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1 Imunologia – Vitor Benincá 
 
 
 
CONCEITOS 
A nefropatia por IgA (NIgA), também conhecida 
por doença de Berger, trata-se da causa mais 
comum de glomerulonefrite primária por todo 
o mundo, atingindo cerca de 1,3% da população 
O evento inicial na gênese da doença é a 
deposição mesangial de IgA (deposição através 
de ligação com receptores ou pela formação de 
imunocomplexos), sendo esta 
predominantemente polimérica (ou dimérica) e da 
subclasse 1 (pIgA1) podendo ser também 
acompanhada da deposição de IgG e 
complemento C3. Podendo causar o aumento da 
resposta pró-inflamatória no local. 
 
Com o depósito de IgA, há multiplicação das 
células mesangiais e do IgA. A resposta 
inflamatória pode ser mais ativada e causar 
fibrose. 
Células mesangiais = células fagocíticas do 
glomérulo 
Com a progressão do quadro, a atrofia tubular e 
a fibrose intersticial poderão ocorrer (devido ao 
aumento celular), o que contribuirá para um 
desfecho desfavorável do quadro com o 
surgimento de insuficiência renal progressiva. 
Evolução clínica da doença é lenta, mas pode 
levar a insuficiência progressiva. 
A idade é um fator de risco, apresentando maior 
incidência. 
Os doentes podem apresentar qualquer idade no 
início da doença, embora a incidência esteja 
 
 
 
aumentada na segunda e terceira décadas de 
vida 
É mais frequentemente diagnosticada no sexo 
masculino e sabe se que brancos e asiáticos são 
mais propensos a desenvolver a doença do que 
negros 
 
DIAGNÓSTICO 
O diagnóstico final de NIgA é dado apenas pela 
biópsia renal. É difícil um diagnóstico por 
componentes séricos, pois há vários marcadores 
envolvidos que também podem alterar com 
outras doenças. 
As indicações deste exame variam nos diferentes 
países, razão pela qual a verdadeira incidência 
da NIgA é desconhecida 
 
IgA 
A IgA é um anticorpo, representando cerca de 15 
a 20% de todas as imunoglobulinas no soro 
humano 
Encontrada em altas concentrações nas 
mucosas, particularmente nas vias respiratórias e 
trato gastrointestinal além da saliva e na lágrima 
Cada monômero de IgA tem uma estrutura 
básica composta de quatro cadeias: duas leves 
(23 kD) e duas pesadas (50-70 kD), conferindo 
lhe uma forma característica em Y 
 
Monômero 
As cadeias pesadas são ainda constituídas por 4 
domínios, sendo 3 deles constantes e um último 
Nefropatia por IgA 
 
2 Imunologia – Vitor Benincá 
variável. Para formar polímeros as moléculas de 
IgA ligam se entre si através de cadeias J 
 
SUBCLASSES 
A IgA é encontrada na forma monomérica (mIgA) 
ou quando em associação, na forma polimérica 
(pIgA). 
Pode ser dividida em duas subclasses: IgA1 e 
IgA2, sendo que as cadeias leves destas 
moléculas apenas diferem em 22 aminoácidos, 
predominantemente devido à ocorrência de 
deleção de 13 aminoácidos na região de 
dobradiça da IgA 2 
Soro: IgA1 apresenta se majoritariamente 85% 
do total das IgA na sua forma monomérica 
Mucosas: a forma polimérica predomina (cerca 
de 90%, existindo tanto e IgA1 como IgA2, 
dependendo da distribuição das células 
secretoras destas imunoglobulinas pelos tecidos 
correspondentes. 
 
PRODUÇÃO E SECREÇÃO 
As imunoglobulinas são produzidas 
principalmente pelos linfócitos B percursores da 
medula óssea que, após contato com o antígeno, 
originam plasmócitos que produzem IgA de 
ambas as subclasses. 
 
A IgA produzida nas mucosas é rapidamente 
transportada através da barreira epitelial 
adjacente para as secreções externas, sendo 
este transporte mediado pelo receptor polimérico 
da imunoglobulina (pIgR), que é expresso na 
superfície basolateral das células epiteliais e que 
reconhece a cadeia J das imunoglobulinas 
 
O receptor se liga à cadeia J (que liga duas 
imunoglobulinas) e faz a passagem da IgA para o 
seu local de ação. 
Uma vez estabelecida a ligação, o complexo 
pIgR-pIgA é internalizado e secretado na face 
luminal da célula epitelial 
A pIgA transportada retém uma porção do pIgR, 
o componente secretor (SC), formando a IgA 
secretora (sIgA). Uma enzima quebra uma parte 
do receptor para liberar a imunoglobulina. É 
necessário modificar o receptor para ele ser 
novamente usado 
Apesar da produção de IgA ser 
predominantemente nas mucosas, quantidades 
apreciáveis de IgA também são produzidas em 
locais imunes sistêmicos como a medula óssea 
 
3 Imunologia – Vitor Benincá 
com pequena contribuição do baço e gânglios 
linfáticos 
Esta IgA majoritariamente mIgA1 é secretada na 
circulação e por isso, a maioria da IgA sérica 
humana é mIgA1. 
 
