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Dulceli de Lourdes Tonet Estacheski e Jaqueline Ap. M. Zarbato
ENSINAR HISTÓRIA:
GÊNERO E EDUCAÇÃO
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Reitor
Mario Sérgio Alves Carneiro
Chefe de Gabinete
Bruno Redondo
Direção
Pró-reitora de Extensão e Cultura
Cláudia Gonçalves de Lima
Produção
Obra produzida e vinculada pelo Projeto Orientalismo,
Proj. Extens. UERJ Reg. 6078, coordenado pelo Prof.
André Bueno [História] em associação com as Edições
Especiais Sobre Ontens.
Edições Especiais Sobre Ontens
Comissão Editorial & Científica
Dulceli Tonet Estacheski [UFMS]
Everton Crema [UNESPAR]
Carla Fernanda da Silva [UFPR]
Carlos Eduardo Costa Campos [UFMS]
Gustavo Durão [UFPI]
José Maria Neto [UPE]
Leandro Hecko [UFMS]
Luis Filipe Bantim [Universidade de Vassouras]
Maytê R. Vieira [UFPR]
Nathália Junqueira [UFMS]
Rodrigo Otávio dos Santos [UNINTER]
Thiago Zardini [Saberes]
Rede
www.revistasobreontens.blogspot.com
Organização do Volume
Ficha Catalográfica
Estacheski, Dulceli de L. T.; Zarbato, Jaqueline A. M. (org.)
Ensinar História: Gênero e Educação. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Proj. Ori./Ed.
Esp. Sobre Ontens/UERJ, 2022.
ISBN: 978-65-00-52645-5 264p.
Ensino de História; Educação; Estudos de Gênero; Sexualidades
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Sumário
APRESENTAÇÃO: GÊNERO, EDUCAÇÃO E ENSINO DE HISTÓRIA por Dulceli de Lourdes Tonet
Estacheski e Jaqueline Aparecida Martins Zarbato ....................................................................... 6
HISTÓRIA DAS MULHERES E ENSINO DE HISTÓRIA NO BRASIL por Ana Maria Lucia do
Nascimento ................................................................................................................................. 10
REFLEXÕES E ESTRATÉGIAS PARA UMA EDUCAÇÃO LIBERTADORA: A PERSPECTIVA
INTERSECCIONAL EM ENSINANDO A TRANSGREDIR, DE BELL HOOKS por Ana Paula Oliveira
Lima ............................................................................................................................................. 19
ENSINO DE HISTÓRIA E HOMOSSEXUALIDADE: UMA EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE SEXUAL
E DE GÊNERO por Antonio Xavier M. Neto e Jefferson G. Silva Espinoza ................................... 27
ENSINO DE HISTÓRIA E DECOLONIALIDADE: CONTRIBUIÇÕES DA INTERCULTURALIDADE E DA
INTERSECCIONALIDADE NOS ESTUDOS DE GÊNERO por Caroline Machado Costa e Giovanna
Santana ........................................................................................................................................ 34
ENSINO DE HISTÓRIA E GÊNERO: ANÁLISE POR MEIO DA TRAGÉDIA GREGA por Darcylene
Pereira Domingues ...................................................................................................................... 42
RELATO DE EXPERIÊNCIA – PROJETO DIREITO DAS MULHERES: UMA TRAJETÓRIA DE LUTAS por
Edivaldo Rafael de Souza............................................................................................................. 50
O SALTO ALTO NO PODER: AUMENTO DA PARTICIPAÇÃO FEMININA NA POLÍTICA COMO
REFLEXO DAS AÇÃOS AFIRMATIVAS DE GÊNERO NO BRASIL NA CAMARA DOS DEPUTADOS por
Everlly Silva Bezerra de Lima ....................................................................................................... 58
QUEERBAITING: ESTRATÉGIAS MIDIÁTICAS E REPRESENTATIVIDADE LGBTQIA+ EM SÉRIES
TELEVISIVAS por Fernanda dos Anjos da Nóbrega ...................................................................... 66
PEREGRINAÇÕES DE UMA PÁTRIA: FLORA TRISTA E A FIGURA FEMININA NA SOCIEDADE
PERUANA (1838) por Gabrielle Legnaghi de Almeida ................................................................. 72
MULHERES APRESENTAM MULHERES: EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA EM DIÁLOGO COM OS
ESTUDOS DE GÊNERO por Georgiane G. Heil Vázquez e Angela Ribeiro Ferreira ...................... 78
MANIFESTAÇÕES DO ÚTERO: CONCEPÇÕES MÉDICAS ACERCA DA MENSTRUAÇÃO E
ANOMALIAS NO SÉCULO XVIII EM ERÁRIO MINERAL (1735) DE LUÍS GOMES FERREIRA por
Gessica de Brito Bueno e Christian F. M. dos Santos .................................................................. 85
A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NEGRAS EM MUSEUS AFRO-BRASILEIROS por Heidi Ester
Oliveira Barbosa .......................................................................................................................... 93
A SITUAÇÃO FEMININA NO INÍCIO DO MEDIEVO: A REGRA PARA AS VIRGENS DE CESÁRIO DE
ARLES (c. 470-542) E SUA UTILIZAÇÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES por Luciano José
Vianna e Ianca Ferreira Soares .................................................................................................. 101
A HAGIOGRAFIA DE SANTA BÁRBARA EM SALA: REFLETINDO QUESTÕES DE GÊNERO PARA O
CONHECIMENTO HISTÓRICO NO AMBIENTE ESCOLAR por Jacqueline Ferreira Dias e Marcos de
Araújo Oliveira ........................................................................................................................... 108
4
AS LEIS DOS FRANCOS SÁLIOS (SÉCULO VI): DIVERSIDADE SOCIAL FEMININA NA FORMAÇÃO
DOCENTE EM HISTÓRIA por Luciano José Vianna e Jefferson David Fonseca Alves ................. 117
UM OLHAR SOBRE AS NARRATIVAS HISTORIOGRÁFICAS DA MULHER MEDIEVAL NA
LITERATURA INFANTIL E O CONTEXTO ESCOLAR por Joelândia Nunes Ulisses de Oliveira ...... 124
A REPRESENTAÇÃO FEMININA NO LIVRO O DECAMERÃO (1348-1353) DE GIOVANI BOCCACCIO
(1313-1375)por José Carlos da Silva Ferreira ............................................................................ 133
O OLHAR FEMININO NOBRE NO TRATADO DO AMOR CORTÊS (C.1186) DE ANDRÉ CAPELÃO
(1150-1220) por Juliana Caroline de Souza Araújo ................................................................... 140
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BBB 20: UM REFLEXO DA SOCIEDADE por Ketherine Acosta
dos Santos e Felipe Lucas Fagundes.......................................................................................... 146
MEMÓRIAS E MULHERES NEGRAS E EDUCAÇÃO por Leila Carla Antunes Novaes e Jaqueline Ap.
M. Zarbato ................................................................................................................................. 154
REFLEXÕES SOBRE ENSINO DE HISTÓRIA MEDIEVAL PÓS BNCC: COMO A MULHER É VISTA NA
BASE E NOS LIVROS DIDÁTICOS? por Lorene Rose Ribeiro dos Santos..................................... 160
GÊNERO E ENSINO DE HISTÓRIA: NECESSIDADES E CONTEXTOS por Lorenna Rochinski ........ 166
CIRCULANDO AS AULAS DE HISTÓRIA: O CÍRCULO DE DIÁLOGO NA EDUCAÇÃO DE GÊNERO por
Luciane Corrêa........................................................................................................................... 173
DITADURA, FEMINILIDADES E MASCULINIDADES EM FAZENDA MODELO DE CHICO BUARQUE
por Marcos Antonio Leite Junior ............................................................................................... 182
CARTOGRAFIA DAS PRODUÇÕES SOBRE POPULAÇÃO LGBTQIAPN+ EM HISTÓRIA NO BRASIL
(1987-2018) por Mariana B. de Souza e Georgiane G. Heil Vázquez ........................................ 189
TRAJETÓRIAS DE VIDA E DE LUTA DE MULHERES DO ASSENTAMENTO BELA MANHÃ por
Mariani Xisto de Souza .............................................................................................................. 198
CORPO TORTURADO. VIOLÊNCIA E OPRESSÃO INQUISITORIAL CONTRA FILIPA NUNES (1597)
por Marize Helena de Campos .................................................................................................. 207
MÃOS FEMININAS QUE ALIMENTAM : UM ESTUDO SOBRE A IMPORTÂNCIA DAS MULHERES NA
ALIMENTAÇÃO NATIVA DA AMÉRICA PORTUGUESA DO SÉCULO XVI por Nathália Moro e
Anelisa Mota Gregoleti ............................................................................................................. 215
GÊNERO E MASCULINIDADES NA SALA DE AULA: O ENSINO DE HISTÓRIA ATRAVÉS DAS
PERFORMANCES DOS HOMENS PÚBLICOS NO MARANHÃO REPUBLICANO por Pâmela Queres
Bezerra e Jakson dos Santos Ribeiro .........................................................................................
222
DOS TRAJES DE CRIOULA AOS SÍMBOLOS DAS MULHERES NEGRAS: APRENDIZAGEM HISTÓRICA
E MEMÓRIA (1990 - 2019) por Renata Teodoro Pereira........................................................... 230
TROTULA DI RUGGIERO (1050-1097) E O ENSINO MEDICINAL: O ZELO DA MÉDICA DE SALERNO
PARA O CONTEXTO FEMININO MEDIEVAL por Rita de Cássia Rodrigues ................................. 236
GÊNERO E DECOLONIALIDADE DO SABER: NOTAS PARA OUTRAS PRÁTICAS EM HISTÓRIA por
Silvia Ayabe ............................................................................................................................... 243
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HQ “O CONTO DA AIA” E SUA POTENCIALIDADE NO ENSINO DE HISTÓRIA por Tayane Ferreira
de Almeida ................................................................................................................................ 251
RELATO DE EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA: PALESTRA EDUCATIVA SOBRE IMPORTUNAÇÃO SEXUAL
E SUAS NUANCES por Wagner Pereira de Souza....................................................................... 259
6
APRESENTAÇÃO:
GÊNERO, EDUCAÇÃO E ENSINO DE HISTÓRIA
Dulceli de Lourdes Tonet Estacheski e Jaqueline
Aparecida Martins Zarbato
O Simpósio Eletrônico Internacional de Ensino de História foi idealizado como
um espaço democrático de socialização de pesquisas históricas, educacionais
e de relatos de experiências de ensino. Ao longo de suas oito edições esse
objetivo foi alcançado e foram recebidos, avaliados, selecionados e publicados
textos de pesquisadores/as, de docentes da educação básica e universitária e
de estudantes de graduação e pós-graduação. Ricos debates aconteceram
durante os eventos, aproximando autores/as e leitores/as, estimulando novas
pesquisas, novas publicações, novas práticas de ensino e novos relatos de
experiências.
Os estudos de gênero e as experiências escolares e universitárias que os têm
como temática tiveram sempre um lugar reservado nos simpósios e as edições
anteriores resultaram em algumas publicações específicas sobre o tema:
Aprendizagens históricas: gênero e etnicidades (2018), Aprendendo História:
Gênero (2019), Ensino de História e estudos de gênero (2020) e Caminhos da
Aprendizagem Histórica: Relações de Gênero e Sexualidade (2021). Todas
disponibilizadas gratuitamente nas Edições Especiais da Revista Eletrônica
Sobre Ontens (disponível em: http://revistasobreontens.blogspot.com/
p/livros.html) para que mais pessoas possam ter acesso aos resultados de
pesquisas, aos relatos de experiências, para que possam crescer em
conhecimento e inspirar-se para novas práticas.
Durante a organização desta oitava edição do simpósio dialogamos sobre
quais temáticas deveriam ser mantidas para as mesas de debates que seriam
propostas e de forma unânime definimos a manutenção de um espaço
específico para os estudos de gênero em suas relações com a educação e o
ensino de História. Tal decisão parte da consideração de que é imprescindível
dar continuidade às reflexões, pois, embora o avanço nas pesquisas dos
estudos de gênero, nas mais diversas áreas do conhecimento, seja notório,
ainda observamos que há falta de conhecimento, concepções equivocadas e
pré-conceitos sendo divulgados em muitos espaços da nossa sociedade. Essa
realidade influi em práticas sociais discriminatórias, violentas (e aqui pensamos
nas diferentes formas de violência, física, moral, psicológica, sexual, etc.), que
causam sofrimento para muitas pessoas.
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Como pesquisadoras da área e como professoras de História, atuantes na
formação docente, entendemos que devemos aproveitar todos os espaços para
promover a produção e a socialização de conhecimentos, para estimular
transformações sociais que contribuam para a construção de um mundo mais
justo, mais digno para todas as pessoas. Com isso em mente, selecionamos os
textos encaminhados para o 8º Simpósio Eletrônico Internacional de Ensino de
História para a Mesa Gênero, Educação e Ensino de História que foram foco de
importantes debates e que estão agora reunidos nessa publicação.
Ao todo são 34 textos de pesquisadores/as que apresentam resultados de seus
mais recentes estudos na área; de docentes da educação básica e de
universidades que socializam diversas experiências de ensino e provocam
reflexões teórico metodológicas para as abordagens do tema nas escolas e em
outros espaços de formação; e de estudantes que estão iniciando suas
trajetórias na pesquisa dos estudos de gênero.
Entre as pesquisadoras dos estudos de gênero, destacamos o texto de
Georgiane Garabely Heil Vázquez e Angela Ribeiro Ferreira que apresentam
os resultados de um Projeto de Extensão Universitária desenvolvido na
Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná, ‘Mulheres apresentam
Mulheres’, ressaltando a relevância de ações que valorizam a produção e as
narrativas de mulheres no meio universitário e também o texto de Marize
Helena de Campos, professora da Universidade Federal do Maranhão que
apresenta os resultados de uma pesquisa que teve como fonte um processo
inquisitorial de 1597 que nos leva a refletir sobre vivências de mulheres durante
a vigilância do Tribunal do Santo Ofício em Lisboa. O primeiro exemplo destaca
a extensão universitária e pode estimular ações semelhantes em outros
espaços e o segundo apresenta um tema de pesquisa em meio à vastidão de
possibilidades que os estudos de gênero permitem.
Outras pesquisadoras que desenvolvem suas pesquisas de doutorado na
Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade Federal de Pelotas,
na Universidade Estadual de Maringá e pesquisas de mestrado profissional ou
acadêmico na Universidade Federal Rural do Pernambuco, na Universidade
Federal de Brasília, na Universidade de Pernambuco, na Universidade
Estadual de Ponta Grossa/PR, na Universidade Federal da Grande Dourados,
na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e na Universidade Federal de
Pernambuco, tem aqui seus textos publicados. Fizemos questão de destacar
todas essas instituições, pois isso demonstra a abrangência do evento que
reúne pessoas de diferentes regiões brasileiras.
Consideramos relevante destacar também que nas diferentes edições do
evento nós contamos com docentes da graduação em História de diferentes
instituições, como a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, a
Universidade Estadual do Maranhão, da Universidade de Pernambuco e da
Universidade Estadual de Maringá, que orientam seus/suas bolsistas de
Programas de Iniciação Científica a publicarem seus artigos no evento. Essa
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prática, que se efetivou também nessa edição, é um estímulo para eles/as e
outros/as estudantes que iniciam suas trajetórias acadêmicas.
Profissionais recém-formados/as em cursos de História e de outras áreas do
conhecimento, aproveitam para publicizar aqui as pesquisas que
desenvolveram em seus Trabalhos Finais de Conclusão de Curso e docentes
da educação básica contribuem muito relatando suas profícuas experiências
em sala de aula, nas escolas em que atuam.
As narrativas são diversas e as temáticas também. Temos reflexões teórico
metodológicas para aqueles/as que desejarem aprofundar seus estudos; temos
capítulos com conteúdos específicos que podem colaborar na pesquisa e no
ensino de diferentes temas e temos as narrativas sobre práticas desenvolvidas
em escolas e universidades que revelam possibilidades múltiplas de ações.
Desejamos uma ótima leitura a todas/os e que ela inspire novas reflexões,
novas pesquisas e novas práticas sociais!
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TEXTOS
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HISTÓRIA DAS MULHERES E ENSINO DE HISTÓRIA
NO BRASIL
Ana Maria Lucia do Nascimento
A História das Mulheres de Perrot a Priore
A antiga forma de construir a historiografia, costumeiramente chamada de
positivista, dava holofote a personagens, em geral, masculinos. Esses homens
foram os heróis que se responsabilizaram por construir grandes sociedades,
destruir inimigos e alavancar nações. São referências
e, por isso, foram
homenageados em monumentos. Pertencer a esta grande narrativa significava,
e ainda significa, prestígio. Elizabeth Fox Genovese (1987) chama isto de
“história de governantes e de batalhas”. Nessa construção da história não
existia espaço para as mulheres, mas não só elas: “também não havia lugar
para quem não ocupava cargos no Estado ou não dirigia guerras, não
importando se fossem homens ou mulheres” (PEDRO, 2005, p. 80). Esses
teóricos eram contrários à louca visão romântica.
De fato, para os historiadores de “visão romântica”, a grande cisão da História
acontece justamente a partir das críticas que a Escola dos Annales
proporcionou nos anos 30. Entretanto, “o que interessa primordialmente a Marc
Bloch e Lucien Febvre, e mais ainda a Ernest Labrousse e Fernand Braudel,
seus sucessores, são os planos econômico e social” (PERROT, 1995, p. 15).
De acordo com Perrot, só a partir dos anos 70, a terceira geração da revista se
mostrou mais receptiva quanto à presença da dimensão sexuada no interior da
evolução histórico-temporal, ainda que espontaneamente não demonstre tal
interesse. Diante dessas duas maneiras clássicas de ver e produzir a
historiografia, Chartier levanta a questão da crise na História.
A “crise da história” seria o resultado da quebra com as tradições “historicistas”
e “positivistas”, que acreditava ser uma ciência imparcial e objetiva, sendo
gerada por um choque epistemológico. Para além das questões de novos
conceitos, o autor também estabelece as bases da História cultural, essa,
todavia seria uma ferramenta de análise da realidade social, ou seja, de uma
realidade que é dada a ler. A partir de então, a História se constitui mais uma
vez como um discurso que produz enunciados científicos (CHARTIER, 2009, p.
16). Desde essa renovação, novos sujeitos, temas e conceitos foram inseridos.
Para Pesavento, o termo História Cultural é também chamado de Nova História
Cultural, justamente, por pensar a cultura como um conjunto de significados
partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo. Com isso o que
era antes visto como cultura, ou seja, criações ligadas apenas a elite, ou para a
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elite, ou como fruto dela, agora assume outro espírito que, através dessas
reformulações, quebraram com alguns dos paradigmas já pré-estabelecidos. A
autora em sua análise estabelece que a antropologia cultural foi importante
para o debate sobre a dimensão simbólica e para a análise das dimensões
sociais (PESAVENTO, 2012, p. 30).
Acrescenta-se ainda a preocupação com o estabelecimento de conceitos que
até anteriormente não eram levados em consideração como o de
representação, somados aos conceitos de poder simbólico, imaginário,
mentalidade, narrativa, ficção e sensibilidade, consolidando a proposta central
desta nova vertente (PESAVENTO, 2012, p. 45).
Para os historiadores que se dispuseram a introduzir novos sujeitos como
construtores da história, seguindo a tradição da historiografia dos Annales,
formaram uma gama de estudos que, concentrados na Europa, tinham como
objetivo estudar as massas operárias e sua forma de trabalho. Thompson
(2001, p. 20), aponta como esse “campo”, qual seja, a História vista de baixo,
surge na Inglaterra com o intuito de construir uma base de informações acerca
da história dos sindicatos, dos operários e do trabalho. Para Perrot (1995,
p.16), mulheres como Simone de Beauvoir juntamente com Andrée Michel e
Christine Delphy, foram as pioneiras na discussão sobre o feminino dentro da
classe operária.
A própria pesquisadora francesa Michelle Perrot é um dos expoentes da
História das mulheres na Europa. Em muitos dos seus escritos Michele aborda
o porquê se escrever uma história que insira o feminino. Percebemos também
como o corpo, a alma, a religião, a cultura e o acesso ao saber são pontos de
análise da autora. Para ela, existia uma forte lacuna no que tange ao trabalho
feminino tanto no campo, quanto na cidade. Além das várias categorias que
essas personagens comuns preenchiam (PERROT, 2007, p. 20). Ao partir das
questões das ausências, ela salienta que a história era excludente, como se
existisse uma linha oficial onde elas não se encaixavam.
Acerca do fator da exclusão, a autora norte americana Gerda Lerner (2019, p.
28), aponta que existiu dois polos na construção historiográfica: história versus
História - “história”, o passado registrado com a inicial minúscula e “História” o
passado registrado com inicial maiúscula. A diferença pode ser enfatizada da
seguinte forma, para a “História”, até o passado mais recente, os historiadores
eram homens, e o que registraram era o que o homem havia feito, vivenciado e
considerado significativo. Chamaram de História e consideraram universal.
Cabendo aos referentes femininos continuarem dentro da “história”, mesmo
sendo peças centrais, e não marginais, para a criação da sociedade e a
construção da civilização.
Porém, embora as mulheres tenham sido subjugadas, é um erro básico tentar
conceituar as mulheres essencialmente como vítimas. Agir de tal forma,
impede-nos de perceber como os referentes femininos são peças essenciais e
centrais para criar e manter a sociedade. De fato, através delas surgem as
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novas pautas que as inserem como objetos de estudos. Para Joana Maria
Pedro (2005, p. 80) o que influenciou a mudança de perspectiva dos
pesquisadores foi o movimento feminista que, na sua primeira onda lutava a
favor de direitos civis femininos, e na segunda onda, pela liberdade em geral,
inclusive do corpo e do ato de gerar.
Para as pesquisadoras feministas deveria existir um grupo que mostrasse a
existência feminina, uma categoria que percebesse a multiplicidade do delas.
Assim, dentro dos padrões de pesquisas, o termo de análise do objeto passou
a ser intitulado de “mulheres”, no fim das contas. E mais para frente de
“gênero”.
Vale salientar que algumas características ligadas ao processo de pesquisa
também adquirem fôlego nessa época. Para Pinsky (2009, p. 164), a História
das Mulheres adquiriu expressão a partir da década de 1970, “dá-se ênfase em
temas como família, sexualidade, representações, cotidiano, grupos
“excluídos”. Seu sucesso atrelou-se aos avanços da Nouvelle Histoire, Social
History, Cultural History e dos Estudos de População. A autora aponta ainda
que a produção historiográfica passível da História das Mulheres é bastante
diversificada em termos de assuntos e métodos. De acordo com Perrot, após
essa ruptura, muitas historiadoras afastaram-se de uma história regida por um
sentido, militante, movendo-se em busca da idade do ouro e de ancestrais
heroicos - Matriarcado, Amazonas (PERROT, 1995, p.22).
Um dos primeiros passos tomados pelos historiadores, de acordo com Pinsky
(2009, p. 170), foi voltar aos métodos antigos e escrever biografias de mulheres
e as evidências da participação feminina nos acontecimentos históricos e na
vida pública. Assim: “Nas pesquisas sobre “pessoas comuns”, as mulheres
também foram contempladas em “biografias coletivas” de diversos grupos
sociais” (TILLY, 1990, p. 40). Certos trabalhos apresentaram as mulheres
atuando na história da mesma forma que os homens. Enquanto outros
separavam a história produzida pelas mulheres e pelos homens. Mais uma vez
vê-se o isolamento da “cultura das mulheres”, conforme Lerner apontou, como
se elas não fizessem parte da História geral e oficial.
Após mais de cinquenta anos, consolidou-se um campo de pesquisas que
evoluiu nos seus objetos, seus métodos e pontos de vista. Tratava-se
inicialmente de tornar visível o que estava escondido, de reencontrar traços e
de se questionar sobre as razões do silêncio que envolvia as mulheres
enquanto sujeitos da história. Isso conduziu a uma reflexão em torno da história
enquanto produto da dominação masculina, a qual atuava em dois níveis: nível
dos próprios acontecimentos e nível da elaboração deles empreendida pelo
relato (PERROT, 1994, p.
19).
Ademais, com o crescimento do campo, as pesquisas sobre o feminino na
história tomaram como objeto de análise as prostitutas, as domésticas, as
operárias, as mulheres agredidas, as vítimas e, sobretudo, a expressão da
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condição feminina. Na investigação de Perrot, emerge como central a questão
do corpo das mulheres, suas funções, sua apropriação, sua representação.
Essas perspectivas de inserção do feminino influenciou as várias pesquisas no
Brasil. Mas essa porta nos foi aberta por volta dos anos de 1970. Ao apontar
como os teóricos europeus inspirou os brasileiros, a escritora Heloisa Buarque
de Hollanda (1994, p. 10), aponta que a partir da década de 70 o feminismo
como ideologia política surge como novidade no campo acadêmico, e se impõe
como uma tendência teórica inovadora e de forte potencial crítico e político.
No Brasil muitas foram as historiadoras que se dedicaram a esse campo,
aponta Mary Del Priore que deu voz as resistências femininas. Para a autora
era importante conduzir uma produção que falasse mais do que apenas das
misérias da vida feminina, pois era importante dar holofote aos poderes e
estratégias de resistência que elas articulavam, para burlar o poder masculino
e a imposta subordinação (PRIORE, 1994, p. 34). Assim, com os escritos de
Del Priore, observa-se que as primeiras produções ficaram muito centradas no
período colonial, fazendo uso de relatos de viajantes, processos civis e
iconografia como fonte (SILVA, 2008, p. 227).
No entanto, mesmo diante dos avanços, é importante perceber os espaços nos
quais das mulheres pouco se fala. Faço menção ao espaço escolar, onde os
materiais muitas vezes atrasados, acabam perpetuando uma visão de história
na qual elas não são sujeitos ativos em sua construção. Por vezes é comum
perceber um abismo entre os novos frutos dos trabalhos historiográficos
acadêmicos e os escolares. Essa grande distância nos chama a atenção e nos
leva a refletir sobre os motivos que cercam essa questão.
As Mulheres no Ensino de História
Mesmo diante da inserção de novas temáticas no meio acadêmico, nota-se
como o feminino na educação e no Ensino de História pouca evolução teve. Ao
recordar a raiz da ausência de referentes femininos somos levados a pensar na
forma como a educação das mulheres foi moldada. Aqui no Brasil, o sistema
educacional tornou-se mais uma expressão das dessemelhanças entre homens
e mulheres. De acordo com Hahner, percebemos como a educação para as
meninas permanecia atrasada em relação à dos meninos. O processo
educacional foi tão difícil para elas, que quando permitido “não devia ir além
dos livros de orações, porque seria inútil à mulher, nem deveriam, elas,
escrever, pois como foi justamente observado, poderiam fazer mau uso desta
arte” (HAHNER, 1980, p.56).
O pontapé de mudança é apontado por Rosemberg como o um longo processo
para a permissão legal do acesso geral e irrestrito das brasileiras à educação
escolar. Vemos, por exemplo, que apenas em 1827 foi autorizada a Lei Geral
do ensino de 5 de outubro, mas era restrita apenas às escolas femininas de
primeiras letras. Dessa forma, a educação para as mulheres só conseguiu
romper as últimas barreiras legais em 1971 com a Lei de Diretrizes e Bases da
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Educação (LDB) que atribuiu equivalência entre os cursos secundários
(ROSEMBERG, 2016, p. 334).
Entretanto, o debate estabelecido por Hahner nos anos de 1980 acerca do
processo educacional e de como essas mulheres recebiam uma instrução
diferente, só se ampliou com o passar do tempo. Por mais que aos poucos o
direito civil ao estudo e formação profissional feminina fosse ampliado, não se
pode deixar de pontuar como o Ensino de História permaneceu por longos
anos atrasados em suas temáticas de ensino. Por outro lado, é importante
perceber que essa é uma discussão levantada até os dias de hoje, pois pouca
melhora aconteceu.
As últimas publicações acerca do feminino no Ensino de História nos mostram
como a partir de 2015 houve um intenso interesse em elucidar essas questões.
Para Souza, há uma grande relação de aprisionamento do feminino que tem
sido remodelada no século XXI. Notamos que essas mudanças, de acordo com
a autora, incomodam grupos políticos da sociedade que ao não concordam
com o estudo de gênero nas escolas, lutam contra a reformulação dos
materiais didáticos (SOUZA, 2020, p. 20). Por outro lado, fazendo uso de uma
metodologia muito comum no campo do ensino, ela analisa doze livros
didáticos de História que foram escritos em função das orientações da BNCC,
na busca de estudar como os materiais abordavam a História das Mulheres e
as questões de gênero.
Com base nisso, foi constatado que as mulheres e suas histórias ainda são
marginalizadas nos livros, todavia, algumas obras apresentam informações que
possibilitam aos educandos refletirem sobre como o gênero é atravessado
pelas questões de classe e étnico-raciais, e como os desígnios de gênero
podem mudar de uma sociedade para a outra.
Ademias, nos debates acerca das ausências de sujeitos históricos, algumas se
indagam sobre o que ocasiona o efeito “falta de comunicação” na História, ou
seja, por que os avanços no campo da História, por exemplo, não refletem nos
materiais didáticos que essas mulheres têm acesso nas escolas? Se as
pesquisas estão sendo produzidas, onde está a falha?
Duas questões foram elencadas para responder a essa problemática. Ferreira
(2006, p. 100) aponta como a história das mulheres fica à mercê da mediação
que o livro didático faz entre o conhecimento produzido dentro das
universidades e o saber escolar. Para a autora, é notável que muito pouco do
que foi produzido pelos historiadores a respeito das mulheres no ensino de
história, foi incluído nos textos didáticos, logo, fica evidente as incongruências
entre as demandas sociais de representação de personagens para o estímulo
de uma cidadania ativa, pois nessa relação os referentes femininos não
aparecem devidamente a disposição dos alunos.
Além das questões que cercam o debate acerca da falha da mediação que o
livro didático faz com o conhecimento produzido, outros autores discutem ainda
15
as questões de identidade que cercam os professores. Para Viana, no
processo de escrita dos historiadores acerca da inserção de novos sujeitos no
ensino de história, deve-se pensar a respeito da prática da escrita sendo
conduzida pelas novas condições de produção, elencando também a
necessidade de repensar durante essa ação o “novo perfil do professor” na
pós-modernidade (VIANA, 2017, p. 19-20).
Para a autora quando bem analisado o espaço acadêmico contribui de forma
efetiva para a formação do professor de história e consequentemente para a
formação da identidade do pesquisador. Soma-se a isso o fato de que
enquanto sujeito pesquisador fruto do seu tempo e, consequentemente, a
mercê das mudanças da identidade cultural na pós-modernidade, o docente
recai dentro de uma dualidade ao perceber que a sua identidade não é fixa e
sim plural.
Para Pacheco (2020, p. 222-223) o debate sobre identidades pode direcionar
as respostas acerca da ausência do feminino em sala de aula. O autor percebe
que a discussão que cerca o tema da formação das identidades dentro do
espaço temporal em que os nossos alunos estão, onde os debates sobre o
feminino se encontram tão presente, é de suma importância para entender não
só como esse discente pode vir a construir sua identidade nesse meio social,
como também, salienta a perspectiva de uma “crise identitária” nos docentes.
Assim, ao debater os princípios que contribuem para formar as identidades
sociais e, particularmente, a identidade do indivíduo através da subjetividade
que ele incorpora da sociedade em que vive, ele nos leva a pensar sobre as
práticas sociais de um grupo e a incorporação de hábitos que contribuem para
a formação da sua própria identidade.
Portanto, o historiador se mantém como sujeito que forma e
difunde a memória.
Cabendo ainda ao mesmo a capacidade de denunciar o que o autor intitula de
“historicidade das identidades sociais”, ou melhor, trazer luz os elementos
simbólicos constitutivos de cada identidade social e de como eles são
construções históricas carregadas de interesses e compromissos de poder
(PACHECO, 2020, p. 225). E, enquanto cumpre esse papel, passa a conceber
a sua própria memória individual. A respeito da memória individual, a
entendemos da seguinte forma:
“Na experiência vivida, a memória individual é formada pela coexistência,
tensional e nem sempre pacífica, de várias memórias (pessoais, familiares,
grupais, regionais, nacionais etc.) em permanente construção, devido à
incessante mudança do presente em passado e às alterações ocorridas no
campo das re-presentações (ou re-presentificações) do pretérito (CATROGA,
2015, 43).”
Para Catroga é importante perceber que as memórias individuais, fator
importante no processo da construção da subjetividade do indivíduo, se forma
a partir de uma coexistência com grupos sociais e da escolha daquilo que se
sobrepõe ao passado. Podemos perceber também como “a consciência do eu
16
se matura em correlação com camadas memoriais adquiridas, tem de se ter
presente que estas, para além das de origem pessoal, só se formam a partir de
narrações contadas por outros, ou lidas e vistas em outros: o que prova que a
memória é um processo relacional e intersubjetivo.” (CATROGA, 2015, 113).
Nota-se que no processo de formação da constituição das memórias e
identidades do historiador, por exemplo, há uma seleção do que será ou não
esquecido. Dessa forma, o historiador se encontra nesse fogo cruzado, afinal
de contas, ele é o formulador de pesquisas históricas responsáveis por
contribuir para a formação da memória e identidade coletiva das pessoas, mas
se encontra também formando a sua própria identidade e memória. E aqui
entra uma das questões importantes discutidas anteriormente: o historiador
diante da formação da sua própria identidade individual entra numa grande
polarização, o historiador professor versus o historiador pesquisador.
Logo, uma das respostas para o questionamento do porquê pesquisas do
campo histórico não estão sendo discutidas em sala de aula, pode ser
respondida da seguinte forma: há a possibilidade de o professor não ter uma
identidade individual que se importe com uma prática pedagógica que
propague pesquisas, como as sobre o feminino, por exemplo. Assim, percebe-
se que a lacuna do feminino no ensino pode ser apontada fazendo menção a
falta de denúncia do professor, ou da inexistência de diálogo com as pesquisas
estabelecidas dentro do campo historiográfico.
Referência biográfica
Ana Maria Lucia do Nascimento: Mestranda em História pela Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Formada em História pela
universidade de Pernambuco (UPE). Pesquisadora da FACEPE. Pesquisadora
do grupo de pesquisa Leitorado Antigo da Universidade de Pernambuco.
Trabalho financiado pela FACEPE.
Contato: anamarialuciadonascimento@gmail.com.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/8045117367096627
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19
REFLEXÕES E ESTRATÉGIAS PARA UMA EDUCAÇÃO
LIBERTADORA: A PERSPECTIVA INTERSECCIONAL
EM ENSINANDO A TRANSGREDIR, DE BELL HOOKS
Ana Paula Oliveira Lima
Introdução
Ao longo das últimas décadas, o debate sobre educação e liberdade tem
apresentado cada vez mais ideias e práticas originárias do Sul Global. As
intelectuais negras se destacam na reivindicação de uma educação não
opressora que desafie, em conjunto, cada fundamento de desigualdade
presente nas respectivas sociedades em que estão inseridas. Nesse sentido,
esta análise centra-se na discussão de reflexões e estratégias para uma prática
pedagógica crítica a partir de bell hooks e dos fundamentos elencados na obra
Ensinando a Transgredir: a educação como prática da liberdade, difundido ao
público pela primeira vez em 1994 (no Brasil, quase duas décadas depois, em
2013, com a publicação pela Editora WMF).
A literatura de hooks sobre hierarquias de gênero, como a de perspectiva
pedagógica, conclama ao engajamento e à criticidade na interpretação de
incidências estruturais nas relações humanas. Ao longo dos escritos, é possível
capturar a transversalidade que atravessa as análises. Os eixos de
subordinação são dinâmicos e não atuam isoladamente. Assim, sobrelevar
classe em detrimento de outros construtos históricos como raça e gênero não
implica em saída capaz de solucionar a longa exclusão de direitos sociais,
políticos e civis que atinge, em graus distintos, a população negra, cuja
vivência de desigualdade não pode ser resumida a um fator supra,
independente, e outros secundários, acessórios. Ter tal perspectiva como
ponto de partida é importante para fundamentar práticas que assegurem, como
espelha Célia Xakriabá, “uma educação do jeito que a gente quer, sem matar o
que a gente é” (XAKRIABÁ, 2018, p. 196). A retomada do território
escola/academia
deve ser proteção que assegure o bem estar como
possibilidade.
Interseccionalidade e feminismos negros: radicalizando o debate sobre
educação
É necessária a “coragem de transgredir as fronteiras que fecham cada aluno
numa abordagem do aprendizado como uma rotina de linha de produção”
(HOOKS, 2013, p. 25). O ato educativo se contrapõe absolutamente aos
ditames da subordinação capitalista, que inclui desumanização pela alienação.
20
Desta feita, uma das principais acusações à ferramenta interseccional
reelaborada pelos feminismos negros – a de que não apresentaria validade por
diluir classe social em raça, como querem fazer crer algumas leituras de viés
marxista – não se sustenta, de modo que, não excluindo o pensamento de
classe social ou reiterando estruturas de dominação, se introduz no panorama
dos estudos sobre povos subalternizados uma leitura de “instrumentalidade
teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e
cisheteropatriarcado” (AKOTIRENE, 2019, p. 14).
Embora haja diversas críticas ao conceito de interseccionalidade e também um
esvaziamento significativo quanto ao seu teor político, é importante demarcar
que isso não faz com que ele seja ineficiente em diagnosticar aquilo a que se
propõe. Como hooks (2013) observa, professores/as parecem
“fascinados pelo exercício do poder e da autoridade dentro do seu reininho – a
sala de aula. [...] Uma coisa que me decepcionou muito foi conhecer
professores brancos, homens, que afirmavam seguir o modelo de [Paulo] Freire
ao mesmo tempo em que suas práticas pedagógicas estavam afundadas nas
estruturas de dominação, espelhando os estilos dos professores conservadores
embora os temas fossem abordados de um ponto de vista mais progressista”
(HOOKS, 2013, p. 30-31).
Uma pedagogia que faça sentido traz bem estar a todos os agentes do
processo educativo, mas confere algumas exigências. Como seres humanos
em integralidade, isto é, dotados de corpo, mente e espírito, estudantes
requerem cada vez mais serem reconhecidas/os dessa forma, o que leva a
uma tensão, como acredita a filósofa e educadora, entre elas/es e as/os
professoras/es. Isso ocorreria porque, além de poucos/as docentes buscarem
se autoatualizar, receiam perder a autoridade na classe ou entre os pares caso
se relacionem de forma horizontal e afetuosa com os/as discentes. Para Vera
Candau (2008), a
“consciência do caráter homogeneizador e monocultural da escola é cada vez
mais forte, assim como a consciência da necessidade de romper com esta e
construir práticas educativas em que a questão da diferença e do
multiculturalismo se façam cada vez mais presentes” (CANDAU, 2008, p. 15).
A educação se insere, dessa maneira, em um contexto sociocultural mais
amplo, por isso, dado o cruzamento de culturas possível nas instituições, os
ambientes de escolarização também se configuram como uma arena de
conflitos. Para efetivar a educação como prática de liberdade, pensada a partir
da pedagogia engajada, bell hooks (2013) sugere a aproximação por meio da
partilha, já que “quando os professores levam narrativas de sua própria
experiência para a discussão em sala de aula, elimina-se a possibilidade de
atuarem como inquisidores oniscientes e silenciosos” (HOOKS, 2013, p. 35).
Assim, a medida que discentes se sentem encorajados e fortalecidos,
docentes, por sua vez, melhor se capacitam e fortalecem ao passo que
promovem o entusiasmo como instrumento pedagógico.
21
Sabe-se que “é profundo o medo de que qualquer descentralização das
civilizações ocidentais, do cânone do homem branco, seja na realidade um ato
de genocídio cultural” (HOOKS, 2013, p. 49), quando, porém, se observa outra
operação:
“a existência de um dispositivo de racialidade/biopoder operando na sociedade
brasileira, que, articulando múltiplos elementos, dentre eles o epistemicídio,
configura a racialidade como um domínio que produz saberes, poderes e
subjetividades com repercussões sobre a educação” (CARNEIRO, 2005, p. 11).
É fundamental compreender essa perversa articulação entre dispositivos que
se desdobra em silenciamento e políticas de morte porque, no respeito às
identidades de resistência, é possível estabelecer uma mediação crítica que
ofereça reorientação quanto a práticas aparentemente transgressoras, mas
que, no fundo, apenas simulam mudança. As ideologias hegemônicas, tidas
como naturais, normais e inevitáveis, servem somente ao controle social,
sobretudo de mulheres negras e racializadas, como defende Collins (2019).
Em compreensão semelhante a Ailton Krenak (2019), hooks (2013) enfatiza a
urgência de construir uma sociedade fundamentada na solidariedade entre
pessoas, onde seres humanos tenham mais valor do que os bens impostos
pelas necessidades capitalistas. No sistema predatório do capital, a
desinformação cumpre o papel de diminuir nossa capacidade de intervenção
na realidade injusta. Nesse quadro, os movimentos sociais se insurgem como
importantes atores (re)educadores. A vontade política em reeducar a sociedade
brasileira foi tarefa assumida pelo movimento negro, conquanto lidemos,
conforme problematiza Nilma Gomes (2017), com uma “construção de
ausências” relativa à essa atuação organizativa.
A desinformação, sendo parte constitutiva da cultura de dominação, revela, na
arena dos antagonismos sociais, que, mais do que vencer a apologia à
desinformação, nas escolas, a luta inclui oposição a desmontes, precarização
salarial, cortes orçamentários, perseguição a professores com base em
mecanismos ilegais e escusos, além de carga horária excessiva e adoecedora.
E para ressignificar uma academia “moribunda e corrupta”, nos dizeres de
hooks (2013), se requer a união de múltiplas forças pela onipresença do
conservadorismo e a retomada intensificada de concepções violentas ligadas à
xenofobia, ao isolacionismo e ao nacionalismo cingido.
Transformar “o como” e “o que ensinar” corrobora à consolidação de uma
prática de interculturalidade (CANDAU, 2008, p. 22) na qual pode-se
materializar uma democracia radicalizada, uma sociedade justa fundada na
emancipação, solidariedade, pluralidade e desierarquização (CARNEIRO,
2005; HOOKS, 2019; COLLINS, 2019).
A implementação de estratégias modificadoras da realidade social envolve
conhecimento e preparo disponíveis através de atividades formativas, pois
22
esses momentos permitem que “professores tenham a oportunidade de
expressar seus temores e ao mesmo tempo aprender a criar estratégias para
abordar a sala de aula e o currículo multiculturais” (HOOKS, 2013, p. 52).
Nesse sentido, como ensinam os feminismos negros, a consciência crítica
pode ser estimulada a qualquer tempo.
Desafios e possibilidades para uma prática de ensino-aprendizagem
anticolonialista: interlocuções entre pedagogias
Comprometer-se com uma prática de ensino-aprendizagem anticolonial é
premissa para o que hooks denominou pedagogia revolucionária de
resistência. Um dos relatos mais exemplares da ausência como um paradigma
e dos desafios que atravessam a sala de aula feminista em Ensinando a
Transgredir é a constatação, pela autora, de que, ao contestar as turmas sobre
as referências delas sobre autorias negras, os nomes que ecoam são
masculinos e, se acaso se lembram das obras de mulheres negras, conhecem,
em geral, apenas a escrita literária ou ficcional delas.
