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HISTÓRIA-DA-LOUCURA-E-HISTÓRIA-DO-BRASIL-MANICOMIAL-2

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1 
 
 
HISTÓRIA DA LOUCURA E HISTÓRIA DO BRASIL 
MANICOMIAL 
1 
 
 
Sumário 
NOSSA HISTÓRIA .......................................................................................... 2 
MICHEL FOUCAULT E A “HISTÓRIA DA LOUCURA”: 50 anos transformando 
a história da psiquiatria .............................................................................................. 3 
“Não me diga para permanecer o mesmo”: há um devir-Foucault no 
pensamento contemporâneo .................................................................................. 4 
“Há que se fazer a história desse outro giro de loucura”: o que há de novo e 
revolucionário em Michel Foucault e sua História da Loucura ................................ 8 
História da Loucura na Idade Clássica: loucura e desrazão e nascimento da 
psiquiatria ............................................................................................................... 9 
O grande retângulo botânico e o confinamento do louco .............................. 13 
O antialienismo e a crise da Psiquiatria: do “Mestre da Loucura” à Charcot 
e a ‘produção da verdade’ .................................................................................... 15 
Por determinadas rupturas na reforma psiquiátrica a partir de História da 
Loucura .................................................................................................................... 18 
Entre loucos e manicômios: História da loucura e a reforma psiquiátrica no 
Brasil ........................................................................................................................ 22 
A reforma psiquiátrica no Brasil e as novas concepções ............................... 28 
Remediação com a patologia/transtorno já instalado ao invés de métodos 
preventivos primários. .............................................................................................. 34 
REFERÊNCIAS ............................................................................................. 36 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2 
 
 
 
 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, 
em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-
Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo 
serviços educacionais em nível superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação 
no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. 
Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que 
constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de 
publicação ou outras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
3 
 
 
MICHEL FOUCAULT E A “HISTÓRIA DA LOUCURA”: 50 
anos transformando a história da psiquiatria 
Eis então que História da Loucura na Idade Clássica completa 50 anos e, como 
obra seminal de um pensador à frente de seu tempo, produziu reações contrárias 
violentas, quando foi publicada em 1961; mas podemos dizer que certamente acabou 
se tornando uma das referências mais decisivas para as ciências humanas e 
especialmente para o campo da saúde mental no século XX. 
Dialogando com diferentes áreas do conhecimento acadêmico e científico, tão 
diversas como a história, a filosofia, a política, a psicologia, a medicina, a psiquiatria, 
a psicanálise, a literatura, as ciências humanas em geral e outros campos de 
conhecimento, Michel Foucault foi um crítico feroz do próprio cientificismo e do 
academicismo dominantes no pensamento francês. Além de também ter sido militante 
político através do GIP (Grupo de Informação sobre as Prisões), e ainda, ao menos 
indiretamente, influenciar nos movimentos de defesa dos loucos, dos prisioneiros, dos 
homossexuais. Nesta obra, que se tornou um marco de renovação do pensamento 
do século XX e por meio da qual se inicia a trajetória de sua produção, Foucault traz, 
como estamos propondo neste trabalho, a reflexão sobre uma das chaves que 
fundamentam a constituição das sociedades moderna e contemporânea, o que nos 
permite afirmar que sua obra é essencial para a compreensão do presente. 
Esta chave de reflexão é a questão da loucura vista sob um novo prisma, sob 
uma nova forma de entendimento que abala as estruturas tradicionais do racionalismo 
moderno, e, portanto, de nossas raízes históricas, e do que faz com que 
compreendamos a nós próprios; e mais ainda, abala os fundamentos do pensamento 
filosófico ocidental, e, portanto, transforma nossas possibilidades de reinvenção 
contemporâneas de forma profunda e revolucionária. É preciso, a partir daí, 
problematizar como a questão da Razão é o fio condutor na constituição da 
subjetividade ocidental, para que possamos alcançar a envergadura da crítica que 
Foucault realiza não apenas debruçando-se sobre o campo da psiquiatria, mas, muito 
além, produzindo uma reviravolta em nossa posição diante de nossos costumes, 
nossas tradições, isto é, de nossos modos de existência, nossos modos de viver, 
sentir e estar no mundo. 
4 
 
 
Se Foucault disse que o século XX seria deleuziano, talvez agora possamos 
nos perguntar: Será que, como Nietzsche que ele tanto prezava Michel Foucault não 
é um “póstumo”? Um pensador visionário que intuiu e presentificou as rupturas 
revolucionárias necessárias em seu tempo? E porque não, poderíamos então dizer 
que o século XXI, talvez um dia seja foucaultiano? 
Se bem que, se ouvisse que o século XXI seria “foucaultiano”, provavelmente 
ele poderia citar Zaratustra, “se quiser me seguir, não me siga” – encontre seu próprio 
caminho – ou então dizer: “Não me pergunte quem sou... e não me diga para 
permanecer o mesmo”. 
“Não me diga para permanecer o mesmo”: há um devir-
Foucault no pensamento contemporâneo 
Defendida em 20 de maio de 1961, como tese de doutorado, e publicada no 
mesmo ano, História da loucura na Idade Clássica realiza uma investigação das 
diferentes formas de percepção da loucura no período compreendido entre a época 
do Renascimento e a modernidade, analisando como se chega até à classificação da 
loucura como doença mental. Pesquisando várias fontes distintas, através de tratados 
de medicina e de filosofia, monografias, arquivos contábeis e até obras literárias e 
artísticas, como em Diderot, Bosch e Goya, Foucault também inaugura uma nova 
maneira de pensar a pesquisa histórica, por meio de uma visão crítica da constituição 
da psiquiatria como saber e poder institucionalizados (e como tal, peça-chave do 
Poder Disciplinar), escapando à história da psiquiatria tradicional, que, por sua vez, 
era contada do interior do discurso psicopatológico e seus personagens. 
A obra História da Loucura na Idade Clássica (FOUCAULT, 1978) demonstra 
que antes do século XVII, a loucura possuía outra percepção social. Através das 
artes, dos costumes, da literatura, Foucault vai mostrando uma compreensão própria 
à época clássica que não pode ser caracterizada como erro ou inferior a um saber 
psiquiátrico posterior, pois se constituiu como uma outra forma de relação com a 
loucura (FOUCAULT, 1975). Com o fim do 'Grande Enclausuramento' e o nascimento 
do alienismo pineliano, ocorre a inauguração de uma nova forma de relação com a 
loucura, agora intermediada pela emergência de um saber denominado alienismo ou 
medicina mental, candidato a um estatuto de cientificidade, que seria sempre 
questionado, mesmo quandomais reconhecido sob a forma posterior da psiquiatria e 
5 
 
 
da clínica psiquiátrica. Foucault reflete sobre a existência de uma produção de formas 
de relação com a loucura, mais especificamente a produção da loucura como 
“alienação mental” e posteriormente como “doença mental”, que transformam a 
experiência que se tinha da loucura na época clássica. 
Um dos principais pensamentos de que se utiliza Michel Foucault é a filosofia 
de Friedrich Nietzsche, do final do século XIX. A base para a compreensão da reflexão 
de Foucault sobre a loucura tem grande relação com o pensamento de Nietzsche 
(MARTON, 2001; NAFFAH NETO, 1988). Porque é em Nietzsche que Foucault 
encontra uma crítica da produção de conhecimento que permite escapar ao 
platonismo e à metafísica, isto é, à filosofia da representação. Para Nietzsche, o 
sujeito é uma construção do pensamento, produto de um processo de produção 
conceitual ao longo da história do pensamento (MOSÉ, 1995). Nietzsche também faz 
uma crítica da ideia de sujeito como unidade, questionando este que é um dos 
fundamentos cruciais para a filosofia da representação e o pensamento científico. 
Como Foucault explicita textualmente, no início da primeira conferência de “A 
Verdade e as formas jurídicas”, o método de Nietzsche seria o que melhor se aplica 
às suas análises históricas, porque realiza uma “análise histórica da própria formação 
do sujeito” (FOUCAULT, 2002, p. 13). Por isso, ele não pode ser considerado um 
“filósofo”, no sentido tradicional do termo, já que em Nietzsche ele encontra sua 
‘contra filosofia’, e isto nos leva a um Foucault como historiador, ou pensador, mas 
não filósofo, o que implicaria incluí-lo na história da filosofia, e o mais adequado é 
sem dúvida dizer que tanto Nietzsche quanto Foucault são pensadores que se 
constituem como ‘rupturas’ da história da filosofia e dos sistemas de pensamento, são 
‘marginais’ em relação ao sentido da filosofia socrático-platônica, que representa o 
pensamento filosófico dominante na história do pensamento ocidental. 
Na medida em que há uma base nietzschiana no pensamento de Michel 
Foucault, é possível considerar que, como Nietzsche, Foucault é um pensador que 
rompe com a razão filosófica que busca a verdade absoluta, isto é, rompe com a 
metafísica platônica e certamente, por conseguinte, tanto está em disrupção com o 
racionalismo cartesiano como com o modelo científico moderno (MACHADO, 1986; 
1999). Por isso, há uma espécie de ‘devir-Foucault’ no pensamento contemporâneo. 
Este é o ponto decisivo para uma compreensão do alcance deste pensamento que 
está visceralmente colocado nas análises de História da Loucura na Idade Clássica. 
6 
 