FUNÇÕES 
A função maior da IgA é ao nível da defesa 
imunológica 
A pIgA nas secreções mucosas liga se com 
efetividade aos microrganismos ou toxinas, 
neutralizando os e prevenindo a invasão do 
hospedeiro. Ela fica nesse local, pois são os 
principais alvos de entrada de microrganismos ou 
suas toxinas 
A função da IgA sistêmica (a do soro é 
monomérica) não está tão bem compreendida, 
porém sabe se que pode atuar tanto como 
molécula anti-inflamatória, promovendo a down 
regulation das respostas imunes sistêmicas, 
como ao nível da eliminação de antígeno sendo 
parte integrante dos complexos imunes (IC). 
No soro, elas podem se ligar nas toxinas 
bacterianas, formar um complexo e eliminá-las 
(até determinado tamanho pode ser por 
fagocitose). A principal é a monomérica, pois é a 
mais predominante no soro. 
 
HISTÓRICO DA NEFROPATIA POR IgA 
1. Identificada pela primeira vez nos anos 60 por 
Galle e Berger chamada de Doença de Berger 
2. 1962 caracterizada histologicamente pela 
presença de depósitos fibrinóides mesangiais e 
clinicamente por proteinúria e microhematúria 
3. Após dois anos de investigação, Galle 
identifica esses mesmos depósitos mesangiais 
em microscopia eletrônica 
4. 1968 Berger e Hinglais definem, pela primeira 
vez, a doença, através do estudo de 
imunofluorescência do córtex renal, como uma 
nefropatia glomerular por deposição de 
imunocomplexos (IC) de IgA predominantemente 
IgA 1 
 
 
 
DADOS EPIDEMIOLÓGICOS 
A NIgA é a lesão mais comummente encontrada 
como causa de glomerulonefrite primária em todo 
o mundo, atingindo 1,3% da população. 
No início da doença, os doentes podem 
apresentar qualquer idade, embora a incidência 
esteja aumentada na segunda e terceira décadas 
de vida. 
Atinge mais o sexo masculino 
Embora se manifeste em todos os grupos 
étnicos, a razão pela qual brancos e asiáticos são 
mais propensos a desenvolver a doença do que 
negros ainda permanece desconhecida 
 
FISIOPATOLOGIA 
O evento inicial na gênese da NIgA é a 
deposição de IgA no mesangio e em menor 
escala ao longo das paredes dos capilares 
glomerulares, sendo esta predominantemente 
pIgA1. 
Além desta podem encontrar se depósitos de IgG 
e complemento, normalmente C3 que podem 
contribuir para a severidade da doença, pois 
aumenta a resposta inflamatória através da 
cascata do complemento. 
Depósitos de sIgA também já foram observados, 
mas o seu significado patológico ainda 
permanece desconhecido. 
A análise da IgA 1 encontrada nos depósitos 
glomerulares de pessoas com a doença revelou 
uma deficiência em galactose na posição β 1 3 
na qual deveria estar ligada à GalNac 
Esta IgA 1 deficiente pode ser detectada no soro 
em pessoas doentes ao passo que raramente é 
encontrada em controle de pacientes saudáveis. 
Portanto, não é um biomarcador, mesmo que 
seja encontrada, pois outros componentes 
podem ter provocado o aumento. 
Parece ter um perfil autoimune e de um 
desencadeador (componente ambiental = 
infecções bacterianas) 
 
 
 
 
 
4 Imunologia – Vitor Benincá 
CONSEQUÊNCIAS DA FORMAÇÃO DE IGA1 
ANÔMALA E DEPOSIÇÃO GLOMERULAR 
A IgA1 anômala não é capaz, por si só, de causar 
a doença, tendo por isso a contribuição de outros 
elementos. (como o C3). 
Estas imunoglobulinas aberrantes têm, além de 
uma tendência aumentadapara se auto 
agregarem, grande afinidade pela matriz 
extracelular como a fibronectina e o colágeno tipo 
IV e junto com os imunocomplexos favorecem a 
deposição mesangial. 
A forma de IC induz a proliferação mesangial, 
ativação do complemento, alteração da 
expressão das integrinas (moléculas de adesão 
celular) potência a resposta inflamatória e 
aumenta a síntese de componentes da matriz 
extracelular. 
Citocinas e fatores de crescimento como 
interleucina-6, fator transformador de crescimento 
(TGF), e fator de derivado das plaquetas são 
encontrados no soro de doentes portadores de 
NIgA e estão associados também com a 
proliferação mesangial, fibrose túbulo intersticial 
prevendo a lesão do rim. 
A resposta mediada por IgA por parte da mucosa 
também se encontra diminuída quando 
comparada com controles saudáveis. 
Esta hiporresponsividade embora não sendo 
clinicamente relevante, assume aqui grande 
importância pois é um elemento essencial contra 
a hipótese do sistema mucoso ser a fonte de IgA 
patológica.. 
A ativação do sistema do complemento no 
glomérulo aumenta a cascata inflamatória e 
potência o dano tecidual na NIgA. 
Os IC-IgA 1 anômala podem ativar o 
complemento pela via alternativa e a via da 
lecitina. 
Dados de biópsias renais revelaram que C3 é 
normalmente detectado, ao passo que, 
componentes da via clássica como C1q estão 
tipicamente ausentes. 
 
 
 
 
 
HISTOLÓGICOS E IMUNOHISTOLÓGICOS 
Sabe-se que se relacionam diretamente com o 
mau prognóstico renal, independentemente dos 
dados clínicos e laboratoriais. Posto isto, os 
achados com valor foram: 
1. Hipercelularidade mesangial – devido ao 
aumento do número de células 
mesangiais e IgA nessas 
2. Glomeruloesclerose segmental 
3. Hipercelularidade endocapilar 
4. Atrofia tubular ou fibrose interesticial

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