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1 Louyse Jerônimo de Morais Artrite reumatoide Referência: aula da prof. Germana Ribeiro Introdução A artrite reumatoide [AR] é uma doença autoimune sistêmica crônica e inflamatória, de etiologia desconhecida, embora existam alguns fatores de risco e genéticos envolvidos. O principal sítio de acometimento são as articulações sinoviais. Por se tratar de uma doença sistêmica, pode acometer vários órgãos além das articulações. Ademais, como tem um caráter crônico, não é uma doença que vai ter uma curva, então, uma vez dado diagnóstico, é para tratar para a vida toda. Por fim, é autoimune, porque a sua fisiopatologia vai envolver a imunidade – as células vão atacar elas mesmas, por meio da formação de autoanticorpos e imunocomplexos. Devido ao quadro inflamatório causado por essa doença, no exame físico, ela vai se manifestar por inflamações articulares e deformidades. Epidemiologia • Padrão de distribuição universal • Afeta todas as raças • Mulher > homem 2-3:1 o Mulheres 40 a 60 anos, homens mais velhos. o Tem um tipo específico, que é a artrite reumatoide do idoso. • 1% dos adultos norte-americanos • Prevalência aumenta com a idade A artrite de criança é a artrite idiopática juvenil, a AR só acomete pessoas com mais de 18 anos. Fisiopatologia Não sabemos exatamente o que causa, mas tem alguns indícios de coisas envolvidas, como fatores genéticos, ambientais e produção de autoanticorpos. Fatores genéticos • Regiões do MHC codificadas para genes HLA-DR • Epítopo compartilhado HLA-DRB • Concordância entre gêmeos idênticos 12 a 15% o Sugere fator genético envolvido na doença Existe um conjunto de genes presentes no HLA contido na região MHC, que é basicamente uma parte do nosso DNA responsável pelo reconhecimento de patógenos externos. O MHC tem uma variabilidade muito alta, especialmente nos humanos, conseguindo resistir a vários germes diferentes. Por conta disso, ele também tem falhas, podendo produzir anticorpos que podem atacar as próprias células. Isso não é o normal. As pessoas que têm esse epítopo compartilhado começam a desenvolver fenômenos autoimunes que podem desencadear a AR. Outras doenças também tem envolvimento com HLA, mas são outros genes envolvidos. Fatores ambientais 1. Tabagismo Sabemos que o cigarro vai estimular a produção da enzima peptidil-arginina deaminase [PAD], a qual vai citrulinizar as proteínas, transformando argenina em citrulina. Isso é importante porque a citrulina é muito imunogênica e vai ser reconhecida na região MHC como um agente externo, desencadeando a produção de anticorpos – anticorpo anti-proteínas carbamiladas [ACPA], pois elas vão ser o produto final da reação. Em resumo, o cigarro ativa macrófagos no alvéolo pulmonar, que vai levar à produção de enzimas. Estas últimas vão fazer com que, no sangue, aconteça a formação das proteínas carbamiladas, as quais vão agir na região do epítopo compartilhado, levando à produção desse anticorpo. Vai acontecer ativação da imunidade inata. • ACPA + • Risco dose dependente; 2x para > 20 maços/ano • Persiste 10 a 20 anos após cessar tabagismo O risco é dose dependente, então quanto mais se fuma, maior o risco, uma vez que cessa esse hábito, o risco ainda persiste por 10 a 20 anos. 2. Sílica, poluição ambiental 3. Bactérias em microbiomas mucosos • Porphyromonas gingivalis: doença periodontal gera formação da enzima PAD. • Prevotella: no intestino. Pessoas com muita cárie e doença periodontal vão ter colonização por essa bactéria supracitada, a qual produz a enzima PAD, que vai citrolinizar as proteínas e desencadear o mecanismo imunológico. 