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Prévia do material em texto

| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais2
Fevereiro/ 2019
Professor/Autor: Dr. Jonathan Menezes
Coordenadoria de Ensino a Distância: Dr. Marcos Orison Nunes de Almeida
Projeto Gráfi co e Capa: Departamento de desenvlvimento institucional
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por:
Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano - Londrina - PR
86055-670 Tel.: (43) 3371.0200
3Espiritualidade Cristã | FTSA | 
SUMÁRIO
Unidade 1 - Introdução a espiritualidade cristã
Introdução...............................................................................................................04
Capítulo 1: O que é espiritualidade........................................................................05
Capítulo 2: O lugar da conversão...........................................................................08
Capítulo 3: O caminho da santidade......................................................................14
Capítulo 4: A vocação da humanidade..................................................................24
Unidade 2 - Religião, fé e espiritualidade
Introdução...............................................................................................................38
Capítulo 1: O que é religião?...................................................................................39
Capítulo 2: O que é fé?............................................................................................51
Capítulo 3: Raciovitalismo: a fé e a razão em diálogo..........................................60
Capítulo 4: Sobre a arte de perder chãos..............................................................64
Unidade 3 - Disciplinas espirituais
Introdução...............................................................................................................73
Capítulo 1: Oração..................................................................................................74
Capítulo 2: Deserto.................................................................................................86
Capítulo 3: Comunidade.........................................................................................98
Unidade 4 - Espiritualidade vocação e missão
Introdução.............................................................................................................109
Capítulo 1: O exemplo de Henri Nouwen............................................................110
Capítulo 2: A missão da espiritualidade na Missão...........................................123
Capítulo 3: Espiritualidade como busca e resposta a uma vocação...............129
Capítulo 4: O lugar da fraqueza na espiritualidade.............................................138
Para assistir os vídeos, ouvir os PodCasts e fazer os exercícios,
acesse o AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem)
Atenção! Lembre-se que faz parte de suas obrigações:
1- Participação na disciplina por meio da realização dos exercícios;
2- Exercício integrativo - Resumo da disciplina, 1500 palavras;
3- 2 Provas objetivas (5 questões cada);
4- Leitura de textos complementares (100 páginas);
Consulte o “Programa de curso” e veja mais detalhes!
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã4 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
UNIDADE I - INTRODUÇÃO À ESPIRITUALIDADE CRISTÃ
Introdução
A espiritualidade cristã diferencia-se de outras formas existentes, 
e bastante em voga até, de espiritualidade no mundo atual. E a razão 
básica é: seu centro gravitacional não é o próprio ser humano e suas 
necessidades, mas Deus – Pai, Filho, Espírito Santo. E mais: não poderá 
ser chamada de “cristã” se sua fonte de inspiração primária não for a 
experiência cristã1, ou melhor, a experiência de fé em e a partir da pessoa 
de Jesus Cristo. “Cristã”, nesse sentido, é sinônimo de “cristocêntrica” 
(centrada em Cristo, o Deus encarnado). A tese dessa unidade é a de 
que espiritualidade cristã é um modo de ser expresso a partir de um 
encontro, relacionamento e compromisso com a pessoa de Jesus Cristo. 
Discutiremos essa tese a partir de três temas transversais: conversão, 
santifi cação e humanidade. 
Objetivos da unidade
1. Defi nir espiritualidade cristã e sua relação com outros conceitos
transversais;
2. Desenvolver uma visão de espiritualidade cristã mais ampla e
integral;
3. Relacionar os temas da conversão, da santifi cação e da
encarnação sob a ótica da espiritualidade cristã.
Assista o vídeo: O que signifi ca ser espiritual?
Para assistir os vídeos e ouvir os PodCasts,
acesse o AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem)
1 Isto não signifi ca, em hipótese alguma, que a experiência cristã seja exclusivista e 
isolada de uma convivência com outras experiências, como uma espécie de destacamento 
da humanidade, da vida e do mundo. Diálogos e encontros humanos, tais como os que 
vimos em Jesus, são fundamentais para a espiritualidade cristã, como veremos adiante.
5Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
1. O que é a espiritualidade cristã?
De acordo com Alister McGrath (2008, p. 20), a palavra espiritualidade 
procede do termo hebraico ruach, que pode ser traduzido por “espírito”, 
inclusive no sentido de “vento”, “alento”. Refere-se ao ânimo de vida, tanto 
que a gera como que a sustenta. Também tem a ver como cada cristão 
responde à sua fé nas diversas representações cristãs existentes, o que, 
de acordo com ele, permite-nos também falar de “espiritualidades cristãs”.
Exercício de reflexão
Defi na “espiritualidade”, a partir de sua própria
experiência de fé e vida até aqui.
Para assistir os vídeos, ouvir os PodCasts e fazer os exercícios, 
acesse o AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem)
Atenção! Lembre-se que faz parte de suas obrigações:
1- Participação na disciplina por meio da realização dos exercícios;
2- Exercício integrativo - Resumo da disciplina, 1500 palavras;
3- 2 Provas objetivas (5 questões cada);
4- Leitura de textos complementares (100 páginas);
Consulte o “Programa de curso” e veja mais detalhes!
Pode-se entendê-la, em sentido mais geral, como uma qualidade não 
material que diz respeito à vivência, envolvimento, dedicação religiosa 
em geral, à luz de refl exão e entendimento. Mas, podemos falar também 
de espiritualidade cristã, que é aquela forma de espiritualidade específi ca 
da fé cristã e sua vivência. 
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã6 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
Neste aspecto, eu fi caria com uma defi nição mais simples, que deve 
perpassar nossas conversas daqui para diante:
Espiritualidade é o modo de ser do cristão guiado pelo Espírito Santo.
A espiritualidade cristã baseia-se na fé, pois é por ela que acolhemos 
a palavra de Deus. A experiência mística e a devoção fazem parte e 
auxiliam nossa espiritualidade, mas não são sua fonte principal. A fonte 
principal da espiritualidade cristã é Jesus Cristo, que conhecemos 
prioritariamente pela palavra de Deus. A vida não é a razão da nossa 
espiritualidade, mas seu contexto. A espiritualidade cristã, conforme o 
próprio nome diz, é cristocêntrica. E isso signifi ca, antes de tudo, que o 
centro da vida espiritual não deve estar mais em mim enquanto indivíduo, 
mas no próprio Cristo.
 Saiba mais
Emseu livro A implacável ternura de Jesus (2010), Brennan 
Manning dedica um capítulo para falar da “vida excêntrica” ou 
fora do centro. Ela começa, segundo ele, com a admissão de que:
Jesus se fez o núcleo vital da vida cristã. Jesus não é apenas 
o coração do cristianismo, Ele é o centro da humanidade e 
nos revela o que signifi ca ser um humano. Ser cristão é ser 
completamente humano. Nós cristãos realmente acreditamos 
nisso? O que signifi ca ser completamente humano, viver uma 
vida na qual Cristo é o centro? O que signifi ca viver fora do 
centro? Primeiro, signifi ca que um cristão autêntico é total e 
literalmente excêntrico – isso é, fora do centro, de tudo o que 
diz respeito a gerir, conduzir e controlar a própria vida. Isso 
exige uma mudança revolucionária do foco em si próprio. 
(Manning, 2010, p. 93) 
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7Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
Eis abaixo alguns insights importantes de Manning neste capítulo sobre 
o que signifi ca “viver fora do centro”:
a) “Viver fora do centro signifi ca compartilhar a experiência 
íntima de Jesus com Deus como Pai. O signifi cado da palavra pai 
nas Escrituras tem dois aspectos: Antes de mais nada signifi ca 
senhor e soberano, total controle e autoridade. Jesus confi rmou a 
absoluta soberania de Seu Pai. Ele nunca tentou justifi car Deus por 
toda confusão, dor e tragédia do mundo. (...) O segundo aspecto 
da palavra pai nas Escrituras envolve cuidado, preocupação, 
compaixão e fi dedignidade. Não somos apenas convidados, mas 
somos realmente chamados para entrar nessa afetuosa, libertadora 
experiência com a paternidade” (p. 94-95).
b) “Viver fora do centro nos liberta da tirania da pressão do grupo 
social. Viver para agradar o Pai, como Jesus fez, se torna o impulso 
básico de uma vida cristã – mais importante que agradar as 
pessoas. E isso requer um nível singular de liberdade” (p. 96).
c) “Viver fora do centro faz a diferença de tantas maneiras. 
Capacita-nos a enxergar que a igreja é um lugar para celebrarmos e 
nem sempre reformarmos, que o mundo é um lugar que deveria ser 
desfrutado, nem sempre infl uenciado, que a vida é uma experiência 
sem uma agenda, que o amor, o maior de todos os nossos feitos, é 
sempre imerecido, injusto e inesperado” (p. 98). 
d) “Viver fora do centro me ensinou que todo fracasso tem sucesso 
de alguma forma. Ele proporciona a oportunidade não apenas 
de humilhar o eu, mas também de ser gentil com o fracasso dos 
outros. Se a minha vida ou a sua fosse uma história bem-sucedida 
e imaculada, um crescimento rápido e contínuo em direção à 
santidade, nunca poderíamos entender o coração humano” (p. 100). 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã8 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
2. O lugar da conversão
Já apresentei o que aqui gostaria de chamar de “defi nição de trabalho” 
de espiritualidade – isto é, o ponto de partida para qualquer discussão 
envolvendo este conceito ao longo deste curso. Também foram 
delineadas algumas diferenças importantes, no campo conceitual, entre 
espiritualidade e outras expressões normalmente associadas a esta. 
Sabemos, portanto, que a espiritualidade cristã, acima de qualquer outra, 
estará em nosso horizonte daqui para diante. Assim sendo, qual é o ponto 
de partida da espiritualidade cristã?
A afi rmação basilar desse tópico é de que o caminho da espiritualidade 
cristã começa com a conversão. Dito de modo breve e provocativo: sem 
conversão, não há espiritualidade. Pelo menos não no sentido cristão. 
O que, porém, signifi ca passar por uma “conversão”? Que implicações 
importantes o tema da “conversão” evoca, e o que elas têm a nos ensinar 
sobre a espiritualidade?
No contexto da fé cristã, a conversão designa a nova condição ou vida do 
ser humano em Cristo, normalmente (mas não sempre) iniciada por uma 
experiência pessoal e individual de “encontro”, ou mesmo de “retorno” à casa 
do Pai, como no exemplo da parábola do fi lho pródigo (ver Lc 15:11-32).
PodCast
Reflexão 
“A conversão na parábola do fi lho pródigo”.
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A raiz da conversão, de acordo com Orlando Costas (2014, p. 180), está 
na literatura profética, por exemplo, expressa na ideia (que aparece 
aproximadamente mil vezes) de “voltar-se”, do verbo hebraico shub. Está 
ligado ao chamado de Deus, que vemos ocorrer reiteradas vezes nos livros 
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9Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
proféticos, para que o povo se arrependa, abandone seus pecados e se 
volte para o Senhor, renovando seus votos de fi delidade somente a Ele. E 
voltar-se para Deus, como vimos anteriormente no caso emblemático da 
crítica de Amós à religião, signifi ca deixar-se ser encharcado pelo caráter 
divino – um Deus que quer um “mar de justiça” e ver correr em nós “rios 
de integridade” – e, consequentemente, mudar o curso da existência (isto 
é, converter-se) de acordo com este referencial absoluto. 
Outra palavra importante vem do Novo Testamento, e é traduzida 
como “metanóia”, do verbo grego metanoeo, que designa uma 
mudança (meta) de mente (noia) ou a adoção de outro ponto de 
vista ou cosmovisão. Segundo Costas (2014, p. 181), este termo “é 
usado no contexto do chamado ao perdão do pecado e a libertação 
do julgamento futuro (At 2:38; 3:19; 17:30; 26:20) e em referência ao 
problema da apostasia no seio da igreja (Ap 2:5, 16, 21-22; 3:3, 19). 
Vários conceitos bíblicos de conversão são retratados nestes termos, 
de acordo com Costas (2014, p. 181):
1. Signifi ca voltar-se do pecado (e de si mesmo) para Deus (e para a 
obra de Deus).
2. Este ato envolve uma mudança de mente, o que implica no abandono 
de uma cosmovisão antiga e a adoção de uma nova.
3. A conversão envolve uma nova lealdade, uma nova confi ança e 
um novo compromisso.
4. A conversão é apenas o início de uma nova jornada e veicula 
implicitamente a semente de novas mudanças. 
5. A conversão é circundada pelo amor redentor de Deus como 
revelado em Jesus Cristo e testemunhado pelo Espírito Santo. 
Desse modo, a conversão pode se dar por meio de uma experiência 
interior em que uma profunda convicção do pecado vem à tona no ser 
humano, como no famoso relato de conversão de Agostinho (ver texto 
na próxima página). 
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã10 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
Texto de Apoio
Quando, por uma análise profunda, arranquei do mais íntimo 
toda a minha miséria e a reuni perante a vista do meu coração, 
levantou-se enorme tempestade que arrastou consigo uma 
chuva torrencial de lágrimas. [...] Retirei-me, não sei como, 
para debaixo de uma fi gueira, e larguei as rédeas ao choro. 
Prorromperam em rios de lágrimas os meus olhos. Este 
sacrifício era-Vos agradável. Dirigi-Vos muitas perguntas, não 
por estas mesmas palavras, mas por outras do mesmo teor: 
“E Vós, Senhor, até quando? Até quando continuareis irritado?Não Vos lembreis das minhas antigas iniquidades”. [...] Assim 
falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do coração. 
Eis que, de súbito, ouço uma voz vinda da casa próxima. Não sei 
se era de menino, se de menina. Cantava e repetia frequentes 
vezes: “Toma e lê; toma e lê”. [...] Abalado, voltei aonde Alípio 
estava sentado, pois eu tinha aí colocado o livro das Epístolas 
do Apóstolo, quando de lá me levantei. Agarrei-o, abri-o e li 
o primeiro capítulo em que pus os olhos: “Não caminheis
em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e
dissoluções, nem em contendas e rixas; mas revesti-vos do
Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne
com seus apetites” [Rm 13:13]. Não quis ler mais, nem era
necessário. Apenas acabei de ler estas frases, penetrou-me
no coração uma espécie de luz serena, e todas as trevas da
dúvida fugiram (Agostinho, 1996, p. 222-223).
Nessa experiência, volto-me para Deus na medida em que me volto para 
dentro de mim, e eventualmente recebo uma iluminação interior acerca 
de minha natureza pecaminosa. Desse modo, espiritualidade se torna 
sinônimo de interioridade ou, nos dizeres de Eugene Peterson (2000, p. 
14), é “a atenção que prestamos à nossa alma”. Não há dúvidas de que 
essa é uma dimensão importante da espiritualidade cristã; o problema 
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11Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
é quando imaginamos que não haja nada além dela, isto é, de que a 
espiritualidade é “apenas” essa atenção dada ao interior e nada mais.
Segundo Galilea (1979), autor chileno de textos pastorais e de 
espiritualidade, apresenta uma analogia muito interessante a esse 
respeito. Ele compara a espiritualidade com um grande bosque, repleto 
de árvores, cada uma delas representando uma dimensão possível da 
espiritualidade. Algumas vezes, certas árvores nos impedem de ver todo 
o bosque. Em outros casos, tendemos a confundir uma árvore apenas 
com todo o bosque. Ora, Galilea está nos alertando para algo importante, 
em matéria de espiritualidade, que é a questão do reducionismo. 
 Glossário
REDUCIONISMO: pode ser identifi cado pela tendência de reduzir 
um fenômeno complexo a uma forma simplifi cada, ou mesmo 
setorizada, de compreensão desse fenômeno. No caso da teologia, 
por exemplo, é o mesmo que dizer que tudo em teologia se resume 
na Soteriologia ou o no “estudo da salvação”. Um exemplo bíblico 
de reducionismo: Jesus se depara com um cego de nascença, e 
os discípulos perguntam: “Quem pecou para que fi casse cego: ele 
ou os pais?”. É um reducionismo, pois atribui uma causa possível 
apenas para a cegueira: o pecado (restando saber se do cego ou de 
seus pais). A resposta de Jesus é mais complexa, fugindo da lógica 
de causa e efeito de sua cultura (ver: João 9:1-5).
O antídoto para fugir do reducionismo, segundo esse autor, está na 
identifi cação da conversão a Jesus com o seguimento de Jesus: 
converter-se signifi ca segui-lo em seu caminho e reino de vida. Isso nos 
faz olhar para a vida, e para a espiritualidade, sob uma perspectiva mais 
ampla: os compromissos que assumimos (como o compromisso com 
a justiça do reino), e as particularidades que compõem a vida espiritual 
(como orar, jejuar, adorar, refl etir, comer, amar, e assim por diante) são 
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã12 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
expressões ou resultados de um seguimento, e não todo o seguimento. 
Logo, como explica Galilea, não há como dizer que a espiritualidade 
é a “espiritualidade da cruz”, a “espiritualidade da adoração” ou a 
“espiritualidade da paz”. Trata-se, antes, da espiritualidade do seguimento 
de Jesus, que nos leva a incorporar a cruz, a adoração e a paz (dentre 
tantos outros aspectos) “daquele a quem seguimos” (Galilea, 1979, p. 9).
O importante a se ressaltar, à luz da experiência de Agostinho acima citada, 
é que a experiência da conversão é singular, isto é, única e irrepetível. Ela 
pode ter um “início distinto” – uma espécie de virada decisiva em direção 
à Jesus Cristo e a seu reino de vida – mas, como lembra Costas (2014, p. 
182), ela pressupõe um “movimento transformador contínuo”. O que isso 
signifi ca? Em primeiro lugar, signifi ca que toda conversão genuína é um 
processo corrente e interminável, em que minha vida passa por inúmeras 
revisões – passando pela dinâmica de arrependimento e conversão – 
sempre na busca de se in-conformar com este século, conformando-se, 
em contrapartida, com o caráter da pessoa de Cristo. Ou seja, o cristão 
convertido está sempre se convertendo. Em segundo lugar, signifi ca que 
o mais importante não é saber se uma pessoa é cristã convertida ou 
não, mas se vive como convertida. Se, como disse Jesus (cf. Mt 7:24-27), 
ela é como o homem que construiu sua casa sobre a rocha (pois “ouve 
e pratica”), ou se coaduna mais com o homem que edifi cou sua casa 
sobre a areia (pois “ouve, mas não pratica”). Em outras palavras, se a 
espiritualidade cristã começa com a conversão – como salientei no início 
deste tópico – a conversão pressupõe uma “vida espiritual”, isto é, uma 
vida que está sempre se movendo de uma “existência desumanizada e 
desumanizadora para uma vida humanizada e humanizadora” (Costas, 
2014, p. 183) – como veremos melhor no último tópico sobre “a vocação 
da humanidade”. 
Por último, este movimento transformador e contínuo implica em uma 
contínua saída de si mesmo – no abandono de uma vida egoísta, voltada 
apenas para si – em direção ao outro, o próximo, o irmão e a irmã de 
caminhada histórica, começando pelos da mesma fé, até toda e qualquer 
pessoa com quem nos comprometamos e que seja, assim, “próxima” para 
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13Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
nós. Dessa maneira, seguimos, servimos e amamos a Jesus também no 
outro. Como bem nos lembra o apóstolo João, “ninguém pode amar a 
Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a quem vê” (1Jo 4.20). 
 Texto de Apoio
A transformação que o/a discípulo/a de Cristo e sua 
comunidade afi rmam ter obtido através do Evangelho deve, 
por sua própria natureza, se estender porta afora, para seu 
entorno ou contexto mais amplo. Cremos e ensinamos 
que ela não pode ser apenas individual e/ou comunitária, 
mas também social, historicamente situada, e sensível 
às necessidades integrais do ser humano. Visando essa 
transformação integral, uma teologia contextual não se limita 
a apenas observar e compreender o nosso contexto latino-
americano, mas observa, compreende e, por conseguinte, 
promove ações transformadoras na e da realidade. Ações que 
identifi quem e anunciem, por palavras e obras, a presença do 
Reino de amor de Jesus e de sua justiça entre nós.
Acreditamos em vidas sendo transformadas pelo poder do 
Evangelho, porque temos visto e experimentado isso na FTSA 
em sua história até aqui. Aqui certamente apostamos que a 
educação é um dos meios mais profícuos de libertação do ser, 
e de conferir-lhe dignidade e propósito. Mas também sabemos 
que a educação teológica, em especial, tem uma função ainda 
mais específi ca, que é libertar corações e mentes por meio do e 
para o Evangelho do Reino de Deus. Neste lugar, vidas têm sido 
convertidas não a um tipo específi co deteologia, mas ao Reino 
de Deus e sua Missão. E essa é uma conversão/transformação 
decisiva para a igreja em nossos dias.
Extratos de: “A identidade teológica da FTSA”, Práxis Missional 01, 2018
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã14 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
Exercício de fi xação
A forma de espiritualidade advinda da conversão, entendida como 
uma mudança interior promovida por uma “iluminação interior” 
que, por sua vez, me leva a ter uma profunda convicção de minha 
natureza pecaminosa, também pode ser entendida como:
Metanoia
Interioridade 
Inconformidade
Metamorfose
Acesse o AVA para fazer o exercício ever a reação 
do professor!
3. O caminho da santidade
É hora de caminhar um pouco mais nessa unidade introdutória sobre a 
espiritualidade cristã, a partir do conceito de “santidade”. Eis minha ideia 
central: Se a espiritualidade começa com a conversão, ela floresce ou 
amadurece com uma vida de ou em santidade. Saímos ao mundo para 
viver em santidade. A questão principal, porém, é: o que, afi nal, signifi ca 
“santidade”, no contexto a espiritualidade ou vida cristã?
3.1. Um chamado: “sede santos”
Para começo de conversa, voltemo-nos ao texto da Primeira Carta de 
Pedro, capítulo 1, versos 15 e 16:
“Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês 
também em tudo o que fi zerem, pois está escrito: ‘Sejam santos, porque 
eu sou santo” (1Pe 1.15-16).
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15Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
Quatro... É o número de vezes em que a sentença “sejam santos, porque 
eu sou santo” aparece somente no livro de Levítico – sem contar com a 
passagem acima da primeira carta de Pedro, é claro, que faz referência 
àquela. Qual é a possível mensagem implícita nesta sentença? 
A de que devemos ser “iguais a Deus”? 
A de que nos compararemos a Ele em sua Santidade? 
A de que devemos lutar para que a santidade seja possível? Três vezes 
não! 
Mas, num primeiro plano, aparece a mensagem de que Deus, o Senhor, que 
tirou seu povo da terra do Egito, é “Santo”, isto é, incomparável, está “acima 
de todo nome”, não há outro igual a Ele, não é e nem pode ser idêntico a 
outros deuses, nem tampouco às formas, formulas ou nomes que tentam 
“descrever” Deus. Ele é o que é...
A Santidade, nesse sentido, é o que torna impossível qualquer espécie 
de cogitação sobre Deus, qualquer teologia que possa ser feita, por 
ser “sobre Deus”, ou visando “nomear Deus”. E a graça é o que torna, 
em contrapartida, possível a teologia como resposta ao falar e ao agir 
desse Deus Santo, no nível de nosso entendimento sobre ou de nossa 
experiência com este Deus. 
Santos, portanto, são chamados. Pedro diz: “Santo” é “aquele que os 
chamou”. Paulo, quando escreve aos Romanos – e esta é uma linguagem 
que repetidamente aparecerá em suas cartas – assim endereça: “A todos 
os que em Roma são amados de Deus e chamados para serem santos” 
(Rm 1.7). Santidade não é essencialmente um alvo humano, mas alvo de 
Deus para a humanidade; os que são chamados “santos” na perspectiva 
bíblica não o são porque perseguiram este caminho ou porque fi zeram 
“das tripas o coração” para se tornarem “santos” aos olhos de Deus e 
do mundo, mas porque foram “perseguidos” e atraídos por e para esta 
via, que é uma via de graça. Por ser uma vida de pura e divina graça, 
a santidade, assim como a humildade, torna-se uma qualidade da 
humanidade da pessoa sem que ela normalmente saiba que é santa.
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã16 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
Texto de Apoio
A sombra santifi cada
Havia antigamente um homem tão piedoso que até os anjos 
se alegravam quando o viam. Mas, apesar de sua grande 
santidade, ele não tinha ideia de que era santo. Simplesmente 
realizava suas prosaicas tarefas espalhando bondade, da 
mesma forma que as fl ores espalham fragrância e os postes 
de luz claridade, se forma natural.
Sua santidade estava no fato de que esquecia o passado 
da pessoa e as olhava como eram agora e olhava além da 
aparência da pessoa, no íntimo da existência delas onde 
eram inocentes e puras e ignorantes demais para saberem o 
que estavam fazendo. Assim, amava e perdoava a todos que 
encontrava – e não via nada de extraordinário nisso, pois era 
o resultado do modo como olhava as pessoas. 
Um dia, um anjo lhe disse: 
– Fui enviado por Deus. peça o que desejar e lhe será 
concedido. Gostaria de ter o dom de curar?
– Não – respondeu o homem. – Prefi ro que Deus mesmo 
realize as curas.
– Gostaria de trazer pecadores de volta ao caminho do bem?
– Não – disse ele. – Não cabe a mim tocar os corações 
humanos. Essa é a tarefa dos anjos.
– Gostaria de ser tal modelo de virtudes que as pessoas 
sejam levadas a imitá-lo?
17Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
– Não – disse o santo –, pois isso me transformaria no centro 
das atenções. 
– Que deseja, então? – perguntou o anjo.
– A graça de Deus – foi a resposta. – Com ela, terei tudo o 
que desejo.
– Não, você deve pedir um milagre – disse o anjo – ou será 
obrigado a aceitar um.
– Bem, então pedirei que o bem seja feito por meu intermédio, 
sem que eu perceba.
Assim, foi decretado que a sombra do santo homem seria 
dotada de poderes de cura, sempre que estivesse atrás dele. 
Em todo lugar onde sua sombra se projetasse – desde que 
ele estivesse de costas – os doentes eram curados, a terra 
tornava-se fértil, fontes jorravam e a cor voltava às faces dos 
que estavam acabrunhados pelas tristezas da vida.
Mas o santo não fi cava sabendo de nada disso, porque a 
atenção das pessoas estava tão centralizada na sombra que 
se esqueciam do homem e, assim, seu desejo de que o bem 
fosse feito por seu intermédio e que ele fosse esquecido foi 
plenamente realizado. (Mello, 2000, p. 148-149)
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã18 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
3.2. Dois modelos: ascetismo e participação
Mas, em que medida se pode ser santo “como Deus é...”? Diria que não 
na medida em que ambicionamos a santidade, pois ser santo não é 
propriamente ambição, mas vocação. Ninguém “ambiciona” a santidade 
neste sentido (bíblico) estrito, pois não há vantagem, status ou benefício 
direto algum em ser santo. Não me torno melhor e nem pior que ninguém. 
Não recebo nenhum “Prêmio Nobel de Santidade”. Sou apenas “diferente”, e 
diferente “apenas”. E assim sou na medida em que me deixo levar pelo jeito 
divino de me fazer diferente sem ser extraterreno ou extra-humano – o que 
demonstra que a santidade bíblica não tem nada a ver com a conotação 
religiosa do santo-beato, que se afasta do mundo para não se contaminar 
com o mal. Não. A diferença só aparecequando há mistura; a luz brilha 
onde há trevas; o sal, dentro do saleiro, não faz diferença alguma. Precisa 
entrar na salada para dar sabor. Somente santos, que não se eximem dos 
húmus que também compõem o humano e a vida terrena, podem ser “sal 
e luz da terra”. O resto é vaidade, orgulho, exibicionismo espiritual.
Dois modelos advêm daqui. O primeiro é o do ascetismo: santidade como 
separação do mundo. Ela vem de uma interpretação duvidosa da própria 
ideia de “santidade como separação”, como se tal separação fosse uma 
separação de e não separação para, como vimos na ideia de vocação. 
Em outras palavras, para se manterem incontaminados do mundo, muitos 
ditos “santos”, ao longo da história, decidiram que era preciso se afastar 
do mundo, procurando uma via alternativa, normalmente orientada pela 
vida piedosa e de sacrifícios, regada a muita oração, devoção e jejum. 
Glossário
ASCETISMO: palavra que vem de “ascese” ou a reunião de uma 
série de práticas e disciplinas que devem servir para que o santo 
(o asceta) se aproxime mais e mais da vontade de Deus e, porque 
não dizer, do paraíso celestial. Espiritualidade da ascese: disciplina 
e separação do mundo.
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19Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
Ora, a própria “Oração Sacerdotal” de Jesus é um divisor de águas nesse 
sentido, pois ele ora ao Pai dizendo: “Não peço que os tire do mundo 
[kósmos], mas que os guardes do Maligno” (Jo 17.15, NTLH). Ou seja, 
Jesus está dizendo: não os arranque desta época, deste tempo, desta 
terra, mas, enquanto eles se encontram no meio disso tudo, desse 
mundo repleto de contradições, de complexidades e que tende a rejeitar 
e a perseguir aqueles/as que não se conformam com seus modos de 
operar, que eles/as aprendam a discernir a presença do mal no meio do 
mundo e, pelo poder da sua Graça, que eles/as possam ter seus corações 
guardados dele, escolhendo a vida e não a morte, a integridade e não a 
iniquidade, a espiritualidade e não a desumanidade. Esse é o segundo 
modelo: o da santidade como participação no mundo. 
Um exemplo dado por Paulo Brabo, no livro Em seis passos o que 
faria Jesus (em alusão ao famoso Em seus passos o que faria Jesus, 
de Charles Sheldon), é bastante útil para pensar estes dois modelos, a 
partir de João Batista e Jesus. Primeiro, ele defende a tese atípica, para 
muitos, de que os maiores antagonistas de Jesus nos evangelhos não 
são “fi gurantes” como os fariseus, os sacerdotes ou mesmo Satanás. 
O “verdadeiro antagonista” é João Batista, pois, como explica ele, “de 
todos os que em algum momento da história se opõem a Jesus ele é 
o único que representa verdadeira autoridade; de todos que se atiram 
no caminho de Jesus, querendo exercer sobre ele alguma infl uência, é 
João Batista que, em seu recato, chega a corresponder, contrapor-se a 
ele”. Mais do que isso, prossegue Brabo, de todos os personagens que 
protagonizaram histórias do Evangelho, “João Batista é o único que 
apresenta e representa uma alternativa ao estilo de vida que Jesus está 
propondo. João é o último habitante legítimo de um mundo que Jesus 
veio abolir” (Brabo, 2009, p. 36, 37). 
Vejamos a tabela na próxima página, a partir da explicação de Brabo, 
algumas características que distinguem João (o asceta) de Jesus (o 
participante):
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã20 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
João Batista, o outsider ou 
asceta Jesus, o insider ou participante
Um profeta que clama do 
deserto.
Um profeta que clama e age no 
meio da vida.
Homem que se afasta 
deliberadamente do mundo, 
como parte essencial de 
sua missão.
O caminho de Jesus é ‘caminho 
estreito’: é um caminho mais 
exigente que o do ascético, 
pois implica em presença 
no mundo, sem receio de se 
contaminar com sua “sujeira”.
Não come frescuras como 
pão e vinho (dieta de 
gafanhoto e mel silvestre); 
não bebe, não aceita 
convites para festas, nunca 
é visto na cidade.
Foi chamado de “comilão 
e beberrão”; não havia 
virtualmente ninguém a quem 
ele recusava sua proximidade: 
religiosos e pecadores; fariseus 
e prostitutas; ricos e pobres; 
fazendeiros e pescadores; 
cegos, loucos, possessos; 
homens e mulheres.
Duvida da conduta do 
primo, e chega a questionar 
se ele é “aquele que 
estávamos esperando ou 
devemos esperar mais”.
Não tem a menor dúvida sobre 
o importante papel exercido 
pelo Batista. Chega a dizer 
que, de todos os homens 
que já nasceram, “João é o 
maior”. Porém, adverte: “quem 
é o menor no Reino de Deus, é 
maior que ele” (Lc 7.28).
21Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
3.3. Quatro teses sobre santidade
Ser santo, como vimos no começo, é um fado, isto é, um destino, uma 
vocação. Um fado que pode se tornar fardo, às vezes, seja (dentro de 
um estado “normal” de coisas) quando reconheço a complexidade dessa 
carreira que me está proposta (fardo-desafi o, que pode ter tonalidades 
positivas), ou, pior, é fardo quando penso que a santidade depende de 
mim e de meus esforços “apenas” para existir. Ou seja, uma atividade 
menos pneumática (ou procedente do Espírito) e mais “anímica”, isto é, 
procedente dos instintos e disposições naturais do ser humano, como 
pontuou certa vez Dietrich Bonhoeffer (2006, p. 20). Ao mesmo tempo, 
é uma vocação que pode e deve ser alegre, leve, cheia de vida, à medida 
que não se separa da graça de Deus, nem da beleza de viver e de ser 
humano, conformando-me com o exemplo do “fi lho do homem”. 
Gostaria de propor, em suma, quatro teses (não inéditas) que endereçarão 
(parcialmente) a perspectiva desta disciplina sobre santidade:
1. Ser santo, como Deus é santo, implica em despretensiosidade 
ou em aceitar-se como se é. 
O que, no caso da santidade, signifi ca assumir-se como um ser 
pecador e naturalmente incapaz de santidade. Nisto se confi gura o 
que Tillich (1972, p. 128) chamou de “a coragem de ser”: “aceitar-se 
como sendo aceito, apesar de ser inaceitável”. Ele ainda acrescenta 
que “não é o bom, ou o sábio, ou o piedoso, quem está destinado 
à coragem de aceitar a aceitação, mas aqueles que são faltos de 
todas estas qualidades e estão certos de serem inaceitáveis”. 
2. Ser santo, como Deus é santo, implica em abraçar a condição 
(contingente) de “ser como uma parte”, continuando a pensar 
com Tillich, e de se colocar, assim, como um ser sempre a 
caminho de se tornar. 
Nisto também se confi gura a vocação: ela não é para aqueles que 
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã22 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
já-são, mas para os que, pela graça, podem vir-a-ser. Não seria 
este o convite do próprio Jesus: “Não são os que têm saúde que 
precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar 
justos, mas pecadores” (Mc 2.17)?
