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Linguagem Jurídica Valquiria da Cunha Paladino Aula 7 Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Entenderemos a importância da narração e descrição do fato jurídico e dos fatos importantes para maior entendimento do caso concreto, tendo em vista que o reconhecimento de um direito passa pela análise do fato gerador do conflito (fato jurídico) e a relevância da descrição pormenorizada das circunstâncias em que esse fato jurídico ocorreu para a tipificação da conduta, na busca futura também de atenuantes, agravantes. Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias CONSTRUÇÃO DA NARRATIVA JURÍDICA Fato(s)/ provas/ indícios/ circunstâncias Ordem linear ou cronológica Causa de pedir remota/causa de pedir próxima Formas verbais no passado Discurso indireto: paráfrase Conectores conformativos Terceira pessoa do singular Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Narrar e descrever a cada parágrafo apenas um fato x prova/indício x circunstância Padrão culto da língua Paráfrase: discurso indireto Seleção vocabular Fatos x versões Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Texto 1 Camelôs invadem o centro da cidade e tumultuam a vida do paulistano Revoltados porque a Prefeitura resolveu retirá-los das ruas do centro da cidade, camelôs fizeram ontem manifestação agressiva, destruindo vitrines de lojas e tumultuando o centro da cidade, inclusive ferindo transeuntes. A polícia foi obrigada a apaziguar o tumulto, dispersando os manifestantes. Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Texto 2 Polícia agride manifestantes no centro da cidade Camelôs que foram expulsos de seu local de trabalho nas ruas do centro da cidade fizeram ontem manifestação na região central. A tropa de choque foi chamada para reprimir a manifestação, agredindo vários camelôs, que saíram feridos. Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Texto 3 O réu ameaçava a vítima que, aos gritos, clamava por não ser morta. Ele pediu as joias e, ao ouvir a negativa da vítima, que dizia não possuir nenhuma, não teve dúvida: com frieza desumana, puxou o gatilho do revólver, encostado à cabeça da vítima, prostrando-a no chão sem vida, de forma cruel, por motivo absolutamente fútil. (RODRÍGUEZ, 2002, p.178) Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Texto 4 O réu, no intento de roubar, pediu à vítima joias e dinheiro. Assustado, temeroso e alterado, pois não é bandido profissional, mas incidentalmente cometeu aquele equívoco, quando ouviu a ríspida negação da vítima e, supôs ter ela chance de reação, que por certo poria sua vida em risco, em um ímpeto de emoção e medo apertou o gatilho, temendo por sua sobrevivência. (RODRÍGUEZ, 2002, p.178) Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Texto 6 “A Verdade” Luís Fernando Veríssimo Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho, deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu o seu anel de diamante ser levado pelas águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancara o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margaridas. O pai e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse: Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias - Agora me lembro, não era um homem, eram dois. E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem, e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse: - Então está com o terceiro! Pois se lembrara que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram, e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para espanto dela. _ Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida _ gritaram os aldeões. Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias - Matem-no! - Esperem! - gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca pelo seu pescoço. - Eu não roubei o anel. Foi ela que me deu! E apontou a donzela, diante do escândalo de todos. O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Então a donzela lhe oferecera o anel, dizendo: "Já que meus encantos não o seduzem, este anel comprará o seu amor." E ele sucumbira, pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra. Todos se viraram contra a donzela e gritaram: "Rameira! Impura! Diaba!" e exigiram seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço. Antes de morrer, a donzela disse para o pescador: - A sua mentira era maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade? Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias O pescador deu de ombros e disse: - A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador. (VERISSIMO, Luís Fernando. As Mentiras que os Homens Contam. Rio de Janeiro. Objetiva, 2001) Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias ATIVIDADES CASO CONCRETO 1 Odete é sua grande amiga e ligou pedindo uma orientação jurídica. Segue a história de Odete: Doutor, foi uma tragédia! Eu sei que sou vaidosa - e não é porque eu sou gaúcha, não, porque as cariocas são muito mais, mas na flor dos meus 23 anos é que eu não ia imaginar que eu ia ficar careca, doutor! Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias O senhor sabe que eu sou empregada doméstica, lá no Leblon, no Rio de Janeiro, mas eu moro em Caxias, mesmo. Eu sou doméstica, mas não trabalho há dois anos! Quando o meu cabelo começou a cair, o pessoal achou que eu estava com AIDS e tudo, foi um horror! Meu cabelo caía, parecia de algodão! Não podia sair na rua, todo mundo zoava! Fora que não pude trabalhar, o pessoal achava que eu estava doente, já pensou? Tudo porque eu queria arrasar na festa de aniversário da minha irmã; ela é de câncer e faz aniversário dia 21 de junho, a Claudete. Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Era o ano da Copa, 2014, lembro bem. Aí, eu vou lá na farmácia, no dia 19, em busca de uma tinta que me deixe loura como a Madonna - eu sou fã dela, sabe? Aí eu chego em casa, ansiosa e sonhando com o meu novo visual, e logo aplico a tinta, claro! O funcionário da Perfumaria Márcia, sabe, aquela que fica ali, perto de onde eu trabalhava, na Ataulfo de Paiva, nº 30, não falou nada de teste do toque, senão eu tinha feito, né? Eu lá quero ficar careca, eu hein? Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Quando eu fui lá reclamar, ele chega e diz: "Mulher é um bicho vaidoso mesmo! Não lê o que tá escrito no produto, vai passando logo, querendo ficar igual aos artistas de novela. Dá nisso aí". Anotei até o nome dele: João Amaral - foi ele que me vendeu a tinta. Fiquei furiosa e a minha patroa, na época, falou paraeu falar com o gerente. Eu fui. O nome dele é Leonardo Ferreira. Ele falou: - Veja bem, 24 horas antes da aplicação, deve ser feito um teste de sensibilidade, usando uma pequena quantidade da tintura, para se comprovar uma eventual reação alérgica. É o chamado "teste do toque". Como é que eu ia saber? Custava me dizer isso? Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Depois é que o marido da minha patroa, que é advogado, me disse: - Odete, em 2014, a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro determinou que a Perfumaria Márcia suspendesse a fabricação, comercialização, venda e uso de dois produtos cosméticos: a água oxigenada cremosa Márcia 30 volumes e o lote 30.410 do produto descolorante em pó com proteínas da Seda, "em virtude da fabricação em desacordo com as respectivas fórmulas-padrão registradas na Anvisa". Em seguida, meus patrões me dispensaram, disseram que era porque estavam reduzindo despesas. Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Olha, só sei, moço, que só agora uma amiga, depois de dois anos de muito sofrimento, vivendo dependendo da ajuda dos outros, é que eu comecei a trabalhar de diarista, lá no Leblon mesmo, mas, antes, ninguém me queria, não. Agora o meu cabelo já cresceu um tiquinho e eu não tenho tanta vergonha de sair na rua. Mas eu sofri muito, sabe? O senhor entendeu? Eu guardei a embalagem, com todos esses dados mencionados pela Anvisa, a nota fiscal, eu tenho tudo direitinho. A minha Carteira de Trabalho com a data da minha saída do meu último trabalho. Eu fiquei muito feia mesmo, seu moço. Muito magra e careca, parecia mesmo uma doente. Construção da Narrativa Jurídica: Fatos/Indícios X Provas X Circunstâncias Na próxima aula você irá estudar este conteúdo: Noções básicas da Argumentação Jurídica: Formulação de Tese, Argumentos e Tipos de Argumentos. Até lá ! Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo o que conta pode ser contado. Albert Einstein Obrigada. Até a próxima aula!