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EDITOR: Marcos Marcionilo CONSELHO EDITORIAL: Ana Stahl Zilles [Unisinos] Angela Paiva Dionisio [UFPE] Carlos Alberto Faraco [UFPR] Celso Ferrarezi [UNIFAL] Egon de Oliveira Rangel [PUC-SP] Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela] José Ribamar Lopes Batista Jr. [UFPI/CTF/LPT] Kanavillil Rajagopalan [UNICAMP] Marcos Bagno [UnB] Maria Marta Pereira Scherre [UFES] Roberto Mulinacci [Universidade de Bolonha] Roxane Rojo [UNICAMP] Sírio Possenti [UNICAMP] Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB] Tommaso Raso [UFMG] Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva [UFMG/CNPq] PRODUÇÃO DO EBOOK: Telma Custódio Direitos reservados à PARÁBOLA EDITORIAL Rua Dr. Mário Vicente, 394 - Ipiranga 04270-000 São Paulo, SP pabx: [11] 5061-9262 | 5061-8075 | fax: [11] 2589-9263 www.parabolaeditorial.com.br parabola@parabolaeditorial.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão por escrito da Parábola Editorial Ltda. ISBN: 978-65-86250-26-8 © da edição: Parábola Editorial, São Paulo, 2014 http://www.parabolaeditorial.com.br mailto:parabola%40parabolaeditorial.com.br?subject= Para Ivone Edvaldo (em memória) Dinho Luciana Toda educação é política. Por trás de todo conhecimento, há algum tipo de interesse. Alastair Pennycook O conceito de método é um construto de marginalidade. Ele valoriza tudo o que é associado ao Eu colonizador e marginaliza tudo o que é associado ao Outro subalterno. Blasubramanian Kumaravadivelu Uma vez, eu estava almoçando na Folha de S.Paulo e o diretor da Folha de S.Paulo perguntou pra mim: “Escuta aqui, ô, candidato, o senhor fala inglês?” Eu falei: “Não”. “Como é que você quer governar o Brasil se você não fala inglês?” Eu falei: “Mas eu vou arrumar um tradutor”. “Mas não é possível... num é possível. O Brasil precisa de um presidente que fala inglês.” E eu perguntei pra ele: “Alguém já perguntou se o Bill Clinton fala português?” Nããoo... Mas eles achavam... eles achavam que o Bill Clinton não tinha obrigação de falar português. Era eu, o subalterno, o país colonizado, que tinha que falar inglês [...]. Luiz Inácio Lula da Silva (Campo Grande, MS, 24/08/2010) A Introdução prática pedagógica envolve alguns elementos fundamentais: o livro didático adotado pela escola; a metodologia que o professor acredita ser a melhor para os alunos aprenderem no contexto em que se encontram; as atividades que ele leva para a sala de aula; a relação do professor com os alunos e dos alunos entre si; a relação entre o professor e a instituição em que trabalha. No que diz respeito à metodologia, muitas vezes, o professor de inglês dá aulas de uma mesma maneira durante anos, usando os mesmos tipos de atividades, simplesmente por não ter tido a oportunidade de conhecer outras maneiras de ensinar a língua. Isso aconteceu comigo quando iniciei minha carreira, em 1983, em um instituto de idiomas que adotava um método chamado de audiovisual, mas que era, na verdade, um método embasado em uma teoria estruturalista de língua e em uma teoria behaviorista de aprendizagem. Os professores tinham de trabalhar com a mesma sequência de rotinas em todos os níveis: apresentação da língua por meio de slides e, nos níveis mais avançados, filmes; prática de repetições de estruturas descontextualizadas com e sem o gravador; realização de exercícios de transformação e de exercícios de memorização. Os alunos só tinham acesso à forma escrita de uma sentença depois de terem ouvido e praticado a sua forma oral. As diretrizes metodológicas desse instituto estavam organizadas em uma apostila chamada de The Bible pelos coordenadores, uma metáfora que expressa muito bem o seu caráter dogmático e prescritivo. E nós não podíamos fugir das diretrizes sem o risco de sermos despedidos. Minha experiência naquele instituto teve pontos positivos e negativos. Eu aprendi o que é um ambiente de sala de aula do ponto de vista do professor e aprendi sobre as relações trabalhistas que se instauram entre o professor e o instituto de idiomas. Entretanto, por ter tido contato apenas com os princípios teóricos daquele instituto, por não ter lido nenhum livro teórico sobre ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras, eu achava que o ensino de línguas se limitava aos elementos que constituíam aquele universo em que eu estava inserido. Seis anos depois, em 1989, fui contratado por um centro binacional e tive de participar de um curso de treinamento para professores. Foi então que um leque de possibilidades teóricas começou a se abrir para mim. Tal abertura se deveu ao fato de eu ter-me deparado com textos que apresentavam concepções diversas sobre o ensino de língua inglesa. Eu começava a ler textos teóricos e isso foi determinante para minha tomada de consciência quanto ao lugar que eu ocupava no processo de ensino-aprendizagem de inglês. O primeiro efeito dessa tomada de consciência foi um baque no meu ego. Eu achava que sabia tudo o que poderia saber sobre ensino. Afinal, eu conhecia o método audiovisual de cor e salteado, a ponto de ter conduzido cursos de formação de professores no instituto em que eu havia lecionado anteriormente. Só que a ficha caiu e percebi que eu sabia muito pouco ou quase nada sobre o ensino e a aprendizagem de inglês. Ah, como meu ego sofreu! Mas para me tornar um professor competente, teoricamente mais maduro, meu ego tinha de sair de cena. E saiu, a duras penas! A tomada de consciência só foi possível por causa dos textos que passei a ler. Entendi que ter conhecimentos teóricos é essencial para que a prática pedagógica seja realizada de maneira consciente. Em suma, começava a perceber que a experiência não é resultante apenas do tempo de exercício da função, mas, sim, do tempo de exercício da função somado a um processo contínuo de reflexão crítica sobre esse exercício. Em outras palavras, experiência não é o que fizemos: é o que fazemos ou não fazemos a partir do que já fizemos. E decidir o que fazer ou não fazer a partir do que já fizemos depende profundamente da nossa reflexão crítica sobre o que fizemos, a qual, por sua vez, está estreitamente vinculada aos nossos conhecimentos teóricos. À medida que o tempo passava, fui percebendo que muitos professores naquele centro binacional não se interessavam por leituras teóricas, que eram realizadas apenas durante o curso de treinamento de professores porque eram obrigatórias. Note-se que a maioria dos professores daquele centro binacional se dedicava ao trabalho, preparava atividades, consumia livros de atividades. Então, por que a falta de interesse em livros teóricos? Foi então que, em 1994, um pequeno episódio me fez pensar numa possível explicação para aquela falta de interesse. Eu estava na cidade de Brattleboro, no estado de Vermont, na School for International Training, participando de um seminário para professores brasileiros de inglês de centros binacionais. Um dia, após as aulas, eu fui à livraria do campus e comecei a folhear um livro de Rod Ellis sobre a aquisição de segunda língua quando uma coordenadora de um centro binacional de uma cidade grande do Sul do Brasil me viu e me perguntou sobre aquele livro. Eu o mostrei a ela, que disse torcendo os lábios: “Ah, é de teoria”. E foi embora. Fiquei ali, com o livro na mão, pensando no absurdo que era uma formadora de professores não se interessar por teorias sobre ensino e aprendizagem de inglês. Seu desinteresse era um tanto quanto surreal para mim devido à função de coordenadora que ela exercia, uma função que implica um papel ativo na formação continuada dos professores do centro binacional cujo departamento acadêmico encontrava-se sob sua coordenação. Contudo, aquele episódio me chamou a atenção para um fato que passei a observar a partir dali: muitos professores de inglês realmente não se interessam por teorias. Eles, inclusive, não costumam comprar livros teóricos,mas, sim, livros com atividades para serem feitas na sala de aula, os chamados resource books. Que fique claro este ponto: não há nada de mais em se interessar por esse tipo de livro, pois resource books são importantes. O problema é interessar-se apenas por ele. E a possível explicação para a falta de interesse em leituras teóricas provavelmente seja esta: muitos professores de inglês não têm consciência da importância das leituras teóricas para o seu amadurecimento profissional. É uma possibilidade, lógica e plausível. Não acredito que seja uma boa ideia um professor de inglês realizar as atividades que leva para a sala de aula sem saber a razão lógica subjacente a elas. Afinal, podemos passar anos realizando determinados tipos de atividades simplesmente porque seguimos o que diz o livro didático ou o que diz a coordenação do curso ou o que prescrevem as diretrizes elaboradas pelo dono da franchising do instituto de idiomas. Eu aprendi essa lição e hoje, trinta anos após ter pisado na sala de aula pela primeira vez como professor de inglês, neste Métodos de ensino de inglês: teorias, práticas, ideologias, compartilho com você informações e um pouco de minhas reflexões sobre as coisas que aprendi. São coisas que me ajudaram a me tornar um professor mais consciente das minhas ações em sala de aula. Afinal, no início da minha carreira, fui um professor que achava que só se poderia aprender inglês repetindo-se sentenças descontextualizadas, memorizando-se palavras não significativas, transformando-se sentenças de um tipo em sentenças de outro tipo, proibindo-se o uso do português na sala de aula… E hoje consigo perceber o quanto eu não sabia sobre o ensino e a aprendizagem de inglês. Agora, convido você a refletir sobre questões teóricas que são muito importantes para o ensino e para a aprendizagem de inglês, sobre a vida e a suposta morte dos métodos. O primeiro capítulo é intitulado Oito questões teóricas básicas e tem dois objetivos: definir conceitos que serão usados ao longo dos capítulos subsequentes e problematizar algumas questões relevantes para o ensino de inglês no Brasil. A primeira questão abordada é exatamente o conceito de ensinar. De que forma você vê esse ato? Como uma mera transferência de conhecimentos do professor para o aluno ou como um conjunto de ações que facilitam o aprendizado? Para oferecer respostas a essa complexa questão, discuto a concepção bancária da educação, muito criticada por Paulo Freire, e o papel do professor como facilitador da aprendizagem. Estreitamente relacionado ao conceito de ensinar está o conceito de aprender, tão ou mais complexo. E a segunda questão teórica básica é exatamente o que é aprender. O professor precisa ter clareza quanto à forma como concebe o aprendizado para que os papéis que ele e seus alunos vão desempenhar na sala de aula fiquem claros também. Será que o professor vê seus alunos como papagaios e esponjas que não pensam, ou como pessoas inteligentes capazes de construírem conhecimentos e de se tornarem autônomas? Diante da importância dessa questão, apresento teorias behavioristas e teorias cognitivistas de aprendizagem, que oferecem algumas respostas. O conceito de língua é a terceira questão teórica abordada no primeiro capítulo, que vai polarizar duas teorias: a estruturalista e a interacionista. A prática do professor de inglês depende totalmente da teoria de língua que adota. Afinal, se a concepção estruturalista é adotada, as aulas tendem a focar as estruturas gramaticais. Diferentemente, se a teoria de língua adotada pelo professor é a interacionista, suas aulas girarão em torno da produção e da recepção de textos orais e escritos, sendo a gramática um dos meios para ajudar os alunos a desenvolverem sua competência comunicativa. Estreitamente vinculada ao conceito de língua encontra-se a quarta questão: o conceito de inglês padrão. Todo professor de inglês já ouviu falar no tal inglês padrão. Aliás, há muitos professores que acreditam piamente na existência de algo chamado inglês padrão. Mas será que faz sentido considerar-se a existência de um inglês padrão? Quais as implicações que a adoção desse conceito apresenta para o ensino de inglês? Meu objetivo aqui é exatamente problematizar esse conceito e os discursos que giram ao seu redor, os quais revelam embates ideológicos importantes. A quinta questão teórica está muito próxima da discussão envolvendo língua padrão: ela trata do conceito de falante nativo. É possível determinar quais falantes são nativos? Quais as implicações pedagógicas, metodológicas e mercadológicas que esse conceito nos apresenta? Será que o falante nativo não passa de um mito? O que esse conceito mobiliza em termos de embates ideológicos? Essas perguntas serão respondidas numa tentativa de provocar leitores e leitoras a refletirem sobre esse conceito que foi discursivamente naturalizado e que já se tornou parte do senso comum, um fenômeno que é muito perigoso, pois a tendência é que ninguém questione aquilo que é (supostamente) natural. A sexta questão trata de um conceito muito próximo do conceito de falante nativo: proficiência. O que é ser proficiente em inglês? Para esclarecer isso, abordarei o conceito de competência comunicativa, que foi essencial para o surgimento dos métodos comunicativos e para a construção do conceito de proficiência. Note-se que essa questão é basilar para um dos produtos mais lucrativos da indústria de ensino de inglês como segunda língua ou como língua estrangeira, que são os exames de proficiência, como, por exemplo, o TOEFL e o Cambridge Proficiency Examination. A sétima questão é essencial para a prática docente, pois diz respeito às razões pelas quais os brasileiros estudam inglês. A discussão que faço dessas razões tem o objetivo de expor as questões ideológicas subjacentes ao ensino de inglês no Brasil. Veremos como os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra, por meio de seus consulados e de outros órgãos diplomáticos, fomentaram a criação de cursos de inglês no Brasil com propósitos imperialistas, naturalizando a ideia de que todos os brasileiros precisam estudar inglês. A última questão teórica abordada neste capítulo é o conceito de método, essencial para a leitura dos capítulos subsequentes, nos quais trago informações e comentários sobre diversos métodos de ensino. Para isso, apresento a definição proposta por Jack Richards e Theodore Rodgers, a qual é basilar para as discussões sobre esse tema. Entender o conceito de método é muito importante para o professor ser capaz de decidir se deve ou não adotar um método para ser capaz de escolher, de cada método, os princípios teóricos que vão nortear sua prática docente. Aqui será mostrado como o termo método é usado para significar coisas diferentes, o que evidencia a necessidade de o professor ter uma ideia bem clara desse conceito. No segundo capítulo, Os primeiros métodos, apresento quatro métodos que dominaram o cenário de ensino de inglês no século XIX e na primeira metade do século XX. É importante ressaltar que o fato de eles terem sido os primeiros métodos não quer dizer que não existam mais ou que ninguém mais os utilize. O primeiro deles é o método de gramática e tradução, usado no século XIX inicialmente no ensino de latim e, em menor escala, no ensino de grego clássico, e posteriormente no ensino das línguas modernas. O objetivo principal desse método é ajudar o aluno a desenvolver sua capacidade de leitura de textos literários (atualmente o foco passou a ser os textos não literários). O método direto é o segundo método abordado nesse capítulo. Ele se popularizou na virada do século XIX para o século XX por causa das mudanças tecnológicas nos transportes e nas comunicações. Essas mudanças provocaram nas pessoas um desejo de viajarem para países diferentes para se comunicarem com falantes de outras línguas. E como o método de gramática e tradução não tinha como satisfazer esse desejo de comunicação, ele perdeu espaço para o método direto. A terceira proposta teórica que discutono segundo capítulo é a abordagem oral. Ela foi a primeira a apresentar uma sistematização teórica do ensino de inglês com vistas ao desenvolvimento da habilidade oral dos estudantes. Foi com ela que se popularizou a ideia de sistematizar o ensino de vocabulário por meio das listas de frequência de ocorrência de palavras. Outro elemento de sistematização importante nesse método é o delineamento de situações que servem de norte para a organização de unidades de livros didáticos, as quais deram a esse método um nome alternativo: abordagem situacional. O método audiolingual é o último método a ser apresentado no segundo capítulo. Ele foi deliberadamente elaborado por linguistas a pedido do governo estadunidense para suprir as demandas linguísticas criadas pela Segunda Guerra Mundial. Embasado em uma teoria estruturalista de língua e em uma teoria behaviorista de aprendizagem, o método audiolingual dominou a cena do ensino de línguas estrangeiras nas décadas de 1940 e 1950. Hoje, ele é usado em escala menor e perdeu sua popularidade. Inicialmente visto como um sucesso, em pouco tempo ele se transformou em um alvo de críticas e em um elemento motivador para a criação de novas propostas teóricas de ensino de línguas estrangeiras. A década de 1960 testemunhou a virada pragmática na linguística, movimento que fez uma forte crítica ao estruturalismo dominante e que colocou, no centro das atenções, os usuários da língua, os usos que eles desenvolvem e a variação linguística. Os adeptos desse movimento vinculados ao ensino de línguas estrangeiras estavam muito descontentes com o método audiolingual por causa do estruturalismo e do behaviorismo que o ancoravam. Em consequência disso, iniciou-se uma busca quase frenética por um método de ensino de línguas estrangeiras que não apenas estivesse de acordo com os ventos teóricos que a virada pragmática fazia soprar, mas também que fosse o melhor método de ensino de línguas estrangeiras. O capítulo 3, intitulado Os métodos alternativos, apresenta cinco propostas teóricas. Quatro delas, emblemáticas daquela busca, são os chamados métodos de grife, ou métodos de gurus, ou ainda métodos de designers. São assim chamados porque há um teórico específico por trás de cada um deles, um teórico que praticamente se identifica com o próprio método. Além dessa característica em comum, essas quatro propostas compartilham o fato de serem fortemente influenciadas pelas ideias humanistas que tomaram conta da década de 1960 e que fizeram muitos professores de inglês lerem o livro Caring and Sharing, de Gertrudes Moskowitz. O primeiro método apresentado nesse capítulo é o Silent Way, proposto por Caleb Gattegno, para quem o máximo de silêncio possível por parte do professor é essencial para a aprendizagem dos alunos. Conforme veremos, os professores que decidem adotar o Silent Way precisam usar materiais específicos criados por Gattegno, como os cuisenaire rods, os cartazes de som- cor e os cartazes de palavras. O segundo método alternativo apresentado é a Suggestopedia, também chamada de Reservopedia, elaborado por Georgi Lozanov, para quem a eliminação das barreiras mentais por meio da sugestologia é essencial para o aprendizado. A ideia de Lozanov é fazer com que os alunos utilizem suas reservas mentais ociosas. Para isso, ele propõe algumas técnicas que visam ao relaxamento dos alunos e à consequente diminuição do medo e da ansiedade que eles podem sentir em situações de aprendizado. A TPR, acrônimo de Total Physical Response, é o terceiro método de que trato nesse capítulo. Ele foi proposto por James Asher, para quem os movimentos corporais são mecanismos fundamentais para a aprendizagem de línguas estrangeiras. A proposta de Asher é motivo de polêmica no que diz respeito a sua viabilidade para o ensino de línguas em níveis avançados e no sentido da categoria à qual pertence: é um método ou um procedimento? O quarto método desse capítulo é a CLL, acrônimo de Community Language Learning, proposta por Charles Curran, que utiliza técnicas de aconselhamento psicológico para o ensino de línguas estrangeiras. A terminologia usada por Curran para a construção dos princípios teóricos da CLL apresenta uma proximidade grande com o discurso religioso cristão, o que provocou controvérsia e debates, conforme veremos. Esses quatro métodos apresentam questões polêmicas que são devidamente tratadas no terceiro capítulo, que ainda traz uma seção sobre uma proposta teórica desconhecida de muitos professores de inglês no Brasil: o ensino de línguas baseado em competências. A presença dessa proposta nesse capítulo foi inevitável pelo fato de ser uma proposta teórica alternativa, oriunda da área de educação e não da área de ensino de línguas estrangeiras e por explicitar questões ideológicas fundamentais para a discussão sobre o ensino de línguas estrangeiras. Além disso, esse método coloca em xeque o próprio conceito de método, como veremos. O quarto capítulo, Os métodos comunicativos, apresenta cinco métodos do ensino comunicativo de línguas. O primeiro é a abordagem natural, proposta por Tracy Terrell e Stephen Krashen e que propôs a polêmica dicotomia aquisição-aprendizagem e o obscuro conceito “i+1”. A abordagem natural é meio que limítrofe entre os métodos alternativos influenciados pelo humanismo e os métodos comunicativos. Decidi inseri-la na categoria de métodos comunicativos após analisar a posição de alguns teóricos. O segundo método apresentado é a abordagem comunicativa, que teve um papel fundamental no deslocamento do estruturalismo para longe do centro das atenções no ensino de línguas estrangeiras. Discuto ali questões teóricas fundamentais para o entendimento desse método e para a desconstrução de mitos que o envolvem, mais especificamente o mito segundo o qual essa abordagem só se preocupa com o desenvolvimento da fala dos alunos e o mito segundo o qual o professor que segue essa abordagem não ensina gramática na sala de aula. Em seguida, apresento a abordagem baseada em tarefas, que surgiu a partir do Projeto Bangalore, conduzido por Nagore Prabhu na Índia entre os anos 1979 e 1984. Obviamente, explicito a diferença entre atividade, tarefa e exercício, três conceitos muito próximos, mas diferentes, que são fundamentais para esse método. O quarto método que discuto é a proposta de Michael Lewis: a abordagem lexical. Comento a reação contrária ao procedimento PPP (presentation, practice and production), que, para alguns teóricos, tem um forte ranço behaviorista, e a ênfase que Lewis dá ao léxico como sendo o elemento mais fundamental para a aprendizagem de línguas estrangeiras. Não posso deixar de analisar criticamente a proposta de implementação da abordagem lexical, na qual Lewis contraditoriamente defende, sem sucesso, o uso dos chamados drills1, um tipo de exercício característico do método audiolingual. Finalizo o quarto capítulo discutindo a abordagem comunicativa intercultural. Embora as considerações que os proponentes desse método fazem sobre a questão cultural no ensino de línguas pareçam recentes, as discussões em torno do lugar da cultura no ensino de línguas estrangeiras remontam à década de 1950. Apresento ainda o conceito de competência comunicativa intercultural, que não se distancia do conceito de competência comunicativa, como alguns equivocadamente acreditam. O quinto e último capítulo, intitulado A vida e a morte dos métodos, problematiza uma questão teórica importante: os métodos morreram? Partindo da constatação da inconsistência entre o que muitos professores dizem que fazem e o que eles realmente fazem em sala de aula, trago as considerações de teóricos que alegam estarmos vivendo a era pós-método. Em seguida, faço um contraponto com as considerações de teóricos que defendem que os métodos não morreram e defendo a importância teórica de estudar os métodos para o amadurecimento profissional do professor de inglês. Ao concluir esta Introdução, quero agradecer: a Georgi Lozanov pela gentileza de responder às minhas perguntas e de esclareceralgumas dúvidas que eu tinha acerca da Suggestopedia; a Vanina Bodurova, assistente de Lozanov, pelas informações; a Dick Allwright pelo envio do seu texto The Death of the Method; a Bhaskaran Nayar pelas informações e pelas dicas; a Adelaide A. Pereira de Oliveira pelos diálogos e pelos debates sobre o ensino de inglês que muito me ajudaram a amadurecer profissionalmente; a Agílson e a Railton pelo apoio de sempre. Eu espero que este livro não apenas ofereça informações, mas também provoque leitoras e leitores, fazendo-os refletir e questionar. Salvador, fevereiro de 2014. Luciano Amaral Oliveira C capítulo um Oito questões teóricas básicas enas comuns na sala dos professores de cursos de idiomas: um professor pergunta aos colegas se eles têm uma atividade interessante para trabalhar a estrutura gramatical causative form; uma professora comenta que acaba de encomendar um livro de atividades voltadas para a oralidade; um professor sugere aos colegas o uso da cena final do filme Crocodile Dundee para trabalhar o discurso indireto. Cenas incomuns na sala dos professores de cursos de idiomas: uma professora pergunta aos colegas se eles têm notícias de algum artigo recente discutindo questões relativas ao método eclético; um professor comenta que acabou de ler um livro de Kumaravadivelu e que não concorda totalmente com a sua posição em relação à morte do método; uma professora sugere aos colegas a leitura de Resisting Linguistic Imperialism in English Teaching, de Canagarajah, o qual ela acabou de ler e que a deixou pensativa sobre questões ideológicas subjacentes ao ensino e à aprendizagem de inglês. Fazer generalizações é um ato arriscado, pois generalizações equivocadas podem facilmente se transformar em estereótipos. Entretanto, com base na minha experiência de 25 anos convivendo com professores de inglês, creio que posso fazer uma generalização segura a partir das cenas caricaturadas nos dois parágrafos acima: os professores de inglês, em geral, não se interessam por teorias, a não ser durante o curto espaço de tempo em que participam de um curso de formação de professores, o chamado TTC (abreviatura de Teacher Training Course). A falta de interesse em teorias é algo problemático, pois tende a levar o professor a tomar decisões didáticas sem um embasamento teórico mínimo que garanta uma lógica para o que decide fazer e não fazer em sala de aula. Obviamente, o tempo de ensino que um professor possui é muito importante para as decisões que toma. São decisões baseadas na intuição e no instinto, fatores legítimos e valorizados em qualquer profissão. Mas ele não deve ficar satisfeito só com a intuição e com o instinto aguçado pela experiência: ele precisa também construir conhecimentos teóricos que possam torná-lo mais competente, mais consciente e, consequentemente, mais bem preparado para tomar decisões didático-pedagógicas que afetam a sua prática em sala de aula. Por isso, apresento, neste capítulo, um pouquinho de teoria. Um pouco apenas, mas um pouco que é fundamental para o ensino de inglês. Afinal, conforme explica Jack Richards: À medida que os professores desenvolvem suas habilidades, sua conscientização e seus conhecimentos, eles passam de um nível que foi chamado de racionalidade técnica […], no qual o foco reside no domínio de habilidades e de técnicas básicas de ensino (i.e., competência de sala de aula), para um nível que foi chamado de reflexão crítica, no qual o ensino é guiado pela filosofia de ensino e pela teoria pessoal do professor e é constantemente renovado pela reflexão crítica e pela autoavaliação (Richards, 2000: 3, grifos do autor). Assim, para que o professor de inglês possa construir suas próprias teoria de ensino e filosofia de ensino, e, consequentemente, se autoavaliar, ele precisa ter um mínimo de informações sobre teorias, sobre conceitos e sobre técnicas. Daí a necessidade de se ler minimamente sobre questões teóricas. E é este o propósito deste capítulo: oferecer informações sobre questões teóricas relacionadas ao ensino de inglês que estão estreitamente vinculadas à prática pedagógica e que auxiliarão na leitura dos capítulos que seguem. Elegi oito questões teóricas que são básicas para as nossas discussões sobre o ensino e a aprendizagem de inglês: (a) o que é ensinar; (b) o que é aprender; (c) o que é língua; (d) o que é inglês padrão; (e) o que é falante nativo; (f) o que é ser proficiente em inglês; (g) por que os brasileiros estudam inglês; (h) o que é método. Tratemos agora de cada uma delas. 