Prévia do material em texto
DEBATENDO GÊNERO E SEXUALIDADE NA SOCIEDADE SST RASCKE, Karla Leandro Debatendo gênero e sexualidade na sociedade / Karla Leandro Rascke Ano: 2020 nº de p. 11 Copyright © 2020. Delinea Tecnologia Educacional. Todos os direitos reservados. 3 DEBATENDO GÊNERO E SEXUALIDADE NA SOCIEDADE Apresentação Neste momento, trataremos de apresentar o estudo: Debatendo Gênero e Sexualidade na Sociedade. Estudaremos sobre o conceito de gênero enquanto uma importante categoria da área de humanidades que possibilita compreender as pessoas, suas identidades, orientações e papeis de modo amplo e plural. Também estudaremos a respeito das relações de gênero, dialogando com a diversidade sexual. E, por fim, iremos conhecer a importância de estudar sobre os conceitos de sexo e sexualidade, com suas diferenças conceituais e sua relação com o debate de gênero. Fique atento a todas as informações presentes aqui, e vamos juntos ao processo de conhecimento e aprendizagem a respeito da relevância desses assuntos. Bons estudos. GÊNERO NA CONSTRUÇÃO DOS SUJEITOS E DA SOCIEDADE Gênero, como definição gramatical, é utilizado para definir homem e mulher - isto é, gênero masculino e feminino. Conforme Ferreira (1986, p. 844), gênero é uma “categoria que indica, por meio de desinências, uma divisão dos nomes baseada em critérios tais como sexo e associações psicológicas”. Porém, numa perspectiva social dentro dos parâmetros da sociologia e da psicologia, a noção de gênero tem sido empregada para diferenciar socialmente as pessoas. Essa categoria não é apenas analítica, mas também histórica, no sentido de um contexto predominantemente masculino, em que a mulher sempre ocupou lugar de retaguarda, sendo visibilizada como um gênero fragilizado, e o homem gênero de força e poder. Atenção 4 Se gênero pode ser utilizado para analisar as relações sociais estabelecidas entre homens e mulheres, devemos compreender que as relações de gênero perpassam por várias facetas, desde as construções de papéis masculinos e femininos, a constituição de identidades, da sexualidade, da pluralidade de masculinidades e feminilidades, da hierarquia de gênero e, consequentemente, da violência de gênero. Para corrobora com esse debate Mello, nos informa que: As diferenças entre homens e mulheres fecundam-se na sociedade a partir de concepções sobre o que é feminilidade e masculinidade. São disputas simbólicas, que dizem respeito ao processo de reprodução social, seja na família, nas organizações religiosas, escolares, nos ambientes de trabalho e na vida política. (2020, p. 11) Compete entender gênero para além do termo feminino e masculino, mas dimensionando a identidade do que é ser masculino ou feminino. Na contemporaneidade, a identificação envolve dificuldades e entraves sociais, políticos e mesmo morais, implicando que pessoas que não se veem no sexo em que nasceram, sofram com os ditames da sociedade em relação à identidade. Desde antes do nascimento de uma criança, com o resultado do ultrassom em mãos, a família começa a moldar seu lugar no mundo, e a partir de suas genitálias é que tudo se definirá. Se for menina, sua cor será rosa - decoração, roupas e acessórios terão a predominância dessa tonalidade. Caso seja menino, o padrão será a cor azul. Com o crescimento das crianças, essa dicotomia continua a ser sentida no modo de se vestir. No entanto, é por meio dos brinquedos e das brincadeiras adquiridos/permitidos para um e para outro - no caso, para outra – que isso será percebido de maneira mais enfática. Cores como uma das formas de imposições de gênero Fonte: Plataforma Deduca (2020) 5 Essa dicotomia criada pela sociedade do ser masculino e feminino, determinando objetos, cores, modo de ser de meninos e meninas, comportamentos diferenciados para cada tipo de gênero, são coisas advindas e criadas pelo homem, impostas pela sociedade e todos as seguem como uma regra, reforçada de geração em geração. É a naturalização do gênero, como se para ser homem ou mulher bastasse nascer com uma ou outra genitália. Mas, será que é assim tão simples? Na década de 1950, Simone de Beauvoir já dizia que “ninguém nasce mulher: torna-se” (BEAUVOIR, 1980, p. 9). Isso se estende também para os homens. Nesse sentido, a dicotomia entre o ser feminino e/ou masculino não é definida apenas pelo determinismo biológico. Queremos com isso afirmar que, tanto o homem quanto a mulher são produtos de uma dada realidade sociocultural. Foi tentando problematizar essas relações de poder estabelecidas entre homens e mulheres que nasceu o conceito de gênero. O termo surgiu no mundo acadêmico, na década de 1980, em um diálogo constante entre o movimento feminista e pesquisadoras das mais diversas áreas: história, sociologia, antropologia, ciência política, entre outras. Foi por meio dos estudos sobre mulheres que o processo de desnaturalização do papel de submissão/ inferioridade, da qual a mulher estava destinada socialmente, passou a