3. Ser santo, como Deus é santo, implica em esvaziar-se da ambição
diabólica de “ser como (igual) a Deus”, e cobrir-se, em contrapartida,
de humanidade, de “nova humanidade”.Parafraseando Zélia Duncan
e Mosca na música “Carne e sangue”, me cobrir de humanidade me
fascina e me aproxima do céu.
Caminhar com Deus é um privilégio e uma dádiva, e não a conquista 
dos “caçadores de Deus” e suas formas de religiosidade sem 
conteúdo e sem vida, e, como disse J. Urteaga (1967, p. 75), 
cheias de “falsas virtudes que ocultam uma vergonhosa covardia”. 
Santidade que nos priva da vida e da benção de ser apenas humano 
não vem de Deus. Pois, segundo Elienai Cabral Jr. (2009, p. 17), 
ela “subestima a vida humana e impõe uma agenda de pretensa 
divinização da vida. Insinua uma existência sem tensões, medos, 
dúvidas e afl ições. Sem pequenos prazeres. Sem alegrias banais. 
Sem dança, festa, riso, vinho e amor”. 
4. Ser santo, como Deus é santo, implica, por fi m, na inconformidade
com qualquer outra medida que não seja a “medida da estatura
da plenitude de Cristo”, sobre a qual falou Paulo (Ef 4.13). Para
isto, é preciso “estar em Cristo”, que é tudo o que possibilita o
caminhar em santidade de vida. O estar em Cristo me torna uma
nova criatura. O “velho”, fraturado, vai dando lugar ao “novo”, em
construção, e à “novidade de vida”.
Em suma: tendo sido feito-santo, não deixo de ser humano, que, por si 
só, é incapaz de santidade ou contingente. A diferença é que, agora que 
fui alcançado pela graça, existe algo que me move rumo a um horizonte 
de vida abundante ao qual, por enquanto, experimento apenas de relance. 
A ideia de santidade como vocação me faz pensar, assim, que existe um já 
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23Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
que se apresenta como convite e como possibilidade de um vir a ser diário 
na graça. O santo-humano tem também seus demônios. Aprendendo a 
conviver com eles, sem a eles se render totalmente, é o que consiste 
em aceitar diariamente ao convite. Santidade sem sanidade – expressão 
de Robinson Cavalcanti (1997) – gera gente doente, e não gente santa. 
Em outras palavras, o anseio pela santidade sem o Evangelho não vira 
santidade, vira patologia. 
 Agora assista o vídeo: “Santidade como trivialidade” 
(por Ed René Kivitz) Acesse o AVA para assistir! 
 Exercício de aplicação
Voltemos, por um momento, à tese central desse tópico: “Se a 
espiritualidade começa com a conversão, ela floresce ou amadurece 
com uma vida de ou em santidade. Saímos ao mundo para viver 
em santidade”. Assinale a alternativa cujas assertivas sejam uma 
implicação direta dessa tese (considerando ainda o modo como foi 
desenvolvida ao longo desse tópico):
I. Santidade implica em saída ao mundo, mas não do mundo. 
II. Santidade implica em saída ao mundo, mas isso não signifi ca que 
compactuemos com todos os modos de operar (ou modus operandi) 
do mundo. 
III. Santos são separados por Deus para viver uma vida de santidade, o 
que deve signifi car ascese ou separação do mundo.
IV. Santos são separados por Deus para uma vida de santidade, ou 
seja, eles possuem uma vida no mundo, se envolvem com seus meios 
próprios, participam dela, e no meio dela expressam, muitas vezes 
sem saber, sua santidade.
Acesse o AVA para fazer o exercício e ver a reação do 
professor!
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã24 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
4. A vocação da humanidade
Para continuar a conversa, busquemos inspiração no livro de Gênesis, 
um livro que mostra como essa “aposta de Deus”, chamada humanidade, 
se desenvolveu. Pois minha tese aqui é de que quanto mais humanos 
nos tornamos, mais espirituais seremos.
No princípio, Gênesis diz, Deus criou o céu e terra – tudo aquilo que nossos 
olhos veem, e o invisível também –, e em dado momento disse: “façamos 
o ser humano à nossa imagem, de forma que refl itam nossa natureza”. E
o texto prossegue dizendo que “Deus criou os seres humanos; criou-os à
semelhança de Deus, refl etindo a natureza de Deus, ele os criou macho e
fêmea...” (Gn 1.26-28, TAM).
Ou seja, parte da afi rmação de que “somos humanos, graças a Deus” vem 
dessa mensagem original: não apenas a de que Deus nos fez – humanos, 
mulher e homem – mas a de que ser humano signifi ca participar da 
natureza divina. Isso implica que todo amor, toda criatividade, toda 
energia e toda boa dádiva que provêm do divino estão potencialmente 
presentes na humanidade, transbordando nela (ou em nós).
No início, porém, de nossa formação humana, nossos ancestrais míticos, 
Adão e Eva, decidiram balizar a defi nição de quem eram e, por conseguinte, 
de quem se tornariam, sobre uma falsa premissa ou crença: a de que 
mais do que humanos, era possível “ser como Deus” – conhecedores de 
bem e mal – e, ainda assim, não morrer. 
Existem teses diferentes sobre qual seria a “essência” do pecado original 
– e não poderia ser diferente, já que ninguém chega a conhecer a essência 
de nada. Afi nal, estamos falando de orgulho ou acedia (preguiça)? C. S.
Lewis acreditava que o orgulho é “o grande pecado” e que, por causa
do orgulho, o diabo se tornou quem é. Que o orgulho “leva a todos os
outros vícios” e que, portanto, “é o estado mental mais oposto a Deus
que existe” (Lewis, 2005, p. 162). Harvey Cox, por sua vez, se opôs a essa
tese (embora não a Lewis diretamente) com a ideia de que comer do
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25Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
fruto não foi um pecado de orgulho, mas de acedia, também traduzida 
como indolência, preguiça ou ociosidade. Para ele, “não desafi amos os 
deuses roubando corajosamente o fogo da lareira celeste e trazendo, 
assim, benefícios ao homem. Nada de heroísmos. Malbaratamos nosso 
destino ao permitir que uma cobra qualquer dissesse o que devíamos 
fazer” (Cox, 1970, p. 8). 
As duas teses têm seus atrativos. No primeiro caso, pecamos por 
querer “ser mais”. No segundo, pecamos por aceitar “ser menos”, ou 
melhor, por rejeitar nossa responsabilidade de “plasmar e realizar” nosso 
próprio destino. Para todos os efeitos, um mal engendrado em nós por 
um deslumbramento: o de que ser humano – nem mais e nem menos 
– não basta. Aumentar ou ceder o privilégio implica em deixar de ser
humano. Signifi ca trair o projeto original, seja (a) usurpando a imagem e
semelhança de Deus em busca de uma equivalência com Deus – querendo 
ser protagonistas demais –, ou (b) aceitando trocar a responsabilidade
de ser “imagem e semelhança” pela indolência, ou o conforto de ter uma
serpente qualquer decidindo sobre nosso destino – ou seja, abrindo
mão de qualquer forma de responsabilidade. Que é precisamente o que
Adão e Eva fazem no momento em que são indagados por Deus sobre as
razões de terem comido o fruto: “foi a mulher que o Senhor me deu que
me persuadiu a comer”, disse Adão; ou “é tudo culpa da serpente, que me
enganou”, disse Eva.
Como a humanidade se engendra, portanto, segundo Gênesis? Em primeiro 
lugar, por meio de uma afi rmação: Deus nos afi rma como participantes, 
tanto da própria divindade (como sua imagem e semelhança) quanto de 
toda a criação, como co-criadores e corresponsáveis pelo cuidado com a 
criação. Em segundo lugar, por meio de um deslumbramento ou ilusão: a 
possibilidade de ser mais ou menos do que “humanos, demasiadamente 
humanos”, como diria Nietzsche, fez com que rejeitássemos essa 
participação, e assim passássemos a afi rmar (egoisticamente) somente 
a nós mesmos e a nos tomar como “mais importantes que o mundo”(Nietzsche, 2005, p. 38) ou como a medida de todas as coisas. 
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã26 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
O pecado original pode ser descrito, portanto, como a debandada humana 
de sua própria condição. E a inimizade para com nossa condição – 
também entendida como desumanização – implica em distanciamento 
e inimizade em relação a Deus.
4.1. A espiritualidade da serpente
Tudo começa, porém, pelo que José M. Castillo chama de uma “sedução 
desorientada pelo divino”, que é “a atração perversa por tudo o que nós 
atribuímos a Deus: a atração pelo poder e pela glória, pelo domínio 
e pela grandeza, pelo êxito e pelo triunfo, pelo saber, e por ter tudo o 
que imaginamos ser próprio do divino” (Castillo, 2010, p. 31). O relato 
de Gênesis diz que “a mulher olhou para árvore e percebeu que o fruto 
era apetitoso. Pensando na possibilidade de conhecer todas as coisas, 
pegou o fruto, comeu e o repartiu com o marido – que também o comeu” 
(Gn 3.6, TAM). 
No mesmo momento, o relato diz, “eles perceberam a realidade: 
descobriram que estavam nus” (3.7). A condição que, até então, era 
apenas parte do modo natural de ser humano, passou a ter nome-próprio 
– “nudez” – acompanhado de um sentimento de vergonha e medo, pelo 
que o homem disse: “fi quei com medo, porque estava nu. Então, me 
escondi” (3.10). O jardim, a presença do Eterno e a natureza humana 
deixam naquele momento de ser motivo de alegria, migrando para o lugar 
do estranhamento. A humanidade passa a ser vergonhosa.
Aqui também temos o protótipo de uma oferta de espiritualidade – 
porque o diabo é um fanático da espiritualidade desencarnada, e oferece 
à mulher, portanto, a possibilidade de um “espiritualismo puro, longe 
de toda dependência com relação a um pomar, longe da bovinidade de 
toda manducação”, como disse Fabrice Hadjadj (2017, p. 94); ou seja, 
longe da trivialidade humana do comer, evacuar e dormir. Temos aqui a 
fórmula da espiritualidade demoníaca ou da serpente: a espiritualidade 
como antídoto contra a humanidade. Opa, espera: já vimos esse fi lme 
em algum outro lugar?
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27Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
Tenho a impressão de que sim. Saltando de Gênesis para a história, é 
possível dizer que um dos aguilhões da espiritualidade cristã ocidental 
esteve em seu estranhamento com a humanidade. Estranhamento 
grego (platônico), eu diria, que criou dualismos perversos: alma versus 
corpo; espírito versus matéria; sagrado versus secular; o cristão versus 
“o mundo”. Como resultado, a espiritualidade seria então a atenção 
que prestamos ao que acontece em nossa alma – morada do divino – 
deixando de lado, para não dizer desprezando, o corpo, a matéria e as 
atividades corriqueiras da vida. 
Em outras palavras, trata-se de uma espiritualidade “do jeito que o diabo 
gosta”, por separar o que Deus uniu e “viu que era bom”; por banalizar 
as boas dádivas da criação; por criar uma piedade domesticada e sem 
graça, que inibe o que Paul Tillich (1972) chamou de “coragem de ser”: 
a coragem de aceitar a aceitação (graça) e a coragem de ser como uma 
parte. Desde o princípio parece que criamos um estranhamento com o 
fato de que Deus nos aceita e nos ama do jeito que nós somos. E por que 
não amaria, se Ele nos fez assim? 
4.2. A maldição da humanidade
Olhar para o Gênesis é interessante pois percebemos que esse sentimento 
de desajuste para com nossa natureza – esse desconforto em estar 
na própria pele – está, de certo modo, inscrito em nossos genes e nos 
acompanha há milênios. 
Em primeiro lugar, pode-se dizer que há algo de irremediavelmente divino 
no ser humano, que Eclesiastes elaborou de modo trágico, quando 
disse que: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a 
eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras 
que Deus fez desde o princípio até o fi m” (Ec 3.11, ARA). Na tradução A 
Mensagem do mesmo verso, diz: “Sei que Deus pôs tudo no seu devido 
lugar e no tempo certo, mas nos deixou na escuridão, e a verdade é que 
não sabemos bem o que Deus quer, nem agora, nem no futuro”. Espera, 
deixa eu ver se eu entendi direito:
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã28 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
Deus fez tudo perfeito, tudo no seu devido lugar, a melhor criação 
possível, e também nos fez, humanos, graças a Deus! Mas deixou dentro 
da gente uma chama acesa, um senso ou gosto pelo que excede o 
nosso entendimento (o que também poderíamos chamar de aperitivo 
do infi nito), mas sem que pudéssemos dar conta, explicar ou satisfazer 
plenamente esse sentimento? Por que Ele faria algo assim?
Uma ilustração: quando Moisés começou a fazer alguns apelos ao 
Senhor, em Êxodo 33, dentre eles estava o pedido: “Por favor, permita que 
eu veja a tua glória”, a sua kavod. E o Senhor responde com um “vamos 
fazer assim”: meu brilho e minha bondade passarão diante de você; o 
meu nome estará diante de você; minha compaixão e minha misericórdia 
desfi larão diante dos seus olhos. Mas, o meu rosto você não poderá ver, 
porque você não suportaria. Então, “você me verá pelas costas. Mas não 
verá o meu rosto” (Êx 33.21-23). 
Bem, a resposta à pergunta acima então pode ser: Ele nos disponibiliza 
somente aquilo que a gente consegue aguentar. Em pequenas doses, 
sempre parcialmente. O aperitivo do infi nito, ou a eternidade no coração, 
nos põe em busca, mas a experiência e, porque não dizer, a teologia 
daí resultantes, são apenas em bocadinhos, sempre um começo de 
conversa. Porque, em segundo lugar, também podemos dizer que 
há algo de irremediavelmente humano no ser humano, que pode ser 
endereçado pela palavra contingência (falta ou insufi ciência). E, com ela, 
vem a sensação de que nunca somos, nem seremos: fortes o bastante, 
inteligentes o bastante, felizes o bastante, bons o bastante, espirituais o 
bastante. E não seremos mesmo.
Robert Louis Stevenson, no clássico O médico e o monstro – o estranho 
caso do dr. Jekyll e o sr. Hyde, de 1885, apresenta, indiretamente, o que eu 
chamaria de uma parábola moderna do pecado original. O personagem 
principal, o dr. Henry Jekyll, é descrito como um cientista sério e de 
reputação ilibada, que sempre fez de tudo para manter publicamente 
essa imagem de homem virtuoso, profi ssional excelente, uma pessoa 
de disposição alegre e entusiástica, e que assim faria a felicidade de 
29Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
muitos. Algo que ele, Jekyll, descrevia, porém, como seu pior defeito: o 
de ser pretensamente bom, e duro demais consigo mesmo. Para isso, 
ele precisava esconder seus impulsos e prazeres, e logo se viu no que 
chamou de “uma profunda duplicidade”: seu lado bom e o que ele julgava 
como “a parte inferior de si mesmo” estavam em guerra (a exemplo de 
Romanos 7). Tomado por um sentimento de vergonha dessa condição 
(veja o paralelo com os primeiros humanos), ele teve um devaneio: por 
que não inventar uma fórmula que seja capaz de separar essas duas 
partes? Cito o personagem:
Se cada um, pensei,pudesse ocupar identidades distintas, a 
vida seria aliviada de tudo que é insuportável; o injusto seguiria 
seu caminho, livre das aspirações e do remorso de seu gêmeo 
mais digno; e o justo poderia percorrer com passos fortes e 
seguros seu caminho ascendente, praticando as boas ações 
que lhe dão prazer, não mais exposto à desgraça e à penitência 
causada por obra daquele mal extrínseco. A maldição da 
humanidade foi que esses dois feixes incongruentes tivessem 
sido amarrados juntos – que no ventre angustiado da 
consciência aqueles gêmeos opostos lutem continuamente. 
(Stevenson, 2015, p. 126, grifo meu)
Na pele de seu atormentado personagem, Stevenson nos faz imaginar 
(ou recordar) um ser humano quase divino, porque puro e livre das 
“angústias e agruras dessa vida que são postas sobre nossos ombros” 
(aqui parece Eclesiastes falando); um ser soberano em relação aos 
apetites mais primitivos do humano e, assim, livre da vergonha, do fardo 
e da culpa, e para um fi m nobre: fazer o bem e tão somente o bem! Ao 
colocar em prática seu plano, Jekyll ainda relata ter reconhecido que 
seu “corpo natural era apenas a aura e a radiância de alguns poderes” 
que compunham seu espírito, até então destronados pelos “elementos 
inferiores de sua alma” (Stevenson, 2015, p. 126). 
Quem condenaria Jekyll por esse ato imponderado? Quem não gostaria de 
poder ser humano, sem ter de carregar todas as esquisitices e neuroses 
que povoam nossos variados modos de ser e personalidades? Jekyll é 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã30 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
uma nova versão de Adão e Eva; Jekyll sou eu e é você. Como nossos 
pais humanos, ele também foi atraído pela espiritualidade da serpente.
Exercício de fi xação
 Escolha abaixo a alternativa que melhor representa o que chamei 
de “espiritualidade da serpente”:
a) Uma proposta de espiritualidade existente desde o Éden que 
passou a existir como uma espécie de antídoto contra a humanidade. 
b) Uma proposta de espiritualidade existente desde o Éden e que 
signifi ca basicamente harmonia com Deus e com a criação.
Escolha a alternativa e acesse o AVA para ver a reação 
do professor!
4.3. É preciso manter todas as partes unidas!
Agora, é claro que é uma representação que tem limites (Stevenson 
escreveu em 1885!), que na natureza humana há uma rede intrincada 
de laços e de rupturas, de modo que não é apenas “dual”, mas múltipla. 
De fato, o personagem dr. Jekyll faz uma descrição interessante de si 
mesmo, humano, como um “amálgama contraditório cuja reforma e 
aperfeiçoamento [ele] já perdera a esperança de realizar” (Stevenson, 
2015, p. 129). 
Há duas lições importantes aqui: (1) Primeira, a humanidade em nós não 
é algo que vem pronto em uma bandeja pelo simples fato de que somos 
humanos, mas deve ser desenvolvida, reformada, e aperfeiçoada sempre 
– parafraseando Paulo Freire, o ser humano não é, ele está sendo, ou 
lembrando do que disse outro Paulo, o apóstolo: eu não considero ter 
alcançado a perfeição, eu não tenho tudo junto (cf. Fp 3.12); (2) Segunda, 
diante da enorme tarefa que é se tornar mais e mais humanos, e de 
todas as difi culdades, eventuais fracassos, as injustiças e desigualdades 
31Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
da vida – a vida não é justa, nem faz sentido, Eclesiastes que o diga –, 
muitas pessoas se desesperam, cansam de tentar, cansam de fazer o 
bem, cansam de lutar, e logo são atraídas, de novo, pela oferta da serpente 
que está sempre à espreita. Uma poção mágica quem sabe e “bam!”, 
confl ito resolvido? Não, o Eterno nos alertou lá no livro de Gênesis: querer 
ser mais ou menos que humanos signifi ca morte. E, não custa lembrar 
(alerta para spoiler!): esse foi o triste fi m do dr. Jekyll, que sabia dos 
riscos e mesmo assim arriscou.
A sabedoria bíblica, entretanto, nos ensina uma terceira importante lição: 
(3) É preciso (aprender a, e ter coragem de) manter todas as partes 
unidas! Um último exemplo, extraído de Eclesiastes, e caminhamos para 
o fi nal dessa minha provocação:
Em Eclesiastes (7.15-20, TAM), lemos:
15 A minha vida tem sido uma ilusão, mas nela eu 
tenho visto de tudo. Há pessoas boas que morrem, 
e há pessoas más que continuam a viver a sua vida 
errada. 
16 Por isso, não seja bom demais, nem sábio demais; 
por que você iria se destruir? 
17 Mas também não seja mau demais, nem tolo 
demais; por que você iria morrer antes do tempo? 
18 Evite tanto uma coisa como a outra. Se você temer 
a Deus, terá sucesso em tudo.
19 A sabedoria pode fazer mais por uma pessoa do 
que dez prefeitos juntos podem fazer por uma cidade.
20 Não existe no mundo ninguém que faça sempre o 
que é direito e que nunca erre.
A primeira má-notícia – sim, porque em toda boa-nova existe uma “má-
nova” mais ou menos explícita –: justiça (e bondade) não garante bem-
estar e longevidade, assim como a maldade não resulta necessariamente 
em fracasso ou sofrimento. Então, se você deseja fazer o bem, que não 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã32 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
seja pelos louros, porque pode ser que não alcance. Depois, segunda 
má-notícia: ele mostra pra gente que isso era mais pretensiosidade que 
realidade, ou seja: ninguém “é” inteiramente bom ou inteiramente mau, 
e que quem vive com essa pretensão é uma pessoa dividida (ou não 
íntegra), sugada para os extremos.
Só que aqui ele quebra com a tradicional teoria da recompensa e a 
moralidade baseada em causa e efeito, que afi rma: o justo alcança uma 
larga vida enquanto o malvado perderá no fi m. Em seguida, ele diz algo 
que é uma aparente contradição: “Não seja demasiadamente ímpio e não 
seja tolo; por que morrer antes da hora?” (v. 17, TJC). Parece indicar que 
os extremos levam à autodestruição, mesmo que, no caso da maldade, 
por exemplo, se possa ter alguma sobrevida. A última recomendação é 
bem inusitada, e eu encaro como uma grande boa-nova: “retenha uma 
coisa e não abra mão da outra”. Isso signifi ca evitar o caminho ilusório 
do Dr. Jekyll. Sobre isso, leiamos sua triste confi ssão:
Aqui preciso falar teoricamente, não dizendo o que sei, e sim o que 
suponho ser mais provável. O lado mau de minha natureza, ao qual eu 
havia agora concedido a capacidade de corporização, era menos robusto 
e menos desenvolvido que o recém-deposto lado bom. Por certo, no 
curso de minha vida – nove décimos da qual compostos de esforço, 
virtude e controle –, aquele lado fora menos exercitado e menos gasto. 
(Stevenson, 2015, p. 128)
Quer dizer, esse homem fez exatamente o oposto do que sugere o Pregador. 
Que, a meu ver, não é para que exercitemos nossa maldade inerente de 
caso pensado, mas que reconheçamos que ela existe, que está dentro da 
gente, que faz parte de nossa humanidade. Harold Kushner (1999, p. 66) 
traduz esse mesmo v. 17 de modo muito interessante: “Permita que sua 
vida seja uma mistura de devoção e pecado, tudo de forma moderada!”. 
Eis então o retrato de um ser humano insuportável (para si e para os 
outros): aquele/a que crê piamente na equivalência entre suas crenças 
e sua vida prática. Imagina-se demasiadamente justo e bom. Ledo 
engano. Integridade também signifi ca admitir sua incapacidade de viver 
33Introdução à espiritualidadecristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
inteiramente o que acredita e prega. É preciso fazer o possível para 
manter todas as partes unidas? Sim. Mas, eis o paradoxo: ninguém tem 
tudo junto. E se afi rma ter, mente. E o demônio exulta.
Por isso, é preciso reverberar outra vez Eclesiastes: “não há um justo 
sequer sobre a terra que faça [apenas] o bem e nunca peque” (TJC). Ou: 
“Não há uma única pessoa perfeita no mundo; nenhuma que seja pura e 
sem pecado” (TAM). Elsa Tamez (1998, p. 160) conclui que “a luta infi nita 
por ser bom é também desumanizante. O que Qohélet está dizendo é que 
é próprio do humano não ser justo sempre”, bem como não ser mau o 
tempo todo. Quem teme a Deus procura evitar os extremos. 
 Texto de Apoio
Em seu livro Na liberdade da solidão, Thomas Merton diz o seguinte:
A vida espiritual é, antes de mais nada, uma vida. Não é apenas algo a 
ser conhecido e estudado; tem de ser vivido. Como toda vida, defi nha 
e morre quando separada de seus elementos próprios. A Graça está 
enxertada em nossa natureza e o homem todo está santifi cado pela 
presença e ação do Espírito Santo. A vida espiritual não é, portanto, 
uma vida completamente separada, desarraigada da condição humana 
e transplantada para o ambiente angélico. Vivemos como criaturas 
espirituais quando vivemos como homens que procuram a Deus. Para 
sermos espirituais, temos de permanecer homens. E, se isso não fosse 
evidenciado em toda parte na teologia, o Mistério da Encarnação seria 
disso, amplamente, uma prova. Por que Cristo se fez homem senão para 
salvar os homens unindo-os misticamente a Deus por meio de sua santa 
Humanidade? Jesus viveu a vida – ordinária – dos homens de todos os 
tempos. Se queremos, pois, ser espirituais, vamos em primeiro lugar 
viver a nossa própria vida. Não tenhamos medo das responsabilidades 
e inevitáveis distrações inerentes à tarefa a nós confi ada pela vontade 
de Deus. Abracemos a realidade; assim nos encontraremos imersos 
na vontade vivifi cadora e na sabedoria de Deus, que por toda parte nos 
envolve. (Merton, 2001, p. 40)
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã34 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
Resumindo a ideia: ser espiritual é ser mais e mais humano! A 
espiritualidade é uma integridade. A falta de integridade, a sedução da 
espiritualidade da serpente, nos faz querer optar por um ou outro extremo, 
e viver divididos. A integridade, porém, implica em assumir quem somos, 
discernindo com maturidade nossas ações, e agindo de acordo com o 
que acreditamos [afi nando-se o mais possível à vontade de Deus]. 
O equilíbrio, por outro lado, também envolve não se deixar paralisar diante 
das difi culdades – permitindo que uma “lei moral”, que às vezes milita 
contra a vida, fale mais alto, deixando, assim, de viver e realizar o potencial 
da vida em função dessas interdições. Quanto mais amadurecemos e 
crescemos enquanto pessoas de fé e humanas, mais os nossos “joios” 
(lembrando da parábola do joio e do trigo), ou o que em nós estava 
obscuro, vem à tona. E não é nossa tarefa extinguir o “Mr. Hyde”, pois se 
o fi zermos provavelmente eliminaremos também o “Dr. Jekyll”. 
É preciso, por mais estranho que isso possa parecer aos nossos ouvidos 
cartesianos, deixar que eles cresçam juntos!
Nilton Bonder (1998, p. 82) disse o seguinte: “Aquele que não faz uso 
de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial 
de todos os demais. Se fôssemos todos mais corajosos e temêssemos 
menos a possibilidade de sermos perversos, este seria um mundo de 
menos interdições desnecessárias e de melhor qualidade”.
Exercício de aplicação
Leia o texto seguinte e em seguida responda o que se pede:
Jesus lhes contou outra parábola, dizendo: O Reino dos céus é 
como um homem que semeou boa semente em seu campo. Mas 
enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no 
meio do trigo e se foi. Quando o trigo brotou e formou espigas, o 
joio também apareceu. Os servos do dono do campo dirigiram-se a 
ele e disseram: ‘O senhor não semeou boa semente em seu campo?
35Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
Então, de onde veio o joio?’ ’Um inimigo fez isso’, respondeu ele. 
Os servos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos tirá-lo?’ Ele 
respondeu: ‘Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com 
ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até à colheita. Então direi 
aos encarregados da colheita: Juntem primeiro o joio e amarrem-no 
em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no 
no meu celeiro’. (Mateus 13.24-30)
1. De acordo com a parábola, qual alternativa melhor corresponde 
ao que se diz sobre o funcionamento das coisas no “reino dos céus”:
a) No reino dos céus, no mesmo solo em que a bondade germina 
e cresce, também cresce a maldade e a impiedade.
b) No reino dos céus a bondade e a justiça estão onde a maldade 
e a impiedade não estão e vice-versa.
2. O que o estranhamento e a atitude dos servos do dono do campo 
representam? 
a) Representam a concepção de santidade como participação, 
que não teme perder-se e se contaminar com o mundo.
b) Representam a concepção de santidade como ascetismo, que 
teme que o santo se torne profano pelo contato com o mundo, e 
propõe separá-los. 
3. Em que medida a postura do dono do campo nos ajuda a evitar o 
caminho adotado pelo doutor Jekyll, em O médico e o monstro? 
a) Na medida em que nos instiga a encontrar uma fórmula de 
separar bem e mal na humanidade; o bem crescerá quando o mal 
for extirpado.
b) Na medida em que nos instiga a ver bem e mal como realidades 
inseparáveis no mundo e no ser humano; não saberíamos o que é 
o bem, não fosse o mal.
Escolha as alternativas, depois acesse o AVA para ver 
a reação do professor em cada questão! 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Introdução à espiritualidade cristã36 | FTSA Introdução à espiritualidade cristã
Referências bibliográfi cas
AGOSTINHO. Confi ssões. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril 
Cultural, 1996. 
BARTH, Karl. Introdução à teologia evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 2003.
BONDER, Nilton. A alma imoral: traição e tradição através dos tempos. 
Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
BONHOEFFER, Dietrich. Vida em comunhão. São Leopoldo: Sinodal, 2006.
BRABO, Paulo. Em seis passos o que faria Jesus. São Paulo: Garimpo, 2009. 
CABRAL JR., Elienai. Salvos da perfeição. Mais humanos e mais perto de 
Deus. Viçosa: Ultimato, 2009.
CASTILLO, José M. A ética de Jesus. São Paulo: Loyola, 2010.
CAVALCANTI, Robinson. A utopia possível. Viçosa: Ultimato, 1997.
COSTAS, Orlando. Proclamar libertação. Uma teologia de evangelização 
contextual. São Paulo: Garimpo, 2014.
COX, Harvey. The Future of Faith. New York: HarperOne, 2009.
_________. Que a serpente não decida por nós. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 
1970.
GALILEA, Segundo. Seguir a Jesus. São Paulo: Paulinas, 1979. 
HADJADJ, Fabrice. A fé dos demônios ou a superação do ateísmo. São 
Paulo: Vide Editorial, 2017.
KUSHNER, Harold. Quando tudo não é o bastante. São Paulo: Nobel, 1999.
LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
MANNING, Brennan. A implacável ternurade Jesus. 
MCGRATH, Alister. Uma introdução à espiritualidade cristã. São Paulo: 
Vida, 2008. 
MELLO, Anthony de. O enigma do iluminado. Vol. I. São Paulo: Loyola, 2000. 
37Introdução à espiritualidade cristã Espiritualidade Cristã | FTSA | Introdução à espiritualidade cristã 
MERTON, Thomas. Na liberdade da solidão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. 
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Cia das 
Letras, 2005.
STEVENSON, Robert L. O médico e o monstro – O estranho caso do dr. 
Jekyll e o sr. Hyde. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 
TAMEZ, Elsa. Quando los horizontes se cierran: relectura del libro de 
Eclesiastés o Qohélet. San José: DEI, 1998. 
TILLICH, Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.
URTEAGA, Jesus. O valor divino do humano. São Paulo: Quadrante, 1967.
Atenção!
Lembre-se de realizar as atividades avaliativas da disciplina.
1- Faça todos os exercícios desta unidade;
2- O "Exercício integrativo" consiste em um resumo de toda
disciplina contendo entre 1400 e 1500 palavras, portanto,
sugerimos que você já faça o resumo desta unidade como
parte desta avaliação. Faça esse resumo em um arquivo de
texto, salve-o em seu computador e use-o novamente para
adicionar no resumo das outras unidades e ao fi nalizar o
resumo de toda a disciplina, poste-o ao completar esta tarefa
acessando o link "Avaliações";
3- Lembre-se de ler alguns dos textos complementares (em
torno de 25 páginas) para cumprir a exigência de leitura de
pelo menos 100 páginas da lista disponibilizada aqui;
4- Ao fi nal da unidade II, você deverá fazer a primeira prova
objetiva.
Consulte o “Programa de curso” para mais informações sobre 
as "avaliações".
Fique atento ao prazo fi nal para a realização das "avaliações": 
27/02 - 23h55
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade38 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
 UNIDADE II – RELIGIÃO, FÉ E ESPIRITUALIDADE
Introdução
A busca por uma espiritualidade encarnada – meu mote na primeira unidade 
– passa, também, pelo reconhecimento das mais esquisitas e paradoxais 
paragens humanas, lugares em que não apenas damos signifi cado à vida, 
como também construímos e damos sentidos a nossa relação com o divino 
e sua criação. A religião é certamente um desses lugares, que demarcam 
nossa ambiguidade humana: somos movidos pelo incondicional e, ao 
mesmo tempo, muito presos à condicionalidade, isto é, às crenças, aos 
conceitos, às ideias e imagens que fazemos do divino e do mundo. Quais são 
as consequências ou implicações disso para a fé? Sim, porque a fé é diferente 
da religião, que é diferente da espiritualidade, embora sejam conceitos em 
relação. E precisamente por estarem em relação é que decidi escrever o 
relato que você lerá nesta unidade. Num segundo momento, tentarei fazer 
uma síntese sobre o que signifi ca permanecer crendo, escolhendo a fé, 
diante das eventuais desconstruções pelas quais passamos em meio a um 
universo de descrença e ceticismo, ou mesmo de dúvidas e incertezas que 
cercam nossa espiritualidade tanto no plano intelectual quanto no plano 
existencial. Farei isso em dois momentos: no primeiro, discorrendo sobre a 
sustentação e os limites da crença e, no segundo, apresentando o que aqui 
chamarei de “arte de perder chãos”.
Objetivos da unidade
1. Perceber o que uma teoria ou concepção de religião pode revelar 
sobre seu objeto – que, para Tillich (1973), é o “incondicional”;
2. Defi nir fé também a partir das relações entre o condicional e o 
incondicional;
3. Descobrir um novo tipo de racionalidade, orgânica e vital, na 
expressão da fé;
4. Refl etir sobre a necessidade e (arte) de perder chãos, de 
desconstrução para uma nova construção.
39Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
1. O que é religião?
A palavra “religião” é antiga e remonta aos tempos bíblicos. No Novo 
Testamento, por exemplo, a aparição mais conhecida do conceito se 
encontra na carta de Tiago (1:27-28), no que ele denomina de “religião 
verdadeira”. Outras ocorrências podem ser vistas em Colossenses 2:18 e 
Atos 26:5. No primeiro, o termo em grego (threskeia) signifi ca “adoração 
religiosa”, e, no segundo, “sistema religioso”. Sabemos que na antiguidade 
cristã existiam inúmeras religiões entre os diferentes povos; até mesmo 
os gregos e os romanos eram bastante religiosos (vide o que disse Paulo 
aos atenienses em Atos 17), praticavam o politeísmo, que é a crença em 
ou culto a vários deuses. Sabemos também que o cristianismo primitivo 
teve uma base religiosa, advinda do judaísmo, sobretudo. Jesus e os 
apóstolos eram judeus e seguiam os princípios da religião judaica. 
Como explica Frank Whaling (in McGrath, 1993, p. 547), “o simples uso da 
palavra ‘religião’ implica em uma teoria sobre a religião”. Assim, gostaria 
de utilizar outra defi nição possível como ponto de partida para nossa 
conversa aqui: 
Religião é um sopro humano na busca pelo incondicional.
De onde a retiro? Primeiramente, da ideia de que a religião nasce do 
desejo ou busca pela transcendência (ou pelo infi nito) que há em todo 
ser humano. Eclesiastes – como já observei na unidade temática anterior 
e quero retomar aqui – chama isso de um senso de “infi nito” que há no 
coração humano: “Deus pôs a eternidade no coração do homem sem 
que este saiba as obras que Deus fez do princípio até fi m” (Ec 3:11). De 
acordo com Harold Kushner (1999, p. 25), “Deus plantou em nós uma 
fome que não pode ser saciada, uma fome de sentido e signifi cado”. 
Essa “eternidade no coração”, expressa bem essa fome pelo inexplicável, 
indizível, pelo que está além de nós; é o senso de vazio e escuridão 
diante de uma infi nitude que não cabe dentro de nós, mas que desejamos 
desesperadamente: viver, e viver eternamente! Como diz Luiz Felipe 
Pondé (2015, p. 23), “somos seres feitos de abismos”.
A busca pela transcendência na contemporaneidade assume outras 
facetas, mas expressa o mesmo anseio. Segundo John Stott (1998, p. 
246), consiste no anseio “pela realidade suprema, que se encontra além 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade40 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
do universo material. É um protesto contra a secularização, isto é, contra 
a tentativa de eliminar Deus de seu próprio mundo”. Trata-se de uma 
reabertura que vemos crescer no mundo atual de um espaço, que vinha 
sendo ocupado pelo racionalismo, o progresso e a ciência, por exemplo, 
como conquistas modernas, para a experiência do transcendente. Daí 
vem o renascer da espiritualidade, ou melhor, das espiritualidades, em um 
renovado senso do divino, do mistério e do temor. Neste tempo vemos 
o fl orescer da religiosidade, como expressão espontânea e busca de 
relacionamento das pessoas com Deus através de ritos, performances 
e adorações, e menos da religião institucional e seus mecanismos de 
controle ou domesticação. Aqui vai mais uma ideia importante:
O senso de infi nito no coração humano nos conduz ao transcendente.
Minha defi nição aqui pretende convergir tanto com a visão clássica 
romântica de Friedrich Schleiermacher (2000, p. 35), para quem a religião, 
em sua essência humana, “é sentido e gostopelo infi nito”, como a de 
Paul Tillich (1973, p. 61), que a defi ne como “a orientação do espírito ao 
signifi cado incondicional”. Em outro lugar, o autor defi ne religião como 
“preocupação suprema (ultimate concern), manifesta em todas as 
funções criativas do espírito bem como na esfera moral na qualidade de 
seriedade incondicional que essa esfera exige” (Tillich, 2009, p. 45). Gosto 
pelo infi nito, orientação para o incondicional, preocupação suprema: todas 
indicando tanto uma origem no ser, como um fi m último para a religião. 
Mas isso, é claro, não é tudo. O texto de Eclesiastes também diz que 
isto se dá sem que o ser humano conheça as obras ou o percurso de 
Deus do princípio até o fi m, exceto, acrescento, por aquilo que Deus 
mesmo deixou, seus rastros, primeiramente no universo criado. Ou 
seja, o ser humano tateia pelo infi nito, mas só consegue encontrá-lo 
através de expressões fi nitas. Em Romanos, o apóstolo Paulo diz que 
“os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, 
têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas 
criadas...” (Rm 1:20). Quer dizer, parte do que de Deus se pode conhecer 
está, desse modo, manifesto na vida que pulsa em nós e além de nós, na 
natureza. Pode-se inferir então que a religião nasce, em segundo lugar, do 
seguimento humano pelo caminho em que se encontram os vestígios, os 
rastros, ou as pegadas do divino ou do incondicional. 
41Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
Exercício de aplicação
Observe o seguinte trecho do livro do profeta Amós (na tradução “A 
Mensagem”, de Eugene Peterson), e em seguida responda às questões: 
Não suporto os encontros religiosos de vocês. Estou cheio dos seus 
congressos e convenções. Não me interessam seus projetos religiosos, 
seus lemas e alvos presunçosos. Estou enojado das suas estratégias 
para levantar fundos, das suas táticas de relações públicas e criação da 
própria imagem. Não suporto mais sua barulhenta música de culto ao 
ego. Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim? Alguém 
aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero 
integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que 
eu quero (Am 5.21-24 – Grifos meus).
1. Qual das alternativas abaixo melhor corresponde a visão ou o conceito 
que Amós transmite sobre religião?
a) Religião é uma expressão sincera do coração humano que se 
conjuga com o desejo de adorar e servir somente a Deus.
b) Religião é uma criação humana, cujos projetos, convenções, 
instituições e estratégias revelam mais do ego humano do que do 
Deus, a quem se diz adorar.
 Acesse o AVA para fazer e ver a reação do professor!
2. O que signifi caria, no contexto da argumentação de Amós, “cantar para 
Deus”?
a) Cantar com o coração voltado para Deus e o que o move, e não 
primordialmente para si mesmo.
b) Erguer sua voz e cantar de modo fervoroso para que Deus ouça.
 Acesse o AVA para fazer e ver a reação do professor 
3. O que é preciso para viver uma espiritualidade íntegra, segundo Amós?
a) É preciso andar retamente, respeitando os costumes de sua igreja e 
frequentando constantemente seus cultos.
b) É preciso amar a justiça e viver de acordo com aquilo 
que prega. 
 Acesse o AVA para fazer e ver a reação do professor 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade42 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
1. Religião, revelação e o condicional
Como seres humanos, somos, contudo, condicionais. Pertencemos à 
humana condição: mortal, limitada e, biblicamente falando, pecaminosa 
ou concupiscente. O pecado é o que, originalmente, segundo Gênesis 
(3:1-7), nasceu de uma tentativa do homem e da mulher originais de se 
igualar a Deus na ciência do bem e do mal e, por conseguinte, foi o que 
os afastou da presença desse mesmo Deus, deixando sua companhia 
no jardim para viver à sua própria sorte. A fi m de reencontrar Deus, o 
ser humano precisa deste evento em diante buscá-lo desesperadamente, 
desejando se “religar” a Deus. Para tanto, ele necessita de guias, de 
referenciais, de mediadores humanos. Dessa maneira, a religião, em 
terceiro lugar, nasce da necessidade da religação e, por conseguinte, de 
mediação entre o divino e o humano. 
Religião é, na expressão latina, religare, prática normalmente sustentada 
pela ação ritual, como o sacrifício, por exemplo. Para atravessar o fosso 
que separa Deus e suas criaturas é necessário construir pontes; daí a 
ideia de pontifi cante ou sumo pontífi ce, que é o construtor de pontes, 
identifi cado com “os especialistas do sagrado [sacerdotes, xamãs, padres, 
pastores], que dentro da comunidade estão preparados para realizar as 
ações rituais e têm capacidade tradicional para executar as cerimônias 
que asseguram aos restantes membros a proteção dos poderes divinos 
ou demoníacos, mais que naturais” (Bazán, 2001, p. 46). 
Em outras palavras (e esse ponto é importante): havendo a necessidade 
de mediação e ordem, a religião migra do campo subjetivo da busca 
pelo incondicional, para o campo objetivo (condicional) das práticas, 
dos sistemas de crenças e valores, da tradição e da institucionalização. 
Daí a necessidade que muitos estudiosos viram na separação entre 
religião institucional (o sagrado domesticado) e religiosidade (a religião 
“primitiva”, o sagrado selvagem, usando aqui o termo de Roger Bastide), 
como também destaquei na primeira unidade temática deste curso. 
Nesse sentido cabe a distinção entre “religião” e “revelação”. Religião 
43Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
também pode ser entendida, nos termos gerais aqui expostos, como 
o esforço ou conjunto de esforços humanos plasmados no sentido 
de alcançar a Deus. Religião é negócio humano. Já revelação é a 
automanifestação de Deus, pelos meios que lhe aprouver, ao ser humano 
e por amor a ele. Revelação é negócio divino. É, na definição de Tillich 
(1987, p. 98), “a manifestação daquilo que nos diz respeito de forma 
última. O mistério revelado é de preocupação última para nós porque é o 
fundamento de nosso ser”. 
 Texto de Apoio
“Revelação” se refere a uma ação divina, “religião” a uma 
ação humana. “Revelação” é um acontecimento (happening) 
absoluto, singular, exclusivo e autossufi ciente; “religião” tem 
a ver com feitos meramente relativos, sempre recorrentes 
e nunca exclusivos. “Revelação” signifi ca a entrada de uma 
nova realidade na vida e no espírito; “religião” nos remete a 
uma dada realidade de vida e a uma função necessária do 
espírito. “Religião” tem a ver com cultura; “revelação” com 
aquilo que se encontra além da cultura. 
(Tillich, 1973, p. 9, tradução minha). 
Ora, se religião não é revelação, e se revelação é um ato que provém de 
Deus e, num primeiro momento, não tem aparentemente nada a ver com 
capacidades e esforços humanos, qual é então o ponto de contato que 
efetiva a revelação como algo inteligível ao ser humano, já que um dos 
propósitos é o de “mostrar” algo a ele? Eis que então entra a função da 
razão e cultura humanas nesse processo. 
Como expressa Tillich (1973, p. 10, tradução minha), “se a revelação é 
a irrupção do Incondicional no mundo do condicional, não é possível 
impedir que ela se condicione, convertendo-se em uma esfera junto a 
| Espiritualidade Cristã | FTSAReligião, fé e espiritualidade44 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
outras esferas, a religião lado a lado com a cultura”. Em outras palavras, 
para que a revelação fosse inteligível ao ser humano, Deus escolheu 
formas ordinárias para manifestar o extraordinário. Há, portanto, uma 
correlação entre eles. Disso, depreende-se, como observa Tillich (1987, 
p. 99), que a revelação mantém os eventos subjetivo e objetivo, natural 
e sobrenatural, ordinário e extraordinário em interdependência ou tensão 
dinâmica. Em suas palavras, “revelação não é real sem o lado receptivo, 
e não é real sem o lado doador”. Para que fi que mais claro, nesse caso: 
Deus é doador e o ser humano, e sua cultura específi ca, os receptores.
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Exercício de fi xação
É comum pensarmos que a revelação de Deus se dá por meio 
da prática religiosa. Ou seja, ao integrar uma religião – neste 
caso, a religião cristã – e cumprir seus preceitos, será possível 
compreender/receber a revelação de Deus. Porém, conforme 
estamos estudando nesta unidade, há uma diferença entre a 
revelação e a religião, fazendo com que a revelação de Deus não 
esteja condicionada à religião. Qual é essa diferença?
a) A religião, do verbo religar, é algo que provém de Deus, já a revelação 
provém da busca e da capacidade do ser humano de compreender a Deus. 
b) A religião está ligada à uma ação humana. Sua forma está 
condicionada ao tempo e à cultura do homem. A revelação provém de 
Deus e pode acontecer de inúmeras maneiras, conforme a vontade de 
Deus, independente da prática religiosa. 
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45Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
1.2. Razões próprias e ambiguidades da religião
A religião pode ter muito de Deus ou dos deuses – seu caráter, valores, 
exigências e verdade –, mas também tem muito do humano, e esse 
tem sido meu ponto principal desde o começo. Torna-se problemática 
precisamente quando o humano pretende reduzir o incondicional ao 
condicional, ou melhor, igualar Deus às formas de devoção (humanas) 
a Deus. É óbvio que se há algo de Deus que pode ser dito, é porque ele 
se revelou. E, também, se algo dessa revelação pode ser apreendido, 
é porque o Verbo se encarnou, como nos ensinou João já no primeiro 
capítulo de seu Evangelho. Entretanto, a confusão se arma quando 
queremos controlar ou monopolizar o conteúdo e a ação do Verbo. Logo, 
o Verbo, que na linguagem joanina, é amor e vida, pode se degenerar, na 
forma religiosa, em ódio, violência e morte. Mas por que isso acontece? 
Aqui entra o que chamo de razões próprias e ambiguidades da religião. 
Parodiando o conhecido dito de Blaise Pascal, a religião tem razões 
que a própria razão desconhece. Ela envolve o intelecto, é claro, mas 
menos o intelecto que o coração, e menos o coração que as entranhas. 
Um religioso vive por certos princípios, e na defesa apaixonada desses 
princípios os perde muitas vezes de vista, sendo capaz de afi rmá-los 
como confi ssão, mas negá-los, consciente ou inconscientemente, como 
prática – para entender essa lógica, basta relembrar nossa conversa 
na unidade anterior sobre a religião demoníaca ou a “espiritualidade da 
serpente”. As práticas religiosas, desse modo, nem sempre coadunam 
com as doutrinas que os lábios confessam. 
Nesse sentido, vale apelar para a, quem sabe polêmica, mas contundente, 
afi rmação de John Caputo de que “a religião é para os amantes, apaixonados 
pelo impossível, que fazem com que o restante de nós pareça vago”. 
Vejamos duas passagens de suas obras que atestam essa ideia.
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade46 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
Texto de Apoio
Na religião, o amor de Deus está exposto habitualmente ao 
perigo de confundir-se com a profi ssão de alguém ou o ego de 
alguém, ou o gênero de alguém, ou a política de alguém, ou a 
ética de alguém, ou o esquema metafísico favorito de alguém, 
ao qual este se sacrifi ca de maneira sistemática. Então, ao invés 
de fazer sacrifícios pelo amor de Deus, a religião se inclina a 
fazer um sacrifício do amor de Deus. (Caputo, 2005, p. 121, 
tradução minha)
Religião envolve nossas mais profundas convicções e mais 
apaixonadas crenças sobre nascimento e morte, doença e saúde, 
infância e velhice, amor e inimizade, guerra e paz, misericórdia 
e compaixão. Por essa razão é que pessoas religiosas são 
capazes de investir a vida toda trabalhando em favor dos pobres 
e dos doentes, dedicando-se às vítimas da AIDS na África, por 
exemplo, e também porque, em contrapartida, são igualmente 
capazes de incendiar um lugar colocando-o abaixo em um 
acesso de intolerância. A religião é irredutível tanto a um quanto 
ao outro e remover a raiva é remover a paixão; mas se você 
remover a paixão, remove também a religião. Conquanto haja 
religião, bem como paixão, a chance para a justiça sempre virá 
acompanhada do risco da injustiça. 
(Caputo, 2013, p. 61, tradução minha)
Pode-se depreender da primeira fala de Caputo que toda forma de religião 
é um tipo de antropomorfi smo; fala-se do “amor de Deus”, da “vontade 
dos deuses”, do sacrifício “para Deus”, mas, no fi m, o que isto signifi ca? 
Como não atrelar as experiências e signifi cações do sagrado com as 
paixões e idiossincrasias do humano, do profano, do mundano? 
47Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
 Glossário
ANTROPOMORFISMO: A expressão é originária da junção de duas 
palavras gregas, ánthrōpos (humano) e morphē (forma), para 
designar a atribuição de formas humanas a divindade. Embora 
Deus não seja humano, ele é descrito ou pensado por meio de 
expressões de linguagem que permitam a compreensão humana.
Ademais, outra razão própria da religião é que, ao que parece, ela mexe 
não apenas com os gostos, preferências ou meras opiniões das pessoas, 
mas, em grande parte, com o “tudo ou nada” de sua existência. É isso que 
Caputo expressa no livro Truth (2013), onde ele refl ete sobre a verdade e 
sua relação com a religião. Em suas próprias palavras:
É essa ambiguidade da religião que pode tornar artifi cial e até 
inútil, em certos casos, o discurso sobre “paz” ou “tolerância” 
entre as religiões ou convicções semelhantes, caso não se 
reconheça que a violência, a guerra, a disputa, a intolerância, 
ódio e injustiça sempre fi zeram parte da história das religiões 
em todo o mundo tanto quanto, ou mesmo em decorrência 
das diferentes práticas e preceitos sobre o amor, a tolerância, 
o respeito, a justiça, equidade, paz, e assim por diante. Não 
são os deuses que estão em guerra, mas os seus seguidores. 
Eliminar esta ambiguidade – parece-me que este é o ponto de Caputo 
– é o mesmo que remover a religião. A percepção é que, considerando 
as “razões próprias” e as ambiguidades da religião, conforme analisadas 
há pouco, as pessoas em suas crenças estão dispostas a tolerar umas 
às outras, mas “até certo ponto”, ou seja, até o ponto em que, por 
exemplo, a tolerância não signifi ca ter de negociar, ou mesmo minimizar 
em nome da convivência oudo bem comum, convicções “fortes” de fé. 
Daí a recorrência à ideia de Caputo sobre a religião como sendo não 
um processo racional, mas um negócio feito “para os amantes”, que se 
entregam passionalmente à causa, custe o que custar. 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade48 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
Por essa razão, parte fundamental do discurso dos ateístas converge na 
direção de que se abolirmos a religião do mundo, haveria menos guerras, 
menos violência, menos intolerância. 
Saiba mais
Esse é o caso de Richard Dawkins em seu Deus, um delírio 
(2007). Logo no prefácio de seu livro, este famoso biólogo e 
ferrenho defensor do ateísmo convida os leitores, no espírito da 
música “Imagine”, de John Lennon, a imaginar um mundo sem 
religião e, consequentemente, sem guerras, ataques suicidas, 
cruzadas, massacres, perseguições, evangélicos televisivos 
extorquindo dinheiro de seus fi éis, 
e assim por diante (Dawkins, 2007, 
p. 14). A descrença em Deus e 
desejo de extirpação da religião 
da face da terra é o que diferencia 
estes “neoateus” dos chamados 
“sem religião”, por exemplo. Não 
se pode, dessa forma, colocar no 
mesmo bojo de análise os ateístas, 
os agnósticos e os sem-religião. 
A história contemporânea das 
religiões no Brasil, porém, parece 
seguir em outras direções, que se 
notam tanto pelo desejo de mais religião, por um lado, quanto 
no anseio por menos religião, sem perder, porém, o elemento 
da transcendência. Embora se encontrem em categorias 
diferentes, ambos, porém, parecem partilhar do mesmo 
processo de “reencantamento do mundo”. Isto signifi ca que, 
apesar de tudo, ao que parece, o ser humano não consegue se 
desvencilhar ao todo da religião.
49Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
Exercício de aplicação
Quais das posturas abaixo a igreja pode adotar a fi m de reduzir ou 
evitar a percepção de intolerância religiosa em nosso contexto:
a)Tentar se afastar de todos que professem uma religião 
diferente, convivendo somente entre cristãos que tenham em 
sua denominação religiosa a mesma confi ssão de fé. 
b)Guardar sua crença para si, vivendo-a de forma interiorizada, 
respeitando aqueles que pensam diferente sem tocar no assunto.
c)Demonstrando, através de suas ações e palavras, um Deus que 
ama a todos e que deseja se revelar a todos, independentemente 
de qual religião essa pessoa professa e de como entende o 
Criador, pois Deus não está preocupado com ritos, mas com a 
adoração que vem do coração. 
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Reflita diante do texto:
a) quem são os samaritanos nos dias de hoje aos olhos da 
igreja? b) Quem são os ignorados e rebaixados nos dias de 
hoje, como eram as mulheres antigamente? Foi a esta pessoa 
que Jesus se revelou como fi lho de Deus pela primeira vez e 
foi a essa pessoa que Jesus encarregou de falar de Deus aos 
demais. Por fi m: c) Como a igreja formata o dia, a hora e o 
local do culto nos dias de hoje? Isso condiz com a resposta 
que Jesus deu à samaritana quando indagado sobre a forma 
de praticar tal rito religioso? 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade50 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
1.3. Recapitulando
Nesta primeira parte da unidade, vimos um pouco sobre como 
o conceito de religião pode nos levar a diferentes caminhos e 
sentidos. Baseado em Tillich principalmente, defendi a ideia 
inicial de que a religião é “um sopro humano na busca pelo 
incondicional”. Isto signifi ca que há algo no ser humano que o 
move em direção ao infi nito, ao Eterno, ao desconhecido, mesmo 
que não seja possível explicar as razões para isso. Ora, mas 
isso não garante o contato ou o alcance. Afi nal, como pode o 
condicional e o que há de mais incerto atingir ou incondicional, 
ou o que há de mais certo e necessário no universo? E a resposta 
é: não é possível! 
Na visão de Eclesiastes, isso se deu de propósito: temos essa 
eternidade no coração, mas não sabemos nada sobre os caminhos 
do Espírito, que sopra onde quer. Mas o Eterno é gracioso, e 
resolve se revelar. O incondicional toca parcialmente o condicional 
através da revelação. A religião, embora diferente da revelação, é 
também e paradoxalmente resultante dela. Daí sua relação com 
a cultura: não se encontra Deus em um vazio-sócio cultural, e sim 
nos termos de uma cultura e tempo específicos. Por fim, vimos 
com Caputo que, como envolve o incondicional, a religião é coisa 
para os amantes, e pode virar um negócio de vida ou morte, sem 
grandes garantias do que vem primeiro ou tem a primazia. O Deus 
bíblico é o Deus da vida; as construções e práticas religiosas 
ao longo do tempo, porém, pintaram-no também como Deus da 
guerra, da intolerância e da morte. Muitas pessoas se afastaram 
de Deus por causa disso. E, ainda assim, a religião não foi extinta; 
pelo contrário, cresce cada vez mais a necessidade dela. Pode 
ser exatamente porque a sede pelo incondicional nunca cessa, 
apesar dos descaminhos do religioso condicional. Isso é uma 
pista pelo menos. Estamos apenas começando. Por essa razão é 
que precisamos agora falar de fé.
1.3. Recapitulando
51Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
2. O que é a fé?
Em Temor e tremor, Sören Kierkegaard (2012, p. 17) dizia que ainda que 
se possa formular sistematicamente toda a substância da fé, “não quer 
dizer com isso que se alcance a fé, como se nós a penetrássemos ou 
tivesse ela se introduzido dentro de nós”. 
Essa frase nos diz algumas coisas importantes já de início: primeiro, que 
em toda defi nição de fé há uma indefi nição mais ou menos explícita; isto 
é, quanto mais tentemos defi nir a fé, mais ela permanece indefi nível. 
Segundo, que fé não é essencialmente um “conhecimento”, pois como 
ele diz no livro Migalhas fi losófi cas, todo conhecimento passa pelo plano 
temporal e histórico, e, se a fé envolve uma relação com o eterno, então 
seria absurdo falar que ela é um conhecimento (Kierkegaard, 2008, p. 91). 
Terceiro, que saber qualquer coisa sobre a fé, no sentido histórico, não 
faz de ninguém uma pessoa de fé, no sentido existencial. 
 Texto de Apoio
A fé, como eu a entendo, não é fácil de traduzir em palavras. 
Talvez possa ser assim expressa: Creio que, apesar do seu 
absurdo patente, a vida ainda sim tem um sentido; eu me 
resigno a não poder perceber este sentido com a razão, mas 
estou pronto a servi-lo, mesmo que para tal tenha que me 
sacrifi car. A voz desse sentido, ouço-a em mim mesmo, nos 
instantes em que estou completa e verdadeiramente vivo e 
alerta. O que a vida exige de mim nesses instantes, quero 
tentar realizar, mesmo indo contra os padrões vigentes e as 
leis comuns. Ninguém pode ter essa crença sob imposição, 
nem se forçar a ela. Só se pode vivê-la.
(Hesse, 1971, p. 7). 
Parece-me útil, nesse contexto, a defi nição pessoal de fé do premiado 
autor de literatura Hermann Hesse, como exposta acima. Pois posso 
| Espiritualidade Cristã | FTSAReligião, fé e espiritualidade52 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
saber muito de teologia ou ter um conhecimento bíblico invejável, por 
exemplo; e ainda assim não ser um crente: ela em nada afeta meu viver. 
Posso ter sido testemunha ocular de manifestações miraculosas, que 
suspostamente apontem para a existência de Deus (como muitos foram 
no tempo de Jesus, segundo relatos do Novo Testamento), e nem por isso 
poderia ser considerado um discípulo (Hesse, 1971, p. 88), isto é, alguém 
cuja vida é seguir os rastros do mestre Jesus. Amá-lo e confi ar nele signifi ca 
fazer o que ele manda, guardando sua palavra (Cf. Jo 14:21; 15:14). 
Kierkegaard se expressou bem a esse respeito quando analisou a 
situação do “discípulo contemporâneo”, isto é, daquele que, por viver na 
época em que Jesus se encarnou, pôde presenciar muitos de seus ditos 
e feitos. No entanto, o ponto de Kierkegaard é que o fato de conhecer 
uma circunstância histórica – como aquela da Palestina nos dias de 
Jesus –, pode fazer de alguém uma testemunha ocular, mas de forma 
alguma o transforma automaticamente em um discípulo, “o que aliás se 
pode ver pelo fato de que para ele este saber não signifi ca nada mais que 
algo histórico”, ao passo que a fé, ainda que seja um paradoxo que une o 
que nosso autor chama de “eternização do histórico” e a “historicização 
da eternidade”, ou seja, ainda que o incondicional se manifeste de modo 
histórico, a fé essencialmente fala daquilo que está além da história 
(Kierkegaard, 2008, p. 88, 91). 
Podcast:
“Uma fé que pode fraquejar” 
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Mas isto ainda deixa sem resposta à pergunta principal aqui: o que é a 
fé? Partirei da defi nição de Paul Tillich (1957, p. 24) em Dinâmica da fé: 
Fé, como estar tomado por aquilo que nos toca incondicionalmente, 
é um ato central da pessoa inteira. Se acontecer que apenas uma 
das funções que constituem a pessoa é identifi cada com a fé, 
desfi gura o sentido da fé.
53Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
Três preceitos importantes sobre a fé surgem dessa defi nição: (a) é ser 
tomado pelo que nos toca incondicionalmente; (b) trata-se de um ato da 
pessoa inteira, ou seja, tudo o que há em mim é orientado pela fé; (c) ela 
deixa de ser fé quando envolve apenas parte do que eu sou. Nos termos 
de Kierkegaard (2010, p. 88), a fé é uma paixão, que penetra na totalidade 
do ser. Então, toda tentativa de dar signifi cados à fé, ou, retomando 
Tillich (1957, p. 10), “de derivá-la de alguma outra coisa”, pressupõe a 
pré-existência da fé. Isso signifi ca que a fé, que se manifesta antes de 
tudo no “centro do eu pessoal, no qual percebemos o incondicional, o 
infi nito, e por ele somos possuídos” (Ibid. p. 10), acaba gerando nesse 
ser, curioso do sentido da vida, o desejo de derivá-la em outras coisas. 
Mas que “outras coisas” são essas? 
Com base na refl exão de C. S. Lewis (2005, p. 184-185) em Cristianismo 
puro e simples, podemos falar em pelo menos dois sentidos a partir dos 
quais se compreende fé:
Crença: um conjunto de credos centrais que formam a base da fé de 
alguém. Trata-se da fé que é aceita e defendida a partir de doutrinas 
consideradas verdadeiras. Há uma diferença, portanto entre a fé, no 
sentido apontado por Tillich, e a fé como “crença”. 
Virtude: consequência do caráter do crente. Trata-se da fé que vive e age 
a partir de um conjunto de orientações de cunho moral, como fazer o 
bem ou ser misericordioso. Lewis, porém, pergunta: o que há de moral 
ou imoral em se acreditar ou não em determinados princípios de fé? 
Acredita-se não porque vê nisso um dever, mas porque crê que aquela fé 
(e ele está falando propriamente aqui de suas “evidências” ou conteúdos) 
é verdadeira. Não crer não faz da pessoa que descrê alguém imoral 
necessariamente. Entretanto, para pessoas de fé, é “inevitável que surjam 
boas ações” (Lewis, 2005, p. 198).
O homem e a mulher de fé, contudo, ainda são assaltados pela possibilidade 
do fracasso no cumprimento de sua virtude e, como consequência, pelo 
difícil encontro com quem são de verdade. Como bem lembra Lewis 
(2005, p. 189, 190), essa tentativa, porém, é positiva no sentido de que 
“nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade54 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
para ser bom”; de tal modo que “a principal lição que aprendemos quando 
tentamos praticar as virtudes cristãs é que fracassamos”. É precisamente 
esse fracasso (bem desenvolvido e reconhecido por Paulo em Romanos 
7), numa perspectiva bíblica, que pode reconduzir o fi el aos braços do 
incondicional e de sua graça, que nos possibilita tanto o perdão quanto 
a reconciliação. 
Exercício de reflexão
Uma vez entendido que a fé se encontra no caminhar como 
Jesus caminhou, uma vez que em Jesus encontramos a máxima 
expressão e revelação de Deus, é possível dizer que a igreja cristã 
contemporânea é uma igreja de fé? Se você disser que sim, faça 
observações sobre o que há de semelhante entre ela e os passos 
de Cristo. Se disser que não, faça observações de como a igreja de 
hoje se distancia dos passos de Cristo.
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55Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
2.1. Os paradoxos da fé
Na famosa defi nição de Hebreus, a fé é “a certeza daquilo que esperamos 
e a prova das coisas que não vemos” (Hb 11:1). Tomada fora do contexto 
e de modo descomplicado, essa defi nição pode enganar um pouco no 
aspecto dessa “certeza” e dessa “convicção” sobre a qual fala o texto. 
Que tipo de certeza é essa? Em que se baseia tal convicção? A tese 
de Hebreus 11, no verso 1, perde muito de seus sentidos possíveis se 
desatrelada de todo o texto. Minha intenção não é fazer uma exposição 
do texto, e sim apontar alguns paradoxos da fé importantes nele. 
O primeiro é o paradoxo da fé entre a certeza e a incerteza. Do que a fé é ou 
pode ser certa? Segundo Hebreus, daquilo que, do ponto de vista humano, 
aparenta ser o mais incerto. A fé, por exemplo, é certa da existência de 
Deus, não porque Deus tenha se mostrado de maneira clara por meio de 
evidências ou provas, e sim porque, na linguagem de Tillich, esta pessoa 
foi tomada pelo incondicional e o eterno. Como diz Kierkegaard (2012, p. 
77): “A fé é antecedida por um movimento deinfi nito; é apenas então que 
ela surge, nec inopinate [de maneira inesperada], em razão do absurdo”. 
Tillich (1957, p. 65), de modo semelhante, também afi rma que “todo ato 
de crer pressupõe participação naquilo para que está dirigido. Sem uma 
experiência anterior do incondicional não pode haver fé no incondicional”. 
O cientista tem provas de uma realidade na medida em que essa realidade 
se dá a investigar, e então ele tem, em tese, uma certeza objetiva. O médico 
pode chegar a ter certeza sobre as origens de uma doença X, porque os 
exames que ele fez provaram que ela veio da ação de uma bactéria Y. 
Na fé não é assim. A fé não é apenas certeza do mais incerto, como 
certeza que se sustenta sob condições incertas. Hebreus diz que quando 
Deus chamou Abraão, por exemplo, este se dirigiu “a um lugar que mais 
tarde receberia como herança, embora não soubesse para onde estava 
indo” (Hb 11:8). Abraão partiu na certeza da promessa, no entanto, sem 
saber. Creu para essa existência, mas não obteve o que esperava nessa 
existência. Creu porque foi movido pelo incondicional, e porque teve a 
coragem da fé e o risco de suportar suas eventuais dúvidas e incertezas. 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade56 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
E, como diz Tillich (1957, p. 15), “é suportando corajosamente a incerteza 
que a fé demonstra o mais fortemente o seu caráter dinâmico”. 
O segundo é o paradoxo da fé entre o visível e o invisível. Já disse 
anteriormente que o fundamento da fé (o incondicional) se encontra 
além da concreticidade dos fatos, portanto, além do que os olhos podem 
ver, de modo que a testemunha ocular, digamos, de um milagre, não 
necessariamente se torna um discípulo. O discípulo se reconhece pelos 
frutos que manifesta no ordinário da vida e não pela euforia manifesta 
em meio ao extraordinário dos milagres. Hebreus diz que a fé é “prova 
das coisas que não vemos”. Então “fé”, nesse sentido mais estrito, 
signifi ca confi ança naquilo que não se pode ver, ao que não se tem 
acesso imediato. 
Tomemos o exemplo de Moisés (11:23-29). O texto diz que, ao abandonar 
as riquezas e pompas do palácio no Egito, Moisés “permaneceu fi rme 
como quem vê o que é invisível” (v. 27). Ora, a própria ideia de “ver o 
invisível” já é um paradoxo. Logo, os olhos que “viram” não são estes 
humanos, mas os da fé, que se cria a partir da visão do inexistente porque 
“vê além”. Aqui facilmente alguém pode se recordar do que Jesus disse 
a Tomé, segundo o evangelho de João. Depois que este o viu e tocou 
em sua mão e em seu lado, declarou “Senhor meu e Deus meu”. Vendo 
aquilo, Jesus replicou: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os 
que não viram e creram” (Jo 20:26-29). “Assim, a fé crê no que não vê” 
(Kierkegaard, 2008, p. 118)
O terceiro é o paradoxo da fé entre a promessa e a realização. Chegamos 
a culminância dos outros dois paradoxos: o discípulo, que tem a confi ança 
certa nas condições mais incertas, que crê naquilo que não vê, mas 
espera ansiosamente, deve também, como os “heróis da fé” de Hebreus, 
acreditar e viver segundo orienta a promessa, sabendo, porém, que pode 
não chegar a experimentá-la em vida. Quando pensamos na fi gura do 
herói no sentido hollywoodiano, a imagem que mais comumente surge 
é de poder, luta, com eventuais contratempos, mas sabendo que, no 
fi m, o triunfo é certo, pois o herói sempre vence. Sem muita consciência 
57Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
projetamos essa imagem na vida, e não diferente na vida de fé. Nutrimos 
a certeza de que aquele que plantou o bem, lutou para alcança-lo, 
trabalhou duramente para sua conquista, ao fi nal, será recompensado. 