1.1. O que é ensinar? Para quem ganha a vida ensinando inglês, a pergunta “o que é ensinar?” parece ter uma resposta óbvia. Mas será que definir o ato de ensinar é algo tão simples assim? Bem, se fosse tão simples, teóricos como Paulo Freire, Blasubramanian Kumaravadivelu, Henry Widdowson e Diane Larsen- Freeman, por exemplo, não teriam investido tanta energia e tanto tempo refletindo e escrevendo sobre o ensino. Por isso, o professor precisa pensar um pouco sobre esse ato, razão de ser da sua profissão. Grosso modo, podemos conceber o ato de ensinar de duas maneiras distintas: transferência de conhecimentos e facilitação da aprendizagem. Durante muito tempo, a ideia segundo a qual ensinar significa transferir conhecimentos foi repetida com tanta frequência que se tornou parte do senso comum, ou seja, naturalizou-se o discurso segundo o qual os conhecimentos podem ser transferidos do professor para os alunos. Isso fica evidente em enunciados que circulam com frequência em nossa sociedade: “O professor é o detentor dos conhecimentos”, “Tem professores que não sabem passar seus conhecimentos”, “O bom professor é aquele que sabe transferir seus conhecimentos para os alunos”. Percebemos essa concepção também quando alguns estudantes dizem algo assim: “Aquele professor tem muito conhecimento, é fera, mas não sabe passar”. Conceber o ensino como transferência de conhecimentos tem uma implicação séria para a prática pedagógica: subestimar a capacidade cognitiva do estudante, que é visto como um ser passivo no processo de ensino-aprendizagem. Nesse processo, o professor (o ser ativo, o agente) supostamente transfere conhecimentos ao estudante (o ser passivo, o paciente), cuja função é apenas absorver os conhecimentos do professor. É curioso como tal concepção perdura até hoje, mesmo diante de evidências claras de que a transferência de conhecimentos é algo que só é possível na ficção. Um exemplo dessa possibilidade fictícia é a transferência de ideias do chapéu-pensador para a mente do Professor Pardal, o personagem cientista criado por Walt Disney: basta Pardal colocar o chapéu para que ideias sejam automaticamente transferidas para sua cabeça. Outro exemplo vem de uma cena do filme Matrix na qual a personagem Trinity aprende a pilotar um helicóptero em segundos por meio da transferência de conhecimentos de um computador para o seu cérebro. Ah, que bom se isso pudesse ser feito, né? Desapareceriam, num apertar de teclas ou numa colocada de chapéu-pensador, todas as dificuldades do professor no que diz respeito à aprendizagem de seus alunos. Em compensação, ele ficaria sem emprego, pois se tornaria dispensável: o computador ou o chapéu-pensador fariam todo o trabalho. Ficção à parte, a dura realidade nos mostra um fato incontestável: é impossível a transferência de conhecimentos de uma pessoa para outra pessoa. Evidência cabal disso é o fato de um professor ter muitos alunos numa mesma aula e esses alunos aprenderem em graus diferentes ou simplesmente não aprenderem nada a partir do que o professor abordou na aula. Alguns poderiam se sentir tentados a rebater essa evidência colocando a culpa no professor, atribuindo-lhe incompetência ou falta de conhecimentos, argumento que é facilmente derrubado: mesmo que se trate de um professor competente, ou seja, com muitos conhecimentos específicos e didáticos e com muitas habilidades para dar aulas maravilhosas, seus alunos aprenderão em graus distintos. Isso é indiscutível e irrefutável. Paulo Freirecriticou profundamente a concepção que vê o ensino como uma transferência de conhecimentos. Ele a chamou de concepção bancária da educação por ela considerar o professor como um transferidor (depositante) de conhecimentos (depósitos) para a cabeça vazia (caixa registradora) dos estudantes (depositários). Essa metáfora bancária ganhou o mundo e, atualmente, não há como os professores que se prezam não pensarem nela. Segundo Freire: Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão — a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro. O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o conhecimento como processos de busca (Freire, 1987: 58). Portanto, o professor precisa ter o cuidado de não subestimar os aprendizes de inglês. E subestimar os alunos significa não levar em conta os conhecimentos que eles construíram ao longo de suas vidas e que levam para a sala de aula, os quais incluem conhecimentos linguísticos e textuais, provenientes do seu aprendizado da língua portuguesa e de outras disciplinas na escola, e conhecimentos enciclopédicos ou conhecimentos de mundo, provenientes das suas experiências pessoais ao longo da vida e da exposição a textos escritos, a programas de rádio e TV, a filmes e documentários, ao que circula na internet. Todos esses conhecimentos são fundamentais para a aprendizagem de inglês. Por exemplo, são os conhecimentos enciclopédicos dos alunos que fazem com que associem a palavra bridge à imagem prototípica de uma ponte que o professor lhes mostra no momento de ensinar-lhes o significado dessa palavra. Similarmente, são seus conhecimentos textuais que fazem os alunos reconhecerem um gênero textual como uma carta ou como um currículo. Felizmente, não somos obrigados a conceber o ensino simplisticamente como transferência de conhecimentos. Podemos ver o ato de ensinar de uma maneira diferente, concebendo-o como o ato de facilitar a aprendizagem. Mas, o que significa facilitar a aprendizagem? Significa dar as coisas na boquinha dos alunos, ou seja, como se diz em inglês, spoon feed the students? Não. De forma alguma. Vejamos o que esse ato significa. Facilitar a aprendizagem significa contribuir para a criação de uma atmosfera afetiva (emocional e psicológica) positiva na sala de aula. Afinal, um professor irônico, arrogante, impaciente ou mal-humorado faz com que o clima da aula seja tenso, chato, levando os alunos a não sentirem a menor vontade de irem para suas aulas, o que se percebe em comentários assim: “Hoje tem aula daquela criatura. Ninguém merece!”. Um professor desse tipo, obviamente, contribui para dificultar o processo de aprendizagem. Já um professor paciente, organizado, bem-humorado e que prepara as aulas contribui positivamente para que a aprendizagem ocorra. Certa feita, uma professora disse, em uma reunião, que achava que os professores precisavam ser emocionalmente inteiros e expressar não apenas alegria e energia positiva, mas também seus problemas e sua tristeza com os alunos em sala de aula. Discordei dela e argumentei que os alunos não têm a obrigação de ouvir os problemas do professor. Eu, na posição de aluno, ficaria irritado se um professor despejasse seus problemas pessoais sobre mim e meus colegas. Embora o professor seja um ser humano, feito de emoções, é necessário que ele faça um esforço e pendure seus problemas em um cabide mental antes de entrar na sala de aula, pois os alunos não têm nada a ver com esses problemas. Do contrário, ele pode afetar, negativamente, o andamento da aula. Eu já vi casos de professores com sólidos conhecimentos linguísticos e didáticos serem despedidos de institutos de idioma por não conseguirem manter uma relação afetiva sadia com seus alunos, por serem irônicos ou arrogantes ou algo parecido. Em casos assim, não há o que a coordenação acadêmica da escola possa fazer além de conversar com o professor, apontando os problemas e as reclamações constantes dos alunos, e torcer para que essa conversa surta efeitos positivos. De nada adianta solicitar a professores com esse tipo de problema que participem de um curso de reciclagem ou que façam novamente o TTC, pois o problema não é de ordem técnica, no sentido de escassez de conhecimentos teóricos, linguísticos ou didáticos. As questões técnicas são passíveis de intervenções pontuais e planejadas; as questões afetivas, infelizmente, são de difícil resolução. Para facilitar a aprendizagem de seus alunos, é importante que o professor continue estudando, lendo livros e artigos. Se possível, é interessante que ele participe de congressos e encontros. O mais importante é que ele se mantenha bem informado e, assim, esteja preparado não apenas para fornecer informações atualizadas para seus alunos, mas também para repensar suas crenças teóricas, para refletir criticamente sobre a sua prática docente, para usar o livro didático em vez de ser usado por ele. Consequentemente, facilitar a aprendizagem implica também recomendar aos alunos a leitura de livros e a realização de atividades que possam contribuir para a construção dos conhecimentos. Isso implica, por sua vez, que o professor precisa fazer análises críticas das gramáticas e dos livros didáticos adotados pela escola em que trabalha e preparar as atividades de acordo com o perfil dos seus alunos. Portanto, conceber o ato de ensinar como o ato de facilitar a aprendizagem faz com que o professor veja os estudantes como seres ativos e responsáveis pela construção dos seus conhecimentos. Ao mesmo tempo, ele é visto pelos alunos como o mediador do processo de aprendizagem, e não como aquele que detém os conhecimentos a serem transferidos para suas cabeças ocas. Em suma, o professor não adota aquela atitude de falsa erudição, de arrogância, do sabe-tudo, que o leva a subestimar os estudantes. Conceber o ensino como o ato de facilitar a aprendizagem é muito mais lógico, desafiador e interessante do que concebê-lo como uma irreal transferência de conhecimentos. Passo agora a abordar outra questão teórica estreitamente vinculada ao ato de ensinar e que é essencial para nossas reflexões sobre o ensino e a aprendizagem de inglês: o processo de aprender alguma coisa. 1.2. O que é aprender? Aprender é o processo de construção de conhecimentos, de desenvolvimento de habilidades e de aquisição e/ou mudança de comportamentos e atitudes. Em outras palavras, aprender é um processo de transformação do indivíduo. Guy Lefrançois define a aprendizagem como “toda mudança relativamente permanente no potencial de comportamento, que resulta da experiência, mas não é causada por cansaço, maturação, drogas, lesões ou doenças” (Lefrançois 2009: 6). Ao longo da história, filósofos, psicólogos, fisiologistas, linguistas e educadores, entre outros profissionais, se ocuparam da tarefa de esclarecer como a aprendizagem ocorre. Ou seja, se ocuparam da construção de teorias que explicam o processo de aprendizagem. Essas teorias se polarizaram naquelas que tentam explicar a aprendizagem a partir de comportamentos diretamente observáveis e naquelas que tentam explicar a aprendizagem levando em consideração os processos mentais superiores, como, por exemplo, os pensamentos, que são fenômenos não diretamente observáveis. O primeiro polo congrega as teorias behavioristas; o segundo, as teorias cognitivistas. E a razão de ser desta seção é fornecer informações sobre algumas teorias da aprendizagem. São informações breves, mas suficientes para refletir sobre os métodos de ensino de inglês no que diz respeito às concepções de aprendizagem a eles subjacentes. Comecemos pelo behaviorismo, que considera todo comportamento como sendo uma resposta a um estímulo. Ernest Hilgardlembra que, do ponto de vista behaviorista, “o comportamento acontece em cadeias causais, associativas; todo aprendizado é, portanto, caracterizado como aprendizado associativo, ou como formação de hábitos, provocado pela associação repetida de um estímulo a uma resposta” (Hilgard apud Hadley, 1993: 45). Por isso, o behaviorismo é também chamado de modelo S-R (respectivamente iniciais de stimulus e response). John Watson é considerado o criador do behaviorismo nos Estados Unidos. Para ele, a consciência é um conceito cientificamente irrelevante “porque as ações humanas podem ser compreendidas por meio do comportamento concreto, facilmente observado e estudado”, de acordo com Lefrançois (2009: 45). Assim, “o termo behaviorismo acabou por significar uma preocupação com os aspectos observáveis do comportamento”. Não há como não observarmos aí um encaixe perfeito com o paradigma positivista, empirista, característico das ciências naturais. Certamente, o behaviorista estadunidense mais conhecido pelos professores de inglês é Burrhus Frederic Skinner por causa da influência de seu pensamento na elaboração de um dos métodos de ensino mais comentados na história recente do ensino de línguas estrangeiras, o método audiolingual (que abordarei no próximo capítulo). Skinner reforçou a ideia de que as causas do comportamento de uma pessoa se encontram fora dela e que podem ser observadas de maneira objetiva. Lefrançois esclarece que, para Skinner, a aprendizagem ocorre por meio do condicionamento e que são as consequências de um comportamento que determinam a probabilidade de esse comportamento ocorrer de novo. Por isso, o professor precisa reforçar positivamente algumas consequências: Definido em termos objetivos skinnerianos, o reforçamento positivo ocorre quando as consequências do comportamento, ao serem adicionadas a uma situação, após uma resposta, aumentam a probabilidade da ocorrência de essa resposta acontecer de novo, em circunstâncias similares. Trocando em miúdos, esse tipo de reforçamento é semelhante à recompensa […] (Lefrançois, 2009: 110, grifos do autor). Os exemplos mais conhecidos de reforçamento positivo são os elogios que o professor faz aos alunos quando pronunciam adequadamente as palavras ou quando fornecem respostas corretas às perguntas. Em cursos de inglês para crianças, é comum encontrarmos professores que costumam também colocar adesivos nos textos escritos pelos alunos, elogiando-os pelo trabalho com frases congeladas como, por exemplo, Way to go!, Great job! e Congratulations!. Seguindo a lógica behaviorista skinneriana, o estudante associa o elogio ao seu comportamento (i.e., a pronúncia de uma palavra ou a construção sintática de uma frase em resposta a um determinado tipo de pergunta), que fica, assim, reforçado na sua mente. Note-se que o ato de elogiar é um ato de adicionar algo a uma situação de aprendizagem, o que nos faz pensar em uma espécie de recompensa ao estudante pelo comportamento por ele demonstrado. Contudo, para Skinner, reforçar negativamente outras consequências é igualmente importante, pois o reforçamento negativo envolve uma resposta que resulta na eliminação ou prevenção de uma consequência indesejável. Esse tipo de reforçamento “ocorre quando a probabilidade de uma resposta ocorrer novamente aumenta como função de algo que foi retirado de uma situação. Trocando em miúdos, o reforçamento negativo é parecido com o alívio” (Lefrançois, 2009: 111). Vejamos um exemplo de reforçamento negativo. No início da década de 1980, eu estudei inglês em um curso que afirmava adotar a metodologia audiovisual, em que se seguia uma rotina rígida de atividades em sala de aula: apresentava-se uma história em slides acompanhados pelo áudio em fita de rolo; em seguida, explicava-se o vocabulário antes de se mostrar a história novamente; depois, cada aluno tinha de repetir as frases de cada slide. Nesse momento, o professor exigia dos alunos a pronúncia que ele considerava correta. Caso um aluno não pronunciasse corretamente algo, o professor usava técnicas para fazer com que o aluno repetisse a frase da maneira “correta”, o que tornava o aluno o centro da atenção e, muitas vezes, da impaciência dos seus colegas, que queriam avançar nas rotinas. O fato de estar no foco de atenção da turma por estar pronunciando algo incorretamente (de acordo com os parâmetros do professor) inevitavelmente causava incômodo ao aluno, ou seja, era algo negativo para ele. Somente quando ele pronunciasse a frase de acordo com a maneira que o professor achava correta é que a rotina avançava e ele deixava de estar naquela situação incômoda; ou seja, aquele incômodo cessava, aquele algo negativo era retirado pelo professor, e uma espécie de alívio tomava conta do aluno (pelo menos até a próxima pronúncia errada!). Quando, finalmente, ele pronunciava a frase de uma determinada maneira que fazia o professor parar de exigir dele outra repetição, ele percebia que aquela pronúncia evitava o incômodo e que deveria, dali em diante, pronunciar aquelas palavras daquele jeito. Coloquemos isso em termos skinnerianos: a sessão contínua de correções e repetições é uma consequência indesejável de uma resposta (a pronúncia) incorreta; a suspensão da sessão e o avanço para outra rotina na sala é a eliminação dessa consequência provocada por uma resposta (a pronúncia) correta; e o reforçamento ocorre porque o aluno associa o comportamento correto (o ato de pronunciar corretamente) à ausência de uma consequência indesejável (a sessão de repetições sob o olhar impaciente dos colegas). A preocupação dos behavioristas em limitar seus estudos aos comportamentos observáveis reflete o empirismo dominante nas ciências no século XIX e na primeira metade do século XX. Obviamente, aspectos cognitivos, como os pensamentos e os processos mentais, acabam por ser ignorados pelos behavioristas por não serem observáveis, por não se adequarem à cartilha positivista. Entretanto, vale ressaltar que os behavioristas não consideravam os aspectos cognitivos inerentemente irrelevantes: eles os consideravam cientificamente irrelevantes. Ou seja, admitiam a importância desses elementos, mas não a sua importância científica. É necessário que isso fique claro para que não se cometam injustiças contra os behavioristas no que diz respeito aos seus recortes teóricos. Não por acaso, como destaca Lefrançois (2009: 51), a doutrina da tabula rasa, de John Locke, segundo a qual a mente humana é vista “como uma lousa em branco sobre a qual as experiências escrevem suas mensagens”, foi aceita integralmente por Watson, cujas palavras valem ser citadas aqui: Dê-me uma criança e meu mundo para criá-la; eu a farei engatinhar ou andar; eu a farei escalar e usar suas mãos para construir prédios de pedra ou madeira; eu farei dela um ladrão, um atirador ou um viciado em narcóticos. A possibilidade de moldá-la, em qualquer direção, é quase infinita (Watson apud Lefrançois, 2009: 51). As palavras de Watson não deixam dúvida quanto à maneira como o professor que adota a concepção behaviorista de aprendizagem vê os estudantes: indivíduos com as mentes vazias que serão moldadas por ele, que ensinará os estudantes a fazerem o que ele quiser. Essa é uma concepção nada animadora do ponto de vista dos estudantes, né? Felizmente, tal visão não foi aceita por todos os psicólogos envolvidos em pesquisas relativas à aprendizagem. Alguns deles recusavam o papel passivo atribuído ao aprendiz pelos behavioristas e a metáfora da tabula rasa. Foi assim que surgiram as teorias cognitivistas da aprendizagem. Curiosamente, foi um behaviorista que abriu o caminho em direção às teorias cognitivistas: Donald Hebb. Ele se afastou das tradicionais teorias de estímulo-resposta por se preocupar “prioritariamente com eventos neurológicos internos, poucos dos quais estão longe de ser tão objetivos quanto estímulos e respostas”, que interessaram a behavioristas como Watson (Lefrançois, 2009: 193). Hebb estava interessado em entender três elementos essenciais para o ensinoe a aprendizagem: a preparação, que diz respeito à seletividade entre respostas possíveis a um estímulo; a atenção, que diz respeito à seletividade entre inputs; e a motivação, que é “definida em termos da ativação de um indivíduo e refletida em mensurações fisiológicas como ritmo cardíaco e respiratório e atividade de ondas cerebrais” (Lefrançois, 2009: 192). Esses três elementos estão bem mais próximos dos cognitivistas do que dos behavioristas, pois a preparação, a atenção e a motivação estão estreitamente relacionadas a processos cognitivos de resolução de problemas, de pensamento e de imaginação. São esses processos que ocupam a atenção da psicologia da Gestalt, para a qual o insight é “a percepção das relações entre os elementos de uma situação-problema”, o que implica “solucionar um problema pela percepção das relações entre todos os elementos da situação”, esclarece Lefrançois (2009: 205). Vale lembrar que Gestalt significa “todo” e que, para a psicologia da Gestalt, “o todo é maior do que a soma de suas partes”. Ainda de acordo com Lefrançois, embora a psicologia da Gestalt tenha sido criticada por seus posicionamentos teóricos vagos, ela foi muito importante para as abordagens construtivistas, métodos altamente centrados no aprendiz que: […] refletem a crença de que a informação significativa é construída por ele, e não dada a ele. O ensino direto, em contraposição, implica abordagens mais voltadas para o ensino centrado no professor. Os métodos do construtivismo encorajam a aprendizagem pela descoberta, abordagens cooperativas dentro da sala de aula e participação ativa do aluno no processo ensino/aprendizagem (Lefrançois, 2009: 210, grifos do autor). Dois teóricos viriam consolidar as ideias construtivistas de aprendizagem após o surgimento da psicologia da Gestalt: Jean Piaget e Lev Seminovitch Vygotsky. Eles foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento do construtivismo. Piaget se dedicou a estudar o desenvolvimento infantil e chegou a conclusões importantes, algumas das quais encontram eco em Vygotsky. Conforme explica Lefrançois (2009: 245), acerca de uma das conclusões de Piaget, “a criança não consegue reagir a uma situação totalmente nova sem usar algo que aprendeu antes ou sem usar alguns comportamentos anteriores”. Por essa razão, a criança tem um papel central na construção dos seus conhecimentos. Ora, isso significa que não faz sentido considerar a mente do aprendiz uma tabula rasa, como os behavioristas propõem, pois ele leva para a sala de aula os conhecimentos que possui da sua língua materna e do mundo. Nessa mesma direção, Vygotsky afirma que o “êxito no aprendizado de uma língua estrangeira depende de certo grau de maturidade na língua materna. A criança já pode transferir para a nova língua o sistema de significados que já possui na sua própria” (Vygotsky, 1995: 94). Por isso, é necessário proporcionar às crianças (e, acrescento, aos aprendizes em geral) atividades com um nível ótimo de dificuldade, ou seja, atividades que não sejam nem difíceis demais nem fáceis demais — se forem muito difíceis, os aprendizes se sentem exageradamente desafiados; se forem muito fáceis, eles não se sentem desafiados. No primeiro caso, eles podem ficar frustrados; no segundo, desmotivados e desinteressados. Vygotsky concorda com Piaget quanto à ideia de que o aprendiz possui um papel central no seu próprio processo de aprendizagem, mas difere do teórico francês em um ponto fundamental: Vygotsky enfatiza o papel das forças culturais, sociais e históricas (portanto, forças externas ao indivíduo) no processo de aprendizagem, enquanto Piaget enfatiza os processos biológicos, internos, de maturação do indivíduo. Para o teórico russo, a interação social é não apenas o principal impulsionador do desenvolvimento cognitivo do indivíduo, mas também a razão de ser da fala: “A função primordial da fala, tanto nas crianças quanto nos adultos, é a comunicação, o contato social” (Vygotsky, 1995: 17). E ele critica Piaget por parecer não dar a importância devida às experiências da criança no processo de desenvolvimento infantil. Vygotsky concorda com Piaget quanto ao cuidado que se deve ter com o desafio colocado à criança (e por extensão, acrescento, aos aprendizes em geral). De um lado, é preciso que não se designem tarefas excessivamente fáceis para a criança, pois isso fará com que ela não construa novos conhecimentos. Por outro lado, também é necessário ter-se o cuidado para não desafiar exageradamente a criança, pois “qualquer aprendizado exige certo grau de maturidade de determinadas funções”: […] não se pode ensinar uma criança de um ano de idade a ler, ou uma criança de três anos a escrever. Desse modo, a análise da aprendizagem reduz-se à determinação do nível de desenvolvimento que várias funções devem atingir para que a aprendizagem se torne possível. Quando a memória da criança já progrediu o suficiente para capacitá-la a memorizar o alfabeto, quando sua atenção pode fixar-se numa tarefa maçante, quando o seu pensamento já amadureceu a ponto de permitir- lhe entender a conexão entre signo e som — então se pode começar a ensinar a criança a escrever (Vygotsky, 1995: 81). É aí que Vygotsky propõe o conceito de zona de desenvolvimento proximal, indicada pela “discrepância entre a idade mental real de uma criança” e pelo “nível que ela atinge ao resolver problemas com o auxílio de outra pessoa” (Vygotsky, 1995: 89). Para ele, a criança (e por extensão, acredito, um aprendiz adolescente ou adulto) será capaz de fazer sozinha aquilo que ela aprende com o auxílio de outros. É clara a distância entre as teorias behavioristas e as teorias construtivistas. E o professor de inglês precisa estar atento a que teoria ele considera mais adequada para explicar a aprendizagem dos seus alunos, pois as implicações pedagógicas são bem distintas a depender de qual teoria ele adota. Se adotar uma teoria behaviorista, ele verá os estudantes como seres passivos, mera tabula rasa, e se considerará o principal responsável pelo processo de aprendizagem deles. Se adotar uma teoria construtivista, ele considerará seus alunos como seres dotados de inteligência e de responsabilidade suficiente para construirem conhecimentos e serem o centro do seu processo de aprendizagem. Além da teoria de aprendizagem que o professor adota, a concepção de língua que permeia sua prática pedagógica é extremamente importante. É disso que trata a próxima seção. 