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<p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>Azevedo, Israel Belo de</p><p>Apologética cristã / Israel Belo de Azevedo. — São Paulo : Vida Nova, 2006. —</p><p>(Curso Vida Nova de Teologia Básica; v. 6)</p><p>recurso digital; 3,8 MB</p><p>Bibliografia</p><p>ISBN 978-65-86136-93-7 (recurso eletrônico)</p><p>1. Apologética 2. Teologia – Estudo e ensino I. Título. II. Série.</p><p>06-2275</p><p>CDD-239</p><p>Índices para catálogo sistemático</p><p>1. Apologética : Defesa da fé : Cristianismo 239</p><p>Copyright © 2006 Edições Vida Nova</p><p>Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos</p><p>reservados por</p><p>Sociedade Religiosa Edições Vida Nova</p><p>Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970</p><p>vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br</p><p>1.ª edição: 2006</p><p>Proibida a reprodução por quaisquer meios (mecânicos, eletrônicos,</p><p>xerográficos, fotográficos, gravação, estocagem em banco de dados, etc.), a não</p><p>ser em citações breves com indicação de fonte.</p><p>SUPERVISÃO EDITORIAL</p><p>Aldo Menezes</p><p>COORDENAÇÃO EDITORIAL</p><p>http://vidanova.com.br</p><p>Marisa Lopes</p><p>REVISÃO</p><p>Emirson Justino</p><p>COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO</p><p>Sérgio Siqueira Moura</p><p>REVISÃO DE PROVAS</p><p>Mauro Nogueira</p><p>CAPA</p><p>Julio Carvalho</p><p>Produção do arquivo ePub</p><p>Booknando</p><p>CONTEÚDO</p><p>Apresentação</p><p>Introdução</p><p>1. Por que propagar um cristianismo cuja história está cheia de violência?</p><p>2. Não é a religião uma ilusão?</p><p>3. É politicamente correto afirmar que só Jesus salva?</p><p>4. Como crer em um Deus amoroso, que permite o sofrimento?</p><p>5. Como acreditar em milagres, se a ciência não os confirma?</p><p>6. E se a homossexualidade for genética?</p><p>7. Por uma mente bíblica</p><p>8. Elogio da tolerância</p><p>Enriqueça sua biblioteca</p><p>Apresentação</p><p>Curso Vida Nova de Teologia Básica</p><p>Todos os cristãos precisam de teologia</p><p>Durante muito tempo a teologia esteve confinada nos círculos acadêmicos. Sua</p><p>linguagem técnica e seu rigor científico impediam que o</p><p>público leigo, não-especializado, saboreasse a boa erudição bíblica. A parte que</p><p>lhe cabia era ouvir longos sermões, que nem sempre atingiam o coração dos</p><p>ouvintes, muito menos sua mente.</p><p>A distinção entre clérigos e leigos, sem dúvida, contribuiu para o surgimento</p><p>desse abismo entre a teologia e os não-iniciados no saber teológico. O estudo</p><p>sobre Deus e sua relação com seu povo foi se tornando cada vez mais</p><p>propriedade de uma elite intelectual.</p><p>As Escrituras, no entanto, apontam outro caminho. O povo de Deus, e não</p><p>apenas uma parcela desse povo (os mestres), é chamado de “sacerdócio real”.</p><p>Esse povo deve anunciar “as grandezas daquele que [o] chamou das trevas para</p><p>sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Todos estão obrigados a cumprir a Grande</p><p>Comissão: fazer discípulos para o Mestre, ensinando-os a obedecer a todas as</p><p>coisas que ele ordenou (Mt 28.19, 20). Todos devem renovar a mente, para</p><p>experimentar a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). Todos</p><p>devem estar preparados para “responder a todo aquele que [...] pedir a razão da</p><p>esperança” que há neles (1Pe 3.15). Todos são instados a crescer não apenas na</p><p>“graça”, mas também “no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus</p><p>Cristo” (2Pe 3.18).</p><p>A retomada do ensino bíblico do sacerdócio de todos os crentes, no entanto, não</p><p>significa que Deus não tenha capacitado especialmente alguns para exercer</p><p>determinados dons na igreja. O apóstolo Paulo afirma que</p><p>Deus “designou uns como apóstolos, outros como profetas, e outros como</p><p>evangelistas, e ainda outros como pastores e mestres” (Ef 4.11). Esses</p><p>especialmente capacitados, porém, não deviam guardar para si o depósito do</p><p>conteúdo da fé. Eles tinham uma missão a cumprir:</p><p>... o aperfeiçoamento dos santos para a obra do ministério e para a edificação do</p><p>corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno</p><p>conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura</p><p>da plenitude de Cristo; para que não sejamos mais como crianças, inconstantes,</p><p>levados ao redor por todovento de doutrina, pela mentira dos homens, pela sua</p><p>astúcia nainvenção do erro; pelo contrário; seguindo a verdade em</p><p>amor,cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. Nele o corpo inteiro,</p><p>bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a correta atuação</p><p>de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação de si mesmo em amor</p><p>(Ef 4.12-16).</p><p>Essas passagens bíblicas mostram claramente que a teologia deve estar a serviço</p><p>de todo o povo de Deus. Mais ainda: que todo o povo de Deus deve se beneficiar</p><p>de todos os campos do labor teológico. Vejamos alguns exemplos:</p><p>Anunciar as grandezas de Deus (1Pe 2.9) requer preparo no falar. A parte da</p><p>teologia que cuida da boa transmissão oral da Palavra de Deus é a homilética,</p><p>cujos princípios não se aplicam somente à preparação do sermão, mas à</p><p>comunicação da Palavra de Deus como um todo.</p><p>Não basta fazer discípulos, é preciso ensiná-los (Mt 28.19, 20). Isso requer</p><p>conhecimento das coisas de Deus (e esta é uma definição básica de teologia =</p><p>estudo sobre Deus).</p><p>Estar preparado para “responder a todo aquele que [...] pedir a razão da</p><p>esperança” que há em nós (1Pe 3.15) requer conhecimento bíblico e o exercício</p><p>da “apologética” (um discurso de defesa da fé cristã bem embasado nas</p><p>Escrituras).</p><p>Quando Pedro disse que os cristãos devem crescer “no conhecimento de [...]</p><p>Jesus Cristo” (2Pe 3.18), ele estava, segundo o contexto, alertando-os a não se</p><p>deixar levar pelos que “deturpam” as Escrituras (2Pe 3.14-17). Pedro também</p><p>reconheceu que há passagens de difícil interpretação (v. 16). A hermenêutica é a</p><p>parte da teologia que se encarrega de avaliar o sentido preciso de uma passagem</p><p>bíblica, lidando com as “coisas difíceis”. Bem preparados, não seremos “levados</p><p>[...] por todo vento de doutrina, pela mentira dos homens, pela sua astúcia na</p><p>invenção do erro” (Ef 4.14).</p><p>É evidente, portanto, que todos nós, povo de Deus, precisamos de teologia.</p><p>Todos nós precisamos aprimorar diariamente nosso conhecimento das Escrituras.</p><p>Devemos ser realmente estudiosos da Palavra de Deus. E o labor teológico nos</p><p>conduz a esses fins.</p><p>A importância e as vantagens do Curso Vida Nova de Teologia Básica</p><p>Edições Vida Nova reconhece o valor e a força da comunidade leiga de nossas</p><p>igrejas. Nossa missão é levar conhecimento e preparo teológico a todo o povo de</p><p>Deus. Pensando nessa parcela significativa de cristãos e com pleno</p><p>conhecimento da necessidade do saber teológico para todos, temos o prazer de</p><p>apresentar o Curso Vida Nova de Teologia Básica. Trata-se de um curso básico</p><p>de teologia para leigos. Isso quer dizer que esse curso está desprovido do jargão</p><p>teológico tradicional e de tecnicismos dessa área. É um curso perfeito para</p><p>leitores que desejam conhecer um pouco de teologia numa linguagem informal,</p><p>instrumental e não-acadêmica.</p><p>O material é altamente didático e informativo. É de fácil assimila- ção. Os</p><p>autores também se valem de perguntas para debate, que funcionam como</p><p>questões de recapitulação, a fim de fixar na mente do leitor os pontos principais</p><p>apresentados ao longo de cada lição. Como se diz em homilética: “A repetição é</p><p>a mãe da retenção”. Quanto mais recapitulamos, mais fixamos o que</p><p>aprendemos. Além disso, há uma bibliografia ao mesmo tempo concisa e</p><p>precisa, conduzindo o leitor a obras que poderão auxiliá-lo em seu crescimento</p><p>espiritual.</p><p>Todos os cristãos desejosos de crescer no “conhecimento de nosso Senhor e</p><p>Salvador Jesus Cristo” se beneficiarão desse curso. Crentes bem preparados e</p><p>conhecedores da Palavra de Deus farão das escolas dominicais, dos centros de</p><p>treinamento de líderes e de outros ministérios voltados para o aperfeiçoamento</p><p>do corpo de Cristo um espaço agradável de estudo e reflexão das Escrituras.</p><p>O currículo básico do curso inclui os seguintes assuntos:</p><p>Introdução à Bíblia</p><p>Panorama do Antigo Testamento</p><p>Panorama do Novo Testamento</p><p>Panorama da história da igreja</p><p>Homilética</p><p>Apologética cristã</p><p>Teologia sistemática</p><p>Educação cristã</p><p>Filosofia</p><p>Aconselhamento</p><p>Louvor e adoração</p><p>Ética cristã</p><p>Hermenêutica</p><p>Apologética cristã</p><p>Neste sexto volume da série, vamos estudar uma disciplina</p><p>como único Salvador. Tenhamos coragem de dizer</p><p>que há muitas verdades nas outras religiões, mas em nenhuma delas há fé</p><p>salvadora. É absolutamente necessário que se creia em Jesus para a salvação.</p><p>UMA ESCOLHA INDISPENSÁVEL</p><p>Devemos celebrar a diversidade, mas sem ignorar que toda a humanidade jaz</p><p>pecadora e carente da graça salvadora de Jesus Cristo. Muitas pessoas reagem à</p><p>doutrina cristã da graça por entenderem que podem salvar a si mesmas. A ideia</p><p>de que alguém morreu para salvar outros é inaceitável para muitas mentes. A</p><p>cruz é um golpe mortal desfechado contra o orgulho humano. Desde Adão e Eva</p><p>o homem quer salvar a si mesmo. Como mostra Fernando Ajith:</p><p>[...] as pessoas gostam de pensar que estão salvando a si mesmas. Com isso se</p><p>sentem bem e são ajudadas a silenciar, temporariamente, a voz da insegurança e</p><p>do vazio que lhes pertence, por estarem separadas do seu Criador.</p><p>Qual é sua escolha? Jesus é o Caminho. Aceite-o. A Bíblia diz que Deus é nosso</p><p>Salvador e deseja que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da</p><p>verdade. Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os seres humanos: o</p><p>homem Cristo Jesus, que se entregou como resgate por todos. Esse foi o</p><p>testemunho dado em seu tempo (1Tm 2.4-6).</p><p>Se Jesus é o Filho de Deus, em sentido histórico e real, e não apenas simbólico,</p><p>ele pôde se declarar como o único caminho para o Pai, e o fez. Se você já o</p><p>aceitou como o Caminho de sua vida, não se esqueça disso. Proclame para você</p><p>mesmo e para todos quantos você puder.</p><p>Jesus é a Verdade. Aceite-o. A Bíblia diz que precisamos conhecer a verdade, se</p><p>queremos ser livres ( Jo 8.32). Se você já aceitou esta Verdade como suprema</p><p>para a sua vida, não se deixe seduzir por outras verdades. Não tenha vergonha de</p><p>afirmar.</p><p>Jesus é a Vida. Aceite-o. A Bíblia diz que Deus nos deu a vida eterna, e essa vida</p><p>está em seu Filho. Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus,</p><p>não tem a vida (1Jo 5.11,12). A Vida em Cristo vem por meio do perdão divino</p><p>de nossos pecados. Todos os profetas dão testemunho dele, de que todo o que</p><p>nele crê recebe o perdão dos pecados mediante seu nome (At 10.43). No passado</p><p>Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo</p><p>lugar, se arrependam (At 17.30).</p><p>Se você já permitiu que a Vida transformasse sua vida, deixe-se aquecer por essa</p><p>realidade. Leve esta boa notícia aos outros. O convite bíblico continua a ecoar:</p><p>“a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra</p><p>de Cristo” (Rm 10.17).</p><p>Qual é a sua resposta?</p><p>PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO</p><p>Discuta as afirmações deste capítulo:</p><p>Segundo a certeza de alguns, os cristãos não podem ter a pretensão de que Jesus</p><p>Cristo seja o Cristo Salvador de todas as nações.</p><p>Ser tolerante não é negar que haja diferenças entre pessoas e culturas, mas, a</p><p>partir disso, agir com profundo respeito por elas, independentemente de suas</p><p>crenças, suas atitudes e seus hábitos.</p><p>O pluralismo religioso exige que se abandone a fé na singularidade de Cristo, ao</p><p>ver as outras religiões como o modo “usual” de salvação, enquanto o</p><p>cristianismo é o modo “muito especial e extraordinário da salvação”.</p><p>Devemos celebrar a diversidade, sem ignorar que toda a humanidade jaz</p><p>pecadora e carente da graça salvadora de Jesus Cristo.</p><p>4</p><p>Como crer em um Deus amoroso, que permite o</p><p>sofrimento?</p><p>Eu já sabia que Deus não é o ser impassível, indiferente, imutável,</p><p>descrito pelos teólogos. Eu já sabia da compaixão de Deus, que ele</p><p>tem prazer em algumas coisas e desprazer em outras. Mas,</p><p>estranhamente, seu sofrimento eu nunca vira antes. Deus não é</p><p>apenas o Deus dos sofredores, mas o Deus que sofre. A dor e a ruína</p><p>da humanidade entraram em seu coração. Pelo prisma de minhas</p><p>lágrimas vi um Deus sofredor. (...) Em vez de explicar nosso</p><p>sofrimento, Deus participa dele.</p><p>Walter Wolterstoff</p><p>E passando Jesus, viu um homem cego de nascença. Perguntaram seus</p><p>discípulos: — Rabi, quem pecou: este ou seus pais, para que nascesse cego?</p><p>Respondeu Jesus: — Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se</p><p>manifestem as obras de Deus ( Jo 9.1-3).</p><p>A Bíblia diz que Deus é tão amoroso que deu seu único filho para morrer pelos</p><p>seus amados, que é a totalidade dos seres humanos ( Jo 3.16). Ninguém tem</p><p>maior amor do que este: de dar [...] sua vida pelos seus amigos (1Jo 15.13).</p><p>Nossa vida é possível neste mundo injusto e duro por causa do amor do Filho de</p><p>Deus, Jesus Cristo, que se entregou (literalmente) por nós (Gl 2.20), sem que</p><p>houvesse nenhum mérito no ser humano (Rm 5.8). É por isso que vivemos:</p><p>porque Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo (1Jo 4.9).</p><p>O amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi</p><p>dado (Rm 5.5). Por isto, os que aceitam este oferecimento jamais podem ser</p><p>separados deste Deus amoroso (Rm 8.39).</p><p>Tão amoroso é Deus que a Bíblia diz que ele é amor (1Jo 4.8 e 16). No entanto,</p><p>não há como ver o sofrimento dos seres humanos e não perguntar, como Castro</p><p>Alves, diante do flagelo da escravidão:</p><p>Senhor Deus dos desgraçados!</p><p>Dizei vós, Senhor Deus!</p><p>Se é loucura... se é verdade</p><p>Tanto horror perante os céus?!</p><p>Oh mar, por que não apagas</p><p>Co’a esponja de tuas vagas</p><p>De teu manto este borrão?...</p><p>Astros! noites! tempestades!</p><p>Rolai das imensidades!</p><p>Varrei os mares, tufão!¹</p><p>A AUSÊNCIA DE DEUS COMO RESPOSTA</p><p>O problema do sofrimento humano suscita em nós uma pergunta que não pode</p><p>calar: Deus existe? Se existe, por que permite o galope do mal? Ao longo da</p><p>história, três respostas têm sido frequentemente apontadas para solucionar o</p><p>dilema:</p><p>Deus não existe</p><p>Não existindo Deus, o problema do sofrimento deve ser compreendido dentro da</p><p>natureza e da história, sem nenhum recurso à transcendência, seja para explicar,</p><p>seja para minorar ou superar. Na perspectiva ateísta ou agnóstica, o ser humano</p><p>está sozinho, e sozinho tem de se virar. Não há conforto para ele.</p><p>Negar a existência de Deus por causa do sofrimento pode resolver, ainda que</p><p>equivocadamente, um problema filosófico, mas não traz nenhuma satisfação</p><p>emocional, porque não capacita a pessoa a enfrentar melhor seu problema, que é</p><p>o que mais importa.</p><p>Deus existe, mas errou ao criar o homem</p><p>O escritor Saramago, que se declara ateu, atribui as injustiças e as atrocidades</p><p>dos seres humanos a um “erro nas previsões divinas” (a “grosseiros erros de</p><p>previsão”). Segundo ele, o erro de Deus foi criar a espécie humana.</p><p>Se o ateísmo põe toda a conta do mal na natureza humana, a afirmação de que</p><p>Deus errou, ao projetar mal sua obra, põe contraditoriamente toda a culpa na</p><p>ação divina, tirando do ser humano toda responsabilidade por seus atos; atos que</p><p>produzem sofrimento em si e nos outros.</p><p>Deus existe, mas não é amoroso a ponto de evitar o sofrimento</p><p>Embora a Bíblia afirme que Deus é amor, não pode haver amor nele. Se fosse</p><p>bondoso, não permitiria o mal tão avassalador, especialmente sobre os inocentes.</p><p>Mesmo os cristãos podem mergulhar na dúvida, depois de longo tempo à espera</p><p>de resposta a sua oração. Quando, no entanto, mergulham na memória, a</p><p>esperança lhes retorna: o Deus que um dia o ouviu o ouvirá de novo (Lm 3.21).</p><p>A certeza de que Deus não existe porque o sofrimento existe não traz a quem</p><p>pensa assim nenhuma direção para a vida. A convicção de que ele errou ao criar</p><p>o ser humano é contraditória em si mesma e nada ajuda na condição humana. A</p><p>dúvida de que Deus não se importa com o sofrimento humano não faz sentido</p><p>diante das inúmeras manifestações do amor divino. A quem nutre essas visões</p><p>resta o desespero da solitária e triste condição humana. É uma escolha que</p><p>muitos têm feito, mais pelo que observam do sofrimento humano e menos por</p><p>aqueles que veem seus corpos e mentes sendo dilacerados pela dor.</p><p>A PRESENÇA DE DEUS COMO SOLUÇÃO</p><p>Os pressupostos cristãos são outros: Deus existe e é justo e amoroso. É a partir</p><p>desses três pressupostos, que retomaremos adiante, que temos de considerar o</p><p>problema do sofrimento.</p><p>Jesus considerava a dificuldade humana tanto para entender quanto para</p><p>enfrentar o sofrimento. Ao</p><p>dialogar com seus seguidores, que, como ele,</p><p>atendiam a um cego de nascença ( Jo 9.1-11), não deixou de responder às</p><p>perguntas dos discípulos. Sua resposta é um convite à reflexão: “Nem ele nem</p><p>seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse</p><p>na vida dele” ( Jo 9.3).</p><p>Precisamos entender a natureza do sofrimento</p><p>O sofrimento é real, atinja ele um país, uma comunidade, uma família ou uma</p><p>pessoa. Não há como negá-lo.</p><p>Precisamos também ser humildes em reconhecer que ninguém apresenta uma</p><p>resposta absoluta para essa pergunta. O livro da Bíblia cujo tema é o sofrimento</p><p>de uma família inocente não ousa oferecer uma resposta absoluta. Os amigos da</p><p>personagem principal tinham respostas, que traziam mais sofrimento a quem já</p><p>sofria. Entretanto, quando Deus dá a palavra final, faz perguntas que mostram a</p><p>fragilidade dos argumentos humanos.</p><p>Na verdade, a palavra final de Deus não é um conjunto de palavras, mas um</p><p>conjunto de gestos, que levou Jó a ser abraçado por Deus. Esta foi a resposta que</p><p>transformou sua vida e tornou irrelevantes suas indagações, porque, quando</p><p>Deus age, e ele age, só cabe reconhecer seu amor.</p><p>Deus permite o sofrimento ao conceder liberdade ao ser humano</p><p>À luz da revelação bíblica, podemos afirmar que o sofrimento é uma decorrência</p><p>da liberdade humana. Segundo lemos na Bíblia, toda a obra criada de Deus era</p><p>boa, até que o pecado levou o ser humano a rejeitá-lo. Tudo o que veio depois</p><p>resulta diretamente da escolha humana. O sofrimento é coisa humana.</p><p>A liberdade humana faz com que os culpados sofram. Até aí não teríamos</p><p>nenhum problema. O problema é que a liberdade humana faz inocentes</p><p>sofrerem. Um motorista que usa irresponsavelmente sua liberdade pode inutilizar</p><p>corpos e matar vidas, a sua e/ou a de outros. Um país que usa criminosamente</p><p>suas armas derrama sangue de inimigos e de amigos, de militares e de civis,</p><p>podendo ainda deixar elementos que matarão e mutilarão durante gerações. Um</p><p>casal que usa irresponsavelmente sua liberdade põe no mundo crianças que não</p><p>pretendem amar, e elas poderão sofrer para o resto da vida. Uma barreira que cai</p><p>sobre casas não soterra apenas casas; soterra esperanças. Um incêndio que</p><p>devasta florestas não consome apenas propriedades; põe fim a vidas.</p><p>Por mais pesarosos que sejam, sabemos que os chamados desastres naturais são</p><p>precisamente isto: naturais, provocado pela natureza. Uma barreira cai porque</p><p>algum princípio foi rompido pelo homem, que desmatou ou aterrou ou</p><p>desaterrou. Mesmo quando não conhecemos as causas dos desastres naturais,</p><p>elas são naturais. Se as pessoas erram, precisam saber que há um preço no erro.</p><p>Por mais angustiante que sejam, sabemos que as doenças são rompimentos de</p><p>princípios naturais. Nossa dificuldade é que ainda conhecemos pouco, muito</p><p>pouco, acerca desses princípios. Quando as ciências médicas conseguem</p><p>entender o funcionamento de uma doença, produzem imediatamente uma terapia</p><p>que a evita ou que elimine suas conseqüências.</p><p>Tem havido muito progresso, mas os desafios continuam imensos. A tarefa</p><p>humana é considerar as causas desconhecidas para torná-las conhecidas. Se as</p><p>pessoas falham, precisam assumir as consequências.</p><p>Por mais difícil que seja, sabemos que a fome é uma questão social. A terra</p><p>produz alimento suficiente para todos. O problema é que alguns, pelo poder do</p><p>dinheiro ou pela força das armas, tomam para si mais do que precisam,</p><p>empanturrando-se e negando o mínimo aos outros. O que Deus tinha de fazer,</p><p>fez, dotando a terra com condições de produzir gêneros para todos. Se milhões</p><p>ficam sem comida, a culpa não é de Deus.</p><p>Não cabem respostas fáceis, como a da tradição religiosa judaica, que atribuía o</p><p>sofrimento a maldições oriundas de erros cometidos no passado por familiares.</p><p>O legalismo vigente dizia que aquele homem era o culpado, mas, como era</p><p>congênita a deficiência, os discípulos foram por outro caminho; um caminho</p><p>fácil que Jesus sempre evita e nos convida a evitar.</p><p>Deus detém o sofrimento</p><p>A pergunta “Por que Deus permite o sofrimento?” volta, então, em outro</p><p>formato: Por que Deus não intervém, especialmente quando as vítimas são</p><p>inocentes?</p><p>A primeira resposta é que Deus intervém. A história da Bíblia é a ação de Deus</p><p>na história. A vida de quem confia nele testemunha a intervenção divina, pessoal</p><p>ou comunitariamente. Lembremos que não é fácil perceber tal intervenção. Só</p><p>tomamos conhecimento do que ocorreu, e não do que não aconteceu. A</p><p>ocorrência de um acidente fica na história, mas o acidente evitado não deixa</p><p>registro.</p><p>Deus não é a causa do sofrimento no mundo, mas trabalha para redimir o mundo</p><p>do sofrimento. Ele intervém de dois modos. O primeiro modo é detendo-o. Jesus</p><p>confrontou o sofrimento.</p><p>Ao fazer-se homem, Deus não apenas chorou por causa do sofrimento humano,</p><p>mas curou milhares de pessoas, fazendo cessar a dor e a fome de muitos. Ele</p><p>interveio na vida do cego, restituindo-lhe a visão. Ainda hoje Jesus cura, física e</p><p>emocionalmente. O milagre, no entanto, deve ser visto como tal: um milagre,</p><p>uma ação de Deus, não uma manipulação por parte do ser humano.</p><p>Não podemos marcar datas e condutas para a ação divina. O limitado não</p><p>conforma o ilimitado. O perfeito embraça o imperfeito, e não o contrário. Deus</p><p>intervém, mas o faz de modo livre e responsável. Diferentemente de nós, ele não</p><p>usa a liberdade para o mal, mas só para o bem.</p><p>Em sua soberania, Deus pode deter o sofrimento de forma miraculosa, e através</p><p>de pessoas que o tenham como Senhor de sua vida. Os cristãos são chamados a</p><p>deter o sofrimento no mundo, seja lutando contra as injustiças estruturais ou</p><p>circunstanciais, seja minorando as dores dos atingidos. O Espírito Santo consola</p><p>diretamente o que sofre, mas usa pessoas que se deixam usar para abençoar</p><p>outras, com um abraço, uma palavra, um encontro, uma acolhida, uma lágrima,</p><p>um sorriso.</p><p>Deus pede que amemos uns aos outros, mas não nos força a isso. Podemos</p><p>obedecer ou desobedecer. “Jesus nos convida a ser agentes de compaixão e</p><p>justiça”, porque nos empenhar na causa da compaixão e da misericórdia, “não é</p><p>apenas uma opção para os seguidores de Cristo. É uma expressão do seu amor</p><p>por Deus”. Uma visão adequada do sofrimento do outro nos ajuda a satisfazer</p><p>suas necessidades e, quando o fazemos, permitimos que Cristo viva através de</p><p>nós (2Co 1.3,4). Mais uma vez, a liberdade nos condiciona ao bem ou ao mal.</p><p>O segundo modo da intervenção de Deus é transformar o sofrimento. A</p><p>promessa de Jesus ao cego foi extraordinária. Ele deteve o sofrimento daquele</p><p>homem restabelecendo-lhe a visão, e com isso transformou a sua vida, dando-lhe</p><p>um sentido que ia além da visão. É isso que Jesus faz: pedimos pão e ele nos dá</p><p>o pão, ele mesmo, que alimenta para a vida toda; pedimos água e ele nos liga à</p><p>Fonte de Água Viva, que é ele mesmo.</p><p>A transformação independe da cessação do sofrimento. O apóstolo Paulo disse</p><p>que todas as coisas convergem para o bem daqueles que amam a Deus (Rm</p><p>8.28). Quando pediu que Deus encerrasse seu sofrimento, em área que</p><p>desconhecemos, aprendeu que a graça de Deus é a verdadeira transformação</p><p>(2Co 12.7).</p><p>PARA TRANSFORMAR O MAL</p><p>Para aceitar Deus como aquele que intervém, detendo e transformando o</p><p>sofrimento, é preciso reconhecer três ideias essenciais: Deus existe; Deus existe</p><p>e foi sábio ao criar o ser humano livre, e Deus existe e é amoroso a ponto de</p><p>morrer por aqueles a quem amou. Sem fé em Deus, o sofrimento é mal a ser</p><p>suportado. Com fé em Deus, o sofrimento pode ser transformado.</p><p>Creiamos que Deus existe</p><p>Se Deus não existe, não há garantia de que o bem triunfará sobre o mal. Nesse</p><p>caso, o problema do sofrimento continua sem resposta.</p><p>Sabemos que o mal existe porque, ao nos criar, Deus nos dotou de consciência.