Enquanto concebermos a ideia de comunidade negra unicentrada na figura
masculina e de mulheres unificada em mulheres brancas, o sexismo e o
sexismo institucional, o racismo e o racismo institucional, respectivamente,
prevalecem. Um dos ensinamentos mais significativos de Paulo Freire, cuja
defesa é expressa também no conjunto de textos de bell hooks, é o de que não
devemos entrar nas batalhas como objetos esperando tornarmo-nos sujeitos só
depois. Este é um ponto em que pedagogias convergem: efetivando uma
“confrontação construtiva”, haverá lugar para o entusiasmo e a realização
pessoal em aprender, ouvir, falar, um ambiente no qual professores/as
verdadeiramente ensinem e discentes se interessem em aprender, cada qual
reconhecendo sua função e exercendo suas capacidades para fazer o
processo ocorrer. As investigações cujo seio é a pedagogia feminista podem
auxiliar a transformar as aulas nessa comunidade de aprendizado.
Entender as lutas de libertação como um fenômeno global (FREIRE, 2018;
DAVIS, 2018) suscita o debate sobre ética e autonomia. Em bell hooks, práxis
é ação e reflexão. Uma aplicação interessante desse axioma ocorre quando a
própria hooks acentua ao também educador e filósofo Paulo Freire sobre o fato
de as obras com as quais tivera contato deixarem entrever certo sexismo – ao
não distinguir a materialidade das opressões segundo o sexo (ao menos as
primeiras obras que ele havia escrito). Acerca de tal observação, acrescento:
faz-se notar, ainda, que na coletânea também não há reflexões contundentes
sobre a questão racial, ainda que o autor esteja inserido em um país de maioria
sociorracial negra, o Brasil.
As divergências, longe de apagarem as possibilidades contributivas de um
pensamento, são, em si mesmas, aprendizado em transformação. É Freire
(1987) quem diz:
23
“Somente quando os oprimidos descobrem, nitidamente, o opressor, e se
engajam na luta organizada por sua libertação, começam a crer em si mesmos
[...]. Se esta descoberta não pode ser feita em nível puramente intelectual, mas
da ação, o que nos parece fundamental, é que esta [...] esteja associada a
sério empenho de reflexão, para que seja práxis.
O diálogo crítico e libertador [...] tem de ser feito com os oprimidos, qualquer
que seja o grau em que esteja a luta por sua libertação. [...]
O que pode e deve variar [...] é o conteúdo do diálogo. Substituí-lo pelo
antidiálogo, pela sloganização, pela verticalidade, pelos comunicados, é
pretender a libertarão dos oprimidos com instrumentos da “domesticação”.
Pretender a libertação deles sem a sua reflexão [...] é transformá-los em objeto
[...] e em massa de manobra” (FREIRE, 1987, p. 33).
Só um “sério empenho de reflexão” fornece a criticidade e horizontalidade
essenciais para que nenhum discurso salvacionista interfira na construção de
práticas subversivas para o livre viver. A teoria descontrói a conformidade de
uma sociedade aparentemente homogênea. Se a teoria se enreda em sacudir
o jugo opressivo, não admite a pretensão do saber absoluto; teorias
reacionárias, narcisistas e complacentes, que apenas solidificam o elitismo
classista (HOOKS, 2013) retiram a autonomia dos sujeitos revolucionários,
capazes de autonomia e planos de ação coletiva. Tornar a teoria um lugar de
resfôlego é lembrar a humanidade inerente a cada ser diante das inúmeras
adversidades que interceptam as vidas de povos subalternizados. Tal
compromisso é ético.
Conforme enaltece István Mészáros (2006) educadores precisam entender
amplamente as teias que cercam a educação para, com isso, conquistarem a
mudança essencial, ou seja, radical, da arena social. Em uma comunidade de
aprendizado,
“Quando nossa experiência vivida da teorização está fundamentalmente ligada
a processos de autorrecuperação, de libertação coletiva, não existe brecha
entre a teoria e a prática. Com efeito, o que essa experiência mais evidencia é
o elo entre as duas – um processo que, em última análise, é recíproco, onde
uma capacita a outra” (HOOKS, 2013, p. 85-86).
Ainda que rejeitar a educação bancária seja uma dificuldade para professores
por muitos motivos, a luta com enraizamento teórico informa, molda e
possibilita a prática (HOOKS, 2013) de problematizar classe, regime de
autorização discursiva e imposição do silenciamento. “Quem fala? Quem ouve?
E por quê?” (HOOKS, 2013, p. 57). Os mecanismos referidos se manifestam
sob falsa naturalidade nos ambientes de educação, onde as vozes mais
facilmente ouvidas são as mesmas legitimadas no transcurso histórico, isto é, a
de homens brancos heterossexuais.
É importante evidenciar que, na interação, de acordo com bell hooks (2013),
professores devem dimensionar o significado da fala de cada discente para que
alguns não incorram no erro de pressupor que tenham uma experiência mais
24
válida que os demais ou que aquilo que tenham para dizer deva ser o centro
das atenções. Segundo sintetiza Lourenço Cardoso (2014), “no conflito racial, o
branco, no primeiro momento, possui a força para construir-SE e construir o
OUTRO. Ele como superior; o Outro como inferior. Ele como ser desejável; o
Outro como ser repulsivo” (CARDOSO, 2014, p. 82, grifo do autor), e assim,
educadores brancos devem estudar e ensinar sobre branquitude para entender
as questões que a cercam e saberem se autocriticar, além de criar formas
autênticas e seguras de se expressar para o corpo estudantil.
No entanto, reações ao modo de conduzir a aula podem vir sob forma de
críticas. Se a resposta for essa, agir respeitosamente e ponderar sobre como
se sente a turma ou as conclusões que obtiveram sobre as discussões é uma
opção, de acordo, certamente, com aquilo que se questiona, pois “a
combinação do analítico com o experimental constitui um modo de
conhecimento mais rico” (HOOKS, 2013, p. 121). Ao se deparar com a noção
de autoridade da experiência conferida pelas pesquisas na área do feminismo,
a filósofa explica que há um conhecimento particular advindo do sofrimento.
Manifesto no corpo, ele habilita a experiência que permite acessar o
conhecimento. No entanto, no caso de a experiência pessoal ser um peso e
mais atrapalhar do que auxiliar a acessar diversos pontos de vista, ela deve ser
posta de lado. Essas ocasiões, quer aconteçam na escola ou outros lugares,
imprimem uma ideia positiva aos desafios tido como intransponíveis com os
quais nos deparamos e decidimos não resolver.
Aventar a hipótese de serem raça, gênero e classe marcadores importantes
nas relações sociais implica em reposicionamentos importantes, porque é
marcante nas sociedades o entendimento de que corpo e mente são instâncias
apartadas. Afirmar o oposto disso representa um risco. A educadora
estadunidense exemplifica o exposto ao apontar o tratamento desigual para
com meninas e mulheres provindo de abusos de poder dispensados em
coerção, punição e assédio verbal (e, acrescento, sexual), enquanto docentes,
em maior medida, são tidos apenas como intelecto. A importância de romper tal
tradição reside no que, ao perceber o/a professor/a como corpo e mente,
entendemos seu efeito de responsabilidade sobre o desenvolvimento integral
dos estudantes e a forma de perceber a realidade por eles/as (HOOKS, 2013,
p. 183).
Nesse sentido, o corpo, sobretudo o das mulheres, aparece associado ao
legado da repressão. Importa assinalar que punitivismo e recompensa são
faces do mesmo sistema burguês e autoritário que, infiltrado nos ambientes
educacionais, insinua a miopia do não reconhecimento da presença e das
potencialidades de cada pessoa, ferindo o valor do respeito, do “significado
originário da palavra [respeito], ‘olham para’ uns aos outros” (HOOKS, 2013, p.
247). Uma das formas utilizadas para exercer controle e emanar obediência é
a língua do opressor, aquela pela qual nos comunicamos e que não possui
todas as palavras de que necessitamos (LORDE, 2019). Lancemo-nos, pois, na
empreitada de combate ao silenciamento. Eros, como pulsão de vida, pode
expandir nossa capacidade de autoatualização e inventividade na busca ou
25
renovação de práticas de liberdade que engendrem o fim da falsa dicotomia
exterior/interior em relação à escola/academia.
Considerações finais
A educação constitui um campo cujas reflexões são inúmeras dado mesmo à
necessidade que o avançar das décadas suscita. Ainda que os desafios que
vivemos há quase três décadas não sejam exatamente idênticos aos que
enfrentamos hoje, a necessidade de transformar a escola e os ambientes de
educação em espaços de crítica, autocrítica,
acolhimento e liberdade
permanece. A interseccionalidade proposta e abrigada nas análises das
feministas negras revela a operacionalidade de uma ferramenta que conecta
eixos de opressão sem subordiná-los à hierarquia do mais importante. Aplicada
ao contexto das relações educacionais, o resultado pode ser uma densa
construção de ideias e problemas como observado em Ensinando a
Transgredir.
Ao apontar com acuidade as teias da internalização dos parâmetros do capital
(MÉSZÁROS, 2006), a obra indica os abismos entre capitalismo e liberdade e
discute estratégias para fazer com que o entusiasmo crítico e a práxis retornem
à educação, que torna admissível a (falsa) dicotomia mundo exterior/mundo
exterior. Quando insiste na viabilidade de estratégias como autoatualização
docente, conjugação de diversas pedagogias – por meio da qual uma dialoga
conscientemente com ao outra –, autocrítica e autonomia, a filósofa demonstra
que, sem a (dádiva?) da onisciência, “Só somos porque estamos sendo. Estar
sendo é a condição, entre nós, para ser” (FREIRE, 2002, p. 15). Estar sendo é
a condição para quem deseja não tornar a sala de aula um “local de asilo”, mas
de crescimento e troca dialética (HOOKS, 2013, p. 222). Como a liberdade é
uma luta constante (DAVIS, 2018), inspirar o conhecimento também é uma luta
constante.
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27
ENSINO DE HISTÓRIA E HOMOSSEXUALIDADE: UMA
EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE SEXUAL E DE
GÊNERO
Antonio Xavier M. Neto e Jefferson G. Silva Espinoza
Este estudo se propõe analisar o ensino de História tendo como objeto para
nossa reflexão acerca da homossexualidade. A pertinência desse conteúdo
para o ensino se verifica na necessidade de promoção da cidadania e da
identidade homoafetiva e no que se refere as possibilidades do ensino,
apresentar elementos para a constituição da historicidade da
homossexualidade em sala de aula.
Tendo em vista a conjuntura de crimes contra as minorias sexuais e a restrição
da cidadania LGBTQIA+ no Brasil, além da necessidade de fazer das aulas de
história um “local da aprendizagem de que as regras do espaço público
democrático garantem a igualdade, do ponto de vista da cidadania, e ao
mesmo tempo a diversidade, como direito” (BRASIL, 1998c, p. 69),
apresentamos nas páginas que se seguem algumas considerações sobre a
inclusão do tema transversal da diversidade sexual e de gênero nas aulas de
história.
Altmann (2013) destaca a importância da escola na construção de uma
educação democrática. Para o autor:
“a importância da escola diante destas questões está relacionada ao caráter
democrático de tal instituição, tanto no que se refere à democratização do
acesso e às condições de permanência, quanto às relações que ali se
estabelecem. A escola é uma forma fundamental de promoção da igualdade de
direitos. Para que cumpra esta função, o respeito à diversidade sexual é ali
imprescindível, caso contrário, ela instaura práticas discriminatórias e
heteronormativas que excluem ou invisibilizam diferenças.” (ALTMANN, 2013,
p. 77).
Apesar disso, o mais habitual é que os educadores considerem essa pauta
muito específica e particular, excluindo-a da estrutura curricular da escola e
invisibilizando as concepções de mundo e sofrimentos pelos quais passa o
alunado LGBTQIA+. Mesmo quando o assunto acaba surgindo nas aulas, ele
seria marcado pelos preconceitos e estereótipos típicos da LGBTfobia. Dessa
forma, educadores se somariam a diversos outros sujeitos sociais na condição
de responsáveis por fazer circular uma série de discursos, textos, modos de
viver e pensar repletos de ideias e valores homofóbicos que sujeitam gays,
lésbicas, bissexuais, transexuais e transgêneros a uma condição de
28
vulnerabilidade social e de risco de violência.
“Esse cenário de exclusão apela para que o tema da diversidade sexual e de
gênero seja incluído no currículo de formação de novas professoras e
professores para que possam futuramente desenvolver estratégias de
resistência ao currículo heteronormativo. A omissão e o silenciamento
significam pactuar com a violência exercida contra estudantes gays, lésbicas,
bissexuais, travestis e transexuais. A escola deve ser também um espaço de
formação de cidadania e respeito aos direitos humanos, assim as (os) docentes
devem ser encorajadas a assumir sua responsabilidade no combate a todas as
formas de preconceitos e discriminação que permeiam o espaço escolar.”
(DINIS, 2011, p. 48-49)
É perceptível a ausência do tema da diversidade sexual e de gênero nas salas
de aula. Pode-se verificar que os diversos livros didáticos de História
elaborados, especificamente aqueles para os anos finais do ensino
fundamental, os quais tratam sobre a temática Nazista, não contemplam o
assunto de forma consistente, reservando uma ou duas linhas para
expressarem frases como ''nos campos de concentração também tinham
homossexuais''. Assim se encerra a presença dos LGBTQIA+ nos livros
didáticos, após essa frase vem o ponto final, o qual não apenas reproduz um
final para o conteúdo escrito, mas principalmente o sufocamento do
reconhecimento e o melhor entendimento acerca dessas experiências, que são
únicas a esses indivíduos prisioneiros do nazismo.
Diversas pesquisas na área de História e Ensino enfatizam a necessidade de
se pensar a escola como lugar de produção de saber histórico, pensando que o
processo de ensino e aprendizagem se dá pela orientação do pensamento
histórico em sentido restrito, e que tal sentido é fundamental na elaboração de
narrativas originais pelos educandos e educadores.
Em pesquisa de grande impacto realizada em parceira entre o Ministério da
Educação (MEC),
a Organização dos Estados Ibero-americanos para a
Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) e a Faculdade Latino-Americana de
Ciências Sociais (Flacso), constatou-se que a homofobia continua sendo um
dos principais tipos de preconceito nas escolas. “Homossexuais, transexuais,
transgêneros e travestis são indicados como pessoas que não se queria ter
como colega de classe por 19,3% dos alunos, sendo os jovens do EM [Ensino
Médio] os que mais rejeitam essas pessoas. Existem diferenças na
predisposição com os colegas quando separamos os alunos por sexo. (...)
Enquanto 31,3% dos rapazes dizem não querer ter como colegas de classe
homossexuais, transexuais, transgêneros e travestis, baixa para 8% a
proporção de meninas que assim se expressam” (ABRAMOVAY; CASTRO;
WAISELFISZ, 2015, p. 94).
Paulo Freire (2001), afirma que a escola não pode ser apenas um depositário
de pessoas e conhecimentos empacotados. Nesta perspectiva acerca dos
espaços de produção saber, relembraram as pesquisas que a escola deve ser
29
um espaço de reinvenção do conhecimento e não apenas o seu reprodutor.
Como já indicado anteriormente, não faltam dados e justificativas que atestam
a necessidade de que esse debate seja acolhido pelas escolas. É
compreensível que muitos professores tenham receio em abordar esse
conteúdo, seja por falta de preparação ou, principalmente, pelos desafios que
um tema envolto por tantos preconceitos e tabus impõe. É preciso, assim, que,
uma vez convencidos da importância da inclusão dessa discussão, os
educadores tenham consciência de que não podem ser constrangidos por
abordar esse tema, pois ele está previsto em diversas diretrizes e parâmetros
curriculares.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de nove anos
(BRASIL, 1998a) afirmam, em seu artigo 16, que "os componentes curriculares
e as áreas de conhecimento devem articular em seus conteúdos (...) a
abordagem de temas abrangentes e contemporâneos” – e lista sexualidade e
gênero entre eles. Já as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio
(BRASIL, 1998b), também em seu artigo 16, determinam que "o projeto
político-pedagógico das unidades escolares que ofertam o Ensino Médio deve
considerar: (...) XV – valorização e promoção dos direitos humanos mediante
temas relativos a gênero, identidade de gênero, raça e etnia, religião,
orientação sexual, pessoas com deficiência, entre outros, bem como práticas
que contribuam para a igualdade e para o enfrentamento de todas as formas
de preconceito, discriminação e violência sob todas as formas”.
Contudo, o que se observa é que mesmo com todo esse respaldo legal, muitos
educadores preferem passar longe desse assunto, invisibilizando esses
sujeitos, as opressões e a restrição de direitos de que são vítimas. Esse
diagnóstico contribui na elaboração de argumentos que fundamentam o
trabalho pedagógico com esse tema, com especial atenção ao aparato legal
que o respalda, regulamenta e orienta.
Para Silva & Vieira (2009, p. 190), em uma breve análise histórica sobre a
homossexualidade, percebemos associações com as ideias de crime, pecado,
patologia, ao contrário da heterossexualidade “apresentada como norma, como
sendo a sexualidade inerente à menina e ao menino”. Nessa lógica, o ver e o
dizer sobre as práticas homossexuais são constituídos historicamente a partir
de mecanismos de força que organizam e delimitam conceitos e significados a
partir de influências ideológicas, culturais, sociais, políticas e, da mesma forma,
demarcando funções variadas de um mesmo conceito ou uma mesma prática.
A temática acerca da diversidade sexual e de gênero, do combate à homofobia
e da ampliação da cidadania LGBTQIA+ apresenta-se, como um relevante
desafio para o ensino de história. Propor esse diálogo no espaço escolar,
permite que se confronte o currículo da disciplina com narrativas históricas de
grupos sociais até então invisibilizados. Acões nesse sentido são essênciais no
desenvolvimento de experiências com vistas a “identificar e repensar tabus e
preconceitos referentes à sexualidade, evitando comportamentos
30
discriminatórios e intolerantes e analisando criticamente os estereótipos”
(BRASIL, 1998d, p. 311), tornando possível fazer da escola um ambiente
verdadeiramente formador para a cidadania e a diversidade
Nossas inquietações acerca da homossexualidade, entendida aqui como uma
das expressões da sexualidade humana, partem das observações do cotidiano
escolar que vivenciamos como docentes. Não é difícil perceber que a escola,
lugar de entrecruzamentos da diversidade cultural, possui ainda muita
dificuldade em trabalhar com a pluralidade, sobretudo em relação à temática de
gênero e sexualidade. Como afirma Louro (2014):
“Diferenças, distinções, desigualdades... A escola entende disso. Na verdade, a
escola produz isso. Desde seus inícios, a instituição escolar exerceu uma ação
distintiva. Ela se incumbiu de separar sujeitos – tornando aqueles que nela
entravam distintos dos outros, os que a ela não tinham acesso. Ela dividiu
também, internamente, os que estavam lá, através de múltiplos mecanismos de
classificação, ordenamento, hierarquização. A escola que nos foi legada pela
sociedade ocidental moderna começou por separar adultos de crianças,
católicos de protestantes. Ela também se fez diferente para os ricos e para os
pobres e ela imediatamente separou meninos de meninas”. (LOURO, 2014, p.
61).
Os diversos problemas que encontramos em sociedade, e principalmente em
sala de aula, para discutir o tema da diversidade de orientação sexual está
justamente ligado na apreensão sobre funções e papéis sociais dos sexos
individualmente, ou seja, na afirmação frequente da ideia de “linha de
chegada”. Espera-se das mulheres que tenham determinadas ações e inclusive
determinadas reações a situações do cotidiano, da mesma forma que espera-
se dos homens um determinado tipo de conduta que, supostamente, seja
condizente com o “ser homem”.
Para Bourdieu (2002), essas relações sociais entre os gêneros são fruto de
construções, e elas também demonstram a maneira pela qual nossa sociedade
concebe os corpos femininos e os corpos masculinos. Sentar e cruzar as
pernas não seria uma conduta masculina, ou sentar e abri-las não seria uma
conduta feminina. Estas ações, aparentemente simples do cotidiano, estão
permeadas por relações de poder que instituem nos corpos códigos de conduta
que, somente a partir destes, aqueles corpos poderiam ser reconhecidos como
sendo homem ou como sendo mulher em um padrão social inventado de
normalidade e adequação. A homofobia é uma das violências mais recorrentes
no espaço escolar, e não se constitui apenas de violência física ou mesmo
explícita, muitas são veladas, através de pequenas formas de segregação e
exclusão.
A importância do debate sobre a Homossexualidade no ensino, se centra na
constatação de que o não reconhecimento da possibilidade da diversidade de
orientação sexual e afirmação perene da ideia de “linha de chegada” sobre os
corpos e determinação desta “linha de chegada” dentro de pressupostos
31
heteronormativos, levou a sociedade ao que o antropólogo Luiz Mott chamou
de Homocausto.
A diversidade sexual e de gênero não costuma ser um tema comumente
contemplado no ensino de história, tampouco é constituinte de conteúdos
convencionais do currículo dessa disciplina. Essa ausência por si só já
representa um obstáculo significativo, pois demanda uma grande mobilização
por parte dos professores que se dispõe a trabalhar com o assunto.
Essa constatação vai de encontro à hipótese de que os professores nunca
agiriam sozinhos no processo de mediação didática, uma vez que haveria uma
transposição externa realizada na noosfera (agências governamentais, autores
de livros didáticos, formuladores de currículos) que necessariamente se
anteciparia à transposição interna operada pelos professores em sua atividade
docente. Como se observa,
o trabalho com a diversidade sexual e de gênero
demonstra a magnitude que a participação ativa dos professores nos
processos de mediação didática pode alcançar.
A metodologia proposta para integrar essa dimensão da realidade social aos
currículos é justamente a dos temas transversais, definidos como questões
sociais eleitas para o trabalho escolar por seu potencial pedagógico na
construção da cidadania e da democracia e por envolverem diversos aspectos
da vida social. Assim, os temas transversais teriam uma natureza distinta das
áreas convencionais e disciplinares. Enquanto processos vividos intensamente
pelos mais diversos grupos sociais e que integram múltiplas dimensões do
cotidiano, esses temas atravessam as diversas áreas do conhecimento.
Levando em conta essas características, é mais do que razoável considerar “a
necessidade de que tais questões sejam trabalhadas de forma contínua,
sistemática, abrangente e integrada e não como áreas ou disciplinas” (BRASIL,
1998d, p. 25-27).
Portanto, conclui-se que um dos grandes desafios a se enfrentar é justamente
a tentativa de encontrar interseções e relações possíveis entre a área de
ensino de história e os estudos em torno do tema da transversalidade. A
educação para a diversidade sexual e de gênero, embora respaldada por uma
série de documentos da legislação educacional que regulamenta os mais
diversos sistemas de ensino no país, continua sendo um campo pouco visitado
nas escolas. Isso se deve não somente para a falta de formação dos
professores em relação ao tema, mas principalmente à resistência social que
essa questão ainda enfrenta.
Acolher esse compromisso exige, ainda, do docente uma ampla preparação
que envolve dominar a legislação acerca da temática, conhecer minimamente a
bibliografia e as pesquisas sobre sexualidade humana, LGBTfobia e restrição
de direitos da comunidade LGBTQIA+, além de muita sensibilidade na
condução de atividades acerca de um assunto que envolve muitas polêmicas,
tabus e resistências.
32
O silenciamento da estrutura currícular é um dos principais problemas que
possuímos no repertório do drama que tem se caracterizado a vida de
estudantes homossexuais em sala de aula. E a homofobia possui, nesse
quadro, amplo campo de desenvolvimento, uma vez que necessita justamente
do silêncio daqueles responsáveis pela organização escolar, silêncio que em
muitos casos pode ser interpretado como conivência.
Referências biográficas
Antonio Xavier Miranda Neto, licenciado em História pela Universidade
Estadual do Maranhão – UEMA.
Jefferson Giovani Silva Espinoza, licenciado em História pela Universidade
Estadual do Piauí – UESPI.
Referências bibliográficas
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de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
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Câmara de Educação Básica. Parecer CEB n. 4/98. Diretrizes Curriculares
Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília, DF: MEC/CNE, 1998a.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Conselho Nacional de
Educação.
Câmara de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino
Médio. Resolução CEB no 3/1998. Brasília, DF: MEC/CNE, 1998b.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares
Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: introdução aos
parâmetros curriculares nacionais, Brasília: MEC/SEF, 1998c.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares
Nacionais:
terceiro e quarto ciclos: apresentação dos temas transversais, Brasília:
MEC/SEF,
1998d.
DINIS, Nilson Fernandes. Homofobia e educação: quando a omissão também é
signo de violência. Educar em Revista (Impresso), v. 39, p. 39-50, 2011.
FREIRE, P. Aprendendo com a própria história. Vol. 1. 2ª ed. São Paulo: Paz e
33
Terra, 2001.
LOURO Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação. Uma abordagem
pós-estruturalista. 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
SILVA, Aline Ferraz da; VIEIRA, Jarbas Santos. Pelo sentido da vista: um olhar
gay na escola. Currículo sem Fronteiras, v.9, n.2, pp. 185-200, Jul/Dez 2009.
34
ENSINO DE HISTÓRIA E DECOLONIALIDADE:
CONTRIBUIÇÕES DA INTERCULTURALIDADE E DA
INTERSECCIONALIDADE NOS ESTUDOS DE GÊNERO
Caroline Machado Costa e Giovanna Santana
Este trabalho apresenta as categorias de interculturalidade e
interseccionalidade como possibilidades para pensar o ensino de História a
partir de uma perspectiva decolonial. Dialoga com as produções de autoras e
autores latino-americanos/as com o objetivo de entender a construção histórica
das relações de poder, problematizando as diferenças culturais historicamente
estabelecidas enquanto desigualdades sociais. Nesse aspecto, gênero,
sexualidade, etnia/raça, classe social, religiosidade, entre outros, tornam-se
elementos fundamentais para a compreensão da proposta decolonial na
disputa pela narrativa histórica.
Nesta comunicação com recorte nos estudos de gênero, trazemos as
contribuições de pensadoras ativistas como María Lugones (2014), Catherine
Walsh (2020), Vera Maria Candau (2017) com o propósito de sistematizar as
discussões teórico-metodológicas das categorias supracitadas, assim como
refletir sobre suas potencialidades para se pensar a disciplina de História
vinculada à proposta decolonial.
As categorias de interculturalidade e interseccionalidade são categorias
estruturais mobilizadas pelo movimento feminista e pedagógico da
decolonialidade que visam uma mudança da Colonialidade do poder, da
natureza, do ser e do gênero. A decolonialidade podemos definir a como o
amadurecimento do conceito de pensamento fronteiriço, inicialmente
desenvolvido por Walter Mignolo (BALLESTRIN, 2013). Com essa definição, o
filósofo argentino defende que o paradigma da modernidade e de racismos na
produção de conhecimentos não pode ser ignorado ou subestimado. No caso
dos/das latinoamerianos/as trata-se de pensar a condição dos povos e grupos
subjugados no continente, sobretudo pelos projetos de explorações espanhóis
e portugueses, a partir de um referencial teórico próprio, não construído por
uma análise da modernidade explicitada somente por eventos endógenos à
Europa. Assim, a decolonialidade se constituí a partir daradicalização do
argumento pós-colonial, promovido pelos Estudos Subalternos Indianos e
Latino-americanos. Vale acrescentar que nesse conjunto de pesquisas
precedentes, o colonialismo e o nacionalismo, especialmente britânicos, foram
assuntos chaves para o estudo dos processos de dominação europeia na sua
articulação com as elites da Índia e do mundo “oriental” (MIRANDA, 2017).
35
A decolonialidade como proposta teórico-metodológica surge na década de
1990, com a reunião do Grupo Modernidade/Colonialidade em torno da tese,
na qual a inserção da Abya Yala (o continente americano) no sistema-mundo
demarca o início da modernidade capitalista, bem como inicia a construção da
ideia de raça como elemento fundante da hierarquia no novo sistema
econômico global. Em distinção ao colonialismo, como sistema de submissão
econômica e cultural das colônias às metrópoles, a definição de colonialidade
evidencia a continuidade de determinadas relações de poder oriundas do
período colonial, mesmo após os movimentos de independência, mantendo-se
como aspectos inerentes das opressões e violências vividas no tempo
presente.
É nesse contexto que María Lugones (2014) amplifica a noção de colonialidade
do poder de Aníbal Quijano para refletir sobre o papel da colonialidade do
gênero nos processos civilizatórios. A colonialidade do poder diz respeito à
classificação das diferentes populações em raças, configurando a cisão
colonizador/colonizado em um sistema de exploração mundialmente
estruturado. Além de ampliar a compreensão do desenvolvimento histórico do
capitalismo, Lugones (2014, p. 939) corrige a definição de gênero utilizada pelo
autor, “visto só em termos de acesso sexual às mulheres.”. Com isso, elabora
uma crítica às opressões de gênero racializadas, coloniais/capitalistas e
heterossexualizadas (LUGONES, 2014, p. 940). A socióloga argentina
acrescenta ainda que a colonialidade de gênero deve ser compreendida na sua
relação com a “diferença colonial”. Assim, defende a intersecção entre
gênero/classe/raça, como constructos centrais para entender o funcionamento
da matriz colonial de poder (MCP).
Vale contextualizar que a ideia de interseccionalidade advém dos movimentos
feministas negros estadunidenses. Vera Maria Candau (2020, p. 682) identifica
a origem do termo nos escritos da jurista norte-americana Kimberlé Williams
Crenshaw (1989) na luta pelos diretos civis das mulheres negras. O conceito
serviu para demarcar o entrecruzamento das relações de poder estabelecidas
a partir das diferenças raciais, sexuais e de classe social. Candau (2020)
também faz menção às contribuições de Carla Akotirene (2019, p. 15), ativista
brasileira que escreveu o livro O que é Interseccionalidade?, no qual aponta
para a existência de “um sistema de dominação interligado”, como referência à
ativista Patricia Hill Collins. Desta forma, a interseccionalidade surge como uma
ferramenta teórico-metodológica frente a “inseparabilidade estrutural do
racismo, capitalismo e cis-hétero-patriarcado” no padrão de dominação mundial
(CANDAU, 2020, p. 682).
Outra categoria oriunda dos movimentos sociais que, mais tarde, foi
contemplada pelo pensamento decolonial, é a noção de interculturalidade
crítica. Catherine Walsh (2020) explica que a concepção foi emprestada dos
movimentos sociais indígenas equatorenhos, que mobilizaram a
interculturalidade como uma ferramenta política de luta para o reconhecimento
de suas culturas e línguas na elaboração da constituição do seu país.
Segundo Candau (2020), para Walsh a interculturalidade crítica parte da
36
problematização das relações de poder, daí seu vínculo necessário com o
pensamento decolonial. A educadora norteamericana afirma que a
interculturalidade não é uma noção acadêmica, mas antes um conceito de luta
aprendido dos movimentos sociais originários do Equador. Ela distingue a
interculturalidade crítica, das suas versões funcionais. Isto é, o
multiculturalismo ou a interculturalidade funcional, como apostas neoliberais
para inclusão/absorção das lutas identitárias pelos estados-nação (WALSH,
2009). Do contrário, a interculturalidade crítica destaca as diferenças culturais
constituídas como desigualdades, evidenciando as relações de poder em
zonas de contato ou de fronteiras. Implica, portanto, em “Um processo
dinâmico e permanente de relacionamento, comunicação e aprendizagem
intercultural em condições de respeito, legitimidade mútua, simetria e igualdade
[tradução das autoras]” (WALSH, 2017, p. 287).
Nesse aspecto, tanto a interseccionalidade quanto a interculturalidade são
categorias construídas pelos movimentos sociais que correspondem e
contribuem para as demandas de uma pedagogia decolonial. Walsh (2017, p.
291) define a corrente decolonial na “pedagogia como política cultural”, um
apanhado de práticas que encorajam “a construção de novos aspectos sociais,
políticos, culturais e de pensamento [tradução das autoras]” (WALSH, 2017, p.
291). Nesse sentido, os espaços pedagógicos possíveis para pensar a
decolonialidade são diversos, desde os movimentos sociais, às relações
interpessoais, perpassando também a escola como local de intervenção.
Daí a possibilidade de articular o ensino de História com o estudo das relações
de poder, conforme as categorias e os conceitos apresentados pela
decolonialidade. Isso porque, além de questionar as diferenças construídas
enquanto desigualdade ao longo do tempo, a interculturalidade crítica também
problematiza o eurocentrismo e a linearidade na construção da narrativa
histórica (CANDAU, 2020). Ademais, são reflexões que nos permitem
compreender o quadro de disputas por temáticas abordadas em sala de aula, e
os debates em torno da censura dos estudos de gênero e de sexualidade nas
escolas que ocorreram recentemente em todo o país.
Desta forma, o quadro que encontramos para abordar certos temas em sala de
aula é controverso. As tentativas de suprimir os estudos de sexualidade e de
gênero, assim com outros estudos referentes às matrizes culturais africanas ou
afro-brasileiras, ocorreram ora de forma articulada, ora de forma difusa, como
abordaremos adiante. O incômodo causado em relação a esses temas
demonstra a importância da interseccionalidade para compreender a
construção destas relações de poder e também justificam o porquê deste
incômodo, reação ou recusa: são temas que, quando abordados de maneira
crítica, têm o potencial para revelar o funcionamento das estruturas de poder
no nível das relações interpessoais, institucionais ou estruturais.
Como fenômeno que se acirrou após a virada de 2010, Penna (2020) associa o
desdobramento das políticas conservadoras a nível federal no decorrer dos
debates a respeito da definição dos Planos Municipais (PMEs) e Planos
37
Estaduais de Educação (PEEs), a fim de garantir a censura dos estudos de
gênero, sexualidade, entre outros assuntos nas escolas. A mesa
“Compromissos éticos da docência em história: a trajetória de um debate” que
aconteceu em março de 2021, durante um evento promovido pela Associação
Brasileira de Ensino de História (ABEH), contou com a presença de dois
professores e uma professora da disciplina. Dentre os participantes, Daniel
Carvalho (2020), professor de História do município de Macaé-RJ, acrescentou
que a distorção dessas pautas educacionais se transformou em uma
plataforma política para candidaturas em diferentes regiões do país, que
buscavam se destacar entre a onda conservadora crescente. As ações foram
articuladas nas instituições de ensino por políticos locais, pais, mães e
responsáveis da comunidade escolar que recorriam a reações autoritárias
como formas de denunciar a “doutrinação ideológica” ou a abordagem da
“ideologia de gênero” nas salas de aula.
Essa conjuntura agravou a situação profissional de muitos/as educadores/as,
que se viram submetidos/as à processos de censura, desde o campo jurídico à
existência de ameaças, violências físicas ou risco de perseguições sutis e
indiretas, por meio das estruturas de poder e dos instrumentos burocráticos.
Nesse aspecto, vale mencionar o relatório publicado pela organização Human
Rights Watch (organização internacional não governamental) em maio de 2022
a respeito das tentativas de proibição dos estudos de gênero e de sexualidade
nas escolas do país. Com o subtítulo “Esforços para proibir a educação sobre
gênero e sexualidade no Brasil”, o dossiê contou com a colaboração de trinta e
dois professores/as de oitos estados brasileiros. Entre os estados
contemplados pela pesquisa estão São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina,
Paraná, Alagoas e Paraíba.
As entrevistas foram realizadas com professores/as de História, Pedagogia,
Inglês, Geografia, Sociologia, que tiveram suas propostas educativas
hostilizadas ou denunciadas em diferentes regiões. O documento reúne uma
série de leis e fundamentos legais que respaldam a abordagem dos estudos de
gênero e de sexualidade nas escolas, amparados por acordos internacionais e
locais. Entre os acordos, podemos citar o Pacto Internacional sobre Direitos
Civis e Políticos (PIDCP), o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais (PIDESC), a Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC)
e a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra a Mulher (CEDAW, na sigla em inglês).
Além disso, a pesquisa feita pela organização, de maneira semelhante,
correlacionou a distorção destas pautas
educacionais para fins políticos, como
na campanha do presidente Jair Bolsonaro em 2018, entre outras candidaturas
correlacionadas.
Outra consideração relevante é que o relatório concluí que esses ataques à
educação, e em especial à escola pública, ferem não apenas à autonomia e o
respeito dos/das educadores/as, mas igualmente transgredirem os direitos
associados à educação, à saúde e à informação. Isso porque, o uso do
38
conceito-chave “gênero” e “orientação de sexual” nas diferentes áreas do
ensino interferem diretamente no direto de meninas e mulheres, pessoas trans,
lésbicas, bissexuais e outros.
Também vale mencionar as tentativas e declarações de intervenção do
governo federal na elaboração do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)
que resultaram na exoneração de grande parte da equipe às vésperas do
exame. Segundo os/as servidores/as que realizaram a denúncia, foram vetadas
da avaliação questões que envolviam contextos sociopolíticos ou
socioeconômicos, com risco de assédio moral e desmonte das diretorias no
caso de resistências (OLIVEIRA, 2021).
De acordo com outras fontes, a requisição incluía o revisionismo de termos
históricos como Golpe de 1964, por Revolução de 30, e a supressão de
perguntas voltadas para os debates de gênero e de racismo. Estima-se que
uma média de vinte questões tenham sido suprimidas da primeira versão do
exame (SALDAÑA, 2021). Cabe contextualizar que o processo de elaboração
da prova conta com a inscrição de professores/as, por meio de edital, para a
produção das questões. Após esta etapa, realiza-se o cruzamento desse
material com os dados do Banco Nacional de Itens (BNI). Levando em conta
este fluxo de produção, os/as servidores/as afirmam a impossibilidade de
contemplar as solicitações do presidente, devido a sua falta de amparo
historiográfico.
Mesmo assim, a exoneração da equipe revela a desestabilização no órgão nas
vésperas de aplicação do Enem e do Exame Nacional de Desempenho dos
Estudantes (Enad), como também evidencia a tentativa de enfraquecer a
administração pública e as autarquias ligadas à formulação e à execução das
políticas educacionais (SANTOS, 2021). Além disso, a desestabilização
acontece em paralelo com propostas que visam “eventuais terceirizações” do
banco de questões que formulam o Enem e outros exames de relevância
nacional (Redação G1, 2021).
Após a realização da prova, o presidente Jair Bolsonaro afirmou em sua defesa
que a interferência não aconteceu, pois a avaliação teria “mudado para
sempre, com questões objetivas”. Alegou que caso ele e o, então, Ministro da
Educação, Milton Ribeiro, pudessem de fato alterar a elaboração do exame,
não haveria na prova de Linguagens e Ciências Humanas nenhuma “questão
ideológica” (GOMES, 2021).
Dito isso, entendemos que os conceitos antes mencionados, como
colonialidade de gênero, interseccionalidade e interculturalidade são profícuos
para compreender e criticar o contexto de repressão dos estudos de
sexualidade e de gênero no Brasil, pois como defendemos, são temas que
apresentam potencial para revelar o funcionamento das estruturas de poder no
nível das relações interpessoais, institucionais ou ainda estruturais. Ao realizar
a crítica centrada nas relações de poder, expondo as hierarquizações entre
gênero, raça, classe, sexualidade, religiosidade, entre outros, abrimos espaço
39
para superação das condições vigentes, operando numa perspectiva freiriana
de denúncia/anúncio, em busca da construção de relações outras.
No caso do Brasil, ganham destaque atualmente os estudos da branquitude
para refletir a respeito da manutenção da Matriz Colonial do Poder (MCP).
Estudos com o de Andrelize S. F. de Assis e Kátia S. C. S. Farias (2021), por
exemplo, apostam na problematização da branquitude, isto é, na construção do
padrão de dominação histórico racial-branco-masculino-heterossexual-cristão
no país, como elemento central do debate sobre a temática racial nas salas de
aula. Segundo as autoras, trata-se de um deslocamento para atentarmos à
identidade racial branca, cristã e masculina, que tem se constituído como
dominante nas estruturas de poder no Brasil.
Nesse sentido, ao observarmos a composição histórica dos representantes
políticos neste país e, mais recentemente, a defesa dessas pautas
antidemocráticas na educação básica, encontraremos uma série de vestígios e
evidências que apontam para os aspectos remanescentes, mas não exclusivos,
dos processos de colonização, como o racismo, machismo, intolerância
religiosa, homofobia, entre outros. Por isso a posição privilegiada do ensino de
História, dentre as demais disciplinas, para se pensar na construção desses
padrões numa perspectiva de longa duração.
Portanto, nesta comunicação trouxemos as contribuições de pensadoras
ativistas como María Lugones (2014), Catherine Walsh (2020), Vera Maria
Candau (2017) com o propósito de sistematizar algumas discussões teórico-
metodológicas da decolonialidade, e abordar suas potencialidades para se
pensar os estudos de gênero na disciplina de História. Como recorte,
apresentamos brevemente os conceitos de interculturalidade e
interseccionalidade, construídos pelos movimentos sociais indígenas e afro-
americanos, como possibilidades para pensar uma pedagogia decolonial,
centrada na crítica das relações de poder.
São ferramentas teóricas que nos permitem compreender o quadro de disputas
por temáticas abordadas em sala de aula, como a atual repressão aos estudos
de gênero e sexualidade nas escolas, como também atentam para a
construção histórica dos padrões estruturais de dominação.
O ensino de História visto de uma perspectiva democrática não deve se
configurar como uma cartilha para a defesa de um posicionamento político
único. No entanto, não podemos nos abster de uma série de compromissos
que regem a profissão docente. Dentre eles, pactos e acordos internacionais,
tais como os supracitados ao longo da comunicação, assim como leis que
instituem a obrigatoriedade do ensino das culturas e histórias africanas, afro-
brasileiras e indígenas na educação básica, respectivamente, a Lei 10.639/03 e
a Lei 11.645/08.
Por fim, vale destacar que esses ataques à educação, e em especial à escola
pública, transgredirem os direitos associados à educação, à saúde e à
40
informação, uma vez que o uso dos marcadores como “gênero”, “orientação de
sexual”, “racismo” nas diferentes áreas do ensino interferem no exercício do
direto de meninas e mulheres, pessoas trans, lésbicas, bissexuais e outros.
Referências biográficas
Ma. Caroline Machado Costa, doutoranda da Universidade Federal de Santa
Catarina
Ma. Giovanna Santana, doutoranda da Universidade Federal de Santa Catarina
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https://youtu.be/K48YXfPuYu0
42
ENSINO DE HISTÓRIA E GÊNERO: ANÁLISE POR
MEIO DA TRAGÉDIA GREGA
Darcylene Pereira Domingues
O presente texto visa demonstrar a utilização de uma fonte histórica,
especificamente a tragédia grega, produto da realidade isonômica da pólis
grega, como fonte de pesquisa, juntamente, analisar as relações sociais desse
período. Nesse sentido, entendemos a tragédia como uma produção especifica
do século V a.C e suporte para diversas questões a respeito dos papeis sociais
tanto masculino como feminino no interior da Hélade clássica. O teatro de
Dioniso apresentou-se como um espaço que proporcionou por meio das
representações cênicas diversos personagens míticos e novas interpretações
para suas ações. É justamente essa nova representação desse passado
mítico, já de conhecimento dos expectadores/cidadãos, que refletimos sobre
diversos comportamentos, ações e até mesmo crimes nas obras. A tragédia
inaugura uma nova forma de percepção da realidade grega e traz ao palco
assuntos sensíveis a convivência humana naquele período.
Nessa mesma ótica, Redfield (1994) define a cidade a partir do político como
uma comunidade que possui uma pluralidade de pessoas, os cidadãos, e que
se mantém estruturada através dos laços recíprocos de hospitalidade e
casamento. Como também “esta manipulação do parentesco que constitui,
creio eu, o acto fundador da cidade grega” (LEDUC, 1990). Esse convívio,
inaugurado pelos gregos, é também amplamente discutido por Claude Mosse
(1990) em seu livro A mulher na Grécia Clássica, obra em que a historiadora
define a cidade como um clube de homens, na qual o feminino é visto como
uma “eterna menor” porque necessitava da figura de um tutor. É esse tutor que
se figura no pai ou algum parente masculino mais próximo, responsável por
manter a condição social do feminino, primeiramente como filha,
posteriormente esposa e mãe. Nessa perspectiva, observamos que o feminino
necessita do masculino para ter uma representação pública ou social, por isso
“é o chefe da família quem assegura a ligação entre o oikos e a comunidade
cívica, é ele que realiza os gestos decisivos de integração” (ZAIDMAN, 1990).