ser desconstruído. Foi com esse intuito que o conceito de gênero surgiu: refletir e desconstruir a ideia de que as desigualdades e as convenções sociais estivessem associadas apenas ao determinismo biológico. Afinal, é a sociedade que, pautada na genitália, estabelece padrões e papéis distintos para homens e mulheres. Como afirmou Louro (2007, p. 55): Para que se compreenda o lugar e as relações de homens e mulheres numa sociedade importa observar não exatamente seus sexos, mas sim tudo que socialmente se construiu sobre eles. Percebemos, desse modo, que os diferentes povos, ao longo dos períodos históricos de suas formações sociais, estabeleceram, e ainda estabelecem, comportamentos, papéis e atribuições para mulheres e homens. É importante perceber que, se todas as sociedades definissem comportamentos e parâmetros sociais apenas a partir do sexo biológico de cada pessoa, não teríamos as múltiplas formas de vivenciar a identidade de gênero, tal qual é possível atualmente, apesar dos muitos preconceitos e homofobias existentes. 6 O sexo é um dado biológico, relacionado ao nosso corpo físico – nosso órgão genital, seios, sistema reprodutor etc. –, o gênero é uma construção sociocultural. Atenção No entanto, cabe ressaltar que categoria gênero não é uma norma mecanicamente imposta, tampouco a encontraremos escrita em um código de leis. Ela se estabelece no cotidiano, em um jogo constante de poder e resistência. Essas relações estão em todos os campos: educação, saúde, trabalho, política, religião e nos momentos de lazer. É importante frisar que o próprio conceito de gênero está inserido em um contexto sociocultural, ou seja, ele também é uma construção e é sujeito a transformações. Existe, por exemplo, uma grande diferença entre ser uma mulher em nosso país ou no Oriente. Essa diferença também pode ser articulada em relação ao tempo, ou seja, há diferença entre ser mulher atualmente e ter sido mulher no começo do século XX. Inicialmente, gênero estava associado às discussões de/e para mulheres, focando na condição feminina e na percepção de como a categoria mulher era construída. O resultado disso foi uma homogeneização das mulheres, como sendo uma categoria única, sem atentar-se para outras diferenças como classe, etnia/raça, geração e orientação sexual. CONCEITOS DE SEXUALIDADE E SUA DIFERENÇA COM O CONCEITO DE SEXO Em nossa sociedade contemporânea, ocidental, educamos meninas e meninos de formas distintas, atribuindo a cada um/a comportamentos que consideramos adequados a partir da genitália “descoberta” antes mesmo do nascimento. Assim, diferenças biológicas são utilizadas para construir diferenças sociais, muitas vezes, tidas como naturais, “normais”. 7 Mas por que existem padrões comportamentais considerados corretos para meninas e meninos? Podemos perceber que esses padrões foram atribuídos a partir do sexo biológico, trazendo comportamentos, profissões, cores de roupas, brincadeiras, tudoatribuído a partir do sexo biológico. Sexo é um dado biológico, isto é, tudo aquilo relacionado ao nosso corpo físico (a genitália, os seios, o formato do corpo). Atenção E, na verdade, ao pensarmos a esse respeito, verificamos o quanto esse tipo de educação tolheu homens e mulheres de brincar com que se sentiam atraídos para brincar em sua infância e não podiam pois era considerado brincadeira de menino ou menina. Tantas pessoas se frustraram em não poder escolher a profissão que se sentia mais contemplado/a porque talvez seja considerada profissão de homem ou profissão de mulher. Sendo assim, é importante salientarmos que essa construção cultural e educacional de atribuir papeis a serem exercidos através do sexo biológico, não tem relação alguma com o que pode ou não ser feito por homens e mulheres, podemos perceber que existem excelentes homens que são cozinheiros, e excelentes mulheres que exercem trabalhos na construção civil. Além disso, temos homens bailarinos que são condecorados no mundo com um dos melhores bailarinos do mundo. Outra questão importante é considerar que quando se fala em sexo, não estamos querendo incitar e ensinar as crianças a fazerem sexo, mas explicá-las biologicamente como são seus corpos e suas diferenças. Da mesma forma quando se fala em sexualidade precisamos ter o conhecimento de que a sexualidade não é sinônimo do ato sexual entre pessoas, mas para além disso; sexualidade é toda sensação de prazer que as pessoas sentem quando fazem alguma atividade que lhes proporcionam, boas sensações, leveza e prazer em estar fazendo. Como por exemplo: uma pessoa que ama ler livros, e sentem bem em fazer leituras, está nesse ato desenvolvendo sua sexualidade. 