a passagem da luz. - Para a identificação de cistos de protozoários e larvas de helmintos, corar a preparação com lugol (solução de iodo utilizada principalmente para corar os cistos, evidenciando os núcleos e outras estruturas). - É aconselhável examinar no mínimo 3 lâminas de cada amostra. Obs.: para a pesquisa de trofozoítos vivos não utilizar lugol, pois este mata o parasito, impedindo a visualização do trofozoíto se movimentando (a pesquisa de trofozoítos de protozoários se evidenciam por sua motilidade). Figura 5 - Exame direto a fresco. A) Coleta de fezes com um palito; B) Espalhando as fezes misturada em salina sobre a lâmina de vidro. Fonte: Neves (2016). 149WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.4.2 Técnicas de concentração Os três principais objetivos das técnicas de concentração são: aumentar o número de elementos parasitários na preparação a ser examinada, eliminar a maioria dos detritos fecais e apresentar os parasitos em um estado inalterado, facilitando sua identificação. No entanto nenhuma das técnicas citadas a seguir, possuem todas estas características, apresentando vantagens e desvantagens que serão discutidas. 1.4.3 Sedimentação Esta técnica de concentração, pela sedimentação espontânea ou pela centrifugação, propicia a recuperação de todos os cistos de protozoários, ovos e larvas de helmintos, nestas técnicas os parasitos são sedimentados pela ação da gravidade ou centrifugação. No entanto, a preparação a ser examinada contém uma grande quantidade de detritos fecais, o que pode dificultar a visualização dos elementos parasitários. 1.4.4 Método de Hoffmann, Pons & Janer ou Lutz – Sedimentação Espontânea Procedimento simples, indicado para pesquisa de ovos, larvas e cistos. Baseia-se no princípio da sedimentação em água por ação da gravidade. A grande vantagem desta técnica é a necessidade mínima de vidrarias, sendo dispensável o uso de reagentes e centrifugação. A desvantagem é a grande quantidade de detritos fecais. 1.4.4.1 Materiais e reagentes Borrel Bastão de vidro Cálice de sedimentação Peneirinha Lâmina, lamínula e lugol. 1.4.4.2 Método - Diluir aproximadamente 2 g de fezes em 5 ml água destilada. Homogeneizar bem. Acrescentar mais 20 ml de água. - Filtrar a suspensão para um cálice cônico de sedimentação. - Completar o volume do cálice com água. - Deixar essa suspensão em repouso durante 2 a 24 horas. - Introduzir uma pipeta Pasteur, de ponta fina, obliterada pelo dedo indicador até o fundo do cálice. Colher uma pequena porção do sedimento. - Depositar em lâmina, adicionar uma gota de lugol, cobrir com lamínula e observar ao microscópio utilizando objetiva de 10X e 40X (Figura 6). 150WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 6 - Método de Hoffmann, Pons & Janer ou Lutz. Fonte: Neves (2016). 1.4.5 Método de Ritchie ou Formol-Éter - Centrífugo- Sedimentação 1.4.5.1 Materiais Borrel Bastão de vidro Peneirinha Cálice de Sedimentação Formol a 10% Tubo de centrífuga de plástico, graduado (de 12 ml) Éter etílico Rolha de borracha Lâmina, lamínula e lugol. 1.4.5.2 Método - Dissolver a amostra fecal na proporção de 1 parte de fezes para 10 de água destilada. Homogeneizar bem. - Filtrar a suspensão. - Transferir o filtrado para um tubo de centrifugação. - Centrifugar por 1 minuto a 2000 rpm. - Desprezar o sobrenadante e adicionar ao sedimento 7 ml de solução de formol comercial a 10%, deixando em repouso por 3 minutos para a fixação. 151WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA - Acrescentar 3 ml de éter, tampar o tubo e agitar vigorosamente (importante para emulsionar as gorduras fecais). - Centrifugar por 1 min. a 1500 rpm. Observar a formaçãode 4 camadas: 1a sedimento no fundo do tubo podendo conter parasitas, 2a formol, 3a tampão de detritos fecais, 4a éter na superfície. - Com o auxílio de um bastão, descolar a camada de detritos da parede do tubo. - Desprezar o sobrenadante. Se necessário limpar as paredes, utilizando um bastão de vidro contendo algodão na extremidade. - Adicionar gotas de lugol, homogeneizar, e com auxílio de uma pipeta Pasteur, colher a parte do sedimento que será examinado entre lâmina e lamínula ao microscópio (Figura 7). Figura 7 - Método de Ritchie. A figura ilustra as etapas finais do procedimento. A) Ao final da última etapa de centrifugação, separam-se quatro camadas no tubo: (1) sedimento que contém os elementos parasitários; (2) solução de formalina; (3) camada rica em detritos fecais; (4) solução de éter. B) As três camadas superiores são decantadas e as paredes do tubo são limpas com um swab de algodão. C) O sedimento é removido com uma pipeta tipo Pasteur. D) O sedimento é colocado sobre lâmina de microscopia e examinado ao microscópio, entre lâmina e lamínula, corado com solução de Lugol. Fonte: Ferreira (2012). 1.4.6 Flutuação Método utilizado para pesquisa de elementos parasitários considerados leves como, cistos de protozoários e alguns ovos leves de helmintos (ex; ovos de Ancilostomídeos). A concentração das formas parasitárias ocorre por meio da flutuação na superfície de um líquido de alta densidade de 1,18 a 1,26 g/mL (cloreto de sódio, sacarose, sulfato de zinco e sulfato de magnésio). Os ovos e cistos, geralmente, possuem uma densidade específica que varia de 1,05 a 1,15 g/mL. As principais vantagens apresentadas pelas técnicas de flutuação são a concentração seletiva de cistos e ovos leves na superfície de uma membrana com poucos detritos fecais. No entanto, a alta densidade dos reagentes pode destorcer a morfologia dos cistos e alguns ovos, dificultando sua identificação. Por essa razão, a preparação deve ser examinada dentro de um período de 10 a 20 minutos. Além disso, gorduras e óleos presentes nas fezes flutuam com os ovos e cistos, tornando as preparações, muitas vezes, insatisfatórias para o exame. 152WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.4.7 Método de Willis - Flutuação em Solução Saturada de Cloreto de Sódio Fundamenta-se na dupla propriedade que alguns ovos de helmintos apresentam de flutuarem na superfície de uma solução de densidade elevada (solução saturada de cloreto de sódio) e de aderirem ao vidro. Este método, é indicado para pesquisa de ovos com densidade específica baixa, principalmente ovos de Ancilostomídeos. Podem ser encontrados, também, ovos de E. vermicularis e ovos inférteis de A. lumbricoides. Os cistos de protozoários se retraem, ficando irreconhecíveis. 1.4.7.1 Materiais e reagentes Solução saturada de cloreto de sódio (1,20g/mL) Lugol Copinho de plástico Lâmina e lamínula (24x24mm) de vidro Palito de sorvete 1.4.7.2 Método - Em um frasco cilíndrico (2,5 cm diâmetro) diluir cerca de 1,0 g de fezes em uma solução saturada de cloreto de sódio. - Colocar uma lâmina sobre a boca do frasco e, com pipeta, completar o volume com a referida solução até que a superfície líquida toque a lâmina (Figura 8). - Aguardar 5 minutos e inverter num movimento rápido a lâmina, adicionar uma gota de lugol e cobrir com uma lamínula, que será examinada ao microscópio utilizando objetiva de 10X e 40X. Obs.: pode ser usada com a mesma eficiência uma solução de sulfato de zinco, de densidade 1,20 g/mL ou solução saturada de sacarose, no lugar da solução saturada de cloreto de sódio. Figura 8 - Método de Willis. Fonte: Neves (2016) e Ferreira (2012). 153WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.4.8 Técnica de Faust et al. - Centrífugo-Flutuação em Solução de Sulfato de Zinco Centrífugo-flutuação em solução de sulfato de zinco (ZnSO4) a 33% com densidade 1,18 g/mL. 1.4.8.1 Materiais e reagentes Solução saturada de sulfato de zinco (1,18g/mL) Cálice de sedimentação Peneirinha Bastão de vidro Borrel Tubo de centrífuga de plástico, graduado (de 12 ml) 1.4.8.2 Método - Diluir aproximadamente 10 g de fezes em 20 ml de água filtrada. Homogeneizar bem. - Filtrar a suspensão através de gaze dobrada em quatro. - Transferir 10 ml do filtrado para um tubo de centrifugação. - Centrifugar o filtrado por 1 minuto a 2500 rpm. - Desprezar o líquido sobrenadante e ressuspender o sedimento em água. - Adicionar água e repetir as etapas 2 e 3, até que o líquido sobrenadante fique claro. - Desprezar a água sobrenadante e ressuspender o sedimento com uma solução de sulfato de zinco à 33% (densidade 1,18g/mL). - Centrifugar por 1 minuto a 2500 rpm. - Colher com alça de platina flambada o material da película superficial e depositar em uma lâmina de microscopia (Figura 9). - Adicionar uma gota de lugol, cobrir com lamínula e examinar ao microscópio utilizando objetiva de 10X e 40X. O ideal é que o material seja examinado imediatamente ou dentro do prazo de 10 a 20 minutos, pois o contato com a solução de sulfato de zinco pode deformar as formas parasitárias, principalmente os cistos de protozoários. Figura 9 - Método de Faust. Fonte: Neves (2016). 154WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.4.9 Métodos Para Pesquisa de Larvas São indicados para a pesquisa de larvas de Strongyloides stercoralis e de Ancilostomídeos. No entanto, as larvas de S. stercoralis são geralmente as principais larvas encontradas nos espécimes fecais. Dependendo do trânsito intestinal e das condições do paciente, larvas rabditoides e, raramente, larvasfilarióides s poderão estar presentes. Quando houver demora na realização do exame de fezes, poderão ser identificados ovos embrionados e larvas de Ancilostomídeos. Estes métodos, pesquisam as larvas de helmintos por meio do termo-hidrotropismo positivo, associado à ação da gravidade. Os métodos para pesquisa de larvas deverão ser realizados apenas com fezes frescas, formadas ou pastosas, preferencialmente coletadas no mesmo dia do exame. A viabilidade das larvas se torna menor com a refrigeração, diminuindo a sensibilidade dos métodos. Fezes diarreicas ou coletadas em conservantes não devem ser usadas. 1.4.10 Método de Baermann modificado por Brug (método de Rugai, Mattos & Brisola - 1954) 1.4.10.1 Materiais e reagentes Cálices de sedimentação Pedaço de gaze Bastão de vidro Fita crepe Lâmina, lamínula e lugol 1.4.10.2 Método - Colocar uma porção de fezes (8-10g) em uma gaze dobrada em quatro, formando uma pequena “trouxa”. - Pendurar com um pedaço de fita crepe na borda de um cálice de sedimentação. - Adicionar água aquecida (42-45oC) até que toque as fezes contidas na gaze (Figura 8). - Deixar uma hora em repouso e coletar o sedimento no fundo do cálice com ajuda de uma pipeta Pasteur. - Depositar em uma lâmina e examinar no microscópio com objetiva de 10X. - Caso se detecte a presença de larvas, essas deverão ser coradas e mortas com lugol e observadas com a objetiva de 40X, para avaliação morfológica e identificação do tipo (rabditoide oufilarióides) e espécie da larva (S. sercoralis ou Ancilostomídeo). 155WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 10 - Método de Baermann modificada por Brug. Fonte: Neves (2016). Para identificação das larvas, segue o esquema a seguir (Figura 11): Figura 11 - Caracteres fundamentais para diferenciação entre larvas rabditoides efilarióides s de Ancilostomídeos e S. stercoralis. Fonte: De Carli (2011). Para visualizar a larva rabditoide de S. stercoralis viva, detectada pelo método de Baermann, assista ao vídeo “Larva de Strongyloides stercoralis” disponível no site do YouTube, acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=su35dL4F9Y0>. 156WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA1.5 Métodos Quantitativos Estes métodos são usados para determinar a intensidade da carga parasitária em indivíduos parasitados por A. lumbricoides, S. mansoni, T. trichiura e Ancilostomídeos (N. americanus e A. duodenale), por meio do número de ovos em um peso conhecido de fezes. O resultado desses métodos fornecerá o número de ovos por grama de fezes (OPG). O conhecimento da carga parasitária é útil para determinar a intensidade da infecção e avaliar a eficácia dos medicamentos administrados. 1.5.1 Método de Kato-Katz O método de Kato-Katz é o procedimento recomendado pela Organização Mundial de Saúde, tanto para estudos de diagnóstico individuais como para estudos epidemiológicos. Esta técnica é simples e muito eficiente para detectar ovos de helmintos, principalmente de Schistosoma spp, entretanto não é indicado para o diagnóstico de larvas e protozoários. A vantagem deste método é o uso de significativa porção de fezes (42 mg), a qual é examinada diretamente sem o emprego de outro método de concentração. A desvantagem é que as fezes devem ser frescas ou refrigeradas, não possibilitando o uso de conservantes, os quais promovem liquefação e diluição da amostra, prejudicando a execução do método. É também desaconselhável o uso de fezes diarreicas. 1.5.1.1 Materiais e Reagentes Solução aquosa de verde de malaquita a 3% Glicerina Espátulas de madeira ou plástico Lamínulas de celofane embebida em glicerina e verde-malaquita Lâminas de microscopia Tela de náilon ou aço (trama 0,09mm) Cartão retangular com um orifício central de 6 mm de diâmetro (kit) Papel absorvente Palito de madeira, plástico ou bastão de vidro. 1.5.1.2 Método - Colocar, sobre um papel higiênico, uma parte das fezes que será examinada. - Comprimir o material fecal com um pedaço de tela plástica com malhas especiais, similar à de náilon. Nessa malha passam ovos de helmintos e detritos menores do que eles. - Retirar as fezes que passaram para a parte superior da tela e transferir com o auxílio de uma espátula plástica para o orifício (6mm de diâmetro) de um cartão retangular de plástico, colocado sobre uma lâmina de microscopia (Figura 12 A e B). - Após encher completamente o orifício, retirar o cartão, cuidadosamente, deixando-se as fezes (aproximadamente 42 mg) sobre a lâmina de vidro. - Cobrir as fezes com a lamínula de papel celofane, inverter a lâmina sobre uma folha de papel absorvente e comprimi-la (Figura 12 C). 157WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA - Aguardar cerca de uma hora e examinar ao microscópio (tempo para glicerina clarificar o material a ser examinado), fazendo a contagem específica de todos os ovos encontrados em toda a lâmina (Figura 13). Cálculo: o número de ovos presentes no material multiplicado pelo fator 24 resulta, no número total de ovos por gramas de fezes (OPG) OPG = n° de ovos contados X 24 Figura 12 - Método de Kato-Katz. Fonte: De Carli (2011) Figura 13 - Preparações de ovos de helmintos pelo método de Kato-Katz. A) A. lumbricoides; B) T. trichiura; C) S. mansoni. Fonte: De Carli (2011). 