É justamente essa determinação social que condiciona o exercício da função
de ambos os gêneros no interior das relações de parentesco, uma vez que, “os
sistemas de parentesco determinam que a sexualidade de ambos os sexos
seja esculpida de uma determinada forma” (RUBIN, 2017). Deste modo, as
atividades femininas são necessárias a cidade, já que elas desempenham
funções fundamentais à existência biológica da mesma. Neste campo elas são
valorizadas e encontram um lugar de visibilidade no mundo cívico, fornecendo,
segundo (LORAUX,1994) cidadãos legítimos, à continuação da pólis.
43
Esse modelo binário, especificamente grego, era constantemente reafirmado
pela própria organização social da pólis que separava o espaço público do
particular, bem como os papéis femininos e masculinos, portanto “na sociedade
políade, as mulheres definiam-se, principalmente, pelo seu lugar e pelos seus
deveres” (LESSA, 2004). Claro que o cidadão masculino define o comum como
o dele, o particular com o dela, contudo é ele que determina um grau de
importância a esses espaços assim atribuindo maior valor para um em
detrimento do outro. O feminino se encontra constituído por uma concepção
de
sociedade e mundo amplamente androcêntrica, necessitando da figura
masculina para sua representação em quase todas instâncias. Logo, as
mulheres não eram mais filhas dos heróis homéricos e sim filhas de cidadãos
que participavam da cidade em uma função especifica. Posto isso, é nesse
novo cenário, que o casamento é visto como um meio para fortificar as
relações de parentescos num princípio normativo e necessário para
sobrevivência da pólis além de regulamentar o comportamento de ambos os
gêneros.
A prática da domesticidade é uma forma de construir um tipo específico de
feminino imbricado em relações de parentesco claramente heterossexuais.
Consequentemente, era considerado fundamental na vida de todo cidadão já
que significava a continuação de sua descendência além do nome da família.
Destarte, homens e mulheres deveriam contribuir fornecendo cidadãos
legítimos.
É preciso lembrar que a tragédia está ligada a um tipo de convivência
específica na pólis, uma forma inaugurada pelos gregos entre os séculos VIII e
VII a.C., favorecendo segundo Vernant “uma extraordinária preeminência da
palavra sobre todos os outros instrumentos de poder” (VERNANT, 1984).
Assim sendo, a palavra, peithó, a força da persuasão, se torna instrumento
político no meio social largamente utilizado, principalmente em Atenas, a
cidade das palavras “logopolis” (GOLDHILL, 1986). Consequentemente, as
manifestações sociais e artísticas são realizadas pela força da palavra e a pólis
só existiria devido às instituições de domínio público, como por exemplo, a
ágora, as assembleias e o teatro.
Visando à manutenção desse sistema políade, para além da oralidade, outras
estéticas eram construídas, esse é o caso das tragédias gregas, que eram
escritas para o teatro, que se apresentou como um espaço que viabilizava uma
encenação das práticas necessárias ao convívio humano. A tragédia se torna
produto e produtora de uma realidade isonômica, elemento fundamental para o
exercício da palavra, já que expressa a concretização do universo do diálogo.
Na verdade, ela se torna elemento fundamental para a realidade isonômica
pois introduz os cidadãos em uma forma mental necessária a este tipo de
convívio. O reconhecimento da importância na elaboração das decisões da
palavra de um na ação de outro.
Nesta acepção, a tragédia poderia possuir um sentido paideutico já que pode
ser interpretada como coparticipe na formação da mentalidade dos atenienses
44
no século V. Esse processo de formação dos indivíduos na sociedade grega
era construído no público, diante disso, o teatro é visto como um lugar onde os
cidadãos aprendiam, de certa maneira, jogos mentais necessários para a
convivência na pólis. Neste sentido, segundo Gonçalves, “PAIDÉIA E
POLITÉIA são conceitos construídos em um mesmo esforço de entendimento
da condição humana para além de uma percepção platônica, já que, para ele,
os deveres dos indivíduos, as noções de bem e de mal dependem dos fins
perseguidos pela cidade” (GONÇALVES, 2004). Nesse contexto, a pólis se
apresenta como uma comunidade pedagógica, pois a politéia não era
simplesmente uma abstração, visto que “eram os cidadãos em ação que
davam sentido a cidade” (SILVA, 2016). Nesta lógica social, a tragédia se torna
um elemento central na construção do cidadão, uma vez que ela é encenada,
escrita e financiada por cidadãos, e, principalmente, porque efetiva o
espetáculo no interior da pólis com questões contemporâneas a sua
convivência, como corroborado por Segal a tragédia é um “espetáculo citadino”
(SEGAL, 1994).
E ao nos debruçarmos a respeito desse processo de formação, visualizamos
uma distinção muito específica entre o masculino e o feminino. Os homens
eram educados para o convívio na esfera pública, diferentemente das
mulheres, uma vez que suas atividades se realizavam a partir do exercício da
palavra, e por isso eram iniciados nessa prática por outros homens. O caso de
Coriolano, um jovem criado somente pela mãe, é um exemplo claro do que foi
aludido, pois “a paidéia paterna teria conseguido o melhor de sua força de
caráter e da sua energia” (LORAUX, 1994). Desta forma, somente a educação
políade, marcadamente masculina, daria recusa as atitudes consideradas
“excessos”, por isso no caso de Coriolano “decididamente porque lhe faltou pai
– é incapaz de relações de troca com os seus concidadãos” (LORAUX, 1994).
Posto isso, o exercício da cidadania e, principalmente, da peithó são
instrumentos marcadamente masculinos dentro da cidade como demonstrado
pela historiadora.
A formação que as mulheres recebem, é integrante da masculina, desse modo
observamos uma preparação para o casamento e a maternidade, pois segundo
Loraux “A mulher só realiza o seu télos (o seu objetivo) quando dá à luz e,
embora não haja cidadania ateniense no feminino a maternidade tem pelo
menos o estatuto de atividade cívica” (LORAUX, 1994). Logo, o feminino
participa da cidade por meio dos seus filhos legítimos, assegurados através
das relações de parentesco, e não por meio de uma produção discursiva
intelectual e política, como o homem. Entretanto, no transcorrer da tragédia,
Medeia demonstra domínio sobre a sua capacidade de intervenção no universo
masculino, a partir de um ponto de vista singular e próprio, o que é
personificado na sua ação.
A medida que notamos que a tragédia nos fornece de forma clara a construção
de um mundo no qual homens e mulheres ocupam espaços diferenciados e
hierarquicamente determinados optamos por uma análise a partir da
perspectiva de gênero. Entendemos a categoria de gênero como algo relevante
45
devido às construções sociais que foram determinadas historicamente para
cada sexo, como nos demonstra Scott “gênero é um elemento constitutivo de
relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero
é uma forma primeira de significar as relações de poder” (SCOTT, 1995), assim
são construídas e representadas social e historicamente. Dessa forma, o
gênero se realiza socialmente a partir de um terreno, no qual, ele se manifesta,
nesse caso as relações de parentesco marcadamente androcêntricas.
Gênero é um produto de um determinado tipo de relação, que segundo Butler
perpetua as regras do parentesco, portanto, “ambas as posições, masculina e
feminina, são instituídas por meio de leis proibitivas que produzem gêneros
culturalmente inteligíveis” (BUTLER, 2018). Indubitavelmente, observamos que
“Os historiadores fizeram a historiografia do silêncio. A história transformou-se
em um relato que esqueceu as mulheres, como se, por serem destinadas à
obscuridade da reprodução inenarrável, elas estivessem fora do tempo, fora do
acontecimento” (COLLING; TEDESCHI, 2015). Isto posto, consequentemente,
as mulheres foram escondidas/esquecidas nesse silêncio do discurso
dominante, que simplesmente as subjugou. Arguindo a afirmação anterior,
acreditamos que a História deva se apropriar dessas concepções e discussões
que o conceito de gênero pode proporcionar nas pesquisas acadêmicas.
Corroborando nossa afirmação, Rago afirma que durante muito tempo fora
reproduzido a ideia de que “as mulheres, não tinham história, absolutamente
excluídas pela figura divina do Homem, que matara Deus para se colocar em
seu lugar” (RAGO, 1998). E, contemporaneamente, sabemos que esse
feminino participou ativamente dos processos históricos, entretanto não foram
visibilizadas e “nossa forma de lidar com e discutir sobre sexo e gênero tem
relação direta com os modos disciplinadores e interditos pelos quais esses
temas têm sido vivenciados em nossa sociedade” (SILVA; ROSSATO;
OLIVEIRA, 2013) portanto, chegou o instante para essa discussão.
Afirmamos, desde o princípio, utilizar como método de análise a categoria de
gênero, pois em primeiro lugar acreditamos que as concepções de feminino e
masculino, as relações de parentesco, tanto em nossa sociedade quanto na
grega, bem como o contexto histórico da fonte Medeia,
são fundamentais para
observar os processos sociais em que ambos estão envolvidos e dialogando.
Além disso, nos questionamos a respeito dessa presença feminina, nas
representações cênicas características do século V a.C. na cidade de Atenas,
uma vez que, como nos afirma Loraux (1985), no seu livro Maneiras Trágicas
de Matar uma Mulher, os cidadãos gregos viam esses personagens femininos,
das tragédias, como uma maneira de observar a diferença entre os sexos e ao
mesmo tempo reafirmando o lugar do feminino naquela sociedade.
O estudo histórico não pode separar o feminino do masculino para
compreender uma sociedade, visto que, as relações sociais de ambos os sexos
estão interligadas, como afirma Scott “as mulheres e os homens eram definidos
em termos recíprocos e nenhuma compreensão de qualquer um poderia existir
através de estudo inteiramente separado” (SCOTT, 1995). Essa nova forma de
46
observar a sociedade, e de fazer história, dependeria da forma que o gênero
seria desenvolvido como uma categoria de análise.
Nessa lógica, as constituições sociais foram determinadas historicamente para
cada sexo, como nos demonstra Scott “identidades generificadas são
substantivamente construídas e relacionadas a seus achados com toda uma
série de atividades, de organizações e representações sociais historicamente
específicas” (SCOTT, 1995). Dessa forma, os ideais específicos, para cada
gênero, são social e historicamente construídos por determinada sociedade
num período. Durante diversos séculos, os termos gramaticais de forma
figurada foram utilizados para evocar traços de caráter ou traços sexuais
femininos ou masculinos. Porém, as pesquisadoras feministas americanas
começaram a utilizar a palavra “gênero” como uma maneira de referir-se à
organização social da relação entre os sexos, e conforme nos demonstra Scott
(1995), em seu artigo Gênero: uma categoria útil para análise histórica, o
conceito de “gênero” começou primeiro a ser utilizado para insistir no caráter
fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo e, principalmente,
“proposto por aquelas que defendiam que a pesquisa sobre as mulheres
transformaria fundamentalmente os paradigmas no seio de cada disciplina.”
(SCOTT, 1995). Por consequência, gênero rejeitaria o determinismo biológico
implícito no uso de termos como sexo.
O uso do conceito gênero coloca em ênfase o sistema de relações que podem
incluir o sexo, entretanto não seriam diretamente determinados por ele. O
movimento feminista do final do século XX utilizou muito o conceito de gênero
para corroborar suas hipóteses e escritas, sobretudo impulsionando a História
das Mulheres. Entretanto, alguns desses moldes historiográficos são criticados
por Scott (1995), ao afirmar que as historiadoras feministas utilizaram diversas
abordagens para análise do gênero, que podem ser resumidas em três
posições teóricas. A primeira tentaria explicar a origem do patriarcado, a
segunda estaria ligada a uma tradição marxista e a terceira encontra-se
dividida entre o pós-estruturalismo francês e as teorias inglesas inspiradas na
psicanálise, que tentaria explicar a produção e a reprodução de identidade de
gênero.
A primeira teoria concentrou-se especificamente na subordinação das mulheres
perante aos homens, e utilizava a explicação da “necessidade” do macho
dominar as fêmeas. Segundo Scott (1995), a escritora Mary O’Brien, inspirada
por Hegel, definiu a dominação masculina tendo como efeito o desejo que os
homens possuíam de ultrapassar a barreira imposta pela privação da
reprodução, já que ainda necessitavam biologicamente da mulher. E dessa
forma, a libertação da mulher viria somente com a transformação tecnológica,
quando não necessitaria mais do corpo da mulher para ser progenitora,
consequentemente, nessa lógica, a reprodução seria uma “amarga armadilha”
para as mulheres. Por outro lado, encontramos a crítica da autora Gayle Rubin
(2017), a respeito da utilização indiscriminada da palavra patriarcado em
alguns estudos, pois caracterizam quaisquer sociedades estratificadas de
acordo com o gênero com essa denominação. Para a autora patriarcado é
47
“uma forma específica de dominação masculina, e o uso do termo deveria ser
reservado a autoridade e oficiais eclesiásticos, aos quais o termo se atribui”
(RUBIN, 2017).
A segunda teoria é caracterizada pelas feministas marxistas ou materialistas
que possuem uma abordagem mais histórica e que buscavam sempre uma
explicação “material” para o gênero e, segundo Scott (1995), foi esse o maior
problema dessas pesquisadoras, pois isso atrasou ou limitou o
desenvolvimento das pesquisas. As feministas marxistas, utilizavam uma teoria
baseada em dois domínios: o patriarcado e o capitalismo, além de conceitos
como modos de produção e divisão sexual do trabalho. Neste sentido, a teoria
marxista evidenciou os seres humanos como trabalhadores ou capitalistas,
porém segundo Rubin (2017) não evidenciou o fato de serem homens ou
mulheres, desta forma, estando completamente alheia às questões de sexo e
gênero. Por isso, Scott (1995) cita autores, como a economista Heidi
Hartmann, que insistem na necessidade de afirmar que o patriarcado e o
capitalismo estão separados, contudo em interação. De acordo com essa
interpretação, a causalidade econômica seria prioritária e o patriarcado estaria
sempre em desenvolvimento e mudando, em função das relações de produção.
Entretanto, sabemos que a dominação masculina sobre as mulheres é anterior
ao surgimento do capitalismo e continua em regimes socialistas, portanto, o
capitalismo não seria uma causa concreta da realidade social hoje existente. E
segundo Scott, “no interior do marxismo, o conceito de gênero foi por muito
tempo tratado como subproduto de estruturas econômicas mutantes: o gênero
não tem tido o seu próprio estatuto de análise” (SCOTT, 1995). Deste modo, as
feministas marxistas, americanas e inglesas, teriam se dedicado mais a
explicação material da sociedade, deixando em segundo plano as categorias
de gênero, por isso Gayle Rubin critica esse posicionamento afirmando que
“uma coisa é explicar a utilidade das mulheres para o capitalismo. Argumentar
que essa utilidade explica as origens da opressão das mulheres é outra bem
diferente” (RUBIN, 2017). Isto posto, afirmamos que a opressão da mulher não
se esgota no capitalismo, uma vez que ela permanece mesmo fora desse
sistema.
A última teoria estaria influenciada pelo movimento pós-estruturalista, dado que
esse movimento auxilia esses estudos, devido o seu caráter de
“desconstrução” dos princípios fundantes que erigiram os tradicionais sistemas
de pensamento. Entretanto, devemos salientar que a aproximação do
feminismo com o pós-estruturalismo não foi tranquila, de acordo com Guacira
“ao contrário disso, a utilização de instrumentos analíticos pós-estruturalistas
pelo pensamento feminista foi – e é bastante polêmica” (GUACIRA, 1995).
Algumas pesquisadoras feministas acreditavam que essa teoria enfraqueceria
os esforços para tornar visíveis grupos dominados. A historiadora Scott, em
seu livro Gender and Politics of History, afirma “fui forçada a tomar a teoria pós-
estruturalista seriamente e a lutar com suas implicações para uma historiadora
social” (SCOTT, 1999). Dessa forma, observamos que a historiadora
necessitou se posicionar seriamente ao utilizar as potencialidades da
perspectiva pós-estruturalista inaugurada por Foucault e Derrida.
48
Seguindo esse terceiro momento, caracterizado como pós-estruturalista,
citamos a autora contemporânea Judith Butler que em seu livro Problemas de
Gênero (2018), critica a diferença entre sexo e o pensamento ligado à natureza
ou ao biológico, assim o conceito “sexo”, a partir de uma visão de corpo, seria
também visto como uma construção social. Em suma, se caracteriza como um
pensamento que desnaturaliza ambos os papéis, o sexual e o social. Além
disso, a autora cita diversos trabalhos para
fundamentar suas explicações,
entre eles, Beauvoir a partir da sua “construção do gênero”, Irigaray60 que
afirma que as mulheres são o sexo que não é “uno” e principalmente discute o
sistema estruturalista das relações de parentesco de Levi-Strauss.
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50
RELATO DE EXPERIÊNCIA – PROJETO DIREITO DAS
MULHERES: UMA TRAJETÓRIA DE LUTAS
Edivaldo Rafael de Souza
No mês de março de 2022, desenvolveu-se na Escola Estadual Zico
Mendonça, localizada na cidade mineira de São Gonçalo do Abaeté, diversos
projetos com o tema relacionado às mulheres. Em um desses projetos, no
decorrer dos horários do conteúdo de História, foi possível trabalhar sobre o
assunto através de duas abordagens diferentes. Na primeira delas, foram
planejadas e executadas aulas temáticas sobre esse tema. Já na segunda
abordagem, os próprios estudantes pesquisaram e apresentaram trabalhos
sobre a temática.
Primeiramente, as quatro aulas abordadas pelo professor de História Edivaldo
Rafael de Souza foram intituladas como: 8 de março, dia internacional da
mulher; História das mulheres no Brasil; Formas de prevenção e combate à
violência contra as mulheres; Masculinidade tóxica e patriarcalismo. Através
dessa intervenção, foi possível debater sobre pautas que, muitas vezes, não
são contempladas na grade da educação básica.
A primeira aula discorreu sobre os episódios que levaram ao decreto do dia 8
de março como uma data para análise e reflexão sobre a desigualdade de
gênero, que ocorre diariamente na sociedade, e também a compreensão da
luta das mulheres pelos seus direitos, a qual já fez um grande avanço, mas
que, no entanto, ainda está longe de ser o ideal.
A segunda aula contemplou outro importante tema, que foi a História das
mulheres no país, visto que, por muito tempo, a grade curricular elegia como
local de destaque nos conteúdos didáticos os chamados “grandes nomes” da
História, ou seja, principalmente homens da elite política e econômica do Brasil.
Sendo assim, é cada vez mais necessária a desconstrução dessa visão,
fazendo com que possamos trabalhar em sala de aula sobre os movimentos,
as lutas, e as reivindicações femininas.
Além da participação das mulheres nos diversos fatos históricos que
aconteceram no Brasil desde o passado, antes mesmo da chegada dos
portugueses até a contemporaneidade, um ponto destacado no decorrer da
aula foi sobre as heroínas da Pátria, ou seja, mulheres que ficaram marcadas
na história do Brasil por terem feito algo considerado como um ato heroico.
Concomitantemente a isso, o livro de Heróis e Heroínas da Pátria
“(...) homenageia personagens considerados fundamentais para a construção da
história brasileira. (...) Mantido dentro do Panteão da Pátria, na Praça dos Três
51
Poderes, o livro existe desde 7 de setembro de 1989 e tem valor simbólico na
preservação da memória nacional” (G1, 2018).
Muitas vezes, essas mulheres passam despercebidas no decorrer da grade
curricular, mas foram precursoras em diferentes recortes espaciais e temporais
da nossa História. Elas são: Anita Garibaldi, Bárbara de Alencar, Ana Néri,
Jovita Feitosa, Maria Quitéria, Joana Angélica, Maria Felipa de Oliveira, Clara
Camarão e Zuzu Angel. Sendo assim, foram retratadas brevemente as
contribuições de cada uma dessas personalidades históricas. Entretanto,
também foi ressaltado que muitas outras mulheres se destacaram durante a
nossa História, sendo que, algumas não receberam a devida atenção por parte
de pesquisadores do passado, mas agora estão ganhando o seu espaço,
como, por exemplo, Luísa Mahin e Dandara dos Palmares.
Para um melhor embasamento dessa aula, foram utilizados como referencial os
seguintes livros: “Mulheres do Brasil: a história não contada (2018)”, do
pesquisador Paulo Rezutti e também “História das mulheres no Brasil (2020)”,
organizado pela historiadora Mary Del Priore.
A terceira aula trouxe como temática as formas de prevenção e punição pela
violência contra as mulheres no Brasil. Nessa parte, foi explicado aos
estudantes sobre o que era violência doméstica e familiar contra as mulheres;
para isso, foi utilizada, como referencial, a Lei n° 11.340, de 7 de agosto de
2006, conhecida como Lei Maria da Penha, a qual
“[c]ria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher,
nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da
Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar
a Violência contra a
Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de
Execução Penal e dá outras providências” (BRASIL, 2006).
Ademais, na referida lei, estão contidas informações necessárias sobre formas
de prevenção e punição das cinco formas de violência contra as mulheres, a
saber: violência moral, violência patrimonial, violência sexual, violência física e
violência psicológica. Inclusive, foi descrito sobre cada uma delas, utilizando-se
de exemplos do cotidiano para melhor entendimento dos(as) estudantes. Para
embasamento teórico, foram consultados sites que trazem pesquisas e dados
relacionados ao tema, tanto em Minas Gerais quanto no Brasil.
Ao analisar os dados, ficou evidente que as mulheres mais pobres e negras
sofrem ainda mais com a questão da violência doméstica. Através disso, o livro
“Teoria feminista: da margem ao centro (2019)”, da autora estadunidense Bell
Hooks, foi aplicável na interpretação desses dados. Para mais, foi possível
trabalhar um pouco sobre como as mulheres negras lutam desde o passado
contra o machismo e o preconceito e, consequentemente, contra a violência.
Apesar de a autora retratar sobre os Estados Unidos, o seu livro é de grande
52
valia para entendermos, inclusive, sobre esse preconceito estrutural que existe
na sociedade, em diferentes países pelo mundo. Outro livro referencial foi
“Empoderamento (2019)”, da pensadora brasileira Joice Berth. Na obra
supracitada, ela nos revela a importância do empoderamento feminino para a
busca de seus direitos na sociedade.
A quarta aula foi correlacionada ao tema de masculinidade tóxica e
patriarcalismo, em que foi utilizado como referencial teórico o livro “Seja
Homem: a masculinidade desmascarada (2020)”, do autor congolês J. J. Bola.
O autor do livro discorre que a masculinidade tóxica prejudica tanto homens
quanto mulheres e faz uma análise na tentativa de desconstruir aquilo que,
muitas vezes, é imposto desde criança para os meninos e para as meninas, ou
seja, a divisão sexual do que podem ou não fazer, desde brincadeiras,
vestimentas e até mesmo o comportamento que a sociedade prega que as
pessoas devem seguir. Essa discussão é de grande relevância, já que, na
maior parte das vezes, quem comete a violência contra as mulheres são
homens. O autor também traz dados de que essa masculinidade tóxica afeta
também os homens, visto que muitos acabam desenvolvendo problemas
psicológicos, e indo até mesmo até as últimas consequências, no caso,
cometendo suicídio. Sendo assim, essa temática deve ser cada vez mais
abordada em ambientes escolares.
Já ao falar sobre o patriarcalismo, foi utilizado como referencial o livro: “A
criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens
(2019)”, da escritora estadunidense Gerda Lerner. Essa questão é colocada em
destaque, principalmente, através da sociedade patriarcal que dividia as tarefas
de modo preconceituoso, tendo em vista que os homens eram responsáveis
pelas atividades públicas enquanto a mulher deveria ser reduzida ao espaço
privado.
Ressalta-se que a duração das aulas variou de turma para turma, de forma
que, em algumas, houve uma maior participação dos estudantes. Desse modo,
foi utilizado um tempo maior para o debate em torno do determinado tema.
As turmas foram divididas entre quatro a cinco grupos, variando de acordo com
o número de estudantes, em que cada grupo deveria escolher e retratar sobre
um direito diferente que havia sido adquirido através de bastante luta e
empenho das mulheres. Sendo assim, foram sugeridos os temas sobre o
direito das mulheres: à educação, ao voto, ao trabalho, ao esporte, ao controle
da natalidade, ao divórcio e ao combate à violência.
As apresentações dos estudantes foram variadas, de modo que alguns
utilizaram artigos e sites na internet para embasar aquilo que estavam
retratando. Ocorreu também uma variedade de métodos de apresentação, em
que estudantes utilizaram folhas de caderno manuscritas, textos impressos,
celulares e computadores, cartazes, recortes de jornais, slides, dentre outros.
Em algumas apresentações, foi possível fomentar um debate entre os próprios
53
estudantes, o que foi bastante interessante, visto que possibilitou a troca de
conhecimentos entre os grupos.
Em relação ao direito das mulheres sobre a educação no Brasil, alguns
estudantes focaram em algumas mulheres precursoras desse movimento,
como a professora Nísia Floresta. Foram utilizados textos que retratam sobre a
educadora supracitada. Ademais, além de identificarem sobre as dificuldades
do acesso à educação, os estudantes também discorreram sobre dados da
atualidade e do acesso das mulheres tanto ao estudo quanto ao ensino.
Através disso, verificou-se que as professoras são, em sua maioria, da
Educação Infantil e Ensino Fundamental, visto que quando se analisa a
presença delas no Ensino Médio já ocorre uma queda na participação, e no
Ensino Superior, espaço em que geralmente possuem um salário maior, a
maioria dos docentes são homens.
Alguns grupos que apresentaram sobre o direito das mulheres ao voto também
destacaram sobre o direito de serem votadas. Diante disso, descreveram sobre
a professora Celina Guimarães Viana, a primeira eleitora do Brasil, que
conseguiu esse feito em 5 de abril de 1928, na cidade de Mossoró, no Rio
Grande do Norte. Correlacionado a esse fato, de acordo com o site Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), “[c]om advento da Lei nº 660, de 25 de outubro de
1927, o Rio Grande do Norte foi o primeiro estado que estabeleceu que não
haveria distinção de sexo para o exercício do sufrágio” (BRASIL, 2013).
Posteriormente, estudantes falaram sobre Luíza Alzira Soriano Teixeira, que
“(...) foi a primeira prefeita eleita no Brasil e na América Latina. Tomou posse
no cargo em 1º de janeiro de 1929. Viúva, Alzira Soriano disputou em 1928,
aos 32 anos, as eleições para a prefeitura de Lajes, cidade do interior do Rio
Grande do Norte” (BRASIL, 2013).
A Constituição de 1934 também foi citada por alguns estudantes, ela trouxe o
direito ao voto feminino em nível federal, no entanto, também citaram que
mesmo a constituição trazendo o voto feminino, esse direito não poderia ser
exercido por todas as brasileiras, mas por um grupo que se encaixava no que a
lei trazia, conforme o “Art 109. O alistamento e o voto são obrigatórios para os
homens e para as mulheres, quando estas exerçam função pública
remunerada, sob as sanções e salvas as exceções que a lei determinar”
(BRASIL, s.d). Além da primeira deputada brasileira, segundo o portal Alziras,
“[e]m 13 de março de 1934, uma voz feminina se fez ouvir, pela primeira vez,
no Plenário do Palácio Tiradentes, sede da Câmara dos Deputados, na então
capital federal, o Rio de Janeiro. Tratava-se de Carlota Pereira de Queirós,
médica paulista e primeira deputada federal do Brasil, eleita pelo voto popular”
(ALZIRAS, s.d).
Sobre o direito ao trabalho, muitos grupos descreveram sobre a Constituição
de 1934, na qual
54
“(...) as mulheres adquiriram seus primeiros direitos trabalhistas e passaram a
exercer atividades não apenas domésticas. Isso ocorreu principalmente devido
ao processo de industrialização do país, em que as mulheres começaram a ser
utilizadas como mão de obra nas fábricas e indústrias no país” (TAVASSI, ET
AL, 2021).
Alguns estudantes também citaram a situação da atualidade, em que
demonstraram, através de dados, que ainda continua ocorrendo muita
desigualdade de gênero no mercado de trabalho, visto que em determinados
serviços, os salários entre homens e mulheres não são equivalentes. Além
disso, existem profissões em que as mulheres enfrentam mais dificuldade de
acesso.
Correlacionado ao acesso das mulheres ao esporte no Brasil, estudantes
relataram a dificuldade que foi e que continua sendo a participação das
mulheres
em alguns esportes, tendo em vista que ainda existem práticas
discriminatórias, além de desigualdades, inclusive salariais e estruturais. Um
ponto muito abordado foi quando existiu no Brasil um decreto que proibia as
mulheres de praticarem determinados esportes. O decreto-lei 3.199, instituído
em 1941, pelo então Presidente da República Getúlio Vargas, durante a
Ditadura do Estado Novo, foi baixado “como resposta aos apelos de cidadãos
que alegavam estar preocupados com os impactos de certas modalidades ao
corpo feminino e seus órgãos reprodutivos” (BAGATINI, 2021). Nesse sentido,
algumas práticas esportivas como o futebol ficaram proibidas para as mulheres
no Brasil, de maneira que “[o] decreto só acabou em 1979, porém, somente em
1983 o futebol feminino foi regulamentado no país” (PREVIDELLI, 2021). Outro
ponto abordado foi o nome de atletas brasileiras que se destacaram em
diversos esportes, sobre as quais foi apresentado um pouco da história de vida
dessas atletas.
Sobre o controle da natalidade no Brasil, ocorreram apresentações
relacionadas ao uso do anticoncepcional no país, desde a sua chegada, em
1962, até a atualidade. Dentro desse tema, estudantes também trouxeram
estudos que descreviam sobre a dificuldade de acesso das mulheres aos
métodos contraceptivos, além de descreverem a mudança que ocorreu com a
popularização desses medicamentos.
Correlacionado ao divórcio, muitos grupos abordaram a Lei nº 6.515, de 26 de
dezembro de 1977, que “[r]egula os casos de dissolução da sociedade conjugal
e do casamento, seus efeitos e respectivos processos, e dá outras
providências” (BRASIL, 1977). A referida lei, que ficou conhecida popularmente
como lei do divórcio, trouxe melhorias para as mulheres que queriam se
desfazer de um casamento, na maioria das vezes abusivo. Antes da lei, as
mulheres “desquitadas” sofriam muito preconceito da sociedade. Contudo, os
estudantes também escreveram que, mesmo após a lei, as mulheres ainda
continuaram sofrendo preconceito após se separarem de seus cônjuges.
55
Com relação aos direitos das mulheres no combate à violência, foram
retratadas as leis que garantem, no Brasil, que a mulher possa denunciar o
agressor para que ele seja punido pela lei. Dentre as leis de prevenção,
punição e erradicação da violência doméstica no Brasil, a lei mais pesquisada
pelos estudantes foi a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, que ficou
conhecida como lei Maria da Penha, a qual
“[c]ria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher,
nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da
Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a
Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de
Execução Penal; e dá outras providências” (BRASIL, 2006).
Outra lei citada foi a Lei n° 13.104, de 9 de março de 2015, que ficou conhecida
como Lei do feminicídio. Esta lei traz o crime supracitado como hediondo.
Sendo assim, a pena para esse tipo de crime foi aumentada.
Indubitavelmente, esse projeto trouxe muitas contribuições para as turmas do
Ensino Médio, visto que, durante algumas aulas, foram abordados temas
importantes, que precisam conquistar cada vez mais espaço no âmbito escolar,
a fim de buscar a igualdade de gênero e a conscientização da sociedade.
Referências biográficas
Edivaldo Rafael de Souza possui graduação em História pelo Centro
Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). É Especialista em Metodologia do
Ensino de Sociologia pelo Instituto Superior de Educação Ateneu (ISEAT).
Especialista em Biblioteconomia pela Faculdade Futura. Especialista em
Filosofia e Sociologia pela Faculdade Futura. Especialista em Orientação,
Inspeção e Supervisão Escolar pela Faculdade Metropolitana do Estado de
São Paulo - FAMEESP. Atualmente, é graduando em Serviço Social pela
Universidade Santo Amaro (UNISA). Também é professor regente de aulas de
História na Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais (SEE-MG). E-
mail: edivaldorafael007@gmail.com
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57
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https://www.politize.com.br/equidade/blogpost/mulheres-e-o-mercado-de-trabalho/
https://www.politize.com.br/equidade/blogpost/mulheres-e-o-mercado-de-trabalho/
58
O SALTO ALTO NO PODER: AUMENTO DA
PARTICIPAÇÃO FEMININA NA POLÍTICA COMO
REFLEXO DAS AÇÃOS AFIRMATIVAS DE GÊNERO NO
BRASIL NA CAMARA DOS DEPUTADOS
Everlly Silva Bezerra de Lima
A mulher permaneceu por muito tempo à sombra do patriarcado encoberta por
uma imagem cujas responsabilidades deveriam estar ligadas a questões
familiares e ao lar. Bourdieu (2012), ao tratar sobre diferentes questões sobre a
dominação masculina construída do decorrer da história, evidencia que:
“As divisões constitutivas da ordem social e, mais precisamente, as relações
sociais de dominação e exploração que estão instituídas entre os gêneros se
inscrevem, assim, progressivamente, em duas classes de habitus diferentes,
sob a forma de hexis corporais opostos e complementares e de princípios e de
visão, que levam a classificar todas as coisas do mundo e todas as práticas
segundo distinções redutíveis à oposição entre o masculino e o feminino”.
(BOURDIEU, 2012, p. 41)
Nessa perspectiva, podemos enxergar que a ordem social tem construído essa
representação do gênero feminino e masculino com suas posições pré-
determinadas nos espaços sociais e a transposição de quaisquer um desses
espaços representam a criação do preconceito estrutural sobre a figura
feminina na sociedade. Para o masculino a construção patriarcal atribuí-lhes os
postos de comando, de tomadas de decisões, de indicar o certo e o errado,
enquanto à mulher foram-se atribuídas “a todo instante, aparência de
fundamento natural à identidade minoritária que lhes é socialmente designada”
(BOURDIEU, 2012, p. 41) e, sob a percepção da mulher como algo ou alguém,
cuja submissão e imposição dos espaços a que podem pertencer, tem seus
efeitos de forma duradoura e mantenedoras da sobreposição masculina. Nessa
perspectiva de dominação e controle, elas estiveram:
“[...] excluídas do universo das coisas sérias, dos assuntos públicos e mais
especialmente dos econômicos, as mulheres ficaram durante muito tempo
confinadas ao universo doméstico e às atividades associadas à reprodução
biológica e social da descendência” (BOURDIEU, 2012, p. 116).
Para se tornarem mais vistas pela sociedade a presença da mulher nos
espaços que são de maior representatividade, a exemplo dos cargos políticos
por meio do processo de des-historicização, foi vista como um meio forte de
domínio patriarcal mostrando que a historiografia:
59
“[...] não pode se limitar a descrever as transformações da condição das
mulheres no decurso dos tempos, nem mesmo a relação entre os gêneros nas
diferentes épocas; ela deve empenhar-se em estabelecer, para cada período, o
estado do sistema de agentes e das instituições, Família, Igreja, Estado, Escola
etc, que, com pesos e medidas diversas em diferentes momentos, contribuíram
para arrancar da História, mais ou menos completamente, as relações de
dominação masculina [...] Em suma, ao trazer à luz as invariantes trans-
históricas da relação entre os "gêneros", a história se obriga a tomar como
objeto o trabalho histórico de des-historicização que as produziu e reproduziu
continuamente, isto é, o trabalho constante de diferenciação a que homens e
mulheres não cessam de estar submetidos e que os leva a distinguir-se
masculinizando-se ou feminilizando-se”. (BOURDIEU, 2012, p. 101-102)
Seguindo no sentido de realizar a des-historicização constitutiva da dominação
masculina no cenário político brasileiro, podemos seguir a partir do contexto
histórico da primeira Constituição Brasileira de 1824, quanto à participação ao
direito de voto da mulher em que não haviam restrições quanto ao sexo ou
idade, mas a renda financeira. Ainda assim, poucas eram as mulheres que se
aventuravam por esse caminho masculinizado e preconceituoso, a não ser as
que tinham grande poder aquisitivo, o que era de extrema importância naquele
período. Nesse quesito, no Maranhão, pesquisas historiográficas nos apontam
a presença, por volta da metade do século XIX, ou seja, muito antes de elas
adquirirem o direito garantido em lei de votar e serem votadas, houve uma
personagem feminina que exerceu grande influência na política maranhense,
D. Anna Jansen Pereira, grande como fazendeira e comerciante nascida no
Maranhão nos fins do século XVIII (JANOTTI, 1996, p. 230). Ela é
considerada, de acordo com pesquisas realizadas, como sendo pioneira, no
que concerne sobre a representatividade feminina na política e economia
maranhense. De acordo com Janotti (1995), D. Anna Jansen esforçou-se ao
máximo para conquistar o poder político durante o período da guerra da
Balaiada, ocorrida no Maranhão (1838-1841), tornando sua família uma das
principais oligarquias da região, sendo referenciada como “matriarca poderosa
e despótica da família dos Jansen Pereira” por Viveiros (1965, p. 11-12, apud
JANOTTI, 1996, p. 233).
Diante da mudança no regime político de 1889, no cenário nacional, em 1890,
Francisca Senhorinha da Mota Diniz, editora e redatora do jornal “O Quinze de
Novembro do Sexo Feminino” do Rio de Janeiro, assim como outras mulheres
de sua época dão início as iniciativas embrionárias nacionais na busca pela
mobilização social na luta pelos direitos femininos à cidadania (MAIOR, 2004).
Neste jornal, em abril 1890, em uma coluna exclusiva, publicou o artigo
“Igualdade de Direitos” que dizia:
“Desejamos que os senhores do sexo forte saibam que se nos podem mandar,
em suas leis, subir ao cadafalso, mesmo pelas ideias políticas que tivermos [...]
também nos devem a justiça de igualdade de direitos, tocante ao direito de
votar e o de sermos votadas. O verbo eloquente da palavra na tribuna
parlamentar não nos deve ser negado em direito [...]. Pedimos um direito que
60
não foi (nunca) reclamado por isso acha-se esquecido, mas não riscado da lei
natural [...] não temos ideias utopistas, e sim ideias grandiosas: a fazer
caminhar a humanidade na senda do dever e da justiça. É, pois, este o nosso
programa político”. (Jornal O Quinze de Novembro do Sexo Feminino, Rio de
Janeiro, 6 de abril de 1980, Ano III, num. 14, pag. 2)
Porém, promulgada a Constituição Republicana, 1891, a esperança da
conquista do direito de votar e ser votada, anteriormente possível pela renda
financeira, foi barrada ainda que com o movimento feminista crescendo no
Brasil.
Ainda que se afirmasse constitucionalmente que as mulheres não tinham
direito ao voto, nada se vetava da mulher concorrer a cargos políticos, não por
permitirem tal feito, mas por, talvez, não imaginarem que elas tentariam
concorrer, tornando-se assim, ausente na Constituição de 1891 a exclusão de
candidaturas femininas. Contudo, mesmo que não lhes fossem impedidas
concorrer
a cargos políticos, as dificuldades de candidatura femininas
continuavam ferrenhas pela imposição da presença e do preconceito de uma
sociedade paternalista: pois como afirma Beauvoir:
“A própria mulher reconhece que o universo em seu conjunto é masculino; os
homens modelaram-no, dirigiram-no e ainda hoje o dominam; ela não se
considera responsável; está entendido que é inferior, dependente; não
aprendeu as lições da violência, nunca emergiu, como um sujeito, em face dos
outros membros da coletividade; fechada em sua carne, em sua casa,
apreende-se como passiva em face desses deuses de figura humana que
definem fins e valores”. (BEAUVOIR, 1967, p. 364)
Esse pensamento nos faz indagar que ainda que elas tivessem a possibilidade
de ousarem dentro do mundo político, elas reconhecem que esse espaço se
tornou um ambiente modelado pelos homens para que permanecesse o
máximo possível fechado a inserção feminina.
As principais mudanças no cenário político brasileiro para a mulher foram com
a obtenção do direito de votar e de serem votadas com o Código Eleitoral de
1932 que em seu art. 109 determinava que: “O alistamento e o voto são
obrigatórios para homens, e mulheres, quando estas exerçam função pública
remunerada, sob as sanções e salvas as exceções que a lei determinar”. Logo
mais, a Constituição de 1937 reforçaria a exclusão da distinção por sexo no
sistema eleitoral brasileiro, dando início, assim, a continuidade de uma
trajetória de participação política em uma sociedade controlada por homens.
Contudo, ainda que tenham obtido tal direito em 1932 e 1937 “é curioso ver
que o sistema proporcional, que exatamente cuida que o parlamento seja um
“espelho” da sociedade, não as atendeu no sentido de dotar o Congresso de
uma significativa bancada feminina” (TSE, 2012), pois estas concorriam de
igual para igual com os homens, não existia obrigatoriedade de inseri-las nos
partidos políticos, conquista que viria a apenas após algumas décadas pela
inserção das ações afirmativas de gênero na política brasileira.
61
Mesmo com o direito reconhecida, a luta pela visibilidade participação nos
postos eletivos do Brasil, permaneceu constante. Entre 1950 a 1987 os cargos
legislativos estaduais em todo o país tiveram pequena participação de
mulheres eleitas, sendo na legislatura de 1983-1987 o período de eleitas para a
Câmara dos Deputados em todo o Brasil, chegando a nove o número de
mulheres deputadas (TSE, 2012). Com o início da redemocratização brasileira
e o fim do governo militar, as eleições diretas de 1986 se viu uma maior
participação de mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados,
correspondendo ao todo 25 cargos as mulheres foram mais presentes em 14
Estados (TSE, 2012), bem como a Constituição de 1988 abriu novas
perspectivas para a inserção feminina no poder público, ainda que não fosse,
sozinha, capaz de modificar consideravelmente para uma real efetivação das
mulheres na política.
Mesmo assim, o número de mulheres eleitas foi aumentando gradativamente,
devido a inserção de ações afirmativas como instrumento de inclusão social:
“Estas ações constituem medidas especiais e temporárias que, buscando
remediar um passado discriminatório, objetivam acelerar o processo de
igualdade, com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos
vulneráveis, como as minorias étnicas e raciais, as mulheres, dentre outros
grupos [...] adotadas para aliviar e remediar as condições resultantes de um
passado discriminatório, cumprem a finalidade pública decisiva para o projeto
democrático, que é a de assegurar a diversidade e a pluralidade social”.
(PIOVESAN, 2005, p. 39)
Nesse sentido, as ações afirmativas de gênero foram surgindo, após a
Constituição de 1988 como incentivo à participação das mulheres na política
em diferentes níveis. As ações afirmativas surgem como medidas reparadoras
necessárias para recolocar os menos favorecidos na condição de
cooperadores sociais, da qual foram excluídos ao longo da história (FORTES,
2019, p. 18). Na década de 1990, foram duas ações afirmativas criadas em
favorecimento às candidaturas femininas, sendo a Lei 9.100/1996 que “instituiu
a voto de gênero, determinando que os partidos ou coligações preenchessem
20% das vagas destinadas aos cargos das Câmaras Municipais, por
candidaturas de mulheres” (PAES, 2021). Logo no ano seguinte, a Lei
9.504/97, no artigo 10, § 3º, ainda em vigor, “ampliou o percentual da cota de
gênero para o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas para cada
sexo (gênero) nas eleições no Poder Legislativo, em âmbito federal, estadual e
municipal” (PAES, 2021).