</p><p>Não cometamos o erro de usar nossa indignação moral, por mais justa que seja,</p><p>como argumento contra a existência de Deus. Lembremos que, se ele não</p><p>existisse, não haveria autoridade para definir o que é absolutamente certo e</p><p>errado. Sem Deus, o indivíduo ou a sociedade é elevado à categoria de</p><p>autoridade. Nesse</p><p>caso, tanto o racismo e um reino de terror como a igualdade e</p><p>a liberdade poderiam ser considerados valores justos. Se Deus não definir justiça</p><p>e moralidade, a sociedade está correta em si mesma. Então, tudo é relativo.</p><p>Recordemos que “Jesus Cristo interrompe o cruel ciclo do relativismo e aponta o</p><p>amor e a misericórdia como valores criados por Deus para alegrar homens e</p><p>mulheres. Cristo nos livra da superficialidade de uma vida imediatista e nos</p><p>desafia a uma vida compromissada com a justiça e com a verdade. São</p><p>profundos em nós os fragmentos de uma consciência que deseja abraçar os</p><p>valores de Deus criados para a nossa felicidade”.</p><p>Se quero uma resposta que ultrapasse o nível conceitual para alcançar o</p><p>existencial, preciso ir além da pergunta “porque Deus permite o sofrimento” e</p><p>perguntar: “Aceito a solução de Deus para o problema do sofrimento? Aceito a</p><p>Cristo?” O que eu preciso é “aceitar a solução de Deus para o sofrimento</p><p>depositando minha confiança em Jesus Cristo para a vida eterna e permitir que</p><p>ele me lance ao mundo para ministrar seu amor, seu perdão e sua cura”.</p><p>Em 1930, um escritor norte-americano deixou numa revista de circulação</p><p>nacional um testemunho pungente sobre a falta de fé:</p><p>Quero apresentar-lhes uma das pessoas mais solitárias e infelizes do mundo.</p><p>Estou falando a respeito do homem que não acredita em Deus. Posso</p><p>apresentarlhes um homem assim porque eu sou um deles, e, me apresentando,</p><p>vocês estarão sendo apresentados ao agnóstico, ao cético de sua vizinhança,</p><p>porque ele está em toda a parte. Você vai se surpreender com o fato de que o</p><p>agnóstico inveja a sua fé em Deus, a sua crença nos céus e na vida futura, e sua</p><p>abençoada certeza de encontrar-se com seus amados numa vida em que não</p><p>existirão tristeza e dor. Ele daria tudo para possuir uma fé assim e ser confortado</p><p>por ela. Para ele só existe a sepultura. A única coisa que vê é a desintegração do</p><p>protoplasma e de sua vida psíquica. Nessa visão materialista, porém, não</p><p>encontro êxtase nem felicidade. O ateu pode enfrentar a vida com um sorriso ou</p><p>com uma atitude heróica. Ele pode apresentar uma fachada de coragem, mas não</p><p>é feliz. Pode opor-se espantada ou reverentemente diante da vastidão e majestade</p><p>do universo, sem saber a origem de si mesmo e nem por que veio a este mundo.</p><p>Ele fica consternado diante do espaço estupendo e do tempo infinito, sente-se</p><p>humilhado por sua pequenez infinita. É conhecedor de sua fragilidade, fraqueza</p><p>e brevidade. Certamente algumas vezes ele suspira por um cajado em que se</p><p>apoiar. Ele também carrega uma cruz. Para ele este mundo é uma jangada</p><p>manhosa à deriva nas insondáveis águas da eternidade, sem horizonte a vista.</p><p>Seu coração dói por causa da vida preciosa embarcada nessa jangada —</p><p>vagando, vagando, vagando, ninguém sabe para onde.</p><p>Reconheçamos que, apesar da existência do mal, Deus é</p><p>claramente justo na lógica humana e na experiência revelada</p><p>Primeiramente, ele fez perfeito o ser humano, inclusive para escolher não seguir</p><p>suas instruções. Como decorrência, para que o mal não estivesse em vigor, Deus</p><p>teria de intervir a todo momento, para impedir, por exemplo, que a chuva</p><p>causasse danos, que um veículo dirigido por um motorista imprudente causasse</p><p>mortes. Com isso se Deus, tiraria do ser humano sua responsabilidade, que é a</p><p>outra face da liberdade.</p><p>Há uma boa notícia: como Deus não pode ser senão justo, ele providenciou um</p><p>modo para justificar todos os atos humanos: por meio de Jesus Cristo, seu Filho,</p><p>morto na cruz, e precisamente porque foi morto na cruz, ele tomou sobre si todos</p><p>os nossos erros. Por ter pecado contra Deus, o ser humano não poderia perdoar a</p><p>si mesmo. A partir da cruz, quem poderia condenar já não o faz, desde que haja</p><p>um pedido de perdão.</p><p>Creiamos que, apesar do sofrimento, Deus é amoroso</p><p>Deus não é indiferente ao sofrimento. Ele intervém; enviou seu Filho e, depois, o</p><p>seu Espírito.</p><p>Deus intervém nos assuntos humanos. Mostrou seu poder em diferentes</p><p>situações na história. No entanto, há um limite para essa intervenção: o livre-</p><p>arbítrio humano. Ele permite que o ser humano o use, para o bem e para o mal.</p><p>Creiamos num Deus que não é uma concepção filosófica que vaga pelo espaço.</p><p>Mas, antes:</p><p>... um ser pessoal que se tornou homem em Jesus de Nazaré. Ele morreu numa</p><p>cruz para providenciar a solução final para o sofrimento e a morte. Sua solução é</p><p>o perdão e a vida eterna. Cristo ressuscitou dos mortos. Depois de um período de</p><p>40 dias, ele apareceu a mais de 500 pessoas. Ele ascendeu para o seu Pai nos</p><p>céus. Ele prometeu que voltará para destruir todo o mal, o sofrimento e a morte.</p><p>Ele transformará o mundo caótico e injusto num mundo organizado e justo. Ele</p><p>enxugará de seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem</p><p>choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou (Ap 21.4). Se não há um Deus</p><p>onisciente e todo-poderoso, Deus que permanece até o fim da história humana, a</p><p>justiça não sairá finalmente vencedora. Os erros jamais serão corrigidos. O mal,</p><p>o sofrimento e a morte triunfarão.</p><p>Creiamos que Deus pode transformar nosso sofrimento em bem e</p><p>bênção</p><p>José foi traído pelos irmãos, que o sequestraram e o venderam como escravo.</p><p>Tendo sobrevivido, foi acusado de traição só porque escolheu ser íntegro. Preso,</p><p>foi enganado por um companheiro. Quando parecia com a vida acabada, a justiça</p><p>foi feita e ele se tornou grande. Refletindo sobre suas desgraças, José concluiu:</p><p>Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me</p><p>haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou</p><p>adiante de vós. [...] Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa</p><p>sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim,</p><p>não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus (Gn 45.5-8).</p><p>O sofrimento existe, mas, creiamos, um dia cessará completamente. Enquanto</p><p>isso, Deus se envolve na história, seja para erradicá-lo, por meio do milagre, seja</p><p>para minorá-lo, ao nos dotar de força e sabedoria. Ao nos consolar, Deus prova</p><p>que está mesmo conosco. Ao nos ensinar, Deus nos faz ver, por meio do</p><p>sofrimento, que precisamos uns dos outros.</p><p>Somos chamados por Cristo a minorar os sofrimentos das pessoas. “Dai-lhe vós</p><p>de comer” (Mt 14.16) foi a instrução de Jesus aos discípulos diante de uma</p><p>multidão faminta. Grande parte do evangelho é gasta com a narrativa de curas</p><p>feitas por Jesus, pondo fim ao sofrimento de muitas pessoas. A própria cruz é</p><p>Deus participando do sofrimento humano.</p><p>Escolhamos não ser amargos</p><p>Optemos por não permitir que o sofrimento destrua nossa vida. Segundo a mídia,</p><p>Jacqueline Onassis considerou seriamente a possibilidade de suicídio após a</p><p>perda trágica do marido, John Kennedy.</p><p>Há suicídios emocionais. Pessoas que parecem viver, mas nelas não há mais</p><p>sonhos nem visões. Algumas pessoas escolhem viver e morrer com corações</p><p>amargos, porque, em certo sentido, decidimos o que fazer com o sofrimento.</p><p>Se escolhemos a amargura, então jamais pararemos de nos ferir a nós mesmos.</p><p>Ao assim proceder, jogamos pela janela a própria felicidade, porque não</p><p>podemos ser felizes e amargos ao mesmo tempo.</p><p>Diante de um desastre natural, uma vítima pode dizer: “Perdemos tudo e ficamos</p><p>tristes, mas continuamos juntos como família e agora vamos nos unir e</p><p>reconstruir”. Enquanto outro pode lamentar: “Minha vida se foi. Não posso</p><p>imaginar como vou continuar vivendo. Não vejo como me recuperar dessa</p><p>tragédia”.</p><p>Como escreveu Rick Warren, “não há na vida correlação absoluta entre</p><p>experiências e felicidade”. Nenhuma mesmo. Tenho visto pessoas passarem por</p><p>experiências terríveis e serem capazes de manter a felicidade, com atitudes</p><p>positivas, simplesmente porque esta é a escolha delas. Somos felizes quando</p><p>escolhemos ser felizes.</p><p>Confiemos em Cristo</p><p>Ao submeter tudo a Cristo, o apóstolo Paulo escreveu que aprendera o segredo</p><p>de ser feliz em qualquer circunstância (v. Fp 4.11,13). Se você quer ser feliz</p><p>independentemente das circunstâncias, faça o seguinte:</p><p>Apóie-se em Cristo para receber força e consolo</p><p>(Sl 112.6,7).</p><p>Ouça a Cristo para receber orientação e direção ( Jr 29.11).</p><p>Busque em Cristo a salvação (Sl 46.2).</p><p>O teólogo contemporâneo Peter Kreeft, afirma que o sofrimento é uma evidência</p><p>contra Deus, e a razão não confia nele. Nós, porém, devemos dizer: Jesus é a</p><p>evidência a favor de Deus, e a razão deve confiar nele.</p><p>É por isto que pregamos Cristo: queremos que as pessoas usem sua liberdade</p><p>para escolher o bem.</p><p>PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO</p><p>Por que temos tanta dificuldade em conciliar o sofrimento do ser humano e a</p><p>bondade de Deus?</p><p>Por que podemos falar num Deus que intervém?</p><p>Como podemos transformar o mal?</p><p>De que modo Jesus Cristo é a evidência a favor de Deus?</p><p>¹ Navio negreiro, 1869.↩</p><p>5</p><p>Como acreditar em milagres, se a ciência não os</p><p>confirma?</p><p>Quem pensa que pode haver um conflito real entre ciência e religião</p><p>deve ser muito inexperiente em ciência ou muito ignorante em</p><p>religião.</p><p>Phillip Henry</p><p>Se há um espetáculo de crescimento no mundo ocidental moderno, é o</p><p>espetáculo do desenvolvimento científico e tecnológico. Graças a novas teorias e</p><p>novas técnicas, as sombras do conhecimento vão desaparecendo. Já conhecemos</p><p>a natureza do solo de Marte e já é possível clonar mamíferos, inclusive no Brasil.</p><p>Uma das dimensões perversas desse espetáculo é a tentativa de expulsar a</p><p>transcendência. Para muitos crentes na ciência, a fé primitiva é inaceitável como</p><p>via de acesso à vida contemporânea, uma vez que esta última é tida como algo</p><p>cientificamente explicável e em constante evolução tecnológica.</p><p>Nesse contexto, a oração pela cura de alguém é considerada um gesto inútil. Um</p><p>pensador materialista escreveu: “a humanidade está perdendo um tempo imenso</p><p>com um procedimento [a oração intercessória] que simplesmente não funciona”.</p><p>Segundo essa visão, a fé é um sentimento primitivo do ser humano que tende a</p><p>desaparecer com o desenvolvimento científico.</p><p>Também nessa área os cristãos parecem acuados, embora sem razão. A partir dos</p><p>meios de comunicação, vem ganhando popularidade a ideia de uma ciência</p><p>onipotente e onisciente, que pode tudo e sabe tudo. Embora haja muitos</p><p>cientistas crentes, o fascínio do conhecimento ilimitado tem seduzido a muitos.</p><p>No plano do lugar comum, toda verdade, para ser aceita como tal, precisa passar</p><p>pelo crivo da ciência, marcada por um método próprio de experimentação e</p><p>observação. Assim, um milagre só pode ser aceito como milagre se for</p><p>cientificamente validado.</p><p>EM BUSCA DA PROVA DO MILAGRE</p><p>Embora o crente não precise de nenhuma evidência física do poder e do efeito da</p><p>oração, a ciência tem trilhado um longo caminho para demonstrar que a oração é</p><p>real e funciona.</p><p>Motivados pelo interesse científico e desafiados a inter-relacionar criativamente</p><p>sua fé com a pesquisa, alguns cientistas da área da saúde têm buscado mostrar a</p><p>relação entre a oração intercessória e a saúde. Graças a esses estudiosos, não há</p><p>mais dúvida de que a religião saudável faz bem à saúde. Sim, religião saudável,</p><p>porque infelizmente há expressões religiosas enfermas que, em nome da fé,</p><p>proíbem que os pacientes recebam tratamento adequado.</p><p>Há centenas de estudos confirmando o valor da fé para a melhoria das condições</p><p>médicas de pessoas enfermas. “A fé produz um estado de tranquilidade tal que</p><p>ajuda a diminuir o nervosismo e a ansiedade diante das dificuldades do dia a</p><p>dia”.</p><p>Independentemente da crença num Deus pessoal, grande parte dos médicos</p><p>admite que a oração intercessória, ao conectar o indivíduo com uma</p><p>comunidade, favorece a dele. Isso, porém, não significa que aceitem a</p><p>possibilidade de uma intervenção miraculosa em seus pacientes.</p><p>No entanto, há pesquisadores investigando o assunto, buscando algum efeito</p><p>sobrenatural da oração. Um dos primeiros estudos acerca do poder da oração foi</p><p>conduzido na unidade coronariana do Hospital Geral de San Francisco, na</p><p>Califórnia, entre 1982 e 1983, envolvendo 393 pacientes. Sem que tivessem</p><p>conhecimento, essas pessoas foram divididas em dois grupos: um receberia</p><p>orações de intercessores cristãos e outro, não. Os resultados indicaram que as</p><p>condições de saúde dos pacientes que receberam orações intercessórias</p><p>melhoraram mais que as dos outros. A pesquisa foi recebida com entusiasmo e</p><p>ceticismo, de acordo com a fé nutrida pelos observadores.</p><p>Embora diferentes pesquisas tenham chegado a diferentes conclusões, a revista</p><p>que publicou o artigo concluiu que tem fracassado a ciência que nega os efeitos</p><p>da religião sobre a saúde. Escrevendo aos profissionais da saúde, um médico</p><p>recomenda: “as crenças religiosas podem exercer poderosa influência sobre a</p><p>saúde de nossos pacientes, e nós precisamos saber disso”.</p><p>O problema, no entanto, não é exatamente esse. Uma coisa é demonstrar que a</p><p>oração faz bem; outra é provar que ela pode produzir a cura. O valor terapêutico</p><p>da oração está relacionado com o sentimento de pertencimento a um grupo –</p><p>reforçado com a oração intercessória (“estão orando por mim”) – e com a</p><p>autoestima, reforçado com a oração por si mesmo (“Eu sou amado por Deus”).</p><p>A dimensão miraculosa da oração, entretanto, está fora do campo da prova</p><p>científica, porque o milagre não pode ser observado e não se repete. Milagre que</p><p>se repete não é milagre. Milagre é uma ação extraordinária de Deus,</p><p>imprevisível, que não pode ser submetido à experimentação. Deus não cabe</p><p>dentro do figurino da razão. Ele intervém, seja curando, seja mudando uma</p><p>situação. Sabemos pela fé. Nunca aparecerá em estatísticas. Se o milagre</p><p>aparecer numa estatística, não será mais milagre.</p><p>O problema é a subordinação de todas experiências humanas ao crivo da razão.</p><p>Na verdade, estamos intoxicados de naturalismo. De acordo com os modelos</p><p>naturalistas, o mundo consiste de átomos organizados em constelações mais ou</p><p>menos complexas. A vida é, então, vista como uma enorme complexidade, por</p><p>isso os seres humanos não precisam ser dotados de espírito.</p><p>O universo segue leis exatas que, embora não possam ser rompidas, podem</p><p>oscilar em função de mecanismos conhecidos ou desconhecidos até voltarem a</p><p>suas posições naturais, o que gera exceções ao funcionamento das leis naturais</p><p>normais. Neste caso, os resultados positivos da oração intercessória são</p><p>coincidências. A ideia da existência de um Deus pessoal que intervém no mundo</p><p>é rejeitada.</p><p>Há um segundo modelo igualmente inaceitável para os cristãos porque também</p><p>recusa a ideia de um Deus pessoal. Para o ideário embebido no que se tem</p><p>chamado de pensamento da Nova Era, um movimento complexo que aceita uma</p><p>espécie de espiritualidade imanente, o efeito da intercessão vem das energias</p><p>positivas liberadas pelos intercessores, como se fosse uma espécie de telepatia,</p><p>sem nenhuma interferência de Deus, que é confundido com a força vital de cada</p><p>indivíduo.</p><p>Preferimos pensar que o mundo é uma realidade complexa, regida por um</p><p>conjunto definido de leis previamente fixadas. Se há exceções, elas se devem a</p><p>fatores desconhecidos que raramente ocorrem. Umas são parte do sistema, mas</p><p>outras, não. Resultam da ação de Deus, de criar e alterar a partir do nada. É Deus</p><p>— aquele que, no princípio, criou os céus e a terra — em ação. Em outras</p><p>palavras, o universo se organiza complexamente, e a ideia da intervenção divina</p><p>é parte desta complexidade.</p><p>Nem sempre quem crê entende a dinâmica complexa da ação de Deus. Nem</p><p>sempre quem não crê — e por isto não crê — entende que a ação de Deus faz</p><p>parte da complexidade do universo.</p><p>ENTENDENDO A RELAÇÃO ENTRE CIÊNCIA E FÉ</p><p>Precisamos, portanto, entender adequadamente a relação entre ciência e fé.</p><p>Precisamos entender que a dimensão científica não esgota a</p><p>realidade humana</p><p>Há um valor imenso na pesquisa científica. Nossa vida é impensável sem ela.</p><p>Embora haja bolsões de excelência, como no caso da genômica, o Brasil ainda</p><p>tem muito que caminhar nesse campo. É grande nossa dependência na maioria</p><p>dos campos do conhecimento.</p><p>Além de valorizar a pesquisa científica, devemos nos apropriar de seus</p><p>resultados. A ciência nos tem empurrado para um mundo tecnologicamente</p><p>maravilhoso. A vida, por exemplo, ficou mais</p><p>longa. Nos Estados Unidos e no</p><p>Japão, a expectativa de vida já se aproxima dos 85 anos de idade. A tecnologia</p><p>da informação nos permite acessar dados instantaneamente, trazendo mais</p><p>facilidade ao nosso dia a dia.</p><p>Apesar desses avanços, no entanto, precisamos colocar a ciência no lugar</p><p>devido. Não podemos entronizar a razão como soberana. No caso, por exemplo,</p><p>da melhoria dos índices de expectativa de vida, não podemos esquecer que tal</p><p>progresso beneficia apenas 10% da população mundial. Na realidade, segundo</p><p>um estudo da Universidade de Cambridge, “90% dos recursos para a saúde</p><p>disponíveis no planeta são destinados a 10% de sua população”. É por causa</p><p>deste desequilíbrio, conhecido como “desequilíbrio 10/90”, que, entre outros</p><p>fatores, a expectativa de vida não chegue aos 26 anos de idade em Serra Leoa.</p><p>Colocamos a ciência no lugar devido quando denunciamos sua subserviência ao</p><p>capital e quando recusamos um de seus princípios essenciais: o que pode ser</p><p>feito deve ser feito.</p><p>Como homens e mulheres de fé, também precisamos nos colocar no lugar devido</p><p>e o fazemos ao reconhecer que ciência e fé formam os trilhos do trem da vida,</p><p>que não podem se separar nem se aproximar; não se podem encontrar, sob pena</p><p>de a vida descarrilar.</p><p>Precisamos aceitar a soberania de Deus, que mostra a limitação do desejo</p><p>humano. Quando a ciência se ergue contra o conhecimento de Deus, precisamos</p><p>nos erguer contra ela (2Co 10.5), pois se trata de uma ciência falsa (1Tm 6.20).</p><p>Colocamos também a ciência no lugar devido quando afirmamos que nossas</p><p>experiências não podem reduzir-se ao estudo científico. Nossas melhores</p><p>sensações podem ser descritas cientificamente, mas não assim entendidas.</p><p>Podemos descobrir como o coração bate na experiência da saudade ou do</p><p>encontro afetivo, mas esses registros não explicam o que sentimos.</p><p>A experiência de entrar na presença de Deus por meio da oração ou do louvor</p><p>pode ser medida, mas nunca entendida. O prazer dessa realidade verdadeira está</p><p>além de estudos bioquímicos. O conhecimento da ciência é limitado. Um</p><p>exemplo é interpretar os milagres como coincidências, o que é corroborado pelos</p><p>céticos. De nossa parte, precisamos entender que a coincidência é insuficiente</p><p>para explicar todos os fatos da vida.</p><p>A Bíblia não diz que pessoas podem provocar milagres, mas que há um Deus</p><p>verdadeiro que pode fazê-lo. O problema essencial não é se os milagres são</p><p>possíveis, mas se Deus existe. Se Deus existe, os milagres são possíveis.</p><p>Talvez seja melhor pensar que “coincidência é quando Deus opera um milagre e</p><p>decide permanecer anônimo” (autor desconhecido).</p><p>Precisamos entender que a ciência é necessária</p><p>Precisamos da razão científica porque ela remove as barreiras do erro. Ao</p><p>corrigir as falhas de nossa percepção dos fatos, ela também remove muitas</p><p>barreiras no caminho que conduz a Deus. No entanto, ela não leva ninguém a</p><p>crer. Crer é uma escolha de coragem.</p><p>Precisamos da razão científica porque ela evita a fé cega ao analisar a lógica e a</p><p>evidência, a decepção e a superstição. É perigoso não ter cuidado com aquilo em</p><p>que cremos. Nem todos os milagres são milagres. Alguns podem ser</p><p>manipulações instigadas por interesses ilegítimos. Devemos, por isso, ser</p><p>comedidos e cautelosos ao classificar um acontecimento como milagre. A falta</p><p>de cuidado tem contribuído para lançar no ridículo a crença em milagres. Só há</p><p>milagre quando todas as causas naturais falham para explicar um acontecimento.</p><p>Assim, “crer em milagres não exige ignorância ou superstição; antes, requer</p><p>conhecimento e crença na ciência. Os milagres são exceções à regra; não</p><p>podemos reconhecer a exceção, sem conhecer a regra. Portanto, milagre e</p><p>ciência não são incompatíveis; na verdade, caminham juntos”.</p><p>Precisamos da razão científica porque ela fundamenta a fé. Toda vez que um fato</p><p>não pode ser explicado cientificamente, somos lançados ao domínio da fé, à</p><p>admissão da existência do sobrenatural. Diz a Bíblia que Deus criou todo o</p><p>universo físico, “no princípio”. O Deus da Bíblia é lógico, tanto que criou um</p><p>mundo ordenado e organizado. Esse mundo deve ser estudado.</p><p>Ao criar o homem, Deus lhe deu a tarefa de governá-lo (Gn 1.28). O ser humano</p><p>precisa entender a natureza e modificá-la, sem que isto se torne uma licença para</p><p>exauri-la e destruí-la. O mundo ainda pertence ao Senhor, que nos encarrega de</p><p>administrá-lo enquanto aqui estamos. E parece que não estamos nos saindo</p><p>bem...</p><p>A prática da ciência, portanto, é uma decorrência da criação, que demanda</p><p>pesquisa com liberdade e responsabilidade. Podemos dizer que "o mundo</p><p>moderno parece feliz em desfrutar os benefícios da revolução científica, que</p><p>surgiu a palavra das raízes bíblicas, mas está jogando fora suas raízes ao rejeitar</p><p>os padrões de conduta e verdade".</p><p>Recordemos que a Bíblia e a vida estão cheias de relatos de</p><p>milagres</p><p>Do início ao fim, a Bíblia é o livro dos milagres. Muitos deles, como a criação e</p><p>a ressurreição, são fundamentais para a fé cristã. Deus não detalha</p><p>exaustivamente os recursos físicos usados para realizá-los, mas indica que sua</p><p>intervenção sobrenatural direta esteve presente em muitos desses eventos.</p><p>A Bíblia registra inúmeras atuações miraculosas de Deus tanto para atender</p><p>necessidades individuais quanto comunitárias. A história do povo de Israel pode</p><p>ser colocada na resposta de Deus a Abraão, prestes a sacrificar o próprio filho.</p><p>Deus providenciou miraculosamente um cordeiro para o sacrifício. A história</p><p>deste povo é testemunha dos atos poderosos do Criador. Ele o retira</p><p>miraculosamente da escravidão no Egito, o leva através de desertos, montanhas,</p><p>rios e mares até a terra que lhe fora reservada.</p><p>Há muitos registros que acompanham a vida de outros líderes e profetas de</p><p>Deus, como Elias, por meio de quem o Criador fez chover ou mandou fogo para</p><p>queimar um altar.</p><p>Jesus nasceu miraculosamente. Sua ressurreição e ascensão resultaram da</p><p>intervenção miraculosa do Pai. Durante sua vida, Jesus operou muitos milagres.</p><p>Nem por isto todos creram neles. Alguns dos seus adversários atribuíam as curas</p><p>ao poder do Diabo (Mt 9.34; 12.24).</p><p>Jesus sabia que os milagres, isoladamente, não levam à fé, razão por que</p><p>esperava que houvesse arrependimento para a fé salvadora (Mt 12.38,39; 16.4;</p><p>Lc 11.29). Ainda hoje há pessoas de coração tão duro que, mesmo que alguém</p><p>ressuscite, não crerão (Lc 16.31).</p><p>As mensagens dos apóstolos, como Pedro e Paulo, foram confirmadas por</p><p>milagres. Ao longo da história do cristianismo, os milagres têm autenticado a</p><p>mensagem de Jesus Cristo. Ainda hoje é assim. O final da história humana será</p><p>marcado por fatos miraculosos, como a volta de Cristo e a ressurreição de todos</p><p>os mortos, eu, graças a Deus, entre eles.</p><p>Diante dos milagres na Bíblia, precisamos tomar uma posição. Alguns os</p><p>aceitam como intervenções de Deus. Esta é a nossa posição. Se os milagres</p><p>bíblicos não aconteceram, precisamos deixar a Bíblia. Deixando a Bíblia, temos</p><p>de deixar a fé em Deus.</p><p>Há uma posição intermediária, segundo a qual os milagres da Bíblia</p><p>aconteceram, mas só nela. Hoje não mais ocorrem. Foram necessários em</p><p>determinado período, mas já não o são, uma vez que podemos nos socorrer da</p><p>ciência. Esta posição tem um nome: cessacionismo. Deus cessou de fazer</p><p>milagres. Seu papel hoje é confortar e orientar, nunca intervir para mudar as</p><p>coisas.</p><p>O problema com esta posição é: a ressurreição final dos mortos será um milagre?</p><p>Deus, então, abriria uma exceção à sua cessação? De modo algum. O apóstolo</p><p>Paulo conecta a nossa ressurreição futura com a ressurreição de Jesus no</p><p>passado.