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Geovana Sanches, TXXIV INTRODUÇÃO A SERIE BRANCA HEMATOPOIESE Hemetopoise ou hematopoese é o processo de formação das células sanguíneas (ou elementos figurados do sangue) a partir de uma célula tronco. Célula tronco Existem diferentes classificações para as células tronco, a saber: • Célula tronco totipotente: podem formar tecidos e células extra e intra embrionários. • Célula tronco pluripotente: podem formar tecidos e células intra embrionárias (ectoderma, mesoderma e endoderma) • Célula tronco multipotente: diferenciam em alguns tipos celulares (já tem comprometimento de linhagem) As células tronco hematopoiéticas presentes na medula óssea são multipotentes, ou seja, são capazes de originar as diversas linhagens celulares sanguíneas. Elas são divididas em long term e short term, de acordo com o tipo de estímulo que receber. • Long Term (LT-HSC): replicam-se em uma célula tronco igual a de origem, ou seja, são responsáveis pela manutenção (reserva) das células tronco indiferenciadas. • Short Term (ST-HSC): gera os diferentes precursores de células hematopoiéticas, funcionando como unidades formadoras de colônias. A partir das células tronco multipotentes serão formados os precursores mieloide e linfoide: • Precursor linfoide: formação de linfócitos B, linfócitos T e células NK • Precursor mieloide: o Linhagem eritroide / megacariocítica § Hemácias (eritrócitos) § Plaquetas o Linhagem granulocítica / moncítica § Granulócitos • Basófilos • Eosinófilos • Neutrófilos § Monócitos Células presentes na medula óssea Na medula óssea são encontradas diversas células precursoras, sendo que a maioria delas só está fisiologicamente presente nesse local. Células presentes no sangue periférico No sangue periférico (elemento analisado no hemograma) temos principalmente células maduras, tais quais: hemácias, basófilos (formato de brigadeiro), eosinófilos (núcleo bilobulado), monócitos (célula mononuclear sem grânulos no interior do citoplasma), neutrófilos, linfócitos e plaquetas (não é uma célula). A exceção às células maduras é a família dos neutrófilos pois, sendo as células brancas mais abundantes entre os leucócitos, pode ser visto algum grau de divisão celular. Quando aos linfóticos, não é possível a diferenciação entre linfócito B ou T. Classificamo- nos como linfócitos típicos (sem atividade) ou atípicos (em plena atividade, como ocorre na mononucleose, podendo assemelhar-se a outra célula que não um linfócito). Geovana Sanches, TXXIV LEUCÓCITOS São produzidos cerca de 1,5 bilhão de leucócitos por dia. Eles podem ser divididos em granulócitos, monócitos e linfócitos, sendo que cada uma delas tem uma função, visando gerar o complexo sistema de defesa do organismo. No sangue periférico, são encontrados: • Granulócitos ou polimorfonucleares o Neutrófilos ou segmentados o Basófilos o Eosinófilos • Mononucleares o Monócitos o Linfócitos Granulopoiese Os neutrófilos são as células mais prevalentes no sangue periférico e, portanto, as que mais aparecem no hemograma. Fisiologicamente, é possível identificar além do neutrófilo (segmentado), os bastonetes. Em algumas condições patológicas, é possível identificar todos as células envolvidas no desenvolvimento nos neutrófilos (família dos neutrófilos), tais quais: mieloblasto, promielócito, mielócito, metamielócito, bastonete e neutrófilo. Leucograma Item Referência Valor absoluto Leucócitos: 4.000 – 10.000 Blastos 0% 0 Promielócitos 0% 0 Mielócitos 0% 0 Metamielócitos 0% 0 Bastonetes 0 – 8% 0 – 700 Segmentados ou Neutrófilos 40 – 70% 1.500 – 7.000 Eosinófilos 1 – 5% 0 – 450 Basófilos 0 – 3% 0 – 200 Linfócitos 20 – 50% 1.000 – 4.500 Monócitos 2 – 10% 100 – 1.000 Ao analisarmos o leucograma, habitualmente apenas o total de leucócitos é apresentado em número absoluto, sendo o restante visto em porcentagem. Em um leucograma normal, vemos normalmente bastonetes, neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos e monócitos, sendo que quando as demais células aparecem, é necessário a pesquisa de condição patológica. Blastos, promielócitos, mielócitos, metamielócitos, bastonetes e neutrófilos constituem a escala de maturação dos neutrófilos, ou seja, a “família dos neutrófilos”. Eosinófilos, basófilos