Essas ações afirmativas possibilitaram a efetiva participação nas mulheres à
disputa de cargos legislativos e proporcionaram grande avanço diante do
cenário político que se tinha anterior a Constituição de 1988, mas que a partir
das ações afirmativas de gênero na política elas poderiam lutar pela igualdade
de direitos. Contudo, mesmo diante dessas conquistas, o aumento no número
62
de mulheres eleitas, ainda se mantinha baixo. Tal fator justificava-se
obstáculos, existentes de caráter multidimensional, pois:
“O Brasil adota o sistema proporcional de lista aberta em que as candidaturas,
ao invés de fazerem parte de uma lista definida por critérios políticos dos
partidos, são decididas com base no capital político e nos recursos de que
dispõem os candidatos. O processo se caracteriza, além de uma acirrada
disputa intrapartidária entre candidatos – o que fragiliza os partidos – por uma
extrema personalização das candidaturas e, por essa razão, depende
fundamentalmente da capacidade individual dos candidatos de assegurarem
apoios de redes sociais e recursos financeiros próprios para enfrentar os
custos de uma competição extremamente acirrada e custos a; afora isso, a
distribuição dos recursos políticos de que dispõem os partidos (no caso do
Brasil, dinheiro de um fundo partidário público e tempo de exposição no horário
eleitoral gratuito de televisão) é marcado por grandes disparidades”. (MOISÉS
e SANCHEZ, 2014, p. 103)
O que se percebe é que ainda que houvesse a garantia constitucional de
participação de votar e ser votada, a ações afirmativas de preenchimento de
percentual de vagas nos partidos e coligações por mulheres, não se tornou
suficiente para que houvesse equiparidade nas disputas eleitorais, dando
assim, continuidade na reprodução da desigualdade na estrutura social política
do Brasil. Com isso, foi criada a Lei n° 12.0347/2009 pelo TSE (Tribunal
Superior Eleitoral), criando a obrigatoriedade de preenchimento de 30% e no
máximo 70% a serem destinadas a candidaturas, não mais apenas a reserva,
de mulheres em âmbito federal, estadual e municipal (vereadores). Porém, o
não investimento nas campanhas de candidaturas femininas demostrou novas
empecilhos para elas serem eleitas.
Diante disso, outras ações afirmativas durante os anos 2000 foram criadas afim
de proporcionar a redução ainda existente dessas desigualdades por meio de
investimentos financeiros nas candidaturas femininas:
“Em 2015, a Lei 13.165 estabeleceu percentuais mínimo e máximo de
distribuição de recursos do Fundo Partidário para aplicação em campanhas
eleitorais [...] A Procuradoria-Geral da República (PGR) ajuizou a ADI nº
5.617/2018 no Supremo Tribunal Federal, tendo sido julgada procedente a
ação, no sentido de equiparar o patamar legal mínimo de candidaturas
femininas (artigo 10, §3º, da Lei 9.504/1997) à destinação mínima de 30%, para
cada gênero, de recursos do Fundo Partidário, como também de 30% do
montante do fundo alocado a cada partido, para as eleições majoritárias e
proporcionais. Esse entendimento foi normatizado pelo TSE, por meio da
Resolução nº 23.607/2019 (artigo 19, parágrafo 3º)”. (PAES, 2021).
Tais ações viriam a fornecer maior equiparidade no tocante a candidaturas
femininas e recursos para financiamento das campanhas eleitorais. Contudo,
tais medidas ainda
que permitissem uma melhora na situação da mulher como
candidata, possuía brechas que viabilizavam a utilização desses recursos para
63
outras áreas mantendo ainda como deficitária o investimento em suas próprias
campanhas (MOISÉS e SANCHES, 2014). Diante disso, em 28 de junho de
2018 foram instituídas a Instrução N° 0604344-73.2017.6.00.0000 do TSE que
definia:
“Em 2018, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou em sede da Consulta
nº 60025218.2018 que os partidos políticos deveriam, a partir das eleições de
2018, reservar pelo menos 30% dos recursos do Fundo Especial de
Financiamento de Campanha para financiar as campanhas de candidatas no
período eleitoral, bem como ao tempo destinado à propaganda eleitoral gratuita
no rádio e na televisão. Por sua vez, em 28 de junho de 2018 o TSE decidiu
(Instrução N° 0604344-3.2017.6.00.0000) que os recursos destinados às
candidaturas femininas só podem ser utilizados no interesse de suas próprias
campanhas, a fim de impedir o desvirtuamento das cotas de gênero”. (PAES,
2021).
É possível, dessa forma, perceber que houve uma grande marcha histórica de
lutas que vão desde o direito de ser reconhecidas como votantes até a
obrigatoriedade de sua presença nos cargos políticos, bem como na
destinação de verbas para o financiamento de suas campanhas. Se levarmos
em consideração uma escala temporal histórica anterior a instituição da
República, em 1889, sua participação estava presente na busca pelo direito à
cidadania, de ter participação de escolherem e serem escolhidas como
representantes do povo, cuja expectava de participarem da política alvorecia
pelos ideais republicano de igualdade que se esperava obter com a
Constituição de 1892, sendo tal ideal frustrado, com a total negação
constitucional do direito feminino de votar. Foram 30 anos de silenciamento às
questões eleitorais até as primeiras conquistas com Reforma Eleitoral de 1932
e 1937 onde as mulheres passam a ter o direito de votar e serem votadas.
Contudo, a presença massiva de homens, a não obrigatoriedade dos partidos e
coligações de inserirem mulheres e, até mesmos, a ausência de recursos para
financiar as candidaturas, promoveram uma baixa participação nas eleições em
todo o país. Apenas, após a implantação do sistema cota de gênero e o
aumento gradual das ações afirmativas elas começam a serem vistas no
cenário eletivo. De 1987 a 1995 foram 55 mulheres ocuparam cargos eletivos
para a câmara dos deputados em todo o país e tornou-se crescente após os
anos 2000, onde nas eleições de 2002, de acordo com o TSE, para os cargos
da Câmara dos Deputados, o Brasil teve eleitas 44 mulheres em diferentes
estados, em 2010 foi de 138, o que representa um aumento considerável em
relação ao número de eleitas nas eleições anteriores, sendo já em 2014 e 2018
eleitas 77 parlamentares.
Tais reflexos são avanços construídos ao longo do tempo cheio de lutas
femininas por visibilidade nos espaços representativos, contudo, ainda diante
dessas conquistas, a entrada de mulheres na Câmara dos Deputados ainda é
pequena se consideramos o número de homens eleitos como também em
relação ao percentual feminino de votantes no Brasil.
64
“[...] existe uma interessante dinâmica no que se chama de participação política
da mulher no Brasil, que ao mesmo tempo apresenta aspectos inovadores e
revela os estrangulamentos enfrentados por novos sujeitos políticos, como as
mulheres, no jogo político institucional. A inovação está tanto na capacidade
das mulheres de se organizarem nacionalmente de forma capilar, como na
capacidade de influir nas políticas públicas. Mas vai além disso, pois se instala
também dentro dos próprios legislativos, criando núcleos, como a bancada
feminina no Congresso. Os estrangulamentos estão expressos nos baixos
índices de presença das mulheres nos cargos públicos eletivos ou não”.
(PINTO, 2001, p. 111)
Podemos compreender a fragilidade que existiu e que ainda existe na luta por
representatividade feminina na política e que, ainda que se tenha evoluído
sobre a sua inserção nas legislaturas estaduais, bem como nas demais, ainda
é perceptível que o número de mulheres eleitas se mostra insuficiente. É
evidente que a busca por igualdade de gênero na política brasileira possui um
caminho composto por diferentes dificuldades, cada uma de acordo com seu
tempo histórico, porém é visível que houve uma evolução participativa das
mulheres na política brasileira, como fruto de uma luta inicialmente destinada
ao reconhecimento do direito de votar e serem votadas, bem como a
obrigatoriedade dos partidos e coligações e de verbas orçamentárias para que
elas possam investir em suas candidaturas. A conquista dessa mudança
evidenciada principalmente após a inserção das ações afirmativas de gênero
que possibilitou um gás para que a mulher pudesse ser vista dentro desse
ambiente masculinizado e paternalista que tomava as decisões negligenciando
seu direito de escolher o lugar ao qual, esta, deseja pertencer.
Referências biográficas
Everlly Silva Bezerra de Lima, estudante do curso de Licenciatura em História
da Universidade Estadual do Maranhão.
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65
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QUEERBAITING: ESTRATÉGIAS MIDIÁTICAS E
REPRESENTATIVIDADE LGBTQIA+ EM SÉRIES
TELEVISIVAS
Fernanda dos Anjos da Nóbrega
A televisão foi algo particular de cada país por muitos anos; o que era
transmitido em tela e, consequentemente, o que as pessoas assistiam e tinham
acesso variava muito de país para país. Aos poucos, a globalização adentrou
também a ionosfera, e produções norte-americanas alcançavam escala global.
Hoje, apesar da televisão aberta ainda ser inerente a cada país, os conteúdos
televisivos são de acesso universal devido aos streamings e outras formas de
acesso na internet. Redes de streaming como a Netflix, Amazon Prime, HBO e
etc. mudaram a forma como consumimos televisão e o audiovisual no geral.
No Brasil, onde há uma década, as séries televisivas norte-americanas ou
britânicas eram populares apenas em nichos específicos de público, hoje são
de acesso quase ilimitado em território nacional. O alcance da televisão
estadunidense se estende pelo mundo todo e é comum que essas séries e
programas de TV sejam parte do cotidiano brasileiro.
Com a popularização de produtos estadunidenses principalmente entre o
público jovem e adolescente, também veio a febre dos fandoms televisivos. Um
fandom é basicamente a ‘fã-base’ de determinado agente da cultura pop no
geral, seja de nicho musical, televisivo, audiovisual ou de literatura. Ter um
fandom consolidado é garantia de que o produto midiático em questão esteja
sempre em alta e continuamente vendendo, mesmo que apenas para aquele
nicho em específico.
Um dos elementos mais potentes para conseguir manter uma fã-base fiel ou
ainda, criar novos fãs, é o par romântico. Muitas produções televisivas já se
apoiaram em pares românticos populares por anos como uma maneira de
manter os fãs – ou até mesmo mudaram a história original porque um casal
não planejado agradou ou não o público. É o caso da famosa sitcom Friends
(1994–2004), em que o par romântico entre os personagens Monica e Chandler
não estava originalmente nos planos, porém, com a aclamação entusiástica do
público, os roteiristas resolveram fazê-los um casal e assim permaneceram até
o final da série (VOLTURE, 2019).
A cultura dos ‘shipps’– termo dado a um casal fictício (ou não) – vem da
identificação do público com os romances em tela, e o shipp às vezes se torna
mais interessante de se acompanhar do que o restante da história em si. Isso
acontece muito entre adolescentes e atinge principalmente o público feminino.
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Com a popularidade do Tumblr em meados de 2010, era muito comum haver
diversos fóruns e páginas dedicadas a esses casais. Aos poucos, o Tumblr
tornou-se um refúgio para os adolescentes dos anos 2000, onde podiam falar
sobre suas paixões sem medo. Esse hábito se popularizou também e, talvez
principalmente, entre os adolescentes LGBTQIA+.
Em uma época onde a representação LGBTQIA+ na mídia era mínima, é
compreensível que jovens LGBTQIA+ buscassem representatividade em pares
que não existiam canonicamente – pelo menos não de forma explícita. O
marketing voltado para fandoms – principalmente quando se fala de fandoms
de shipps específicos LGBTQIA+ - pode ser considerado uma extensão do
chamado por Naomi Klein (2002) de marketing de identidade. O marketing da
identidade ou da diversidade é, além de um tipo de marketing, uma estratégia
que usa da necessidade de representatividade de certos grupos sociais para
vender seus produtos – seja qual forem.
Quando se faz uso do queerbaiting, os produtores estão usando do clamor por
representatividade de relacionamentos LGBTQIA+ como forma de atrair esse
público, mas, sem perder uma outra parcela da audiência que não gostaria de
ver essas mesmas representações.
Segundo Judith Butler, “O termo queer surge como uma interpelação que
levanta a questão do lugar de força e oposição, estabilidade e variabilidade,
dentro da performatividade. O termo "queer" funcionava como uma prática
linguística cujo propósito era envergonhar o sujeito que dá nome, ou melhor,
produzir um sujeito através dessa interpelação humilhante. A palavra "queer"
adquire sua força precisamente a partir da invocação repetida que acabou
ligando-a com a acusação, a patologização e o insulto. [...] Na verdade, o termo
"queer" em si foi precisamente o ponto de encontro de lésbicas e gays mais
jovens e, em outro contexto, intervenções lésbicas e, ainda em outro contexto,
heterossexual e bissexual para quem o termo expressa uma filiação a políticas
anti-homofóbicas.” (BUTLER, 2002, p. 318)
Como um conceito, queer assume o não ser. Guacira Lopez Louro define queer
como mais do que uma nova posição de sujeito ou um lugar social
estabelecido, queer indica um movimento. Supõe a não-acomodação, admite a
ambiguidade, o não-lugar, o trânsito, o estar-entre. (LOURO, 2008).
Assim, do inglês baiting que quer dizer ‘isca’ e Queer no sentido de cultura ou
pessoas fora do espectro heterossexual e cisgênero, queerbaiting, em uma
tradução literal, seria algo como ‘isca de queer’ – em outras palavras, o ato de
‘jogar iscas’ para atrair os peixes que, no caso, são a população LGBTQIA+ e
simpatizantes.
O termo em si é, ao mesmo tempo, um conceito e uma condição de nosso
momento histórico. Judith Fathallah (2015) define o termo por “uma estratégia
pela qual escritores e marcas tentam ganhar a atenção do público LGBTQIA+
através de insinuações, piadas, gestos e simbolismo no geral sugerindo um
68
relacionamento queer entre dois personagens e, então, negando enfaticamente
e rindo da possibilidade” (FATHALLAH, 2015, p. 491, tradução livre).
É quase impossível traçar o primeiro uso da palavra queerbaiting, mas, o termo
nesse sentido surgiu, antes de aparecer entre acadêmicos, na esfera do
Tumblr e LiveJournal em meados de 2010.
O uso de queerbaiting na televisão e no cinema é muito mais comum do que se
imagina. Seu uso é feito através de códigos de linguagem cinematográfica que
passam despercebidos pelos mais conservadores, mas, que serão entendidos
pelo público desejado. Na realidade, é quando os roteiristas colocam todas as
dicas e códigos possíveis indicando que um par romântico
LGBTQIA+ se
formará e, na prática, isso nunca acontece. Alguns dos exemplos mais
enfadonhos de uso de queerbaiting são as séries Sherlock da BBC,
Supernatural (CW network) e Teen Wolf.
Para entender porque o queerbaiting está quase enraizado no audiovisual
ocidental como um todo, precisamos entender um pouco sobre a história
LGBTQIA+ na televisão e, claro, no cinema.
O cinema estadunidense passou por algumas “Eras” em sua história no século
XX. O que nos interessa aqui é o intervalo aproximado entre 1932 e 1950,
período marcado pela vigoração Código de Produção de Cinema (Motion
Picture Production Code) que ficou popularmente conhecido como ‘Código
Hays’.
O código Hays veio como uma resposta a imagem em decadência da
‘Hollywood do pecado’ dos anos 1920. Como uma tentativa de retomar a boa
imagem do cinema perante o público (NAZÁRIO, 2007), o Código estipulava
diversas regras a serem seguidas na produção cinematográfica de modo a não
ferir os valores estadunidenses da época. Valores estes que se baseavam
muito na ideia de moral cristã e que renegava diversas práticas e tipos de
sujeitos – como as pessoas fora do espectro heterossexual. Segundo o próprio
Código, “nenhuma película deveria jamais ‘abaixar os valores morais de quem
a vê’ e ‘a simpatia da audiência não deve nunca ser direcionada ao crime,
transgressão, mal ou pecado” (E.U.A, MOTION PICTURE PRODUCTION
CODE, 1930).
Embora o Código não fosse uma lei, no sentido de legislação, sua sanção
tornava praticamente impossível que um filme fosse distribuído se não
estivesse dentro das regras do código e, assim, tornava-se praticamente uma
lei para qualquer cineasta que quisesse que seus filmes fossem distribuídos.
Com o Código tornando quase impossível que pessoas fora do espectro
heterossexual cisgênero fossem representadas livremente, alguns cineastas
começaram a incluir personagens LGBTQIA+ ou sugestões de que esses
personagens fossem LGBTQIA+ de forma implícita, através do que ficou
conhecido como queercoding – ou ‘códigos queer’.
69
Filmes como Bem-Hur (1959), De repente, no último verão (1959) e Juventude
Transviada (1955) estão carregados de códigos queer que, podem não ser
percebidos por todo o público, mas, definitivamente são apreciados pelo
público a quem se destinam – os/as LGBTQIA+ (SOMERTON, 2020).
Aqui, é importante ressaltar que há uma diferença fundamental entre
queercoding e queerbaiting. Embora ambos utilizem de códigos de linguagem
cinematográfica para insinuar personagens fora do aspecto heterossexual, o
motivo pelo qual se faz uso dessas ferramentas narrativas é bem diferente.
Enquanto queercoding existiu numa época de censura em que a única forma
de trazer personagens LGBTQIA+ era através de códigos, queerbaiting vem
em um contexto em que não é proibido mostrar esses personagens – porém,
há risco de perda de lucratividade. Ou seja, enquanto queercoding era uma
técnica utilizada muitas vezes por profissionais que também eram LGBTQIA+,
como uma forma de se conectar com o público LGBTQIA+ do jeito em que
podiam, queerbaiting é nada mais que uma jogada de marketing, sem nunca
trazer uma representatividade real para um público específico, enquanto joga
‘iscas’ para que esse público não perca o interesse.
Tratando-se de ferramentas narrativas de linguagem audiovisual, o francês
Christian Metz entende que a narrativa cinematográfica como conhecemos se
compõe verdadeiramente após a montagem; só então, é possível estabelecer
uma relação de narrativa, da história sendo contada. Até a montagem final, o
produto audiovisual passa por uma longa série de etapas, em que se pensa
desde na iluminação de cada cena até o tipo de som de fundo que a cena terá,
entre muitos dos processos da produção audiovisual.
A linguagem cinematográfica, portanto, vai além da imagem como está sendo
mostrada. Cenário, iluminação, diálogos, etc. são o que estão na tela
concretamente, porém, atribuir significado a narrativa cinematográfica não é
função apenas do cineasta. Na realidade, segundo Metz, era necessário que se
fizesse uma reavaliação dessa figura autoral no cinema, entendendo-se que
quem assiste também tem um papel fundamental na hora de atribuir significado
a obra. Assim, “o cinema é feito para os espectadores, por isso, a semiótica do
cinema é, por vezes, levada a colocar-se do lado do/a espectador/a mais do
que do/a cineasta” (METZ, 1972, p. 121).
Tais códigos são usados de forma particular de cada cineasta, porém, existem
recursos narrativos recorrentes na produção audiovisual. Códigos
cinematográficos para retratar pares românticos, por exemplo, são muito
comuns. A trilha sonora, o ângulo, a entonação do texto, o conjunto visual em
si para retratar o romance – todos esses elementos são parte de códigos de
linguagem. Assim, é possível reconhecer os usos de determinados elementos
quando consumimos um produto audiovisual.
Dessa forma, a prática de queerbaiting veio a tona nas discussões de fóruns de
fandom. Parte do público de algumas séries estadunidenses começou a notar o
70
uso de queerbaiting justamente por essas práticas narrativas comuns em
narrativas de romance que eram usadas em dois/uas personagens do mesmo
sexo que supostamente eram heterossexuais. Sexualidade ambígua junto com
subtextos que sugerem algo potencialmente romântico entre dois/uas
personagens do mesmo sexo, o uso de tropes românticas conhecidas e o
evitar menções explícitas de heterossexualidade são algumas características
da técnica de queerbaiting.
Hoje, a discussão sobre queerbaiting saiu um pouco da bolha de fóruns de fãs.
O último episódio de Supernatural, em novembro de 2020, trouxe o assunto
novamente à tona, e a insatisfação dos/as fãs pelo modo como os/as
produtores/as lidaram com os personagens gerou discussões por toda a
internet. Recentemente, a série Supergirl também foi encerrada sem abordar o
romance ‘codificado’ de Lena Luthor e Kara Danvers, o que desagradou à
parcela de fãs que esperavam um final diferente (HARRINGTON, 2021).
O aumento percebido em queerbaiting pode indicar uma mudança em direção
a uma percepção mais positiva das relações queer nas sociedades modernas,
mas, ao mesmo tempo, a mesma mudança social também aumentou as
expectativas dos fãs queer quanto à qualidade e autenticidade da
representatividade LGBTQIA+ - nós exigimos não apenas qualquer
representação, mas sim representações respeitosas e significativas de seus
relacionamentos.
O ponto é que não há mais ‘desculpas’ para uma prática como queerbaiting
atualmente. Entre as décadas de 1930 e 1970 Cineastas utilizavam
personagens queer de forma codificada porque era a única forma deles
existirem sem as produções serem boicotadas ou engavetadas – não é mais a
realidade em que vivemos. Ou seja, queerbaiting é escolher utilizar de piadas e
insinuações ao invés de simplesmente colocar representatividade de verdade
nas produções televisivas. Em um mundo capitalista, as marcas vão sim se
aproveitar das nossas pautas e tentar transformar nossa luta em dinheiro, mas,
isso não torna nossas lutas menos válidas. Identificar práticas como
queerbaiting e não se calar em vista das mesmas é o primeiro passo para que,
talvez, no futuro, elas não sejam mais necessárias.
Referências biográficas
Fernanda dos Anjos da Nóbrega é graduada em História pela Universidade
Federal do Mato Grosso do Sul, campus de Nova Andradina.
Referências bibliográficas
BUTLER, Judith. Acerca del término “queer”. In: BUTLER, Judith. Cuerpos que
inportan. Sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”. Buenos Aires:
Paidís, 2002. p. 313-339.
71
FATHALLAH, Judith. “Moriarty’s Ghost: Or the Queer Disruption of the BBC’s
Sherlock,” Television & New Media 16, no. 5 (2015): 491.
HARRINGTON, Delia. Supergirl Finale: ‘Supercorp’ Are Just Gals Being Pals.
Den of Geek, 2021. Disponível em: https://www.denofgeek.com/tv/supergirl-
series-finale-supercorp-kara-lena/
Acesso em: 11/11/2021
KLEIN, Naomi. Sem logo: a tirania das marcas em um planeta vendido. São
Paulo: record. 2002.
LOURO, G. L. O “estranhamento” queer”. Labrys, Estudos Feministas, 2007.
METZ, Christian. A Significação no Cinema. Perspectiva. Coleção: DEBATES -
Vol. 54 2ªed. (1972).
UNREQUITED: The History of Queerbaiting. Produção: James Somerton.
Roteiro: James Somerton. Estados Unidos, 2020. YouTube. 90 min. Disponível
em:
https://www.youtube.com/watch?v=4Nx1aD9Khg0&ab_channel=JamesSomerto
n Acesso em: 20/10/2021
VOLTURE, 2019. “How Friends Decided to Pair Off Monica and Chandler”.
Disponível em: https://palavracheia.wordpress.com/2014/01/08/monica-
chandler-vulture/ Acesso em: 15/10/2021
72
PEREGRINAÇÕES DE UMA PÁTRIA: FLORA TRISTA E
A FIGURA FEMININA NA SOCIEDADE PERUANA (1838)
Gabrielle Legnaghi de Almeida
Introdução
Publicado em 1838, a obra “P i i s ’ p i ”, traduzido para o
português com o título “Peregrinações de uma Pátria” compreende um relato
de viagem em território peruano entre os anos de 1833 e 1834. Flora Tristan
(1803 - 1844) era de origem abastada, mas teve sua condição alterada com a
morte de seu pai. Em 1833 viaja para Arequipa, no Peru, objetivando
reivindicar uma herança. Em um cenário de pós-independência, Flora encontra
uma sociedade marcada pelo patriarcado e com limitações para as mulheres.
Envolvendo questões de gênero, a obra possibilita a compreensão do cenário
peruano da época, evidenciando uma sociedade em que o homem possui
extrema dominância, a subordinação e silenciamento das figuras femininas e,
ainda, permite a compreensão das estruturas coloniais que sustentam o
machismo na sociedade moderna e contemporânea.
Desenvolvimento
Ao realizar uma viagem ao Peru em 1833 em busca de sua família paterna, a
parisiense Flora Tristán tece uma narrativa sobre sua experiência no país.
Expondo em seu diário de viagem diferentes situações que observou em terras
peruanas. Com seu diário é possível identificar e analisar os traços da
sociedade, que se mostra de caráter conservador e tradicionalista.
O atento olhar da autora se volta para a condição das mulheres da sociedade
do país. Ela observa uma mulher descasada que vem de uma cultura onde o
divórcio não era facilmente aceito, e que os direitos civis não são reconhecidos;
evidencia sua situação irregular de herdeira ilegítima de seu pai hispano-
peruano; um contexto em que ser mulher e escritora eram atividades
destinadas somente aos homens; e ainda, de acordo com Flora, as origens
infames da retrógrada cultura hispânica (TORRÃO FILHO, 2018, p. 2).
“Por autobiografía entendemos no sólo el relato de la vida, sino el proceso
autoconsciente que enhebra desde la interioridad lo vivido para construirse al
autorrepresentarse. Tristán busca limitar su relato a aquellos aspectos que
tienen un valor universal y con ellos “espera influir sobre la opinión pública”. El
esfuerzo autobiográfico es un volver a la propia vida para autodescubrirse. En
el caso de Tristán nos encontramos no ante una autobiografía sino ante unas
memorias porque la mirada de la escritora sobre los hechos externos prima
sobre los internos” (GÓMEZ, 2005, p. 65).
73
Na sua condição de mulher divorciada, “descasada”, ela se vê na condição de
“pária”, que corresponde a uma estrangeira em sua própria pátria em que
nasceu. Em uma situação de extremo desamparo pela situação política e social
do seu país (França), discriminada, sem reconhecimento, em que sua condição
significa um verdadeiro tabu para a época. Porém, é nesse desamparo que sua
ida ao Peru acontece, mas os traços de sua pequenez diante de uma
sociedade enrijecida por valores conservadores permanecem, tanto quanto ou
ainda mais fervorosos (MEDEIROS, 2020, p. 12).
“Devido ao papel que tinham de consolidação do regime colonialista espanhol,
as mulheres brancas eram mantidas na ignorância e afastadas de qualquer
atividade produtiva e política. Não lhes restava outra escapatória além do"
casamento ou do claustro", o que fazia da maior parte delas vítimas das
convenções sociais” (AMARANTE, 2015).
Ao descrever uma conversa com sua prima nas páginas 11 e 12, a
inferioridade figura feminina se evidencia, em que são colocadas em situações
que comprometem sua liberdade. Prosseguindo o diálogo, sua prima descreve
a situação das mulheres como escravas das leis e sujeitas a mil sofrimentos, e
exclui Flora dessa realidade:
“[...] débill mujer, esclava de las leyes, de los prejuicios, sujeta a mil
sufrimientos, con una debilidad sífica que la hace incapaz de luchar contra el
menor obstáculo ?es usted quiene se atreve a avanzar semejante paradoja?
!Ay, Florita! Se ve que usted no ha estado dominada por una familia altanera y
poderosa, ni expuesta a la negra maldad de los hombres. Soltera, sin familia,
usted ha sido libre em todas sus aciones, e dueña absoluta de si mesma [...]”
(TRISTÁN, 1833, p. 11).
Sua prima prossegue detalhando a dura realidade das mulheres peruanas:
“[...] Casí todas, casadas muy jóvenes, han tenido sus facultades marchitas,
alteradas por la opressión más o menos fuerte que sus amos han hecho pessar
sobre ellas. Usted no sabe cuántos de estos penosos sufrimientos está uno
obliga a ocultar a los ojos del mundo, a disimular aun en el interior y cómo
paralizan e debilitan la moral de ser más felizmente dotados. Al menos, tales
son los efectos que aquellos sufrimientos producen sobre nosotras, pobres
mujeres, poco avanzadas em civilización [...]” (TRISTÁN, 1833, p. 12).
“Como lembra Cuche (1985, p. 102), a sociedade peruana era baseada num
sistema de grandes plantações dirigidas pelos crioulos. Nisso eles se
opunham a outro grupo étnico, os negros, trazidos como escravos para
trabalhar nestas plantações, bem como a outros negros alforriados que, em
sua maioria, eram mulatos. Os índios, verdadeiros camponeses do Peru,
eram ainda pouco numerosos na zona costeira, mas bem
representados em Arequipa, reduto dos Tristans, onde constituíam metade da
74
população estimada entre 30 a 40.000 habitantes (TRISTAN, 1979). A classe
crioula era extremamente hierarquizada, a elite sendo constituída pelos
descendentes diretos dos conquistadores espanhóis. É desta elite, da qual os
membros da sua família eram representantes, que Flora Tristan se aproximou
mais” (AMARANTE, 2015).
Mesmo com a independência peruana da Espanha, restou as instabilidades de
uma pátria recém independente, e que ainda trazia consigo profundas marcas
sociais e estruturais de uma colônia, baseado no modelo imposto pela
Metrópole. Assim, a ideologia patriarcal importada da Europa solidificou-se
durante o processo colonial, persistindo mesmo após a dissociação da
Espanha. Prosseguindo como tema envolvendo os gêneros, é possível
perceber uma visão um tanto idealizadora que sua prima tem da Europa, visto
que posteriormente, Flora explica para a mesma que em terras europeias, as
mulheres também passam por esse tipo opressão e submissão ao homem:
“[...] Prima, hay sufrimiento em donde hay opresión y opresión em donde el
poder de ejercitaria existe. En Europa, como aquí, las mujeres están sometidas
a los hombres y tienen que sufrir aún más su tirania. Pero em Europa se
encuentra, más que acá, mujeres a que Dios há concedido suficientes fuerzas
para sustrarse al yugo [...]” (TRISTÁN, 1833, p. 12).
Conversações como essas encontradas no diário de viagem de Flora Tristán,
são ricas fontes para a compreensão da sociedade patriarcal dominante no
Peru. Visto que a posição de inferioridade feminina, marca de uma tradição de
submissão privação de liberdade explícita, enraizada e característica do século
XIX. Essa passagem evidenciando a interação de Flora com sua prima é um
claro exemplo de como era a idealização da Europa por quem nunca antes
pisou no Velho Mundo. Ideias de progresso, avanços, inovações e
modernidades são sedutoras,
e cada um as interpreta de acordo com as suas
próprias necessidades e demandas. Assim, a prima da autora apresenta em
seu imaginário ideais que para ela são característicos de uma sociedade
moderna, em que ela mesma se insere, esquecendo de que, no período, as
estruturas sociais foram pensadas e executadas por homens, favorecendo-os
em amplos sentidos.
No seu diário de viagem, Flora Tristán observa traços que caracterizam a
dinâmica social do Peru. Mesmo com a república recentemente instaurada, a
parisiense destaca pontos que evidenciam os costumes e preconceitos
coloniais, descrevendo situações que esses costumes se colocam à vista. Logo
na página 6, Tristán descreve uma viagem realizada com seu primo, Manuel,
onde os dois partem para Arequipa. Nessa viagem, segundo registros em seu
diário, Manuel lhe apresenta diversas terras, e o mesmo, durante a
conversação, expõe sua opinião referente aos homens ricos, e reconhece que
os peruanos, por mais que no momento estejam vivendo em uma República,
ainda apresentam traços e relações típicas do colonialismo:
75
“[...] Querida prima, nuestros parientes son los reyes del país. Ninguna familia
de Francia, ni aún las de Rohan y de Montmorency tienen tanta influencia por
su nombre o o su fortuna y, sin embargo, nos hallamos em uma república. !Ah!
Sus títulos y sus inmensas riquezas pueden procurarles el poder mas no el
efecto. Duros y pequeños como banqueros, nos incapaces de hacer uma
acción que responda el nombre que llevan. [...]” (TRISTÁN, 1833, p. 6).
Ao chegarem na casa do tio de Flora, ainda na página 6, a mesma relata que
fora recebida por muitos escravos que se encontravam na porta, o que
evidencia a manutenção de uma sociedade baseada no trabalho escravo e que
trata o negro com inferioridade. Outros episódios em seu diário também
destacam essa característica colonial, como na página 13 em que descreve
uma festa religiosa como uma farsa, e destaca que a Igreja pagava negros
para representarem um papel. Episódio que pode ser entendido como traço
que marca a suposta inferioridade do negro.
Outro costume observado por Tristán é referente à chegada de mulheres da
alta classe social no Peru. Em que as mesmas têm que permanecer em casa,
sem sair durante o primeiro mês que se encontram na nova cidade, a fim de
esperar as visitas. Costumes como esse expressam claramente as
características marcadas por uma sociedade que tem como base uma rigidez,
formalidades excessivas e o resguardo da figura feminina, em que vivem em
constante privação, até mesmo de suas vontades, em prol dos costumes
ditados pelos homens.
Na página 8, Flora Tristán destaca características do seu tio, que podem ser
entendidas novamente como resultado de uma sociedade patriarcal, “[...] mi tío,
jefe de uma numerosa familia, relacionado por sus altas funciones y su mérito
personal con todo cuanto el país encerraba de más distinguido don Pio gozaba
de una fortuna colossal [...]’’ (TRISTÁN, 1833, p. 8).
As marcas das tradições religiosas e a conservação da igreja como elemento
que se faz presente na sociedade também são apontadas por Tristán em
diferentes trechos. Nesse contexto, e bem como o passado colonial das pátrias
sul-americanas, teve como base o cristianismo, não somente na conversão dos
infiéis indígenas nos primeiros momentos da conquista, mas também, serviu
para consolidar as estruturas sociais vindas da Metrópole espanhola. Os
destaques de Flora, como no episódio do terremoto na página 10, em que
narra os negros saindo da casa e rezando. Ou nas festas religiosas, que a
mesma afirma, na página 13, que as festas religiosas são a diversão do povo,
caracterizando mais um forte traço do colonialismo, e que a religião ainda se
mantém no cotidiano. E mais, em que muitas vezes a cultura nos nativos
americanos se mesclaram com as influências europeias e africanas, em uma
ampla rede cultural.
A leitura que Flora realiza não é meramente voltada para a religião, de forma
despretensiosa, como era de constume em viajantes de tradição católica ou
protestantes. Esses tinham o objetivo de narrar e descrever as cerimonias dos
76
países americanos pautando-se em uma análise em que a religiosidade era
uma aparência, e não um rito sagrado para quem os praticava, sem a
verdadeira espiritualidade, em uma mescla de diversões mundanas com festas
sacras (TORRÃO FILHO, 2018, p. 10). Ao longo de todo seu relato de viagem,
é possível identificar que mesmo estando em uma república, os laços coloniais
ainda não foram desfeitos, resultando em uma sociedade rígida, e
tradicionalista, em que sua herança colonial baseada na Metrópole espanhola
ainda se preserva.
Conclusão
A autora Flora Tristán é um sujeito moderno, em que sua identidade foi
construída em concordância com o decorrer de sua vida. A concepção
contemporânea de identidade como conceito histórico e sempre passível de
mudança é própria de quem se coloca no centro de sua própria realidade.
Assim, a autora, de maneira habilidosa, soube conduzir a narrativa de modo
em que todas as discussões se voltassem para as suas próprias demandas,
voltando, novamente, para ela o centro da narrativa (GÓMEZ, 2005, p. 66).
Sendo um texto autobiográfico, a narrativa compreende ao ideário da
modernidade nos moldes europeus, mas que, em comparação com a
sociedade peruana, torna-se um avançado esboço da construção da própria
identidade feminina da autora. Com a obra da autora, é possível percorrer
temas paralelos, como o próprio modelo literário utilizado, a formulação de uma
identidade que rompe os moldes da sociedade em que se insere, como o novo
ideário feminino da França pós-napoleonica se configura. Para além, o estudo
envolvendo a obra de Flora contribui para as discussões envolvendo o
patriarcado e a consolidação das estruturas sociais pensada apenas para os
homens, possibilitando um paralelo com as diversas funções da sociedade
contemporânea que, ao passar das décadas, foi destinando atividades tidas
como masculinas para as mulheres.
Referencias Biográficas:
Gabrielle Legnaghi de Almeida. Graduada e Mestre em História pela
Universidade Estadual de Maringá. Doutoranda em História (Universidade
Estadual de Maringá).
Fonte:
TRISTÁN, Flora. Peregrinaciones de una paria (1833-1834). 1937.
Referências Bibliográficas:
AMARANTE, María Ines. FLORA TRISTAN E OS RETRATOS DAS
MULHERES LATINO AMERICANAS NO INÍCIO DO SÉCULO XIX. Revista
Sures, n. 5, 2015.
77
CUCHE, Denys. Le Pérou de Flora Tristan: du rêve à la réalité. In: Un fabuleux
destin. Flora Tristan. Dijon, 1985, p. 19-37.
GÓMEZ, Blanca Inés. Autobiografía y representación en Peregrinaciones de
una paria de Flora Tristán Universitas Humanística, núm. 60, julio-diciembre,
2005.
MEDEIROS, Laís. Liberdade e sujeição, o sistema patriarcal sob o olhar de
Flora Tristan (1803-1844). Revista Vernáculo, [S.l.], nov. 2020.
TORRÃO FILHO, Amilcar. As peregrinações de uma pária de Flora Tristan e a
construção de uma feminista. Revista estudos feministas, v. 26, 2018.
78
MULHERES APRESENTAM MULHERES: EXTENSÃO
UNIVERSITÁRIA EM DIÁLOGO COM OS ESTUDOS DE
GÊNERO
Georgiane G. Heil Vázquez e Angela Ribeiro Ferreira
Notas Preliminares
Os Estudos de Gênero e suas variadas áreas de pesquisas tem demonstrado
amplas possibilidades de contribuição para o campo da historiografia e do
ensino da História. A partir das décadas de 1950 e 1960 outras abordagens
históricas vão contribuir de maneira significativa para os futuros estudos sobre
gênero, infância, diversidade e subjetividades. Áreas como a Demografia
Histórica e a História da Família e suas descobertas sobre a sexualidade e as
sensibilidades do passado em relação ao casamento, às crianças e à morte
desempenharam funções primordiais para o impulso historiográfica chamado
inicialmente de “história das mulheres” e posteriormente “história das relações
de gênero”.
A história
da sexualidade e a história das mulheres, por sua vez, lançaram
novas luzes sobre práticas, representações e sensibilidades envolvendo grupos
sociais marginalizados e destituídos de memória. A partir daí os sentimentos,
as subjetividades e as intersubjetividades passaram paulatinamente a fazer
parte das reflexões históricas. Esta nova frente só começou a ser aberta por
historiadores ligados à Nova História, como George Duby e seus importantes
estudos sobre o amor, Elizabeth Badinter e a reflexão em torno da
desnaturalização do amor materno e Anne Vincent-Buffault e seu estudo sobre
as sensibilidades e emoções (DUBY 1989, BADINTER, 1985; BUFFAULT,
1988). Portanto, desde o final da década de 1960 a escrita da História se
modifica completamente. Primeiro, pelo impacto das transformações operadas
pela nova história social e a sua perspectiva de escrever a história “vista de
baixo”, do ponto de vista das pessoas comuns, dos operários, dos
camponeses, etc. O segundo motivo foi provocado pelo movimento político
identitário dos negros, das mulheres e das chamadas minorias, movimento este
engajado na construção de uma memória a contrapelo, de uma memória que
fortalecesse a coesão identitária dos grupos e movimentos sociais. É no interior
de um amplo movimento político de afirmação das identidades que a produção
da história das mulheres se consolida ao longo das décadas de 1970 e 1980 na
Europa e nos Estados Unidos inicialmente.
Os movimentos feministas se proliferavam e a passos largos caminharam das
ruas e marchas em direção ao “mundo acadêmico”, chegando até a escrita da
história. Ao chegarmos à década de 1980 as historiadoras feministas começam
79
a problematizar as particularidades que existiam entre elas próprias. Pedro
(2005; 2011) argumenta que as negras particularmente questionaram o gesto
excludente da escrita da história das mulheres, revelando as fraturas internas
não só da história, mas do próprio feminismo acadêmico ao mostrar as
armadilhas e ilusões da categoria Mulher. As diferenças assaltavam a diferença
sexual e revelavam como havia muito pouco a unificar esta categoria.
Feministas como Angela Davis, bell hooks, Patrícia Collins e Elsa Barkeley
Brown colocaram o dedo na ferida ao dizer que as mulheres não viviam da
mesma forma a experiência de ser mulheres. Outras variáveis precisavam ser
levadas em consideração, inclusive para se entender as exclusões presentes
nas próprias narrativas feministas. É neste contexto que chegamos à questão
do uso da palavra gênero no final da década de 1980. Quando Joan Scott
publicou seu famoso artigo na American Historical Review em 1986, ela tinha
como objetivo argumentar que a imensa produção da história das mulheres
havia chegado a um impasse: ou ficava numa categoria suplementar ao
mainstream historiográfico, ou forçava uma transformação no interior da
disciplina e do conhecimento histórico. Defendendo a segunda posição Scott
então propõe o gênero como categoria de análise e não como um tema ou um
objeto. Se o gênero é um dos princípios organizadores da sociedade, da
cultura e da linguagem e se o gênero é uma experiência para todas as
pessoas, então, devido a esta universalidade não poderia ser negligenciado na
produção do conhecimento histórico e no ensino de história.
O uso da palavra gênero para se referir a uma construção histórica e cultural
fundada na percepção da diferença sexual e como uma organização do poder,
visava romper com a ilusão identitária da história das mulheres, mas
igualmente com outras ilusões, como a neutralidade, a objetividade, a
racionalidade, a uniformidade linear da política e das instituições. Na
formulação teórica proposta por Scott o gênero não é um relato restrito das
relações sociais entre homens e mulheres, mas uma forma de saber, uma
configuração das experiências subjetivas e uma forma de poder, e que
abrangem necessariamente as diversidades sexuais e éticas.
Amparadas/os nessas discussões e nesse campo de pesquisa, o Laboratório
de Estudos de Gênero, Diversidade, Infância e Subjetividades (LAGEDIS),
vinculado a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Estadual de Ponta
Grossa- PR, promoveu debates e encontros científicos com a comunidade
universitária e a sociedade civil organizada a fim de oportunizar a ampliação
dos conhecimentos históricos sobre esse campo da historiografia, ou seja, uma
proposta de extensão universitária em que mulheres
professoras/pesquisadoras, apresentavam a obra e as principais ideias de
outras mulheres em diferentes áreas do conhecimento. Tal proposta se
justificou por entende-se a necessidade do debate sobre gênero, diversidade e
direitos humanos na educação superior e também na educação básica é um
dos eixos centrais para consolidação de uma escola e universidade de
qualidade, com foco no ser humano e respeito à diversidade. E é sobre essa
proposta de extensão que esse texto trata.
