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TRAVESSIA imigração árabe para o Brasil se insere no contex- í i to imigratório que se es- tabeleceu para o país e para a América, a partir de projetos governamentais próprios que in centivaram, facilitaram e franquearam a en trada de imigrantes com o intuito de atrair os europeus, sobretudo os alemães e itali anos. Foi a partir da política imigratória bra sileira que se deu a vinda também de imi grantes de outras nacionalidades, entre eles os de origem árabe, que encontrando as facilidades necessárias para a entrada, ins talação e sobrevivência, passaram a se di rigir para cá em grandes levas, atraídos pe las condições oferecidas pelo país e incen tivados pelos já estabelecidos, que se tor navam pontos de atração para os recém- chegados. A vinda de imigrantes deu-se por dois fatores principais: os conflitos religiosos e étnicos na região de origem e as condi ções sócio-econômicas inferiores. Vinham tanto para escapar das perseguições e dos conflitos, como para melhorar a situação econômica, a própria e ainda dos familia res que lá permaneceram. Podemos observar no processo imigratório duas distintas etapas de fluxo, que foram ocasionadas por diferentes fa tores e envolveram em cada etapa dois gru pos religiosos: os cristãos, no período en tre 1860 e 1938, e os muçulmanos, no pe ríodo entre 1945 e 1985 (continuando em menor proporção e relevo, e com caracte rísticas específicas, pelos anos 90). Se são poucos os estudos que têm se dedicado à temática da imigração para o Brasil, sobretudo para os grupos conside rados de menor vulto, tanto em termos de quantidade quanto em sua influência soci al, cultural e econômica no país de inser ção, muito menos tem se feito em relação ao estudo da imigração enquanto um pro jeto de rearticulação das estruturas famili ares trazidas pelos imigrantes para a nova pátria, do ponto de vista as gerações, no aspecto da manutenção ou da criação de novos padrões de vida. As questões por mim levantadas1 em relação à vinda de imigrantes árabes con centram-se na discussão sobre o processo de integração, interação e assimilação des ses imigrantes em relação à sociedade bra sileira que pareciam ter atingido propor ções diferentes, facilitadas ou dificultadas pela questão religiosa, na qual se dividiu esse grupo: cristãos e muçulmanos. ASSIMILAÇÃO E INTEGRAÇÃO CULTURAL A problem ática da assim ilação e integração cultural do imigrante esteve em pauta, como nos ressalta Fausto (1991), nas discussões mantidas pela Antropologia e pela Sociologia durante as décadas de 40 e 50. A preocupação nesses debates estava centrada na avaliação da qualidade ou da impropriedade das diferentes nacionalida des imigrantes no processo de integração à sociedade de inserção, avaliando-se as características culturais que poderiam de saparecer ou se transformar ao longo do contato com a nova sociedade. O que era defendido por esses estudiosos era uma tendência unívoca para a assimilação, mes mo que com dificuldades para alcançá-la. No entanto, uma revisão historiográfica (Seyferth, 1988) e uma nova abordagem sobre o tema levam à necessidade de se trabalhar com a “noção de 'etnicidade' que permite apreender o significado de perten cer a um grupo étnico sem excluir as trans formações decorrentes do processo de as similação e integração do grupo imigran te” (Fausto, 1991, p.37). A partir desse conceito de “etnicidade” pode-se trabalhar com a possibilidade de criação de uma ideologia étnica dos gru pos imigratórios, através do contato inter no desses grupos e em relação aos elemen tos nacionais, contribuindo também a imi gração para a composição do conceito de pluralismo cultural no país. Travessia / Setembro - Dezembro / 99 -17 O conceito de pluralismo cultural não significa atribuir um papel aglutinador ao elemento nacional, ao redor do qual gira riam os elementos estrangeiros, mas sim compreender a forma pela qual se dão os inter-relacionamentos entre os diferentes grupos estrangeiros e o grupo nacional. Fausto também nos aponta um cami nho para a avaliação da formação dessa “etnicidade”: problematizar questões como casamento, existência de associações re creativas ou de auxilio, formas de partici pação política, inserção profissional e uso da língua de grupos imigrantes, fundamen tais para esse tipo de estudo. Mas, principalmente, ressalta o ponto fundamental para a com preensão da integração do imigrante ao meio nacional: ela só se concretiza ao longo das gerações. Portanto, os estudos sobre o tema da imi gração que pretendem enveredar por esse caminho devem privilegiar sobretudo esse aspecto geracional, pois é através dele que se toma possível uma avaliação dessa na tureza. Em nossa pesquisa, o estudo das gera ções foi privilegiado desde o início da com posição de nossas redes2, mas a ampliação para a temática familiar foi uma questão até então pouco considerada. Estudar o imigrante e seus descendentes enquanto família nos