1.3. O que é língua? A pergunta que dá título a esta seção precisa ser respondida de forma clara pelo professor de inglês. Afinal de contas, a língua é o objeto do seu trabalho. Portanto, a resposta tem de vir à sua mente de forma clara e rápida quando ele ouvir essa pergunta. Daí a razão de ser desta seção: apresentar duas teorias da língua e suas implicações para o ensino de inglês. Vale ressaltar que não existe uma concepção de língua inerentemente melhor ou pior do que a outra: existem concepções diferentes que, exatamente por isso, podem ser mais ou menos adequadas para o ensino de línguas e que refletem valores ideológicos distintos. A teoria da língua que dominou o começo do século XX foi a estruturalista, que concebe a língua como um conjunto de estruturas gramaticais organizadas por regras que se relacionam entre si, formando um sistema. Podemos atribuir ao linguista suíço Ferdinand de Saussure a origem dessa concepção, que recebeu o reforço de teóricos importantes, como Leonard Bloomfield, Charles Fries e Noam Chomsky ao longo do século XX. Conceber a língua de maneira estruturalista, por si só, não causaria nenhuma dificuldade ao ensino de línguas se não fosse por um princípio teórico específico a essa concepção: ela não leva em consideração o uso linguístico e, consequentemente, o sujeito usuário da língua e a variação linguística provocada pela existência de sujeitos diferentes inseridos em contextos sociais, históricos, culturais e geográficos diferentes. Ora, e para que a maioria absoluta das pessoas que estudam línguas estrangeirasdecidiu aprender uma língua? Exatamente para usá-la! Por essa razão, uma concepção estruturalista de língua não é adequada para o ensino de inglês. Saussure viveu a virada do século XIX para o século XX, uma época de forte influência positivista, da qual não escapou: ele queria pensar a linguística de uma forma que desse a ela a cientificidade necessária para ser considerada uma ciência. Para isso, ele buscou um objeto para a linguística que a diferenciasse de outras disciplinas que também estudavam fenômenos da linguagem, como a antropologia, a psicologia e a sociologia. Ele, então, dividiu a linguagem em duas partes: uma social, a língua, e uma individual, a fala (Saussure, 1999[1916]). E o que ele fez, em seguida, provoca discussões até hoje: o mestre genebrino excluiu a fala da pesquisa linguística afirmando que a língua, a parte social e homogênea da linguagem, é o elemento que importa para dar cientificidade à linguística. Obviamente, ao excluir a fala do âmbito da linguística, ele acabou também excluindo desse âmbito os sujeitos usuários da língua, os usos que eles fazem da língua, as variações linguísticas e as mudanças sofridas pela língua ao longo do tempo. Mas Saussure não foi o único a isolar a língua daquilo que a torna um fenômeno social complexo. Chomsky também fez a mesma coisa por caminhos diferentes. Ele vislumbrou a realidade linguística dos falantes- ouvintes a partir de dois conceitos que cunhou e que viriam a integrar definitivamente o jargão linguístico: competência, que é “o conhecimento que o falante-ouvinte possui da sua língua”, e desempenho, que é “o uso efetivo da língua em situações concretas” (Chomsky, 1978[1965]: 84). Em um recorte semelhante à dicotomia saussuriana, ele excluiu o desempenho da pesquisa linguística alegando que o uso que o falante-ouvinte faz da língua é um retrato imperfeito da sua competência devido à interferência de fatores psicológicos e físicos, como o cansaço, a irritação e o sono, que fazem com que os falantes se esqueçam de uma ou outra palavra, repitam palavras, não façam concordâncias e não completem sentenças. Chomsky estabeleceu como objeto de estudo da linguística o falante-ouvinte ideal que vive numa comunidade linguística completamente homogênea, realizando uma assepsia linguística justificável, talvez, para seus propósitos, porém nefasta para o ensino de línguas. Fica evidente a razão pela qual nem Saussure nem Chomsky se preocuparam com o ensino de línguas: um buscava um objeto que se adequasse às exigências positivistas da época para conferir cientificidade à linguística; o outro buscava estudar apenas os conhecimentos linguísticos estruturais do falante-ouvinte para tentar explicar como a mente do ser humano processa a linguagem. As exclusões teóricas que eles promoveram apresentam problemas insolúveis para a prática docente: como podemos vislumbrar um ensino de línguas que desconsidera os sujeitos usuários da língua, os usos que eles fazem da língua e as variações linguísticas? Sem sujeito não há língua nem uso da língua. E as variações linguísticas são fenômenos constituintes das línguas humanas. Se um professor ignorasse esses elementos, tornaria suas aulas de inglês capengas: as estruturas gramaticais seriam abordadas de maneira abstrata e não se falaria sobre os usos que se fazem delas, nem se trataria da variação linguística de forma racional, tranquila e sem preconceitos. Em suma, o professor que vê a língua segundo a concepção estruturalista pouco ajuda seus alunos na tarefa de desenvolverem seus recursos linguísticos e textuais para interagirem adequadamente nas mais variadas situações sociocomunicativas, histórica e culturalmente situadas. Há, porém, do ponto de vista pedagógico, uma maneira mais interessante de conceber a língua: a teoria interacionista da língua. O nome já aponta para a sua razão de ser: a língua como interação social. A ideia de interação pressupõe a presença de alguns elementos: o sujeito que fala ou escreve, o sujeito que ouve ou lê, as especificidades culturais desses sujeitos, os contextos da produção e da recepção dos textos. Foram esses os elementos excluídos do escopo da linguística pela teoria estruturalista, lembra? O retorno deles à cena linguística começou a tomar corpo nos anos 1960 e se consolidou na década seguinte, no processo epistemológico que ficou conhecido como virada pragmática, que elegeu o uso da língua como o eixo em torno do qual os estudos linguísticos devem girar. Conceber a língua como interação social significa entender que as estruturas sintáticas, as palavras e a pronúncia veiculam valores. Além disso, e mais importante, significa considerar que os usuários da língua travam relações de poder nos seus encontros sociolinguísticos, o que os obriga a fazer escolhas temáticas, sintáticas e lexicais apropriadas a esses encontros. Não por acaso, a virada pragmática teve a participação intensa de sociolinguistas, linguistas textuais e analistas do discurso. Um deles foi Dell Hymes, que deixou claro, para linguistas e professores de línguas, um ponto extremamente importante: há regras de uso sem as quais as regras gramaticais não funcionariam. Em outras palavras, aprender as estruturas gramaticais é condição necessária para se aprender uma língua, sim, mas não é suficiente para que uma pessoa seja capaz de usar essa língua em situações sociais distintas. Nesse sentido, Hymes elaborou o conceito de competência comunicativa, segundo o qual o falante-ouvinte, para ser competente em sua língua, precisa não apenas ter conhecimento das regras gramaticais, mas também ter a habilidade de usar essas regras, adequando-as às situações sociais em que se encontra no momento em que usa a língua. Veremos esse conceito em detalhes na seção 1.6, pois ele é de grande importância para os professores de inglês. Outras vozes uniram-se à de Hymes, consolidando a inclusão do uso linguístico, do falante-ouvinte e da variação linguística nas pesquisas sobre os fenômenos da linguagem. Foram vozes como a de William Labov, que consolidou o espaço da sociolinguística variacionista na academia, a qual também dava as boas vindas ao pensamento pragmático de John Austin e John Searle sobre os atos de fala, à análise da comunicação humana feita por Paul Grice, e às reflexões dialógicas bakhtinianas e de analistas do discurso como Michel Pêcheux, Norman Fairclough e Teun van Dijk. E também as vozes de Robert-Alain de Beaugrande e Wolfgang Dressler, linguistas textuais que deram uma contribuição extremamente importante para o entendimento do texto e, assim, para o ensino da leitura e da escrita como atividades de interação sociocultural. Os elementos que haviam sido excluídos da cena teórica pelo estruturalismo estavam de volta. Esse retorno representa uma mudança importante não apenas para os rumos da linguística, mas também para os rumos do ensino de inglês como língua estrangeira. Entretanto, essa mudança, que começou a se processar na década de 1960, tem-se mantido no lado de dentro dos muros da academia, chegando muito lentamente ao conhecimento dos professores de inglês das escolas públicas e, consequentemente, às salas de aula do ensino fundamental e do ensino médio no Brasil. E por que essa lentidão ocorre? Exatamente porque essas reflexões circulam, de maneira dispersa, em livros ou em artigos publicados em revistas especializadas. Geralmente, tais livros e artigos são publicados na América do Norte e na Europa, o que dificulta o acesso de professores brasileiros. Uma consequência disso é o fato de muitos professores de inglês lerem poucos livros e revistas especializadas devido aos preços (que se tornam altos por causa dos baixos salários recebidos pelos professores e porque os preços são cotados em dólar, em libra esterlina ou em euro) e porque suas escolas não têm bibliotecas bem municiadas. Outro fator que contribui para o distanciamento entre as teorias linguísticas e a sala de aula é a não participação de professores de inglês do ensino fundamental e do ensino médio em congressose encontros por razões variadas: o custo de passagens, de hospedagem e de inscrição; a falta de divulgação dos eventos junto às escolas; e, curiosamente, porque esses eventos geralmente são realizados em inglês e muitos professores de inglês no Brasil não são fluentes na língua que lecionam. O que fazer então? Como fazer chegar aos professores os resultados das pesquisas empreendidas pelos linguistas textuais e pelos analistas do discurso, por exemplo? Afinal, se os professores que costumam dar foco, quase que exclusivamente, às estruturas gramaticais em suas aulas refletissem mais sobre a língua e sobre o ensino sob a luz da concepção interacionista, eles provavelmente perceberiam a necessidade de mudarem sua prática e algumas de suas crenças teóricas. Isso teria um impacto significativo na atitude dos estudantes em relação ao estudo de inglês (e eles provavelmente parariam de dizer “não aguento mais estudar o verbo to be!”). E, para empreender tal reflexão, é necessário que os professores tenham mais acesso às informações, a textos teóricos, a eventos acadêmicos. Uma forma interessante de fazer chegar aos professores de inglês essas informações é por meio de oficinas de aperfeiçoamento profissional. Entretanto, a realização dessas oficinas não deve ser de responsabilidade apenas dos governos estaduais, mas também das administrações municipais e das escolas particulares (os maiores institutos de idioma já fazem isso). O Governo Federal pode e deve participar também desse processo oferecendo apoio às instituições que capacitam professores das escolas públicas estaduais e municipais e das escolas técnicas e militares federais. Nesse sentido, proponho que a formação dos professores de inglês seja orientada por uma perspectiva semântico-pragmática, que leve o professor a perceber que os elementos gramaticais não estão dissociados da dimensão relacionada aos usos da língua e aos significados que esses elementos ajudam a produzir. A ideia é que essa percepção leve o professor à razão de ser da língua: o texto falado e escrito, que deve ser o eixo em torno do qual as aulas de língua giram. Enquanto os professores não adotarem a perspectiva interacionista, pragmática de língua, o ensino de inglês se manterá, em muitas escolas brasileiras, no nível das sentenças isoladas, descontextualizadas, sem se levarem em conta as razões pelas quais os brasileiros estudam inglês. A articulação do exposto até aqui com a prática pedagógica é simples: a língua precisa ser concebida como interação social, que coloca à disposição dos seus usuários um conjunto de estruturas gramaticais e de palavras para que eles possam interagir socialmente em encontros culturalmente marcados tanto na fala quanto na escrita. Por isso, insisto, o professor precisa ter consciência de que o texto oral e o texto escrito são os eixos em torno dos quais as suas aulas devem girar, pois a interação social que a língua estabelece toma sempre e invariavelmente a forma de textos. Antes de finalizar esta seção, gostaria de ressaltar que os proponentes do ensino comunicativo de línguas vislumbram a língua como comunicação. Entretanto, ao lermos seus textos, percebemos que eles não limitam o papel da língua à de um instrumento de transmissão de informações, que é a razão de ser da comunicação: no frigir dos ovos, eles concebem a língua como interação social, a qual marca posições sociais e ideológicas entre os interlocutores. Essa observação é válida porque conceber a língua como um instrumento de transmissão de informações significa, como ressalta Oswald Ducrot (1972), que ela é um código, o que implica que todos os conteúdos expressos pela língua são expressos de maneira explícita durante essa transmissão. Em outras palavras, bastaria ao usuário da língua ter a chave do código para quebrá-lo e decifrar a mensagem, sendo a chave exatamente o conhecimento dos elementos linguísticos usados na mensagem. Entretanto, “muitas vezes temos necessidade de, ao mesmo tempo, dizer certas coisas e de poder fazer como se não as tivéssemos dito; de dizê-las, mas de tal forma que possamos recusar a responsabilidade de tê-las dito”, explica Ducrot (1972: 13). A língua em uso não é neutra, não é um código transparente. Ela é opaca: os significados produzidos pelo receptor de um enunciado incluem não apenas significados linguísticos, mas também significados pragmáticos, contextuais. Feitas essas considerações acerca dos dois conceitos de língua, precisamos abordar um ponto crucial para a prática do professor de inglês: aquilo que muitos chamam de inglês padrão. 1.4. O que é inglês padrão? Que professor de inglês nunca ouviu falar que existe um inglês padrão? Na verdade, já se falou tanto nele que virou senso comum a ideia de que os alunos precisam aprender o inglês padrão, o que aponta para algo que parece óbvio: a existência de um tipo de inglês chamado padrão. Mas, fiquemos em alerta, pois a obviedade, nesse caso, é apenas aparente, resultante do processo de naturalização do discurso. Norman Fairclough faz uma provocação importante acerca da questão do inglês padrão: Há um elemento de esquizofrenia no que diz respeito ao inglês padrão, no sentido de que ele aspira ser (e certamente é retratado como) uma língua nacional pertencente a todas as classes e seções da sociedade, e mesmo assim permanece, em muitos aspectos, o dialeto de uma classe (Fairclough, 1989: 57, grifo do autor). Para ele, uma indicação clara dessa esquizofrenia é o fato de as pessoas sentirem e saberem que “a língua padrão é a língua de outra pessoa e não a delas, apesar das afirmações contrárias” (Fairclough, 1989: 57). E as pessoas sabem disso por falarem dialetos que se afastam da tal língua padrão, que acaba sendo uma abstração2. E qual é o critério para se decidir o que é inglês padrão? Seria o critério de ser uma língua falada nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Austrália, na Irlanda ou em outro país cuja língua oficial é o inglês? E se se escolher um desses países, que dialeto de qual região e de que comunidade linguística dessa região será o inglês padrão? Padrão de quem? Padrão para quem? Percebe como é difícil decidirmos isso? A ideia de língua padrão é puramente ideológica e, por isso mesmo, abstrata. É uma forma que as classes dominantes possuem de controlar a diversidade sociocultural e de inculcar nas pessoas outra ideia puramente ideológica: a de que há variantes linguísticas erradas, pois existe apenas uma variante linguística correta. E essa variante é característica de determinadas classes sociais, que, não por acaso, são as classes dominantes, que não medem esforços para silenciar variantes diferentes, como o black English e o Spanglish. A rigor, não existe um inglês padrão concreto, embora seja muito provável que nossas mentes operem com alguma coisa que acreditamos ser o inglês padrão. Afinal de contas, aprendemos na escola que existe uma língua padrão. É esse suposto padrão que, por exemplo, nos diz que a forma canônica é I am not e não I ain’t; que devemos falar She doesn’t know anything em vez de She doesn’t know nothing; que o correto é There are a lot of people here e não There’s a lot of people here. Contudo, mesmo que o tal inglês padrão não exista a rigor, o mito da sua existência opera na cabeça de muitas pessoas. Lembro-me de uma banca de concurso público para professor adjunto de inglês da qual participei em uma universidade estadual na segunda metade da década de 2000. Os outros dois membros da banca comentavam que não existe inglês padrão e davam os argumentos para sustentar tal inexistência. Bem, um dos candidatos fez uma prova didática tecnicamente excelente: organizada, articulada e adequadamente desenvolvida, com um grau de complexidade compatível para a aula de um doutor em letras. “Aula excelente”, comentei após o candidato ter saído da sala. Os dois outros membros da banca fizeram um silêncio breve e um deles disse: “Mas o inglês dele é muito quebrado. Tinha momentos em que eu não entendia nada do que ele tava dizendo”. Defendi ocandidato repetindo a afirmação que eles haviam feito anteriormente: “Como cês disseram antes, não existe inglês padrão. Pode ser que o inglês dele seja um dialeto de uma ex-colônia britânica e, por isso, nós sentimos dificuldade pra entender porque a gente não conhece esse dialeto. Por isso, o inglês dele não seria nem quebrado nem ruim. E aí, se a gente não entende o inglês do cara, a culpa é nossa, da nossa ignorância em relação a esse dialeto”. A pessoa que presidia a banca disse de forma clara e inequívoca: “Mas não é esse o inglês que queremos para nossos alunos aqui”. OK. As cartas estavam na mesa e as apostas, encerradas. Bastou surgir um dialeto diferente para o discurso em prol da não existência do inglês padrão cair por terra, evidenciando que há professores que costumam operar com um conceito de inglês padrão na cabeça, mesmo que não o admitam, mesmo que afirmem em alto e bom som que inglês padrão não existe. Intuitivamente, eu afirmo que a maioria dos professores de inglês no Brasil opera com um suposto inglês padrão na cabeça, mesmo que eles não tenham consciência disso (por causa do processo de naturalização do discurso em torno da existência do inglês padrão) ou que não admitam isso publicamente (como aqueles membros da banca). De qualquer maneira, repito: a rigor, na prática, não existe inglês padrão, da mesma forma que a tal norma-padrão do português é uma abstração. Existem variedades distintas de inglês tanto nos países em que a primeira língua é o inglês quanto nos países em que inglês é a segunda língua. E é pelo fato de a língua inglesa ser atualmente uma língua franca, global, internacional, falada por tantas pessoas em tantos países que se comenta bastante sobre os chamados world Englishes, ou seja, as variedades de inglês faladas por pessoas cuja primeira língua não é inglês. Para termos uma ideia do uso da língua inglesa no mundo, podemos recorrer às categorias criadas por Braj Kachru (apud Farrell, Martin, 2014). Ele vê o uso da língua inglesa a partir de três círculos concêntricos. O círculo interno representa os países tradicionalmente considerados como aqueles em que a língua inglesa é a primeira (e geralmente a única) língua oficial, p. ex.: a Inglaterra, os Estados Unidos, o Canadá, a Irlanda do Norte, a Irlanda, a Austrália e a Nova Zelândia. O círculo externo representa os países que foram colonizados por aqueles do círculo interno, como a Índia, a Nigéria, a África do Sul e Cingapura. O círculo em expansão representa aqueles países que não foram alvos da colonização dos países do círculo interno, mas que são locais onde o inglês é usado, principalmente, para fins comerciais e diplomáticos, como é o caso do Brasil, da China, da Grécia, da Arábia Saudita e de Israel. Note-se que o círculo em expansão é bem maior do que os outros dois. Por essa razão, e “considerando-se a grande população dos falantes de inglês localizados em várias partes do mundo, Kachru […] afirma que o inglês agora engloba ‘um pluralismo cultural ímpar, e uma diversidade e uma heterogeneidade linguísticas’” (Farrell, Martin, 2012). Isso já aponta para a necessidade de pensar se o tal inglês padrão é adequado para o ensino de inglês nos países do círculo em expansão, principalmente porque falantes desses países aprendem inglês geralmente para se relacionar com pessoas de países desse círculo e não necessariamente com membros dos países do círculo interno. Contudo, esse é um ponto complexo, pois há de se pesquisar, por exemplo, se os brasileiros teriam mais facilidade para compreender o inglês falado por pessoas de países do círculo em expansão se fossem expostos, nos cursos de idioma, às variedades de inglês dos países do círculo interno ou se eles teriam mais facilidade se fossem expostos ao inglês falado por pessoas do círculo externo ou ao inglês falado por pessoas do círculo em expansão. Pelo que eu saiba, não há pesquisas nesse sentido. Querer impor algo de definição difícil e arbitrária como o conceito de inglês padrão é uma ação ideológica em prol da homogeneização linguística, do sufocamento dos dialetos das classes sociais não privilegiadas e das variedades de inglês dos países do círculo externo e do círculo em expansão. Athelstan Suresh Canagarajah não deixa de ver o papel dos livros didáticos na reprodução ideológica do ideal do inglês padrão nos países periféricos: “A ideologia linguística do livro didático tende a reforçar a dominação de um ‘inglês padrão’, ignorando a existência de dialetos locais do inglês falado na periferia” (Canagarajah, 2009: 88). Curiosamente, na literatura sobre a história do ensino de línguas estrangeiras, não há notícias de falantes nativos que tenham escrito livros didáticos voltados para o ensino de línguas estrangeiras até o final do século XIX. Foi nesse momento que Henry Sweet publicou um livro para o ensino de inglês como língua estrangeira. Até então, os autores dos livros didáticos eram não nativos. No século XX, a situação se inverteu, e os autores falantes nativos passaram a dominar o mercado editorial de livros para o ensino de línguas estrangeiras. Infelizmente, não é apenas o mito do inglês padrão que atormenta a vida dos professores de inglês. Como veremos na próxima seção, há outro mito que tem implicações pedagógicas importantes: o falante nativo, conceito que usei até aqui sem nenhuma problematização, e que passo a problematizar na próxima seção. 