1.5.2 Métodos de Coloração Para Pesquisa de Coccídios Intestinais O método consiste na concentração por centrífugo-sedimentação em um sistema formalina-éter e identificação dos oocistos de Cryptosporidium spp, Cystoisospora belli e Cyclospora cayetanensis pela técnica de coloração de Kinyoun. Os conservantes que podem ser utilizados para a preservação e fixação dos oocistos são formaldeído a 10% e SAF, fezes frescas também podem ser utilizadas. Os oocistos do Cryptosporidium spp (4 a 6 µm) e I. belli (20 a 30 x 10 a 19 µm) apresentam coloração de rosa à púrpura intensa. Alguns dos quatro esporozítos podem ser vistos nos oocistos de Cryptosporidium spp. Os oocistos imaturos de C. belli aparecem corados, enquanto os oocistos maduros mostram os dois esporocistos corados. O C. cayetanensis (8-10 µm) assemelham-se ao Cryptosporidium spp, entretanto, são mais ácido-resistentes, com intensidade de cor variável. O fundo da preparação cora-se de verde (Figura 14). 158WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 14 - Oocistos de material fecal corados pela fucsina-fenicada modificada A) Cryptosporidium spp; B) C. cayetanensis; C) C. belli. Fonte: De Carli (2011). 1.5.2.1 Materiais e reagentes Tubo de centrífuga de plástico, graduado (de 12 mL) Formol a 10% Éter etílico Rolha de borracha Lâmina de vidro Centrífuga Formalina tamponada Fucsina carbólica de Kinyoun Álcool-ácido (5 ml de Ácido sulfúrico concentrado em Álcool 70% q.s.p. 100 ml) Solução de verde malaquita 3% Metanol 1.5.2.2 Método 1. Concentração do material (Método de Sedimentação pelo formol-éter) - Homogeneizar as fezes com solução de formalina tamponada (formalina 10% em PBS pH 7,2). - Filtrar a suspensão através de gaze dobrada em quatro e transferir 4 ml do filtrado para um tubo de centrifuga de 15 ml, acrescentar 2 ml de éter sulfúrico, tampar o tubo e agitar vigorosamente (importante para desengordurar o material). - Centrifugar por 8 min. a 1500 rpm. Desprezar o sobrenadante. Com o auxílio de um bastão com algodão, limpar os detritos da parede do tubo. Fazer esfregaços com o sedimento. Secar e corar. 2. Coloração pelo Kinyoun modificado - Depois de seco, fixar o esfregaço em metanol por 5 minutos. - Cobrir a lâmina com solução de fucsina carbólica por 30 minutos à temperatura ambiente. - Lavar com água. - Cobrir com álcool-ácido por 2 minutos. Caso necessário repita essa passagem. - Lavar com água e cobrir a lâmina com azul de metileno ou verde malaquita por 1 a 2 minutos, lavar com água e deixar secar. 159WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.5.3 Método da fita adesiva ou de Graham - Pesquisa de Enterobius Vermicularis Os ovos de E. vermicularis podem ser eventualmente encontrados em amostras fecais, mas a maioria deles permanece aderida à mucosa e à pele da região perianal. Por isso, o diagnóstico laboratorial da enterobiose é feita com o auxílio de uma fita adesiva de celofane, que é colocada em contato com a região perianal e transferida em seguida para uma lâmina de microscópio A amostra para a pesquisa de E. vermicularis deve ser coletada no laboratório, algumas horas após o paciente ter se deitado, ou pela manhã, antes de defecar ou banhar-se. A coleta deve ser realizada em dias consecutivos (no mínimo uma série de quatro a seis amostras) antes que o paciente seja considerado livre da infecção. 1.5.3.1 Materiais e reagentes Fita adesiva (durex) Tubo de ensaio Lâminas 1.5.3.2 Método - Colocar um pedaço de fita adesiva (durex) em um tubo de ensaio. - Com o auxílio do tubo de ensaio ou espátula de madeira, fazer pressão da fita adesiva sobre o ânus e região perianal. - Colar a fita em lâmina e observar ao microscópio em aumento de 10x e com baixa intensidade de luz (Figura 15). 160WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 15 - Técnica da fita adesiva para a obtenção de ovos retidos na região perianal. A) Uma fita adesiva, com a face colante voltada para fora, é B) colocada em contato com a pele da região perianal, com o auxílio de uma espátula de madeira. C) A seguir, a fita é transferida para uma lâmina de microscopia, sendo pressionada contra ela com o auxílio. Fonte: Ferreira (2012). 1.5.4 Apresentação dos resultados do EPF Todos os parasitos encontrados no EPF deverão ser relatados, sejam patogênicos ou não. Deverão ser citados a forma parasitária observada (ovo, larva, cisto, trofozoíto, oocisto, verme adulto) e o nome científico do parasito (gênero e espécie se possível). Também deverá constar o(s) método(s) executado(s) e a consistência das fezes, tendo em vista que os métodos rotineiramente empregados não permitem o encontro de trofozoítos de protozoários em fezes diarreicas. Observações sobre o númerode amostras colhidas devem ser relatadas. A seguir estão relacionados exemplos de como os resultados do EPF podem ser liberados (Figura 16): 161WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 16 - Exemplos de como os resultados do EPF podem ser liberados. Fonte: Neves, (2016). 1.5.5 Preparação e coloração de esfregaços permanentes - Coloração pela hematoxilina férrica Utilizada para identificação de enteroprotozoários, notadamente suas formas vegetativas (trofozoítos), graças à afinidade do corante para as estruturas nucleares. Indicada, portanto, no exame de material diarreico ou disentérico. No entanto, pode ser utilizada também na pesquisa de cistos em fezes pastosas ou moldadas. O método baseia-se na fixação das fezes (obtidas naturalmente ou por meio de purgativo) pelo líquido de Schaudinn e coloração, pela hematoxilina férrica que tem grande eletividade para a cromatina nuclear, evidenciando estruturas internas muito delicadas. Os esfregaços permanentes corados oferecem inúmeras vantagens: permitem um minucioso estudo da morfologia dos trofozoítos e cistos corados, com a objetiva de imersão (100x) e podem ser arquivados para estudos futuros ou para serem submetidos a especialistas para uma identificação específica do parasito. No entanto ovos e larvas de helmintos não são identificados por meio dos esfregaços permanentes corados. 1.5.5.1 Método Fixação - O material a ser fixado (fezes recentemente emitidas) é misturado na proporção de 1 parte de fezes para 3 do fixador de Schaudinn. - Homogeneizar o material devidamente conservado no fixador de Schaudinn e retirar para um tubo de centrifugação. - Centrifugar a 1500 rpm durante 2 minutos, desprezar o líquido sobrenadante e colocar 3 gotas de soro sanguíneo ao sedimento. Misturar bem. - Em uma lamínula devidamente presa a um suporte de borracha, fazer o esfregaço (não muito espesso) e sem deixar secar (distorce a morfologia dos protozoários), iniciar a coloração com hematoxilina férrica. 162WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.5.5.2 Coloração - Fixador de Schaudin 5-10 min. - Álcool 70% 1-2 min. - Álcool 70% iodado 2-3 min. - Álcool 70% 1-2 min. - Água corrente 2 min. - Alúmen de Ferro 2% 3-5 min. (mordente, ajuda a fixar a coloração) - Água corrente 1 min. - Hematoxilina 0,5% 3-5min. - Água corrente 1 min. - Alúmen de Ferro 1% até ficar cinza azulado (diferenciador, ajuda na descoloração) - Água corrente 1 min. - Álcool 70% 1-2 min. - Álcool 90% 1-2 min. - Álcool absoluto 2-3 min. - Xilol 2-3 min. - Montagem em lâminas com entellan. 163WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, estudamos as principais técnicas laboratoriais para o diagnóstico das parasitoses de interesse médico vistas nas unidades I e II. Além disso, aprendemos a identificar os parasitos e seus estágios evolutivos por meio da observação macro/microscópica. Ao final do curso, foram abordados os principais tópicos da parasitologia clínica como, os aspectos morfológicos, biológicos, patogênicos, epidemiológicos, profiláticos e o diagnóstico laboratorial (execução e interpretação) dos parasitos mais importantes em saúde humana e pública, no âmbito de atuação do profissional de Biomedicina. 164164WWW.UNINGA.BR ANEXOS SUMÁRIO 1. ASPECTOS MORFOLÓGICOS DE FORMAS EVOLUTIVAS DE PARASITAS ELIMINADOS NAS FEZES ........... 167 1.1 PROTOZOÁRIOS .................................................................................................................................................... 167 1.1.1 ENTAMOEBA HISTOLYTICA/E. DISPAR ............................................................................................................ 167 1.1.1.1 CISTOS ............................................................................................................................................................... 167 1.1.1.2 TROFOZOÍTOS .................................................................................................................................................. 167 1.1.2 ENTAMOEBA COLI .............................................................................................................................................168 1.1.2.1 CISTOS ..............................................................................................................................................................168 1.1.2.2 TROFOZOÍTOS .................................................................................................................................................168 1.1.3 ENDOLIMAX NANA ............................................................................................................................................169 1.1.3.1 CISTOS ..............................................................................................................................................................169 PRANCHA I PROF.A DRA. FABIANA NABARRO FERRAZ ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: PARASITOLOGIA CLÍNICA 165WWW.UNINGA.BR 1.1.3.2 TROFOZOÍTOS .................................................................................................................................................169 1.1.4 IODAMOEBA BUTSCHLII ................................................................................................................................... 170 1.1.4.1 CISTOS .............................................................................................................................................................. 170 1.1.4.2 TROFOZOÍTOS ................................................................................................................................................. 170 1.1.5 GIARDIA DUODENALIS ..................................................................................................................................... 170 1.1.5.1 CISTOS.............................................................................................................................................................. 170 1.1.5.2 TROFOZOÍTOS ................................................................................................................................................ 171 1.2 HELMINTOS ......................................................................................................................................................... 171 1.2.1 ANCYLOSTOMIDAE (ANCILOSTOMÍDEOS) .................................................................................................... 171 1.2.2 ASCARIS LUMBRICOIDES (OVOS FÉRTEIS) ........................................................................................................ 172 1.2.3 ASCARIS LUMBRICOIDES (OVOS INFÉRTEIS) ............................................................................................. 172 1.2.4 TRICHURIS TRICHIURA ................................................................................................................................... 173 1.2.5 ENTEROBIUS VERMICULARIS ........................................................................................................................ 173 1.2.6 TAENIA SPP. ............................................................................................................................................................... 173 1.2.7 HYMENOLEPIS NANA ...................................................................................................................................... 174 1.2.8 HYMENOLEPIS DIMINUTA .............................................................................................................................. 174 1.2.9 SCHISTOSOMA MANSONI .............................................................................................................................. 175 1.3 LARVAS RABDITOIDES ........................................................................................................................................175 1.3.1 ANCYLOSTOMIDAE (ANCILOSTOMÍDEOS) .................................................................................................... 175 1.3.2 STRONGYLOIDES STERCORALIS .................................................................................................................... 175 1.4 LARVAS FILARIÓIDES .......................................................................................................................................... 176 1.4.1 ANCYLOSTOMIDAE (ANCILOSTOMÍDEOS) ............................................................................. 176 1.4.2 STRONGYLOIDES STERCORALIS .................................................................................................................... 176 2. PESQUISA DE SANGUE OCULTO NAS FEZES ..................................................................................................... 177 2.1 TÉCNICAS ............................................................................................................................................................. 178 2.1.1 MÉTODO COLORIMÉTRICO - REAÇÃO DO GUÁIACO ..................................................................................... 178 2.1.2 KIT FECA-CULT – REAÇÃO DO GUÁIACO ........................................................................................................ 178 2.1.3 MÉTODO IMUNOCROMATOGRÁFICO ............................................................................................................. 179 2.1.3 KIT IMUNOCROM – PESQUISA DE SANGUE OCULTO ................................................................................. 