80
Mulheres apresentam mulheres: a extensão universitária dialogando com
Estudos de Gênero
Segundo Ferreira e Vázquez (2021) o LAGEDIS-UEPG é um programa de
extensão universitária, registrado na PROEX-UEPG desde 2019. Possui
diversos projetos e eventos vinculados e busca sempre um diálogo profícuo
entre ensino, pesquisa e extensão. Atua principalmente nos cursos de
licenciatura e bacharelado em História da Universidade Estadual de Ponta
Grossa, mas também é frequentado por estudantes de outros cursos da
instituição como Direito, Pedagogia, Letras, Serviço Social, etc. Em linhas
gerais os principais objetivos de criar e manter um laboratório extensionista
voltado exclusivamente para os estudos de gênero e diversidade são: Viabilizar
projetos de extensão que dinamizem ações nas áreas de estudos de gênero,
direitos humanos e diversidades étnicas e sexuais, por meio de projetos
voltados a um ou outro ponto ou que tratem deles numa perspectiva integrada
entre ensino, pesquisa e extensão com a comunidade externa, em especial,
trabalhadores/as da educação básica; Integrar organicamente docentes e
acadêmicos(as) comprometidos(as) com a realização de projetos (Trabalhos de
conclusão de disciplina, de curso, iniciação científica, especialização e
mestrado) visando ao aperfeiçoamento da formação profissional graduado pela
UEPG, para uma época de grandes mudanças no plano do conhecimento
histórico, que tem requerido cada vez mais o enfoque Interdisciplinar; Criar
condições para que profissionais de História habilitem-se no sentido de prestar
serviços à comunidade docente das redes pública de ensino, na educação
básica, ligados à discussão em torno da ampla área de estudos de gênero,
diversidade, e direitos humanos, ou seja, formar estudantes de forma plena
numa interface constante entre os saberes universitários e as questões e
problemas da comunidade externa, com enfoque na temática de gênero.
O presente evento de extensão tratado neste texto teve por objetivo central
promover o debate sobre história das mulheres e os estudos de gênero nos
diferentes campos das ciências humanas e sociais. Para atingir tal finalidade
foram organizadas palestras durante o ano letivo de 2018 com pesquisadoras,
mestras e doutoras, que apresentaram obras, teorias e militância feminista de
mulheres que se destacaram em suas respectivas áreas de produção cultural e
acadêmica. Como objetivo específico, esse ciclo de palestra, em sua primeira
edição, dialogou de maneira interdisciplinar com a geografia, as letras e a
psicologia, articulando um debate profícuo entre o campo de conhecimento
histórico, os estudos de gênero, e tais áreas do saber. Foram abordadas as
produções de literatas sul africanas, as obras da proto feminista inglesa Mery
Wollstonecraft, a filósofa Judith Butler em diálogo com a Teoria Queer, a obra
psicanalista brasileira Nise da Silveira. Também foram apresentadas obras e
estudos sobre mulheres artistas, em especial pintoras paranaenses, e
mulheres do estado do Paraná que atuaram na luta armada
contra a Ditadura
Militar Brasileira.
Com o intuito de dar visibilidade a um dos debates mais atuais na sociedade
brasileira: os Estudos de Gênero, o evento buscou parcerias com outras
81
instituições de ensino superior da cidade e teve a participação de estudantes
de diferentes cursos, inclusive das clamadas “ciências duras” como as
engenharias. Segundo Pedro (2005), esse campo de pesquisa surgiu articulado
com a militância feminista, a história das mulheres, e que já está consolidado
nas universidades nacionais e estrangeiras. Interdisciplinar por essência, os
estudos de gênero, possuem a capacidade de agregar pesquisadoras e
pesquisadores de áreas variadas num diálogo profícuo e inovador com
inúmeras outras temáticas, destacando-se nesse ciclo de palestras a produção
cultural e profissional de mulheres, que muitas vezes é apagada da narrativa
histórica. As pesquisas dentro dos estudos de gênero, enquanto análise
histórica, carregam em seu bojo a problematização não somente das relações
sociais entre os múltiplos gêneros, a compreensão da construção de
identidades e suas formas de reprodução na sociedade em diferentes culturas
e contextos, como também entendem o gênero como uma organização social
que tem direcionado relações de poder, sistemas de dominação, restrições de
sujeitos (as) a espaços e funções, exclusão de protagonismo feminino e
inúmeras outras desigualdades. Nesse sentido, possibilitar espaço dentro e
fora do mundo acadêmico, para que pesquisadoras mulheres apresentem suas
pesquisas e estudos sobre outras mulheres, foi e é, em essência, romper com
desigualdades e dar protagonismo a sujeitas antes marginalizadas ou deixadas
em segundo plano.
É importante mencionar que esse projeto também contou com a participação
da sociedade civil organizada. Estudantes de educação básica participaram
como ouvintes de algumas palestras, membros de movimentos sociais também
estiveram presentes, fortalecendo a ligação entre a universidade e a
comunidade.
Para tratar de escritos negras da África do Sul, foi convidada a professora
Joana Darc Pupo, docente no curso de letras da UEPG e pesquisadora na
área. Pupo desenvolveu seu doutorado analisando a obra de diversas
mulheres sul-africanas que romperam com estigmas de raça e gênero e
construíram uma produção intelectual no campo da literatura. Com esta
palestra os participantes puderam conhecer parte do campo literato da África
do Sul e os nomes e obras de mulheres que compõem tal campo. Numa
perspectiva decolonial, a atividade teve intenção de abordar empoderamento
feminino e lutas de mulheres naquele país.
Para tratar de parte da obra da proto feminista inglesa Mery Wollstonecraft, foi
convidada a professora Dra. Dulceli Tonet Estacheski, na época professora na
Unespar- Campus União da Vitória. A obra de Mery Wollstonecraft é vasta e
singular, contudo, ainda pouco conhecida do grande público em universidades
brasileiras. Desta forma, a professora Dulceli deu enfoque central para o livro
“Reivindicação dos Direitos da Mulher” e tratou do pioneirismo de
Wollstonecraft na temática, abordando também aspectos da vida pessoal e
profissional da autora.
82
Para tratar da obra de Judith Butler em diálogo com a Teoria Queer, foi
convidada a professora Dra. Joseli Maria Silva, docente do curso de geografia
da UEPG e uma das pesquisadoras pioneiras na área de geografias feministas.
A palestra tratou das principais ideias de Butler e da “sacudida” que as obras
dessa autora deu no campo dos estudos de gênero e feminismo, em especial
por desnaturalizar uma série de conceitos e estereótipos ligados ao gênero. A
ideia de performance de gênero também foi tratada e com isso os participantes
tiveram a dimensão da pluralidade de teorias e interpretações que compõem os
estudos de gênero na atualidade.
Sara Soriano, psicóloga e docente da Faculdade Santana de Ponta Grossa –
PR, abordou a obra de Nise da Silveira e a revolução que esta psiquiatra
promoveu em sua área. As possibilidades de pesquisa relacionando a História
e a Loucura também foram levantadas, bem como documentação e fontes para
o estudo de tal temática. Foi destacado o papel central que Nise da Silveira
teve em sua área e a forma como revolucionou o tratamento das doenças
mentais em sua época, assim como os desafios e preconceitos que enfrentou,
tanto por sua condição de mulher como por sua ambição profissional e nova
teoria.
A professora Cláudia Priori, da UNESPAR, tratou de sua pesquisa articulando a
história e o mundo das artes. Deu nome, protagonismo e analisou diferentes
mulheres pintoras no Paraná de fins do século XIX e início do século XX.
Mulheres que muitas vezes foram completamente apagadas do cânone
artístico, mas que possuem vasta obra, quadros com extrema qualidade
técnica e expressão. Ao nominar e analisar a obra de pintoras paranaenses
Priori possibilitou o contato dos participantes com a História da Arte e
demostrou que ainda temos um longo caminho para conhecer e escrever a
história das mulheres no Estado do Paraná.
Para finalizar, essa extensão universitária também abordou temas políticos e
de militância. Para tratar de tal temática, foi convidada a professora Carla
Conradi, da UNIOESTE, que apresentou e analisou a participação de mulheres
paranaenses na luta armada contra a Ditadura Militar Brasileira. Seus
sofrimentos, ideais políticos, prisões e até rompimentos familiares foram
tratados nessa palestra, demostrando que mulheres paranaenses tiveram
também ações centrais na luta contra a opressão estatal e lutaram por uma
sociedade mais justa e democrática.
Considerações Finais
Este relato tratou da primeira experiência de extensão universitária vinculada
ao LAGEDIS-UEPG. Nosso intuito foi demostrar que havia e há um amplo
campo de pesquisas para serem desenvolvidas da área de estudos de gênero,
diversidade e história das mulheres.
A opção pela realização de um ciclo de palestras que perpassou o ano letivo de
2018 na UEPG se deve pelo fato de que nossos/as estudantes tinham, até
83
aquele momento, pouco contato com essas temáticas, pois o laboratório ainda
estava dando seus primeiros passos na universidade. Além disso, foi uma
forma de empoderar pesquisadoras ( as palestrantes) para destacar a
importância de suas pesquisas e demostrar aos ouvintes como temos
temáticas e ações voltadas para este campo e que devem ainda ser ampliadas.
Como saldo geral deste ciclo de palestras podemos mencionar que a
participação da comunidade interna e externa à UEPG foi muito significativa e a
avaliação geral dos participantes foi positiva. Além disso, essa primeira
experiência de extensão auxiliou significativamente na consolidação do
LAGEDIS, tanto no curso de história como em diversos outros cursos da
UEPG. A extensão universitária é também um dos caminhos para aprimorar o
ensino de história com novas possibilidades e uma formação mais coesa.
Comunidade e universidade juntas debatendo gênero e diversidade, esse
segue sendo o propósito do LAGEDIS.
Referências biográficas
Dra. Georgiane Garabely Heil Vázquez, professora do Departamento de
História da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG e professora do
Mestrado Acadêmico em História ( PPGH-UEPG) e Mestrado Profissional em
Ensino de História ( PROFHISTÓRIA-UEPG)
Dra. Angela Ribeiro Ferreira, professora do Departamento de História da
Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG. Coordenadora do Programa
de Mestrado Profissional em Ensino de História ( PROFHISTÓRIA- UEPG).
Referências bibliográficas
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84
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85
MANIFESTAÇÕES DO ÚTERO: CONCEPÇÕES
MÉDICAS ACERCA DA MENSTRUAÇÃO E
ANOMALIAS NO SÉCULO XVIII EM ERÁRIO MINERAL
(1735) DE LUÍS GOMES FERREIRA
Gessica de Brito Bueno e Christian F. M. dos Santos
As colônias na américa portuguesa do setecentos, influenciadas pelas
metrópoles, constituíram sua tradição médica e literária seguindo doutrinas e
bases antigas, apesar dos avanços em relação ao conhecimento da anatomia
do corpo humano, ainda no início do século XVIII não havia uma precisão
sobre seu funcionamento, pois ainda atribuíam a geração da vida pelo sangue
menstrual sem citar a existência do óvulo em nenhum momento (POLETTO,
2011). Ao longo dos séculos foram sendo acomodadas superstições misóginas
acerca da figura feminina e sua constituição biológica, elaborações que foram
ganhando contornos exagerados em relação ao útero, inspirando médicos a
cuidados e teses sobre seu efeito no corpo (DEL PRIORE, 2004). Essas
concepções surgiram há mais de dois mil anos, possivelmente desde o século
V a.C., com os discursos do conhecido médico Hipócrates, como também
absorveram o pensamento católico e islâmico na era medieval (ABREU, 2007).
No século XVIII, então, o imaginário popular e as concepções médicas
absorveram ideologias dos períodos antecedentes, acomodando crenças sob
influência de signos e demonologia luciferina, onde o protagonismo da matriz
feminina emergiria como o centro causador de desgraças sobrenaturais
(ARAÚJO, 2004, In: DEL PRIORE, 2004). E uma das crenças que despertavam
o senso de abominação e do fantástico foi a de que poderiam nascer monstros
com características híbridas, resultantes de relações sexuais, onde o homem
teria tido contato com o sangue menstrual da mulher (FERREIRA, 2002).
A reputada medicina da antiguidade, então, anunciaria em seu tempo a Teoria
dos Humores, desenvolvida pelo médico grego Hipócrates, os princípios
terapêuticos dessa teoria seriam apropriados, ulteriormente, no setecentos,
constituindo o cerne para o estudo e tratamento de doenças (COELHO,2002, p.
156: In: FURTADO, 2002). Nos tratados produzidos pelo cirurgião-barbeiro
português Luís Gomes Ferreira em seu manual de medicina intitulado Erário
Mineral (1735), é possível analisar a interpretação que o cirurgião-barbeiro
concebe à menstruação, com base na Teoria Humoral. Ele a interpreta como
um fluído venenoso que causa danos terríveis, condicionando a mulher num
jogo intrincado de intenções malignas, uma vez que, o engendramento
feminino no discurso religioso afirmava que o demônio transmitia
especialmente as mulheres o seu poder, com intuito de propagar o seu mau
(FONSECA, 2020).
86
Destarte, a lógica que adequa a menstruação na Teoria Humoral se dá pelo
fato de que, segundo Porter e Vigarello (2008, p. 443, In: CORBIN, COURTINE
e VIGARELLO, 2008) “Não é aberrante fazer do “estado” dos fluídos, indícios
do “estado” do corpo”. Ou seja, a comparação da menstruação como
excremento ou fluído venenoso, dado o mistério no interior dos corpos, levando
em consideração que o diagnóstico pela observação inspecionava mais os
líquidos do que os sólidos, levava a menstruação regular das mulheres a serem
interpretadas como resultado de um desiquilíbrio interno constante (PORTER e
VIGARELLO, 2008, In: CORBIN, COURTINE e VIGARELLO, 2008). A
menstruação seria encarada como um excesso e desiquilíbrio humoral
constante, produzido pelo aparelho reprodutor feminino, uma doença exclusiva
da mulher (LEAL, 1995.:In: ALVES e MINAYO, 1995).
O cirurgião-barbeiro cita ainda em sua obra o livro de levítico, do Antigo
Testamento, como base para explicar a proibição do contato com o sangue
menstrual e os danos que se dará ao ter relações sexuais com uma mulher
nesse período, onde ele escreve que “é tão danosíssimo o dito sangue que era
proibido no Levítico ou lei antiga que a mulher e o homem não tivesse
ajuntamento enquanto durassem os dias da menstruação” (FERREIRA, 2002,
p. 313, In: FURTADO, 2002). Mas quais seriam os outros danos do sangue
catamenial que Ferreira não teria incluído em sua obra? Ao avaliar documentos
do mesmo período, bem como, o contexto do setecentos, é possível perceber
quais foram os outros danos que Ferreira deixou de mencionar, considerando
que esse tema feminino não era o foco em seus tratados médicos, a dimensão
do conteúdo em Erário Mineral não permitiu um maior aprofundamento sobre o
assunto, mas ele deixou indícios, e foi o necessário para refletirmos acerca das
consequências que o contato com o sangue menstrual poderia gerar no
nascimento de uma criança.
Teratologia: do fabuloso ao científico
O conceito de teratologia encontrado hoje diz respeito a uma especialidade
médica que se dedica ao estudo das anomalias e malformações ligadas a uma
perturbação do desenvolvimento embrionário ou fetal, ou seja, estudo sobre
causas, mecanismos e padrões do desenvolvimento anormal, e, julgando pelo
parco material que há nos registros em plataformas digitais, ainda é uma área
pouco explorada pelos estudiosos da atualidade (CASTRO, 2015). A
teratologia, como todas as outras ciências naturais, percorreu fases sucessivas
em sua longa duração até atingir a configuração atual, e, por isso, se faz
necessário discutir sobre as fases que explicam seu desdobramento ao longo
dos séculos, tendo em vista que sua trajetória revela indícios para a
compreensão sobre a crença na relação da figura feminina com o surgimento
das monstruosidades (CUNHA, 1884).
Segundo o diplomata crítico de arte da Lituânia Jurgis Baltrusaitis (1999, p. 9) o
campo de conhecimento da história da ciência que se dedica à área da
teratologia é o estudo do avesso, a outra face, ou seja, a partir de um raciocínio
87
se cria uma multiplicidade de faces, e essas contém erros e realidades. Nesse
intuito, compreender a mitologia e a lenda das formas, que fazem parte da
morfologia lendária, é essencial para a compreensão da escalada do
desenvolvimento da teratologia como também dos estudos anatômicos, as
anomalias fazem parte de uma realidade que anda ao mesmo tempo paralela e
ligada as descobertas anatômicas (BALTRUSAITIS, 1999).
Segundo o esboço histórico do médico Bernardo Joaquim da Silva e Cunha
(1884, p. 2) houve três fases da teratologia, sendo a primeira empírica,
momento de acumular os fatos, bem ou mal observados, a segunda é onde se
procurou estabelecer os diferentes tipos de anomalias, conhecer suas relações
e classificá-las, e, por último, momento que se procura a origem e o modo
como essas anomalias se formam, as leis que regem seu aparecimento e
desenvolvimento. Essas fases foram chamadas de fabuloso, positivo e
científico, consecutivamente (CUNHA, 1884).
É pasmoso perceber que a primeira fase se estendeu desde os tempos mais
remotos até os primeiros anos do século XVIII, considerando que a teoria da
teratologia foi publicada por Étienne Geoffroy Saint-Hilaire no início do século
XIX, o primeiro volume em 1818 e o segundo em 1822 com o título
Philosophie Anatomique (COURTINE, 2008, In: CORBIN, COURTINE e
VIGARELLO, 2008), mas não surpreendente, considerando a miscelânea de
conhecimentos
que buscavam explicar todos os problemas da vida, em
especial, da saúde e doença do corpo humano, corroborando para um
processo complexo e longo para a formação de uma medicina com bases
científicas que se conhece hoje (MIRANDA, 2017). Destarte, é uma fase
caracterizada por observações errôneas, grosseiras, banhadas em crenças e
absurdos, resultado de superstições criadas pelo imaginário popular (CUNHA,
1884).
As lendas foram introduzidas na sociedade de tal modo que transgrediram os
limites da razão, considerando que filósofos e eruditos da época,
frequentemente, eram associados às considerações mais estranhas, e
acreditavam que os monstros eram prodígios, encarados tanto como cólera e
castigo de Deus, como produtos de operações do diabo (BALTRUSAITIS,
1999). Suas presenças significavam o presságio de algo ruim que se
aproximava, como guerras, fomes ou epidemias. As duas cidades rivais,
Esparta e Atenas, tinham em comum a lei de condenar à morte nascidos
deformados, leis essas que continuariam a vigorar na Idade Média e, ainda,
sobreviver na Renascença, o poder absoluto da fábula e da quimera se revelou
pertinaz (CUNHA, 1884).
A monstrualização da mulher no período medieval é postulada na perspectiva
de sua demonização, cujo período tende a interpretar as desviadas do padrão
de comportamento moral estabelecido como feiticeiras, e, como por analogia
ao diabo, acreditavam que poderiam transformar-se “a si mesmo ou os
indivíduos em monstruosidades deturpadoras da ordem e normalidade
divinamente regentes” (FONSECA, 2020, p. 15).
88
Somente em 1605 Riolan, um anatomista britânico francês, indo contra as
regras, aconselhou que sexdigitários, gigantes e anões deveriam somente ser
isolados dos olhos da sociedade, todavia, outras anomalias deveriam ser
mortas ao nascerem. Os contos fantásticos cheios de ilustrações exageradas e
alteradas nas obras, como de Paré, eram baseados em fatos mal observados
(CUNHA, 1884). Mas, longe de se tratar somente de um tratado sobre defeitos
congênitos, segundo a doutora em línguas românticas Janis Pollister (1982),
Ambroise Paré era um demonologista que exibia sua atitude fundamentalmente
cristã acerca das anomalias, como também se mostra curioso acerca das
formas e tamanhos infinitamente variados que a natureza apresenta, e como
sua mecânica e anatomia funcionavam, as desordens e anomalias acidentais
para ele significavam monstros e maravilhas (PALLISTER, 1982).
A dosagem de pessimismo e temor associada a figura feminina foi construída
e conversada em diversas obras e documentos desde o tempo dos augúrios e
oráculos, foi delegada a ela à culpa por crimes impossíveis, culpada por erros
científicos (ROHDEN, 2000). Há registros de que mulheres foram queimadas
após terem dado à luz a um monstro com cabeça de gato, certamente uma
observação com base em superstições (CUNHA, 1884), tratava-se de uma
erudição mitológica que não desejava ser contestada (SCHMITT-PANTEL,
2003, In: MATOS e SOIHET, 2003).
Somente nos primeiros anos do século XVIII é que esses juízos começam a se
dissolver, gradualmente, na malha supersticiosa (CUNHA, 1884, p. 4). É nesse
momento que os fatos mal observados começam a serem, efetivamente,
estudados e avaliados com mais cuidado, aliás, a mudança dos juízos que
sustentavam o fenômeno ótico e fantasmagórico, traduzindo corpos em
aberrações, não dependeria somente dos que as formulavam, mas também
dos que acreditavam, pois, “a vida das formas depende não apenas do lugar
onde elas existem realmente mas também daquele onde elas são vistas e
recriadas” (BALTRUSAITIS, 1999, p. 11).
O período denominado positivo é marcado pela novidade, por uma busca
curiosa dos anatômicos que se dispõem em investigar os corpos dessas figuras
consideradas monstruosas, de modo que, as primeiras exibições de fenômenos
vivos ao longo do século XVIII estão ligadas a origem do teatro popular, desde
do início do século XVII muitos comediantes constroem barracas e feiras sob
condições concedidas pela igreja e o comércio para apresentarem marionetes,
animais e curiosidades humanas, espetáculos e comércio viviam em harmonia,
isso porque exista uma demanda aguda de diversão por parte do público das
grandes cidades, podendo ser encontrado esses registros em tratados
teratológicos, nas crônicas feirantes, mas também nas memórias e jornais de
outrora (COURTINE, 2013). Além disso, agora, ao contrário de exigir a morte, a
sociedade pagava para assistir as autópsias de crianças malformadas, e, no
meio daquele alvoroço, havia alguns sábios que observavam com olhar mais
apurado todo o procedimento, causas e padrões não percebidos. Alguns
anatômicos, registraram em mínimos detalhes seus estudos em cadáveres e
89
buscaram entrar em confronto com as antigas ideias que causaram prejuízo
aos verdadeiros fatos (CUNHA, 1884, p. 5).
A partir da terceira fase há uma busca por encontrar e explicar as causas da
monstruosidade, embora haja muitos erros ainda, julgando pelo atraso nos
estudos sobre a embriologia, o conjunto de leis para a interpretação desses
fatos viriam gradualmente mais tarde. De qualquer forma, a ideia que tinham
sobre a monstruosidade ainda transitava no campo do fabuloso, como o fato da
natureza desejar jogar com as formas de vida, quebrando a linearidade e
uniformidade da biologia natural, além de que ainda atribuírem a imaginação da
mulher os monstros recém-nascidos (CASTRO, 2015). Essa explicação, no
entanto, já era muito pueril e pouco convincente para muitos já nessa época.
Surge, então, dois sistemas para explicar, advindos de dois autores, Winslow
com a teoria da “preexistencia” e Lemery em defesa do sistema oposto
(CUNHA, 1884, p. 6).
A doutrina da “preexistência” ganhou muitos apoiadores anatomistas e
fisiologistas até os dias atuais (BOTELHO, 2007), e o primeiro naturalista
chamado Swammerdam, que aplicou o microscópio para estudar as fases,
organizações e metamorfoses dos insetos, por analogia, observou primeiro os
vegetais e ovos e, posteriormente, incluindo os seres humanos, chegou a uma
conclusão generalizada, de que todo ovo conteria as informações de todas as
gerações que devem suceder, ou seja, julgou ter visto o estado último da
evolução de cada um dos insetos pela observação, de modo que a
embriogenia se reduzia, então, ao fato de não existir evolução, e, sim, ao
aumento do volume de órgãos já preexistentes (CUNHA, 1884). Jaques Roger
(1971) define o termo preexistência para se referir a ideia de encaixotamento,
ou seja, a ideia de que existe um pequeno ser dentro do ovo e dentro dele
existe outro ser, e assim por diante, a teoria postula que há uma formação
instantânea do embrião, seja ela no interior dos pais ou quando óvulo é
fertilizado, seria nesse momento que seria decisivo o nascimento de uma
pessoa normal e de uma anormal, em termos físicos e mentais (ROGER,
1971).
Essa teoria da Preformação foi moldada, inicialmente, por um padre cartesiano,
cujo interesse estava mais voltado para a discussão da moral e do pecado, do
que com a reprodução. O trabalho desse padre francês acabou contribuindo
para teorias cartesianas, seus volumes acabaram por servi de esboço para o
que viria a ser conhecido por Psicologia. Segundo ele existem muitas
substâncias no corpo que são imperceptíveis, afirma que o sentido mais
importante é a visão, mas que os olhos podem enganar, e “as coisas não são
como aparentam ser para nós[...]”. Assim, o padre afirmou que as crianças já
eram completamente formadas e o período gestacional só serviria para seu
crescimento necessário (CORREIA, 1998, p. 51).
O sistema que se opunha a esse foi o da epigênese que se fundamentava na
teoria de formação e desenvolvimento das partes dos seres vivos após a
fecundação, a “ epigênese é representada pelos ciclos sucessivos de ativação
90
gênica específica” (CERDÁ-OLMEDO, 1998, p. 236). A questão substancial, no
entanto, era pleitear sobre como se dava
a origem dos monstros na teoria da
preexistência. Para Lemery, as malformações eram um efeito acidental, eram
funções mecânicas que afetavam organizações normais, todavia essas ainda
eram explicações muito vazias, havia a necessidade de ir mais afundo, queriam
entender a inversão de vísceras, monstros compostos, inserções musculares
novas, dentre outras diversas anomalias. O fato é que embora a teoria da
preexistencia tenha se sobressaído, seria impossível, com o tempo, se
sustentá-la (CUNHA, 1884).
A teoria da regeneração interna dos órgãos que aparece com Trembley
dificultou para Winslow se explicar, mas não impossível, pois rapidamente a
considerou como fenômeno de geração. Após o tumulto, foi pelas observações
do alemão Caspar Friedrich Wolff (1733-1794) que se pode perceber a
vulnerabilidade da doutrina, quando constatou a formação do tubo intestinal,
afirmando que o tubo digestivo não preexiste, e, sim, se constitui pela
modificação e adaptação a partir de substâncias embrionárias, o que será
chamada de blastoderme (ROE, 1979). Assim, há a substituição da doutrina
pela epigênese. Desse modo, evidentemente, as causas das monstruosidades
poderiam ser explicadas, constituiriam desvios no processo de formação dos
órgãos, uma vez que, “estas deviam formar-se em certas epochas do
desenvolvimento embrionário” mas “em consequência d'uma modificação na
evolução normal do organismo” resultam em seres biologicamente diferentes
(CUNHA, 1884, p. 12).
Referências biográficas
Dr. Christian Fausto Moraes dos Santos, Universidade Estadual de Maringá.
Gessica de Brito Bueno, acadêmica do curso de História na Universidade
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93
A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NEGRAS EM
MUSEUS AFRO-BRASILEIROS
Heidi Ester Oliveira Barbosa
O projeto sobre a Representação das Mulheres Negras em Museus Afro-
brasileiros, se iniciou em Agosto de 2021. Após quase um ano de projeto
conseguimos recolher diversos materiais que possam contribuir com essa
discussão que está longe de terminar. Afinal, o assunto é extenso por se tratar
de questões de identidades, de movimentos sociais como o movimento negro e
o movimento negro feminista, a ausência ou a real representação das mulheres
negras.
De início precisamos comentar sobre quais são as memórias que a sociedade
brasileira carrega dos negros e negras. Geralmente essas memórias estão
cheias de estigmas, pois remetem apenas aos anos de escravidão e sofrimento
do povo negro, esquecendo todas e quaisquer sucessos que eles tiveram, seja
no âmbito acadêmico ou até social. Mas afinal, o que é memória?
Segundo Emanoel
Araújo, em: “Negras memórias, o imaginário luso-afro-
brasileiro e a herança da escravidão”. Ele coloca que a memória é um meio de
criação para a identidade de um sujeito, um povo. Durante a História do Brasil,
ocorreram muitos fatos históricos, a maioria teve como protagonistas homens
brancos, quando os protagonistas eram negros, aqueles que narravam as
histórias utilizaram do imaginário da sociedade e embranqueciam esses
sujeitos por meios de quadros ou davam créditos do sucesso do negro para um
branco, ou seja, sempre sendo colocado o negro como coadjuvante da sua
própria história.
Percebe-se que o aporte da abordagem do autor está em consonância com
nossa pesquisa, pois analisa o reconhecimento dos negros e negras, para um
aumento de sua autoestima. Exigir que dentro dos próprios movimentos
negros, ocorre a discriminação de gênero, logo uma mulher negra ela sempre
irá lutar em dobro, seja por ser mulher e por ser negra. Ao questionarmos a
representação dessas mulheres negras nos museus, podemos imaginar em
alguns cenários. O primeiro cenário é que há uma representação, entretanto,
essa representação está direcionada apenas aos aspectos negativos da
história, colocando-as apenas na época de escravidão. Outro cenário possível
é a ausência dessa representação, contribuindo para a discriminação das
mulheres negras, e o último cenário, é a representação dessas mulheres
negras como escritoras, grandes contribuidoras da sociedade. Sendo bem
sincera, acreditamos que o último cenário seja impossível de existir, pois ainda
estamos vivendo em uma sociedade machista, sexista e racista, que contém
um governante que é machista, sexista e racista.
94
A memória por ser um recurso muito importante, ela está diretamente ligada a
instituição museológica. Com isso, devemos falar sobre como os museus, eles
possuem um papel de extrema importância para a educação. A princípio, os
museus foram elaborados para representarem um grupo de indivíduos por
meio de elementos que seriam eternizados para contar suas histórias. Quando
vamos observar os museus espalhados pelo Brasil, vemos que a maioria
desses museus estão apenas de um lado da história, enaltecendo o lado dos
opressores. O museu torna-se um lugar de poder e disputa ideológica, com
isso sempre devemos pensar para quem foi construído aquele museu e qual
seu público-alvo. Interessante ressaltarmos que os museus afro-brasileiros
podem ser utilizados em sala de aula como ensinamento sobre a cultura
africana, estudar sobre a história e a cultura afro-brasileira nas escolas é
despertar nos estudantes o interesse em conhecer sobre como o Brasil é rico
culturalmente, seja devido as músicas, festivais etc.
Como já dito, o museu é um espaço de educação, o texto de Regina Abreu
sobre os Museus Etnográficos e as práticas de colecionismo, ressalta sobre a
inclusão da cultura, como essa inclusão pode transformar uma sociedade,
combater preconceitos e ser uma forma de resistência. Ao final do texto,
Regina comenta sobre um novo estilo de museu que começou a surgir no
Brasil. São museus voltados para a cultura popular, de porte pequeno em que
seus criadores eram artistas, folclorista e antropólogos que desejavam registrar
todos os aspectos de tradições culturais no Brasil, assim formando a ideia de
que os museus de início estavam direcionados aos antropólogos e
museológicos e seus estudos, e não voltado a autorrepresentação. Logo
depois o museu ele acaba surgindo como uma forma de luta, resistência e até
mesmo re existência
Dito isso, o projeto de pesquisa quer refletir sobre a representação das
mulheres negras em museus, assim, temos que comentar sobre o movimento
negro e o movimento feminista e, como os dois movimentos fazem parte de um
processo histórico-cultural. A história das mulheres negras gira em torno de
seus trabalhos em lavouras ou sendo quituteiras. Durante toda a história, essas
mulheres negras sempre estiveram em segundo plano, permaneceram em
papéis secundários da história, devido ao racismo e a opressão que a mulher
negra vive na sociedade.
Para conseguirmos analisar os museus, temos que passar por alguns textos
que irão retratar sobre o papel da mulher negra na sociedade e assim iremos
conseguir entender essas representações nos museus. Temos que falar sobre
o livro de Ângela Davis, Mulheres, Raça e Classe, de 1981, em que retrata a
opressão da mulher, negra e pobre, no livro é comentado sobre a contribuição
das mulheres negras para a formação da história do povo negro
estadunidense. É exibido como o racismo colabora para o sexismo e a
exploração de classe, como o sexismo coopera para o racismo e a exploração
de classe e por fim, como a exploração é sustentada por esses dois conceitos,
racismo e Sexismo.
95
O Movimento feminista, apresenta diferenças em suas análises, situando ações
de determinadas mulheres a serem representadas, ou seja, inicialmente partiu-
se do ideal de mulheres brancas e de classe média. Para esse grupo a busca
por emancipação por questão de classe era o principal, logo, elas tinham como
lógica que se os problemas relacionados ao trabalho fossem solucionados, de
forma instantânea as outras questões seriam resolvidas também, como a
abolição da escravidão.
As mulheres brancas e negras, foram definidas e classificadas por um sistema
ideológico de dominação que infantiliza essas mulheres. Quando falamos sobre
a opressão da mulher latino-americana é dizer sobre a realidade vivida por
milhões de mulheres que sofrem muito mais que as mulheres brancas. Desta
forma, todos os oprimidos acabaram desenvolvendo formas político-culturais
de resistência. A autora comenta sobre um ditado muito popular em nossa
sociedade: “branca para casar-se, mulata para fornicar, negra para trabalhar”.
Logo percebemos quais são os papéis dessas mulheres na sociedade, como
as mulheres negras são objetificadas sexualmente e nada mais, colocando o
corpo negro feminino apenas para uso e descarte.
Entrando nesse assunto sobre racismo e sexismo, o texto sobre racismo e
sexismo na cultura brasileira, pela Revista Ciências Sociais hoje, aponta que
esses dois fenômenos atingem as mulheres negras. Como que a mulher negra
é sempre vista como mãe, doméstica, mulata, é por meio do sexismo que
surge o racismo. A maioria dos textos existentes sobre mulheres negras
sempre abordam apenas o lado socioeconômico em que os problemas
relacionados estavam ligados à questão racial. Entre esses pensamentos,
surge sobre como é naturalizado o negro viver na miséria, em não ter uma
capacidade intelectual, ser perseguido por policiais e estar sempre atribuído as
coisas terríveis da sociedade.
Da mesma forma em que pensam isso do povo negro em geral, a imagem da
mulher negra como cozinheira, faxineira, é totalmente naturalizada, com isso
ocorre o apagamento da mulher negra no papel de formação cultural da
Sociedade. Já a memória, ela é “{...} lugar de inscrições que restituem uma
história que não foi escrita. O que podemos afirmar é que a consciência ela
exclui o que a memória acaba incluindo’’. A mulher negra só é vista quando
endeusam ela durante o carnaval, momento em que precisa dar tudo de si nas
apresentações, com o seu rebolado e seu corpo, mas essa admiração toda só
surge durante o carnaval. No cotidiano, essa mesma mulher é vista apenas
como empregada doméstica. É necessário destacar como a mulher negra
segura a barra familiar quase sempre sozinha, isso devido que os homens de
seu meio, seja o marido, filhos ou irmãos, estão sempre sendo perseguidos
pelos policiais, os mesmos que prometem proteger e ao mesmo tempo são os
mesmos que oprimem.
Após as análises textuais, observamos o site do Museu Afro Brasil, nele
encontramos muitos materiais sobre a cultura afro-brasileira. No site temos
96
uma aba intitulada de Educação, em que nela se encontram os projetos
especiais, tais quais o Museu Afro Brasil recebeu estudantes de Maryland,
participante
do projeto “A Journey Through the African Diáspora”. Os
programas, como a formação de professores. Os Projetos em que se
encontram as oficinas, encontros na biblioteca ou com artistas. Os materiais de
apoio, às visitas educativas e pôr fim a Revista do Núcleo de Educação.
A revista tem como intuito instigar os visitantes a problematizar e questionar,
para no final compreender a cultura e a formação da nossa sociedade,
demonstrando as contribuições africanas e afro-brasileiras na constituição
deste País. Como em toda revista há entrevistas, nessa não poderia faltar. É
realizada uma entrevista com o professor Marcelo D’Salete, Mestre em História
da Arte pela USP. Marcelo afirma que os museus, bibliotecas e centros
culturais foram de extrema importância para a sua formação, fora a escola e a
universidade.
Ele comenta sobre as dificuldades que vivenciou quando dava aula no Museu,
como o enorme esforço para a formação de educadores no Museu. Exibindo a
importância da educação em museus e da sua percepção sobre as relações
raciais e a história do Brasil que é relacionada apenas à escravidão, ao castigo,
a violência. Esse discurso que visa apenas o sofrimento por parte dos
africanos/afro-brasileiros, são reproduzidos pela maioria das escolas,
resultando em uma visão parcial, uma limitação de história, tornando-se uma
história única - Termo em que a autora Chimamanda Ngozi Adichie utiliza em
seu livro “O perigo de uma História única”.
Partindo dessa linha de raciocínio sobre o perigo de uma História única,
quando reduzimos a população negra a esse discurso negativo, não
mostramos as diversas ações pela autotomia e negociações que os negros
faziam, as ações de quilombos, irmandades, imprensas negras e formações
religiosas. O entrevistado esclarece seu real pensamento: Fugir da mesma
narrativa focada apenas em trabalho e escravidão, trazendo assim, outras
narrativas. Sempre teve um grande entusiasmo em abordar o núcleo de
personalidades históricas, festas, arte contemporânea etc. Sua missão era
realizar com que os estudantes tivessem um outro olhar sobre a cultura negra
no Brasil, sobre a sua arte, a história, o culto aos Orixás e suas vestimentas,
sua história, o culto aos orixás, suas vestimentas etc.
Logo após essa entrevista, quando acessamos o Acervo Digital do Museu Afro
Brasil e informamos nosso objeto de pesquisa - Representação das Mulheres
Negras. Vemos pinturas de mulheres negras feitas pelo artista Benedito José
Tobias (1894 - 1963), um dos raros artistas afrodescendentes. Os trabalhos de
Benedito eram basicamente sobre dois grupos, sendo eles retratos de
mulheres e homens negros e o outro, as paisagens urbanas de São Paulo.
97
Figura 1 - Retrato de mulher negra
Fonte: http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
Figura 2 - Retrato de mulher negra
Fonte: http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
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Figura 3 - Retrato mulher negra
Fonte: http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
Figura 4 - Retrato mulher negra
Fonte: http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
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Figura 5 - Retrato de mulher negra
Fonte: http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
Depois desses retratos, dados de cara com um tipo de máscara Gueledé, de
origem do Povo Iorubá - Nigéria. Essa máscara é muito popular entre os
Iorubá. São utilizadas no festival das gueledé em que visa a honra a qualquer
orixá ou herói cultural, entretanto, a função mais conhecida é da de “a grande
mãe” - Iyá Nlá. Já que ela é identificada como a primeira mulher do universo
Iorubá e esposa da divindade Obatalá. A Iyá acaba sendo associada a mãe
natureza, logo, a mãe de todas. Nesse festival os homens usam e dançam com
as máscaras, pois a mulher que tem o título mais alto na sociedade, as três
marcas na testa da máscara fazem referência à sua origem iorubana. A partir
dessa explicação da máscara, podemos perceber que mesmo a mulher
estando no topo da sociedade, ela ainda é vista apenas pelo seu instinto
maternal, atribuindo sempre o papel de mãe, de cuidadora a mulher.
Núcleo de Pesquisa - Museu Afro Brasil
Fonte: http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
http://www.museuafrobrasil.org.br/acervo-digital
100
Referências biográficas
Drª Jaqueline Ap. M. Zarbato. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Heidi Ester Oliveira Barbosa, estudante do curso de História licenciatura, na
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Referências bibliográficas
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herança da escravidão. Estudos Avançados, v. 18, n. 50, p. 242-250, 2004.
https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2015/05/Mulher-Negra.pdf
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dos sentidos. Revista do Patrimônio Histórico eAr- tístico Nacional, n. 31, p.
100-125, 2005.
Davis, Ângela. Mulheres, raça e classe. Tradução Heci Regina Candiani..1. ed.
-São Paulo: Boitempo, 2016.
Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais Hoje,
Anpocs, 1984, p. 223-244.
http://www.museuafrobrasil.org.br/ Acessado em: 20/03/2022
https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2015/05/Mulher-Negra.pdf
http://www.museuafrobrasil.org.br/
101
A SITUAÇÃO FEMININA NO INÍCIO DO MEDIEVO: A
REGRA PARA AS VIRGENS DE CESÁRIO DE ARLES
(c. 470-542) E SUA UTILIZAÇÃO NA FORMAÇÃO DE
PROFESSORES
Luciano José Vianna e Ianca Ferreira Soares
Introdução
Mesmo deixado de lado por muito tempo, o campo de estudo voltado para a
História das Mulheres começou a ser discutido nos anos 60 do século passado,
deixando gradativamente um longo período de silenciamento historiográfico.
Raquel Soihet destaca uma reviravolta nos estudos históricos, quando esse
inicia as pesquisas tendo como temáticas os grupos que eram excluídos da
historiografia: “Pluralizam-se os objetos da investigação histórica, e, nesse
bojo, as mulheres são alçadas à condição de objeto e sujeito da história.”
(SOIHET, 2011, p. 263).
Os movimentos feministas, que se manifestaram a partir de 1960, também
tiveram uma grande relevância para que a história das mulheres fosse
introduzida na historiografia. Com isso, faz-se necessário o estudo de gênero e
os aspectos femininos no decorrer da história e para isso iniciam-se reflexões
voltadas para o cotidiano feminino na sua totalidade, como, aspectos
familiares, profissionais e sexuais. Assim, passa a ocorrer um debate em
relação à antiga passividade feminina, dando passagem a uma mulher ativa
capaz de burlar as proibições para atingir os seus propósitos (SOIHET, 2011,
p. 265).
Hoje, diversas produções acadêmicas voltam-se para este tema, contribuindo
cada vez mais para o seu fortalecimento e também com desconstrução de uma
história que muitas vezes ainda se manifesta na atualidade. O presente
trabalho aborda a História das Mulheres no Medievo, fundamentando-se em
uma breve análise da obra Regra para as virgens (séc. VI) de São Cesário de
Arles. Apesar de ser um campo de estudo muitas vezes deixado de lado na
historiografia, tendo em vista que a história mantém o seu foco em grande
parte voltado para o contexto masculino, será abordado no presente capítulo o
cotidiano feminino no ambiente monástico do século VI.
Indo contra pressupostos já estabelecidos na história e quebrando paradigmas,
“a importância das mulheres na história significa necessariamente ir contra as
definições de história e seus agentes já estabelecidos como ‘verdadeiros’”
(SCOTT, 1992, p. 77). Dessa forma, este novo modelo de pesquisa
historiográfica, além de ter uma nova percepção em relação ao feminino,
102
descontrói inverdades que antes eram tidas como verdades absolutas e agora
passam a ser analisadas por ângulos diferentes, com olhares distintos,
múltiplos e femininos.
Apesar dessa reviravolta historiográfica, a grande maioria das fontes que
abordam as temáticas femininas, principalmente no contexto medieval, não
foram escritas por mulheres e sim por homens. No período medieval, a figura
masculina tinha domínio principalmente no âmbito monástico e com isso
retratavam em seus escritos essas mulheres a partir das suas perspectivas,
mesmo assim é de grande relevância estudar as narrativas desse contexto, o
qual apresenta diversos pontos a serem analisados.
“Las mujeres y su mundo vital están ligados estrechamente entre sí y a medida
que cambia el mundo vital, también cambia la existencia de las mujeres y su
horizonte de expectativas sociales.” (RUIZ-DOMÈNEC, 2011, p. 260-261). Para
aprofundar ainda mais a reflexão em relação a história das mulheres no
Medievo, faz-se necessário que seja entendido o contexto social, as vivências
nas quais aquelas mulheres estavam inseridas, a forma com que conviviam
com as adversidades do período e as mudanças que lidaram ao longo do
tempo.
Partindo do pressuposto de um Medievo cristão e de dominação masculina, as
mulheres deveriam seguir modelos predeterminados por essas classes
dominantes. Além disso, a religião apresentava muita influência no contexto,
uma vez que eram feitas interpretações de algumas passagens bíblicas como
forma de afirmação dessa dominação masculina em relação a feminina, como
o livro da Bíblia “Gênesis” no qual vai destacar a sedução da serpente e o fato
de Eva ter sucumbido, para assim afirmarem a imagem negativa da mulher e
os princípios de uma natureza feminina secundária e inferior e, portanto,
subordinada (KLAPISCH-ZUBER, 2002, p. 139).