</p><p>Ora, se está sendo pregado que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como alguns</p><p>de vocês estão dizendo que não existe ressurreição dos mortos? Se não há</p><p>ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, é</p><p>inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm. Mais que isso,</p><p>seremos considerados falsas testemunhas de Deus, pois contra ele</p><p>testemunhamos que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. Mas se de fato os</p><p>mortos não ressuscitam, ele também</p><p>não ressuscitou a Cristo. Pois, se os mortos</p><p>não ressuscitam, nem mesmo Cristo ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou,</p><p>inútil é a fé que vocês têm, e ainda estão em seus pecados. Neste caso, também</p><p>os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se é somente para esta vida que</p><p>temos esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de</p><p>compaixão. Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as</p><p>primícias dentre aqueles que dormiram (1Co 15.12-20; NVI).</p><p>Saibamos que há milagres verdadeiros, embora não entrem na</p><p>categoria</p><p>Nosso dia a dia está repleto de milagres. Pense na sua conversão a Jesus Cristo</p><p>como Salvador e Senhor. Você seguia por um caminho cujo fim não conhecia. O</p><p>Espírito Santo tocou em seu coração e você se rendeu. Desde então, sabe para</p><p>onde vai. O presente não lhe tira a paz. Você tem certeza do futuro. Como</p><p>denominar o que ocorreu em sua vida senão milagre?</p><p>Sua vida é feita de desafios, nas áreas emocional e material. Há momentos em</p><p>que parece que sua vida é mesmo um vale sombrio. Você ora ao Senhor pedindo</p><p>orientação ou solução para o seu problema. Alguém ora por você. Algo</p><p>acontece, de uma vez ou aos poucos. O problema pode desaparecer ou não, mas</p><p>você não se sente mais no vale da sombra. Como denominar essa experiência</p><p>senão milagre?</p><p>Os convites da vida são muitos e ruins, mas o convite de Deus é claro e bom:</p><p>busquem a santificação. Você segue o caminho da santidade, tem prazer nela,</p><p>quer crescer em santidade. Embora se sinta tentado, permanece firme. Como</p><p>denominar essa perseverança senão milagre?</p><p>Você se envolve no ministério da igreja. De repente se vê fazendo coisas para a</p><p>qual não tinha a menor inclinação. Nunca trabalhou com crianças, mas agora é</p><p>um feliz professor delas; nunca se sentiu preparado para aconselhar ninguém,</p><p>mas agora é usado por Deus para encorajar pessoas; sempre desejou uma carreira</p><p>profissional ou acadêmica, mas se viu chamado por Deus para outro tipo de</p><p>carreira: o serviço ministerial, para atender e ajudar pessoas, contribuir para a</p><p>salvação delas. Que nome dar a essa capacitação e mudança senão milagre?</p><p>Por isto, como escreveu Einstein, há duas maneiras de viver a vida. Uma é achar</p><p>que nada é milagre. Outra é pensar que tudo é milagre.</p><p>Continuemos a orar por milagres em nossa vida e na dos outros</p><p>Deus responde a nossas orações. O seu jeito de responder constitui outro</p><p>milagre. Ele nem sempre diz que respondeu. Muitas vezes, o Senhor deixa que</p><p>tudo pareça tão natural que até esquecemos que o ocorrido foi a resposta do que</p><p>pedimos.</p><p>Deus responde a nossas orações quando pedimos ajuda a um médico, a um</p><p>conselheiro, a um pastor, a um advogado, a um fisioterapeuta. Eu sei que o</p><p>cordeiro que apareceu diante de Abraão, evitando o sacrifício do seu filho, foi</p><p>uma providência de Deus. Só não sei se foi milagre. Gosto de pensar que o</p><p>cordeiro estava ali desde o princípio, mas Abraão não tinha olhos para ver. Às</p><p>vezes, as coisas são tão simples, miraculosamente simples, esperando apenas que</p><p>as vejamos. Quando pedimos ajuda, o cordeiro que ali estava então nos aparece.</p><p>Deus responde a nossas orações quando nos colocamos em suas mãos como</p><p>resposta dele aos outros e a nós mesmos. O melhor da vida é saber que Deus nos</p><p>usa. Abençoamos os outros e, ao mesmo tempo, nos abençoamos. Nossa</p><p>profissão não é apenas uma maneira de subsistir; mas uma forma de existir.</p><p>Quando nos colocamos nas mãos de Deus, não importa o seu ofício, ele será</p><p>fonte de milagres diários para os outros e para nós mesmos.</p><p>Deus responde a nossas orações quando confiamos em Jesus do modo como a</p><p>Bíblia nos ensina. Infelizmente, muitas pessoas confiam em Jesus com a errônea</p><p>ideia de que ele concederá a paz, entendida como o recebimento de coisas</p><p>agradáveis e a solução instantânea de todos os problemas. O que a Palavra de</p><p>Deus diz é que experimentaremos a paz em meio aos problemas, não que eles</p><p>serão todos eliminados de nossa vida.</p><p>Estejamos prontos para dialogar (2Pe 3.14-17)</p><p>Em relação à ciência, nossa atitude não pode ser de aceitação tácita de seus</p><p>princípios e de suas técnicas. Ao mesmo tempo, não precisamos, nem devemos,</p><p>recusar tudo o que vem dela, mesmo porque não conseguiremos, dado o grau de</p><p>desenvolvimento intelectual e tecnológico em que nos encontramos.</p><p>A ciência não constitui ameaça à fé. É um desafio, um desafio bemvindo. Uma</p><p>fé que não se sustenta no embate não merece esse nome. Deus não tem medo da</p><p>ciência que desvenda o mundo, pois foi ele quem o criou e supervisiona.</p><p>Quanto à nossa fé, precisamos conhecê-la mais, para o que temos de estudar</p><p>mais Bíblia e a teologia. O estudo associado à piedade vão nos dar a razão da</p><p>esperança que devemos ter. Assim fortalecidos, não teremos medo de enfrentar o</p><p>diálogo, nem de buscá-lo. Quando santificamos a Cristo no coração (2Pe 3.15a),</p><p>a mente é capacitada para usar todos seus recursos a fim de aceitar o que deve</p><p>ser aceito, rejeitar o que deve ser rejeitado, respeitando os que pensam</p><p>diferentemente (2Pe 3.16). Não importa se não nos respeitam, porque sofrer por</p><p>praticar a justiça faz parte de nossa missão (2Pe 3.14).</p><p>Nosso diálogo deve ser realizado com oração e inteligência. Eu, por exemplo,</p><p>sonho com uma rede de pesquisadores brasileiros, nas mais diversas áreas das</p><p>ciências, da filosofia e da teologia, que se encontrem para orar, fortalecer-se</p><p>mutuamente e compartilhar o resultado de seus trabalhos. O isolamento fortalece</p><p>os que querem manter Cristo cativo.</p><p>PASSOS PARA UMA FÉ BÍBLICA</p><p>Para os que creem, as coisas podem ter ficado mais claras. E quanto aos que</p><p>ainda não crêem? Estes precisam saber que a Bíblia não apoia a fé cega e</p><p>superficial. O que é crer, então?</p><p>A partir de Isaías 6.10b (Que eles não vejam com os olhos, não ouçam com os</p><p>ouvidos, e não entendam com o coração, para que não se convertam e sejam</p><p>curados), podemos trazer à mente os passos de uma fé bíblica.</p><p>Crer é ver com os olhos</p><p>Precisamos perceber nossa necessidade de saúde, família, dinheiro e amigos, e a</p><p>possibilidade de enfrentarmos a depressão, o fracasso, a vergonha, a culpa e o</p><p>vazio. Não podemos controlar as circunstâncias, as pessoas e, pior, nem a nós</p><p>mesmos. Somos capazes de fazer coisas que nos envergonham e de agir como</p><p>não queremos.</p><p>Crer é ouvir com os ouvidos</p><p>Temos de sentir que há um Deus amoroso, sábio e poderoso. Ele não apenas nos</p><p>dá tudo o que precisamos; ele é tudo o que necessitamos. Podemos compreender</p><p>isso claramente ao ouvir o que a Bíblia diz acerca de Deus.</p><p>Crer é entender com o coração</p><p>Precisamos entender que há uma evidência que confirma que a Bíblia vem de</p><p>Deus, é verdadeira e confiável. Não se trata apenas do registro humano de</p><p>acontecimentos, ideias e esperanças, mas ela é a Palavra da verdade absoluta. A</p><p>ciência nos fornece verdades relativas, alteráveis pelo avanço do conhecimento.</p><p>A Bíblia nos dá a verdade absoluta. Ela contém tudo o que precisamos para a</p><p>salvação.</p><p>Crer é decidir por uma vida com Deus</p><p>Precisamos nos arrepender de uma vida sem Deus e nos comprometer</p><p>plenamente com ele. Estejamos prontos para explicar a razão da esperança que</p><p>há em nós. Para tanto, oremos, leiamos a Bíblia, estudemos. Sem medo.</p><p>Aqueles que ainda não creem, tenham a coragem de crer. Façam uma decisão</p><p>radical por Cristo. Sem medo.</p><p>PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO</p><p>Como podemos criticar uma ciência que se pretende onipotente?</p><p>Há alguma contradição entre crer e entender?</p><p>Podemos, como cristãos, esperar por milagres, pedindo-os a Deus?</p><p>Como podemos dialogar com os que não creem?</p><p>6</p><p>E se a homossexualidade for genética?</p><p>Há duas falácias a serem evitadas: o determinismo, a ideia de que</p><p>todas as características de uma pessoa são conduzidas pelo seu</p><p>genoma, e o reducionismo, a ideia de que, agora que a sequência</p><p>humana está completamente decifrada, nossa compreensão das</p><p>funções e interações fornecerá uma descrição causal completa da</p><p>variedade humana.</p><p>Craig Venter</p><p>No final dos anos 1970, estive rapidamente nos Estados Unidos. Nunca</p><p>esquecerei um diálogo que travei com um imigrante brasileiro. Preocupado com</p><p>o que via no país que adotara, ele queria saber se no Brasil as igrejas evangélicas</p><p>apoiavam os relacionamentos homossexuais. Eu o tranquilizei...</p><p>No final dos anos 1990, um jovem não-evangélico me procurou na igreja de que</p><p>participo com um objetivo específico. Ele começou por citar Levítico 18.22, para</p><p>então perguntar: “E se ficar provado que a homossexualidade é genética?”.</p><p>Minha resposta descartou qualquer tipo de determinismo sobre o comportamento</p><p>humano, inclusive o genético.</p><p>De fato, desde 1993 têm sido feitas pesquisas para verificar uma eventual</p><p>causação genética para o comportamento homossexual, adotado por 4% a 5% da</p><p>população masculina e 2% a 4% feminina. A discussão do tema, que se tornou</p><p>mais intensa com a mudança do estilo político dos grupos homossexuais e pró-</p><p>homossexuais, não pode, no entanto, ser reduzida à questão genética. O</p><p>casamento entre pessoas do mesmo sexo está autorizado em vários países. Há</p><p>igrejas especializadas em abrigar praticantes professos da homossexualidade,</p><p>algumas até ordenam ministros.</p><p>Diante dessa realidade, precisamos de uma visão que respeite as diferenças entre</p><p>as pessoas, considere as descobertas científicas e leve a sério a revelação bíblica,</p><p>sob o risco de nos deixar levar pelo hedonismo homoerótico ou pelo ativismo</p><p>homofóbico.</p><p>Vejo cristãos em posições bem antagônicas: uns achando que a prática da</p><p>homossexualidade deve ser aceita em nome da graça de Deus, que alcança a</p><p>todos, independentemente de suas opções morais, enquanto outros pensam que o</p><p>homossexualismo é o pior dos pecados.</p><p>Trata-se de um assunto altamente complexo, sobre o qual é preciso falar a partir</p><p>do amor cristão, não do legalismo que se acha cristão, sem o ser. Interessam os</p><p>que sofrem, sejam pessoas que lutam contra suas tendências ou convivem com</p><p>suas culpas, sejam as que sofrem com os parentes diante da mesma dificuldade.</p><p>Ainda que partamos do amor cristão, temos de divisar também os que recusam (e</p><p>até ridicularizam) os princípios cristãos e propagandeiam o comportamento</p><p>homossexual como altamente desejável. Para essas pessoas, a genética é</p><p>responsável pela homossexualidade ou a influencia, Deus as fez do modo certo</p><p>ou a Bíblia está errada ao tratar o tema. Logo, a desaprovação ao estilo de vida</p><p>homossexual é infundada. Para alguns integrantes do movimento homossexual,</p><p>não há nada de errado. “Ridículos são os cristãos; são eles que precisam de</p><p>ajuda”.</p><p>A QUESTÃO GENÉTICA</p><p>Integrantes da comunidade homossexual ao redor do mundo se comprazem em</p><p>afirmar que seu estilo de vida não é apenas uma opção, mas consequência</p><p>genética, razão por que suas práticas devem ser aceitas integralmente. Na mesma</p><p>direção, mas em sentido contrário, há aqueles que acham que, se a</p><p>homossexualidade é genética, ela pode ser geneticamente modificada.</p><p>Os cientistas caminham em duas direções. No primeiro grupo estão aqueles que</p><p>acham extremamente improvável que haja um “gene gay” determinante de algo</p><p>tão complexo como a orientação sexual, embora admitam que os genes podem</p><p>influenciar a diferenciação sexual do cérebro e sua interação com o mundo</p><p>externo. Os estudos parecem indicar não haver uma causa genética para a</p><p>homossexualidade, mas uma influência genética para os desejos homossexuais.</p><p>A maioria dos estudiosos, no entanto, espera que os cientistas sejam cuidadosos</p><p>e não aceitem automaticamente todos os resultados que oferecem um vínculo</p><p>genético com a homossexualidade.</p><p>O desenvolvimento científico acabou produzindo dois equívocos, a que Craig</p><p>Venter, pesquisador-líder dos esforços privados (por meio do consórcio Celebra)</p><p>na decodificação do genoma humano, chamou de falácias: o determinismo e o</p><p>reducionismo. Ele não aceita a tese de que o genoma é responsável por todas as</p><p>características de uma pessoa, como prega o determinismo biológico.</p><p>Venter alerta também contra o reducionismo, segundo o qual, agora que toda a</p><p>sequência humana é completamente conhecida, chegará o tempo em que “nossa</p><p>compreensão das funções e das interações dos genes fornecerá uma descrição</p><p>causal completa da diversidade humana”.</p><p>Nosso comportamento, portanto, não é determinado pelos genes, mas por fatores</p><p>ambientais que desempenham um papel importante na formação dos</p><p>pensamentos e das ações. Dois dados, a título de exemplo, são suficientes para</p><p>demolir as duas falácias: só 300 genes do genoma humano estão ausentes no</p><p>rato; todos os seres humanos compartilham 99,9% do mesmo DNA.</p><p>Busquemos um exemplo. Devido a fatores genéticos e ambientais, o alcoolismo</p><p>tende a arruinar famílias. Alguns estudos indicam que 40 a 60% da</p><p>vulnerabilidade ao alcoolismo deriva da genética. O fato de haver base genética</p><p>para o alcoolismo não significa necessariamente que uma pessoa está</p><p>predestinada a ser alcoólatra. Fatores não-genéticos (ambientais) desempenham</p><p>importante papel no desenvolvimento do alcoolismo.</p><p>Como aprendemos com a engenharia genética:</p><p>O “comportamento” de um gene é o resultado de uma interação complexa com o</p><p>todo do organismo e é influenciado por condições externas. A estabilidade de um</p><p>gene é influenciado pela condição do organismo. Os genes são entidades bem</p><p>delineadas como se cria anteriormente. Eles podem mudar seu funcionamento</p><p>em resposta às condições do organismo, pelo que um mesmo gene pode alcançar</p><p>as diferentes proteínas sob condições diferente. Diante disto, não se pode esperar</p><p>que seja possível “costurar” os traços dos organismos de uma forma previsível</p><p>pela inserção de genes “desejáveis” nele.</p><p>Até agora, a ciência buscou em vão uma causa física para a homossexualidade.</p><p>(...) Evidências científicas parecem sugerir que, embora nossos hormônios</p><p>sexuais sejam responsáveis (pelo menos em parte) pelo comportamento sexual e</p><p>por experimentarmos impulsos sexuais, eles não determinam necessariamente o</p><p>tipo de comportamento sexual que adotamos nem o sexo do parceiro que</p><p>escolhemos.</p><p>[Afinal,] a liberdade humana reside precisamente na capacidade de escolher um</p><p>destino diante de todos os fatores ambientais, inclusive a natureza, a educação, o</p><p>DNA, o status econômico, a raça e a cor dos olhos de alguém.</p><p>Mais do que isto, a Bíblia ensina que o homem é mais que um corpo físico cuja</p><p>constituição é determinada pelas sequências do DNA. Somos espírito. Há uma</p><p>parte eterna de nós que existe em combinação com nosso corpo físico.</p><p>Todos temos propensões genéticas ou biológicas para todos os tipos de pecados.</p><p>A homossexualidade é uma delas. Deus, no entanto, nos deu a capacidade de</p><p>fazer as escolhas para nossa vida. Romanos 6 ensina que aquela pessoa que se</p><p>compromete a seguir a Cristo de todo o coração, Deus dá uma força extra para</p><p>evitar o pecado. Tudo é uma questão de escolha.</p><p>[Deve ficar evidente que] a biologia não é o fator determinante quando se</p><p>precisa decidir acerca do certo e do errado, do que agrada a Deus ou não. A</p><p>biologia é uma gestão do estado em que vivemos, como já exposto na Palavra de</p><p>Deus. Ademais, Deus é o projetista original e criador do corpo, da mente e do</p><p>espírito do ser humano. Ele não promete parar nossos desejos maus, mas</p><p>promete poder para que os vençamos, mas somente se nos apropriarmos deste</p><p>poder de modo correto.</p><p>UMA TEOLOGIA BÍBLICA</p><p>A Bíblia relata claramente dois episódios de prática homossexual. Antes de</p><p>mencioná-los, precisamos considerar um texto bastante utilizado pelos</p><p>defensores do movimento homossexual como favorável à prática. Tratase da</p><p>amizade entre Davi e Jônatas.</p><p>Segundo a narrativa bíblica, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas</p><p>ligou-se com a alma de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma (1Sm</p><p>18.1). Quando o amigo morre, Davi lhe dedica um cântico que termina de</p><p>maneira estranha aos olhos contemporâneos. O poeta diz que o amor do seu</p><p>amigo era superior ao amor das mulheres (2Sm 1.26). Embora alguns cheguem a</p><p>imaginar um relacionamento de natureza homossexual, tal visão resulta do</p><p>desejo de encontrar autorização bíblica para escolhas que a Palavra de Deus não</p><p>permite.</p><p>Davi mostra que há uma diferença entre o amor conjugal (entre pessoas de sexos</p><p>diferentes)</p><p>e o amor fraternal (entre pessoas do mesmo sexo ou de outros sexos).</p><p>A amizade entre Jônatas e Davi não era movida por nenhum tipo de interesse,</p><p>exatamente como devem ser as amizades. Davi fala não do amor eros mas</p><p>daquilo que o apóstolo Paulo chamaria de amor ágape. A amizade por Jônatas é</p><p>um modelo para nós. O egoísmo tem matado a amizade. Por isso, muitos somos</p><p>tão solitários.</p><p>Quanto aos episódios claros de homossexualismo, o primeiro se refere às</p><p>cidades-gêmeas Sodoma e Gomorra. A leitura de Gênesis 19 mostra que havia</p><p>naquelas comunidades pessoas que tinham atração pelo mesmo sexo. O segundo</p><p>texto está em Juízes 19, que mostra a que ponto descera o nível moral do povo</p><p>de Israel. Nada há que possa autorizar esse tipo de comportamento.</p><p>O nome dado aos protagonistas da ação, nesse caso, é bastante sugestivo de</p><p>como a Bíblia encara o homossexualismo: filhos de Belial (um nome antigo para</p><p>Satanás), que, impedidos de exercerem seus desejos, são “obrigados” a abusar de</p><p>uma moça, até matá-la. É deste modo, e não de outro, que a Bíblia trata tal</p><p>comportamento.</p><p>Esses textos não são prescritivos, mas narrativos. Os dois textos prescritivos</p><p>estão em Levítico e deixam a mesma instrução: “Não se deite com um homem</p><p>como quem se deita com uma mulher; é repugnante” (Lv 18.22). Se um homem</p><p>se deitar com outro homem, como quem se deita com uma mulher, ambos</p><p>praticaram um ato repugnante. Terão de ser executados, pois merecem a morte</p><p>(Lv 20.13). A leitura integral dos capítulos mostra outras advertências contra</p><p>atividades sexuais abominadas.</p><p>O Novo Testamento não relata nenhum episódio, mas oferece clara orientação</p><p>sobre o tema. Há quatro textos reveladores. O primeiro é de natureza geral e os</p><p>demais são bem específicos.</p><p>Citando Gênesis (v. 1.27 e 2.24), Jesus se refere à natureza do casamento como</p><p>uma união entre um homem e uma mulher: “Vocês não leram que, no princípio,</p><p>o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai</p><p>e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’” (Mt 19.5,</p><p>cf. Mc 10.7).</p><p>Os demais textos são do apóstolo Paulo. Comecemos pelo último de acordo com</p><p>a ordem de aparecimento e de datação. Escrevendo a Timóteo, o mestre dos</p><p>gentios situa o homossexualismo no capítulo das transgressões contra os</p><p>princípios divinos:</p><p>Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. Também</p><p>sabemos que ela não é feita para os justos, mas para os transgressores e</p><p>insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreverentes, para</p><p>os que matam pai e mãe, para os homicidas, para os que praticam imoralidade</p><p>sexual e os homossexuais, para os sequestradores, para os mentirosos e os que</p><p>juram falsamente; e para todo aquele que se opõe à sã doutrina. Esta sã doutrina</p><p>se vê no glorioso evangelho que me foi confiado, o evangelho do Deus bendito</p><p>(1Tm 1.8-11).</p><p>Não há dúvida de que o autor bíblico situa a prática homossexual no quadro do</p><p>comportamento não desejado por Deus. Escrevendo aos Romanos –entre os</p><p>quais, pelo menos na elite, a homossexualidade ou a bissexualidade tornara-se</p><p>padrão nos palácios imperiais —, Paulo lamenta que alguns homens e mulheres,</p><p>dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por</p><p>imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros,</p><p>quadrúpedes e répteis.</p><p>Como consequência de tais atos, Deus os entregara à impureza sexual, segundo</p><p>os desejos pecaminosos do seu coração, para a degradação mútua do corpo.</p><p>Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres</p><p>criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. (...) Por causa disso</p><p>Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas</p><p>relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os</p><p>homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se</p><p>inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes,</p><p>homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua</p><p>perversão (v. Rm 1.23-27).</p><p>Os homossexuais leem o texto de outro modo. Para eles, o apóstolo não trata da</p><p>ética social, mas da ira de Deus, não podendo o texto ser usado para outro fim.</p><p>Argumentam ainda que Paulo condena apenas a pedofilia, por representar a</p><p>humilhação de uma pessoa por outra. Havendo consenso no ato sexual, não há</p><p>condenação. Paulo também só condena a prática homossexual por parte dos</p><p>heterossexuais. Ele não contraria a orientação sexual de uma pessoa.</p><p>Diferentemente dessa interpretação, no entanto, a leitura simples ou exegética do</p><p>texto deixa claro que o apóstolo usa a expressão “natural” (“contrária à</p><p>natureza”) para mostrar que a heterossexualidade é natural e que a</p><p>homossexualidade é contrária à natureza. Obviamente também é anacronismo</p><p>imaginar Paulo fazendo distinção entre prática e orientação sexual, visão</p><p>bastante recente na história da sexualidade. Fique claro que, se a conduta sexual</p><p>provoca a ira de Deus, ela é imoral, logo inaceitável.</p><p>Por isso, ele se alegra com aqueles que, um dia tendo trilhado este caminho,</p><p>agora estavam vivendo segunda a sã doutrina ou ética de princípios divinos.</p><p>Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se</p><p>deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais</p><p>passivos [efeminados – em outras versões] ou ativos [sodomitas], nem ladrões,</p><p>nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o</p><p>Reino de Deus. Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram</p><p>santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de</p><p>nosso Deus (1Co 6.9-11 NVI).</p><p>A discussão atual, se o homossexual pode se tornar heterossexual, não tinha</p><p>sentido para Paulo, diante do poder do Evangelho; poder que continua vivo. O</p><p>apóstolo é firme. Ficarão fora do Reino de Deus os que escolherem pecar contra</p><p>o próprio corpo e os corpos dos outros, vivendo como adúlteros ou</p><p>homossexuais. Adúltero é todo o que quer que a satisfação de seus desejos</p><p>jamais acabe; por isso se presta a qualquer tipo de papel em busca da</p><p>continuidade desta satisfação. Adúltero é aquele que, no plano do desejo e da</p><p>prática, busca sexualmente quem não é seu cônjuge; como deseja, fará tudo,</p><p>como Davi em relação a Bate-Seba, para consumar o desejo. Adúltero é todo</p><p>aquele que se viciou em sexo, seja de modo virtual ou real, independentemente</p><p>de idade ou estado civil. Adúltero é quem não controla seus desejos e vive</p><p>guiado por eles.</p><p>Se adúltero é um termo genérico para os pecados sexuais, efeminados</p><p>(homossexuais passivos) e sodomitas (homossexuais ativos) são termos</p><p>específicos. A questão não é recente, embora eles reivindiquem cada vez mais a</p><p>legitimidade da experiência e da convivência homossexual. Dos 15 primeiros</p><p>imperadores romanos, apenas um não era homossexual. Paulo, portanto, falava</p><p>de um problema real, oferecendo, assim, um ensinamento ainda atual.</p><p>Desse texto, deriva-se outra valiosa informação: "Deus pode transformar a vida</p><p>de uma pessoa envolvida nesse comportamento. [...] Paulo conhecia antigos</p><p>homossexuais na igreja de Corinto! Portanto, a mensagem de que o</p><p>homossexualismo pode ser mudado não é nova; os homossexuais têm</p><p>experimentado transformações desde que a Bíblia foi escrita."</p><p>Diante desse quadro e do ensino bíblico, podemos extrair dois conselhos:</p><p>O primeiro é que devemos respeitar os homossexuais. Devemos dar-lhes boas-</p><p>vindas em nossas igrejas, sem discriminá-los. O respeito, porém, deve ser mútuo,</p><p>cabendo a eles respeitar também a comunidade onde estão e buscam outros</p><p>valores.</p><p>O segundo é que, supondo haver no homossexual alguma compulsão</p><p>incontrolável, o único caminho para quem deseja integrar o Reino de Deus é a</p><p>abstinência. O convite a todos é para a plenitude de vida, desfrutando sua</p><p>sexualidade segundo os padrões de Deus. Esse convite deve ser feito, seja qual</p><p>for a sua experiência de vida. Ninguém pode ser escravo do passado, seja o</p><p>abuso sexual de que foi vítima, seja a educação equivocada que recebeu. Se você</p><p>é pai ou mãe,</p><p>veja como está educando seu filho, se nunca ou só lhe impõe</p><p>limites. Reavalie sua presença, como pai ou como mãe. Se você observa</p><p>tendências homossexuais em seu filho, converse com ele, procure ajudá-lo. Se o</p><p>caminho que seu filho escolher estiver fora da vontade de Deus, ame-o assim</p><p>mesmo. Há lugar no Reino de Deus para adúlteros e homossexuais que tenham</p><p>se comprometido a mudar de vida.