e linfócitos, apesar de também serem granulócitos, não fazem parte da família. Os blastos encontrados no hemograma podem ser tanto precursores mieloides, quanto linfoides, de forma que para termos certeza que a célula pertence a família dos neutrófilos, iniciamos a pesquisa nos promielócitos. Sempre que presentes, indicam doença na medula. Leucocitose X Leucopenia Leucocitose e leucopenia se referem ao aumento ou diminuição de células brancas, respectivamente (VR: 5.000 a 10.000 millhões/ mm3). Nesse conceito, não há referência à célula responsável por esse fenômeno. Toda vez que encontramos leucocitose ou leucopenia, é de extrema importância avaliar o diferencial de células, verificando quem está sendo responsável por esse aumento ou diminuição. A análise deve ocorrer levando em conta os valores absolutos, e não as porcentagens. Como os neutrófilos são as células de maior prevalência, é comum que a família dos neutrófilos seja o grupo acometido, todavia isso não é uma regra. Reação leucemóide O sufixo “oide” se refere a algo que parece, mas não é. Assim, temos que reação leucemoide, é uma condição que simula uma leucemia. Para sua constatação, considera-se uma leucometria (total de leucócitos) acima de 25.000 a 30.000 células. Ela pode ser mieloide (mais comum, geralmente associada a desvio a esquerda) ou linfoide. Além disso, a fosfatase alcalina leucocitária é alta (importante não confundir com a fosfatase alcalina marcadora do sistema biliar). Atualmente esse exame não é tão utilizado, mas trata-se da dosagem de uma enzima presente no interior do Geovana Sanches, TXXIV linfócito, sendo alta na reação leucemoide e baixa na leucemia. Dentre as causas estão infecções (faringite, cetoacidose grave pneumonia por mycoplasma pneumoniae, piodermite gangrenosa e outras infecções bacterianas graves), desidratação e câncer. O tratamento deve ser feito de acordo com a causa de base. Leucopenia A leucopenia se refere a diminuição da série branca, com valores inferiores a 5000. Está associada a diversas condições clínicas, tais como sepse grave, infecções virais e toxicidade medicamentosa. Como os neutrófilos compõem entre 40 e 70% o total de leucócitos, as leucopenias frequentemente estão mais associadas à neutropenia. GRANULÓCITOS Sob o título de granulócitos tem-se três células ricas em grânulos no citoplasma: neutrófilos, basófilos e eosinófilos. São produzidas na medula óssea e adentram à corrente sanguínea, a partir da qual chegam e se instalam nos tecidos em que irão exercer suas funções. Trata-se das células nucleadas mais abundantes no sangue periférico. NEUTRÓFILOS Os neutrófilos têm como função a fagocitose e destruição de bactérias, sendo o principal componente da imunidade celular. No sangue periférico, apresentam meia vida de sete horas. Esse ataque ao microrganismo ocorre através do sistema de peroxidação intracitoplasmática, no qual há liberação de radicais livres para morte da bactéria. Todavia, ao liberar esses radicais, o neutrófilo envolvido também morre. A partir disso, há formação do pus, o qual é constituído pelos restos celulares e bacterianos. Os neutrófilos marginados sofrem variação durante o exercício, uso de algumas medicações e como resposta ao trauma e agressões. Assim, nem toda neutrofilia é sinal de infecção. Família dos neutrófilos A família dos neutrófilos é constituída pelos seguintes elementos, em ordem de maturação: mieloblasto à promielócito à mielócito à metamielócito à bastonete (bastão) à neutrófilo (segmentado).Ao identificarmos células a partir do metamielócito, ou seja, qualquer uma delas que não seja o neutrófilo ou o bastonete, estamos diante de um processo patológico com desvio à esquerda. Desvio à esquerda O hemograma está “desviado a esquerda” quando há aumento e/ou aparecimento de células jovens da família dos neutrófilos), o que normalmente está associado a leucocitose. A principal causa de desvio à esquerda são as infecções. Esse nome foi instituído devido a um antigo aparelho utilizado para contar os leucócitos, no qual a ordem seguida era de: basófilos, eosinófilos, família dos neutrófilos e linfócitos. Sendo assim, temos desvio a esquerda nas seguintes condições: • Aumento de bastão (acima de 8 a 10%) • Hemograma com bastão (aumentado ou não) + metamielócito • Hemograma com bastão + metamielócito + mielócito e/ou outras formas jovens (promielócitos ou blastos) o O desvio a esquerda se refere, portanto, apenas a família dos neutrófilos!! Geovana Sanches, TXXIV Exemplo de hemograma Tipos de desvio a esquerda O desvio à esquerda pode ser classificado em regenerativo (desvio escalonado) ou degenerativo (desvio não escalonado). à Desvio à esquerda regenerativo • Mantem a ordem de maturação, ou seja: neutrófilos > bastonetes > metamielócitos > mielócitos • É o mais comum e geralmente está presente nas infecções à Desvio à esquerda degenerativo • Não obedece a ordem alguma, ou seja, o número de neutrófilos pode ser normal ou diminuído e ocorre aumento das formas jovens sem manutenção da ordem de maturação • Ocorre normalmente em doenças da medula, como leucemias Desvio à direita O desvio à direita consiste no aumento das formas maduras da família dos neutrófilos (segmentado), sem o aumento concomitante das formas jovens (bastões, metamielócitos, mielócitos, etc...). Ocorre geralmente nas fases finais de uma infecção bacteriana, tendo em vista que as formas jovens que foram lançadas no sangue para conter a infecção irão sofrer maturação. Sendo assim, o termo também se refere aos neutrófilos, não significando o aumento de linfócitos. Ele está em desuso. Neutropenia Neutropenia se refere a redução dos valores dos neutrófilos (< 1500 células). É classificada de acordo com o valor absoluto e não o percentual: • Leve: 1.000 a 1.500 neutrófilos • Moderada: 500 a 1.000 neutrófilos • Grave: menos que 500 neutrófilos o Grande susceptibilidade à infecções bacterianas, tendo em vista que o indivíduo está praticamente sem imunidade inata. • Profunda ou muito grave: menos que 100 neutrófilos o Quando atingem essa condição, os pacientes demoram mais tempo para recuperar a quantidade normal de neutrófilos. Condições associadas a neutropenia • Leucemias agudas • Quimioterapia • Anemia megaloblástica • Doenças reumatológicas • Medicamentos • Infecções virais • Infecções bacterianas / sepse o Em geral, causam aumento de neutrófilo • Síndrome mielodisplásica • Neutropenia cíclica o Vez ou outra o individuo fica neutropênico e isso não tem explicação muito lógica. Ele pode evoluir com episódio febril ou ser assintomático. o Provavelmente relacionado a episódio autoimune. • Neutropenia congênita grave • Neutropenia constitucional o Não é uma condição patológica e não evolui para nenhuma doença medular. o Quando o indivíduo necessita dos neutrófilos, estes aumentam muito rapidamente. Com isso, acredita-se que nessa condição há um aumento de neutrófilos marginados Geovana Sanches, TXXIV o Não há deficiência da imunidade o História familiar § Mais comum em negros (subgrupo sanguíneo associado ao aumento de neutrófilo marginal) o Importância dos hemogramas antigos o Hemograma pós esforço o É um diagnóstico de exclusão, ou seja, tem que excluir todas as outras causas possíveis antes de diagnosticar uma neutropenia constitucional. Neutrofilia Neutrofilia se refere ao aumento do número total de neutrófilos, com valores superiores a 7000 a 8000. Na maioria das vezes está relacionada a leucocitose. Para a contagem, são consideradas todas as células da família, não apenas a célula madura (neutrófilo). Ou seja, devem-se somar as quantidades de segmentados, bastonetes, metamielócitos, mielócitos e promielócitos e mieloblastos. Quando encontramos promielócitos e blastos no sangue periférico, na maioria dos casos, estamos diante de uma situação patológica, em espacial um quadro oncológico. Condições associadas Os achados do hemograma sempre devem ser correlacionados com os achados clínicos. • Infecções bacterianas • Desidratação • Pós-trauma • Reacional • Uso de corticoide • Esplenectomia • Queimaduras • Exercício físico extenuante • Estresse EOSINÓFILOS Os eosinófilos correspondem de 3 a 5% dos granulócitos circulantes. Algumas vezes eles são encontrados em menor quantidade no hemograma, mas isso não tem implicância clínica. São células mais eosinofílicas, com núcleo em ferradura (em rim). Desenvolvem-se na medula óssea, principalmente por estímulo das interleucinas 3 e 5 (IL-3 e IL-5). Eles apresentam atividade pró- inflamatória e citotóxica, estando