A Regra para as Virgens de São Cesário de Arles
A obra intitulada Regra para as Virgens foi escrita no século VI pelo bispo
Césario de Arles, especificamente para o monastério feminino de São João, na
cidade de Arles, localizada na região da Gália, (SILVA, 2019, p. 39) sendo a
primeira regra feminina instituída na Gália Merovíngia. Neste contexto, havia
uma proposta de ideal de vida religiosa muito forte nesse período, e até mesmo
mulheres casadas deixavam os seus lares para se dedicarem a uma nova
vivência, agora voltada para devoção e abdicação de todos os prazeres
mundanos.
As regras institucionalizadas por São Césario de Arles eram normativas que
apresentavam uma estrutura esquematizada de pequenos capítulos, esses
compostos por códigos de conduta que abordavam aspectos da vida em
comunidade das monjas que ali se instalavam, tais como, alimentação,
vestimenta, leitura, relações entre as mulheres e homens, o letramento, que
era um dos pontos relevantes no código de São Césario, as citações bíblicas
103
que eram tomadas como base e a castidade. Ademais, fica visível também a
disciplinarização do corpo feminino pela perspectiva cristã do período (SILVA,
2019, p. 39).
Com isso, é perceptível como as regras e normas instituídas pelo corpo
eclesiástico e nos monastérios são de interesse notável para análises voltadas
para o Medievo. Considerando que essas demonstravam comportamentos
seguidos e a forma na qual aquela sociedade do período se comportava e
mantinham as suas relações a partir disso, “As regras de vida monástica e
eclesiástica oferecem um material privilegiado para o estudo das normas e do
direito medieval” (RIBEIRO, 2020, p. 23). Ainda assim, faz-se necessário
destacar o fato de que muitas das pesquisas, inclusive a fonte usada para a
realização desse estudo, é baseada em escritos masculinos em relação ao
universo feminino do período destacado.
Comportamentos sociais femininos prescritos na Regra
Os comportamentos sociais abordados na regra de São Césario de Arles
baseavam-se no contexto religioso do século VI, como, por exemplo, modelos
sociais embasados nos dogmas da igreja e nos seus princípios. Além disso,
seguiam padrões estabelecidos por homens religiosos. Com isso, as mulheres
ingressavam nesses monastérios com o intuito de fugir dos pecados intitulados
pela igreja, como é abordado por Césario, “... si alguna quiere abandonar su
familia, renunciar al mundo y entrar al santo redil de las ovejas, para poder
escapar con la ayuda de Dios de las fauces de los lobos espirituales, no salga
hasta la muerte del monasterio” (Regla para las virgenes, 2013, p. 74).
Segundo a igreja, o comportamento corporal poderia levar a queda ou a
salvação, e com isso, tem-se um foco maior dessa instituição no
comportamento daquelas mulheres, levando em conta a dita fraqueza que
possuíam em relação aos perigos da carne. Na regra de São Césario de Arles
são encontrados comportamentos que remetem à vida religiosa, doméstica,
prestativa para com o próximo e sempre voltada para a virtude, a obediência, o
silêncio e até mesmo as conversas de forma contida, como é destacado por
Césario no seguinte trecho da regra: “No hablarán nunca en voz alta, conforme
al dicho del Apóstol: Se suprime entre vosotros todo grito. No es conveniente
em absoluto, ni útil hacerlo.” (Regla para las virgenes, 2013, p. 75). E continua:
“Sobre todo, para proteger su buen nombre, ningún hombre entrará al interior
del monasterio ni a los oratorios, salvo los obispos, el administrador, y el
sacerdote, el diácono y el subdiácono, uno o dos lectores recomendables por
conducta y por edad, que deben celebrar alguna vez una Misa. (Regla para las
virgenes, 2013, p. 81)
A partir do trecho destacado anteriormente, a presença masculina, com a
exceção de alguns, era proibida no âmbito monástico, com o intuito de evitar
que houvesse o descumprimento de alguma regra, tendo em vista o ponto em
que os desejos do corpo poderiam levar toda uma vida de obediência religiosa
e a santidade a ruína. E da mesma forma que precisavam vigiar o que
104
observavam com cuidado, tinha-se a necessidade de observar umas às outras
para impedir que uma irmã acabasse indo contra alguma das regras. Como
destacado anteriormente, a obediência era de suma importância, logo, tinham
que aceitar as suas punições quando cometessem algo errado. Com isso, é
notório o intuito dessa forma de viver e se comportar, tinham como objetivo
alcançar a graça, ter a salvação e não cair em pecados do corpo.
O letramento feminino presente na Regra
Os aspectos educacionais presentes na Regra de São Cesáreo de Arles
tornam perceptível como no começo do Medievo o contexto do letramento
feminino fazia parte da preocupação da organização da vivência monástica:
“Todas aprenderán a leer y escribir.” (Regla para las virgenes, 2013, p. 76).
Dessa forma, é evidenciado como Cesáreo de Arles considerava de suma
importância o letramento feminino naquele ambiente, para que tivessem um
domínio da leitura e escrita.
Compreender o letramento feminino neste contexto é de grande relevância
para a História das Mulheres no Medievo, tendo em vista o fato de que essas
mulheres precisavam dominar a leitura e escrita para que assim pudessem
seguir o que determinava a regra de vida. Dessa forma, além das mulheres, as
crianças que mesmo possuindo dificuldades em serem aceitas naquele
ambiente religioso, somente poderiam frequentar se tivessem idade suficiente
para aprender a ler e escrever, para que dessa forma pudessem seguir as
regras impostas pelo monastério. Esse ponto pode ser identificado no seguinte
fragmento da regra: “Y, en tanto y en cuanto sea posible, no se recibirán jamás
en el monasterio, o difícilmente, niños pequeños, sino solamente cuando
tengan seis o siete años y estén en condiciones de aprender a leer y a escribir
y a practicar la obediencia.” (Regla para las virgenes, 2013, p. 75). Dessa
maneira, é notória a necessidade de que os indivíduos que estivessem
presentes neste âmbito monástico tivessem o domínio da leitura e da escrita ou
estivessem aptos para
tal.
São Cesário de Arles destaca também a importância de uma leitura previa das
regras para aquelas mulheres que estão entrando no monastério, uma vez que
era fundamental que tivessem noção do que iriam cumprir enquanto fizessem
parte da vida monástica. “Cuando alguna se presente para la vida monástica,
se le leerá en el locutorio muchas veces la Regla, ...” (Regla para las virgenes,
2013, p. 86). Com isso, é perceptível a importância de que as mulheres que
entrassem na vida monástica tivessem entendimento e percepção das regras.
O letramento dessas monjas rompe, de certo modo, a imagem de um período
no qual as mulheres não teriam um domínio na leitura e escrita, mesmo que
ainda a maior parte da documentação em relação ao período tenha sido feita
por homens.
Fica evidente que apesar de possuírem abertura para o domínio da leitura,
ainda existia o controle sobre elas e aquilo que iam ter acesso. O aspecto
educacional do letramento feminino é de suma importância para história das
105
mulheres e os seus desdobramentos e através da análise da Regra de São
Cesário de Arles se percebem os dilemas e impasses pelos quais aquelas
mulheres passavam no século VI, e como a preparação intelectual das
mesmas não está de acordo com uma afirmação tradicional em relação a
história das mulheres.
O uso da Regra para as Virgens na formação docente
A utilização de uma fonte como a Regra para as virgens de São Cesário de
Arles no contexto da formação docente é um aspecto positivo para a formação
do pensamento do futuro docente sobre o tema História das Mulheres no
Medievo, principalmente porque o mesmo apresenta uma possibilidade de
análises consideráveis voltadas para a desconstrução da ideia equivocada
sobre os papeis femininos e masculinos durante o período medieval, e também
sobre a ausência feminina no cenário letrado. Para isso, destacamos aqui dois
aspectos a partir da breve análise desta fonte.
Em primeiro lugar, o destaque deve ser dado para a constituição monástica
não somente masculina, mas também feminina, questão que poucas vezes é
abordada. Assim, enfatizar esta presença feminina no âmbito monástico dos
primeiros séculos do Medievo é fazer com que a mulher seja inserida na
narrativa histórica, fortalecendo, portanto, a ideia de que o mundo feminino já
estava sendo organizado e delineado desde os primeiros séculos do Medievo.
Em segundo lugar, também é preciso ressaltar a importância do aspecto
letrado vinculado ao mundo feminino monástico desde o século VI. Tal aspecto
faz com que questões muitas vezes vinculadas somente ao mundo masculino
sejam direcionadas também ao contexto feminino medieval, como a escrita,
aspecto que significa produção documental e intelectual neste período. Neste
sentido, a ênfase em tal questão faz com que a narrativa sobre a história da
mulher no Medievo seja reformulada, tornando esta personagem com destaque
em termos intelectuais desde os primeiros séculos do Medievo.
Considerações finais
O estudo do documento analisado contribui para a História das Mulheres no
Medievo, pois possibilita uma análise documental em relação a vivência
feminina no início do período. A análise da obra faz com que aspectos
negativos voltados para o mundo feminino fiquem de lado, ressaltando a
importância de outras questões, como a preparação intelectual.
Os trabalhos que forem realizados sobre esta fonte auxiliarão a inserir a mulher
medieval na narrativa histórica sobre o período, refazendo esta narrativa e
adequando-a a um contexto historiográfico atualizado. A análise desta fonte é
de grande relevância para o estudo do gênero feminino no Medievo e até
mesmo para análise da visão religiosa e masculina perante o corpo feminino e
a forma na qual essas mulheres deveriam se organizar neste âmbito. Deste
106
modo, fazer a abordagem da presente temática possibilita a ampliação do olhar
historiográfico para esse contexto específico.
Referências biográficas:
Luciano José Vianna é Professor adjunto de História Medieval da Universidade
de Pernambuco/campus Petrolina. Professor permanente do Programa de Pós-
Graduação em Formação de Professores e Práticas Interdisciplinares
(PPGFPPI) da Universidade de Pernambuco/campus Petrolina. Coordenador
do Spatio Serti – Grupo de Estudos e Pesquisa em Medievalística
(UPE/campus Petrolina) (@spatioserti).
Ianca Ferreira Soares é graduanda do curso de História da Universidade de
Pernambuco/campus Petrolina e integrante do Spatio Serti – Grupo de Estudos
e Pesquisa em Medievalística (UPE/campus Petrolina). Atualmente realiza seu
projeto de Iniciação Científica como bolsista do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sob a orientação do prof. Dr.
Luciano José Vianna, cujo título é: “As mulheres e o contexto monástico do
século VI: um estudo sobre a Regra para as virgens, de Cesário de Arles (c.
470-542).”
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Fonte:
Regla para las virgenes, de San Cesáreo de Arles. Cuadernos Monásticos,
184, p. 63-65, 2013.
Bibliografia:
KLAPISCH-ZUBER, Christiane. Masculino/feminino. In: LE GOFF, Jacques e
SCHMITT, Jean-Claude (eds.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Vol.
II. São Paulo: EDUSC, 2002, p. 137-150.
RIBEIRO, Felipe Augusto. Norma e Direito nas Regras Religiosas Medievais.
Revista Signum. v. 21, n. 21, p. 23-44, 2020.
RIVAS, Fernando. Regla para las virgenes, de San Cesáreo de Arles.
Cuadernos Monásticos, 184, p. 63-65, 2013.
RUIZ-DOMÈNEC, José Enrique. Sobre las mujeres em la Edad Media. In:
Entre historias de la Edad Media. Granada: Editorial Universidad de Granada,
2011, p. 257-273.
SCOTT, Joan. História das Mulheres. In: Peter Burke. (Org.). A Escrita da
História: Novas Perspectivas. Trad.: Magda Lopes. São Paulo: Unesp, 1992, p.
63-95.
107
SILVA, Angela Caroline de Lima. O controle do corpo feminino através da
Regula Ad Virgines de Cesário de Arles. Revista Eletrônica Discente
História.com, Cachoeira, v. 6, n. 11, p. 38-54, março, 2019.
SOIHET, Raquel. História das mulheres. In: Domínios da história. Ensaios de
Teoria e Metodologia. Ciro Flammarion Cardoso; Ronaldo Vainfas (Orgs.). Rio
de Janeiro: Elservier Editora Ltda., 2011, p. 263-283.
108
A HAGIOGRAFIA DE SANTA BÁRBARA EM SALA:
REFLETINDO QUESTÕES DE GÊNERO PARA O
CONHECIMENTO HISTÓRICO NO AMBIENTE
ESCOLAR
Jacqueline Ferreira Dias e Marcos de Araújo Oliveira
Introdução
Ao pensarmos nos constantes debates sobre violência contra mulheres, que
permeiam o século XXI, é possível analisar que ao longo de vários contextos
históricos foram vivenciados diferentes episódios de violência contra a mulher e
formas de transgressão feminina, nos quais os embates sempre foram
marcados pelas diferenças de gênero, culturalmente impostas sobre a
diferença sexual, no qual naturalizou-se às figuras masculinas, posições de
maior poder e autoridade.
Entretanto, através de intensas mudanças sociais, a escola torna-se um
ambiente propício não só para a construção de conhecimentos, mas também
palco de grandes trocas e reflexões acerca de temáticas que envolvem as
vivências humanas. Neste aspecto, segundo Schmidt e Garcia (2003) as aulas
de história são cada vez mais importantes para a investigação do passado,
mas também para a tomada da consciência histórica pelos alunos.
Torna-se possível, a adoção de fontes históricas para um ensino de história
integrador entre teoria e prática, que expandam o saber histórico. Sendo assim,
o estudo de algumas hagiografias (Biografias de vidas de santos) pode ser
adotado nas aulas de história, servindo como foco de análises e debates para
que alunos aprendam de forma contextualizada sobre importantes aspectos da
trajetória humana, numa perspectiva que evidencia também os estudos de
gêneros.
Entre muitas incertezas acerca de sua existência, estima-se que Bárbara viveu
no século III na Nicomédia (região da Ásia Menor). De acordo
com Silva (2021,
p. 1) “as hagiografias que foram compostas e circularam no medievo
apresentando aspectos da vida e martírio de Santa Bárbara contém
divergências quanto à data e local de sua morte”, ainda de acordo com a
autora (2021, p. 2), “o culto a Bárbara se estabeleceu na Europa Ocidental no
século VIII, expandindo-se para diferentes regiões, ganhando maior difusão a
partir do século XIV”.
Portanto, ao adentrarmos o processo de implantação de um novo ensino médio
na educação básica, vemos que a BNCC (Base Nacional Comum Curricular)
109
amplia a interdisciplinaridade na área de Ciências Humanas e Sociais
Aplicadas, por meio de um discurso que salienta a importância de um
pensamento crítico e leitura de mundo ampla. Neste aspecto este trabalho visa,
por meio da hagiografia de Santa Bárbara, estimular questões como gênero,
violência e autonomia feminina nas aulas de História, algo enriquecedor não só
para esta disciplina, mas em todo contexto de vivência escolar e comunitária
que perpassam o aluno.
História das mulheres e BNCC: a perspectiva de gênero no ensino de
História
A perspectiva dos estudos sobre mulheres e questões de gênero assume o
desafio de ganhar ainda mais espaço face a exclusão de temáticas ou
personagens que envolvam a atuação feminina, principalmente em livros
didáticos ou demais materiais educacionais. Isso se deve às estruturas do viés
tradicional no qual a História evidencia grandes personagens masculinos, com
pouco espaço para reflexão de temas diferentes ao âmbito político
(majoritariamente, masculino), porém a Historiografia vem ganhando novos
enfoques desde o advento do feminismo.
Como cita Carla Martins de Oliveira “Argumentamos que as histórias das
mulheres são deliberadamente silenciadas na BNCCEM, como forma de
operação de poder, que visa manter as mulheres no anonimato histórico, como
“sombras tênues” de um passado não revelado” (PERROT, 1989 apud
OLIVEIRA, 2018, p. 252), em consequência disto, o apagamento da história
das mulheres afeta diretamente a formação escolar. Formação essa que no
Brasil vem passando por intensas mudanças desde a formulação da BNCC e a
aplicação do Novo Ensino Médio.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é uma normativa que busca definir
o conjunto orgânico e progressivo de conhecimentos que devem ser tratados
na rede educacional nacional. Desse modo, todas as instituições de ensino são
regidas por esta normativa. Portanto, “[...] além da BNCC ser uma prescrição
de currículo nacional, ela é uma forma de tornar consensual o que pretende ser
o currículo oficial” (CURY; REIS; ZANARDI, 2018 apud GIOVANNETTI;
SALES, 2020, p. 255).
Entretanto, a BNCC acaba “estipulando os saberes considerados válidos e, por
exclusão, aqueles deslegitimados” (GIOVANNETTI; SALES 2020, p.255),
assim, a falta de noções como gênero, dificulta ainda mais as abordagens
tendo as mulheres como protagonistas, pois tal conceito é primordial para
analisar a história das mulheres, já que refuta o determinismo biológico; é por
meio do gênero, portanto, que se compreende “[...] através da linguagem, o
caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo” (SCOTT,
apud OLIVEIRA, 2018, p. 34).
Apesar de dificuldades na abordagem dos estudos de gênero na educação
básica, o professor pode se valer de estratégias para tratar tal temática na sala
110
de aula, como por meio das notas que são anexadas aos livros didáticos sobre
as mulheres, usadas para aprofundamento do assunto. Sendo assim essas
“diferentes estratégias” abrem possibilidades de abordar a narrativa feminina,
para além do pouco citado na normativa.
A própria BNCC apesar de ausências, promove possibilidades de dialogar com
a temática feminina ao afirmar que “o que nos interessa no conhecimento
histórico é perceber a forma como os indivíduos construíram, com diferentes
linguagens, suas narrações sobre o mundo em que viveram, suas instituições e
organizações sociais. (BRASIL, 2018, p. 397).
Vale ressaltar, que os estudos de gênero englobam tanto os sujeitos
masculinos como femininos, e atualmente adota novas concepções de
identidade e expressões, acentuadas na atuação do movimento LGBTQIA+;
entretanto adotamos a concepção de Joan Scott (1995) que esclarece gênero
como uma categoria útil de análise histórica ao evidenciar as construções
culturais de papéis impostos aos sexos, evidenciando assim uma dinâmica
comportamental muito mais moldada pelo meio social do que pelo viés
biológico.
Ao analisarmos na BNCC os conteúdos de História relacionados a perspectiva
feminina, o único que deixa explicito o foco na história das mulheres é o
conteúdo do 6° ano do ensino fundamental com as unidades temáticas:
“Trabalho e formas de organização social e cultural”, cujo tema é: “O papel da
mulher na Grécia e em Roma, e no período medieval”, tendo como habilidades
citadas pelo documento “(EF06HI19) Descrever e analisar os diferentes papéis
sociais das mulheres no mundo antigo e nas sociedades medievais” (BRASIL,
2018 p 420).
Entretanto, nas aulas de História não podemos nos prender apenas a
abordagens sobre as mulheres num viés de submissão, mas também temos
outras possibilidades, em conformidade com a proposta da BNCC, de tratar da
atuação feminina no meio social e de se fazer associações de conteúdos com
tais figuras. Um exemplo se dá ao citarmos Bárbara de Nicomédia, trazendo
também a reflexão sobre a santidade da mártir ao adentrarmos o assunto: “O
papel da religião cristã, dos mosteiros e da cultura na Idade Média” (BRASIL,
2018, p. 420).
Ainda que muitos dados da vida de Bárbara sejam incertos, já que o culto a
essa santa se iniciou nos primórdios da Igreja Primitiva (séc. I d.C. até o ano
325). a sua hagiografia em sala de aula se torna muito válida para elucidarmos
as temáticas culturais, sociais e políticas que se mantem presentes na
atualidade e se conectam ao universo dos nossos estudantes, principalmente
os jovens.
111
Bárbara de Nicomédia: a paixão de uma mártir que ecoa por gerações
Ao analisarmos a hagiografia de Santa Bárbara, vemos que há diferentes
versões de sua história, ainda que muitos dados sejam incertos, alguns
aspectos de sua história são difundidos na maioria das narrativas e estudos
acerca da vida dessa santa. A exemplos mais comuns, temos: a representação
de Bárbara como uma jovem virgem, gentil e muito bonita, que se converte ao
cristianismo e ao não renunciar a sua fé, acaba martirizada pagando com a
vida o preço da não submissão ao pai e ao Império Romano, cuja religião era
politeísta.
“A despeito das divergências, há alguns elementos comuns nas legendas sobre
a santa: Bárbara era uma jovem muito bonita, que foi colocada em uma torre
por seu pai para não ser vista pelos homens. Ela se converteu ao cristianismo
e decidiu se manter virgem. Quando o pai resolveu casá-la, e ela se recusou
devido ao seu casamento místico com Cristo, ele a denunciou às autoridades
romanas como cristã. Após ser torturada, como não apostatou de sua fé, a
jovem foi condenada à morte e executada por seu próprio pai” (SILVA, 2021, p.
2)
Silva (2021) esclarece que com à expansão do culto à virgem mártir, foram
produzidos e transmitidos textos sobre Santa Bárbara. “Notícias sobre seu
martírio foram incluídas nos martirológios confeccionados no Ocidente e foram
compostas diversas versões da Passio, encômios, relatos sobre descoberta e
trasladação de relíquias, narrativas de milagres e até uma genealogia da santa”
(SILVA, 2021, p. 2).
Vale destacar os escritos de João Gil, lector do convento de Zamora, cujos
dados biográficos são muitos escassos, porém entre sua principal obra está As
Legende Sanctorum et Festivitatum aliarum de quibus Ecclesia sollempnizat
(LS), de acordo com Silva (2021) transmitidas por um único manuscrito, o Add.
41070, da British Library, composto provavelmente em 1289 em Zamora, na
Espanha, obra que atualmente está
incompleta.
Um legendário é, portanto, a reunião de vários relatos sobre paixões de
mártires, vidas de santos e celebrações litúrgicas. No Legendário de João Gil,
está presente o capítulo legenda beate Barbare virginis et martiris, dividido em
dez partes, que apresentam eventos da vida da filha de Dióscoro.
Em resumo, João Gil nos apresenta uma versão sobre a vida de Santa Bárbara
que é bastante difundida popularmente: Bárbara, é uma bela virgem, submissa
ao seu pai, um homem com importante status social e riquezas, o mesmo fica
irado com a filha que se recusa a casar, visto que o matrimônio era defendido
como forma de honra para a mulher na sociedade da época, então o pai a
aprisiona numa torre. Bárbara, na verdade era uma cristã e se negava a cultuar
os deuses do Império. Querendo ter somente como “marido” a Cristo, manda
construir uma terceira janela na torre ao qual está aprisionada, em referência a
Santíssima Trindade.
112
Seu pai, ao descobrir que a filha é uma cristã, enche-se de fúria e bate na
jovem, que persiste na sua fé e consegue fugir. Dióscoro a captura e a leva
para julgamento pelas autoridades romanas, e mesmo diante do governador
Marciano, a jovem se nega a adorar os deuses e retruca qualquer tentativa de
persuasão, deslegitimando os deuses e seus adoradores. A virgem é então
torturada, tem os seios cortados e é humilhada pelas ruas da cidade, já
condenada à morte, é levada pelo pai para o alto de uma montanha, na qual é
degolada pelo mesmo; logo após o filicídio, Dióscoro é punido por Deus e
fulminado por um raio, caindo morto; já a alma de Bárbara encontra a paz
eterna no Paraíso.
Logo, a história da virgem mártir passou a incendiar o imaginário popular, e
Bárbara foi considerada Santa dentro das comunidades cristãs, já que neste
cenário de um cristianismo mais antigo ou primitivo (neste contexto, século III-
IV D.C) os mártires representavam grandes modelos de fé e sacrifício, o que
culminou com a expansão do seu culto até os dias atuais, ainda que haja
muitas controvérsias.
“Se antigamente era muito mais rápido o intervalo de tempo entre a morte e a
canonização e o consenso popular era preponderante na definição dos santos,
com o passar do tempo, o processo de canonização tornou-se muito mais
demorado, os santos deixaram de ser pessoas comuns que viveram conforme
os ensinamentos de Deus e transformaram-se em super-heróis. Similar à vida
de outros mártires, as circunstâncias que resultaram na morte de Bárbara são
repletas de elementos lendários”. (SANTOS, 2019, p. 5)
Elementos fantásticos e o martírio por meio de uma verdadeira devoção e
sacrifícios perpetuaram a crença de Bárbara como uma santa católica.” Em
função da sua morte trágica e dos episódios que marcaram o seu martírio, ela
é invocada também contra os perigos de raios, trovões, explosões, etc., e
tornou-se a padroeira do Corpo de Bombeiros, Mineiros e Artilheiros”
(SANTOS, 2021, p. 32), tendo em sua iconografia, elementos como raios, sua
torre e a cor vermelha dos mártires.
113
Fig.1:Ilustração de Santa Bárbara.
Fonte: https://arquisp.org.br/liturgia/santo-do-dia/santa-barbara
Entretanto, atualmente, as festividades de celebração do culto a Bárbara se
encontram fora do calendário litúrgico da Igreja Católica desde os anos 1960,
restritas apenas a festividades locais.
“Sucessor do Papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, Paulo VI
foi o pontífice responsável por excluir do calendário da Igreja Católica
Apostólica Romana santos de existência duvidosa. O então papa, visando
melhorar as relações com outros segmentos cristãos e seguindo uma política
ecumênica, excluiu do calendário litúrgico as celebrações aos santos que não
possuíam documentação histórica, somente relatos tradicionais” (SANTOS,
2019, p. 98)
Ainda que existam muitos aspectos incertos sobre sua vida, é notável e
interessante que a figura de Bárbara tenha se perpetuado por tantos séculos;
isto por que sua história revela não só as barbáries da violência contra a
mulher, mas também nos aponta um modelo de insubmissão feminina que
rompe com hierarquias tidas como hegemônicas, tornando enriquecedor a
análise dessa hagiografia em sala de aula.
A Hagiografia de Santa Bárbara na sala de aula: refletindo sobre
silenciamentos e protagonismos femininos na História
O impulso aos estudos de um campo da História das mulheres ganhou força
com o movimento feminista na década de 60, buscando evidenciar a
importância da classe feminina, seus marcos históricos e principalmente
“questionar a prioridade relativa dada a ‘história do homem’, em oposição a
‘história da mulher’, expondo a hierarquia implícita em muitos relatos históricos”
(SCOTT, 1995, p. 78).
Não que tal apagamento se desse por ações menos importantes, pois “a
ausência feminina na narrativa histórica tradicional foi concretizada devido ao
https://arquisp.org.br/liturgia/santo-do-dia/santa-barbara
114
enfoque privilegiado de cenários em que as mulheres pouco aparecem: o
político” (PERROT 1989 apud SOUSA; CAIXETA, 2019, p. 31).
Diante desse movimento político que revolucionou o meio social, as produções
históricas tendo como abordagens a trajetória feminina começaram a surgir
cada vez mais no meio acadêmico, sendo em sua maioria escrito pelas
próprias mulheres e aceitos dentro dos discursos historiográficos, quebrando
paradigmas culturais de invisibilidade da mulher como sujeita histórica.
Dentro desse panorama, as questões de desigualdade de gênero e a
resistência feminina começaram a adentrar a esfera educacional. Sendo assim,
o uso da hagiografia de Bárbara de Nicomédia nas aulas de história, muito tem
a contribuir para a construção de conhecimentos e novas reflexões. Essa
sensibilização de assuntos importantes pode ser problematizada como tópicos
de um passado (muito) distante, mas que perpassam a contemporaneidade.
Segundo Schmidt e Garcia (2003) o professor de história pode recorrer a novas
metodologias para o ensino de História na sala de aula, priorizando a maior
participação dos alunos como construtores de um conhecimento que resulte no
saber histórico. Paulo Freire, grande patrono da educação brasileira, defende
na obra Pedagogia da Autonomia (1996) que o ensinar exige autenticidade;
desse modo professores devem estar dispostos a novos diálogos e atuações.
A exemplo disso, temos pautas como feminicídio, violência doméstica,
silenciamentos e intolerância religiosa que constantemente são debatidas na
TV e Internet e não passam despercebidos aos nossos alunos, ainda que não
sejam nem de longe problemas atuais, já que em outros contextos tais
questões sempre foram graves. Nesse sentido, podem-se desenvolver
necessárias reflexões em sala de aula, adotando fontes de estudos que façam
os alunos historicizarem fatos para a ampliação do seu entendimento sobre tais
tópicos, principalmente ao se trabalhar a mulher como agente histórica.
Ao destacarmos a figura de Santa Bárbara em sala de aula, virgem mártir, que
sofreu inúmeras torturas ao mesmo tempo em que desafiou a autoridade do
próprio pai e governantes romanas, defendendo sua fé e escolhas próprias,
não devemos buscar realizar um ensino religioso, mas nos ater às questões
que podem incentivar os alunos a entenderem a História das Mulheres como
um campo de estudos que nos revela abordagens nem tão distantes a nosso
meio social, como por exemplo denunciar a violência, o silenciamento e o
apagamento histórico de mulheres.
Segundo Bloch (2008, p. 75) “o passado é, por definição, um dado que nada
mais modificará. Mas o conhecimento do passado é uma coisa em progresso,
que incessantemente se transforma e aperfeiçoa”, ainda de acordo com o
historiador:
“Em suma, nunca se explica plenamente um fenómeno histórico fora do estudo
de seu momento. Isso é verdade para todas as etapas da evolução. Tanto
115
daquela em que vivemos como das outras. O provérbio árabe disse antes
de
nós: ‘Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais’. Por
não ter meditado essa sabedoria oriental, o estudo do passado às vezes caiu
em descrédito”. (BLOCH, 2008, p. 60)
Logo, o professor de história, pode valer-se de mecanismos que façam os
alunos olharem os fatos da hagiografia de Bárbara contextualizando a época
em que a jovem viveu, bem como historicizando as questões presentes nesse
período; ao mesmo tempo segue-se as normativas curriculares nacionais, ao
abordar temáticas que trazem um novo enfoque sobre o uso de fontes
históricas, evidenciando a narrativa de agentes silenciadas, a exemplo de
Bárbara, e mostrando que entre silenciamentos, há diversos protagonismos
femininos na História.
Considerações finais
Diante do que foi exposto, nota-se que o campo temático da História das
Mulheres proporcionou intensas ressignificações na historiografia ao influenciar
numa narrativa histórica tendo mulheres como agentes importantes, ampliando
assim a perspectiva das participações femininas na esfera social, econômica e
cultural.
Através das possibilidades de abordagens sobre a história das mulheres
presentes na BNCC, professores podem fundamentar os assuntos a serem
tratados na sala de aula, buscando metodologias e estratégias para trabalhar
de forma consciente o ensino da história das mulheres no currículo
educacional.
Desse modo, ainda que não se tenha consenso quanto a existência de Bárbara
da Nicomédia, a sua relevância não se baseia entre “realidade ou mentira”,
mas no próprio relato das desigualdades de gênero presentes na sociedade da
época, bem como as formas de silenciamento ao qual Bárbara foi acometida
pela transgressão em não negar sua fé cristã. Abrimos assim espaço para
estudos como o martírio, violência, história da igreja católica e a busca das
mulheres por autonomia, contribuindo para a reflexão e o saber histórico dos
alunos em sala.
Referências biográficas
Jacqueline Ferreira Dias é graduada em História pela Universidade de
Pernambuco, com especialização em Ensino de História pela Faculdade Única.
Contato: diasjacqueline4@gmail.com
Marcos de Araújo Oliveira é graduado em Licenciatura plena em História pela
UPE – Universidade de Pernambuco, no campus Petrolina (2016-2019) e Pós
Graduado em Ensino de História pela FUNIP- Faculdade Única de Ipatinga
(2020-2021).
mailto:diasjacqueline4@gmail.com
116
Referências bibliográficas
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Jorge Zahar Editor, 2002.
BRASIL, Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular, Brasília.
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GIOVANNETTI, Carolina; SALES, REZENDE; Shirlei. História das Mulheres na
BNCC do Ensino Médio: O Silêncio que persiste. Dourados, MS | v. 14 | n. 27 |
p. 251-277 | Jan. / Jun. 2020.
JUAN GIL DE ZAMORA. Legende sanctorum et festiuitatum aliarum de quibus
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OLIVEIRA, Carla Martins de. O protagonismo das mulheres na história:
proposta metodológica para o ensino fundamental. Dissertação (mestrado) -
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SANTOS, V, J,R. Salve Bárbara! Caminhos de uma festa popular na cidade da
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Filosofia e Ciências Humanas, Centro de Estudos Afro-Orientais. Salvador,
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SANTOS, V, J,R. É santa ou não? O caso dos "santos cassados" e a devoção
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SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Revista
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SCHMIDT, M.A.; GARCIA, T.M.F.B. O Trabalho Histórico na sala de aula.
História & Ensino, Londrina, v. 9, out. 2003. p. 219-238.
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Nacional de História. Rio de Janeiro. 2021. 12 p.
SOUSA, Priscila Cabral de; CAIXETA, Lucia Vera;. A História das mulheres e o
ensino da História: considerações acerca de uma educação para a igualdade
de gênero. HUMANIDADES & TECNOLOGIA EM REVISTA (FINOM). Ano XIII,
vol. 17. Jan-Dez 2019.
117
AS LEIS DOS FRANCOS SÁLIOS (SÉCULO VI):
DIVERSIDADE SOCIAL FEMININA NA FORMAÇÃO
DOCENTE EM HISTÓRIA
Luciano José Vianna e Jefferson David Fonseca Alves
Este capítulo se propõe a abordar a condição feminina nas Leis dos Francos
Sálios (século VI), buscando explorar os textos normativos a respeito das
personagens femininas através de um viés social, voltando-se, portanto, para o
campo de estudos História das Mulheres no Medievo. Além disso, também se
propõe a refletir sobre as possibilidades de utilização deste documento na
formação docente em História.
A partir da década de 1960 do século XX o movimento feminista se manifestou
em termos sociais. Na década seguinte, os pensamentos advindos deste
movimento chegaram até o campo acadêmico trazendo novas possibilidades
de estudos voltados para as mulheres (SCOTT, 1992). Essas novidades
marcam um caminho de pesquisa importante a partir daquele momento,
destacando o contexto feminino a partir de então no desenvolvimento histórico,
principalmente no contexto medieval. No caso do presente capítulo, a proposta
é abordar a presença do contexto feminino nos textos jurídicos medievais.
Para desenvolver este estudo, a obra utilizada como fonte historiográfica são
as Leis dos Francos Sálios, especificamente a sua parte mais antiga, o pactus
legis salicae, produzido pela dinastia merovíngia a partir do século VI. A
dinastia merovíngia estava relacionada aos francos sálios que se
estabeleceram às margens do rio Issel durante o período das migrações
germânicas. O pactus legis salicae teve a sua primeira publicação no período
do reinado de Clovis (466-511), em 507, e suas reedições entre os anos de 567
e 597. Depois disso, o pactus legis salicae teve sua última versão reeditada e
culminada na lex sálica desenvolvida já no período carolíngio.
As Leis dos francos sálios como aparelho judiciário para a solução de
conflitos no reino dos francos
É importante destacar o papel que o pactus legis salicae tem enquanto fonte de
história social e cultural. De acordo com Peter Burke, para compreender os
mecanismos de funcionamento de uma sociedade, é sempre esclarecedor
abordar as questões sobre as regras de convivência social e de exclusão
(BURKE, 2000, p. 85). Os textos jurídicos são os aparelhos pragmáticos de
controle social, além de fornecer para o pesquisador informações sobre as
regras de convivência social de determinada sociedade.
118
A compreensão da sociedade moderna sobre o conceito de lei está vinculada
ao procedimento de prescrição de regras que emanam da autoridade soberana
de uma determinada sociedade, sendo que a mesma desenvolve mecanismos
de controle sobre a conduta dos indivíduos integrantes. Segundo Joye, em
relação aos estudos sobre as leis no Medievo, observa-se um interesse de
historiadores do direito na compreensão dos costumes e direitos das
sociedades que se estabeleceram nas regiões ocidentais periféricas imperiais
romanas, conhecidos como “povos bárbaros” (JOYE, 2016, p. 28-29).
Os povos germânicos constituem uma série de grupos que viviam nas
proximidades das fronteiras do Império Romano. A partir da segunda metade
do século II, as fronteiras imperiais romanas experimentaram as primeiras
fases de deslocamento destes grupos (LE GOFF, 2016, p. 16). O período entre
os séculos II e VI é conhecido como o contexto dos deslocamentos de povos
germânicos às terras imperiais romanas ocidentais. Uma das primeiras
teorias
para a designação de germano aconteceu em meados do século I a. C. pelo
historiador grego Posidônio (155- 51 a.C), que assim definia o conjunto de
povos que viviam entre os rios Reno e Vístula. Na mesma época, Estrabão (63-
23 a.C) acreditava que o termo era um vocábulo latino advindo de germen que
indicaria aqueles que estavam unidos pelo sangue (GUERRAS, 1987, p. 9-10).
A princípio, por ser uma designação dos romanos aos galos, provavelmente, os
povos germânicos desconheciam essa conceituação.
Com o passar do tempo, os chamados reinos germânicos foram se
estruturando gradativamente, até formarem diversas realidades políticas no
contexto do século VI (GENET, 2002, p. 398-399). Neste sentido, as leis
germânicas são fontes de informações sobre o funcionamento social no interior
desses grupos. A mulher sálica estava inserida nesse contexto social e político,
e a lei sálica dispõe de títulos normativos sobre a figura feminina, seus espaços
e os aspectos situacionais que a envolviam.
Situações e espaços da mulher em termos sociais nas leis dos francos
sálios (Século VI)
A primeira vez que a mulher é citada no pactus legis salicae é na situação de
escravizada, precisamente no título X da lei, “concerniente a siervos o esclavos
robados”. A situação da mulher, nessa circunstância, era de propriedade do
seu dono. Sendo assim, se a mesma fosse roubada do seu escravizador
(dono), deveria ser devolvida e o ladrão ainda pagaria uma multa, além de um
valor a mais pelo atraso na devolução. (Leyes de los francos sálicos y Ley
sálica carolina, 2017, p. 10).
Outra situação é relacionada ao rapto de mulheres livres cometidos por
homens livres, exposto no título XIII da lei “acerca del rapto de mujeres libres
por parte de hombres libres”. Neste item existem situações específicas nas
quais se pode analisar as relações sociais nas quais a mulher estava inserida.
Assim, é possível observar que a mulher pode ser alguém protegida pelo rei,
caso no qual se verifica uma situação de subordinação da mulher a uma figura
119
masculina. (Leyes de los francos sálicos y Ley sálica carolina, 2017, p. 13).
Segundo Ruiz, a personagem feminina sálica ou a visigótica, ou mesmo a
mulher alamana, era a figura central cujas legislações abordavam como objeto
de direito frente a um delito (RUIZ, 2017, p. 53).
À figura feminina, casada ou solteira, na sociedade sálica do século VI, é
estabelecida uma condição social de protegida de alguém. Essa proteção, em
relação à mulher casada, seria do seu marido, figura de autoridade superior
dentro do ambiente doméstico; quando solteira, do seu pai, irmão ou até
mesmo do rei (Leyes de los francos sálicos y Ley sálica carolina, 2017, p. 13).
O mesmo título da lei sálica destaca que as mulheres não podiam se casar
com o pai, irmão, primo, tio, sobrinho ou avô, destacando assim a presença de
um crime relacionado ao incesto. Se isso viesse a acontecer, o casamento
seria desfeito, e se dessa união resultasse filhos estes não seriam herdeiros
legítimos e ainda seriam marcados com infortúnio. Esta situação era
considerada profana, algo que fugia os ideais sagrados:
“El que se une en matrimonio profano con la hija de su hermano o de su
hermana o una prima (hija de una sobrina o sobrino o sobrina nieta o sobrino
nieto) o la esposa de su hermano o del hermano de su madre, quedará sujeto
al siguiente castigo: la pareja será separada de esa unión y, si tuvieron hijos,
estos no serán herederos legítimos y serán señalados con desgracia.” (Leyes
de los francos sálicos y Ley sálica carolina, 2017, p. 13).
Existia também uma relação protetiva quanto ao corpo da mulher livre. A lei
sálica tipifica como crime o ato de um homem tocar um braço, a mão, o dedo
ou qualquer parte do corpo de uma mulher livre (título XX da lei, “concerniente
al hombre que toca la mano o el brazo o el dedo de una mujer libre”). Percebe-
se, portanto, que o corpo de uma mulher livre, entre os francos sálios, deveria
ser respeitado. (Leyes de los francos sálicos y Ley sálica carolina, 2017, p. 19).
As situações que envolviam as personagens femininas que a lei permite
analisar são diversas: assassinato de mulheres livres e escravas com punições
diferentes de acordo com a classe social da mulher; mulheres livres que
passam a ser escravizadas se tiverem relações sexuais com escravos;
mulheres jovens e mulheres casadas. (Leyes de los francos sálicos y Ley sálica
carolina, 2017, p. 20-21).
Os espaços sociais ocupados pelas mulheres no documento são muitos
restritos. Basicamente são dois: livres e escravizadas. Mas a lei também
estabelece crimes nos quais se pode observar alguns espaços da vida
cotidiana em que as mulheres estavam presentes como, por exemplo, a serviço
do rei, espaço que a caracteriza como tutelada por ele e mulheres realizando
trabalhos da vida comum. (Leyes de los francos sálicos y Ley sálica carolina,
2017, p.13).
120
As diferenciações sociais entre as personagens femininas presentes nas
leis dos francos sálios
Sobre as diferenças sociais femininas o pactus leges salicae não dispõe de
muitas normas que indiquem distinções de tratamento quanto às mulheres. A
lei apenas, em alguns de seus títulos, apresenta personagens femininas com
posições diferentes na sociedade e ainda assim, como já mencionado,
limitadas a duas posições: mulheres livres e mulheres escravas. Todas essas
figuras femininas recebem tratamento de subordinação à figura masculina
igualmente pela lei. Assim, torna-se necessário explorar brevemente os
normativos relativos às diferenças sociais e qual o tratamento que a lei
estabelece em relação a essas diferenciações.
As Leis dos Francos Sálios possuem nos títulos de alguns normativos
referências apenas as mulheres livres, como é o caso do capítulo XIII (“Acerca
del rapto de mujeres libres por parte de hombres libres”). Porém, há referências
à mulher em três situações diferentes: 1) a jovem não casada e livre; 2) a
mulher casada e livre e 3) a escrava. Quanto às distinções nesse título, a lei
atribui o rapto apenas as jovens livres e as escravas. Nos casos das jovens
livres não casadas, as sanções para seus raptores eram pecuniárias (além das
sanções pecuniárias havia também, culminada com estas, as sanções que
escravizavam o agente infrator), salvo se a jovem seguisse os raptores
voluntariamente; nesse caso, ela perderia sua liberdade: “Si la joven libre siguió
voluntariamente a uno de estos, ella perderá su libertad”. (Leyes de los francos
sálicos y Ley sálica carolina, 2017, p. 13). Quanto às escravas raptadas, a
pena aos seus raptores era a perda da liberdade: “El hombre libre que toma a
la esclava de otro hombre libre será castigado del mismo modo”. (Leyes de los
francos sálicos y Ley sálica carolina, 2017, p.13).
Para as mulheres livres, o capítulo estabelece apenas um único parágrafo que
se refere à mulher que se casou: “El que toma a una mujer semi-libre (litam) en
matrimonio (ambahtonia) deberá pagar mil doscientos denarios, o sea, treinta
sueldos”. Isso porque a mulher, para se unir em matrimonio, necessitaria da
aprovação dos seus parentes, e caso se casasse sem esse consentimento o
homem estaria cometendo crime de acordo com a lei sálica. (Leyes de los
francos sálicos y Ley sálica carolina, 2017, p.13).