2 Louyse Jerônimo de Morais 4. Vírus: EBV, parvovírus B19. Produção de autoanticorpos • Fator reumatoide: é o principal; a diferença dele para o anti-CCP é que este último é mais específico. O fator reumatoide é menos específico e pode estar presente em outras doenças, como hepatite C, neoplasias hematológicas etc. • Anticorpos anti-proteínas citrulinadas e carbamiladas: anti-CCP faz parte deste grupo. Os autoanticorpos vão causar uma resposta imune exacerbada, pelo contato com moléculas do HLA- DR contendo epítopo compartilhado. Com isso, ocorre formação de imunocomplexos, os quais vão se depositar nos tecidos. Todo esse processo pode começar até dez anos antes de o indivíduo apresentar o primeiro sintoma. História natural da doença • Fase pré-clínica: ACPA ou FR até dez anos antes da doença clínica. • Fase clínica: início dos sintomas. Início da doença clínica Os ACPA vão servir como alvos para se ligar nas proteínas carbamiladas que foram produzidas [doença periodontal, tabagismo ou outro fator]. Isso vai fazer com que se formem imunocomplexos [ACPA e FR], os quais vão se depositar nos tecidos, fazendo com que haja ativação do complemento e da cascata da inflamação. • Ativação do complemento • Ativação da cascata inflamatória: aumento da permeabilidade vascular [edema, calor e hiperemia ao exame físico], influxo de células inflamatórias e autoanticorpos, aumenta a produção de PAD. Isso vai ser um ciclo vicioso, com estímulo de produção da enzima PAD, produção de mais autoanticorpos e perpetuação da doença. É diferente da gota, em que as crises são autolimitadas. • Osteoclastogênese, dano ao condrócito, degradação de colágeno: por conta disso, ocorre erosões ósseas, osteopenia, redução da cartilagem, anquilose etc. Esses processos culminam nas deformidades. Fisiopatologia da artrite reumatoide – fatores ambientais [cigarro, doença periodontal] junto com fatores genéticos [epítopo compartilhado] fazem com que haja produção de proteínas citrulinadas. Isso ativa a imunidade inata, induzindo ativação do macrófago, células dendríticas e fibroblastos na sinóvia. Inicia-se, assim, a cascata inflamatória, ativa-se osteoclastos e a sinóvia começa a ficar espessada, produz líquido e gera edema. Por conseguinte, há produção de citocinas, ativação de osteoclastos, do complemento etc. Isso vai se perpetuando, principalmente por ativação de células T e B, que é quem vai produzir os autoanticorpos. Padrão de início típico da doença [90% dos pacientes] 1. Insidioso [55 a 65%] O paciente começa com um quadro de poliartrite simétrica, com poucos sinais flogísticos, que vão piorando com o tempo. Pode chegar no médico já com alguma deformidade presente. • Artrite, dor, edema e rigidez • Número de articulações aumentando ao longo das semanas a meses 3 Louyse Jerônimo de Morais 2. Subagudo [15 a 20%] • Semelhante ao insidioso • Mais sintomas sistêmicos: perda ponderal involuntária, febre, artrite, inapetência, anorexia. 3. Agudo [10%] • Início grave • Sintomas sistêmicos: geralmente vem com acometimento de outros órgãos, como pulmão, coração, vasculite etc. Também tem sintoma articular. Variante de padrão de início 1. Padrão palindrômico [episódico]: menos de cinco articulações, períodos de melhora e agudização espontâneos. Acontece, melhora, depois acontece e melhora. Isso não é normal, porque em geral não melhora sem tratamento. Por conta disso, ficou como um subtipo específico. Pode começar assim e depois evoluir para a forma de AR típica. 2. Artrite reumatoide do idoso: início insidioso, mais dor e rigidez, edema difuso em mãos, punhos e antebraços. Vimos que a artrite reumatoide é uma doença mais comum na mulher, em um período adulto jovem. Contudo, eventualmente, pode acontecer tanto no homem quanto na mulher idosa. No idoso, vem com muito mais edema da mão. A mão do idoso chega toda inchada, porque tem sinovite praticamente em todas as articulações. Além disso, o início é mais insidioso e não tem muito sintoma sistêmico. Articulações mais acometidas • Metacarpo-falangeanas • Interfalangianas proximais: as doenças que acometem as interfalangianasdistais são a osteoartrite e a artrite psoriásica. Nesta última, é porque tem inflamação do leito ungueal. • Punhos As grandes articulações são acometidas após as pequenas, sendo o padrão poliarticular e simétrico. É raro acometer coluna toracolombar, sacroilíacas e interfalangianas distais. Pode acometer outras articulações, como joelhos, cotovelos e ombros. Do mesmo jeito que acomete mão, pode acometer o pé. É uma doença poliarticular, ou seja, acomete cinco