</p><p>Apesar de ser o que somos, não estamos condenados a manter nossa atual</p><p>situação, pois Deus nos transforma em outros seres. Não é magia, mas uma</p><p>operação da Trindade, que nos sela para um novo tipo de vida.</p><p>A transformação é o resultado da ação da Trindade sobre nós. Com o sangue, o</p><p>Filho nos lava de todos os pecados. Depois de lavados, somos declarados pelo</p><p>Espírito Santo separados (isto é: santificados) para Deus. Lavados e santificados,</p><p>o Pai nos coloca seu selo.</p><p>NOSSAS ATITUDES</p><p>Diante do conhecimento que dispomos, na ciência e na Bíblia, e diante do vigor</p><p>da propaganda homossexual, que fazer?</p><p>Fiquemos todos com a Bíblia</p><p>Não deixemos que a propaganda pró-homossexual faça a nossa agenda. Nosso</p><p>modo de pensar deve ser bíblico. A Palavra de Deus contém princípios eternos,</p><p>que não aprovam a prática homossexual. Mesmo que pareçamos ridículos,</p><p>permaneçamos com a revelação divina. A razão não está contra ela.</p><p>Amemos os homossexuais</p><p>Deus ama muito todos os seres humanos, incluindo os homossexuais. Há quem</p><p>diga que a Bíblia os condena, mas não é verdade. O que ela afirma é o amor de</p><p>Deus, como lemos em Romanos 5.10: “Se quando éramos inimigos de Deus</p><p>fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora,</p><p>tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua vida!”.</p><p>Se você ouve um cristão dizer que os homossexuais devem ser odiados, temidos</p><p>ou detestados, você está diante de um cristão que ainda não compreende o amor</p><p>e o perdão que Deus lhes têm dado, os quais deveriam estar refletidos nos seus</p><p>comportamentos. Deus condena esta atitude, mas continua amando a pessoa, tal</p><p>como condena todos os pecados, não apenas o da homossexualidade. Ele nos</p><p>amou a ponto de levar nossos pecados sobre seus ombros e fazer o que não</p><p>poderíamos fazer: pagar a pena e ter a vida eterna.</p><p>Estudemos a questão, que é muito complexa</p><p>No plano científico, ainda temos muitas perguntas sem respostas. Não há</p><p>contradição entre ciência e Bíblia. Quanto mais pesquisamos, mais as duas se</p><p>aproximam.</p><p>Atitudes específicas</p><p>Para os que, porventura, tenham alguma inclinação pelo mesmo sexo, a Bíblia</p><p>nos autoriza as seguintes sugestões:</p><p>Fique com a Bíblia. Por ser a Palavra de Deus, você vai encontrar conforto</p><p>para todas as horas e todas as situações.</p><p>Ore ao Senhor. Deus o ama, não importa como você seja.</p><p>Busque a transformação. Mire-se nos exemplos de Corinto mencionados pelo</p><p>apóstolo Paulo. Não se deixe seduzir pelos discursos de que você não precisa</p><p>mudar. Nem aceite a ideia de que não é possível a mudança.</p><p>Atitudes indiretas</p><p>Se alguém sofre com algum parente que tem inclinação pelo mesmo sexo ou já</p><p>se comporta como homossexual, a mesma Bíblia nos ensina o que fazer:</p><p>Fique com a Bíblia. Ela deve ser o seu guia.</p><p>Ore ao Senhor. Interceda diariamente por seu familiar, para que Deus lhe</p><p>preserve a saúde e os relacionamentos.</p><p>Não o afaste. Não afaste essa pessoa querida do seu convívio. Com ele por</p><p>perto, sempre haverá uma oportunidade de apoiar e aconselhar.</p><p>PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO</p><p>Qual o risco do determinismo biológico?</p><p>Como podemos dizer que a Bíblia não está ultrapassada em suas orientações</p><p>acerca da homossexualidade?</p><p>Como afirmar a verdade bíblica e, ao mesmo tempo, amar os homossexuais?</p><p>Qual o papel da igreja na questão da homossexualidade?</p><p>7</p><p>Por uma mente bíblica</p><p>Fiz uma aliança com Deus: que ele não me mande visões, nem</p><p>sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das</p><p>Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que</p><p>preciso conhecer, tanto para esta vida quanto para o que há de vir.</p><p>Martinho Lutero</p><p>Existem valores absolutos e eles são definidos pela Bíblia. Vejamos alguns:</p><p>1. Deus é o Criador Todo-poderoso e onisciente do universo e ainda governa</p><p>sobre o mundo.</p><p>2. O mal é real, mas cessará, porque Satanás, que teve decretada a derrota, no</p><p>final dos tempos será humilhado, razão por que o cristão se move pela esperança</p><p>("Nós, porém, segundo a sua promessa [de Jesus], aguardamos novos céus e uma</p><p>nova terra, nos quais habita a justiça; 2Pe 3.13).</p><p>3. Cristo viveu uma vida sem pecado, o que lhe dá poder para salvar e nos</p><p>conduzir a uma vida fora do domínio do pecado. Afinal, “não temos um sumo</p><p>sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que,</p><p>como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemonos, pois,</p><p>confiadamente ao trono da graça, para que recebamos misericórdia e achemos</p><p>graça, a fim de sermos socorridos no momento oportuno” (Hb 4.15,16).</p><p>4. A salvação é um dom de Deus e não pode ser obtida pelo mérito, como está</p><p>escrito: Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto, [porém] não vem de vós,</p><p>[porque] é dom de Deus (Ef 2.8).</p><p>5. O cristão tem a responsabilidade de compartilhar sua fé em Cristo com outras</p><p>pessoas.</p><p>6. A Bíblia é precisa em todos os seus ensinos, em todos os campos, da teologia</p><p>à moral, já que é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para</p><p>repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus</p><p>seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra (2Tm 3.16,17).</p><p>Existe mente guiada pela Palavra de Deus? Harry Blamires, autor inglês,</p><p>respondeu negativamente. Para ele, os cristãos sucumbem diante do secularismo,</p><p>ao invés de aplicarem sua fé a todas as áreas da vida. Adotamos os valores do</p><p>mundo, buscamos a aprovação do mundo e perseguimos os símbolos mundanos</p><p>de status, o que leva a igreja a perder sua essência e seu poder.</p><p>Há uma ética cristã, uma prática cristã e uma espiritualidade cristã. Como um ser</p><p>moral, o cristão moderno subscreve um código diferente do código não-cristão.</p><p>Como membro de uma igreja, o cristão assume compromissos ignorados pelos</p><p>não-cristãos. Como um ser espiritual, o cristão esforça-se, em oração e</p><p>meditação, para cultivar uma dimensão de vida inexplorada pelos não-cristãos.</p><p>No entanto, como um ser pensante, o cristão moderno tem sucumbido ao</p><p>secularismo. Ele aceita a religião — sua moralidade, seu culto, sua cultura</p><p>espiritual — mas rejeita a perspectiva religiosa da vida, a perspectiva que põe</p><p>todas as questões terrenas dentro do contexto do eterno, a perspectiva que</p><p>relaciona todos os problemas humanos — sociais, políticos e culturais — aos</p><p>fundamentos doutrinários da fé cristã, a perspectiva que vê todas as coisas aqui</p><p>em baixo nos termos da supremacia divina e a transitoriedade da vida nos termos</p><p>do céu e do inferno.</p><p>Blamires pode ter exagerado, mas uma pesquisa recente mostra que a sua</p><p>preocupação não era sem propósito. Consultados 2033 adultos, a pesquisa</p><p>confirmou que apenas 9% dos evangélicos norte-americanos pensam</p><p>biblicamente na tomada de decisões. É por isso que tão poucas pessoas</p><p>demonstram de modo coerente o amor, a obediência e as prioridades de Jesus.</p><p>“A razão básica pela qual as pessoas não agem como Jesus é que elas não</p><p>pensam como Jesus”, concluiu o pesquisador.</p><p>A comparação na tabela ao lado nos ajuda a ver como o cristianismo e o</p><p>secularismo estão em clara oposição.</p><p>PRECISAMOS DE UMA MENTE BÍBLICA</p><p>Por causa da queda, a mente (incluindo, por exemplo, as emoções, a vontade e a</p><p>sexualidade) está contaminada. Por isso, cada cristão, para merecer essa</p><p>designação, precisa de uma mente bíblica, que se agarra firmemente aos</p><p>pressupostos básicos da Bíblia e se deixa conduzir por suas verdades. Tem uma</p><p>mente bíblica quem é moldado pela Bíblia, a partir da qual se olha para todas as</p><p>coisas, e é renovado pelo Espírito Santo.</p><p>CRISTIANISMO</p><p>A soberania do Deus trino e uno é o ponto de partida. Deus fala através da Bíblia (Gn 1.1; Sl 103.19; 1Tm 6.15; Rm 3.16,17).</p><p>Devemos reconhecer que Deus é Deus. Ele é o único Senhor (Êx 20.4-6, At 17.24).</p><p>A Palavra e a pessoa de Deus são a Verdade pela qual o ser humano deve viver (Tt 1.2,3, Jo 14.6).</p><p>O mundo e o universo são realidades criadas (Gn 1.1, Dt 4.32).</p><p>Educação é a aprendizagem da verdade de Deus em todos os campos. Ela não ignora a ciência, mas a avalia à luz da verdade de Deus. O conteúdo da verdade cresce com a pesquisa e o estudo, mas a verdade é objetiva porque é dada por Deus ( Jo 8.32).</p><p>A vontade do ser humano deve se conformar ao propósito de Deus. O indivíduo deve ser refeito e criado pela graça de Deus (Rm 12.2).</p><p>O problema do ser humano é o pecado (Rm 3.23, 5.12).</p><p>A família é a instituição básica de Deus (Gn 2.24, Ef 5.31—6.4).</p><p>Temos, portanto, a tarefa de desenvolver uma mente bíblica, mesmo (ou</p><p>especialmente) numa época em que muitos aspectos da vida cultural têm sido</p><p>tomados pela perspectiva não-cristã. “O desenvolvimento de uma mente cristã</p><p>não implica uma jornada ao mundo subjetivo de alguém, mas um exercício de</p><p>longo prazo para apropriar e assimilar a inteireza da perspectiva cristã acerca da</p><p>realidade, o que requer a adoção de uma perspectiva baseada na Bíblia”.</p><p>Cada um de nós deve saber que, ao se tornar cristão, tem início uma batalha: a</p><p>batalha de pensar de modo cristão. E se não considerarmos a mente um campo</p><p>de batalha, não começaremos a lutar.</p><p>Para desenvolver a mente cristã, formada pelas verdades do cristianismo bíblico</p><p>e em sintonia com as realidades do mundo contemporâneo, precisamos recusar</p><p>dois extremos: entusiasmarmo-nos de tal modo com a Palavra a ponto de fugir</p><p>para o seu mundo e deixar de confrontar o mundo com ela, ou entusiasmarmo-</p><p>nos de tal modo com o mundo que nos conformamos com ele e nos esquecemos</p><p>de colocá-lo sob o juízo da Palavra. Escapismo e conformismo, portanto, são</p><p>extremos a serem evitados pelo cristão.</p><p>A NATUREZA DA MENTE BÍBLICA</p><p>O que a Bíblia ensina sobre a vida? Como ela deve ser? Como devemos nos</p><p>portar em busca de uma vida que valha a pena?</p><p>1. A mente bíblica reconhece que Deus é a realidade suprema da vida e aceita</p><p>que ele se dá a conhecer por meio da Palavra. Ela o descreve como Criador,</p><p>Senhor, Redentor, Pai e Juiz. A mente bíblica se recusa a oferecer honra a</p><p>qualquer outra realidade ou pessoa que desonre a Deus. Por isso, a mente bíblica</p><p>teme humildemente a Deus, sabendo que esta humildade é o princípio da</p><p>sabedoria.</p><p>2. Por causa da realidade suprema de Deus, a mente bíblica parte do pressuposto</p><p>de que a vida humana tem sentido. A Bíblia mostra que a vida sem Deus não tem</p><p>sentido. Se a vida se reduz a um período de anos, em muitos casos cheio de</p><p>sofrimento e injustiça, ela é mesmo desprovida de sentido. No entanto, Deus</p><p>pode torná-la plena.</p><p>Deus pode converter a loucura humana em sabedoria. Sem Deus só há loucura e</p><p>futilidade. Esta é a tragédia do vazio espiritual do mundo hoje em dia e é por</p><p>isso que a mente cristã rejeita o secularismo. O secularismo nega a realidade de</p><p>Deus e, portanto, destrói a autêntica humanidade. [...] O ser humano sem Deus já</p><p>não é humano.</p><p>O salmista nos lembra, então, que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria;</p><p>todos os que cumprem os seus preceitos revelam bom senso. Ele será louvado</p><p>para sempre (Sl 111.10)!</p><p>3. A mente bíblica sabe, como ensina a Bíblia, que a dignidade do ser humano</p><p>lhe é própria por ter sido criada por Deus, mesmo que ela tenha sido corrompida</p><p>pelo pecado. A dignidade nos dá esperança, mas sua depravação limita nossas</p><p>expectativas. Por isso, a mente bíblica deixa juntas a dignidade que vem da</p><p>criação e a depravação que vem da queda. Paulo descreve nossa situação com as</p><p>seguintes palavras:</p><p>Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E</p><p>não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito,</p><p>gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a</p><p>redenção do nosso corpo. (Rm 8.22,23).</p><p>Não podemos ser otimistas, achando que o ser humano vai tomar a história nas</p><p>mãos e fazer da terra o melhor dos lugares. Não vai. Entretanto, não podemos ser</p><p>pessimistas, achando que a história caminha de mal a pior. A história tem um</p><p>Senhor. A mente bíblica não é otimista, nem pessimista, mas realista. Segundo a</p><p>Bíblia, o ser humano pode amar, pensar, criar e adorar, mas também cobiçar,</p><p>guerrear, odiar e matar.</p><p>Precisamos de uma visão bíblica acerca da realidade humana, inclusive no que</p><p>diz respeito à autoimagem. Precisamos saber quem somos. Alguns de nós</p><p>tendemos orgulhosamente a exagerar nosso valor, enquanto outros ficam</p><p>paralisados com uma espécie de complexo de inferioridade, certos de que não</p><p>existe dignidade alguma no ser humano.</p><p>Temos valor, e ele cresce à medida que mais adoramos a Deus, ao reconhecer</p><p>que fomos criados à imagem dele. Temos valor porque essa imagem de Deus em</p><p>nós foi (pode ser) recuperada pela ação da graça de Deus manifesta em Jesus, a</p><p>nosso favor.</p><p>É por isso, como nos lembra John Stott, que Jesus me chama tanto à negação</p><p>como à afirmação de mim mesmo. O que sou se deve em parte à criação e em</p><p>parte à queda, mas também em parte à criação e à redenção.</p><p>4. A mente bíblica aceita que Jesus Cristo é o Senhor. O cristão é aquele que</p><p>diante de Jesus afirma-o como Senhor e Deus. Quando Jesus apareceu diante dos</p><p>discípulos, depois de ressuscitar, Tomé foi confrontado com a presença dele e</p><p>exclamou, entre assustado e radiante: “Senhor meu e Deus meu!”. Esta confissão</p><p>ecoa na história, como também o comentário de Jesus: “Porque me viu, você</p><p>creu? Felizes os que não viram e creram” ( Jo 20.26-29; NVI).</p><p>A mente bíblica é feliz porque crê em Jesus mesmo que não tenha visto o Jesus</p><p>histórico. Pela fé, a mente bíblica afirma que ele é o Senhor, isto é, que tem</p><p>absoluta autoridade e domínio sobre todas as áreas da vida. Confessar Cristo</p><p>como Senhor é dizer: “Jesus, tu és o responsável pela minha vida e desejo que a</p><p>dirijas”.</p><p>O senhorio de Cristo alcança todas as áreas da vida de quem tem a mente bíblica,</p><p>inclusive sobre o que crê, pensa e deseja. Nenhum de nós vive apenas para si, e</p><p>nenhum de nós morre apenas para si. “Se vivemos, vivemos para o Senhor; e, se</p><p>morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos,</p><p>pertencemos ao Senhor. Por esta razão Cristo morreu e voltou a viver, para ser</p><p>Senhor de vivos e de mortos” (Rm 14.7-9).</p><p>"Como seguidores de Jesus Cristo, eu e você não temos o direito de determinar</p><p>em que vamos crer ou de desenvolver a própria filosofia de vida.</p><p>Porque ele é o Senhor, Cristo tem autoridade de orientar de modo exclusivo a</p><p>mente do crente".</p><p>Afirmamos, pela fé, que Jesus é o Senhor. Se o afirmamos, lutamos para que este</p><p>senhorio seja efetivo. Na verdade, “nenhum de nós tem a completa mente de</p><p>Cristo. Nós nem sempre pensamos como cristãos. Tenho ideias pelas quais tomo</p><p>decisões e faço julgamento que não são coerentes com a mente de Cristo. Há</p><p>uma longa luta para conformar meu pensamento ao pensamento de Cristo, para</p><p>amar o que Cristo ama e rejeitar o que Cristo rejeita, para afirmar que ele afirma</p><p>e recusar o que ele recusa. [Preciso] aprender a olhar a vida do jeito que Deus vê,</p><p>porque estou convencido de que ele é o autor e a fonte da verdade”.</p><p>Este deve ser o desafio da minha vida. Esta deve ser a meta para a qual avanço.</p><p>Esta é a essência do discipulado cristão. A mente bíblica é uma mente discípula.</p><p>PASSOS PARA O DESENVOLVIMENTO DA MENTE BÍBLICA</p><p>Há uma expressão no Novo Testamento que define bem a decisão de buscar a</p><p>mente bíblica. Ela sai da boca de Jesus e da pena dos apóstolos, especialmente</p><p>de Paulo. Trata-se da magistral expressão “Tu, porém”.</p><p>Diante da demora de uma decisão, Jesus aconselhou a um quase discípulo,</p><p>escravo do medo e dos relacionamentos superficiais: “Deixa os mortos sepultar</p><p>os seus próprios mortos; tu, porém, vai e anuncia o reino de Deus” (Lc 9.60). Há</p><p>muitos que observam Jesus, mas jamais tomam uma decisão de segui-lo.</p><p>A outro, que posava de crente, ele orientou: “Tu, porém, quando jejuares, unge a</p><p>tua cabeça e lava o teu rosto” (Mt 6.17). Há muitos cristãos que ainda acham que</p><p>são cristãos porque merecem, não porque</p><p>fundamen- tal para a</p><p>igreja: a apologética, o campo da teologia que se presta a defender intelectual e</p><p>racionalmente a fé cristã.</p><p>Este volume pretende fornecer respostas às seguintes indagações, entre tantas</p><p>outras:</p><p>Por que propagar um cristianismo cuja história está cheia de violência?</p><p>Não é a religião uma ilusão?</p><p>É politicamente correto afirmar que só Jesus salva?</p><p>Como crer num Deus amoroso que permite o sofrimento?</p><p>Como acreditar em milagres, se a ciência não os confirma?</p><p>E se a homossexualidade for genética?</p><p>Escrito de forma clara e concisa, este livro apresenta as principais acusações</p><p>lançadas contra a fé cristã e como responder a essas acusações à luz da razão e</p><p>da Revelação.</p><p>O leitor também tem à disposição, no final de cada capítulo, uma série de</p><p>perguntas que podem ser usadas como forma de recapitular o conteúdo</p><p>aprendido. Não deixe de responder a cada pergunta. Além disso, há uma vasta</p><p>bibliografia para enriquecer sua biblioteca.</p><p>Aproveite o Curso Vida Nova de Teologia Básica. Este volume mostra o valor de</p><p>estarmos bem preparados para responder a qualquer um que pedir a razão de</p><p>nossa fé (1Pe 3.15). E esse é um dever de cada cristão. Não se trata de uma</p><p>atividade restrita a profissionais da teologia. E para cumprir bem esse dever,</p><p>além da razão, também os cristãos têm à disposição a Palavra inspirada de Deus,</p><p>que é “divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para</p><p>corrigir, para instruir em justiça; a fim de que o homem de Deus tenha</p><p>capacidade e pleno preparo para realizar toda boa obra” (2Tm 3.16-17; Almeida</p><p>Século 21).</p><p>Os Editores</p><p>Abril de 2006</p><p>Introdução</p><p>Aquele que obtiver sucesso ao definir o conhecimento, de forma que</p><p>apenas suas convicções sejam tidas como tal, conseguirá estabelecer</p><p>as normas políticas e dirigir a vida humana.</p><p>Dallas Willard</p><p>A identidade cristã tem sido apreendida como politicamente correta e</p><p>intelectualmente inaceitável. Nossos críticos atestam, por exemplo, que</p><p>desrespeitamos as demais tradições religiosas ao afirmar que só Jesus Cristo</p><p>salva. Sustentam ainda que nossa fé se alimenta da ignorância das pessoas, o que</p><p>constitui motivo suficiente para que os indivíduos de bem não só recusem mas</p><p>combatam o cristianismo.</p><p>A crescente pressão é também antiga. Quando o filósofo alemão Friedrich</p><p>Nietzsche (1844-1900), com base nos princípios ensinados por Jesus Cristo no</p><p>chamado sermão da montanha, escreveu que o cristianismo é uma religião para</p><p>escravos, repetia alguns dos argumentos já usados pelo médico Celsus no</p><p>advento do terceiro século da Era Cristã.¹</p><p>Os cristãos, portanto, enfrentaram desde cedo ataques no campo in- telectual.</p><p>Quando o apóstolo Paulo discursou (sim, ele não pregou, mas discursou) para os</p><p>atenienses no teatro dos debates públicos da cidade, defendeu o cristianismo</p><p>visando a desmontar os argumentos contrários. Para tanto, lançou mão da poesia,</p><p>da filosofia e da retórica. Ele agia coerentemente com suas recomendações:</p><p>devemos nos empenhar para derrubar os argumentos contrários ao conhecimento</p><p>de Deus (cf. 2Co 10.5).</p><p>Depois do apóstolo, muitos outros empregaram esse tipo de apre- sentação</p><p>defensiva, que acabou por ser tecnicamente conhecida como apologética. Esta</p><p>palavra, oriunda do substantivo grego “apologia”, que significa “defesa”,</p><p>chegou-nos pelo adjetivo latino “apologeticum”.</p><p>A apologética consiste, portanto, na área da teologia que se preocupa em</p><p>defender intelectual e racionalmente a fé cristã histórica. Trata-se de um dever</p><p>cristão, pois, embora a defesa não seja de fato necessária, as pessoas a quem</p><p>queremos alcançar com a graça salvadora de Jesus Cristo precisam dela. Nesse</p><p>sentido, então, a apologética faz parte da evangelização, tarefa que nos foi</p><p>confiada por Jesus Cristo (v. Mt 28.19,20; At 1.8).</p><p>A apologética, portanto, não é para profissionais da teologia, mas para todos os</p><p>cristãos interessados em oferecer a razão da fé que vivem (1Pe 3.15). Ao longo</p><p>de sua história, os cristãos tiveram de travar diferentes embates intelectuais. Até</p><p>o sexto século, os escritos apologéticos defenderam o cristianismo dos ataques</p><p>acadêmicos oriundos do judaísmo e do paganismo. Nesse período, os grandes</p><p>apologistas foram Justino Mártir, Tertuliano e Agostinho. A partir do sétimo</p><p>século, além dos filósofos pagãos, o islamismo representou (e ainda apresenta)</p><p>uma séria ameaça. Nesse momento, Tomás de Aquino pensou o resumo da fé</p><p>cristã (“Suma Teológica”) como uma catedral apologética.</p><p>A partir do Renascimento, já no século 16, o maior desafio veio da visão</p><p>reducionista racionalista, que acabou se tornando hegemônica. A partir dessa</p><p>cosmovisão surgiram o naturalismo, o deísmo, o panteísmo, o materialismo, o</p><p>agnosticismo e o ateísmo.</p><p>Evidentemente cada época apresenta sua objeção principal. Algumas — de</p><p>caráter prático, como o repto de Gandhi: por que os cristãos não vivem o que</p><p>ensinam? — são irrespondíveis e logo se constituem no desafio maior. Outras, de</p><p>caráter especulativo, devem ser respeitosamente consideradas.</p><p>A meu ver, os dois maiores desafios para os cristãos no século 21 vêm de duas</p><p>frentes: da filosofia e das ciências da vida. Na primeira fronteira, o ataque é</p><p>alimentado pelo velho relativismo filosófico, segundo o qual a pretensão cristã à</p><p>singularidade (“Jesus Cristo como o único caminho”) é intolerável. Na segunda</p><p>trincheira, o diálogo precisa ser travado com a genética, com suas perguntas</p><p>sobre a natureza da vida.</p><p>O primeiro embate é velho, embora sério. O segundo, além de sério, é novo, e</p><p>temos muito que aprender ainda. Aquele se dá no balanço das ideias, com</p><p>objetivos claros dos que se opõem ao cristianismo, este é quase um pedido de</p><p>socorro dos biocientistas: que faremos com o que estamos descobrindo? Aquele</p><p>é uma questão de fé: crê quem quer, este é uma questão de sobrevivência da</p><p>humanidade, e os cristãos não podem ficar de fora se querem ter um futuro na</p><p>agenda do século.</p><p>Meu desejo neste livro é contribuir, de forma bastante clara, para que cada leitor</p><p>ou leitora desenvolva as próprias conclusões. Por isso, os temas apologéticos</p><p>serão tratados a partir de questões, algumas das quais me foram efetivamente</p><p>colocadas em diferentes contextos.</p><p>Veremos a seguir alguns conselhos práticos, que nos ajudarão nesse itinerário.</p><p>OS DEZ MANDAMENTOS DO APOLOGISTA CRISTÃO</p><p>1. Discuta com amor</p><p>O amor deve estar acima da verdade. Nunca desqualifique moralmente o autor</p><p>de uma ideia inaceitável. Lembre-se de que fortalecer a fé cristã é sua tarefa</p><p>primeira, e ela advém de uma chamada para servir aos necessitados no campo</p><p>intelectual. Diga a verdade com amor (Ef 4.15). O fruto do Espírito também</p><p>deve estar presente no espírito do apologista.</p><p>2. Seja humilde</p><p>Purifique-se de todo desejo de vitória e presunção intelectual, dei- xando-os de</p><p>lado. Você não é dono da verdade. Embora tenhamos a Verdade, somos seus</p><p>intérpretes, não seus proprietários. Somos testemunhas da Verdade ( Jo 18.37),</p><p>não seus formuladores.</p><p>3. Amplie seu conhecimento da Bíblia, de modo tornar a mente</p><p>cada vez mais bíblica</p><p>Embora a razão seja indispensável, ela não sobrepuja a revelação. Para estudar a</p><p>Bíblia, use todos os recursos de que dispuser, como comentários, dicionários,</p><p>Bíblias de estudo, ensaios teológicos etc.</p><p>4. Cresça no aprendizado da reflexão e da pesquisa lógica e</p><p>racional</p><p>Trata-se de uma aventura para toda a vida. Verifique sempre os fatos e os</p><p>argumentos. Pense clara e corretamente. Cuidado ao argumentar, em especial ao</p><p>apelar para a autoridade de terceiros (“uma prova de que estamos certos é que</p><p>fulano disse que...”) ou ao tocar na sensibilidade alheia (“as pessoas inteligentes</p><p>concordam que...”). Nunca deixe de refletir; pensar é duvidar, questionar,</p><p>pesquisar.</p><p>5. Mantenha a autocrítica</p><p>Não se limite a criticar o que ouve ou lê: critique o que você pensa e diz. O crivo</p><p>é a Palavra de Deus, não a razão ou a tradição.</p><p>6. Comece do princípio</p><p>Ao estudar um assunto, comece por questionar o fundamental. Veja como o autor</p><p>ou a ideologia estudados encaram a Bíblia, a pessoa de Jesus Cristo, por</p><p>foram alcançados pela graça</p><p>imerecida; por isso, ainda fazem questão de parecer o que aparentam.