envolvidos em reações alérgicas, parasitárias e em algumas neoplasias (leucemias crônicas em geral, mas também pode ser LEC – leucemia eosinofílica crônica, a qual é muito rara). BASÓFILO Os basófilos são os granulócitos menos comuns no sangue, correspondendo de 0 a 2% das células. São células mais eosinofílicas e com grânulos grosseiros, assemelhando-se a um “brigadeirinho roxo”. São a principal fonte de histamina no sangue e assim como os eosinófilos, atuam em reações alérgicas, asma, urticária e anafilaxia. MONÓCITOS Os monócitos são células que habitualmente não apresentam grânulos em seu citoplasma (agranulócito). Possuem capacidade fagocitária e de defesa contra microrganismos, constituindo a primeira linha de defesa contra parasitas intracelulares. O tempo de meia vida no sangue periférico é de 8 a 9h, sendo que após esse período eles sofrem apoptose ou entram em algum tecido, transformando-se em macrófagos (célula de vida longa). Em alguns tecidos, os macrófagos recebem nomes específicos. LINFÓCITOS Os linfócitos são fisiologicamente divididos em linfócitos B (imunidade humoral), linfócitos T Geovana Sanches, TXXIV (imunidade celular), células NK (apresentadoras de antígenos) e plasmócitos (linfócitos B maduros, produtores de imunoglobulinas). Apesar dessa classificação, no hemograma verificamos apenas a presença de linfócitos típicos e atípicos, não os diferenciando como da forma mencionada. Os plasmócitos não são encontrados no sangue, apenas na medula óssea e no sistema retículo-endotelial. Linfopoiese Em casos de leucemia, podemos ver linfoblastos no sangue periférico. Caso sejam encontrados também plasmócitos, o prognóstico é ruim. Linfopenia A linfopenia se refere a diminuição na quantidade de linfócitos. Para sua análise, devemos ter cuidado quanto as porcentagens. Nos casos em que há aumento do número de neutrófilos, por exemplo, a porcentagem dos linfócitos estará baixa, todavia, se olharmos o número absoluto, este pode estar normal. Sendo assim, para diagnosticarmos uma linfopenia, devemos verificar se o número absoluto de linfócitos é menor do que 1.000 células. As principais causas para isso são: • Infecção bacteriana ou fúngica (24%); • Pós-operatório de cirurgia de grande porte (22%); • Neoplasias malignas (17%); • Terapia com glicocorticoides (15%); • Quimioterapia (Qt) citotóxica e/ou radioterapia (Rtx) (9%); • Trauma ou hemorragia recente (8%); • Transplante alogênico de medula (7%); • Infecções virais que não o HIV (5%); • Infecção pelo HIV (3%) • COVID-19 Linfocitose A linfocitose se refere ao aumento do número total de linfócitos e assim como no caso acima, devemos ter cuidado com a porcentagem.Considera-se linfocitose quando o número total de linfócitos se encontra acima de 4000 a 5000. As causas de linfocitose podem ser divididas em primárias (clonal) ou secundárias (reacional). Linfocitose primária (Clonal) Linfocitose secundária (reacional) LLC Infecções virais (p. ex. Epstein Barr) Linfomas Outras infecções virais (menos comum) Leucemias agudas Infecção por Bordetella pertussis (não é mais tão vista devido a vacina contra coqueluque) Linfocitose clonal indeterminada Outras ANÁLISE DE HEMOGRAMAS Hemograma I • Diagnóstico: desvio a esquerda sem leucocitose • Neutropenia? Não, neutrófilos total de 3083 • Possível causa: Infecções, sepse grave, corticoide, entre outros Hemograma II Geovana Sanches, TXXIV • Diagnóstico: leucocitose com desvio à esquerda degenerativo ou não escalonado • Há neutropenia? Sim, neutrófilo total igual a 910 • Possíveis causas: LMC (crise blástica ou fase acelerada) Hemograma III • Diagnóstico: leucocitose com desvio a esquerda escalonado • Linfopenia? Não, o valor total de linfócitos é de 3.330. Cuidado com a porcentagem!! • Causas: Desidratação (hemoconcentração), outras causas de leucocitose Hemograma IV • Diagnóstico? Leucocitose com desvio à esquerda escalonado ou regenerativo • Neutropenia? Não, o número absoluto está aumentado (78.195) • Linfopenia? Não, o número absoluto está normal (4.010) Hemograma V • Diagnóstico? Leucocitose as custas de eosinofilia • Neutropenia? Não, valor absoluto normal (5.180) • Causas possíveis: asma grave, reações alérgicas, síndrome hipereosinofílica, LEC (leucemia eosinofílica crônica)