1.5. O que é falante nativo? Acabamos de ver como é difícil definir inglês padrão. Mesmo assim, esse é um conceito que passou a fazer parte do senso comum dos professores de inglês. Mas ele não é o único mito a habitar na cabeça dos professores. Existe outro conceito muito problemático que também acabou virando um mito: falante nativo. Você já percebeu como é difícil definir o que é um falante nativo? Seria uma pessoa cuja primeira língua é o inglês? Nesse caso, os falantes de dialetos diferentes do tal inglês padrão são falantes nativos do inglês? E os falantes de inglês em países colonizados pelos países do círculo interior, como a África do Sul e a Índia, são falantes nativos de inglês? Que professor brasileiro, ao pensar em falante nativo, pensa automaticamente em um sul- africano ou em um neozelandês ou em um indiano ou em um estadunidense negro falante do black English? (Minha intuição acabou de responder esta última pergunta: “Provavelmente nenhum”.) Tais questões são complexas e importantes, pois há métodos de ensino que estabelecem como meta levar o aprendiz ao nível de proficiência do falante nativo. O problema é que essa meta é vaga pelo fato de o conceito de falante nativo ser vago. Além disso, “os falantes não nativos precisam focar na combinação de fatores que os tornam membros efetivos da comunidade internacional de falantes que usam inglês, em vez de se preocuparem com o fator desimportante de se são ou não falantes nativos” (Lewis, 1999: 12). Vivian Cook comenta que existem várias propostas de definição do termo falante nativo, as quais se aproximam em alguns pontos e se afastam em outros. Contudo, ela esclarece que há algo em comum em todas as definições propostas: O elemento incontestável na definição de falante nativo é que uma pessoa é um falante nativo da língua que aprendeu primeiro; as outras características são incidentais, descrevendo quão bem um indivíduo usa a língua. Alguém que não aprendeu uma determinada língua na infância não pode ser um falante nativo dessa língua. Línguas aprendidas mais tarde nunca podem ser línguas nativas por definição (Cook, 1999: 187). Controvérsias e falta de consenso conceitual à parte, o fato é que o tal falante nativo passou a ser uma espécie de mito no ensino de inglês. Muitos cursos fazem propaganda anunciando que seus professores são nativos. Em maio de 2012, estava sendo exibido um comercial na TV de um curso de inglês online que se apoia nesse mito de uma maneira extremamente preconceituosa. O comercial mostra um jovem mestiço dentro de um carro no Brasil e diz que ele leva uma hora para chegar ao seu cursotradicional (sic) de inglês; mostra também um jovem branco com headphones e um laptop e diz que ele estuda inglês online e que, por isso, não precisa sair de casa e enfrentar o trânsito congestionado para estudar inglês. O comercial retrata a professora do estudante do curso tradicional como uma mulher acima do peso, de cabelos pretos, que se chama Joana e que aprendeu inglês na Argentina. O comercial jocosamente mostra Joana dando pulinhos e sacudindo os braços numa tentativa desajeitada de explicar o significado da palavra chicken ao aluno. Já o jovem que faz o curso de inglês online tem aulas com Jenny, uma americana loira e magra da Califórnia, que não está dando pulinhos nem sendo retratada de forma jocosa. É um comercial ofensivo e preconceituoso em relação aos professores de inglês brasileiros e argentinos, que estereotipa negativamente o professor latino-americano e dá a entender que os professores de inglês estadunidenses são bons e os sul-americanos, ruins (e que traz à tona também estereótipos de padrões de beleza física). Eis aí o mito do falante nativo a serviço de propósitos comerciais e ideológicos perversos. Além disso, há um mito que circula entre muitos brasileiros segundo o qual o professor de inglês estadunidense ou britânico é necessariamente melhor do que o professor brasileiro de inglês. Esse mito é apenas uma roupagem diferente do mito do falante nativo e é totalmente improcedente. Afinal de contas, o professor brasileiro, exatamente por ser brasileiro, conhece melhor as dificuldades e necessidades de aprendizagem dos estudantes brasileiros. Contudo, existem professores não nativos que acreditam em uma superioridade dos falantes nativos, o que é complicado, pois, “pela aceitação não crítica da dominação do falante nativo, os profissionais não nativos legitimam sua própria marginalização”, como bem coloca Kumaravadivelu (2003: 548). Vale ressaltar que ensinar inglês seguindo a concepção estruturalista de língua significa não apenas ensinar estruturas gramaticais enfatizando suas formas sem nenhuma ou quase nenhuma preocupação com os usos que se fazem delas, mas também ignorar questões ideológicas importantes que se entranham em uma língua, como a questão do inglês padrão e a questão do falante nativo3. As implicações pedagógicas disso são sérias. Os alunos acabam estudando estruturas gramaticais descontextualizadas, muitas vezes sem nem saberem exatamente, por exemplo, quando devem usar estruturas sintáticas de baixa frequência de ocorrência, como o future progressive. Além disso, os alunos acabam não sendo provocados a refletirem sobre a língua do ponto de vista geopolítico, ideológico. Aliás, basta ver como, até hoje, muitos brasileiros acham melhor estudar inglês com um falante nativo do que com um professor brasileiro — será que só há vantagens em estudar com um professor falante nativo em vez de estudar com um professor brasileiro? Nessa discussão, o que está em jogo é o mito do falante nativo e um mito que dele resulta: a suposta incompetência do professor brasileiro. Por isso, não podemos aceitar pacificamente a ideia de falante nativo — os professores brasileiros de inglês precisam problematizá-la para se situarem politicamente no jogo ideológico envolvido no ensino de línguas estrangeiras. Na próxima seção, abordaremos um conceito estreitamente relacionado ao de falante nativo: proficiência. 1.6. O que é ser proficiente em inglês? Uma palavra muito usada para se referir aos conhecimentos e às habilidades de um falante de uma língua estrangeira é proficiência. Existem testes de proficiência bem conhecidos, como o TOEFL e o CPE4, cuja função é medir a proficiência dos usuários de inglês que vêm de países onde a língua oficial não é o inglês (além de servirem com fonte de muito dinheiro para as organizações que os comercializam). Entretanto, não devemos nos esquecer da função política do CPE, que inclui temas de redação voltados para a literatura britânica, deixando transparecer que ser proficiente é conhecer aspectos da cultura britânica. Podemos ver isso no Certificate of Proficiency in English Handbook for Teachers, que traz a seguinte informação: Neste nível, o aprendiz está atingindo a competência linguística de um falante nativo escolarizado e é capaz de usar a língua em uma gama de modos culturalmente apropriados. Usuários neste nível são capazes de melhorar seu uso da língua expandindo seu vocabulário e redefinindo seu uso e domínio de estilo em vez de melhorar isso aprendendo novas áreas da gramática. Seu nível de competência lhes dá acesso à imprensa e outras mídias e a áreas da cultura como teatro, cinema e literatura5. Nota-se aí o uso do conceito de falante nativo para a determinação do grau de proficiência do aprendiz. O uso do modificador escolarizado (o termo no original é educated) tenta delimitar quem seria esse falante nativo, mas isso não elimina a vaguidade do conceito. De qualquer forma, o aprendiz proficiente é capaz de usar “a língua em uma gama de modos culturalmente apropriados”. Nesse caso, a cultura deve ser entendida como cultura com C minúsculo, ou seja, o aprendiz sabe como adequar sua fala e sua escrita a contextos socioculturais específicos no momento de interagir com pessoas que ocupam posições de sujeito específicas no ato de interação comunicativa. Além disso, o aprendiz proficiente tem acesso a “áreas da cultura como teatro, cinema e literatura”. Agora já devemos entender o termo cultura como sendo Cultura com C maiúsculo, ou seja, o estudante proficiente conhece os cânones intelectuais e artísticos da sociedade britânica, como, por exemplo, os romances de Jane Austen e as peças de Shakespeare. Enfim, o projeto ideológico subjacente ao CPE não pode ser perdido de vista. O CPE deixa claro que, para ser considerado proficiente em inglês, um usuário da língua deve conhecer a cultura e a Cultura britânicas — as culturas e Culturas de outros países são irrelevantes para a certificação do aprendiz. Mas, afinal de contas, o que é ser proficiente em inglês? É dominar a língua, a cultura e a Cultura da Inglaterra (ou dos Estados Unidos) como um falante nativo? Alice Omaggio Hadley, citando o tradicional American Heritage Dictionary of the English Language, afirma que uma pessoa proficiente é aquela que desempenha uma determinada atividade com facilidade e com a precisão de um perito, e que o termo proficiente implica “um alto grau de competência por meio de treinamento” (Hadley, 1993: 2). Isto está claro: uma pessoa proficiente em inglês seria alguém que desempenha atividades linguísticas usando o inglês falado e/ou escrito com a facilidade e com a precisão de um perito. Mas algo não está claro, pois um problema surge aí logo de cara: que perito serviria de parâmetro? O falante nativo? É complicado definir o que é um falante nativo. Então, qual o parâmetro para decidir-se sobre o que é ser proficiente? Antes da década de 1970, a proficiência em língua inglesa tinha sido amplamente definida por muitas pessoas da comunidade acadêmica em termos de precisão estrutural, ou seja, em termos de correção gramatical, como nos informa Hadley (1993). A partir daquela década, contudo, a proficiência passa a ser vista de forma diferente. Mas, por que Hadley usa os anos 1970 como divisor de águas? Porque o ensino comunicativo de línguas tomou corpo exatamente naquela década. Essencial para o movimento comunicativo no ensino de línguas foi o conceito de competência comunicativa, cunhado por Hymes a partir de sua reação contra algumas ideias de Chomsky e reelaborado por alguns linguistas aplicados. Esse conceito viria a ser muito importante para a discussão acerca da proficiência. Chomsky elaborou dois conceitos muito importantes para a reflexão sobre os fenômenos linguísticos: competência, que é o conhecimento que o falante- ouvinte possui da sua língua, e desempenho, que é o uso da língua em situações concretas e que apenas indiretamente reflete a competência de um falante-ouvinte devido a fatores extralinguísticos, como memóriae estado emocional, que interferem na produção linguística. Em outras palavras, o que um indivíduo produz em termos linguísticos não demonstra tudo aquilo que ele sabe sobre sua língua e, por isso, para Chomsky, o desempenho não deve ser levado em consideração na pesquisa linguística: o desempenho não é um retrato fidedigno da competência. Hymes contestou fortemente essa posição de Chomsky por entender que a realidade linguística de qualquer falante-ouvinte envolve relacionamentos socioculturais e estados emocionais e psicológicos diversos. Por isso, não se deveria ver o desempenho como a representação infiel da competência e nem a competência como conhecimento exclusivamente gramatical. Sejamos justos com Chomsky: ele não estava nem um pouco interessado em pesquisar os usos da língua. A ele só interessava pesquisar as regras sintáticas, as estruturas gramaticais, para entender a mente do ser humano. Algumas pessoas têm o direito de não gostar dos interesses de Chomsky e considerarem suas teorias inúteis, mas esse é um problema delas. Obviamente, os interesses dele são legítimos para um linguista teórico, embora não sejam úteis para um professor de línguas, que tem por meta contribuir para que seus alunos desenvolvam seus conhecimentos linguísticos para os utilizarem em sociedade. Os interesses dos professores preocupados em ajudar seus alunos a aprenderem a se comunicar numa língua estrangeira encontram abrigo nos interesses de Hymes, para quem há regras de uso sem as quais as regras gramaticais não funcionam. Ele se apropria do conceito de competência e cunha o termo competência comunicativa para se referir aos conhecimentos que o falante-ouvinte possui da sua língua e às habilidades que ele tem para usar esses conhecimentos em situações comunicativas concretas. Enquanto a proposta chomskiana equipara competência a conhecimento, a proposta de Hymes torna o conhecimento uma parte da competência, ainda que uma parte importante – a outra parte é a habilidade para usar o conhecimento. O conceito de competência comunicativa proposto por Hymes possui quatro aspectos: possibilidade formal, exequibilidade, adequação contextual e possibilidade de ocorrência. Vejamos cada um deles. A possibilidade formal corresponde àquilo que Chomsky chama de gramaticalidade, i.e., a boa formação da sentença. Ressalte-se que boa formação não tem nada a ver com juízo de valor, mas, isto sim, com a formação da sentença de acordo com as regras da língua. Aí se inserem conhecimentos sintáticos, morfológicos, fonológicos e semânticos acrescidos da habilidade de se usarem esses conhecimentos. Por exemplo, o enunciado Do you can play guitar?, proferido por um estudante, não é formalmente possível em inglês, que prevê a forma Can you play the guitar? Entretanto, vale notar que saber criar sentenças formalmente possíveis não é suficiente para tornar o falante comunicativamente competente. Há fatores psicolinguísticos, como a memória e a concentração, que podem tornar uma frase inexequível, inviável. Por isso, o falante-ouvinte precisa saber criar sentenças que não causem problemas no ato da comunicação por serem muito longas ou muito complexas. É a esse ponto que Hymes se refere quando fala de exequibilidade, ou viabilidade. Uma sentença longa demais, com muitos encaixes, pode ser formalmente possível, mas pode se tornar inexequível devido àqueles fatores. Observe, por exemplo, como o enunciado abaixo, escrito pelo escritor Phillip Roth no romance A Plot Against America, demanda muito esforço cognitivo para ser processada por causa do seu comprimento: Elizabeth, New Jersey, when my mother was being raised there in a flat over her father’s grocery store, was an industrial port a quarter the size of Newark, dominated by the Irish working class and their politicians and the tightly knit parish life that revolved around the town’s many churches, and though I never heard her complain of having been pointedly ill-treated in Elizabeth as a girl, it was not until she married and moved to Newark’s new Jewish neighborhood that she discovered the confidence that led her to become first a PTA “grade mother,” then a PTA vice president in charge of establishing a Kindergarten Mothers’ Club, and finally the PTA president, who, after attending a conference in Trenton on infantile paralysis, proposed an annual March of Dimes dance on January 30 — President Roosevelt’s birthday — that was accepted by most schools6. O enunciado acima exige uma mobilização cognitiva grande — o foco temático do período é Elizabeth, mas há outras tantas informações sobre a mãe do(a) narrador(a) que provavelmente muitos leitores precisam voltar ao começo para retomar o fio da meada. Percebe-se que a exequibilidade de uma frase está estreitamente relacionada ao conceito de desempenho proposto por Chomsky. Como os fatores emocionais e cognitivos são elementos inerentes ao ser humano, Hymes discorda da ideia chomskiana de que o desempenho é meramente um reflexo imperfeito da competência linguística. Note-se um problema que ocorre com frequência na redação de trabalhos acadêmicos como dissertações e teses: períodos muito longos que dificultam a leitura e torram a paciência dos examinadores. Em uma tese que li há algum tempo, havia um período que ocupava 16 linhas da página (tive de reler o período umas quatro vezes para tentar entendê-lo e fiquei bastante irritado com aquilo). A competência comunicativa dos falantes-ouvintes possui um aspecto sociocultural que estabelece regras para o uso das frases de acordo com o contexto em que elas se encontram — é o que Hymes chama de adequação. Mesmo que uma frase seja formalmente possível e exequível, ela tem de estar adequada ao contexto social e cultural no qual é produzida. Sem essa capacidade de adequação sociolinguística, um falante-ouvinte não é completamente competente para se comunicar em situações sociais diversas. Por exemplo, em fevereiro de 2012, a pilota de carros de corrida Danica Patrick estava reclamando do fato de as pessoas só se referirem às atletas com a palavra sexy. Eis as palavras dela: “I don’t quite understand why, when you’re referring to a girl, a female athlete in particular, that you have to use the word ‘sexy.’ Is there any other word that you can use to describe me?”. O âncora de um telejornal esportivo da rede FOX, em San Diego, Califórnia, Ross Shimabuku, fez o seguinte comentário a respeito da reclamação de Patrick: “Oh, I’ve got a few words — starts with ‘B’ and it’s not ‘beautiful’”. A palavra que ele tinha em mente era bitch, que podemos traduzir como vadia. O enunciado do telejornalista foi formalmente possível e exequível, mas não foi adequado por ser sexista. E ele foi suspenso por uma semana sem direito a salário. Finalmente, vejamos o último aspecto do conceito de competência comunicativa proposto por Hymes: a possibilidade de ocorrência. Uma frase pode ser possível, exequível e adequada ao contexto e, mesmo assim, pode não ocorrer. Por exemplo, considere-se a sentença Your Majesty, Queen of England, here is your grilled pheasant. Ela é possível, exequível, adequada e pode realmente ocorrer se o locutor for o mordomo da rainha da Inglaterra e se ele estiver comunicando-lhe que fez o que foi solicitado. Se o locutor for eu, a possibilidade de ocorrência dessa sentença é zero. Além de Hymes, Henry Widdowson teve um papel fundamental para os rumos que o ensino de línguas estrangeiras iria tomar, demonstrando a importância de se relacionarem os fenômenos discursivos e textuais ao conceito de competência comunicativa. Ele fez uma forte crítica aos professores de inglês por terem, em sua maioria, a mesma visão gramatical de língua que Chomsky, ou seja, por não darem a devida atenção à produção de sentidos a partir de fatores contextuais, interacionais, comunicativos. Para Widdowson (1994), o grande erro da maioria dos professores de línguas estrangeiras é acreditar que, se a significação dos itens de uma língua é ensinada, os alunos automaticamente serão capazes de aprendero seu valor comunicativo. Para ele, é necessário ensinar aos estudantes esses dois tipos de significado: a significação linguística das palavras e expressões (i.e., seus significados literais) e o valor comunicativo desses elementos (i.e., seus significados pragmáticos). Afinal, não existe uma simples equivalência entre função comunicativa e forma linguística, pois uma mesma palavra ou um mesmo enunciado podem expressar coisas diferentes em situações diferentes. Por exemplo, a forma linguística The door is open! pode ser usada para expressar uma ordem (Close the door!) ou para deselegantemente convidar alguém a se retirar do local (If you’re not happy with this, get out of here!). Widdowson propõe, então, que o valor comunicativo dos itens da língua estudada determine o ensino dessa língua, o qual não deve ser determinado apenas pelas estruturas linguísticas e pelas situações onde tais estruturas costumam ocorrer. Sua visão de língua vai além de estruturas gramaticais, incluindo o discurso realizado pelos falantes-ouvintes ao participarem de um processo de comunicação. Widdowson enfatizou a importância do discurso no uso da língua e chamou a atenção para o conceito de coesão textual, que diz respeito aos aspectos linguísticos explícitos no estabelecimento de relações num determinado trecho de discurso, e para o conceito de coerência textual, que diz respeito às relações lógicas estabelecidas entre os elementos que compõem o texto e entre esses elementos e os conhecimentos prévios do leitor para que os sentidos sejam por ele construídos. Widdowson vê a língua como comunicação e, por isso, acha que o professor de línguas estrangeiras não deve se concentrar na sentença como unidade linguística a ser estudada. Em outras palavras, os alunos devem também ser ensinados a analisar o discurso para que possam desenvolver sua competência comunicativa. As reflexões e propostas de Hymes e de Widdowson foram essenciais para a elaboração de uma definição mais elaborada e mais operacional de competência comunicativa no sentido de que ela servisse de norte para professores de línguas no planejamento de suas aulas e para autores de livros didáticos na escolha do conteúdo programático e das atividades a serem realizadas em sala de aula. Essa definição veio por meio dos trabalhos de dois linguistas canadenses: Merril Swain e, principalmente, Michael Canale. O conceito de competência comunicativa proposto por eles diz respeito a conhecimento e a habilidade: “Conhecimento aqui se refere àquilo que um indivíduo sabe (consciente e inconscientemente) sobre a língua e sobre outros aspectos do uso comunicativo da língua; habilidade se refere a quão bem ele pode realizar esse conhecimento em comunicação real” (Canale, Swain, 1980: 5). Aí fica clara a ideia de que conhecimento só é útil se o indivíduo que o possui também tiver a habilidade para utilizá-lo em situações concretas. Isso vai reforçar, ainda mais, o conjunto de argumentos contrários à adoção da teoria estruturalista da língua para a prática docente, a qual nada diz acerca do uso das estruturas. Em um primeiro momento, a proposta conceitual de Canale e Swain previa três componentes para a competência comunicativa: competência gramatical, competência sociolinguística e competência estratégica. Entretanto, três anos após o trabalho conjunto com Swain, mais precisamente em 1983, provavelmente influenciado pelas reflexões realizadas por linguistas textuais e analistas do discurso, Canale (1990) reelaborou o conceito de competência comunicativa, passando a incluir uma quarta componente: competência discursiva. Vejamos cada uma dessas competências e como elas podem ser úteis ao professor na sua tarefa de ajudar os estudantes no aprendizado de inglês. A competência gramatical é o conhecimento que o usuário da língua possui sobre as regras e as características dessa língua (i.e., regras sintáticas, morfológicas e fonológicas; o vocabulário; e a ortografia) somado às suas habilidades na utilização desse conhecimento para entender e produzir enunciados. Podemos perceber que esta competência corresponde ao conceito de possibilidade formal de Hymes. Ao planejar suas aulas, o professor precisa se certificar de que está oferecendo as informações gramaticais necessárias para ajudar seus alunos a construírem os conhecimentos de que precisam para desenvolverem sua competência comunicativa. Eis alguns exemplos disso: para formar sentenças adequadas em determinadas situações discursivas, os estudantes precisam ter informações sobre tempos verbais, vozes verbais, subordinação e coordenação; para realizarem adivinhação cotextual e usarem dicionários, eles precisam ser informados acerca dos processos de formação de palavras, mais particularmente sobre o uso de afixos; para que tenham consciência de como atingir efeitos estilísticos em determinadas situações, eles devem ser informados acerca do poder expressivo das palavras. A competência sociolinguística diz respeito às regras socioculturais que regem o uso da língua. Em outras palavras, é o conhecimento e a habilidade que o usuário da língua possui para expressar e entender enunciados de um modo apropriado, de acordo com fatores sociais e culturais do contexto em que ele se encontra no momento da interação linguística, tais como os propósitos e as normas da interação e o tipo de relação que o falante-ouvinte possui com o interlocutor. Essa competência corresponde ao conceito de adequação contextual de Hymes e deixa transparecer a visão interacionista de língua. Ressalte-se que o termo apropriado, usado no parágrafo anterior, se refere tanto à forma linguística do enunciado quanto ao seu sentido. Por exemplo, a vendedora de uma joalheria de luxo estaria demonstrando falta de competência sociolinguística se dissesse algo como What’s up, bro? a um cliente que ela não conhece. Apesar de os significados lexicais que compõem seu enunciado estarem apropriados, as formas linguísticas usadas não estariam apropriadas à relação entre uma vendedora de uma joalheria de luxo e um cliente. Um exemplo de impropriedade de sentido está disponível em <www.businessknowledgesource.com>, onde encontramos informações sobre o ambiente de trabalho e sobre questões de interesse para empresários estadunidenses. Há uma página no site que trata de coisas estúpidas que as pessoas fazem e que provocam processos de assédio moral e de assédio sexual. Uma dessas coisas é a seguinte, que deixo em inglês para que você perceba o impacto que uma palavra, nesse caso, a palavra woman, pode causar no ambiente corporativo nos Estados Unidos: A group of employees, five men and one woman, are sitting in a meeting when the CEO of the company notices his coffee cup is empty. Jokingly, he hands the woman the glass and says, “Go get me some more coffee, woman”. While he may have been joking, his remark was inappropriate, offensive, and falls under the umbrella of sexual harassment. Demeaning words such as woman, broad, and bitch should be avoided in the workplace7. Saber que um determinado uso da palavra woman pode causar efeitos extradiscursivos sérios, como um processo judicial, deve fazer parte da competência sociolinguística de um usuário da língua inglesa. Vale lembrar que, ao colocar o desenvolvimento da competência sociolinguística dos alunos como um dos objetivos de suas aulas, o professor inevitavelmente também leva em consideração questões de variação linguística, de registro e de estilo no seu planejamento. Por exemplo, tomemos o enunciado Do you want me to