pareceu a melhor forma de ava liar o grau de integração pretendido e/ou atingido pelos imigrantes árabes no Bra sil. Avaliar quais eram os projetos trazidos pela primeira geração, como se concreti zaram em relação à segunda geração, o que era possível manter em termos culturais e o que podería ser substituído ou modifica do nos parecia um caminho viável para essa análise. Mais uma vez um outro trabalho de Fausto (1997) nos pareceu um contraponto importante para o desenvolvimento de nos sa pesquisa. Analisando a imigração judai ca enquanto um processo familiar, partin do da sua própria experiência, o autor co loca em questão os modelos de relações familiares e a transmissão de conhecimen tos e valores, e mesmo de seu bloqueio, de uma geração para outra. Esse parece ser um caminho bastante pertinente para se avaliar o quanto se per de e o quanto se recria na passagem de um período para outro mas, sobretudo, ao lon go das gerações, ou como prefere Fausto, na longa duração das gerações. GERAÇÕES DE IMIGRANTES: O PESO DE UMA DUPLA IDENTIDADE Com esse ponto de partida, nos debru çamos sobre nossas entrevistas procuran do levar em conta tais aspectos, e ainda enfocar e compreender os mitos, os proje tos e as vocações transmitidos do imigran te aos seus descendentes como meio de identificação intema e como uma forma de resistência ao papel integrador da socie dade que hospeda. Um ponto observado refere-se à per cepção que os elementos nacionais têm em relação ao grupo. Preconceitos, termos pejorativos, incompreensão do modo de vida desse grupo, a própria tendência do afastamento desses imigrantes e seus des cendentes, foram aspectos que dificulta vam a convivência diária como também levavam a um isolamento e uma tentativa de camuflagem acerca de elementos identificadores dessa origem: “O que incomodava também bastante era o fato de todo mundo nos chamar de 'Turca ' (...) Não sei bem porque, mas aquilo me incomodava muito pois, segundo eu imaginava, tinha um tom pejorativo e, de certo modo, preconceituoso, como se nós fôssemos pessoas estranhas, diferentes, exóticas ou qualquer coisa do tipo...” Noah Osman Turk (Rede I - 2a Gera ção) Afora as questões de preconceito da sociedade em relação ao imigrante e seus descendentes, o que transpareceu como tendência também presente nesses relatos foi um certo orgulho dessa origem. O va lor atribuído pelos filhos de imigrantes à sua descendência e o peso que ela teve ao longo das fases de suas vidas, foram res saltados em relação ao outro, ou seja, ao elemento nacional. Um depoimento nos mostra como a descendência árabe teve um peso negati vo e outro como a mesma descendência teve um peso positivo: "... eu continuava sentindo um certo constrangimento em dizer que era filha de árabes... Não digo vergonha, que é uma palavra muito forte, mas era algo que in comodava muito, que me sentia fazer sen tir diferente e inferior aos demais... ’' Noah Osman Turk (Rede I - 2a Geração) “Eu nunca tive vergonha de ser filha de árabe e fazia questão de falar isso para as pessoas... Quando eu sentia que havia um interesse, que as pessoas gostavam de saber, ficavam admiradas, eu gostava mais ainda de ser quem eu e ra ...” Salua Mohamad Abou Jokh (Rede I - 2a Ge ração) O fechamento do grupo em si mesmo levava os filhos de imigrantes a se senti rem diferentes em relação ao outro, por ter recebido uma educação peculiar, que po dería colocá-los em vantagem em relação aos demais (peso positivo da origem) ou por não poderem compartilhar do modo de vida do outro, fazendo com que a origem fosse sentida como um elemento distanciador (peso negativo da origem). Houve também uma necessidade de identificação e de reafirmação das raízes culturais, das quais descendem esses filhos de imigrantes, no sentido de considerar isso um privilégio, à medida que se colocavam como herdeiros de um povo sofrido, batalhador e vencedor e se avaliavam como depositários dessa cultura trazida pelos pais. Para os descendentes, sua origem le vava a um diferenciador em relação aos outros membros da sociedade brasileira, uma vez que foram educados em famílias de origem cultural diferente o que se re fletia no forj amento de uma forma de edu cação também diferenciada. De outro lado, destaca-se um certo ca ráter valorativo dessa educação em tennos de se ressaltar atitudes e comportamentos identificadores desse grupo no novo país, tais como a seriedade, a honestidade, a honra, a responsabilidade, a dedicação ao trabalho e à família: “A educação árabe está baseada na coragem que os pais têm de colocar res ponsabilidade sobre os filhos desde cedo, viu? Sem contar a rigidiz e a seriedade com que éramos criados... Nossa! Era uma linha dura que não dá para acreditar... ” Mohamad Nassib Saleh Kadri (Rede I - 2a Geração) 18 - Travessia / Setembro - Dezembro / 99 O que fica claro nesse relato é a forma como esse grupo se vê em relação ao ou tro (o nacional) a partir de uma origem e educação diferenciadas que