Entretanto, a realidade é mais complexa que isso. Eclesiastes tentou nos 
alertar a esse respeito ao concluir que a vida é miserável, fugaz, cheia de 
sofrimento e sem sentido; que a sabedoria pode trazer vida, mas nem por 
isso o sábio está garantido em comparação com o tolo, às vezes a vida 
vira do avesso, e vemos o sábio sofrendo muito enquanto o tolo, apesar 
de suas tolices, só se dá bem. Ele também diz que sol nasce para todos 
e o fi m é o mesmo para todos, pobres ou ricos, sábios ou tolos, justos ou 
injustos. E que, durante a vida, “cedo ou tarde, a má sorte atinge a todos. 
Ninguém pode prever a desgraça. Como peixes capturados numa rede 
cruel ou pássaros numa gaiola, os homens e as mulheres são capturados 
pelo mal acidental e repentino” (Ec 9:11-12, na versão A Mensagem). 
Podemos discordar, fi car bravos e profundamente incomodados com 
Eclesiastes, e com certa dose de razão, afi nal, geralmente não somos 
preparados para lidar com as más notícias – nem pela família, tampouco 
pela sociedade ou pela religião –, apenas com as boas, como se o otimismo 
e o pensamento positivo nos garantissem vitória e vida longa. Contudo, de 
nada adianta espernear, fechar os olhos ou negar a realidade. Quem pensa 
que a vida de fé pode blindá-lo contra o sofrimento, facilmente envereda 
pela rua do engano e da ilusão. Primeiro, porque não há nenhuma garantia 
cósmica de que ter fé é ter proteção e segurança; segundo, porque não 
há nenhuma garantia bíblica, no sentido global, que sugira isso. Muito 
pelo contrário. Andar nos caminhos da fé, por sua própria natureza e pela 
natureza da vida, implica em enfrentar difi culdades várias, como foi o caso 
dos anti-heróis de Hebreus. Experimentaram, sim, a proteção divina em 
algumas circunstâncias e até viram algumas promessas sendo cumpridas, 
mas também “enfrentaram abusos, açoites e, sim, algemas e prisões”; 
alguns “foram apedrejados, serrados ao meio, assassinados a sangue frio”. 
Vaguearam pela terra, sem teto, força ou amigos, “vivendo como podiam 
nas periferias cruéis do mundo”, que, como diz o autor, não era digno deles! 
(Hb 11:32-38, A Mensagem).
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade58 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
E o autor de Hebreus fi naliza claramente expressando o paradoxo em 
questão: “Entretanto, nenhum desses exemplos de fé puseram a mão 
na recompensa prometida. Deus tem um plano melhor para nós: que 
nossa fé se junte à deles, para formar um todo completo, como se a vida 
de fé que eles tiveram não fosse completa sem a nossa” (11:39-40, A 
Mensagem). Caminhar na fé, segundo Hebreus, implica em lançar-se 
nos paradoxos sem seguro de vida ou de triunfo. Aliás, Kierkegaard foi 
taxativo e um tanto duro a esse respeito, seguindo a lógica ilógica de 
Hebreus. Vejamos abaixo.
 Texto de Apoio
Em verdade, se ocorresse à fé alguma vez a ideia de avançar 
assim, triunfalmente en masse, então ela não precisaria 
autorizar alguém a cantar refrões satíricos, porque de 
nada adiantaria proibi-lo a todos. Mesmo que os homens 
emudecessem, ouviríamos sobre esta louca procissão uma 
risada estridente como aqueles sons zombeteiros que a 
natureza faz ouvir no Ceilão; pois a fé que triunfa é a mais 
ridícula de todas as coisas. Se a geração contemporânea 
de crentes não teve tempo de triunfar, nenhuma outra o 
conseguirá; pois a tarefa é a mesma, e a fé é sempre militante; 
mas enquanto ainda houver luta haverá a possibilidade de 
derrota, e por isso, no que concerne à fé, jamais se triunfa 
antes do tempo, ou seja, jamaisse triunfa no tempo [...]. 
(Kierkegaard, 2008, p. 152-153, grifo meu). 
Que vantagem há na fé? Que proveito ela, porventura, traz? Afora as 
promessas falsas provenientes de uma falsa piedade – porque apartada 
da vida real –, a resposta honesta pode ser: nenhuma! E quem disse que 
a fé tem a ver, primordialmente, com vantagem e com proveito? Se algum 
proveito há na fé – claro que estou falando aqui da fé cristã – esse não 
está primeiramente voltado para a pessoa em si, mas para o próximo da 
59Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
fé, tanto no presente, quanto no futuro, pois a fé que vive no paradoxo 
se concretiza de várias formas já, só que plantando sementes para a 
eternidade. O fi nal do capítulo 11 de Hebreus é sugestivo de que a fé do 
discípulo não é fé em si ou para si, mas é fé para a posteridade, é a fé que 
cresce e amadurece nos outros. É, nesse sentido, uma dádiva, um bem 
comunitário, um tipo de fé que se forja na junção do si mesmo e do/com 
o outro. Ali germina, ali cresce, e dali se expande para a eternidade.
Recapitulando:
a fé é um fenômeno complexo. Sobretudo porque ela pode se 
expressar fenomenalmente, mas normalmente não se retém 
em fenômenos, expandindo-se para o terreno do indizível (o que 
não pode ser expresso). Por isso, foi conveniente trabalhar com 
Kierkegaard e Tillich, pois eles compreenderam essa dimensão 
anterior ou precedente da fé, que dogma religioso nenhum pode 
expressar ao todo ou reter; na verdade, segundo Tillich, todo 
conteúdo ou refl exão sobre a fé no sentido cristão já pressupõe 
a existência da fé. Pois, mais que um conhecimento, a fé é um 
sopro do incondicional movendo-se no coração do condicional 
e do humano. Instiga menos palavras e mais ações, embora 
todo esboço de fé no ser envolve alguma refl exão sobre a fé. 
Kierkegaard apropriadamente a defi niu como um paradoxo, e o 
texto de Hebreus, como vimos, pode ser muito instrutivo sobre 
alguns dos paradoxos derivados da vida na fé, e que geram uma 
refl exão mais profunda sobre seus signifi cados.
Assista o vídeo! “Mesa redonda sobre os paradoxos da fé”
Convidados! Acesse o AVA para assistir!
A FTSA agradece a gentil participações dos professores:
Vanderlei Frari (ISBL) e Clodomiro Banwart (UEL).
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3. Raciovitalismo: a fé e a razão em diálogo
Immanuel Kant, no ensaio chamado “Uma resposta à pergunta: o que é o 
Iluminismo”, afi rma que nada mais é requerido para esse esclarecimento a 
não ser a liberdade, talvez a mais inofensiva de todas elas, pensava ele: a 
liberdade para fazer o uso público da razão em todos os meios. No entanto, 
contendia ele que de todos os lados se podia ouvir vozes dizendo: “Não 
raciocine”! “O ofi cial diz: ‘Não raciocine, apenas obedeça’; o inspetor diz: 
“Não raciocine, apenas pague’; o pastor diz: ‘Não raciocine, apenas creia” 
(Kant, 1983, p. 37). Em todos esses casos Kant via um movimento contrário 
ao da emancipação iluminista, restrições penetrantes à liberdade. Está 
inclusa aí a crítica a religião, ou mais precisamente a postura do sacerdote 
de obstrução do pensamento pela via da preconização de uma fé em que 
tudo o que se tem de fazer é “apenas crer”.
Ainda hoje é o que parecem querer dizer alguns sacerdotes e líderes 
religiosos: creia e obedeça apenas, não questione! Em certa medida, é 
possível consentir que esse “apenas crer” envolve uma dimensão da fé, 
de confi ança e entrega ao incondicional ou mesmo de “salto”, como diria 
Kierkegaard. É quando alguém não tem muita escolha ou nada mais a 
fazer senão render-se diante do mistério, do inexplicável e do poder divino. 
É algo se vê no evangelho de Marcos no exemplo de Jairo, um dos mais 
importantes membros da sinagoga. Desesperado diante da iminente morte 
de sua fi lhinha, ele recorre a Jesus pedindo que impusesse suas mãos 
sobre ela e a salvasse. Marcos apenas relata que Jesus “foi com ele” (Mc 
5:24). Depois da intercorrência de outra situação, alguns da casa do chefe 
da sinagoga foram até Jairo e estranharam ele ainda incomodar o mestre, 
uma vez que sua fi lha, segundo eles, já estava morta. O texto diz então que 
Jesus, sem se importar com tais palavras, afi rma àquele pai: “Não temas, 
crê somente” (5:36). Que outro recurso Jairo tinha? Em tal situação, ou era 
crer e esperar pelo impossível, ou simplesmente abraçar as más notícias 
trazidas por aqueles homens, não crer e perder a esperança. 
Em outros contextos, “apenas crer” pode servir como instrumento de 
61Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
controle e manipulação, como Kant já alertava no século XVIII; ou mesmo 
para a desculpa e preguiça de pensar, afi nal, como já foi dito, “pensar dói”. 
Contudo, será a fé algo tão simples que possa ser traduzida, para todos os 
efeitos, em um “apenas” isso ou aquilo? Acreditar apenas? Tenho trabalhado 
com a noção central de Tillich, de que fé signifi ca ser movido por aquilo que 
nos toca incondicionalmente; não se retém em conteúdos, mas os pressupõe 
e pode ser expressa parcialmente através deles. Pois, para além do “salto”, 
ainda resta se perguntar: no que eu acredito? Por que acredito? 
Como pontua Alister McGrath (2012, p. 19), fé é um assunto relacional e tem a 
ver com confi ar em Deus; não obstante, “parte da dinâmica mais íntima da vida 
de fé é o desejo de entender mais a respeito de quem e em que confi amos”. 
Assim, a fé, não apenas crê, mas busca entendimento e se expressa, também, 
através de raciocínios, acordos, convicções fi rmes e bem assentadas. 
Em outras palavras, para além da dimensão do incondicional e do 
inexprimível, há algo que pode e deve ser pensando e também expresso; 
por atos, é claro, mas também por palavras, fazendo uso da razão. 
Teologia, como defende McGrath (2012, p. 19), “é uma paixão da mente, 
um desejo de entender mais sobre a natureza e os caminhos de Deus 
e o impacto transformador que isso tem na vida”. Esse é o convite do 
apóstolo Pedro na conhecida passagem que diz: “...antes, santifi cai a 
Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados 
para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há 
em vós” (1Pe 3:15). O que essa esperança expressa? Qual é seu sentido? 
Como ela pode falar à condição do homem e da mulher no século XXI?
Pelo visto, o uso da razão – a despeito da cisão interposta pela 
modernidade – ainda é algo importante a fé. Parafraseando McGrath 
(2012, p. 21), Cristo não será santifi cado, nem reinará, em nossos corações 
“se ele não guiar nossos pensamentos também”. Ele ainda afi rma que 
“a vitalidade da fé cristã está na empolgação e no completo prazer 
intelectual causados pela pessoa de Jesus de Nazaré”. Então, se alguém 
te perguntar: por que Jesus e não Maomé, Buda ou Krishina? Qual é o 
sentido do que vocês, cristãos, chamam de encarnação? Não é possível, 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade62 | FTSAReligião, fé e espiritualidade
desse modo, estar na fé – sobretudo para quem escolhe pensar e pensar 
por si – sem se defrontar seriamente com questões como essas. A bíblia 
fala de zelo e obediência, mas também fala de entendimento. A situação 
ideal é quando o zelo caminha de mãos dadas com o entendimento. Se 
existisse um lugar em que a o ser humano estivesse e sua racionalidade 
não, poderíamos falar de uma fé sem razão – poderíamos dizer o mesmo 
de uma razão sem fé? Na prática, porém, isso é tanto uma impossibilidade 
quanto um pecado contra o dom de Deus.
O contraposto a uma parte do racionalismo moderno, crítico e 
supostamente irreligioso, não é o irracionalismo, mas uma racionalidade 
vitalizada – que reconhece tanto os limites de seu pensamento, quanto 
a pluralidade de pensamentos e interpretações que nos permeia. É 
uma fé que nem “apenas pensa”, nem “apenas crê”, mas que assume a 
complexidade e riqueza da experiência humana íntegra e holisticamente, 
que refl ete tanto quanto ama, que pensa tanto quanto sente. Une a paixão 
do pensamento pelo paradoxo e pela vida. Resulta em uma fé dialogal e 
uma racionalidade vital ou, como enunciado no título deste tópico, um 
raciovitalismo, tal como propõe o teólogo Alessandro Rocha em diálogo 
com Michel Maffesoli. 
 Glossário
RACIOVITALISMO: Um deslocamento epistemológico em relação ao 
racionalismo moderno. Tal deslocamento encontra sua justifi cação 
e legitimidade na opção pela integralidade da vida como espaço de 
racionalidade, em contraposição à opção da razão moderna pelo 
acento unidimensional de sua compreensão de racionalidade na mente 
humana. (...) “Buscar uma racionalidade orgânica”. Esta é a tarefa que 
estamos propondo até aqui. Essa racionalidade nós assumimos como 
raciovitalismo. Fazemos isso exatamente porque compreendemos 
que o racionalismo é “particularmente inapto para perceber, ainda mais 
apreender, o aspecto denso, imagético, simbólico, da experiência vivida”. 
(Rocha, 2010, p. 115). 
63Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
 Exercício de fi xação
1. O que é raciovitalismo? 
a) É ir de encontro ao racionalismo moderno, pois esse está 
focado numa única dimensão da razão. E a fé só pode ter uma 
explicação, baseada em uma única razão. 
b) É trilhar um caminho diferente do racionalismo moderno. 
Entendendo que a razão passa pela integralidade da vida 
humana. Não existe apenas uma dimensão e uma razão 
quando se trata de experiência de vida, experiência religiosa, 
experiência de revelação, dentre tantas outras. 
c) É acreditar que razão e fé não podem se misturar. O místico 
é inexplicável e, por isso, incompreensível. Tentar atribuir 
uma racionalidade moderna ao que é divino, é ignorar as 
experiências místicas que o ser humano pode passar. 
2. A razão e fé podem andar juntas? 
 Sim Não 
Escolha as alternativas corretas e acesse o AVA para fazer o 
exercício e ver a reação do professor!
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade64 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
4. Sobre a arte de perder chãos 
Tendo em vista o exposto até aqui, pode-se dizer que uma racionalidade 
vital não é a do tipo “forte” ou rígido, tal como se vê na modernidade, mas 
uma racionalidade aberta, relacional e, em muitos casos, “frágil”, não no 
sentido de que pensa ou refl ete mal (desleixada e irresponsavelmente), 
mas de que reconhece as limitações próprias do pensamento e da 
linguagem humana, bem como se esvazia da pretensão dogmática de 
se impor como “o saber” entre outros, passando a se admitir como “um 
saber” entre outros.
A vida intelectual – que não é uma atividade distinta da vida de fé ou 
“espiritual” –, como a pensa João Batista Libanio (2006, p. 81), “só se 
desenvolverá se se mantiver uma atitude de abertura ao diferente, ao 
novo, ao questionamento”. De acordo com ele, como fi lhos/as de uma 
época e uma cultura específi cas (na qual se insere a religião) todos/
as fazemos parte de uma tradição (ou mais que uma). Por exemplo, 
o que concebemos como “fé” (falando de seus conteúdos) é fruto de 
uma vivência dentro de uma tradição, em que a experiências individuais 
alimentam e são alimentadas por experiências coletivas. Entretanto, 
como reitera Libanio, “viver só da tradição”, tratando-a de modo rígido 
ou defi nitivo, “termina em um processo repetitivo. Aqui entra o que ele 
chama de atitude de abertura enquanto “capacidade de assumir uma 
autocrítica da própria tradição de dentro dela” (Libanio, 2006, p. 81). 
Essa atitude se opõe, na visão de Libanio, tanto a uma concepção puramente 
ortodoxa, que trabalha com a perspectiva excludente de sim ou não, ou, 
ou; quanto também uma concepção relativista, que desqualifi ca a tradição 
assumindo uma postura em que anything goes (ou qualquer coisa vale), e 
que pode facilmente ser trocada por outra coisa no próximo momento. Ao 
invés, ele propõe uma concepção dialética, que “busca a síntese entre a 
tradição e a novidade da experiência, chegando a novas formas de verdade. 
65Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
Retém a positividade da tradição, nega-lhe a negatividade e assume do 
presente sua força crítica positiva. Vão assim construindo novas e mais 
ricas sínteses de verdades” (Libanio, 2006, p. 82). 
Nesse sentido, uma tradição nunca deve se impor como absoluta, e toda 
vez que o faz recai no risco da idolatria. Isso, porém, aconteceu e ainda 
acontece na história das religiões, e do cristianismo em particular. Basta 
recordar o período da Reforma Protestante, por exemplo, que teve, como 
uma das razões principais de sua ocorrência, a elevação da igreja, sua 
ordem, seus dogmas, à condição de absoluta, inquestionável, acima 
da própria Palavra de Deus. Somente através dela se podia conhecer o 
verdadeiro Deus e a legítima mensagem das Escrituras. Contra isso se 
impôs o que Paul Tillich (2006, 1992) chamou de princípio protestante. 
Segundo ele, “o princípio protestante é a reafi rmação do princípio 
profético em seu ataque contra uma igreja que se considerava absoluta e 
que, por isso, se encontrava demoniacamente deformada” (Tillich, 2005, 
p. 234), ou, parafraseando o que ele disse em outro lugar (Tillich, 1992, 
pp. 209-221), trata-se do protesto divino e humano contra toda tentativa 
de absolutizar o que é apenas relativo e temporal. 
Ou seja, o que fez (e ainda deve fazer) do protestantismo “protestante”, 
segundo Tillich (1948, p. 162, tradução minha), reside no fato de que 
“ele transcende seu próprio caráter religioso e confessional, e de que 
ele não pode ser inteiramente identifi cado com quaisquer de suas 
formas particulares”. Em outras palavras, o que faz do protestantismo 
“protestante” é o fato de ele não ser luterano, nem zuíngliano, 
calvinista, anglicano, anabatista, pentecostal e assim por diante. Pois 
o protestantismo é movido incondicionalmente por um princípio que 
transcende suas expressões históricas (denominacionais, teológicas ou 
doutrinárias). A luta de Lutero não foi para que a Igreja deixasse de ser 
“Católica” e passasse a ser “Luterana” ou “Reformada”, e sim para que 
| Espiritualidade Cristã | FTSAReligião, fé e espiritualidade66 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
atentasse de novo ao Evangelho e voltasse a ser Igreja de Cristo.
Essa relação entre o condicional e o incondicional estava quase totalmente 
deturpada pela Igreja e seus líderes no tempo em que o protestantismo 
emergiu como protesto contra essa realidade, mas também acabou 
sendo, posteriormente, perpetuada dentro do próprio protestantismo, 
especialmente no tocante ao poder. A segregação clero-laicato, por 
exemplo, foi seguramente um dos principais alvos do protesto de Lutero, 
ao evocar a linguagem bíblica do “sacerdócio universal de todos os 
crentes”. Ou seja, Cristo é o sumo-sacerdote e único cabeça da Igreja 
e, como tal, ele constituiu seu povo como uma “nação de sacerdotes”, 
no meio da qual até existe a função “sacerdote”, mas esta não deve ter 
proeminência sobre as demais.
Quantos exemplos seriam necessários para mostrar o fato óbvio (e 
conhecido de todos) de que o protestantismo, tanto quanto o catolicismo, 
errou feio neste ponto? O rótulo “protestante” é completamente esvaziado 
de sentido quando igrejas protestantes não se permitem ser confrontadas 
por seu próprio princípio. Rememorar e conservar a tradição reformada 
(que já ultrapassa seus 500 anos!) sem levar devidamente a sério seu 
princípio motivador é tão absurdo quanto desejar praticar mergulho sem 
se molhar. Quando a igreja quer igualar a si mesma, ou o que ela diz/faz, 
a Deus, torna-se um ídolo ou um demônio, deixa de ser igreja – lugar de 
pecadores salvos pela graça de Jesus Cristo e, por isso, conscientes de 
que seus saberes e experiências são sempre “em parte” – passando a 
ser uma Babilônia ou uma sucursal do inferno.
Contra essa tentação, gostaria de propor, como exercício de refl exão, o 
que aqui estou chamando de “arte de perder chãos”, cuja premissa é a 
de uma desconstrução sadia e intencional de todos os solos provisórios 
sobre os quais assentamos nossas crenças. 
67Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
Pode ser representado pela fi gura:Tentarei explicar o que quero dizer 
com essa imagem através do seguinte:
1. Na parte inferior da fi gura estão o chão da fé e o chão da história que, 
embora distintos, não se encontram em planos diferentes. Fé é fé no 
incondicional. Trata-se de chão invisível e indizível, em primeiro plano, por 
isso é chão enquanto sustentação incondicional do que denominamos 
fé. Essa fé, porém, não nos desistoriciza nem nos desumaniza, mas nos 
comissiona, segundo o princípio da encarnação vigente no evangelho, a 
entrar na história como antecipadores da eternidade através de gestos 
que Paulo chamou de “permanentes”: a fé, o amor e a esperança. 
2. A caminhada humana, porém, nos impõe a busca por sentido e, assim, 
a criação de sentidos possíveis para aquilo que acreditamos e sobre o 
porquê de acreditarmos nessas coisas. Esses são o que poderíamos 
chamar de “chãos fi nos e frágeis”, porque provisórios. 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade68 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
3. Esses, por sua vez, são constituídos por manifestações temporais e 
impermanentes na esfera da cultura – ética, estética e religião. A cultura 
humana, inventada e invencionista, incita a cada ser humano a dar formas – 
símbolos, mitos, representações do “real”, e, para os de fé, da própria fé, da 
religião e de Deus, expressas pelos conteúdos, dogmas, crenças, tradição. 
4. Esses chãos, como já disse, são frágeis e provisórios – e essa é a sua 
natureza, o que os constitui como tais. O ato de tentar equipará-los à 
própria realidade ou ao incondicional é parte do antropomorfi smo, sobre 
o qual falei anteriormente nesta unidade. A consciência que o ser humano 
tem da realidade, porém, não é capaz, por mais que pretenda, dar conta 
ou espelhar a própria realidade. Clément Rosset, em seu livro O real e 
seu duplo (2008), desenvolve a tese de que, com relação ao real, nossa 
tendência é a de suprimi-lo numa “atitude de cegueira voluntária”, que 
nos faz ignorar o real, o singular, e dirigir nosso olhar para outro lugar (seu 
duplo, sua representação), onde o real não está. De modo que, aquilo que 
anunciamos como sendo “real”, é na verdade o “outro”, visto que o real, 
em si, nos escapa. A realidade não se dá a conhecer plenamente, não 
é inteligível em sua essência. Na mesma medida em que é ininteligível, 
também é cruel (ou seja, dura). Daí a cegueira voluntária consiste no 
efeito psicológico ilusório produzido pelo efeito do espelho: no encontro 
com o outro da realidade (seu duplo, sua representação), penso estar em 
contato com ela mesma (Rosset, 2008, p. 91). O mesmo pode funcionar 
para o relacionamento da pessoa de fé com o incondicional; a ilusão, 
nesse caso, consiste na pretensão de falar por Deus, ou de que a imagem 
verdadeira de Deus está expressa na ideia ou na representação. É aqui 
que a ilusão pode se converter, ao mesmo tempo, em manipulação e em 
idolatria, isto é, em PECADO.
5. Nietzsche e seu perspectivismo trouxe para gente a ideia de que tanto 
a realidade, quanto o que chamamos de “verdade”, são criações da 
linguagem. A linguagem coloca diante de nós um mundo de possibilidades 
e também de impossibilidades. A palavra pronunciada coloca uma parcela 
do mundo em movimento, mas nunca é a expressão exata desse mesmo 
69Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
mundo. Isso é o que Jacques Ellul (1984, p. 21) chama de “bendita incerteza 
do discurso; é o que lhe confere toda a riqueza”. O discurso, completa ele, 
é sempre ambíguo, jamais transparente. Posso me esforçar para que o 
outro compreenda exatamente o que estou dizendo, contudo, “não sei, 
exatamente, o que o outro está entendendo daquilo que digo” (Ellul, 1984, 
p. 21). Mas é no meio desses buracos, insucessos e mal-entendidos da 
linguagem que, segundo Ellul, reside uma nova expansão da vida, em que 
se recomeça incessantemente, e se deve trabalhar na interpretação do 
discurso e do texto num movimento sempre em construção e, por isso, 
sempre susceptível de múltiplas defi nições. 
6. As possibilidades (ou impossibilidades) da linguagem deveriam, 
assim, nos conduzir a uma tarefa mais honesta, humilde, dependente 
daquilo que somos e temos – e, por isso, impeditiva do atrofi amento 
dogmático –, e da graça de Deus e, por tudo isso, alegre e celebrativa. 
Eis o extraordinário, diria Ellul: é uma benção para o ser humano viver 
assim, cativo da linguagem, distante da completude e, ao mesmo tempo, 
em busca dela, pois do contrário, acrescentaria eu, não seriamos seres 
humanos e sim deuses, ou semideuses. Isso é redenção e não desgraça, 
sobretudo quando se pode assumir jubilosamente a provisoriedade 
desses “chãos” da linguagem e permitir que eles se desmanchem e se 
refaçam num movimento dinâmico. Esses chãos estão para a queda 
assim como o peixe está para a água. O objetivo, porém, é perder o chão 
sem cair no abismo, e essa é uma arte bastante arriscada que somente 
os corajosos e aventureiros se dispõem a aprender e se permitem 
desenvolver. Deixar o chão ruir pode ser, ao invésda “ilusão voluntária” 
de quem os iguala à realidade, um mergulho consciente e voluntário. Ora, 
não foi assim com a encarnação do Cristo? Não foi um mergulho (ou 
enfraquecimento) voluntário na humanidade e na história? 
7. Em conclusão, é possível pensar que esse mergulho voluntário tem 
tanto uma dose de imanência quanto de transcendência (pensando 
naqueles dois chãos primários da fi gura), em que recebemos tanto um 
banho de realidade quanto da fé no incondicional e, a partir daí, fazemos 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Religião, fé e espiritualidade70 | FTSA Religião, fé e espiritualidade
uma revisão de paradigmas, de pressupostos, de nossos chãos. Aqui 
reside um aspecto muito importante: um chão cai para que outro seja 
construído – portanto, não se trata de desconstrução pura e simples que 
redunda num vazio. E isso se dá num movimento dinâmico – como as 
águas do rio que correm para o mar e de lá voltam a correr (Ec 1:7). Nesse 
sentido, pode-se pensar que nunca voltamos os mesmos de cada novo 
mergulho, de cada nova imersão e experiência. A esperança – falando 
propriamente contra o dogmatismo e a intolerância – é que voltemos 
mais maduros, melhores, mais tolerantes e generosos. Fazemos 
teologia não somente para conhecer mais a Deus, no sentido apenas (ou 
sobretudo) cognitivo. Retomando o que foi dito no vídeo de abertura da 
primeira unidade temática, fazemos teologia para aprender a amá-lo mais 
e, amando-o, poder dizer que o conhecemos e por Ele somos conhecidos, 
como disse João. Espiritual, não custa lembrar, é quem ama. 
 Texto de Apoio
Meus amigos amados, continuemos a amar uns aos outros, 
pois o amor vem da parte de Deus. Quem ama é nascido de 
Deus e tem um relacionamento real com ele. Quem se recusa 
a amar não sabe o que mais importa sobre Deus, pois Deus é 
amor. Vocês não podem conhece-lo se não amam. [...] Meus 
amigos queridos, se Deus nos amou assim, então devemos 
amar uns aos outros. Ninguém viu Deus, nunca. Mas, se 
amarmos uns aos outros, Deus habitará no íntimo do nosso 
ser e seu amor será completo em nós – amor perfeito! [...] Se 
alguém se vangloria dizendo: “Eu amo a Deus”, mas odeia e 
despreza seu irmão, é mentiroso. Se não ama a pessoa que vê, 
como pode amar a Deus, a quem não vê? O mandamento que 
temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na 
prática de amar ao próximo. Vocês precisam amar os dois.
(1 João 4:7-8, 11-12, 20-21, A Mensagem)
71Religião, fé e espiritualidade Espiritualidade Cristã | FTSA | Religião, fé e espiritualidade 
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547-553. 
Atenção! 
Lembre-se de realizar as atividades avaliativas da disciplina.
1- Faça todos os exercícios desta unidade;
2- O "Exercício integrativo" consiste em um resumo de toda 
disciplina contendo entre 1400 e 1500 palavras, portanto, 
sugerimos que você já faça o resumo desta unidade como 
parte desta avaliação. Faça esse resumo em um arquivo de 
texto, salve-o em seu computador e use-o novamente para 
adicionar no resumo das outras unidades e ao fi nalizar o 
resumo de toda a disciplina, poste-o ao completar esta tarefa 
acessando o link "Avaliações";
3- Lembre-se de ler alguns dos textos complementares (em 
torno de 25 páginas) para cumprir a exigência de leitura de 
pelo menos 100 páginas da lista disponibilizada aqui;
4- Faça a prova objetiva 1.
Consulte o “Programa de curso” para mais informações sobre 
as avaliações.
Fique atento ao prazo fi nal para a realização das avaliações: 
27/02 - 23h55
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 73
UNIDADE III – DISCIPLINAS ESPIRITUAIS
Introdução
Quando ouvimos falar em “disciplina”, talvez a primeira imagem que nos 
vem à mente é a de alguém sendo castigado e corrigido por algum pecado 
ou erro que cometeu – ele ou ela está sendo “disciplinado/a”. Além da ideia 
de castigo, “disciplina” também tem, em contrapartida, uma relação estreita 
com vida austera, obediência a regras ou regulamentos, ao seguimento 
de uma ordem ou a “bom comportamento” – a vida disciplinada é, nesse 
sentido, a vida controlada ou regrada. A ideia de disciplina que tenho 
em mente aqui, porém, está distante dessas representações comuns; a 
disciplina espiritual é resultante de um relacionamento de amor. Como 
nas palavras de Jesus em Apocalipse 3:19: “Repreendo e disciplino 
aqueles que eu amo”. Na tradução A Mensagem lemos: “Costumo chamar 
à responsabilidade aqueles a quem amo”. A disciplina é, portanto, um 
modo de viver melhor a vida, que aprendemos a partir do relacionamento 
com Deus, que nos ama e, portanto, nos corrige quando necessário. Ela 
nos ajuda a viver melhor porque nos dá uma nova perspectiva pela qual 
enxergamos Deus, o mundo e as pessoas para, assim, poder viver de 
acordo com a vontade de Deus.
Embora na tradição da espiritualidade cristã exista uma gama de 
“disciplinas” – como aponta o brilhante estudo de Richard Foster (1983) 
– minha intenção aqui é de me concentrar em três delas:a disciplina 
da oração, a disciplina do deserto (ou da solitude) e a disciplina da 
comunhão (ou da comunidade). Meu desejo é que você perceba, ao 
fi nal, que a disciplina é fruto do amor e, portanto, motivo de alegria e 
celebração, usando a metáfora de Foster. 
Objetivos da unidade
1. Perceber as virtudes e ganhos para a espiritualidade de se 
relacionar o tema da oração ao da integridade;
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais74
2. Conhecer alguns dos sentidos possíveis para o “deserto” na 
espiritualidade cristã;
3. Conhecer de onde procede a comunidade cristã e qual seu alvo e 
razão de existir.
1. Oração
Poucas vezes a oração esteve entre os meus temas prediletos. Talvez 
porque as exigências que quase sempre ouvia em relação a ela soassem 
pesadas e grandes demais para os raros momentos de oração que 
dedicava. Na adolescência, me diziam que a oração é um elemento 
fundamental na vida de qualquer cristão verdadeiramente convertido, 
como uma espécie de “termômetro da espiritualidade”: quanto mais 
intensamente se ora, mais próximo de Deus se está, logo, mais “espiritual” 
se é. Essa lógica sempre me soou muito própria do ponto de vista da 
vida cristã formal – que eu tinha como referência – mas, ao mesmo 
tempo, bem imprópria levando em consideração meu pequeno grau de 
adequação a esses moldes.
Fora isso, ainda tinha o desânimo que batia ao ver (e ler) certas coisas 
sobre oração que a tratavam como um negócio. Era quase como se 
estivessem dizendo que oração é fazer business com Deus. Só não diziam 
que é um tipo de business do qual Deus mesmo, geralmente, está ausente. 
Afi nal, porque precisamos de Deus, não é mesmo? A oração já faz tudo: 
ela liberta, expulsa demônios, gera emprego, cura doenças, traz o marido 
ou a esposa de volta, promove a prosperidade, tem o poder de converter 
o coração de pessoas e, mais do que isso, de “mover o coração de Deus”. 
Não me esqueço da primeira frase que li no livro A oração de Jabez, de 
Bruce Wilkinson (2001, p. 2), em que o autor dizia: “Caro leitor, quero 
ensinar-lhe como fazer uma oração à qual Deus sempre atende”. Isso 
mesmo: ele disse sempre atende. O problema não está tanto na promessa 
de Deus ouvir ou não nossas orações quanto na oferta de uma fórmula 
para que isso aconteça. O autor só esqueceu de adicionar um pequeno 
detalhe: a vida não obedece a fórmulas... e Deus tampouco!
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 75
Exercício de reflexão
Antes de prosseguimos com nosso estudo sobre a oração, refl ita 
sobre como você lida com a oração, ou seja, você costuma atribuir 
poder à oração do tipo: “algo aconteceu porque eu não orei” ou 
“Deus não me abençoou porque eu não orei”, como se o poder 
estivesse na oração e não em Deus. Refl ita também se sua oração 
é um desabafo com Deus ou se ela é um momento de dar ordens 
ao Espirito Santo de Deus ou passar recadinhos para Deus e para os 
possíveis companheiros que estão ouvindo você orar. 