 
O ‘novo arquivista’ (DELEUZE, 1988), que faz um novo tipo de história, é exatamente 
esse que é o “andarilho” capaz de produzir um Pensamento Nômade, um pensamento 
com a potência de “embaralhar os códigos” (DELEUZE, 1985, p. 11), e questionar o 
status quo vigente na filosofia, isto é, romper com o naturalismo e objetivismo da razão 
filosófica e científica, que em seu reducionismo impõe à loucura o estatuto de erro. 
Isso se deu devido à constituição, no interior do racionalismo moderno, de uma 
noção de sujeito do conhecimento em que a razão como fundamento do sujeito, 
garantia sua existência e a revelação da verdade sobre a natureza e sobre o homem 
(FOUCAULT, 2002, p. 10). 
Esta potência na análise arqueológica e genealógica da loucura em Michel 
Foucault confere à sua abordagem um lugar que questiona profundamente os 
fundamentos conceituais que sustentam as sociedades modernas e que silenciaram 
a loucura por quase três séculos. A questão do sujeito é a questão crucial do 
pensamento contemporâneo, que é marcado pelo dilema de colocar a subjetividade 
sob suspeita, isto é, se com a fenomenologia e a psicanálise, por exemplo, o sujeito 
do conhecimento já não é mais garantido por uma unidade e uma interioridade 
capazes de produzir uma continuidade “do desejo ao conhecer”, “da consciência ao 
desvelamento da verdade”, então todo o edifício conceitual da filosofia e da ciência 
estão abalados (FOUCAULT, 2000, p. 18-19). 
Por esses motivos, Michel Foucault em sua História da Loucura na Idade 
Clássica pode ser considerado como profundamente inovador e ousado na 
abordagem realizada, em relação ao pensamento hegemônico sobre a loucura, que 
havia sido criado pela psiquiatria clássica. Há um devir-Foucault navegando no século 
XX, no que diz respeito ao problema da loucura, que percebemos como tema crucial 
para o “século que coloca a subjetividade sob suspeita”, e que produz uma crise 
justamente no seu ‘calcanhar de Aquiles’, que é a relação razão-desrazão como 
sinônimo de acerto-erro, ou normal-anormal, ou ainda, sanidade-patologia. 
O Poder Psiquiátrico, por sua vez, funcionou como controle dos 
comportamentos da sociedade fixando uma norma de comportamento “normal” e a 
noção de anormalidade para enquadrar os desviantes do modelo e adequá-los ao 
padrão ou excluí-los nas instituições de controle e correção. Assim, a questão da 
loucura e sua relação com a Razão, e a captura da loucura como problema médico, 
7 
 
 
na raiz da modernidade, foi ao mesmo tempo uma das bases para o nascimento das 
ciências humanas e uma das bases para a consolidação do próprio capitalismo. Tudo 
isso tem a ver com as análises de História da Loucura na Idade Clássica. 
A constituição da racionalidade cartesiana e da crença na ciência como base 
dos nossos modos de existência e formas de sentir e estar no mundo, produziu efeitos 
que nos atravessam ainda hoje. Quando o sujeito cartesiano é questionado por uma 
nova noção de loucura não mais compreendida como erro, incapacidade e 
periculosidade, escapando então à codificação psiquiátrica da doença mental, somos 
afetados para produzir uma enorme ampliação de nossos significados sobre nós 
mesmos. Em outras palavras, repensar o sujeito a partir de uma nova concepção de 
loucura, nos leva à possibilidade de uma ruptura em relação à herança da tradição 
filosófica e cartesiana, e desta forma, a discussão sobre a “crise do sujeito 
contemporâneo” encontra caminhos e desenvolvimentos antes ignorados para a 
invenção de novas formas de relação entre razão e desrazão. 
Didier Eribon (1990) escreveu uma biografia de Foucault que relata sua 
formação como jovem e a trajetória para que o “Foucault pensador da loucura” 
pudesse forjar a arqueologia e a genealogia em suas obras. Um dos professores 
importantes na juventude, com quem gostava de conversar fora das aulas, chamado 
Dom Pierrot, conversava sobre Platão, Descartes, Pascal, Bergson. Como disse o 
próprio professor, existem dois tipos de alunos, um para os quais a filosofia seria 
questão de curiosidade e orientação sobre os grandes sistemas e grandes obras; e 
outro para quem seria uma questão de inquietude pessoal, de inquietude vital. “Os 
primeiros são marcados por Descartes, os segundos por Pascal” (ERIBON, 1990, p. 
25). Não é por acaso que História da Loucura começa com uma frase de Pascal, no 
famoso prefácio original, que foi retirado posteriormente pelo próprio autor devido a 
controvérsias múltiplas, inclusive o debate com Jacques Derrida (ROUDINESCO, 
1994; FOUCAULT, 1999, p. 268-284). A frase é: “Pascal: ‘Os homens são tão 
necessariamente loucos que não ser louco seria ser louco de um outro giro de loucura’ 
(FOUCAULT, 1999, p. 140). E este outro texto, de Dostoievski, no Journal d’un 
écrivain: “‘Não é isolando seu vizinho que nos convencemos de nosso próprio bom 
senso.’ Há que se fazer a história desse outro giro de loucura [...]” (FOUCAULT, 1999, 
p. 152). 
8 
 
 
“Há que se fazer a história desse outro giro de loucura”: o que há de 
novo e revolucionário em Michel Foucault e sua História da Loucura 
O que leva esta obra, que inaugura a trajetória de Foucault, escrita aos 35 anos 
de idade, a ser um marco fundamentalpara o pensamento contemporâneo? 
Em primeiro lugar, a problematização das relações entre loucura e desrazão a 
partir de um novo entendimento sobre o estatuto da racionalidade, estatuto este 
colocado em questão, incluída a racionalidade psiquiátrica. Isto torna Foucault 
praticamente um “herege” do ponto de vista do poder científico clássico dominante na 
modernidade (FOUCAULT, 1999, pág. 320-323); se insere aí nesta problematização 
a que nos referimos, a questão da produção da verdade pelo médico e pela 
psiquiatria, que chega ao auge e à culminância antes da ‘crise’ da psiquiatria que se 
acirra a partir de então, no final do século XIX, com Charcot. 
Em segundo lugar, em sua História da Loucura, Foucault faz uma crítica ao 
Poder Psiquiátrico, que é analisado como parte das estratégias e táticas dos 
dispositivos de controle do Poder Disciplinar, nos séculos XVIII e XIX, quando da 
constituição do sistema capitalista; é claro que esta proposição tem sentido no 
conjunto da obra de Foucault, mas já esboçado inicialmente que a psiquiatria é uma 
das engrenagens do sistema quando Foucault coloca em questão o poder do médico 
e sua neutralidade; 
Em terceiro lugar, mas não menos importante, encontramos no pensamento 
de Michel Foucault, desde o início, a investigação sobre outras possibilidades de 
compreensão do que é o fenômeno da loucura, abrindo um vasto campo de 
problemas, indagações e perplexidades, para todos os campos com os quais dialoga 
a obra de Foucault, colocando em questão a noção de normalidade de uma forma 
própria. Em outras palavras, aí temos algo que escapa à codificação da loucura como 
doença e à verdade psicopatológica como única autorizada para discursar sobre o 
louco, considerado até então como incapaz de produzir sentido e de viver em 
convivência com os “normais” – daí também a loucura passa a ser vista como mal a 
ser perseguido e extirpado ou purificado – é a ideia de contaminação ou defeito 
associada ao indivíduo desviante considerado anormal; o que se concretiza na 
concepção em Pinel do louco como “alienado mental” e principalmente os 
desdobramentos da noção em Morel de “degeneração mental”. 
9 
 
 
Muitas outras possibilidades de ruptura, que esta obra de Michel Foucault 
realiza, poderiam ser discutidas, certamente, pois suas possibilidades são múltiplas. 
O que mais nos importa aqui é investigar quais são as contribuições de História da 
Loucura para o campo da saúde mental, e sua relevância atual para inspirar e orientar 
a construção de um novo lugar social para o louco e o diferente. A questão 
fundamental para um enfoque crítico em saúde mental passa a ser saber que formas 
de relação com a loucura estão em movimento sendo produzidas, na construção do 
processo de Reforma Psiquiátrica, conferindo coerência histórica, conceitual e prática 
às intervenções nos novos serviços de saúde mental e na implementação de políticas, 
bem como na formação de profissionais que atuam sobre a relação saúde-loucura. 
É importante neste ponto compreender mais profundamente como a história 
de “um outro giro de loucura”, uma história arqueológica e genealógica da loucura e 
sua constituição como doença mental, para desnaturalizar as concepções sobre a 
loucura que capturam sua experiência na forma da doença, sob o poder do médico. 
No momento atual, em que enfrentamos grandes desafios e dilemas complexos no 
campo da saúde mental no Brasil, no contexto de implantação de novos serviços, 
dispositivos e experiências na Reforma Psiquiátrica, a visão de Michel Foucault 
continua sendo uma orientação fundamental e decisiva para fazer frente aos 
movimentos de contra-reforma e contribuir para o avanço da desmanicomialização no 
Brasil, seus atores sociais e políticos e os profissionais e técnicos que estão nos 
embates cotidianos construindo a política de saúde mental em diferentes frentes de 
trabalho. 
História da Loucura na Idade Clássica: loucura e desrazão e 
nascimento da psiquiatria 
Até o século XV, não havia prática de internamento de indivíduos desviantes 
como na Idade Moderna ocorreu, na reclusão dos “anormais” em instituições 
fechadas de controle e vigilância. Talvez a primeira forma de exclusão social de 
indivíduos considerados problemáticos ou marginais, na aurora renascentista, é a 
prática de isolamento da lepra. Mas outros processos históricos ocorreram, 
deslocando a figura do leproso como personagem maldito, e a rejeição que causou 
no imaginário social, para outras figuras sociais que passam a significar este mesmo 
lugar depositário de mazelas e terrores. 
10 
 