ou mais articulações, além de ter um padrão simétrico, mas não significa que vai ser a mesma deformidade de um lado e do outro, porque inclusive tem mão que se faz um esforço maior, por exemplo. Quando acomete coluna, é mais na primeira e segunda vértebra. Caracteriza-se pela formação do pannus, que são projeções vilosas. A sinóvia, que é a região que fica separando uma cartilagem da outra, nas articulações de joelho e mãos, por exemplo, vai ser um sítio primário do processo inflamatório. Como vai ter muita inflamação, a sinóvia inflamada se torna espessada, edematosa e desenvolve projeções vilosas. Algumas pessoas, inclusive, desenvolvem sinovite vilosa, ou seja, formam projeções que ficam parecendo um tumor mesmo, chegando até a sangrar. Essas projeções são capazes de invadir ossos, tendões e ligamentos, causando destruição das articulações. Devido a isso, ocorre erosão do osso e destruição das articulações. A imagem a seguir mostra uma sinóvia bastante espessada e invadindo o osso. Veja que ocorre erosão, destruição da cartilagem do osso, osteopenia e, consequentemente, as deformidades. 4 Louyse Jerônimo de Morais Principais manifestações No exame físico, espera-se encontrar poliartrite, ou seja, acometimento de cinco articulações ou mais, de forma simétrica. Nos quadros mais avançados, vamos ver as deformidades. Hoje em dia, é raro ver isso, porque as pessoas têm diagnóstico precoce e começam a tratar logo. Lembre-se que a deformidade já é o estágio final da doença, quando não tem mais reversão. Mão reumatoide Dedo em botoeira e dedo em pescoço de cisne Dedo em fuso: porque não acomete IFN distal, então fica mais gordinho na base e mais fino na extremidade. • Dedos em Boutonniere ou botoeira ou abotoadura: faz flexão na interfalangiana proximal e extensão na distal. Outros achados são: espessamento sinovial do punho, atrofia de musculatura interóssea das mãos, nódulos reumatoides, muitas deformidades, polegar em Z [hiperextensão da falange distal e flexão da proximal]. • Dedos em pescoço de cisne: é o contrário do dedo em botoeira. Então, ele vai ter extensão da IFN proximal e flexão da distal. Lembre-se que essas deformidades são irreversíveis, ou seja, não muda a posição. Se tiver tudo destruído, incluindo tendão, forma dedo em telescópio. Como a pessoa fica muito parada, vai ter atrofia da musculatura dos enterócitos. Mão em dorso de camelo: aumento de volume do punho e das metacarpofalangeanas, com hipotrofia dos interósseos dorsais. • Mão em dorso de camelo: edema na região do punho e na metacarpofalangeana, dando impressão das duas corcovas do camelo. • Subluxação ulnar: normalmente, a primeira coisa que acontece é o dano aos tendões da região ulnar, gerando subluxação dos ossos do carpo. Quando aperta no processo estiloide, dá impressão que é tecla de piano, isto é, que o punho está solto. 5 Louyse Jerônimo de Morais Embora seja uma doença que, classicamente, acometa as mãos, não é incomum atingir os pés – 33% dos pacientes. Pé reumatoide Acomete principalmente as articulações metatarso-falangeanas. No exame físico, para saber se está inflamado, aperta as duas extremidades do pé. Com isso, o paciente vai referir dor. Squeeze test MTF – sinal de inflamação das metatarso- falangeanas. Se feito na mão, indica inflamação das metacarpo-falangeanas. Além de poder atingir as metatarso-falangeanas, também acomete o médio-pé, isto é, as articulações do tarso. Isso vai fazer com que o paciente tenha anquilose do tornozelo, então ele perde o movimento de dorsiflexão, flexão, inversão e eversão do pé. A tendência é ficar com pé plano. • Dedos em garra e martelo • Envolvimento das articulações tarsais e subtalares: desabamento do arco longitudinal medial, deformidade em valgo. o Começa a aparecer calos, feridas, dificuldade para andar. Pode até ficar de cadeira de rodas, por conta de problema no pé e no joelho. Pé plano valgo reumatoide A artrite reumatoide causa edema na articulação metatarso-falangeana, que também é acometida na gota, mas na AR, inflama quase todas, não só a primeira. Acometimento da coluna cervical • 30 a 