8 E, por fim, quando aludimos sobre gênero, é reconhecer que foram papeis estabelecidos socialmente e culturalmente através dos sexos, mas, podemos romper com essa forma rígida e entender que homens e mulheres podem desde de sua infância brincar com qualquer brincadeira saudável, podem escolher a profissão que se sentem mais contemplados, e ainda escolherem usar a cor de roupa que quiserem, pois nada disso irá interferir em sua sexualidade e tampouco no seu órgão biológico. Conceitos Sexo: Orgão reprodutor feminino e masculino Gênero: São papéis atribuídos aos sexos masculino e feminino, determinados por um processo de educação e cultura moralista Sexualidade: faz parte da personalidade de cada um, é uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. Sexualidade não é sinônimo de relação sexual e não se limita à ocorrência ou não de orgasmo. Fonte: Elaborada pela autora (2020) Portanto, consideramos que existem ainda muitas questões envolvendo sexualidade, gênero e diversidade geram polêmicas e/ou envolvem tabus da sociedade, necessitando atenção e cuidados no desenvolvimento de abordagens e análises, de modo a compreender a multiplicidade de sujeitos sociais e suas lutas por dignidade e direito à vida. RELAÇÕES DE GÊNERO Se pensarmos em gênero como uma categoria relacional, ao utilizarmos o termo relações de gênero estamos tornando explícito o que se mantinha nas entrelinhas. Nesse sentido, toda a ação humana, seja em qual for o espaço, é permeada por 9 relações de gênero. É aí que se constroem as identidades de gênero, é no contraste com o outro que acontece a (re)significação, é nesse momento que a pessoa se identifica como isso ou aquilo. Desse modo, como afirmou Scott (1995), percebe-se que gênero é o primeiro modo de dar significados às diferenças. E essas diferenças, como já afirmado, são construídas socialmente. Nesse sentido, o gênero feminino e o gênero masculino estão em um processo social contínuo. Essa categoria relacional é o que define ser homem e ser mulher e o que se espera socialmente de um é diferente do que se espera do outro. Relações de gênero e desigualdade de oportunidades Fonte: Plataforma Deduca (2020) Essa divisão binária entre o masculino e o feminino foram as primeiras concepções das relações de gênero, ainda com o enfoque pautado na relação do sexo feminino e masculino, não conseguindo se desvincular das características biológicas. Uma estrutura essencialista e fixa, esquema que começou a apresentar-se limitado para explicar a complexidade social a que as pessoas e suas relações estavam imersas. O que podemos entender é que as transformações cotidianas, como a globalização, os multiculturalismos e a socialização dos conhecimentos advindos da internet proporcionam mudanças na sociedade e isso faz com que as relações de gênero mudem também. Porém a pergunta é: estariam a sociedade pronta para tantas mudanças e informações? Na atualidade, por exemplo, é impossível afirmar que exista uma divisão estática entre o que é masculino e o que é feminino. Inclusive existem identidades de gênero que não se encaixam totalmente nessa divisão binária. 10 A respeito de abordagens sobre diversidade sexual e de gênero, sugerimos consultar o site “Grupo de Pesquisa Sexualidade e Escola”, em que você irá encontrar teses, dissertações, livros em pdf, indicações diversas de material relacionado ao tema: <http:// sexualidadeescola.furg.br/index.php>. Acesso em: 16 set. 2020. Saiba mais Fechamento Os estudos em questão nos possibilitaram aprendermos sobre o que é genero, sua construção na sociedade. Também aprendemos sobre o que é sexo, e sua diferença entre sexualidade e genero e estudamos sobre as relações de gênero. Estudamos também que sexualidade não é sinônimo de relação sexual e orgasmo ou a ausencia dele. Entendemos que que homens e mulheres podem brincar em sua infância, escolher o esporte, profissão cor de roupa independente do que foi atribuido a ele/a usar e/ou ser, pois isso não interferirá em sua sexualidade tampouco em seu sexo biológico. Por fim, apreendemos que gênero e sexualidade estão em diálogo e que devemos estar em constante estudo e aprendizagem para que possamos romper com as barreiras do achismo e do preconceito que ainda persistem e ao invés de informar e orientar corretamente, criam estigmas, tabus e reforçam os processos de exclusão social e preconceitos. 11 Referências BEAUVOIR, S. de. O Segundo Sexo, Tradução Sérgio Milliet, v. I, II. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2ª ed. 18. Impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. LOURO. G. L. O corpo educado: pedagogia da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. MELLO, F.A. de. A violência doméstica contra mulheres no Programa Casa Abrigo Regional ABC: questões para o serviço social. Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de estudos pós graduados em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – SP – para a obtenção do grau de Mestra em Serviço Social. – São Paulo – SP. 2020. Disponível em: <https://tede2. pucsp.br/bitstream/handle/23163/2/Flaviana%20Aparecida%20de%20Mello.pdf>. Acesso em 16 de set. de 2020. SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade. Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. jul./dez. 1995.