O pactus leges salicae, nas situações estabelecidas, define muito pouco os
ambientes de diferenciação entre as mulheres. Além disso, existem punições
de perda da liberdade; caso que se diferencia, por exemplo, da Lei dos
Lombardos sobre a mesma situação: “El que rapte a una esclava de otro
hombre, pagará veinte sueldos de reparación” (Leyes de los Longobardos,
2018, p. 32). No caso da Lei Sálica, raptar uma escrava é um crime mais grave,
na qual o raptor seria colocado na condição de escravo. (Leyes de los francos
sálicos y Ley sálica carolina, 2017, p. 13).
O rei Clotário I (511-561) adicionou à lei o capítulo III e no título XCIII
estabeleceu
a situação de que, se uma mulher se casasse com um dos seus
121
escravos, perderia todos os seus bens e ainda poderia ser morta por seus
parentes, e estes seriam protegidos pela lei:
“Si una mujer se une en matrimonio con su propio esclavo el fisco adquirirá
todas sus posesiones y ella misma quedará fuera de la ley. Si uno de sus
parientes la mata nada podrá requerirse de ese pariente o del fisco por su
muerte. El esclavo será sometido a la más severa tortura, es decir, será
colocado en la rueda. Y si algún pariente de la mujer le proporciona alimento o
refugio, deberá pagar quince sueldos.” (Leyes de los francos sálicos e Ley
sálica carolina, 2017, p. 74).
A utilização das leis dos francos sálios na formação docente em História
Com a publicação da última versão da Base Nacional Comum Curricular
(BNCC), o sexto e o sétimo anos ficaram com alguns recortes voltados para a
abordagem sobre o período medieval, e precisamente no sexto ano encontra-
se a possibilidade de se trabalhar no ensino de História com a perspectiva
feminina no Medievo. Dessa forma, um dos aspectos que se deve considerar
na formação docente em História na atualidade é o destaque necessário para a
História das Mulheres, e a documentação do Medievo apresenta diversas
situações nas quais tais destaque pode ser trabalhado na formação docente.
Como podemos observar, as Leis dos Francos Sálios se trata de um
documento no qual é apresentada uma diversidade de situações sociais
femininas nos primeiros séculos do Medievo e pode ser um documento
utilizado na formação docente em História ressaltando a História das Mulheres
no Medievo por alguns motivos.
Em primeiro lugar, por uma questão de complexidade social: trata-se de uma
documentação que destaca uma diversidade de situações jurídicas para o povo
franco sálio perante outros grupos sociais do século VI, e assim se ressalta a
diversidade jurídica entre os povos que formariam os reinos germânicos do
século VI. Trabalhar com este documento na formação docente, portanto,
favorece o pensamento crítico do futuro professor e da futura professora no
cuidado em não fazer simplificações sociais entre os grupos germânicos.
Além disso, por uma questão de destaque social feminino: as Leis dos Francos
Sálios destacam a presença de um cenário social feminino em meio à
organização dos reinos germânicos no século VI. Neste sentido, a presença
destacada das mulheres neste documento já indica a preocupação que havia
para com o cenário feminino, o que deve ser ressaltado no momento de se
trabalhar com estes primeiros séculos do Medievo na formação docente.
Por fim, por uma questão de diversidade social feminina: utilizar as Leis dos
Francos Sálios na formação docente em História é proporcionar ao futuro
docente pensar em termos de diversidade social no Medievo, pois muitas
vezes este docente inicia os estudos sobre este período histórico no curso de
História ainda tendo como base de diversidade social a simplificação da ideia
122
das três ordens: aqueles que oram, aqueles que guerreiam; aqueles que
trabalham. Assim, este documento apresenta uma oportunidade de se trabalhar
com a diversidade social feminina no período, fazendo com que este grupo
social não somente tenha presença na formação do docente em História, mas
também que não seja compreendido a partir de uma uniformidade e
simplificação social.
Considerações sociais
A partir das ideias discutidas neste capítulo, é notório que a revolução
historiográfica produzida pelos historiadores da terceira geração dos Annales
trouxera diversas possibilidades de exploração dos mais variados campos de
estudo, e também a delimitação de campos de estudos como o das mulheres,
por exemplo. A História das Mulheres, atualmente, é um campo de pesquisa
consolidado e que precisa ser refletido cada vez mais no âmbito do ensino de
História. Neste sentido, a História das Mulheres no Medievo tem sido um locus
de pesquisa no qual cada vez mais se tem destacado uma diversidade de
situações sociais e que também precisam se refletir no contexto do ensino de
História.
Na formação docente devem ser observadas as possibilidades de se preparar
o futuro docente em História a partir da utilização de uma diversidade de fontes
de época, principalmente ressaltando a diversidade e complexidade social do
período, o que faz com que o mesmo evite ser visto a partir de situações
simplificadas e fórmulas que não tem mais lugar na pesquisa histórica atual. As
Leis dos Francos Sálios, neste sentido, tornam-se um documento a ser
considerado para se trabalhar com esta diversidade social feminina na
formação docente, proporcionando ao aluno um caminho para se observar a
complexidade deste grupo social já no início do Medievo.
Referencias biográficas
Luciano José Vianna é Professor adjunto de História Medieval da
Universidade de Pernambuco/campus Petrolina. Professor permanente do
Programa de Pós-Graduação em Formação de Professores e Práticas
Interdisciplinares (PPGFPPI) da Universidade de Pernambuco/campus
Petrolina. Coordenador do Spatio Serti – Grupo de Estudos e Pesquisa em
Medievalística (UPE/campus Petrolina) (@spatioserti).
Jefferson David Fonseca Alves é graduando do Curso de História da
Universidade de Pernambuco/campus Petrolina e integrante do Spatio Serti –
Grupo de Estudos e Pesquisa em Medievalística (UPE/campus Petrolina).
Atualmente realiza seu projeto de Iniciação Científica como bolsista do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sob a
orientação do Prof. Dr. Luciano José Vianna, cujo título é “O contexto feminino
nas leis dos Francos Sálios (século VI): situações, espaços e
comportamentos”.
123
Referências
Fontes
Leyes de los francos sálicos y Lei sálica carolina. Colección leyes
romanogermánicas. Grupo de investigación y estudios medievales. Centro de
estudios históricos. Facultad de Humanidades. Universidad Nacional del Mar
del Plata, 2017.
Leyes de los Longobardos. Colección leyes romanogermánicas. Grupo de
investigación y estudios medievales. Centro de estudios históricos. Facultad de
Humanidades. Universidad Nacional del Mar del Plata, 2018.
Bibliografia
BURKE, Peter. Variedades de História Cultural. Rio de Janeiro: Line art, 2000.
GUERRAS, Maria Sonsoles. Os povos bárbaros. São Paulo: Ática, 1987.
GENET, Jean-Philippe. Estado. In: Dicionário Temático do Ocidente Medieval.
V. 1. São Paulo: Edusc, 2002, p. 397- 409.
JOYE, Sylvie. As leis bárbaras: objetos da história e da historiografia. Signum,
vol. 17, num. 1, 2016, p. 27-47.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Rio de Janeiro: Vozes,
2016.
RUIZ, Armando José Torrent. La represión del adulterium en las leyes romano-
bárbaras y particularmente en la legislación hispano-visigótica. Teoría e storia
del diritto privato, n. 10, 2017, p. 2-75.
SCOTT, Joan. História das Mulheres. In: A escrita da História. Novas
perspectivas. Peter Burke (Org.). São Paulo: Editora Unesp, 1992, p. 63-96.
124
UM OLHAR SOBRE AS NARRATIVAS
HISTORIOGRÁFICAS DA MULHER MEDIEVAL NA
LITERATURA INFANTIL E O CONTEXTO ESCOLAR
Joelândia Nunes Ulisses de Oliveira
O atual contexto pandêmico tem deixado sequelas não só de ordem biomédica
e epidemiológica, mas principalmente sequelas sociais, como o aumento do
desemprego, recorrentes casos de feminicídio e agressões contra a mulher.
Estamos vivendo momentos difíceis não só devido ao acometimento da Covid
– 19, mas também pela conjuntura política de negacionismo, discursos
misóginos e homofóbicos, e retrocesso social. Neste cenário, como a educação
básica, responsável pela formação de cidadãos e cidadãs críticos(as) e
autônomos(as), pode atuar de forma a promover uma sensibilização em
crianças e adolescentes no combate a misoginia, sexismo e machismo?
Segundo a pedagoga Abigail Pereira, em audiência pública da Comissão de
Direitos Humanos (CDH) que debateu a
violência contra a mulher, em 09 de
março de 2020, “a situação é grave, [existe] a epidemia do coronavírus que
muda até nossas relações, nossas formas de nos cumprimentar, mas o
feminicídio é epidemia também, que exige uma resposta imediata porque já
está virando endemia, tal a gravidade da situação”. A pedagoga questiona,
ainda, como é possível que um país maltrate e violente tanto suas mulheres. O
Brasil é o quinto país com mais feminicídios no mundo — em 2018, foram
registrados 1.206 casos no Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança
Pública, ante 1.151 em 2017. Os passos para alterar esse quadro, segundo os
palestrantes presentes na audiência, passam pela educação desde a base,
pelo estímulo às mulheres para denunciar as agressões e pelo investimento
estatal.
Nesse diapasão, o papel da educação básica é fundamental no combate à
violência de gênero, é preciso que nossas crianças tenham uma visão crítica
sobre os processos de construção histórica, social e linguística imbricados na
formação de mulheres, homens, meninas e meninos para que se tornem mais
conscientes no futuro. Promover debates e reflexões no chão da escola sobre
masculinidade e feminilidade que não estejam apenas sob a égide do sexo
biológico representa uma atitude de quebra do ciclo vicioso discriminatório,
misógino, sexista e homofóbico. No entanto, abordar questões de gênero na
sala de aula, especialmente no Ensino Fundamental ainda é um tabu.
A necessidade deste estudo surgiu da vivência de um caso concreto no chão
da escola, no qual uma das alunas da turma do 6º Ano confidenciou não se
sentir pertencente a nenhum grupo da sala, simplesmente por vestir-se de
125
forma diferente das demais meninas da turma. No decorrer das aulas ficou
evidenciado que a aluna era excluída pelos colegas e eles nem mesmo
percebiam tal atitude.
Tomando como ponto de partida essas observações e as inquietações que
afligiam a aluna, passei a refletir sobre o que meninas e meninos sabem sobre
masculinidade e feminilidade? Como nós, educadores, estamos contribuindo
para uma educação plural e equitativa? Quais abordagens e narrativas
históricas e literárias sobre o protagonismo feminino são contadas para essas
crianças no contexto escolar?
Desta forma, este texto propõe a partir do estudo sobre as narrativas
historiográficas das mulheres medievais presentes na literatura infantil
promover a sensibilização de meninas e meninos no combate a misoginia,
sexismo e machismo no contexto escolar. Enquanto metodologia, optou-se
pela pesquisa bibliográfica em meio eletrônico de livros, artigos e dissertações
relacionados aos temas história das mulheres, narrativas historiográficas das
mulheres no medievo e misoginia na literatura infantil. Marcone e Lakatos
(2003) definem que a pesquisa bibliográfica:
“Abrange toda bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo,
desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas,
monografias, teses, material cartográfico etc., até meios de comunicação orais:
rádio, gravações em fita magnética e audiovisuais: filmes e televisão. Sua
finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que foi escrito,
dito ou filmado sobre determinado assunto, inclusive conferências seguidas de
debates que tenham sido transcritos por alguma forma, quer publicadas, quer
gravadas.” (MARCONE e LAKATOS, 2003, p. 183).
Para Manzo (1971, p. 32 apud MARCONE e LAKATOS, 2003, p. 183), “a
bibliografia pertinente oferece meios para definir, resolver, não somente
problemas já conhecidos, como também explorar novas áreas onde os
problemas não se cristalizaram suficientemente". Assim, este texto tem como
aporte teórico os (as) autores (as) Scott (1995); Louro (1997); Zilberman
(2012); Sousa e Caixeta (2019); Pinheiro (2021); Carvalho, Araújo e Tenório
(2021).
Compreendendo as questões de gênero e a ocultação das narrativas
sobre as mulheres na História
Por muito tempo discutimos questões sobre gênero, sob a égide dos sexos
biológicos, no entanto, a teoria das Ciências Sociais citada em Barreto (2012),
enfatiza que as identidades masculinas e femininas são construções culturais
engendradas sobre os corpos, não se configurando, portanto, como dados
biológicos naturais e universais. O gênero tornou-se uma categoria de
classificação de indivíduos, assim como a raça/etnia.
126
No Caderno SECAD/ MEC - Gênero e diversidade sexual na escola:
reconhecer diferenças e superar preconceitos, publicado pela Secretaria de
Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação,
em 2007, encontramos a seguinte definição:
“Ao se falar em gênero, não se fala apenas de macho ou fêmea, mas de
masculino e feminino, em diversas e dinâmicas masculinidades e feminilidades.
Gênero, portanto, remete a construções sociais, históricas, culturais e políticas
que dizem respeito a disputas materiais e simbólicas que envolvem processos
de configuração de identidades, definições de papéis e funções sociais,
construções e desconstruções de representações e imagens, diferentes
distribuições de recursos e de poder e estabelecimento e alteração de
hierarquias entre os que são socialmente definidos como homens e mulheres e
o que é – e o que não é - considerado de homem ou de mulher, nas diferentes
sociedades e ao longo do tempo.” (HENRIQUES, 2007, p. 16).
Desta forma, o termo gênero representa uma construção social, histórica,
cultural e política que deve romper as barreiras de distinções meramente
biológicas. No cotidiano, ainda vemos a categorizações de profissões e objetos
como “coisas de homens” ou “coisas de mulheres”, essas categorizações
circunscrevem uma naturalização histórica dos papéis dos sexos, no qual a
masculinidade é construída a partir do discurso determinista, universal e
imutável, que justifica assimetria entre homens e mulheres a partir das
características físicas, impondo o masculino em ascendência de poder em
relação ao feminino.
“O argumento de que homens e mulheres são biologicamente distintos e que a
relação entre ambos decorre dessa distinção, que é complementar e na qual
cada um deve desempenhar um papel determinado secularmente, acaba por
ter o caráter de argumento final, irrecorrível. Seja no âmbito do senso comum,
seja revestido por uma linguagem "científica", a distinção biológica, ou melhor,
a distinção sexual, serve para compreender — e justificar — a desigualdade
social.” (LOURO, 1997, p. 20-21, grifo do autor).
A despeito desse estruturalismo social, Scott (1995) traz algumas indagações
sobre a estruturação da organização familiar baseada em uma divisão sexual
do trabalho, que exige, por exemplo, que os pais trabalhem e as mães
executem a maioria das tarefas de criação das crianças, sem razões claras que
justifiquem estas articulações.
“Como podemos explicar no seio dessa teoria a associação persistente da
masculinidade com o poder e o fato de que os valores mais altos estão
investidos na virilidade do que na feminilidade? Como podemos explicar a
forma pela qual as crianças parecem aprender essas associações e avaliações
mesmo quando elas vivem fora de lares nucleares, ou no interior de lares onde
o marido e a mulher dividem as tarefas familiares? Penso que não podemos
fazer isso sem conceder uma certa atenção aos sistemas de significado, quer
dizer, aos modos pelos quais as sociedades representam o gênero, servem-se
127
dele para articular as regras de relações sociais ou para construir o significado
da experiência.” (SCOTT, 1995, p. 81-82).
Para a autora é essencial dar certa atenção aos sistemas de significados, isto
é, às maneiras como as sociedades representam o gênero, o utilizam para
articular regras de relações sociais ou para construir o sentido da experiência.
Louro (1997, p. 17) afirma que “a segregação social e política a que as
mulheres foram historicamente conduzidas tivera como consequência a sua
ampla invisibilidade
como sujeito, inclusive como sujeito da Ciência”.
Sousa e Caixeta (2019) argumentam que a historiografia representa um campo
de disputa de interesses, um espaço político que favorece o discurso
androcêntrico. A memória historiográfica de ocultação das mulheres induziu à
irrelevância de sua atuação. Esse silenciamento de arquivos envolve dupla
implicação de exclusão, o recorte sujeito – espaço.
Não obstante, o movimento feminista da década de 60 do século XX trouxe à
baila a politização a respeito da história das mulheres, que durante anos foi
ocultada dos livros e documentos históricos oficiais, como se as mulheres não
tivessem tido qualquer tipo de atuação na história. Um dos marcos do
feminismo no século XX foi a publicação do livro “O Segundo Sexo”, em 1949,
por Simone de Beauvoir. Ao tratar sobre a infância, a autora traz a seguinte
definição sobre a mulher:
“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico,
econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade;
é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o
macho e o castrado, que qualificam o feminino.” Beauvoir (2009, posição
5617).
Nesse fragmento a autora ressalta que a mulher é resultado de uma
elaboração cultural e histórica a partir de uma alteridade masculina, e sinaliza
questões importantes referentes às construções sociais das quais estão
ancoradas no modo em que as mulheres são socializadas, de como ainda
educamos meninas e meninos presos a valores e mitos.
Mesmo com o grande destaque do movimento feminista, ainda não se percebe
mudanças significativas na forma como as práticas e representações de gênero
são produzidas na sociedade e no contexto escolar, a História permanece
sendo um campo de lutas ideológicas, colocar em evidência o protagonismo
feminino é uma questão prioritária no combate à misoginia e atitudes
discriminatórias.
Mulheres no Medievo
A Base Nacional Comum Curricular traz como uma das habilidades a ser
desenvolvidas pelos estudantes do 6º Ano do Ensino Fundamental “(EF06HI19)
Descrever e analisar os diferentes papéis sociais das mulheres no mundo
128
antigo e nas sociedades medievais” (BNCC, 2017, p. 421). Para as crianças o
período Medieval é o mais instigante, devido aos estereótipos retratados em
filmes e contos infantis. No imaginário das crianças, esse período contará
histórias de princesas indefesas, bruxas, heróis e príncipes encantados em
seus castelos incríveis, num cenário carregado de misticismo,
equivocadamente conhecido como Idade das Trevas.
De acordo com Pinheiro (2021), infelizmente, ainda há um pré-conceito em
relação à Idade Média em vários aspectos, sejam eles sociais, econômicos,
políticos, religiosos, inclusive por parte de professores que ministram conteúdo
de História, restringindo-se tão somente ao que está nos livros didáticos e ou
reforçando estereótipos de filmes e novelas de época. A autora acrescenta há
uma misoginia cultural, que, muitas vezes, impede que se veja que houve uma
efetiva participação feminina nos mais diversos campos do saber, em todos os
períodos históricos, principalmente no Medieval. Isso abre brechas para a
criação de estereótipos que não condizem com a realidade.
Atualmente há uma ampla produção acadêmica que traz à tona o protagonismo
feminino no Medievo, no que diz respeito aos aspectos educacionais, laborais,
médicos e artísticos, como, Matilde de Canossa (1046-1115), Teresa de Leão
(1080-1130), Heloísa de Argenteuil (1090-1164), Hildegard von Bingen (1098–
1179), Christine de Pizan (1364–1430), Edviges de Anjou (entre 1374 e 1374-
1399), e tantas outras mulheres que protagonizaram histórias no período
medieval, no entanto pouco ou nada se vê nos livros didáticos a respeito
dessas personagens. Na análise de alguns livros do 6º Ano, Pinheiro (2021, p.
30) constatou que:
“Há pontos em comum em textos de autores e editoras diferentes, alguns
apresentando uma perspectiva mais atual, contudo, outros optaram por
permanecer na linha em que predomina a dicotomia Eva, a sedutora dos
homens, representando praticamente todas as mulheres e, Maria, a redentora,
um ideal praticamente impossível de ser alcançado.”
Destarte, é preciso que o movimento decolonial saia das academias e adentre
na sociedade, para tanto cabe ao professor instigar os alunos a refletirem
acerca das possíveis rupturas e permanências a respeito do olhar depreciativo
sobre a presença feminina na Idade Média, a fim de descontruir as narrativas
misóginas relacionadas a história das mulheres no Medievo que imperam
principalmente no imaginário das crianças.
Ressonâncias de narrativas misóginas sobre a história das mulheres do
medievo na literatura infantil
A Literatura Infantil surgiu ao final do século XVII, com adaptações dos contos
populares e lendas da Idade Média, os irmãos Grimm tiveram um papel muito
importante na compilação desses contos/ histórias, bem como Charles Perrault.
Segundo Ziberman (2012), esses contos populares narrados oralmente pelos
camponeses foram retocados e adaptados para atender as demandas do
129
modelo familiar burguês da França, havendo significativas mudanças neles,
como as histórias Chapeuzinho Vermelho e Bela Adormecida, e utilizados
como meio de controle do desenvolvimento intelectual da criança e
manipulação de suas emoções, com marcante intuito educativo,
permanecendo, ainda nos dias atuais, como uma colônia da pedagogia.
Meireles (2016, apud CARVALHO, ARAÚJO e TENÓRIO, 2021) ao tratar sobre
as influências das primeiras leituras e as emoções que estas são capazes de
mobilizar nas crianças afirma que as mesmas podem repercutir na sua vida de
forma definitiva, chegando a influenciar vocações, rumos e determinar escolhas
futuras. Tomando por base a influência que a Literatura Infantil exerce na
formação da identidade da criança, as autoras Carvalho, Araújo e Tenório
(2021) trouxeram à baila as narrativas acerca das relações patriarcais de
gênero e o papel da mulher na sociedade embutidos nos clássicos infantis:
“Ao observarmos os clássicos infantis, é possível perceber a posição social da
mulher em relação ao homem. O fato da princesa, na maioria dessas histórias,
ter seu final feliz vinculado a necessidade de ser salva por um príncipe
encantado, sinaliza valores e comportamentos que podem ser incorporados
facilmente pelas crianças, perpetuando a visão da mulher como alguém
obediente, frágil, dependente e submissa. De forma subliminar e
aparentemente inocente, podem ser fortalecidas no imaginário dos(as)
leitores(as) visões machistas e patriarcais.” (CARVALHO, ARAÚJO e
TENÓRIO, 2021, p. 2364)
As autoras tecem observações não só ao papel das “mocinhas” ou “princesas”,
que alimentam uma visão misógina do papel da mulher na sociedade, como
também traçam um estudo histórico da figura das bruxas. A imagem das
bruxas é uma construção histórica que se fortaleceu na Idade Média, como
forma de punição a mulheres que exerciam influências sobre determinados
grupos sociais. Eram mulheres que exerciam o papel de curadoras, parteiras e
tinham um saber próprio, e na Idade Média passaram a ser vistas como filhas
de satã. Para Silva e Santos (2020):
“A bruxa e a sua personalidade forte, invejosa, feia, maléfica, e junto ao seu
mal agouro, é a maior representação concretizada no consciente da sociedade
contemporânea. Este conjunto de fatores que rodeiam e retratam a imagem da
mulher provida de conhecimentos para o mal, infelizmente, tornou-se no que
chamamos hoje de pré-conceito, acarretando numa das maiores personagens
da História vista com maus olhos: a mulher.” (SILVA e SANTOS, 2020, p. 2).
Nesse sentido, Bourdieu (2019, apud CARVALHO, ARAÚJO e TENÓRIO,
2021, p. 2369) “chama atenção para a violência simbólica contra a mulher, por
meio de práticas cotidianas que se atualizam, naturalizando preconceitos que
deveriam ser combatidos. São violências muitas vezes
suaves, insensíveis e
invisíveis às próprias vítimas”.
130
Na tentativa de superar essa visão inferiorizada e a submissão presentes na
Literatura Infantil, vários contos clássicos vêm sofrendo mudanças, adaptando-
se as necessidades, intencionalidades e valores de cada época. Refletir sobre
essas mudanças e trazer essas releituras para a sala de aula é um importante
passo para a formação da criança com um olhar crítico sobre as questões de
gênero.
Considerações finais
Esta breve reflexão evidencia que a ocultação das narrativas historiográficas
sobre mulheres é um campo político, que se estabelece ao longo dos anos
definindo papéis para homens e mulheres baseados em suas características
biológicas, no qual prevalece a tendência de assumir o masculino como único
modelo de representação coletiva.
Na discussão foi trazido à tona que o Movimento Feminista trouxe importantes
contribuições para o estudo e a visibilização sobre a História das Mulheres, no
entanto, apesar dos consideráveis avanços, na prática pouco se discute no
contexto escolar sobre a atuação da mulher na História, e na literatura se
percebe ainda personagens femininas estereotipadas, com narrativas
engajadas em lhe atribuir um papel secundário.
Neste sentido, a História Medieval e a Literatura Infantil se cruzam, tendo em
vista que os clássicos infantis subjugam as mulheres, na medida que
apresentam as princesas como personagens passivas, obedientes, com seus
cabelos e trajes impecáveis à mercê do amor e proteção do cavaleiro para
terem um final feliz, enquanto que as que se rebelam e protagonizam suas
escolhas são consideradas bruxas, representadas por mulheres feias e más.
Tais narrativas trazem à tona a dualidade feminina representada no Medievo,
no qual a mulher casta e submissa era comparada a pureza de Maria,
enquanto que a subversiva trazia consigo o pecado de Eva. Ademais, as
bruxas representam um elemento histórico da Idade Média, mas ao buscarmos
uma definição do termo “bruxa” em dicionários, logo pode-se perceber a direta
vinculação com uma figura maléfica, feia e perigosa representadas nos livros
infanto-juvenis.
É necessário, portanto, repensar a presença de narrativas misóginas sobre a
historiografia das mulheres do Medievo na literatura infantil reproduzidos na
sala de aula, em sua maioria sem qualquer contextualização crítica. Nesse
sentido, ainda que os livros didáticos e contos apresentem a invisibilidade de
narrativas femininas, o professor pode conduzir a visibilização dessas
narrativas e atuar como um dos agentes na formação de novas mentalidades e
posturas.
Enfatizar a atuação feminina nos eventos históricos trabalhados em sala de
aula contribui tanto para uma percepção das relações de gênero, quanto para o
desenvolvimento crítico dos educandos. Assim, esse estudo proporcionará que
meninas se sintam representadas na história e identifiquem suas referências e
131
construções sociais e culturais, como também um novo olhar dos meninos
sobre a história das meninas e sua atuação ativa na sociedade, na História e
na Literatura, com fulcro a promover uma educação plural e equitativa.
Referências biográficas
Joelândia Nunes Ulisses de Oliveira, é mestranda do Programa de Pós-
Graduação em Formação de Professores e Práticas Interdisciplinares
(PPGFPPI) da Universidade de Pernambuco/ campus Petrolina e integrante do
Spatio Serti – Grupo de Estudos e Pesquisa em Medievalística (UPE/ campus
Petrolina). Atualmente está produzindo a dissertação intitulada provisoriamente
“Do amor cortês ao empoderamento feminino: Contexto histórico e atual da
representatividade feminina nos livros didáticos de História e Inglês” no
PPGFPPI sob orientação do Prof. Dr. Luciano José Vianna.
Referências bibliográficas
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133
A REPRESENTAÇÃO FEMININA NO LIVRO O
DECAMERÃO (1348-1353) DE GIOVANI BOCCACCIO
(1313-1375)
José Carlos da Silva Ferreira
Introdução
O objetivo principal desta pesquisa é aproximar-se à História das Mulheres no
Medievo enquanto campo histórico para compreender e contribuir com a
historiografia recente do mesmo. Fazemos uso do livro O Decamerão, escrito
entre 1348-1353 por Giovani Boccaccio. Nosso recorte principal visa identificar
a representação do mundo feminino nesta obra em termos sociais, com o
objetivo de apresentar um mundo feminino em sua diversidade. Para isso,
construímos uma revisão bibliográfica com as principais autoras do movimento
da história das mulheres a fim de especificar este campo de estudos.
O surgimento do campo de estudos história das Mulheres não é um
acontecimento isolado. Desde os séculos anteriores, as mulheres lutavam por
reconhecimento, muito embora fossem censuradas de modo proposital. No
início do século XX, as sufragistas lançaram as bases para o movimento
feminista, o qual emergiu nos anos de 1960 voltado para as demandas sociais
para o público feminino. Assim, intelectuais e ativistas feministas iniciaram a
construção de uma nova história que incluísse nas suas narrativas as mulheres
silenciadas há séculos e propositalmente esquecidas (SCOTT, 1992).
Dentro desse contexto, destacamos autoras que não apenas vivenciaram o
período, mas também escreveram sobre este advento feminino. Joan Scott, por
exemplo, apresenta a História das Mulheres como um movimento no qual a
política esteve na base da sua consolidação. Scott destaca o início do
movimento (na década de 1960) e um dos seus primeiros impasses: se
desvincular, ou pelo menos ficar mais independente, do cenário político. Para a
autora, com essa separação a História das Mulheres expandiu seus objetos de
estudo, suas discussões e passou a documentar a vida das mulheres no
passado, tornando-se um campo com mais vigor acadêmico (SCOTT, 1992).
Mesmo com esses impasses, o movimento que reivindicava a História das
Mulheres também era político.
Joan Scott discorre sobre uma série de reivindicações, conflitos e leis que na
década de 60 do século XX, nos Estados Unidos, inseriam, ainda que
lentamente, as mulheres em postos acadêmicos. Assim, o movimento buscava
completar uma lacuna que há tempos era evidente. Existia, portanto, um
134
desequilíbrio social no qual as mulheres estavam em uma situação crítica. A
história deveria ser reescrita, adicionando a História das Mulheres.
A ascensão da História das Mulheres deu espaço para discussões mais
profundas sobre a ausência delas da narrativa histórica durante todo esse
tempo. Michele Perrot afirma que “escrever a história das mulheres é sair do
silêncio em que elas estavam confinadas” (PERROT, 2017, p. 17). Mais do que
isso, o silêncio das mulheres era proposital, pois “em muitas sociedades, a
invisibilidade e o silêncio das mulheres fazem parte da ordem das coisas. É a
garantia de uma cidade tranquila. Sua aparição em grupo causa medo.”
(PERROT, 2017, p. 17).
Sem espaço, as mulheres não eram vistas: “A presença da mulher foi sempre
complemento da presença do homem. O protagonismo feminino se mostrava
inexistente. Os nomes delas eram removidos, pois já aviam os nomes dos
homens como principais. Por tudo isso, os relatos delas eram ignorados, pois
são uma leve sombra dos homens” (PERROT, 1997, p. 22). Assim, escrever
uma história das mulheres hoje é romper com o ciclo de silêncio que durante
muito tempo foi gritante, em termos historiográficos.
Por efeito da historiografia do século XIX, os documentos considerados
históricos não apresentavam outra vertente senão a política. Em um debate
mais específico, é possível observar que, do ponto de vista pedagógico, esse
pensamento ainda pode ser percebido em alguns livros didáticos, muito
embora isso venha mudando gradativamente. A historiografia mudou
paulatinamente quando a Escola dos Annales, que iniciou em 1929, possibilitou
essa ampliação das fontes e discussões que a História das Mulheres se
beneficia.
O Decamerão: o contexto
O Decamerão, escrito entre 1348 e 1353, ou seja, bem próximo à chegada e
disseminação da peste em Florença, foi escrito pelo autor italiano Giovanni
Boccaccio quando este estava em refúgio em Fiésole, justamente por conta da
peste. O contexto no qual ele estava inserido era, portanto, de certa
complicação social: uma grande fome e uma pandemia assolavam a região. A
situação de caos descreve bem o que a sociedade florentina do século XIV
passava.
O livro é composto de cem novelas ou histórias que são contadas em dez dias
por dez personagens, sendo estes três rapazes (Dioneio, Pânfilo e Filóstrato) e
sete damas (Fiammetta, Pampineia, Laurinha, Elisa, Emilia, Filomena e
Neífile). O objetivo do livro, segundo o autor, era oferecer deleite e/ou alento
para as mulheres que ficavam em casa melancólicas e solitárias
(BOCCACCIO, 2018, p. 23). Nesse primeiro momento, podemos observar que
se trata de uma obra escrita para as mulheres e na qual elas são personagens
que narram em maior número.
135
Em termos de pesquisa voltada para o contexto feminino, a obra de Boccaccio
apresenta uma possibilidade considerável, uma vez que sete das dez
personagens da obra são compostas por mulheres. A obra de Boccaccio, que é
influenciada e tem relação com a Divina Comédia de Dante Alighieri (1265-
1321), traz à tona a condição feminina em seu período, e as personagens que
são representadas apresentam temas voltados para o amor, a moralidade,
além de apresentar uma visão “realista, plural e crítica da sociedade de sua
época”. E, devido a esta pluralidade, característica da obra de Boccaccio, e
também devido ao fato de que a maior parte das novelas são apresentadas por
mulheres, e, além disso, que seu “público-alvo” são as mesmas (ALMEIDA,
2009, p. 104), é que analisaremos esta obra a partir da perspectiva da
representação feminina.
É importante fazer uma problematização ao fato de que Boccaccio descreve as
mulheres como “tristes” e “melancólicas”. Por vezes, essa é a representação
mais comum que se faz de mulheres no Medievo. A própria Idade Média é na
maioria das vezes retratada como obscura e violenta. Afirmar isso é negar que
muitas mulheres tinham suas vidas movimentadas entre cortes e trabalhos
para o sustento da casa. É verdade que poucas tinham acesso às letras, como
Cristine de Pizan, autora de A cidade das damas, porém, essa retratação
apaga a vida movimentada que era o Medievo.
O propósito de observar o Medievo através dessas representações requer
bastante cuidado, pois, segundo Rachel Soihet “a escassez de vestígios acerca
do passado das mulheres produzidos por elas próprias, constitui-se num dos
grandes problemas enfrentados pelos historiadores” (2011,
p. 282). Com isso,
muito do que se sabe sobre as mulheres no período Medieval são apenas
vestígios. Além disso, “encontram-se mais facilmente representações sobre a
mulher que tenham por base discursos masculinos determinando quem são as
mulheres e o que devem ser”, complementa Soihet (2011, p. 282).
Entretanto, Boccaccio, ainda que fosse um homem burguês e letrado, escreveu
sobre as mulheres. Essa narrativa pode fornecer vestígios aproximados sobre
como viviam as mulheres em um período histórico marcado pela hegemonia
cristã e masculina. No entanto, nem mesmo esse autor é isento de crítica, pois
sua representação também obedece a um discurso. Por isso, lembramos a
Roger Chartier quando ele afirma que “as percepções do social não são de
forma alguma discursos neutros.” (1988, p. 17). Neste sentido, nos apoiaremos
nas perspectivas de Soihet e de Chartier para nos aproximarmos brevemente
da representação feminina feita por Boccaccio em sua obra.
Breve análise das representações femininas presentes no Decamerão:
alguns exemplos
No proêmio da obra, Boccaccio afirma que “Em socorro e refúgio daquelas que
amam, é que escrevo (porquanto, para as outras, bastam a agulha, o fuso e a
roca). O que escrevo são coisas contadas, em dez dias, por um grupo honrado
de sete mulheres e de três moços, na época pestilenta da passada mortandade
136
levada a cabo.” (BOCCACCIO, 2018, p. 23) Analisando esta passagem,
observamos primeiro a restrição da leitura para um grupo seleto de mulheres.
Este grupo no fim da frase é categorizado por “honradas mulheres”. Por outro
lado, o grupo das mulheres sem leitura fica restrito ao trabalho manual,
colocado como o uso da agulha para a costura, do fuso e da roca para fiar.
Na continuidade da obra, e a ainda falando das mulheres, o autor caracteriza
as sete personagens que são narratárias. Para melhor compreender como
Boccaccio construiu suas personagens femininas, utilizo da própria palavra do
autor, quando afirma: “Elas tinham acabado de ouvir, em trajes lúgubres, como
para aquela quadra se indicava, os ofícios divinos. Todas estavam ligadas
umas às outras, ou por amizade, ou por vizinhança, ou por parentesco. Delas,
nenhuma havia transposto o 28º ano de idade, nem era menor de 18. Todas
eram ajuizadas e de sangue nobre; belas de formas, prendadas de costumes, e
de comportamento honesto” (BOCCACCIO, 2018, p. 38-39).
Observando esse trecho do livro, percebemos que o lugar onde estavam as
moças, a Igreja, devido a peste, estava com grande fluxo de celebrações
fúnebres, pois é deduzível que o dia e horário e as vestimentas nos dão pistas
que elas estavam em mais uma exéquias. É importante destacar o sentimento
de saturação sobre o contexto. Assim, as sete damas conversam entre si a fim
de saírem daquele lugar. Considerando a intensa utilização da ironia no livro,
podemos também associar a retirada das moças da Igreja como uma metáfora
para o autor dizer que o contexto no qual ele estava inserido.
Prosseguindo com nossa análise, é interessante destacar que todas elas
estavam ligadas de alguma forma. Considerando, ainda, que todas eram
moças nobres, fica evidente que o parentesco e a nobreza eram algo muito
valorizado no Medievo. No entanto, é necessário lembrar que o autor produziu
o livro com uma linguagem irônica e sagaz. Assim, essa representação de uma
nobreza respaldada por vínculos familiares e sociais, logo depois será
redesenhada com histórias que narram pessoas nobres se relacionando com
pessoas de grupos sociais não pertencentes à nobreza.
Além das personagens que são narratárias, as mulheres que aparecem na 4ª
jornada merecem uma análise mais detalhada. A 4ª jornada, que no livro é
narrada sob o reinado de Filóstrato, tem como tema que “se fala daqueles
cujos amores tiveram final infeliz” (BOCCACCIO, 2018, p. 351). Nesta jornada,
a maior parte dos personagens que sofrem são mulheres. No entanto, o que
nos interessa saber é qual a reação das mulheres perante esse sofrimento.
Exemplificando, a primeira novela dessa jornada fala sobre como o “Tancredi,
príncipe de Salerno, mata o amante da filha; e manda à filha o coração dele,
numa taça de ouro. A filha põe água envenenada, na taça, sobre o coração, e
bebe. E assim morre”. (BOCCACCIO, 2018, p. 365).
Com uma história tão trágica para a filha do príncipe, podemos também deduzir
como era a vida das mulheres (e também a forma que o autor representou a
condição de ser mulher na Idade Média). Em outro fragmento da obra isso fica
137
evidente. Ao falar do amor e ciúme paternal do príncipe sobre a filha, a história
narra que “em consequência deste enternecido amor [de Tancredi pela filha],
ele não queria nem pensava em separar-se dela; e, embora ela já houvesse
passado, de vários anos, a idade de casar-se, ele não a induzia a escolher
marido”. A figura feminina causava medo na sociedade. Por isso, a aparição
das mulheres em público era sabotada pela cultura patriarcal (PERROT, 1997).
O caso da filha do príncipe não é único nesta jornada. Lisabetta, uma
personagem da quinta novela também passa por algo semelhante. Porém, a
figura patriarcal se concentra nos seus irmãos. Na história, “Os irmãos de
Lisabetta matam o amante dela; o morto aparece-lhe em sonho, e mostra-lhe o
lugar onde está soterrado. Às escondidas, a moça desenterra a cabeça do
amante; coloca-a num vaso de terracota de manjericão; sobre esse vaso,
passa a chorar todos os dias, durante uma hora cada dia; os irmãos tiram-lhe o
vaso; e, pouco depois, ela morre de dor”. (BOCCACCIO, 2018, p. 410).
A presença masculina na vida da personagem da história é perceptível em um
trecho no qual os irmãos ainda não a haviam casado. Por isso, o autor diz que
ela era uma “moça muito bonita e muito bem-educada; fosse lá por que razão
fossem, eles ainda não a haviam casado.” (BOCCACCIO, 2018, p. 410). A
imposição moral dos irmãos contra a irmã, no decorrer da novela, foi a
responsável por matar o amante (namorado) e a própria Lisabetta.
Perspectivas para o uso da fonte em pesquisas históricas
Abordar conceitos como feminismo, misoginia dentro do contexto histórico da
Idade Média não é tarefa fácil. Os cuidados que o historiador deve ter com o
anacronismo o fazem ter receio de cometer equívocos. No entanto, atualmente
há uma crescente necessidade de se falar sobre a História das Mulheres na
formação de professores. Hoje, com o uso em massa das redes sociais, falar
sobre a História das Mulheres na sala de aula requer cuidados e também
facilidades.
A problematização e o cuidado com as generalizações têm que ser
intermitentes. Assim, do ponto de visto histórico, não podemos falar em uma
unicidade feminina no Medievo, período de mais de mil anos. Além disso, um
Medievo baseado no recato e solidão feminina deve ser rediscutido, pois elas
estavam presentes na agricultura, nas feiras e em outras atividades, inclusive
nas atividades literárias (PERNOUD, 1997). Infere-se que nem todas as
mulheres tinham acesso às letras, mas, se isso é verdade, por qual motivo
Boccaccio dedicou seu livro justamente às mulheres em 1348?
Portanto, é necessário estar atento e deixar evidente tais questões, a fim de
não reproduzir o discurso da Idade Média unicamente masculina, como dizem
os poucos relatos. Assim, construir uma nova história das mulheres é também
reconstruir concepções e conceitos masculinos que duraram muito tempo na
nossa sociedade.
138
Considerações finais
O Decamerão, enquanto fonte primária, carrega consigo aspectos do seu
contexto, como os cavaleiros, as ordens religiosas, a peste e as mulheres. As
representações sobre as mulheres são importantes fontes de estudo, pois elas
estão fundamentadas no caráter verossímil da obra, uma vez que “as
referências do universo narrado, embora sejam principalmente literárias" ligam-
se ainda ao cotidiano do autor e a realidade das cidades-estados italianas
daquele período.” (CAVALLARI, 2010,
p. 10).
Desse modo, a história das mulheres também pode contribuir para o ensino e a
aprendizagem que dá voz as mulheres por séculos esquecidas na história.
Concluindo, podemos destacar que a história das mulheres é um importante
campo de saber histórico que pode auxiliar o pesquisador/professor a descobrir
e a compreender melhor sobre as mulheres que não aparecem nos
documentos oficiais, importante aspecto a ser tratado na formação docente em
História.
Nesse sentido, escrever uma história das mulheres é lançar luz sobre as
sombras historiográficas nas quais elas estavam. O protagonismo feminino
deve estar cada vez mais evidente na escrita da História, pois, assim, as
mulheres poderão escrever suas próprias histórias. Com o Decamerão,
encontramos uma possibilidade de desconstruir um pouco dessa visão
patriarcal do medievo.
Referências biográficas
José Carlos da Silva Ferreira é graduando no curso de História da
Universidade de Pernambuco/campus Petrolina e integrante do Spatio Serti –
Grupo de Estudos e Pesquisa em Medievalística (UPE/campus Petrolina).
Atualmente desenvolve sua monografia sob a orientação do Prof. Dr. Luciano
José Vianna, cujo título é “A história das mulheres no Medievo: a
representação feminina no Decamerão (1347-1353) de Giovanni Boccaccio
(1313-1375).”
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feminino no final da Idade Média – o exemplo do Decamerão e do De
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Mestrado. Pós-Graduação em História. Universidade Federal Fluminense,
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VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História. Ensaios de teoria e metodologia.
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140
O OLHAR FEMININO NOBRE NO TRATADO DO AMOR
CORTÊS (C.1186) DE ANDRÉ CAPELÃO (1150-1220)
Juliana Caroline de Souza Araújo
Introdução
A História das Mulheres é um movimento historiográfico que surgiu a partir da
década de 1960 e ganhou a atenção da academia e do público em geral, o
qual, para ser compreendido, deve ser analisado e contextualizado juntamente
com a história do movimento feminista. Isso porque, o feminismo despertou a
visão para as experiências femininas ao longo da história e colaborou para a
inserção das mulheres no ambiente universitário como campo de estudos
(NASCIMENTO, 1997, p. 82). Nesse espaço, os historiadores e historiadoras
começaram a buscar uma redefinição profissional, visto que se constituíram
como um grupo pesquisando um tema específico dentro da academia. Além
disso, passaram a questionar conceitos e perspectivas na produção do
conhecimento histórico (BREISACH, 2009, p. 238; SCOTT, 1992, p. 73-74).
