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| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais2 Fevereiro/ 2019 Professor/Autor: Dr. Jonathan Menezes Coordenadoria de Ensino a Distância: Dr. Marcos Orison Nunes de Almeida Projeto Gráfi co e Capa: Departamento de desenvlvimento institucional Todos os direitos em língua portuguesa reservados por: Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano - Londrina - PR 86055-670 Tel.: (43) 3371.0200 3Espiritualidade Cristã | FTSA | SUMÁRIO Unidade 1 - Introdução a espiritualidade cristã Introdução...............................................................................................................04 Capítulo 1: O que é espiritualidade........................................................................05 Capítulo 2: O lugar da conversão...........................................................................08 Capítulo 3: O caminho da santidade......................................................................14 Capítulo 4: A vocação da humanidade..................................................................24 Unidade 2 - Religião, fé e espiritualidade Introdução...............................................................................................................38 Capítulo 1: O que é religião?...................................................................................39 Capítulo 2: O que é fé?............................................................................................51 Capítulo 3: Raciovitalismo: a fé e a razão em diálogo..........................................60 Capítulo 4: Sobre a arte de perder chãos..............................................................64 Unidade 3 - Disciplinas espirituais Introdução...............................................................................................................73 Capítulo 1: Oração..................................................................................................74 Capítulo 2: Deserto.................................................................................................86 Capítulo 3: Comunidade.........................................................................................98 Unidade 4 - Espiritualidade vocação e missão Introdução.............................................................................................................109 Capítulo 1: O exemplo de Henri Nouwen............................................................110 Capítulo 2: A missão da espiritualidade na Missão...........................................123 Capítulo 3: Espiritualidade como busca e resposta a uma vocação...............129 Capítulo 4: O lugar da fraqueza na espiritualidade.............................................138 Para assistir os vídeos, ouvir os PodCasts e fazer os exercícios, acesse o AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem) Atenção! Lembre-se que faz parte de suas obrigações: 1- Participação na disciplina por meio da realização dos exercícios; 2- Exercício integrativo - Resumo da disciplina, 1500 palavras; 3- 2 Provas objetivas (5 questões cada); 4- Leitura de textos complementares (100 páginas); Consulte o “Programa de curso” e veja mais detalhes! | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã4 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã UNIDADE I - INTRODUÇÃO À ESPIRITUALIDADE CRISTÃ Introdução A espiritualidade cristã diferencia-se de outras formas existentes, e bastante em voga até, de espiritualidade no mundo atual. E a razão básica é: seu centro gravitacional não é o próprio ser humano e suas necessidades, mas Deus – Pai, Filho, Espírito Santo. E mais: não poderá ser chamada de “cristã” se sua fonte de inspiração primária não for a experiência cristã1, ou melhor, a experiência de fé em e a partir da pessoa de Jesus Cristo. “Cristã”, nesse sentido, é sinônimo de “cristocêntrica” (centrada em Cristo, o Deus encarnado). A tese dessa unidade é a de que espiritualidade cristã é um modo de ser expresso a partir de um encontro, relacionamento e compromisso com a pessoa de Jesus Cristo. Discutiremos essa tese a partir de três temas transversais: conversão, santifi cação e humanidade. Objetivos da unidade 1. Defi nir espiritualidade cristã e sua relação com outros conceitos transversais; 2. Desenvolver uma visão de espiritualidade cristã mais ampla e integral; 3. Relacionar os temas da conversão, da santifi cação e da encarnação sob a ótica da espiritualidade cristã. Assista o vídeo: O que signifi ca ser espiritual? Para assistir os vídeos e ouvir os PodCasts, acesse o AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem) 1 Isto não signifi ca, em hipótese alguma, que a experiência cristã seja exclusivista e isolada de uma convivência com outras experiências, como uma espécie de destacamento da humanidade, da vida e do mundo. Diálogos e encontros humanos, tais como os que vimos em Jesus, são fundamentais para a espiritualidade cristã, como veremos adiante. 5Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 1. O que é a espiritualidade cristã? De acordo com Alister McGrath (2008, p. 20), a palavra espiritualidade procede do termo hebraico ruach, que pode ser traduzido por “espírito”, inclusive no sentido de “vento”, “alento”. Refere-se ao ânimo de vida, tanto que a gera como que a sustenta. Também tem a ver como cada cristão responde à sua fé nas diversas representações cristãs existentes, o que, de acordo com ele, permite-nos também falar de “espiritualidades cristãs”. Exercício de reflexão Defi na “espiritualidade”, a partir de sua própria experiência de fé e vida até aqui. Para assistir os vídeos, ouvir os PodCasts e fazer os exercícios, acesse o AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem) Atenção! Lembre-se que faz parte de suas obrigações: 1- Participação na disciplina por meio da realização dos exercícios; 2- Exercício integrativo - Resumo da disciplina, 1500 palavras; 3- 2 Provas objetivas (5 questões cada); 4- Leitura de textos complementares (100 páginas); Consulte o “Programa de curso” e veja mais detalhes! Pode-se entendê-la, em sentido mais geral, como uma qualidade não material que diz respeito à vivência, envolvimento, dedicação religiosa em geral, à luz de refl exão e entendimento. Mas, podemos falar também de espiritualidade cristã, que é aquela forma de espiritualidade específi ca da fé cristã e sua vivência. User Realce | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã6 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã Neste aspecto, eu fi caria com uma defi nição mais simples, que deve perpassar nossas conversas daqui para diante: Espiritualidade é o modo de ser do cristão guiado pelo Espírito Santo. A espiritualidade cristã baseia-se na fé, pois é por ela que acolhemos a palavra de Deus. A experiência mística e a devoção fazem parte e auxiliam nossa espiritualidade, mas não são sua fonte principal. A fonte principal da espiritualidade cristã é Jesus Cristo, que conhecemos prioritariamente pela palavra de Deus. A vida não é a razão da nossa espiritualidade, mas seu contexto. A espiritualidade cristã, conforme o próprio nome diz, é cristocêntrica. E isso signifi ca, antes de tudo, que o centro da vida espiritual não deve estar mais em mim enquanto indivíduo, mas no próprio Cristo. Saiba mais Emseu livro A implacável ternura de Jesus (2010), Brennan Manning dedica um capítulo para falar da “vida excêntrica” ou fora do centro. Ela começa, segundo ele, com a admissão de que: Jesus se fez o núcleo vital da vida cristã. Jesus não é apenas o coração do cristianismo, Ele é o centro da humanidade e nos revela o que signifi ca ser um humano. Ser cristão é ser completamente humano. Nós cristãos realmente acreditamos nisso? O que signifi ca ser completamente humano, viver uma vida na qual Cristo é o centro? O que signifi ca viver fora do centro? Primeiro, signifi ca que um cristão autêntico é total e literalmente excêntrico – isso é, fora do centro, de tudo o que diz respeito a gerir, conduzir e controlar a própria vida. Isso exige uma mudança revolucionária do foco em si próprio. (Manning, 2010, p. 93) User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce 7Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã Eis abaixo alguns insights importantes de Manning neste capítulo sobre o que signifi ca “viver fora do centro”: a) “Viver fora do centro signifi ca compartilhar a experiência íntima de Jesus com Deus como Pai. O signifi cado da palavra pai nas Escrituras tem dois aspectos: Antes de mais nada signifi ca senhor e soberano, total controle e autoridade. Jesus confi rmou a absoluta soberania de Seu Pai. Ele nunca tentou justifi car Deus por toda confusão, dor e tragédia do mundo. (...) O segundo aspecto da palavra pai nas Escrituras envolve cuidado, preocupação, compaixão e fi dedignidade. Não somos apenas convidados, mas somos realmente chamados para entrar nessa afetuosa, libertadora experiência com a paternidade” (p. 94-95). b) “Viver fora do centro nos liberta da tirania da pressão do grupo social. Viver para agradar o Pai, como Jesus fez, se torna o impulso básico de uma vida cristã – mais importante que agradar as pessoas. E isso requer um nível singular de liberdade” (p. 96). c) “Viver fora do centro faz a diferença de tantas maneiras. Capacita-nos a enxergar que a igreja é um lugar para celebrarmos e nem sempre reformarmos, que o mundo é um lugar que deveria ser desfrutado, nem sempre infl uenciado, que a vida é uma experiência sem uma agenda, que o amor, o maior de todos os nossos feitos, é sempre imerecido, injusto e inesperado” (p. 98). d) “Viver fora do centro me ensinou que todo fracasso tem sucesso de alguma forma. Ele proporciona a oportunidade não apenas de humilhar o eu, mas também de ser gentil com o fracasso dos outros. Se a minha vida ou a sua fosse uma história bem-sucedida e imaculada, um crescimento rápido e contínuo em direção à santidade, nunca poderíamos entender o coração humano” (p. 100). | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã8 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã 2. O lugar da conversão Já apresentei o que aqui gostaria de chamar de “defi nição de trabalho” de espiritualidade – isto é, o ponto de partida para qualquer discussão envolvendo este conceito ao longo deste curso. Também foram delineadas algumas diferenças importantes, no campo conceitual, entre espiritualidade e outras expressões normalmente associadas a esta. Sabemos, portanto, que a espiritualidade cristã, acima de qualquer outra, estará em nosso horizonte daqui para diante. Assim sendo, qual é o ponto de partida da espiritualidade cristã? A afi rmação basilar desse tópico é de que o caminho da espiritualidade cristã começa com a conversão. Dito de modo breve e provocativo: sem conversão, não há espiritualidade. Pelo menos não no sentido cristão. O que, porém, signifi ca passar por uma “conversão”? Que implicações importantes o tema da “conversão” evoca, e o que elas têm a nos ensinar sobre a espiritualidade? No contexto da fé cristã, a conversão designa a nova condição ou vida do ser humano em Cristo, normalmente (mas não sempre) iniciada por uma experiência pessoal e individual de “encontro”, ou mesmo de “retorno” à casa do Pai, como no exemplo da parábola do fi lho pródigo (ver Lc 15:11-32). PodCast Reflexão “A conversão na parábola do fi lho pródigo”. Acesse o Ambiente Virtual de Aprendizagem! A raiz da conversão, de acordo com Orlando Costas (2014, p. 180), está na literatura profética, por exemplo, expressa na ideia (que aparece aproximadamente mil vezes) de “voltar-se”, do verbo hebraico shub. Está ligado ao chamado de Deus, que vemos ocorrer reiteradas vezes nos livros User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce 9Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã proféticos, para que o povo se arrependa, abandone seus pecados e se volte para o Senhor, renovando seus votos de fi delidade somente a Ele. E voltar-se para Deus, como vimos anteriormente no caso emblemático da crítica de Amós à religião, signifi ca deixar-se ser encharcado pelo caráter divino – um Deus que quer um “mar de justiça” e ver correr em nós “rios de integridade” – e, consequentemente, mudar o curso da existência (isto é, converter-se) de acordo com este referencial absoluto. Outra palavra importante vem do Novo Testamento, e é traduzida como “metanóia”, do verbo grego metanoeo, que designa uma mudança (meta) de mente (noia) ou a adoção de outro ponto de vista ou cosmovisão. Segundo Costas (2014, p. 181), este termo “é usado no contexto do chamado ao perdão do pecado e a libertação do julgamento futuro (At 2:38; 3:19; 17:30; 26:20) e em referência ao problema da apostasia no seio da igreja (Ap 2:5, 16, 21-22; 3:3, 19). Vários conceitos bíblicos de conversão são retratados nestes termos, de acordo com Costas (2014, p. 181): 1. Signifi ca voltar-se do pecado (e de si mesmo) para Deus (e para a obra de Deus). 2. Este ato envolve uma mudança de mente, o que implica no abandono de uma cosmovisão antiga e a adoção de uma nova. 3. A conversão envolve uma nova lealdade, uma nova confi ança e um novo compromisso. 4. A conversão é apenas o início de uma nova jornada e veicula implicitamente a semente de novas mudanças. 5. A conversão é circundada pelo amor redentor de Deus como revelado em Jesus Cristo e testemunhado pelo Espírito Santo. Desse modo, a conversão pode se dar por meio de uma experiência interior em que uma profunda convicção do pecado vem à tona no ser humano, como no famoso relato de conversão de Agostinho (ver texto na próxima página). User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã10 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã Texto de Apoio Quando, por uma análise profunda, arranquei do mais íntimo toda a minha miséria e a reuni perante a vista do meu coração, levantou-se enorme tempestade que arrastou consigo uma chuva torrencial de lágrimas. [...] Retirei-me, não sei como, para debaixo de uma fi gueira, e larguei as rédeas ao choro. Prorromperam em rios de lágrimas os meus olhos. Este sacrifício era-Vos agradável. Dirigi-Vos muitas perguntas, não por estas mesmas palavras, mas por outras do mesmo teor: “E Vós, Senhor, até quando? Até quando continuareis irritado?Não Vos lembreis das minhas antigas iniquidades”. [...] Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do coração. Eis que, de súbito, ouço uma voz vinda da casa próxima. Não sei se era de menino, se de menina. Cantava e repetia frequentes vezes: “Toma e lê; toma e lê”. [...] Abalado, voltei aonde Alípio estava sentado, pois eu tinha aí colocado o livro das Epístolas do Apóstolo, quando de lá me levantei. Agarrei-o, abri-o e li o primeiro capítulo em que pus os olhos: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites” [Rm 13:13]. Não quis ler mais, nem era necessário. Apenas acabei de ler estas frases, penetrou-me no coração uma espécie de luz serena, e todas as trevas da dúvida fugiram (Agostinho, 1996, p. 222-223). Nessa experiência, volto-me para Deus na medida em que me volto para dentro de mim, e eventualmente recebo uma iluminação interior acerca de minha natureza pecaminosa. Desse modo, espiritualidade se torna sinônimo de interioridade ou, nos dizeres de Eugene Peterson (2000, p. 14), é “a atenção que prestamos à nossa alma”. Não há dúvidas de que essa é uma dimensão importante da espiritualidade cristã; o problema User Realce User Realce 11Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã é quando imaginamos que não haja nada além dela, isto é, de que a espiritualidade é “apenas” essa atenção dada ao interior e nada mais. Segundo Galilea (1979), autor chileno de textos pastorais e de espiritualidade, apresenta uma analogia muito interessante a esse respeito. Ele compara a espiritualidade com um grande bosque, repleto de árvores, cada uma delas representando uma dimensão possível da espiritualidade. Algumas vezes, certas árvores nos impedem de ver todo o bosque. Em outros casos, tendemos a confundir uma árvore apenas com todo o bosque. Ora, Galilea está nos alertando para algo importante, em matéria de espiritualidade, que é a questão do reducionismo. Glossário REDUCIONISMO: pode ser identifi cado pela tendência de reduzir um fenômeno complexo a uma forma simplifi cada, ou mesmo setorizada, de compreensão desse fenômeno. No caso da teologia, por exemplo, é o mesmo que dizer que tudo em teologia se resume na Soteriologia ou o no “estudo da salvação”. Um exemplo bíblico de reducionismo: Jesus se depara com um cego de nascença, e os discípulos perguntam: “Quem pecou para que fi casse cego: ele ou os pais?”. É um reducionismo, pois atribui uma causa possível apenas para a cegueira: o pecado (restando saber se do cego ou de seus pais). A resposta de Jesus é mais complexa, fugindo da lógica de causa e efeito de sua cultura (ver: João 9:1-5). O antídoto para fugir do reducionismo, segundo esse autor, está na identifi cação da conversão a Jesus com o seguimento de Jesus: converter-se signifi ca segui-lo em seu caminho e reino de vida. Isso nos faz olhar para a vida, e para a espiritualidade, sob uma perspectiva mais ampla: os compromissos que assumimos (como o compromisso com a justiça do reino), e as particularidades que compõem a vida espiritual (como orar, jejuar, adorar, refl etir, comer, amar, e assim por diante) são User Realce User Realce User Realce | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã12 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã expressões ou resultados de um seguimento, e não todo o seguimento. Logo, como explica Galilea, não há como dizer que a espiritualidade é a “espiritualidade da cruz”, a “espiritualidade da adoração” ou a “espiritualidade da paz”. Trata-se, antes, da espiritualidade do seguimento de Jesus, que nos leva a incorporar a cruz, a adoração e a paz (dentre tantos outros aspectos) “daquele a quem seguimos” (Galilea, 1979, p. 9). O importante a se ressaltar, à luz da experiência de Agostinho acima citada, é que a experiência da conversão é singular, isto é, única e irrepetível. Ela pode ter um “início distinto” – uma espécie de virada decisiva em direção à Jesus Cristo e a seu reino de vida – mas, como lembra Costas (2014, p. 182), ela pressupõe um “movimento transformador contínuo”. O que isso signifi ca? Em primeiro lugar, signifi ca que toda conversão genuína é um processo corrente e interminável, em que minha vida passa por inúmeras revisões – passando pela dinâmica de arrependimento e conversão – sempre na busca de se in-conformar com este século, conformando-se, em contrapartida, com o caráter da pessoa de Cristo. Ou seja, o cristão convertido está sempre se convertendo. Em segundo lugar, signifi ca que o mais importante não é saber se uma pessoa é cristã convertida ou não, mas se vive como convertida. Se, como disse Jesus (cf. Mt 7:24-27), ela é como o homem que construiu sua casa sobre a rocha (pois “ouve e pratica”), ou se coaduna mais com o homem que edifi cou sua casa sobre a areia (pois “ouve, mas não pratica”). Em outras palavras, se a espiritualidade cristã começa com a conversão – como salientei no início deste tópico – a conversão pressupõe uma “vida espiritual”, isto é, uma vida que está sempre se movendo de uma “existência desumanizada e desumanizadora para uma vida humanizada e humanizadora” (Costas, 2014, p. 183) – como veremos melhor no último tópico sobre “a vocação da humanidade”. Por último, este movimento transformador e contínuo implica em uma contínua saída de si mesmo – no abandono de uma vida egoísta, voltada apenas para si – em direção ao outro, o próximo, o irmão e a irmã de caminhada histórica, começando pelos da mesma fé, até toda e qualquer pessoa com quem nos comprometamos e que seja, assim, “próxima” para User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce 13Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã nós. Dessa maneira, seguimos, servimos e amamos a Jesus também no outro. Como bem nos lembra o apóstolo João, “ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a quem vê” (1Jo 4.20). Texto de Apoio A transformação que o/a discípulo/a de Cristo e sua comunidade afi rmam ter obtido através do Evangelho deve, por sua própria natureza, se estender porta afora, para seu entorno ou contexto mais amplo. Cremos e ensinamos que ela não pode ser apenas individual e/ou comunitária, mas também social, historicamente situada, e sensível às necessidades integrais do ser humano. Visando essa transformação integral, uma teologia contextual não se limita a apenas observar e compreender o nosso contexto latino- americano, mas observa, compreende e, por conseguinte, promove ações transformadoras na e da realidade. Ações que identifi quem e anunciem, por palavras e obras, a presença do Reino de amor de Jesus e de sua justiça entre nós. Acreditamos em vidas sendo transformadas pelo poder do Evangelho, porque temos visto e experimentado isso na FTSA em sua história até aqui. Aqui certamente apostamos que a educação é um dos meios mais profícuos de libertação do ser, e de conferir-lhe dignidade e propósito. Mas também sabemos que a educação teológica, em especial, tem uma função ainda mais específi ca, que é libertar corações e mentes por meio do e para o Evangelho do Reino de Deus. Neste lugar, vidas têm sido convertidas não a um tipo específi co deteologia, mas ao Reino de Deus e sua Missão. E essa é uma conversão/transformação decisiva para a igreja em nossos dias. Extratos de: “A identidade teológica da FTSA”, Práxis Missional 01, 2018 | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã14 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã Exercício de fi xação A forma de espiritualidade advinda da conversão, entendida como uma mudança interior promovida por uma “iluminação interior” que, por sua vez, me leva a ter uma profunda convicção de minha natureza pecaminosa, também pode ser entendida como: Metanoia Interioridade Inconformidade Metamorfose Acesse o AVA para fazer o exercício ever a reação do professor! 3. O caminho da santidade É hora de caminhar um pouco mais nessa unidade introdutória sobre a espiritualidade cristã, a partir do conceito de “santidade”. Eis minha ideia central: Se a espiritualidade começa com a conversão, ela floresce ou amadurece com uma vida de ou em santidade. Saímos ao mundo para viver em santidade. A questão principal, porém, é: o que, afi nal, signifi ca “santidade”, no contexto a espiritualidade ou vida cristã? 3.1. Um chamado: “sede santos” Para começo de conversa, voltemo-nos ao texto da Primeira Carta de Pedro, capítulo 1, versos 15 e 16: “Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fi zerem, pois está escrito: ‘Sejam santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.15-16). User Realce 15Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã Quatro... É o número de vezes em que a sentença “sejam santos, porque eu sou santo” aparece somente no livro de Levítico – sem contar com a passagem acima da primeira carta de Pedro, é claro, que faz referência àquela. Qual é a possível mensagem implícita nesta sentença? A de que devemos ser “iguais a Deus”? A de que nos compararemos a Ele em sua Santidade? A de que devemos lutar para que a santidade seja possível? Três vezes não! Mas, num primeiro plano, aparece a mensagem de que Deus, o Senhor, que tirou seu povo da terra do Egito, é “Santo”, isto é, incomparável, está “acima de todo nome”, não há outro igual a Ele, não é e nem pode ser idêntico a outros deuses, nem tampouco às formas, formulas ou nomes que tentam “descrever” Deus. Ele é o que é... A Santidade, nesse sentido, é o que torna impossível qualquer espécie de cogitação sobre Deus, qualquer teologia que possa ser feita, por ser “sobre Deus”, ou visando “nomear Deus”. E a graça é o que torna, em contrapartida, possível a teologia como resposta ao falar e ao agir desse Deus Santo, no nível de nosso entendimento sobre ou de nossa experiência com este Deus. Santos, portanto, são chamados. Pedro diz: “Santo” é “aquele que os chamou”. Paulo, quando escreve aos Romanos – e esta é uma linguagem que repetidamente aparecerá em suas cartas – assim endereça: “A todos os que em Roma são amados de Deus e chamados para serem santos” (Rm 1.7). Santidade não é essencialmente um alvo humano, mas alvo de Deus para a humanidade; os que são chamados “santos” na perspectiva bíblica não o são porque perseguiram este caminho ou porque fi zeram “das tripas o coração” para se tornarem “santos” aos olhos de Deus e do mundo, mas porque foram “perseguidos” e atraídos por e para esta via, que é uma via de graça. Por ser uma vida de pura e divina graça, a santidade, assim como a humildade, torna-se uma qualidade da humanidade da pessoa sem que ela normalmente saiba que é santa. User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã16 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã Texto de Apoio A sombra santifi cada Havia antigamente um homem tão piedoso que até os anjos se alegravam quando o viam. Mas, apesar de sua grande santidade, ele não tinha ideia de que era santo. Simplesmente realizava suas prosaicas tarefas espalhando bondade, da mesma forma que as fl ores espalham fragrância e os postes de luz claridade, se forma natural. Sua santidade estava no fato de que esquecia o passado da pessoa e as olhava como eram agora e olhava além da aparência da pessoa, no íntimo da existência delas onde eram inocentes e puras e ignorantes demais para saberem o que estavam fazendo. Assim, amava e perdoava a todos que encontrava – e não via nada de extraordinário nisso, pois era o resultado do modo como olhava as pessoas. Um dia, um anjo lhe disse: – Fui enviado por Deus. peça o que desejar e lhe será concedido. Gostaria de ter o dom de curar? – Não – respondeu o homem. – Prefi ro que Deus mesmo realize as curas. – Gostaria de trazer pecadores de volta ao caminho do bem? – Não – disse ele. – Não cabe a mim tocar os corações humanos. Essa é a tarefa dos anjos. – Gostaria de ser tal modelo de virtudes que as pessoas sejam levadas a imitá-lo? 17Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã – Não – disse o santo –, pois isso me transformaria no centro das atenções. – Que deseja, então? – perguntou o anjo. – A graça de Deus – foi a resposta. – Com ela, terei tudo o que desejo. – Não, você deve pedir um milagre – disse o anjo – ou será obrigado a aceitar um. – Bem, então pedirei que o bem seja feito por meu intermédio, sem que eu perceba. Assim, foi decretado que a sombra do santo homem seria dotada de poderes de cura, sempre que estivesse atrás dele. Em todo lugar onde sua sombra se projetasse – desde que ele estivesse de costas – os doentes eram curados, a terra tornava-se fértil, fontes jorravam e a cor voltava às faces dos que estavam acabrunhados pelas tristezas da vida. Mas o santo não fi cava sabendo de nada disso, porque a atenção das pessoas estava tão centralizada na sombra que se esqueciam do homem e, assim, seu desejo de que o bem fosse feito por seu intermédio e que ele fosse esquecido foi plenamente realizado. (Mello, 2000, p. 148-149) | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã18 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã 3.2. Dois modelos: ascetismo e participação Mas, em que medida se pode ser santo “como Deus é...”? Diria que não na medida em que ambicionamos a santidade, pois ser santo não é propriamente ambição, mas vocação. Ninguém “ambiciona” a santidade neste sentido (bíblico) estrito, pois não há vantagem, status ou benefício direto algum em ser santo. Não me torno melhor e nem pior que ninguém. Não recebo nenhum “Prêmio Nobel de Santidade”. Sou apenas “diferente”, e diferente “apenas”. E assim sou na medida em que me deixo levar pelo jeito divino de me fazer diferente sem ser extraterreno ou extra-humano – o que demonstra que a santidade bíblica não tem nada a ver com a conotação religiosa do santo-beato, que se afasta do mundo para não se contaminar com o mal. Não. A diferença só aparecequando há mistura; a luz brilha onde há trevas; o sal, dentro do saleiro, não faz diferença alguma. Precisa entrar na salada para dar sabor. Somente santos, que não se eximem dos húmus que também compõem o humano e a vida terrena, podem ser “sal e luz da terra”. O resto é vaidade, orgulho, exibicionismo espiritual. Dois modelos advêm daqui. O primeiro é o do ascetismo: santidade como separação do mundo. Ela vem de uma interpretação duvidosa da própria ideia de “santidade como separação”, como se tal separação fosse uma separação de e não separação para, como vimos na ideia de vocação. Em outras palavras, para se manterem incontaminados do mundo, muitos ditos “santos”, ao longo da história, decidiram que era preciso se afastar do mundo, procurando uma via alternativa, normalmente orientada pela vida piedosa e de sacrifícios, regada a muita oração, devoção e jejum. Glossário ASCETISMO: palavra que vem de “ascese” ou a reunião de uma série de práticas e disciplinas que devem servir para que o santo (o asceta) se aproxime mais e mais da vontade de Deus e, porque não dizer, do paraíso celestial. Espiritualidade da ascese: disciplina e separação do mundo. User Realce User Realce User Realce User Realce 19Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã Ora, a própria “Oração Sacerdotal” de Jesus é um divisor de águas nesse sentido, pois ele ora ao Pai dizendo: “Não peço que os tire do mundo [kósmos], mas que os guardes do Maligno” (Jo 17.15, NTLH). Ou seja, Jesus está dizendo: não os arranque desta época, deste tempo, desta terra, mas, enquanto eles se encontram no meio disso tudo, desse mundo repleto de contradições, de complexidades e que tende a rejeitar e a perseguir aqueles/as que não se conformam com seus modos de operar, que eles/as aprendam a discernir a presença do mal no meio do mundo e, pelo poder da sua Graça, que eles/as possam ter seus corações guardados dele, escolhendo a vida e não a morte, a integridade e não a iniquidade, a espiritualidade e não a desumanidade. Esse é o segundo modelo: o da santidade como participação no mundo. Um exemplo dado por Paulo Brabo, no livro Em seis passos o que faria Jesus (em alusão ao famoso Em seus passos o que faria Jesus, de Charles Sheldon), é bastante útil para pensar estes dois modelos, a partir de João Batista e Jesus. Primeiro, ele defende a tese atípica, para muitos, de que os maiores antagonistas de Jesus nos evangelhos não são “fi gurantes” como os fariseus, os sacerdotes ou mesmo Satanás. O “verdadeiro antagonista” é João Batista, pois, como explica ele, “de todos os que em algum momento da história se opõem a Jesus ele é o único que representa verdadeira autoridade; de todos que se atiram no caminho de Jesus, querendo exercer sobre ele alguma infl uência, é João Batista que, em seu recato, chega a corresponder, contrapor-se a ele”. Mais do que isso, prossegue Brabo, de todos os personagens que protagonizaram histórias do Evangelho, “João Batista é o único que apresenta e representa uma alternativa ao estilo de vida que Jesus está propondo. João é o último habitante legítimo de um mundo que Jesus veio abolir” (Brabo, 2009, p. 36, 37). Vejamos a tabela na próxima página, a partir da explicação de Brabo, algumas características que distinguem João (o asceta) de Jesus (o participante): User Realce User Realce User Realce User Realce | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã20 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã João Batista, o outsider ou asceta Jesus, o insider ou participante Um profeta que clama do deserto. Um profeta que clama e age no meio da vida. Homem que se afasta deliberadamente do mundo, como parte essencial de sua missão. O caminho de Jesus é ‘caminho estreito’: é um caminho mais exigente que o do ascético, pois implica em presença no mundo, sem receio de se contaminar com sua “sujeira”. Não come frescuras como pão e vinho (dieta de gafanhoto e mel silvestre); não bebe, não aceita convites para festas, nunca é visto na cidade. Foi chamado de “comilão e beberrão”; não havia virtualmente ninguém a quem ele recusava sua proximidade: religiosos e pecadores; fariseus e prostitutas; ricos e pobres; fazendeiros e pescadores; cegos, loucos, possessos; homens e mulheres. Duvida da conduta do primo, e chega a questionar se ele é “aquele que estávamos esperando ou devemos esperar mais”. Não tem a menor dúvida sobre o importante papel exercido pelo Batista. Chega a dizer que, de todos os homens que já nasceram, “João é o maior”. Porém, adverte: “quem é o menor no Reino de Deus, é maior que ele” (Lc 7.28). 21Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 3.3. Quatro teses sobre santidade Ser santo, como vimos no começo, é um fado, isto é, um destino, uma vocação. Um fado que pode se tornar fardo, às vezes, seja (dentro de um estado “normal” de coisas) quando reconheço a complexidade dessa carreira que me está proposta (fardo-desafi o, que pode ter tonalidades positivas), ou, pior, é fardo quando penso que a santidade depende de mim e de meus esforços “apenas” para existir. Ou seja, uma atividade menos pneumática (ou procedente do Espírito) e mais “anímica”, isto é, procedente dos instintos e disposições naturais do ser humano, como pontuou certa vez Dietrich Bonhoeffer (2006, p. 20). Ao mesmo tempo, é uma vocação que pode e deve ser alegre, leve, cheia de vida, à medida que não se separa da graça de Deus, nem da beleza de viver e de ser humano, conformando-me com o exemplo do “fi lho do homem”. Gostaria de propor, em suma, quatro teses (não inéditas) que endereçarão (parcialmente) a perspectiva desta disciplina sobre santidade: 1. Ser santo, como Deus é santo, implica em despretensiosidade ou em aceitar-se como se é. O que, no caso da santidade, signifi ca assumir-se como um ser pecador e naturalmente incapaz de santidade. Nisto se confi gura o que Tillich (1972, p. 128) chamou de “a coragem de ser”: “aceitar-se como sendo aceito, apesar de ser inaceitável”. Ele ainda acrescenta que “não é o bom, ou o sábio, ou o piedoso, quem está destinado à coragem de aceitar a aceitação, mas aqueles que são faltos de todas estas qualidades e estão certos de serem inaceitáveis”. 2. Ser santo, como Deus é santo, implica em abraçar a condição (contingente) de “ser como uma parte”, continuando a pensar com Tillich, e de se colocar, assim, como um ser sempre a caminho de se tornar. Nisto também se confi gura a vocação: ela não é para aqueles que User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã22 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã já-são, mas para os que, pela graça, podem vir-a-ser. Não seria este o convite do próprio Jesus: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores” (Mc 2.17)? 3. Ser santo, como Deus é santo, implica em esvaziar-se da ambição diabólica de “ser como (igual) a Deus”, e cobrir-se, em contrapartida, de humanidade, de “nova humanidade”.Parafraseando Zélia Duncan e Mosca na música “Carne e sangue”, me cobrir de humanidade me fascina e me aproxima do céu. Caminhar com Deus é um privilégio e uma dádiva, e não a conquista dos “caçadores de Deus” e suas formas de religiosidade sem conteúdo e sem vida, e, como disse J. Urteaga (1967, p. 75), cheias de “falsas virtudes que ocultam uma vergonhosa covardia”. Santidade que nos priva da vida e da benção de ser apenas humano não vem de Deus. Pois, segundo Elienai Cabral Jr. (2009, p. 17), ela “subestima a vida humana e impõe uma agenda de pretensa divinização da vida. Insinua uma existência sem tensões, medos, dúvidas e afl ições. Sem pequenos prazeres. Sem alegrias banais. Sem dança, festa, riso, vinho e amor”. 4. Ser santo, como Deus é santo, implica, por fi m, na inconformidade com qualquer outra medida que não seja a “medida da estatura da plenitude de Cristo”, sobre a qual falou Paulo (Ef 4.13). Para isto, é preciso “estar em Cristo”, que é tudo o que possibilita o caminhar em santidade de vida. O estar em Cristo me torna uma nova criatura. O “velho”, fraturado, vai dando lugar ao “novo”, em construção, e à “novidade de vida”. Em suma: tendo sido feito-santo, não deixo de ser humano, que, por si só, é incapaz de santidade ou contingente. A diferença é que, agora que fui alcançado pela graça, existe algo que me move rumo a um horizonte de vida abundante ao qual, por enquanto, experimento apenas de relance. A ideia de santidade como vocação me faz pensar, assim, que existe um já User Realce User Realce User Realce User Realce 23Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã que se apresenta como convite e como possibilidade de um vir a ser diário na graça. O santo-humano tem também seus demônios. Aprendendo a conviver com eles, sem a eles se render totalmente, é o que consiste em aceitar diariamente ao convite. Santidade sem sanidade – expressão de Robinson Cavalcanti (1997) – gera gente doente, e não gente santa. Em outras palavras, o anseio pela santidade sem o Evangelho não vira santidade, vira patologia. Agora assista o vídeo: “Santidade como trivialidade” (por Ed René Kivitz) Acesse o AVA para assistir! Exercício de aplicação Voltemos, por um momento, à tese central desse tópico: “Se a espiritualidade começa com a conversão, ela floresce ou amadurece com uma vida de ou em santidade. Saímos ao mundo para viver em santidade”. Assinale a alternativa cujas assertivas sejam uma implicação direta dessa tese (considerando ainda o modo como foi desenvolvida ao longo desse tópico): I. Santidade implica em saída ao mundo, mas não do mundo. II. Santidade implica em saída ao mundo, mas isso não signifi ca que compactuemos com todos os modos de operar (ou modus operandi) do mundo. III. Santos são separados por Deus para viver uma vida de santidade, o que deve signifi car ascese ou separação do mundo. IV. Santos são separados por Deus para uma vida de santidade, ou seja, eles possuem uma vida no mundo, se envolvem com seus meios próprios, participam dela, e no meio dela expressam, muitas vezes sem saber, sua santidade. Acesse o AVA para fazer o exercício e ver a reação do professor! User Realce User Realce User Realce User Realce User Realce | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã24 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã 4. A vocação da humanidade Para continuar a conversa, busquemos inspiração no livro de Gênesis, um livro que mostra como essa “aposta de Deus”, chamada humanidade, se desenvolveu. Pois minha tese aqui é de que quanto mais humanos nos tornamos, mais espirituais seremos. No princípio, Gênesis diz, Deus criou o céu e terra – tudo aquilo que nossos olhos veem, e o invisível também –, e em dado momento disse: “façamos o ser humano à nossa imagem, de forma que refl itam nossa natureza”. E o texto prossegue dizendo que “Deus criou os seres humanos; criou-os à semelhança de Deus, refl etindo a natureza de Deus, ele os criou macho e fêmea...” (Gn 1.26-28, TAM). Ou seja, parte da afi rmação de que “somos humanos, graças a Deus” vem dessa mensagem original: não apenas a de que Deus nos fez – humanos, mulher e homem – mas a de que ser humano signifi ca participar da natureza divina. Isso implica que todo amor, toda criatividade, toda energia e toda boa dádiva que provêm do divino estão potencialmente presentes na humanidade, transbordando nela (ou em nós). No início, porém, de nossa formação humana, nossos ancestrais míticos, Adão e Eva, decidiram balizar a defi nição de quem eram e, por conseguinte, de quem se tornariam, sobre uma falsa premissa ou crença: a de que mais do que humanos, era possível “ser como Deus” – conhecedores de bem e mal – e, ainda assim, não morrer. Existem teses diferentes sobre qual seria a “essência” do pecado original – e não poderia ser diferente, já que ninguém chega a conhecer a essência de nada. Afi nal, estamos falando de orgulho ou acedia (preguiça)? C. S. Lewis acreditava que o orgulho é “o grande pecado” e que, por causa do orgulho, o diabo se tornou quem é. Que o orgulho “leva a todos os outros vícios” e que, portanto, “é o estado mental mais oposto a Deus que existe” (Lewis, 2005, p. 162). Harvey Cox, por sua vez, se opôs a essa tese (embora não a Lewis diretamente) com a ideia de que comer do User Realce 25Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã fruto não foi um pecado de orgulho, mas de acedia, também traduzida como indolência, preguiça ou ociosidade. Para ele, “não desafi amos os deuses roubando corajosamente o fogo da lareira celeste e trazendo, assim, benefícios ao homem. Nada de heroísmos. Malbaratamos nosso destino ao permitir que uma cobra qualquer dissesse o que devíamos fazer” (Cox, 1970, p. 8). As duas teses têm seus atrativos. No primeiro caso, pecamos por querer “ser mais”. No segundo, pecamos por aceitar “ser menos”, ou melhor, por rejeitar nossa responsabilidade de “plasmar e realizar” nosso próprio destino. Para todos os efeitos, um mal engendrado em nós por um deslumbramento: o de que ser humano – nem mais e nem menos – não basta. Aumentar ou ceder o privilégio implica em deixar de ser humano. Signifi ca trair o projeto original, seja (a) usurpando a imagem e semelhança de Deus em busca de uma equivalência com Deus – querendo ser protagonistas demais –, ou (b) aceitando trocar a responsabilidade de ser “imagem e semelhança” pela indolência, ou o conforto de ter uma serpente qualquer decidindo sobre nosso destino – ou seja, abrindo mão de qualquer forma de responsabilidade. Que é precisamente o que Adão e Eva fazem no momento em que são indagados por Deus sobre as razões de terem comido o fruto: “foi a mulher que o Senhor me deu que me persuadiu a comer”, disse Adão; ou “é tudo culpa da serpente, que me enganou”, disse Eva. Como a humanidade se engendra, portanto, segundo Gênesis? Em primeiro lugar, por meio de uma afi rmação: Deus nos afi rma como participantes, tanto da própria divindade (como sua imagem e semelhança) quanto de toda a criação, como co-criadores e corresponsáveis pelo cuidado com a criação. Em segundo lugar, por meio de um deslumbramento ou ilusão: a possibilidade de ser mais ou menos do que “humanos, demasiadamente humanos”, como diria Nietzsche, fez com que rejeitássemos essa participação, e assim passássemos a afi rmar (egoisticamente) somente a nós mesmos e a nos tomar como “mais importantes que o mundo”(Nietzsche, 2005, p. 38) ou como a medida de todas as coisas. User Realce User Realce User Realce | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã26 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã O pecado original pode ser descrito, portanto, como a debandada humana de sua própria condição. E a inimizade para com nossa condição – também entendida como desumanização – implica em distanciamento e inimizade em relação a Deus. 4.1. A espiritualidade da serpente Tudo começa, porém, pelo que José M. Castillo chama de uma “sedução desorientada pelo divino”, que é “a atração perversa por tudo o que nós atribuímos a Deus: a atração pelo poder e pela glória, pelo domínio e pela grandeza, pelo êxito e pelo triunfo, pelo saber, e por ter tudo o que imaginamos ser próprio do divino” (Castillo, 2010, p. 31). O relato de Gênesis diz que “a mulher olhou para árvore e percebeu que o fruto era apetitoso. Pensando na possibilidade de conhecer todas as coisas, pegou o fruto, comeu e o repartiu com o marido – que também o comeu” (Gn 3.6, TAM). No mesmo momento, o relato diz, “eles perceberam a realidade: descobriram que estavam nus” (3.7). A condição que, até então, era apenas parte do modo natural de ser humano, passou a ter nome-próprio – “nudez” – acompanhado de um sentimento de vergonha e medo, pelo que o homem disse: “fi quei com medo, porque estava nu. Então, me escondi” (3.10). O jardim, a presença do Eterno e a natureza humana deixam naquele momento de ser motivo de alegria, migrando para o lugar do estranhamento. A humanidade passa a ser vergonhosa. Aqui também temos o protótipo de uma oferta de espiritualidade – porque o diabo é um fanático da espiritualidade desencarnada, e oferece à mulher, portanto, a possibilidade de um “espiritualismo puro, longe de toda dependência com relação a um pomar, longe da bovinidade de toda manducação”, como disse Fabrice Hadjadj (2017, p. 94); ou seja, longe da trivialidade humana do comer, evacuar e dormir. Temos aqui a fórmula da espiritualidade demoníaca ou da serpente: a espiritualidade como antídoto contra a humanidade. Opa, espera: já vimos esse fi lme em algum outro lugar? User Realce 27Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã Tenho a impressão de que sim. Saltando de Gênesis para a história, é possível dizer que um dos aguilhões da espiritualidade cristã ocidental esteve em seu estranhamento com a humanidade. Estranhamento grego (platônico), eu diria, que criou dualismos perversos: alma versus corpo; espírito versus matéria; sagrado versus secular; o cristão versus “o mundo”. Como resultado, a espiritualidade seria então a atenção que prestamos ao que acontece em nossa alma – morada do divino – deixando de lado, para não dizer desprezando, o corpo, a matéria e as atividades corriqueiras da vida. Em outras palavras, trata-se de uma espiritualidade “do jeito que o diabo gosta”, por separar o que Deus uniu e “viu que era bom”; por banalizar as boas dádivas da criação; por criar uma piedade domesticada e sem graça, que inibe o que Paul Tillich (1972) chamou de “coragem de ser”: a coragem de aceitar a aceitação (graça) e a coragem de ser como uma parte. Desde o princípio parece que criamos um estranhamento com o fato de que Deus nos aceita e nos ama do jeito que nós somos. E por que não amaria, se Ele nos fez assim? 4.2. A maldição da humanidade Olhar para o Gênesis é interessante pois percebemos que esse sentimento de desajuste para com nossa natureza – esse desconforto em estar na própria pele – está, de certo modo, inscrito em nossos genes e nos acompanha há milênios. Em primeiro lugar, pode-se dizer que há algo de irremediavelmente divino no ser humano, que Eclesiastes elaborou de modo trágico, quando disse que: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até o fi m” (Ec 3.11, ARA). Na tradução A Mensagem do mesmo verso, diz: “Sei que Deus pôs tudo no seu devido lugar e no tempo certo, mas nos deixou na escuridão, e a verdade é que não sabemos bem o que Deus quer, nem agora, nem no futuro”. Espera, deixa eu ver se eu entendi direito: | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã28 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã Deus fez tudo perfeito, tudo no seu devido lugar, a melhor criação possível, e também nos fez, humanos, graças a Deus! Mas deixou dentro da gente uma chama acesa, um senso ou gosto pelo que excede o nosso entendimento (o que também poderíamos chamar de aperitivo do infi nito), mas sem que pudéssemos dar conta, explicar ou satisfazer plenamente esse sentimento? Por que Ele faria algo assim? Uma ilustração: quando Moisés começou a fazer alguns apelos ao Senhor, em Êxodo 33, dentre eles estava o pedido: “Por favor, permita que eu veja a tua glória”, a sua kavod. E o Senhor responde com um “vamos fazer assim”: meu brilho e minha bondade passarão diante de você; o meu nome estará diante de você; minha compaixão e minha misericórdia desfi larão diante dos seus olhos. Mas, o meu rosto você não poderá ver, porque você não suportaria. Então, “você me verá pelas costas. Mas não verá o meu rosto” (Êx 33.21-23). Bem, a resposta à pergunta acima então pode ser: Ele nos disponibiliza somente aquilo que a gente consegue aguentar. Em pequenas doses, sempre parcialmente. O aperitivo do infi nito, ou a eternidade no coração, nos põe em busca, mas a experiência e, porque não dizer, a teologia daí resultantes, são apenas em bocadinhos, sempre um começo de conversa. Porque, em segundo lugar, também podemos dizer que há algo de irremediavelmente humano no ser humano, que pode ser endereçado pela palavra contingência (falta ou insufi ciência). E, com ela, vem a sensação de que nunca somos, nem seremos: fortes o bastante, inteligentes o bastante, felizes o bastante, bons o bastante, espirituais o bastante. E não seremos mesmo. Robert Louis Stevenson, no clássico O médico e o monstro – o estranho caso do dr. Jekyll e o sr. Hyde, de 1885, apresenta, indiretamente, o que eu chamaria de uma parábola moderna do pecado original. O personagem principal, o dr. Henry Jekyll, é descrito como um cientista sério e de reputação ilibada, que sempre fez de tudo para manter publicamente essa imagem de homem virtuoso, profi ssional excelente, uma pessoa de disposição alegre e entusiástica, e que assim faria a felicidade de 29Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã muitos. Algo que ele, Jekyll, descrevia, porém, como seu pior defeito: o de ser pretensamente bom, e duro demais consigo mesmo. Para isso, ele precisava esconder seus impulsos e prazeres, e logo se viu no que chamou de “uma profunda duplicidade”: seu lado bom e o que ele julgava como “a parte inferior de si mesmo” estavam em guerra (a exemplo de Romanos 7). Tomado por um sentimento de vergonha dessa condição (veja o paralelo com os primeiros humanos), ele teve um devaneio: por que não inventar uma fórmula que seja capaz de separar essas duas partes? Cito o personagem: Se cada um, pensei,pudesse ocupar identidades distintas, a vida seria aliviada de tudo que é insuportável; o injusto seguiria seu caminho, livre das aspirações e do remorso de seu gêmeo mais digno; e o justo poderia percorrer com passos fortes e seguros seu caminho ascendente, praticando as boas ações que lhe dão prazer, não mais exposto à desgraça e à penitência causada por obra daquele mal extrínseco. A maldição da humanidade foi que esses dois feixes incongruentes tivessem sido amarrados juntos – que no ventre angustiado da consciência aqueles gêmeos opostos lutem continuamente. (Stevenson, 2015, p. 126, grifo meu) Na pele de seu atormentado personagem, Stevenson nos faz imaginar (ou recordar) um ser humano quase divino, porque puro e livre das “angústias e agruras dessa vida que são postas sobre nossos ombros” (aqui parece Eclesiastes falando); um ser soberano em relação aos apetites mais primitivos do humano e, assim, livre da vergonha, do fardo e da culpa, e para um fi m nobre: fazer o bem e tão somente o bem! Ao colocar em prática seu plano, Jekyll ainda relata ter reconhecido que seu “corpo natural era apenas a aura e a radiância de alguns poderes” que compunham seu espírito, até então destronados pelos “elementos inferiores de sua alma” (Stevenson, 2015, p. 126). Quem condenaria Jekyll por esse ato imponderado? Quem não gostaria de poder ser humano, sem ter de carregar todas as esquisitices e neuroses que povoam nossos variados modos de ser e personalidades? Jekyll é | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã30 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã uma nova versão de Adão e Eva; Jekyll sou eu e é você. Como nossos pais humanos, ele também foi atraído pela espiritualidade da serpente. Exercício de fi xação Escolha abaixo a alternativa que melhor representa o que chamei de “espiritualidade da serpente”: a) Uma proposta de espiritualidade existente desde o Éden que passou a existir como uma espécie de antídoto contra a humanidade. b) Uma proposta de espiritualidade existente desde o Éden e que signifi ca basicamente harmonia com Deus e com a criação. Escolha a alternativa e acesse o AVA para ver a reação do professor! 4.3. É preciso manter todas as partes unidas! Agora, é claro que é uma representação que tem limites (Stevenson escreveu em 1885!), que na natureza humana há uma rede intrincada de laços e de rupturas, de modo que não é apenas “dual”, mas múltipla. De fato, o personagem dr. Jekyll faz uma descrição interessante de si mesmo, humano, como um “amálgama contraditório cuja reforma e aperfeiçoamento [ele] já perdera a esperança de realizar” (Stevenson, 2015, p. 129). Há duas lições importantes aqui: (1) Primeira, a humanidade em nós não é algo que vem pronto em uma bandeja pelo simples fato de que somos humanos, mas deve ser desenvolvida, reformada, e aperfeiçoada sempre – parafraseando Paulo Freire, o ser humano não é, ele está sendo, ou lembrando do que disse outro Paulo, o apóstolo: eu não considero ter alcançado a perfeição, eu não tenho tudo junto (cf. Fp 3.12); (2) Segunda, diante da enorme tarefa que é se tornar mais e mais humanos, e de todas as difi culdades, eventuais fracassos, as injustiças e desigualdades 31Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã da vida – a vida não é justa, nem faz sentido, Eclesiastes que o diga –, muitas pessoas se desesperam, cansam de tentar, cansam de fazer o bem, cansam de lutar, e logo são atraídas, de novo, pela oferta da serpente que está sempre à espreita. Uma poção mágica quem sabe e “bam!”, confl ito resolvido? Não, o Eterno nos alertou lá no livro de Gênesis: querer ser mais ou menos que humanos signifi ca morte. E, não custa lembrar (alerta para spoiler!): esse foi o triste fi m do dr. Jekyll, que sabia dos riscos e mesmo assim arriscou. A sabedoria bíblica, entretanto, nos ensina uma terceira importante lição: (3) É preciso (aprender a, e ter coragem de) manter todas as partes unidas! Um último exemplo, extraído de Eclesiastes, e caminhamos para o fi nal dessa minha provocação: Em Eclesiastes (7.15-20, TAM), lemos: 15 A minha vida tem sido uma ilusão, mas nela eu tenho visto de tudo. Há pessoas boas que morrem, e há pessoas más que continuam a viver a sua vida errada. 16 Por isso, não seja bom demais, nem sábio demais; por que você iria se destruir? 17 Mas também não seja mau demais, nem tolo demais; por que você iria morrer antes do tempo? 18 Evite tanto uma coisa como a outra. Se você temer a Deus, terá sucesso em tudo. 19 A sabedoria pode fazer mais por uma pessoa do que dez prefeitos juntos podem fazer por uma cidade. 20 Não existe no mundo ninguém que faça sempre o que é direito e que nunca erre. A primeira má-notícia – sim, porque em toda boa-nova existe uma “má- nova” mais ou menos explícita –: justiça (e bondade) não garante bem- estar e longevidade, assim como a maldade não resulta necessariamente em fracasso ou sofrimento. Então, se você deseja fazer o bem, que não | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã32 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã seja pelos louros, porque pode ser que não alcance. Depois, segunda má-notícia: ele mostra pra gente que isso era mais pretensiosidade que realidade, ou seja: ninguém “é” inteiramente bom ou inteiramente mau, e que quem vive com essa pretensão é uma pessoa dividida (ou não íntegra), sugada para os extremos. Só que aqui ele quebra com a tradicional teoria da recompensa e a moralidade baseada em causa e efeito, que afi rma: o justo alcança uma larga vida enquanto o malvado perderá no fi m. Em seguida, ele diz algo que é uma aparente contradição: “Não seja demasiadamente ímpio e não seja tolo; por que morrer antes da hora?” (v. 17, TJC). Parece indicar que os extremos levam à autodestruição, mesmo que, no caso da maldade, por exemplo, se possa ter alguma sobrevida. A última recomendação é bem inusitada, e eu encaro como uma grande boa-nova: “retenha uma coisa e não abra mão da outra”. Isso signifi ca evitar o caminho ilusório do Dr. Jekyll. Sobre isso, leiamos sua triste confi ssão: Aqui preciso falar teoricamente, não dizendo o que sei, e sim o que suponho ser mais provável. O lado mau de minha natureza, ao qual eu havia agora concedido a capacidade de corporização, era menos robusto e menos desenvolvido que o recém-deposto lado bom. Por certo, no curso de minha vida – nove décimos da qual compostos de esforço, virtude e controle –, aquele lado fora menos exercitado e menos gasto. (Stevenson, 2015, p. 128) Quer dizer, esse homem fez exatamente o oposto do que sugere o Pregador. Que, a meu ver, não é para que exercitemos nossa maldade inerente de caso pensado, mas que reconheçamos que ela existe, que está dentro da gente, que faz parte de nossa humanidade. Harold Kushner (1999, p. 66) traduz esse mesmo v. 17 de modo muito interessante: “Permita que sua vida seja uma mistura de devoção e pecado, tudo de forma moderada!”. Eis então o retrato de um ser humano insuportável (para si e para os outros): aquele/a que crê piamente na equivalência entre suas crenças e sua vida prática. Imagina-se demasiadamente justo e bom. Ledo engano. Integridade também signifi ca admitir sua incapacidade de viver 33Introdução à espiritualidadecristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã inteiramente o que acredita e prega. É preciso fazer o possível para manter todas as partes unidas? Sim. Mas, eis o paradoxo: ninguém tem tudo junto. E se afi rma ter, mente. E o demônio exulta. Por isso, é preciso reverberar outra vez Eclesiastes: “não há um justo sequer sobre a terra que faça [apenas] o bem e nunca peque” (TJC). Ou: “Não há uma única pessoa perfeita no mundo; nenhuma que seja pura e sem pecado” (TAM). Elsa Tamez (1998, p. 160) conclui que “a luta infi nita por ser bom é também desumanizante. O que Qohélet está dizendo é que é próprio do humano não ser justo sempre”, bem como não ser mau o tempo todo. Quem teme a Deus procura evitar os extremos. Texto de Apoio Em seu livro Na liberdade da solidão, Thomas Merton diz o seguinte: A vida espiritual é, antes de mais nada, uma vida. Não é apenas algo a ser conhecido e estudado; tem de ser vivido. Como toda vida, defi nha e morre quando separada de seus elementos próprios. A Graça está enxertada em nossa natureza e o homem todo está santifi cado pela presença e ação do Espírito Santo. A vida espiritual não é, portanto, uma vida completamente separada, desarraigada da condição humana e transplantada para o ambiente angélico. Vivemos como criaturas espirituais quando vivemos como homens que procuram a Deus. Para sermos espirituais, temos de permanecer homens. E, se isso não fosse evidenciado em toda parte na teologia, o Mistério da Encarnação seria disso, amplamente, uma prova. Por que Cristo se fez homem senão para salvar os homens unindo-os misticamente a Deus por meio de sua santa Humanidade? Jesus viveu a vida – ordinária – dos homens de todos os tempos. Se queremos, pois, ser espirituais, vamos em primeiro lugar viver a nossa própria vida. Não tenhamos medo das responsabilidades e inevitáveis distrações inerentes à tarefa a nós confi ada pela vontade de Deus. Abracemos a realidade; assim nos encontraremos imersos na vontade vivifi cadora e na sabedoria de Deus, que por toda parte nos envolve. (Merton, 2001, p. 40) | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã34 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã Resumindo a ideia: ser espiritual é ser mais e mais humano! A espiritualidade é uma integridade. A falta de integridade, a sedução da espiritualidade da serpente, nos faz querer optar por um ou outro extremo, e viver divididos. A integridade, porém, implica em assumir quem somos, discernindo com maturidade nossas ações, e agindo de acordo com o que acreditamos [afi nando-se o mais possível à vontade de Deus]. O equilíbrio, por outro lado, também envolve não se deixar paralisar diante das difi culdades – permitindo que uma “lei moral”, que às vezes milita contra a vida, fale mais alto, deixando, assim, de viver e realizar o potencial da vida em função dessas interdições. Quanto mais amadurecemos e crescemos enquanto pessoas de fé e humanas, mais os nossos “joios” (lembrando da parábola do joio e do trigo), ou o que em nós estava obscuro, vem à tona. E não é nossa tarefa extinguir o “Mr. Hyde”, pois se o fi zermos provavelmente eliminaremos também o “Dr. Jekyll”. É preciso, por mais estranho que isso possa parecer aos nossos ouvidos cartesianos, deixar que eles cresçam juntos! Nilton Bonder (1998, p. 82) disse o seguinte: “Aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais. Se fôssemos todos mais corajosos e temêssemos menos a possibilidade de sermos perversos, este seria um mundo de menos interdições desnecessárias e de melhor qualidade”. Exercício de aplicação Leia o texto seguinte e em seguida responda o que se pede: Jesus lhes contou outra parábola, dizendo: O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo. Mas enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e se foi. Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: ‘O senhor não semeou boa semente em seu campo? 35Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã Então, de onde veio o joio?’ ’Um inimigo fez isso’, respondeu ele. Os servos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos tirá-lo?’ Ele respondeu: ‘Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até à colheita. Então direi aos encarregados da colheita: Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro’. (Mateus 13.24-30) 1. De acordo com a parábola, qual alternativa melhor corresponde ao que se diz sobre o funcionamento das coisas no “reino dos céus”: a) No reino dos céus, no mesmo solo em que a bondade germina e cresce, também cresce a maldade e a impiedade. b) No reino dos céus a bondade e a justiça estão onde a maldade e a impiedade não estão e vice-versa. 2. O que o estranhamento e a atitude dos servos do dono do campo representam? a) Representam a concepção de santidade como participação, que não teme perder-se e se contaminar com o mundo. b) Representam a concepção de santidade como ascetismo, que teme que o santo se torne profano pelo contato com o mundo, e propõe separá-los. 3. Em que medida a postura do dono do campo nos ajuda a evitar o caminho adotado pelo doutor Jekyll, em O médico e o monstro? a) Na medida em que nos instiga a encontrar uma fórmula de separar bem e mal na humanidade; o bem crescerá quando o mal for extirpado. b) Na medida em que nos instiga a ver bem e mal como realidades inseparáveis no mundo e no ser humano; não saberíamos o que é o bem, não fosse o mal. Escolha as alternativas, depois acesse o AVA para ver a reação do professor em cada questão! | Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã36 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã Referências bibliográfi cas AGOSTINHO. Confi ssões. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1996. BARTH, Karl. Introdução à teologia evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 2003. BONDER, Nilton. A alma imoral: traição e tradição através dos tempos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. BONHOEFFER, Dietrich. Vida em comunhão. São Leopoldo: Sinodal, 2006. BRABO, Paulo. Em seis passos o que faria Jesus. São Paulo: Garimpo, 2009. CABRAL JR., Elienai. Salvos da perfeição. Mais humanos e mais perto de Deus. Viçosa: Ultimato, 2009. CASTILLO, José M. A ética de Jesus. São Paulo: Loyola, 2010. CAVALCANTI, Robinson. A utopia possível. Viçosa: Ultimato, 1997. COSTAS, Orlando. Proclamar libertação. Uma teologia de evangelização contextual. São Paulo: Garimpo, 2014. COX, Harvey. The Future of Faith. New York: HarperOne, 2009. _________. Que a serpente não decida por nós. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970. GALILEA, Segundo. Seguir a Jesus. São Paulo: Paulinas, 1979. HADJADJ, Fabrice. A fé dos demônios ou a superação do ateísmo. 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São Paulo: Quadrante, 1967. Atenção! Lembre-se de realizar as atividades avaliativas da disciplina. 1- Faça todos os exercícios desta unidade; 2- O "Exercício integrativo" consiste em um resumo de toda disciplina contendo entre 1400 e 1500 palavras, portanto, sugerimos que você já faça o resumo desta unidade como parte desta avaliação. Faça esse resumo em um arquivo de texto, salve-o em seu computador e use-o novamente para adicionar no resumo das outras unidades e ao fi nalizar o resumo de toda a disciplina, poste-o ao completar esta tarefa acessando o link "Avaliações"; 3- Lembre-se de ler alguns dos textos complementares (em torno de 25 páginas) para cumprir a exigência de leitura de pelo menos 100 páginas da lista disponibilizada aqui; 4- Ao fi nal da unidade II, você deverá fazer a primeira prova objetiva. Consulte o “Programa de curso” para mais informações sobre as "avaliações". Fique atento ao prazo fi nal para a realização das "avaliações": 27/02 - 23h55 | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade38 | FTSA Religião, fé e espiritualidade UNIDADE II – RELIGIÃO, FÉ E ESPIRITUALIDADE Introdução A busca por uma espiritualidade encarnada – meu mote na primeira unidade – passa, também, pelo reconhecimento das mais esquisitas e paradoxais paragens humanas, lugares em que não apenas damos signifi cado à vida, como também construímos e damos sentidos a nossa relação com o divino e sua criação. A religião é certamente um desses lugares, que demarcam nossa ambiguidade humana: somos movidos pelo incondicional e, ao mesmo tempo, muito presos à condicionalidade, isto é, às crenças, aos conceitos, às ideias e imagens que fazemos do divino e do mundo. Quais são as consequências ou implicações disso para a fé? Sim, porque a fé é diferente da religião, que é diferente da espiritualidade, embora sejam conceitos em relação. E precisamente por estarem em relação é que decidi escrever o relato que você lerá nesta unidade. Num segundo momento, tentarei fazer uma síntese sobre o que signifi ca permanecer crendo, escolhendo a fé, diante das eventuais desconstruções pelas quais passamos em meio a um universo de descrença e ceticismo, ou mesmo de dúvidas e incertezas que cercam nossa espiritualidade tanto no plano intelectual quanto no plano existencial. Farei isso em dois momentos: no primeiro, discorrendo sobre a sustentação e os limites da crença e, no segundo, apresentando o que aqui chamarei de “arte de perder chãos”. Objetivos da unidade 1. Perceber o que uma teoria ou concepção de religião pode revelar sobre seu objeto – que, para Tillich (1973), é o “incondicional”; 2. Defi nir fé também a partir das relações entre o condicional e o incondicional; 3. Descobrir um novo tipo de racionalidade, orgânica e vital, na expressão da fé; 4. Refl etir sobre a necessidade e (arte) de perder chãos, de desconstrução para uma nova construção. 39Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 1. O que é religião? A palavra “religião” é antiga e remonta aos tempos bíblicos. No Novo Testamento, por exemplo, a aparição mais conhecida do conceito se encontra na carta de Tiago (1:27-28), no que ele denomina de “religião verdadeira”. Outras ocorrências podem ser vistas em Colossenses 2:18 e Atos 26:5. No primeiro, o termo em grego (threskeia) signifi ca “adoração religiosa”, e, no segundo, “sistema religioso”. Sabemos que na antiguidade cristã existiam inúmeras religiões entre os diferentes povos; até mesmo os gregos e os romanos eram bastante religiosos (vide o que disse Paulo aos atenienses em Atos 17), praticavam o politeísmo, que é a crença em ou culto a vários deuses. Sabemos também que o cristianismo primitivo teve uma base religiosa, advinda do judaísmo, sobretudo. Jesus e os apóstolos eram judeus e seguiam os princípios da religião judaica. Como explica Frank Whaling (in McGrath, 1993, p. 547), “o simples uso da palavra ‘religião’ implica em uma teoria sobre a religião”. Assim, gostaria de utilizar outra defi nição possível como ponto de partida para nossa conversa aqui: Religião é um sopro humano na busca pelo incondicional. De onde a retiro? Primeiramente, da ideia de que a religião nasce do desejo ou busca pela transcendência (ou pelo infi nito) que há em todo ser humano. Eclesiastes – como já observei na unidade temática anterior e quero retomar aqui – chama isso de um senso de “infi nito” que há no coração humano: “Deus pôs a eternidade no coração do homem sem que este saiba as obras que Deus fez do princípio até fi m” (Ec 3:11). De acordo com Harold Kushner (1999, p. 25), “Deus plantou em nós uma fome que não pode ser saciada, uma fome de sentido e signifi cado”. Essa “eternidade no coração”, expressa bem essa fome pelo inexplicável, indizível, pelo que está além de nós; é o senso de vazio e escuridão diante de uma infi nitude que não cabe dentro de nós, mas que desejamos desesperadamente: viver, e viver eternamente! Como diz Luiz Felipe Pondé (2015, p. 23), “somos seres feitos de abismos”. A busca pela transcendência na contemporaneidade assume outras facetas, mas expressa o mesmo anseio. Segundo John Stott (1998, p. 246), consiste no anseio “pela realidade suprema, que se encontra além | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade40 | FTSA Religião, fé e espiritualidade do universo material. É um protesto contra a secularização, isto é, contra a tentativa de eliminar Deus de seu próprio mundo”. Trata-se de uma reabertura que vemos crescer no mundo atual de um espaço, que vinha sendo ocupado pelo racionalismo, o progresso e a ciência, por exemplo, como conquistas modernas, para a experiência do transcendente. Daí vem o renascer da espiritualidade, ou melhor, das espiritualidades, em um renovado senso do divino, do mistério e do temor. Neste tempo vemos o fl orescer da religiosidade, como expressão espontânea e busca de relacionamento das pessoas com Deus através de ritos, performances e adorações, e menos da religião institucional e seus mecanismos de controle ou domesticação. Aqui vai mais uma ideia importante: O senso de infi nito no coração humano nos conduz ao transcendente. Minha defi nição aqui pretende convergir tanto com a visão clássica romântica de Friedrich Schleiermacher (2000, p. 35), para quem a religião, em sua essência humana, “é sentido e gostopelo infi nito”, como a de Paul Tillich (1973, p. 61), que a defi ne como “a orientação do espírito ao signifi cado incondicional”. Em outro lugar, o autor defi ne religião como “preocupação suprema (ultimate concern), manifesta em todas as funções criativas do espírito bem como na esfera moral na qualidade de seriedade incondicional que essa esfera exige” (Tillich, 2009, p. 45). Gosto pelo infi nito, orientação para o incondicional, preocupação suprema: todas indicando tanto uma origem no ser, como um fi m último para a religião. Mas isso, é claro, não é tudo. O texto de Eclesiastes também diz que isto se dá sem que o ser humano conheça as obras ou o percurso de Deus do princípio até o fi m, exceto, acrescento, por aquilo que Deus mesmo deixou, seus rastros, primeiramente no universo criado. Ou seja, o ser humano tateia pelo infi nito, mas só consegue encontrá-lo através de expressões fi nitas. Em Romanos, o apóstolo Paulo diz que “os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas...” (Rm 1:20). Quer dizer, parte do que de Deus se pode conhecer está, desse modo, manifesto na vida que pulsa em nós e além de nós, na natureza. Pode-se inferir então que a religião nasce, em segundo lugar, do seguimento humano pelo caminho em que se encontram os vestígios, os rastros, ou as pegadas do divino ou do incondicional. 41Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade Exercício de aplicação Observe o seguinte trecho do livro do profeta Amós (na tradução “A Mensagem”, de Eugene Peterson), e em seguida responda às questões: Não suporto os encontros religiosos de vocês. Estou cheio dos seus congressos e convenções. Não me interessam seus projetos religiosos, seus lemas e alvos presunçosos. Estou enojado das suas estratégias para levantar fundos, das suas táticas de relações públicas e criação da própria imagem. Não suporto mais sua barulhenta música de culto ao ego. Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim? Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero (Am 5.21-24 – Grifos meus). 1. Qual das alternativas abaixo melhor corresponde a visão ou o conceito que Amós transmite sobre religião? a) Religião é uma expressão sincera do coração humano que se conjuga com o desejo de adorar e servir somente a Deus. b) Religião é uma criação humana, cujos projetos, convenções, instituições e estratégias revelam mais do ego humano do que do Deus, a quem se diz adorar. Acesse o AVA para fazer e ver a reação do professor! 2. O que signifi caria, no contexto da argumentação de Amós, “cantar para Deus”? a) Cantar com o coração voltado para Deus e o que o move, e não primordialmente para si mesmo. b) Erguer sua voz e cantar de modo fervoroso para que Deus ouça. Acesse o AVA para fazer e ver a reação do professor 3. O que é preciso para viver uma espiritualidade íntegra, segundo Amós? a) É preciso andar retamente, respeitando os costumes de sua igreja e frequentando constantemente seus cultos. b) É preciso amar a justiça e viver de acordo com aquilo que prega. Acesse o AVA para fazer e ver a reação do professor | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade42 | FTSA Religião, fé e espiritualidade 1. Religião, revelação e o condicional Como seres humanos, somos, contudo, condicionais. Pertencemos à humana condição: mortal, limitada e, biblicamente falando, pecaminosa ou concupiscente. O pecado é o que, originalmente, segundo Gênesis (3:1-7), nasceu de uma tentativa do homem e da mulher originais de se igualar a Deus na ciência do bem e do mal e, por conseguinte, foi o que os afastou da presença desse mesmo Deus, deixando sua companhia no jardim para viver à sua própria sorte. A fi m de reencontrar Deus, o ser humano precisa deste evento em diante buscá-lo desesperadamente, desejando se “religar” a Deus. Para tanto, ele necessita de guias, de referenciais, de mediadores humanos. Dessa maneira, a religião, em terceiro lugar, nasce da necessidade da religação e, por conseguinte, de mediação entre o divino e o humano. Religião é, na expressão latina, religare, prática normalmente sustentada pela ação ritual, como o sacrifício, por exemplo. Para atravessar o fosso que separa Deus e suas criaturas é necessário construir pontes; daí a ideia de pontifi cante ou sumo pontífi ce, que é o construtor de pontes, identifi cado com “os especialistas do sagrado [sacerdotes, xamãs, padres, pastores], que dentro da comunidade estão preparados para realizar as ações rituais e têm capacidade tradicional para executar as cerimônias que asseguram aos restantes membros a proteção dos poderes divinos ou demoníacos, mais que naturais” (Bazán, 2001, p. 46). Em outras palavras (e esse ponto é importante): havendo a necessidade de mediação e ordem, a religião migra do campo subjetivo da busca pelo incondicional, para o campo objetivo (condicional) das práticas, dos sistemas de crenças e valores, da tradição e da institucionalização. Daí a necessidade que muitos estudiosos viram na separação entre religião institucional (o sagrado domesticado) e religiosidade (a religião “primitiva”, o sagrado selvagem, usando aqui o termo de Roger Bastide), como também destaquei na primeira unidade temática deste curso. Nesse sentido cabe a distinção entre “religião” e “revelação”. Religião 43Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade também pode ser entendida, nos termos gerais aqui expostos, como o esforço ou conjunto de esforços humanos plasmados no sentido de alcançar a Deus. Religião é negócio humano. Já revelação é a automanifestação de Deus, pelos meios que lhe aprouver, ao ser humano e por amor a ele. Revelação é negócio divino. É, na definição de Tillich (1987, p. 98), “a manifestação daquilo que nos diz respeito de forma última. O mistério revelado é de preocupação última para nós porque é o fundamento de nosso ser”. Texto de Apoio “Revelação” se refere a uma ação divina, “religião” a uma ação humana. “Revelação” é um acontecimento (happening) absoluto, singular, exclusivo e autossufi ciente; “religião” tem a ver com feitos meramente relativos, sempre recorrentes e nunca exclusivos. “Revelação” signifi ca a entrada de uma nova realidade na vida e no espírito; “religião” nos remete a uma dada realidade de vida e a uma função necessária do espírito. “Religião” tem a ver com cultura; “revelação” com aquilo que se encontra além da cultura. (Tillich, 1973, p. 9, tradução minha). Ora, se religião não é revelação, e se revelação é um ato que provém de Deus e, num primeiro momento, não tem aparentemente nada a ver com capacidades e esforços humanos, qual é então o ponto de contato que efetiva a revelação como algo inteligível ao ser humano, já que um dos propósitos é o de “mostrar” algo a ele? Eis que então entra a função da razão e cultura humanas nesse processo. Como expressa Tillich (1973, p. 10, tradução minha), “se a revelação é a irrupção do Incondicional no mundo do condicional, não é possível impedir que ela se condicione, convertendo-se em uma esfera junto a | Espiritualidade Cristã | FTSAReligião, fé e espiritualidade44 | FTSA Religião, fé e espiritualidade outras esferas, a religião lado a lado com a cultura”. Em outras palavras, para que a revelação fosse inteligível ao ser humano, Deus escolheu formas ordinárias para manifestar o extraordinário. Há, portanto, uma correlação entre eles. Disso, depreende-se, como observa Tillich (1987, p. 99), que a revelação mantém os eventos subjetivo e objetivo, natural e sobrenatural, ordinário e extraordinário em interdependência ou tensão dinâmica. Em suas palavras, “revelação não é real sem o lado receptivo, e não é real sem o lado doador”. Para que fi que mais claro, nesse caso: Deus é doador e o ser humano, e sua cultura específi ca, os receptores. Para assistir os vídeos e ouvir os PodCasts, acesse o AVA! Exercício de fi xação É comum pensarmos que a revelação de Deus se dá por meio da prática religiosa. Ou seja, ao integrar uma religião – neste caso, a religião cristã – e cumprir seus preceitos, será possível compreender/receber a revelação de Deus. Porém, conforme estamos estudando nesta unidade, há uma diferença entre a revelação e a religião, fazendo com que a revelação de Deus não esteja condicionada à religião. Qual é essa diferença? a) A religião, do verbo religar, é algo que provém de Deus, já a revelação provém da busca e da capacidade do ser humano de compreender a Deus. b) A religião está ligada à uma ação humana. Sua forma está condicionada ao tempo e à cultura do homem. A revelação provém de Deus e pode acontecer de inúmeras maneiras, conforme a vontade de Deus, independente da prática religiosa. Acesse o AVA para fazer e ver a reação do professor! 45Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 1.2. Razões próprias e ambiguidades da religião A religião pode ter muito de Deus ou dos deuses – seu caráter, valores, exigências e verdade –, mas também tem muito do humano, e esse tem sido meu ponto principal desde o começo. Torna-se problemática precisamente quando o humano pretende reduzir o incondicional ao condicional, ou melhor, igualar Deus às formas de devoção (humanas) a Deus. É óbvio que se há algo de Deus que pode ser dito, é porque ele se revelou. E, também, se algo dessa revelação pode ser apreendido, é porque o Verbo se encarnou, como nos ensinou João já no primeiro capítulo de seu Evangelho. Entretanto, a confusão se arma quando queremos controlar ou monopolizar o conteúdo e a ação do Verbo. Logo, o Verbo, que na linguagem joanina, é amor e vida, pode se degenerar, na forma religiosa, em ódio, violência e morte. Mas por que isso acontece? Aqui entra o que chamo de razões próprias e ambiguidades da religião. Parodiando o conhecido dito de Blaise Pascal, a religião tem razões que a própria razão desconhece. Ela envolve o intelecto, é claro, mas menos o intelecto que o coração, e menos o coração que as entranhas. Um religioso vive por certos princípios, e na defesa apaixonada desses princípios os perde muitas vezes de vista, sendo capaz de afi rmá-los como confi ssão, mas negá-los, consciente ou inconscientemente, como prática – para entender essa lógica, basta relembrar nossa conversa na unidade anterior sobre a religião demoníaca ou a “espiritualidade da serpente”. As práticas religiosas, desse modo, nem sempre coadunam com as doutrinas que os lábios confessam. Nesse sentido, vale apelar para a, quem sabe polêmica, mas contundente, afi rmação de John Caputo de que “a religião é para os amantes, apaixonados pelo impossível, que fazem com que o restante de nós pareça vago”. Vejamos duas passagens de suas obras que atestam essa ideia. | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade46 | FTSA Religião, fé e espiritualidade Texto de Apoio Na religião, o amor de Deus está exposto habitualmente ao perigo de confundir-se com a profi ssão de alguém ou o ego de alguém, ou o gênero de alguém, ou a política de alguém, ou a ética de alguém, ou o esquema metafísico favorito de alguém, ao qual este se sacrifi ca de maneira sistemática. Então, ao invés de fazer sacrifícios pelo amor de Deus, a religião se inclina a fazer um sacrifício do amor de Deus. (Caputo, 2005, p. 121, tradução minha) Religião envolve nossas mais profundas convicções e mais apaixonadas crenças sobre nascimento e morte, doença e saúde, infância e velhice, amor e inimizade, guerra e paz, misericórdia e compaixão. Por essa razão é que pessoas religiosas são capazes de investir a vida toda trabalhando em favor dos pobres e dos doentes, dedicando-se às vítimas da AIDS na África, por exemplo, e também porque, em contrapartida, são igualmente capazes de incendiar um lugar colocando-o abaixo em um acesso de intolerância. A religião é irredutível tanto a um quanto ao outro e remover a raiva é remover a paixão; mas se você remover a paixão, remove também a religião. Conquanto haja religião, bem como paixão, a chance para a justiça sempre virá acompanhada do risco da injustiça. (Caputo, 2013, p. 61, tradução minha) Pode-se depreender da primeira fala de Caputo que toda forma de religião é um tipo de antropomorfi smo; fala-se do “amor de Deus”, da “vontade dos deuses”, do sacrifício “para Deus”, mas, no fi m, o que isto signifi ca? Como não atrelar as experiências e signifi cações do sagrado com as paixões e idiossincrasias do humano, do profano, do mundano? 47Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade Glossário ANTROPOMORFISMO: A expressão é originária da junção de duas palavras gregas, ánthrōpos (humano) e morphē (forma), para designar a atribuição de formas humanas a divindade. Embora Deus não seja humano, ele é descrito ou pensado por meio de expressões de linguagem que permitam a compreensão humana. Ademais, outra razão própria da religião é que, ao que parece, ela mexe não apenas com os gostos, preferências ou meras opiniões das pessoas, mas, em grande parte, com o “tudo ou nada” de sua existência. É isso que Caputo expressa no livro Truth (2013), onde ele refl ete sobre a verdade e sua relação com a religião. Em suas próprias palavras: É essa ambiguidade da religião que pode tornar artifi cial e até inútil, em certos casos, o discurso sobre “paz” ou “tolerância” entre as religiões ou convicções semelhantes, caso não se reconheça que a violência, a guerra, a disputa, a intolerância, ódio e injustiça sempre fi zeram parte da história das religiões em todo o mundo tanto quanto, ou mesmo em decorrência das diferentes práticas e preceitos sobre o amor, a tolerância, o respeito, a justiça, equidade, paz, e assim por diante. Não são os deuses que estão em guerra, mas os seus seguidores. Eliminar esta ambiguidade – parece-me que este é o ponto de Caputo – é o mesmo que remover a religião. A percepção é que, considerando as “razões próprias” e as ambiguidades da religião, conforme analisadas há pouco, as pessoas em suas crenças estão dispostas a tolerar umas às outras, mas “até certo ponto”, ou seja, até o ponto em que, por exemplo, a tolerância não signifi ca ter de negociar, ou mesmo minimizar em nome da convivência oudo bem comum, convicções “fortes” de fé. Daí a recorrência à ideia de Caputo sobre a religião como sendo não um processo racional, mas um negócio feito “para os amantes”, que se entregam passionalmente à causa, custe o que custar. | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade48 | FTSA Religião, fé e espiritualidade Por essa razão, parte fundamental do discurso dos ateístas converge na direção de que se abolirmos a religião do mundo, haveria menos guerras, menos violência, menos intolerância. Saiba mais Esse é o caso de Richard Dawkins em seu Deus, um delírio (2007). Logo no prefácio de seu livro, este famoso biólogo e ferrenho defensor do ateísmo convida os leitores, no espírito da música “Imagine”, de John Lennon, a imaginar um mundo sem religião e, consequentemente, sem guerras, ataques suicidas, cruzadas, massacres, perseguições, evangélicos televisivos extorquindo dinheiro de seus fi éis, e assim por diante (Dawkins, 2007, p. 14). A descrença em Deus e desejo de extirpação da religião da face da terra é o que diferencia estes “neoateus” dos chamados “sem religião”, por exemplo. Não se pode, dessa forma, colocar no mesmo bojo de análise os ateístas, os agnósticos e os sem-religião. A história contemporânea das religiões no Brasil, porém, parece seguir em outras direções, que se notam tanto pelo desejo de mais religião, por um lado, quanto no anseio por menos religião, sem perder, porém, o elemento da transcendência. Embora se encontrem em categorias diferentes, ambos, porém, parecem partilhar do mesmo processo de “reencantamento do mundo”. Isto signifi ca que, apesar de tudo, ao que parece, o ser humano não consegue se desvencilhar ao todo da religião. 49Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade Exercício de aplicação Quais das posturas abaixo a igreja pode adotar a fi m de reduzir ou evitar a percepção de intolerância religiosa em nosso contexto: a)Tentar se afastar de todos que professem uma religião diferente, convivendo somente entre cristãos que tenham em sua denominação religiosa a mesma confi ssão de fé. b)Guardar sua crença para si, vivendo-a de forma interiorizada, respeitando aqueles que pensam diferente sem tocar no assunto. c)Demonstrando, através de suas ações e palavras, um Deus que ama a todos e que deseja se revelar a todos, independentemente de qual religião essa pessoa professa e de como entende o Criador, pois Deus não está preocupado com ritos, mas com a adoração que vem do coração. Acesse o AVA para ver a reação do professor! Reflita diante do texto: a) quem são os samaritanos nos dias de hoje aos olhos da igreja? b) Quem são os ignorados e rebaixados nos dias de hoje, como eram as mulheres antigamente? Foi a esta pessoa que Jesus se revelou como fi lho de Deus pela primeira vez e foi a essa pessoa que Jesus encarregou de falar de Deus aos demais. Por fi m: c) Como a igreja formata o dia, a hora e o local do culto nos dias de hoje? Isso condiz com a resposta que Jesus deu à samaritana quando indagado sobre a forma de praticar tal rito religioso? | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade50 | FTSA Religião, fé e espiritualidade 1.3. Recapitulando Nesta primeira parte da unidade, vimos um pouco sobre como o conceito de religião pode nos levar a diferentes caminhos e sentidos. Baseado em Tillich principalmente, defendi a ideia inicial de que a religião é “um sopro humano na busca pelo incondicional”. Isto signifi ca que há algo no ser humano que o move em direção ao infi nito, ao Eterno, ao desconhecido, mesmo que não seja possível explicar as razões para isso. Ora, mas isso não garante o contato ou o alcance. Afi nal, como pode o condicional e o que há de mais incerto atingir ou incondicional, ou o que há de mais certo e necessário no universo? E a resposta é: não é possível! Na visão de Eclesiastes, isso se deu de propósito: temos essa eternidade no coração, mas não sabemos nada sobre os caminhos do Espírito, que sopra onde quer. Mas o Eterno é gracioso, e resolve se revelar. O incondicional toca parcialmente o condicional através da revelação. A religião, embora diferente da revelação, é também e paradoxalmente resultante dela. Daí sua relação com a cultura: não se encontra Deus em um vazio-sócio cultural, e sim nos termos de uma cultura e tempo específicos. Por fim, vimos com Caputo que, como envolve o incondicional, a religião é coisa para os amantes, e pode virar um negócio de vida ou morte, sem grandes garantias do que vem primeiro ou tem a primazia. O Deus bíblico é o Deus da vida; as construções e práticas religiosas ao longo do tempo, porém, pintaram-no também como Deus da guerra, da intolerância e da morte. Muitas pessoas se afastaram de Deus por causa disso. E, ainda assim, a religião não foi extinta; pelo contrário, cresce cada vez mais a necessidade dela. Pode ser exatamente porque a sede pelo incondicional nunca cessa, apesar dos descaminhos do religioso condicional. Isso é uma pista pelo menos. Estamos apenas começando. Por essa razão é que precisamos agora falar de fé. 1.3. Recapitulando 51Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 2. O que é a fé? Em Temor e tremor, Sören Kierkegaard (2012, p. 17) dizia que ainda que se possa formular sistematicamente toda a substância da fé, “não quer dizer com isso que se alcance a fé, como se nós a penetrássemos ou tivesse ela se introduzido dentro de nós”. Essa frase nos diz algumas coisas importantes já de início: primeiro, que em toda defi nição de fé há uma indefi nição mais ou menos explícita; isto é, quanto mais tentemos defi nir a fé, mais ela permanece indefi nível. Segundo, que fé não é essencialmente um “conhecimento”, pois como ele diz no livro Migalhas fi losófi cas, todo conhecimento passa pelo plano temporal e histórico, e, se a fé envolve uma relação com o eterno, então seria absurdo falar que ela é um conhecimento (Kierkegaard, 2008, p. 91). Terceiro, que saber qualquer coisa sobre a fé, no sentido histórico, não faz de ninguém uma pessoa de fé, no sentido existencial. Texto de Apoio A fé, como eu a entendo, não é fácil de traduzir em palavras. Talvez possa ser assim expressa: Creio que, apesar do seu absurdo patente, a vida ainda sim tem um sentido; eu me resigno a não poder perceber este sentido com a razão, mas estou pronto a servi-lo, mesmo que para tal tenha que me sacrifi car. A voz desse sentido, ouço-a em mim mesmo, nos instantes em que estou completa e verdadeiramente vivo e alerta. O que a vida exige de mim nesses instantes, quero tentar realizar, mesmo indo contra os padrões vigentes e as leis comuns. Ninguém pode ter essa crença sob imposição, nem se forçar a ela. Só se pode vivê-la. (Hesse, 1971, p. 7). Parece-me útil, nesse contexto, a defi nição pessoal de fé do premiado autor de literatura Hermann Hesse, como exposta acima. Pois posso | Espiritualidade Cristã | FTSAReligião, fé e espiritualidade52 | FTSA Religião, fé e espiritualidade saber muito de teologia ou ter um conhecimento bíblico invejável, por exemplo; e ainda assim não ser um crente: ela em nada afeta meu viver. Posso ter sido testemunha ocular de manifestações miraculosas, que suspostamente apontem para a existência de Deus (como muitos foram no tempo de Jesus, segundo relatos do Novo Testamento), e nem por isso poderia ser considerado um discípulo (Hesse, 1971, p. 88), isto é, alguém cuja vida é seguir os rastros do mestre Jesus. Amá-lo e confi ar nele signifi ca fazer o que ele manda, guardando sua palavra (Cf. Jo 14:21; 15:14). Kierkegaard se expressou bem a esse respeito quando analisou a situação do “discípulo contemporâneo”, isto é, daquele que, por viver na época em que Jesus se encarnou, pôde presenciar muitos de seus ditos e feitos. No entanto, o ponto de Kierkegaard é que o fato de conhecer uma circunstância histórica – como aquela da Palestina nos dias de Jesus –, pode fazer de alguém uma testemunha ocular, mas de forma alguma o transforma automaticamente em um discípulo, “o que aliás se pode ver pelo fato de que para ele este saber não signifi ca nada mais que algo histórico”, ao passo que a fé, ainda que seja um paradoxo que une o que nosso autor chama de “eternização do histórico” e a “historicização da eternidade”, ou seja, ainda que o incondicional se manifeste de modo histórico, a fé essencialmente fala daquilo que está além da história (Kierkegaard, 2008, p. 88, 91). Podcast: “Uma fé que pode fraquejar” Acesse o AVA para ouvir! Mas isto ainda deixa sem resposta à pergunta principal aqui: o que é a fé? Partirei da defi nição de Paul Tillich (1957, p. 24) em Dinâmica da fé: Fé, como estar tomado por aquilo que nos toca incondicionalmente, é um ato central da pessoa inteira. Se acontecer que apenas uma das funções que constituem a pessoa é identifi cada com a fé, desfi gura o sentido da fé. 53Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade Três preceitos importantes sobre a fé surgem dessa defi nição: (a) é ser tomado pelo que nos toca incondicionalmente; (b) trata-se de um ato da pessoa inteira, ou seja, tudo o que há em mim é orientado pela fé; (c) ela deixa de ser fé quando envolve apenas parte do que eu sou. Nos termos de Kierkegaard (2010, p. 88), a fé é uma paixão, que penetra na totalidade do ser. Então, toda tentativa de dar signifi cados à fé, ou, retomando Tillich (1957, p. 10), “de derivá-la de alguma outra coisa”, pressupõe a pré-existência da fé. Isso signifi ca que a fé, que se manifesta antes de tudo no “centro do eu pessoal, no qual percebemos o incondicional, o infi nito, e por ele somos possuídos” (Ibid. p. 10), acaba gerando nesse ser, curioso do sentido da vida, o desejo de derivá-la em outras coisas. Mas que “outras coisas” são essas? Com base na refl exão de C. S. Lewis (2005, p. 184-185) em Cristianismo puro e simples, podemos falar em pelo menos dois sentidos a partir dos quais se compreende fé: Crença: um conjunto de credos centrais que formam a base da fé de alguém. Trata-se da fé que é aceita e defendida a partir de doutrinas consideradas verdadeiras. Há uma diferença, portanto entre a fé, no sentido apontado por Tillich, e a fé como “crença”. Virtude: consequência do caráter do crente. Trata-se da fé que vive e age a partir de um conjunto de orientações de cunho moral, como fazer o bem ou ser misericordioso. Lewis, porém, pergunta: o que há de moral ou imoral em se acreditar ou não em determinados princípios de fé? Acredita-se não porque vê nisso um dever, mas porque crê que aquela fé (e ele está falando propriamente aqui de suas “evidências” ou conteúdos) é verdadeira. Não crer não faz da pessoa que descrê alguém imoral necessariamente. Entretanto, para pessoas de fé, é “inevitável que surjam boas ações” (Lewis, 2005, p. 198). O homem e a mulher de fé, contudo, ainda são assaltados pela possibilidade do fracasso no cumprimento de sua virtude e, como consequência, pelo difícil encontro com quem são de verdade. Como bem lembra Lewis (2005, p. 189, 190), essa tentativa, porém, é positiva no sentido de que “nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade54 | FTSA Religião, fé e espiritualidade para ser bom”; de tal modo que “a principal lição que aprendemos quando tentamos praticar as virtudes cristãs é que fracassamos”. É precisamente esse fracasso (bem desenvolvido e reconhecido por Paulo em Romanos 7), numa perspectiva bíblica, que pode reconduzir o fi el aos braços do incondicional e de sua graça, que nos possibilita tanto o perdão quanto a reconciliação. Exercício de reflexão Uma vez entendido que a fé se encontra no caminhar como Jesus caminhou, uma vez que em Jesus encontramos a máxima expressão e revelação de Deus, é possível dizer que a igreja cristã contemporânea é uma igreja de fé? Se você disser que sim, faça observações sobre o que há de semelhante entre ela e os passos de Cristo. Se disser que não, faça observações de como a igreja de hoje se distancia dos passos de Cristo. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Acesse o AVA para fazer o exercício e ver a reação do professor! 55Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 2.1. Os paradoxos da fé Na famosa defi nição de Hebreus, a fé é “a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos” (Hb 11:1). Tomada fora do contexto e de modo descomplicado, essa defi nição pode enganar um pouco no aspecto dessa “certeza” e dessa “convicção” sobre a qual fala o texto. Que tipo de certeza é essa? Em que se baseia tal convicção? A tese de Hebreus 11, no verso 1, perde muito de seus sentidos possíveis se desatrelada de todo o texto. Minha intenção não é fazer uma exposição do texto, e sim apontar alguns paradoxos da fé importantes nele. O primeiro é o paradoxo da fé entre a certeza e a incerteza. Do que a fé é ou pode ser certa? Segundo Hebreus, daquilo que, do ponto de vista humano, aparenta ser o mais incerto. A fé, por exemplo, é certa da existência de Deus, não porque Deus tenha se mostrado de maneira clara por meio de evidências ou provas, e sim porque, na linguagem de Tillich, esta pessoa foi tomada pelo incondicional e o eterno. Como diz Kierkegaard (2012, p. 77): “A fé é antecedida por um movimento deinfi nito; é apenas então que ela surge, nec inopinate [de maneira inesperada], em razão do absurdo”. Tillich (1957, p. 65), de modo semelhante, também afi rma que “todo ato de crer pressupõe participação naquilo para que está dirigido. Sem uma experiência anterior do incondicional não pode haver fé no incondicional”. O cientista tem provas de uma realidade na medida em que essa realidade se dá a investigar, e então ele tem, em tese, uma certeza objetiva. O médico pode chegar a ter certeza sobre as origens de uma doença X, porque os exames que ele fez provaram que ela veio da ação de uma bactéria Y. Na fé não é assim. A fé não é apenas certeza do mais incerto, como certeza que se sustenta sob condições incertas. Hebreus diz que quando Deus chamou Abraão, por exemplo, este se dirigiu “a um lugar que mais tarde receberia como herança, embora não soubesse para onde estava indo” (Hb 11:8). Abraão partiu na certeza da promessa, no entanto, sem saber. Creu para essa existência, mas não obteve o que esperava nessa existência. Creu porque foi movido pelo incondicional, e porque teve a coragem da fé e o risco de suportar suas eventuais dúvidas e incertezas. | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade56 | FTSA Religião, fé e espiritualidade E, como diz Tillich (1957, p. 15), “é suportando corajosamente a incerteza que a fé demonstra o mais fortemente o seu caráter dinâmico”. O segundo é o paradoxo da fé entre o visível e o invisível. Já disse anteriormente que o fundamento da fé (o incondicional) se encontra além da concreticidade dos fatos, portanto, além do que os olhos podem ver, de modo que a testemunha ocular, digamos, de um milagre, não necessariamente se torna um discípulo. O discípulo se reconhece pelos frutos que manifesta no ordinário da vida e não pela euforia manifesta em meio ao extraordinário dos milagres. Hebreus diz que a fé é “prova das coisas que não vemos”. Então “fé”, nesse sentido mais estrito, signifi ca confi ança naquilo que não se pode ver, ao que não se tem acesso imediato. Tomemos o exemplo de Moisés (11:23-29). O texto diz que, ao abandonar as riquezas e pompas do palácio no Egito, Moisés “permaneceu fi rme como quem vê o que é invisível” (v. 27). Ora, a própria ideia de “ver o invisível” já é um paradoxo. Logo, os olhos que “viram” não são estes humanos, mas os da fé, que se cria a partir da visão do inexistente porque “vê além”. Aqui facilmente alguém pode se recordar do que Jesus disse a Tomé, segundo o evangelho de João. Depois que este o viu e tocou em sua mão e em seu lado, declarou “Senhor meu e Deus meu”. Vendo aquilo, Jesus replicou: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20:26-29). “Assim, a fé crê no que não vê” (Kierkegaard, 2008, p. 118) O terceiro é o paradoxo da fé entre a promessa e a realização. Chegamos a culminância dos outros dois paradoxos: o discípulo, que tem a confi ança certa nas condições mais incertas, que crê naquilo que não vê, mas espera ansiosamente, deve também, como os “heróis da fé” de Hebreus, acreditar e viver segundo orienta a promessa, sabendo, porém, que pode não chegar a experimentá-la em vida. Quando pensamos na fi gura do herói no sentido hollywoodiano, a imagem que mais comumente surge é de poder, luta, com eventuais contratempos, mas sabendo que, no fi m, o triunfo é certo, pois o herói sempre vence. Sem muita consciência 57Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade projetamos essa imagem na vida, e não diferente na vida de fé. Nutrimos a certeza de que aquele que plantou o bem, lutou para alcança-lo, trabalhou duramente para sua conquista, ao fi nal, será recompensado. Entretanto, a realidade é mais complexa que isso. Eclesiastes tentou nos alertar a esse respeito ao concluir que a vida é miserável, fugaz, cheia de sofrimento e sem sentido; que a sabedoria pode trazer vida, mas nem por isso o sábio está garantido em comparação com o tolo, às vezes a vida vira do avesso, e vemos o sábio sofrendo muito enquanto o tolo, apesar de suas tolices, só se dá bem. Ele também diz que sol nasce para todos e o fi m é o mesmo para todos, pobres ou ricos, sábios ou tolos, justos ou injustos. E que, durante a vida, “cedo ou tarde, a má sorte atinge a todos. Ninguém pode prever a desgraça. Como peixes capturados numa rede cruel ou pássaros numa gaiola, os homens e as mulheres são capturados pelo mal acidental e repentino” (Ec 9:11-12, na versão A Mensagem). Podemos discordar, fi car bravos e profundamente incomodados com Eclesiastes, e com certa dose de razão, afi nal, geralmente não somos preparados para lidar com as más notícias – nem pela família, tampouco pela sociedade ou pela religião –, apenas com as boas, como se o otimismo e o pensamento positivo nos garantissem vitória e vida longa. Contudo, de nada adianta espernear, fechar os olhos ou negar a realidade. Quem pensa que a vida de fé pode blindá-lo contra o sofrimento, facilmente envereda pela rua do engano e da ilusão. Primeiro, porque não há nenhuma garantia cósmica de que ter fé é ter proteção e segurança; segundo, porque não há nenhuma garantia bíblica, no sentido global, que sugira isso. Muito pelo contrário. Andar nos caminhos da fé, por sua própria natureza e pela natureza da vida, implica em enfrentar difi culdades várias, como foi o caso dos anti-heróis de Hebreus. Experimentaram, sim, a proteção divina em algumas circunstâncias e até viram algumas promessas sendo cumpridas, mas também “enfrentaram abusos, açoites e, sim, algemas e prisões”; alguns “foram apedrejados, serrados ao meio, assassinados a sangue frio”. Vaguearam pela terra, sem teto, força ou amigos, “vivendo como podiam nas periferias cruéis do mundo”, que, como diz o autor, não era digno deles! (Hb 11:32-38, A Mensagem). | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade58 | FTSA Religião, fé e espiritualidade E o autor de Hebreus fi naliza claramente expressando o paradoxo em questão: “Entretanto, nenhum desses exemplos de fé puseram a mão na recompensa prometida. Deus tem um plano melhor para nós: que nossa fé se junte à deles, para formar um todo completo, como se a vida de fé que eles tiveram não fosse completa sem a nossa” (11:39-40, A Mensagem). Caminhar na fé, segundo Hebreus, implica em lançar-se nos paradoxos sem seguro de vida ou de triunfo. Aliás, Kierkegaard foi taxativo e um tanto duro a esse respeito, seguindo a lógica ilógica de Hebreus. Vejamos abaixo. Texto de Apoio Em verdade, se ocorresse à fé alguma vez a ideia de avançar assim, triunfalmente en masse, então ela não precisaria autorizar alguém a cantar refrões satíricos, porque de nada adiantaria proibi-lo a todos. Mesmo que os homens emudecessem, ouviríamos sobre esta louca procissão uma risada estridente como aqueles sons zombeteiros que a natureza faz ouvir no Ceilão; pois a fé que triunfa é a mais ridícula de todas as coisas. Se a geração contemporânea de crentes não teve tempo de triunfar, nenhuma outra o conseguirá; pois a tarefa é a mesma, e a fé é sempre militante; mas enquanto ainda houver luta haverá a possibilidade de derrota, e por isso, no que concerne à fé, jamais se triunfa antes do tempo, ou seja, jamaisse triunfa no tempo [...]. (Kierkegaard, 2008, p. 152-153, grifo meu). Que vantagem há na fé? Que proveito ela, porventura, traz? Afora as promessas falsas provenientes de uma falsa piedade – porque apartada da vida real –, a resposta honesta pode ser: nenhuma! E quem disse que a fé tem a ver, primordialmente, com vantagem e com proveito? Se algum proveito há na fé – claro que estou falando aqui da fé cristã – esse não está primeiramente voltado para a pessoa em si, mas para o próximo da 59Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade fé, tanto no presente, quanto no futuro, pois a fé que vive no paradoxo se concretiza de várias formas já, só que plantando sementes para a eternidade. O fi nal do capítulo 11 de Hebreus é sugestivo de que a fé do discípulo não é fé em si ou para si, mas é fé para a posteridade, é a fé que cresce e amadurece nos outros. É, nesse sentido, uma dádiva, um bem comunitário, um tipo de fé que se forja na junção do si mesmo e do/com o outro. Ali germina, ali cresce, e dali se expande para a eternidade. Recapitulando: a fé é um fenômeno complexo. Sobretudo porque ela pode se expressar fenomenalmente, mas normalmente não se retém em fenômenos, expandindo-se para o terreno do indizível (o que não pode ser expresso). Por isso, foi conveniente trabalhar com Kierkegaard e Tillich, pois eles compreenderam essa dimensão anterior ou precedente da fé, que dogma religioso nenhum pode expressar ao todo ou reter; na verdade, segundo Tillich, todo conteúdo ou refl exão sobre a fé no sentido cristão já pressupõe a existência da fé. Pois, mais que um conhecimento, a fé é um sopro do incondicional movendo-se no coração do condicional e do humano. Instiga menos palavras e mais ações, embora todo esboço de fé no ser envolve alguma refl exão sobre a fé. Kierkegaard apropriadamente a defi niu como um paradoxo, e o texto de Hebreus, como vimos, pode ser muito instrutivo sobre alguns dos paradoxos derivados da vida na fé, e que geram uma refl exão mais profunda sobre seus signifi cados. Assista o vídeo! “Mesa redonda sobre os paradoxos da fé” Convidados! Acesse o AVA para assistir! A FTSA agradece a gentil participações dos professores: Vanderlei Frari (ISBL) e Clodomiro Banwart (UEL). | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade60 | FTSA Religião, fé e espiritualidade 3. Raciovitalismo: a fé e a razão em diálogo Immanuel Kant, no ensaio chamado “Uma resposta à pergunta: o que é o Iluminismo”, afi rma que nada mais é requerido para esse esclarecimento a não ser a liberdade, talvez a mais inofensiva de todas elas, pensava ele: a liberdade para fazer o uso público da razão em todos os meios. No entanto, contendia ele que de todos os lados se podia ouvir vozes dizendo: “Não raciocine”! “O ofi cial diz: ‘Não raciocine, apenas obedeça’; o inspetor diz: “Não raciocine, apenas pague’; o pastor diz: ‘Não raciocine, apenas creia” (Kant, 1983, p. 37). Em todos esses casos Kant via um movimento contrário ao da emancipação iluminista, restrições penetrantes à liberdade. Está inclusa aí a crítica a religião, ou mais precisamente a postura do sacerdote de obstrução do pensamento pela via da preconização de uma fé em que tudo o que se tem de fazer é “apenas crer”. Ainda hoje é o que parecem querer dizer alguns sacerdotes e líderes religiosos: creia e obedeça apenas, não questione! Em certa medida, é possível consentir que esse “apenas crer” envolve uma dimensão da fé, de confi ança e entrega ao incondicional ou mesmo de “salto”, como diria Kierkegaard. É quando alguém não tem muita escolha ou nada mais a fazer senão render-se diante do mistério, do inexplicável e do poder divino. É algo se vê no evangelho de Marcos no exemplo de Jairo, um dos mais importantes membros da sinagoga. Desesperado diante da iminente morte de sua fi lhinha, ele recorre a Jesus pedindo que impusesse suas mãos sobre ela e a salvasse. Marcos apenas relata que Jesus “foi com ele” (Mc 5:24). Depois da intercorrência de outra situação, alguns da casa do chefe da sinagoga foram até Jairo e estranharam ele ainda incomodar o mestre, uma vez que sua fi lha, segundo eles, já estava morta. O texto diz então que Jesus, sem se importar com tais palavras, afi rma àquele pai: “Não temas, crê somente” (5:36). Que outro recurso Jairo tinha? Em tal situação, ou era crer e esperar pelo impossível, ou simplesmente abraçar as más notícias trazidas por aqueles homens, não crer e perder a esperança. Em outros contextos, “apenas crer” pode servir como instrumento de 61Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade controle e manipulação, como Kant já alertava no século XVIII; ou mesmo para a desculpa e preguiça de pensar, afi nal, como já foi dito, “pensar dói”. Contudo, será a fé algo tão simples que possa ser traduzida, para todos os efeitos, em um “apenas” isso ou aquilo? Acreditar apenas? Tenho trabalhado com a noção central de Tillich, de que fé signifi ca ser movido por aquilo que nos toca incondicionalmente; não se retém em conteúdos, mas os pressupõe e pode ser expressa parcialmente através deles. Pois, para além do “salto”, ainda resta se perguntar: no que eu acredito? Por que acredito? Como pontua Alister McGrath (2012, p. 19), fé é um assunto relacional e tem a ver com confi ar em Deus; não obstante, “parte da dinâmica mais íntima da vida de fé é o desejo de entender mais a respeito de quem e em que confi amos”. Assim, a fé, não apenas crê, mas busca entendimento e se expressa, também, através de raciocínios, acordos, convicções fi rmes e bem assentadas. Em outras palavras, para além da dimensão do incondicional e do inexprimível, há algo que pode e deve ser pensando e também expresso; por atos, é claro, mas também por palavras, fazendo uso da razão. Teologia, como defende McGrath (2012, p. 19), “é uma paixão da mente, um desejo de entender mais sobre a natureza e os caminhos de Deus e o impacto transformador que isso tem na vida”. Esse é o convite do apóstolo Pedro na conhecida passagem que diz: “...antes, santifi cai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” (1Pe 3:15). O que essa esperança expressa? Qual é seu sentido? Como ela pode falar à condição do homem e da mulher no século XXI? Pelo visto, o uso da razão – a despeito da cisão interposta pela modernidade – ainda é algo importante a fé. Parafraseando McGrath (2012, p. 21), Cristo não será santifi cado, nem reinará, em nossos corações “se ele não guiar nossos pensamentos também”. Ele ainda afi rma que “a vitalidade da fé cristã está na empolgação e no completo prazer intelectual causados pela pessoa de Jesus de Nazaré”. Então, se alguém te perguntar: por que Jesus e não Maomé, Buda ou Krishina? Qual é o sentido do que vocês, cristãos, chamam de encarnação? Não é possível, | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade62 | FTSAReligião, fé e espiritualidade desse modo, estar na fé – sobretudo para quem escolhe pensar e pensar por si – sem se defrontar seriamente com questões como essas. A bíblia fala de zelo e obediência, mas também fala de entendimento. A situação ideal é quando o zelo caminha de mãos dadas com o entendimento. Se existisse um lugar em que a o ser humano estivesse e sua racionalidade não, poderíamos falar de uma fé sem razão – poderíamos dizer o mesmo de uma razão sem fé? Na prática, porém, isso é tanto uma impossibilidade quanto um pecado contra o dom de Deus. O contraposto a uma parte do racionalismo moderno, crítico e supostamente irreligioso, não é o irracionalismo, mas uma racionalidade vitalizada – que reconhece tanto os limites de seu pensamento, quanto a pluralidade de pensamentos e interpretações que nos permeia. É uma fé que nem “apenas pensa”, nem “apenas crê”, mas que assume a complexidade e riqueza da experiência humana íntegra e holisticamente, que refl ete tanto quanto ama, que pensa tanto quanto sente. Une a paixão do pensamento pelo paradoxo e pela vida. Resulta em uma fé dialogal e uma racionalidade vital ou, como enunciado no título deste tópico, um raciovitalismo, tal como propõe o teólogo Alessandro Rocha em diálogo com Michel Maffesoli. Glossário RACIOVITALISMO: Um deslocamento epistemológico em relação ao racionalismo moderno. Tal deslocamento encontra sua justifi cação e legitimidade na opção pela integralidade da vida como espaço de racionalidade, em contraposição à opção da razão moderna pelo acento unidimensional de sua compreensão de racionalidade na mente humana. (...) “Buscar uma racionalidade orgânica”. Esta é a tarefa que estamos propondo até aqui. Essa racionalidade nós assumimos como raciovitalismo. Fazemos isso exatamente porque compreendemos que o racionalismo é “particularmente inapto para perceber, ainda mais apreender, o aspecto denso, imagético, simbólico, da experiência vivida”. (Rocha, 2010, p. 115). 63Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade Exercício de fi xação 1. O que é raciovitalismo? a) É ir de encontro ao racionalismo moderno, pois esse está focado numa única dimensão da razão. E a fé só pode ter uma explicação, baseada em uma única razão. b) É trilhar um caminho diferente do racionalismo moderno. Entendendo que a razão passa pela integralidade da vida humana. Não existe apenas uma dimensão e uma razão quando se trata de experiência de vida, experiência religiosa, experiência de revelação, dentre tantas outras. c) É acreditar que razão e fé não podem se misturar. O místico é inexplicável e, por isso, incompreensível. Tentar atribuir uma racionalidade moderna ao que é divino, é ignorar as experiências místicas que o ser humano pode passar. 2. A razão e fé podem andar juntas? Sim Não Escolha as alternativas corretas e acesse o AVA para fazer o exercício e ver a reação do professor! | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade64 | FTSA Religião, fé e espiritualidade 4. Sobre a arte de perder chãos Tendo em vista o exposto até aqui, pode-se dizer que uma racionalidade vital não é a do tipo “forte” ou rígido, tal como se vê na modernidade, mas uma racionalidade aberta, relacional e, em muitos casos, “frágil”, não no sentido de que pensa ou refl ete mal (desleixada e irresponsavelmente), mas de que reconhece as limitações próprias do pensamento e da linguagem humana, bem como se esvazia da pretensão dogmática de se impor como “o saber” entre outros, passando a se admitir como “um saber” entre outros. A vida intelectual – que não é uma atividade distinta da vida de fé ou “espiritual” –, como a pensa João Batista Libanio (2006, p. 81), “só se desenvolverá se se mantiver uma atitude de abertura ao diferente, ao novo, ao questionamento”. De acordo com ele, como fi lhos/as de uma época e uma cultura específi cas (na qual se insere a religião) todos/ as fazemos parte de uma tradição (ou mais que uma). Por exemplo, o que concebemos como “fé” (falando de seus conteúdos) é fruto de uma vivência dentro de uma tradição, em que a experiências individuais alimentam e são alimentadas por experiências coletivas. Entretanto, como reitera Libanio, “viver só da tradição”, tratando-a de modo rígido ou defi nitivo, “termina em um processo repetitivo. Aqui entra o que ele chama de atitude de abertura enquanto “capacidade de assumir uma autocrítica da própria tradição de dentro dela” (Libanio, 2006, p. 81). Essa atitude se opõe, na visão de Libanio, tanto a uma concepção puramente ortodoxa, que trabalha com a perspectiva excludente de sim ou não, ou, ou; quanto também uma concepção relativista, que desqualifi ca a tradição assumindo uma postura em que anything goes (ou qualquer coisa vale), e que pode facilmente ser trocada por outra coisa no próximo momento. Ao invés, ele propõe uma concepção dialética, que “busca a síntese entre a tradição e a novidade da experiência, chegando a novas formas de verdade. 65Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade Retém a positividade da tradição, nega-lhe a negatividade e assume do presente sua força crítica positiva. Vão assim construindo novas e mais ricas sínteses de verdades” (Libanio, 2006, p. 82). Nesse sentido, uma tradição nunca deve se impor como absoluta, e toda vez que o faz recai no risco da idolatria. Isso, porém, aconteceu e ainda acontece na história das religiões, e do cristianismo em particular. Basta recordar o período da Reforma Protestante, por exemplo, que teve, como uma das razões principais de sua ocorrência, a elevação da igreja, sua ordem, seus dogmas, à condição de absoluta, inquestionável, acima da própria Palavra de Deus. Somente através dela se podia conhecer o verdadeiro Deus e a legítima mensagem das Escrituras. Contra isso se impôs o que Paul Tillich (2006, 1992) chamou de princípio protestante. Segundo ele, “o princípio protestante é a reafi rmação do princípio profético em seu ataque contra uma igreja que se considerava absoluta e que, por isso, se encontrava demoniacamente deformada” (Tillich, 2005, p. 234), ou, parafraseando o que ele disse em outro lugar (Tillich, 1992, pp. 209-221), trata-se do protesto divino e humano contra toda tentativa de absolutizar o que é apenas relativo e temporal. Ou seja, o que fez (e ainda deve fazer) do protestantismo “protestante”, segundo Tillich (1948, p. 162, tradução minha), reside no fato de que “ele transcende seu próprio caráter religioso e confessional, e de que ele não pode ser inteiramente identifi cado com quaisquer de suas formas particulares”. Em outras palavras, o que faz do protestantismo “protestante” é o fato de ele não ser luterano, nem zuíngliano, calvinista, anglicano, anabatista, pentecostal e assim por diante. Pois o protestantismo é movido incondicionalmente por um princípio que transcende suas expressões históricas (denominacionais, teológicas ou doutrinárias). A luta de Lutero não foi para que a Igreja deixasse de ser “Católica” e passasse a ser “Luterana” ou “Reformada”, e sim para que | Espiritualidade Cristã | FTSAReligião, fé e espiritualidade66 | FTSA Religião, fé e espiritualidade atentasse de novo ao Evangelho e voltasse a ser Igreja de Cristo. Essa relação entre o condicional e o incondicional estava quase totalmente deturpada pela Igreja e seus líderes no tempo em que o protestantismo emergiu como protesto contra essa realidade, mas também acabou sendo, posteriormente, perpetuada dentro do próprio protestantismo, especialmente no tocante ao poder. A segregação clero-laicato, por exemplo, foi seguramente um dos principais alvos do protesto de Lutero, ao evocar a linguagem bíblica do “sacerdócio universal de todos os crentes”. Ou seja, Cristo é o sumo-sacerdote e único cabeça da Igreja e, como tal, ele constituiu seu povo como uma “nação de sacerdotes”, no meio da qual até existe a função “sacerdote”, mas esta não deve ter proeminência sobre as demais. Quantos exemplos seriam necessários para mostrar o fato óbvio (e conhecido de todos) de que o protestantismo, tanto quanto o catolicismo, errou feio neste ponto? O rótulo “protestante” é completamente esvaziado de sentido quando igrejas protestantes não se permitem ser confrontadas por seu próprio princípio. Rememorar e conservar a tradição reformada (que já ultrapassa seus 500 anos!) sem levar devidamente a sério seu princípio motivador é tão absurdo quanto desejar praticar mergulho sem se molhar. Quando a igreja quer igualar a si mesma, ou o que ela diz/faz, a Deus, torna-se um ídolo ou um demônio, deixa de ser igreja – lugar de pecadores salvos pela graça de Jesus Cristo e, por isso, conscientes de que seus saberes e experiências são sempre “em parte” – passando a ser uma Babilônia ou uma sucursal do inferno. Contra essa tentação, gostaria de propor, como exercício de refl exão, o que aqui estou chamando de “arte de perder chãos”, cuja premissa é a de uma desconstrução sadia e intencional de todos os solos provisórios sobre os quais assentamos nossas crenças. 67Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade Pode ser representado pela fi gura:Tentarei explicar o que quero dizer com essa imagem através do seguinte: 1. Na parte inferior da fi gura estão o chão da fé e o chão da história que, embora distintos, não se encontram em planos diferentes. Fé é fé no incondicional. Trata-se de chão invisível e indizível, em primeiro plano, por isso é chão enquanto sustentação incondicional do que denominamos fé. Essa fé, porém, não nos desistoriciza nem nos desumaniza, mas nos comissiona, segundo o princípio da encarnação vigente no evangelho, a entrar na história como antecipadores da eternidade através de gestos que Paulo chamou de “permanentes”: a fé, o amor e a esperança. 2. A caminhada humana, porém, nos impõe a busca por sentido e, assim, a criação de sentidos possíveis para aquilo que acreditamos e sobre o porquê de acreditarmos nessas coisas. Esses são o que poderíamos chamar de “chãos fi nos e frágeis”, porque provisórios. | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade68 | FTSA Religião, fé e espiritualidade 3. Esses, por sua vez, são constituídos por manifestações temporais e impermanentes na esfera da cultura – ética, estética e religião. A cultura humana, inventada e invencionista, incita a cada ser humano a dar formas – símbolos, mitos, representações do “real”, e, para os de fé, da própria fé, da religião e de Deus, expressas pelos conteúdos, dogmas, crenças, tradição. 4. Esses chãos, como já disse, são frágeis e provisórios – e essa é a sua natureza, o que os constitui como tais. O ato de tentar equipará-los à própria realidade ou ao incondicional é parte do antropomorfi smo, sobre o qual falei anteriormente nesta unidade. A consciência que o ser humano tem da realidade, porém, não é capaz, por mais que pretenda, dar conta ou espelhar a própria realidade. Clément Rosset, em seu livro O real e seu duplo (2008), desenvolve a tese de que, com relação ao real, nossa tendência é a de suprimi-lo numa “atitude de cegueira voluntária”, que nos faz ignorar o real, o singular, e dirigir nosso olhar para outro lugar (seu duplo, sua representação), onde o real não está. De modo que, aquilo que anunciamos como sendo “real”, é na verdade o “outro”, visto que o real, em si, nos escapa. A realidade não se dá a conhecer plenamente, não é inteligível em sua essência. Na mesma medida em que é ininteligível, também é cruel (ou seja, dura). Daí a cegueira voluntária consiste no efeito psicológico ilusório produzido pelo efeito do espelho: no encontro com o outro da realidade (seu duplo, sua representação), penso estar em contato com ela mesma (Rosset, 2008, p. 91). O mesmo pode funcionar para o relacionamento da pessoa de fé com o incondicional; a ilusão, nesse caso, consiste na pretensão de falar por Deus, ou de que a imagem verdadeira de Deus está expressa na ideia ou na representação. É aqui que a ilusão pode se converter, ao mesmo tempo, em manipulação e em idolatria, isto é, em PECADO. 5. Nietzsche e seu perspectivismo trouxe para gente a ideia de que tanto a realidade, quanto o que chamamos de “verdade”, são criações da linguagem. A linguagem coloca diante de nós um mundo de possibilidades e também de impossibilidades. A palavra pronunciada coloca uma parcela do mundo em movimento, mas nunca é a expressão exata desse mesmo 69Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade mundo. Isso é o que Jacques Ellul (1984, p. 21) chama de “bendita incerteza do discurso; é o que lhe confere toda a riqueza”. O discurso, completa ele, é sempre ambíguo, jamais transparente. Posso me esforçar para que o outro compreenda exatamente o que estou dizendo, contudo, “não sei, exatamente, o que o outro está entendendo daquilo que digo” (Ellul, 1984, p. 21). Mas é no meio desses buracos, insucessos e mal-entendidos da linguagem que, segundo Ellul, reside uma nova expansão da vida, em que se recomeça incessantemente, e se deve trabalhar na interpretação do discurso e do texto num movimento sempre em construção e, por isso, sempre susceptível de múltiplas defi nições. 6. As possibilidades (ou impossibilidades) da linguagem deveriam, assim, nos conduzir a uma tarefa mais honesta, humilde, dependente daquilo que somos e temos – e, por isso, impeditiva do atrofi amento dogmático –, e da graça de Deus e, por tudo isso, alegre e celebrativa. Eis o extraordinário, diria Ellul: é uma benção para o ser humano viver assim, cativo da linguagem, distante da completude e, ao mesmo tempo, em busca dela, pois do contrário, acrescentaria eu, não seriamos seres humanos e sim deuses, ou semideuses. Isso é redenção e não desgraça, sobretudo quando se pode assumir jubilosamente a provisoriedade desses “chãos” da linguagem e permitir que eles se desmanchem e se refaçam num movimento dinâmico. Esses chãos estão para a queda assim como o peixe está para a água. O objetivo, porém, é perder o chão sem cair no abismo, e essa é uma arte bastante arriscada que somente os corajosos e aventureiros se dispõem a aprender e se permitem desenvolver. Deixar o chão ruir pode ser, ao invésda “ilusão voluntária” de quem os iguala à realidade, um mergulho consciente e voluntário. Ora, não foi assim com a encarnação do Cristo? Não foi um mergulho (ou enfraquecimento) voluntário na humanidade e na história? 7. Em conclusão, é possível pensar que esse mergulho voluntário tem tanto uma dose de imanência quanto de transcendência (pensando naqueles dois chãos primários da fi gura), em que recebemos tanto um banho de realidade quanto da fé no incondicional e, a partir daí, fazemos | Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade70 | FTSA Religião, fé e espiritualidade uma revisão de paradigmas, de pressupostos, de nossos chãos. Aqui reside um aspecto muito importante: um chão cai para que outro seja construído – portanto, não se trata de desconstrução pura e simples que redunda num vazio. E isso se dá num movimento dinâmico – como as águas do rio que correm para o mar e de lá voltam a correr (Ec 1:7). Nesse sentido, pode-se pensar que nunca voltamos os mesmos de cada novo mergulho, de cada nova imersão e experiência. A esperança – falando propriamente contra o dogmatismo e a intolerância – é que voltemos mais maduros, melhores, mais tolerantes e generosos. Fazemos teologia não somente para conhecer mais a Deus, no sentido apenas (ou sobretudo) cognitivo. Retomando o que foi dito no vídeo de abertura da primeira unidade temática, fazemos teologia para aprender a amá-lo mais e, amando-o, poder dizer que o conhecemos e por Ele somos conhecidos, como disse João. Espiritual, não custa lembrar, é quem ama. Texto de Apoio Meus amigos amados, continuemos a amar uns aos outros, pois o amor vem da parte de Deus. Quem ama é nascido de Deus e tem um relacionamento real com ele. Quem se recusa a amar não sabe o que mais importa sobre Deus, pois Deus é amor. Vocês não podem conhece-lo se não amam. [...] Meus amigos queridos, se Deus nos amou assim, então devemos amar uns aos outros. Ninguém viu Deus, nunca. Mas, se amarmos uns aos outros, Deus habitará no íntimo do nosso ser e seu amor será completo em nós – amor perfeito! [...] Se alguém se vangloria dizendo: “Eu amo a Deus”, mas odeia e despreza seu irmão, é mentiroso. Se não ama a pessoa que vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? O mandamento que temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na prática de amar ao próximo. Vocês precisam amar os dois. (1 João 4:7-8, 11-12, 20-21, A Mensagem) 71Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade Referências bibliográfi cas BAZÁN, Francisco G. Aspectos incomuns do sagrado. São Paulo: Paulus, 2002. CAPUTO, John D. Truth: philosophy in transit (eBook). London: Penguin, 2013. _______. Sobre la religión. Madri: Tecnos, 2005. DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Cia das Letras, 2007. HESSE, Hermann. Minha fé. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1971. KANT, Immanuel. 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Lembre-se de realizar as atividades avaliativas da disciplina. 1- Faça todos os exercícios desta unidade; 2- O "Exercício integrativo" consiste em um resumo de toda disciplina contendo entre 1400 e 1500 palavras, portanto, sugerimos que você já faça o resumo desta unidade como parte desta avaliação. Faça esse resumo em um arquivo de texto, salve-o em seu computador e use-o novamente para adicionar no resumo das outras unidades e ao fi nalizar o resumo de toda a disciplina, poste-o ao completar esta tarefa acessando o link "Avaliações"; 3- Lembre-se de ler alguns dos textos complementares (em torno de 25 páginas) para cumprir a exigência de leitura de pelo menos 100 páginas da lista disponibilizada aqui; 4- Faça a prova objetiva 1. Consulte o “Programa de curso” para mais informações sobre as avaliações. Fique atento ao prazo fi nal para a realização das avaliações: 27/02 - 23h55 Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 73 UNIDADE III – DISCIPLINAS ESPIRITUAIS Introdução Quando ouvimos falar em “disciplina”, talvez a primeira imagem que nos vem à mente é a de alguém sendo castigado e corrigido por algum pecado ou erro que cometeu – ele ou ela está sendo “disciplinado/a”. Além da ideia de castigo, “disciplina” também tem, em contrapartida, uma relação estreita com vida austera, obediência a regras ou regulamentos, ao seguimento de uma ordem ou a “bom comportamento” – a vida disciplinada é, nesse sentido, a vida controlada ou regrada. A ideia de disciplina que tenho em mente aqui, porém, está distante dessas representações comuns; a disciplina espiritual é resultante de um relacionamento de amor. Como nas palavras de Jesus em Apocalipse 3:19: “Repreendo e disciplino aqueles que eu amo”. Na tradução A Mensagem lemos: “Costumo chamar à responsabilidade aqueles a quem amo”. A disciplina é, portanto, um modo de viver melhor a vida, que aprendemos a partir do relacionamento com Deus, que nos ama e, portanto, nos corrige quando necessário. Ela nos ajuda a viver melhor porque nos dá uma nova perspectiva pela qual enxergamos Deus, o mundo e as pessoas para, assim, poder viver de acordo com a vontade de Deus. Embora na tradição da espiritualidade cristã exista uma gama de “disciplinas” – como aponta o brilhante estudo de Richard Foster (1983) – minha intenção aqui é de me concentrar em três delas:a disciplina da oração, a disciplina do deserto (ou da solitude) e a disciplina da comunhão (ou da comunidade). Meu desejo é que você perceba, ao fi nal, que a disciplina é fruto do amor e, portanto, motivo de alegria e celebração, usando a metáfora de Foster. Objetivos da unidade 1. Perceber as virtudes e ganhos para a espiritualidade de se relacionar o tema da oração ao da integridade; | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais74 2. Conhecer alguns dos sentidos possíveis para o “deserto” na espiritualidade cristã; 3. Conhecer de onde procede a comunidade cristã e qual seu alvo e razão de existir. 1. Oração Poucas vezes a oração esteve entre os meus temas prediletos. Talvez porque as exigências que quase sempre ouvia em relação a ela soassem pesadas e grandes demais para os raros momentos de oração que dedicava. Na adolescência, me diziam que a oração é um elemento fundamental na vida de qualquer cristão verdadeiramente convertido, como uma espécie de “termômetro da espiritualidade”: quanto mais intensamente se ora, mais próximo de Deus se está, logo, mais “espiritual” se é. Essa lógica sempre me soou muito própria do ponto de vista da vida cristã formal – que eu tinha como referência – mas, ao mesmo tempo, bem imprópria levando em consideração meu pequeno grau de adequação a esses moldes. Fora isso, ainda tinha o desânimo que batia ao ver (e ler) certas coisas sobre oração que a tratavam como um negócio. Era quase como se estivessem dizendo que oração é fazer business com Deus. Só não diziam que é um tipo de business do qual Deus mesmo, geralmente, está ausente. Afi nal, porque precisamos de Deus, não é mesmo? A oração já faz tudo: ela liberta, expulsa demônios, gera emprego, cura doenças, traz o marido ou a esposa de volta, promove a prosperidade, tem o poder de converter o coração de pessoas e, mais do que isso, de “mover o coração de Deus”. Não me esqueço da primeira frase que li no livro A oração de Jabez, de Bruce Wilkinson (2001, p. 2), em que o autor dizia: “Caro leitor, quero ensinar-lhe como fazer uma oração à qual Deus sempre atende”. Isso mesmo: ele disse sempre atende. O problema não está tanto na promessa de Deus ouvir ou não nossas orações quanto na oferta de uma fórmula para que isso aconteça. O autor só esqueceu de adicionar um pequeno detalhe: a vida não obedece a fórmulas... e Deus tampouco! Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 75 Exercício de reflexão Antes de prosseguimos com nosso estudo sobre a oração, refl ita sobre como você lida com a oração, ou seja, você costuma atribuir poder à oração do tipo: “algo aconteceu porque eu não orei” ou “Deus não me abençoou porque eu não orei”, como se o poder estivesse na oração e não em Deus. Refl ita também se sua oração é um desabafo com Deus ou se ela é um momento de dar ordens ao Espirito Santo de Deus ou passar recadinhos para Deus e para os possíveis companheiros que estão ouvindo você orar. ___________________________________________________________ ___________________________________________________________ ___________________________________________________________ ___________________________________________________________ ___________________________________________________________ ___________________________________________________________ ___________________________________________________________ __________________________________________________ Acesse o AVA para fazer o exercício! Eis uma ideia: orar, mais do que interceder ou falar com Deus, é viver. Paulo diz: “Orai sem cessar” ou “orem continuamente” (1Ts 5:17). Isso signifi ca que, mesmo quando o falar cessa, a oração não termina; Deus continua falando, ou melhor, agindo. Deus tem seus meios, os mais diversos, para falar conosco e apontar o caminho certo. E tenho aprendido que, não obstante toda formalidade que ainda impera nesse quesito, há também muitos jeitos de orar, de andar e me relacionar com Ele. Além de recomendar a oração contínua, o apóstolo ainda recomenda que se dê graças a Deus em todas as circunstâncias da vida. T-O-D-A-S! Más ou boas, tristes ou alegres, na carestia ou na prosperidade; num | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais76 quarto fechado, na igreja, em silêncio, reclusão ou em meio ao barulho do cotidiano, nas ruas da cidade; por meio de cerimônia, ou dispensando qualquer cerimônia; coletiva ou individualmente. Assim, a oração é um ato sublime e incessante de uma vida que ama e teme ao Senhor. Ela pode não mudar o que Deus é, nem o quanto ele nos ama, mas NOS transforma; o nosso espírito se converte ao Espírito de Deus. Perseverar e viver continuamente em oração não implica em apressar Deus, nem ensinar como Ele deve agir. A demora de Deus, para nós, implica que não conhecemos o kairos (tempo, oportunidade, de Deus) e sua maneira de dar andamento e resolver as coisas. Orar, fi nalmente, signifi cará abrir nossa vida diante de Deus e ser receptivo ao que tem feito e fará. 1.1. Jeremias Para prosseguir com a ideia, leiamos a seguinte oração do profeta Jeremias: Tu me conheces, SENHOR; lembra-te de mim, vem em meu auxílio e vinga-me dos meus perseguidores. Que, pela tua paciência para com eles, eu não seja eliminado. Sabes que sofro afronta por tua causa. Quando as tuas palavras foram encontradas, eu as comi; elas são a minha alegria e o meu júbilo, pois pertenço a ti, SENHOR Deus dos Exércitos. Jamais me sentei na companhia dos que se divertem, nunca festejei com eles. Sentei- me sozinho, porque a tua mão estava sobre mim e me encheste de indignação. Por que é permanente a minha dor, e a minha ferida é grave e incurável? Por que te tornaste para mim como um riacho seco, cujos mananciais falham? (Jr 15.15-18) O estilo de orar de Jeremias certamente não seria indicado a nenhuma Prêmio Nobel de Oração, se esse negócio existisse (às vezes, mesmo que às escuras, ele parece existir); nem publicado num livro campeão Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 77 de vendas como sendo a oração que devemos repetir, porque Deus sempre atende. Por isso, me sinto razoavelmente confortável para falar de oração agora. Não porque Jeremias seja modelo, até porque não creio que oração tenha a ver com modelos, nem com pacotes fechados. Se não havia dissonância entre a vida e o livro de Jeremias, como o estudo de sua história me faz acreditar, o mesmo parece ser verdade sobre sua vida como profeta e sua vida de oração. As mesmas dores, angústias, ira, medo, lágrimas, alegrias, prazer, tristezas, raiva e depressão geradas por seu ministério profético eram matéria de suas conversas, nem sempre cordiais ou piedosas, com Deus. Em outras palavras, ao orar, Jeremias mostrava que era humano e, precisamente por isso, que precisava de Deus. Vejamos alguns pontos interessantesna oração acima exposta. Em primeiro lugar, ele se mostra carente, rejeitado (pelo pecado e indiferença do povo), e impaciente, clamando pela intervenção divina, que parecia retardar em função de sua paciência e longanimidade (v. 15). É como se ele estivesse dizendo: “Você me colocou nisso, e agora, por tua causa, eu estou sendo prejudicado. Vê se me livra dessa, Deus!”. Jeremias se mostra aqui igualzinho a qualquer um de nós – quando “nosso tempo compulsivo colide frontalmente com o tempo da providência divina” (Peterson, 2003, p. 122) – tentando ensinar Deus a como ser soberano, e a como ser Deus! Em segundo lugar, ele afi rma ser solitário, em seu trabalho de profeta, não tendo ocasião para se sentar com uma galera em festa, dando risadas e se divertindo (v. 17). A tarefa de pensar, refl etir, pregar e desvendar signifi cados é uma tarefa muitas vezes solitária, sobretudo no caso de Jeremias. E, por mais necessário que seja, consciente e irredutível que se esteja, a solidão bate e, com ela, o desejo de convívio. E não havia porque esconder nada disso de Deus, já que tudo era “por causa Dele”. E o profeta diz se sentir “oprimido” pela mão de Deus. Por mais que fazer parte das causas dele seja um privilégio, nem sempre é prazeroso (e nem tem que ser, tem?). | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais78 Em terceiro lugar, ele se revela sofredor (v. 18a). Sofremos muitas vezes por determinadas posições que ocupamos. Por mais necessárias e reconhecidamente importantes, elas (e os tipos de reação que temos em relação a elas) nos conduzem a lugares de sofrimento. Lembro-me que, desde criança, sempre fui muito consequente. E minha consequência me levava a não revidar com força (e as vezes nem revidar), as provocações de minha irmã caçula. E, como eu não queria revidar, para não ser injusto nem fazer besteira, esperava justiça do meu pai. E nem sempre essa justiça vinha do modo como eu esperava. Daí, vinha a revolta; aí a gente pensa e fala besteira, mesmo sem fazer. Esse é o lugar de Jeremias, de revolta e dor, por razões muito maiores. E ele quer partilhar com Deus essa dor. Através da oração ele pode fazer isso. Em quarto lugar, além de sofredor, ele também se mostra irado com Deus. A sensação é de que Deus o abandonou; no começo, parecia promissor andar ao seu lado. Depois, veio a decepção de ver que Deus nem sempre age do modo como esperamos, e que ser amigo de Deus implica em ter de conviver com inimizades outras. Então, Jeremias destila toda sua honestidade, quando diz (na tradução A Mensagem): “Você não é nada mais do que uma miragem, Deus; um adorável oásis à distância, e então nada!” (v. 18b). Não nos enganemos com a honestidade, mas sejamos conscientes de que ela nem sempre será recebida e acolhida com uma tonalidade positiva. No caso de Jeremias, foi uma amostra de sua intimidade sem desfaçatez ou pieguice com Deus, o que é bom. Na oração, não precisamos de máscaras ou disfarces; queiramos ou não, nossa alma está desnuda diante de Deus. Por outro lado, revela a perda do foco e das prioridades. A excessiva preocupação com o que os outros pensam ou dizem sobre nós, pode revelar uma desmedida preocupação conosco, o que pode ser um sinal de que perdemos Deus de vista, e esquecemos de nossa vocação, o que Ele nos chamou a ser e a fazer. Mas, como lembra Peterson, no momento em que Jeremias coloca esses sentimentos em oração, algo começa a acontecer. Deus, além de ouvir Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 79 atentamente, o convida a rever as palavras ditas, restabelecer prioridades e a renovar suas perspectivas, não como alguém ofendido por sua postura, mas desejoso de vê-lo avançar e crescer. Deixar falar os sentimentos às vezes signifi ca, ainda que do lugar legítimo da intimidade, dizer coisas que prejudicam o relacionamento. Então, corremos o risco de dizer coisas “vis”. Mas Deus, como fez com Jeremias, abre as portas ao arrependimento sincero, e nos chama a separar o precioso do vil (v. 19). Recapitulando: vimos até aqui que uma das vantagens de se relacionar o tema da oração à vida é que, assim, ela deixa de ser uma prática espiritual “distinta”, nos humaniza e passa a estar relacionada com um jeito de ser no mundo, em nossa relação com os dilemas do dia a dia e com o fato de que Deus se preocupa conosco e não está “lá no céu” simplesmente, dispensando ou não suas bênçãos de acordo com a efi cácia da oração de seus fi lhos. Não existe oração efi caz, senão a oração do Espírito em nós. É ela que faz com que nossos gemidos ou nosso silêncio chegue até Deus. 1.2. Oração e silêncio Uma das percepções centrais no pensamento de Henri Nouwen – autor sobre quem estudaremos mais detalhadamente na quarta unidade – é a da oração como “modo de vida”. Ou seja, orar seria para ele outro sinônimo para viver. Viver a vida deixando-se ser encharcado pela presença de Deus e por tudo o que ela envolve. Nesta percepção, orar é um ato do ser que se traduz em palavras, mas não somente em palavras. Pois palavras são, segundo Nouwen, “apenas um modo de expressar a realidade da oração” – talvez o mais recorrido na tradição cristã para a qual a palavra é tão importante (para muitos, imprescindível). Esta visão vai ao encontro de tudo o que temos visto até aqui, e de uma intuição pessoal, fruto não só de experiências com a oração, mas da percepção de sua (in)efi cácia no mundo real no tocante à vida humana e seus mistérios, onde as palavras nem sempre encontram “o sentido” ou “fazem sentido”. É a intuição de que a oração genuína acontece (antes) | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais80 no coração e pouco pode ser captada pelo discurso. Aliás, normalmente somos traídos pelo discurso, que tende a mascarar (no cativeiro da linguagem) o que se passa no coração e que talvez os olhos e a expressão refl itam um pouco melhor, embora sempre parcialmente. Dessa forma, sinto-me impelido a, como Nouwen, “redescobrir os momentos de oração nos rostos do homem e nas formas do mundo em que ele vive”, de um modo que somente um contemplativo crítico e sensível da realidade pode fazer, despido das urgências de seu ambiente e da tendência comum em trivializar a oração, por um lado, tornando-a um ato mecânico-religioso, e de torná-la um fetiche místico, por outro lado, como uma “varinha de condão”. Quando paro para contemplar, por exemplo, algumas histórias de vida sofridas de estudantes (que trabalham de dia e estudam à noite, ou que estão em busca de trabalho) e lutam diariamente para conciliar múltiplas atividades, tendo de lidar com as muitas contingências desse estilo de vida, posso perceber nas expressões e olhares cansados, sonolentos, mas alegres, relutantes e esperançosos, muitas orações sem palavras, pequenos e singelos gestos de uma busca que não cessa e, na difi culdade, traz consigo inúmeros aprendizados. Então, em breves esforços de compaixão, oro também, sem palavras, com os olhos marejados ou esboçando um sorriso, na confi ança de que o Senhor está entre nós, partilhando conosco de cada instante. Ali, absortopor emoções e pensamentos que pululam e gritam em silêncio, encontro Deus, parafraseando Nouwen, na brisa suave que vem da janela – relembrando que o Espírito sopra e age no silêncio e de que onde houver luta, também haverá esperança – na angústia e na alegria do outro e na solidão de meu próprio coração. Assim, ao invés dos “punhos cerrados” – imagem utilizada por Nouwen para indicar tensão e autoproteção – ouso orar a Deus “de mãos abertas”. Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 81 Pois, como diz ele: “Uma vida imersa em oração é uma vida de mãos abertas, em que você não se envergonha de sua fragilidade mas percebe que é mais perfeito um homem se deixar guiar pelo outro do que procurar prender tudo nas mãos” (Nouwen, 1999, p. 79). Portanto, na perspectiva de mãos que se abrem, orar signifi cará abandonar- se diante de Deus, deixando de lado todo anseio por controle e abrindo-se para o maravilhoso e imprevisível mundo das possibilidades do Eterno, desejando um outro “eu” possível e crendo que “outro mundo é possível”. 1.3. Orações que não se ouve muito na igreja Nesta segunda parte, gostaria de compartilhar alguns trechos de pensamentos de autores a quem admiro, não por me ensinarem 10 passos sobre como orar, ou a fórmula da oração bem-sucedida; longe de mim coisas assim, e dos autores aos quais me referirei. Admiro-os, pois, ao falar sobre a oração, não escondem a difi culdade implícita nessa atividade, embora a considerem preciosa e importante; nem tampouco seguem a linha do determinismo crente, de que orar pode mudar céus e terra ou move o coração de Deus, desde que oremos “do jeito certo”. Defi nitivamente, não! Reconhecem que a oração muda a gente em relação a Deus e não Deus em relação à gente. Tampouco ignoram o fato de que, pessoas de oração são, antes de tudo, gente de carne e osso, humanos, demasiadamente humanos. E isso me encanta, porque posso me distanciar cada vez mais do lugar religioso do cinismo, hipocrisia e da falsa piedade, e me aproximar mais de um lugar onde posso me considerar, quem sabe, um homem de oração, sem deixar de ser homem e nem almejar que minha oração “mova montanhas”, ocupando o lugar de Deus. Isso é o que ainda me mantém fascinado, ou seja, a chance de poder constatar que a oração, em si, não tem poder algum; quem o tem é Deus. E Ele parece não estar disposto a dividir esse posto com ninguém. | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais82 Exercício de aplicação Quais alternativas podem ser propostas à sua igreja local, a fi m de que possa mudar o conceito habitual de oração, aderindo à oração como um estilo de vida e um meio de transformação da própria mente? a) Ter encontros com horário marcado, para que todos orem da mesma forma, profetizando sobre algo que querem que aconteça. b) Criar um grupo no WhatsApp em que todos mencionem seus desejos e um ore pelo outro 2 vezes ao dia até que Deus atenda as preces feitas. c) Desafi ar o grupo a praticar mais a oração de gratidão e confi ssão do que a oração de petição. Sendo esta acompanhada de um ato de bondade para com o próximo, refl etindo sobre o que Jesus praticaria esse ato. Acesse o AVA para fazer o exercício! A primeira referência é de Eugene Peterson, para quem oração signifi ca prestar atenção em Deus e manter o foco de nossa vida Nele. A segunda referência é de Henri Nouwen, exemplo de integridade, como foi Jeremias; pois, assim como Jeremias, o que ele vivia era expresso com enorme e inexorável franqueza em seus escritos. Com sua sensibilidade e brilhantismo ele deixou um legado espiritual incomparável para nós, cristãos. Em todos os seus livros praticamente se fala sobre oração. Mas em no Diário de seu último ano sabático, encontrei o que, para mim, são as palavras mais humanas e livres até então por ele escritas sobre o assunto. Separei três trechos desse diário. No primeiro, ele começa falando sobre Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 83 seu entendimento do que vem a ser a oração. Em seguida, ele compara essa defi nição com sua vida de oração, fazendo uma confi ssão honesta acerca de si mesmo, um idoso de 63 anos de idade, que passou a vida falando sobre espiritualidade e oração, tendo um alto grau de aceitação e sucesso por isso, mas que, no fi m da vida, se vê diante da encruzilhada tenebrosa de ter que admitir certos paradoxos em sua espiritualidade. Por fi m, Nouwen nos brinda com a tentativa de avaliar sua própria confi ssão anterior, admitindo a grande dose de realismo nu e cru que nela há, sem, no entanto, perder de vista as possibilidades escondidas mesmo em seus mais áridos desertos espirituais, tampouco a perspectiva bíblica de que, no fi m das contas, o Espírito “nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8:26, NVI). Texto de apoio Oração é, na vida de fé, o ato em que entramos diante de Deus em postura consciente e deliberada de falar e ouvir – relacionamento do Criador com a sua criação e dela com Ele. A qualquer tempo que nos concentramos, focamos os pensamentos e prestamos atenção, nós oramos. Orar signifi ca ter consciência, exercitar a atenção, estimular e desenvolver a intensidade pessoal diante de Deus. (...) A oração é linguagem ousada para se dirigir a Deus, não para explicá-lo nem para falar sobre Ele. É resposta. O evangelho tem a missão de nos fazer parar de falar sobre Deus e nos levar a falar com Ele. (...) O verdadeiro conhecimento de Deus jamais é conhecimento sobre Ele; é sempre relacionamento com Ele. (Peterson, 2005, p. 128, 129) A oração é a ponte entre a minha vida inconsciente e consciente. Ela conecta meu pensamento com meu coração, minha vontade com minhas paixões, meu cérebro com meu | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais84 estômago. A oração é a única via para deixar o Espírito vivifi cante de Deus penetrar todos os recantos do meu ser. É o instrumento divino de minha completude, unidade e paz interior. (...) Se é assim, o que posso dizer sobre minha vida de orações? Gosto de orar? É meu desejo orar? Reservo tempo parar orar? Francamente, a resposta é “não” para todas as três questões. Depois de 63 anos de vida e 38 de sacerdócio, minha oração parece tão morta quanto uma pedra. (...) A verdade é que não sinto nada de singular quando oro, se é que sinto alguma coisa. Não há emoções intensas, sensações físicas, ou visões mentais. Nenhum de meus cinco sentidos é tocado – nenhum cheiro especial, nenhum som especial, nenhuma imagem especial, tampouco algum movimento especial. Se por um bom tempo o Espírito agiu tão claramente em minha carne, agora não sinto nada. Vivi na expectativa de que a oração se tornasse mais fácil à medida que eu envelhecesse e me aproximasseda morte. Mas parece estar acontecendo o contrário. As palavras escuridão e aridez parecem ser as melhores para descrever minha oração hoje. (...) Será que a escuridão e aridez de minha oração são sinais da ausência de Deus, ou são sinais de uma presença mais profunda e vasta que meus sentidos podem abarcar? A morte de minha oração é o fi m de minha intimidade com Deus ou o início de uma nova comunhão, para além das palavras, emoções e sensações corporais? Na meia hora em que me sento para estar na presença de Deus e orar, não acontece coisa sobre a qual poderia comentar com meus amigos. Mas talvez esse tempo seja uma maneira de morrer com Jesus. O ano à minha frente deve ser um ano de oração, embora eu diga que minha oração está tão morta quanto uma pedra. A minha certamente está, mas não a oração do Espírito em mim. (Nouwen, 2003, p. 20-21) Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 85 1.4. Recapitulando Até aqui, procurei ressaltar que a oração é mais do que um gesto, que um rito, que um jeito de “convencer” a Deus sobre nossos puros desejos e sinceras intenções; antes, trata-se de uma via sempre aberta de relacionamento com o Pai em que, para meu benefício e das pessoas em favor de quem oro, expresso diante Dele, por palavras, sem palavras, através de ações ou do silêncio quieto de um quarto, o que sinto, penso e acredito, bem como minhas (nossas) dores, alegrias, queixas e gratidão. Nesse sentido, a oração não é algo que nos retira do contato com as coisas comuns (ou mesmo as incomuns e trágicas) da vida cotidiana, nem nos eleva para um plano além do mundo e da condição humana, mas, ao contrário, é o que nos ajuda a estar mais atentos a esta vida, que a cada momento pulsa e gira ao nosso redor, e à presença constante e, na maioria das vezes suave e silenciosa, de Deus... No choro de uma mãe, na alegria e sorriso de um casal, na convulsão tortuosa do trânsito das grandes cidades, na brisa leve e fresca das manhãs no campo, no pranto e no riso, no luto e na alegria, e assim por diante. É assim que entendo a “Soberania”: não como a ideia de um rei distante, reinando de seu “alto e sublime trono”, ditando como as coisas devem ou não devem acontecer cá na terra, mas de um rei que se mistura com a plebe, usa suas roupas, come na mesma mesa, enfrenta os mesmos problemas; um rei tão nobre a ponto de não reivindicar nobreza, e tão real a ponto de não parecer da realeza; um rei como Jesus mostrou que Deus é. E, por isso, pôde dizer, quando um de seus discípulos pediu para que lhe mostrasse o Pai: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14:9). Agora, quando eu oro, de olhos abertos ou fechados, balbuciando palavras ou em silêncio, tento olhar para o lado, para a vida, a natureza, o próximo, e ali ver Jesus; e quando, pelo milagre da fé, consigo ver a Jesus, tento imaginar como é o Pai e, assim, percebo, como na canção Nas estrelas, do grupo musical Vencedores por Cristo, que: “Ele não vive longe lá no céu, sem se importar comigo. Mas agora ao meu lado está, cada dia sinto seu cuidar, ajudando-me a caminhar, tudo Ele é pra mim”. | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais86 2. Deserto Falar do tema “espiritualidade do deserto” é explorar aquilo que, a meu ver, está na raiz de nossa vida com Deus, como esteve em Jesus e em tantos de seus seguidores na história. Ao mesmo tempo – e pensando no cotidiano de pessoas em um mundo urbano e secularizado – é algo que, em geral, se encontra ainda muito distante da maioria de nós, em que pese nossos estilos de vida. Por isso, para falar sobre este tema hoje é preciso, antes de tudo, conceituar a questão (ou o lugar) do deserto na vida cristã, fazendo a seguinte pergunta: o que é o deserto e o que ele representa na caminhada histórica do cristianismo? 2.1. O signifi cado de deserto Em primeiro lugar, é claro que deserto tem sim a ver com um “lugar”, reservado e próprio para meditação, silêncio e oração. Ali nos afastamos da compulsão por fazer e realizar coisas, bem como da compulsão por barulho e agitação, que tanto marcam nossa vida cotidiana, assim como demarcam nossa identidade perante a sociedade. O uso do termo tem a ver com um tipo de vida que passaram a ter alguns monges que, por volta do séc. IV da era cristã, no auge da crise espiritual do cristianismo, se afastaram de suas atividades corriqueiras, e buscaram o deserto, isto é, um lugar ermo, distante da vida barulhenta, a fi m de evitar a conformidade com um mundo em decadência. Esses monges fi caram conhecidos posteriormente como “pais do deserto”, porque serviram (e ainda servem) de inspiração para uma forma alternativa de cristianismo, não preocupada com poder e status, mas com uma longa obediência numa mesma direção, parafraseando Eugene Peterson. E quando falo em “decadência”, me refi ro obviamente a um tipo moral e espiritual de declínio na perspectiva de alguns cristãos. Estes enxergavam em um dos períodos de maior “sucesso” do cristianismo – quando da conversão do imperador Constantino e posterior ofi cialização (em 380) do cristianismo como religião do império – tanto no que diz respeito a adesão religiosa, quanto em poder e institucionalização, um processo gradativo Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 87 de perda de seus valores e ideais originários, baseados na centralidade da vida na pessoa de Jesus Cristo, e na fi delidade ao seu Evangelho. Como explica Henri Nouwen (2004, p. 13), esses pais do deserto: Eram cristãos que buscavam nova forma de martírio. Depois que a perseguição cessou, já não era possível dar testemunho de Cristo seguindo-o como testemunha de sangue. Contudo, o fi m das perseguições não signifi cou que o mundo aceitara os ideais de Cristo e mudara; continuou-se a preferir a escuridão à luz (Jo 3.19). Mas, se o mundo já não era o inimigo do cristão, então o cristão tinha de se tornar inimigo do mundo escuro. Não tinha de se tornar inimigo do mundo escuro. A fuga para o deserto era o meio de evitar a tentadora conformidade ao mundo. Antão, Agatão, Macário, Poemen, Teodora, Sara e Sinclética foram líderes espirituais no deserto. Ali se tornaram mártires: testemunhas contra os poderes destrutivos do mal, testemunhas do poder salvífi co de Jesus. Então, um dos lemas da espiritualidade do deserto passou a se fundar nas palavras de aba Arsênio: “Foge, fi ca em silêncio e ora”. Segundo Nouwen (2004, p. 13) elas denotam três meios para “impedir que o mundo nos molde a sua imagem” e se constituem, desta forma, em três possíveis caminhos para uma vida no Espírito – embora não sejam os únicos, nem última palavra neste quesito. Sobretudo porque, como temos visto neste curso, esta vida no Espírito não é vida “fora”: nem do mundo, nem do corpo e muito menos dos confl itos e dilemas humanos. Pelo contrário, é em meio ao enfretamento de todas estas outras coisas que a necessidade do deserto emerge, e a espiritualidade cristã, tornar- se efetiva e relevante. Desse modo é que, em segundo lugar, podemos dizer que o deserto é mais que um lugar, é uma condição autoinduzida de sobrevivência, sanidade e buscapela maturidade e liberdade na vida cristã. Acontece | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais88 todas as vezes que reservamos espaço em nossas agendas e, mais do que isso, em nossos corações para fi car em silêncio, orar e escutar a voz de Deus. Nesse sentido, o “silêncio” é também mais do que calar a voz da garganta, é também tentar calar as muitas vozes que perturbam e induzem à ansiedade os nossos irrequietos corações. E, por coração, aqui estou entendendo como no AT (do hebraico, leb), isto é, não o órgão, mas o centro da vida, orientação e vontade humanas. Por isso, como defende Nouwen, “o silêncio do coração é muito mais importante que o da boca”, e cita aba Poemen: “Um homem pode estar aparentemente em silêncio, mas, se seu coração condena outros, ele tagarela sem cessar. E pode haver outro que converse da manhã à noite e, contudo, esteja verdadeiramente em silêncio” (Nouwen, 2004, p. 57). Exercício de fi xação Voltemos então à pergunta inicial: o que é o deserto e o que ele representa na caminhada histórica do cristianismo? a) O deserto é um lugar pelo qual todo cristão deve passar. Para isso é necessário se deslocar para uma região afastada da civilização, em que haja silêncio, ausência de celular, televisão e coisas do gênero. Onde, também, é possível se desapegar do relógio, do trabalho e dos afazeres convencionais, dedicando-se apenas à oração. b) O deserto é um estado de espirito, de mente e uma disposição do coração, independentemente de onde o indivíduo esteja fi sicamente. Neste estado se preza pelo silêncio, pela refl exão, pela oração em que se busca ouvir a voz do Pai. São momentos em que tentamos tirar nossos pensamentos do ritmo acelerado do cotidiano, da ansiedade e do estresse físico emocional que toma conta de nós em alguns momentos. O deserto é o desejo de um momento íntimo e único com o criador. Acesse o AVA para fazer o exercício! Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 89 Então, pode-se dizer que é possível estar em silêncio, mesmo diante de e em conversa com inúmeras testemunhas, ou muito falante, mesmo estando sozinho e sem ninguém por perto. Nesse sentido, a visão de Nouwen se encaixa com a de Ricardo de que deserto, mais que uma geografi a, é um “estado do coração diante de Deus e de nós mesmos” (Sousa, 1998, p. 97). 2.2. Conceitos importantes Outro conceito que está conectado com o lugar do deserto na vida cristã, é o de solitude. É preciso, primeiro, entender que solitude é um estado que se relaciona, mas não se confunde com outros, como o de estar sozinho e com a solidão ou isolamento. Nouwen (1997, January 18) parte do princípio de que todos os seres humanos são sozinhos, uma vez que cada um de nós é único. Por isso, ser sozinho é o outro lado de ser único. “Nenhuma outra pessoa irá se sentir completamente como nos sentimos, pensar ou agir como nós”, afi rma este autor. A questão principal, para ele, é como tratamos a nossa condição de sozinhos ou únicos no mundo, se deixamos com que ela se transforme em solidão ou se permitimos que ela nos guie para a solitude. Dessa forma, precisamos diferenciar solitude de solidão. Solidão é um lugar de fuga: dos outros, de nós mesmos e de Deus. É o estado em que nos encontramos quando não deixamos espaço para que a liberdade interior cresça, para que a fé em Deus e a relação conosco mesmos e com os outros amadureça. Então, buscamos a solidão tanto quanto ela nos busca; e quando encontramos o vazio dela proveniente, queremos preenchê-lo de modo rápido, artifi cial e infrutífero. Quando os outros e Deus se tornam meios de nos entreter, de nos tirar da solidão, longe nos encontramos de uma vida espiritual frutífera, e logo nos tornamos impulsivos, compulsivos e/ou até violentos. Solitude, por sua vez, é um espaço frutífero de liberdade e amadurecimento na fé, onde nos encontramos sós, mas não em total isolamento, muito | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais90 menos em fuga. Ao contrário, a solitude é um lugar de encontro: com Deus e conosco mesmos, nossas virtudes e defeitos, nossos sentimentos de raiva, frustração e decepção, nossas inadequações, nossos “demônios” e nossos desejos mais escondidos. É um espaço onde o confronto honesto com nossas expectativas e nosso verdadeiro eu, em busca da graça e do amor de Deus, se faz possível. Ali não apenas falamos com Deus, mas, principalmente, estamos abertos e dispostos a escutá-lo através da Palavra. A solitude é um lugar da Palavra, onde a Palavra não volta vazia, mas pode ser germinada, ruminada e, só então, frutifi car. Como expressa Nouwen (1997, January 21), solitude é “o jardim para nossos corações, que anseiam por amor. É o lugar onde nosso ser sozinho pode dar fruto. É o lar para nossos corpos cansados e nossas mentes ansiosas”. Só que não se trata de um projeto individualista. Pelo contrário, a solitude nos conduz à comunidade e a comunidade é suportada pela solitude, como melhor veremos na unidade 15 deste curso. “Solitude encontrando solitude, isto é o que signifi ca comunidade”, defende Nouwen (1997, January 22). Só que o anseio pela presença do outro e a necessidade de partilhar, quando suportados pela solitude, passam a ser mais naturais, frutos do amor, deixando o lugar compulsivo do controle, dos ciúmes e da extrema carência, que transforma a comunhão em doença (koinonite) e o amor (livre) em possessão. À medida então que nos movemos – num processo confl ituoso e custoso, muitas vezes – da casa da solidão para a casa da solitude, relacionamentos maduros podem fl orescer. Mais do que isso, é na solitude do deserto que nossos corações podem se encontrar com sua verdadeira vocação, sentido e missão, como veremos na próxima unidade mais concretamente através do exemplo de Jesus. Esta é uma diferenciação didática apenas. Existem benefícios do que aqui identifi co como “solitude” naquilo que outras denominam apenas como “solidão”, como se pode ver na discussão proposta por Leandro Karnal em seu livro O dilema do porco espinho (2018). Assista o vídeo a seguir em que o autor explica a ideia do livro. Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 91 2.3. O exemplo de Jesus no deserto Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo Diabo. Não comeu nada durante esses dias e, ao fi m deles, teve fome. O Diabo lhe disse: “Se és o Filho de Deus, manda esta pedra transformar- se em pão”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem’”. O Diabo o levou a um lugar alto e mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. E lhe disse: “Eu te darei toda a autoridade sobre eles e todo o seu esplendor, porque me foram dados e posso dá-los a quem eu quiser. Então, se me adorares, tudo seráteu”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”. O Diabo o levou a Jerusalém, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: “Se és o Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, para o guardarem; com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra’”. Jesus respondeu: “Dito está: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus”. Tendo terminado todas essas tentações, o Diabo o deixou até ocasião oportuna. (Lc 4:1-13, NVI) No relato de Lucas, era início do ministério de Jesus, e ele deixa o Jordão (lugar de seu batismo) direto para o deserto. Ali permanece por quarenta dias e quarenta noites, sem comer e nem beber, apenas na companhia do Espírito Santo. Ao fi nal daqueles dias, certamente num momento de grande vulnerabilidade (afi nal, ele passou todo esse tempo sem suprimento fi siológico), Lucas afi rma que Jesus “teve fome”, de modo que o Diabo, tomando por ocasião a fraqueza física, o tentava ainda mais fortemente. Os fatores ou elementos utilizados na tentação não foram criados pelo Diabo – como geralmente não são. O que ele faz é aproveitar o ensejo de | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais92 fatores (humanos) já existentes em Jesus, especialmente na condição em que se encontrava: a fome (v. 2), o fato de ser Filho de Deus (v. 3), e, até por isso, de ter poder e autoridade para gerenciar até mesmo os anjos (v. 6), e a capacidade de realizar feitos heroicos (v. 9). Ali, Henri Nouwen (2002a) afi rma que Jesus resistiu a três das grandes compulsões do mundo: ser capaz (transformar pedras em pães); ser poderoso (ter todos os reinos do mundo aos seus pés), e ser espetacular (atirar-se de um enorme penhasco, ordenando aos anjos para que o salvem). Aqui, porém, me interessa mais o que do que o como da espiritualidade do deserto de Jesus. Ou seja, que elementos são fundamentais para compreender o modo como Jesus reage às tentações pelas quais passa no deserto? Falarei daqui para diante sobre quatro elementos: (a) Espírito Santo, (b) Intimidade, (c) Temor e Assertividade, (d) Propósito e Identidade. Espírito Santo. O texto de Lucas, afi rma que Jesus estava “cheio do Espírito Santo”, à medida que fora conduzido ao deserto; e que, quando retorna a Galileia, também o faz “no poder do Espírito Santo” (v. 14). Ora, se a espiritualidade se confi gura como “vida no Espírito”, este não é um elemento meramente ocasional, nem nesta história, muito menos na vida e missão de Jesus. O Espírito Santo é o próprio Deus nos conduzindo pelo deserto e nos ajudando a passar por ele. No silêncio, no afastamento, nas durezas e lutas do deserto, e no desafi o de encarar a nós mesmos – nossos medos, vaidades e mais latentes tentações – contamos com a companhia e poder do Espírito Santo, sem o qual nada podemos por nós mesmos. Intimidade. Jesus demonstra ser íntimo de seu Pai e de sua Palavra. E nisto ele tem uma diferença fundamental com o Diabo: ambos demonstram conhecer a Palavra, isto é, saber e citar partes dela. Mas somente Jesus demonstra compromisso para com os conteúdos e a vida que emana da Palavra. Enquanto o Diabo cita coisas da Palavra – como quem cita versos ou conta piadas memorizadas, ao sabor do momento e como fruto de oportunismo –, Jesus revela a Palavra, demonstra um saber que vai além da mera letra e que integra a Palavra a um viver comprometido Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 93 com ela mesma. Esta intimidade não se reduz a mimos, afagos ou meras “declarações de amor”. Jesus vai além disso. Demonstra que ser íntimo de alguém é estar em contato com o que há de mais profundo, essencial e verdadeiro nele(a). Temor e assertividade. Quem teme e ama a Deus, e conhece (por pouco que seja) a si mesmo e o que, como ser humano, é capaz, não brinca com o poder das tentações. No relato de Lucas, vemos que as palavras de Jesus, em resposta ao Diabo, não são lançadas ao vento; pelo contrário, são assertivas (isto é, claras, honestas, convictas), diretas, palavras de Deus. E nisso vemos também que ele não faz “joguinhos” com o Diabo; ele foge, cai fora das armadilhas. A tentação não se enfrenta (como se a força para as resistir estivesse em nós). Da tentação se foge e se resiste, na força que Deus supre. Não posso escolher não ser tentado, pois isso faz parte de minha condição humana desde sua origem. Mas posso optar por não jogar com as tentações. Jesus se nega a jogar o joguinho do Diabo, que ele chama de “Se és o fi lho de Deus”, em que é convidado a provar sua fi liação por meio de performances. É precisamente o temor à voz do Pai que diz “tu és o meu Filho amado”, e a certeza desse amor, que o faz ser assertivo e recusar entrar nessa brincadeira demoníaca. Jesus se recusa a aderir à espiritualidade da serpente, sobre a qual tratamos na unidade anterior. Propósito e identidade. O deserto conferiu a Jesus senso de propósito para sua vida e ministério. Tornou-se, para ele, um lugar recorrente de discernimento (do que é importante, em relação ao que é apenas trivial) e de comunhão com Deus. Um relato de Lucas (4:42-44), logo adiante ao texto que estamos analisando, demonstra bem isso: Ao romper do dia, Jesus foi para um lugar solitário. As multidões o procuravam, e, quando chegaram até onde ele estava, insistiram que não as deixasse. Mas ele disse: “É necessário que eu pregue as boas novas do Reino de Deus noutras cidades também, porque para isso fui enviado”. E continuava pregando nas sinagogas da Judéia. | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais94 Atrair e ser atraído pelas multidões nos dias de hoje tem um ar de heroísmo espiritual, protagonismo e ministério apostólico. Pregadores que falam para multidões tendem a ser vistos como “ungidos” de Deus, gente que foi colocada por Ele no lugar certo para trazer a palavra, a cura e a libertação que as pessoas mais precisam. Há um ar de nobreza em ocupar esta posição. Mas Jesus parece não ser atraído por essa síndrome messiânica – embora ele fosse a pessoa mais autorizada a isso, uma vez que é o Messias (escolhido) de Deus, que veio para salvar, libertar e reconciliar a humanidade com seu Criador e Redentor. Existem inúmeras passagens e ocorrências nos evangelhos que demonstram um apreço grande de Jesus pelas multidões, por suas afl ições, necessidades e insufi ciências (a exemplo de Mt 9.36, ou de Mc 6.34-46). Mas compadecer-se e dar atenção especial às multidões não signifi ca irrestritamente abraçá-las com suas queixas, causas e urgências, nem ser governado por suas constantes demandas. E o texto acima é um exemplo disso. O senso de propósito e missão de Jesus, forjado e fortalecido no deserto, em comunhão com o Pai, é o que o mantinha fi rme e focado em sua missão. Ao passo que, mesmo tendo sido instado a não deixar a presença das multidões (o que é uma tentação messiânica), ele sabia exatamente o momento certo de deixá- las e ir proclamar as boas novas do Reino em outros lugares, ou mesmo buscar o silêncio pedagógico do deserto. Então, a solitude no deserto é um lugar de grandes encontros e grandes confl itos – de luta contra as compulsões desse nosso “eu”, forjado em pecado e pressionado pelos clamores do mundo ao nosso redor, e de encontro com o Deus amoroso, que dá substânciaà nossa identidade de fi lhos/as de Deus. Ali, mas não somente ali, é claro, podemos nos libertar de qualquer reserva ou defesa, e receber o toque e o abraço do Pai, como na Parábola do Filho Pródigo, onde o Pai parece dizer: Você é meu amado. Eu não vou te fazer perguntas. Onde quer que você tenha ido, o que quer que tenha feito, ou qualquer coisa que as pessoas digam a seu Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 95 respeito, não importa, pois você é meu amado. Eu te ponho protegido em meu abraço. Eu toco você. Deixo- te seguro debaixo de minhas asas. Você pode retornar ao lar daquele cujo nome é Compassivo, cujo nome é Amor (Nouwen, 1995, p. 82). Quando, no deserto, passamos a ouvir a voz de Deus que nos chama de amados e amadas suas, tudo passa ter um signifi cado diferente, e grande parte daquilo que, para nós, tinha quem sabe enorme importância – sucesso, fama, reconhecimento, aprovação das pessoas – agora passa a ser relativizado diante dessa voz de amor. Esta que proporciona um reencontro com nossa verdadeira identidade, que não é aquela que carregamos em nosso RG, nem em nossos crachás profi ssionais e ministeriais, muitos menos nos diplomas, honrarias e títulos que acumulamos. Não. Isso é somente parte do que somos, a ponta do iceberg. O que realmente somos, em Deus, é muito mais do que aquilo que realizamos. De acordo com Nouwen (1985, p. 82), se mantivermos isso em mente, “podemos lidar com uma enorme quantidade de sucesso assim como com uma enorme quantidade de fracasso, sem perder nossa identidade, por que nossa identidade é a de que somos amados”. Portanto, mesmo em meio a inquietude que nos assola no deserto, o chamado da voz que nos diz “fi lhos amados”, permanece como sinal de um seguimento, o seguimento dos fi lhos de Deus que andam conforme o caminho e segundo a imagem de seu Filho, na força do Espírito. De modo que a espiritualidade cristã formada no deserto é aquela que nos ajuda a não nos movermos mais e, sobretudo, por aquilo que funciona, que faz sucesso, que dá ibope, boa reputação ou agrada as outras pessoas. Igualmente, o deserto nos orienta a viver não somente pela, mas para a vontade de Deus revelada em Cristo. Poderemos, então, desenvolver a atitude daqueles que Nouwen chama de “contemplativos críticos”, isto é, pessoas que, por causa de sua | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais96 autenticidade evangélica, testam e provam tudo aquilo que veem, escutam ou tocam. O contemplativo crítico, assim, toma suas decisões pautado não pela opinião pública, pelo desejo de popularidade ou anseio por aprovação, mas por seu próprio senso de propósito e vocação. Segundo Nouwen (2002b, p. 73): Ele não permite a ninguém cultuar ídolos e convida constantemente seu semelhante a formular perguntas signifi cativas, muitas vezes penosas e desordenadas, a olhar atrás da superfície do comportamento polido e eliminar todos os obstáculos que o impedem de atingir o âmago do assunto. O contemplativo crítico arranca a máscara ilusória do mundo manipulador e tem a coragem de mostrar qual é a verdadeira situação. Dessa forma, a espiritualidade que se forja no deserto, proporciona esse reencontro com a minha liberdade interna, parafraseando Nouwen. Esta liberdade me relembra que, embora eu faça parte do mundo, posso me ver liberto de seu domínio, de suas pulsões, vozes e compulsões, podendo assim, e somente assim, contribuir para a sua transformação. Assista o vídeo! “A espiritualidade na cultura do espetáculo” Prof. Jonathan Menezes Acesse o AVA para assistir o vídeo! Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 97 Exercício de aplicação Nesta unidade foi possível compreender bem a diferença entre a solidão e a solitude. Esta segunda é de suma importância para nosso bem-estar e desenvolvimento. Aprender a ter momentos de solitude traz ao ser humano maturidade, bem-estar, amor próprio, auto aceitação. Pois são nesses momentos que podemos nos conhecer melhor e, assim, dentro de nossas limitações e fraquezas enxergar o amor que Deus tem por nós. Diante disso, como a igreja pode proporcionar que seus membros tenham momentos de solitude num mundo tão cheio de compromissos? a) Mantendo uma agenda cheia de compromissos, reuniões de oração, encontros bíblicos, congressos, dentre outros. E nessas comunhões propor 15 minutos de silêncio. b) Mantendo uma agenda equilibrada, saudável, ensinando sobre o assunto para os membros e possivelmente encorajando-os a trocar esses compromissos religiosos em exagero, por momentos de solitude num parque, em casa, ou em qualquer outra atividade que você sempre se sentiu dependente de alguém para desenvolver. Acesse o AVA para fazer o exercício! UMA DICA: Tire um dia e faça um jantar diferente para você mesmo, escute aquela música que você tanto gosta, converse com Deus, ria de seus medos e de suas fraquezas, alegre-se e tenha esperança diante de seus sonhos. Perdoe-se por não ter conseguido. Seja livre. Deus te ama do jeito que você é! | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais98 3. Comunidade A afi rmação basilar desse último tópico será a de que a espiritualidade tem a ver com a qualidade de nossa relação com Deus, seja como vida vivida na fé, seja como cumprimento de um dos propósitos de Deus desde a criação, que é o de caminhar e ter intimidade com Ele. Como vimos na unidade I, a espiritualidade pode simplesmente ser descrita como o modo de ser do cristão guiado pelo Espírito. Se esse modo de ser é relacional, e se as relações são dinâmicas, então não há regras gerais ou modelos que dão conta, e teremos tantos “modos de ser” quantas são as pessoas numa comunidade de fé. E porque é relacional e dinâmica, a espiritualidade depende da vida do/com o outro. Nesse sentido, meu intuito aqui é falar da importância que a comunidade tem e o papel que desempenha em nossa formação espiritual. 3.1. Qual é o lugar do outro na espiritualidade cristã? Em primeiro lugar, e retomando um princípio geral, a espiritualidade só existe por causa do Outro, que é Cristo. Ou seja, Cristo é a razão de ser da espiritualidade cristã; nossa vida é originada pela vida de Cristo, iluminada por sua Palavra, e guiada pelo seu Espírito. “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente” (Rm 11:36). Em segundo lugar, essa vida, que é originada, iluminada e guiada em Cristo, encontra seu melhor sentido no encontro com o outro, o próximo, o irmão e a irmã de caminhada. Meu encontro com o camarada Cristo me conduz inevitavelmente ao encontro com meus camaradas de história, e muitas vezes se dá precisamente através dele. Desde o princípio Deus fez essa escolha: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18). Dois é sempre melhor que um: na alegria ou na dor, na celebraçãoou no luto. A esta vida partilhada é que o salmista se refere quando diz: “Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos... ali o Senhor ordena a sua benção e a vida para sempre” (Sl 133:1,3). Espiritualidade, nesta perspectiva, é o encontro com o Outro (Deus) por meio do outro (próximo). Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 99 3.2. Quando e como passa a existir a comunidade? Existe comunidade quando sou convidado a partilhar a minha vida com outras pessoas, a partir do evento do Cristo Ressurreto. Eugene Peterson (2007, p. 269) afi rma que a ressurreição é ponto de partida da comunidade do Espírito Santo. A ressurreição e ascensão de Cristo ao Pai conduziram aquele grupo de discípulos à reunião em Jerusalém; e Lucas afi rma que eles perseverarem unânimes em oração, com as mulheres e com os irmãos de Jesus (At 1:13-14). Após a descida do Espírito Santo, o discurso de Pedro e a conversão e batismo de milhares de pessoas, nós vemos agora uma comunidade do Espírito, também perseverando em oração, no ensino dos apóstolos e no partir do pão. A oração simboliza essa incessante busca comunitária pela vontade e presença de Deus; o ensino apostólico representa o compromisso com a Palavra e com o crescimento na fé; e o partir do pão aponta para a comunhão com Cristo em comunidade. Logo, o relato de Atos prossegue dizendo que “todos os creram estavam juntos e tinham tudo em comum”; partilhavam seus bens e acolhiam aos necessitados; louvavam a Deus e contavam com a simpatia do povo. E, enquanto tudo isso ocorria, o Senhor acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos (At 2:42-47, 4:32). Então, Peterson parece estar certo. Todos estavam juntos porque algo os juntou, e este algo foi a ação do Espírito movida pela ressurreição do Senhor. Sem a ressurreição não há vida e nem esperança; pela ressurreição o Espírito passa atuar entre os discípulos, e cria a comunidade cristã. A comunhão, portanto, não é algo que se promove artifi cialmente, mas é fruto da ação do Espírito. E o louvor a Deus brota da mutualidade. O “nós” é tão importante quanto o “eu”, porque o “eu” se completa por meio do “nós”. É um (lamentável) sinal dos tempos que hoje nos foquemos tanto no “eu” (individual) e menos no “nós” (coletivo); a igreja deixa de ser comunidade do Espírito quando ela passa a existir para satisfazer uma “ditadura do | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais100 eu”: eu sou abençoado, eu sou amado, eu sou próspero, eu fui chamado, o Senhor guia o meu ministério, Deus me cura, me salva, me liberta, eu, eu, eu... que canseira! A comunidade do Espírito e seus líderes em Atos não estão preocupados criando estratégias para fazer a igreja crescer. Mas ela crescia em meio à completa ausência de qualquer plano pretensioso de crescimento. O crescimento se dá em um processo integral natural (apropriando-me aqui das clássicas categorias de Orlando Costas): quanto mais a comunidade perseverava e crescia na comunhão e no ensino (crescimento conceitual e orgânico), mais isto a impelia a se acercar e a acolher às necessidades do entorno (crescimento diaconal), e a contar com a simpatia do povo. E “enquanto tudo isso ocorria”, o Senhor acrescentava dia a dia mais pessoas à comunidade dos salvos (crescimento numérico). Certa vez recebi um email de um estudante, que me perguntava: É teologicamente correto dizer que a igreja é um tipo de sociedade ou comunidade alternativa? Eis minha resposta: Sem dúvida, em minha compreensão isso não só está teologicamente “correto”, como historicamente tem marcado a vida da igreja-comunidade do reino, daquela que não se rende aos ditames do institucionalismo; sempre que ela resolve ser fi el ao seu chamado de sinalizar o reino no mundo, ela se constitui como uma “sociedade alternativa”, não no modo hippie “paz e amor” dos anos 1970, ou no sentido de que seria uma “ilha” apartada do resto, onde podemos nos alienar do mundo, mas enquanto se mantém como sinal de esperança bem ali onde ela se encontra... no meio do mundo. Onde nossos confl itos não são diminuídos porque somos cristãos. Pelo contrário, eles aumentam, à medida que não vivemos de acordo com os termos do mundo e sim do reino, como o próprio Jesus advertiu aos discípulos (João 15), para que não se admirassem se o mundo os odiasse; é que eles não vivem segundo os meandros do mundo, nem os obedecem; se vivessem de acordo com tais termos, o mundo os amaria e os aprovaria. E tudo isso acontece porque estamos no mundo, porque Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 101 Deus amou o mundo, e porque nos chama a proclamar a reconciliação em nossa vida mundana. Penso, assim, que a comunidade deveria ser idealmente a alternativa do Espírito para os cansados, feridos oprimidos e sobrecarregados do mundo; ser agente profético de denúncia à corrupção e injustiça, sob que forma elas apareçam; ser agente de transformação integral. Por outro lado, sempre que a igreja deixa, por alguma razão, de exercer esse papel, o Espírito, inadvertidamente, não deixa de agir. Isso signifi ca que: o Espírito Santo cria a comunidade, mas não é monopólio dela. Não é Ele quem acompanha os movimentos (e patacoadas) da igreja, mas é exatamente o contrário, a igreja que, como comunidade dos carismas, deve acompanhar o sopro do Espírito, onde quer que ele esteja soprando, e ouvir a sua voz, ainda que não saiba dizer de onde vem e nem para onde vai (cf. Jo 3:8). Exercício de fi xação A comunidade que deve existir entre os cristãos é aquela em que: a) nos reunimos para cantar, fazermos orações privadas de acordo com a própria necessidade, escutamos uma palavra sem que haja nenhuma reação por parte dos ouvintes, recebemos uma benção e vamos para casa almoçar ou jantar com a nossa família. b) as pessoas cantam juntas, escutam a palavra, mas compartilham de seus problemas umas com as outras, se encorajam através dos testemunhos umas das outras, partilham daquilo que possuem para auxiliar os que estão em difi culdade, recebem um aos outros em suas casas. É aquela em que você pode chegar como está, sem mascaras, sem fi ngimento e sem medo de ser julgado por isso. É aquela comunidade em que todos reconhecem que são seres humanos dependente de Deus. Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do professor! | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais102 3.3. Como a comunidade pode melhorar minha espiritualidade? Primeiro: a comunidade me aproxima do sentido mais profundo de quem eu sou e de quem Deus é. A comunidade me “engravida de Deus”, de muitas formas: quando adoramos, servimos, escutamos a Palavra, debatemos, ensinamos e somos ensinados, consolamos e somos consolados, confrontamos e somos confrontados, quando carregamos os fardos uns dos outros e quando nos corrigimos mutuamente em amor. A comunidade me aproxima mais da vontade do Senhor: quando lemos, interpretamos e partilhamos a Palavra e construímos umahermenêutica comunitária. E como precisamos mais disso, especialmente num contexto autoritário e centrado na palavra de “um” em detrimento da “visão de muitos”. A comunidade me faz mais humano, pela proximidade com os outros, seus pecados e virtudes e com as minhas próprias. É comunidade de santos- pecadores. E chega um tempo, como lembra Peterson (2007, p. 165), em que é “mais difícil aturar os santos do que os pecadores”. A comunhão, contudo, precisa viver as decepções óbvias da convivência, para que ela cresça como uma comunhão entre seres humanos pecadores, mas salvos pela Graça, e não entre anjos ou semideuses. Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 103 Texto de apoio Somente a comunhão que passa pela grande decepção, com seus maus e desagradáveis aspectos, começa a ser o que ela deve ser diante de Deus, começa a apossar-se na fé da promessa recebida. Quanto mais cedo a pessoa e a comunidade passarem por esta decepção, tanto melhor para ambas. Uma comunhão que não suporte e não sobreviva a uma tal decepção, que se agarre a seu ideal quando ele é para ser destruído, perde na mesma hora a promessa de comunhão duradoura, e se desmanchará mais cedo ou mais tarde. (...) A pessoa que ama mais seu sonho de uma comunhão cristã do que a própria comunhão cristã, destruirá qualquer comunhão cristã, mesmo que pessoalmente essa pessoa seja honesta, séria e abnegada. (...) Por acaso não basta o que nos é dado: irmãos que, em pecado e tribulação, fi cam ao nosso lado sob sua benção e graça? Ou a dádiva de Deus de uma comunhão cristã em algum dia, também nos dias difíceis e desventurados, será menos do que essa grandeza imensurável? Mesmo quando pecado e desentendimento pesam sobre a comunhão o irmão pecador não permanece sendo o irmão junto do qual estou colocado sob a palavra de Cristo? Seu pecado não se torna um motivo para renovadamente dar graças por podermos ambos viver sob o amor perdoador de Deus em Jesus Cristo? Não se tornará incomparavelmente salutar para mim a hora da grande desilusão, pois ela me ensina que nós dois jamais poderemos viver de palavras e obras próprias, mas unicamente daquela uma palavra e uma obra que de fato nos une, a saber, do perdão dos pecados em Jesus Cristo? Lá, onde o nevoeiro matutino dos ideais se dissipa, nasce fulgurante o dia da comunhão cristã. (Bonhoeffer, 2006, p. 17, 18) | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais104 Segundo: a comunidade melhora minha espiritualidade à medida que oportuniza a mútua correção. Quem tenta viver sua fé fora da comunidade, pode até sofrer menos, mas também progride menos. Fora da comunidade (comunidade digo, não templo), somos como que senhores de nosso próprio destino, mas não temos com quem contar no momento em que precisamos que a nossa rota seja corrigida. Tendemos a estagnar. No tocante ao amor fraternal, Paulo se dirige a comunidade de Tessalônica, dizendo (mais ou menos) estas palavras: “Não há necessidade de falar muito, pois vocês já foram bem instruídos quanto a se amar mutuamente; mais do que isso, vocês já estão vivendo isso intensamente, entre os irmãos e irmãs da comunidade. Mas, auto lá! Continuem progredindo; corram como se ainda nada tivessem alcançado. Não tomem esses momentos de fraternidade e mutualidade que há entre vocês como motivo para se orgulharem de si mesmos” (Paráfrase de 1Ts 4.9-10). Isso deve nos levar a entender a comunhão de amor como um compromisso progressivo, inacabado e em permanente construção, que se dá em e não fora da comunidade. Neste sentido, é tarefa de todos, pastores ou leigos, homens e mulheres, encontrar “mentores espirituais” na comunidade. Alguém com que você possa partilhar suas dores e alegrias, que possa te ajudar a recuperar a visão quando ela se perde por alguma razão, que possa te abraçar e se compadecer contigo em meio a um grande sofrimento, mas que também seja capaz de apontar seus pecados quando você não mais os enxerga ou reconhece e convidar ao arrependimento. Este encontro passa pelo reconhecimento de que, por mais ou menos que saibamos, todos carecemos de “guias” espirituais, gente que nos ajude a atravessar o caminho. Nesse sentido, o mentor precisa ser um mestre na acepção da Palavra, que, a exemplo de Cristo, sabe ouvir, dar lugar à partilha, à fala do outro – mesmo que essa fala seja de lamúria confusa – acolher, ser solidário e simplesmente estar ao lado do outro. O mestre não é somente mestre por sua postura austera de quem ministra Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 105 ou faz um monólogo, mas, sobretudo, por sua presença, que pode ser silenciosa, que muitas vezes faz mais perguntas do que se preocupa em responder logo e despedir “em paz” (e com a consciência tranquilizada) o discípulo, sua cobaia passiva. Assim, um mentor é quem pode me ajudar a me conhecer melhor na comunidade, é quem, nas palavras de James Houston (2003, p. 141), me ajuda a “desmascarar certos traços de auto-ilusão e a sondar meu interior mais profundamente do que eu talvez estivesse disposto a fazer voluntariamente”. 3.4. Que implicações essa perspectiva de uma espiritualidade comunitária pode trazer? Tentarei apresentar aqui algumas implicações a partir de três níveis: vida pessoal, vida comunitária, vida em sociedade. Vida pessoal. Parto aqui de mais uma afi rmação de Bonhoeffer (2006, p. 58-59), quando ele diz que: “A pessoa que não suporta a comunhão deve tomar cuidado com a solidão... O contrário também é verdadeiro: a pessoa que não se encontra na comunhão deve tomar cuidado com a solidão”. A implicação, portanto, é: cultivar a solidão ou solitude (estar a sós com Deus), mas não deixar que ela se transforme em individualismo e uma estrada à autossufi ciência; e cultivar a comunhão (estar com o outro), mas não permitir que ela se transforme em “koinonite” (doença), e nos feche para o mundo ao nosso redor (sectarismo). Vida comunitária. É preciso firmar um compromisso com a nossa comunidade de fé: de amá-la, sustentá-la em oração e financeiramente, e de servir “na força que Deus supre” e conforme a diversidade de dons. Comprometer-se é amar o outro, é pagar o preço de ter de lidar não somente com as alegrias, mas com as decepções próprias de qualquer relacionamento. A Bíblia é repleta de histórias assim, de pessoas que ferem umas às outras, de comunidades que perdem o fi o da meada, mas também da persistência divina, que deve inspirar a nossa persistência em superar as difi culdades no temor de Deus e avançar. | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais106 Vida em sociedade. Vivemos num tempo em que as pessoas anseiam por comunidade, pois ela é sinônima de segurança. Como podemos atrair essas pessoas? Não apenas falando bem da comunidade ou da sua igreja, mas vivendo de modo que nossa própria vivência fale mais alto – pelo testemunho público. Sendo abertos e inclusivos, como foi Jesus, seja para conversarcom a Samaritana à beira do poço, ou com o Nicodemos na calada da noite. Como diz Eugene Peterson (2007, p. 265), “Jesus não parece muito seletivo na escolha dos fi lhos que ele deixa entrar em sua cozinha para ajudar a preparar as refeições”. Jesus quando roga ao Pai em sua oração sacerdotal, o faz não somente pelos que são “seus”, mas também por aqueles que ainda não são dele, mas que um dia virão a crer em seu nome por intermédio da Palavra. Isto inclui judeus, gregos, romanos, homens, mulheres, senhores e escravos, patrões e empregados, gente de todo tipo de classe, Gênero, cor e etnia, etc., a fi m de que o mundo, toda a terra habitada, creia em seu nome. “Rogo”, disse ele: “... para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:21). 3.5. Recapitulando Vimos que a comunidade cristã não é um mero acaso da história, nem é fruto de iniciativas artifi ciais ou táticas institucionais humanas, mas é forjada pelo Espírito de Cristo, conforme o caráter divino (trinitário) de comunhão eterna. A comunidade nos ajuda a descobrir então o melhor sentido de quem Deus é, e também de quem somos e para que existimos. Porque o Espírito forja a comunidade, não signifi ca que ela seja perfeita. Não, a comunidade é de seres humanos, por isso é imperfeita e ainda marcada pelo pecado. Por outro lado, é ela quem também proporciona a mútua correção e, com isso, a possibilidade de superação das situações em que o pecado age, rumando para o crescimento na fé. Dessa forma, pode-se dizer que se a fé não depende da comunidade para existir, ela sim depende para crescer, amadurecer e dar frutos. Por isso, no começo o Senhor disse: “É bem melhor serem dois ao invés de um”, dois no riso, dois no pranto, na vitória ou na derrota. Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 107 Exercício de aplicação Você já parou para pensar em quantas vezes sentamos ao lado de alguém na igreja e não fazemos ideia de qual é a história dessa pessoa, quais suas alegrias e tristezas, sonhos e lutos? Como você sugere uma aproximação entre os membros da comunidade, de forma que todos possam partilhar suas vidas e sair do modo individualista de viver a fé? ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do professor! | Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais108 Referências bibliográfi cas BONHOEFFER, Dietrich. Vida em comunhão. 6ª ed. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2006. HOUSTON, James. Mentoria espiritual. Rio de Janeiro: Textus, 2003 NOUWEN, Henri. Oração: o que é e como se faz. São Paulo: Loyola, 1999. _______. Diário. O último ano sabático de Henri J. M. Nouwen. São Paulo: Loyola, 2003. _______. A espiritualidade do deserto e o ministério contemporâneo. 3ª ed. São Paulo: Loyola, 2004. ____________. Bread for the journey. A daybook of wisdom and faith. New York: HarperCollins, 1997. PETERSON, Eugene. Corra com os cavalos. Viçosa, MG: Ultimato; Niterói, RJ: Textus, 2003. _______. Trovão Inverso: o livro de Apocalipse e a oração imaginativa. Rio de Janeiro: Habacuc, 2005. _______. A maldição do Cristo genérico. A banalização de Jesus na espiritualidade atual. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. _______. Ânimo: o antídoto bíblico contra o tédio e a mediocridade. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. SOUSA, Ricardo Barbosa de. O caminho do coração. Ensaios sobre Trindade e Espiritualidade Cristã. 2ª ed. Curitiba: Encontro, 1998. WILKINSON, Bruce. A oração de Jabez. São Paulo: Mundo Cristão, 2001. Atenção! Lembre-se de realizar as atividades avaliativas da disciplina. 