levaram à for mação de uma personalidade baseada em aspectos considerados típicos desses imi grantes. Se os imigrantes árabes foram avalia dos como trabalhadores, empreendedores, desbravadores, por si próprios ou por ele mentos extemos a essa comunidade, isso foi um ponto bastante reforçado nessa transmissão cultural de geração para gera ção, numa forma de criar um qualificativo para esse grupo. Portanto, a capacidade empreendedora dos imigrantes encontra a sua consolidação nos filhos, depositários dessa formação cultural. Partindo desse ponto, podemos avali ar a questão do estudo, formação profissi onal e trabalho desses descendentes, a par tir do valor atribuído a eles, ao incentivo dado para se trilhar uma carreira, as possi bilidades e responsabilidades apontadas para homens e mulheres, as opções feitas ou mesmo a falta delas. Nessa questão, talvez o grande demarcador para as possibilidades de uma análise esteja na diferenciação de perspec tivas para homens e mulheres; é a partir daí que procederemos nossa análise. Aos homens, a responsabilidade do tra balho e do sustento da família foi atribuí da desde cedo, enquanto provedores das necessidades familiares. Os filhos mais velhos, conjuntamente com o pai, assumi am essa tarefa como continuidade da tra dição familiar árabe, cabendo a ambos todo o sacrifício para oferecer o melhor à famí lia: "Acabei assumindo os negócios sozi nho (...) Eu tive que parar de estudar no primeiro colegial, porque não havia ou tra opção: ou alguém se sacrificava para garantir o estudo de todos ou todos fica ríamos limitados ao trabalho unicamen te. ” Mohamad Nassib Saleh Kadri (Rede I - 2a Geração) Aos filhos passavam-se tarefas, respon sabilidades e mesmo a proeza, o heroísmo e o sacrifício, reeditando-se o risco e a aventura, as histórias de esforço desmedi do e o sofrimento como valores inerentes ao imigrante e seus descendentes, e os re sultados positivos do trabalho como compensadores de tantos esforços: “Apesar de tudo foram momentos gos tosos, de dureza, de sofrimento, inesque cíveis mesmo... Só eu e meu tio sabemos do perigo e do sofrimento pelo qual pas samos. .. Muitas vezes nãoparávamos nem para almoçar, porque não tínhamos o que comer... No caminhão, comíamos pão seco! Essa era a refeição de um dia intei ro de trabalho... ’’Mohamad Nassib Sleh Kadri (Rede I - 2a Geração) As atividades econômicas praticadas também acabavam sendo as mesmas pra ticadas por pais ou responsáveis, assumin do-se a continuidade dos negócios famili ares e trilhando o mesmo caminho que le vasse à sua consolidação através do peque no comércio: “Passados uns anos, meus irmãos Georges e Miguel resolveram abrir uma torrefação de café e eu fu i trabalhar com eles, deixando por um tempo de ser mas cate... A torrefação também ficava na Pe nha, onde nós comprávamos o grão, tor ravamos, ensacávamos e vendíamos... ” Mansur Hanna Khamis (Rede II - 2a Ge ração) Aos filhos também houve grande in centivo ao estudo, como forma de ascen são social, econômica e profissional, pri- vilegiando-se as carreiras de Medicina, Direito e Engenharia, conforme as pers pectivas da primeira geração: “Do meu lado, felizmente, sempre hou ve um incentivo muito grande para os es tudos e para uma carreira profissional... A minha mãe fez questão de mostrar que o único caminho possível para uma vida melhor que ela podería nos oferecer seria através dos estudos. " Fábio Nader Azar (Rede II - 2a Geração) Por outro lado, quais eram as perspec tivas e as expectativas em relação às mu lheres? Qual foi o incentivo dado ao estu do e ao trabalho para as filhas de imigran tes? Que participação tiveram nos negóci os familiares? Nesse caso, as expectativas em relação às filhas diferenciavam-se muito das atri buídas aos filhos. Primeiramente, não ti nham responsabilidade direta sobre o sus tento familiar, antes deveriam ser susten tadas pelo pai e irmãos e, mais tarde, pelo marido. Dessa forma, nem participavam dos negócios, ou se o faziam era de forma eventual e dispensável, nem eram incenti vadas para o estudo enquanto caminho para uma carreira profissional: "... eles nunca permitiram que eu tra balhasse, nem exercendo minha profissão de contadora... Para os meus pais, e para todos os árabes que conviviam conosco, era um absurdo que uma mulher traba lhasse fora, tendo o pai ou o marido para sustentá-la... O único trabalho que a mulher podia exer cer era ligado à atividade do marido, aju dando em seu negócio...’’ Noah Osman Turk (Rede I - 2a Geração) Romper essas barreiras, superar os limi tes, despespeitar regras e imposições eram consideradas medidas ousadas para atin gir a meta do trabalho e da formação pro fissional, gerando crise e problemas fami liares, que por sua vez levavam à acomo dação à estrutura imposta: "... eu fiz um curso de estenografia e datilografia, que me permitiram arrumar um emprego numa empresa chamada Ces tas Amaral... Quarenta dias eu trabalhei, quarenta dis meu pai ficou sem falar com a minha mãe! Ele não admitia em hipótese alguma, que a sua filha saísse de casa para trabalhar... Era uma grande desonra para um chefe de família que as mulheres trabalhassem, ganhassem seu próprio dinheiro e adqui rissem certa independência...’’ Nazha Mouaikel Camis (Rede II - 2a Geração) Do ponto de vista da formação educa cional, os horizontes não eram mais am plos. Primeiramente havia apenas a preo cupação de se oferecer um ensino básico sem perspectivas de carreira profissional, uma vez que o papel a ser desempenhado por essas futuras esposas deveria estar res trito ao lar. Quando havia o incentivo a uma carreira e ao trabalho este deveria estar li mitado às consideradas adequadas àque las mulheres: “Eu cursei corte e costura, mas para falar a verdade eu detestei o curso... Foi a minha mãe quem insistiupara que eu se guisse essa área, porque na cabeça dela eu deveria ser 'madame'... Naquele tempo 'madame' eram as donas de atelier de alta costura, considerada como uma profissão muito chique, adequada para mulheres... " Nazha Mouiakel Camis (Rede II - 2a Geração) Travessia / Setembro - Dezembro / 99 -19 Esses cursos não eram um incentivo ao trabalho, mas apenas uma forma de ocu pação e de conhecimento na área conside rada adequada às mulheres e uma possibi lidade sempre presente de sustento no caso de dificuldades econômicas, como um complemento ao orçamento doméstico: "... eu fiz muitos cursos: de fazer cho colate, de arranjo de flores, de pintura em tecido, de frutas em cera, de corte e cos tura, de chinelo em crochet... de tudo! Onde tinha um curso, a minha tia Lisa - a minha sogra - ia lá e fazia minha inscri ção... ” Jamile Mustafa Kadri (Rede I - 2a Geração) Quando ocorria uma certa abertura para a continuidade dos estudos e o desempe nho de uma carreira profissional, a vonta de dos pais acabava por se impor sobre essas escolhas. Os pais opinavam sobre a profissão mais adequada do ponto de vista do que poderia ser exercido pelas mulhe res, como o Magistério que adequava car reira e responsabilidades domésticas, ou as que pudessem ser exercidas por todos os filhos (homens ou mulheres) de árabes, como as profissões liberais que lhes pos sibilitavam ser o próprio patrão: “Eu queria estudar Direito, pois sem pre me dei melhor na área de Humanas... O meu pai não concordou com essa mi nha opção e tudo fe z para que eu mudas se de opinião... Como eu não tinha opção, para satisfazer a vontade dele e poder continuar estudan do, prestei o vestibular de Odontologia, mesmo não gostando dessa área... " Noah Osman Turk (Rede I - 2a Geração) Apesar de tantas restrições e limites impostos, uma certa adequação às expec tativas das filhas ocorriam, havendo as que conseguiam burlar tanta imposição e tri lhar uma carreira. A conquista desses es paços é encarada como uma mudança de atitude de geração em geração e de irmãos para irmãos, abrindo-se maiores possibili dades para as filhas mais jovens que vão se aproveitando de espaços conquistados pelas filhas mais velhas. De qualquer for ma, é o esforço pessoal de cada uma delas que é valorizado nessa conquista de espa ço, disputado palmo a palmo: “Na verdade, as meninas da nossa co munidade não são incentivadas para o es tudo; as que se formam é porque fizeram disso um projeto pessoal e tiveram que lu tar muito para concretizá-lo. ” Lamia Mustapha Rajab (Rede I - 2a Geração) De outro lado, avalia-se que a educa ção árabe se caracterizou não só pela trans missão de atitudes e normas de comporta mento típicos dessa nacionalidade, como também na necessidade de manutenção de traços culturais trazidos pelos imigrantes: “Essa educação árabe consistia em quê? Na rigidez dos costumes, nos privi légios do homem, em uma série de proibi ções em relação à mulher, na preservação da língua árabe dentro de casa, na manu tenção dos hábitos e tradições tanto cul turais como religiosos... ” Noah Osman Turk (Rede I - 2a Geração Manutenção da cultura, costumes, lín gua, religião, história, casamento, formas de lazer e diversão, contato com o país de origem são os aspectos apontados como traços típicos da formação da segunda ge ração, mas interessa-nos saber que grau atingiram, como influenciaram as relações com o grupo nacional, como dificultaram a integração desses elementos e qual a importância dada pelos filhos de imigran tes a essa problemática. A questão da preservação e uso da lín gua árabe foi um ponto bastante ressalta do pelos entrevistados. Falar essa língua dentro de casa como sendo a principal, as dificuldades encontradas na relação linguística entre o árabe e o português, o privilégio de se falar uma língua diferente foram aspectos apontados: “Eu aprendí a falar e a pensar nessa língua [o árabe]; o português eu só fu i aprender quando tinha uns cinco anos e entrei napré-escola... Para mim fo i muito importante essa apren dizagem na infância, pois a base que eu tive me permite até hoje ter o domínio da língua... " Fábio Nader Azar (Rede II - 2a Geração) Ao mesmo tempo, reconhecia-se que a integração e o contato com o grupo nacio nal através da vizinhança e amigos, mas sobretudo pela escola, levavam à necessi dade de adequar o uso dessa lingua como forma de se adaptar ao novo meio. À me dida que cresciam, o uso da língua foi sen do abandonado sistematicamente, sobre tudo quando ocorria um certo afrouxamen to dos pais nessa exigência, o que também dependia do grau de contato mantido com outros elementos dessa nacionalidade: "... Hoje eu já não sei nem 1er nem es crever em árabe, mas consigo falar e en tender um pouco, porque perdi muito da fluência... Realmente é muito difícil querer manter a língua totalmente e isso pode até mesmo atrapalhar a convivência e a adaptação com outras pessoas... ” Nazha Mouiakel Camis (Rede II - 2a Geração) A prática religiosa, muçulmana ou or todoxa, dos entrevistados foi outro ponto analisado. Preocupou-nos verificar a im portância que essa formação religiosa teve para os descendentes, em que aspectos houve maior rigidez ou maior adequação desses rituais e quais são as práticas se guidas ou não por esses descendentes. Quanto a esse aspecto podemos divi di-lo em duas tendências e duas atitudes. No caso dos cristãos ocorreu uma tendên cia de adaptação à religião do novo país, uma vez que a origem cristã em comum favorecia essa aproximação. Embora hou vesse uma preocupação em garantir uma formação religiosa de base ortodoxa, tam bém foi uma alternativa viável batizar os filhos no ritual católico e frequentar essa Igreja: “Na questão da formação religiosa, meus pais nos deram a formação básica, mais como princípio de vida. Embora eles fossem cristãos ortodoxos, eu e meu irmão fomos batizados na Igreja Católica mes mo... ” Fábio Nader Azar (Rede II - 2a Geração) Portanto, o aspecto ressaltado é o da adaptação da religião, encarada como uma possibilidade de aproximação e não de afastamento da sociedade. E, uma vez que já na primeira geração ocorreu essa flexi bilidade, na segunda geração ela foi ainda mais ressaltada, seja em nível pessoal, seja para as perspectivas apontadas para a ter ceira geração: “...eu tiveformação ortodoxa por parte da família, me adaptei ao catolicismo por conveniência e abracei o espiritismo kardecistapor opção... ’’ Nazha Mouiakel Camis (Rede II - 2a Geração) Do ponto de vista dos descendentes de muçulmanos, podemos verificar um afrou xamento das obrigações religiosas, que nem sempre são praticadas, mas uma gran 20 - Travessia / Setembro - Dezembro / 99 de preocupação em se ressaltar a base re ligiosa diferenciadora do país em que se vive: "A minha formação religiosa eu não digo que fo i tão radical, pois eu aprendí os principios básicos... Claro que as res trições religiosas existem, como não con sumir bebidas alcoólicas e nem comer carne de porco... ... Mas nunca tive que andar com a cabe ça coberta ou usar roupas que me cobris sem inteira... ” Lamia Mustapha Rajab (Rede I - 2a Geração) A prática religiosa tomou-se adaptável ao novo país, não havendo uma rigidez tão grande nessa orientação, mas não havia a possibilidade do abandono dessa base re ligiosa e a opção de se adequar a uma ou tra mais viável do ponto de vista de adap tação. Mesmo não se praticando a religião da mesma fonna que os pais, os descenden tes se reconhecem como parte dessa co m unidade re lig iosa e se sentem responsabilizados por sua continuidade e transmissão à próxima geração: “O que acaba acontecendo é que nós nos dizemos muçulmanos em palavras e fazemos muito pouco em ações para rea firmar isso. E uma falha muito grande de nossa parte que eu reconheço que deve ser corrigida o quanto antes... Eu adio, adio, mas acho que chega uma horaque você acaba sentindo a necessidade de levar a religião a sério, principalmente quando se tem filhos para criar... ” Mohamad Nassib Saleh Kadri (Rede I - 2a Geração) Muitas vezes, a religião muçulmana foi apontada como o ponto diferenciador em relação ao grupo nacional, seja em termos de restrição à convivência, seja em termos de restrição ao casamento, como veremos mais adiante. Religião muçulmana e des cendência árabe foram usados como ter mos sinônimos para explicar a tendência para o fechamento da comunidade dentro de si mesma. Para os descendentes de árabes muçul manos, e em menor proporção para os des cendentes de árabes cristãos, principalmen te no caso das mulheres, houve uma série de restrições que as limitava ao espaço fa miliar e doméstico, revelando uma forma de evitar o contato com o grupo nacional. Essas jovens descendentes percebiam que o peso das tradições dificultava o con tato com outras pessoas, restringia as pos sibilidades de convivência e adaptação, li mitava os espaços de trânsito, impedia le var uma vida mais semelhante às jovens não descendentes de árabes: “Eu e as minhas irmãs não queríamos muito mais que uma adolescente daquela época podería querer... Passeios, diversão, amizades, paqueras, coisas simples e ino centes eram o