Com o passar do tempo, iniciaram-se de forma massiva os estudos sobre as
mulheres no âmbito acadêmico, principalmente na década de 80 do século XX,
momento no qual identificamos a publicação de várias obras voltadas para o
estudo sobre as mulheres no Medievo. Esse campo de estudos pretendeu
transformá-las em sujeitos históricos e em objetos de estudo da história, pois o
homem era a base da historiografia moderna ocidental (SCOTT, 1992, p. 66-
77).
Este trabalho pretende abordar a representação do amor cortês a partir do
olhar das mulheres nobres presentes no Tratado do Amor Cortês do clérigo
André Capelão (1150-1220). Ele exerceu suas funções na corte do rei da
França Luís VII (1120-1180) e a partir disso constatamos que estava mais
próximo das damas da nobreza, como a condessa Maria de Champagne
(1174-1204), filha de Alienor da Aquitânia (1122-1204). Em sua obra, Capelão
ramificou o grupo social feminino nobre em dois grupos: as mulheres da
pequena nobreza e as mulheres da alta nobreza. A primeira era descendente
de um vassalo ou de um senhor, ou também fora casada com um deles. A
segunda possuía sua descendência marcada por grandes senhores
(CAPELÃO, 2000, p. 22-23).
O Tratado do Amor Cortês
O Tratado do Amor Cortês de André Capelão foi composto no final do século
XII, por volta de 1186, no norte da França, e está dividido em três livros que
comentam sobre o que é o amor, como mantê-lo e a sua condenação,
141
respectivamente. O objetivo principal do Tratado é tratar da concepção do amor
nas cortes feudais, uma vez que ele é uma representação ideológica da
nobreza, possuindo um conteúdo que pretendeu doutrinar e conduzir o grupo
nobre.
O contexto no qual o Tratado do Amor Cortês foi composto coincidiu com o que
denominamos feudalismo, um período tradicionalmente visto apenas a partir da
ótica masculina, principalmente a partir da relação entre senhores e vassalos
(BLOCH, 2001). Por conseguinte, a obra consiste em uma fonte de hábitos e
comportamentos da sociedade feudal e deve ser compreendida a partir do seu
contexto de produção (PERNOUD, 1984, p. 101-102). Compreendemos que
pela influência da relação feudo-vassálica, “a mulher é equiparada a uma
suserana; [...] o amante mostra submissão total à mulher, exprime o desejo de
ser aceito como seu vassalo e oferece-lhe incansavelmente os seus serviços.”
(BURIDANT, 2000, p. 39).
Em termos metodológicos, para se trabalhar com a perspectiva feminina no
Medievo é necessário considerar o filtro masculino encontrado na maioria das
fontes (KLAPISCH-ZUBER, 1992, p. 16). Dessa forma, a concepção do amor
cortês se constrói a partir do que foi textualizado por André Capelão no Tratado
do Amor Cortês. Entretanto, é possível enxergá-la através da ótica das
mulheres nobres.
Como base teórico-conceitual, utilizamos o conceito de representação cunhado
por Roger Chartier (1988), o conceito de memória cultural desenvolvido por Jan
Assmann (1995) e o conceito de memória social elaborado por Patrick Geary
(2002). De acordo com Chartier, as percepções do âmbito social estão
imbuídas com as intenções dos indivíduos ou grupos. Dessa forma, entende-se
que os discursos consistem em representações do mundo social (CHARTIER,
1988, p. 17). Portanto, o Tratado do Amor Cortês é composto por diversas
representações sociais femininas, uma vez que Capelão apresentava
interesses em moldar as características das mulheres nobres através das
regras do amor cortês. Segundo Jan Assmann, a memória cultural apresenta
uma situação definida no passado, podendo ser um texto, um rito ou uma
prática. Desse modo, uma experiência coletiva está acessível em uma
construção cultural (ASSMANN, 1995, p. 129). Isso significa que o Tratado do
Amor Cortês consiste em uma composição cultural, na qual constam as
experiências de seu autor, André Capelão, voltadas para os grupos sociais que
eram formados por mulheres no contexto feudal.
Complementanto esta perspectiva, segundo Geary, na formulação da memória
social a sociedade renova e reforma a sua compreensão do passado para
integrá-lo em seu presente. Isso implica em uma interação e renovação dos
aspectos da memória que servem de construção para
a sociedade (GEARY,
2002, p. 178). Capelão, ao escrever sua obra, buscou um incentivo no presente
e se voltou para o passado, conseguindo, dessa forma, recuperar as memórias
dos grupos sociais de mulheres nobres e reformulando-as com objetivos
específicos para utilizar no seu discurso.
142
A representação do amor cortês a partir do olhar feminino nobre no
Tratado do Amor Cortês
Visando construir a representação do amor cortês pela ótica das mulheres
nobres, apreendemos os aspectos que se aproximaram das vontades e das
inquietações delas no século XII, as quais Capelão extraiu de suas
rememorações cotidianas. A mulher participante do jogo do amor cortês era
casada, estabelecendo vínculos adúlteros e escondidos. O trovador precisava
se contatar de forma discreta a partir de indícios enviados em seus versos
(CHICOTE, 2007, p. 348).
No quinto diálogo do Tratado, a mulher nobre contrariou o papel da dama
distante e idealizada. Ela afirmou que o amante sofredor poderia encontrá-la
em pessoa para libertá-lo dos suplícios da morte (CAPELÃO, 2000, p. 53-75).
O fragmento seguinte apresenta essa ideia. “Ademais, não quero que te
contentes com escrutar os ares, mas podes ver-me em carne e osso e
contemplar-me frente a frente. Prefiro empenhar-me em guiar-te para te manter
em vida a levar-te à morte ou expor-me a cometer um crime” (CAPELÃO, 2000,
p. 75).
Segundo a mulher de pequena nobreza da sétima conversação, “[...] ele deverá
pautar seus atos e moderar seus desejos de tal modo que ninguém possa
desvendar seus segredos” (CAPELÃO, 2000, p. 125). E quais eram os
segredos? Os momentos em que os amantes se encontravam para partilhar os
prazeres do amor e, dessa forma, sustentar sua paixão (CAPELÃO, 2000, p.
123-212). Como o amor cortês não era compatível com a manutenção da
castidade feminina, muitas mulheres no século XII se preocupavam em ter a
sua honra destruída por meio de boatos (CAPELÃO, 2000, p. 154).
A seguir, observamos uma série de conhecimentos sobre o amor cortês
demonstrado por mulheres de alta nobreza. Para Capelão, elas eram exemplos
singulares de discernimento a respeito da matéria do amor. Muitas vezes, ele
utilizou em seu discurso a competência amorosa da condessa Maria de
Champagne (1174-1204) e de outras damas como a rainha Alienor da
Aquitânia (1122-1204), Adélia de Champagne (1140-1206), a condessa de
Flandres Isabel Vermandois (1085-1131), a viscondessa Ermengarda de
Narbonne (1120-1196) e a assembleia de damas da Gascogne no sul da
França (BURIDANT, 2000, p. 18-19).
A Maria de Champagne foi uma personagem feminina que atuou de forma
maciça em atividades literárias (BURIDANT, 2000, p. 18-19). As cortes do amor
foram comandadas por mulheres nobres que avaliavam situações conflitantes
entre os amantes (CARVALHO, 2017, p. 144; CHICOTE, 2007, p. 347-348). No
sétimo diálogo, os amantes recorreram à sua arbitragem com a seguinte
questão: o amor pode existir entre os casados? Eis aqui sua resposta.
“Dizemos e afirmamos como plenamente estabelecido que o amor não pode
estender seus domínios entre os cônjuges. Porque os amantes concedem-se
143
tudo mutuamente a título gratuito, sem serem impelidos por obrigação alguma”
(CAPELÃO, 2000, p. 137). Já os esposos possuíam deveres entre si, não
permitindo a existência de um requisito fundamental para o amante, o ciúmes.
Alienor da Aquitânia, filha do primeiro trovador Guilherme da Aquitânia e
primeira cônjuge do rei da França Luís VII, realizou variadas atividades no
âmbito da política e instituiu as cortes de amor compostas por trovadores
franceses (CHICOTE, 2007, p. 347-348). No segundo livro do Tratado do Amor
Cortês, André Capelão atribuiu àquelas damas distintas da sociedade feudal a
resolução dos julgamentos do amor. No segundo julgamento, Alienor aprovou o
ato de um enamorado como parte da essência do amor cortês. Ele simulou
estar apaixonado por outra mulher para avaliar a lealdade de sua amada dama,
que por sua vez, queria impedi-lo de usufruir de suas carícias. Ela deliberou
que “está pecando contra o próprio amor aquela que, por essa razão, se
recusar a acolher o amante em seus braços, a menos que uma prova evidente
mostre ter ele violado a fé que lhe prometeu” (CAPELÃO, 2000, p. 234-235).
Adélia de Champagne, a terceira consorte de Luís VII, também se dedicou à
poesia lírica. Na deliberação XIX, Adélia de Champagne advertiu uma dama
que recebeu presentes de um cavaleiro sem lhe dar as esperanças de seu
amor. Trata-se de uma conduta indecorosa no jogo do amor cortês e, portanto,
ela estendeu suas resoluções. O fragmento seguinte expressa essa ideia. “Ou
a dama recusa os presentes que lhe foram oferecidos para a obtenção de seu
amor ou concede o amor como compensação; se não fizer isso, deverá aceitar
sem queixas ser classificada entre as cortesãs” (CAPELÃO, 2002, p. 246).
Isabel Vermandois, a condessa de Flandres e cônjuge de Filipe de Flandres
era sobrinha de Alienor da Aquitânia e prima de Maria de Champagne; ela
também demonstrou empenho na doutrina amorosa, deliberando a sentença
XII, na qual reprovou a infidelidade de um amante no jogo do amor cortês. Nas
palavras de Capelão: “Um homem, já comprometido numa ligação perfeita,
pede instantemente o amor de outra dama, [...] obtém dela tudo o que seu
coração deseja, [...] mas, depois [...] solicita os favores da primeira e afasta-se
da segunda” (CAPELÃO, 2000, p. 240). A condessa de Flandres apresentou a
seguinte resolução: o amante deve ser destituído do amor de ambas as damas
e, posteriormente, a toda possibilidade de amar uma mulher de importância.
Por fim, André Capelão explorou o conhecimento das mulheres da região
occitana localizada no Sul da França, tratando-se das damas que compõem o
concílio de Gascogne e de Ermengarda, viscondessa de Narbonne
(BURIDANT, 2000, p. 22). As mulheres da Gascogne se reuniram para analisar
o caso de um cavaleiro que revelou suas confidências amorosas. Para a
cavalaria do amor, era importante que as relações afetivas fossem preservadas
em silêncio para que não estivessem destinadas ao fracasso. Logo, as damas
condenaram o amante como imprudente e estabeleceram a seguinte sentença:
“esse indivíduo passaria a ser privado de qualquer esperança de amor e
considerado indigno e desprezível por todos, em qualquer corte de damas ou
de cavaleiros” (CAPELÃO, 2000, p. 245). Na deliberação onze, a viscondessa
144
Ermengarda de Narbonne penalizou uma dama por recusar um amante em
razão das suas imperfeições corporais determinadas pela guerra. Ela
estabeleceu que a bravura em batalhas deveria despertar o amor nas mulheres
e não acabar com ele (CAPELÃO, 2000, p. 243).
Considerações finais
Os estudos sobre a História das Mulheres no Medievo apresentam inúmeras
possibilidades de abordagens e de fontes, as quais são importantes para o
conhecimento das experiências históricas medievais femininas, sendo possível
(re)pensar a história do mundo feminino nesse período. Pesquisamos os
ensinamentos das personagens históricas e do grupo social nobre, para tornar
íntegro o entendimento a respeito do conjunto de práticas e comportamentos
relacionados ao amor cortês no contexto do Feudalismo. Muitas vezes, no
ensino de História Medieval, o enfoque desse conteúdo permanece direcionado
para figuras masculinas como trovadores, nobres, cavaleiros e clérigos
seculares, esquecendo as particularidades do mundo feminino. O amor cortês
foi representado pelas mulheres nobres como praticável ao moderar a
idealização entre os amantes e ao considerar os requisitos apresentados em
um conjunto de normas ao longo do Tratado do Amor Cortês.
Referência biográfica
Juliana Caroline de Souza Araújo é graduanda do Curso de História da
Universidade de Pernambuco/campus Petrolina e integrante do Spatio Serti –
Grupo de Estudos e Pesquisa em Medievalística (UPE/campus Petrolina).
Atualmente realiza seu projeto de Iniciação Científica como bolsista
da
Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco
(FACEPE) sob a orientação do Prof. Dr. Luciano José Vianna, cujo título é “A
representação do amor cortês entre os grupos sociais femininos no Tratado do
Amor Cortês (C. 1186) de André Capelão (1150-1220)”.
Referências bibliográficas
Fontes
Tratado do Amor Cortês. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
Bibliografia
ASSMANN, Jan. Collective Memory and Cultural Identity. New German
Critique, 65, p. 125-133, 1995.
BLOCH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa: Edições 70, 2001.
BREISACH, Ernst. Sobre el futuro de la Historia. El desafío posmodernista y
sus consecuencias. València: Publicacions Universitat de València, 2009, p.
237-244.
145
BURIDANT, Claude. Introdução. In: CAPELÃO, André. Tratado do Amor
Cortês. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CARVALHO, Ligia Cristina. Relações de poder na Idade Média Central no
Tratado do Amor Cortês de André Capelão (século XII). Tese (Doutorado em
História) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras,
Programa de Pós-graduação em História. São Paulo, 2017.
CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações. Trad.
Maria Manuela Galhardo. Lisboa: DIFEL,1988, p. 13-28.
CHICOTE, Gloria. El amor cortés : otro acercamiento posible a la cultura
medieval. III Jornadas de Estudios Clásicos y Medievales, 12 al 14 de
septiembre de 2007. [s.l.: s.n.], 2007. Disponível em:
<https://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/libros/pm.310/pm.310.pdf>.
GEARY, Patrick. Memória. In: LE GOFF, Jacques e SCHMITT, Jean-Claude
(eds.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Vol. II. São Paulo: EDUSC,
2002, p. 167-181.
KLAPISCH-ZUBER, Christiane. Introdução. In: História das Mulheres. A Idade
Média. Organizadores: Georges Duby e Michelle Perrot. Porto: Edições
Afrontamento, 1992, p. 9-23.
NASCIMENTO, Maria Filomena Dias. Ser Mulher na Idade Média. Textos de
História, v.5, n.1, p. 82-91, 1997.
PERNOUD, Régine. A mulher no tempo das catedrais. Tradução: Miguel
Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1984.
SCOTT, J. História das Mulheres. In: Peter Burke. (Org.). A Escrita da História:
Novas Perspectivas. Trad.: Magda Lopes. São Paulo: Unesp, 1992, p. 63-95.
146
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BBB 20: UM
REFLEXO DA SOCIEDADE
Ketherine Acosta dos Santos e Felipe Lucas Fagundes
Desde as culturas mais primitivas, das que vivemos hoje em dia, o ser humano
tem a necessidade de representar o seu cotidiano, as coisas que vivencia
diariamente, de forma artística, como por exemplo, pinturas rupestres e teatros.
Que por sua vez o teatro grego foi um dos ápices de tais manifestações assim
consolidando a tão famosa tragédia grega, admirada por entusiastas e
estudiosos até os dias atuais.
“Desde a Antigüidade, temos notícia da necessidade de o ser humano
representar seus dramas pessoais, suas vicissitudes existenciais ou,
simplesmente, os fatos comuns do seu cotidiano. O teatro grego foi, por
excelência, a manifestação máxima de tal necessidade, conduzindo a
encenação das famosas tragédias que, até os dias de hoje, são admiradas por
milhares de espectadores.” (BRANDÃO e BERTHOLD apud MILLAN, 2006, p.
191).
Com o desenvolvimento da tecnologia e a evolução dos tempos, essas
representações foram ganhando novas roupagens, como por exemplo,
exibições em grandes telas de cinema, em rádios, na televisão e atualmente
podemos ver que na internet, “a combinação de enredo, imagem e
representação ganhou novas roupagens através do cinema, da televisão e,
mais recentemente, do computador” (MILLAN, 2006, p. 191).
Já na atualidade, o programa Big Brother Brasil é o reality mais assistido em
nosso país. O programa teve seu idealizador o holandês John de Mol, que quis
criar uma espécie de jogo, onde seus “fantoches” eram enclausurados e
submetidos a provas que causasse pressões psicológicas, além de exercitarem
a convivência com várias pessoas enclausuradas no mesmo lugar. E aqueles
que as realizassem com êxito, conseguiriam manter-se no jogo.
“Quando John de Mol teve a ideia de criar um jogo em formato de programa
televisivo onde os participantes ficariam confinados, sendo submetidos à
pressão psicológica e a provas de sobrevivência que garantiriam seu sustento
no jogo. E isso sem contar que todos eram obrigados a exercitar a arte da
convivência para manter a civilidade com os concorrentes, que eram também
seus colegas de confinamento.” (NIVINHAJO, 2019)
Sendo assim, vemos e compreendemos a trajetória de um programa e ou um
anseio social que se compreende enraizado no ser humano. Passando do
simples ato de pintar o dia a dia até a gravação de um grupo enclausurado
147
para a diversão momentânea de um nicho social. Obviamente que o ganhador
desse grupo geralmente leva uma quantia satisfatória em dinheiro,
compensando todo seu esforço.
Big Brother Brasil
Logo após o lançamento de “Big Brother” ele difundiu-se pela Europa, com
inúmeras roupagens e nomes semelhantes, não demorando muito para chegar
às Américas. “Não demorou muito para o projeto do Big Brother avançar além
das fronteiras da Europa e chegar à América. Primeiramente chegou à América
do Norte, onde foi um sucesso absoluto de audiência. Depois foi a vez de
chegar ao Brasil.” (NIVINHAJO, 2019)
Como vimos anteriormente, o Reality teve várias inspirações de outros
programas com as mesmas características como já foi abordado. Também
tiveram obras nas quais o programa foi baseado. O formato do programa pode
ser visto também na obra de George Orwell, intitulada de 1984. Tal obra trata
de uma sociedade em que a população é controlada e observada por espécies
de câmeras, sendo impossível qualquer contestação ao governo totalitário que
ali está estabelecido. Podemos perceber a semelhança no slogan que seria “O
Grande Irmão está de olho em você”, que é exatamente o que acontece no
programa e em sua versão brasileira encabeçada pela Rede Globo.
“Na história, todos os cantos públicos e privados estão ligados às “teletelas”,
uma espécie de câmera capaz de monitorar, gravar e espionar a intimidade da
sociedade — assim como acontece na casa do Projac, que abriga todo ano os
participantes do reality. Escrita no século 20, a obra reflete uma crítica ao
totalitarismo, já que os moradores não poderiam, de forma alguma, contestar o
sistema criado pelo regime.” (LOURENÇO, 2020)
Como já visto anteriormente, o Reality Show foi criado pela empresa holandesa
Endemol no final do século XX e chegou ao nosso país com o nome de Big
Brother Brasil, no início do século seguinte. Tendo como apresentadores no
Brasil, primeiramente, o ilustre Pedro Bial e a atriz Marisa Orth. Porém tal
parceria durou apenas o ano de estreia do programa.
“Ao lado de Pedro Bial, a atriz Marisa Orth apresentou a primeira edição do
programa. Essa foi a única participação da atriz. A partir da segunda
temporada, o programa passou a ser comandado apenas por Pedro Bial. O
apresentador permaneceu à frente da atração até a edição atual (Big Brother
Brasil 13).” (DE FARIAS; DOS SANTOS, 2013, p. 5)
O BBB é organizado em uma estrutura simples que põe a população nacional
como um dos protagonistas do futuro do programa, dando a sensação de que
eles são os responsáveis pelo que assistirão dali para frente. Levando em
conta que os "Brothers" são assistidos diariamente e todos os seus atos
gravados e televisionados, para que os mesmos possam permanecer na casa
148
devem satisfazer os anseios da população, como muito bem afirmado por
Marion Minerbo.
“O BBB dispensa maiores apresentações: mesmo quem nunca assistiu, tem
uma ideia do que se trata. O programa se estrutura em torno de um suspense e
da participação do público, que vota semanalmente em quem será excluído, ou
melhor, em quem irá para o paredão. Para que o público possa votar, a
atuação dos participantes no dia-a-dia do programa é decisiva.
Aparentemente,
estão apenas conversando, namorando, fazendo ginástica, indo a festas.”
(MINERBO, 2007, p. 153)
Contudo, com o mundo cada vez mais digital e com cada vez mais acesso à
internet por parte dos espectadores, a Rede Globo sentiu a necessidade de ter
um portal na Internet. Usando essa nova ferramenta, como por exemplo, para
difundir e distribuir seus programas e afins.
“Independente dos percalços sofridos pela Globo nos últimos anos, o processo
de convergência digital das mídias continua sendo uma prioridade. Entretanto,
como o foco agora está na produção de conteúdo, a busca por canais
alternativos para distribuí-lo passa a ser crucial para o grupo. Dentro deste
contexto, o seu portal na internet Globo.com adquire uma importância
fundamental. “(CAMPANELLA, 2007, p. 6)
Ao longo dessas 20 edições, o programa se modificou inúmeras vezes em
diferentes aspectos desde sua origem. Para celebrar a vigésima temporada do
Big Brother Brasil os produtores decidiram que iriam trazer ao programa, não
apenas pessoas anônimas, mas também famosos atores e atrizes, atletas,
influenciadores digitais, artistas em geral, porém trazendo como sempre
pessoas desconhecidas da sociedade. O time dos famosos era composto por
alguns influenciadores digitais, cantores e atores consagrados como Babu
Santana.
“Quando o elenco do BBB 2020 foi confirmado a suspeita se concretizou. Com
uma aposta na renovação do formato, a edição do programa contou com a
presença de dois grupos distintos de confinados: Camarote e Pipoca. O
primeiro grupo reunia influenciadores digitais, cantores, atores e atletas
convidados a participar do programa pela própria produção; no segundo grupo
estavam os “anônimos”, participantes que se inscreveram para entrar na casa
do ``BBB''. (KARHAWI,2020,p.5)
Podemos deduzir que tal proposta nova, da mescla entre famosos e não
famosos foi um sucesso. Na matéria do dia 31 de março do ano corrente, foi
publicada em uma das plataformas online da Rede Globo a seguinte manchete,
“Recorde de votação: BBB 20 tem mais de 1,5 bilhão de votos no décimo
Paredão”.
Tal manchete refere-se ao décimo paredão da edição de número vinte do
programa, sendo disputado entre o arquiteto Felipe Prior, a atriz Manu Gavassi
149
e a influenciadora digital Mari Gonzalez. Tal momento ficou marcado com mais
de um milhão de votações divididas entre os três “Brothers”. Na ocasião, o
arquiteto Felipe teve de deixar a casa.
“O programa desta terça-feira, 31/3, foi marcado por muita emoção. O décimo
Paredão do BBB 20 bateu o recorde de todas as edições, alcançando a marca
de 1.532.944.337 votos, com a disputa pela permanência no jogo
entre Felipe, Manu e Mari.Na ocasião, quem recebeu mais votos no BBB e,
assim, deixou o reality show foi Prior. (GSHOW, 2020)”
Tendo tal momento ficado marcado na história do Big Brother Brasil, como o
paredão com maior número de votos de todos os tempos. Porém, o segundo
lugar também acabou sendo na mesma edição do programa. Tal paredão
estava a advogada criminalista Gizelly, o modelo Guilherme e o hipnólogo
Pyong Lee, gerando quase meio milhão de votos.
Podemos perceber com tais pontos que foram abordados no texto acima, que
vemos um sistema pré-definido de um sucesso extremo. Está tão consolidado
e desenvolvido que a cada ano compreende uma ascensão maior, mas a
dúvida que fica é: Como o programa trata a violência contra a mulher?
Posicionamento do Big Brother Brasil
O reality show Big Brother Brasil já se tornou um marco na televisão brasileira,
por trazer o cotidiano da vida real para a ‘telinha’. Com isso o problema da vida
real também vem junto e mostra para os telespectadores, o ser humano na sua
face mais verdadeira. Neste subcapítulo deste trabalho será mostrado através
de oito cenas como o programa e os participantes se posicionaram diante dos
relacionamentos abusivos dentro do Big Brother Brasil.
Primeiramente será analisado como um relacionamento abusivo dentro do
programa, chegou ao nível de agressões físicas e como foi a decisão do
programa sobre este ocorrido. Assim, serão utilizados quatro diálogos para
demonstrar todo esse processo, desse caso que ocorreu na décima sétima
edição do programa.
Cena 1: Após uma festa na casa, o casal discute em após uma pergunta da
Emilly Araújo sobre quem ganharia o programa e o mesmo responde que quem
decide é o público. Após a jovem dizer que isso foi a gota da água e queria
terminar. Até esse momento o cirurgião estava levando na brincadeira, até que
ele encurrala ela na parede e gritando acontece o seguinte diálogo:
Marcos: Presta atenção! Você só está comigo por que eu quero que você
ganhe? É isso?
Emilly: Não é isso.
https://gshow.globo.com/realities/bbb/
https://gshow.globo.com/artistas/felipe-bbb20/
https://gshow.globo.com/artistas/manu-gavassi/
https://gshow.globo.com/artistas/mari-gonzalez-bbb20/
150
Marcos: Presta atenção, Emilly!Você tem que ficar comigo independente de
quem eu ache que tem que ganhar!
Emilly: Não é isso, é a tua atitude!
Marcos: Presta atenção, Emilly!Presta bem atenção!Você tem que ficar
comigo independente de quem eu ache que tem que ganhar! Você tá me
ouvindo?
Cena 2: Durante uma conversa no sofá da parte externa da casa sobre uma
discussão anterior. O cirurgião aperta a mão de Emilly e a mesma desfere um
tapa na mão dele e desabafa sobre os machucados.
Emilly: Marcos eu te ofendi? Para de apertar minha mão! Para de me apertar!
Marcos: Essa forma (Emilly interrompe ele)
Emilly: Chega! Para de me apertar! Para de me machucar! Para com isso!
Na cena 1 o rompante de raiva do cirurgião plástico é um dos momentos mais
chocantes durante a relação do casal no programa. Esse surto que se deu do
nada, pois dois segundos antes o mesmo estava rindo da discussão e levando
tudo na brincadeira.O mesmo deixou a estudante claramente acuada em uma
parede e seguiu gritando e apontando o dedo na cara da mesma sem o menor
controle. Já na cena 2 o casal discute de forma mais branda e Marcos
continua apertando a mão de Emilly que reclama disso. A jovem claramente
está cansada dos machucados que o mesmo a fez durante todo esse período.
Isso é um sinal do quanto o emocional da participante está abalado. Essas
duas cenas e o apelo popular foram peças chaves para que o programa
tomasse uma atitude que resultaria na expulsão.
Cena 3: Emilly é chamada ao confessionário do programa, onde uma
advogada explica que ela tem direitos e pode solicitar medidas protetivas sobre
o Marcos. A advogada também explica que solicitou ao médico para fazer o
exame físico sobre as agressões. Emilly então mostra os seus machucados
anteriores para o médico.
Médico: Houve alguma coisa que pudesse machucar você?
Emilly: Lembra aquele roxo que te falei no meu braço? Foi o Marcos que fez.
Já saiu, ainda tem um pouquinho aqui.
Médico: É, ainda tem um pouquinho ainda. (Pede para advogada) Tira uma
fotografia pra mim. Isso foi um apertão?
Emilly: È ele me apertou.
Advogada: Foi um beliscão né.
151
Médico: Foi um beliscão, isso?
[...]
Essa cena ocorreu depois da briga da cena 1, o programa resolveu tomar uma
atitude após o apelo popular, pois no regulamento do programa agressão é
passível de expulsão. Essa conversa entre a participante e o médico e a
advogada da instituição só ocorreu na tarde de 10 de abril sendo que a briga
anteriormente citada foi na madrugada do dia 9. Antes disso, o programa só
tinha chamado Marcos ao confessionário para ser chamado a atenção sobre
essas atitudes agressivas. Após a viralização da hashtag #MarcosExpulso é
que o programa resolveu agir mais firmemente. Essa pressão da população se
deu ao fato que os telespectadores se sentirem atingidos por essa ação, como
confirma Martins (2009) a televisão cria programas para que a sociedade se
identifique neles.
Cena 4: Na edição diária na noite do dia 10 de abril, o apresentador Tiago
Leifert confirma a expulsão de Marcos Harter do programa.
Apresentador: Queria começar o programa continuando uma conversa que
começou ontem, o caso Marcos e Emilly. As imagens que a gente assistiu e
tudo que a gente viveu neste fim de semana. Um caso que a gente analisou
profundamente e o caso foi concluído agora a pouco. Então eu gostaria de
comunicar o que a gente decidiu. O BBB, como vocês sabem, é um programa
de entretenimento, que a gente faz para divertir vocês. Só que muitas vezes o
programa reflete a vida como ela é. E, como na vida, decisões fortes e firmes
precisam ser tomadas quando os fatos as justificam. Hoje de tarde, a gente
recebeu a delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher que
nos solicitou as imagens das discussões entre Marcos e Emilly. A delegada
instaurou inquérito para apurar uma possível agressão física. Com base nesse
inquérito, tivemos uma nova conversa profunda com Emilly, inclusive com
exame médico. Desde o primeiro momento, desde que tudo aconteceu, a
Globo agiu firmemente, incansavelmente. A gente envolveu advogados,
especialistas, psicólogos, conversamos muito para tomar uma decisão correta,
uma decisão justa. Na conversa de hoje, ficaram comprovados indícios de
agressão física. E, no BBB, agressão gera expulsão. A decisão foi tomada.
Marcos está eliminado do BBB17.
Nesta cena o apresentador confirma a expulsão do participante Marcos Harter
do programa, refletindo que o programa acaba refletindo a vida como ela é e
com isso certas decisões mais fortes precisam ser tomadas. Com esse
pronunciamento a emissora ofereceu todo o suporte a jovem e isso acabou
confirmando as agressões físicas e isso gera expulsão. O programa encerra o
caso desse casal e segue em frente porque o jogo tem que continuar.
Para terminar a análise nesse subtítulo, foi analisado como um relacionamento
abusivo não chegou até o ponto de agressão física mas pode mudar uma
152
pessoa totalmente através da agressão psicológica. E que mesmo não tendo a
intervenção da direção do programa, o público acabou fazendo essa “justiça”.
Para isso foi usado quatro diálogos para exemplificar esse caso, que ocorreu
na vigésima edição do programa.
Então como podemos observar, no desenvolvimento do texto, apresenta-se
dois grandes pólos, sendo o primeiro a necessidade do entretenimento e o
segundo como lidar com uma situação de violência em rede nacional.
A necessidade, como já explicado, é provinda e carregada com os seres
humanos, desde nossos primórdios. Trazemos conosco tal identidade, e sendo
assim com diferentes adaptações e evoluções durante as eras, resultou a
criação dos reality shows.
E por último, tendo em vista que a pesquisa está em desenvolviment, vemos e
compreendemos, que existe uma necessidade, de não só mostrar e
exemplificar, a violência contra a mulher, que muitas vezes é representada nos
programas de entretenimento. Mas trazer à tona, por em pauta, discutir e punir,
toda e qualquer violência ou agressão, além das discriminações e todas ações
contra a vida e o bem estar da comunidade.
Referências biográficas
Felipe Lucas Fagundes, especialista em história do Brasil pelo Instituto
Pedagógico de Minas Gerais, licenciado e bacharel em história pelo Centro
Universitário da Região da Campanha e graduando em licenciatura em filosofia
pelo Centro Universitário Internacional.
Ketherine Acosta dos Santos, bacharel em jornalismo pelo Centro Universitário
da Região da Campanha, tendo participado de diferentes eventos, nacional e
internacionalmente, trabalhando com a representatividade feminina, em
diferentes perspectivas e momentos, como na arte cemiterial e agora nas
nossas grandes telas.
Referências bibliográficas
BARROS, José D’Assunção. “História e memória – uma relação na confluência
entre tempo e espaço” in MOUSEION, vol. 3, n. 5, Jan-Jul, 2009, p. 37.
BUENO, André. A tradição histórica chinesa, 2004. Disponível em:
http://sinografia.blogspot.com/2007/07/a-tradicao-na-historia-chinesa-
novembro.html
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Galileu. Disponível em:
<https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2020/01/big-brother-como-o-
conceito-de-george-orwell-aparece-na-cultura-pop.html>. Acesso em: 27 jul.
2022.
153
CAMPANELLA, Bruno Roberto. Perspectivas do cotidiano: um estudo sobre os
fãs do programa Big Brother Brasil. Tese (doutorado comunicação e cultura),
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2010.
DE, Recorde. Recorde de votação: BBB20 tem mais de 1,5 bilhão de votos no
décimo Paredão. Gshow. Disponível em:
<https://gshow.globo.com/realities/bbb/bbb20/casa-bbb/noticia/recorde-de-
votacao-bbb20-tem-mais-de-15-bilhao-de-votos-no-decimo-paredao.ghtml>.
Acesso em: 27 jul. 2022.
DE FARIAS, Mayara Wasty Nascimento; DOS SANTOS, Ronaldo Bispo. Muito
além da televisão: A Transmidiação no Site do Big Brother Brasil 13. In: XV
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Mossoró. 2015.
KARHAWI, Issaaf. Notas teóricas sobre influenciadores digitais e Big Brother
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MINERBO, Marion. Big Brother Brasil, a gladiatura pós-moderna. Psicologia
USP, v. 18, n. 1, p. 153–158, mar. 2007.
LEI-TZu. Tratado do Vazio Perfeito. São Paulo: Landy, 1999.
MILLAN, Marília Pereira Bueno. Reality shows: uma abordagem psicossocial.
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NIVINHAJO NIVINHAJO. Como surgiu o Big Brother Brasil?
Administradores.com. Disponível em:
<https://administradores.com.br/artigos/como-surgiu-o-big-brother-brasil>.
Acesso em: 27 jul. 2022.
154
MEMÓRIAS E MULHERES NEGRAS E EDUCAÇÃO
Leila Carla Antunes Novaes e Jaqueline Ap. M. Zarbato
O presente trabalho relata um breve resumo sobre a importância do ensino da
cultura afrobrasileira nas escolas, sobre acesso escolar da população negra,
especialmente as mulheres, a lei 10639/03, a representatividade negra
feminina através dos espaços de memórias, assim como as metodologias que
podem ser utilizadas por professores em sala de aula para o ensino da história
e cultura africana e afro-brasileira enfatizando o papel da mulher negra e suas
contribuições sociais e culturais.
Baseando-se em Veiga (2008), durante os primeiros 60 anos do século XX, a
trajetória da educacional brasileira era vista como algo destinado a alta
sociedade, os estabelecimentos de ensino eram considerados de excelência,
as vagas eram disputadas por provas de seleção e as escolas frequentadas
por pessoas oriundas da classe média a alta. Dessa maneira, o número de
pessoas de classe baixa, principalmente das mulheres, era bem limitado e
praticamente inexistente, quando pensamos sobre essa inexistência,
destacamos que isso ocorria por diferentes motivos, incluindo uma sociedade
escravista, as diferenças de acesso escolar entre brancos, pardos e negros,
além do sexismo, quando se trata das mulheres.
Em 1961, ocorreu um pequeno avanço relacionado a temática racial, com a Lei
4.024 de 20 de dezembro de 1961, a Lei das Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, que relatou sobre o preconceito racial, e condenou “qualquer
tratamento desigual por motivo de convicção filosófica, política ou religiosa,
bem como a quaisquer preconceitos de classe ou de raça”. E nas Leis de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional dos anos 1968 e 1971, o mesmo
texto foi mantido, mas não surgiram outras alusões ao tema racial, muito
menos citam as mulheres.
Esse cenário começou a mudar somente a partir da Lei 10.639/03, que
sancionou o dia 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra, e
que tornou obrigatório o ensino de cultura afro-brasileira em escolas oficiais e
particulares, buscando possibilitar ao negro o orgulho e o conhecimento da
sua trajetória e cultura afro, além do reconhecimento, por parte do restante da
população, das contribuições históricas e culturais negras para
a nossa
sociedade, como: costumes, religiões (candomblé e umbanda), tradições
(culinária - cheia de pratos e ingredientes que se originaram da cultura africana,
como o acarajé, o vatapá, o abará e o caruru), danças (capoeira, samba,
axé, coco e o maracatu), além da sua herança na constituição de diversos
dialetos da língua portuguesa, decorrentes do contato do português europeu
com as línguas africanas.
155
O ambiente escolar juntamente com os museus, são espaços socializadores e
educativos que abrem possibilidades ímpares de debates e discussões sobre
diversos temas, um deles de suma importância é a diversidade etnica e cultural
dos povos brasileiros.
O corpo docente escolar, através de métodos de ensinos e espaços formais e
de memórias, deve estimular comportamentos de respeito e solidariedade com
outras culturas, desenvolvendo uma educação baseada no respeito para com o
outro, levando os educandos a compreender a diferença de cada, o valor de
cada um desses indivíduos e da sua identidade, independendo da sua situação
financeira ou da cor de pele.
Munanga (2005) salienta a importância do ensino da história da africana e do
negro na sociedade e na escola brasileira, e deixa nitido que na escola a vida
dos alunos e professores é envolto em ações preconceituosas, e esse mesmo
ambiente é um local para alcançar à cidadania, como também é considerado
um ambiente de exclusão social, por isso, a importancia de mesclar o ensino
formal escolar com os espaços museológicos.
Complementando as palavras acima, Manuel Jacinto Sarmento em uma
entrevista para o Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade
Contemporânea (NEPESC) no ano de 2015, disse que toda crianças possui em
algum grau, preconceitos e atitudes racistas e de exclusão, e ainda, que
estudos multiculturais salientam a grande capacidade das crianças em
apresentarem comportamentos cruéis, diante do outro, contudo, também é
possível presenciar a mesma criança que ofendeu, em seguida ser capaz de
acolher a outra com um abraço e um beijo como se fossem os melhores
amigos do mundo, e que existem pesquisas que demostram e relatam sobre
esta flexibilidade: “onde existe insulto racista e exclusão, logo existe a
possibilidade da compreensão para além do preconceito”, entra aqui a
importância da figura adulta do professor, o qual deve assumir a
responsabilidade profissional e educadora, aquele que compreende a
realidade e agiliza a sua alteração, fortificando o sentimento de consciência,
evidenciando e recriminando as atitudes excludentes e racistas.
Sabe-se que é na infância que se inicia a formação de personalidade e caráter,
como também é nesse período que as crianças desenvolvem confiança,
segurança e otimismo. Portanto, entende-se que a história e cultura africana,
juntamente com a questão racial precisar ser narrada de diversas maneiras no
Ensino fundamental I, com intuíto de oportunizar a formação de cidadãos
conscientes que valorizem a diversidade.
Como são apresentadas as representações femininas negras na história
brasileira no Ensino Fundamental I? Como estender as práticas pedagógicas
para contemplar uma aprendizagem significativa que destaque a importância
do papel delas para a sociedade?
156
A a escola possui o dever de proporcionar em seu currículo uma completude
emancipatória que tenha consideração pela cultura e a linguagem dos grupos
populares, e propicie o convívio com diferentes grupos étnicos e culturais,
levando as crianças a refletir sobre as questões raciais, discriminação,
diversidade étnica e o respeito mútuo, sendo isso posível através de espaços e
instrumentos de memórias.
Quando se trata da história afrodescentes, a mulher negra, pouco ou
praticamente não é citada, muito menos em um papeis de destaque,
geralmente quando é citada, não consideram seu intelecto, mas estando em
posições subalternizadas estereotipadas de escravas, ou através de seu corpo
sexualizado.
Sendo assim, percebe-se que os espaços museológicos podem possibilitar a
reflexão sobre a presença e protagonismo da mulher negra na sociedade, sua
contribuição cultural e educacional na construção da nossa história, e, pensar a
museologia a partir de uma perspectiva de gênero é um grande desafio, sendo
importante lembrar que é errônea a equiparação de “gênero” com “mulheres”.
Segundo Aida Rechena: gênero esta relacionado à “construção social da
masculinidade e da feminilidade e engloba um complexo sistema de relações
que ultrapassa em muito a relação homem/ mulher”. (RECHENA, 2014, p. 154)
E, portanto, a pluralidade cultural com destaque das figuras femininas deve ser
um tema buscado pelos docentes, pois, quando se valorizam as contribuições
culturais de todos, existe uma enorme possibilidade de inclusão e educação
para a tolerância.
Zarbato ressalta: “os conteúdos relacionados a história e cultura africana, afro-
brasileira descrita nos currículos pretende destacar as lutas e as contribuições
desses povos na formação da sociedade brasileira. Permitindo o entendimento
da contribuição dos diferentes grupos culturais, assim, a experiência contribuiu
para que as crianças passem a ter uma nova compreensão acerca dessas
culturas, deixando de lado uma visão romântica, folclórica e permeada de
preconceitos, que comumente vigora quando do trabalho com tal temática na
escola, em especial no ensino de História.” (Zarbato, 2015, p.68)
A escola e museus como meios educativos através da implementação de uma
“pedagogia multicultural” e de uma formação multicultural dos educadores,
pode ser um meio para expor esse grave problema social: o racismo, e ao
mesmo tempo, reunir e agilizar forças sociais para combatê-lo, sabe-se que a
educação escolar sozinha não consegue resolver todos os problemas, porém
ocupa um lugar de destaque nos mais diversos assuntos da sociedade.
Os lugares de memória apresentam um sentido mais amplo e múltiplo que o
nome sugere. Pierre Nora (1993) define lugar de memória: são lugares, com
efeito nos três sentidos da palavra, material, simbólico e funcional,
simultaneamente, somente em graus diversos. Mesmo um lugar de aparência
157
puramente material, como um depósito de arquivos, só é um local de memória
se a imaginação o investe de uma aura simbólica mesmo um lugar puramente
funcional, como um manual de aula, um testamento, uma associação de
antigos combatentes, só entra na categoria se for objeto de um ritual (...) sendo
aspectos que coexistem sempre. (NORA, 1993: 21-22)
Primeiramente para que ocorra a mudança desse cenário, se faz necessário a
modificação do olhar docente, através do reconhecimento e participatividade
das mulheres negras na historiografia brasileira.
O ensino de História tem como um de seus objetivos contribuir com a formação
de um sujeito crítico e autônomo diante de diferentes contextos por meio de
reflexões acerca de relações sociais, políticas, culturais e econômicas em
diversos espaços e tempos. Seguindo essa perspectiva, ensinar nos museus
pode contribuir, na contemporaneidade com a desconstrução de estereótipos,
de preconceitos e silenciamentos sobre o fazer-saber dos grupos africanos e
afro-brasileiros, especialmente das mulheres negras.
Enfatiza-se que “o ensino de História não é uma construção individual, mas
composta por interlocutores que constroem sentidos e se sentem inseridos no
processo histórico, é preciso que o professor faça a diferença, pois se procura
sair do tradicional, dar ao aluno condições de participar do processo do fazer,
do construir a História.” (Zarbato, 2015, p.68)
O artigo 26 da Lei 9394/1996 incentiva mais o quê integração de novos
conteúdos ela visa a reivindicação das relações étnicos raciais para que elas
sejam respeitadas tanto pedagogicamente como seus métodos de ensino
situações de aprendizagem oferecida.
Enquanto professora, percebo essas lacunas sobre os espaços possíveis de
ensinar sobre a contribuição e representação