</p><p>Quando os seguidores mais próximos disputam entre si a importância de cada</p><p>um, própria do humaníssimo valor da competição, Jesus deu seu exemplo, como</p><p>uma atitude a ser seguida. Ele respondeu com mais uma de suas perguntas</p><p>incontestáveis, seguida de uma declaração sobre si mesmo, que deve ser o</p><p>compromisso de todo discípulo: “Qual é maior, quem está à mesa, ou quem</p><p>serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, estou entre vós como</p><p>quem serve” (Lc 22.27).</p><p>A expressão “tu, porém”, em Jesus, é correlata com outra expressão de nosso</p><p>Senhor. Ele diz “tu, porém”, porque dizia “Eu, porém”. Nos mais variados</p><p>planos da vida, Jesus se apresenta contrário à prática de seu tempo. Na mais</p><p>dramática delas, ele afirma: “Eu, porém, vos digo: ‘Amai aos vossos inimigos, e</p><p>orai pelos que vos perseguem’” (Mt 5.44).</p><p>Não temos a autoridade de Jesus, mas temos seu exemplo. Também nos mais</p><p>variados planos da vida, se tivermos uma mente bíblica, teremos ousadia e</p><p>competência para afirmar a mesma disposição. Nesse sentido, o cristão é aquele</p><p>que, não importam os convites e as pressões, diz, cheio de temor e tremor: “Eu,</p><p>porém”.</p><p>Se os valores que brilham diante de nós não vêm dos céus, só resta a cada cristão</p><p>reafirmar sua motivação e seu credo: “Eu, porém”.</p><p>Passo 1 — Entendamos que a Bíblia contém valores</p><p>indispensáveis para nós</p><p>Começaremos a desenvolver mente bíblica quando estivermos pessoalmente</p><p>convencidos de que não podemos ser felizes sem vivenciar os valores eternos</p><p>apresentados por Deus em Palavra.</p><p>Para chegar ao desejo, essa decisão precisa começar na razão. Racionalmente,</p><p>precisamos saber, portanto, que a Bíblia contém valores eternos. Para isso,</p><p>precisamos aceitar que a Bíblia é divinamente inspirada e proveitosa para</p><p>ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o</p><p>homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra</p><p>(2Tm 3.16,17).</p><p>Se aceitarmos que a Bíblia é divinamente inspirada, relativizaremos as</p><p>afirmações que a relativizam. Se aceitarmos que a Bíblia é proveitosa, teremos</p><p>suas palavras como aquelas, e não outras, pelas quais orientaremos nossa vida.</p><p>Se aceitarmos que Deus, pela Bíblia, nos ensina, corrige e instrui, nos</p><p>deixaremos ensinar, corrigir e instruir por ela.</p><p>Em outros termos, a mente bíblica segue a orientação sobrenatural, entendendo a</p><p>Bíblia como uma revelação vinda de Deus. Enquanto a maioria das pessoas crê</p><p>apenas naquilo que pode ver e tocar, o cristão crê na existência de um mundo</p><p>invisível, que está além dos sentidos naturais.</p><p>Para viver os valores eternos de Deus, precisamos aceitar racionalmente que eles</p><p>estão na Bíblia. Viveremos os valores, se a mente for bíblica a ponto de aceitar</p><p>como divina a fonte do seu conteúdo.</p><p>A mente bíblica aceita a autoridade da Palavra de Deus sobre sua vida. O cristão</p><p>está pronto para abraçar aquilo do qual está convencido pela Bíblia. A crítica que</p><p>Lutero fez a Erasmo define bem a mente bíblica: “A diferença entre você e eu é</p><p>que enquanto você se assenta sobre a Bíblia para julgá-la, eu me assento sob a</p><p>Bíblia e deixo que ela me julgue”.</p><p>Quem se deixa julgar pela Palavra de Deus considera cada ser humano alguém</p><p>de inestimável valor, uma vez que Deus o criou e Cristo morreu por ele. O</p><p>cristão sabe que todo ser humano porta a imagem de Deus pela criação, foi o</p><p>alvo do amor salvífico de Cristo na cruz do Calvário e é alvo do ministério de</p><p>atração e convencimento exercido pelo Espírito Santo.</p><p>Passo 2 — Estudemos a Bíblia</p><p>Todos desejamos ter a mente do Senhor Deus. Todos queremos ser instruídos por</p><p>sua sabedoria (Rm 11.34). Para entender a mente de Deus, precisamos estudar a</p><p>sua Palavra. Se estudarmos a palavra do mundo, conheceremos a mente do</p><p>mundo. Se estudarmos a Palavra de Deus, conheceremos a mente do seu autor</p><p>(na verdade, entre os maduros falamos sabedoria, não porém a sabedoria deste</p><p>mundo, nem dos príncipes deste mundo, que estão sendo reduzidos a nada; 1Co</p><p>2.6).</p><p>Sabemos que a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante que qualquer</p><p>espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e</p><p>medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb</p><p>4.12). Como essa verdade será real para nós se não nos expusermos a ela?</p><p>Escrevendo a Timóteo, o apóstolo Paulo recomenda:</p><p>Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo</p><p>de quem o tens aprendido e que desde a infância sabes as sagradas letras, que</p><p>podem fazer sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus (2Tm 3.14,15).</p><p>Como permaneceremos naquilo que aprendemos, se não o aprendemos? A que</p><p>estamos nos expondo? Comparemos. Quanto tempo gastamos lendo um bom</p><p>jornal? Quanto tempo gastamos lendo um bom livro? Quanto tempo gastamos</p><p>vendo bons programas de televisão? Quanto tempo gastamos vendo um bom</p><p>filme no cinema? Falo de tempo bem gasto, mas o comparo com o tempo que</p><p>gastamos para ler o melhor dos livros.</p><p>Tudo o que é bom exige disciplina e esforço. Há pessoas que por falta de</p><p>disciplina e esforço não leem jornal, não mergulham num bom livro, não veem</p><p>bons programas de televisão, não assistem a bons filmes no cinema. Há prazeres</p><p>que vão nos esperar a vida toda. Ler a Bíblia é um destes prazeres.</p><p>Alguns talvez não têm lido a Bíblia por outras razões, como as dificuldades que</p><p>ela apresenta por sua extensão e pela linguagem. Não queiramos lê-la toda de</p><p>uma vez, mas aos poucos. Meçamos nosso ritmo. É bem provável que a maioria</p><p>conseguirá lê-la completamente em um ano e meio. Outras precisarão de mais</p><p>tempo. Outras serão mais rápidas.</p><p>Quanto à linguagem, devemos procurar aquela versão que nos dê mais prazer,</p><p>cuja leitura flua mais suavemente. Devemos lançar mão de outros recursos,</p><p>como bons livros (estudos, dicionários, concordâncias, comentários). Há</p><p>inúmeras páginas na internet com milhares de estudos, mapas, curiosidades,</p><p>comentários, que podemos acessar e melhorar a leitura da Palavra de Deus.</p><p>Pode ser que alguns tenham dificuldade de ler, seja a Bíblia seja qualquer outro</p><p>livro. Hoje ela está disponível na íntegra em CD, por exemplo. Precisamos</p><p>ocupar a mente com materiais (livros, programas, músicas) produzidos segundo</p><p>a mente bíblica.</p><p>A igreja, por meio das oportunidades que cria e do ambiente que proporciona,</p><p>deve ser vista como o lugar por excelência onde devemos estar, se queremos</p><p>pensar biblicamente. A igreja provê recursos coletivos, como as classes da</p><p>Escola Dominical e outros cursos especiais, que devem ser frequentados.</p><p>Quando participamos da igreja, envolvemo-nos com pessoas desejosas de ter a</p><p>mesma mente bíblica que temos. Então, nos ajudamos mutuamente. Para aqueles</p><p>que já têm uma formação superior, matricular-se num seminário teológico é uma</p><p>decisão que traz muitos benefícios no estudo da Bíblia.</p><p>Escrevendo também a Timóteo, o apóstolo Paulo pede que ele se aplique à</p><p>leitura (1Tm 4.13). Só nos aplicando à leitura e ao estudo da Bíblia podemos</p><p>pensar biblicamente. Só quando estudamos a Bíblia podemos tomar decisões</p><p>biblicamente orientadas e termos a mente renovada. Às vezes, lemos o conselho</p><p>de Paulo aos romanos para nos transformarmos pela renovação da mente, a fim</p><p>de vivermos segundo a vontade de Deus (Rm 12.1-2), oramos “Senhor, renova a</p><p>nossa mente”, mas como o Senhor nos renovará a mente senão quando nos</p><p>dedicarmos à leitura e ao estudo da sua Palavra? O poeta bíblico pergunta: Como</p><p>purificará o jovem o seu caminho? Sua resposta é cristalina: Observando-o de</p><p>acordo com a palavra [de Deus] (Sl 119.9).</p><p>Se queremos desenvolver uma mente bíblica, sob o Senhorio de Cristo,</p><p>discernindo o mundo em que vivemos, precisamos nos expor constantemente à</p><p>Palavra de Deus. Se estivermos expostos à Palavra de Deus, não sucumbiremos à</p><p>palavra dos homens.</p><p>Todo cristão precisa ajustar seu pensamento e, nesse esforço, a leitura bíblica, a</p><p>atenção à pregação do Evangelho e a comunhão cristã autêntica são recursos</p><p>indispensáveis. “Se uma pessoa</p><p>se afasta da influência refrescante da Palavra de</p><p>Deus sobre a sua mente, essa pessoa aos poucos voltará aos seus velhos modos</p><p>de pensar”.</p><p>A verdade precisa ser ouvida repetidamente, porque o erro é repetido milhares de</p><p>vezes, até parecer verdade. O nosso mundo é o mundo da repetição, e tem sido</p><p>pela repetição que as pessoas mudam de opinião.</p><p>Durante os seus primeiros vinte anos, um norte-americano vê um milhão de</p><p>anúncios publicitários, ou uma média de mil anúncios por semana.</p><p>É muito difícil não comprar, não pensar de acordo com o que o anúncio tenta</p><p>“programar” em nossa mente.</p><p>Passo 3 — Compreendamos a mente do tempo em que vivemos</p><p>Para viver neste mundo de modo digno, seja para sobreviver nele, seja para</p><p>transformá-lo, precisamos conhecê-lo. Compreenderemos o mundo observando-</p><p>o, lendo bons livros, prestando atenção aos meios de comunicação em geral.</p><p>Se não discernirmos a mente do mundo, ela se tornará a nossa, quando o “tu,</p><p>porém” bíblico nos pede que não nos conformemos ao mundo. A advertência</p><p>apostólica é clara: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias</p><p>vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios</p><p>elementares deste mundo, e não em Cristo” (Cl 2.8).</p><p>Uma das batalhas do cristão é pela conquista da mente das pessoas. Aquilo que a</p><p>Bíblia chama de “conhecimento de Deus” (contido na Bíblia) é o padrão pelo</p><p>qual todos os pensamentos devem ser julgados. Qualquer ideia que não esteja de</p><p>acordo com a revelação divina é vã e enganosa, porque está de acordo com os</p><p>princípios deste mundo, e não segundo Cristo.</p><p>A mente bíblica não se conforma a este mundo. Um cristão não pode se</p><p>conformar, não pode estar satisfeito com o mundo, porque a mente do cristão</p><p>está centrada no que é eterno, e não temporal.</p><p>Conformar-se é aceitar algo sem pensar. A mente secular possui uma proposta</p><p>para todas as grandes decisões da vida. Precisamos conhecê-la. Só assim</p><p>distinguiremos entre filosofias vãs e a sabedoria sólida de Cristo. A mente</p><p>bíblica coloca sob o crivo da Bíblia tudo o que ouve, vê e lê. Muitos cristãos, no</p><p>entanto, aceitam o que ouvem, veem e leem sem análise crítica, sem</p><p>questionamento bíblico.</p><p>Precisamos, portanto, pensar biblicamente para determinar se algo é certo ou</p><p>errado, tanto no plano doutrinário quanto no plano existencial e moral.</p><p>Pensaremos biblicamente quando escutarmos a Palavra de Deus e a palavra do</p><p>ser humano. Pensaremos biblicamente quando estivermos atentos ao que diz a</p><p>revelação divina, mas atento à palavra do homem. Ouvindo a Deus, teremos uma</p><p>visão realista e teocêntrica da vida; ouvindo ao mundo, saberemos ver o bem e o</p><p>mal que nele há. Como aprendemos com John Stott:</p><p>A mente cristã não se ocupa apenas de Deus, mas reconhece e se envolve na</p><p>realidade humana. [...] A mente cristã também não se fixa apenas no mundo dos</p><p>homens, nem se põe a interpretá-lo e mudá-lo a partir da visão e dos recursos</p><p>meramente humanos. [A mente cristã] não é nem otimista sem fundamento, nem</p><p>pessimista sem esperança. A mente cristã tem de escutar a Deus e ao mundo que</p><p>o rodeia.</p><p>Escutar o mundo implica estudar e pensar. A mente bíblica não tem medo de</p><p>estudar e pensar. Quando estudamos e pensamos, glorificamos nosso Criador.</p><p>Ele nos fez seres racionais, como ele, e espera que usemos a mente para estudar</p><p>sua revelação e o mundo. “Ao estudar o universo e ler as Escrituras estamos</p><p>pensando os pensamentos de Deus como ele deseja. Por isto, o uso correto de</p><p>nossa mente glorifica ao nosso Criador”.</p><p>Mais ainda, quando estudamos e pensamos, nosso testemunho evangelizador se</p><p>fortalece. Paulo sabia disso. Ele disse aos coríntios que, conhecendo o temor do</p><p>Senhor, ele procurava persuadir os homens (2Co 5.11). O apóstolo confiava no</p><p>poder do Espírito Santo, “mas nem por isso deixou de pensar e argumentar”.</p><p>Na verdade, “o anti-intelectualismo é negativo e destrutivo, insulta ao nosso</p><p>Criador, empobrece nossa vida cristã, debilita nosso testemunho, enquanto o uso</p><p>adequado da mente glorifica a Deus, enriquece e fortalece nosso testemunho no</p><p>mundo”.</p><p>Passo 4 — Relacionemos a fé à vida</p><p>Não há dúvida de que “a fé deve estar relacionada à vida. A mente cristã é</p><p>ineficaz sem o caráter cristão”. Precisamos não apenas aprender as perspectivas</p><p>bíblicas, mas relacioná-las com a vida. Só assim conseguiremos tornar o</p><p>Evangelho relevante, conectando-o com a vida real, no mundo real.</p><p>Para nos ajudar nesse esforço, há vários “tu, porém” que podemos mencionar:</p><p>Todo aquele que luta, exerce domínio próprio em todas as coisas; ora, eles o</p><p>fazem para alcançar uma coroa corruptível, nós, porém, uma incorruptível (1Co</p><p>9.25).</p><p>Nós, porém, não nos gloriaremos além da medida, mas conforme o padrão da</p><p>medida que Deus nos designou para chegarmos mesmo até vós (2Co 10.13).</p><p>Vós, porém, irmãos, não vos canseis de fazer o bem (2Ts 3.13).</p><p>Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista,</p><p>cumpre o teu ministério (2Tm 4.5).</p><p>Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus</p><p>habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele</p><p>(Rm 8.9).</p><p>Não vos associeis às obras infrutuosas das trevas, antes, porém, condenai-as (Ef</p><p>5.11).</p><p>É bíblica a mente que pensa todas as coisas da vida presente sob a perspectiva da</p><p>vida eterna. Precisamos olhar o mundo e a nossa vida com mente bíblica.</p><p>PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO</p><p>Em que consiste a mente bíblica?</p><p>Por que podemos falar que existem valores bíblicos indispensáveis?</p><p>Que passos podemos dar para alcançar mente bíblica?</p><p>Por que temos dificuldade em relacionar nossa fé com a vida?</p><p>8</p><p>Elogio da tolerância</p><p>Odiar é escolher a facilidade simplista e redutora do desdém como</p><p>fonte de satisfação. É cavar um fosso onde cairão sufocados o</p><p>agente do ódio e sua vítima. Odiar é atear o fogo da guerra em que</p><p>as crianças se tornam órfãs, e os velhos, loucos de dor e de pena.</p><p>Em religião, o ódio esconde a face de Deus. Em política, o ódio</p><p>destrói a liberdade dos homens. No campo das ciências, o ódio está</p><p>a serviço da morte. Em literatura, ele deforma a verdade,</p><p>desnaturaliza o sentido da história e encobre a própria beleza sob</p><p>uma grossa camada de sangue e de feiúra. O ódio é como a guerra:</p><p>uma vez começada, é tarde demais.</p><p>Elie Wiesel</p><p>Jesus mudou o mundo. Não dá para imaginá-lo sem o natal de Jesus. Não dá</p><p>para imaginar também como a intolerância ainda persegue o mundo.</p><p>No final de 2003, dois jovens viajavam num vagão de trem em São Paulo.</p><p>Vestiam roupas tipo punk. Outros jovens se aproximaram deles e os atiraram</p><p>para fora do trem em movimento. Um teve grave traumatismo craniano, e outro</p><p>perdeu um dos braços. Segundo as denúncias, os agressores eram skinheads, que</p><p>não podiam tolerar punks em seu “território”.</p><p>Na mesma época, em nome do secularismo, considerado melhor que a religião, o</p><p>governo francês pretendia proibir que alunas e professoras muçulmanas usassem</p><p>véus nas escolas da França.</p><p>Apesar do que ensinou Jesus, que foi morto pelas mãos e pelos pés da</p><p>intolerância, muitos cristãos no passado trafegaram pela mesma via da morte. Na</p><p>maior parte do mundo controlado pela fé islâmica, ser cristão é crime punível</p><p>com a pena de morte.</p><p>Na maior parte do mundo cristão, há liberdade de expressão para todos, mas há</p><p>cristãos e organizações cristãs envolvidas em movimentos de ódio contra outras</p><p>pessoas, porque pensam ser diferentes. No interior da igreja, há pessoas que não</p><p>se falam, mas falam mal da outra, porque têm interpretações diferentes da Bíblia</p><p>ou porque têm gostos litúrgicos diferentes.</p><p>Jesus nasceu para nos pôr em outra via. Leio, então, uma das histórias do Novo</p><p>Testamento (Lc 9.46-55), em que Jesus nos mostra como viver.</p><p>Começou uma discussão entre os discípulos acerca de qual deles seria o maior.</p><p>Jesus, conhecendo os seus pensamentos, tomou uma criança e a colocou em pé, a</p><p>seu lado. Então lhes disse:</p><p>— Quem recebe esta criança em meu nome, está me recebendo; e quem me</p><p>recebe, está recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre vocês for o</p><p>menor,</p><p>este será o maior.</p><p>Disse João:</p><p>— Mestre, vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos</p><p>impedi-lo, porque ele não era um dos nossos.</p><p>— Não o impeçam — disse Jesus — pois quem não é contra vocês é a favor de</p><p>vocês.</p><p>Aproximando-se o tempo em que seria elevado aos céus, Jesus partiu</p><p>resolutamente em direção a Jerusalém. E enviou mensageiros à sua frente. Indo</p><p>estes, entraram num povoado samaritano para lhe fazer os preparativos; mas o</p><p>povo dali não o recebeu porque se notava que ele se dirigia para Jerusalém. Ao</p><p>verem isso, os discípulos Tiago e João perguntaram:</p><p>— Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los? Mas Jesus,</p><p>voltando-se, os repreendeu, dizendo:</p><p>— Vocês não sabem de que espécie de espírito vocês são, pois o Filho do</p><p>homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-la.</p><p>E foram para outro povoado.</p><p>Trata-se de uma história de intolerância, ou melhor, de intolerâncias. Os</p><p>discípulos de Jesus tinham dificuldades em conviver com o sucesso, imaginário</p><p>no caso, do outro. A disputa deles está relacionada com a incapacidade de</p><p>respeitar e admirar o outro e de entender que cada um tem um lugar no Reino de</p><p>Deus, conforme suas habilidades e a necessidade do Reino.</p><p>Os samaritanos odiavam os judeus porque estes cultuavam em Jerusalém. Eles</p><p>detestavam o sectarismo judeu. Por essa razão, não cooperaram, como mandava</p><p>a hospitalidade, com os discípulos de Jesus que recolhiam donativos para a</p><p>viagem. A sua intolerância os cegou para ver o Messias.</p><p>Os judeus odiavam os samaritanos porque, no passado, tinham se envolvido em</p><p>casamentos mistos (com não-judeus) e agora não podiam ser aceitos na</p><p>comunidade dos filhos de Abraão. Os discípulos se tornaram escravos deste</p><p>mesmo sentimento. Sua intolerância os levou a agir contra as próprias</p><p>convicções espirituais. Eles eram crentes, o que prova que mesmo os mais</p><p>crentes, como Pedro, Tiago e João, os mais íntimos de Jesus, podem se tornar</p><p>intolerantes, violentamente intolerantes.</p><p>1. Não façamos do conhecimento da verdade um escudo para esconder nosso</p><p>pecado (v. 46,47).</p><p>Há dois episódios nessa história, que se interligam, porque toda a intolerância é</p><p>filha do vaidoso desejo de ser superior aos outros. Jesus era combatido por</p><p>fariseus e saduceus, que certos de suas verdades, como maiores e melhores,</p><p>recusavam quaisquer outros. Temerosos que suas verdades fossem negadas,</p><p>negavam a Jesus e a seus seguidores o direito à liberdade e, por fim, o direito à</p><p>própria vida.</p><p>A intolerância está relacionada com a presunção da verdade e com a vaidade. Os</p><p>fariseus e saduceus estavam convictos de que estavam mais certos e eram</p><p>melhores. Quem não era bom como eles, devia se converter ou morrer.</p><p>Ao longo da história cristã, muitos cristãos puderam carregar no peito a</p><p>tolerância, enquanto outros deixaram os corpos serem manchados pelo sangue</p><p>dos que pensavam ser diferentes deles. Com isso, logo nos vem a mente o triste</p><p>episódio da inquisição europeia, ramificada na América Latina.</p><p>Olhando para os exemplos tristes, ocorre-me pensar que o intolerante tem algo</p><p>que esconder. Posso recorrer à história real relatada por Philip Yancey no</p><p>admirável Maravilhosa graça. Joe Grandão era um intolerante. Embora fosse (ou</p><p>se achasse) cristão, não aceitava a igualdade racial e, diferentemente de todo</p><p>ensino bíblico, se envolveu em vários episódios de intolerância contra os negros.</p><p>Atrás daquele ódio todo estava um escudo para esconder sua patologia sexual.</p><p>Mudou-se para a África do Sul, então ainda sob o apartheid, onde foi preso e</p><p>condenado por assédio sexual a uma atriz.</p><p>2. Aprendamos com as crianças que brincam com as que são diferentes delas,</p><p>porque lhes importam viver e deixar viver (v. 48).</p><p>Por que Jesus “apela” para as crianças para ensinar humildade e tolerância?</p><p>Porque ele sabe que, mesmo nas situações mais injustas e desiguais, é possível</p><p>ver crianças de condições socioeconômicas diferentes, de povos diferentes e de</p><p>religiões diferentes brincarem naturalmente. Crianças não têm preconceitos... até</p><p>serem “doutrinadas” pelos adultos.</p><p>3. Peçamos a Deus a capacidade de conviver com o outro, fora e dentro de</p><p>nossas igrejas, mesmo que pensem diferentemente de nós (v. 49-54).</p><p>Os discípulos não toleraram a intolerância dos samaritanos. Por isso queriam que</p><p>Deus os consumisse pelo fogo (v. 54). Eles acham que podiam curar o</p><p>preconceito com maior preconceito e violência.</p><p>Conviver com a diferença inclui a liberdade religiosa. Não devemos reprimir ou</p><p>discriminar nenhuma minoria religiosa, seja por uma questão de princípios seja</p><p>por uma questão de inteligência: quando restringimos a liberdade do outro,</p><p>também autorizamos a supressão da nossa. Segundo James Leo Garrett, é triste</p><p>que “o cristianismo que produz grandes perseguições religiosas tenha, junto com</p><p>o judaísmo, firmado o estímulo essencial para a liberdade religiosa”.</p><p>Jesus e os primeiros cristãos praticaram o princípio da liberdade religiosa. Eles</p><p>nunca perseguiram ninguém. Antes, Jesus pediu que nem reagissem ao serem</p><p>perseguidos (Mt 5.10-12; 10.17-23; 23.29-36; Mc 13.9-13). Como cristãos, não</p><p>podemos nos esquecer das palavras do apóstolo Pedro: “Se vocês são insultados</p><p>por causa do nome de Cristo, felizes são vocês, pois o Espírito da glória, o</p><p>Espírito de Deus, repousa sobre vocês” (1Pe 4.14).</p><p>Foi só a partir do quarto século que os cristãos passaram a apoiar o uso do poder</p><p>civil para forçar a uniformidade religiosa. A liberdade religiosa é consequência</p><p>da fé cristã. Como nos lembra Niels H. Soe, “a base da liberdade religiosa se</p><p>demonstra pelo simples fato de que Cristo não veio com esplendor celeste e</p><p>majestade humana para subjugar qualquer possível resistência e obrigar a todos à</p><p>sujeição”. Antes, nasceu do modo que nasceu, como nos recorda a história do</p><p>seu natal.</p><p>O natural em nós é pedir fogo do céu contra os que consideramos adversários de</p><p>Deus. Acabamos por achar que quem pensa diferentemente de nós é contra nós.</p><p>Por isso, brigamos demais entre nós. Pela intolerância, igrejas locais são</p><p>divididas, seminários são feridos, denominações são rachadas. Pior que tudo</p><p>isso: pessoas são feridas de morte.</p><p>Alguns intolerantes usam o exemplo do Espírito Santo, que puniu os mentirosos</p><p>Ananias e Safira por uma mentira que destruiria a comunidade (At 5), para</p><p>justificar sua violência. Embora queiram ser espadas de Deus, o Senhor não</p><p>precisa de nós para isso.</p><p>O espiritual em nós é saber que podemos nos tornar adversários de Deus, pelo</p><p>que temos de pedir a Deus que nos ajude a viver segundo a vontade dele.</p><p>Tolerar não é aceitar o pecado. O apóstolo Paulo não pode ser tachado de</p><p>intolerante por recusar-se a tolerar a imoralidade sexual na igreja de Corinto,</p><p>onde havia imoralidade que não ocorria nem entre os pagãos. Ele recomenda aos</p><p>cristãos que não se associem [participar do seu estilo de vida] com qualquer que,</p><p>dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou</p><p>ladrão: “Com tais pessoas vocês nem devem comer” (1Co 5.1,11,12). Mesmo no</p><p>caso de Alexandre, o latoeiro, cuja expulsão Paulo via como disciplina para o</p><p>arrependimento (1Co 5.2,5,13).</p><p>4. Lembremo-nos de que espírito somos (v. 55).</p><p>Jesus repreende os seus seguidores, lembrando-lhes que estão se esquecendo de</p><p>que espírito são. O Novo Testamento ensina que somos de Cristo (1Co 1.30). E</p><p>quem é de Cristo é tolerante. Quando somos carnais, nos deixamos levar por</p><p>invejas e contendas, vivendo, assim, segundo os homens, não segundo o Espírito</p><p>de Deus (1Co 3.3). Não sejamos do nosso jeito, mas do jeito de Cristo.</p><p>5. Evitemos controvérsias inúteis (v. 56).</p><p>O relato termina de maneira aparentemente displicente: “E foram para outro</p><p>povoado”. Isto é: eles deixaram o povoado samaritano, onde não foram tolerados</p><p>e contra o qual desejaram manifestar sua natural intolerância. Essa informação</p><p>significa que, instruídos por Jesus, tiveram a sabedoria de buscar outros</p><p>povoados onde pudessem desenvolver seu ministério. Ali seria lugar de ódio</p><p>mútuo, de controvérsia inútil, de perder de vista o essencial por causa</p><p>do</p><p>acidental.</p><p>Ao fazê-lo, aprenderam, como mais tarde Paulo recomendaria, a evitar</p><p>controvérsias tolas, genealogias, discussões e contendas a respeito da Lei,</p><p>porque essas coisas são inúteis e sem valor (Tt 3.9). Coisas inúteis e sem valor</p><p>são aquelas que precisam de um vencedor, ao final do processo. Perca, se este</p><p>for o preço do respeito pelo outro e da paz.</p><p>Os discípulos aprenderam a tolerar. Deixaram os samaritanos ali, naquela hora.