179 2.2 EXAME PARASITOLÓGICO DE SANGUE ...........................................................................................................180 2.2.1 MÉTODOS DE EXAMES ....................................................................................................................................180 2.2.1.1 DIRETO .............................................................................................................................................................180 166WWW.UNINGA.BR 2.2.2 EM ESFREGAÇOS .............................................................................................................................................180 2.2.2.1 MÉTODO ......................................................................................................................................................... 181 2.2.2.1.1 ESFREGAÇO EM CAMADA DELGADA ......................................................................................................... 181 2.2.2.1.2 ESFREGAÇO EM GOTA ESPESSA .............................................................................................................. 181 2.2.2.1.3 COLORAÇÃO DOS ESFREGAÇOS PELO MÉTODO DE GIEMSA ...............................................................182 2.3 EXAME PARASITOLÓGICO DE LEISHMANIA – LEISHMANIOSE CUTÂNEA ..................................................182 2.3.1 COLETA...............................................................................................................................................................182 2.3.1.1 COLETA POR ESCARIFICAÇÃO ......................................................................................................................182 2.3.1.2 COLETA POR BIÓPSIA ...................................................................................................................................183 2.3.2 TÉCNICA DE COLORAÇÃO DE GIEMSA ..........................................................................................................183 167WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 1. ASPECTOS MORFOLÓGICOS DE FORMAS EVOLUTIVAS DE PARASITAS ELIMINADOS NAS FEZES 1.1 Protozoários 1.1.1 Entamoeba histolytica/E. dispar 1.1.1.1 Cistos Medem de 10 a 15 µm de diâmetro, geralmente esféricos, apresentam de 1 a 4 núcleos com um pequeno cariossomo central, membrana nuclear revestida de grânulos de cromatina regulares. No citoplasma, podem estar presentes os corpos cromatóides em forma de bastonetes (observados na coloração por hematoxilina férrica). Fonte: De Carli (2011). 1.1.1.2 Trofozoítos Medem de 20 a 60 µm, geralmente apresentam um só núcleo, cuja membrana nuclear é bastante delgada, contornada na sua parte interna por uma fina camada de cromatina formada por pequenos grânulos, muitas vezes uniforme no tamanho e distribuição. Na parte central do núcleo encontra-se o cariossoma, pequeno e esférico. O citoplasma apresenta-se diferenciado em ectoplasma, claro e hialino, e endoplasma, finamente granuloso, com vacúolos e restos de substâncias (podem apresentar hemácias fagocitadas, no caso de E. histolytica). 168WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA Fonte: De Carli (2011). 1.1.2 Entamoeba coli 1.1.2.1 Cistos Medem de 10 a 30 µm de diâmetro, geralmente esféricos, apresentam de 1 a 8 núcleos, membrana nuclear grosseira com grânulos cromáticos irregularmente dispostos sobre ela. Cariossoma irregular e excêntrico. Podem apresentar no citoplasma corpos cromatóides longos e finos, agrupados em feixes, possuindo extremidades afiladas. Fonte: De Carli (2011). 1.1.2.2 Trofozoítos Mede cerca de 20 a 50 µm, geralmente apresentam um só núcleo volumoso, membrana nuclear nítida, com grânulos de cromatina distribuídos de forma grosseira e irregular na parte interna da membrana. Cariossoma excêntrico, grande e redondo. O citoplasma não é diferenciado em ecto e endoplasma. 169WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA Fonte: De Carli (2011). 1.1.3 Endolimax nana 1.1.3.1 Cistos Geralmente ovoides, medem de 5 a 15 µm. Citoplasma apresenta coloração verde clara característica, com muitos vacúolos refráteis quando corado pelo lugol. Núcleos em número de 4, pouco visíveis, devido ao pequeno tamanho. Fonte: De Carli (2011). 1.1.3.2 Trofozoítos Medem, geralmente, menos de 12 µm. Núcleo é pequeno e o cariossoma é volumoso, compacto e irregular, podendo ser excêntrico ou localizar-se junto à membrana nuclear. Fonte: De Carli (2011). 170WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 1.1.4 Iodamoeba butschlii 1.1.4.1 Cistos Medem de 10 a 20 µm. Possuem forma irregular e só um núcleo pouco distinto. A estrutura mais característica é o vacúolo de glicogênio que toma a coloração marrom-avermelhada quando corado pelo lugol. Fonte: De Carli (2011). 1.1.4.2 Trofozoítos Medem geralmente de 10 a 20 µm. Núcleo apresenta-se bastante nítido, com a cromatina condensada em uma grande massa, geralmente central ou excêntrica. Fonte: De Carli (2011). 1.1.5 Giardia duodenalis 1.1.5.1 Cistos Medem, em média, de 12 µm / por 8 µm, são ovóides ou elipsóides. Quando corados, mostram uma membrana cística fina, porém destacada do citoplasma. Apresentam 2 ou 4 núcleos, um número variável de fibrilas longitudinais e os corpos em crescente. 171WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA Fonte: De Carli (2011). 1.1.5.2 Trofozoítos Possuem forma de pera, apresenta extremidade anterior dilatada e posterior afilada. Medem 20 µm de comprimento por 10 µm de largura. Na superfície ventral encontram-se de cada lado o disco suctorial, com função de fixação do parasito às células epiteliais. Dividindo o parasito ao meio, estabelecendo uma simetria bilateral, são visíveis duas formações lineares, negras, chamadas axonemas. Possui dois núcleos ovoides, próximos aos quais estão os blefaroplastos, dos quais saem oito flagelos. No meio do corpo, cruzando os axonemas, nota-se a presença de dois corpúsculos negros, em forma de vírgula, denominados corpos basais. Fonte: De Carli (2011). 1.2 Helmintos 1.2.1 Ancylostomidae (Ancilostomídeos) Os ovos são ovoides ou elípticos.Medem, em média, 60 µm de comprimento por 40 µm de largura. Casca fina e transparente. Entre a casca e a célula-ovo há sempre um espaço claro, que diminui à medida que avança a segmentação. Podem ser encontrados ovos com 4, 8 ou mais blastômeros. 172WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA Fonte: De Carli (2011). 1.2.2 Ascaris lumbricoides (ovos férteis) Os ovos são ovóides, quase esféricos, medindo, em média, 60 µm de comprimento por 40 µm de largura. A casca é constituída de 3 camadas: interna - muito delgada e impermeável à água, é constituída de glicosídeos; Média - bastante espessa, sendo formada por uma substância quitinosa; Externa - de natureza albuminosa, grossa, irregular e apresenta superfície mamilonada que pode estar ausente. O interior possui uma massa de células germinativas. Fonte: De Carli (2011). 1.2.3 Ascaris lumbricoides (ovos inférteis) Os ovos inférteis são mais alongados e estreitos que os ovos férteis. Medem, em média, 90 µm de comprimento por 40 µm de largura. Casca é mais fina e a porção externa é revestida por grossos e irregulares grânulos albuminoides. O interior do ovo é ocupado por uma massa de substância granulosa. Fonte: De Carli (2011). 173WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 1.2.4 Trichuris trichiura Os ovos medem, em média, 50 µm de comprimento por 22 µm de largura. Têm aspecto muito típico, sua forma assemelha-se a um barril, apresentam polos com proeminências transparentes, brancas, polares, dispostas como bolhas de ar entre duas cascas. A casca é formada por três membranas: a externa, mais espessa, é de cor castanha por estar impregnada com pigmentos fecais e é interrompida nos dois polos pelo material hialino e refringente. As duas internas são mais claras e de aspecto hialino. No interior está presente uma única célula germinativa. Fonte: De Carli (2011). 