mínimo que desejavamos... Só que se para nós isso não tinha nada de mais, para os meus pais isso era um sinal de perigo... Sinal de que poderiamos nos afastar do que eles pretendiam para nós: que nos mantivéssemos restritas ao nosso pequeno mundo de fam ílias árabes. ” (Noah Osman Turk (Rede I - 2a Gera ção) Além da escola, único espaço não-ára- be frequentado pelos descendentes, não havia a possibilidade de contato com ou tras instituições de cultura e lazer ou mes mo de um convívio através de festas, pas seios ou viagens. A possibilidade de diversão e lazer aca bava se restringindo aos espaços, formais ou informais, criados pela própria comu nidade, tais como clubes, templos religio sos, associações como alternativa de su prir essas necessidades dos descendentes, ao mesmo tempo em que se limitava o con tato extemo, tanto no caso de cristãos como no caso de muçulmanos. No primeiro caso: "Outra coisa que os meus pais incen tivavam era a convivência com pessoas da nossa origem... Além do contato entre fa miliares, parentes e vizinhos, nós também costumávamos participar das atividades culturais e recreativas organizadas pelo Clube da Juventude Ortodoxa... Eu participei de muitas festas, bailinhos, banquetes, além de passeios e piqueni ques. .. Todos os jovens participavam como forma de preservar o contato e o relacio namento entre os descendentes de ára bes... " Nazha Mouiakel Camis (Rede II - 2a Geração) No segundo caso: "O meu pai, do ponto de vista da di versão e do lazer, só nos dava uma única opção: participar das reuniões da comu nidade árabe. Tem um clube no Riacho Grande, onde as pessoas se reúnem todos os domingos... É uma forma de manter a comunidade unida, fazer contato entre as pessoas e, principalmente, promover ca samentos... "Salua Mohamad Abou Jokh (Rede I - 2a Geração) A criação desses espaços alternativos de lazer e diversão restritos ao espaço da comunidade servia como compensação às restrições impostas, bem como uma forma de preservação das tradições e hábitos cul turais. Do mesmo modo, essas formas al ternativas eram incentivadas e aceitas pe los pais, uma vez que o que era estimulado era o convívio interno do grupo, o relacio namento entre os jovens descendentes, li mitando as possibilidades de integração e restringindo as possibilidades de casamen to: "Junto com primos e outros conheci dos árabes, formamos um grupo que se reunia nos finais de semana, cada vez na casa de um, para conversar, jogar bara lho, dançar, tocar durbak, que é um ins trumento musical árabe, enfim, todo tipo de coisa que outras pessoas faziam, só que no nosso caso tínhamos em comum o fato de ser de uma mesma comunidade..." Lamia Mustapha Rajab (Rede I - 2a Ge ração) Através desse lazer interno ao grupo, os jovens viam supridas suas necessidades de diversão, ao mesmo tempo que os pais conseguiam manter seus filhos restritos aos espaços familiares e da comunidade, in centivando o convívio entre os da mesma origem e mantendo-os afastados de jovens de outras nacionalidades. Essas imposições e restrições foram avaliadas de duas formas por esses des cendentes. No primeiro caso se reconhe cia que houve um enrijecimento desses costumes pois o modo de vida que os imi grantes pretendiam passar aos filhos era aquele que haviam trazido de seu país, na forma e na proporção em que eles própri os haviam sido educados. Portanto, houve uma cristalização desses costumes e um fechamento para as mudanças: "Eu acho que meus pais não evoluí ram no tempo e não souberam se adaptar a uma nova forma de vida... Quiseram nos educar da mesma forma que eles foram educados, entendeu? Só que eles não per ceberam que os tempos tinham mudado e que eles estavam em outro país com uma Travessia / Setembro - Dezembro / 99 - 21 cultura bastante diferente. ” Salua Mohamad Abou Jokh (Rede I - 2a Ge ração) No entanto, esse fechamento também era compreendido de outra forma, abrin do mais um espaço para discussão, refe rente à questão do casamento: “Era um grande problema para eles imaginar que pudéssemos optar por sair desse meio, criar amizades e, o pior de tudo, acabar nos casando com alguém que não fosse da mesma descendência que a nossa... Isso era realmente o terror a ser evitado a qualquer custo! " Noah Osman Turk (Rede I - 2a Geração) Tanto no caso dos cristãos como no caso dos muçulmanos havia a preferência pela continuidade do casamento dentro do grupo e da religião, como forma de pre servação do modo de vida em país de imi gração. Tal imposição era compreendida e quase sempre aceita por esses descenden tes como forma de não se contrapor às exi gências paternas, evitar-se conflitos fami liares, não provocar rupturas em projetos regidamente consolidados. A obrigação dos casamentos internos foi sentida como um grande peso para es ses filhos de árabes que não se viam enco rajados a romper com essa estrutura. Quan do isso ocorria, era mais comum que a ini ciativa partisse dos filhos, uma vez que a própria autonomia