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Acesse o AVA para fazer o exercício!
Eis uma ideia: orar, mais do que interceder ou falar com Deus, é viver. 
Paulo diz: “Orai sem cessar” ou “orem continuamente” (1Ts 5:17). Isso 
signifi ca que, mesmo quando o falar cessa, a oração não termina; 
Deus continua falando, ou melhor, agindo. Deus tem seus meios, os 
mais diversos, para falar conosco e apontar o caminho certo. E tenho 
aprendido que, não obstante toda formalidade que ainda impera nesse 
quesito, há também muitos jeitos de orar, de andar e me relacionar com 
Ele. Além de recomendar a oração contínua, o apóstolo ainda recomenda 
que se dê graças a Deus em todas as circunstâncias da vida. T-O-D-A-S! 
Más ou boas, tristes ou alegres, na carestia ou na prosperidade; num 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais76
quarto fechado, na igreja, em silêncio, reclusão ou em meio ao barulho 
do cotidiano, nas ruas da cidade; por meio de cerimônia, ou dispensando 
qualquer cerimônia; coletiva ou individualmente. 
Assim, a oração é um ato sublime e incessante de uma vida que ama 
e teme ao Senhor. Ela pode não mudar o que Deus é, nem o quanto ele 
nos ama, mas NOS transforma; o nosso espírito se converte ao Espírito 
de Deus. Perseverar e viver continuamente em oração não implica em 
apressar Deus, nem ensinar como Ele deve agir. A demora de Deus, 
para nós, implica que não conhecemos o kairos (tempo, oportunidade, 
de Deus) e sua maneira de dar andamento e resolver as coisas. Orar, 
fi nalmente, signifi cará abrir nossa vida diante de Deus e ser receptivo ao 
que tem feito e fará.
1.1. Jeremias
Para prosseguir com a ideia, leiamos a seguinte oração do profeta 
Jeremias:
Tu me conheces, SENHOR; lembra-te de mim, vem em 
meu auxílio e vinga-me dos meus perseguidores. Que, 
pela tua paciência para com eles, eu não seja eliminado. 
Sabes que sofro afronta por tua causa. Quando as tuas 
palavras foram encontradas, eu as comi; elas são a 
minha alegria e o meu júbilo, pois pertenço a ti, SENHOR 
Deus dos Exércitos. Jamais me sentei na companhia 
dos que se divertem, nunca festejei com eles. Sentei-
me sozinho, porque a tua mão estava sobre mim e 
me encheste de indignação. Por que é permanente a 
minha dor, e a minha ferida é grave e incurável? Por 
que te tornaste para mim como um riacho seco, cujos 
mananciais falham? (Jr 15.15-18)
O estilo de orar de Jeremias certamente não seria indicado a nenhuma 
Prêmio Nobel de Oração, se esse negócio existisse (às vezes, mesmo 
que às escuras, ele parece existir); nem publicado num livro campeão 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 77
de vendas como sendo a oração que devemos repetir, porque Deus 
sempre atende. Por isso, me sinto razoavelmente confortável para falar 
de oração agora. Não porque Jeremias seja modelo, até porque não creio 
que oração tenha a ver com modelos, nem com pacotes fechados. 
Se não havia dissonância entre a vida e o livro de Jeremias, como o estudo 
de sua história me faz acreditar, o mesmo parece ser verdade sobre sua 
vida como profeta e sua vida de oração. As mesmas dores, angústias, ira, 
medo, lágrimas, alegrias, prazer, tristezas, raiva e depressão geradas por 
seu ministério profético eram matéria de suas conversas, nem sempre 
cordiais ou piedosas, com Deus. Em outras palavras, ao orar, Jeremias 
mostrava que era humano e, precisamente por isso, que precisava de 
Deus. Vejamos alguns pontos interessantesna oração acima exposta.
Em primeiro lugar, ele se mostra carente, rejeitado (pelo pecado e 
indiferença do povo), e impaciente, clamando pela intervenção divina, que 
parecia retardar em função de sua paciência e longanimidade (v. 15). É 
como se ele estivesse dizendo: “Você me colocou nisso, e agora, por tua 
causa, eu estou sendo prejudicado. Vê se me livra dessa, Deus!”. Jeremias 
se mostra aqui igualzinho a qualquer um de nós – quando “nosso tempo 
compulsivo colide frontalmente com o tempo da providência divina” 
(Peterson, 2003, p. 122) – tentando ensinar Deus a como ser soberano, e 
a como ser Deus! 
Em segundo lugar, ele afi rma ser solitário, em seu trabalho de profeta, não 
tendo ocasião para se sentar com uma galera em festa, dando risadas 
e se divertindo (v. 17). A tarefa de pensar, refl etir, pregar e desvendar 
signifi cados é uma tarefa muitas vezes solitária, sobretudo no caso de 
Jeremias. E, por mais necessário que seja, consciente e irredutível que 
se esteja, a solidão bate e, com ela, o desejo de convívio. E não havia 
porque esconder nada disso de Deus, já que tudo era “por causa Dele”. E 
o profeta diz se sentir “oprimido” pela mão de Deus. Por mais que fazer 
parte das causas dele seja um privilégio, nem sempre é prazeroso (e nem 
tem que ser, tem?).
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais78
Em terceiro lugar, ele se revela sofredor (v. 18a). Sofremos muitas vezes 
por determinadas posições que ocupamos. Por mais necessárias e 
reconhecidamente importantes, elas (e os tipos de reação que temos em 
relação a elas) nos conduzem a lugares de sofrimento. Lembro-me que, 
desde criança, sempre fui muito consequente. E minha consequência me 
levava a não revidar com força (e as vezes nem revidar), as provocações 
de minha irmã caçula. E, como eu não queria revidar, para não ser injusto 
nem fazer besteira, esperava justiça do meu pai. E nem sempre essa 
justiça vinha do modo como eu esperava. Daí, vinha a revolta; aí a gente 
pensa e fala besteira, mesmo sem fazer. Esse é o lugar de Jeremias, de 
revolta e dor, por razões muito maiores. E ele quer partilhar com Deus 
essa dor. Através da oração ele pode fazer isso. 
Em quarto lugar, além de sofredor, ele também se mostra irado com Deus. 
A sensação é de que Deus o abandonou; no começo, parecia promissor 
andar ao seu lado. Depois, veio a decepção de ver que Deus nem sempre 
age do modo como esperamos, e que ser amigo de Deus implica em 
ter de conviver com inimizades outras. Então, Jeremias destila toda sua 
honestidade, quando diz (na tradução A Mensagem): “Você não é nada 
mais do que uma miragem, Deus; um adorável oásis à distância, e então 
nada!” (v. 18b). 
Não nos enganemos com a honestidade, mas sejamos conscientes 
de que ela nem sempre será recebida e acolhida com uma tonalidade 
positiva. No caso de Jeremias, foi uma amostra de sua intimidade 
sem desfaçatez ou pieguice com Deus, o que é bom. Na oração, não 
precisamos de máscaras ou disfarces; queiramos ou não, nossa alma 
está desnuda diante de Deus. Por outro lado, revela a perda do foco e das 
prioridades. A excessiva preocupação com o que os outros pensam ou 
dizem sobre nós, pode revelar uma desmedida preocupação conosco, o 
que pode ser um sinal de que perdemos Deus de vista, e esquecemos de 
nossa vocação, o que Ele nos chamou a ser e a fazer. 
Mas, como lembra Peterson, no momento em que Jeremias coloca esses 
sentimentos em oração, algo começa a acontecer. Deus, além de ouvir 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 79
atentamente, o convida a rever as palavras ditas, restabelecer prioridades 
e a renovar suas perspectivas, não como alguém ofendido por sua postura, 
mas desejoso de vê-lo avançar e crescer. Deixar falar os sentimentos às 
vezes signifi ca, ainda que do lugar legítimo da intimidade, dizer coisas que 
prejudicam o relacionamento. Então, corremos o risco de dizer coisas “vis”. 
Mas Deus, como fez com Jeremias, abre as portas ao arrependimento 
sincero, e nos chama a separar o precioso do vil (v. 19). 
Recapitulando: vimos até aqui que uma das vantagens de se relacionar o 
tema da oração à vida é que, assim, ela deixa de ser uma prática espiritual 
“distinta”, nos humaniza e passa a estar relacionada com um jeito de ser 
no mundo, em nossa relação com os dilemas do dia a dia e com o fato 
de que Deus se preocupa conosco e não está “lá no céu” simplesmente, 
dispensando ou não suas bênçãos de acordo com a efi cácia da oração de 
seus fi lhos. Não existe oração efi caz, senão a oração do Espírito em nós. É 
ela que faz com que nossos gemidos ou nosso silêncio chegue até Deus.
1.2. Oração e silêncio
Uma das percepções centrais no pensamento de Henri Nouwen – autor 
sobre quem estudaremos mais detalhadamente na quarta unidade – 
é a da oração como “modo de vida”. Ou seja, orar seria para ele outro 
sinônimo para viver. Viver a vida deixando-se ser encharcado pela 
presença de Deus e por tudo o que ela envolve. Nesta percepção, orar é 
um ato do ser que se traduz em palavras, mas não somente em palavras. 
Pois palavras são, segundo Nouwen, “apenas um modo de expressar a 
realidade da oração” – talvez o mais recorrido na tradição cristã para a 
qual a palavra é tão importante (para muitos, imprescindível). 
Esta visão vai ao encontro de tudo o que temos visto até aqui, e de uma 
intuição pessoal, fruto não só de experiências com a oração, mas da 
percepção de sua (in)efi cácia no mundo real no tocante à vida humana e 
seus mistérios, onde as palavras nem sempre encontram “o sentido” ou 
“fazem sentido”. É a intuição de que a oração genuína acontece (antes) 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais80
no coração e pouco pode ser captada pelo discurso. Aliás, normalmente 
somos traídos pelo discurso, que tende a mascarar (no cativeiro da 
linguagem) o que se passa no coração e que talvez os olhos e a expressão 
refl itam um pouco melhor, embora sempre parcialmente. 
Dessa forma, sinto-me impelido a, como Nouwen, “redescobrir os 
momentos de oração nos rostos do homem e nas formas do mundo 
em que ele vive”, de um modo que somente um contemplativo crítico e 
sensível da realidade pode fazer, despido das urgências de seu ambiente 
e da tendência comum em trivializar a oração, por um lado, tornando-a 
um ato mecânico-religioso, e de torná-la um fetiche místico, por outro 
lado, como uma “varinha de condão”. 
Quando paro para contemplar, por exemplo, algumas histórias de vida 
sofridas de estudantes (que trabalham de dia e estudam à noite, ou que 
estão em busca de trabalho) e lutam diariamente para conciliar múltiplas 
atividades, tendo de lidar com as muitas contingências desse estilo de 
vida, posso perceber nas expressões e olhares cansados, sonolentos, 
mas alegres, relutantes e esperançosos, muitas orações sem palavras, 
pequenos e singelos gestos de uma busca que não cessa e, na difi culdade, 
traz consigo inúmeros aprendizados. 
Então, em breves esforços de compaixão, oro também, sem palavras, 
com os olhos marejados ou esboçando um sorriso, na confi ança de 
que o Senhor está entre nós, partilhando conosco de cada instante. Ali, 
absortopor emoções e pensamentos que pululam e gritam em silêncio, 
encontro Deus, parafraseando Nouwen, na brisa suave que vem da janela 
– relembrando que o Espírito sopra e age no silêncio e de que onde houver 
luta, também haverá esperança – na angústia e na alegria do outro e na 
solidão de meu próprio coração. 
Assim, ao invés dos “punhos cerrados” – imagem utilizada por Nouwen 
para indicar tensão e autoproteção – ouso orar a Deus “de mãos abertas”. 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 81
Pois, como diz ele: “Uma vida imersa em oração é uma vida de mãos 
abertas, em que você não se envergonha de sua fragilidade mas percebe 
que é mais perfeito um homem se deixar guiar pelo outro do que procurar 
prender tudo nas mãos” (Nouwen, 1999, p. 79).
Portanto, na perspectiva de mãos que se abrem, orar signifi cará abandonar-
se diante de Deus, deixando de lado todo anseio por controle e abrindo-se 
para o maravilhoso e imprevisível mundo das possibilidades do Eterno, 
desejando um outro “eu” possível e crendo que “outro mundo é possível”. 
1.3. Orações que não se ouve muito na igreja
Nesta segunda parte, gostaria de compartilhar alguns trechos de 
pensamentos de autores a quem admiro, não por me ensinarem 10 
passos sobre como orar, ou a fórmula da oração bem-sucedida; longe 
de mim coisas assim, e dos autores aos quais me referirei. Admiro-os, 
pois, ao falar sobre a oração, não escondem a difi culdade implícita nessa 
atividade, embora a considerem preciosa e importante; nem tampouco 
seguem a linha do determinismo crente, de que orar pode mudar céus 
e terra ou move o coração de Deus, desde que oremos “do jeito certo”. 
Defi nitivamente, não! Reconhecem que a oração muda a gente em relação 
a Deus e não Deus em relação à gente. Tampouco ignoram o fato de que, 
pessoas de oração são, antes de tudo, gente de carne e osso, humanos, 
demasiadamente humanos. 
E isso me encanta, porque posso me distanciar cada vez mais do lugar 
religioso do cinismo, hipocrisia e da falsa piedade, e me aproximar 
mais de um lugar onde posso me considerar, quem sabe, um homem 
de oração, sem deixar de ser homem e nem almejar que minha oração 
“mova montanhas”, ocupando o lugar de Deus. Isso é o que ainda me 
mantém fascinado, ou seja, a chance de poder constatar que a oração, 
em si, não tem poder algum; quem o tem é Deus. E Ele parece não estar 
disposto a dividir esse posto com ninguém.
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais82
Exercício de aplicação
Quais alternativas podem ser propostas à sua igreja local, 
a fi m de que possa mudar o conceito habitual de oração, 
aderindo à oração como um estilo de vida e um meio de 
transformação da própria mente? 
a) Ter encontros com horário marcado, para que todos orem 
da mesma forma, profetizando sobre algo que querem que 
aconteça. 
b) Criar um grupo no WhatsApp em que todos mencionem 
seus desejos e um ore pelo outro 2 vezes ao dia até que Deus 
atenda as preces feitas. 
c) Desafi ar o grupo a praticar mais a oração de gratidão e 
confi ssão do que a oração de petição. Sendo esta acompanhada 
de um ato de bondade para com o próximo, refl etindo sobre o 
que Jesus praticaria esse ato.
Acesse o AVA para fazer o exercício!
A primeira referência é de Eugene Peterson, para quem oração signifi ca 
prestar atenção em Deus e manter o foco de nossa vida Nele. A segunda 
referência é de Henri Nouwen, exemplo de integridade, como foi 
Jeremias; pois, assim como Jeremias, o que ele vivia era expresso com 
enorme e inexorável franqueza em seus escritos. Com sua sensibilidade 
e brilhantismo ele deixou um legado espiritual incomparável para nós, 
cristãos. Em todos os seus livros praticamente se fala sobre oração. Mas 
em no Diário de seu último ano sabático, encontrei o que, para mim, são as 
palavras mais humanas e livres até então por ele escritas sobre o assunto. 
Separei três trechos desse diário. No primeiro, ele começa falando sobre 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 83
seu entendimento do que vem a ser a oração. Em seguida, ele compara 
essa defi nição com sua vida de oração, fazendo uma confi ssão honesta 
acerca de si mesmo, um idoso de 63 anos de idade, que passou a vida 
falando sobre espiritualidade e oração, tendo um alto grau de aceitação 
e sucesso por isso, mas que, no fi m da vida, se vê diante da encruzilhada 
tenebrosa de ter que admitir certos paradoxos em sua espiritualidade. Por 
fi m, Nouwen nos brinda com a tentativa de avaliar sua própria confi ssão 
anterior, admitindo a grande dose de realismo nu e cru que nela há, sem, 
no entanto, perder de vista as possibilidades escondidas mesmo em 
seus mais áridos desertos espirituais, tampouco a perspectiva bíblica de 
que, no fi m das contas, o Espírito “nos ajuda em nossa fraqueza, pois 
não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com 
gemidos inexprimíveis” (Rm 8:26, NVI). 
 Texto de apoio
Oração é, na vida de fé, o ato em que entramos diante de 
Deus em postura consciente e deliberada de falar e ouvir – 
relacionamento do Criador com a sua criação e dela com 
Ele. A qualquer tempo que nos concentramos, focamos 
os pensamentos e prestamos atenção, nós oramos. Orar 
signifi ca ter consciência, exercitar a atenção, estimular e 
desenvolver a intensidade pessoal diante de Deus. (...) A 
oração é linguagem ousada para se dirigir a Deus, não para 
explicá-lo nem para falar sobre Ele. É resposta. O evangelho 
tem a missão de nos fazer parar de falar sobre Deus e nos 
levar a falar com Ele. (...) O verdadeiro conhecimento de Deus 
jamais é conhecimento sobre Ele; é sempre relacionamento 
com Ele. (Peterson, 2005, p. 128, 129)
A oração é a ponte entre a minha vida inconsciente e 
consciente. Ela conecta meu pensamento com meu coração, 
minha vontade com minhas paixões, meu cérebro com meu 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais84
estômago. A oração é a única via para deixar o Espírito 
vivifi cante de Deus penetrar todos os recantos do meu ser. 
É o instrumento divino de minha completude, unidade e paz 
interior. (...) Se é assim, o que posso dizer sobre minha vida de 
orações? Gosto de orar? É meu desejo orar? Reservo tempo 
parar orar? Francamente, a resposta é “não” para todas as três 
questões. Depois de 63 anos de vida e 38 de sacerdócio, minha 
oração parece tão morta quanto uma pedra. (...) A verdade é 
que não sinto nada de singular quando oro, se é que sinto 
alguma coisa. Não há emoções intensas, sensações físicas, 
ou visões mentais. Nenhum de meus cinco sentidos é tocado 
– nenhum cheiro especial, nenhum som especial, nenhuma 
imagem especial, tampouco algum movimento especial. Se 
por um bom tempo o Espírito agiu tão claramente em minha 
carne, agora não sinto nada. Vivi na expectativa de que a 
oração se tornasse mais fácil à medida que eu envelhecesse 
e me aproximasseda morte. Mas parece estar acontecendo 
o contrário. As palavras escuridão e aridez parecem ser as 
melhores para descrever minha oração hoje. (...) Será que a 
escuridão e aridez de minha oração são sinais da ausência 
de Deus, ou são sinais de uma presença mais profunda e 
vasta que meus sentidos podem abarcar? A morte de minha 
oração é o fi m de minha intimidade com Deus ou o início de 
uma nova comunhão, para além das palavras, emoções e 
sensações corporais? Na meia hora em que me sento para 
estar na presença de Deus e orar, não acontece coisa sobre 
a qual poderia comentar com meus amigos. Mas talvez 
esse tempo seja uma maneira de morrer com Jesus. O ano 
à minha frente deve ser um ano de oração, embora eu diga 
que minha oração está tão morta quanto uma pedra. A minha 
certamente está, mas não a oração do Espírito em mim. 
(Nouwen, 2003, p. 20-21)
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 85
1.4. Recapitulando
Até aqui, procurei ressaltar que a oração é mais do que um gesto, que 
um rito, que um jeito de “convencer” a Deus sobre nossos puros desejos 
e sinceras intenções; antes, trata-se de uma via sempre aberta de 
relacionamento com o Pai em que, para meu benefício e das pessoas 
em favor de quem oro, expresso diante Dele, por palavras, sem palavras, 
através de ações ou do silêncio quieto de um quarto, o que sinto, penso e 
acredito, bem como minhas (nossas) dores, alegrias, queixas e gratidão. 
Nesse sentido, a oração não é algo que nos retira do contato com as 
coisas comuns (ou mesmo as incomuns e trágicas) da vida cotidiana, 
nem nos eleva para um plano além do mundo e da condição humana, 
mas, ao contrário, é o que nos ajuda a estar mais atentos a esta vida, que 
a cada momento pulsa e gira ao nosso redor, e à presença constante 
e, na maioria das vezes suave e silenciosa, de Deus... No choro de uma 
mãe, na alegria e sorriso de um casal, na convulsão tortuosa do trânsito 
das grandes cidades, na brisa leve e fresca das manhãs no campo, no 
pranto e no riso, no luto e na alegria, e assim por diante. 
É assim que entendo a “Soberania”: não como a ideia de um rei distante, 
reinando de seu “alto e sublime trono”, ditando como as coisas devem 
ou não devem acontecer cá na terra, mas de um rei que se mistura com 
a plebe, usa suas roupas, come na mesma mesa, enfrenta os mesmos 
problemas; um rei tão nobre a ponto de não reivindicar nobreza, e tão 
real a ponto de não parecer da realeza; um rei como Jesus mostrou que 
Deus é. E, por isso, pôde dizer, quando um de seus discípulos pediu para 
que lhe mostrasse o Pai: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14:9). 
Agora, quando eu oro, de olhos abertos ou fechados, balbuciando 
palavras ou em silêncio, tento olhar para o lado, para a vida, a natureza, 
o próximo, e ali ver Jesus; e quando, pelo milagre da fé, consigo ver a 
Jesus, tento imaginar como é o Pai e, assim, percebo, como na canção 
Nas estrelas, do grupo musical Vencedores por Cristo, que: “Ele não vive 
longe lá no céu, sem se importar comigo. Mas agora ao meu lado está, 
cada dia sinto seu cuidar, ajudando-me a caminhar, tudo Ele é pra mim”. 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais86
2. Deserto
Falar do tema “espiritualidade do deserto” é explorar aquilo que, a meu 
ver, está na raiz de nossa vida com Deus, como esteve em Jesus e em 
tantos de seus seguidores na história. Ao mesmo tempo – e pensando 
no cotidiano de pessoas em um mundo urbano e secularizado – é algo 
que, em geral, se encontra ainda muito distante da maioria de nós, em 
que pese nossos estilos de vida. Por isso, para falar sobre este tema hoje 
é preciso, antes de tudo, conceituar a questão (ou o lugar) do deserto na 
vida cristã, fazendo a seguinte pergunta: o que é o deserto e o que ele 
representa na caminhada histórica do cristianismo?
2.1. O signifi cado de deserto
Em primeiro lugar, é claro que deserto tem sim a ver com um “lugar”, 
reservado e próprio para meditação, silêncio e oração. Ali nos afastamos 
da compulsão por fazer e realizar coisas, bem como da compulsão por 
barulho e agitação, que tanto marcam nossa vida cotidiana, assim como 
demarcam nossa identidade perante a sociedade. 
O uso do termo tem a ver com um tipo de vida que passaram a ter alguns 
monges que, por volta do séc. IV da era cristã, no auge da crise espiritual do 
cristianismo, se afastaram de suas atividades corriqueiras, e buscaram o 
deserto, isto é, um lugar ermo, distante da vida barulhenta, a fi m de evitar 
a conformidade com um mundo em decadência. Esses monges fi caram 
conhecidos posteriormente como “pais do deserto”, porque serviram (e 
ainda servem) de inspiração para uma forma alternativa de cristianismo, 
não preocupada com poder e status, mas com uma longa obediência 
numa mesma direção, parafraseando Eugene Peterson.
E quando falo em “decadência”, me refi ro obviamente a um tipo moral e 
espiritual de declínio na perspectiva de alguns cristãos. Estes enxergavam 
em um dos períodos de maior “sucesso” do cristianismo – quando da 
conversão do imperador Constantino e posterior ofi cialização (em 380) do 
cristianismo como religião do império – tanto no que diz respeito a adesão 
religiosa, quanto em poder e institucionalização, um processo gradativo 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 87
de perda de seus valores e ideais originários, baseados na centralidade da 
vida na pessoa de Jesus Cristo, e na fi delidade ao seu Evangelho.
Como explica Henri Nouwen (2004, p. 13), esses pais do deserto:
Eram cristãos que buscavam nova forma de martírio. 
Depois que a perseguição cessou, já não era possível 
dar testemunho de Cristo seguindo-o como testemunha 
de sangue. Contudo, o fi m das perseguições não 
signifi cou que o mundo aceitara os ideais de Cristo e 
mudara; continuou-se a preferir a escuridão à luz (Jo 
3.19). Mas, se o mundo já não era o inimigo do cristão, 
então o cristão tinha de se tornar inimigo do mundo 
escuro. Não tinha de se tornar inimigo do mundo 
escuro. A fuga para o deserto era o meio de evitar a 
tentadora conformidade ao mundo. Antão, Agatão, 
Macário, Poemen, Teodora, Sara e Sinclética foram 
líderes espirituais no deserto. Ali se tornaram mártires: 
testemunhas contra os poderes destrutivos do mal, 
testemunhas do poder salvífi co de Jesus.
Então, um dos lemas da espiritualidade do deserto passou a se fundar 
nas palavras de aba Arsênio: “Foge, fi ca em silêncio e ora”.
Segundo Nouwen (2004, p. 13) elas denotam três meios para “impedir 
que o mundo nos molde a sua imagem” e se constituem, desta forma, em 
três possíveis caminhos para uma vida no Espírito – embora não sejam 
os únicos, nem última palavra neste quesito. Sobretudo porque, como 
temos visto neste curso, esta vida no Espírito não é vida “fora”: nem do 
mundo, nem do corpo e muito menos dos confl itos e dilemas humanos. 
Pelo contrário, é em meio ao enfretamento de todas estas outras coisas 
que a necessidade do deserto emerge, e a espiritualidade cristã, tornar-
se efetiva e relevante. 
Desse modo é que, em segundo lugar, podemos dizer que o deserto é 
mais que um lugar, é uma condição autoinduzida de sobrevivência, 
sanidade e buscapela maturidade e liberdade na vida cristã. Acontece 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais88
todas as vezes que reservamos espaço em nossas agendas e, mais do 
que isso, em nossos corações para fi car em silêncio, orar e escutar a 
voz de Deus. Nesse sentido, o “silêncio” é também mais do que calar a 
voz da garganta, é também tentar calar as muitas vozes que perturbam 
e induzem à ansiedade os nossos irrequietos corações. E, por coração, 
aqui estou entendendo como no AT (do hebraico, leb), isto é, não o órgão, 
mas o centro da vida, orientação e vontade humanas. Por isso, como 
defende Nouwen, “o silêncio do coração é muito mais importante que o 
da boca”, e cita aba Poemen: “Um homem pode estar aparentemente em 
silêncio, mas, se seu coração condena outros, ele tagarela sem cessar. 
E pode haver outro que converse da manhã à noite e, contudo, esteja 
verdadeiramente em silêncio” (Nouwen, 2004, p. 57).
Exercício de fi xação
Voltemos então à pergunta inicial: o que é o deserto e o que ele 
representa na caminhada histórica do cristianismo?
a) O deserto é um lugar pelo qual todo cristão deve passar. Para isso 
é necessário se deslocar para uma região afastada da civilização, em 
que haja silêncio, ausência de celular, televisão e coisas do gênero. 
Onde, também, é possível se desapegar do relógio, do trabalho e dos 
afazeres convencionais, dedicando-se apenas à oração.
b) O deserto é um estado de espirito, de mente e uma disposição do 
coração, independentemente de onde o indivíduo esteja fi sicamente. 
Neste estado se preza pelo silêncio, pela refl exão, pela oração em que 
se busca ouvir a voz do Pai. São momentos em que tentamos tirar 
nossos pensamentos do ritmo acelerado do cotidiano, da ansiedade 
e do estresse físico emocional que toma conta de nós em alguns 
momentos. O deserto é o desejo de um momento íntimo e único com 
o criador.
Acesse o AVA para fazer o exercício!
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 89
Então, pode-se dizer que é possível estar em silêncio, mesmo diante de e em 
conversa com inúmeras testemunhas, ou muito falante, mesmo estando 
sozinho e sem ninguém por perto. Nesse sentido, a visão de Nouwen se 
encaixa com a de Ricardo de que deserto, mais que uma geografi a, é um 
“estado do coração diante de Deus e de nós mesmos” (Sousa, 1998, p. 97).
2.2. Conceitos importantes
Outro conceito que está conectado com o lugar do deserto na vida cristã, 
é o de solitude. É preciso, primeiro, entender que solitude é um estado 
que se relaciona, mas não se confunde com outros, como o de estar 
sozinho e com a solidão ou isolamento. Nouwen (1997, January 18) parte 
do princípio de que todos os seres humanos são sozinhos, uma vez que 
cada um de nós é único. Por isso, ser sozinho é o outro lado de ser único. 
“Nenhuma outra pessoa irá se sentir completamente como nos sentimos, 
pensar ou agir como nós”, afi rma este autor. A questão principal, para ele, 
é como tratamos a nossa condição de sozinhos ou únicos no mundo, se 
deixamos com que ela se transforme em solidão ou se permitimos que 
ela nos guie para a solitude. 
Dessa forma, precisamos diferenciar solitude de solidão. 
Solidão é um lugar de fuga: dos outros, de nós mesmos e de Deus. É o 
estado em que nos encontramos quando não deixamos espaço para que 
a liberdade interior cresça, para que a fé em Deus e a relação conosco 
mesmos e com os outros amadureça. Então, buscamos a solidão tanto 
quanto ela nos busca; e quando encontramos o vazio dela proveniente, 
queremos preenchê-lo de modo rápido, artifi cial e infrutífero. Quando os 
outros e Deus se tornam meios de nos entreter, de nos tirar da solidão, 
longe nos encontramos de uma vida espiritual frutífera, e logo nos 
tornamos impulsivos, compulsivos e/ou até violentos.
Solitude, por sua vez, é um espaço frutífero de liberdade e amadurecimento 
na fé, onde nos encontramos sós, mas não em total isolamento, muito 
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menos em fuga. Ao contrário, a solitude é um lugar de encontro: com Deus 
e conosco mesmos, nossas virtudes e defeitos, nossos sentimentos de 
raiva, frustração e decepção, nossas inadequações, nossos “demônios” e 
nossos desejos mais escondidos. É um espaço onde o confronto honesto 
com nossas expectativas e nosso verdadeiro eu, em busca da graça e 
do amor de Deus, se faz possível. Ali não apenas falamos com Deus, 
mas, principalmente, estamos abertos e dispostos a escutá-lo através da 
Palavra. A solitude é um lugar da Palavra, onde a Palavra não volta vazia, 
mas pode ser germinada, ruminada e, só então, frutifi car. Como expressa 
Nouwen (1997, January 21), solitude é “o jardim para nossos corações, 
que anseiam por amor. É o lugar onde nosso ser sozinho pode dar fruto. 
É o lar para nossos corpos cansados e nossas mentes ansiosas”. 
Só que não se trata de um projeto individualista. Pelo contrário, a solitude 
nos conduz à comunidade e a comunidade é suportada pela solitude, 
como melhor veremos na unidade 15 deste curso. “Solitude encontrando 
solitude, isto é o que signifi ca comunidade”, defende Nouwen (1997, 
January 22). Só que o anseio pela presença do outro e a necessidade de 
partilhar, quando suportados pela solitude, passam a ser mais naturais, 
frutos do amor, deixando o lugar compulsivo do controle, dos ciúmes e 
da extrema carência, que transforma a comunhão em doença (koinonite) 
e o amor (livre) em possessão. À medida então que nos movemos – num 
processo confl ituoso e custoso, muitas vezes – da casa da solidão para 
a casa da solitude, relacionamentos maduros podem fl orescer. Mais 
do que isso, é na solitude do deserto que nossos corações podem se 
encontrar com sua verdadeira vocação, sentido e missão, como veremos 
na próxima unidade mais concretamente através do exemplo de Jesus.
Esta é uma diferenciação didática apenas. Existem benefícios do que 
aqui identifi co como “solitude” naquilo que outras denominam apenas 
como “solidão”, como se pode ver na discussão proposta por Leandro 
Karnal em seu livro O dilema do porco espinho (2018). Assista o vídeo a 
seguir em que o autor explica a ideia do livro.
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 91
2.3. O exemplo de Jesus no deserto 
Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi 
levado pelo Espírito ao deserto, onde, durante quarenta 
dias, foi tentado pelo Diabo. Não comeu nada durante 
esses dias e, ao fi m deles, teve fome. O Diabo lhe disse: 
“Se és o Filho de Deus, manda esta pedra transformar-
se em pão”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Nem só de 
pão viverá o homem’”. O Diabo o levou a um lugar alto 
e mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. 
E lhe disse: “Eu te darei toda a autoridade sobre eles e 
todo o seu esplendor, porque me foram dados e posso 
dá-los a quem eu quiser. Então, se me adorares, tudo 
seráteu”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Adore o 
Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”. O Diabo 
o levou a Jerusalém, colocou-o na parte mais alta do 
templo e lhe disse: “Se és o Filho de Deus, joga-te daqui 
para baixo. Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus 
anjos a seu respeito, para o guardarem; com as mãos 
eles o segurarão, para que você não tropece em alguma 
pedra’”. Jesus respondeu: “Dito está: ‘Não ponha à prova 
o Senhor, o seu Deus”. Tendo terminado todas essas 
tentações, o Diabo o deixou até ocasião oportuna. 
(Lc 4:1-13, NVI)
No relato de Lucas, era início do ministério de Jesus, e ele deixa o Jordão 
(lugar de seu batismo) direto para o deserto. Ali permanece por quarenta 
dias e quarenta noites, sem comer e nem beber, apenas na companhia 
do Espírito Santo. Ao fi nal daqueles dias, certamente num momento de 
grande vulnerabilidade (afi nal, ele passou todo esse tempo sem suprimento 
fi siológico), Lucas afi rma que Jesus “teve fome”, de modo que o Diabo, 
tomando por ocasião a fraqueza física, o tentava ainda mais fortemente. 
Os fatores ou elementos utilizados na tentação não foram criados pelo 
Diabo – como geralmente não são. O que ele faz é aproveitar o ensejo de 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais92
fatores (humanos) já existentes em Jesus, especialmente na condição 
em que se encontrava: a fome (v. 2), o fato de ser Filho de Deus (v. 3), e, 
até por isso, de ter poder e autoridade para gerenciar até mesmo os anjos 
(v. 6), e a capacidade de realizar feitos heroicos (v. 9). 