1.2.5 Enterobius vermicularis Os ovos apresentam-se ligeiramente achatados de um lado (forma de D). Medem, em média, 50-60 µm de comprimento por 20-30 µm de largura, são transparentes e incolores. No interior do ovo encontra-se uma larva já formada, por ocasião da postura. Fonte: De Carli (2011). 1.2.6 Taenia spp. Os ovos têm a forma esférica ou ovoide. Medem, em média, 30 a 40 µm de diâmetro. No interior do ovo, encontra-se uma massa granulosa com três pares de acúleos, a oncosfera ou embrião hexacanto. A casca (embrióforo) é formada por delgados bastonetes ou prismas de natureza quitinosa cimentados por uma substância de natureza calcária (aspecto radiado). 174WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA Fonte: De Carli (2011). 1.2.7 Hymenolepis nana Os ovos possuem a forma oval ou arredondada. São transparentes e incolores. Medem de 35 a 50 µm. No interior do ovo, encontra-se a oncosfera com seus três pares de acúleos. Envolvendo-a, há duas membranas refringentes e entre elas há um espaço claro. A membrana mais interna forma duas saliências (mamelões) em polos opostos, das quais partem longos filamentos. Fonte: De Carli (2011). 1.2.8 Hymenolepis diminuta Os ovos são semelhantes aos de H. nana, com forma subesférica e ausência dos filamentos que saem dos mamelões polares da membrana interna da casca. Possui amanho maior que os ovos de H. nana (quase o dobro), medem de 70-85 µm por 60-80 µm. Fonte: Neves (2016). 175WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 1.2.9 Schistosoma mansoni Formato oval com o polo anterior mais delgado e o posterior mais volumoso com um espinho lateral, denominado espículo. Medem cerca de 150 µm de comprimento por 60 µm de largura. No interior do ovo maduro encontra-se o miracídio. Fonte: De Carli (2011). 1.3 Larvas Rabditoides 1.3.1 Ancylostomidae (Ancilostomídeos) Medem em torno de 250 µm de comprimento. Apresentam vestíbulo bucal longo (10 µm de comprimento - Figura a seguir) Primórdio genital pequeno ou pouco nítido. Fonte: Neves (2016). 1.3.2 Strongyloides stercoralis Medem de 200-300 µm de comprimento. Possuem vestíbulo bucal curto (1) e primórdio genital é grande e visível (2) (Figura a seguir). 176WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA Fonte: Neves (2016). 1.4 Larvas filarióides 1.4.1 Ancylostomidae (Ancilostomídeos) Extremidade posterior termina em uma cauda pontiaguda e apresentam a presença de bainha (Figura a seguir). Fonte: De Carli (2011). 1.4.2 Strongyloides stercoralis Apresenta o esôfago longo, filiforme e ocupa quase metade do comprimento do corpo da larva. A extremidade posterior termina sob forma de um entalhe (cauda bifurcada) (Figura a seguir). 177WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA Fonte: De Carli (2011). 2. PESQUISA DE SANGUE OCULTO NAS FEZES A pesquisa de sangue oculto é um exame laboratorial, e tem como objetivo identificar a presença de sangue nas fezes em virtude de hemorragias de graus variados do aparelho digestivo, que podem ser causadas por algo tão insignificante como uma pequena irritação da mucosa intestinal ou por algo mais grave como um pólipo ou cânceres no trato gastrintestinal. Além disso, situações clínicas como hemorroidas, fissuras no reto ou ânus e diverticuloses podem ser responsáveis pelo encontro de sangue nas fezes. A pesquisa de sangue oculto deve ser realizada em amostras fecais recentemente emitidas. A análise de três amostras aumenta a sensibilidade do exame, já que algumas lesões possuem sangramentos intermitentes. Caso o exame não seja realizado por meio de ensaios imunocromatográficos, os pacientes deverão ser submetidos a uma dieta rígida, com restrição da utilização de alguns medicamentos ou vitaminas que poderão interferir nos resultados do exame, ocasionando, muitas vezes, resultados falso-positivos. No Brasil, tanto o Ministério da Saúde quanto o Instituto Nacional do Câncer têm preconizado o uso da pesquisa de sangue oculto para o rastreamento de câncer colorretal, principalmente em indivíduos com mais de 50 anos, ficando a busca endoscópica limitada aos pacientes com sangue oculto positivo. Para a pesquisa de sangue oculto existem dois tipos de testes: o que utiliza o princípio colorimétrico e o que utiliza o princípio da imunocromatografia. 178WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 2.1 Técnicas 2.1.1 Método colorimétrico - reação do guáiaco Este método baseia-se na atividade de peroxidase que a hematina (produto de desdobramento da hemoglobina do sangue) possui. Entretanto a atividade de peroxidase também está presente na mioglobina da carne, na clorofila e em certas enzimas vegetais. Por isso, se faz necessário uma dieta por 3 dias que antecedem ao teste, da qual se excluem: carnes, vegetais verdes, nabos e rabanetes e medicamentos à base de ferro e salicilatos. Aconselha-se a ingestão de alimentos de difícil digestão como: ameixas secas ou naturais, uva, maçã, milho, arroz, feijão, amendoim e pipoca. Estes alimentos ajudam a reduzir os falso-positivos, pois facilitam a descoberta de lesões que possam sangrar apenas intermitentemente. As desvantagens desta técnica é a baixa especificidade para a hemoglobina humana e necessidade de dieta rigorosa antes de sua execução. Existem diversos Kits comerciais para a pesquisa de sangue oculto nas fezes que utilizam a reação do guaíaco (Fecacult, Seracult, etc.) (Figura 17); esta reação consiste na atividade peroxidase da hematina que degrada o H2O2 acrescentado nas fezes, que resulta na liberação do O2 e posterior oxidação do guáiaco com consequente desenvolvimento de coloração azul. 2.1.2 Kit Feca-Cult – reação do guáiaco Figura 17 - Kit Feca-cult. Fonte: a autora. 1. Impregnar o papel de filtro (regiões 1 ou 2) com fezes do paciente, para que depois seja acrescentada a solução reveladora.2. A leitura é feita 30 segundos depois de colocada a solução. positivo – coloração azul negativo – sem coloração 179WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 2.1.3 Método imunocromatográfico É um método imunológico cromatográfico que utiliza anticorpos específicos para a hemoglobina humana. É um método de custo mais elevado, todavia possui maior especificidade do que o colorimétrico. Existem diversos kits comerciais para a pesquisa de sangue oculto nas fezes que utilizam imunocromatografia. O teste de imunocromatografia utiliza a combinação de anticorpos monoclonais conjugados e anticorpos policlonais anti-hemoglobina humana de fase sólida, com elevada especificidade e sensibilidade. Em virtude da utilização de anticorpos específicos para a hemoglobina, não há necessidade de realização de dietas, já que os anticorpos reconhecem somente a molécula de hemoglobina humana. A hemoglobina presente nas fezes liga-se ao anticorpo monoclonal, formando um complexo estável, o qual flui pela área adsorvente do kit e se liga aos anticorpos policlonais na área de reação positiva, surgindo uma banda. Na ausência da hemoglobina, não haverá o desenvolvimento de banda na área de reação, indicando resultado negativo. 