econômica alcançada representava também uma autonomia de decisões: “Eu tive dois primos que desafiaram a família, bateram o pé, brigaram com Deus e todo mundo mas se casaram com moças que não eram da comunidade, como os meus irmãosfizeram mais tarde... Para eles era mais fácil porque eram ho mens, podiam desafiar a todos, sair de casa e cuidar do próprio nariz... Mas o que eu e qualquer moça daquela época podíamos fa z e r ? ’’ Nazha M ouiakel Camis (Rede II - 2a Geração) Uma vez que a ruptura era algo difícil de ser conquistado, a acomodação aos cos tumes impostos acabava ocorrendo em maior proporção e os casamentos internos eram incentivados e aceitos. Para a segunda geração, apresentavam- se as mesmas perspectivas da escolha de um parceiro: ou entre membros da família e da comunidade aqui estabelecidos ou através da busca de um companheiro na terra de origem dos pais, refazendo-se o mesmo caminho anteriormente trilhado. A primeira opção era a mais desejada e a mais incentivada, como forma também de se buscar o estreitamento dos laços fa miliares. Casamentos entre primos ou apa rentados que ocorreram na primeira gera ção também foram realidade para a segun da geração, selando alianças e mesmo com promissos anteriormente estabelecidos: “Pude reencontrar amigos e parentes (...) e, principalmente, rever o meu primo Ornar, um antigo amor de infância... Em três meses morando aqui acabamos nos casando... Namoramos na infância, eu ro dei o mundo e ele casou, teve filho e se separou... Depois de tanto tempo nos uni mos novamente! " Salua Mohamad Abou Jokh (Rede I - 2a Geração) Quandoos casamentos entre os mem bros que viviam aqui tardavam a aconte cer, ocorria o incentivo dos pais para se buscar o parceiro em seu país de origem. Essas viagens tinham seus motivos implí cita ou explícitamente colocados e, no caso das mulheres, era apontado como única alternativa para as que tiveram dificulda des para efetivar o casamento no Brasil e já se encontravam além da idade que lhes permitisse ainda fazê-lo (de acordo com a concepção desse grupo). Portanto, a terra dos pais passa a ser visitada com o objetivo de também se bus car um casamento: "Durante a minha estadia [no Líba no], eu conhecí também pessoas maravi lhosas, inesquecíveis e, entre elas, o meu marido... (...) Nós nos conhecemos, nos interessamos um pelo outro e, em dois meses, eu já ti nha certeza que era aquilo que eu que ria... ” Lamia Mustapha Rajab (Rede I - 2a Geração) Mesmo com intenções tão explícitas, nem sempre as imposições de um casamen to arranjado eram aceitas, e burlar as re des que se compunham para evitá-lo era uma solução encontrada: “Eu, particularmente, tinha ido com o único propósito de passear e conhecer a terra dos meus pais... Talvez - ou melhor, certamente - o desejo da minha mãe era que eu arranjasse um casamento e muitos parentes agiram nesse sentido (...) Cada vez que alguém me convidava para me apresentar um pretendente eu sempre dava um jeito de escapar, porque realmente eu me sentia mal com essa situação. ” Noah Osman Turk (Rede I - 2a Geração) Da mesma forma, o caminho inverso também era percorrido, reeditando-se mais uma possibilidade criada pela primeira geração: escolha de uma noiva aparentada que era trazida para o Brasil com o propó sito único de realização do casamento, con cretizando antigos acordos: “Desde crianças o nosso casamento já tinha sido acertado... A minha avó mater na tinha feito essa escolha, porque eu era a mais velha das netas e o Ali o mais ve lho dos netos... Chegamos a nos ver uma única vez antes do casamento, quando o Ali fo i para o Líbano aos dez anos de ida de, mas éramos apenas duas crianças... ’’ Jamile Mustafa Kadri (Rede I - 2a Ge ração) Do ponto de vista masculino, tais uni ões eram consideradas a melhor alternati va para a manutenção institucional do ca samento, pela facilidade de convívio entre os cônjuges, devido à origem em comum e o partilhar da mesma cultura, o que faci litaria posteriormente a criação dos filhos. Embora haja uma certa abertura para se compreender e aceitar casamentos que possam vir a ocorrer fora da comunidade, os casamentos intemos são os mais privi legiados, alegando-se a facilidade de con vívio, argumento outrora utilizado pelos pais na justificativa de seus casamentos: “...não me arrependo desse casamen to, porque a mulher árabe tem uma edu cação muito diferente da mulher brasilei ra... A mulher árabe tem por princípio a obediência ao marido e o zelo à família... Elas são mais submissas, aceitam mais fa cilmente as dificuldades do casamento e acreditam que é uma relação para sem pre... ” Mohamad Nassib Saleh Kadri (Rede I - 2a Geração) Apesar do sucesso na transmissão dos valores e das vantagens de um casamento interno, rupturas ocorreram, não sem ter vindo acompanhadas de arrependimentos, dúvidas, sofrimentos e responsabilidades. A ruptura nessa tradição significava uma grande desarticulação de uma estrutura familiar detalhadamente construída