Ali, Henri Nouwen (2002a) afi rma que Jesus resistiu a três das grandes 
compulsões do mundo: ser capaz (transformar pedras em pães); ser 
poderoso (ter todos os reinos do mundo aos seus pés), e ser espetacular 
(atirar-se de um enorme penhasco, ordenando aos anjos para que o salvem).
Aqui, porém, me interessa mais o que do que o como da espiritualidade 
do deserto de Jesus. Ou seja, que elementos são fundamentais para 
compreender o modo como Jesus reage às tentações pelas quais passa 
no deserto? Falarei daqui para diante sobre quatro elementos: (a) Espírito 
Santo, (b) Intimidade, (c) Temor e Assertividade, (d) Propósito e Identidade.
Espírito Santo. O texto de Lucas, afi rma que Jesus estava “cheio do 
Espírito Santo”, à medida que fora conduzido ao deserto; e que, quando 
retorna a Galileia, também o faz “no poder do Espírito Santo” (v. 14). Ora, 
se a espiritualidade se confi gura como “vida no Espírito”, este não é um 
elemento meramente ocasional, nem nesta história, muito menos na vida 
e missão de Jesus. O Espírito Santo é o próprio Deus nos conduzindo pelo 
deserto e nos ajudando a passar por ele. No silêncio, no afastamento, nas 
durezas e lutas do deserto, e no desafi o de encarar a nós mesmos – nossos 
medos, vaidades e mais latentes tentações – contamos com a companhia 
e poder do Espírito Santo, sem o qual nada podemos por nós mesmos. 
Intimidade. Jesus demonstra ser íntimo de seu Pai e de sua Palavra. E nisto 
ele tem uma diferença fundamental com o Diabo: ambos demonstram 
conhecer a Palavra, isto é, saber e citar partes dela. Mas somente Jesus 
demonstra compromisso para com os conteúdos e a vida que emana 
da Palavra. Enquanto o Diabo cita coisas da Palavra – como quem cita 
versos ou conta piadas memorizadas, ao sabor do momento e como 
fruto de oportunismo –, Jesus revela a Palavra, demonstra um saber que 
vai além da mera letra e que integra a Palavra a um viver comprometido 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 93
com ela mesma. Esta intimidade não se reduz a mimos, afagos ou meras 
“declarações de amor”. Jesus vai além disso. Demonstra que ser íntimo 
de alguém é estar em contato com o que há de mais profundo, essencial 
e verdadeiro nele(a).
Temor e assertividade. Quem teme e ama a Deus, e conhece (por pouco 
que seja) a si mesmo e o que, como ser humano, é capaz, não brinca com o 
poder das tentações. No relato de Lucas, vemos que as palavras de Jesus, 
em resposta ao Diabo, não são lançadas ao vento; pelo contrário, são 
assertivas (isto é, claras, honestas, convictas), diretas, palavras de Deus. 
E nisso vemos também que ele não faz “joguinhos” com o Diabo; ele foge, 
cai fora das armadilhas. A tentação não se enfrenta (como se a força para 
as resistir estivesse em nós). Da tentação se foge e se resiste, na força 
que Deus supre. Não posso escolher não ser tentado, pois isso faz parte 
de minha condição humana desde sua origem. Mas posso optar por não 
jogar com as tentações. Jesus se nega a jogar o joguinho do Diabo, que ele 
chama de “Se és o fi lho de Deus”, em que é convidado a provar sua fi liação 
por meio de performances. É precisamente o temor à voz do Pai que diz 
“tu és o meu Filho amado”, e a certeza desse amor, que o faz ser assertivo 
e recusar entrar nessa brincadeira demoníaca. Jesus se recusa a aderir à 
espiritualidade da serpente, sobre a qual tratamos na unidade anterior. 
Propósito e identidade. O deserto conferiu a Jesus senso de propósito 
para sua vida e ministério. Tornou-se, para ele, um lugar recorrente de 
discernimento (do que é importante, em relação ao que é apenas trivial) 
e de comunhão com Deus. Um relato de Lucas (4:42-44), logo adiante ao 
texto que estamos analisando, demonstra bem isso:
Ao romper do dia, Jesus foi para um lugar solitário. As 
multidões o procuravam, e, quando chegaram até onde 
ele estava, insistiram que não as deixasse. Mas ele 
disse: “É necessário que eu pregue as boas novas do 
Reino de Deus noutras cidades também, porque para 
isso fui enviado”. E continuava pregando nas sinagogas 
da Judéia.
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais94
Atrair e ser atraído pelas multidões nos dias de hoje tem um ar de 
heroísmo espiritual, protagonismo e ministério apostólico. Pregadores 
que falam para multidões tendem a ser vistos como “ungidos” de Deus, 
gente que foi colocada por Ele no lugar certo para trazer a palavra, a 
cura e a libertação que as pessoas mais precisam. Há um ar de nobreza 
em ocupar esta posição. Mas Jesus parece não ser atraído por essa 
síndrome messiânica – embora ele fosse a pessoa mais autorizada a 
isso, uma vez que é o Messias (escolhido) de Deus, que veio para salvar, 
libertar e reconciliar a humanidade com seu Criador e Redentor. 
Existem inúmeras passagens e ocorrências nos evangelhos que 
demonstram um apreço grande de Jesus pelas multidões, por suas 
afl ições, necessidades e insufi ciências (a exemplo de Mt 9.36, ou de 
Mc 6.34-46). Mas compadecer-se e dar atenção especial às multidões 
não signifi ca irrestritamente abraçá-las com suas queixas, causas e 
urgências, nem ser governado por suas constantes demandas. E o 
texto acima é um exemplo disso. O senso de propósito e missão de 
Jesus, forjado e fortalecido no deserto, em comunhão com o Pai, é o 
que o mantinha fi rme e focado em sua missão. Ao passo que, mesmo 
tendo sido instado a não deixar a presença das multidões (o que é uma 
tentação messiânica), ele sabia exatamente o momento certo de deixá-
las e ir proclamar as boas novas do Reino em outros lugares, ou mesmo 
buscar o silêncio pedagógico do deserto. 
Então, a solitude no deserto é um lugar de grandes encontros e grandes 
confl itos – de luta contra as compulsões desse nosso “eu”, forjado em 
pecado e pressionado pelos clamores do mundo ao nosso redor, e de 
encontro com o Deus amoroso, que dá substânciaà nossa identidade de 
fi lhos/as de Deus. Ali, mas não somente ali, é claro, podemos nos libertar 
de qualquer reserva ou defesa, e receber o toque e o abraço do Pai, como 
na Parábola do Filho Pródigo, onde o Pai parece dizer: 
Você é meu amado. Eu não vou te fazer perguntas. 
Onde quer que você tenha ido, o que quer que tenha 
feito, ou qualquer coisa que as pessoas digam a seu 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 95
respeito, não importa, pois você é meu amado. Eu te 
ponho protegido em meu abraço. Eu toco você. Deixo-
te seguro debaixo de minhas asas. Você pode retornar 
ao lar daquele cujo nome é Compassivo, cujo nome é 
Amor (Nouwen, 1995, p. 82). 
Quando, no deserto, passamos a ouvir a voz de Deus que nos chama 
de amados e amadas suas, tudo passa ter um signifi cado diferente, e 
grande parte daquilo que, para nós, tinha quem sabe enorme importância 
– sucesso, fama, reconhecimento, aprovação das pessoas – agora 
passa a ser relativizado diante dessa voz de amor. Esta que proporciona 
um reencontro com nossa verdadeira identidade, que não é aquela 
que carregamos em nosso RG, nem em nossos crachás profi ssionais 
e ministeriais, muitos menos nos diplomas, honrarias e títulos que 
acumulamos. Não. Isso é somente parte do que somos, a ponta do 
iceberg. O que realmente somos, em Deus, é muito mais do que aquilo 
que realizamos. De acordo com Nouwen (1985, p. 82), se mantivermos 
isso em mente, “podemos lidar com uma enorme quantidade de sucesso 
assim como com uma enorme quantidade de fracasso, sem perder nossa 
identidade, por que nossa identidade é a de que somos amados”.
Portanto, mesmo em meio a inquietude que nos assola no deserto, o 
chamado da voz que nos diz “fi lhos amados”, permanece como sinal de 
um seguimento, o seguimento dos fi lhos de Deus que andam conforme o 
caminho e segundo a imagem de seu Filho, na força do Espírito. De modo 
que a espiritualidade cristã formada no deserto é aquela que nos ajuda 
a não nos movermos mais e, sobretudo, por aquilo que funciona, que 
faz sucesso, que dá ibope, boa reputação ou agrada as outras pessoas. 
Igualmente, o deserto nos orienta a viver não somente pela, mas para a 
vontade de Deus revelada em Cristo. 
Poderemos, então, desenvolver a atitude daqueles que Nouwen chama 
de “contemplativos críticos”, isto é, pessoas que, por causa de sua 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais96
autenticidade evangélica, testam e provam tudo aquilo que veem, 
escutam ou tocam. O contemplativo crítico, assim, toma suas decisões 
pautado não pela opinião pública, pelo desejo de popularidade ou anseio 
por aprovação, mas por seu próprio senso de propósito e vocação. 
Segundo Nouwen (2002b, p. 73):
Ele não permite a ninguém cultuar ídolos e convida 
constantemente seu semelhante a formular perguntas 
signifi cativas, muitas vezes penosas e desordenadas, 
a olhar atrás da superfície do comportamento polido e 
eliminar todos os obstáculos que o impedem de atingir 
o âmago do assunto. O contemplativo crítico arranca 
a máscara ilusória do mundo manipulador e tem a 
coragem de mostrar qual é a verdadeira situação.
Dessa forma, a espiritualidade que se forja no deserto, proporciona esse 
reencontro com a minha liberdade interna, parafraseando Nouwen. Esta 
liberdade me relembra que, embora eu faça parte do mundo, posso me ver 
liberto de seu domínio, de suas pulsões, vozes e compulsões, podendo 
assim, e somente assim, contribuir para a sua transformação.
Assista o vídeo!
“A espiritualidade na cultura do espetáculo”
Prof. Jonathan Menezes
Acesse o AVA para assistir o vídeo!
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 97
Exercício de aplicação
Nesta unidade foi possível compreender bem a diferença entre 
a solidão e a solitude. Esta segunda é de suma importância para 
nosso bem-estar e desenvolvimento. Aprender a ter momentos de 
solitude traz ao ser humano maturidade, bem-estar, amor próprio, 
auto aceitação. Pois são nesses momentos que podemos nos 
conhecer melhor e, assim, dentro de nossas limitações e fraquezas 
enxergar o amor que Deus tem por nós. Diante disso, como a 
igreja pode proporcionar que seus membros tenham momentos de 
solitude num mundo tão cheio de compromissos? 
a) Mantendo uma agenda cheia de compromissos, reuniões 
de oração, encontros bíblicos, congressos, dentre outros. E 
nessas comunhões propor 15 minutos de silêncio. 
b) Mantendo uma agenda equilibrada, saudável, ensinando 
sobre o assunto para os membros e possivelmente 
encorajando-os a trocar esses compromissos religiosos em 
exagero, por momentos de solitude num parque, em casa, 
ou em qualquer outra atividade que você sempre se sentiu 
dependente de alguém para desenvolver. 
Acesse o AVA para fazer o exercício!
UMA DICA: Tire um dia e faça um jantar diferente para você 
mesmo, escute aquela música que você tanto gosta, converse 
com Deus, ria de seus medos e de suas fraquezas, alegre-se 
e tenha esperança diante de seus sonhos. Perdoe-se por não 
ter conseguido. Seja livre. Deus te ama do jeito que você é!
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais98
3. Comunidade
A afi rmação basilar desse último tópico será a de que a espiritualidade 
tem a ver com a qualidade de nossa relação com Deus, seja como vida 
vivida na fé, seja como cumprimento de um dos propósitos de Deus 
desde a criação, que é o de caminhar e ter intimidade com Ele. Como 
vimos na unidade I, a espiritualidade pode simplesmente ser descrita 
como o modo de ser do cristão guiado pelo Espírito. Se esse modo de ser 
é relacional, e se as relações são dinâmicas, então não há regras gerais 
ou modelos que dão conta, e teremos tantos “modos de ser” quantas são 
as pessoas numa comunidade de fé. E porque é relacional e dinâmica, 
a espiritualidade depende da vida do/com o outro. Nesse sentido, meu 
intuito aqui é falar da importância que a comunidade tem e o papel que 
desempenha em nossa formação espiritual.
3.1. Qual é o lugar do outro na espiritualidade cristã?
Em primeiro lugar, e retomando um princípio geral, a espiritualidade só 
existe por causa do Outro, que é Cristo. Ou seja, Cristo é a razão de ser da 
espiritualidade cristã; nossa vida é originada pela vida de Cristo, iluminada 
por sua Palavra, e guiada pelo seu Espírito. “Porque dele e por ele, e para 
ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente” (Rm 11:36). 
Em segundo lugar, essa vida, que é originada, iluminada e guiada em 
Cristo, encontra seu melhor sentido no encontro com o outro, o próximo, 
o irmão e a irmã de caminhada. Meu encontro com o camarada Cristo me 
conduz inevitavelmente ao encontro com meus camaradas de história, e 
muitas vezes se dá precisamente através dele. 
Desde o princípio Deus fez essa escolha: “Não é bom que o homem 
esteja só” (Gn 2:18). Dois é sempre melhor que um: na alegria ou na dor, 
na celebraçãoou no luto. A esta vida partilhada é que o salmista se refere 
quando diz: “Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos... ali o 
Senhor ordena a sua benção e a vida para sempre” (Sl 133:1,3).
Espiritualidade, nesta perspectiva, é o encontro com o Outro (Deus) por 
meio do outro (próximo).
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 99
3.2. Quando e como passa a existir a comunidade?
Existe comunidade quando sou convidado a partilhar a minha vida com 
outras pessoas, a partir do evento do Cristo Ressurreto. Eugene Peterson 
(2007, p. 269) afi rma que a ressurreição é ponto de partida da comunidade 
do Espírito Santo. A ressurreição e ascensão de Cristo ao Pai conduziram 
aquele grupo de discípulos à reunião em Jerusalém; e Lucas afi rma que 
eles perseverarem unânimes em oração, com as mulheres e com os 
irmãos de Jesus (At 1:13-14). 
Após a descida do Espírito Santo, o discurso de Pedro e a conversão e 
batismo de milhares de pessoas, nós vemos agora uma comunidade do 
Espírito, também perseverando em oração, no ensino dos apóstolos e 
no partir do pão. A oração simboliza essa incessante busca comunitária 
pela vontade e presença de Deus; o ensino apostólico representa o 
compromisso com a Palavra e com o crescimento na fé; e o partir do pão 
aponta para a comunhão com Cristo em comunidade.
Logo, o relato de Atos prossegue dizendo que “todos os creram estavam 
juntos e tinham tudo em comum”; partilhavam seus bens e acolhiam aos 
necessitados; louvavam a Deus e contavam com a simpatia do povo. E, 
enquanto tudo isso ocorria, o Senhor acrescentava, dia a dia, os que iam 
sendo salvos (At 2:42-47, 4:32).
Então, Peterson parece estar certo. Todos estavam juntos porque algo 
os juntou, e este algo foi a ação do Espírito movida pela ressurreição do 
Senhor. Sem a ressurreição não há vida e nem esperança; pela ressurreição 
o Espírito passa atuar entre os discípulos, e cria a comunidade cristã. A 
comunhão, portanto, não é algo que se promove artifi cialmente, mas é 
fruto da ação do Espírito. E o louvor a Deus brota da mutualidade. O “nós” é 
tão importante quanto o “eu”, porque o “eu” se completa por meio do “nós”.
É um (lamentável) sinal dos tempos que hoje nos foquemos tanto no “eu” 
(individual) e menos no “nós” (coletivo); a igreja deixa de ser comunidade 
do Espírito quando ela passa a existir para satisfazer uma “ditadura do 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais100
eu”: eu sou abençoado, eu sou amado, eu sou próspero, eu fui chamado, 
o Senhor guia o meu ministério, Deus me cura, me salva, me liberta, eu, 
eu, eu... que canseira!
A comunidade do Espírito e seus líderes em Atos não estão preocupados 
criando estratégias para fazer a igreja crescer. Mas ela crescia em meio 
à completa ausência de qualquer plano pretensioso de crescimento. O 
crescimento se dá em um processo integral natural (apropriando-me aqui 
das clássicas categorias de Orlando Costas): quanto mais a comunidade 
perseverava e crescia na comunhão e no ensino (crescimento conceitual 
e orgânico), mais isto a impelia a se acercar e a acolher às necessidades 
do entorno (crescimento diaconal), e a contar com a simpatia do povo. 
E “enquanto tudo isso ocorria”, o Senhor acrescentava dia a dia mais 
pessoas à comunidade dos salvos (crescimento numérico). 
Certa vez recebi um email de um estudante, que me perguntava: É 
teologicamente correto dizer que a igreja é um tipo de sociedade ou 
comunidade alternativa? Eis minha resposta:
Sem dúvida, em minha compreensão isso não só está teologicamente 
“correto”, como historicamente tem marcado a vida da igreja-comunidade 
do reino, daquela que não se rende aos ditames do institucionalismo; 
sempre que ela resolve ser fi el ao seu chamado de sinalizar o reino no 
mundo, ela se constitui como uma “sociedade alternativa”, não no modo 
hippie “paz e amor” dos anos 1970, ou no sentido de que seria uma “ilha” 
apartada do resto, onde podemos nos alienar do mundo, mas enquanto 
se mantém como sinal de esperança bem ali onde ela se encontra... no 
meio do mundo. 
Onde nossos confl itos não são diminuídos porque somos cristãos. Pelo 
contrário, eles aumentam, à medida que não vivemos de acordo com 
os termos do mundo e sim do reino, como o próprio Jesus advertiu 
aos discípulos (João 15), para que não se admirassem se o mundo os 
odiasse; é que eles não vivem segundo os meandros do mundo, nem os 
obedecem; se vivessem de acordo com tais termos, o mundo os amaria 
e os aprovaria. E tudo isso acontece porque estamos no mundo, porque 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 101
Deus amou o mundo, e porque nos chama a proclamar a reconciliação 
em nossa vida mundana. 
Penso, assim, que a comunidade deveria ser idealmente a alternativa 
do Espírito para os cansados, feridos oprimidos e sobrecarregados do 
mundo; ser agente profético de denúncia à corrupção e injustiça, sob 
que forma elas apareçam; ser agente de transformação integral. Por 
outro lado, sempre que a igreja deixa, por alguma razão, de exercer esse 
papel, o Espírito, inadvertidamente, não deixa de agir. Isso signifi ca que: o 
Espírito Santo cria a comunidade, mas não é monopólio dela.
Não é Ele quem acompanha os movimentos (e patacoadas) da igreja, mas 
é exatamente o contrário, a igreja que, como comunidade dos carismas, 
deve acompanhar o sopro do Espírito, onde quer que ele esteja soprando, 
e ouvir a sua voz, ainda que não saiba dizer de onde vem e nem para onde 
vai (cf. Jo 3:8). 
Exercício de fi xação
A comunidade que deve existir entre os cristãos é aquela em que:
a) nos reunimos para cantar, fazermos orações privadas de acordo
com a própria necessidade, escutamos uma palavra sem que haja
nenhuma reação por parte dos ouvintes, recebemos uma benção e
vamos para casa almoçar ou jantar com a nossa família.
b) as pessoas cantam juntas, escutam a palavra, mas compartilham
de seus problemas umas com as outras, se encorajam através dos
testemunhos umas das outras, partilham daquilo que possuem para
auxiliar os que estão em difi culdade, recebem um aos outros em suas
casas. É aquela em que você pode chegar como está, sem mascaras,
sem fi ngimento e sem medo de ser julgado por isso. É aquela
comunidade em que todos reconhecem que são seres humanos
dependente de Deus.
Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do 
professor! 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais102
3.3. Como a comunidade pode melhorar minha 
espiritualidade?
Primeiro: a comunidade me aproxima do sentido mais profundo de quem 
eu sou e de quem Deus é. A comunidade me “engravida de Deus”, de muitas 
formas: quando adoramos, servimos, escutamos a Palavra, debatemos, 
ensinamos e somos ensinados, consolamos e somos consolados, 
confrontamos e somos confrontados, quando carregamos os fardos uns 
dos outros e quando nos corrigimos mutuamente em amor.
A comunidade me aproxima mais da vontade do Senhor: quando lemos, 
interpretamos e partilhamos a Palavra e construímos umahermenêutica 
comunitária. E como precisamos mais disso, especialmente num 
contexto autoritário e centrado na palavra de “um” em detrimento da 
“visão de muitos”. 
A comunidade me faz mais humano, pela proximidade com os outros, seus 
pecados e virtudes e com as minhas próprias. É comunidade de santos-
pecadores. E chega um tempo, como lembra Peterson (2007, p. 165), em 
que é “mais difícil aturar os santos do que os pecadores”. A comunhão, 
contudo, precisa viver as decepções óbvias da convivência, para que 
ela cresça como uma comunhão entre seres humanos pecadores, mas 
salvos pela Graça, e não entre anjos ou semideuses. 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 103
Texto de apoio
Somente a comunhão que passa pela grande decepção, 
com seus maus e desagradáveis aspectos, começa a ser o 
que ela deve ser diante de Deus, começa a apossar-se na 
fé da promessa recebida. Quanto mais cedo a pessoa e a 
comunidade passarem por esta decepção, tanto melhor para 
ambas. Uma comunhão que não suporte e não sobreviva 
a uma tal decepção, que se agarre a seu ideal quando ele 
é para ser destruído, perde na mesma hora a promessa de 
comunhão duradoura, e se desmanchará mais cedo ou 
mais tarde. (...) A pessoa que ama mais seu sonho de uma 
comunhão cristã do que a própria comunhão cristã, destruirá 
qualquer comunhão cristã, mesmo que pessoalmente essa 
pessoa seja honesta, séria e abnegada. (...) Por acaso não 
basta o que nos é dado: irmãos que, em pecado e tribulação, 
fi cam ao nosso lado sob sua benção e graça? Ou a dádiva 
de Deus de uma comunhão cristã em algum dia, também 
nos dias difíceis e desventurados, será menos do que 
essa grandeza imensurável? Mesmo quando pecado e 
desentendimento pesam sobre a comunhão o irmão pecador 
não permanece sendo o irmão junto do qual estou colocado 
sob a palavra de Cristo? Seu pecado não se torna um motivo 
para renovadamente dar graças por podermos ambos viver 
sob o amor perdoador de Deus em Jesus Cristo? Não se 
tornará incomparavelmente salutar para mim a hora da grande 
desilusão, pois ela me ensina que nós dois jamais poderemos 
viver de palavras e obras próprias, mas unicamente daquela 
uma palavra e uma obra que de fato nos une, a saber, do 
perdão dos pecados em Jesus Cristo? Lá, onde o nevoeiro 
matutino dos ideais se dissipa, nasce fulgurante o dia da 
comunhão cristã. 
(Bonhoeffer, 2006, p. 17, 18)
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais104
Segundo: a comunidade melhora minha espiritualidade à medida que 
oportuniza a mútua correção. Quem tenta viver sua fé fora da comunidade, 
pode até sofrer menos, mas também progride menos. Fora da comunidade 
(comunidade digo, não templo), somos como que senhores de nosso 
próprio destino, mas não temos com quem contar no momento em que 
precisamos que a nossa rota seja corrigida. Tendemos a estagnar. 
No tocante ao amor fraternal, Paulo se dirige a comunidade de Tessalônica, 
dizendo (mais ou menos) estas palavras: “Não há necessidade de falar 
muito, pois vocês já foram bem instruídos quanto a se amar mutuamente; 
mais do que isso, vocês já estão vivendo isso intensamente, entre os 
irmãos e irmãs da comunidade. Mas, auto lá! Continuem progredindo; 
corram como se ainda nada tivessem alcançado. Não tomem esses 
momentos de fraternidade e mutualidade que há entre vocês como 
motivo para se orgulharem de si mesmos” (Paráfrase de 1Ts 4.9-10). 
Isso deve nos levar a entender a comunhão de amor como um 
compromisso progressivo, inacabado e em permanente construção, que 
se dá em e não fora da comunidade. 
Neste sentido, é tarefa de todos, pastores ou leigos, homens e mulheres, 
encontrar “mentores espirituais” na comunidade. Alguém com que você 
possa partilhar suas dores e alegrias, que possa te ajudar a recuperar a 
visão quando ela se perde por alguma razão, que possa te abraçar e se 
compadecer contigo em meio a um grande sofrimento, mas que também 
seja capaz de apontar seus pecados quando você não mais os enxerga 
ou reconhece e convidar ao arrependimento. 
Este encontro passa pelo reconhecimento de que, por mais ou menos 
que saibamos, todos carecemos de “guias” espirituais, gente que nos 
ajude a atravessar o caminho. Nesse sentido, o mentor precisa ser um 
mestre na acepção da Palavra, que, a exemplo de Cristo, sabe ouvir, dar 
lugar à partilha, à fala do outro – mesmo que essa fala seja de lamúria 
confusa – acolher, ser solidário e simplesmente estar ao lado do outro. O 
mestre não é somente mestre por sua postura austera de quem ministra 
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 105
ou faz um monólogo, mas, sobretudo, por sua presença, que pode ser 
silenciosa, que muitas vezes faz mais perguntas do que se preocupa em 
responder logo e despedir “em paz” (e com a consciência tranquilizada) 
o discípulo, sua cobaia passiva. 
Assim, um mentor é quem pode me ajudar a me conhecer melhor na 
comunidade, é quem, nas palavras de James Houston (2003, p. 141), me ajuda 
a “desmascarar certos traços de auto-ilusão e a sondar meu interior mais 
profundamente do que eu talvez estivesse disposto a fazer voluntariamente”.
3.4. Que implicações essa perspectiva de uma 
espiritualidade comunitária pode trazer? 
Tentarei apresentar aqui algumas implicações a partir de três níveis: vida 
pessoal, vida comunitária, vida em sociedade. 
Vida pessoal. Parto aqui de mais uma afi rmação de Bonhoeffer (2006, 
p. 58-59), quando ele diz que: “A pessoa que não suporta a comunhão 
deve tomar cuidado com a solidão... O contrário também é verdadeiro: 
a pessoa que não se encontra na comunhão deve tomar cuidado com a 
solidão”. A implicação, portanto, é: cultivar a solidão ou solitude (estar a 
sós com Deus), mas não deixar que ela se transforme em individualismo 
e uma estrada à autossufi ciência; e cultivar a comunhão (estar com o 
outro), mas não permitir que ela se transforme em “koinonite” (doença), e 
nos feche para o mundo ao nosso redor (sectarismo). 
Vida comunitária. É preciso firmar um compromisso com a nossa 
comunidade de fé: de amá-la, sustentá-la em oração e financeiramente, 
e de servir “na força que Deus supre” e conforme a diversidade de dons. 
Comprometer-se é amar o outro, é pagar o preço de ter de lidar não 
somente com as alegrias, mas com as decepções próprias de qualquer 
relacionamento. A Bíblia é repleta de histórias assim, de pessoas que 
ferem umas às outras, de comunidades que perdem o fi o da meada, mas 
também da persistência divina, que deve inspirar a nossa persistência 
em superar as difi culdades no temor de Deus e avançar. 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Disciplinas espirituais| FTSA Disciplinas espirituais106
Vida em sociedade. Vivemos num tempo em que as pessoas anseiam 
por comunidade, pois ela é sinônima de segurança. Como podemos 
atrair essas pessoas? Não apenas falando bem da comunidade ou da 
sua igreja, mas vivendo de modo que nossa própria vivência fale mais 
alto – pelo testemunho público. Sendo abertos e inclusivos, como foi 
Jesus, seja para conversarcom a Samaritana à beira do poço, ou com o 
Nicodemos na calada da noite. Como diz Eugene Peterson (2007, p. 265), 
“Jesus não parece muito seletivo na escolha dos fi lhos que ele deixa 
entrar em sua cozinha para ajudar a preparar as refeições”. 
Jesus quando roga ao Pai em sua oração sacerdotal, o faz não somente 
pelos que são “seus”, mas também por aqueles que ainda não são dele, 
mas que um dia virão a crer em seu nome por intermédio da Palavra. Isto 
inclui judeus, gregos, romanos, homens, mulheres, senhores e escravos, 
patrões e empregados, gente de todo tipo de classe, Gênero, cor e etnia, 
etc., a fi m de que o mundo, toda a terra habitada, creia em seu nome. 
“Rogo”, disse ele: “... para que todos sejam um, Pai, como tu estás em 
mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo 
creia que tu me enviaste” (Jo 17:21).
3.5. Recapitulando
Vimos que a comunidade cristã não é um mero acaso da história, nem 
é fruto de iniciativas artifi ciais ou táticas institucionais humanas, mas é 
forjada pelo Espírito de Cristo, conforme o caráter divino (trinitário) de 
comunhão eterna. A comunidade nos ajuda a descobrir então o melhor 
sentido de quem Deus é, e também de quem somos e para que existimos. 
Porque o Espírito forja a comunidade, não signifi ca que ela seja perfeita. 
Não, a comunidade é de seres humanos, por isso é imperfeita e ainda 
marcada pelo pecado. Por outro lado, é ela quem também proporciona a 
mútua correção e, com isso, a possibilidade de superação das situações 
em que o pecado age, rumando para o crescimento na fé. Dessa forma, 
pode-se dizer que se a fé não depende da comunidade para existir, ela 
sim depende para crescer, amadurecer e dar frutos. Por isso, no começo 
o Senhor disse: “É bem melhor serem dois ao invés de um”, dois no riso,
dois no pranto, na vitória ou na derrota.
Disciplinas espirituais Espiritualidade Cristã | FTSA | Disciplinas espirituais 107
Exercício de aplicação
Você já parou para pensar em quantas vezes sentamos ao lado 
de alguém na igreja e não fazemos ideia de qual é a história dessa 
pessoa, quais suas alegrias e tristezas, sonhos e lutos? Como 
você sugere uma aproximação entre os membros da comunidade, 
de forma que todos possam partilhar suas vidas e sair do modo 
individualista de viver a fé?
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Referências bibliográfi cas
BONHOEFFER, Dietrich. Vida em comunhão. 6ª ed. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2006.
HOUSTON, James. Mentoria espiritual. Rio de Janeiro: Textus, 2003
NOUWEN, Henri. Oração: o que é e como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.
_______. Diário. O último ano sabático de Henri J. M. Nouwen. São Paulo: Loyola, 2003.
_______. A espiritualidade do deserto e o ministério contemporâneo. 3ª ed. São Paulo: 
Loyola, 2004.
____________. Bread for the journey. A daybook of wisdom and faith. New York: HarperCollins, 1997.
PETERSON, Eugene. Corra com os cavalos. Viçosa, MG: Ultimato; Niterói, RJ: Textus, 2003. 
_______. Trovão Inverso: o livro de Apocalipse e a oração imaginativa. Rio de Janeiro: 
Habacuc, 2005.
_______. A maldição do Cristo genérico. A banalização de Jesus na espiritualidade 
atual. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.
_______. Ânimo: o antídoto bíblico contra o tédio e a mediocridade. São Paulo: Mundo 
Cristão, 2008.
SOUSA, Ricardo Barbosa de. O caminho do coração. Ensaios sobre Trindade e 
Espiritualidade Cristã. 2ª ed. Curitiba: Encontro, 1998. 
WILKINSON, Bruce. A oração de Jabez. São Paulo: Mundo Cristão, 2001.
Atenção! 
Lembre-se de realizar as atividades avaliativas da disciplina.
1- Faça todos os exercícios desta unidade;
2- O "Exercício integrativo" consiste em um resumo de toda disciplina contendo 
entre 1400 e 1500 palavras, portanto, sugerimos que você já faça o resumo 
desta unidade como parte desta avaliação. Faça esse resumo em um arquivo 
de texto, salve-o em seu computador e use-o novamente para adicionar 
no resumo das outras unidades e ao fi nalizar o resumo de toda a disciplina, 
poste-o ao completar esta tarefa acessando o ícone "Avaliações";
3- Lembre-se de ler alguns dos textos complementares (em torno de 25 
páginas) para cumprir a exigência de leitura de pelo menos 100 páginas da 
lista disponibilizada no ícone "Textos complementares";
4- Ao fi nal da unidade IV, você deverá fazer a prova objetiva 2.
Consulte o “Programa de curso” para mais informações sobre as avaliações.
Fique atento ao prazo fi nal para a realização das avaliações: 27/02 - 23h55
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 109
UNIDADE IV – ESPIRITUALIDADE, VOCAÇÃO E MISSÃO
Introdução
Como vocês devem ter percebido pela minha abordagem até aqui, a 
percepção de espiritualidade nela expressa advém de várias fontes. Dentre 
elas, destaca-se a de um escritor holandês: Henri Nouwen. Esta unidade 
fi nal consiste na leitura, discussão e aprofundamento de temas ligados 
à espiritualidade cristã, a partir da vida e obra de Nouwen, conhecido não 
apenas por sua brilhante e sensível leitura da condição humana sob a ótica 
da espiritualidade, mas, também, por sua história e exemplo de vida de 
comprometimento com a radicalidade do caminho de Jesus Cristo. Objetiva 
proporcionar aos estudantes um maior contato com o pensamento deste 
autor, e a possibilidade de uma identifi cação mais ampla através da leitura 
de seus livros disponíveis em língua portuguesa. Também objetiva discutir, 
em segunda instância, o tema da vocação e da missão. As questões 
que moverão nossa refl exão nesta parte, dentre outras, são: Quais são 
as possíveis relações entre espiritualidade e missão? Como lidar com 
a questão da vocação? A busca pela relevância e a efi cácia é mesmo 
imprescindível quando pensamos em uma espiritualidade da missão? 
Para tanto, em primeiro lugar, falo sobre a missão da espiritualidade na 
Missão de Deus, procurando avaliar motivações e a força que nos impele à 
missão; em segundo lugar, trato da espiritualidade como busca e resposta 
a uma vocação, entendendo que no discernimento dessa vocação que 
reside nossos encontros ou reencontros com Deus e sua missão.