</p><p>Mais tarde, os samaritanos seriam evangelizados pelo missionário Felipe, um</p><p>dos sete líderes da igreja que nascia (8.5-13).</p><p>PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO</p><p>Podem os cristãos se tornar intolerantes?</p><p>A verdade deve prevalecer sobre o amor?</p><p>Existe algum limite para conviver com a diferença?</p><p>Como distinguir uma conversa apologética útil de uma inútil?</p><p>Enriqueça sua biblioteca</p><p>RECOMENDAÇÃO BIBLIOGRÁFICA REFERENTE À</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Além dos livros que tratam especificamente de apologética, sugiro a leitura dos</p><p>seguintes títulos, alguns encontrados apenas em bibliotecas teológicas:</p><p>AGOSTINHO. Cidade de Deus. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulus. Defesa do</p><p>cristianismo contra o pessimismo decorrente da derrocada do Império Romano.</p><p>Século 5.</p><p>Carta a Diogneto, autor desconhecido. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulus.</p><p>Apresentação da fé cristã como a alma do mundo. Século 3.</p><p>CHARDIN, Pierre Teilhard de. O fenômeno humano. Porto: Tavares Martins.</p><p>Um esforço para conciliar a teoria da evolução com a revelação bíblica. Meados</p><p>do século 20.</p><p>DOSTOIEVSKY, F.M. Os irmãos Karamazov. São Paulo: Abril Cultural.</p><p>Romance em que se debatem os grandes temas da vida e da fé. Século 19.</p><p>GEISLER, Norman. Enciclopédia de apologética. São Paulo: Vida. Centenas de</p><p>verbetes sobre temas e autores. Século 21.</p><p>LEWIS, C.S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: ABU. Breve teologia</p><p>sistemática, com olhos nas objeções ao cristianismo. Meados do século 20.</p><p>RICHARDSON, Alan. Apologética cristã. Rio de Janeiro: JUERP. Tratamento</p><p>amplo dos temas da apologética. Meados do século 20.</p><p>SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. São Paulo: Cultura Cristã. Final do</p><p>século 20.</p><p>STOTT, John. Ouça o Espírito, o ouça o mundo. São Paulo: ABU. Um convite</p><p>ao diálogo permanente com a cultura contemporânea. Final do século 20.</p><p>YANCEY, Philip. Rumores de outro mundo. São Paulo: Vida. Discussão sobre a</p><p>validade da fé, numa perspectiva cristã. Século 21.</p><p>OBRAS GERAIS</p><p>Padres apologistas. São Paulo: Paulus, 1995 (Carta a Diogneto, Aristides de</p><p>Atenas, Taciano, Atenágoras de Atenas, Teófilo de Antioquia e Hérmias).</p><p>AZEVEDO, Israel Belo de. O olhar da incerteza. São Paulo: Prazer de Ler, 2000.</p><p>CHAPMAN, Colin. O cristianismo no banco dos réus. São Paulo: Vida Nova,</p><p>1978.</p><p>COLSON, Charles e PEARCEY, Nancy. E agora como viveremos? Rio de</p><p>Janeiro: CPAD, 2000.</p><p>MORELAND, J.P. e CRAIG, William Lane. Filosofia e cosmovisão cristã. São</p><p>Paulo: Vida Nova, 2005.</p><p>STROBEL, Lee. Em defesa da fé. São Paulo: Vida, 2002.</p><p>OBRAS ESPECÍFICAS</p><p>Capítulo 1</p><p>AZEVEDO, Israel. As cruzadas inacabadas: introdução à história do</p><p>cristianismo na América Latina. Rio de Janeiro: Gêmeos, 1980.</p><p>BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão. São Leopoldo: Sinodal,</p><p>2001. BOOM, Corrie Ten. O refúgio secreto. Belo Horizonte: Betânia, 1998.</p><p>LARSEN, Dale & Sandy. Sete mitos sobre o cristianismo: uma resposta racional</p><p>às críticas que fazem ao cristianismo. São Paulo: Vida, 2000.</p><p>LIBÂNIO, João Batista. Formação da consciência crítica. Petrópolis, Vozes,</p><p>1980. LUTZER, Erwin. A cruz de Hitler. São Paulo: Vida, 2004.</p><p>Capítulo 2</p><p>ALVES, Rubem. O enigma da religião. São Paulo: Brasiliense, 2000. CRAIG,</p><p>Willian L. Veracidade da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2004. LUTZER,</p><p>Erwin. 10 mentiras sobre Deus. São Paulo: Vida, 2003.</p><p>NICHOLI, Jr, Armand M. Deus em questão — C.S. Lewis e Freud debatem</p><p>Deus, amor, sexo e o sentido da vida. Viçosa: Ultimato, 2004.</p><p>RUSSELL, Bertrand. Porque não sou cristão. Rio de Janeiro: Exposição do</p><p>Livro, 1965.</p><p>SCHAEFFER, Francis. O Deus que se revela. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.</p><p>SPROUL, R. C. Razão para crer. São Paulo: Mundo Cristão, 1997. STROBEL,</p><p>Lee. Em defesa da fé. São Paulo: Vida, 2001.</p><p>ZACHARIAS, Ravi. Pode o homem viver sem Deus? São Paulo: Mundo</p><p>Cristão, 2002.</p><p>Capítulo 3</p><p>FERNANDO, Ajith. A supremacia de Cristo. São Paulo: Shedd, 2002.</p><p>KENNEDY, D.J. Por que creio. 5ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1992.</p><p>MCDOWELL, Josh. Mais que um carpinteiro. 4. ed. Belo Horizonte: Betânia,</p><p>1985.</p><p>STROBEL, Lee. Em defesa de Cristo. São Paulo: Vida, 2001.</p><p>ZACHARIAS, Ravy. Por que Jesus é diferente. São Paulo: Mundo Cristão,</p><p>2002.</p><p>Capítulo 4</p><p>CRABB, Larry. Sonhos despedaçados. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.</p><p>KREEFT, Peter. Buscar sentido no sofrimento. São Paulo: Loyola, 1986.</p><p>LEWIS, C.S. O problema do sofrimento. São Paulo: Mundo Cristão, 1983.</p><p>STANLEY, Charles F. Como lidar com o sofrimento. Belo Horizonte: Betânia,</p><p>1995.</p><p>SCHAEFFER, Francis. O Deus que intervém. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.</p><p>YANCEY, Philip. Onde está Deus quando chega a dor? São Paulo: Vida, 2005.</p><p>Capítulo 5</p><p>COUSINS, Peter James. Ciência e fé: novas perspectivas. São Paulo: ABU,</p><p>1997.</p><p>GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e</p><p>“contradições” da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.</p><p>Capítulo 6</p><p>BERGNER, Mário. Amor restaurado; esperança e cura para o homossexual. São</p><p>Paulo: Sepal, 2000.</p><p>FUKUYAMA, Francis. Nosso destino pós-humano: consequências da revolução</p><p>da biotecnologia. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.</p><p>MEILAENDERT, Gilbert. Bioética; uma perspectiva cristã. São Paulo: Vida</p><p>Nova, 2ª edição revisada, 2009.</p><p>WHITE, John. Eros & sexualidade. São Paulo: ABU, 1994.</p><p>. O eros redimido. Niterói: Textus, 2004; São Paulo: Mundo Cristão.</p><p>Os dois títulos a seguir expõem visões contrárias às defendidas neste livro:</p><p>HELMINIAK, Daniel. O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade.</p><p>São Paulo: GLS, 1994.</p><p>SPENCER, Colin. Homossexualidade: uma história. Rio de Janeiro: Record,</p><p>1996.</p><p>Capitulo 7</p><p>HOUSTON, James M. Mentoria espiritual. Niterói: Textus, 2003; São Paulo:</p><p>Mundo Cristão.</p><p>MACARTHUR, John (org.). Pense biblicamente. São Paulo: Hagnos, 2005.</p><p>PETERSON, Eugene. Coma este livro. Niterói: Textus, 2004; São Paulo: Mundo</p><p>Cristão.</p><p>STOTT, John. Crer é também pensar. São Paulo: ABU.</p><p>Capitulo 8</p><p>AZEVEDO, Israel. A celebração do indivíduo. São Paulo: Vida Nova, 2004.</p><p>CARDOSO, Clodoaldo Meneguello. Tolerância e seus limites. São Paulo:</p><p>Unesp, 2003.</p><p>HUME, David. História natural da religião. São Paulo: Unesp, 2005.</p><p>JOHNSON, Phillip E. Ciência, intolerância e fé. São Paulo: ABU, 2004.</p><p>UNESCO. A intolerância. Rio de Janeiro: Bertrand, 2000.</p><p>VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. São Paulo: Martins Fontes, 1993.</p><p>FONTES ELETRÔNICAS</p><p>Todos os endereços foram visitados em fevereiro de 2004.</p><p>Capitulo 1</p><p>O pensamento de Bernardo de Clairvaux pode ser encontrado em CLAIRVAUX,</p><p>Bernard. Military Orders. Disponível em <http:// www.the-</p><p>orb.net/encyclop/religion/monastic/bernard.html.</p><p>Sobre Miguel Servetus, a sociedade que leva seu nome mantém uma página</p><p>interessante: <http://www.servetus.org/servetusbiography.html.</p><p>A crítica ateística pode ser conferida em CLINE, Austin. Christianity and</p><p>violence. Disponível em <http://atheism.about.com/library/FAQs/</p><p>christian/blfaq_viol_índex.htm.</p><p>A história de Telêmaco pode ser lida em: COLSON, Chuck. Radical faith:</p><p>Answers to mess we’re in, áudio tape. Disponível em <http://</p><p>www.last7years.org/HP1102.htm.</p><p>Para saber mais sobre a Corrie Ten Boom, visite:</p><p><http://www.corrietenboom.com.</p><p>Uma síntese biográfica de Martin Luther King Jr., de/sobre quem há pouco</p><p>material em português, está disponíbilizada em <http://</p><p>www.thekingcenter.org/mlk/bio.html.</p><p>Sobre o esforço de reconciliação na Europa, veja “The reconciliation walk”.</p><p>Disponível em <http://www.soon.org.uk/page15.htm.</p><p>Capítulo 2</p><p>A famosa frase de Marx está também em MARX, Karl. Introdução à crítica da</p><p>filosofia do direito de Hegel. Disponível em <http://www.marxists.org/</p><p>português/marx/1844/criticafilosofiadireito/00-introdução.htm.</p><p>A também famosa frase de Sigmund Freud pode ser encontrada em suas obras</p><p>completas (publicadas no Brasil pela editora Imago) e também FREUD,</p><p>Sigmund. Conferência introdutória XXXV. Disponível em <</p><p>http://br.groups.yahoo.com/group/política/message/15265?source=1.</p><p>O pensamento de Bertrand Russel pode ser encontrado também em RUSSELL,</p><p>Bertrand. Porque não sou cristão. Disponível em <http://</p><p>www.positiveatheism.org/hist/russell0.htm. Acessado em 10.10.2003. Cf. ainda:</p><p><http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminário/ russell/cartasrussell.htm.</p><p>Uma resposta a Freud é dada por NICHOLI, Jr., Armand. When worldviews</p><p>collide. Disponível em <http://www.leaderu.com/real/ri/nicholi.html.</p><p>Soren Kierkegaard está citado em LUCCA, Newton de. Malogro de um ateísmo</p><p>ou 1ª tentativa de explicar a minha conversão. Disponível em</p><p><http://vitocesar.no.sapo.pt/pclucca.htm.</p><p>As visões de Freud e C.S. Lewis estão citadas em livros e também em NEFF,</p><p>David. Two cultural giants. Christianity today, 22.04.2002. Disponível em</p><p><http://www.christianitytoday.com/ct/2002/005/4.64.html.</p><p>Capítulo 3</p><p>Uma boa argumentação sobre a singularidade de Jesus está em ROOD, Rick. Is</p><p>Jesus the only Savior? Disponível em <http://www.northave.org/</p><p>MGManual/JesusOnly/Savior1.htm.</p><p>Parte da obra clássica de Sartre (“O existencialismo é um humanismo”) está</p><p>resumida em <http://www.terravista.pt/ancora/2254/11ano/ unidade6.htm.</p><p>O pensamento de E.M. Cioran é apresentado por MITCHELMORE, Stephen. To</p><p>infinity and beyond. Disponível em <http://</p><p>www.spikemagazine.com/1197cior.htm.</p><p>Capítulo 4</p><p>A obra de Castro Alves está transcrita também na internet:</p><p><http://www.secrel.com.br/jpoesia/calves02.html.</p><p>O equivocado artigo de Saramago pode ser lido em SARAMAGO, José. O fator</p><p>Deus. Disponível em <http://www.midiaindependente.org/pt/blue/</p><p>2001/09/7316.shtml. Um comentário aparece em MAIA E CASTRO, Alípio. No</p><p>Diário de Saramago: um humanismo latente. Disponível em</p><p><http://www.hottopos.com.br/rih1/saramago.htm.</p><p>Servi-me muito na argumentação deste capítulo do artigo KNECHTLE, Cliff.</p><p>Give me an answer (That satisfies my heart and my mind). Resumo disponível</p><p>em <http://www.davenevins.com/loveofgod/topics/more/ suffering.htm.</p><p>A frase “Se escolhemos a amargura, então jamais pararemos de nos ferir” é de</p><p>Rick Warren. WARREN, Rick. How do you recover from disaster? Disponível</p><p>em [<http://www.pastors.com/RWMT/?ID=127]</p><p>(http://www.pastors.com/RWMT/?ID=127)</p><p>Capítulo 5</p><p>A afirmação sobre o fator inócuo da oração intercessória é de WILLIAMSON,</p><p>James W. Debunking medical prayer studies let us pray that people stop praying.</p><p>Disponível em <http://www.geocities.com/ inquisitive79/prayer.html.</p><p>Há várias fontes sobre as descobertas e negações científicas do efeito da oração.</p><p>Veja: WILLIAMS, Debra. Scientific research of prayer: Can the power of prayer</p><p>be proven? Disponível em <http://www.plim.org/ PrayerDeb.htm</p><p>Acessado em 12.2.2004; MERCOLA, Joseph. The power of prayer: more</p><p>evidence. Disponível em <http://www.mercola.com/2001/ jun/30/prayer.htm;</p><p>AVILES, Jennifer M., e outros. Intercessory prayer and cardiovascular disease</p><p>progression in acoronary care unit population: a randomized controlled trial.</p><p>Disponível em <http://www.mayo.edu/ proceedings/2001/dec/7612a1.pdf; ‘No</p><p>health benefit’ from prayer. http://news.bbc.co.uk/1/hi/health/3193902.stm;</p><p>KOENIG, Harold.</p><p>Religion, spirituality, and medicine: how are they related and what does it</p><p>mean? Disponível em <http://www.mayo.edu/proceedings/2001/dec/ 7612e.pdf;</p><p>HVIDT, Niels Christian. Medical miracles and theology.</p><p>http://www.hvidt.com/en/PostDoc.</p><p>Informações sobre expectativa de vida estão em SROUGI, Miguel. A medicina</p><p>pode vencer a morte? Folha de S.Paulo, de 11.2.2004, p. A-3. Disponível em</p><p><http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opinião/fz1102200409.htm.</p><p>Parte do material do tópico “Passos Para Uma Fé Bíblica” veio de HVIDT, Niels</p><p>Christian. Medical miracles and theology. Disponível em</p><p><http://www.ibri.org/Books/Newquist_Nat_Sci/natsci-prelims/natsci-index.htm.</p><p>Capítulo 6</p><p>Informações sobre a relação entre genética e comportamento homossexual</p><p>podem ser encontradas em Genetics & Human Behaviour</p><p>Current findings: quantitative genetics. Disponível em <http://</p><p>www.nuffieldbioethics.org/publications/geneticsandhb/ rep0000001033.asp;</p><p>NEWMAN, Dara. The genetics of homosexuality. Disponível em</p><p><http://serendip.brynmawr.edu/biology/b103/f97/ projects97/Newman.html;</p><p>MACNAIR, Trisha. Genetics and human behaviour. Disponível em</p><p><http://www.bbc.co.uk/health/features/ genes_behaviour.shtml. NAGHIBI,</p><p>Sahar. The possible genetics of homossexuality. Disponível em</p><p><http://www.bol.ucla.edu/~snaghibi/ genetics.html; HO, Mae-Wan. The human</p><p>genome map, the death of genetic determinism and beyond; ISIS Report 14</p><p>Feb. 2001. Disponível em http://www.i-sis.org.uk/HumangenTWN-pr.php;</p><p>Homosexuality: genetics or environment? Discerning the Times Digest and</p><p>NewsBytes. Disponível em</p><p><http://www.discerningtoday.org/members/Digest/2001digest/mar/</p><p>homosexuality_genetics_or_enviro.htm; SUURKÜLA, Jaan. The new</p><p>understanding of genes. Disponível em <http://www.psrast.org/ newgen.htm.</p><p>A argumentação homossexual pode ser vista em <http:// www.religion1.com/</p><p>The_Facts_on_Homosexuality_The_Anker_1565072588.html.</p><p>A frase “Até agora, a ciência buscou em vão uma causa física para a</p><p>homossexualidade” é de WHITE, John. Citado por SANTOLIN, João Luiz. O</p><p>que é homossexualismo. Diponivel em <http://www.moses.org.br/artigos/</p><p>mostra_artigo.asp?ID=30.</p><p>A frase “A liberdade humana reside precisamente na capacidade de se escolher</p><p>um destino diante de todos os fatores ambientais” está em MILLER, Paul D.</p><p>Gay rights stand or fall regardless of ‘gay genes’. Disponível em</p><p><http://www.ksg.harvard.edu/citizen/00apr17/mill0417.html.</p><p>As críticas a biologização da vida são de TERRY, Tom. Homossexuality:</p><p>genetics & the Bible. Cutting Edge Magazine. Disponível em <http://</p><p>www.qrd.org/qrd/religion/judeochristian/</p><p>another.effort.at.explaining.the.bible.and.queers.</p><p>Capítulo 7</p><p>Um resumo do pensamento de Harry Blamires é cometido por GOWENS,</p><p>Michael L. Developing a christian mind. Disponível em <http://</p><p>www.sovgrace.net/christmd.htm. É de Gowens a frase: “Como seguidores de</p><p>Jesus Cristo, eu e você não temos o direito de determinar o que iremos crer ou de</p><p>desenvolver nossa própria filosofia de vida”.</p><p>Informações sobre o comportamento dos evangélicos nos Estados Unidos podem</p><p>ser obtidas em www.barna.org.</p><p>O quadro comparativo entre cristianismo e secularismo foi desenvolvido a partir</p><p>de HAYNES, Bill. Developing a Christian Worldview. Disponível em</p><p><http://www.aclj.org/news/bibpers/020124_worldview.asp.</p><p>O pensamento de Stott pode ser encontrado também em STOTT, John.</p><p>Desarrollando una mente cristiana. Disponível em <http://</p><p>www.sigueme.com.ar/vida/temas/00005_la_mente_stott.htm.</p><p>A frase “O desenvolvimento de uma mente cristã não implica uma jornada ao</p><p>mundo subjetivo de alguém” é de MADANY, Bassam M. The Christian mind.</p><p>Disponível em <http://www.safeplace.net/members/mer/ mer_a016.htm.</p><p>A referência a nossa mente como campo de batalha é de CHAPMAN, Tim. The</p><p>discipline of a christian mind. Disponível em <http://</p><p>www.geocities.com/the_theologian/content/pastoralia/discipline.html. Cf.</p><p>SKINNER, Douglas B. Thinking Christianly. Disponível em <http://</p><p>www.northwaychristian.org/Sermons/2004-01-04.htm.</p><p>A frase “Uma mente cristã é ineficaz sem um caráter cristão” é de LEWIS, C.S.</p><p>Citada em <http://www.palmettoanglican.blogspot.com/</p><p>2003_12_01_palmettoanglican_archive.html.</p><p>Capítulo 8</p><p>Para este capítulo, usei bastante o artigo de GARRETT, JR., James Leo.</p><p>Religious freedom: why and how in today’s world. Disponível em <http://</p><p>www.preciousheart.net/religious%20freedom/Advocates_3a.htm.</p><p>Cover Page</p><p>Apologética cristã</p><p>Apresentação</p><p>Introdução</p><p>1. Por que propagar um cristianismo cuja história está cheia de violência?</p><p>2. Não é a religião uma ilusão?</p><p>3. É politicamente correto afirmar que só Jesus salva?</p><p>4. Como crer em um Deus amoroso, que permite o sofrimento?</p><p>5. Como</p><p>acreditar em milagres, se a ciência não os confirma?</p><p>6. E se a homossexualidade for genética?</p><p>7. Por uma mente bíblica</p><p>8. Elogio da tolerância</p><p>Enriqueça sua biblioteca</p><p>exemplo. Reúna todos os dados. Leia tudo o que for possível sobre uma</p><p>determinada questão, criticando os argumentos dos autores, mesmo aqueles com</p><p>os quais concorde. Disponha-se a gastar tempo. Não se contente com uma visão</p><p>superficial, nem caricatural do tema. Procure dominar o assunto.</p><p>7. Ouça sempre o outro lado</p><p>Fundamente seus argumentos a partir de fontes primárias. Se discordar de um</p><p>autor, faça-o a partir dos escritos dele, e não da opinião de terceiros. A</p><p>honestidade intelectual não pode ser infamada, nem por uma boa causa.</p><p>8. Firme-se no foco, na meta da apologética</p><p>Não confunda polêmica, que trata de questões doutrinárias entre confissões</p><p>cristãs, com apologética, um método de evangelização a partir da defesa racional</p><p>da fé cristã bíblica.</p><p>9. Contribua para pôr a razão em seu devido lugar</p><p>A razão é essencial, mas não tudo. O racionalismo consiste num tipo de</p><p>reducionismo porque reduz a vida a uma só dimensão. Cuide para que a razão</p><p>não seja entronizada no altar. Ela é apenas um instrumento para a compreensão e</p><p>também deve ser um instrumento para a felicidade.</p><p>10. Dependa do poder do Espírito Santo</p><p>Não alimente a pretensão de que você pode convencer as pessoas de seu pecado,</p><p>do juízo que lhes sobrevirá e da necessidade de arrependimento. Essa tarefa é do</p><p>Espírito Santo. Você é apenas um instrumento. Não espere resultados como</p><p>frutos de sua competência.</p><p>¹ Alguns preferem denominá-la Era Comum, por entenderem tratar-se de</p><p>expressão mais respeitosa com as demais religiões.↩</p><p>1</p><p>Por que propagar um cristianismo cuja história está</p><p>cheia de violência?</p><p>Estou convencido de que o amor é o poder mais duradouro do</p><p>mundo. O amor não é uma forma de idealismo vazio, mas de</p><p>realismo prático. Longe de ser conclusão de um sonhador utópico, o</p><p>amor é uma necessidade absoluta para a sobrevivência de nossa</p><p>civilização. Voltar ao ódio pelo ódio apenas intensifica a existência</p><p>do mal no universo. Todos precisamos de razão e religião bastantes</p><p>para quebrar a cadeia do ódio e do mal, e isto só pode se dar através</p><p>do amor.</p><p>Martin Luther King, Jr.</p><p>A instrução de Jesus Cristo pouco antes de partir foi e é clara: “Os onze</p><p>discípulos foram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes indicara. Quando o</p><p>viram, o adoraram; mas alguns duvidaram. Então, Jesus aproximou-se deles e</p><p>disse: ‘Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam</p><p>discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do</p><p>Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu</p><p>estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos’” (Mt 28.16-20; NVI).</p><p>Uma pergunta, entretanto, precisa ser feita: Por que propagar um cristianismo</p><p>cuja história está cheia de violência?</p><p>UMA HISTÓRIA CHEIA DE VIOLÊNCIA</p><p>Não podemos negar: a instrução de Jesus tem sido cumprida, às vezes até</p><p>imposta com violência a fim de convencer e converter. Em nome de Cristo, tem</p><p>havido guerras, divisões, saques, assassinatos e torturas.</p><p>A história do cristianismo está manchada não só pelo sangue de seus mártires,</p><p>mas também pelo sangue dos mártires que fez. Vejamos alguns exemplos.</p><p>1. Ano 324: Constantino instituiu o cristianismo como única religião oficial do</p><p>Império Romano. Os templos a deuses pagãos foram destruídos e alguns de seus</p><p>sacerdotes torturados até a morte. Para dominar, seus sucessores seguiram o</p><p>mesmo caminho de violência.</p><p>2. Período entre os séculos 11 e 16: milhares de europeus se dirigiram à Palestina</p><p>com a intenção de liberar os chamados lugares santos (a partir de Jerusalém) das</p><p>mãos dos muçulmanos. Todas as cruzadas foram convocadas a partir do púlpito.</p><p>Cada guerreiro, considerado um soldado da igreja católica, pronunciava um voto</p><p>solene, recebia uma cruz das mãos do papa ou de um de seus representantes e</p><p>indulgências e privilégios temporais diversos. O clima pode ser mais bem</p><p>entendido por uma frase de Bernardo de Clairvaux: “O cristão se gloria na morte</p><p>de um pagão porque Cristo é glorificado”. Houve saque, destruição de templos,</p><p>tortura e mortes.</p><p>3. Século 13: para suprimir heresias, a igreja católica constituiu a inquisição,</p><p>com poder para condenar por desvios doutrinários e morais. Ser judeu era crime,</p><p>assim como ser muçulmano. Mais tarde, ser protestante também passou a</p><p>constituir crime, como praticar bruxaria e pensar diferentemente. Os julgamentos</p><p>eram secretos, prática comum nos tribunais de então. Os hereges eram caçados e</p><p>interrogados. O inquisidor usava quatro métodos para obter a confissão: ameaçar</p><p>com a morte na fogueira; com uma prisão mais rigorosa, que incluía corte da</p><p>alimentação; enviar pessoas treinadas que tentariam obter a confissão por meio</p><p>da persuasão, e torturar. Condenados, os hereges eram encaminhados ao poder</p><p>civil, que fazia cumprir a punição, entre as quais vigoravam o confisco dos bens</p><p>e a morte na fogueira.</p><p>4. Miguel Servetus (1511-1553): o médico e teólogo que esposava ideias</p><p>equivocadas sobre a Trindade e outros temas foi condenado pela inquisição</p><p>francesa. Ao fugir para a Suíça, onde João Calvino dominava o cenário religioso</p><p>e político, foi preso e queimado vivo numa fogueira.</p><p>5. Camponeses da Alemanha: interessaram-se pelo pensamento de Lutero e</p><p>chegaram a crer que ele se solidarizaria com sua luta contra a abolição imediata</p><p>da ordem feudal e dos castigos arbitrários. Reivindicavam direito à caça e ao</p><p>pagamento, em dinheiro, pelos serviços prestados. Enquanto o movimento estava</p><p>dirigido contra o clero católico, Lutero o apoiou, mas quando a ameaça recaiu</p><p>sobre os senhores feudais, alguns já seguidores de Lutero, o reformador sugeriu</p><p>(1525) um acordo, rejeitado pelos camponeses. Lutero concordou com a</p><p>“guerra” e cem mil deles morreram.</p><p>6. Paris: os católicos massacraram os huguenotes (denominação dos protestantes</p><p>naquele país), no dia de São Bartolomeu (1572). Surpreendidos em ruas e casas,</p><p>o número de mortos pode ter alcançado 60 mil. O almirante protestante Gaspar</p><p>de Coligny exercia grande influência sobre o rei Carlos IX. Sua mãe Catherine</p><p>de Médicis, ajudada pelo Duque de Guise, comandou uma revolta popular, cujo</p><p>objetivo era matar os líderes huguenotes.</p><p>7. Século 20: ocorre, ainda na Europa, o holocausto judeu, comandado por Adolf</p><p>Hitler, que na Alemanha contou com a conivência de católicos e protestantes. As</p><p>igrejas cristãs não levantaram a voz contra o genocídio. Na Espanha, a igreja</p><p>católica apoiou o ditador Franco e, em Portugal, a ditadura salazarista. Nos dois</p><p>países, as igrejas católicas se beneficiaram muito da aliança com o governo,</p><p>enquanto suprimiam a liberdade pela força.</p><p>8. América Latina: com a participação do clero católico, a população indígena</p><p>foi dizimada (isto é, sobrou o dízimo do que antecedia a chegada dos</p><p>exploradores). A redução indígena fazia parte do projeto colonizador, de que o</p><p>cristianismo católico era parte integrante.</p><p>9. Tráfico de escravos negros para as Américas: foi comandado pela Inglaterra,</p><p>um dos maiores traficantes, a qual colocava o nome de Jesus em seus navios. Na</p><p>América do Norte, os fazendeiros protestantes possuíam escravos. Os pastores</p><p>que defendiam a abolição eram punidos. Na América Central e do Sul, poucas</p><p>vozes se levantaram para defender os negros, que chegavam aos milhares</p><p>anualmente. As fazendas católicas também mantinham escravos, como os</p><p>imigrantes protestantes norte-americanos.</p><p>10. Brasil recente: enquanto os governos militares torturavam presos políticos,</p><p>pastores evangélicos frequentavam palácios, abstendo-se de críticas e de</p><p>resistência à tortura contra dissidentes.</p><p>Isso mostra a que ponto os adversários do cristianismo podem chegar e que a fé</p><p>cristã é compatível com a violência ou até sua promotora. Um ateu e crítico do</p><p>cristianismo escreveu: “É irônico que a religião que tão amplamente proclama</p><p>como fundamento o Amor Absoluto tenha, ao longo da história, produzido tanto</p><p>ódio e tanta violência”. Segundo essa visão, o cristianismo falhou em inspirar</p><p>melhoria de conduta entre as pessoas ao estimular o que há de pior no</p><p>comportamento humano.