e o 22 - Travessia / Setembro - Dezembro / 99 afastamento de um projeto conjunto. Uma relação mista foi avaliada como um fracasso desde o princípio e as causas do insucesso consideradas em relação às diferenças de origem cultural entre os par ceiros: “Eu acho que eu estragueipraticamen te a vida da família toda com essa minha decisão... Essa situação é muito mais ter rível do que alguém que está do lado de fora possa imaginar... O meu pai morreu sem que eu tivesse o perdão dele por esse meu casamento e não sei até se não fu i eu que apressei sua morte com tanta mágoa e decepção... " Mansur Hanna Khamis (Rede II - 2a Geração) O que acabou por prevalecer foi uma tentativa de realização de casamentos in ternos ao grupo, como forma de preserva ção das estruturas familiares e culturais no novo país a partir da continuidade dos pro jetos estabelecidos para a segunda gera ção. As rupturas levavam ao reforço da sensação de fracasso e de ter falhado di ante do grupo. TERCEIRA, QUARTA... TANTAS OUTRAS GERAÇÕES Com o incentivo aos casamentos que procuravam limitar o contato com o meio externo numa tentativa de preservação cul tural, resta-nos analisar como ocorreu ou vem ocorrendo essa mesma transmissão cultural da segunda para a terceira e quan ta gerações, ou seja, para os netos e bisne tos de imigrantes árabes vivendo aqui no Brasil. Interessa-nos verificar o que foi pre servado das tradições culturais, o que tem sido transmitido de geração em geração, em que grau de importância e qual o peso que esses valores têm tido para os mais jovens descendentes. Pelos relatos pode-se notar que há uma preocupação em se retransmitir os valores recebidos pela segunda geração aos pró prios filhos, mas o que se pode verificar é um afrouxamento dessa necessidade e im portância e mesmo da rigidez das imposi ções. A segunda geração, criada em outro país, reeditou esses projetos familiares de seus pais em relação à continuidade, à per manência e à manutenção das estruturas culturais, mas não apenas como cópia fiel dos projetos impostos a eles. O que vem ocorrendo é uma busca de adaptação da continuidade desse projeto pela segunda geração à nova realidade, transferindo-se seus próprios sonhos não concretizados aos filhos, reunindo em seus relatos um misto de necessidade de manu tenção dos costumes, carregados de uma certa carga de frustração do que a imposi ção desses costumes tenha significado a eles próprios: "... Eu sempre penso que com meus f i lhos eu pretendo ser muito diferente do modo como os meus pais foram comigo... Não quero ser uma mãe rígida, autoritá ria, severa... Quero ser uma amiga que orienta e adverte, dá liberdade mas sem pre cuidando muito... Uma amiga que o filho pudesse contar a qualquer hora... " Salua Mohamad Abou Jokh (Rede I - 2a Geração) Há uma grande consciência que à ter ceira geração não se pode impor os mes mos padrões impostos à segunda geração, pois a realidade do convívio diário cada vez mais se distancia do mundo fechado criado pela comunidade. A preocupação acaba sendo centrada nas possibilidades de transmissão de cer tos costumes e valores de fonna não tão rígida e categórica, mas antes como um complemento da formação desses jovens, como parte da rede de conhecimentos des se universo que se toma cada vez mais multicultural: “A única coisa que eu tento passar para eles [os filhos] é a nossa origem... Alimentação, música, dança, religião, a língua... mas não de maneira tão categó rica como me foram passados... Não dá mais para ser assim!... ” Noah Osman Turk (Rede I - 2a Geração) * Samira Adel Osman é Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo. NOTAS 1. O estudo de famílias imigrantes árabes, que se fixaram específicamente em São Paulo, a partir da década de 50, foi tema de minha Dis sertação de Mestrado, sob o título “Caminhos da Imigração Árabe em São Paulo: História Oral de Vida Familiaf, apresentada no Dpto. de His tória da FFLCH/USP, em julho de 1998. Nesse trabalho, utilizou-se a técnica de História Oral, a partir da qual foram estabelecidas duas re des de imigrantes, de árabes muçulmanos e de árabes cristãos, levando-se em conta o cri tério geracional. Tal opção deveu-se à necessi dade de analisar um mesmo grupo imigratório que se dividiu e se diferenciou a partir da ques tão religiosa, considerando como esse aspec to facilitou ou dificultou a adaptação e a integração dos imigrantes e seus descenden tes na nova pátria. 2. Rede é uma subdivisão de uma colônia(co munidade que define o tema do trabalho) que determina os critérios na seleção de entrevis tados. Em nosso caso, os imigrantes árabes se constituem na colônia, enquanto a sua divi são em grupos religiosos (cristãos e muçulma nos) define as redes. Nesse trabalho, definimos Rede I como a rede de muçulmanos e a Rede II como a rede de cristãos, também divididas em 1a e 2a Geração - respectivamente, os imi grantes e os filhos de imigrantes. 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