 
Ao final da Idade Média, a lepra desaparece do mundo ocidental [...] Durante séculos, 
essas extensões pertencerão ao desumano. [...] A partir da Alta Idade Média, e até o 
final das Cruzadas, os leprosários tinham multiplicado por toda a superfície da Europa 
suas cidades malditas (FOUCAULT, 1978, p. 3). 
Assim começa História da Loucura, se referindo a uma prática de exclusão que 
já existia desde antes do século XV, isto é, a exclusão do leproso. Os leprosários se 
multiplicaram por toda a Europa chegando aos milhares, e só foram regulamentados 
na França no século XVII. Do século XV ao século XVII, no entanto, uma estranha 
regressão da lepra estabelece um vazio por toda parte, nessas cidades malditas “às 
margens da comunidade, às portas das cidades”, isto é, a infecção regride e a doença 
some do horizonte social deixando desabitados esses espaços de exclusão. 
Estranho desaparecimento, que sem dúvida não foi o efeito, longamente procurado, 
de obscuras práticas médicas, mas sim o resultado espontâneo dessa segregação e 
a consequência, também após o fim das Cruzadas, da ruptura com os focos orientais 
de infecção. A lepra se retira, deixando sem utilidade esses lugares obscuros e esses 
ritos que não estavam destinados a suprimi-la, mas sim a mantê-la a uma distância 
sacramentada, a fixá-la numa exaltação inversa. Aquilo que sem dúvida vai 
permanecer por muito mais tempo que a lepra, e que se manterá ainda numa época 
em que, há anos, os leprosários estavam vazios, são os valores e as imagens que 
tinham aderido à personagem do leproso (FOUCAULT, 1978, p. 6). 
Tais espaços de exclusão serão retomados de diferentes formas nos períodos 
históricos seguintes, inicialmente a lepra foi substituída pelas doenças venéreas, mas 
as práticas de exclusão se renovam e se transformam. O poder real no século XVII já 
se utilizava destes locais de recolhimento e depósito de indivíduos por motivos ainda 
ambíguos e variados. 
Desaparecida a lepra, apagado (ou quase) o leproso da memória, essas estruturas 
permanecerão. Frequentemente nos mesmos locais, os jogos da exclusão serão 
retomados, estranhamente semelhantes aos primeiros, dois ou três séculos mais 
tarde. Pobres, vagabundos, presidiários e ‘cabeças alienadas’ assumirão o papel 
11 
 
 
abandonado pelo lazarento [...] Com um sentido inteiramente novo, e numa cultura 
bem diferente, as formas subsistirão” (FOUCAULT, 1978, p. 6-7). 
Porém, as doenças venéreas foram um mal que, diversamente da lepra, “logo 
se tornou cousa médica, inteiramente do âmbito do médico” (FOUCAULT, 1978, p. 
8), surgindo muitos tipos de tratamento, e sob a influência do modo do internamento 
do século XVII, a doença venérea se integrou ao lado da loucura num espaço moral 
de exclusão: 
De fato, a verdadeira herança da lepra não é aí que deve ser buscada, mas 
sim num fenômeno bastante complexo, do qual a medicina demorará para se 
apropriar. Esse fenômeno é a loucura. Mas será necessário um longo momento de 
latência, quase dois séculos, para que esse novo espantalho, que sucede à lepra nos 
medos seculares, suscite como ela reações de divisão, de exclusão, de purificação 
que no entanto lhe são aparentadas de uma maneira bem evidente. Antes de a 
loucura ser dominada, por volta da metade do século XVII, antes que se ressuscitem, 
em seufavor, velhos ritos, ela tinha estado ligada, obstinadamente, a todas as 
experiências maiores da Renascença (FOUCAULT, 1978, p. 8). 
Antes do século XVII, a loucura era polimorfa e múltipla (FOUCAULT, 1975, p. 
76), no horizonte da vida medieval, e sua presença tinha como figuras os bufões e 
espetáculos bizarros errantes, personagens literários e imaginários, indivíduos 
estranhos ou excêntricos, e as naves romanescas ou satíricas literárias, das quais 
uma teve existência real, a Nau dos Loucos (Narrenschiff). A loucura circulava, a 
experiência da insensatez tinha algo de errante e provocava medo e fascínio, mas 
ainda não aparentada a culpas morais. 
Uma nova forma de exclusão se deu por meio de uma nova necessidade de 
ordenação do espaço público. O “Grande Enclausuramento” abrigava prostitutas, 
libertinos, sifilíticos, doentes venéreos, desafetos do Rei, doentes moribundos, 
mendigos, andarilhos, desordeiros, loucos e todo tipo de marginal. No entanto, este 
internamento do louco na época clássica não colocava em questão as relações da 
loucura com a doença, mas sim “as relações da sociedade consigo própria, com o que 
ela reconhece ou não na conduta dos indivíduos” (FOUCAULT, 1975, p. 79), no 
sentido de eliminar a desordem e impor a ordem pública, coerente com o nascimento 
12 
 
 
das cidades e suas consequências. Este mesmo problema se impõe em relação ao 
nascimento da medicina social e o ordenamento urbano, que diante da insalubridade 
produz o “medo da cidade” (FOUCAULT, 1979, p. 87), das doenças e do excesso de 
população. 
A instituição de reclusão e isolamento do indivíduo louco, chamado “asilo de 
alienados mentais”, surge com o ‘ato libertador’ de Pinel ao determinar o fim do 
“Grande Enclausuramento”, instituição dos anciens regimes monárquicos que servia 
ao recolhimento de todo tipo de indivíduo marginal até a Revolução Francesa. 
A prática do internamento, no começo do século XIX, coincide com o momento no 
qual a loucura é percebida menos em relação ao erro do que em relação à conduta 
regular e normal; no qual ela aparece não mais como julgamento perturbado, mas 
como perturbação na maneira de agir, de querer, de ter paixões, de tomar decisões e 
de ser livre (FOUCAULT, 1997, p. 48). 
O novo e revolucionário no novo tipo de história deste “outro giro de loucura”, 
passa pela compreensão de que a loucura não foi revelada em sua verdade essencial 
pelo olhar científico do alienista, “mestre da loucura”, que nada mais fez do que 
acreditar que, através do asilo e do isolamento terapêutico aliado ao tratamento moral, 
seria possível “descobrir a verdade da doença mental”, quando, ao contrário, estava 
produzindo esta mesma verdade, como sujeito do conhecimento forjando um novo 
objeto da medicina e uma nova área de atuação no processo de medicalização da 
sociedade moderna. 
E qual o papel do hospício nesta busca por descobrir a verdade da doença 
mental? Permitir o processo de cura do louco através da intervenção médica: 
Qual é, com efeito, o processo da cura? O movimento pelo qual o erro se dissipa e a 
verdade aparece de novo? Não; mas ‘o retorno das afecções morais nos seus justos 
limites; [...]’. Qual poderá ser, então, o papel do hospício nesse movimento de retorno 
às condutas regulares? Evidentemente, ele terá, de saída, a função que se prestava 
aos hospitais no final do século XVIII; permitir descobrir a verdade da doença mental, 
afastar tudo aquilo que, no meio do doente, pode mascará-la, misturá-la, dar-lhe 
formas aberrantes, mantê-la também e relançá-la (FOUCAULT, 1997, p. 48). 
13 
 
 
O grande retângulo botânico e o confinamento do 
louco 
Sabemos que Pinel foi influenciado por Linnaeu, pai da Botânica, e que o 
alienismo nasce da ideia de que é preciso “nomear para conhecer” – princípio básico 
que sustenta a taxonomia botânica – o que se torna um princípio da própria ciência 
moderna, em seu ideal de cientificidade e neutralidade. A classificação é fundamental 
para a constituição do alienismo como ciência, também chamado de medicina mental 
e que nasce junto ao asilo de alienados mentais, instituição destinada à cura do 
alienado mental que perdeu o juízo de si e o juízo da realidade. O indivíduo louco, 
que perdeu a razão, deve ser isolado no asilo para recuperar a sua razão e livrar-se 
de sua loucura. Com o desenvolvimento da medicina no século XIX, por meio da 
anatomopatologia, da bacteriologia e da neurologia de base biológica, surgem as 
condições de possibilidade para a transformação do saber médico-filosófico do 
alienismo em uma clínica psiquiátrica com base neurobiofisiológica, e o asilo de 
alienados se transformou em hospital psiquiátrico. 
Porém, mais ainda que um lugar de desmascaramento, o hospital, cujo modelo foi 
dado por Esquirol, é um lugar de afrontamento; a loucura, vontade perturbada, paixão 
pervertida, deve encontrar aí uma vontade reta e paixões ortodoxas. O seu face a 
face, seu choque inevitável, que é de fato desejável, produzirão dois efeitos; por um 
lado, a vontade doente, que podia muito bem permanecer incompreensível, já que não 
se exprimia em nenhum delírio, produzirá à luz do dia seu mal pela resistência que 
oporá à vontade reta do médico; e por outro lado, a luta que se estabelece, a partir 
daí, se for bem conduzida, deverá levar à vitória da vontade reta, à submissão, à 
renúncia da vontade perturbada. Um processo, portanto, de oposição, de luta e de 
dominação (FOUCAULT, 1997, p. 48-49). 
O hospital psiquiátrico é a grande “Estufa” para o estudo classificatório da 
alienação mental e a construção de uma clínica da loucura, isto é, sua codificação em 
linguagem médica, e o isolamento terapêutico combinado com o Tratamento Moral 
levam à produção do saber psiquiátrico sobre a loucura e influenciam profundamente 
o campo da psicopatologia, em sua linguagem sobre a doença mental. No entanto, 
14 
 