</p><p>Se tomarmos esses exemplos, notaremos,</p><p>sem dificuldade, que decorreram de</p><p>fatores estranhos à fé cristã. Alguns surgiram como fruto da subserviência da</p><p>igreja ao Estado, seja por uma eficiente política de dominação, seja pelos</p><p>benefícios econômicos e políticos que esse tipo de aliança permite e que levou o</p><p>cristianismo a deixar o papel de perseguidor para tornar-se perseguido, como</p><p>ocorreu no tempo do imperador Constantino (século 4).</p><p>Outro fator nasce de uma deformação fundamentalista, presente ao tempo de</p><p>Jesus em seus principais opositores, os fariseus. A verdade deve ser pregada, não</p><p>imposta. Nem ela nem a fé são maiores que o amor. O fundamentalista, no</p><p>entanto, assume o lugar de Deus na defesa da verdade, geralmente da sua</p><p>verdade, com consequências trágicas, como o foi a inquisição, por exemplo.</p><p>Não podemos esquecer que os cristãos também têm demonstrado, ao longo da</p><p>história, uma tendência a se alinhar aos detentores do poder, independentemente</p><p>do que forem, numa equivocada interpretação do mandamento bíblico de que</p><p>devemos honrar as autoridades. Como já se disse, a síndrome de Romanos 13</p><p>tem vitimado os cristãos, que se esquecem de ler Apocalipse 13, onde as</p><p>autoridades são chamadas de bestas.</p><p>O QUE OS CRÍTICOS NÃO PODEM ESQUECER</p><p>Está na moda bater no cristianismo, inclusive no que ele tem de mais precioso,</p><p>que é a ideia e a prática da redenção. O ser humano abomina o fato de ser</p><p>pecador e de que precisa se arrepender. Quando o cristianismo lembra essa</p><p>profunda verdade, é criticado como politicamente incorreto, como tendo uma</p><p>moralidade para perdedores.</p><p>1. Honestidade intelectual</p><p>Um crítico, no entanto, deve ter compromisso com a verdade. Só há diálogo</p><p>quando existe honestidade intelectual. Que honestidade há nesta frase? “Não se</p><p>pode ignorar que o cristianismo oferece uma conveniente ordem divina para</p><p>ações odiosas e violentas contra um amplo círculo de pessoas”. Onde se</p><p>encontra, no Novo Testamento, uma instrução dessa natureza? Onde no Novo</p><p>Testamento há uma prática desse tipo? Pelo contrário, o mandamento de Jesus é</p><p>amar ao próximo como a si mesmo, inclusive ao inimigo (Mt 5.44), mesmo que</p><p>ele aja de modo violento (Mt 5.39). A instrução apostólica é que não se deve</p><p>apenas amar de palavras, mas com ações efetivas (1Jo 3.18).</p><p>2. Atenção ao anacronismo</p><p>O presente sempre julga o passado; é inevitável. No entanto, não pode fazê-lo</p><p>apenas com as luzes do presente. Aos olhos de hoje, o apóstolo Paulo nada fez</p><p>para combater a escravidão. No entanto, ele recomenda a um senhor de escravos</p><p>que receba um servo fugitivo como se fosse um irmão, como um igual. O</p><p>apóstolo considerava aquele escravo como seu coração (Fm 1.12). O convite à</p><p>igualdade é uma negação do sistema escravagista, baseado na desigualdade</p><p>natural.</p><p>Os cristãos, por exemplo, tinham escravos quando todos os tinham. Não se pode</p><p>esquecer que a luta contra a escravidão tem material de sobra no Novo</p><p>Testamento, a partir da afirmação de que em Cristo não há distinção entre livres</p><p>e escravos (Gl 3.28).</p><p>3. A natureza humana</p><p>Os erros dos cristãos, individual e institucionalmente, são mais uma</p><p>demonstração da verdade bíblica segundo a qual no homem não habita bem</p><p>algum (Rm 7.18). Todos, cristãos e não-cristãos, são pecadores, que continuam</p><p>pecando porque esta é a sua natureza. A violência está inscrita na psique</p><p>humana. Muito antes de Freud, esta condição humana já está registrada na</p><p>Bíblia. Por isso, os cristãos, são convidados a não dar lugar a inimizades,</p><p>contendas, ciúme, iras, facções, dissensões e partidos (Gl 5.20). Antes, são</p><p>estimulados a atitudes de amor, paz, longanimidade, benignidade, bondade,</p><p>mansidão e domínio próprio (Gl 5.22,23).</p><p>4. A validade da mensagem</p><p>Os críticos do cristianismo, ainda que de posse de informações corretas,</p><p>equivocam-se em ignorar o valor intrínseco da mensagem cristã. Não se pode</p><p>negar a mensagem por causa da falha de suas testemunhas.</p><p>O próprio Jesus é uma demonstração essencial do amor de Deus, porque morreu,</p><p>em nosso lugar, vítima da violência, para que ela fosse eliminada. A pregação de</p><p>Jesus é essencialmente contrária a qualquer tipo de violência. A vida de Jesus é</p><p>uma prova do que o amor é capaz. Ele mesmo perdoou seus algozes.</p><p>5. O joio do trigo</p><p>Os críticos do cristianismo não podem esquecer que nem toda a violência dita</p><p>religiosa é de fato violência religiosa. Quem em sã consciência pode dizer que o</p><p>conflito entre católicos e protestantes na Irlanda é religioso? Lamento essa</p><p>violência política que uma cultura religiosa não consegue conter. Por culpa dos</p><p>cristãos, a religião tem sido manipulada para legitimar interesses ideológicos e</p><p>econômicos. As guerras são travadas por questões financeiras, mas acabam</p><p>sendo chamadas de “guerras de religião”.</p><p>6. Os mártires contra a violência</p><p>Há uma galeria de cristãos que entregaram literalmente suas vidas pela paz.</p><p>Agiram assim por causa de sua fé. Vejamos alguns destes cristãos defensores da</p><p>paz.</p><p>Telêmaco (século 5). O monge Telêmaco chegou a Roma e deparou com o</p><p>espetáculo dos gladiadores, em que homens se enfrentavam até a morte para a</p><p>glória do imperador. Por discordar, entrou na arena e, gritando, protestou: “Em</p><p>nome de Cristo, parem”. Um gladiador se aproximou dele e feriu-o no</p><p>estômago. Fez-se silêncio no anfiteatro. Um homem ficou em pé e saiu. Em</p><p>poucos minutos, o coliseu estava vazio. Foi a última disputa de gladiadores da</p><p>história de Roma.</p><p>Bartolomé de las Casas (1484-1566). Entre os padres espanhóis enviados à</p><p>América Central estava Bartolomé de las Casas, que viu a destruição</p><p>perpetrada por seus conterrâneos, que segundo ele, matavam, incendiavam e</p><p>queimavam índios. Sua ação provocou mudanças no projeto colonial e serviu de</p><p>exemplo para os que, depois dele, se interessaram pela justiça.</p><p>William Wilberforce (1759-1833). Político inglês que, ao converterse ao</p><p>cristianismo evangélico, interessou-se pela reforma social, tornando-se líder do</p><p>movimento contra o tráfico de escravos africanos. Pouco depois de sua morte, o</p><p>parlamento aboliu a escravidão nas colônias inglesas.</p><p>Martin Niemöller (1892-1984). Pastor batista e um dos primeiros a levantar a</p><p>voz contra Hitler. O Führer se irritou com a popularidade dos sermões de</p><p>Niemöller e mandou prendê-lo. Libertado em 1945, criticou severamente a</p><p>igreja evangélica alemã por sua omissão. É dele o seguinte texto: “Primeiro,</p><p>eles investiram contra os comunistas, mas eu não era comunista e me calei.</p><p>Depois, investiram contra os socialistas e os sindicalistas, mas eu não era</p><p>nenhum deles, e me calei. Depois, eles investiram contra os judeus, mas eu não</p><p>era judeu e me calei. Quando investiram contra mim, não havia ninguém para</p><p>me defender”.</p><p>Família Ten Boom. Durante a Segunda Guerra Mundial, a casa dos Ten Boom</p><p>transformou-se em refúgio para os que fugiam do nazismo. Eles (o pai, Casper, e</p><p>as filhas Corrie, autora de O refúgio secreto, e Betsie) arriscaram a vida,</p><p>resistindo pacificamente em decorrência de sua fé. Eles esconderam judeus,</p><p>estudantes que se recusavam a cooperar com o nazismo e membros da</p><p>resistência holandesa. Cerca de 800 judeus escaparam da morte graças aos Ten</p><p>Boom. Quatro membros da família morreram na prisão. Corrie sobreviveu.</p><p>Martin Luther King Jr. (1929-1968). Nos Estados Unidos, o preconceito racial</p><p>estava de tal modo arraigado que muitas pessoas morreram por defenderem a</p><p>igualdade de direitos para todos. Entre eles, estava o pastor batista Martin</p><p>Luther King Jr. Seus discursos e suas ações contra a violência formaram a</p><p>consciência de uma geração. Acabou assassinado, mas o país já mudara, e</p><p>mudaria ainda mais. Sua família é uma demonstração dos princípios pacifistas</p><p>do cristianismo. Sua mãe, Alberta, foi assassinada, também a tiros, enquanto</p><p>tocava órgão em sua igreja (em Atlanta). O marido, Martin Luther King, disse</p><p>no funeral: “Eu não posso odiar uma pessoa”. O filho, quando recebeu o</p><p>Prêmio Nobel da Paz, anotou: “Eu me recuso a aceitar a cínica ideia de que</p><p>nação após nação precisam desencadear uma corrida militarista até o inferno</p><p>de uma destruição termonuclear. Eu creio que a verdade</p><p>desarmada e o amor</p><p>incondicional terão a palavra final. E isto porque o direito temporariamente</p><p>derrotado é mais forte que o mal triunfante”.</p><p>O QUE OS CRISTÃOS PRECISAM FAZER</p><p>É um erro fazer de conta que nada aconteceu, porque muitos fatos da história</p><p>contradizem o ensino e a prática de Jesus.</p><p>1. Desenvolvamos nossa consciência crítica</p><p>Não precisamos negar a história. Precisamos, sim, de uma consciência crítica</p><p>que nos ajude a ver os erros dos outros e os nossos, do passado e de hoje.</p><p>É incômodo tomar conhecimento de nossas mazelas, mas é necessário.</p><p>Precisamos conhecer nossa história, com suas realizações positivas e seus</p><p>equívocos. O triunfalismo não nos ajuda em nossa reflexão. Nosso modelo</p><p>historiográfico deve ser o Antigo Testamento: quando Abraão, Moisés e Davi</p><p>pecaram, seus erros foram publicados. Nada foi escondido.</p><p>2. Peçamos perdão</p><p>Precisamos pedir perdão pelos erros do passado, seja o silêncio majoritário na</p><p>Alemanha, seja o silêncio conivente na ditadura brasileira dos anos 60. Um bom</p><p>exemplo foi o gesto de alguns cristãos por ocasião dos 900 anos da primeira</p><p>cruzada (996), quando um grupo de cristãos europeus fez uma manifestação, em</p><p>que pediram perdão por aqueles que, em nome de Cristo, saquearam e mataram,</p><p>agindo, assim, contrariamente aos propósitos de Cristo.</p><p>O pedido de perdão foi feito nos seguintes termos: “Desejamos retomar os</p><p>passos dos cruzados para pedir desculpas por seus atos e para demonstrar o</p><p>verdadeiro significado da cruz. Lamentamos profundamente as atrocidades</p><p>cometidas em nome de Cristo por nossos antecessores. Renunciamos à ganância,</p><p>ao ódio e ao medo e condenamos toda violência em nome de Jesus Cristo. Eles</p><p>estavam motivados pelo ódio e pelo preconceito, mas nós oferecemos o amor e a</p><p>fraternidade. Jesus, o Messias, veio para dar vida. Perdoem por permitir que seu</p><p>nome fosse associado com a morte”.</p><p>No Brasil dos anos 1960, os batistas se feriram e se dividiram por causa da</p><p>doutrina do Espírito Santo, permanecendo uns na Convenção Batista Brasileira e</p><p>fundando outros a Convenção Batista Nacional. Os lados em questão se</p><p>ofenderam, pecando. Quarenta anos depois, os batistas “nacionais” escreveram</p><p>uma carta pedindo perdão. Os batistas “brasileiros” não tiveram a mesma</p><p>disposição.</p><p>3. Vigiemos para não cair</p><p>Precisamos cuidar para não cometer os erros que hoje, à distância, condenamos.</p><p>Se formos humildes, reconheceremos que a violência pode nos acompanhar.</p><p>Tendemos a confundir defesa de princípios com ataques pessoais.</p><p>Conhecer os esforços daqueles que lutaram contra a violência nos ajuda a olhar</p><p>para nós mesmos, para que jamais esqueçamos a regra de Jesus, que consiste</p><p>sempre em caminhar a segunda milha.</p><p>Cuidemos para não praticar a violência no plano eclesiástico. Devemos defender</p><p>ideias e podemos eleger métodos, mas não podemos impor ideias, nem</p><p>ridicularizar os métodos alheios.</p><p>Sejamos mais pacíficos em casa e na igreja. Se todos tivermos a certeza de que</p><p>Deus fará, não teremos o desejo de “facilitar-lhe” as coisas.</p><p>4. Continuemos pregando</p><p>Devemos continuar pregando, porque o Evangelho é o poder de Deus para todo</p><p>aquele que crê (Rm 1.16). Não há motivo para nos envergonhar. Daquilo que nos</p><p>envergonhamos, pedimos perdão. O mundo precisa de Cristo para alcançar a</p><p>paz.</p><p>Devemos pedir ao Espírito Santo que nos ajude a desenvolver a paz e a</p><p>mansidão como dimensões necessárias, embora difíceis, da verdadeira vida</p><p>cristã.</p><p>Olhemos para nós mesmos, mas fixemo-nos em Jesus, sempre suave, gracioso,</p><p>nas palavras e nas ações. São os mansos que herdarão a terra (Mt 5.5).</p><p>PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO</p><p>Os que recusam a fé cristã por causa da história do cristianismo têm razão,</p><p>embora não em todos os pontos. Em que pontos esses críticos estão certos?</p><p>Que críticas se podem fazer aos críticos da fé cristã?</p><p>Como podemos desenvolver melhor nossa consciência a fim de tornála</p><p>autocrítica e crítica?</p><p>Podemos pedir perdão por erros de nossos antepassados?</p><p>2</p><p>Não é a religião uma ilusão?</p><p>Para a razão ser um guia confiável, tem de basear-se em algo mais</p><p>essencial que a lógica e oferecer uma base sólida para chegar à</p><p>verdadeira conclusão sobre os fins. A razão instrumental não basta.</p><p>É por isso que o temor do Senhor não é o princípio da superstição,</p><p>e, sim, o princípio da sabedoria.</p><p>Phillip E. Johnson</p><p>Pesa contra a religião uma pecha antiga: o sentimento religioso é para pessoas</p><p>intelectualmente preguiçosas e psicologicamente frágeis. Em especial a partir do</p><p>filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872), a crença em Deus, mesmo num</p><p>Deus pessoal como o da Bíblia, tem sido vista por agnósticos e ateus como o</p><p>resultado da projeção da própria consciência humana. Assim, por exemplo, a</p><p>santidade de Deus é a projeção do desejo humano de não pecar, e a presença de</p><p>Deus, do sentimento humano de solidão e separação.</p><p>Karl Marx (1818-1883), que retomou o pensamento de Feuerbach, propôs abolir</p><p>a religião, com a felicidade que Marx considerava ilusória, para que houvesse</p><p>felicidade verdadeira. O marxismo vê a religião como a ilusão que cria razões e</p><p>desculpas para manter o statu quo. A religião, escreveu Marx, “é o soluço da</p><p>criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma</p><p>situação carente de espírito. É o ópio do povo”.</p><p>O psicanalista Sigmund Freud (1856-1939) insistiu que a “religião é uma ilusão</p><p>e sua força deriva-se do fato de que se ajusta a nossos desejos instintivos”. Freud</p><p>oferece uma explicação naturalista para a religião, nascida, para ele, da</p><p>necessidade humana de proteção diante da natureza indomável e da necessidade</p><p>humana da figura de um pai perdido e de se reconciliar com as privações da vida</p><p>cotidiana. Toda a religião, inclusive e principalmente a monoteística (presente no</p><p>judaísmo, no cristianismo e no islamismo), é uma ilusão, ensinou o pai da</p><p>psicanálise.</p><p>Escrevendo no contexto ocidental, esses filósofos se referiam às religiões em</p><p>geral e ao cristianismo em particular. Bertrand Russel (1872-1970) explicou que</p><p>cristão é aquele que acredita em Deus, aceita a ideia da imortalidade e reconhece</p><p>como verdadeiros os ensinos de Jesus Cristo. Disse o pensador inglês: “Não</p><p>acredito em Deus e na imortalidade” e “não acho que Cristo foi o melhor e o</p><p>mais sábio dos homens, embora eu lhe conceda um grau muito elevado de</p><p>bondade moral”.</p><p>Esta “bondade moral” de Jesus Cristo é apresentada com todas as letras na Bíblia</p><p>Sagrada. Escrevendo no final do primeiro século, um epistológrafo bíblico</p><p>escreveu:</p><p>Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em que Deus enviou o seu</p><p>Filho Unigênito ao mundo, para que por meio dele vivamos. Nisto está o amor:</p><p>não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós e</p><p>enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus</p><p>assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros.</p><p>Ninguém jamais viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece</p><p>em nós, e o seu amor em nós é aperfeiçoado. Nisto conhecemos que</p><p>permanecemos nele, e ele em nós: por ele nos ter dado do seu Espírito.</p><p>E nós temos visto e testificamos que o Pai enviou seu Filho como o Salvador do</p><p>mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece</p><p>nele, e ele em Deus. Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e</p><p>confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor</p><p>permanece em Deus, e Deus nele. Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que</p><p>no dia do juízo tenhamos confiança, porque, qual ele é, somos também nós neste</p><p>mundo.</p><p>No amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo</p><p>envolve castigo, e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos</p><p>porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.9-19).</p><p>O que aprendemos com João, se aceitarmos suas palavras?</p><p>Precisamos ir além, para ver a Deus. Aprendemos nesse trecho da carta de João</p><p>que, diferentemente do que ensinam alguns pensadores e seus seguidores, Deus</p><p>existe e se relaciona com aqueles que o amam. Crer na inexistência de Deus é</p><p>uma escolha. Crer que Deus existe é outra escolha. E os cristãos</p><p>entendem ser</p><p>essa uma opção muito melhor.</p><p>Sabemos que Deus não pode ser visto com os olhos naturais, impossibilidade</p><p>que não nos incomoda, porque nós o sentimos, experienciamos, como se o</p><p>víssemos com os próprios olhos. Sabemos que a existência de Deus não pode ser</p><p>aprovada cientificamente, mas pode ser provada vivencialmente.</p><p>Segundo um filósofo ateu, “todas as religiões se baseiam, pelo menos em parte,</p><p>na crença em coisas de cuja existência não há provas, e que se deve substituir a</p><p>crença nessas coisas pela fidelidade aos fatos reais”. Ao contrário, crer apenas no</p><p>que se vê não é uma atitude absolutamente racional, porque sabemos que em</p><p>muitos sentidos é impossível crer apenas no que se vê ou aceitar apenas o que se</p><p>aceita tradicionalmente. Devemos fixar os olhos não naquilo que se vê mas no</p><p>que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno (2Co</p><p>4.18). Todas as grandes descobertas científicas são grandes saltos no escuro do</p><p>desconhecido.</p><p>Afirmar que Deus é uma ilusão é pretender dominar a verdade, por si só uma</p><p>ilusão. Insistir que Deus é uma projeção da fraqueza humana é colocar-se em</p><p>posição de superioridade emocional próxima da patologia. Se a ideia de Deus é</p><p>uma ilusão, trata-se de uma ilusão poderosa, porque esta “ilusão” tem mudado</p><p>concretamente a vida de muitas pessoas.</p><p>Conta-se que um pregador do cristianismo lançou um desafio a um pregador do</p><p>ateísmo. O cristão pediu ao ateu que trouxesse cem pessoas que tivessem tido a</p><p>vida transformada para melhor por crerem que Deus não existe. Ele faria o</p><p>mesmo com aqueles que tivessem sido resgatados da morte depois de</p><p>confessarem a Jesus Cristo como Salvador e Senhor. O ateu não conseguiu</p><p>reunir nenhuma pessoa. O cristão não teve nenhuma dificuldade, porque</p><p>conhecia centenas de pessoas cujas vidas foram mudadas para melhor.</p><p>Não acreditar em Deus é optar por viver sem propósito. A propósito, há sentido e</p><p>propósito para a vida? Um ateu, como Freud, explica: “Não, de jeito nenhum. A</p><p>partir de nosso ponto de vista científico, não podemos responder à questão se a</p><p>vida tem ou não tem sentido”. Que sentido tem uma vida sem sentido? É mais</p><p>sábio aceitar, como C.S. Lewis, um cristão, que o sentido e o propósito da vida</p><p>são encontrados quando compreendemos nos termos do Criador que nos fez por</p><p>que estamos aqui. O propósito primeiro de nossa vida é estabelecer um</p><p>relacionamento com o Criador.</p><p>Crer em Deus desperta-nos o desejo de viver. O filósofo dinamarquês Sören A.</p><p>Kierkegaard (1813-1855) disse-o muito bem: “Negar Deus não é fazer mal; é</p><p>destruir-se”. Crer em Deus é escolher cultivar um relacionamento com um ser</p><p>que nunca decepciona, mas, antes, aquece a vida.</p><p>Para crermos em Deus, precisamos nos abrir para o amor... para o amor de Deus.</p><p>Crer em Deus é uma questão de amor pelo fato de que só podemos amar porque</p><p>Deus nos amou primeiro (v. 12). É o seu amor que nos possibilita o desejo de</p><p>amar.</p><p>Para crer em Deus, precisamos nos abrir para o que está além do sentido da</p><p>razão. Não precisamos negá-la para experimentar o amor de Deus. É como se</p><p>fosse uma aposta: se não cremos em Deus, perdemos a possibilidade de</p><p>conhecer. Se cremos, damo-nos a oportunidade de conhecer.</p><p>Para crer em Deus, precisamos exercitar a liberdade, que pode ser não crer, mas</p><p>também crer. Escolhamos crer.</p><p>Precisamos ir além, para ter um relacionamento saudável com Deus.</p><p>Aprendemos naquele trecho da carta de João que, diferentemente do que</p><p>ensinam alguns pensadores e seus seguidores, o amor de Deus para conosco nos</p><p>lança numa vida nova, que se realiza no presente e alcança o futuro. A Bíblia</p><p>chama a esta vida de eternidade. Para nos lançar nessa vida eterna, que é vida</p><p>com qualidade aqui e vida com esperança além, Deus amorosamente enviou seu</p><p>Filho à terra para salvar o mundo (v. 14) do poder da morte.</p><p>Conhecedor dos limites próprios da vida presente, outro autor bíblico, o apóstolo</p><p>Paulo, lembra que é necessário revestir o corruptível de incorruptibilidade, e o</p><p>que é mortal, de imortalidade. Só depois da concretização disso se cumprirá a</p><p>palavra que está escrita: “Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a</p><p>tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15.53-55). Essa vitória se</p><p>dá por meio da graça de Deus, que nos foi dada em Cristo Jesus, que tornou</p><p>inoperante a morte e, por meio do evangelho, trouxe à luz a vida e a imortalidade</p><p>(2Tm 1.9,10).</p><p>A salvação, biblicamente entendida, é a vitória sobre o poder da morte, mas</p><p>vitória concedida por Jesus Cristo. Ela é também a restauração de um</p><p>relacionamento pessoal do ser humano com Deus, por meio de Jesus Cristo. A</p><p>salvação é uma iniciativa unilateral de Deus, a qual se completa com a resposta</p><p>humana. Na verdade, Deus espera que aqueles que tiveram conhecimento de sua</p><p>oferta confessem (isto é: aceitem) que Jesus Cristo é o Filho dele (v. 15). Essa</p><p>confissão completa o processo da salvação, ao restabelecer o relacionamento</p><p>pessoal do homem com Deus, relacionamento um dia existente e que foi</p><p>quebrado quando o homem abandonou voluntariamente o convívio com Deus.</p><p>Ao longo da passagem da carta de João transcrita há um pensamento recorrente:</p><p>se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós (v. 12) e todo aquele que</p><p>permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele (v. 16);</p><p>permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito (v. 13);</p><p>se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece</p><p>nele, e ele em Deus (v. 15).</p><p>Os seres humanos sempre se relacionam com Deus. Os descrentes com uma dura</p><p>recusa preliminar, sem nenhuma abertura para a manifestação divina. Por parte</p><p>do ser humano, esse relacionamento será sempre patológico, porque será o</p><p>emissor desejando ansiosa mas inutilmente resposta do receptor.</p><p>Os crentes podem se relacionar com Deus de modo saudável, mas também de</p><p>modo patológico.</p><p>Por razões estranhas à fé, a crença em Deus pode ser filha do medo para alguns,</p><p>mas não o é para todos, e não o é especialmente para aqueles que têm</p><p>compreendido que Deus é amor e que o perfeito amor dele para conosco, e nosso</p><p>para com ele, lança fora qualquer manifestação de medo. João nos mostra que</p><p>esse relacionamento entre os seres humanos e Deus se faz por meio do amor (v.</p><p>16), amor para com o Senhor, amor a si mesmo e amor ao próximo. Esse amor</p><p>permite relacionamentos saudáveis, em que não há medo. Por amarem a Deus, as</p><p>pessoas se relacionam com ele sem nenhum medo, exercitando a plenitude da</p><p>liberdade com que foram criadas. Por amar a si mesmas, as pessoas buscam dar</p><p>glória (reconhecimento) ao Deus que as criou e salvou, e percebem que sua vida</p><p>tem propósito. Por amar ao próximo, elas buscam promover o bem-estar do</p><p>outro.</p><p>Quando o ser humano quer se relacionar saudavelmente com seu Senhor, deseja</p><p>relacionar-se com outras pessoas, a quem busca amar. O desejo de amar a Deus e</p><p>ao próximo só é possível porque o cristão é aquele que tem o Espírito de Deus.</p><p>Sem o Espírito conseguimos, no máximo, amar a nós mesmos. Retomemos</p><p>1João:</p><p>se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós (v. 12) e todo aquele que</p><p>permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele (v. 16);</p><p>permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito (v. 13);</p><p>se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece</p><p>nele, e ele em Deus (v. 15).</p><p>Se queremos saber se Deus está conosco, avaliemos como estamos com o</p><p>próximo. Se queremos saber se Deus habita em nosso coração (que é mais que</p><p>estar conosco), confessemos que Jesus é o Filho de Deus.</p><p>Precisamos ir além, para viver. Aprendemos nessa passagem da carta de João</p><p>que, diferentemente do que ensinam alguns pensadores e seus seguidores, Jesus</p><p>não demonstrou apenas bondade moral, que nos deve servir de estímulo, mas</p><p>morreu em nosso lugar.