50% dos pacientes com AR • Subluxação de C1-C2: é mais na região do processo odontoide, onde C1 se liga com C2. Como essa região também tem sinóvia, ela também pode inflamar. Isso vai culminar em destruição do ligamento e subluxação de C1 e C2. Afasta primeira e segunda vértebra. Quando se faz flexão do pescoço, ele cai, porque não tem ligamento que segura a primeira na segunda vértebra. Chamamos isso de subluxação atlantoaxial. Isso pode gerar compressão medular, apresentando-se com características de síndrome da compressão medular. • Instabilidade • Potencial compressão medular: sintomas neurológicos. É uma fase mais grave. • Dor com irradiação para região occipital: quadro inicial – apenas com inflamação, mas sem luxação. Manifestações sistêmicas • Doença inflamatória crônica: febre, linfadenopatia, perda ponderal involuntária, fadiga. o Normalmente, são linfonodos reacionais – menores que 2 cm, móveis, indolores, 6 Louyse Jerônimo de Morais fibroelásticos. Em geral, na região do pescoço. Nódulos reumatoides • Subcutâneos: é diferente do tofo da gota, porque este se apresenta com consistência dura, parecida com a do osso, já o nódulo reumatoide é mais fibroelástico. • Área central com necrose fibrinoide • 20 a 35% dos pacientes com AR: quando está presente, indica doença mais grave, geralmente com autoanticorpos positivos. o Associado com fator reumatoide positivo e doença grave. • Locais mais comuns: superfícies extensoras dos antebraços, bursa olecraneana O nódulo reumatoide, depois que se instala, pode aparecer em outros lugares e não some. Outra doença que pode dar nódulos é a febre reumática, mas os nódulos da febre reumática só aparecem durante a crise, depois somem. Manifestações oculares • Esclerite e episclerite < 1% dos pacientes com AR • Escleromalácia perfurante • Perfuração de córnea é rara Esclerite bilateral em paciente reumatoide apresentando hiperemia ocular localizada à direita no quadrante inferior e à esquerda no aspecto temporal do olho. A esclerite e a episclerite se apresentam, geralmente, da mesma maneira, isto é, com hiperemia conjuntival, dor ocular com fotofobia e sensação de corpo estranho no olho. • Episclerite: é mais superficial e pode ser tratado com colírio. • Esclerite: é mais profundo e gravíssimo. Pode evoluir com escleromalácia – afinamento da esclera, podendo perfurar, sair o conteúdo do olho e evoluir para cegueira. Se a pessoa com AR chegar com olho vermelho, é muito grave, necessitando de avaliação urgente com oftalmologista. • Síndrome de Sjögren: é uma síndrome, que também é autoimune, sendo associada a sintomas secos – olho e boca seca. A principal doença que se associa é a artrite reumatoide, embora também possa se associar com lúpus. O paciente refere sensação de areia no olho, quando chora, não sai lágrima, tem boca seca e cárie de repetição. o Pode gerar perfurações da córnea, por falta de produção de lágrimas. Manifestações pulmonares É um quadro que pode acontecer de forma semelhante ao lúpus, sendo que neste último é bem mais frequente. • Pleurite ederrame pleural: geralmente unilateral e assintomático. É mais um achado de exame de imagem, pois o paciente não tem manifestações clínicas – dor ventilatório-dependente. • Análise do líquido: exsudativo com elevados níveis de proteínas e DHL. • Excluir tuberculose: são pacientes imunossuprimidos. É importante sempre puncionar o líquido e mandar para cultura. 7 Louyse Jerônimo de Morais Nódulos reumatoides Da mesma maneira que pode dar na pele, pode acontecer dentro do pulmão, sendo assintomático, e no coração, dando distúrbios de condução. • Síndrome de Caplan: mineradores de carvão; associação da AR com nódulo no pulmão. • Doença intersticial pulmonar: quadro super específico. Cricoaritenoidite O paciente fica com inflamação na articulação cricoaritenoide, podendo ter rouquidão e estridor, simulando estenose traqueal, mas é só uma inflamação da articulação, porque também tem uma sinóvea ali dentro. Vasculite reumatoide De manifestação sistêmica, podemos ter vasculite reumatoide, que se manifesta de duas maneiras: 1) infarto do