 
Foucault mostra que um outro giro de loucura atravessa a história desta codificação 
da loucura na forma da doença mental. 
Assim se estabelece a função muito curiosa do hospital psiquiátrico do século XIX: 
lugar de diagnóstico e classificação, retângulo botânico onde as espécies de doenças 
são divididas em compartimentos cuja disposição lembra uma vasta horta. Mas 
também espaço fechado para um confronto, lugar de uma disputa, campo institucional 
onde se trata de vitória e submissão (FOUCAULT, 1979, p. 122, grifo nosso). 
Esta Genealogia da loucura em Michel Foucault permite investigar como o 
alienista efetivamente produz a verdade que ele busca descobrir, através de seu 
saber e da instituição de reclusão; e, neste confinamento da loucura, que é ao mesmo 
tempo conceitual e físico, o médico torna-se o “mestre da loucura”, aquele capaz de 
debruçar-se sobre a irracionalidade e as paixões desenfreadas do indivíduo 
desarrazoado para trazer-lhe à realidade. O alienista é o médico de vontade reta e 
obstinada que dissipa as ilusões do alienado, curando-o de sua perda do juízo, 
devolvendo-lhe a razão perdida e a capacidade de julgamento, de discernimento entre 
loucura e realidade. 
O grande médico do asilo – seja ele Leuret, Charcot ou Kraepelin – é ao mesmo tempo 
aquele que pode dizer a verdade da doença pelo saber que dela tem, e aquele que 
pode produzir a doença em sua verdade e submetê-la, na realidade, pelo poder que 
sua vontade exerce sobre o próprio doente. Todas as técnicas ou procedimentos 
efetuados no asilo do século XIX [...] tudo isto tinha por função fazer do personagem 
do médico o “mestre da loucura”; aquele que a faz se manifestar em sua verdade 
quando ela se esconde, quando permanece soterrada e silenciosa, e aquele que a 
domina, a acalma e a absorve depois de a ter sabiamente desencadeado 
(FOUCAULT, 1979, p. 122, grifo nosso). 
Curiosamente, temos que o mestre da loucura se torna o personagem que, ao 
dominar a loucura, é capaz de produzir a verdade da doença; numa épocaem que a 
competência do médico encontra suas garantias nos privilégios do conhecimento, sua 
intervenção provém de que ele detém um saber científico “do mesmo tipo que o do 
químico ou do biólogo [...] produzindo fenômenos integráveis à ciência médica” (1979, 
15 
 
 
p. 123). Isto significa que no interior da prática médica sobre a loucura, inicia-se a 
crise em seu estatuto de neutralidade que colocou a medicina mental em dissonância 
com o naturalismo da ciência médica em desenvolvimento até então: 
Compreende-se porque durante tanto tempo (pelo menos de 1860-1890), a técnica 
da hipnose e da sugestão, o problema da simulação, o diagnóstico diferencial entre 
doença orgânica e doença psicológica, forma o centro da prática e da teoria 
psiquiátricas. O ponto de perfeição, miraculosa em demasia, foi atingido quando as 
doentes do serviço de Charcot, a pedido do poder-saber médico, se puseram a 
reproduzir uma sintomatologia calcada na epilepsia, isto é, suscetível de decifração, 
conhecida e reconhecida nos termos de uma doença orgânica (FOUCAULT, 1979, p. 
123). 
Ora, estamos aqui literalmente diante da produção da doença mental pelo 
poder médico, e a constatação de que a psiquiatria efetivamente esteve em crise 
desde seu nascimento, pelo menos no que se refere ao seu estatuto de cientificidade 
e sua neutralidade face ao conhecimento objetivo da doença, na sua forma da clínica 
anatomopatológica e a pretensão de transcrever a verdade sobre a doença, nos 
moldes das ciências exatas, e baseado no método experimental. O médico e o asilo 
fazem ‘ver’ e fazem ‘falar’ o louco como doente mental, explicável pelo saber-poder 
médico, esta é a produção da verdade sobre a doença mental. 
Digamos então de uma forma esquemática: no hospital de Pasteur, a função “produzir 
a verdade da doença” não parou de se atenuar. O médico produtor da verdade 
desaparece numa estrutura de conhecimento. De forma inversa, no hospital de 
Esquirol ou de Charcot, a função “produção da verdade” se hipertrofia, se exalta em 
torno do personagem médico. E isto num jogo onde o que está em questão é o sobre-
poder do médico. Charcot, taumaturgo da histeria, é certamente o personagem mais 
altamente simbólico deste tipo de funcionamento (FOUCAULT, 1979, p. 122). 
O antialienismo e a crise da Psiquiatria: do “Mestre da 
Loucura” à Charcot e a ‘produção da verdade’ 
Percebemos finalmente que, se Charcot produz efetivamente a doença que 
quer curar, então há uma ambiguidade no papel do psiquiatra que não será 
16 
 
 
solucionada e será um dos pontos chave das críticas da antipsiquiatria inglesa dos 
anos 60. Mas tal crítica radical da ciência psiquiátrica é muito anterior, e remonta 
senão à sua própria fundação, mas certamente a esse episódio singular na história 
da psiquiatria que é o caso de Charcot e a histeria – inclusive não é por acaso que 
precisamente daí nasce a psicanálise, desta mesma interrogação que se coloca 
quando a psiquiatria se vê diante de suas próprias contradições. 
Hipótese: a crise foi inaugurada, e a idade da antipsiquiatria, que ainda se esboçava, 
começa com a suspeita, logo tida como certeza, de que Charcot produzia efetivamente 
a crise da histeria que descrevia. Tem-se aí um pouco o equivalente da descoberta, 
feita por Pasteur, de que o médico transmitia as doenças que ele devia combater 
(FOUCAULT, 1997, p. 51). 
Se Pinel, como grande “reformador”, já estabelece as bases do saber alienista 
como realização de uma reforma social – do velho regime monárquico violento para 
a nova sociedade livre burguesa – e o estatuto de ciência sempre foi colocado em 
questão na medicina mental, então a psiquiatria sempre esteve às voltas com sua 
crise paradigmática, instalada no seu interior não por acaso, na medida em que se 
converteu no lugar da medicina objetiva na qual se investigou a subjetividade. 
Parece, em todo caso, que todos os grandes abalos que sacudiram a psiquiatria desde 
o final do século XIX colocaram essencialmente em questão o poder do médico. Seu 
poder e o efeito por ele produzido sobre o doente, mais ainda que o seu saber e a 
verdade daquilo que dizia sobre a doença. Digamos, mais exatamente, que de 
Bernheim a Laing ou Basaglia, o que foi posto em questão era a maneira como o 
poder do médico estava implicado na verdade do que ele dizia e, inversamente, a 
maneira como esta podia ser fabricada e comprometida por seu poder (FOUCAULT, 
1997, p. 51). 
Isto quer dizer que a ciência experimental sempre buscou capturar as ciências 
humanas impondo-se como modelo de cientificidade, mas as ciências humanas 
nunca se adaptaram perfeitamente a essa movimento de adequação ao método 
científico das ciências exatas, o que pode ser perfeitamente comprovado quando a 
discussão sobre o ‘problema do método’ nas ciências humanas se inaugura em 
17 
 
 
campos como o da antropologia e da etnografia, ou na sociologia pós-Durkheim, e 
mesmo na fenomenologia e no existencialismo face ao positivismo dominante no final 
do século XIX. Na medicina biológica e organicista, não foi diferente e esta mesma 
crise do método se instala através da medicina mental, em suas formas do alienismo 
e da clínica psiquiátrica. 
Todas as grandes reformas, não somente da prática psiquiátrica, mas do pensamento 
psiquiátrico, se situam em torno desta relação de poder: são tentativas de deslocá-lo, 
mascará-lo, eliminá-lo, anulá-lo. O conjunto da psiquiatria moderna encontra-se 
atravessado, no fundo, pela antipsiquiatria, caso se entenda por antipsiquiatria tudo o 
que coloca em questão o papel do psiquiatra encarregado, antes, de produzir a 
verdade da doença no espaço hospitalar. É possível, portanto, falar das 
antipsiquiatrias que atravessaram a história da psiquiatria moderna (FOUCAULT, 
1997, p. 51-52). 
E na medida em que um confronto trágico com a loucura se torna possível, aí 
sim, “nunca a psicologia poderá dizer a verdade sobre a loucura, já que é esta que 
detém a verdade sobre a psicologia” (FOUCAULT, 1975, p. 85), e talvez um dia 
estejamos em condições deste confronto que se insinua no pensamento 
contemporâneo. Nem despsiquiatrização, nem sobremedicalização, talvez Michel 
Foucault seja um dos que, ao fazer “a história deste outro giro de loucura”, nos dê 
condições para empreender tal jornada, no momento em que a Reforma Psiquiátrica 
se torna cada vez mais potente em suas experiências inovadoras com arte e cultura, 
e que estamos produzindo novos cenários e lugares a partir dos efeitos históricos da 
antipsiquiatria no campo da saúde mental. 
Ora, o que estava implicado, antes de tudo, nessas relações de poder, era o 
direito absoluto da não-loucura sobre a loucura. [...] É esse ciclo que a antipsiquiatria 
se propõe a desfazer: dando ao indivíduo a tarefa e o direito de levar a cabo a sua 
loucura, de levá-la a seu termo, numa experiência que pode ter a contribuição dos 
outros, mas nunca em nome de um poder que lhe seria conferido por sua razão ou 
por sua normalidade [...] invalidando, enfim, a grande retranscrição da loucura na 
doença mental, que havia sido empreendida desde o século XVII e concluída no 
18 
 
 
século XIX. A desmedicalização da loucura é correlativa desse questionamento 
primordial do poder na prática antipsiquiátrica (FOUCAULT, 1997, p. 56). 
Deste modo, temos colocado o problema da liberação da loucura em relação 
a essa forma singular de poder-saber que é o conhecimento, na qual a produção da 
sua verdade se efetue em formas que não sejam as da relação de conhecimento, e 
assim o grande afrontamento trágico da loucura, e ainda que uma psicologia da 
loucura não deixe de ir ao essencial, e encaminha-se para estas “regiões onde o 
homem relaciona-se consigo próprio e inaugura a forma de alienação que o faz tornar-
se homus psychologicus” (FOUCAULT, 1975, p. 85): 
Levada até sua raiz, a psicologia da loucura, seria não o domínio da doença mental e 
consequentementea possibilidade de seu desaparecimento, mas a destruição da 
própria psicologia e o reaparecimento desta relação essencial, não psicológica porque 
não moralizável, que é a relação da razão com a desrazão. É esta relação que, apesar 
de todas as misérias da psicologia, está presente e visível nas obras de Holderlin, 
Nerval, Roussel e Artaud, e que promete ao homem que um dia, talvez, ele poderá 
encontrar-se livre de toda psicologia para o grande afrontamento trágico com a loucura 
(FOUCAULT, 1975, p. 85-86). 
Por determinadas rupturas na reforma psiquiátrica a 
partir de História da Loucura 
Vimos, fundamentalmente a partir de História da Loucura, que a medicalização 
transformou o lugar social do louco e da loucura, pois ela não se restringe à captura 
do louco pela medicina, mas inclui a construção de um contexto ao mesmo tempo 
jurídico, social e cultural de lidar com o louco, a loucura, a diferença e a diversidade. 
A reflexão possibilitada por Foucault nos permite escapar à definição da loucura como 
doença mental, percebendo o processo de constituição desta através de uma análise 
histórica sobre a medicalização e psiquiatrização da sociedade. Escapar à noção de 
doença mental torna-se um dos passos fundamentais para a retomada da 
complexidade do processo saúde-loucura, que se dá através da desconstrução das 
simplificações e conceituações psiquiátricas – processo denominado superação do 
manicômio ou desconstrução do dispositivo psiquiátrico. Enfim, em sua abordagem 
Foucault permite recomplexificar o conceito de loucura no sentido de possibilitar 
19 
 