knock you up? Se um estudante brasileiro estiver estudando inglês britânico, ele vai aprender que o verbo knock up é um sinônimo de wake up e que é usado informalmente. Agora, imaginemos que ele receba em sua casa uma estudante de intercâmbio vinda dos Estados Unidos e ele, à noite, em pé na entrada do quarto da jovem estadunidense, pergunte: Do you want me to knock you up? Não dá para sabermos a reação da estudante, mas sabemos que o verbo knock up em inglês americano é um sinônimo de get someonepregnant, usado informalmente. Situação potencialmente complicada essa, né? Por isso, é necessário sensibilizar os alunos acerca das possibilidades semânticas que a língua lhes oferece diante de situações contextuais diversas. A competência discursiva diz respeito às regras de construção textual. É o conhecimento que permite ao usuário da língua combinar formas gramaticais e lexicais para se comunicar por meio de diferentes gêneros textuais, falados ou escritos. É claro que a habilidade de usar tal conhecimento faz parte desta competência. Nossos textos precisam ter unidade, alcançada principalmente por meio da coesão, no nível linguístico, e por meio da coerência, no nível semântico, a qual depende profundamente dos conhecimentos de quem os lê. O professor atento ao desenvolvimento da competência discursiva dos seus alunos prepara atividades de produção e de recepção textual que os façam perceber, por exemplo, a função dos pronomes, dos sinônimos e das conjunções na articulação das partes de um texto. Além disso, o professor precisa ter o cuidado de expor seus alunos a gêneros textuais diversos. Atualmente, poderíamos revisar o conceito de competência discursiva proposto por Canale para nele incluirmos não apenas a coesão e a coerência, mas os outros cinco elementos de textualidade propostos por Beaugrande e Dressler: intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade e intertextualidade. A competência estratégica de um usuário da língua é o conhecimento de estratégias verbais e não verbais e a habilidade que ele possui para colocar essas estratégias em prática a fim de compensar alguma falha em uma ou mais de uma das outras competências (falha essa decorrente, por exemplo, de outra competência não muito desenvolvida, de um lapso na memória ou de um problema emocional ou físico momentâneo). Exemplos dessas estratégias de compensação são as paráfrases, as definições, o uso de sinônimos, o uso de dicionários, os gestos e os desenhos. Uma evidência concreta do funcionamento dessa competência surge quando ocorre uma lacuna funcional, que é a falta de uma palavra na nossa mente para expressarmos exatamente o que queremos falar: em inglês, quando nos esquecemos de uma palavra, lançamos mão de um arquilexema universal como stuff, thingummy e whatchamacallit. Eis um exemplo para ilustrar como a competência estratégica pode ajudar uma pessoa. Em 1983, eu me submeti a um teste de proficiência em língua inglesa, o Michigan. Naquela época, o candidato tinha 20 minutos para escrever uma redação, o que significa que, se o candidato já estivesse no meio do texto, não havia tempo para mudar o caminho percorrido uma vez iniciado. Bem, no meio da redação eu precisei escrever a palavra inglesa que corresponde ao vocábulo satélite. O problema é que eu não me lembrava da grafia dessa palavra. Como eu não queria perder pontos por ortografia, usei uma estratégia de compensação: a perífrase (ou circunlóquio). Redigi, então, o seguinte: the machine sent into space to photograph planets and comets. Assim, evitei que descontassem algum ponto da minha redação por causa de um erro de ortografia. (Depois verifiquei que a palavra de que eu precisava era satellite.) Consciente da importância de ajudar seus alunos a se tornarem autônomos, independentes, o professor de inglês precisa planejar algumas aulas com atividades cujo objetivo específico é o desenvolvimento da competência estratégica dos estudantes. Nesse sentido, é necessário que ele apresente aos seus alunos estratégias compensatórias importantes, dentre as quais destaco algumas: a perífrase, a sinonímia, a antonímia e a lítotes; a adivinhação cotextual; o uso de dicionários, em relação aos quais o professor terá de ajudar seus alunos a aprenderem sobre a inexistência de sinônimos perfeitos e sobre restrições selecionais ou de coocorrência. Hymes, Canale e Swain distinguem o conhecimento linguístico da habilidade de usar esse conhecimento. Tal distinção suscitou críticas de Kumaravadivelu (2009: 23), que não concorda com essa dicotomia e cita Halliday para sustentar sua discordância: “Não há diferença entre saber uma língua e saber como usá-la”. Ele sugere, então, um novo termo para se referir ao conhecimento linguístico do ser humano: conhecimento/habilidade linguística. É no livro Understanding Language Teaching: From Method to Postmethod que ele explicita sua escolha: “Neste livro, o termo conhecimento/habilidade linguística é usado para se referir ao nível de know- how linguístico geral que um usuário competente da língua tem, ou que um aprendiz de línguas procura ter” (Kumaravadivelu, 2009: 23). Ora, em primeiro lugar, é necessário enfatizar que a separação feita entre o conhecimento e a habilidade de usar o conhecimento é um artifício analítico, teórico, utilizado para se falar sobre algo tão complexo quanto a língua. A rigor, se uma pessoa sabe usar um determinado conhecimento é porque ela tem esse conhecimento, e se ela tem um determinado conhecimento é porque ela sabe usá-lo. Isso parece óbvio. Contudo, esse artifício analítico é pedagogicamente importante para mostrar ao professor que saber uma língua vai muito além do saber explícito ou metalinguístico, ou seja, vai além do saber falar sobre a língua, de dominar a nomenclatura gramatical. Tal artifício teórico é importante para ajudar o professor a entender que saber a língua significa ter conhecimentos implícitos sobre ela, significa saber usá-la. Em outras palavras, o conceito de competência comunicativa serve como um alerta ao professor no sentido de ele trabalhar não apenas a estrutura da língua com seus alunos, mas também os usos da língua, sua adequação sociolinguística e suas funções discursivas. Em segundo lugar, ao sugerir o termo conhecimento/habilidade linguística, Kumaravadivelu mostra que ele próprio não consegue fugir do conceito de conhecimento e do conceito de habilidade e acaba juntando-os com uma barra. Aliás, ao usar uma barra para combiná-los, ele separa os conceitos também, admitindo que o conhecimento e a habilidade sejam duas coisas distintas, que podem ser coladas uma à outra por meio de uma barra para formar um único conceito. Mas isso não cola, ou melhor, isso simplesmente não resolve a questão que ele levanta. O importante é que o conceito de competência comunicativa seja visto como uma bússola pedagógica, como mais uma ferramenta, como algo útil para orientar o professor no planejamento das suas aulas, na avaliação dos seus alunos. Obviamente, o professor deve ler essa bússola, assim como qualquer texto verbal ou não verbal, de maneira crítica. Bem, creio que o conceito de competência comunicativa está claro agora, evidenciando sua importância para as discussões sobre o ensino de línguas estrangeiras que acabaram por criar o movimento comunicativo do ensino na década de 1970. A partir daí: […] muitos professores passaram a entender que proficiência linguística não é um conceito monolítico que representa um ideal amorfo que os estudantes têm de alcançar; em vez disso, tal conceito compreende toda uma gama de habilidades que devem ser descritas de uma maneira graduada a fim de se tornar útil (Hadley, 1993: 9). Dito de outra forma: afirmar que uma pessoa é proficiente em inglês não nos informa, exatamente, acerca do que essa pessoa é capaz de fazer com a língua inglesa. Afinal, ela é proficiente em que grau? E o que ser proficiente em um determinado grau ou nível significa? Foi aí que o conceito de competência comunicativa desempenhou um papel essencial na definição de proficiência: proficiente passou a ser entendido como competente para comunicar-se usando uma língua estrangeira. Theodore Higgs e Ray Clifford fazem um comentário bem lúcido a esse respeito, que vale a pena ser transcrito aqui: Um estudante não pode meramente ser declarado competente na comunicação. As funções comunicativas que ele é competente para desempenhar precisam ser especificadas. O grau de proficiência exigido para se sobreviver como um turista não é o mesmo que aqueleexigido para se negociarem tratados. Qualquer um percebe que os assuntos e as funções linguísticas necessários para discutir ideias abstratas diferem daquelas usadas para dizer a alguém suas necessidades imediatas ou suas últimas férias na Europa… Nós devemos dizer [aos nossos alunos] não que eles são competentes para falar alemão, mas, sim, que eles são competentes para cumprir obrigações sociais e realizar rotinas físicas em um ambiente onde o alemão é falado (Higgs, Clifford apud Hadley, 1993: 9). Então, ser proficiente em inglês significa ser competente para se comunicar usando essa língua. Significa ser capaz de, entre outras coisas, realizar funções comunicativas como, por exemplo, convidar alguém para um evento, fazer um pedido em um restaurante, comprar livros pela internet, escrever um e-mail reclamando de um serviço prestado por um órgão público, compreender uma palestra, redigir um artigo. Portanto, um estudante que precisa aprender a realizar funções comunicativas para fazer viagens turísticas pode se sentir proficiente para o que ele precisa fazer, mesmo que não saiba como expressar ideias abstratas ou negociar tratados políticos. Contudo, se esse mesmo estudante decidir estudar em uma universidade nos Estados Unidos, o grau de proficiência que ele considera suficiente para fazer turismo não será suficiente para acompanhar as aulas e para realizar as atividades acadêmicas. Um teste de proficiência tem o objetivo de medir o quanto um usuário da língua conhece essa língua e isso é feito em termos do que ele pode realizar com ela. Ou seja, que gêneros ele é capaz de escrever e ler, que palavras ele conhece receptiva e produtivamente, que funções comunicativas ele é capaz de realizar. Em suma, dizer que uma pessoa é proficiente em inglês não significa claramente algo específico, pois há níveis de proficiência. E um estudante pode desejar ou precisar atingir um determinado nível de proficiência diferente daquele desejado ou necessitado por outros estudantes. Isso nos leva a outra questão importante: as razões pelas quais os brasileiros estudam inglês. 1.7. Por que os brasileiros estudam inglês? Falar das razões pelas quais os brasileiros estudam inglês parece ser a mesma coisa que falar de algo óbvio. Afinal, o ato de estudar a língua inglesa é tão divulgado por meio de anúncios publicitários e pelo currículo escolar que já tomou contorno de senso comum, que já se naturalizou na mente dos brasileiros. Evidência disso é o fato de muitos pais com bons recursos financeiros se perguntarem quando colocarão seus filhos para estudarem inglês: note-se que eles não se perguntam se os filhos estudarão uma língua estrangeira, p. ex.: japonês, alemão, iorubá ou árabe, nem se seus filhos estudarão inglês. Eles se perguntam quando seus filhos começarão a estudar inglês. Tal pensamento não é casual: ele resulta de um processo intenso de construção de valores ideológicos por parte das agências governamentais britânicas e estadunidenses. É um processo histórico atrelado ao imperialismo econômico da Inglaterra e dos Estados Unidos. Assim, a primeira razão pela qual os brasileiros estudam inglês é de natureza geopolítica: o imperialismo britânico no século XIX e começo do século XX e o imperialismo estadunidense no século XX foram determinantes para a expansão do uso da língua inglesa, que, a rigor, começou a assumir o status de língua franca no Ocidente após a Segunda Guerra Mundial, consolidando-se como tal com a intensificação da globalização no final do século passado. Obviamente, o imperialismo está inexoravelmente vinculado ao domínio econômico e aos domínios bélico, político e cultural que resultam do poder econômico8. Em 1934, no Rio de Janeiro, foi fundada a Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa. No ano seguinte, criava-se uma filial da Cultura Inglesa em São Paulo. Dali em diante, muitas outras seriam criadas. O caráter ideológico dessa fundação pode ser vislumbrado em uma ação curiosa realizada em 1938: o então Ministro das Relações Exteriores, Graça Aranha, foi nomeado presidente honorário dessa Sociedade. E houve outros episódios que evidenciam a natureza política da Cultura Inglesa, como revelam estas informações disponíveis no site da filial da Cultura Inglesa em Patos, Paraíba, estado onde essa instituição se instalou em 1957: […] em 1959, no ano festivo do 25º aniversário da Cultura Inglesa no Brasil, o Presidente Juscelino Kubitschek participou da Festa de Encerramento do Ano Letivo no Rio de Janeiro, como convidado de honra. Neste ano o Príncipe Philip também visitou as instalações da Cultura Inglesa. Em 1977 o Príncipe Charles inaugurou a nova sede da Cultura Inglesa em Brasília. Chegando ao 50° aniversário em 1984, a Cultura Inglesa se consolidava nos principais centros do Brasil, mas sempre com crescimento controlado pela firme determinação de nunca abrir mão da qualidade do seu trabalho9. Ministro de Estado, presidente da república, príncipe britânico… São personagens por demasiado importantes para um supostamente simples instituto de idiomas, o que aponta para a complexidade das relações políticas e ideológicas subjacentes à celebração daquele aniversário. E que se enfatize o advérbio supostamente. Afinal, mais do que ensinar inglês, o objetivo de expandir a cultura do império britânico veio cravado no próprio nome da instituição. Em outras palavras, esse instituto de idiomas não é simplesmente uma escola onde se aprende uma língua: é um instrumento de expansão dos valores ideológicos do imperialismo britânico. Mas a Inglaterra não estava sozinha nesse processo de expansão ideológica da língua inglesa. A influência dos Estados Unidos sobre a América Latina começou a tomar contorno durante a Segunda Guerra Mundial e se consolidou no período da Guerra Fria. A materialização desse processo em nosso país não se deu apenas com a intensificação da entrada de bancos e de empresas, mas também, e principalmente, com a disseminação de seus símbolos culturais. E que símbolo cultural é mais poderoso do que a língua? Não por acaso, o governo estadunidense não poupou esforços para ajudar a divulgar sua língua, contribuindo substancialmente para a criação dos chamados centros binacionais no Brasil. É curioso observarmos, no quadro abaixo, os anos de fundação de alguns desses centros em algumas cidades brasileiras: CENTRO BINACIONAL CIDADE ANO DE FUNDAÇÃO IBEU Rio de Janeiro 1937 UCBEU São Paulo 1938 ACBEU Salvador 1941 ICBEU Belo Horizonte 1949 CCBEU Belém 1955 ICBEU Manaus 1956 ALUMNI São Paulo 1961 CCBEU Goiânia 1963 Casa Thomas Jefferson Brasília 1963 CCBEU Campinas 1963 Esses centros, como o próprio modificador binacionais aponta, têm uma relação estreita com agências governamentais estadunidenses, como o USIS (Serviço de Informação dos Estados Unidos) e o consulado. Na década de 1970, o inglês já havia tomado o lugar do francês na maioria das escolas de ensino médio no Brasil. Em 1972, comecei a estudar no Colégio Dois de Julho, em Salvador. Naquele ano, não se ensinava mais francês ali, o que mostra como decisões curriculares do Ministério da Educação haviam sido influenciadas pelo poder dos ingleses e dos estadunidenses. Afinal, se houvesse vontade política, o francês poderia ter sido mantido como uma forma de resistência à ideologia anglo-saxã ou, em uma posição mais radical, não se incluiria nenhuma língua estrangeira no currículo escolar. Edward Said, analisando o projeto estadunidense de influenciar ideologicamente a América Latina, faz um comentário relevante acerca do patrocínio que o crítico literário Richard Blackmur recebeu da Fundação Rockfeller nos anos 1950: Mesmo um analista de poesia tão cerebral e sutil como R. P. Blackmur, provavelmente o maior leitor crítico que os Estados Unidos já produziram, fez uma primeira aliança com a Fundação Rockfeller, não apenas para financiar a sua extraordinária série de seminários em Princeton (cujos membros incluíam figuras como Erich Auerbach, Jacques Maritain e Thomas Mann), mas também para realizarvárias viagens ao Terceiro Mundo para, entre outras coisas, avaliar a profundidade da influência americana naquelas regiões (Said, 2007: 57). O projeto de expansão da cultura anglófona é, sim, inequívoco, inegável, por mais camuflado que possa estar. E a Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa e os centros binacionais Brasil-Estados Unidos são peças fundamentais nesse projeto. Fica muito claro que houve, por parte da Inglaterra e dos Estados Unidos, uma política deliberada e consistente de incentivo à criação de institutos de idiomas para consolidar a sua influência ideológica no Brasil. Foi essa influência que desempenhou um papel fundamental na construção do mito de que todos os brasileiros precisam aprender inglês para serem profissionalmente bem-sucedidos. E é um mito porque, obviamente, muitas profissões não exigem o conhecimento da língua inglesa e porque muitas pessoas que dominam a língua inglesa não conseguem um emprego bem remunerado, quando conseguem um emprego. Aliás, não devemos nos esquecer do fato de muitos institutos de idioma pagarem horas-aula baixíssimas aos professores de inglês e violarem a lei trabalhista que diz respeito à isonomia salarial, pagando horas-aula diferentes para os professores (alguns institutos chegam ao cúmulo de rotularem os professores de “instrutores” para pagarem um salário menor, o que também está em desacordo com as leis trabalhistas). Esse mito, obviamente, não se limita ao Brasil, já que o imperialismo britânico e o imperialismo estadunidense buscaram inserção em países da América Latina, da África e da Ásia, fomentando a indústria da língua inglesa, que virou uma espécie de produto comercial que gera lucros enormes para editoras estadunidenses e britânicas e para institutos de idiomas. Há uma indústria de materiais didáticos que vende desde livros até DVDs, CDS e softwares. Há uma indústria de cursos de inglês, na qual se encontram inclusive franquias que patrocinam clubes de futebol do porte de São Paulo, Corinthians e Palmeiras, e outra franquia que já contratou, para campanhas publicitárias, personalidades midiáticas do porte de Arnold Schwarzenegger, Mike Tyson, Megan Fox, Bruce Willis, Samuel L. Jackson e Jessica Alba, evidenciando que elas ganham muito, mas muito dinheiro mesmo (bem que a hora-aula paga aos professores poderia ser hollywoodiana, né?). E não podemos nos esquecer de que há uma indústria de certificados de proficiência em língua inglesa que gera milhões para a Universidade de Cambridge e para a organização sem fins lucrativos (?!) English Testing Service e seus intermediários. Canagarajah não deixa escapar as relações ideológicas e comerciais existentes entre o ensino de inglês em países periféricos e as organizações que lidam com esse ensino: As organizações de ensino da língua inglesa dos países centrais, tais como a TESOL e a IATEFL10, por exemplo, são consideravelmente influenciadas pelos interesses comerciais das instituições de pesquisa e das editoras, e pelos interesses ideológicos das agências governamentais, mesmo que elas sejam funcionalmente independentes para desenvolver seus próprios programas (Canagarajah, 2009: 81). Enfim, a razão principal para o inglês ser a língua mais estudada no Brasil desde a década de 1960 é geopolítica: o imperialismo econômico, político e cultural da Inglaterra e, principalmente, dos Estados Unidos em relação à América Latina. Tal fato tem uma implicação pedagógica importante: o professor precisa estar atento aos valores ideológicos veiculados pelos livros didáticos editados nos Estados Unidos e na Inglaterra. Por exemplo, é comum vermos nos livros didáticos personagens representando imigrantes estrangeiros na terra do Tio Sam, todos felizes, trabalhando e/ou estudando. O problema é que a realidade está distante disso para a maioria dos estrangeiros que vão para lá, especialmente latino-americanos, africanos e asiáticos. A tensa relação entre os cidadãos estadunidenses e, por exemplo, os imigrantes latinos, que gera situações de preconceito contra os latinos, não é problematizada nos livros didáticos, contribuindo para naturalizar uma ideia falsa de relação harmônica entre os estadunidenses e os estrangeiros oriundos de países subdesenvolvidos. Por isso, é importante que o professor instigue seus alunos a questionarem, a analisarem criticamente, os conteúdos e os valores veiculados nos materiais didáticos. Bem, tendo consciência dessa questão geopolítica, ideológica, o professor precisa estar atento às outras razões pelas quais os brasileiros estudam inglês. Tais razões têm natureza instrumental, ou seja, está relacionada a propósitos funcionais, que podem ser genéricos ou específicos (mas que são consequências da influência geopolítica). O propósito funcional genérico é o que costuma levar brasileiros a estudarem inglês para realizar atividades variadas, como, por exemplo, ler livros, jornais e revistas; escrever e-mails e cartas; compreender músicas, filmes e palestras; participar de redes sociais. Para isso, os brasileiros costumam procurar um instituto de idiomas para aprender inglês — e encontram um facilmente. Até em shopping centers pode-se encontrar um curso de inglês! Contudo, quando a razão é um propósito específico, fica mais difícil encontrar uma escola para isso. Por exemplo, imagine que uma pessoa queira aprender a falar e a entender inglês apenas para atender clientes em seu bar, que fica localizado numa área de visitação turística. Agora imagine outra pessoa que quer aprender a ler textos acadêmicos da área de medicina, mas que não tem interesse em falar, ouvir ou escrever em inglês. Agora pense: onde eles podem estudar inglês com esses propósitos na sua cidade? Fica mais difícil encontrar um lugar para isso, pois os cursos de inglês em geral oferecem um pacote pronto baseado no propósito funcional genérico. De qualquer forma, o professor precisa ficar atento às necessidades linguísticas dos seus alunos para que possa ajudar a satisfazê-las. Portanto, é interessante, no primeiro dia de aula, conversar com os alunos para perguntar-lhes quais são suas necessidades, perguntar por que eles estão estudando inglês. Às vezes, a razão pela qual um determinado aluno quer estudar inglês não se coaduna com os objetivos do curso em que ele se matriculou e, nesse caso, o professor precisa falar sobre isso com ele e até sugerir que cancele a matrícula e procure outro instituto de idiomas, se for o caso (embora o dono do instituto não vá gostar nem um pouco dessa sugestão). Vamos agora à última seção deste capítulo, a qual trata de um conceito importante para o professor de inglês: método. 