Objetivos da unidade1. Conhecer um pouco sobre a vida e obra de Henri Nouwen, e
aprofundar-se em temas de sua espiritualidade, a partir de uma
abordagem de questões contemporâneas;
2. Compreender as interpolações existentes entre espiritualidade e
missão;
3. Reconhecer a importância do discernimento da vocação na
espiritualidade da missão.
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão110
1. O exemplo de Henri Nouwen
Padre, professor, psicólogo e escritor, Henri J. M. Nouwen nasceu na 
Holanda, em 1932, e faleceu em 1996, também em sua terra-mãe. Desde 
os cinco anos de idade, Nouwen falava sobre suas pretensões de ser 
padre, e ele estava decidido a isso. Formou-se em teologia e psicologia 
na Holanda, tendo sido ordenado pouco tempo depois, aos 32 anos, 
em 1957. Nouwen passou os primeiros cinco anos de seu ministério 
realizando algumas de suas notáveis ambições: estudou na renomada 
clínica psiquiátrica de Karl Menninger (EUA), lecionou nas universidades 
de Notre Dame e Yale e viajou muito como conferencista. Por sua 
espiritualidade cristocêntrica, Nouwen teve o privilégio de falar tanto para 
católicos como para evangélicos, tendo trânsito livre entre estes dois 
grupos. Até hoje ele é muito respeitado e lido tanto em uma como em 
outra vertente religiosa. Certamente é um dos pensadores cristãos do 
século XX que exercitou com maestria a arte de cruzar fronteiras. Como 
testemunha, Philip Yancey diz que “ele ignorava as recomendações de 
Roma para que apenas os católicos participassem da eucaristia, e a 
celebrava diariamente com amigos, alunos ou estranhos, onde quer que 
estivesse” (Yancey, 2004, p. 304). 
Nouwen passou um período sabático de seis meses viajando pela América 
Latina, passando por diversos tipos de conversão diante da realidade dos 
pobres, o que alterou não apenas seu modo de enxergar a espiritualidade, 
mas também de lidar com a sua própria vocação, perguntando-se muitas 
vezes se seria a vontade de Deus que ele permanecesse na América 
Latina colocando seus dons e talentos à serviço dos pobres. Gustavo 
Gutiérrez, um de seus mentores neste período, o aconselhou, contudo, a 
retornar aos Estados Unidos e falar sobre tudo o que ali vira, sendo uma 
voz profética naquele país. 
Ao regressar para a América do Norte, Nouwen recebeu convite para 
lecionar em Harvard, e passou a se engajar mais ferrenhamente em 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 111
movimentos pelos direitos humanos, tendo a oportunidade de fazer o que 
ele chamou de “missão reversa”, seguindo o conselho de Gutiérrez. Nesse 
tempo sua fama e prestígio como professor, escritor e conferencista já 
percorriam o mundo, e em todo lugar por onde passava ele era bastante 
respeitado. Todavia, tudo isto não bastava para amenizar o profundo 
vazio espiritual e as feridas pessoais que há muito carregava e que, com 
o tempo, só aumentavam, tudo isso combinado a uma vida de fama, 
glória, agenda lotada de compromissos e uma série de outras atividades, 
levando Nouwen a um ponto de colapso total num espaço de três anos. 
Até que ele compreendeu, à luz da experiência de Jesus, que o caminho 
para subir é descer. Assim, abandonou sua brilhante carreira numa das 
melhores universidades dos EUA, para compartilhar sua vida com os 
necessitados, servindo em uma comunidade para defi cientes mentais, a 
Arca - O Amanhecer, em Toronto no Canadá. Sua vocação era mesmo entre 
os pobres, que viviam noutra espécie de miséria, revelando-lhe, contudo, a 
face da alegria e do poder de Cristo, escondidos por trás de suas vidas 
limitadas e sofridas. Conforme o próprio Nouwen disse em seus escritos, 
“ali ele não foi para dar, mas para receber; não por causa de excesso, mas 
por falta. Foi para conseguir sobreviver” (Yancey, 2004, p. 306). E ali passou 
os dez últimos anos de sua vida, de 1986-1996, vivenciando na prática o 
que aprendeu de Jesus: o caminho da “mobilidade descendente”, como ele 
denominou em alguns de seus livros.
Assista o vídeo!
“As mobilidades descendente e ascendente”
Professor, 15 min.
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| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão112
Exercício de fi xação
“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora 
sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que 
devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, 
tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em 
forma  humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a 
morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição 
e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome 
de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, 
e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de 
Deus Pai”. (Fp 2.5-11, NVI)
A partir do texto acima, (1) sublinhe as palavras-chave que 
indiquem as mobilidades descendente e ascendente em Jesus. Em 
seguida, (2) responda à questão: Como o texto acima nos ajuda 
a ressignifi car a interrelação entre as mobilidades descendente e 
ascendente na espiritualidade cristã?
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Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 113
O que aprendi com Nouwen? Dividirei este breve passeio naquilo 
que aprendi com Nouwen por temas, que são, portanto, temas 
importantes na vida e obra deste autor.
1.1. Vocação 
Aprendi que, embora seja Deus quem chame, confi rme e capacite – o 
que dá um peso enorme à questão – o processo de despertar para e 
prosseguir em uma vocação não é estático, mas dinâmico. A certeza 
do caminho vem enquanto caminhamos. Não somos chamados 
primordialmente para um lugar ou uma função, mas para andar com 
Jesus em serviço ao seu reino. Isto signifi ca que a pergunta pela vocação 
nunca será respondida inteiramente; na caminhada estaremos sempre 
tentando discernir os caminhos. 
É o que Nouwen fez sua vida toda, como em sua passagem pela América 
Latina, ou em sua trajetória de uma carreira acadêmica prestigiada em 
Harvard para uma vida fora dos holofotes entre os deficientes da Arca, 
em Toronto. Assim ele resumiu: “Tentei discernir a voz de Deus; e, no 
meio de uma grande variedade de minhas respostas interiores, tentei 
encontrar o caminho para ser obediente àquela voz” (Nouwen 1993, p. 
xvii). Retornarei oportunamente a esta temática a partirde Nouwen.
1.2. Sofrimento e integridade
A vida do ser humano (e do cristão) pode não ser (e como poderia ser?) 
apenas sofrer, mas indubitavelmente envolve sofrer. Aprendi com Nouwen 
que privar-se ou tentar se proteger do sofrimento é como que privar-se da 
própria vida – e de tudo o que podemos aprender com ela. Entendi que o 
sofrimento pode nos fazer mais humildes enquanto gente – ou pessoas 
de uma espécie amarga, dependendo de como o encaramos. 
O sofrimento me aproxima da, e me ensina a aceitar a fragilidade de minha 
condição. Também me aproxima de Deus e me faz vê-lo como um Todo-
Poderoso vulnerável, que nem sempre vai me livrar das dores da vida e 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão114
do mundo, mas que sofrerá comigo sempre que tiver de enfrentá-las, 
oferecendo inexplicável conforto. Aprendi também que mesmo um ser 
ferido pode se tornar fonte de cura para as pessoas. E que, como ministro 
da cura, preciso desfazer-me da ilusão de que serei capaz de explicar o 
mistério da dor do outro ou de aboli-la; ou de que poderei conduzir alguém 
para fora do deserto sem tê-lo experimentado em minha própria pele. 
Além disso, para enfrentar o sofrimento propriamente, preciso me afastar 
da ideia de um Deus indolente e distante, isto é: se Deus não é pessoal 
e, por isso, aberto para chorar comigo em minhas tristezas, tampouco 
será capaz de rir ao meu lado em minhas alegrias ou se regozijar na 
minha prosperidade. Em Jesus, assim como na experiência de Jó e de 
tantos outros, não consigo ver um Deus intocável e insensível de tão 
poderoso que possa ser, mas, por ser tão poderoso, enxergo um Deus 
que se “rebaixa” se for preciso para ter compaixão e misericórdia da 
minha miséria e que caminha comigo quantas milhas for preciso para 
meu amadurecimento – vide a ideia já explorada sobre a “mobilidade 
descendente”.
Esse é o sentido da espiritualidade para Nouwen. Não se resume na simples 
ideia de realizar performances e sacrifícios para Deus, mas em convidá-
Lo a entrar em nossas vidas de modo que Ele possa chorar com a nossa 
afl ição ao mesmo tempo em que aceitamos carregar a nossa cruz e, 
consequentemente, compartilhemos do sofrimento do amor de Deus por 
um mundo ferido e proclamemos libertação. Conforme ressalta, “assim 
como Jesus, quem proclama a libertação é convidado não só a cuidar dos 
próprios ferimentos e dos ferimentos do outro, mas também a fazer de seus 
ferimentos uma fonte maior do poder que cura” (Nouwen, 2001, p. 119). 
Para Nouwen, um ministro ferido pode e deve ser também um ministro 
que cura. Mas, para sermos “servos da cura”, antes é preciso identifi car, 
entender e aceitar nossa própria dor. “Nenhum ministro pode esconder 
sua experiência de vida daqueles aos quais quer ajudar” (Nouwen, 2001, 
p. 127), ao mesmo tempo em que não se pode empregar mal o conceito 
de ministro ferido defendendo uma forma de “exibicionismo espiritual”. 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 115
Esse é um tipo de equilíbrio que este autor encontrou contra possíveis 
questionamentos daqueles que, porventura, acharem que o conceito 
de ministro ferido é mórbido e doentio, contradizendo, por exemplo, a 
ideia de autorrealização, autoestima, autopreservação etc., tão usadas 
no contexto individualista moderno (o que inclui as nossas igrejas). 
Ou seja, vivemos nossas “vidas espirituais” como alpinistas de egos, 
parafraseando Philip Yancey. 
Tenho de reconhecer que não estou acostumado e nem gosto de falar 
de minhas próprias mazelas, nem tampouco de expô-las para que os 
outros vejam. Mas aprendi com Nouwen que “defeitos e fi delidade não 
suplantam um ao outro, mas coexistem”. Com Philip Yancey, falando 
sobre Nouwen, também testemunho meu aprendizado de que sofrimento 
e alegria podem caminhar juntos, que Deus pode usar todas as situações 
de nossa vida, até mesmo a dor que nunca vai embora (Yancey, 2004, p. 
328). Até porque, como bem nos faz lembrar o apóstolo Paulo, “o poder 
se aperfeiçoa na fraqueza”, de modo que “quando sou fraco então é que 
sou forte (2 Co 12:9,10). 
E porque esta espécie de ministro, defendida por Nouwen, pode ser 
chamado de um “ministro curador”, ou um “ferido que cura feridas”? Vou 
deixar com que Nouwen mesmo responda com suas palavras, escritas 
no livro O Sofrimento que cura:
É curador porque afasta a falsa ilusão de que integridade 
pode ser dada de um ser para outro. É curador porque 
não extrai a solidão e a dor do outro, mas convida a 
reconhecer sua solidão em um plano que possa ser 
partilhada. Muitas pessoas nesta vida sofrem porque 
estão procurando ansiosamente pelo companheiro, 
pelo evento ou encontro que as livrará da solidão. Mas, 
quando entram em uma casa de real hospitalidade, 
percebem logo que seus próprios ferimentos devem ser 
entendidos não como fontes de desespero e amargura, 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão116
mas como sinais de que têm que caminhar para frente, 
obedecendo aos sons do chamado de seus próprios 
ferimentos. (Nouwen, 2001, p. 133) 
O sofrimento, assim, pode ser um convite “a depositar nossas feridas e mãos 
maiores”, e para ver “Deus sofrendo por nós” e nos chamando a compartilhar 
este sofrer de seu amor por um mundo ferido. (Nouwen, 2003, p. 10)
Aprendi com Nouwen que ser cristão tem a ver com desenvolver-se como 
um ser humano inteiro, aceitando-se a si mesmo como amado de Deus, 
da maneira como se é e com a vida que lhe foi dada. Isto não signifi ca 
que tenho que me resignar a um modo de ser torto. Pelo contrário, implica 
que toda a minha vida pode ser abraçada como um processo em que, 
pela graça, estou a caminho de me tornar a pessoa que Deus projetou; 
nada vem fácil ou é instantâneo e nem se confunde com o meramente 
superfi cial. Parte-se, portanto, da compreensão de que o ser como um 
todo, bem como “tudo na vida, por mais insignifi cante ou difícil que possa 
parecer, abre-nos para a obra de Deus em nós” (Nouwen, 2003, p. 15). 
1.3. Alegria e tristeza 
Na vida e pensamento de Nouwen, pode-se notar, desse modo, um 
rompimento com dualismos perniciosos. Dentre eles, como já deve 
ter fi cado claro, está o dualismo que opõe alegria e tristeza. Em nosso 
mundo, costuma-se pensar que a alegria não pode conviver na mesma 
casa em que a tristeza está. Assim, a alegria signifi caria ausência de 
tristeza e a tristeza, ausência de alegria, parafraseando Nouwen. Quando, 
porém, olhamos para a vida em sua complexidade, vemos que muitas 
vezes elas andam juntas e estão até misturadas. E diria mais: a alegria 
que se vive se torna mais profunda quando se conhece o que é tristeza 
(retornarei a esse argumento no vídeo logo abaixo).
Acredito que uma das principais virtudes que Nouwen cultivava – 
mais acuradamente a partir dos últimos 10 anos de sua vida, em 
que ele conviveu de perto com o sofrimento e as limitações de seus 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 117
amigos da Arca – foi a de falar abertamente de suas próprias tristezas e 
alegrias, não só através dos muitos livros que escreveu, mas também nos 
relacionamentosinterpessoais, como testemunham algumas pessoas que 
com ele conviveram. Ele afi rma no livro Podeis Beber do Cálice que conviver 
diariamente com os membros defi cientes da comunidade Daybreak, o pôs 
em contato com suas próprias feridas e tristezas internas. Por outro lado, 
testemunha ele, “a alegria que surge ao viverem juntos em uma comunidade 
de fracos faz a tristeza não apenas tolerável, mas uma fonte de gratidão”. 
Texto de Apoio
Minha necessidade de ter amigos, afeição e aceitação estão 
exatamente aqui para que todos possam ver. Jamais vivi tão 
profundamente a verdadeira natureza do ministério pastoral: 
estar com o próximo em compaixão. O ministério de Jesus é 
descrito na carta aos Hebreus como sendo de solidariedade 
com o sofrimento humano. Chamar a 
mim mesmo de padre, hoje, me desafi a 
radicalmente a abandonar qualquer 
distância, todo e qualquer pequeno 
pedestal e toda e qualquer posição de 
poder, e me desafi a a associar minha 
própria vulnerabilidade à daqueles 
com os quais vivo. E que alegria isso 
traz! A alegria de pertencer, de fazer 
parte de algo, de não ser diferente. 
(Nouwen, 2003, p. 40, 41)
Nouwen diz que nossa concepção sobre a alegria é baseada no sucesso, 
no progresso e nas soluções fáceis para nossas mazelas e problemas. 
Volta e meia ouvimos na igreja que a alegria deve ser a marca distintiva 
do crente. Mas muitas vezes isso se torna algo do tipo “kit-viagem para 
o país das maravilhas com Alice e o coelhinho”, ou quem sabe não seria 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão118
uma espécie de “selo de qualidade cristã”: se você tem, tudo bem, mas 
se não tem, algo deve estar errado com sua fé. Quantas vezes, confesso, 
cheguei até a me culpar por ser induzido a pensar desse modo nada 
realístico com que alguns cristãos tratam de alegria e felicidade hoje, 
nada diferindo inclusive da alegria ópio que o mundo atual tem proposto, 
do sorriso estampado no rosto, pensamento positivo, muito dinheiro no 
bolso e “saúde para dar e vender”.
Não preciso contra argumentar muito para dizer que isso, apesar de 
muito comum, é uma perversão infantil do caminho subversivo de Jesus. 
Para Nouwen, o cristianismo de nossos tempos, hedonista, procura se 
desconectar completamente da realidade do sofrimento e da renúncia, 
ou mesmo da vida abnegada. É um cristianismo que busca vitórias sem 
esforços. Almejamos, de acordo com ele,
Crescimento sem crise, cura sem dores, ressurreição 
sem cruz. Não é de admirar que gostemos de assistir 
a desfi les militares e de aplaudir heróis que retornam, 
operadores de milagres e recordistas. Também não 
é de admirar que nossas comunidades pareçam 
organizadas para manter o sofrimento à distância. 
As pessoas são sepultadas de maneira a disfarçar a 
morte com eufemismos e ornamentação rebuscada. 
(Nouwen, 2002, p. 8)
A maneira de Jesus, porém, é tão diferente. Isto porque, como afi rma 
Nouwen (1997, p. 128), Jesus “foi o homem das dores, mas também o 
homem da total alegria”. Ele não veio eliminar as dores, mas ajudar-nos 
a enfrentá-las com o realismo e a esperança que a vida nesse mundo 
requer, na perspectiva da graça e do amor de Deus, que padece junto com 
o sofrimento da humanidade. Ora, mas esse Jesus em nome de quem 
declaramos, determinamos, fazemos brados de vitória, repreendemos 
o inimigo, os infortúnios e as doenças que nos assolam, choramos, 
gritamos, esperneamos, rimos, batemos palma, rolamos no chão, nos 
declaramos perdidamente apaixonados por ele, não é o mesmo Jesus 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 119
que disse: “No mundo, passais por afl ições; mas tende bom ânimo; 
eu venci o mundo” (Jo 16:33)? E tudo isso, lembrando, ele disse aos 
discípulos para que estes tivessem paz. 
Exercício de reflexão
À luz das considerações acima, proponho que refl ita sobre a 
seguinte questão: será que em nossa compreensão triunfalista 
da fé e ilusória da alegria, existe lugar para se conceber uma paz 
que não signifi ca apenas “ausência de confl ito”, mas que se faz 
presente especialmente nos lugares de dor? Como podemos ser 
honestos com a vida, com as pessoas, com Deus e com nossos 
próprios sentimentos diante das perdas, e ainda assim, celebrar?
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Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do 
professor!
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Em lugar de toda a balbúrdia espiritualista, Jesus (e Nouwen) nos convida 
a abandonar a frivolidade do caminho fácil e também do fatalismo 
e desesperança, a deixar de lado nossos falsos gritos de “Aleluia”, ao 
mesmo tempo em que oprimimos nosso povo fabricando ilusões 
religiosas e, com elas, crentes imaturos e doentes, para seguir seus 
passos e viver em seus caminhos, a romper as cadeias que ele rompeu, 
sofrer nossas próprias dores, não só as inerentes à vida, mas também 
aquelas inseparáveis do exercício da fé cristã na vida. Nas palavras de 
Nouwen (2002, p. 9):
Cristo convida-nos a permanecer em contato com os 
muitos sofrimentos de cada dia e a experimentar o começo 
da esperança e da nova vida, justamente aí onde vivemos, 
no meio das feridas, dores, falência. (...) terei menor 
tendência a negar meu sofrimento quando aprender que 
Deus o usa para moldar-me e atrair-me para mais perto de 
si. Deixarei de ver minhas dores como interrupções dos 
meus planos e serei mais capaz de vê-las como meios 
de Deus fazer-me pronto a recebê-lo. Deixarei Cristo viver 
junto às minhas dores e perturbações.
Aprendi com ele, portanto, que “o cálice da vida é o cálice da alegria 
tanto quanto é o da tristeza. É o cálice no qual tristezas e alegrias, dor e 
felicidade, luto e dança nunca se separam. Se as alegrias não pudessem 
estar onde as tristezas estão, o cálice da vida jamais poderia ser bebido” 
(Nouwen, 2002, p. 42). 
Podcast 
“O legado da alegria”
Professor
Acesse o AVA para ouvir a refl exão! 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 121
1.4. Comunidade
Vida cristã é vida em comunhão. Comunhão que cria a comunidadea 
partir do desejo que Deus cria em nós: “O Deus que vive em nós faz com 
que reconheçamos o Deus em nossos semelhantes” (Nouwen, 2005, p. 
62). Comunidade que se manifesta em formas concretas: no perdão, na 
reconciliação, no gesto de amor, compaixão, preocupação com o outro, 
na repreensão e no confl ito, na intimidade, na amizade, no partir do pão. 
Com Nouwen, aprendi que a eucaristia (do grego εὐχαριστία, que signifi ca 
“gratidão” ou “reconhecimento”) é muito mais que mero ritual, é um “gesto 
humano” que relembra uma dupla presença: a do Cristo com quem me 
comprometo, e a do irmão e da irmã com os quais me envolvo por causa 
de Cristo. Como Cristo “se deu” em favor de muitos, o gesto eucarístico 
signifi ca doar o que temos de mais precioso – nossa própria vida – em 
favor de nossos amigos. Rendemos mais graças quando nos rendemos.
Segundo Nouwen, mais do que a eucaristia em si, a “vida eucarística” é 
que faz a diferença no dia a dia, quando o beber e o comer do sangue 
e do corpo de Jesus é um sacramento-sinal do compromisso de uma 
vida disponível aos outros. Essa compreensão permitiu que Nouwen 
respirasse e vivenciasse a experiência de ser igreja até mesmo em 
reuniões íntimas com familiares e amigos. Ele disse: 
Todos os dias celebro a eucaristia. Às vezes na igreja de 
minha paróquia, com centenas de pessoas presentes, 
às vezes na capela de Daybreak, em Toronto, Canadá, 
com minha comunidade, às vezes em um quarto de 
hotel, com alguns amigos, e às vezes na sala de estar 
de meu pai, apenas ele e eu. (Nouwen, 2005, p. 9)
O resumo que eu faria da mensagem de Nouwen sobre a comunidade dá o 
tom de sua espiritualidade: não há um só ser humano que não receba o convite 
permanente para participar do banquete de celebração do amor do Pai.
Sua paixão por Jesus e pelas pessoas se expressou em um enorme 
apreço e fi delidade à Igreja, como pouco se vê em nossos dias. Embora 
fosse um contemplativo crítico da realidade, era raro ver Nouwen fazendo 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão122
críticas muito duras ou usando de acidez e sarcasmo para falar da Igreja. 
Mesmo em sua verve profética era possível perceber uma ternura sábia 
e um olhar esperançoso. As maiores transgressões de Nouwen eram 
transgressões de si mesmo, sempre que falava abertamente de seus 
pecados, idiossincrasias e temores. Essa foi também a sua maior arte, 
seu jeito de ser discípulo e ser humano, e sua forma de tomar a cruz.
Exercício de aplicação
Infelizmente, ainda reduzimos a Igreja de Cristo, organismo vivo formado 
por pessoas, a uma organização, um templo e uma instituição. Para muitos, 
essas coisas não são meras funcionalidades, mas o centro do que a igreja 
é: um espaço no qual pessoas se reúnem em busca de transcendência. 
Por essa razão, como lembra David Engel (1964, p. 197), “parece haver 
um entendimento muito pequeno de que o motivo dessa reunião é para 
que o povo seja enviado em uma compreensível e comunicável missão”. 
Assim, ele conclui que, de forma geral, “ainda pensamos na igreja como um 
lugar para ir ao invés de algo que somos chamados a ser”. Desse modo, a 
eucaristia torna-se apenas mais uma prática religiosa realizada nesse lugar 
para o qual vamos, e não um gesto humano que expressa o modo de ser da 
Igreja, conforme o modo de ser de Cristo. 
À luz do que foi discutido no último tópico, o que a sua comunidade de fé 
deveria fazer para mudar essa realidade?
a) Ela deveria tornar o momento da celebração da eucaristia (ou da 
Santa Ceia) uma prática que se faz presente em todas as reuniões 
da igreja, pois a abundância da prática é diretamente proporcional à 
abundância do compromisso.
b) Ela deveria utilizar o momento de celebração da eucaristia como 
apenas um dos sinais exteriores da vida eucarística, ensinando a seus 
membros que a doação de si mesmo, sua vida e seus dons, é o que 
torna esse memorial tão signifi cativo e vivo para a Igreja de Cristo.
Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do 
professor!
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 123
Recapitulando: até aqui aprendemos, a partir do exemplo de vida de 
Henri Nouwen, seu legado deixado por meio de seus muitos escritos e, 
em especial, na vida de tantos que por ele foram direta e indiretamente 
tocados, que a espiritualidade cristã é um caminho de integridade, no 
qual nos empenhamos em ouvir a voz que nos chama de “amados” e a 
obedecê-la, por onde quer que andemos, resistindo aos muitos apelos 
do mundo ao nosso redor. Por ser um caminho de integridade, a vida 
do discípulo ou do espiritual não é uma vida dividida, mas é uma vida 
em que corpo e espírito são uma e a mesma coisa, em que os traços da 
humanidade caída nos perseguem ao mesmo tempo em que perseguimos 
o caminho de santidade para o qual fomos graciosamente chamados. 
Esta indivisibilidade, portanto, não nos permite separar tristezas de 
alegrias, sofrimento de vitórias, assim como no caminho de Jesus não 
se separam a cruz e a ressurreição.
2. A missão da espiritualidade na Missão
Meu foco inicial nessa segunda parte da unidade será pensar na 
motivação da missão (o que diretamente a atrela à espiritualidade), 
perguntando: que força é essa que nos determina a ir ou a permanecer, a 
agir ou a não agir, a falar ou a permanecer calados? Como reconhecemos 
e/ou discernimos esta força ou esta voz que nos impele a algo? Quem é, 
afi nal, o “sujeito” da missão? 
Há uma canção cristã contemporânea – “Eu tenho um chamado”, da 
banda 4X4 – que expressa bem o que gostaria de tratar aqui. No refrão 
desta canção, lemos o seguinte: 
“Eu tenho um chamado, jamais vou me calar/ Eu tenho 
um chamado, o evangelho anunciar/ Eu fui escolhido 
no ventre da minha mãe/ Eu sei que Deus não abre mão 
de mim não...”. 
Sei que muito provavelmente você já deve ter escutado e/ou cantado esta 
música e até goste dela, por isso serei muito pontual aqui. Minha intenção 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão124
é analisar sua letra aqui do ponto de vista missiológico, sem a pretensão 
de julgar a espiritualidade ou a sinceridade de quem a produziu – no 
máximo, revelar algumas idiossincrasias, que apontam para o espírito de 
uma época ou mesmo uma tendência no universo gospel. 
Dito isto, o primeiro aspecto notável nessa parte da canção – e que já não 
é mais nenhuma novidade ou absurdo – é a quantidade de vezes em que 
se repete o pronome pessoal “eu”. Desde a primeira parte da canção, tudo 
já indicava que o foco reside sobre esse “eu”: o vento que sopra “sobre 
mim”, os problemas que tentam “me abater” e, por fi m, como contraposto 
motivacional, vem a lembrança de que o “Grande EU SOU me enviou”. 
Chama atenção, num primeiro plano, esse lugar-comum da atitude cristã 
de vencer os problemas pessoais, quase como que uma obrigação 
moral. Nesse viés, o crente deve ser vitorioso por natureza. Se não vence, 
é vencido: pelo Diabo, pelas tentações, pelo mundo, por si mesmo. 
No entanto, Paulo por tantas vezes nos ensinou em suas cartas que a 
perseverança e esperança em meio às tribulações da vida fazem parte do 
lugar próprio do cristão – que não se rendepor saber que seu Senhor não 
se cansa – mas isso não o faz melhor nem mais especial que ninguém, 
nem sempre “vitorioso” em tudo – precisamos, inclusive, rever o sentido 
da expressão paulina, muito repetida nas igrejas, de que “somos mais 
que vencedores”. No entanto, parece-me que a mensagem subentendida 
aqui é a de que “eu sou especial” porque “Deus me escolheu” para realizar 
uma missão especial no mundo que é a de ir e anunciar o evangelho – 
ênfase da Grande Comissão de Marcos –, o que revela não apenas que, 
para o autor, missão é “pregar a Palavra”, mas um segundo importante 
aspecto, que é a noção quase militar de que o chamado é meu, a missão 
é minha, afi nal, fui escolhido no ventre da minha mãe e, portanto, sou 
indispensável, pois sei que “Deus não abre mão de mim não”. 
Sério mesmo? Deus não abre mão de mim? Quem é o ser humano para 
afi rmar que “Deus não abre mão” dele/a, e o que isso signifi ca, afi nal? 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 125
Parte do espírito desta canção lembra-me de duas coisas lamentáveis: 
primeiro, que o individualismo defi nitivamente tomou conta de nossos 
cânticos, de modo que pouco lugar resta para a comunidade, a realidade 
ou a cruz; segundo, que se vê refl etida não apenas na teologia de nossos 
cânticos, mas também em nossos atos litúrgicos em geral, o que se 
poderia chamar de “síndrome dos fi lhos de Deus”, a que nem Jesus, o Filho 
unigênito, cedeu. Ele não se jogou do pináculo, nem transformou pedras 
em pão ou aceitou todos os domínios da terra simplesmente porque o 
Diabo por três vezes o provocou dizendo “se és o fi lho de Deus”, faça 
isso ou aquilo (cf. Mt 4:1-11). Não era necessário duvidar ou reafi rmar 
sua identidade com atos ou discursos portentosos, pois para ele bastava 
a confi rmação da voz dos céus que em seu batismo no Jordão disse: 
“Tu és o meu fi lho amado, em quem eu me comprazo” (Mt 3:17). Quem 
é, é, e não precisa fi car repetindo isso como um mantra, como instiga a 
espiritualidade demoníaca. 
O equívoco de pensar que a missão é minha, em si, evoca também outros 
equívocos como, por exemplo, o de propagar a ideia de ministérios como 
algo de possessão pessoal (o “meu ministério”), ou mesmo de afi rmar 
coisas como “a minha igreja” ou a “igreja do pastor ou do bispo fulano de 
tal”. Isso se tornou tão comum que poucos percebem que não se trata 
apenas de uma questão de linguagem, mas de uma questão de poder, 
ou melhor, de deslocamento de poderes e da ausência completa do bom 
senso bíblico. A graça da espiritualidade é que ela implica no exame 
constante de si mesmo e suas motivações e na penetração no que há de 
mais profundo e, portanto, quase sempre oculto no ser – como a ânsia 
por poder, muito evidente nessas alegações acima referidas, embora 
nem sempre para todo mundo. 
Por isso é reducionista a visão que associa espiritualidade com 
performances, o que representa na verdade o seu esvaziamento e denota 
sua superfi cialidade. Esvaziamos a espiritualidade quando focamos 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão126
demais nas supostas demonstrações e desviamos o olhar sobre o 
coração. Jesus foi quem desmascarou esse mise en scène religioso 
quando – em resposta à acusação feita pelos fariseus aos discípulos, 
dizendo que eles transgrediam a tradição dos anciãos, por não lavarem 
as mãos quando comiam – ele disse: “Ouvi e entendei: não é o que entra 
pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, 
contamina o homem”, uma vez que “do coração procedem os maus 
desígnios” (Mt 15:2,11,19). 
Por isso penso que estas práticas deveriam compor a formação de líderes, 
pastores e missionários cristãos como sendo essenciais: o exame do 
coração e o autoconhecimento. Isso quer dizer que, por um lado, nos 
equivocamos e pecamos porque desconhecemos a nós mesmos. O 
tempo e as variadas situações vão revelando o ser e a disposição de 
cada pessoa, escondidos muitas vezes por trás de uma redoma muito 
frágil de proteção. Nesse sentido, não me esqueço da pergunta (que vejo 
como central) de um dos personagens do fi lme Crash, no limite: “Você 
acha que se conhece?”. No que a dor, o apuro, a pressão, a doença, a 
perda, o poder, o sexo, o dinheiro, o moralismo, a violência, a raiva, o 
descontrole, e as paixões como um todo podem nos transformar? Ou 
melhor: o que essas situações normalmente revelam a nosso respeito? 
Não parece ser à toa que a máxima de Friedrich Nietzsche no prefácio à 
Genealogia da Moral continua sendo útil, mesmo para fi ns teológicos ou 
especialmente para eles. Dizia ele que “nós, homens do conhecimento, 
não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos. Nunca nos 
procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos?” 
(Nietzsche, 2007, p. 7). 
Por esta razão é que me recuso a reduzir a mim e aos outros a rótulos 
fáceis, baratos e que desmancham no ar. Afi nal, quem sabe o dia de 
amanhã? Quem conhece a própria reação ao próximo ato, à circunstância 
seguinte? Quem pode prefi gurar o rosto que terá de enfrentar na próxima 
vez em que se vir diante de um espelho? 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 127
Exercício de aplicação
Em contrapartida, um dos salmos mais lidos e conhecidos da Bíblia, 
lemos a seguinte oração do salmista: “Sonda-me, ó Deus, e conhece 
o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se 
há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 
139:23-24). O que esta oração signifi ca e que benefício direto ela 
traz para a espiritualidade cristã, à luz da pergunta do fi lme – “você 
acha que se conhece?” – acima citada?
a) Signifi ca que, por mais que mergulhemos na escola 
do autoconhecimento, apenas Deus conhece e sonda 
profundamente nossas intenções e motivações, o que 
torna a oração do salmista Davi ainda mais necessária, real 
e libertadora: um verdadeiro exercício de honestidade e 
dependência de Deus.
b) Signifi ca que, ao render nossos pensamentos e vida interior 
a Deus em oração, não precisamos mais nos preocupar com o 
autoconhecimento, pois já somos conhecidos por Deus e isso 
basta!
Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do 
professor!
Numa outra face da mesma moeda, nosso equívoco e pecado provêm 
também do desconhecimento ou ignorância em relação à origem e 
natureza da Missão. E aqui preciso apenas trazer de relance um assunto 
que você aprenderá em breve na disciplina de “Teologia Bíblica da 
Missão”: Missão é, antes de tudo, Missio Dei ou Missão de Deus. Qualquer 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão128
motivação que nos impulsione ou papel que nos caiba precisa ser 
gestado e gerido dentro do horizonte dessa Missão. A missão da igreja, 
nesse sentido, é assumir, na dependência do Santo Espírito, o privilégio 
de participar na Missão de Deus, que, na defi nição de David Bosch(2002, 
p. 28, grifo meu), consiste na “autorrevelação de Deus como Aquele que 
ama o mundo, o envolvimento de Deus no e com o mundo, a natureza e a 
atividade de Deus que compreende tanto a igreja quanto o mundo, e das 
quais a igreja tem o privilégio de participar”. 