2.1.3 Kit Imunocrom – pesquisa de sangue oculto Figura 18 - Método de uso do Kit Imunocrom. Fonte: adaptado de Bula Imuncrom. 1. Tocar várias partes das fezes com o bastão. 2. Misturar com o líquido, quebrar a tampa e pingar 3 - 4 gotas no orifício. 3. Ler após 5 a 10 min, depois deste tempo desprezar a reação. Resultados: Figura 19 - Pesquisa de sangue oculto nas fezes usando o Kit Imunocrom. 1. Negativo; 2. Positivo (fraco); 3. Positi- vo. Fonte: a autora. 180WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 2.2 Exame Parasitológico de Sangue Diferentes estágios de desenvolvimento de várias espécies de parasitos são diagnosticados no sangue periférico do indivíduo parasitado, principalmente na fase aguda da infecção. Entre estes hemoparasitos estão incluídos, os tripanossoma, plasmódios e diversas espécies de filárias. Os plasmódios são encontrados parasitando as hemácias, enquanto os tripanossomas e as microfilárias são detectadas fora das hemácias. Alguns parasitos podem ter seus estágios evolutivos sanguíneos detectados pelo exame de amostras frescas de sangue, sem coloração, no exame direto; no entanto, a identificação correta da maioria dos parasitos encontrados no sangue exige o uso de métodos de coloração e, eventualmente, de concentração. Basicamente, as amostras sanguíneas podem ser dispostas em lâminas de microscopia por duas diferentes técnicas: em esfregaços camada delgada ou gota espessa. A combinação de ambas em uma mesma lâmina de microscopia pode favorecer melhores resultados, principalmente para pesquisa de plasmódio. Para a confecção de esfregaços sanguíneos e de gotas espessas para exame microscópico, o uso de anticoagulantes não é recomendado, por sua possível interferência na morfologia dos parasitos e no processo de coloração. Em geral, usa-se uma pequena amostra de sangue obtida por punção digital com lanceta estéril. Entretanto a maioria das técnicas de concentração requer a coleta de amostras de sangue venoso com anticoagulantes, preferencialmente EDTA. A pesquisa de filárias e tripanossomas deve ser executada por método de exame direto e/ ou por esfregaço corado (gota espessa ou camada delgada). Já a pesquisa de plasmódios deve ser realizada por método de esfregaço corado. 2.2.1 Métodos de Exames 2.2.1.1 Direto Permite visualizar os parasitos vivos, movimentando-se, sendo, portanto, utilizado para pesquisa de microfilárias e tripomastigotas de T. cruzi, principalmente em casos de elevada parasitemia. No entanto a coloração permanente é necessária para identificação final do parasito. - Colocar 1 gota de sangue no centro de uma lâmina, - Cobrir com lamínula e examinar imediatamente após, pois a coagulação é rápida. Caso queira retardar a coagulação, pode adicionar uma ou duas gotas de salina. Levar ao microscópio. 2.2.2 Em Esfregaços Existem dois tipos principais de esfregaços, o esfregaço em camada delgada e o esfregaço em gota espessa. Ambos possuem vantagem e desvantagem para o diagnóstico dos diferentes homoparasitos. A camada delgada permite melhor estudo da morfologia do parasito e das alterações características do eritrócito parasitado. No entanto não apresenta bons resultados nas baixas parasitemias, desenvolvendo resultados falso-negativos A gota espessa permite uma maior concentração do sangue numa área relativamente pequena, aumentando a probabilidade de se encontrar parasitos, mesmo nas baixas parasitemias. No entanto requer experiência do microscopista para a identificação das espécies, uma vez que a morfologia dos parasitos se encontra alterada. 181WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 2.2.2.1 Método 2.2.2.1.1 Esfregaço em camada delgada - Colocar uma gota de sangue na extremidade de uma lâmina. - Pegar outra lâmina, segurar por cima com a mão direita e com uma inclinação de 45º e encostar adiante da gota. - Deixar a gota se espalhar pela superfície de contato das duas lâminas. - Puxar a gota espalhada até o fim da lâmina (Figura 20). - Deixar secar. - Fixar o esfregaço com álcool metílico por um minuto. Escorrer o excesso. - Corar pelo método de Giemsa. Figura 20 - Técnica para o preparo de um esfregaço em camada delgado, em lâmina de microscopia, para posterior coloração e pesquisa de hemoparasitos. Fonte: Ferreira (2012). 2.2.2.1.2 Esfregaço em gota espessa - Colocar 1 gota de sangue em uma lâmina. - Com o canto de outra lâmina, espalhar essa gota numa área de 1 cm2 (Figura 21). - Deixar secar. - Realizar a desemoglobinização (lise das hemácias) pela solução de azul de metileno por dois segundos. Aplicar com pissete. - Enxaguar a lâmina com água tamponada. - Colocar a lâmina invertida sobre a placa de coloração. Corar pelo método de Giemsa. Figura 21 - A e B) Técnica para o preparo de um esfregaço em gota espessa, em lâmina de microscopia, para poste- rior coloração e pesquisa de hemoparasitos. Fonte: Neves (2016) e Manual MS (2009). 182WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 2.2.2.1.3 Coloração dos esfregaços pelo método de Giemsa Materiais e reagentes Água Tamponada Solução fosfatada de Azul de Metileno, Solução alcoólica de Giemsa Lâminas e lamínulas Microscópio óptico. Método - Cobrir com o corante diluído de Giemsa que deve ser preparado no momento do uso: 1 gota do Giemsa para cada 1 mL de água tamponada. - Deixar corar por 20 minutos a 30 minutos. - Escorrer o corante e lavar em água tamponada. - Deixar secar e examinar ao microscópio na objetiva de 100x. 2.3 Exame Parasitológico de Leishmania – Leishmaniose Cutânea Baseia-se na evidenciação do parasito (formas amastigotas de Leishmania spp) em material da lesão obtida pelo procedimento de escarificação ou biópsia. Em geral, a avaliação microscópica requer experiência e paciência do microscopista em virtude da usual baixa parasitemia. As formas amastigotas de Leishmania spp podem ser encontradas livres ou no interior de macrófagos. Além disso, a demonstração do parasito é inversamente proporcional ao tempo de evolução da lesão. 2.3.1 Coleta Limpar a ferida com gaze e água oxigenada 10 volumes. 2.3.1.1 Coleta por Escarificação Realizada na borda interna de lesão ulcerada recente, utilizando-se um estilete descartável, lâmina de bisturi estéril ou palito de madeira/alumínio estéreis com extremidade achatada ou em bissel. Fazer esfregaços em lâmina microscópica e corar pelo método de Giemsa. Para informações sobre o diagnóstico laboratorial da malária, acessar o manual do Ministério da Saúde, disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/ manual_diagnostico_laboratorial_malaria_2ed.pdf>. 183WWW.UNINGA.BRPA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 2.3.1.2 Coleta por Biópsia Após limpar a lesão, anestesiar o local com Lidocaína ou Xilocaína à 2% e em seguida pode-se fazer um “punch” de 4 a 5 mm de diâmetro ou em cunha, com o uso de bisturi. Preferir a borda da lesão, que em geral, mostra aspecto tumefeito e hiperêmico. Com o fragmento obtido, fazer a impressão por aposição sobre uma lâmina microscópica, após a retirada do excesso de exsudato em uma superfície absorvente (papel de filtro, por exemplo). Corar pelo método de Giemsa. 