 
repensar novas formas de relação com a mesma para além da psiquiatria, 
concebendo tais relações em uma dimensão ética e política; o que significa 
estabelecer novas formas de relação com o louco e a loucura, com as experiências 
subjetivas dos sujeitos (TORRE & AMARANTE, 2001). 
Muitas das ideias de Michel Foucault são fundamentais e altamente 
transformadoras para a reforma psiquiátrica. Ideias tais como: a de escapar à noção 
de doença e doença mental para falar sobre a loucura; de tomar a instituição 
psiquiátrica como produtora de certa relação com a loucura – de captura da loucura 
e transformação de sua experiência; do poder em sua dimensão microfísica e uma 
análise micropolítica das relações de poder exercidas cotidianamente nas instituições 
e relações estratégicas nos espaços sociais e seus discursos legitimados, o que 
coloca um novo lugar para o profissional e o técnico, lugar ético e político de mudança; 
e de romper com a medicalização e psiquiatrização da sociedade como processos de 
dominação do corpo, substituindo a fórmula doença-cura e o ideal de “reparação do 
dano” pela noção de produção de subjetividade e reprodução social dos sujeitos e da 
cidadania; e finalmente, a da possibilidade de superar um dos principais problemas 
que toda Reforma Psiquiátrica precisa enfrentar: o da reedição de velhos modelos 
como aparência de novos modelos, isto é, a humanização e reformação de velhas 
práticas psiquiátricas tidas como novas e transformadoras. Este é o risco do 
aggiornamento (CASTEL, 1978); em outras palavras, da redução da Reforma 
Psiquiátrica a um mero processo técnico e administrativo, ao invés de fazer com que 
seja um processo político-social e cultural de mudança. 
Para o campo da saúde mental, é de fundamental importância a distinção entre 
uma Reforma Psiquiátrica de caráter meramente técnico-assistencial e uma Reforma 
Psiquiátrica enquanto um processo social complexo, na qual os atores são sujeitos 
políticos voltados para a construção de cidadania e transformação cultural das formas 
de relação com a loucura e com a saúde (AMARANTE, 2011). Esta questão reafirma 
a relevância da obra de Foucault, muito particularmente de História da Loucura, que 
se torna uma ferramenta fundamental para que a Reforma Psiquiátrica seja um 
processo social complexo, isto é, orientado por determinadas rupturas que, somente 
após História da Loucura, tornou-se possível vislumbrar: ruptura com o modelo 
epistêmico da psiquiatria e, fundamentalmente, com seus principais conceitos, tais 
como os de doença mental, periculosidade e alienação, ainda presentes no saber e 
20 
 
 
na prática efetiva da psiquiatria; com o princípio do isolamento, seja enquanto ato de 
conhecimento seja enquanto ato terapêutico; com o asilo como instrumento de cura, 
como lugar de tratamento moral, pedagogia da ordem e da sociabilidade; ruptura com 
o modelo terapêutico médico-psicológico do tratamento como normalização. 
No Brasil, em relação ao campo da Saúde Coletiva e particularmente da 
Reforma Psiquiátrica, a influência de Michel Foucault é bastante vigorosa. Seu 
pensamento teve grande repercussão política nos meios acadêmicos, pois fazia 
críticas profundas aos modelos sociais usando argumentos fundamentados na 
filosofia e na história, com uma nova visão num discurso válido academicamente. A 
disseminação de suas ideias no ambiente agitado dos meios institucionais e 
acadêmicos dos anos 60 e principalmente 70 e 80, no caso do Brasil, produziu novas 
gerações críticas na formação superior e profissional do país, notadamente na área 
de saúde pública, e em ciências sociais e humanas de forma geral. No caso da 
Reforma Psiquiátrica, isso se radicaliza, ao ponto de podermos afirmar que Foucault 
e Basaglia (2005) são as principais referências, mas não únicas, para o surgimento 
de um movimento antimanicomial no Brasil, pelo menos quanto à formação 
intelectual. Se é possível encontrar alguma novidade no campo da psiquiatria no 
Brasil, nos últimos 30 anos, isto está diretamente associado a Foucault e Basaglia, 
lembrando, inclusive, que ambos estiveram no Brasil mais de uma vez, e que suas 
presenças tiveram grande importância no fortalecimento e na criação de novos grupos 
e ideias, produzindo mudanças na realidade manicomial brasileira. 
Alguns dos principais nomes ligados à produção intelectual da Reforma 
Psiquiátrica no Brasil tiveram influência do pensamento de Foucault, bem como ele 
foi largamente utilizado em instituições de pós-graduação em ciências sociais e 
humanas, em Saúde Coletiva e Saúde Pública, e em instituições de luta e 
transformação na saúde pública brasileira, como o CEBES e a ABRASCO, focos de 
resistência do movimento de Reforma Sanitária desde os anos 70, que, por sua vez, 
foi fundamental para que se tornasse possível formular e iniciar a implementação do 
Sistema Único de Saúde (SUS), e ainda em curso. Os movimentos transformadores 
em Saúde puderam vislumbrar alternativas ao modelo médico hegemônico (modelo 
hospitalocêntrico, assistencialista, curativista, especialístico, individualista) para além 
das políticas preventivistas, higienistas e comunitárias, únicas saídas disponíveis até 
então. Foucault levava à revisão do hospital como instituição de saúde (pois são 
21 
 
 
instituições de doença) e também dos programas comunitários e preventivos (como 
estratégias de normalização e expansão do controle médico oficial). 
A própria expressão “Reforma Psiquiátrica” torna-se inadequada, a partir de 
Foucault e Basaglia, pois não representa as propostas mais radicais de 
transformação, assim como torna-se necessário superar a própria noção de “saúde 
mental”, como processo de normalização e construção de “sujeitos ideais”, de 
produção de certa normalidade psicológica e social construída pelo mesmo 
referencial psiquiátrico-psicológico fermentado nos muros do manicômio. Foucault 
nos leva a um questionamento radical: da clínica, psicopatologia e das terapias como 
forma de relação privilegiada com os sujeitos; e do poder psiquiátrico e das 
instituições de confinamento dos desviantes, não apenas como instrumentos de 
repressão e exclusão, mas também como produtores de uma forma de relação que 
inclui toda a sociedade, moldando seus pensamentos e valores no lidar com a 
loucura. Não basta lutar contrao internamento do louco; para “abater a espessura 
dos muros” do manicômio, como diz Basaglia, é preciso efetivamente superar os 
conceitos fundantes da psiquiatria, caso contrário veremos prevalecer em práticas 
não-manicomiais e fora do hospital psiquiátrico o saber originalmente manicomial da 
psiquiatria. Após História da Loucura, não é mais possível falar em humanização ou 
modernização do hospital psiquiátrico. É possível falar em negação da instituição 
manicomial, e não menos que isso. 
Isto significa que podemos afirmar que o pensamento crítico em Saúde Mental 
no Brasil, formado nos últimos 30 anos e fundamental para o processo de Reforma 
Psiquiátrica brasileira, hoje com conquistas importantes, teve influência decisiva e 
irrefutável dessa obra fundante que é História da Loucura na Idade Clássica e do 
pensador e militante Michel Foucault. Considerando a relevância da experiência 
brasileira de Reforma Psiquiátrica como um processo fundamental de transformação 
na América Latina, tanto em envergadura quanto em resultados e importância política, 
valorizada em todo o mundo no campo da Saúde Mental, temos Foucault como 
elemento chave da constituição deste pensamento crítico em Saúde Mental no Brasil. 
Pensamento que tem críticas centrais, como diferenciar “desospitalização” de 
“desinstitucionalização”, sendo que esta vem a ser mais do que a simples retirada do 
hospital, constituindo-se como processo de produção de políticas, participação social 
e mudança cultural na superação da doença mental e sua tecnologia. Outras críticas 
22 
 
 
são a de recolocar o papel do profissional e do sujeito louco, como atores políticos 
para além da relação de poder que define os papéis do psiquiatra “mestre da loucura” 
e do louco objeto, buscando construir cidadania; e de trabalhar com o sujeito no 
território, nos bairros, na comunidade, saindo do lugar técnico e objetivo e dos moldes 
de consultório, consultas médicas e psiquiátricas e diagnóstico psicopatológico 
fechado. Ideias que só são possíveis quando se faz um novo tipo de história, uma 
nova História da Loucura, de que foi precisamente Foucault um dos artífices de maior 
importância. Nossa história brasileira também muda muito com essa contribuição 
marcante e ainda inspiradora para continuar transformando a história da psiquiatria 
contemporânea, o lugar do louco e do diferente e o nosso próprio lugar de “normais”. 
Entre loucos e manicômios: História da loucura e a 
reforma psiquiátrica no Brasil 
 