1.8. O que é método? Independentemente das concepções de ensino e de língua adotadas pelo professor de inglês, suas aulas são a concretização de um planejamento que pressupõe alguns princípios teóricos que estabelecem o que será ensinado, como e por que isso será ensinado. E, desde o começo do século XX, há uma indústria de métodos de inglês, em que se empacotam princípios teóricos, técnicas, comportamentos de professores e alunos naquilo que é chamado de método por uns e abordagem por outros. Estas duas palavras são muito pronunciadas, mas suas definições não vêm facilmente à mente de professores, provavelmente por não serem usadas de forma consistente e unânime na literatura sobre ensino de línguas estrangeiras e por, aparentemente, não fazerem falta ao professor. Mas, como diz o ditado, as aparências enganam. Todo professor de inglês tem a obrigação pedagógica de saber o que é método de ensino, mesmo que seja para tomar a decisão de não adotar um determinado método ou de se recusar a usar esse conceito. Veremos aqui o conceito de método mais popular entre os formadores de professores de inglês, proposto por Jack Richards e Theodore Rodgers (1994): conjunto de princípios teóricos, princípios organizacionais e ações práticas que norteiam a estruturação de um curso, o planejamento das aulas, a avaliação da aprendizagem e a escolha de materiais didáticos. Dito de outra forma, o métodoé composto de três partes: a abordagem, o design e o procedimento. A abordagem é o sustentáculo teórico do método. Ela é formada por uma teoria de língua, que aponta para uma forma de se conceber a língua, e por uma teoria de aprendizagem, que aponta para uma forma de se conceber a aprendizagem. As teorias de língua e as teorias de aprendizagem têm, assim, uma importância fundamental para a prática docente, pois é com base nelas que o professor toma decisões pedagógicas, seleciona materiais didáticos e avalia políticas educacionais. Na segunda seção deste capítulo, vimos duas teorias da aprendizagem: a behaviorista e a cognitivista. Na terceira seção, vimos duas teorias da língua: a estruturalista e a interacionista. Por isso, não vou tratar delas aqui novamente. Apenas reforço a importância de o professor de inglês estar consciente de quais teorias dão sustentação à sua prática em sala de aula, independentemente de adotarem o conceito de método ou de abordagem. O design se constitui no delineamento organizacional do curso ou da disciplina (neste caso, costumamos falar em plano ou programa de disciplina). Essa organização é feita com base nos princípios teóricos explicitados pela abordagem. No design, são explicitados aspectos importantes do método: os objetivos da disciplina; o syllabus11; os tipos de atividades a serem usadas em sala de aula; e os papéis que alunos, professor e materiais didáticos desempenham no processo de ensino e aprendizagem. Entenda-se “disciplina” aqui como o componente do currículo de língua inglesa de uma escola ou de uma faculdade, ou como o nível de estudo de um instituto de idiomas (geralmente chamado de livro ou de semestre ou de nível). Enfatize-se a importância das teorias de língua e de aprendizagem na configuração do design: são elas que determinam cada um dos seus elementos. Por essa razão, o professor de inglês não pode dar as costas para teorias simplesmente por considerar as leituras teóricas chatas. Por exemplo, se o professor adota a teoria estruturalista de língua, a tendência é que o syllabus do seu curso seja composto primordialmente de estruturas sintáticas. Diferentemente, se a teoria interacionista de língua é adotada, o syllabus vai girar primariamente em torno de funções comunicativas e tarefas. O procedimento é o conjunto de ações práticas que implementam o que está delineado no design, que, vale lembrar, é o elemento organizacional do método, o qual, por sua vez, é delineado pelos princípios teóricos contemplados pela abordagem. No procedimento, encontram-se explicitadas as técnicas didáticas, as práticas docentes e os comportamentos que se esperam dos estudantes durante a aula, como, por exemplo, o trabalho em duplas e o trabalho em trios. Em outras palavras, o procedimento esclarece como o professor usa as atividades e o material didático e como avalia a aprendizagem dos seus alunos. Por exemplo, se a teoria de aprendizagem adotada é a behaviorista e se a teoria de língua adotada é a estruturalista, os exercícios de repetição, de substituição e de transformação serão procedimentos fundamentais nas aulas do professor, que fará o possível para criar nos alunos os hábitos que ele considera como corretos, não dando espaço para erros. Contudo, se o professor adotar a teoria interacionista de língua e a teoria construtivista de aprendizagem, tarefas de interação social, de comunicação e de conscientização linguística serão o eixo em torno do qual suas aulas girarão. Além disso, ele aceitará os erros dos alunos como parte natural do processo de aprendizagem e os interpretará didaticamente para decidir o que fazer a respeito deles. Logo a seguir está um esquema gráfico, baseado em um esquema apresentado por Richards e Rodgers (1994: 28), que ilustra a composição do método: A tentativa de Richards e Rodgers de sistematizar, em três níveis, os métodos de ensino não ficou isenta de críticas. Alastair Pennycook faz uma crítica importante: “O conceito de método é basicamente prescritivo em vez de descritivo: em vez de analisar o que está acontecendo nas salas de aula de línguas estrangeiras, ele é uma prescrição para os comportamentos em sala de aula” (Pennycook, 1989: 609). Para ele, a legitimação acadêmica dos métodos tem um beneficiário bem claro: a indústria editorial. Afinal, os lucros que a venda de livros didáticos, CDs, DVDs, dicionários bilíngues e outros materiais proporciona a empresas como a Cambridge University Press, a Oxford University Press e a Longman são astronômicos. Para Kumaravadivelu (2009), um modelo de três níveis como esse torna difícil manter cada nível separado do outro de maneira clara, sem sobreposições e sem redundância. Essa crítica procede. Por exemplo, ao contrastarmos o nível do design e o nível do procedimento, percebemos a redundância e a sobreposição apontadas por Kumaravadivelu: os tipos de atividades não deixam de ser parte das técnicas; os papéis dos alunos e os comportamentos se confundem; e as técnicas e os papéis do professor também se confundem. Isso faz com que a análise de métodos de ensino seja subjetiva, que dependa da interpretação do analista. Kumaravadivelu vê outro problema no modelo de Richards e Rodgers: […] um arcabouço de três níveis abre a porta para uma interpretação que é ainda mais infeliz e, talvez, não intencional. Ou seja, o arcabouço parece tratar a abordagem como uma atividade de um teórico ou de um pesquisador, o design como uma atividade de um produtor de materiais ou de um elaborador de conteúdos programáticos, e o procedimento como uma atividade que o professor e o aluno fazem em sala de aula (Kumaravadivelu, 2009: 87). Sua crítica procede se concordarmos com uma suposição não dita, mas presente nas entrelinhas do texto de Kumaravadivelu: a pressuposição de que o professor é um mero reprodutor passivo de modelos teóricos. Eu não concordo com essa pressuposição. Há casos, sim, em que o professor é obrigado pelo instituto de idiomas a seguir determinados procedimentos, clara e inequivocamente especificados no manual do professor — se ele decidir fazer as coisas de forma diferente, será despedido. Contudo, afora casos como esses, o professor tem inteligência e autonomia suficientes para fazer leituras e reflexões e, assim, não aderir estritamente a tudo o que um método prescreve. Não acho interessante fazer da mente do professor uma tabula rasa. Outro ponto levantado por Kumaravadivelu é o fato de os termos método e abordagem serem usados de forma intercambiável por alguns teóricos. Por exemplo, Edward Anthony, em 1963, publicou um texto em que define método de uma forma semelhante à definição de design feita por Richards e Rodgers. Isso contribuiu para que os termos método e abordagem passassem a ser usados por professores de inglês de uma maneira inconsistente. Outro exemplo: Peter Skehan refere-se ao procedimento PPP (iniciais das palavras Presentation, Practice, Production) como se fosse uma abordagem: “A tradicional abordagem para o ensino de línguas é PPP: apresentação, prática e produção” (Skehan, 1996: 17)12. Já Michael Lewis define abordagem como sendo um conjunto integrado de crenças incorporado a um método ou a um syllabus. Métodos são entendidos como sendo teorias de ensino de línguas por Nagore Prabhu (1990). Um último exemplo: veja este trecho da Introdução do livro Methods that Work: A Smorgasbord of Ideas for Language Teachers, organizado por John Oller e Patricia Richard-Amato (1983: xi): Nossa meta foi oferecer métodos testados e comprovados e, em geral, nós direcionamos nossa atenção para aqueles que têm sido testados em salas de aula — frequentemente as nossas próprias salas. Contudo, algumas observações de uma inclinação teórica distinta estão incluídas com base no velho adágio de que “nada é tão prático quanto uma boa teoria”. Outro critério para a seleção foi se determinada abordagem parecia exigir atenção ao sentido. Se não parecia, nós a excluímos. Com a possível exceção dos “Jazz Chants” de Graham […], todos os métodos incluídos focam a atençãoprimeiramente e principalmente no sentido (grifos dos autores). Observe como Oller e Richard-Amato usam os termos método e abordagem indistintamente e como eles chamam de método aquilo que para Richards e Rodgers é uma técnica, i.e., os Jazz Chants. Enfim, a inconsistência quanto ao uso dos termos método e abordagem é evidente. Entretanto, apesar das críticas apresentadas por Kumaravadivelu, as tentativas de criar um modelo teórico que desse conta de explicar os métodos de ensino, como os propostos por Richards e Rodgers e por Anthony, foram muito importantes porque contribuíram para conscientizar os professores de inglês da importância de sistematizarem os elementos teóricos envolvidos no ensino de uma língua estrangeira, mesmo que a sistematização ocorra de uma forma totalmente diferente daquela vislumbrada por esses autores. No capítulo 5, aprofundarei a discussão sobre o conceito de método. Antes de finalizar este capítulo, gostaria de enfatizar a importância de o professor conhecer um pouco de teoria para que sua prática pedagógica seja realizada de forma consciente. É necessário que o professor se pergunte sobre a teoria de língua e sobre a teoria de aprendizagem que dão sustentação à sua prática pedagógica. Além disso, ele precisa verificar se o conteúdo constante no programa da disciplina, se as atividades que realiza e as técnicas que utiliza em sala de aula estão de acordo com essas teorias. Nos próximos três capítulos, apresento informações sobre as propostas metodológicas mais importantes do século XX, que continuam exercendo influência (algumas mais do que as outras) no ensino de inglês como língua estrangeira. O capítulo dois Os primeiros métodos número de pessoas interessadas em aprender uma língua estrangeira cresceu vertiginosamente nos anos 1940 e se mantém num patamar elevado até hoje. Ainda é grande o número de institutos de idiomas e o número de programas de intercâmbio na América Latina. Na Europa Ocidental, aprende-se a falar uma ou mais línguas estrangeiras na educação básica, por causa do intenso intercâmbio comercial, político e cultural entre os países daquele continente. Entretanto, engana-se quem pensa que o ensino de línguas estrangeiras é um fenômeno que teve início na primeira metade do século XX. O título de uma importante obra sobre a história do ensino de línguas, de autoria de Louis Kelly (1969), já aponta para esse engano: 25 Centuries of Language Teaching. Apesar de tantos séculos de ensino de línguas estrangeiras, muitos autores e cursos de formação de professores de inglês costumam adotar uma postura ortodoxa, apresentando a história do ensino de línguas estrangeiras como se ela tivesse início no final do século XIX e seguisse um movimento linear a partir desse ponto, como se cada proposta metodológica feita fosse absolutamente original e sucedesse outra. Na verdade, conforme aponta Pennycook (1989) a partir da sua leitura da obra de Kelly (1969), a história do ensino de línguas sempre vivenciou ciclos: princípios teóricos e técnicas em voga em uma época desaparecem por um tempo e ressurgem em outra época, às vezes, com uma nova roupagem, e os ciclos vão se sucedendo uns aos outros. Dou foco, neste capítulo e nos próximos dois, à visão histórica ortodoxa ocidental dos métodos e apresento linearmente as propostas teóricas para o ensino de línguas estrangeiras, seguindo praticamente a mesma lógica usada por Richards e Rodgers (1994) e por Larsen-Freeman (1986) na apresentação dos métodos. Escolhi esse percurso pelo fato de eles serem os teóricos mais citados nos cursos de treinamento de professores de inglês no Brasil no que diz respeito a essa temática. Dessa forma, capitalizo o conteúdo tradicionalmente oferecido aos professores brasileiros na maioria dos TTCs. 2.1. Método de gramática e tradução A história do ensino de línguas estrangeiras está inexoravelmente vinculada à história do imperialismo e do colonialismo, que se materializa na dominação cultural, explícita ou implícita, de um povo sobre outros e que passa inevitavelmente pela inserção da língua do dominador na vida dos dominados. Esse é o caso do Império Romano. Quando os romanos decidiram sair pelo mundo afora expandindo seu império, os povos por eles dominados foram obrigados a adotar o latim, numa clara demonstração do caráter político-ideológico das línguas. Contudo, os conquistadores permitiam que os povos subjugados continuassem usando as línguas que já existiam nos seus territórios antes da invasão. Assim, a convivência do latim com outras línguas ao longo do tempo resultou no surgimento das línguas românicas, como o português, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno. Com o término do Império Romano, no final do século V d.C., o latim falado desapareceu, e as línguas românicas seguiram o curso da sua existência, mantendo em sua memória a herança imperialista: seu parentesco com a língua latina. O latim escrito, ou o latim literário, porém, continuou a existir, já que as obras dos grandes escritores clássicos, como Virgílio e Cícero, estavam escritas naquela língua e continuavam a ser objeto de pesquisa de estudiosos na Europa Ocidental. No século VI d.C., as línguas românicas adquiriram o status de línguas nacionais. Entretanto, foi apenas três séculos depois que as obras clássicas começaram timidamente a ser publicadas nessas línguas. Isso fez com que o ensino do latim como língua estrangeira ainda continuasse por muito tempo, pois os estudiosos preferiam estudar as obras clássicas no original, em latim e, assim, tinham de aprendê-lo. Obviamente, ao falarmos da Antiguidade, não podemos nos esquecer da cultura grega, que influenciou definitivamente o pensamento ocidental e legou à humanidade grandes pensadores e escritores como Aristóteles, Platão, Sócrates e Homero. Foi essa influência que fez do grego clássico o objeto de aprendizagem dos estudiosos interessados em ler as obras dos escritores gregos no original. Contudo, o latim era mais estudado do que o grego clássico, até mesmo por causa da mais recente dominação e influência do Império Romano sobre grandes partes do mundo. Dessa forma, o latim e o grego clássico foram as duas línguas estrangeiras mais ensinadas na Europa, logo após a queda de Roma, com o objetivo de formar leitores de textos literários. Além desse objetivo, dado o grau de complexidade gramatical dessas duas línguas, acreditava-se que o seu ensino fosse importante para o desenvolvimento intelectual do estudante, o que justificava a presença do latim como língua estrangeira nos currículos das escolas europeias ainda no século XVI. Vale notar que havia pessoas que estudavam as línguas modernas já no século XVII. Entretanto, o ensino dessas línguas se dava em pequena escala e geralmente era realizado por um tutor particular. A principal preocupação das escolas era, sim, o ensino de latim e, em menor escala, de grego, conforme nos informa Anthony Howatt (1991: 32). Ora, uma pergunta importante e inevitável surge nas mentes curiosas: como essas línguas eram ensinadas diante daqueles dois objetivos? Como o professor pretendia ajudar seus alunos a aprenderem a ler textos literários e a exercitar suas mentes em busca de desenvolvimento intelectual? Em outras palavras: que método de ensino era usado? Desde a primeira década do século XIX, de acordo com Kelly (1969), uma forma adotada pelos professores para ensinarem o latim e o grego clássico se baseava no uso da tradução e no estudo do vocabulário e das estruturas sintáticas. Por essa razão, essa forma de ensino passou a ser conhecida como método de gramática e tradução, o qual é tratado em muitos cursos de treinamento de professores como sendo o primeiro método de ensino de línguas estrangeiras de que se tem notícias, ignorando-se a precedência temporal de formas embrionárias do método direto. A lógica que permeava a cabeça dos professores que adotavam o método de gramática e tradução era bem clara: se um dos objetivos do ensino de línguas estrangeiras é levar o estudante a se tornarum leitor fluente, então a melhor forma de se atingir esse objetivo é por meio do estudo das estruturas gramaticais da língua estrangeira e da tradução dos textos em língua estrangeira para a língua materna e da tradução dos textos em língua materna para a língua estrangeira. Essa lógica ainda é seguida por muitos professores pelo mundo afora (inclusive no Brasil), com algumas variações. O ensino da gramática tem uma característica bem específica no método de gramática e tradução: ele é feito de forma dedutiva. O professor apresenta formalmente as regras sintáticas, geralmente usando quadros de elementos gramaticais e paradigmas sintáticos, sem deixar de apresentar também as famigeradas exceções às regras. Depois ele aplica as regras a exemplos cuidadosamente escolhidos para encaixarem direitinho nas regras apresentadas, o que aponta para uma tendência a se ignorarem determinadas variações linguísticas. Em seguida, os alunos têm de aplicar as regras em exercícios de tradução com o intuito de evidenciarem que não apenas compreenderam a apresentação das estruturas gramaticais, mas que também aprenderam as regras. Por exemplo, um professor de inglês apresenta o present progressive (ou present continuous, como preferem alguns) a uma turma de estudantes brasileiros. Ele explica que esse tempo verbal é formado pelo presente simples do verbo auxiliar BE seguido do particípio presente do verbo principal, cuja terminação é o morfema –ing. Depois, ele coloca, no quadro, sentenças que ilustram essa estrutura gramatical, como, por exemplo, as seguintes sentenças retiradas do romance Pride and Prejudice, de Jane Austen: ▪ You are always buying books ▪ I am talking of possibilities, Charles. O professor traduz essas sentenças para o português. Em seguida, ele coloca na lousa sentenças em inglês para os alunos traduzirem para o português e sentenças em português para que eles traduzam para o inglês, praticando esse tempo verbal. Finalmente, ele verifica o que os alunos fizeram e corrige os erros que surgirem, fornecendo uma tradução correta. Um fato importante relacionado ao foco dado ao ensino formal de gramática pelo método de gramática e tradução foi a demanda que ele criou por gramáticas que pudessem ser usadas nas aulas. Foi por essa razão que as gramáticas começaram a ser elaboradas e publicadas na Europa para serem vendidas às pessoas interessadas em aprender línguas, segundo nos informa Kelly (1969). Conforme mencionei anteriormente, os professores que adotavam o método de gramática e tradução para o ensino de latim e de grego acreditavam que o estudo das estruturas sintáticas fazia com que os estudantes exercitassem a mente. Entretanto, essa ideia sempre foi baseada em intuição e não em pesquisas e em considerações teóricas que a corroborassem. Na verdade, o estudo de qualquer coisa que envolva raciocínio abstrato, como a sintaxe de uma língua, a resolução de problemas matemáticos, o jogo de xadrez ou as composições de música clássica, faz com que a mente seja exercitada. E “o estudo da gramática é de grande importância para o desenvolvimento mental da criança”, como já explicou Vygotsky (1995: 86). Obviamente, além do estudo da gramática, os estudantes realizam estudos do vocabulário da língua-alvo para desenvolverem sua capacidade tradutória. A tradução, fundamental para o método de gramática e tradução, tem implicações pedagógicas importantes. Uma delas é a falta de espaço para a prática da oralidade na sala de aula, já que a língua materna é usada pelo professor e pelos alunos. Assim, basta que o professor lance mão da tradução para esclarecer dúvidas e para explicar qualquer ponto gramatical ou item de vocabulário. E os alunos fazem o mesmo: usam sua língua materna para a interação na sala de aula. Resultado: as habilidades de fala e de compreensão oral simplesmente acabam não sendo alvo da atenção do professor, que as ignora solenemente. Afinal, tudo é traduzido. Outra implicação está relacionada à composição da turma de alunos: eles devem ser falantes da mesma língua materna, senão o professor vai ter grandes dificuldades de gerenciar as aulas. E por que a dificuldade? Simplesmente porque o professor teria de dominar as línguas faladas por todos os alunos da turma. Ao uso da tradução para o ensino e a aprendizagem de línguas estrangeiras subjaz uma questão ideológica importante: a tradução confere à língua materna dos alunos um lugar na sala de aula. Isso é muito positivo por valorizar a língua que os alunos dominam e que é constitutiva de suas identidades. Sendo o desenvolvimento da capacidade de leitura o principal objetivo do método de gramática e tradução e sendo a tradução a base para isso, aliada ao estudo das estruturas sintáticas e do vocabulário, os estudantes acabam por desenvolver também a escrita, embora não com um intuito comunicativo ainda. De acordo com Larsen-Freeman (1986), isso evidencia que a habilidade de se comunicar não é um dos objetivos do método de gramática e tradução. Os significados são sempre veiculados por meio da língua materna dos alunos e as perguntas sobre os textos lidos são elaboradas pelo professor nessa língua. Por essa razão, esse método é também chamado por alguns teóricos de método indireto, já que a língua materna serve de intermediária entre a língua-alvo e os alunos na construção dos sentidos textuais. Obviamente, o nome faz uma referência não dita ao método direto, que será tratado na próxima seção. Outra implicação, curiosa, do uso da tradução na sala de aula é o fato de o professor que adota o método de gramática e tradução não precisar saber falar a língua-alvo. Isso me faz lembrar um famoso professor de inglês de cursinhos pré-vestibulares de Salvador, na década de 1990, que dizia aos alunos que não é preciso saber falar inglês para ensiná-lo a pré- vestibulandos. O discurso desse professor deixa bem claro que ele adotava o método de gramática e tradução. E ele não é o único professor de inglês no Brasil que não sabe falar inglês — há muitos professores nas escolas públicas que não sabem falar inglês, mas que, estranhamente, são licenciados por cursos de letras de faculdades particulares e de universidades públicas federais e estaduais, reconhecidos pelo Ministério de Educação (MEC). Bem, no século XVIII, as chamadas línguas modernas, como alemão, inglês e francês, começaram a ser incluídas nos currículos escolares europeus. E o método de gramática e tradução passou a ser usado também no ensino dessas línguas. À medida que o mundo caminhava para o século XX, os avanços tecnológicos surgiam e os avanços que já haviam ocorrido iam se aperfeiçoando e se consolidando, o que causaria um impacto profundo no ensino de línguas estrangeiras. Aquele século colhia os frutos da máquina a vapor, principal responsável pelas Revoluções Industriais que modificaram a história econômica e social da humanidade de forma definitiva. Os viajantes passaram a dispor do avião a jato, relegando os navios ao transporte de carga e ao que veio a ser conhecido por cruzeiro marítimo. O telefone começava a conectar o mundo de uma forma nunca antes vista e o rádio dava o ar da sua graça nas casas de muitos países. Enfim, a comunicação e o contato cultural entre as diversas sociedades ocidentais e orientais nunca mais seria a mesma. E o ensino de língua estrangeira, também não. O ensino de uma língua estrangeira não muda de repente. O método de gramática e tradução continuou nas salas de aula nos séculos XIX e XX, mas não satisfazia as novas necessidades de comunicação entre falantes de línguas diferentes provocadas pelas inovações tecnológicas, que começaram a intensificar a aproximação entre as pessoas de partes distantes do mundo. Mais do que ler textos literários, as pessoas queriam ouvir e falar com outras pessoas em diferentes partes do mundo, queriam ler o que elas escreviam e queriam escrever para elas. Enfim, as pessoas desejavam se comunicar e interagir socialmente com pessoas de outras culturas, o que motivou a busca por outras formas de se ensinaremlínguas estrangeiras, como veremos mais adiante. Mas, antes de passarmos à próxima seção, vale ressaltar que o método de gramática e tradução ainda é muito usado no Brasil, tanto em escolas de ensino fundamental e de ensino médio quanto em muitos cursos superiores de língua instrumental. Obviamente, algumas modificações se processaram nesse método nas últimas décadas, como, por exemplo, o uso de textos não literários para o desenvolvimento da capacidade leitora dos estudantes. Nas escolas de ensino fundamental e médio em que a língua ensinada é o inglês, o uso do método de gramática e tradução é justificado, principalmente, pelo fato de muitos professores brasileiros de inglês não saberem falar a língua inglesa, mesmo tendo cursado uma graduação em letras. O MEC não está alheio a esse fato e, por causa dele, elegeu a leitura como a habilidade a ser enfatizada no ensino médio. Como afirmei em outro lugar (Oliveira, 2010: 42-43): A má formação dos professores de ensino fundamental e de ensino médio é tão patente que o Ministério da Educação, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais, recomenda que o objetivo do ensino de inglês seja ajudar os alunos a aprenderem a ler textos: “A competência primordial de línguas estrangeiras modernas no ensino médio deve ser a da leitura e, por decorrência, a da interpretação”. E por que o Ministério da Educação faz essa recomendação? Devido ao fato de os professores de inglês de escolas públicas, em geral, não dominarem a língua inglesa. A ênfase que o método de gramática e tradução dá à leitura em detrimento da oralidade, fez com que professores de línguas buscassem formas de ensino de línguas que levassem o estudante a falar a língua-alvo. Foi assim que o método direto tomou corpo, como veremos a seguir. 