leito ungueal [pontinho preto] e 2) necrose extensa [acometimento de médios vasos]. Quem desenvolve isso são pessoas com doença de longa data, mal tratada, com anti-CCP e FR positivo, ou seja, muito autoanticorpo no sangue. Síndrome de Felty • Artrite reumatoide • Leucopenia: às custas de neutrófilos baixos. • Esplenomegalia: ao exame físico ou de imagem. Chegando um paciente portador de artrite reumatoide com neutrófilos baixos, podemos ficar na dúvida entre leucemia e artrite. Então, quando tem esplenomegalia e apenas neutrófilos baixos, fica sugestivo de ser secundário à artrite. Achados radiográficos • A - Alinhamento: anormal, sem anquilose [osso colado um no outro]. o A simetria é um importante critério diagnóstico. o Observar se tem luxação, fratura etc. • B – Bones/ossos: osteoporose peri/justa articular, sem periostite [deslocamento do periósteo; aparece como se fosse um espessamento entre o osso e a parte externa], osteopenia, cistos ósseos. o A osteopenia é uma alteração característica e precoce. No início, é periarticular, mas logo evolui para uma forma mais difusa. o Cistos ósseos: áreas translúcidas subcondrais e se devem à invasão da cartilagem e do osso pelo pannus reumatoide. • C - Cartilagem: redução do espaço articular simétrica [por conta da destruição progressiva da cartilagem articular]. • D - Deformidades e instabilidades: lesões tendíneas, como frouxidão e rupturas. Muitas vezes, têm relação direta com destruição cartilaginosa ou óssea [ex.: protusão acetabular]. • E - Erosões: marginais • S - Soft [partes moles]: edema de partes moles. Traduz acometimento periarticular ou efusões intra-articulares. É uma alteração precoce. Radiografia normal da mão em PA 8 Louyse Jerônimo de Morais Mão reumatoide [incidência PA]: osteopenia periarticular; redução dos espaços articulares das articulações interfalangeanas proximais, das metacarpofalangeanas, dos ossos do carpo e da articulação radiocarpal; erosão periarticular na segunda articulação metacarpofalangeana, cistos ósseos na primeira, segunda e quarta articulações metacarpofalangeanas. [CARVALHO, 2019] O acometimento do punho normalmente não acontece na osteoartrite e, na artrite psoriásica, quando acomete interfalangiana distal, normalmente polpa punho. Líquido sinovial • Inflamatório: contagem de leucócitos entre 5 mil a 50 mil mm3. Se > 50 mil, pensa em artrite séptica – passa ATB e pede culturas. • Predominância de polimorfonucleares [> 50%] • Ausência de cristais • Culturas são negativas Normalmente não tem cristais e a cultura é negativa, porque não é infecção, mas só inflamação autoimune. Exames laboratoriais • Hemograma: anemia da doença crônica, leucócitos normais, plaquetas altas [reagente de fase aguda; todo quadro inflamatório pode dar plaquetose]. • Bioquímica: função renal, hepática e ácido úrico normais. o Às vezes, a pessoa pode ter gota e AR. o Albumina pode ser baixa, porque ela é um reagente de fase aguda negativo. Se baixa, indica doença grave. • Sumário de urina: é normal, diferentemente do LES, que pode ter leucócitos. • VHS e PCR elevados • Eletroforese de proteínas: pico policlonal. • Autoanticorpos o Fator reumatoide: 60 a 80% dos casos; é mais barato e menos específico. o ACPA: anti-CCP – S:57 a 67% e E:93 a 99% [mais caro, porém bastante específico]. o FAN: 30 a 50% dos casos. Não precisa pedir. FR e anti-CCP positivos indicam gravidade de doença, erosões e aumento da mortalidade, mas não se correlacionam com atividade de doença. Se valores altos, correlacionam com doença mais grave. Critérios diagnósticos do ACR/EULAR 2010 Servem para estudo científico. Eventualmente, alguém pode ter a doença, mas ainda não preenche os critérios. 