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2001), cerca de 450 milhões 
de pessoas, no mundo, padecem de enfermidades neuropsiquiátricas, como 
transtornos mentais ou neurobiológicos, ou então problemas psicossociais como os 
relacionados com o abuso do álcool e das drogas, atingindo prevalência pontual ao 
redor de 10%. Além disso, aproximadamente 24% de todos os pacientes atendidos 
por profissionais de atenção primária têm um ou mais transtornos mentais. 
O sofrimento psíquico para a sociedade exibe uma ideia de incapacidade e 
improdutividade, causando vergonha em familiares e pessoas próximas com relação 
à condição do sujeito que sofre (VECCHIA; MARTINS, 2006). O preconceito a partir 
desse sofrimento ocorre não só na sociedade de forma geral, mas até dentro das 
próprias instituições que o recebem – manicômios/hospitais psiquiátricos –, e de 
hospitais gerais, principalmente. São produzidas representações sociais que “[...] 
impregnam a maioria de nossas relações estabelecidas, os objetos que nós 
produzimos ou consumimos e as comunicações que estabelecemos” (MOSCOVICI, 
1961/1976 apud MOSCOVICI, 2003, p. 10). Estigmatiza-se o paciente, considerando-
o um perturbado ou que perdeu o juízo – uma substância simbólica que o adjetiva 
negativamente. 
23 
 
 
As obras de Michel Foucault apresentam uma tese geral de que, “[...] ‘a loucura 
não é um fato da natureza’, mas da civilização [...]” (SANDER, 2010, p. 382). A 
sociedade carrega esse preconceito até a atualidade, onde mesmo com os 
acontecimentos históricos recentes da psiquiatria, como a Reforma Psiquiátrica, as 
concepções remotas de loucura ainda estão impregnadas na civilização atual. A partir 
dessa leitura, é perceptível, também, que a loucura é uma produção social histórica, 
mediada em grande medida por discursos, práticas e produções de representações 
sobre o estado de saúde mental dos pacientes. 
A Reforma Psiquiátrica, partindo dessa concepção, tem como foco as 
intervenções e trabalhos específicos, equipes multi e interdisciplinares; e a mudança 
do conceito/visão de loucura e de hospitais psiquiátricos como manicômios, 
apontando uma melhoria na qualidade de vida e conquista ao que se refere em termos 
de cidadania aos pacientes psiquiátricos (RAMMINGER, 2002). Tal movimento trata-
se, também, de uma produção social marcada pelas demandas atuais da saúde e 
sociedade em nosso tempo presente. 
A partir desse cenário, este artigo traz como proposta: a discussão da história 
da loucura – juntamente com o surgimento dos manicômios/hospitais psiquiátricos –, 
relacionando os discursos instituídos em práticas clínicas, e compreendendo a 
influência de um dos principais movimentos contra a estruturação e atuação dos 
profissionais envolvidos – a Reforma Psiquiátrica – nas concepções acerca da loucura 
na atualidade. 
HISTÓRIA DA LOUCURA 
A história da loucura, segundo Michel Foucault e sua obra História da 
Loucura(2012), apresenta o domínio da razão sobre a desrazão, situando a razão 
como norma, e levando a loucura ao exílio. Foucault traz que tudo o que foi feito 
contra a loucura – exclusão etc. –, é onde podemos encontrar o caminho para a razão; 
ou seja, a razão se fortalece a custa da desrazão. Segundo Sander (2010, p. 383), 
Contrariamente a uma história tradicional da psiquiatria, que nos reenvia às 
(supostas) origens de uma loucura imemorial (grega, quiçá egípcia...), Foucault nos 
mostra uma loucura cozinhada lentamente no caldeirão da história ocidental posterior 
ao Renascimento. Vemos, pois, como o horror, o temor e a admiração provocados 
pelos loucos à época da Stultifera Navis (Naus dos Insensatos) irão lentamente se 
24 
 
 
transformando na perscrutação da verdade do sujeito através da doença mental no 
século XIX. Pois o estabelecimento do homem de razão, que foi levado a cabo, 
sobretudo, a partir do final da Renascença, não se fez segundo um suposto progresso 
natural da raça humana, nem por meios do esclarecimento e da aceitação. Não foi 
sem violência e exclusão que a Razão se estabeleceu no cenário ocidental. 
Essa representação histórica, do conceito de loucura, está intimamente 
relacionada ao surgimento dos manicômios – posteriormente chamados hospitais 
psiquiátricos –, ambos estão ligados aos períodos de diferentes épocas históricas, 
sendo dividida por Pessotti (1994 apud RAMMINGER, 2002) em períodos: 
antiguidade clássica (pensadores gregos); séculos XV e XVI (exorcistas); séculos 
XVII e XVIII (enfoque médico); e o século XIX (manicômios). 
Com a antiguidade clássica, até a era cristã, a loucura era vista sob alguns 
enfoques: o de Homero com um enfoque mitológico-religioso; o de Eurípedes com a 
concepção passional ou psicológica; e o de Hipócrates e Galeno com o as disfunções 
somáticas (RAMMINGER, 2002). Na idade média iniciou-se a predominância da 
loucura como possessão diabólica feita por iniciativa própria ou a pedido de alguma 
bruxa. Havia duas possibilidades de possessão, sendo a primeira o alojamento do 
diabo no corpo da pessoa, e a segunda a obsessão, na qual o demônio altera 
percepções e emoções da pessoa. 
Com o passar do tempo o enfoque diabólico foi descartado, prevalecendo a 
influência de Hipócrates e sua teoria patológica, na qual o delírio era marca da 
insanidade, sendo as perturbações intelectuais a condição principal para o 
diagnóstico da loucura. Assim, em 1801, inaugurou-se a psiquiatriacomo 
especialidade médica a partir do Tratado Médico-Filosófico sobre Alienação Mental 
elaborado por Pinel (RAMMINGER, 2002). De acordo com Roudinesco (1998), logo 
após a saída do universo da religião e da magia, o fenômeno da loucura começou a 
ser abordada a partir de três maneiras: 
[...] a primeira consiste em introduzi-la no quadro nosológico construído pelo saber 
psiquiátrico e considerá-la uma psicose (paranoia, esquizofrenia, psicose maníaco-
depressiva); a segunda vida elaborar uma antropologia de suas diferentes 
manifestações de acordo com as culturas [...] a terceira, finalmente, propõe abordar a 
questão pelo ângulo de uma escuta transferencial da fala, do desejo, ou da vivência 
25 
 
 
do louco (psiquiatria dinâmica, análise existencial, fenomenologia, psicanálise, 
antipsiquiatria). (ROUDINESCO, 1998, p. 478). 
A loucura seria definida como o outro da razão, ou seja, popularmente aquele 
que é extravagante, perturbado ou que perdeu o juízo. Ou mesmo foi definida como 
“desarranjo das funções mentais, notadamente as intelectuais, rejeitando, inclusive, 
as explicações organicistas” (PINEL apud RAMMINGER, 2002, p. 113). Porém, como 
já foi dito anteriormente, a concepção de loucura sofreu diversas mudanças com o 
passar dos séculos. 
Assim, Michel Foucault (1978, p. 214 apud ENGEL, 2001) aponta as diferenças 
de concepções entre os séculos XVII/XVIII e o XIX sobre loucura e doença: "Pode ser 
que, de um século para outro, não se fale 'das mesmas doenças' com os mesmos 
nomes, mas isso é porque, fundamentalmente, não se trata 'da mesma' doença”. A 
passagem da loucura à doença mental reflete as mudanças nas concepções de 
loucura, embora as heranças de outros tempos – começo/início – não são totalmente 
abandonadas, implicando também em diferenças (O’BRIEN, 1992, p. 49 apud 
ENGEL, 2001). 
O enfoque a partir do século XIX passa a ser o tratamento/diagnóstico da 
loucura, dando espaço, principalmente, a clínica. De acordo com Castro (2009, p. 80), 
“[...] não é uma ciência [...] é o resultado de observações empíricas, ensaios, 
prescrições terapêuticas, regulamentos institucionais”. Trata-se de uma concepção 
discursiva, a partir das obras de Michel Foucault, que trazem a ideia de que a clínica 
responde a uma reestruturação das formas do ver e do falar. 
Pinel trouxe o diagnóstico implicado na observação prolongada, rigorosa e 
sistemática das transformações biológicas, mentais e sociais do paciente, que eram 
realizadas dentro no manicômio – que passou da condição de asilo onde se abriga, 
para a condição de cura/tratamento. Mas, apesar da rápida repercussão na Europa, 
a doutrina de Pinel foi logo ofuscada pelo emprego inadequado do tratamento, porém, 
aumentou-se o interesse pela explicação e tratamento da loucura a partir de modelos 
organicistas. Com a volta da visão organicista na prática psiquiátrica, o manicômio 
deixa de ser recurso terapêutico, e volta a ser um instrumento de segregação social 
26 
 