2.2. Método direto Esta seção trata de um método atualmente pouco comentado por professores de inglês, embora muitos deles, curiosamente, adotem procedimentos popularizados por essa proposta metodológica. Dentre esses procedimentos, por exemplo, estão a proibição do uso da língua materna dos alunos na sala de aula e o uso de objetos e imagens para explicar os significados das palavras. Refiro-me ao método direto. Mas, por que esse método ganhou tal nome? Para Howatt, parece haver um mistério em torno do nome, mas ele sugere que: A explicação mais razoável do mistério é a explicação óbvia de que ninguém inventou o termo, mas que ele “emergiu” (mais ou menos como nossa contemporânea “abordagem comunicativa”) como um rótulo genérico útil para se referir a todos os métodos de ensino de línguas que adotam o princípio monolingual como uma das bases das suas crenças (Howatt, 1991: 207-208). A suposição de Howatt encontra eco nestas palavras de outra teórica: “O método direto recebe seu nome do fato de o significado ter que ser conectado diretamente com a língua-alvo, sem passar pelo processo de tradução para a língua nativa dos estudantes” (Larsen-Freeman, 1986: 18, grifo da autora). Essa conexão direta é semelhante ao que ocorre na aquisição da língua materna, na qual a criança e as pessoas ao seu redor naturalmente usam apenas a língua materna. A lógica de se vincularem diretamente palavras e expressões com significados é bem antiga. Segundo Kelly, tal lógica existe pelo menos desde o século IV, em meados do qual santo Agostinho nasceu: Uma criança começa a aprender uma língua por meio da associação direta entre objetos e palavras, e isso, assim como a maior parte das maneiras naturais de aprendizagem, pode ser encontrado em salas de aula desde o tempo de santo Agostinho. De fato, apesar da predominância de outros tipos de demonstração durante a Idade Média e o século XIX, seria extremamente precipitado assumir que ela tenha caído em desuso (Kelly, 1969: 9-10). De qualquer forma, independentemente de ser antiga ou não, o que importa é que a técnica de se estabelecer uma conexão direta entre significados e palavras na língua-alvo tem três implicações pedagógicas importantes. A primeira é uma radicalização em algumas versões do método direto: a proibição do uso da língua materna tanto por parte do professor quanto por parte dos alunos em sala de aula. Somente a língua estrangeira que está sendo estudada pode ser usada. A segunda implicação, decorrente da primeira, é a proibição da tradução na sala de aula. A terceira é a necessidade de o professor ser fluente na língua-alvo para que ele possa lecionar usando o método direto. Ora, uma pergunta que geralmente vem à mente de professores que leem sobre esse método é a seguinte: se os estudantes não sabem o significado de uma palavra e se o professor não pode usar a língua materna dos estudantes, o que ele deve fazer para ajudá-los a entender o que essa palavra significa? Ele vai ter de se virar como pode e como não pode, explicando as palavras usando a língua-alvo e gestos ou mostrando aos estudantes objetos ou imagens. Afinal, o uso da língua materna é proibido. Se o professor quiser, por exemplo, explicar aos alunos os significados das palavras snail e colander, basta mostrar-lhes uma imagem do objeto a que cada uma se refere. Mas, para isso, as imagens precisam estar bem claras, como as apresentadas abaixo, para não causarem ambiguidades. Veja bem: eu imagino que as imagens acima estejam claras. Só que isso não significa que elas estejam claras também para os estudantes (e para você), principalmente a imagem do colander, pois ela pode remeter o estudante a outro utensílio de cozinha ou a outro objeto que eu não consigo imaginar agora. Essa minha incerteza deve sempre ser a incerteza do professor ao escolher imagens para ilustrar algo na sala de aula, principalmente por causa do ambiente cultural ao qual os estudantes estão acostumados e que pode levá-los a produções de sentidos diferentes daqueles pretendidos pelo professor. Com esse cuidado, ele pode garantir um mínimo de entendimento para facilitar suas explicações. Do contrário, o tempo usado para procurar as imagens e o tempo usado na sala mostrando-as aos alunos terão sido em vão. Contudo, mesmo que as imagens estejam claras, não ambíguas, elas serão totalmente inúteis se os estudantes nunca tiverem visto a entidade ilustrada na imagem. O professor precisa sempre pensar na possibilidade de seus alunos não conhecerem o animal, o objeto, a fruta ou seja lá o que for que esteja representado na imagem. Por exemplo, a figura a seguir traz a imagem de um platypus. Se você não conhece o animal que está ilustrado e se essa palavra não faz parte do seu vocabulário, você não conseguirá adivinhar o significado dela por meio da imagem. Mesmo no caso de animais, frutas e objetos, que são entidades concretas e que possibilitam que sejam feitas ilustrações e fotos para facilitar a explicação, o professor de inglês no Brasil teria dificuldade para ajudar seus alunos a entenderem o significado de entidades que não fazem parte da cultura dos estudantes. 13 Se você não sabe que palavra em português equivale à palavra platypus, isso se deve ao fato de ela representar uma entidade de uma realidade que não é a sua nem a da maioria dos brasileiros. A palavra em português equivalente a platypus é ornitorrinco. Contudo, mesmo com as dificuldades que o uso de imagens associadas à proibição do uso da língua materna pode causar no momento da explicação de itens lexicais, o uso de recursos visuais e de linguagem não verbal na sala de aula é eficaz na maioria das vezes. E foi o método direto que popularizou esse uso. Na verdade, o uso de objetos para o ensino de vocabulário já era feito na Inglaterra na era Tudor, i.e., nos séculos XV e XVI. Com o método direto, os recursos materiais receberam o nome de realia, termo que acabou se popularizando na área de ensino de línguas, de acordo com Kelly (1969). Um efeito importante do método direto está vinculado aos livros didáticos: eles passaram a trazer ilustrações com o propósito de auxiliarem no ensino de vocabulário. Em 1658, Jan Amos Comenius publicou o Orbis Sensalium Pictus, que pode ser traduzido como “Omundo dos sentidos em imagens” e que “foi um dos livros didáticos de ensino de línguas mais imaginativos daquele ou de qualquer outro século”, segundo Howatt (1991: 40). E foi imaginativo por ser o primeiro a trazer imagens, ilustrações, especificamente voltadas para o ensino de vocabulário. Mas (parece que sempre tem um mas, né?), você deve estar se perguntando: e se a palavra expressar algo abstrato? Como o professor pode explicar o significado de um substantivo abstrato para os alunos? Como ilustrar, por exemplo, fever e freedom? Afinal, os significados de substantivos abstratos não são nada fáceis de demonstrar por meio de objetos ou ilustrações. Mesmo assim, em alguns casos, os recursos visuais podem ajudar o professor. Se quiser explicar aos alunos o significado de fever, ele poderá levar a mão à testa e ao pescoço e simular que a mão ficou quente ou poderá escrever “38oC” no quadro seguido de uma seta de implicação, a qual antecede a palavra fever e torcer e rezar para que os alunos façam a associação. Quanto à palavra freedom, uma possibilidade seria mostrar duas mãos quebrando correntes que as aprisionam. Novamente, resta ao professor torcer e rezar para que os alunos entendam a mensagem. Veja ilustrações desses dois exemplos: Entretanto, para que o entendimento do significado de algumas palavras, como, por exemplo, leisure e faith, possa ser alcançado pelos estudantes sem o uso da língua materna, o professor precisa realizar uma ginástica mental e verbal hercúlea. Precisa também rezar intensamente para que os estudantes tenham muita inspiração e insights transcendentais. (Algumas vezes, a reza do professor é tão forte que algum aluno abre a boca e diz em português bem claro “Lazer. Fé”. E o professor protocolarmente repreende o aluno pelo uso indevido do português, embora esteja secretamente feliz e quase sem acreditar que, mesmo por caminhos tortos, sua prece tenha sido atendida.) Obviamente, se os estudantes se encontram em estágios mais avançados de proficiência, definições fornecidas pelo professor na língua-alvo podem ser eficazes, mas ele nunca terá a certeza de que forma os alunos realmente entenderam o que ele quis transmitir. Antes de prosseguir apresentando as características do método direto, preciso falar de um ponto que não pode ser ignorado pelo professor de inglês: o papel que a cultura dos estudantes desempenha no seu entendimento de gestos e imagens usados pelo professor, pois eles podem significar coisas diferentes em culturas diferentes. Por exemplo, se um professor brasileiro está dando aulas para um grupo de estudantes estadunidenses e faz o gesto de figa para expressar a ideia de boa sorte, eles não o entenderão, porque esse gesto não significa nada para eles; se o grupo for de estudantes turcos e o professor fizer esse gesto, o professor estará em uma situação no mínimo constrangedora porque, na Turquia, fazer o gesto da figa é o mesmo que mostrar o dedo médio a alguém no Brasil. Outro exemplo interessante — e real — que me vem à cabeça envolve um empresário para quem eu dava aulas, cuja idade, na época, girava em torno de 50 anos. Ele me contou que fez um teste de nivelamento em um instituto de idiomas em Fort Lauderdale em meados da década de 1990. Durante o teste, a professora mostrou-lhe algumas imagens para saber se ele conhecia as palavras a elas correspondentes. Uma daquelas imagens foi parecida com a seguinte14: O empresário olhou para a imagem e disse sem titubear: “Caloi!”. Claramente, essa marca de bicicleta estava impressa em sua memória e foi a primeira palavra que lhe veio à mente, mostrando uma provável relação forte entre a bicicleta Caloi e sua infância, ou mostrando a força do anúncio publicitário que não sai da cabeça de muitas pessoas da sua idade (nem da minha!): “Não esqueça da minha Caloi! Não esqueça da minha Caloi! Não esqueça da minha Caloi!”. A professora, estadunidense, olhou para ele com uma interrogação estampada na testa, o que fez com que ele repetisse a palavra colocando a tonicidade na primeira sílaba: “Cáloi!”. E a professora continuou sem entender. Bem, o método direto tem o objetivo de desenvolver a capacidade de comunicação dos estudantes. Logo, a fala é o principal alvo de atenção nas aulas. Contudo, um aspecto da fala vai mobilizar a atenção do professor: a ênfase na correção da pronúncia dos alunos. Um ponto importante a ser comentado aqui é a necessidade de o professor ser fluente na língua-alvo para poder usar apenas essa língua na sala de aula. Intuitivamente, é possível afirmar que o número de pessoas que hoje falam uma língua estrangeira fluentemente é muito maior do que o número de pessoas que falavam fluentemente uma língua estrangeira em séculos passados. Porém, no Brasil hoje, a maior parte dessas pessoas não é composta por professores de inglês que lecionam em uma escola pública. Logo, o método direto não poderia ser implantado nas escolas públicas brasileiras, se o MEC assim o desejasse, sem causar grandes dificuldades. A proibição do uso da língua materna em sala de aula tem o potencial negativo de aumentar a ansiedade dos estudantes. Afinal, eles já levam para as aulas de inglês conhecimentos linguísticos da língua materna e um repertório de estratégias comunicativas que construíram como falantes de português. Contudo, isso é desconsiderado pelo professor, obrigando o estudante a esforços cognitivos e afetivos desnecessários e contraproducentes. Além disso, essa proibição acaba caracterizando negativamente a língua materna dos estudantes, tornando-a uma espécie de persona non grata na sala de aula. Vale lembrar que alguma suposta vantagem da proibição do uso da língua materna dos alunos em sala de aula não é sustentada por nenhuma pesquisa. Elsa Auerbach esclarece que o uso exclusivo do inglês durante as aulas se tornou uma prática naturalizada, de senso comum, mas que “está enraizada em uma determinada perspectiva ideológica, assenta-se em pressupostos não examinados e serve para reforçar as desigualdades em uma ordem social mais ampla” (Auerbach, 1993: 9). Por essas razões, nós devemos estar sempre alertas para o discurso em prol do uso exclusivo de inglês na sala de aula, um discurso que reforça o mito do falante nativo. Bem, apesar de a fala receber a maior parte da atenção, as outras três habilidades não são ignoradas no método direto. Os alunos precisam desenvolver suas habilidades de compreensão oral, leitura e escrita se quiserem desenvolver sua capacidade de comunicação. Por essa razão, no século XX, os textos destinados à leitura passam a ser textos, preferencialmente, não literários, já que a maior parte dos textos que são socialmente consumidos não é composta por textos literários. E quanto ao ensino da gramática? No método direto, as regras gramaticais não são apresentadas formalmente. O aprendizado se dá de maneira indutiva. Em outras palavras, a partir das sentenças com que os alunos se deparam, eles vão criando suas hipóteses sobre as regras que regem as estruturas sintáticas da língua que estão estudando. Já é possível depreender daí que o lugar da gramática no método direto não é privilegiado. Larsen-Freeman (1986) lembra que o vocabulário é muito mais importante do que a gramática para os adeptos desse método exatamente por estarem preocupados com o desenvolvimento da capacidade de comunicação dos estudantes. Richards e Rodgers (1994) reforçam esse ponto e informam que o vocabulário que é ensinado passa a ser aquele formado por palavras usadas frequentemente no dia a dia dos falantes nativos do inglês, o que está de acordo com o objetivo desse método: auxiliar os estudantes a desenvolverem sua capacidade de comunicação. Esses dois autores lembram que o método direto surgiu na Europa e foi levado para os Estados Unidos por Maximilian Berlitz, que o rotulou de método Berlitz no século XIX e criou um curso de línguas estrangeiras que existe até hoje em vários países. Acessando o site do curso Berlitz na Romênia15, no qual lemos textualmente que “o método ‘direto’ (do conceitoà língua) é a essência do Método Berlitz”, você vai encontrar os seguintes princípios: (1) A língua é um fenômeno oral; portanto, o ensino e a aprendizagem ocorrem em um contexto oral. (2) As habilidades de leitura e de escrita são essenciais, mas devem ser precedidas por e se sustentarem no domínio oral. (3) A aquisição das habilidades orais envolve o desenvolvimento de hábitos, tanto intelectuais quanto físicos. (4) O domínio adequado da língua envolve a participação ativa do estudante em todos os estágios de instrução. (5) Com o Método Berlitz, foca-se a língua-alvo na sala de aula e nos materiais de revisão dos alunos. Ao imergirmos totalmente o estudante na nova língua, nós podemos simular situações da vida real nas quais eles usarão a língua e eliminar o processo desajeitado de introduzir primeiro um conceito na língua materna do aluno para depois introduzi-lo na língua-alvo. (6) O Método Berlitz é baseado na abordagem dos “blocos de construção”. Durante os estágios iniciais de instrução, a ênfase é dada no estabelecimento das estruturas básicas e de pontos gramaticais. (7) Todos os instrutores têm um domínio nativo da língua que ensinam. Note-se que o primeiro e o quinto princípios explicitam a proibição do uso da língua materna dos estudantes em sala de aula. O segundo princípio mostra a primazia da fala sobre as outras habilidades e nos faz lembrar a sequência de desenvolvimento das habilidades no processo de aquisição da língua materna. O terceiro e o sexto princípios mostram claramente a relação forte que esse método mantém com a concepção behaviorista de aprendizagem e com a concepção estruturalista de língua. O quarto princípio mostra que o papel do estudante no seu processo de aprendizado é importante e, por isso, é, de alguma forma, valorizado. O último princípio é um apelo de marketing sustentado no mito de que o falante nativo é necessariamente melhor professor do que o não nativo. Dá para perceber algumas limitações práticas do método direto, né? Ele requer falantes fluentes da língua estrangeira, o que dificulta bastante a sua adoção em escolas públicas em países como o Brasil, nos quais muitos dos professores de escolas públicas não falam inglês fluentemente. Some-se a isso a proibição do uso da língua materna em situações pontuais, que torna a explicação de estruturas gramaticais e de itens lexicais uma tarefa, às vezes, surreal e pouco eficaz, além de não aproveitar todo o repertório de conhecimentos linguísticos e de estratégias de comunicação que o estudante construiu no processo de aquisição de sua língua materna, os quais podem ser muito úteis no processo de aquisição da língua estrangeira. Essa proibição torna o método direto uma proposta metodológica que não valoriza os conhecimentos linguísticos que o professor brasileiro e seus alunos possuem da sua língua materna. Em outras palavras, é culturalmente insensível e marginaliza a língua materna, a língua do Outro. No século XIX, com o método direto sendo largamente utilizado na Europa e nos Estados Unidos, surge um método que dele divergia em pontos cruciais. É o que veremos na próxima seção. 2.3. Abordagem oral Alguns linguistas aplicados britânicos se inspiraram no método direto para propor algo novo: a sistematização teórica do ensino de inglês com vistas ao desenvolvimento da habilidade oral dos estudantes. Foi assim que surgiu a abordagem oral, ainda hoje desconhecida de muitos professores de inglês no Brasil. Apesar desse desconhecimento, ou talvez por isso mesmo, vale a pena vermos um pouco dessa abordagem. De acordo com Richards e Rodgers, as ideias que deram origem à abordagem oral começaram a tomar corpo nas décadas de 1920 e 1930. Uma delas foi a ideia de controlar o vocabulário aprendido pelos estudantes. Isso significa que listas de frequência de ocorrência de vocabulário foram elaboradas para que as palavras fossem organizadas em itens lexicais mais ou menos frequentes para serem selecionados e sequenciados para as aulas. Por exemplo, eis algumas das palavras mais frequentes na língua inglesa: the, of, and, a, an, to, in, is, you, that, it, he, for, was, on, are, as, with, his, they, at, be, if, this, from, I, have, or, by, one Por serem muito frequentes, tais palavras teriam necessariamente de constar no syllabus de um curso. Note-se que essa ideia é oriunda da ênfase dada ao desenvolvimento da habilidade de leitura em métodos precedentes, para o qual o vocabulário é essencial. Contudo, a ideia de se elaborarem listas de palavras baseando-se na frequência da sua ocorrência não é nova, como demonstram estas palavras de Comenius, escritas em 1631: Então, ao compilar vocabulários, minha preocupação seguinte era selecionar as palavras com o uso mais frequente, e ordenar as listas de tal forma que deixasse de fora tudo que não era necessário para expressar conceitos, aos quais, uma vez identificados e colocados em uso, tinha-se de atribuir uma definição precisa (Comenius apud Kelly, 1969: 184). Outra ideia que contribuiu para dar corpo à abordagem oral foi a de se controlarem as estruturas gramaticais a serem ensinadas aos estudantes. Similarmente ao que foi feito com o vocabulário, linguistas aplicados britânicos, principalmente Harold Palmer e Albert Sydney Hornby, decidiram que seria interessante selecionar e organizar sequencialmente as estruturas gramaticais que os estudantes deveriam aprender. Esses dois linguistas “analisaram a língua inglesa e classificaram suas principais estruturas gramaticais em padrões sentenciais (mais tarde chamadas de ‘quadros de substituição’), que poderiam ser usados para ajudar a internalizar as regras da estrutura da sentença inglesa”, segundo nos informam Richards e Rodgers (1994: 33). A seguir, apresento, a título de ilustração, um quadro de substituição para os alunos praticarem construções sintáticas com verbos irregulares no simple past: I Mary John’s cousin The teacher Lee ate saw drank drank built an some a lot of some a apple dolphins beer coffee barn yesterday this morning last night today two days ago Usando as categorias constantes no quadro, os estudantes criam sentenças como I saw some dolphins two days ago e The teacher drank a lot of beer this morning. Curiosamente, nada impede que os estudantes elaborem uma sentença como Mary ate a barn last night, que é uma anomalia semântica, embora sua estrutura sintática esteja de acordo com as regras sintáticas, como diriam os gerativistas da teoria padrão. A partir dessas ideias, o desenvolvimento da abordagem oral foi levado a cabo com base em três princípios fundamentais e gerais, que eram novidade até então: (1) o princípio da seleção, responsável pela escolha dos itens lexicais e das estruturas gramaticais a serem ensinadas; (2) o princípio da gradação, responsável pela organização e sequência do conteúdo lexical e gramatical selecionado; (3) o princípio da apresentação, que diz respeito às técnicas didáticas usadas na apresentação e na prática dos elementos que integram o conteúdo. Note-se que a diferença básica entre o método direto e a abordagem oral reside no fato de esta abordagem ter sido sistematizada com base em princípios teóricos explícitos e de aquele método não ter sido criado dessa forma, mas, isto sim, de maneira intuitiva. Richards e Rodgers (1994: 34) listam os seis princípios teóricos procedurais específicos da abordagem oral: (1) O ensino de língua começa com a língua falada. O material é ensinado oralmente antes de ser apresentado em sua forma escrita. (2) A língua-alvo é a língua da sala de aula. (3) Elementos novos da língua são introduzidos e praticados situacionalmente; (4) Os procedimentos de seleção do vocabulário são seguidos para garantir que um vocabulário essencial e de uso geral seja coberto. (5) Itens gramaticais são graduados seguindo-se o princípio de que as formas simples devem ser lecionadas antes das formas complexas. (6) A leitura e a escrita são introduzidas quando uma base lexical e gramatical suficiente está estabelecida.O primeiro princípio, que é semelhante a um dos princípios do método direto, justifica o nome da abordagem: oral. A lógica subjacente a ele é a de que as pessoas aprendem uma língua estrangeira de maneira similar à maneira com que aprendem a sua língua materna: primeiro, as pessoas ouvem e falam; depois, leem e escrevem. Essa lógica é reforçada pelo sexto princípio. Contudo, a sequência lógica de habilidades é alvo de críticas. Mary Finocchiaro classifica como um mito a ideia segundo a qual um longo período de exposição à língua falada e de prática da fala deveria preceder a introdução da palavra escrita ao aluno. E por que seria um mito? Simplesmente porque não existem pesquisas que justifiquem essa ideia: O senso comum indica que fatores como a idade dos alunos, sua história de leitura em língua materna (ou seja, sua familiaridade com os símbolos alfabéticos usados em inglês), a duração do curso e o fim para o qual eles precisam usar a língua inglesa no futuro imediatamente previsível devem ser considerados na determinação do período de adiamento da leitura (Finocchiaro, 1971: 5). Finocchiaro está coberta de razão. Um brasileiro que decide estudar inglês leva para o curso seus conhecimentos de mundo, de sua língua materna, de estratégias de aprendizagem. Por isso, não é interessante nem justificável fazer da mente do estudante uma tabula rasa. Além disso, não dá para equiparar a aprendizagem da primeira língua com a aprendizagem de uma língua estrangeira, pois são processos diferentes que acontecem em contextos sociais, psicológicos e biológicos diferentes, nos quais os sujeitos da aprendizagem encontram-se em fases distintas de maturação cognitiva. O segundo princípio também mostra uma semelhança entre a abordagem oral e o método direto: a proibição do uso da língua materna dos estudantes em sala de aula. Isso implica não apenas a inviabilidade da adoção da abordagem oral em escolas públicas brasileiras por falta de professores fluentes em inglês, mas também a dificuldade que o professor precisa enfrentar para explicar as estruturas sintáticas e o significado de muitas palavras, da mesma forma que acontece com o método direto. Não por acaso, como lembram Richards e Rodgers (1994), as explicações sobre as estruturas gramaticais e sobre o vocabulário são desencorajadas, e a gramática é apresentada de forma indutiva. Além disso, a mesma questão ideológica presente no método direto se faz presente na abordagem oral por meio da proibição do uso da língua materna dos alunos e do professor não falante nativo: a desvalorização da língua, e, por extensão, da cultura do Outro. O terceiro princípio é o que justifica os nomes alternativos pelos quais a abordagem oral é conhecida: abordagem situacional ou abordagem oral- situacional. Muitos livros didáticos foram publicados sob a influência da ideia de que a linguagem é mais facilmente aprendida se estiver contextualizada, se for apresentada em determinadas situações de uso. É possível que você já tenha visto livros cujas unidades são organizadas com base em situações, por exemplo, At the airport, At the supermarket e At the hotel. Os livros do tipo “inglês para viagem” seguem essa lógica com o intuito de preparar o turista para modelos de diálogo com os quais ele pode se deparar durante a viagem. Por exemplo, acabo de digitar “inglês para viagem” no Google e a primeira opção listada é o endereço <http://inglesvip.tripod.com/ingvia.htm>. No site ali localizado, vejo o título Inglês para viagem e os links para as seguintes situações: Utilizando transportes Na alfândega Pedindo informações/direções Lidando com dinheiro No hotel No restaurante Na fila Alugando um carro Na loja de roupas Ora, um problema dessa lógica de se organizar a lição em torno de situações prototípicas é que não existe uma relação direta entre uma situação e formas linguísticas usadas nessa situação, nem entre função comunicativa e forma linguística. Em outras palavras, existem diversas possibilidades de combinação de formas linguísticas para cada situação de uso e para cada função comunicativa. Para tentar minimizar esse problema, o professor http://inglesvip.tripod.com/ingvia.htm precisa planejar aulas para retomar uma situação já explorada, mas apresentando novas formas linguísticas que podem ser usadas em tal situação. O quarto e o quinto princípios são resultantes daqueles três princípios gerais que embasaram a criação da abordagem oral. Ressalte-se que o sequenciamento dos itens lexicais e das estruturas gramaticais traz, em seu bojo, uma lógica behaviorista, pela qual se vê o aprendiz como um indivíduo que precisar aprender uma coisa para depois aprender outra coisa e assim sucessivamente. É uma lógica linear para o aprendizado, que, na verdade, longe de ser linear, é um fenômeno naturalmente caótico, embora sistematizável. E por falar em behaviorismo, vale lembrar que essa corrente da psicologia serviu de pilar para a criação de outro método, que abordo a seguir. 