9 Louyse Jerônimo de Morais Obs.: pontuação ≥ 6 e necessária para a classificação definitiva da enfermidade de um paciente como AR. O diagnóstico é dado por: presença de sinovite em pelo menos uma articulação, na ausência de um diagnóstico alternativo que explique melhor a sinovite e na observação de uma pontuação total ≥ 6 [de 10 pontos]. Alguns pacientes apresentam FR negativo, então ele não é um critério obrigatório, mas se positivo, indica maior gravidade. Um outro detalhe é que esses sinais e sintomas precisam estar presentes há, pelo menos, seis semanas, porque se trata de uma doença crônica. Se o tempo for menor que isso, pensa em quadro infeccioso ou reacional. Tratamento O tratamento envolve três coisas. Para tirar da fase aguda, pode-se fazer antinflamatórios ou corticoides. No retorno do paciente ao consultório, ajusta o tratamento, o qual tem alguns objetivos, como controlar a atividade inflamatória e prevenir as deformidades. Por conta disso, chamamos de medicamentos modificadores do curso da doença. • AINES • Glicocorticoides Medicamentos modificadores do curso da doença [MMCD] • Primeira linha: sintéticos convencionais, metotrexato [MTX], leflunomida, hidroxicloroquina. • Segunda linha: biológicos, inibidores de TNF-α, tocilizumab, abatacept, rituxumab o Alvo específico: tofacitibune, baricitinibe e upadacitibinib. o Quem vai passar esses medicamentos é o especialista. 10 Louyse Jerônimo de Morais Fluxograma para tratamento da artrite reumatoide no Brasil. Havendo contraindicação ao MTX, a sulfassalazina ou leflunomida podem ser empregadas. Antimaláricos (hidroxicloroquina/cloroquina) em monoterapia podem ser considerados em quadros com baixo potencial erosivo. As combinações mais utilizadas no Brasil são: MTX + antimaláricos, MTX + leflunomida (com ou sem antimaláricos), MTX + sulfassalazina (com ou sem antimaláricos). A meta do tratamento deve ser alcançar a remissão, conforme critérios ACR/EULAR ou, quando não for possível, a baixa atividade da doença, avaliada por um dos índices compostos de atividade de doença. Não é recomendado o uso de um terceiro anti-TNF após falha das duas opções de anti-TNF. No Brasil, o rituximabe é recomendado, em combinação com MTX, para pacientes que tiveram resposta inadequada ou intolerância a um ou mais anti-TNF. No caso de falha ou toxicidade a um medicamento na terceira linha de tratamento, o próximo passo será trocar para outro (MMCDb ou MMCDsae) listado nesse mesmo nível de complexidade, que não tenha sido previamente utilizado. Fonte: Sociedade Brasileira de Reumatologia [não precisa decorar o tratamento para a prova, saber apenas a etapa inicial] Complicações O que o médico generalista precisa saber? Ele precisa saber das complicações. Deixei marcado em vermelho o que ela reforçou como importante em sala de aula. • Risco cardiovascular aumentado: primeira causa de morte é IAM. Portanto, sempre deixar colesterol nameta, se necessário, associar estatina, orientar atividade física, reabilitação etc., prevenir HAS e DM. • Infecções: segunda causa de morte, pois as medicações usadas no tratamento deixam o paciente imunossuprimido e suscetível a infecções graves. Assim, antes de começar a tratar, sempre pesquisar tuberculose e fazer outras sorologias [hepatite B, hepatite C]. Se quadro sugestivo, suspende o remédio, faz rastreio com testes específicos, depois que exclui e vê que não é infecção, pode reiniciar o remédio. • Síndrome de Sjogren: 20 a 30% • Amiloidose tipo A: a amiloide A também é um agente de fase aguda. Então toda doença inflamatória sistêmica pode dar amiloidose, embora seja mais comum nas artrites da infância. • Osteoporose induzida por glicocorticoide: também bastante comum, porque as pessoas usam CE em alta dose e de forma crônica; acima de 6 meses, já dá risco de fraturas e osteoporose. Portanto, esse paciente precisa fazer reposição de vitamina D, ter dieta rica em cálcio, atividade física e densitometria e radiografia de coluna a cada 1- 2 anos. • Neuropatia por aprisionamento: síndrome do túnel do carpo, por conta da inflamação do punho, com compressão do nervo mediano. Manifesta-se com formigamentos nos dedos. • Envolvimento renal e gastrointestinal associado ao uso crônico de AINES: doença ulcerosa péptica, nefrotoxicidade. • Aumento da incidência de neoplasias: por conta da imunossupressão, principalmente neoplasia hematológica [linfoma]. Diagnóstico diferencial • Artrite reativa • Artropatia induzida por cristais • Outras doenças autoimunes • Osteoartrite