2.3.2 Técnica de coloração de Giemsa - No momento da coloração, preparar o corante, 3 gotas do Giemsa para 2 mL da solução tampão. - Cobrir o esfregaço e deixar em repouso por 25 minutos. - Escorrer o corante e lavar em água corrente. - Deixar secar e examinar ao microscópio na objetiva de 100x (Figura 22). Figura 21 - Amastigotas de Leishimania spp. encontradas em esfregaço dos bordos da lesão cutânea de paciente infectado. Coloração de Giemsa. Fonte: De Carli (2011). 184184WWW.UNINGA.BR ANEXOS SUMÁRIO 1. ASPECTOS MORFOLÓGICOS DE PARASITOS SANGUÍNEOS E TECIDUAIS ....................................................186 1.1 PLASMÓDIOS ........................................................................................................................................................186 1.1.1 TROFOZOÍTO JOVEM ..........................................................................................................................................186 1.1.2 TROFOZOÍTO MADURO ....................................................................................................................................186 1.1.3 ESQUIZONTE ......................................................................................................................................................186 1.1.4 MACROGAMETÓCITO ........................................................................................................................................ 187 1.1.5 MICROGAMETÓCITO ........................................................................................................................................ 187 1.2 LEISHMANIA SPP ......................................................................................................................................................... 188 1.2.1 AMASTIGOTAS ...................................................................................................................................................188 PRANCHA II PROF.A DRA. FABIANA NABARRO FERRAZ ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: PARASITOLOGIA CLÍNICA 185WWW.UNINGA.BR 1.2.2 PROMASTIGOTAS .............................................................................................................................................188 1.3 TRYPANOSOMA CRUZI .......................................................................................................................................189 1.3.1 AMASTIGOTAS ...................................................................................................................................................189 1.3.2 EPIMASTIGOTAS ..............................................................................................................................................189 1.3.3 TRIPOMASTIGOTAS ........................................................................................................................................190 1.4 WUCHERERIA BANCROFTI ...............................................................................................................................190 1.4.1 MICROFILÁRIA ...................................................................................................................................................190 186WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 1. ASPECTOS MORFOLÓGICOS DE PARASITOS SANGUÍNEOS E TECIDUAIS 1.1 Plasmódios 1.1.1 Trofozoíto jovem Tem o aspecto de anel, sendo o aro o citoplasma e a pedra o núcleo (cromatina). O citoplasma envolve um vacúolo. Fonte: Ferreira (2012). 1.1.2 Trofozoíto maduro Também chamado de trofozoíto amebóide, apresenta o citoplasma irregular. O núcleo permanece indiviso. Na infecção por P. falciparum estas formas evolutivas geralmente não aparecem no sangue periférico do paciente, pois estão aderidas ao endotélio dos capilares mais profundos de órgão vitais (cérebro, coração, fígado...). Fonte: Ferreira (2012). 1.1.3 Esquizonte Aumenta sua massa citoplásmica e sua riqueza em ribossomos e retículo endoplasmático, núcleo dividido em 2 ou mais núcleos-filhos (esquizogonia), até chegar ao número característico para cada espécie, porém bastante variável: P. ovale e P. malariae (6 a 12 – média 8), P. vivax (8 a 24 – média 12 a 18), P. falciparum (8 a 26 – média 8 a 18). * Na infecção por P. falciparum estas formas evolutivas geralmente não aparecem no sangue periférico do paciente, pois estão aderidas ao endotélio dos capilares mais profundos de órgão vitais (cérebro, coração, fígado...). 187WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA Fonte: Ferreira (2012). 1.1.4 Macrogametócito Célula sexuada feminina. Apresentam um citoplasma difuso. Citoplasma é rico em ribossomos, razão pela qual essa forma cora-se mais fortemente que o microgametócito. Quanto à forma: P. vivax e P. malariae – arredondados, P. falciparum – forma de meia lua. Fonte: Ferreira (2012). 1.1.5 Microgametócito Célula sexuada masculina. Apresentam um citoplasma difuso, mas de contorno uniforme dentro da hemácia. Apresenta coloração mais pálida que o macrogametócito. Quanto à forma: P. vivax e P. malariae – arredondados, P. falciparum – forma de meia lua. Fonte: Ferreira (2012). 188WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 1.2 Leishmania spp 1.2.1 Amastigotas Tamanho varia de 1,5-3,0µm x 3,0-6,0µm. Organismo de pequenas dimensões e contorno circular ou ovoide. Pouco citoplasma e com núcleo relativamente grande, redondo e excêntrico. O cinetoplasto é bem visível, porém o flagelo, reduzido ao segmento intracelular, em geral não é reconhecível nas preparações coradas e examinadas à microscopia óptica. Fonte: adaptado de Ferreira (2012) e De Carli (2011). 1.2.2 Promastigotas Mede 16-40µm de comprimento por 1,5-3,0 µm de largura. Corpo celular longo, núcleo situado na porção média, enquanto a cinetoplasto fica próximo à extremidade anterior, por onde sai o flagelo. Fonte: adaptação Ferreira (2012) e De Carli (2011). 189WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 1.3 Trypanosoma Cruzi 1.3.1 Amastigotas Morfologicamente, são semelhantes às amastigotas de Leishmania spp. A figura a seguir mostra um ninho de amastigostas no interior da célula muscular. Fonte: Ferreira (2012). 1.3.2 Epimastigotas São formas alongadas (20µm de comprimento), com o cinetoplasto situado em posição anterior e próximo ao núcleo. O flagelo também forma uma membrana ondulante, porém mais curta e menos evidente Fonte: adaptado de Ferreira (2012). 190WWW.UNINGA.BR PA RA SI TO LO GI A CL ÍN IC A | A NE XO S ENSINO A DISTÂNCIA 1.3.3 Tripomastigotas São formas alongadas (15µm de comprimento), que apresentam um flagelo que emerge do bolso flagelar na parte posterior da célula e a percorre na direção longitudinal até a parte anterior, ligado à membrana, formando a membrana ondulante do parasito. No tripomastigota, o cinetoplasto está situado em posição posterior ao núcleo Fonte: Ferreira (2012) e De Carli (2011). 1.4 Wuchereria Bancrofti 1.4.1 Microfilária Medem 260 µm por 7,5-10 µm. Envoltos por uma membrana extremamente delicada e que funciona como uma bainha. Cauda pontuda com núcleos somáticos grandes, largos e bem separados. Núcleos caudais grandes e bem separados. Fonte: De Carli (2011). 191WWW.UNINGA.BRENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS DE CARLI, G. A. 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