1- Faça todos os exercícios desta unidade; 2- O "Exercício integrativo" consiste em um resumo de toda disciplina contendo entre 1400 e 1500 palavras, portanto, sugerimos que você já faça o resumo desta unidade como parte desta avaliação. Faça esse resumo em um arquivo de texto, salve-o em seu computador e use-o novamente para adicionar no resumo das outras unidades e ao fi nalizar o resumo de toda a disciplina, poste-o ao completar esta tarefa acessando o ícone "Avaliações"; 3- Lembre-se de ler alguns dos textos complementares (em torno de 25 páginas) para cumprir a exigência de leitura de pelo menos 100 páginas da lista disponibilizada no ícone "Textos complementares"; 4- Ao fi nal da unidade IV, você deverá fazer a prova objetiva 2. Consulte o “Programa de curso” para mais informações sobre as avaliações. Fique atento ao prazo fi nal para a realização das avaliações: 27/02 - 23h55 Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 109 UNIDADE IV – ESPIRITUALIDADE, VOCAÇÃO E MISSÃO Introdução Como vocês devem ter percebido pela minha abordagem até aqui, a percepção de espiritualidade nela expressa advém de várias fontes. Dentre elas, destaca-se a de um escritor holandês: Henri Nouwen. Esta unidade fi nal consiste na leitura, discussão e aprofundamento de temas ligados à espiritualidade cristã, a partir da vida e obra de Nouwen, conhecido não apenas por sua brilhante e sensível leitura da condição humana sob a ótica da espiritualidade, mas, também, por sua história e exemplo de vida de comprometimento com a radicalidade do caminho de Jesus Cristo. Objetiva proporcionar aos estudantes um maior contato com o pensamento deste autor, e a possibilidade de uma identifi cação mais ampla através da leitura de seus livros disponíveis em língua portuguesa. Também objetiva discutir, em segunda instância, o tema da vocação e da missão. As questões que moverão nossa refl exão nesta parte, dentre outras, são: Quais são as possíveis relações entre espiritualidade e missão? Como lidar com a questão da vocação? A busca pela relevância e a efi cácia é mesmo imprescindível quando pensamos em uma espiritualidade da missão? Para tanto, em primeiro lugar, falo sobre a missão da espiritualidade na Missão de Deus, procurando avaliar motivações e a força que nos impele à missão; em segundo lugar, trato da espiritualidade como busca e resposta a uma vocação, entendendo que no discernimento dessa vocação que reside nossos encontros ou reencontros com Deus e sua missão. Objetivos da unidade1. Conhecer um pouco sobre a vida e obra de Henri Nouwen, e aprofundar-se em temas de sua espiritualidade, a partir de uma abordagem de questões contemporâneas; 2. Compreender as interpolações existentes entre espiritualidade e missão; 3. Reconhecer a importância do discernimento da vocação na espiritualidade da missão. | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão110 1. O exemplo de Henri Nouwen Padre, professor, psicólogo e escritor, Henri J. M. Nouwen nasceu na Holanda, em 1932, e faleceu em 1996, também em sua terra-mãe. Desde os cinco anos de idade, Nouwen falava sobre suas pretensões de ser padre, e ele estava decidido a isso. Formou-se em teologia e psicologia na Holanda, tendo sido ordenado pouco tempo depois, aos 32 anos, em 1957. Nouwen passou os primeiros cinco anos de seu ministério realizando algumas de suas notáveis ambições: estudou na renomada clínica psiquiátrica de Karl Menninger (EUA), lecionou nas universidades de Notre Dame e Yale e viajou muito como conferencista. Por sua espiritualidade cristocêntrica, Nouwen teve o privilégio de falar tanto para católicos como para evangélicos, tendo trânsito livre entre estes dois grupos. Até hoje ele é muito respeitado e lido tanto em uma como em outra vertente religiosa. Certamente é um dos pensadores cristãos do século XX que exercitou com maestria a arte de cruzar fronteiras. Como testemunha, Philip Yancey diz que “ele ignorava as recomendações de Roma para que apenas os católicos participassem da eucaristia, e a celebrava diariamente com amigos, alunos ou estranhos, onde quer que estivesse” (Yancey, 2004, p. 304). Nouwen passou um período sabático de seis meses viajando pela América Latina, passando por diversos tipos de conversão diante da realidade dos pobres, o que alterou não apenas seu modo de enxergar a espiritualidade, mas também de lidar com a sua própria vocação, perguntando-se muitas vezes se seria a vontade de Deus que ele permanecesse na América Latina colocando seus dons e talentos à serviço dos pobres. Gustavo Gutiérrez, um de seus mentores neste período, o aconselhou, contudo, a retornar aos Estados Unidos e falar sobre tudo o que ali vira, sendo uma voz profética naquele país. Ao regressar para a América do Norte, Nouwen recebeu convite para lecionar em Harvard, e passou a se engajar mais ferrenhamente em Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 111 movimentos pelos direitos humanos, tendo a oportunidade de fazer o que ele chamou de “missão reversa”, seguindo o conselho de Gutiérrez. Nesse tempo sua fama e prestígio como professor, escritor e conferencista já percorriam o mundo, e em todo lugar por onde passava ele era bastante respeitado. Todavia, tudo isto não bastava para amenizar o profundo vazio espiritual e as feridas pessoais que há muito carregava e que, com o tempo, só aumentavam, tudo isso combinado a uma vida de fama, glória, agenda lotada de compromissos e uma série de outras atividades, levando Nouwen a um ponto de colapso total num espaço de três anos. Até que ele compreendeu, à luz da experiência de Jesus, que o caminho para subir é descer. Assim, abandonou sua brilhante carreira numa das melhores universidades dos EUA, para compartilhar sua vida com os necessitados, servindo em uma comunidade para defi cientes mentais, a Arca - O Amanhecer, em Toronto no Canadá. Sua vocação era mesmo entre os pobres, que viviam noutra espécie de miséria, revelando-lhe, contudo, a face da alegria e do poder de Cristo, escondidos por trás de suas vidas limitadas e sofridas. Conforme o próprio Nouwen disse em seus escritos, “ali ele não foi para dar, mas para receber; não por causa de excesso, mas por falta. Foi para conseguir sobreviver” (Yancey, 2004, p. 306). E ali passou os dez últimos anos de sua vida, de 1986-1996, vivenciando na prática o que aprendeu de Jesus: o caminho da “mobilidade descendente”, como ele denominou em alguns de seus livros. Assista o vídeo! “As mobilidades descendente e ascendente” Professor, 15 min. Acesse o AVA para assistir o vídeo! | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão112 Exercício de fi xação “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai”. (Fp 2.5-11, NVI) A partir do texto acima, (1) sublinhe as palavras-chave que indiquem as mobilidades descendente e ascendente em Jesus. Em seguida, (2) responda à questão: Como o texto acima nos ajuda a ressignifi car a interrelação entre as mobilidades descendente e ascendente na espiritualidade cristã? ______________________________________________________ ______________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do professor! Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 113 O que aprendi com Nouwen? Dividirei este breve passeio naquilo que aprendi com Nouwen por temas, que são, portanto, temas importantes na vida e obra deste autor. 1.1. Vocação Aprendi que, embora seja Deus quem chame, confi rme e capacite – o que dá um peso enorme à questão – o processo de despertar para e prosseguir em uma vocação não é estático, mas dinâmico. A certeza do caminho vem enquanto caminhamos. Não somos chamados primordialmente para um lugar ou uma função, mas para andar com Jesus em serviço ao seu reino. Isto signifi ca que a pergunta pela vocação nunca será respondida inteiramente; na caminhada estaremos sempre tentando discernir os caminhos. É o que Nouwen fez sua vida toda, como em sua passagem pela América Latina, ou em sua trajetória de uma carreira acadêmica prestigiada em Harvard para uma vida fora dos holofotes entre os deficientes da Arca, em Toronto. Assim ele resumiu: “Tentei discernir a voz de Deus; e, no meio de uma grande variedade de minhas respostas interiores, tentei encontrar o caminho para ser obediente àquela voz” (Nouwen 1993, p. xvii). Retornarei oportunamente a esta temática a partirde Nouwen. 1.2. Sofrimento e integridade A vida do ser humano (e do cristão) pode não ser (e como poderia ser?) apenas sofrer, mas indubitavelmente envolve sofrer. Aprendi com Nouwen que privar-se ou tentar se proteger do sofrimento é como que privar-se da própria vida – e de tudo o que podemos aprender com ela. Entendi que o sofrimento pode nos fazer mais humildes enquanto gente – ou pessoas de uma espécie amarga, dependendo de como o encaramos. O sofrimento me aproxima da, e me ensina a aceitar a fragilidade de minha condição. Também me aproxima de Deus e me faz vê-lo como um Todo- Poderoso vulnerável, que nem sempre vai me livrar das dores da vida e | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão114 do mundo, mas que sofrerá comigo sempre que tiver de enfrentá-las, oferecendo inexplicável conforto. Aprendi também que mesmo um ser ferido pode se tornar fonte de cura para as pessoas. E que, como ministro da cura, preciso desfazer-me da ilusão de que serei capaz de explicar o mistério da dor do outro ou de aboli-la; ou de que poderei conduzir alguém para fora do deserto sem tê-lo experimentado em minha própria pele. Além disso, para enfrentar o sofrimento propriamente, preciso me afastar da ideia de um Deus indolente e distante, isto é: se Deus não é pessoal e, por isso, aberto para chorar comigo em minhas tristezas, tampouco será capaz de rir ao meu lado em minhas alegrias ou se regozijar na minha prosperidade. Em Jesus, assim como na experiência de Jó e de tantos outros, não consigo ver um Deus intocável e insensível de tão poderoso que possa ser, mas, por ser tão poderoso, enxergo um Deus que se “rebaixa” se for preciso para ter compaixão e misericórdia da minha miséria e que caminha comigo quantas milhas for preciso para meu amadurecimento – vide a ideia já explorada sobre a “mobilidade descendente”. Esse é o sentido da espiritualidade para Nouwen. Não se resume na simples ideia de realizar performances e sacrifícios para Deus, mas em convidá- Lo a entrar em nossas vidas de modo que Ele possa chorar com a nossa afl ição ao mesmo tempo em que aceitamos carregar a nossa cruz e, consequentemente, compartilhemos do sofrimento do amor de Deus por um mundo ferido e proclamemos libertação. Conforme ressalta, “assim como Jesus, quem proclama a libertação é convidado não só a cuidar dos próprios ferimentos e dos ferimentos do outro, mas também a fazer de seus ferimentos uma fonte maior do poder que cura” (Nouwen, 2001, p. 119). Para Nouwen, um ministro ferido pode e deve ser também um ministro que cura. Mas, para sermos “servos da cura”, antes é preciso identifi car, entender e aceitar nossa própria dor. “Nenhum ministro pode esconder sua experiência de vida daqueles aos quais quer ajudar” (Nouwen, 2001, p. 127), ao mesmo tempo em que não se pode empregar mal o conceito de ministro ferido defendendo uma forma de “exibicionismo espiritual”. Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 115 Esse é um tipo de equilíbrio que este autor encontrou contra possíveis questionamentos daqueles que, porventura, acharem que o conceito de ministro ferido é mórbido e doentio, contradizendo, por exemplo, a ideia de autorrealização, autoestima, autopreservação etc., tão usadas no contexto individualista moderno (o que inclui as nossas igrejas). Ou seja, vivemos nossas “vidas espirituais” como alpinistas de egos, parafraseando Philip Yancey. Tenho de reconhecer que não estou acostumado e nem gosto de falar de minhas próprias mazelas, nem tampouco de expô-las para que os outros vejam. Mas aprendi com Nouwen que “defeitos e fi delidade não suplantam um ao outro, mas coexistem”. Com Philip Yancey, falando sobre Nouwen, também testemunho meu aprendizado de que sofrimento e alegria podem caminhar juntos, que Deus pode usar todas as situações de nossa vida, até mesmo a dor que nunca vai embora (Yancey, 2004, p. 328). Até porque, como bem nos faz lembrar o apóstolo Paulo, “o poder se aperfeiçoa na fraqueza”, de modo que “quando sou fraco então é que sou forte (2 Co 12:9,10). E porque esta espécie de ministro, defendida por Nouwen, pode ser chamado de um “ministro curador”, ou um “ferido que cura feridas”? Vou deixar com que Nouwen mesmo responda com suas palavras, escritas no livro O Sofrimento que cura: É curador porque afasta a falsa ilusão de que integridade pode ser dada de um ser para outro. É curador porque não extrai a solidão e a dor do outro, mas convida a reconhecer sua solidão em um plano que possa ser partilhada. Muitas pessoas nesta vida sofrem porque estão procurando ansiosamente pelo companheiro, pelo evento ou encontro que as livrará da solidão. Mas, quando entram em uma casa de real hospitalidade, percebem logo que seus próprios ferimentos devem ser entendidos não como fontes de desespero e amargura, | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão116 mas como sinais de que têm que caminhar para frente, obedecendo aos sons do chamado de seus próprios ferimentos. (Nouwen, 2001, p. 133) O sofrimento, assim, pode ser um convite “a depositar nossas feridas e mãos maiores”, e para ver “Deus sofrendo por nós” e nos chamando a compartilhar este sofrer de seu amor por um mundo ferido. (Nouwen, 2003, p. 10) Aprendi com Nouwen que ser cristão tem a ver com desenvolver-se como um ser humano inteiro, aceitando-se a si mesmo como amado de Deus, da maneira como se é e com a vida que lhe foi dada. Isto não signifi ca que tenho que me resignar a um modo de ser torto. Pelo contrário, implica que toda a minha vida pode ser abraçada como um processo em que, pela graça, estou a caminho de me tornar a pessoa que Deus projetou; nada vem fácil ou é instantâneo e nem se confunde com o meramente superfi cial. Parte-se, portanto, da compreensão de que o ser como um todo, bem como “tudo na vida, por mais insignifi cante ou difícil que possa parecer, abre-nos para a obra de Deus em nós” (Nouwen, 2003, p. 15). 1.3. Alegria e tristeza Na vida e pensamento de Nouwen, pode-se notar, desse modo, um rompimento com dualismos perniciosos. Dentre eles, como já deve ter fi cado claro, está o dualismo que opõe alegria e tristeza. Em nosso mundo, costuma-se pensar que a alegria não pode conviver na mesma casa em que a tristeza está. Assim, a alegria signifi caria ausência de tristeza e a tristeza, ausência de alegria, parafraseando Nouwen. Quando, porém, olhamos para a vida em sua complexidade, vemos que muitas vezes elas andam juntas e estão até misturadas. E diria mais: a alegria que se vive se torna mais profunda quando se conhece o que é tristeza (retornarei a esse argumento no vídeo logo abaixo). Acredito que uma das principais virtudes que Nouwen cultivava – mais acuradamente a partir dos últimos 10 anos de sua vida, em que ele conviveu de perto com o sofrimento e as limitações de seus Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 117 amigos da Arca – foi a de falar abertamente de suas próprias tristezas e alegrias, não só através dos muitos livros que escreveu, mas também nos relacionamentosinterpessoais, como testemunham algumas pessoas que com ele conviveram. Ele afi rma no livro Podeis Beber do Cálice que conviver diariamente com os membros defi cientes da comunidade Daybreak, o pôs em contato com suas próprias feridas e tristezas internas. Por outro lado, testemunha ele, “a alegria que surge ao viverem juntos em uma comunidade de fracos faz a tristeza não apenas tolerável, mas uma fonte de gratidão”. Texto de Apoio Minha necessidade de ter amigos, afeição e aceitação estão exatamente aqui para que todos possam ver. Jamais vivi tão profundamente a verdadeira natureza do ministério pastoral: estar com o próximo em compaixão. O ministério de Jesus é descrito na carta aos Hebreus como sendo de solidariedade com o sofrimento humano. Chamar a mim mesmo de padre, hoje, me desafi a radicalmente a abandonar qualquer distância, todo e qualquer pequeno pedestal e toda e qualquer posição de poder, e me desafi a a associar minha própria vulnerabilidade à daqueles com os quais vivo. E que alegria isso traz! A alegria de pertencer, de fazer parte de algo, de não ser diferente. (Nouwen, 2003, p. 40, 41) Nouwen diz que nossa concepção sobre a alegria é baseada no sucesso, no progresso e nas soluções fáceis para nossas mazelas e problemas. Volta e meia ouvimos na igreja que a alegria deve ser a marca distintiva do crente. Mas muitas vezes isso se torna algo do tipo “kit-viagem para o país das maravilhas com Alice e o coelhinho”, ou quem sabe não seria | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão118 uma espécie de “selo de qualidade cristã”: se você tem, tudo bem, mas se não tem, algo deve estar errado com sua fé. Quantas vezes, confesso, cheguei até a me culpar por ser induzido a pensar desse modo nada realístico com que alguns cristãos tratam de alegria e felicidade hoje, nada diferindo inclusive da alegria ópio que o mundo atual tem proposto, do sorriso estampado no rosto, pensamento positivo, muito dinheiro no bolso e “saúde para dar e vender”. Não preciso contra argumentar muito para dizer que isso, apesar de muito comum, é uma perversão infantil do caminho subversivo de Jesus. Para Nouwen, o cristianismo de nossos tempos, hedonista, procura se desconectar completamente da realidade do sofrimento e da renúncia, ou mesmo da vida abnegada. É um cristianismo que busca vitórias sem esforços. Almejamos, de acordo com ele, Crescimento sem crise, cura sem dores, ressurreição sem cruz. Não é de admirar que gostemos de assistir a desfi les militares e de aplaudir heróis que retornam, operadores de milagres e recordistas. Também não é de admirar que nossas comunidades pareçam organizadas para manter o sofrimento à distância. As pessoas são sepultadas de maneira a disfarçar a morte com eufemismos e ornamentação rebuscada. (Nouwen, 2002, p. 8) A maneira de Jesus, porém, é tão diferente. Isto porque, como afi rma Nouwen (1997, p. 128), Jesus “foi o homem das dores, mas também o homem da total alegria”. Ele não veio eliminar as dores, mas ajudar-nos a enfrentá-las com o realismo e a esperança que a vida nesse mundo requer, na perspectiva da graça e do amor de Deus, que padece junto com o sofrimento da humanidade. Ora, mas esse Jesus em nome de quem declaramos, determinamos, fazemos brados de vitória, repreendemos o inimigo, os infortúnios e as doenças que nos assolam, choramos, gritamos, esperneamos, rimos, batemos palma, rolamos no chão, nos declaramos perdidamente apaixonados por ele, não é o mesmo Jesus Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 119 que disse: “No mundo, passais por afl ições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16:33)? E tudo isso, lembrando, ele disse aos discípulos para que estes tivessem paz. Exercício de reflexão À luz das considerações acima, proponho que refl ita sobre a seguinte questão: será que em nossa compreensão triunfalista da fé e ilusória da alegria, existe lugar para se conceber uma paz que não signifi ca apenas “ausência de confl ito”, mas que se faz presente especialmente nos lugares de dor? Como podemos ser honestos com a vida, com as pessoas, com Deus e com nossos próprios sentimentos diante das perdas, e ainda assim, celebrar? _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do professor! | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão120 Em lugar de toda a balbúrdia espiritualista, Jesus (e Nouwen) nos convida a abandonar a frivolidade do caminho fácil e também do fatalismo e desesperança, a deixar de lado nossos falsos gritos de “Aleluia”, ao mesmo tempo em que oprimimos nosso povo fabricando ilusões religiosas e, com elas, crentes imaturos e doentes, para seguir seus passos e viver em seus caminhos, a romper as cadeias que ele rompeu, sofrer nossas próprias dores, não só as inerentes à vida, mas também aquelas inseparáveis do exercício da fé cristã na vida. Nas palavras de Nouwen (2002, p. 9): Cristo convida-nos a permanecer em contato com os muitos sofrimentos de cada dia e a experimentar o começo da esperança e da nova vida, justamente aí onde vivemos, no meio das feridas, dores, falência. (...) terei menor tendência a negar meu sofrimento quando aprender que Deus o usa para moldar-me e atrair-me para mais perto de si. Deixarei de ver minhas dores como interrupções dos meus planos e serei mais capaz de vê-las como meios de Deus fazer-me pronto a recebê-lo. Deixarei Cristo viver junto às minhas dores e perturbações. Aprendi com ele, portanto, que “o cálice da vida é o cálice da alegria tanto quanto é o da tristeza. É o cálice no qual tristezas e alegrias, dor e felicidade, luto e dança nunca se separam. Se as alegrias não pudessem estar onde as tristezas estão, o cálice da vida jamais poderia ser bebido” (Nouwen, 2002, p. 42). Podcast “O legado da alegria” Professor Acesse o AVA para ouvir a refl exão! Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 121 1.4. Comunidade Vida cristã é vida em comunhão. Comunhão que cria a comunidadea partir do desejo que Deus cria em nós: “O Deus que vive em nós faz com que reconheçamos o Deus em nossos semelhantes” (Nouwen, 2005, p. 62). Comunidade que se manifesta em formas concretas: no perdão, na reconciliação, no gesto de amor, compaixão, preocupação com o outro, na repreensão e no confl ito, na intimidade, na amizade, no partir do pão. Com Nouwen, aprendi que a eucaristia (do grego εὐχαριστία, que signifi ca “gratidão” ou “reconhecimento”) é muito mais que mero ritual, é um “gesto humano” que relembra uma dupla presença: a do Cristo com quem me comprometo, e a do irmão e da irmã com os quais me envolvo por causa de Cristo. Como Cristo “se deu” em favor de muitos, o gesto eucarístico signifi ca doar o que temos de mais precioso – nossa própria vida – em favor de nossos amigos. Rendemos mais graças quando nos rendemos. Segundo Nouwen, mais do que a eucaristia em si, a “vida eucarística” é que faz a diferença no dia a dia, quando o beber e o comer do sangue e do corpo de Jesus é um sacramento-sinal do compromisso de uma vida disponível aos outros. Essa compreensão permitiu que Nouwen respirasse e vivenciasse a experiência de ser igreja até mesmo em reuniões íntimas com familiares e amigos. Ele disse: Todos os dias celebro a eucaristia. Às vezes na igreja de minha paróquia, com centenas de pessoas presentes, às vezes na capela de Daybreak, em Toronto, Canadá, com minha comunidade, às vezes em um quarto de hotel, com alguns amigos, e às vezes na sala de estar de meu pai, apenas ele e eu. (Nouwen, 2005, p. 9) O resumo que eu faria da mensagem de Nouwen sobre a comunidade dá o tom de sua espiritualidade: não há um só ser humano que não receba o convite permanente para participar do banquete de celebração do amor do Pai. Sua paixão por Jesus e pelas pessoas se expressou em um enorme apreço e fi delidade à Igreja, como pouco se vê em nossos dias. Embora fosse um contemplativo crítico da realidade, era raro ver Nouwen fazendo | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão122 críticas muito duras ou usando de acidez e sarcasmo para falar da Igreja. Mesmo em sua verve profética era possível perceber uma ternura sábia e um olhar esperançoso. As maiores transgressões de Nouwen eram transgressões de si mesmo, sempre que falava abertamente de seus pecados, idiossincrasias e temores. Essa foi também a sua maior arte, seu jeito de ser discípulo e ser humano, e sua forma de tomar a cruz. Exercício de aplicação Infelizmente, ainda reduzimos a Igreja de Cristo, organismo vivo formado por pessoas, a uma organização, um templo e uma instituição. Para muitos, essas coisas não são meras funcionalidades, mas o centro do que a igreja é: um espaço no qual pessoas se reúnem em busca de transcendência. Por essa razão, como lembra David Engel (1964, p. 197), “parece haver um entendimento muito pequeno de que o motivo dessa reunião é para que o povo seja enviado em uma compreensível e comunicável missão”. Assim, ele conclui que, de forma geral, “ainda pensamos na igreja como um lugar para ir ao invés de algo que somos chamados a ser”. Desse modo, a eucaristia torna-se apenas mais uma prática religiosa realizada nesse lugar para o qual vamos, e não um gesto humano que expressa o modo de ser da Igreja, conforme o modo de ser de Cristo. À luz do que foi discutido no último tópico, o que a sua comunidade de fé deveria fazer para mudar essa realidade? a) Ela deveria tornar o momento da celebração da eucaristia (ou da Santa Ceia) uma prática que se faz presente em todas as reuniões da igreja, pois a abundância da prática é diretamente proporcional à abundância do compromisso. b) Ela deveria utilizar o momento de celebração da eucaristia como apenas um dos sinais exteriores da vida eucarística, ensinando a seus membros que a doação de si mesmo, sua vida e seus dons, é o que torna esse memorial tão signifi cativo e vivo para a Igreja de Cristo. Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do professor! Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 123 Recapitulando: até aqui aprendemos, a partir do exemplo de vida de Henri Nouwen, seu legado deixado por meio de seus muitos escritos e, em especial, na vida de tantos que por ele foram direta e indiretamente tocados, que a espiritualidade cristã é um caminho de integridade, no qual nos empenhamos em ouvir a voz que nos chama de “amados” e a obedecê-la, por onde quer que andemos, resistindo aos muitos apelos do mundo ao nosso redor. Por ser um caminho de integridade, a vida do discípulo ou do espiritual não é uma vida dividida, mas é uma vida em que corpo e espírito são uma e a mesma coisa, em que os traços da humanidade caída nos perseguem ao mesmo tempo em que perseguimos o caminho de santidade para o qual fomos graciosamente chamados. Esta indivisibilidade, portanto, não nos permite separar tristezas de alegrias, sofrimento de vitórias, assim como no caminho de Jesus não se separam a cruz e a ressurreição. 2. A missão da espiritualidade na Missão Meu foco inicial nessa segunda parte da unidade será pensar na motivação da missão (o que diretamente a atrela à espiritualidade), perguntando: que força é essa que nos determina a ir ou a permanecer, a agir ou a não agir, a falar ou a permanecer calados? Como reconhecemos e/ou discernimos esta força ou esta voz que nos impele a algo? Quem é, afi nal, o “sujeito” da missão? Há uma canção cristã contemporânea – “Eu tenho um chamado”, da banda 4X4 – que expressa bem o que gostaria de tratar aqui. No refrão desta canção, lemos o seguinte: “Eu tenho um chamado, jamais vou me calar/ Eu tenho um chamado, o evangelho anunciar/ Eu fui escolhido no ventre da minha mãe/ Eu sei que Deus não abre mão de mim não...”. Sei que muito provavelmente você já deve ter escutado e/ou cantado esta música e até goste dela, por isso serei muito pontual aqui. Minha intenção | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão124 é analisar sua letra aqui do ponto de vista missiológico, sem a pretensão de julgar a espiritualidade ou a sinceridade de quem a produziu – no máximo, revelar algumas idiossincrasias, que apontam para o espírito de uma época ou mesmo uma tendência no universo gospel. Dito isto, o primeiro aspecto notável nessa parte da canção – e que já não é mais nenhuma novidade ou absurdo – é a quantidade de vezes em que se repete o pronome pessoal “eu”. Desde a primeira parte da canção, tudo já indicava que o foco reside sobre esse “eu”: o vento que sopra “sobre mim”, os problemas que tentam “me abater” e, por fi m, como contraposto motivacional, vem a lembrança de que o “Grande EU SOU me enviou”. Chama atenção, num primeiro plano, esse lugar-comum da atitude cristã de vencer os problemas pessoais, quase como que uma obrigação moral. Nesse viés, o crente deve ser vitorioso por natureza. Se não vence, é vencido: pelo Diabo, pelas tentações, pelo mundo, por si mesmo. No entanto, Paulo por tantas vezes nos ensinou em suas cartas que a perseverança e esperança em meio às tribulações da vida fazem parte do lugar próprio do cristão – que não se rendepor saber que seu Senhor não se cansa – mas isso não o faz melhor nem mais especial que ninguém, nem sempre “vitorioso” em tudo – precisamos, inclusive, rever o sentido da expressão paulina, muito repetida nas igrejas, de que “somos mais que vencedores”. No entanto, parece-me que a mensagem subentendida aqui é a de que “eu sou especial” porque “Deus me escolheu” para realizar uma missão especial no mundo que é a de ir e anunciar o evangelho – ênfase da Grande Comissão de Marcos –, o que revela não apenas que, para o autor, missão é “pregar a Palavra”, mas um segundo importante aspecto, que é a noção quase militar de que o chamado é meu, a missão é minha, afi nal, fui escolhido no ventre da minha mãe e, portanto, sou indispensável, pois sei que “Deus não abre mão de mim não”. Sério mesmo? Deus não abre mão de mim? Quem é o ser humano para afi rmar que “Deus não abre mão” dele/a, e o que isso signifi ca, afi nal? Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 125 Parte do espírito desta canção lembra-me de duas coisas lamentáveis: primeiro, que o individualismo defi nitivamente tomou conta de nossos cânticos, de modo que pouco lugar resta para a comunidade, a realidade ou a cruz; segundo, que se vê refl etida não apenas na teologia de nossos cânticos, mas também em nossos atos litúrgicos em geral, o que se poderia chamar de “síndrome dos fi lhos de Deus”, a que nem Jesus, o Filho unigênito, cedeu. Ele não se jogou do pináculo, nem transformou pedras em pão ou aceitou todos os domínios da terra simplesmente porque o Diabo por três vezes o provocou dizendo “se és o fi lho de Deus”, faça isso ou aquilo (cf. Mt 4:1-11). Não era necessário duvidar ou reafi rmar sua identidade com atos ou discursos portentosos, pois para ele bastava a confi rmação da voz dos céus que em seu batismo no Jordão disse: “Tu és o meu fi lho amado, em quem eu me comprazo” (Mt 3:17). Quem é, é, e não precisa fi car repetindo isso como um mantra, como instiga a espiritualidade demoníaca. O equívoco de pensar que a missão é minha, em si, evoca também outros equívocos como, por exemplo, o de propagar a ideia de ministérios como algo de possessão pessoal (o “meu ministério”), ou mesmo de afi rmar coisas como “a minha igreja” ou a “igreja do pastor ou do bispo fulano de tal”. Isso se tornou tão comum que poucos percebem que não se trata apenas de uma questão de linguagem, mas de uma questão de poder, ou melhor, de deslocamento de poderes e da ausência completa do bom senso bíblico. A graça da espiritualidade é que ela implica no exame constante de si mesmo e suas motivações e na penetração no que há de mais profundo e, portanto, quase sempre oculto no ser – como a ânsia por poder, muito evidente nessas alegações acima referidas, embora nem sempre para todo mundo. Por isso é reducionista a visão que associa espiritualidade com performances, o que representa na verdade o seu esvaziamento e denota sua superfi cialidade. Esvaziamos a espiritualidade quando focamos | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão126 demais nas supostas demonstrações e desviamos o olhar sobre o coração. Jesus foi quem desmascarou esse mise en scène religioso quando – em resposta à acusação feita pelos fariseus aos discípulos, dizendo que eles transgrediam a tradição dos anciãos, por não lavarem as mãos quando comiam – ele disse: “Ouvi e entendei: não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem”, uma vez que “do coração procedem os maus desígnios” (Mt 15:2,11,19). Por isso penso que estas práticas deveriam compor a formação de líderes, pastores e missionários cristãos como sendo essenciais: o exame do coração e o autoconhecimento. Isso quer dizer que, por um lado, nos equivocamos e pecamos porque desconhecemos a nós mesmos. O tempo e as variadas situações vão revelando o ser e a disposição de cada pessoa, escondidos muitas vezes por trás de uma redoma muito frágil de proteção. Nesse sentido, não me esqueço da pergunta (que vejo como central) de um dos personagens do fi lme Crash, no limite: “Você acha que se conhece?”. No que a dor, o apuro, a pressão, a doença, a perda, o poder, o sexo, o dinheiro, o moralismo, a violência, a raiva, o descontrole, e as paixões como um todo podem nos transformar? Ou melhor: o que essas situações normalmente revelam a nosso respeito? Não parece ser à toa que a máxima de Friedrich Nietzsche no prefácio à Genealogia da Moral continua sendo útil, mesmo para fi ns teológicos ou especialmente para eles. Dizia ele que “nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos?” (Nietzsche, 2007, p. 7). Por esta razão é que me recuso a reduzir a mim e aos outros a rótulos fáceis, baratos e que desmancham no ar. Afi nal, quem sabe o dia de amanhã? Quem conhece a própria reação ao próximo ato, à circunstância seguinte? Quem pode prefi gurar o rosto que terá de enfrentar na próxima vez em que se vir diante de um espelho? Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 127 Exercício de aplicação Em contrapartida, um dos salmos mais lidos e conhecidos da Bíblia, lemos a seguinte oração do salmista: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139:23-24). O que esta oração signifi ca e que benefício direto ela traz para a espiritualidade cristã, à luz da pergunta do fi lme – “você acha que se conhece?” – acima citada? a) Signifi ca que, por mais que mergulhemos na escola do autoconhecimento, apenas Deus conhece e sonda profundamente nossas intenções e motivações, o que torna a oração do salmista Davi ainda mais necessária, real e libertadora: um verdadeiro exercício de honestidade e dependência de Deus. b) Signifi ca que, ao render nossos pensamentos e vida interior a Deus em oração, não precisamos mais nos preocupar com o autoconhecimento, pois já somos conhecidos por Deus e isso basta! Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do professor! Numa outra face da mesma moeda, nosso equívoco e pecado provêm também do desconhecimento ou ignorância em relação à origem e natureza da Missão. E aqui preciso apenas trazer de relance um assunto que você aprenderá em breve na disciplina de “Teologia Bíblica da Missão”: Missão é, antes de tudo, Missio Dei ou Missão de Deus. Qualquer | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão128 motivação que nos impulsione ou papel que nos caiba precisa ser gestado e gerido dentro do horizonte dessa Missão. A missão da igreja, nesse sentido, é assumir, na dependência do Santo Espírito, o privilégio de participar na Missão de Deus, que, na defi nição de David Bosch(2002, p. 28, grifo meu), consiste na “autorrevelação de Deus como Aquele que ama o mundo, o envolvimento de Deus no e com o mundo, a natureza e a atividade de Deus que compreende tanto a igreja quanto o mundo, e das quais a igreja tem o privilégio de participar”. Perceba o destaque que faço à palavra “privilégio”, em detrimento da ideia de obrigação ou de uma diretriz pessoal, como a que se vê na canção “Eu tenho um chamado”. Isto signifi ca que “eu” não tenho uma missão, um ministério ou uma igreja, mas participo, pela graça, na Missão que é de Deus, e da mesma forma da Igreja (rebanho e povo de Deus) e do Ministério (serviço) na força que Deus supre. O contrário disso, que nunca fi ca apenas no deslize gramatical, facilmente se degenera em um projeto de poder – e como fugir dele? –, isto é, em concorrência e não cooperação com Deus e seu reino. Pensando com Bosch, antes mesmo da fundação do mundo e de nós mesmos, a natureza de Deus é Missão, porque Deus é amor. Assim, de acordo com Bosch (2002, p. 63), “a missão da igreja não vai inaugurar o reinado de Deus, porém o possível fracasso dessa missão também não o vai frustrar. O reinado de Deus não é um programa, e sim uma realidade, introduzida pelo acontecimento pascal”. Em resumo: pelo que estudamos até aqui, concluo que a espiritualidade é necessária à missão no exame de nosso lugar e motivações nela, e a missão coloca a espiritualidade nos trilhos de um propósito maior, que vai além do êxtase e da busca individual e desemboca na luta pela transformação da realidade vivida por cada pessoa no mundo, em resposta à vocação singular a ela conferida – assunto do próximo tópico. Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 129 3. A espiritualidade como busca e resposta a uma vocação Até aqui, os elementos do chamado e da vocação apareceram mais como pretexto para uma discussão sobre as motivações que nos impelem à missão que, como vimos, não é nossa nem tem origem em nós, mas em Deus. Aqui gostaria de endereçar uma refl exão mais específi ca sobre a vocação pensando-a como tema essencial e caro tanto à espiritualidade quanto à missão. 3.1. O sentido da vocação Todos sabem que a palavra “vocação” tem a ver com um chamado ou a inspiração que vem do Senhor, que nos presenteia com dons e talentos e nos convida a fazer uso deles no serviço ao reino e à Missão de Deus. Envolve desempenho – como no caso do mestre, que com sabedoria e destreza ensina, ou do escritor, que traduz pensamentos, imagens e conceitos em palavras – porém é mais que desempenho, é a impulsão do ser rumo à sua plena realização em Deus. Vocacionado/a não é quem “faz” para “ser”, mas quem “faz” porque “já é”, isto é, o fazer é resultado natural do ser. Nesse sentido, nem todo mundo que faz alguma coisa o faz por força da vocação; alguns fazem por necessidade, outros por oportunismo, e assim por diante. E não há nada como o fazer que segue não o ímpeto do ativismo, mas da vocação; não por força ou obrigação, mas na liberdade do Espírito; não por ambição, mas por obediência. A parte difícil dessa história toda é que o saber-ser e o ser-saber da vocação não se adquirem de modo instantâneo, necessariamente óbvio e de uma vez por todas. Ou seja, a convicção de que Deus nos chama para um modo de ser-no-mundo e para uma tarefa específi ca – como a de ser pastor, missionário, médico, político ou professor – não surge com a indicação prévia do caminho a ser percorrido, nem de quando, onde ou como, pelo menos não do modo como vejo. Faz parte do processo de maturação da vocação divina no ser humano o prazer da busca, a necessidade de discernimento, a aventura do caminhar, o risco da decisão. Por isso, é praticamente impossível ser honesto e ao mesmo | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão130 tempo assentir com a percepção da vocação como um lugar infl exível – como quem afi rma: “Deus me chamou apenas para ser professor de teologia” – combinada com uma visão tão pouco condescendente com a realidade e a variedade da condição humana sobre a vontade de Deus. Gostaria de me deter um pouco nestes dois aspectos, partindo da aporia: sim, posso ter um chamado, mas e daí? Em que isso me torna, a quem devo, para onde me conduz, e o que pretendo fazer com isso? Essas questões nos conduzem a outras mais difíceis: O que é a vontade de Deus? Como conhecê-la? O que fazer para cumpri-la? Esse é um mistério que tem permeado a vida de pessoas ao longo de milênios. O jeito com que se trata esse assunto é o que gostaria de refl etir aqui. Não há dúvida de que, ao lermos as Escrituras, encontramos o princípio de que viver bem, com temor e dignamente signifi ca dispor a vida para andar conforme a vontade do Senhor. Converter-se a Cristo, em parte, também é isto: permitir que nossa vontade saia cada vez mais de cena, a fi m de dar lugar a uma vontade maior e soberana: a de Deus. O ponto para mim, porém, é: se temos consciência, quando buscamos a vontade de Deus, do que envolve esse “andar conforme”. Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 131 Texto de Apoio 1 Ouve, Senhor, a minha oração, dá ouvidos à minha súplica; responde-me por tua fi delidade e por tua justiça. 2 Mas não leves o teu servo a julgamento, pois ninguém é justo diante de ti. 3 O inimigo persegue-me e esmaga-me ao chão; ele me faz morar nas trevas, como os que há muito morreram. 4 O meu espírito se desanima; o meu coração está em pânico. 5 Eu me recordo dos tempos antigos; medito em todas as tuas obras e considero o que as tuas mãos têm feito. 6 Estendo as minhas mãos para ti; como a terra árida, tenho sede de ti. 7 Apressa-te em responder-me, Senhor! O meu espírito se abate. Não escondas de mim o teu rosto, ou serei como os que descem à cova. 8 Faze-me ouvir do teu amor leal pela manhã, pois em ti confi o. Mostra-me o caminho que devo seguir, pois a ti elevo a minha alma. 9 Livra-me dos meus inimigos, Senhor, pois em ti eu me abrigo. 10 Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; que o teu bondoso Espírito me conduza por terreno plano. 11 Preserva-me a vida, Senhor, por causa do teu nome, por tua justiça, tira-me desta angústia. 12 E no teu amor leal, aniquila os meus inimigos; destrói todos os meus adversários, pois sou teu servo. (Salmos 143:1-12, NVI) | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão132 O salmo 143 de Davi – humano, honesto e orgânico – servirá como ponto de partida aqui. Antes de tudo, trata-se de uma oração, de uma súplica. Normalmente, nós suplicamos com mais força quando sofremos. E é o que está acontecendo com Davi. Diante dos muitos confl itos que enfrenta, apela para a justiça e fi delidade divinas (v. 3). Mostra-se muito angustiado e com o coração afl ito, “em pânico” (v. 4). Costumo dizer que a angústia não podeser desprezada, pois é uma das avenidas que nos conduzem aos braços de amor de Deus. Mas nem sempre conseguimos lidar com esse sentimento. Tratamos a angústia como se ela fosse um peso, uma ferida aberta, uma faca cravada no peito da gente. E muitas vezes ela tem a ver com frustração, com medo, com sentimento de rejeição e abandono, e com as incertezas. Então, acelerados em querer sair logo dessa situação incômoda, suplicamos para que Deus se apresse a nos responder, a dar um rumo defi nitivo. Mas descobrimos que na vida não há rumos defi nitivos – nem a morte, biblicamente falando, é um rumo defi nitivo. E o mais duro golpe aos apressados é ter que lidar com as indefi nições, incertezas e dúvidas que fazem parte da vida de qualquer pessoa comum. Dessa forma, a “vontade de Deus” vai se tornando a fórmula religiosa para expiar tudo o que é indesejável, como também para alimentar o que se deseja. Daí surgem as distorções, tais como: a pregação de que precisamos estar no “centro da vontade de Deus”; que cada detalhe da vida não pode fugir do plano de Deus para nós; que a vontade de Deus é isso, e não pode ser aquela outra coisa; se desastres acontecem, devemos acreditar e ensinar que foi “da vontade de Deus”; se o avião não saiu do aeroporto, era propósito de Deus, porque certamente consequências trágicas poderiam ocorrer; se perdi um emprego, foi Deus quem quis, pois estava preparando um ainda melhor pra mim, e assim por diante. Privatizamos a vontade de Deus e, quando assim fazemos, facilmente confundimo-la com nossas vontades. A chave do Salmo 143, para mim, vem quando, do desespero, Davi pede que o Senhor o ajude quando tiver que escolher o caminho a se andar (v. 8); quando roga para que o “ensine a fazer sua vontade” (v. 10). A vontade Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 133 é de Deus, mas a escolha é nossa. E Deus só pode ensinar sua vontade a quem quiser aprender, quem se lança na aventura de aprender, pois é vivendo (errando e acertando, sofrendo e mudando) que se aprende. Por isso repito que discernir é preciso! O salmista (119:27) também ora: “Faze-me discernir o propósito dos teus preceitos, então meditarei nas tuas maravilhas”. Na tradução A Mensagem: “Ajuda-me a entender estas coisas de dentro pra fora”. Entender de dentro para fora é encarnar a mensagem, deixar que ela faça morada na gente, nos confronte, nos inquiete, nos transforme, e assim se torne viva para nós, em nós e através de nós. Parafraseando Nietzsche, as melhores verdades são as verdades sangrentas – isto é, que brotam de dentro da vida e se aplicam a ela. Portanto, posso concluir que a vontade de Deus não se mostra instantaneamente; a vontade de Deus se experimenta e se pondera, pela renovação da mente (cf. Rm 12:2). Como podemos entender a vontade de Deus? Como um mistério revelado que só se compreende e se experimenta na medida em que se caminha e em que se vai à luta. E, como diz a poesia de Sérgio Vaz, “milagres acontecem quando a gente vai à luta”. Ademais, como bem analisa Jacques Ellul (2006, p. 65, 66), Deus é livre para fazer sua vontade e a realiza em total liberdade, de modo que: Não há razão, motivo, causa ou condição para a vontade livre de Deus. Deus é Deus. Ele fala, e as coisas acontecem. (...) Não existem planos pré-concebíveis, discerníveis ou revelados. Não há sinal premonitório que possamos calcular. Não há passagem de tempo que corresponda a períodos históricos. Não há obras, nem êxito em missões, nem igrejas, não há propagação do evangelho, nem excesso de sofrimentos humanos que nos permitam dizer: “É amanhã...”. A Palavra que dirá isso virá a nós como águia, quando ninguém espera, quando ninguém espera mais nada. | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão134 3.2. Nouwen e a vocação O exemplo de Henri Nouwen, como narrado no começo, é, de novo, uma amostra concreta de onde quero chegar com esta refl exão. Utilizo sua experiência sem pretender absolutizá-la, mas ensejando pensar que existem outros caminhos possíveis de se lidar com a questão da vocação e com a “certeza do chamado”. Quando decidiu passar um período sabático de seis meses viajando pela América Latina, Nouwen tinha 51 anos de idade e 25 de ministério ordenado; a esta altura já havia alcançado notoriedade mundial como escritor de livros, a maioria sobre espiritualidade. No entanto, mesmo após anos dedicados à igreja, à escrita e ao magistério, a pergunta pela vocação permanecia viva e aberta e, de certo modo, indefi nida. Prova disso é seu diário do tempo que passou na América Latina, que foi publicado em livro sob o título Gracias! A Latin American Journal. A pergunta central que o guiou durante aquele tempo era: “Deus está me chamando para viver e trabalhar na América Latina nos anos seguintes?” (Nouwen, 2005, p. xvii). Em meio às atividades, viagens, conversas e encontros que teve em vários países pelos quais passou, Nouwen afi rma ter tentado discernir a voz de Deus e seguir um caminho de obediência àquela voz. E discernimento permanece sendo uma das palavras-chave para a compreensão e vivência da vocação e da vida em missão. O discernimento não necessariamente traz direção, mas nos ajuda a ser honestos para com a difícil jornada que temos adiante, como expressa Nouwen (2005, p. 13): Somos chamados a discernir cuidadosamente os movimentos do Espírito de Deus em nossas vidas. Discernimento se mantém sendo nossa tarefa para a vida toda. Eu não consigo enxergar outro caminho para o discernimento que não seja uma vida no Espírito, uma vida de oração incessante e contemplação, uma vida de profunda comunhão com o Espírito de Deus. Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 135 (...) Nós certamente cometeremos erros constantes e com frequência veremos a pureza do coração sendo requisitada para tomar as decisões certas. Podemos nunca saber se estaremos dando a César o que pertence a Deus. Mas quando continuamente tentamos viver no Espírito, pelo menos estaremos dispostos a confessar nossa fraqueza e a pedir perdão toda vez em que de novo nos encontrarmos a serviço de Baal. Assista o vídeo! “A vida do amado” por Henri Nouwen Acesse o AVA para assistir! É preciso, portanto, percorrer o caminho, enfrentar a questão com discernimento, mesmo que não se obtenha uma direção clara. E observe que Nouwen não é daqueles autores que propõem uma vida no Espírito, de oração e comunhão com Deus, como fórmula mestra para que Deus se apresse, ou para que tenhamos total certeza de que estamos “no centro da vontade de Deus” – que, diga-se de passagem, é uma pretensão. Pelo contrário, ele diz que esse tipo de vida nos ajuda na tarefa do discernimento, bem como a lidar com as constantes incertezas, assim como a tratar nosso eventuais equívocos e desvios, que acontecem e sempre acontecerão. Por isso a necessidade de arrependimento; e só é passível de se arrepender quem reconhece a própria fraqueza e admite não ter todas as respostas – como me parece ter sido o caso de Nouwen. Ao retornar desse período na América Latina, Nouwen tinha apenas a clareza de queseu desejo de servir os pobres do mundo era genuíno e real, mas que não seria na América Latina. Ele passou a receber cartas de Harvard, que lhe ofereceu uma posição como professor ali. Mesmo não | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão136 aceitando o emprego em tempo integral, um semestre por ano, de 1983 a 1985, Nouwen lecionou na Harvard Divinity School, sendo ali aclamado como professor, com classes sempre lotadas de estudantes ávidos por ouvi-lo. Mais uma vez, porém, ele percebeu, como relatou em um de seus diários, que quanto mais se via cativo à ambição (de sua carreira, seu ministério), mais difícil era enxergar aqueles que são cativos pela pobreza. De novo, havia a certeza da vocação original, de ser um ministro da cura, um “curador ferido”, como ele mesmo denominou em um de seus livros (2001), ou um “profeta ferido”, nos dizeres de Michael Ford (2005), porém permanecia a incerteza do caminho. Em 1985 Nouwen recebeu um convite do francês Jean Vanier, fundador da Arca – uma instituição responsável por cuidar e ser comunidade para pessoas com defi ciência mental – para passar um ano sabático em uma das comunidades da Arca, em Trosly, na França. Para Nouwen, foi um ano de descobertas, de experiências novas e inusitadas, e para discernir se aquele era um caminho para uma melhor realização de vocação no reino de Deus, como sentida naquele momento. Ao fi nal daquele período, Nouwen fi nalmente decidiu que sua vocação dali para diante seria ser um membro e ministro de cura na Comunidade A Arca, em Toronto no Canadá, onde permaneceu pelos dez últimos anos de sua existência. Por essas experiências, concluiu que “às vezes a maneira de saber onde você é chamado a estar é indo onde sente que deve ir e estar presente naquele lugar. Logo saberá se aquele é o lugar que Deus quer ou não que esteja” (Nouwen, 2013, p. 102). Vocação não é apenas uma questão de “chamado”, mas também de escolha e do risco de cada decisão. O lugar não é o mais importante; fundamental é manter viva a chama do relacionamento. Assim, Nouwen fi nalmente se encontrou, pois compreendeu que a questão da vocação não está ligada principalmente ao lugar em que atuamos, servimos e vivemos, mas com a constante abertura do coração para Deus e o que Ele quer fazer por meio de nós, tornando-nos agentes de sua Missão onde quer que estejamos. Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 137 Texto de Apoio Como Nouwen concluiu na parte fi nal de Gracias!, soando um tanto como o apóstolo Paulo: Hoje eu me dei conta de que a questão de onde viver e o que fazer é realmente insignifi cante se comparada com a questão de como manter os olhos do meu coração focados no Senhor. Posso estar lecionando em Yale, trabalhando na padaria da Abadia de Genesee, ou caminhando por aí com as crianças pobres no Peru e me sentir totalmente inútil, miserável e deprimido em todas essas situações. Estou certo disso porque é o que aconteceu. Não existe tal coisa como o lugar certo ou o emprego certo. Posso estar feliz ou infeliz em todas as situações. Estou certo disso porque tenho estado. Tenho me sentido consternado e jubiloso em situações de abundância tanto quanto de pobreza, em situações de popularidade e anonimato, em situações de sucesso e de fracasso. A diferença nunca foi baseada na situação em si, mas sempre em meu estado de mente e coração. Quando sabia que estava caminhando com o Senhor, sempre me senti feliz e em paz. Quando me vi preso em minhas próprias reclamações e necessidades emocionais, sempre me senti cansado e dividido. (Nouwen, 2005, p. 152) Com Nouwen aprendo, portanto, mais uma lição: que o mais importante não é tanto a certeza da vontade de Deus sobre onde se deve estar, a segurança da posição que se ocupa numa organização, ou se está ou não “no caminho certo” ou inequívoco da vontade de Deus; mais importante que saber o caminho, é percorrê-lo, enfrentando percalços, colhendo frutos, experimentando sucessos e insucessos, e amadurecendo na fé, | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão138 de preferência ao lado de Jesus, caminho, verdade e vida. Como diz a poesia de Antonio Machado, “caminhante, são teus passos o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar”. 4. O lugar da fraqueza na espiritualidade da missão Finalmente, gostaria de falar sobre a importância de assumirmos e lidarmos com nossas fraquezas enquanto caminhamos pela vida em missão. Para tanto, quero iniciar examinando duas afi rmações. A primeira é de David Bosch, que diz: “A verdadeira missão é a mais fraca e menos impressionante atividade humana que se pode imaginar, a própria antítese de uma teologia da glória” (Bosch, 1988, p. 76). Bosch não está sozinho nesta percepção. José Comblin também escreveu algo nesta direção, eventualmente servindo de inspiração ao próprio Bosch em sua abordagem à espiritualidade missionária de Paulo: “A fraqueza não é nenhum acidente da missão, nenhuma circunstância que se tenha que lamentar. Muito pelo contrário, é uma condição prévia de qualquer missão autêntica” (Comblin, 1983, p. 56). Quando pensamos a missão na perspectiva triunfalista da nobreza do “meu chamado”, de um grande empreendimento da igreja ou mesmo de uma cruzada no mundo a fi m de “ganhar almas para Jesus”, estas afi rmações soarão um tanto estranhas e sem propósito. Afi nal, a evocação de um lugar de um poder e uma unção sobrenatural sobre o missionário ou embaixador de Cristo torna-se necessária e até comum para justifi car uma missão de tal natureza. Ou seja, para lutar contra as potestades que dominam a terra e aprisionam as almas dos mundanos e pagãos, é preciso se revestir de força e se lutar com as “armas da fé”. Assim, o linguajar militar, não muito estranho aos escritos bíblicos, mesmo os de Paulo, mas utilizado fora de contexto e para propósitos duvidosos, domina esse tipo de cosmovisão missionária. O problema é que, mesmo arrebatando e convencendo a muitos de sua efi cácia motivadora, ela Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 139 provoca um duplo afastamento: (1) o afastamento do mundo desse Cristo bélico e conquistador e, (2) o afastamento da igreja da perspectiva do Cristo da cruz, que acaba se transmutando, de um ideal-raiz da vocação e espiritualidade cristãs, em uma ideia desorientada e deturpada de como apresentar Deus ao mundo. Quando olhamos para o caminho (missionário) de Jesus, porém, a imagem não é de triunfo, glória ou conquista, mas, como vimos, de submissão, fragilidade e dor. Com isso não quero dizer que, em Jesus, Deus foi derrotado, e sim que nele vemos o sentido de que perder nem sempre é signo de derrota; pode ser caminho para uma vitória não triunfal, mas signifi cativa. Assim é a relação entre a cruz e a ressurreição. A mensagemda cruz carrega o gene da morte, que gera vida, como no paradoxo do Cristo: tentar salvar a vida é, na verdade, perdê-la; já perder a vida, pela causa certa, é achá-la (cf. Mt 17:25). Jesus também falou em Mateus sobre negar a si mesmo: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome sua cruz e siga-me”. O paradoxo aqui, porém, é que negar-se é uma forma de declarar a morte de algo dentro de si (o que Paulo chama de “velho homem”), a fi m de fazer brotar e fl orescer da própria vida um novo ser humano. Não, Deus não é sádico; não quer que a gente morra apenas pelo prazer mórbido de nos ver morrendo; não nos criou para rejeitar a vida, mas para afi rmá-la. No entanto, segundo Jesus, é negando a si mesmo, desfazendo-se de todo orgulho de ser, abraçando a própria fragilidade, reconhecendo-se como ser codependente, é que podemos afi rmar a vida e a liberdade humanas. A mensagem da ressurreição, por sua vez, não existe nem faz sentido se separada da mensagem da cruz. Para ressuscitar é preciso morrer e é morrendo que se vive. É uma mensagem de vida abundante, mas não sem morte; de alegria, mas não sem tristeza; de vitória, mas não sem fracasso; de força, mas não sem fraqueza; de luz, mas não fora das trevas. Como disse Julio Zabatiero (2012), Deus está morto e permanece morto. | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão140 Ressuscitou precisamente porque morreu, e não é porque morreu que deixou de ser o Deus crucifi cado. Em suas palavras exatas: “A teologia é a linguagem do paradoxo: quando digo que Deus está morto, é a melhor maneira de afi rmar que Ele está vivo”. Além disso, a ressurreição não foi um evento majestoso, triunfal e barulhento. Como vemos nas narrativas da ressurreição em Lucas 24, a ressurreição foi um ato silencioso e marginal de Deus; não houve testemunhas à beira do túmulo, apenas anjos que anunciaram a poucas mulheres que Ele já não está morto, mas vive; não teria saído nos principais noticiários do dia (se isso existisse), mas correu de boca em boca, de modo que se a história até hoje a encara não como evento, mas como mito, até para os discípulos à época foi difícil de acreditar, mesmo quando o próprio Jesus de repente apareceu no meio deles, como Mateus indica (Mt 28:17). Deus não ressuscitou Jesus dos mortos preocupado com a propaganda do seu governo sobre a terra, como que dizendo: “Viram só, eu tiro e dou à vida a quem quero, meu poder é magnânimo; vocês mataram meu Filho, mas a grande prova de que Ele É em mim e de que EU SOU, é que agora ele vive de novo, por isso curvem-se diante de mim, o Rei dos reis!”. Não. A ressurreição não é prova de nada nem existe para provar alguma coisa. Não é o aguilhão daqueles que precisam de provas para crer, mas para os bem-aventurados do reino os quais, mesmo não vendo, creram e creem (cf. Jo 20:29). O Pai ressuscitou Jesus dos mortos porque Ele é o seu Filho amado; para que a morte não tenha a última palavra; para confi rmar a obra do Filho; para que nós encontrássemos vida Nele e, tendo vida, tivéssemos esperança e, tendo esperança e pela fé, espalhássemos essa boa notícia de vida, amor e esperança ao mundo. E assim fazemos seguindo o mesmo modelo e espírito que vimos em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que, como expressa Comblin (1983, p. 56, grifos meus): (...) se manifestou sem nenhum dos atributos da força humana. Jesus não quis brilhar pela cultura. Não quis argumentar com os escribas e os doutores Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 141 da lei, menos ainda com os fi lósofos pagãos. Não conquistou o povo pela abundância de suas esmolas ou as obras de desenvolvimento. Não impressionou pelo poder. O messianismo fi cava totalmente alheio às suas perspectivas. O sinal supremo que deu aos homens foi sua morte, manifestação visível da mais completa incapacidade e dominar e de convencer por meio de argumentos tirados das culturas e das civilizações. Na verdade Jesus estava completamente desarmado no meio dos homens, e quis estar assim. Estava desarmado para poder alcançar o homem na fonte de sua humanidade, no nível da maior universalidade: concretamente para poder ser recebido pelo mais humilde dos homens, para se encontrar com a humanidade em todos os homens. Pensando na mesma direção que Comblin, é possível dizer que Jesus não teria um perfi l para ser um missionário cultural ou transcultural em nossos dias, por falta de requisitos mínimos para se encaixar (conforme as caixas de encaixe hoje vigentes em muitas igrejas e agências missionárias do mundo): caminhou à margem da religião e da cultura; abraçou não apenas as vulnerabilidades humanas como escolheu ser humilde entre os humildes e desgraçados; não primava por demonstrações sobrenaturais de poder, pelo contrário, em muitos milagres que realizou pedia total sigilo daquele(a) que o recebeu; não partiu para o caminho da apologética ou defesa da fé, cercando-se de argumentos fortes para “defender” a perspectiva do reino de Deus, de modo que, em Jesus, não se faz ninguém se achegar ao reino pelo poder do argumento, mas pelo caminho da fragilidade, da infantilidade espiritual (sejam como crianças), do diálogo, do arrependimento, do perdão e da graça. Como lembra Comblin (1983, p. 58), “os homens são vulneráveis. A possibilidade de mudança radica justamente nessa vulnerabilidade”. | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão142 Exercício de fi xação “Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2 Co 4:7). “Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte” (2 Co 12:10). O que a perspectiva de Paulo, em diálogo com o que discutimos acima, nos ensina sobre nossa humanidade em missão? Assinale a assertiva incorreta: a) Que o poder de Deus habita em nós nos habilitando a superar nossas fraquezas a fi m de apresentar um Deus de poder ao mundo; b) Que a fraqueza não é nenhum acidente, nem obstáculo, mas uma condição para nossa caminhada com Deus em missão; c) Que, no horizonte da missão de Deus, o fraco é o novo forte. Escolha a reposta INCORRETA, Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do professor! Ademais de tudo o que se tratou até aqui, devemos lembrar que Jesus não se aliou às estruturas e poderes de seu tempo, ao mesmo tempo em que rejeitou o caminho da usurpação de ser “igual a Deus” (cf. Fp 2:6); apresentou a boa nova do reino em obediência à sua missão, sem se preocupar em agradar a ninguém ou mesmo com o possível insucesso, rejeição ou má reputação. Jesus foi um profeta, e profeta que é profeta não esconde sua fragilidade nem teme perder a própria cabeça. Por essa razão, seu ministério profético iniciou-se com um discurso arrojado numa Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão143 sinagoga em Nazaré, em que declarou a palavra do profeta Isaías se cumpria nele mesmo naquele momento, e teve de reconhecer a rejeição dos seus, e mais do que isso, enfrentar a ira dos que estavam presente na sinagoga, a expulsão de sua própria cidade e tentativa de assassinato (cf. Lc 4:16-30). Não poderíamos chamar isto de um início bem-sucedido aos olhos da cultura (especialmente a nossa), concorda? Por essa razão é que, segundo vejo, as perspectivas de Bosch – de que a missão não tem nada de impressionante, é antítese de uma teologia da glória – e a de Comblin – da fraqueza como condição prévia de uma missão autêntica – faz jus à perspectiva bíblica e primitiva de missão. Isto porque, conforme analisa Comblin (1983, p. 60), a tentação pela qual passa o missionário é parecida com aquela enfrentada por Jesus: “a tentação de messianismo, a tentação da força, do poder, do dinheiro e da cultura”. Não é à toa que Paulo desenvolveu toda uma teologia do poder e da fraqueza em sua carta missionária, de Segunda Coríntios. Ali ele utiliza- se de uma metáfora poderosa, a de que temos esse “tesouro em vasos de barro” (2Co 4:7), a fi m de que reconheçamos que isso é por pura graça e um milagre – um vaso contendo um tesouro; o evangelho, poder de Deus, habitando e agindo através de seres frágeis como nós – e que, portanto, o poder que vulta em nós não é propriamente nosso, mas vem de Deus. Adiante, no capítulo 12, ele complementa esta ideia acrescentando a perspectiva de que a graça de Deus nos é sufi ciente em tudo, que o espinho na carne – ou a “dádiva de uma defi ciência”, na tradução A Mensagem – não será arrancado, pois ele está ali por uma razão: para esbofetear nossa prepotência e nos fazer aceitar com gratidão nossas fraquezas, pois é através delas que o poder de Deus se aperfeiçoa em nós, pois quando somos fracos, então é que somos fortes (2Co 12:7-10). Conclusão Quero concluir nossa jornada nesta unidade (e nesta disciplina) com um testemunho pessoal. Nesse ano (2019) completo quatorze anos atuando | Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão144 na educação teológica. Já vi um pouco de tudo, e posso dizer que nunca lidei com estudantes que, em geral, parecem ser tão pouco ambiciosos/ as em termos ministeriais ou missiológicos como os que com os quais tenho lidado hoje. Parece que vivemos o que alguns chamariam de “crise de vocação” (referindo-se, obviamente, mais à vocação pastoral), de modo que a leitura de alguns desse momento poderia ser bastante negativa. Para mim, porém, ela é sintomática (e aqui estou sendo bem especulativo): talvez muitos tenham se desencantado em relação a esse tipo de vocação porque se trata de um empreendimento muito promissor em termos de promoção denominacional e institucional, mas bem pouco de promoção da vida e dignidade humanas. Percebo certo receio de que, para ser ministro/a, seria preciso ser menos gente, menos humano/a, menos dado/a à demonstração de fragilidades e, consequentemente, menos suscetível ao erro. Certamente temos de repensar a vocação ministerial nesse momento de crise, mas gosto de pensar que esse desencanto é também uma oportunidade. Oportunidade de dizer para esses jovens que esse negócio de ser “super- crente”, de fato, não tem eco bíblico nenhum. Que os “grandes” heróis da fé foram os que mais ousaram “se apequenar” aos olhos desse mundo, os que prezaram mais pela integridade e não deram a mínima para reputação. De que é normal se sentir triste e desanimado vez por outra; de que nem sempre seremos vitoriosos e campeões em tudo; de que pode haver uma enorme vantagem em certas “desvantagens” que sofremos nesse mundo competitivo e capitalista selvagem; de que para ganhar é preciso aprender a perder, e que é morrendo que se vive. Nesse sentido, Bosch (1979, p. 77) disse algo que a meu ver poderia ser lema da espiritualidade frágil e kenótica aos professores de teologia, escolas teológicas e igrejas que ousarem abraça-la: “A igreja não é composta de gigantes; apenas seres humanos feridos podem guiar outros até a cruz”. Tomo como minha missão pessoal, enquanto educador, a de comunicar para meus estudantes que não é preciso anular fragilidades para ser discípulo ou testemunha de Jesus Cristo, e de que ser discípulo, portanto, é a melhor maneira de ser e se encontrar humano. Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 145 Referências bibliográfi cas BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. BOSCH, David. Missão transformadora. Mudanças de paradigma na teologia da missão. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002. _______. A spirituality of the road. Scottdale, Pennsylvania: Herald Press, 1979. COMBLIN, José. Teologia da missão. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1983. ELLUL, Jacques. Políticas de Deus, políticas do homem. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. ENGEL, David. Educating the layman theologically. In: Theology Today, vol. 21, n. 2, Jul. 1964, pp. 197-205. FORD, Michael. O profeta ferido: um retrato de Henri J. M. Nouwen. 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Se você fez os resumos parciais das outras unidades e salvou em um arquivo em seu computador, complete com o resumo desta unidade. Caso não tenha feito, este é o momento de fazê-lo. Poste o arquivo com o resumo de toda a disciplina, acessando o link "Exercício integrativo"; 3- Você deve declarar a leitura de pelo menos 100 páginas de textos complementares; 4- Faça a prova objetiva 2. Consulte o “Programa de curso” para mais informações sobre as avaliações. Fique atento ao prazo fi nal para a realização das avaliações: 27/02 - 23h55