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O TRABALHO DO
ANTROPÓLOGO
OLHAR, OUVIR, ESCREVER
ROBERTO CARDOSO DE OLIVEIRA
1994 (conferência)
1996 (publicação)
INTRODUÇÃO
"Tentarei mostrar como o 'Olhar, o Ouvir e o Escrever' podem ser questionados em si
mesmos, embora num primeiro momento possam nos parecer tão familiares (...);
todavia, num segundo momento - marcado por nossa inserção nas ciências sociais -,
essas 'faculdades' ou, melhor dizendo, esses 'atos cognitivos' delas decorrentes,
assumem um sentido todo particular, de natureza epistêmica, uma vez que é com tais
atos que logramos construir o nosso saber" p. 15
OLHAR
*Apenas o Olhar não seria suficiente. Como alcançar apenas pelo Olhar o
significado das relações sociais? O domínio das teorias se faz indispensável
para o etnógrafo compreender este significado.
*Domesticação teórica do olhar, que permite que certos detalhes não passem
desapercebidos ou mal entendidos.
*A teoria pré-estrutura o nosso olhar e sofìstica a nossa capacidade de
observação.
*Para chegar à estrutura das relações sociais, o etnólogo deverá se valer,
preliminarmente, de um outro recurso de "obtenção dos dados", o Ouvir.
*Ouvir está entrelaçado a Olhar e as disciplinas e seus paradigmas são
condicionantes tanto de nosso Olhar quanto de nosso Ouvir.
*Além da apreensão da realidade imediata (assim como o Olhar), o Ouvir se presta ao
alcance do que os antropólogos chamavam de "modelo nativo", que poderia ser
obtido através da "entrevista". 
*No ato de ouvir o "informante", o etnólogo exerce um "poder" extraordinário sobre o
mesmo, ainda que ele pretenda se posicionar como sendo o observador mais neutro
possível. Cria-se um campo ilusório de interação, devido a este "poder".
OUVIR
*Para haver verdadeiramente um diálogo, seria necessário transformar o "informante"
em "interlocutor".
*Nessa nova modalidade, os horizontes semânticos podem entrar em confronto - o do
pesquisador e o do nativo - se abrindo um ao outro, de maneira a transformar um tal
"confronto" numa interação do tipo "encontro etnográfico".
*Isso desde que o pesquisador tenha a habilidade de ouvir o nativo e por ele ser
igualmente ouvido, sem receio de estar, assim, contaminando o discurso do nativo com
elementos de seu próprio discurso.
ENCONTRO ETNOGRÁFICO
*Tal interação na realização de uma etnografia, envolve, em regra, aquilo que os
antropólogos chamam de "observação participante".
*Observação participante e a relativização seriam como uma "idéia-valor" (idéias e
valores de difícil separação) que caracterizam o fazer antropológico.
*Relativizar seria uma atitude epistêmica para escapar da ameaça do etnocentrismo;
*A observação participante, responsável por caracterizar o trabalho de campo da
antropologia, singularizando-na, ao buscar compreender a sociedade e a cultura do
Outro "de dentro".
*A vivência oferecida pela observação participante cumpre uma função estratégica
no ato de elaboração do texto, uma vez que essa vivência passa a ser evocada
durante toda a interpretação do material etnográfico no processo de sua inscrição no
discurso da disciplina.
OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
*Olhar e o Ouvir (lá) seriam parte da primeira etapa, enquanto o Escrever (aqui) seria
parte inerente da segunda.
*Nesse momento (aqui) que o trabalho cumpriria sua mais alta função cognitiva,
quando textualizamos uma cultura, uma vez que colocamos vidas alheias em nossos
textos, envolto de questões políticas e epistemológicas delicadas.
ESCREVER
*Mais do que uma tradução da "cultura nativa" na "cultura
antropológica", o que realizamos é uma "interpretação" que, por sua
vez, está balizada pelas categorias ou pelos conceitos básicos
constitutivos da disciplina antropológica.
*Os "dados" obtidos sofrem uma nova refração, contaminados pelo
"estar aqui" do ambiente acadêmico.
*Talvez o que torne o texto etnográfico mais singular, quando o
comparamos com outros devotados à teoria social, seja a articulação
que ele busca fazer entre o trabalho de campo e a construção do texto.
O TEXTO ETNOGRÁFICO
*As monografias clássicas tinham uma estrutura narrativa normativa, numa disposição
de capítulos quase canônica (Território, Economia, Organização Social e Parentesco,
Religião, Mitologia, Cultura e Personalidade, etc.)
*As segundas, as monografias que podemos chamar de modernas, priorizam um tema,
através do qual toda a sociedade ou cultura passam a ser descritas, analisadas e
interpretadas, numa apreensão holística.
*Um terceiro tipo seria o das chamadas "monografias experimentais" ou pós-modernas
as quais o autor critica, por um lado, por desprezarem a necessidade de controle dos
"dados etnográficos" e serem excessivamente "intimistas";
*Por outro lado, acha interessante o fato do autor aparecer em primeira pessoa, pois o
autor não deveria se esconder sistematicamente sob a capa de um observador
impessoal, valendo-se do "nós" o tempo todo. Se faz importante uma pluralidade de
vozes e a responsabilidade específica da voz do antropólogo.
O AUTOR NO TEXTO

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