Perceba o destaque que faço à palavra “privilégio”, em detrimento da ideia 
de obrigação ou de uma diretriz pessoal, como a que se vê na canção 
“Eu tenho um chamado”. Isto signifi ca que “eu” não tenho uma missão, 
um ministério ou uma igreja, mas participo, pela graça, na Missão que 
é de Deus, e da mesma forma da Igreja (rebanho e povo de Deus) e do 
Ministério (serviço) na força que Deus supre. O contrário disso, que nunca 
fi ca apenas no deslize gramatical, facilmente se degenera em um projeto 
de poder – e como fugir dele? –, isto é, em concorrência e não cooperação 
com Deus e seu reino. Pensando com Bosch, antes mesmo da fundação 
do mundo e de nós mesmos, a natureza de Deus é Missão, porque Deus é 
amor. Assim, de acordo com Bosch (2002, p. 63), “a missão da igreja não 
vai inaugurar o reinado de Deus, porém o possível fracasso dessa missão 
também não o vai frustrar. O reinado de Deus não é um programa, e sim 
uma realidade, introduzida pelo acontecimento pascal”. 
Em resumo: pelo que estudamos até aqui, concluo que a espiritualidade 
é necessária à missão no exame de nosso lugar e motivações nela, e 
a missão coloca a espiritualidade nos trilhos de um propósito maior, 
que vai além do êxtase e da busca individual e desemboca na luta pela 
transformação da realidade vivida por cada pessoa no mundo, em 
resposta à vocação singular a ela conferida – assunto do próximo tópico. 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 129
3. A espiritualidade como busca e resposta a uma vocação
Até aqui, os elementos do chamado e da vocação apareceram mais como 
pretexto para uma discussão sobre as motivações que nos impelem à 
missão que, como vimos, não é nossa nem tem origem em nós, mas em 
Deus. Aqui gostaria de endereçar uma refl exão mais específi ca sobre a 
vocação pensando-a como tema essencial e caro tanto à espiritualidade 
quanto à missão. 
3.1. O sentido da vocação
Todos sabem que a palavra “vocação” tem a ver com um chamado ou a 
inspiração que vem do Senhor, que nos presenteia com dons e talentos 
e nos convida a fazer uso deles no serviço ao reino e à Missão de Deus. 
Envolve desempenho – como no caso do mestre, que com sabedoria 
e destreza ensina, ou do escritor, que traduz pensamentos, imagens e 
conceitos em palavras – porém é mais que desempenho, é a impulsão 
do ser rumo à sua plena realização em Deus. Vocacionado/a não é quem 
“faz” para “ser”, mas quem “faz” porque “já é”, isto é, o fazer é resultado 
natural do ser. Nesse sentido, nem todo mundo que faz alguma coisa 
o faz por força da vocação; alguns fazem por necessidade, outros por 
oportunismo, e assim por diante. E não há nada como o fazer que segue 
não o ímpeto do ativismo, mas da vocação; não por força ou obrigação, 
mas na liberdade do Espírito; não por ambição, mas por obediência.
A parte difícil dessa história toda é que o saber-ser e o ser-saber da 
vocação não se adquirem de modo instantâneo, necessariamente óbvio 
e de uma vez por todas. Ou seja, a convicção de que Deus nos chama 
para um modo de ser-no-mundo e para uma tarefa específi ca – como a 
de ser pastor, missionário, médico, político ou professor – não surge com 
a indicação prévia do caminho a ser percorrido, nem de quando, onde 
ou como, pelo menos não do modo como vejo. Faz parte do processo 
de maturação da vocação divina no ser humano o prazer da busca, a 
necessidade de discernimento, a aventura do caminhar, o risco da 
decisão. Por isso, é praticamente impossível ser honesto e ao mesmo 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão130
tempo assentir com a percepção da vocação como um lugar infl exível 
– como quem afi rma: “Deus me chamou apenas para ser professor de 
teologia” – combinada com uma visão tão pouco condescendente com 
a realidade e a variedade da condição humana sobre a vontade de Deus. 
Gostaria de me deter um pouco nestes dois aspectos, partindo da aporia: 
sim, posso ter um chamado, mas e daí? Em que isso me torna, a quem 
devo, para onde me conduz, e o que pretendo fazer com isso? 
Essas questões nos conduzem a outras mais difíceis: O que é a vontade 
de Deus? Como conhecê-la? O que fazer para cumpri-la? Esse é um 
mistério que tem permeado a vida de pessoas ao longo de milênios. O 
jeito com que se trata esse assunto é o que gostaria de refl etir aqui. Não 
há dúvida de que, ao lermos as Escrituras, encontramos o princípio de 
que viver bem, com temor e dignamente signifi ca dispor a vida para andar 
conforme a vontade do Senhor. Converter-se a Cristo, em parte, também 
é isto: permitir que nossa vontade saia cada vez mais de cena, a fi m de 
dar lugar a uma vontade maior e soberana: a de Deus. O ponto para mim, 
porém, é: se temos consciência, quando buscamos a vontade de Deus, 
do que envolve esse “andar conforme”. 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 131
Texto de Apoio
1 Ouve, Senhor, a minha oração, dá ouvidos à minha súplica; 
responde-me por tua fi delidade e por tua justiça. 
2 Mas não leves o teu servo a julgamento, pois ninguém é justo 
diante de ti. 
3 O inimigo persegue-me e esmaga-me ao chão; ele me faz 
morar nas trevas, como os que há muito morreram. 
4 O meu espírito se desanima; o meu coração está em pânico. 
5 Eu me recordo dos tempos antigos; medito em todas as tuas 
obras e considero o que as tuas mãos têm feito. 
6 Estendo as minhas mãos para ti; como a terra árida, tenho 
sede de ti. 
7 Apressa-te em responder-me, Senhor! O meu espírito se 
abate. Não escondas de mim o teu rosto, ou serei como os 
que descem à cova. 
8 Faze-me ouvir do teu amor leal pela manhã, pois em ti confi o. 
Mostra-me o caminho que devo seguir, pois a ti elevo a minha 
alma.
9 Livra-me dos meus inimigos, Senhor, pois em ti eu me abrigo. 
10 Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; que 
o teu bondoso Espírito me conduza por terreno plano. 
11 Preserva-me a vida, Senhor, por causa do teu nome, por tua 
justiça, tira-me desta angústia. 
12 E no teu amor leal, aniquila os meus inimigos; destrói todos os 
meus adversários, pois sou teu servo. (Salmos 143:1-12, NVI)
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão132
O salmo 143 de Davi – humano, honesto e orgânico – servirá como ponto 
de partida aqui. Antes de tudo, trata-se de uma oração, de uma súplica. 
Normalmente, nós suplicamos com mais força quando sofremos. E é o 
que está acontecendo com Davi. Diante dos muitos confl itos que enfrenta, 
apela para a justiça e fi delidade divinas (v. 3). Mostra-se muito angustiado 
e com o coração afl ito, “em pânico” (v. 4). Costumo dizer que a angústia 
não podeser desprezada, pois é uma das avenidas que nos conduzem 
aos braços de amor de Deus. Mas nem sempre conseguimos lidar com 
esse sentimento. Tratamos a angústia como se ela fosse um peso, uma 
ferida aberta, uma faca cravada no peito da gente. E muitas vezes ela 
tem a ver com frustração, com medo, com sentimento de rejeição e 
abandono, e com as incertezas. Então, acelerados em querer sair logo 
dessa situação incômoda, suplicamos para que Deus se apresse a nos 
responder, a dar um rumo defi nitivo. Mas descobrimos que na vida não há 
rumos defi nitivos – nem a morte, biblicamente falando, é um rumo defi nitivo. 
E o mais duro golpe aos apressados é ter que lidar com as indefi nições, 
incertezas e dúvidas que fazem parte da vida de qualquer pessoa comum. 
Dessa forma, a “vontade de Deus” vai se tornando a fórmula religiosa 
para expiar tudo o que é indesejável, como também para alimentar o 
que se deseja. Daí surgem as distorções, tais como: a pregação de que 
precisamos estar no “centro da vontade de Deus”; que cada detalhe da 
vida não pode fugir do plano de Deus para nós; que a vontade de Deus é 
isso, e não pode ser aquela outra coisa; se desastres acontecem, devemos 
acreditar e ensinar que foi “da vontade de Deus”; se o avião não saiu 
do aeroporto, era propósito de Deus, porque certamente consequências 
trágicas poderiam ocorrer; se perdi um emprego, foi Deus quem quis, 
pois estava preparando um ainda melhor pra mim, e assim por diante. 
Privatizamos a vontade de Deus e, quando assim fazemos, facilmente 
confundimo-la com nossas vontades.
A chave do Salmo 143, para mim, vem quando, do desespero, Davi pede 
que o Senhor o ajude quando tiver que escolher o caminho a se andar (v. 
8); quando roga para que o “ensine a fazer sua vontade” (v. 10). A vontade 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 133
é de Deus, mas a escolha é nossa. E Deus só pode ensinar sua vontade 
a quem quiser aprender, quem se lança na aventura de aprender, pois 
é vivendo (errando e acertando, sofrendo e mudando) que se aprende. 
Por isso repito que discernir é preciso! O salmista (119:27) também ora: 
“Faze-me discernir o propósito dos teus preceitos, então meditarei nas 
tuas maravilhas”. Na tradução A Mensagem: “Ajuda-me a entender estas 
coisas de dentro pra fora”. Entender de dentro para fora é encarnar a 
mensagem, deixar que ela faça morada na gente, nos confronte, nos 
inquiete, nos transforme, e assim se torne viva para nós, em nós e através 
de nós. Parafraseando Nietzsche, as melhores verdades são as verdades 
sangrentas – isto é, que brotam de dentro da vida e se aplicam a ela. 
Portanto, posso concluir que a vontade de Deus não se mostra 
instantaneamente; a vontade de Deus se experimenta e se pondera, pela 
renovação da mente (cf. Rm 12:2). Como podemos entender a vontade de 
Deus? Como um mistério revelado que só se compreende e se experimenta 
na medida em que se caminha e em que se vai à luta. E, como diz a poesia 
de Sérgio Vaz, “milagres acontecem quando a gente vai à luta”.
Ademais, como bem analisa Jacques Ellul (2006, p. 65, 66), Deus é livre 
para fazer sua vontade e a realiza em total liberdade, de modo que:
Não há razão, motivo, causa ou condição para a 
vontade livre de Deus. Deus é Deus. Ele fala, e as coisas 
acontecem. (...) Não existem planos pré-concebíveis, 
discerníveis ou revelados. Não há sinal premonitório 
que possamos calcular. Não há passagem de tempo 
que corresponda a períodos históricos. Não há obras, 
nem êxito em missões, nem igrejas, não há propagação 
do evangelho, nem excesso de sofrimentos humanos 
que nos permitam dizer: “É amanhã...”. A Palavra que 
dirá isso virá a nós como águia, quando ninguém 
espera, quando ninguém espera mais nada. 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão134
3.2. Nouwen e a vocação
O exemplo de Henri Nouwen, como narrado no começo, é, de novo, uma 
amostra concreta de onde quero chegar com esta refl exão. Utilizo sua 
experiência sem pretender absolutizá-la, mas ensejando pensar que 
existem outros caminhos possíveis de se lidar com a questão da vocação e 
com a “certeza do chamado”. Quando decidiu passar um período sabático 
de seis meses viajando pela América Latina, Nouwen tinha 51 anos de idade 
e 25 de ministério ordenado; a esta altura já havia alcançado notoriedade 
mundial como escritor de livros, a maioria sobre espiritualidade. 
No entanto, mesmo após anos dedicados à igreja, à escrita e ao 
magistério, a pergunta pela vocação permanecia viva e aberta e, de 
certo modo, indefi nida. Prova disso é seu diário do tempo que passou na 
América Latina, que foi publicado em livro sob o título Gracias! A Latin 
American Journal. A pergunta central que o guiou durante aquele tempo 
era: “Deus está me chamando para viver e trabalhar na América Latina 
nos anos seguintes?” (Nouwen, 2005, p. xvii). Em meio às atividades, 
viagens, conversas e encontros que teve em vários países pelos quais 
passou, Nouwen afi rma ter tentado discernir a voz de Deus e seguir um 
caminho de obediência àquela voz. E discernimento permanece sendo 
uma das palavras-chave para a compreensão e vivência da vocação e da 
vida em missão. O discernimento não necessariamente traz direção, mas 
nos ajuda a ser honestos para com a difícil jornada que temos adiante, 
como expressa Nouwen (2005, p. 13):
Somos chamados a discernir cuidadosamente os 
movimentos do Espírito de Deus em nossas vidas. 
Discernimento se mantém sendo nossa tarefa para a 
vida toda. Eu não consigo enxergar outro caminho para 
o discernimento que não seja uma vida no Espírito, 
uma vida de oração incessante e contemplação, uma 
vida de profunda comunhão com o Espírito de Deus. 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 135
(...) Nós certamente cometeremos erros constantes e 
com frequência veremos a pureza do coração sendo 
requisitada para tomar as decisões certas. Podemos 
nunca saber se estaremos dando a César o que pertence 
a Deus. Mas quando continuamente tentamos viver no 
Espírito, pelo menos estaremos dispostos a confessar 
nossa fraqueza e a pedir perdão toda vez em que de 
novo nos encontrarmos a serviço de Baal. 
Assista o vídeo! “A vida do amado”
por Henri Nouwen
Acesse o AVA para assistir!
É preciso, portanto, percorrer o caminho, enfrentar a questão com 
discernimento, mesmo que não se obtenha uma direção clara. E observe 
que Nouwen não é daqueles autores que propõem uma vida no Espírito, 
de oração e comunhão com Deus, como fórmula mestra para que Deus se 
apresse, ou para que tenhamos total certeza de que estamos “no centro 
da vontade de Deus” – que, diga-se de passagem, é uma pretensão. 
Pelo contrário, ele diz que esse tipo de vida nos ajuda na tarefa do 
discernimento, bem como a lidar com as constantes incertezas, assim 
como a tratar nosso eventuais equívocos e desvios, que acontecem e 
sempre acontecerão. Por isso a necessidade de arrependimento; e só é 
passível de se arrepender quem reconhece a própria fraqueza e admite 
não ter todas as respostas – como me parece ter sido o caso de Nouwen.
Ao retornar desse período na América Latina, Nouwen tinha apenas a 
clareza de queseu desejo de servir os pobres do mundo era genuíno e 
real, mas que não seria na América Latina. Ele passou a receber cartas de 
Harvard, que lhe ofereceu uma posição como professor ali. Mesmo não 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão136
aceitando o emprego em tempo integral, um semestre por ano, de 1983 
a 1985, Nouwen lecionou na Harvard Divinity School, sendo ali aclamado 
como professor, com classes sempre lotadas de estudantes ávidos por 
ouvi-lo. Mais uma vez, porém, ele percebeu, como relatou em um de 
seus diários, que quanto mais se via cativo à ambição (de sua carreira, 
seu ministério), mais difícil era enxergar aqueles que são cativos pela 
pobreza. De novo, havia a certeza da vocação original, de ser um ministro 
da cura, um “curador ferido”, como ele mesmo denominou em um de seus 
livros (2001), ou um “profeta ferido”, nos dizeres de Michael Ford (2005), 
porém permanecia a incerteza do caminho. 
Em 1985 Nouwen recebeu um convite do francês Jean Vanier, fundador 
da Arca – uma instituição responsável por cuidar e ser comunidade para 
pessoas com defi ciência mental – para passar um ano sabático em uma 
das comunidades da Arca, em Trosly, na França. Para Nouwen, foi um 
ano de descobertas, de experiências novas e inusitadas, e para discernir 
se aquele era um caminho para uma melhor realização de vocação no 
reino de Deus, como sentida naquele momento. Ao fi nal daquele período, 
Nouwen fi nalmente decidiu que sua vocação dali para diante seria ser 
um membro e ministro de cura na Comunidade A Arca, em Toronto no 
Canadá, onde permaneceu pelos dez últimos anos de sua existência. Por 
essas experiências, concluiu que “às vezes a maneira de saber onde você 
é chamado a estar é indo onde sente que deve ir e estar presente naquele 
lugar. Logo saberá se aquele é o lugar que Deus quer ou não que esteja” 
(Nouwen, 2013, p. 102). Vocação não é apenas uma questão de “chamado”, 
mas também de escolha e do risco de cada decisão. O lugar não é o mais 
importante; fundamental é manter viva a chama do relacionamento.
Assim, Nouwen fi nalmente se encontrou, pois compreendeu que a 
questão da vocação não está ligada principalmente ao lugar em que 
atuamos, servimos e vivemos, mas com a constante abertura do coração 
para Deus e o que Ele quer fazer por meio de nós, tornando-nos agentes 
de sua Missão onde quer que estejamos. 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 137
Texto de Apoio
Como Nouwen concluiu na parte fi nal de Gracias!, soando um 
tanto como o apóstolo Paulo:
Hoje eu me dei conta de que a questão de onde viver e o 
que fazer é realmente insignifi cante se comparada com a 
questão de como manter os olhos do meu coração focados 
no Senhor. Posso estar lecionando em Yale, trabalhando na 
padaria da Abadia de Genesee, ou caminhando por aí com 
as crianças pobres no Peru e me sentir totalmente inútil, 
miserável e deprimido em todas essas situações. Estou certo 
disso porque é o que aconteceu. Não existe tal coisa como o 
lugar certo ou o emprego certo. Posso estar feliz ou infeliz em 
todas as situações. Estou certo disso porque tenho estado. 
Tenho me sentido consternado e jubiloso em situações 
de abundância tanto quanto de pobreza, em situações de 
popularidade e anonimato, em situações de sucesso e de 
fracasso. A diferença nunca foi baseada na situação em si, 
mas sempre em meu estado de mente e coração. Quando 
sabia que estava caminhando com o Senhor, sempre me 
senti feliz e em paz. Quando me vi preso em minhas próprias 
reclamações e necessidades emocionais, sempre me senti 
cansado e dividido. 
(Nouwen, 2005, p. 152) 
Com Nouwen aprendo, portanto, mais uma lição: que o mais importante 
não é tanto a certeza da vontade de Deus sobre onde se deve estar, a 
segurança da posição que se ocupa numa organização, ou se está ou não 
“no caminho certo” ou inequívoco da vontade de Deus; mais importante 
que saber o caminho, é percorrê-lo, enfrentando percalços, colhendo 
frutos, experimentando sucessos e insucessos, e amadurecendo na fé, 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão138
de preferência ao lado de Jesus, caminho, verdade e vida. Como diz a 
poesia de Antonio Machado, “caminhante, são teus passos o caminho e 
nada mais; caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar”. 
4. O lugar da fraqueza na espiritualidade da missão
Finalmente, gostaria de falar sobre a importância de assumirmos e 
lidarmos com nossas fraquezas enquanto caminhamos pela vida 
em missão. Para tanto, quero iniciar examinando duas afi rmações. A 
primeira é de David Bosch, que diz: “A verdadeira missão é a mais fraca 
e menos impressionante atividade humana que se pode imaginar, a 
própria antítese de uma teologia da glória” (Bosch, 1988, p. 76). Bosch 
não está sozinho nesta percepção. José Comblin também escreveu algo 
nesta direção, eventualmente servindo de inspiração ao próprio Bosch 
em sua abordagem à espiritualidade missionária de Paulo: “A fraqueza 
não é nenhum acidente da missão, nenhuma circunstância que se tenha 
que lamentar. Muito pelo contrário, é uma condição prévia de qualquer 
missão autêntica” (Comblin, 1983, p. 56).
Quando pensamos a missão na perspectiva triunfalista da nobreza do 
“meu chamado”, de um grande empreendimento da igreja ou mesmo 
de uma cruzada no mundo a fi m de “ganhar almas para Jesus”, estas 
afi rmações soarão um tanto estranhas e sem propósito. Afi nal, a evocação 
de um lugar de um poder e uma unção sobrenatural sobre o missionário 
ou embaixador de Cristo torna-se necessária e até comum para justifi car 
uma missão de tal natureza. Ou seja, para lutar contra as potestades 
que dominam a terra e aprisionam as almas dos mundanos e pagãos, 
é preciso se revestir de força e se lutar com as “armas da fé”. Assim, 
o linguajar militar, não muito estranho aos escritos bíblicos, mesmo os 
de Paulo, mas utilizado fora de contexto e para propósitos duvidosos, 
domina esse tipo de cosmovisão missionária. O problema é que, mesmo 
arrebatando e convencendo a muitos de sua efi cácia motivadora, ela 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 139
provoca um duplo afastamento: (1) o afastamento do mundo desse Cristo 
bélico e conquistador e, (2) o afastamento da igreja da perspectiva do 
Cristo da cruz, que acaba se transmutando, de um ideal-raiz da vocação e 
espiritualidade cristãs, em uma ideia desorientada e deturpada de como 
apresentar Deus ao mundo. 
Quando olhamos para o caminho (missionário) de Jesus, porém, a 
imagem não é de triunfo, glória ou conquista, mas, como vimos, de 
submissão, fragilidade e dor. Com isso não quero dizer que, em Jesus, 
Deus foi derrotado, e sim que nele vemos o sentido de que perder nem 
sempre é signo de derrota; pode ser caminho para uma vitória não 
triunfal, mas signifi cativa. Assim é a relação entre a cruz e a ressurreição. 
A mensagemda cruz carrega o gene da morte, que gera vida, como no 
paradoxo do Cristo: tentar salvar a vida é, na verdade, perdê-la; já perder 
a vida, pela causa certa, é achá-la (cf. Mt 17:25). Jesus também falou 
em Mateus sobre negar a si mesmo: “Se alguém quer vir após mim, a 
si mesmo se negue, tome sua cruz e siga-me”. O paradoxo aqui, porém, 
é que negar-se é uma forma de declarar a morte de algo dentro de si (o 
que Paulo chama de “velho homem”), a fi m de fazer brotar e fl orescer da 
própria vida um novo ser humano. Não, Deus não é sádico; não quer que 
a gente morra apenas pelo prazer mórbido de nos ver morrendo; não nos 
criou para rejeitar a vida, mas para afi rmá-la. No entanto, segundo Jesus, 
é negando a si mesmo, desfazendo-se de todo orgulho de ser, abraçando 
a própria fragilidade, reconhecendo-se como ser codependente, é que 
podemos afi rmar a vida e a liberdade humanas. 
A mensagem da ressurreição, por sua vez, não existe nem faz sentido 
se separada da mensagem da cruz. Para ressuscitar é preciso morrer e 
é morrendo que se vive. É uma mensagem de vida abundante, mas não 
sem morte; de alegria, mas não sem tristeza; de vitória, mas não sem 
fracasso; de força, mas não sem fraqueza; de luz, mas não fora das trevas. 
Como disse Julio Zabatiero (2012), Deus está morto e permanece morto. 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão140
Ressuscitou precisamente porque morreu, e não é porque morreu que 
deixou de ser o Deus crucifi cado. Em suas palavras exatas: “A teologia é 
a linguagem do paradoxo: quando digo que Deus está morto, é a melhor 
maneira de afi rmar que Ele está vivo”. 
Além disso, a ressurreição não foi um evento majestoso, triunfal e barulhento. 
Como vemos nas narrativas da ressurreição em Lucas 24, a ressurreição 
foi um ato silencioso e marginal de Deus; não houve testemunhas à beira 
do túmulo, apenas anjos que anunciaram a poucas mulheres que Ele já 
não está morto, mas vive; não teria saído nos principais noticiários do dia 
(se isso existisse), mas correu de boca em boca, de modo que se a história 
até hoje a encara não como evento, mas como mito, até para os discípulos 
à época foi difícil de acreditar, mesmo quando o próprio Jesus de repente 
apareceu no meio deles, como Mateus indica (Mt 28:17). 
Deus não ressuscitou Jesus dos mortos preocupado com a propaganda 
do seu governo sobre a terra, como que dizendo: “Viram só, eu tiro e dou à 
vida a quem quero, meu poder é magnânimo; vocês mataram meu Filho, 
mas a grande prova de que Ele É em mim e de que EU SOU, é que agora 
ele vive de novo, por isso curvem-se diante de mim, o Rei dos reis!”. Não. 
A ressurreição não é prova de nada nem existe para provar alguma coisa. 
Não é o aguilhão daqueles que precisam de provas para crer, mas para os 
bem-aventurados do reino os quais, mesmo não vendo, creram e creem 
(cf. Jo 20:29). O Pai ressuscitou Jesus dos mortos porque Ele é o seu 
Filho amado; para que a morte não tenha a última palavra; para confi rmar 
a obra do Filho; para que nós encontrássemos vida Nele e, tendo vida, 
tivéssemos esperança e, tendo esperança e pela fé, espalhássemos essa 
boa notícia de vida, amor e esperança ao mundo. 
E assim fazemos seguindo o mesmo modelo e espírito que vimos em Jesus 
Cristo, o Filho de Deus, que, como expressa Comblin (1983, p. 56, grifos meus):
(...) se manifestou sem nenhum dos atributos da 
força humana. Jesus não quis brilhar pela cultura. 
Não quis argumentar com os escribas e os doutores 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 141
da lei, menos ainda com os fi lósofos pagãos. Não 
conquistou o povo pela abundância de suas esmolas 
ou as obras de desenvolvimento. Não impressionou 
pelo poder. O messianismo fi cava totalmente alheio 
às suas perspectivas. O sinal supremo que deu aos 
homens foi sua morte, manifestação visível da mais 
completa incapacidade e dominar e de convencer 
por meio de argumentos tirados das culturas e das 
civilizações. Na verdade Jesus estava completamente 
desarmado no meio dos homens, e quis estar assim. 
Estava desarmado para poder alcançar o homem 
na fonte de sua humanidade, no nível da maior 
universalidade: concretamente para poder ser recebido 
pelo mais humilde dos homens, para se encontrar com 
a humanidade em todos os homens. 
Pensando na mesma direção que Comblin, é possível dizer que Jesus 
não teria um perfi l para ser um missionário cultural ou transcultural 
em nossos dias, por falta de requisitos mínimos para se encaixar 
(conforme as caixas de encaixe hoje vigentes em muitas igrejas e 
agências missionárias do mundo): caminhou à margem da religião 
e da cultura; abraçou não apenas as vulnerabilidades humanas 
como escolheu ser humilde entre os humildes e desgraçados; não 
primava por demonstrações sobrenaturais de poder, pelo contrário, 
em muitos milagres que realizou pedia total sigilo daquele(a) que 
o recebeu; não partiu para o caminho da apologética ou defesa da 
fé, cercando-se de argumentos fortes para “defender” a perspectiva 
do reino de Deus, de modo que, em Jesus, não se faz ninguém se 
achegar ao reino pelo poder do argumento, mas pelo caminho da 
fragilidade, da infantilidade espiritual (sejam como crianças), do 
diálogo, do arrependimento, do perdão e da graça. Como lembra 
Comblin (1983, p. 58), “os homens são vulneráveis. A possibilidade 
de mudança radica justamente nessa vulnerabilidade”. 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão142
Exercício de fi xação
“Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que 
este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2 Co 
4:7). “Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos 
insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, 
quando sou fraco é que sou forte” (2 Co 12:10). O que a perspectiva 
de Paulo, em diálogo com o que discutimos acima, nos ensina sobre 
nossa humanidade em missão? Assinale a assertiva incorreta:
a) Que o poder de Deus habita em nós nos habilitando a superar 
nossas fraquezas a fi m de apresentar um Deus de poder ao 
mundo;
b) Que a fraqueza não é nenhum acidente, nem obstáculo, mas 
uma condição para nossa caminhada com Deus em missão;
c) Que, no horizonte da missão de Deus, o fraco é o novo forte.
Escolha a reposta INCORRETA,
Acesse o AVA para fazer o exercício e veja a reação do 
professor!
Ademais de tudo o que se tratou até aqui, devemos lembrar que Jesus 
não se aliou às estruturas e poderes de seu tempo, ao mesmo tempo em 
que rejeitou o caminho da usurpação de ser “igual a Deus” (cf. Fp 2:6); 
apresentou a boa nova do reino em obediência à sua missão, sem se 
preocupar em agradar a ninguém ou mesmo com o possível insucesso, 
rejeição ou má reputação. Jesus foi um profeta, e profeta que é profeta 
não esconde sua fragilidade nem teme perder a própria cabeça. Por essa 
razão, seu ministério profético iniciou-se com um discurso arrojado numa 
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão143
sinagoga em Nazaré, em que declarou a palavra do profeta Isaías se 
cumpria nele mesmo naquele momento, e teve de reconhecer a rejeição 
dos seus, e mais do que isso, enfrentar a ira dos que estavam presente 
na sinagoga, a expulsão de sua própria cidade e tentativa de assassinato 
(cf. Lc 4:16-30). Não poderíamos chamar isto de um início bem-sucedido 
aos olhos da cultura (especialmente a nossa), concorda?
Por essa razão é que, segundo vejo, as perspectivas de Bosch – de que 
a missão não tem nada de impressionante, é antítese de uma teologia 
da glória – e a de Comblin – da fraqueza como condição prévia de uma 
missão autêntica – faz jus à perspectiva bíblica e primitiva de missão. Isto 
porque, conforme analisa Comblin (1983, p. 60), a tentação pela qual passa 
o missionário é parecida com aquela enfrentada por Jesus: “a tentação de 
messianismo, a tentação da força, do poder, do dinheiro e da cultura”.
Não é à toa que Paulo desenvolveu toda uma teologia do poder e da 
fraqueza em sua carta missionária, de Segunda Coríntios. Ali ele utiliza-
se de uma metáfora poderosa, a de que temos esse “tesouro em vasos de 
barro” (2Co 4:7), a fi m de que reconheçamos que isso é por pura graça e 
um milagre – um vaso contendo um tesouro; o evangelho, poder de Deus, 
habitando e agindo através de seres frágeis como nós – e que, portanto, 
o poder que vulta em nós não é propriamente nosso, mas vem de Deus. 
Adiante, no capítulo 12, ele complementa esta ideia acrescentando 
a perspectiva de que a graça de Deus nos é sufi ciente em tudo, que 
o espinho na carne – ou a “dádiva de uma defi ciência”, na tradução A 
Mensagem – não será arrancado, pois ele está ali por uma razão: para 
esbofetear nossa prepotência e nos fazer aceitar com gratidão nossas 
fraquezas, pois é através delas que o poder de Deus se aperfeiçoa em 
nós, pois quando somos fracos, então é que somos fortes (2Co 12:7-10). 
Conclusão
Quero concluir nossa jornada nesta unidade (e nesta disciplina) com um 
testemunho pessoal. Nesse ano (2019) completo quatorze anos atuando 
| Espiritualidade Cristã | FTSA Espiritualidade, vocação e missão| FTSA Espiritualidade, vocação e missão144
na educação teológica. Já vi um pouco de tudo, e posso dizer que nunca 
lidei com estudantes que, em geral, parecem ser tão pouco ambiciosos/
as em termos ministeriais ou missiológicos como os que com os quais 
tenho lidado hoje. Parece que vivemos o que alguns chamariam de 
“crise de vocação” (referindo-se, obviamente, mais à vocação pastoral), 
de modo que a leitura de alguns desse momento poderia ser bastante 
negativa. Para mim, porém, ela é sintomática (e aqui estou sendo bem 
especulativo): talvez muitos tenham se desencantado em relação a esse 
tipo de vocação porque se trata de um empreendimento muito promissor 
em termos de promoção denominacional e institucional, mas bem pouco 
de promoção da vida e dignidade humanas. Percebo certo receio de que, 
para ser ministro/a, seria preciso ser menos gente, menos humano/a, 
menos dado/a à demonstração de fragilidades e, consequentemente, 
menos suscetível ao erro. Certamente temos de repensar a vocação 
ministerial nesse momento de crise, mas gosto de pensar que esse 
desencanto é também uma oportunidade.
Oportunidade de dizer para esses jovens que esse negócio de ser “super-
crente”, de fato, não tem eco bíblico nenhum. Que os “grandes” heróis 
da fé foram os que mais ousaram “se apequenar” aos olhos desse 
mundo, os que prezaram mais pela integridade e não deram a mínima 
para reputação. De que é normal se sentir triste e desanimado vez por 
outra; de que nem sempre seremos vitoriosos e campeões em tudo; de 
que pode haver uma enorme vantagem em certas “desvantagens” que 
sofremos nesse mundo competitivo e capitalista selvagem; de que para 
ganhar é preciso aprender a perder, e que é morrendo que se vive.  Nesse 
sentido, Bosch (1979, p. 77) disse algo que a meu ver poderia ser lema 
da espiritualidade frágil e kenótica aos professores de teologia, escolas 
teológicas e igrejas que ousarem abraça-la: “A igreja não é composta de 
gigantes; apenas seres humanos feridos podem guiar outros até a cruz”. 
Tomo como minha missão pessoal, enquanto educador, a de comunicar 
para meus estudantes que não é preciso anular fragilidades para ser 
discípulo ou testemunha de Jesus Cristo, e de que ser discípulo, portanto, 
é a melhor maneira de ser e se encontrar humano.
Espiritualidade, vocação e missão Espiritualidade Cristã | FTSA | Espiritualidade, vocação e missão 145
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Sobrevivente. Sou cristão apesar da igreja. São Paulo: Mundo Cristão: 2004.
Atenção!
Lembre-se de realizar as atividades avaliativas da disciplina.
1- Faça todos os exercícios desta unidade;
2- O "Exercício integrativo" consiste em um resumo de toda 
disciplina contendo entre 1400 e 1500 palavras. Se você fez os 
resumos parciais das outras unidades e salvou em um arquivo 
em seu computador, complete com o resumo desta unidade. 
Caso não tenha feito, este é o momento de fazê-lo. Poste o 
arquivo com o resumo de toda a disciplina, acessando o link 
"Exercício integrativo";
3- Você deve declarar a leitura de pelo menos 100 páginas de 
textos complementares;
4- Faça a prova objetiva 2.
Consulte o “Programa de curso” para mais informações sobre 
as avaliações.
Fique atento ao prazo fi nal para a realização das avaliações: 
27/02 - 23h55

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