 
(RAMMINGER, 2002). 
A visão organicista teve como consequência o surgimento de diversos tratados 
médicos sobre a loucura, tracejando modalidades de medicalização, e na situação de 
internamento. “A loucura passa a ser objeto de uma percepção mais médica e as 
práticas a respeito dos insanos começam a diferenciar-se das que se destinam aos 
outros reclusos” (CASTEL, 1978 apud ENGEL, 2001, p. 89). Ou seja, inicia-se uma 
nova experiência da loucura a partir da virada do século XVIII para o XIX, atribuindo-
lhe uma especificidade. A loucura seria concebida como uma doença, como um objeto 
de conhecimento e de intervenção exclusivos do médico (ENGEL, 2001). O momento 
histórico de medicalização e exclusividade do poder médico nos traz uma reflexão 
sobre os novos significados para a sociedade e para a psiquiatria. 
A medicalização não significaria apenas “a simples confiscação da loucura por um 
olhar médico”, mas, principalmente, a “definição, através da instituição médica, de um 
novo status jurídico, social e civil do louco”, transformando-o em alienado e fazendo 
da loucura uma “problemática indissociavelmente médica e social”. (CASTEL apud 
ENGEL, 2001, p. 90). 
Desse modo, podemos perceber, a partir do histórico da loucura, as diferentes 
funções do manicômio. A função mais antiga é a de recolher os loucos, juntamente 
com outras minorias, isolando-os em edifícios antigos mantidos pelo poder público ou 
por grupos religiosos (RAMMINGER, 2002). Em seguida, surgiram as instituições 
hospitalares com objetivo de realizar tratamento médico, porém os funcionários 
responsáveis não tinham formação médica, muitas vezes eram religiosos. E a partir 
do século XIX surgiram as instituições que acolhiam apenas doentes mentais, 
oferecendo tratamento médico especializado e sistemático em instituições chamadas 
de manicômios. 
As condições dessas instituições manicomiais eram precárias e a maioria dos 
pacientes não tinha diagnóstico de doença mental (loucura). Os pacientes eram, “[...] 
epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava, gente que 
se tornara incômoda para alguém com mais poder” (ARBEX, 2013, p. 14). Além disso, 
comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, eram espancados, morriam de frio, de fome, 
de doença (ARBEX, 2013). Paradoxalmente, essas instituições justificavam suas 
27 
 
 
práticas com o argumento da necessária limpeza social, livrando a sociedade de 
sujeitos considerados como parte de uma categoria social de desprezíveis e 
desajustados cujos comportamentos eram indesejáveis. As instituições manicomiais, 
portanto, exerciam a função social de disciplinar corpos e comportamentos. Era uma 
tecnóloga de poder que visava a atender aos padrões de civilidade produzidos na 
modernidade. 
A partir da propagação dessas instituições manicomiais, percebe-se também 
a influência do pensamento de Descartes, que identificou o pensamento como 
condição para a existência. Ou seja, a razão e o juízo são condições para o homem 
cuidar de si. Com a Revolução Francesa, evidencia-se a valorização de uma 
sociedade gerida por homens e pela razão, e assim iniciam-se, segundo Pitta (1996 
apud VASCONCE-LOS, 2008, p. 50), “[...] a proteção da sociedade, calcada na ideia 
de periculosidade do louco, e a proteção do doente, asserção que os extremos da 
curva de normalidade necessitariam de assistência”. Desse modo, torna-se 
perceptível a desvalorização da desrazão, e a propagação de assistências, como os 
manicômios/hospitais psiquiátricos, aos ditos “loucos”. 
Segundo Ramminger (2002), a partir do século XIX a defesa da existência de 
instituições manicomiais domina toda a Europa, e foi considerado como a modalidade 
terapêutica mais eficaz, apesar do reconhecimento dos pontos negativos como 
violência, isolamento e as práticas coercitivas que eram justificados como um mal 
necessário. Michel Foucault traz uma discussão em sua obra História da Loucura 
relacionando a violência existente nessas instituições com a influência dessa visão 
para a psiquiatria. 
Entende que essa insistência na violência que reenvia a força bruta, desequilibrada, 
passional, física e irregular pode obstruir uma compreensão das relações de poder 
calculadas, racionais e medidas que caracterizam a psiquiatria. O poder, assim como 
a violência, se refere ao corpo, toma ao corpo como objeto, mas ele não responde a 
forças irracionais e confusas. (CAPONI, 2009, p. 97). 
No Brasil, o primeiro manicômio/hospital psiquiátrico foi criado em 1852, nesse 
caso, o Hospício D. Pedro II na cidade do Rio de Janeiro. Em 1912 foi promulgada a 
primeira Lei Federal de Assistência aos Alienados, seguindo do ganho de status de 
28 
 
 
especialidade médica autônoma aos psiquiatras, aumentando o número de 
instituições destinadas aos doentes mentais. Podemos perceber com a criação dessa 
estrutura manicomial, a preocupação com a criação de espaços de poder disciplinarespor meio de hospitais ou clínicas especializados (CAPONI 2009, p. 96). A disciplina 
instituída nessas instituições também produzia socialmente a normalização de 
comportamentos, sendo estes passíveis de intervenção do saber psiquiátrico, 
atuando na higienização social. Nessa direção, outros dispositivos disciplinadores 
foram criados, a exemplo de nossas instituições de saber, leis e decretos, orientando 
práticas médicas no tratamento da loucura. 
Em 1926, é criada a Liga Brasileira de Higiene Mental – importante testemunho do 
pensamento psiquiátrico brasileiro. Finalmente, em 1934, o Decreto 24.559 
promulgava a segunda Lei Federal de Assistências aos Doentes Mentais [...] 
determinando o hospital psiquiátrico como única alternativa de tratamento. 
(RAMMINGER, 2002, p. 114). 
A partir de então houve um aumento de 213% da população internada em 
manicômio/hospital psiquiátrico do Brasil (CERQUEIRA apud RAMMINGER, 2002). 
Essa concepção de saúde mental a partir de instituições manicomiais que instituíam 
um regime de disciplina de comportamentos indesejáveis à sociedade prevaleceu até 
os anos 1980 no Brasil. 
A reforma psiquiátrica no Brasil e as novas concepções 
Após a 2ª Guerra Mundial, surgiram na Europa e Estados Unidos, movimentos 
contrários a então tradicional forma de tratamento da loucura. Citamos como exemplo, 
o Movimento Institucional na França e as Comunidades Terapêuticas na Inglaterra, 
que culminaram em movimento mais amplo de antipsiquiatria. Defendiam 
perspectivas humanistas sobre a saúde mental (GOULART, 2006). 
A emergência dessa reforma no Brasil iniciou-se no final da década de 1970, 
com a constituição do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), a 
partir de denúncias contra as violências em asilos e as péssimas condições de 
trabalho dentro dos manicômios/instituições psiquiátricas. (ZAMBENEDETTI; SILVA, 
2008). Apesar de não haver uma influência direta de Michel Foucault nesse processo 
29 
 
 
de reforma na psiquiatria, é inegável a importância das ideias e obras desse 
pensador, já citadas anteriormente (SANDER, 2010). 
No Brasil as redes assistenciais eram ofertadas de forma massiva, nos anos 
1960 até a década de 1980, sustentada por recursos advindos da unificação da 
Previdência Social (GOULART, 1992, apud GOULART, 2006). Essa rede trabalhava 
com modelos terapêuticos precários, com uso abusivo de psicofármacos e com o 
isolamento dos doentes mentais em manicômios. As consequências foram inúmeras, 
como a superlotação, erros médicos, índices de mortalidade e segregação dos 
usuários (GOULART, 2006). Esta situação se baseava na legislação de 1934, 
composta pelos artigos 9º, 10º e 11º, que ficou em vigor no Brasil até o ano de 2000, 
e nos termos de Figueiredo (1988 apud GOULART, 2006, p. 5): 
Art. 9° Sempre que, por qualquer motivo, for inconveniente a conservação do 
psicopata [doente mental] em domicílio, será mesmo removido para estabelecimento 
psiquiátrico. Art. 10°O psicopata ou indivíduo suspeito que atentar contra a própria 
vida ou de outrem, perturbar ou ofender a moral pública, deverá ser recolhido a 
estabelecimento psiquiátrico para observação ou tratamento. Art. 11° A internação de 
psicopatas, toxicômanos e intoxicados habituais em estabelecimentos psiquiátricos, 
públicos ou particulares, será feita: a) por ordem judicial ou requisição de autoridade 
policial; b) a pedido do próprio paciente ou por solicitação do cônjuge, pai ou filho ou 
parente até quarto grau, inclusive, e, na sua falta, pelo curador, tutor, diretor de 
hospital civil ou militar, diretor ou presidente de qualquer sociedade de assistência 
social, leiga ou religiosa, chefe de dispensário psiquiátrico ou ainda por alguns 
interessados, declarando a natureza de suas relações com o doente e as razões que 
determinantes da sua solicitação. 
As internações ocorriam de forma automática e arbitrária, ou seja, uma 
verdadeira autorização de sequestro, privando o paciente de liberdade, mantendo-o 
em cativeiro. Com o decorrer das reivindicações, ainda nesse período, ocorreu um 
incentivo a multiprofissionalidade dentro dos hospitais psiquiátricos, sendo um ponto 
central a entrada do profissional de psicologia na saúde pública. Ocorreu, então, a 
implementação de ambulatórios juntamente a um modelo preventivista. Porém, na 
prática, o modelo começou a demonstrar fragilidade e incapacidade ao processo de 
30 
 
 
desospitalização, como a intensificação de sintomas e o atendimento a grupos de 
pais (ZAMBENEDETTI; SILVA, 2008). 
Tal período provocou reivindicações trabalhistas, gerando discussões acerca 
do tratamento psiquiátrico no Brasil, que teve como consequência a demissão de 
estagiários e profissionais grevistas (AMARANTE, 1995, apud VASCONCELLOS, 
2008). A partir de então, iniciaram grandes eventos para discussão do tema, tais como 
o V Congresso de Psiquiatria, o I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e 
Instituições, o III Congresso Mineiro de Psiquiatria. No entanto o Movimento da Luta 
Antimanicomial no Brasil surgiu de forma mais clara a partir do I Encontro Nacional 
de Trabalhadores da Saúde Mental em 1987, cujo lema era “por uma sociedade sem 
manicômios”. Segundo Rotelli (apud RAMMINGER, 2002, p. 115), foi defendido neste 
evento: 
Eliminar os meios de contenção presentes no tratamento, reestabelecer a 
relação do indivíduo com seu próprio corpo, reconstruir o direito e a capacidade de 
uso da palavra e dos objetos pessoais, produzir relações, espaços de interlocução, 
restituir os direitos civis, eliminando a coação, as tutelas judiciais e o estatuto da 
periculosidade, reativando uma base de inserção para poder ter acesso aos 
intercâmbios sociais. 
 