</p><p>Essa frase provoca arrepios nos agnósticos e ateus. Bertrand Russell, um deles,</p><p>escreveu: “Quando vemos na igreja pessoas menosprezando-se e dizendo-se</p><p>miseráveis pecadores e tudo o mais, parece-nos desprezível e indigno de</p><p>criaturas humanas que se respeitem”. A ideia</p><p>religiosa “é uma concepção</p><p>inteiramente indigna de homens livres”.</p><p>Tais ideias são tidas como invenções dos sistemas religiosos para manter os</p><p>crentes sob controle. O ser humano é bom e precisa apenas ser educado. As</p><p>pessoas têm condições de andar com os próprios pés e olhar o mundo</p><p>corretamente, para “conquistar o mundo por meio da inteligência”. O que o</p><p>mundo precisa é “de conhecimento, bondade e coragem”, não “de nenhum</p><p>anseio saudoso pelo passado, nem do encarceramento das inteligências livres por</p><p>meio de palavras proferidas há muito tempo por homens ignorantes”. Pelo</p><p>contrário, “necessita de esperança para o futuro, e não passar o tempo todo</p><p>voltado para trás, para um passado morto, que, assim o confiamos, será</p><p>ultrapassado de muito pelo futuro que a nossa inteligência pode criar”.</p><p>O homem é bom e precisa ser educado, apregoam alguns racionalistas. Nós</p><p>dizemos que o homem precisa ser redimido, porque é pecador, um miserável</p><p>pecador até ser resgatado por Jesus Cristo. O “homem bom”, que precisa ser</p><p>educado, tem produzido uma distribuição de renda monstruosamente injusta,</p><p>especialmente nos países pobres. O “homem bom”, que precisa ser educado, tem</p><p>patrocinado tantas guerras quantas são suas luzes científicas e tecnológicas.</p><p>Quanto mais inteligência tem o homem, mais guerra ele faz. Quanto mais</p><p>conhecimento ele amealha, mais ódio sente. Eis o que temos visto, enquanto</p><p>aquele que veio para pregar o amor, viver o amor, morrer pelo amor, é</p><p>considerado “ignorante”.</p><p>Olhar para o passado traz saudade, mas, quando esse passado se chama Jesus</p><p>Cristo de Nazaré, cuja vida e cujo ensino se integram, olhar para o passado traz</p><p>felicidade. Sua vida autoriza seu ensino. Seu ensino autoriza sua vida. Seus</p><p>contemporâneos, mesmo os que não criam nele, reconheciam que falava com</p><p>autoridade (Mt 7.29). Ele foi enviado até nós pelo Pai para que pudéssemos</p><p>viver por meio dele (v. 9) Não podemos amar, nem mesmo a Deus, se não somos</p><p>redimidos por Jesus, enviado para morrer em nosso lugar (v. 10).</p><p>É pela vida de Jesus que podemos viver, porque estávamos mortos em nossos</p><p>pecados. É por seus ensinos que ele nos mostra como viver. É por sua presença</p><p>que ele nos fortalece para viver. Cristão é aquele que aceita como verdadeiros</p><p>todos os ensinos de Jesus, porque verdadeira foi sua vida. Para que tenhamos</p><p>vida com qualidade, precisamos ser inteligentes a ponto de confessar que Jesus</p><p>Cristo é o Salvador. A inteligência não salva por se tratar de uma faculdade</p><p>insuficiente. A confissão nos salva. A verdade bíblica não pode ser esquecida: Se</p><p>alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece</p><p>nele, e ele em Deus (1Tm 6.15).</p><p>UMA ILUSÃO A SER EVITADA</p><p>O amor humano, a Deus, a si mesmo e ao próximo, é um amor-resposta, porque</p><p>foi Deus quem tomou a iniciativa de viver a plenitude do amor (v. 19), ao se</p><p>tornar completamente humano. É por isso que alguns racionalistas se esforçam</p><p>tanto para negar que Jesus existiu. Se ele existiu, Deus existe. É também por isso</p><p>que alguns racionalistas admitem que Jesus existiu, mas não admitem o que ele</p><p>fez, como se tudo fosse uma invenção — engenhosíssima invenção,</p><p>precisaríamos conceber — de seus discípulos. Se Ele fez o que fez, Deus existe,</p><p>logo não é uma ilusão. Nesse Jesus, o poder de Deus operava de tal modo que</p><p>quem o via ao Pai via ( Jo 14.9).</p><p>É ainda por isso que alguns racionalistas admitem que Jesus existiu, fez algumas</p><p>coisas que o Evangelho relata, mas não aceitam que ele ensinou o que o Novo</p><p>Testamento assevera. Para esses descrentes, as palavras de Jesus ali registradas</p><p>são criações de uma comunidade de crentes. Crer nisso é conceber</p><p>insensatamente que os primeiros cristãos se fecharam em lugares secretos para,</p><p>num curto espaço de tempo, criar milagres e sermões, imaginar uma vergonhosa</p><p>morte de cruz, uma improvável ressurreição e uma absurda ascensão...</p><p>Para resolver seus problemas, os contemporâneos de Jesus o mataram. Os</p><p>racionalistas acham mais fácil matar Jesus: os de outrora, fisicamente; os de</p><p>todos os tempos, simbolicamente. É típico do ser humano eliminar o que não</p><p>pode controlar ou explicar.</p><p>Se ele existiu, fez o que fez e disse o que disse, como o registra o Novo</p><p>Testamento, e se o aceitamos como aplicável a nossa vida, esta pode ser mudada.</p><p>É uma ilusão crer que Deus não existe.</p><p>É uma miséria crer que a vida não tem sentido.</p><p>É uma teimosia crer que Jesus Cristo não existiu. Se ele existiu, Deus existe e a</p><p>vida tem sentido.</p><p>É uma idolatria deificar a razão, esta companheira necessária, mas insuficiente,</p><p>para fazer alguém feliz.</p><p>C.S. Lewis, um dos grandes escritores do século 20, foi ateu durante grande</p><p>parte de sua vida. Ao longo desse tempo, tinha uma visão pessimista da vida.</p><p>Após sua conversão, tudo mudou. Ele escreveu que a alegria passou a ser a</p><p>matéria principal de sua vida. Seus amigos descrevem-no como alguém animado</p><p>e expansivo. Lewis encontrou felicidade ao manter um relacionamento saudável</p><p>com o Criador. Para ele, “Deus não pode nos dar felicidade fora dele, porque tal</p><p>coisa simplesmente não existe”.</p><p>PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO</p><p>A religião cristã pode se tornar ilusão, como advertem alguns adversários do</p><p>cristianismo?</p><p>Que evidências podemos apresentar sobre o amor pessoal de Deus para conosco?</p><p>O que explica o fato de que, quanto mais desenvolvido tecnologicamente é o ser</p><p>humano, mais presentes estão suas velhas práticas?</p><p>Há felicidade fora de um relacionamento saudável com Deus?</p><p>3</p><p>É politicamente correto afirmar que só Jesus salva?</p><p>Enquanto o relativismo cultural nos lembre meramente da</p><p>inexistência de uma espécie de padrão universal, de um paradigma</p><p>absoluto que nos permita emitir julgamentos conclusivos acerca das</p><p>inúmeras culturas existentes, ele, valendo-se do ceticismo</p><p>inteligente, desempenha um papel saudável e contribui para a</p><p>autocompreensão da humanidade. Quando, todavia, cristalizando-se</p><p>num tabu que proscreve o exame sistemático de causas e efeitos</p><p>específicos, dita que toda análise comparativa é “etnocêntrica”</p><p>interessada, mal-intencionada etc., então degenera em nova forma</p><p>de obscurantismo.</p><p>Nelson Ascher</p><p>Disse Tomé: — Senhor, não sabemos para onde vais; como então podemos saber</p><p>o caminho? Respondeu Jesus: — Eu sou o caminho, a verdade e a vida.</p><p>Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim. ( Jo 14.5-6).</p><p>A pergunta do discípulo Tomé suscitou de Jesus uma resposta categórica. Tomé,</p><p>reconhecendo sua finitude, lamenta a falta de sentido de sua vida se Jesus não</p><p>indicar a direção. O Mestre fez a mais perfeita síntese de si mesmo,</p><p>apresentando-se como o Caminho, a Verdade e a Vida. Falando aos judeus de</p><p>seu tempo, Pedro reafirmou essa certeza ao dizer que “em nenhum outro há</p><p>salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens,</p><p>em que devamos ser salvos” (At 4.12). Decorridos tantos séculos, podemos</p><p>ainda, os cristãos, tomar Jesus como Único?</p><p>Tem sido uma espécie de escândalo a afirmação de que Jesus Cristo é o único</p><p>salvador, o único caminho que leva a Deus. Esse tipo de confissão logo resulta</p><p>em acusações de arrogância e intolerância.</p><p>Segundo algumas pessoas, os cristãos não podem ter a pretensão de dizer que</p><p>Jesus Cristo é o Cristo Salvador de todas as nações. O cristianismo, então, é</p><p>absoluto para os cristãos como as demais religiões o são para seus seguidores.</p><p>A síntese é de Ernst Troeltsch. Na perspectiva dessas pessoas, Jesus Cristo</p><p>cometeu um engano ao apresentar-se como o Caminho, a Verdade e a Vida.</p><p>Ensinam esses pensadores que Jesus até o poderia ser, mas somente para a</p><p>cultura judaica, que, aliás, o rejeitou.</p><p>UM CONVITE AO RESPEITO À DIVERSIDADE</p><p>Segundo uma certa visão, todas as religiões salvam, como caminhos igualmente</p><p>válidos para levar pessoas à felicidade (segundo o entendimento secular) ou à</p><p>salvação (de acordo com a compreensão cristã). Qualquer religião que se</p><p>pretende com valor universal é etnocêntrica, isto é, olha tudo e todos a partir de</p><p>si mesma. As religiões em geral se consideram universais, mas seu valor não</p><p>deve extrapolar seu mundo cultural, ensinam</p><p>algumas pessoas, tributárias</p><p>daquilo que se convencionou chamar de “discurso politicamente correto”.</p><p>Essa expressão, surgida em meados dos anos 1970, nasceu como esforço</p><p>legítimo de não discriminar pessoas por critérios raciais, genéricos ou físicos.</p><p>Embora tenha perdido força nos anos 1990, seus imperativos são bastante</p><p>válidos. Houve exageros, que acabaram minando a força do ideal. Um exemplo</p><p>tem sido o fato de considerar aceitáveis todas as manifestações culturais,</p><p>conforme preconiza o multiculturalismo, mesmo que violentas e atentatórias à</p><p>dignidade humana.</p><p>Quando uma mulher, e apenas a mulher, é condenada à morte por um tribunal</p><p>tribal porque teve um filho fora do casamento, é impossível respeitar tal decisão</p><p>como aceitável. Assim também quando bebês do sexo feminino são mutilados</p><p>para que não sintam prazer sexual quando adultos, ou quando a mulher é</p><p>obrigada a calçar sapatos de tamanho menor a ponto de atrofiar-lhe os pés.</p><p>Como encarar tais práticas com naturalidade e respeito?</p><p>Na Índia do século 18, William Carey, que respeitava grandemente a cultura</p><p>hindu, a ponto de aprender a língua e publicar livros, ao deparar com a prática do</p><p>sati — a viúva devia ser ritualmente imolada na pira funerária do marido como</p><p>forma de provar seu amor conjugal e fidelidade — não descansou enquanto não</p><p>viu as mulheres livres desse sacrifício.</p><p>Exageros à parte, o ideal da não-discriminação deve ser buscado por todos nós.</p><p>Temos todos esse débito para com a proposta do “politicamente correto”.</p><p>Devemos escolher cuidadosamente as palavras, evitando termos como</p><p>“denegrir” ou “judiar”, por exemplo, por depreciarem os negros e os judeus.</p><p>Outra coisa bem diferente, no entanto, é negar, em nome do valor de indivíduos</p><p>e nações, a afirmação de Jesus de ser o Caminho, a Verdade e a Vida, pois é</p><p>precisamente o que propõem o pluralismo, o relativismo e o niilismo.</p><p>Jesus diz que é o Caminho, mas o pluralismo diz que ele é um dos</p><p>caminhos</p><p>Se Jesus é o Caminho, ninguém pode ir ao Pai senão por Jesus. Se o pluralismo é</p><p>a melhor opção, há muitos caminhos, e Jesus é um deles. O pluralismo religioso</p><p>ensina que todas as religiões são caminhos igualmente válidos em direção a</p><p>Deus. O pressuposto é que, sendo superficiais as diferenças entre as religiões,</p><p>elas podem levar ao mesmo objetivo.</p><p>Os pluralistas buscam formas de respeitar a singularidade das religiões, a partir</p><p>da convicção de que a tolerância e o respeito mútuos são insuficientes e que é</p><p>preciso afirmar o valor de cada religião dentro de um amplo contexto</p><p>teocêntrico. Tributário do pluralismo, o inclusivismo cristão entende que,</p><p>embora Jesus seja o Salvador exclusivo, muitos são incluídos em sua salvação,</p><p>mesmo que não o tenham confessado e que nunca tenham ouvido falar dele.</p><p>Segundo a síntese do teólogo alemão Ernst Troeltsch (1865-1923), os</p><p>inclusivistas creem que Deus aceita uma fé “implícita” em lugar de uma fé</p><p>explícita (conscientemente confessada) em Jesus Cristo. Essa fé “implícita” pode</p><p>ser uma espécie de resposta humana à revelação geral de Deus por meio da</p><p>criação ou da consciência ou da verdade presente nas demais religiões. O</p><p>pluralismo religioso exige que se abandone a fé na singularidade de Cristo, ao</p><p>ver as outras religiões como o modo “usual” de salvação, enquanto o</p><p>cristianismo é o modo “muito especial e extraordinário da salvação”.</p><p>Prefiro ficar com Jesus, que se apresentou enfaticamente como o único</p><p>Caminho. Se todas as religiões são verdadeiras, não é verdadeira a afirmação</p><p>feita por Jesus de que era Deus, nem seu ensino sobre sua morte expiatória, nem</p><p>sua ressurreição. Logo “é impossível crer que todas as religiões são verdadeiras,</p><p>sem uma mudança radical no conceito de”verdade".</p><p>Não podemos esquecer que os ensinos das principais religiões acerca de Deus</p><p>são contraditórios entre si. Os hindus são panteístas ou politeístas. Os budistas</p><p>são ateus ou panteístas. Os muçulmanos são teístas e unitarianos. Os cristãos são</p><p>teístas e trinitarianos. Esses ensinos, tão diferentes, não podem ser todos</p><p>verdadeiros.</p><p>De igual modo, os ensinos das principais religiões sobre a natureza do homem e</p><p>da salvação se contradizem. Os hindus veem o ser humano como essencialmente</p><p>divino, embora preso a este mundo devido à ignorância e a um carma ruim; o</p><p>livramento vem da mudança de nossas crianças sobre a realidade e sobre nossa</p><p>verdadeira identidade. Os budistas o vêem como um ser cativo deste mundo de</p><p>sofrimento e com desejos egoístas; a libertação vem pela extinção do desejo. Os</p><p>muçulmanos creem que o ser humano é fraco mas não pecador por natureza. Ele</p><p>está sob o juízo de Deus por causa da desobediência a suas leis; a salvação vem</p><p>por meio da obediência às leis de Deus.</p><p>Já os cristãos crêem que a pessoa está separada de Deus e sob juízo divino</p><p>devido à rebelião contra o Senhor. A salvação, porém, só vem pela confiança</p><p>naquilo que graciosamente Deus fez ao providenciar Jesus como sacrifício</p><p>expiatório por nosso pecado e enviar seu Espírito para nos mudar. Os cristãos</p><p>creem nas palavras de Jesus de que ele, o Cristo, é o Caminho, o que não nos</p><p>autoriza a manter uma postura arrogante, nem olhar as demais crenças com</p><p>desprezo ou desdém. Nossa crença, porém, não nos deve levar ao sectarismo,</p><p>que significa fechar-se a outras visões. Podemos aprender com diferentes</p><p>maneiras de crer distintas.</p><p>Penso que a experiência de Paulo nos ajuda em nossa prática. Antes de sua</p><p>conversão a Cristo, o apóstolo perseguia os cristãos. Depois daquela experiência</p><p>numinosa e luminosa, tornou-se um seguidor do Caminho. Ele não deixou de ser</p><p>judeu. Nunca perseguiu os adversários do cristianismo. Havia convicção em</p><p>Paulo, mas não arrogância. Seguia um caminho, não uma seita. Estava sempre</p><p>aberto ao novo, sem esquecer o Fundamento.</p><p>Jesus diz que é a Verdade, mas o relativismo diz que ele é uma das</p><p>verdades</p><p>Ao apresentar-se como a Verdade, Jesus quer dizer que quem o vê também vê o</p><p>Pai, graças à Encarnação, explicitada pelo quarto evangelista:</p><p>No princípio era o Verbo que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele</p><p>estava com Deus no princípio ( Jo 1.1-2; NVI).</p><p>Jesus estava com o Pai no princípio, antes da história humana; esteve com o Pai</p><p>durante a história humana e estará com o Pai após a história humana. Ele e o Pai</p><p>formam uma unidade. Se queremos ver Deus, olhemos para Jesus. Cristo é a</p><p>Verdade.</p><p>O relativismo, no entanto, diz que há muitas verdades. Segundo essa concepção,</p><p>cada pessoa é livre para crer no que quiser, porque não existe uma verdade</p><p>absoluta. O que alguém crê na verdade não é importante, nem certo, nem errado.</p><p>É uma escolha como qualquer outra.</p><p>Um dos subprodutos do relativismo é o sincretismo, segundo o qual todas as</p><p>religiões têm alguma medida de verdade. Assim, bem farão os que reunirem o</p><p>que há de melhor em cada uma delas e o aplicarem em sua vida. Se existe uma</p><p>verdade, é esta: nenhuma religião tem a verdade.</p><p>Outro subproduto do relativismo é o multiculturalismo. Partindo do princípio de</p><p>que todos os sistemas éticos e religiosos são bons ou ruins, seus adeptos afirmam</p><p>que não podemos julgar as pessoas fora do próprio sistema de valores. Com isso,</p><p>o multiculturalismo tem feito muitas vítimas. Felizmente ele tem sido</p><p>relativizado. Num primeiro momento, por exemplo, o destino de Amina Lawal,</p><p>adúltera nigeriana, foi deixada com seu povo, para que fosse julgada segundo</p><p>seus valores, considerados tão legítimos como quaisquer outros. Quando o</p><p>mundo percebeu que aquela cultura estava impregnada de injustiça e morte, o</p><p>clamor levou o governo nigeriano a suspender (em 2003) a execução daquela</p><p>mãe.</p><p>Durante um tempo fui colega do já missionário entre os índios Gunther Carlos</p><p>Krieger. Numa de nossas conversas, perguntei-lhe se não era melhor que os</p><p>cristãos deixassem os índios brasileiros quietos em suas aldeias. Ele me ensinou</p><p>que o cristianismo, corretamente apresentado e vivido, é uma oportunidade de</p><p>liberdade para os índios, uma vez que todo o sistema religioso indígena é</p><p>baseado no medo. Todos os seus rituais derivam da necessidade de aplacar os</p><p>espíritos</p><p>que povoam a floresta.</p><p>Não precisamos envergonhar-nos do fato de o cristianismo ter surgido numa</p><p>cultura, mas precisamos afirmar que ele não se esgota numa cultura. Ele é</p><p>supracultural no sentido de que seus princípios aplicam-se a todas as culturas.</p><p>A Bíblia afirma categoricamente que a fé explícita em Jesus Cristo é essencial</p><p>para a salvação. O tempo é chegado, dizia Jesus. O Reino de Deus está próximo.</p><p>Arrependam-se e creiam nas boas novas! (Mc 1.15). Cristo pediu que as pessoas</p><p>cressem nele ( Jo 5.46). Ele aconselhou: Não se perturbe o coração de vocês.</p><p>Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos</p><p>aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar ( Jo</p><p>14.1-2).</p><p>As Escrituras também afirmam que a fé vem pelo ouvir o Evangelho, restando a</p><p>pergunta: como crerão algumas pessoas, se não tiverem oportunidade de ouvir</p><p>falar de Jesus? A própria Bíblia nos ajuda a perceber que Deus julgará sem lei os</p><p>que sem lei pecaram (Rm 2.12). Em outras palavras, aqueles que não tiveram a</p><p>oportunidade de conhecer a Cristo serão julgados à luz da compreensão que</p><p>tiveram da Verdade. Eles serão salvos no final dos tempos, embora não usufruam</p><p>no presente o poder remidor da cruz sobre suas vidas.</p><p>Nossa certeza diante da Verdade, que é Cristo, não nos autoriza a ser</p><p>intolerantes. Esta percepção da Verdade nos deve levar a tomar as normas do</p><p>Antigo ou do Novo Testamento ou da igreja de um certo tempo e lugar e</p><p>universalizá-las como absolutas. Esta obsessão por normas nos tem feito</p><p>intolerantes, tanto em relação aos que não confessam a fé em Cristo como aos</p><p>domésticos da fé. Aliás, seremos tolerantes em relação às demais religiões se não</p><p>conseguimos ser tolerantes uns com os outros dentro das próprias confissões e</p><p>comunidades?</p><p>Ser tolerante não é negar que haja diferenças entre as pessoas e as culturas, mas,</p><p>partindo delas, mostrar um profundo respeito por pessoas e culturas,</p><p>independentemente de crenças, atitudes e hábitos. Estes devem ser respeitados e</p><p>valorizados, ainda que haja discordâncias.</p><p>Jesus diz que é a Vida, mas o niilismo diz que ninguém pode dizer</p><p>que é a vida porque não há nenhum sentido na existência humana</p><p>O texto do evangelista João soa cristalino:</p><p>No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele</p><p>estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele;</p><p>sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz</p><p>dos homens. ( Jo 1.1-4; NVI).</p><p>A vida tem sentido, e é Jesus Cristo. Ele mesmo disse: “Eu sou o pão da vida.</p><p>Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá</p><p>sede” ( Jo 6.35). “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior</p><p>fluirão rios de água viva” ( Jo 7.38).</p><p>Quando Jesus se apresenta como a Vida, ele se refere à vida eterna, adjetivo este</p><p>que está relacionado com duração (toda a eternidade) e com qualidade (vida</p><p>transbordante, segundo Jo 10.10).</p><p>No entanto, muitos têm preferido viver uma vida sem propósito, certos de que</p><p>nela não pode haver propósito. Mentor de uma geração, Jean-Paul Sartre (1905-</p><p>1980) escreveu:</p><p>... tudo é permitido se Deus não existe; fica o homem, por conseguinte,</p><p>abandonado, já não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se</p><p>apegue. [...] Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, o domínio</p><p>luminoso dos valores, justificações ou desculpas. É o que traduzirei dizendo que</p><p>o homem está condenado a ser livre, [...] está condenado a cada instante a</p><p>inventar o homem.</p><p>Outro pensador, Emil Cioran (1911-1995), radicaliza, para dizer: “O homem</p><p>idealmente lúcido, logo idealmente normal, não tem nenhum recurso além do</p><p>nada que está nele”.</p><p>Niilismo é pessimismo mórbido, enquanto Jesus nos oferece uma esperança</p><p>viva. Niilismo é a afirmação da irrelevância da experiência humana, enquanto</p><p>Jesus nos oferece um transbordamento existencial.</p><p>QUE FAZER DIANTE DA SINGULARIDADE DE JESUS?</p><p>Enquanto preparava este livro, recebi uma mensagem eletrônica de uma jovem</p><p>universitária. Ela escutara uma mensagem minha em que mostrava a validade da</p><p>experiência religiosa e conclamava os cristãos a não se envergonharem de sua fé.</p><p>Meu avô me falou que comentou com você sobre o que aconteceu na minha aula</p><p>na faculdade. Resolvi escrever porque acho que me expresso melhor [...]. Foi na</p><p>segunda-feira passada, na primeira aula de Geoquímica Marinha do semestre. O</p><p>professor começou explicando a origem do universo, Via Láctea, planetas, etc.</p><p>Até aí tudo bem, porque ele explicou algumas teorias, a composição das coisas...</p><p>Mas chegou um momento em que ele desligou o retroprojetor e começou a falar</p><p>sobre ciência x religião. (Acho que ele quis dar a opinião dele antes de explicar</p><p>as teorias conflitantes.) Disse que não se podem misturar as duas coisas, que</p><p>acreditar na Bíblia é negar anos de ciência, e quem o faz é ignorante,</p><p>manipulado, etc. Ele chegou até a dizer que fica com raiva quando vê escrito nas</p><p>ruas que Jesus é isso ou aquilo. Atacou pastores e igrejas, que manipulam, usam</p><p>a Bíblia para seus interesses, tiram dinheiro das pessoas (essas coisas que muitos</p><p>dizem, e outros realmente fazem). Questionou a veracidade da Bíblia, a</p><p>honestidade das pessoas que a escreveram (“quem escreveu a Bíblia?”, ele</p><p>perguntou).</p><p>À medida que ele falava, fui me irritando cada vez mais. Sentia-me agoniada...</p><p>Eu tinha de falar alguma coisa, mas sou muito tímida, não gosto (mesmo) de</p><p>falar em público, com todos me olhando... mas, quando ele perguntou se</p><p>estávamos entendendo, eu aproveitei e disse que não concordava com ele; então</p><p>um colega, que também é crente, aproveitou e disse também o que achava. E</p><p>então falei tudo o que pensava, que o muito estudar não nos afasta da Bíblia; ao</p><p>contrário, nos aproxima dela porque começamos a ver que as coisas fazem</p><p>sentido, se encaixam, a notar que as profecias da Bíblia se cumprem</p><p>criteriosamente, respaldando as demais que não se cumpriram ainda. Disse que é</p><p>possível compatibilizar a ciência e a religião, que a ciência comprova muitas</p><p>coisas da Bíblia.</p><p>E então o professor perguntou por que eu acreditava na Bíblia, e eu respondi:</p><p>“Principalmente pela fé, mas também pelas coisas que acontecem, pelas</p><p>profecias que se cumprem. No Antigo Testamento, por exemplo, está escrito que</p><p>o Estado Judeu ia ser disperso mas que posteriormente retornaria a sua terra</p><p>prometida, o que ocorreu em 1948, e que os judeus retornariam de todos os</p><p>países para Israel, e isso está acontecendo hoje”.</p><p>O professor não discordou de nada e até confirmou que os judeus estão</p><p>realmente voltando.</p><p>Uma amiga minha disse que os judeus cumprem as profecias da Bíblia porque as</p><p>conhecem. Respondi que apenas 5% dos judeus, os chamados ortodoxos,</p><p>conhecem os escritos bíblicos, a maioria deles são esotéricos ou ateus e, sem</p><p>saber, cumprem os propósitos de Deus.</p><p>Mas aí ele falou que eu não podia afirmar que só existe uma Verdade e que ela se</p><p>aplica a todos. Perguntou se eu já tinha lido o Alcorão e a Torá. Respondi que</p><p>não, mas a Torá estava incluída na Bíblia. Então ele disse que eu deveria ler o</p><p>Alcorão e “descobrir outras verdades”, disse que cada um tem a sua verdade, que</p><p>Deus é o mesmo, e a maneira como cada um quer chegar a Ele não importa...</p><p>(Ele disse que já leu a Bíblia, a Torá e o Alcorão.)</p><p>Eu disse que acreditava existir apenas uma verdade: Jesus. Mas como já havia</p><p>passado muito tempo da aula, ele não quis prolongar e eu não insisti. Ele disse</p><p>que vamos voltar a “filosofar” quando falarmos sobre a origem da vida.</p><p>Gostei do que aconteceu. Foi uma experiência boa e diferente. E, além disso, foi</p><p>uma oportunidade para voltar a falar com uma amiga sobre Jesus e o plano da</p><p>salvação durante o intervalo, embora ela continue resistindo, achando que isso</p><p>não serve pra ela...</p><p>A experiência dessa jovem nos estimula a proclamar a singularidade de Jesus. Se</p><p>cremos que “não há salvação em nenhum outro [se não Jesus], pois debaixo do</p><p>céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos”</p><p>(At 4.12), proclamemos Jesus</p>