A exclusividade do saber-poder do médico já havia sido contestada por Michel 
Foucault em sua obra Microfísica do Poder (2012). Nela o autor critica o 
enclausuramento da loucura sustentado pelo poder médico, nos chamando a atenção 
de que papel do médico passa a ter uma relação de poder muito específica, pois em 
sua aplicação/atuação encontra-se a verdade sobre a doença. A institucionalização 
da loucura – composta por um território e por um poder para melhor conhecer/tratar 
– traz a ideia de que a doença mental era propriedade do manicômio/hospital 
psiquiátrico, e que seu guardião seria o médico (SANDER, 2010). Michel Foucault, 
apesar de ter escrito suas obras há mais de 50 anos, trouxe uma problemática que 
permanece na atualidade; a exclusividade do saber-poder do médico, que em certa 
medida ainda impregna nossa cultura no tocante ao tratamento daqueles 
considerados “loucos” por esse saber. Internamento, isolamento, normatização, 
31 
 
 
diagnóstico, e a exclusividade do saber-poder do médico tornavam-se os principais 
alvos de críticas à psiquiatria moderna. 
No Brasil, aos poucos as propostas da Reforma chegavam aos âmbitos 
governamentais, gerando o documento Diretrizes para a área de Saúde Mental, 
redigido pelo Ministério da Saúde, na década de 1980, defendendo o tratamento 
extra-hospitalar, a limitação do período de internação, a reintegração familiar e a 
promoção de pesquisas epidemiológicas no campo da Saúde Mental 
(VASCONCELLOS, 2008). 
O momento histórico referia-se a um processo de redemocratização do País; 
uma transição da fase sanitarista – reformas com o princípio de inverter a política 
nacional de privatizante para estatizante e a implementação de serviços extra-
hospitalares – para a fase de desinstitucionalização – desospitalização. (AMARANTE; 
TOR-RE, 2001). Dá-se, assim, espaço a realização de conferências e novas 
propostas para a elaboração de novos serviços/opções assistenciais. 
Foram realizadas duas Conferências Nacionais de Saúde Mental em 1987 e 
1992, junto à inscrição da proposta do Sistema Único de Saúde (SUS) na Carta 
Constitucional de 1988, promovendo discussões e novas experiências no que diz 
respeito à loucura e ao sofrimento psíquico(AMARANTE; TORRE, 2001). Um dos 
pontos, também, defendidos pela Reforma é o trabalho interdisciplinar, e não apenas 
a simples presença de psicólogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais, mas 
sim a valorização desses profissionais. A impossibilidade de solucionar tais 
problemas propiciou o surgimento de diversos modelos assistenciais, novas teorias e 
práticas (VASCONCELLOS, 2008). 
A partir de então, no final da década de 1980, surgiram as opções assistenciais, 
ou seja, novos serviços, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os 
Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS), representando a Reforma Psiquiátrica 
Brasileira, proporcionando consultas médicas, atendimento psicológico, serviço 
social, terapia ocupacional, entre outros (VASCONCELLOS, 2008). 
O CAPS foi implantado em 1987, e em seu projeto, de autoria da 
Coordenadoria de Saúde Mental (1987, p. 1, apud AMARANTE; TORRE, 2001, p. 
29), sua clientela prioritária é descrita: 
32 
 
 
[...] como aquela “sociedade invalidada”, com “formas diferentes e especiais de ser”, 
com “patologias de maior complexidade”, de “pessoas que tenham enveredado por 
um circuito de cronificação”, de “pessoas com graus variáveis de limitações sociais” e 
com “graves dificuldades de relacionamento e inserção social”. 
Portanto, o CAPS enquadra-se numa rede assistencial externa intermediária 
entre o hospital e a comunidade, ou seja, funcionará como um filtro de atendimento 
entre hospital e comunidade a partir da prestação de serviços preferencialmente 
comunitária; buscando entender a comunidade e instrumentalizá-las para o exercício 
da vida civil (AMARANTE; TORRE, 2001). 
A assistência é definida como de atenção integral, e o serviço propõe 
atividades psicoterápicas, socioterápicas de arte e de terapia ocupacional – enfoque 
multidisciplinar. O sofrimento psíquico deve ser pensado no campo da saúde coletiva, 
tendo em consideração os diversos contextos em que o indivíduo está inserido como 
a família, o trabalho, cultura, contexto histórico, entre outros. O serviço busca um 
cuidado/atendimento personalizado e um tratamento de intensidade máxima, gerando 
reflexões dos serviços e sistematização de informações e experiências (AMARANTE; 
TORRE, 2001). 
O NAPS nasceu em 1989, tendo como eixo a desconstrução do manicômio, 
produzindo uma instituição que não segregue e não exclua. O NAPS possui algumas 
estratégias que são fundamentais para a realização de seus objetivos. Há a estratégia 
de regionalização, visando a ação de transformação cultural – conhecer as 
necessidades; o percurso da demanda psiquiátrica –; a estratégia da abertura do 
debate aos cidadãos, dialogando com a comunidade por meio das associações, 
sindicatos e igrejas – discutindo as diferentes formas de compreender a loucura, e a 
exclusão social –; a estratégia de projeto terapêutico, envolvendo o cuidar do outro – 
evitar o abandono, atender à crise (AMARANTE; TORRE, 2001). 
Em 1989, com a Luta Antimanicomial, o Projeto de Lei nº 3657, proposta pelo 
Deputado Federal Paulo Delgado, previa a extinção progressiva dos manicômios, 
sendo substituídos por outros recursos assistenciais. Tal projeto reproduziu a Lei 
Italiana de 1978, que objetivou, de acordo com Goulart (2006, p. 12), “[...] o fim dos 
manicômios, entendidos aqui como metáfora a todas as práticas de discriminação 
33 
 
 
e segregação daqueles que venham a ser identificados como doentes mentais 
[...]”. Seguido de um marco histórico em 1990, a Conferência Regional para a 
Reestruturação da Assistência Psiquiátrica, realizada em Caracas; nela, os países da 
América Latina, inclusive o Brasil, comprometeram-se a promover reestruturação da 
assistência psiquiátrica (HIRDES, 2009). 
A partir dessas problemáticas e das diversas críticas à psiquiatria, em 2001 foi 
aprovada a Lei nº 10.216, conhecida como Lei Nacional da Reforma Psiquiátrica, 
proporcionando mudanças aos pacientes psiquiátricos, tanto no que diz respeito ao 
tratamento quanto às concepções/visão de loucura para a sociedade. A loucura saiu 
das instituições manicomiais e foi para as ruas, trazendo novos questionamentos, 
discussões e novas percepções sobre os sujeitos ditos “loucos” que passam a ser 
reconhecidos como sujeitos de direito. 
Com a reforma psiquiátrica, esta Lei previa a proteção e os direitos das 
pessoas portadoras de transtornos mentais, e critica o modelo hospitalocêntrico. E 
com o estabelecimento de diretrizes e normas acerca da assistência em saúde 
mental, em 1992, surgiu a portaria ministerial nº 224, objetivando leito ou unidade 
psiquiátrica em hospital geral, e estabelecendo quantidade de profissionais de áreas 
específicas para a formulação da equipe. 
No entanto, apesar dos avanços baseados em leis, não houve a solução 
imediata da problemática dos manicômios e da Reforma Psiquiátrica – dificuldades 
que permeiam até a atualidade. A problemática da Reforma Psiquiátrica encontra-se 
além das legislações, está nas concepções e representações sociais – trata-se de 
ressignificações, de novas subjetividades e transformações sociais no que se diz 
respeito à loucura. 
O ano de 2001 foi indicado como o ano de luta por saúde mental e pelos 
doentes mentais no Brasil, proporcionando novas iniciativas e reorientações, 
principalmente discursivas, que, de acordo com Goulart (2006, p. 3), “a opção por 
referir-se aos doentes mentais como pessoas com problemas mentais ou como 
portadores de transtornos mentais expressa já uma atitude crítica diante da 
terminologia médico--psiquiatra”. 
34 
 
 
Remediação com a patologia/transtorno já instalado ao 
invés de métodos preventivos primários. 
A partir destes marcos, os serviços substitutivos aos manicômios/hospitais 
psiquiátricos passaram a ter privilégio, como os CAPS e NAPS, os leitos psiquiátricos 
em hospitais gerais e oficinas terapêuticas (HIRDES, 2009). Os serviços substitutivos 
foram os principais avanços da Reforma Psiquiátrica, trazendo alternativas de 
tratamento com objetivo de, principalmente, não reproduzir as bases teórico-práticas 
do modelo psiquiátrico clássico que “[...] fundou a noção de doença mental como 
sinônimo de des-razão e patologia, que fundou o manicômio como lugar de cura e 
que fundou a cura como [...] normalização” (AMARANTE; TORRE, 2001, p. 33). É 
notável, que a presença dos CAPS/NAPS refletiu uma mudança na concepção de 
tratamento dos pacientes psiquiátricos; onde antes a única instituição que receberia 
esses pacientes – com a função de recolher/excluir – eram os manicômios/hospitais 
psiquiátricos. 
Apesar da mudança de concepção de saúde mental e redução do número de 
instituições manicomiais no nosso país, os CAPS/NAPS tiveram um surgimento tardio 
e sem investimento financeiro que atendesse às suas reais necessidades conforme 
previsto em lei, diretrizes e normas. Desse modo, o atendimento posto em prática a 
partir da Reforma Psiquiátrica ainda apresenta limites, não solucionando o tratamento 
concreto para os ditos loucos pela sociedade. 
Surge, então, a necessidade de preservar o sujeito do preconceito relacionado 
ao enlouquecimento. Apesar do histórico da luta pela Reforma Psiquiátrica, e das 
conquistas de implementações de leis e propostas dos âmbitos governamentais, a 
reforma ainda é uma problemática atual. Anteriormente, os doentes mentais eram 
vistos como usuários dos serviços de saúde mental, ou seja, pacientes que eram 
objetos para técnicas terapêuticas e enquadrados como loucos. Porém, o que se 
busca, ainda hoje, é que esses sujeitos existam na condição de cidadãos, usufruindo 
dos serviços oferecidos por agências públicas (GOULART, 2006) que atendam aos 
princípios previstos a partir da Reforma Psiquiátrica. 
 
35 
 
 
Baseado no histórico apresentado do conceito de loucura e da Reforma 
Psiquiátrica percebe-se que é de suma importância o debate do significado de loucura 
para a sociedade contemporânea.

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