2.4. Método audiolingual Os anos 1900 chegaram e, com ele, a humanidade avançava tecnologicamente. A comunicação e o contato cultural entre as diversas sociedades ocidentais e orientais nunca mais seriam os mesmos. E o ensino de língua estrangeira, também não. Mais do que ler textos literários, as pessoas queriam ouvir e falar com outras em diferentes partes do mundo, queriam ler o que as outras escreviam e queriam escrever para elas. Queriam aproveitar as benesses dos avanços tecnológicos. Enfim, muitas pessoas desejavam ou precisavam comunicar-se e interagir socialmente com pessoas de outras culturas. E o método direto não conseguia satisfazer tais demandas. Isso motivou a busca por outras formas de ensinar línguas estrangeiras que dessem conta da explosão da demanda por aulas de línguas estrangeiras que estava se delineando. E por que essa demanda explodiu? Exatamente por causa dos avanços tecnológicos e, principalmente, por causa do maior conflito bélico do mundo moderno. Em 1939, o mundo se horrorizava com o retrocesso humano representado pela Segunda Guerra Mundial. Além dos milhões de pessoas mortas e da destruição física e emocional que o conflito traria sobre várias sociedades, uma consequência improvável do conflito veio na forma do aumento do interesse pelo ensino e pela aprendizagem de línguas estrangeiras. Afinal, diversos países estavam envolvidos na guerra, países em que se falam línguas diversas, o que representava problemas potenciais para militares e civis responsáveis pelos serviços de inteligência e para os militares em combate. Nos Estados Unidos, havia ainda outra questão: por precisar de muitos homens para os combates, o Exército convocava homens de minorias étnicas, p. ex.: índios e latinos, que não falavam inglês. Diante daquele cenário, o governo e os órgãos militares dos Estados Unidos perceberam a importância estratégica de aprender as línguas faladas nos países envolvidos no conflito bélico. Por isso, criaram o Army Specialized Training Program (Programa de Treinamento Especializado do Exército), envolvendo 55 universidades estadunidenses, que receberam apoio financeiro e material para intensificarem suas pesquisas a fim de desenvolverem, no menor espaço de tempo possível, um método eficaz de ensino de línguas estrangeiras. Os funcionários do governo e do exército envolvidos com a guerra precisavam urgentemente, por razões óbvias, aprender a se comunicar nas línguas faladas nos outros países que participavam do confronto bélico. A Segunda Grande Guerra, além disso, gerou um fenômeno que viria aprofundar essa necessidade linguística, intensificando as pesquisas em busca de um método eficiente de ensino de línguas estrangeiras: os movimentos migratórios que levaram para os Estados Unidos um grande contingente de imigrantes, que passaram a ter a necessidade premente de aprender a se comunicar em inglês. O resultado dessas pesquisas foi a criação do método audiolingual, também chamado de audiolingualismo ou audiolinguismo, que viria a dominar o ensino de línguas estrangeirasdurante as décadas de 1950, 1960 e 1970, sendo usado em muitos lugares no mundo até hoje. Nesse método, o objetivo principal é capacitar o aluno a se comunicar oralmente na língua estrangeira com um nível de proficiência semelhante ao de um falante nativo. A comunicação por meio da escrita ocupa uma posição secundária: para esse método, a língua é primariamente um veículo de comunicação oral. O método audiolingual está formalmente sedimentado na teoria estruturalista da língua e na teoria behaviorista da aprendizagem. São duas teorias que não apenas refletem a hegemonia positivista no pensamento acadêmico da época, mas que também satisfazem a agenda político- ideológica do governo estadunidense, financiador da criação desse método. Lembra-se que o estruturalismo é a teoria que vê a língua como um sistema formado pela combinação de elementos gramaticais (ou seja, estruturais), como o fonema, o morfema, a palavra e a sentença? Pois é. Seguindo-se essa teoria, aprender uma língua é basicamente aprender as unidades formais que a compõem. A visão estruturalista da língua teve em Leonard Bloomfield e em Charles Fries os principais responsáveis pela sua consolidação e difusão nos Estados Unidos. O método audiolingual, contudo, precisaria de uma teoria que explicitasse a maneira como um ser humano aprende uma língua, uma teoria da aprendizagem que, aliando-se ao estruturalismo, formasse uma base teórica sólida. Foi então que Skinner contribuiu decisivamente para a consolidação desse método: sua versão da teoria behaviorista de aprendizagem caiu como uma luva na proposta teórica que estava sendo elaborada por Bloomfield, Fries e companhia. Conforme vimos no capítulo anterior, para o behaviorismo, o ser humano, assim como os animais, aprende através de um mecanismo de estímulos, respostas e reforçamento, o qual cria uma série de bons hábitos (aqueles que contribuem para o sucesso na aprendizagem) e elimina maus hábitos (aqueles que contribuem para o insucesso na aprendizagem). A combinação do estruturalismo com o behaviorismo resultou numa série de princípios que iriam moldar o ensino de línguas sob a ótica audiolingual. O primeiro desses princípios é o objetivo do método: tornar o estudante capaz de se comunicar na língua estudada, com o nível de proficiência semelhante ao de um falante nativo, principalmente na linguagem oral, mas sem se esquecer da linguagem escrita. Podemos observar, nesse objetivo, algo difícil, ou melhor, impossível, de ser atingido: levar a proficiência do estudante ao nível da proficiência de um falante nativo. A dificuldade se deve a dois problemas básicos. Em primeiro lugar, determinar qual a proficiência de um falante nativo é uma questão muito controversa, fonte de discussões infindáveis por conta de uma questão fundamental: que parâmetro de falante nativo deveria ser escolhido? Afinal, há diversos tipos de falantes nativos do inglês, que podem ser categorizados de formas variadas. Por exemplo, podemos categorizá-los de acordo com o país de origem, com os dialetos locais de regiões desses países, com o grau de escolaridade. Em segundo lugar, existe a grande dificuldade de levar um brasileiro, por exemplo, que mora no Brasil e que estuda inglês por apenas três horas semanais durante oito meses por ano, a falar, ouvir, ler e escrever com a mesma fluência de um falante nativo — seja qual for o parâmetro usado para determinar que um falante possa ser considerado um “falante nativo”. Assim, já é possível vislumbrar que essa parte do objetivo do método audiolingual é difícil de ser realizada (para falar a verdade, a probabilidade de os físicos encontrarem a partícula conhecida como bóson de Higgs é maior do que a de os seguidores desse método conseguirem fazer um estudante dominar a língua como um falante nativo, seja lá o que “falante nativo” signifique). O segundo princípio do método audiolingual diz respeito ao conteúdo a ser lecionado. Obviamente, ele é determinado pela teoria estruturalista da língua, que sustenta esse método. As aulas devem girar em torno das estruturas sintáticas, morfológicas e fonológicas. Podemos vislumbrar aí um entrave para o alcance dos objetivos estabelecidos pelos proponentes desse método, já que concentrar as aulas em torno das estruturas gramaticais não contribui muito para que o estudante desenvolva sua capacidade de se comunicar na língua-alvo. Afinal de contas, a comunicação depende principalmente dos fatores pragmáticos que constituem uma situação de uso, os quais vão muito além das estruturas sintáticas, p. ex.: os sujeitos que participam do ato de comunicação, as relações que existem entre eles, o contexto sociocultural em que se encontram. O terceiro princípio diz respeito à maneira com que as estruturas sintáticas, morfológicas e fonológicas devem ser apresentadas em sala de aula. O professor deve apresentar as estruturas gramaticais e o vocabulário por meio de diálogos que constam no início de cada unidade do livro didático. Após a apresentação, os aprendizes são submetidos a uma prática exaustiva das estruturas e do vocabulário por meio de memorização, repetição e exercícios de transformação e substituição, os chamados drills. Nos exercícios de substituição, o professor apresenta uma sentença para os alunos e depois lhes apresenta palavras que eles precisam colocar no lugar de outras palavras na sentença. Eis um exemplo envolvendo um professor e aprendizes brasileiros: PROFESSOR: The book is on the car. PROFESSOR: Desk. (olha para o aluno A) ALUNO A: The book is on the desk. PROFESSOR: Table. (olha para a aluna B) ALUNA B: The book is on the table. PROFESSOR: Chair. (olha para o aluno C) ALUNO C: The book is on the chair. Observe-se que o ato de olhar para o aluno se transforma num estímulo para que ele seja a pessoa que deve formar a nova sentença. Imaginemos agora um erro por parte de um aluno. Qual seria a reação do professor? Ele deveria corrigir o aluno imediatamente para evitar a criação de maus hábitos, ou seja, de construções gramaticais incorretas (analogamente, ele deve elogiar o aluno se a resposta estiver correta para reforçar os bons hábitos, ou seja, as construções gramaticais corretas). Veja um exemplo de como esse processo de correção (ou de criação de bons hábitos) ocorreria: PROFESSORA: The book is on the car. PROFESSORA: Sofa. (olha para o aluno D) ALUNO D: The sofa is on the car. PROFESSORA: No. Pay attention. The book is on the car. Desk. The book is on the desk. Table. The book is on the table. Sofa. (faz um gesto para o aluno D) ALUNO D: The book is on the sofa. PROFESSORA: Very good! O exercício de substituição faz o aprendiz raciocinar acerca do eixo paradigmático da sentença, ou seja, acerca dos espaços ocupados pela palavra na sentença. Já o exercício de transformação faz com que o aprendiz tenha de raciocinar acerca tanto do eixo paradigmático quanto do eixo sintagmático, ou seja, acerca das combinações das palavras na sentença, substituindo palavras e fazendo alterações na estrutura sintática, como, por exemplo, modificando a concordância verbo-nominal, a concordância nominal e a conjugação. Eis um exemplo: PROFESSOR: Mary is Canadian. PROFESSOR: I. (olha para o aluno A) ALUNO A: I am Canadian. PROFESSOR: Jack and Jill. (olha para a aluna B) ALUNA B: Jack and Jill are Canadian. PROFESSOR: My dog. (olha para o aluno C) ALUNO C: My dog is Canadian. Um ponto salta aos olhos nesse tipo de atividade: a completa falta de preocupação, por parte do professor, com os aspectos do uso da língua. Nesses exemplos fictícios, mas verossímeis, de atividades feitas para estudantes brasileiros, uma frase como I am Canadian tem probabilidade quase zero de ser usada por eles. E que brasileiro diria My dog is Canadian? Então, para que o estudante precisaria dizer algo assim? A não ser que pensássemos numa situação em que os estudantes realizassem um role-play em que assumissem a identidade de um canadense, o que não é o caso dos exercícios de substituição e de transformação. É por isso que esses tipos de exercíciosão considerados mecânicos e contribuem para a criação de uma imagem negativa do método audiolingual. Muitos cursos de treinamento de professores costumam levar seus participantes a pensarem que os exercícios gramaticais mecânicos, como os de substituição e de transformação, são criação do método audiolingual. Contudo, as atividades voltadas para a prática de padrões gramaticais apareceram pela primeira vez não no final dos anos 1940, como costuma ser frequentemente alegado, mas, sim, no começo do século XVI, esclarece Kelly (1969: 101). Parece que não há nada novo mesmo nos métodos que foram apresentados como inovações, né? Mas, continuemos. O quarto princípio desse método descreve os papéis que o professor e que os estudantes devem desempenhar na sala de aula para que a aprendizagem ocorra. O professor deve servir como modelo de imitação linguística e como censor do comportamento linguístico dos estudantes. Já o aluno deve absorver conhecimentos sobre a língua e fazer tudo aquilo que o professor indicar como sendo o certo. Esse princípio é, na verdade, um retorno a uma crença antiga na área de ensino de línguas, pois, em todos os períodos de ensino de línguas, muitos professores “consideravam a retenção das regras gramaticais apenas como uma função da memória baseada na repetição mecânica. O método mais antigo de se assegurar a retenção perfeita, do tipo papagaio, era a apresentação de regras gramaticais em versos”, conforme explica Kelly (1969: 48). Não por acaso, as metáforas que simbolizam os papéis do aprendiz no método audiolingual são a esponja, que absorve tudo, e o papagaio, que irracionalmente imita tudo. Note-se aí a influência do behaviorismo. O professor é quem detém os conhecimentos. A mente do aluno não passa de uma tabula rasa, ou seja, uma pedra lisa, sobre a qual o professor deposita conhecimentos. A ideia é que o professor leve o aprendiz a desenvolver hábitos corretos em relação à língua, ou seja, a não cometer erros de concordância, conjugação, pronúncia, grafia ou de qualquer outra espécie. Considerar a mente do aluno uma tabula rasa é assumir uma postura que retira do estudante qualquer forma de poder, qualquer participação nas decisões sobre sua aprendizagem. Isso reflete fidedignamente a ideologia das principais instituições por trás da criação do método audiolingual, uma ideologia que passa longe da ideia de educação defendida por Paulo Freire. O quinto princípio diz respeito à sequência das habilidades linguísticas a serem trabalhadas em sala. O professor deve seguir esta ordem: compreensão oral, fala, leitura e escrita. Percebeu a lógica dessa sequência? É a lógica da aquisição da língua materna: primeiro, ouvimos para depois falarmos; somente depois aprendemos a ler para, em seguida, aprendermos a escrever. O problema é que essa lógica não faz muito sentido para um brasileiro letrado aprendendo uma nova língua, pois ele pode capitalizar os conhecimentos linguísticos que possui de português, mobilizando-os para aprender uma língua estrangeira e podendo aprender as quatro habilidades ao mesmo tempo. O sexto princípio diz respeito aos materiais didáticos que devem ser usados em sala de aula e em casa pelos estudantes. Dentre esses materiais didáticos, podemos destacar os livros didáticos, contendo diálogos e textos acompanhados de CDs e DVDs especialmente preparados para o curso (obviamente, quando o método audiolingual surgiu, havia fitas de rolo e filmes de rolo, substituídos posteriormente por fitas cassete e por fitas de vídeo cassete, respectivamente). Isso fez com que se consolidasse a lucrativa indústria de materiais didáticos para o ensino de línguas estrangeiras. O método audiolingual se tornou extremamente popular por alguns anos devido à sua suposta eficácia, que se devia basicamente a dois fatores pontuais. O primeiro era a elevada motivação dos estudantes devido às necessidades linguísticas do período da Segunda Guerra Mundial e da segunda metade da década de 1940. Afinal, os soldados e os funcionários envolvidos na guerra precisavam urgentemente aprender línguas estrangeiras, assim como os imigrantes nos Estados Unidos precisavam aprender inglês urgentemente. E precisavam por uma razão básica: sobrevivência. E não há fator motivador mais forte do que a necessidade de permanecer vivo. O segundo fator era a carga horária intensiva dos cursos, organizados no formato de imersão para acelerar o processo de aprendizagem. Eram cursos com várias horas de aula por semana: ou a pessoa aprendia a língua ou aprendia a língua. Não havia saída, a não ser que a pessoa tivesse algum problema que impedisse o aprendizado. Esses dois fatores deram ao método audiolingual a imagem de um método eficaz, a qual duraria alguns anos. Havia, contudo, psicólogos e linguistas que observaram argutamente que esse método não conseguia atingir o objetivo de tornar um estudante capaz de se comunicar numa língua estrangeira com o nível de proficiência semelhante ao de um falante nativo e, mais importante, não conseguia tornar fluente um estudante se o curso ocorresse em condições normais, ou seja, sem a pressão do contexto de guerra e sem a carga horária de um curso de imersão. Estava claro para esses profissionais que o sucesso daqueles estudantes que aprenderam uma ou mais línguas na década de 1940 foi contingencial, decorrente do esforço e da motivação individual de cada um deles, somados ao longo período de exposição à língua estudada sob o formato de curso de imersão. Em outras palavras, o sucesso do método audiolingual não se devia a ele próprio, mas, sim, ao contexto sócio-histórico, que motivou os aprendizes de maneira anormal. Mesmo assim, para Kumaravadivelu, o método audiolingual representa um marco na história do ensino de línguas estrangeiras: Diferentemente dos métodos anteriores (tais como o método de gramática e tradução), ele se baseava em teorias de língua, de aprendizagem de língua e de ensino de línguas bem articuladas, fazendo com que seus proponentes prontamente o chamassem de método “científico”. Embora o método possa dificilmente ser chamado de científico no sentido normal do termo, não há dúvida de que seus proponentes aderiram a uma visão altamente racional de aprendizagem e advogaram em favor de uma maneira altamente sistemática de ensinar, derivada do conhecimento linguístico e psicológico disponível na época (Kumaravadivelu, 2009: 109). Um resultado dessa sistematização foi o famoso PPP, iniciais de Presentation-Practice-Production, que representa a sequência de uma aula: em primeiro lugar, o professor apresenta a estrutura ou o vocabulário aos alunos; em seguida, sugere aos alunos atividades para a prática dessa estrutura ou desse vocabulário; finalmente, oferece atividades para que os alunos, da maneira mais espontânea possível, produzam enunciados que contenham essa estrutura ou esse vocabulário. Note-se que o procedimento PPP não precisa ser rigidamente seguido: o professor pode, por exemplo, iniciar com a prática e passar para a apresentação se observar que os alunos necessitam dela; ele pode simplesmente não realizar nem a apresentação nem a prática e ir direto à produção se decidir que as duas primeiras etapas do procedimento são desnecessárias. Inegavelmente, o procedimento PPP ajuda o professor a escolher que caminho trilhar e a ter mais segurança no que diz respeito à rotina em sala de aula. Contudo, a ela subjaz uma visão linear, behaviorista, de aprendizagem, assumindo-se erroneamente que “os aprendizes serão capazes de transferir, com sucesso, seu conhecimento de itens isolados de gramática e vocabulário e automaticamente aplicá-lo a situações de comunicação da vida real, fora da sala de aula” (Kumaravadivelu, 2009: 110). Não demoraria muito para que a visão linear, behaviorista, de aprendizagem fosse alvo de duras críticas. No final da década de 1950 e no início da década seguinte, elas começaram a circular por meio da publicação de trabalhos de psicólogos cognitivistas e de linguistas influenciados pela psicologia cognitiva.Desses, destaco Chomsky. Em um texto intitulado Verbal Behavior (que em português seria traduzido como “Comportamento verbal”), comentado por vários linguistas, como John Lyons (1987), Chomsky discorda radicalmente da ideia de que o ser humano é um mero imitador de modelos linguísticos, treinado a partir de um mecanismo de estímulos e respostas. Para ele, o ser humano possui uma habilidade inata de aprender uma língua. Seu argumento para isso é o fato de uma criança entre os 4 e 6 anos de vida já ser capaz de criar frases inéditas, o que mostra que ela não está imitando ninguém, não está seguindo nenhum modelo. Na visão chomskiana, a língua é um conjunto de regras gramaticais complexas. Por isso, se a criança não recebe nenhum tipo de instrução formal a respeito dessas regras, a única maneira plausível de explicar essa capacidade de produzir frases inéditas é admitir a existência de uma faculdade inata que permite à criança aprender uma língua usando tais regras. A teoria behaviorista, com seu mecanismo de estímulos e respostas para a criação e eliminação de hábitos, realmente não pode explicar esse fato e acabou sendo gravemente ferida por ele. Como lembra Larsen-Freeman (1986: 51), Chomsky contribuiu para disseminar a ideia de que “a língua não deve ser considerada um produto da formação de hábitos, mas, isto sim, um produto da formação de regras”. Entretanto, apesar de essa contribuição ter inspirado professores de línguas estrangeiras e linguistas aplicados, Chomsky, interessado apenas em linguística teórica, nunca incluiu o ensino de línguas estrangeiras no escopo do seu trabalho. Ele elaborou a teoria da gramática gerativa ou transformacional, que ainda atrai alguns adeptos, embora com uma intensidade visivelmente bem menor do que ocorria nas décadas de 1970 e 1980. Contudo, vale enfatizar que foi no processo de elaboração dessa teoria que Chomsky acabou contribuindo indiretamente para o ensino de línguas estrangeiras ao argumentar contra a teoria behaviorista. O forte argumento contra o behaviorismo levou muitos psicólogos, linguistas e professores de línguas estrangeiras a buscarem uma teoria da aprendizagem menos vulnerável, que melhor explicasse a aprendizagem de línguas estrangeiras, o que, consequentemente, acarretou a busca por um método de ensino mais eficiente, por aquele que seria o melhor método. O resultado dessa busca foi o surgimento de diferentes propostas metodológicas, cinco das quais veremos no próximo capítulo. O capítulo três Os métodos alternativos s anos 1960 foram tempos de muito rebuliço na esfera acadêmica no que diz respeito ao ensino e à aprendizagem de línguas estrangeiras. O método audiolingual era o método da moda, mas já provocava uma inquietação e uma insatisfação muito grandes entre linguistas aplicados e professores de línguas. Afinal, um problema sério residia na teoria da aprendizagem adotada por aquele método, pois o behaviorismo desconsidera os aspectos afetivos do ser humano, tratando-o praticamente como um animal irracional, que aprende por condicionamento, pela criação de uma série de hábitos supostamente corretos. Essas questões, somadas à ideia de que um método eficiente fosse passível de ser descoberto ou criado, levaram os pesquisadores interessados no ensino de línguas estrangeiras a buscar alternativas teóricas que considerassem o estudante como um ser humano completo, que possui necessidades sociais e, principalmente, afetivas. As ideias humanistas eram a bola da vez e influenciaram a maioria dos métodos alternativos que foram propostos. Os proponentes desses métodos se tornaram uma espécie de gurus dos métodos, no entendimento de Rodgers (2014). Não por acaso, esses métodos também são chamados de métodos dos gurus ou métodos dos designers: a cada um deles se associa um nome de um teórico específico. Em um deles, como veremos na próxima seção, há até produtos licenciados e comercializados, os quais são essenciais para as aulas acontecerem. Naquela época, um livro que se tornou leitura obrigatória foi Caring and Sharing, de Gertrude Moskowitz. Foi essa obra que popularizou, entre os professores de inglês, a ideia de educar a pessoa completa, ou seja, de educar não apenas do ponto de vista cognitivo, mas também do ponto de vista emocional: “Um propósito central da educação (humanista) é fornecer aprendizagem e um ambiente que facilitem a realização de todo o potencial do estudante” (Moskowitz, 1981: 18). Ora, uma educação preocupada com os aspectos afetivos e emocionais do estudante aponta para uma dificuldade a ser enfrentada pelo professor — desempenhar o papel de psicólogo, de psicoterapeuta. Moskowitz tinha consciência da resistência do professor a esse papel e escreveu o seguinte: Alguns dos medos expressos pelos professores tomam a forma da preocupação de que o professor de língua estrangeira assuma o papel de psicólogo. Com efeito, os professores podem já se encontrar nesse papel quer eles admitam ou não (Moskowitz, 1981: 19). Para vender seu peixe, Moskowitz simplifica excessivamente o papel de um psicólogo, que um professor de língua estrangeira não tem obrigação de desempenhar nem a competência para desempenhar. No meu entendimento, ela força a barra para minimizar a dificuldade inegável de lidar com a afetividade e as emoções dos estudantes (ou de qualquer pessoa). Não concordo com a afirmação de que os professores já se encontram no papel de psicólogos, admitam ou não. De qualquer forma, a educação humanista influenciou propostas metodológicas para o ensino de línguas estrangeiras, como veremos nas próximas quatro seções. Na última seção, trago um método alternativo pelo fato de ele ter surgido fora da área de ensino de línguas estrangeiras e por ser tão alternativo que aceita elementos de todos os métodos. 3.1. Silent Way No capítulo anterior, vimos como Chomsky contribuiu indiretamente para as reflexões sobre o ensino e a aprendizagem de línguas estrangeiras ao abalar a credibilidade do behaviorismo, um dos alicerces teóricos do método audiolingual. E há um dado curioso acerca de Chomsky: sua formação foi em matemática. Mais curioso ainda é o fato de outro matemático também ter-se interessado por questões da linguagem e ter dado sua contribuição para os estudos aplicados ao ensino de línguas estrangeiras propondo um método de ensino. Estou falando de Caleb Gattegno, pesquisador egípcio que, na década de 1960, criou o Silent Way, que poderia ser traduzido como “modo silencioso”. Porém, usarei aqui o termo em inglês porque modo silencioso não é um termo comumente usado e é, realmente, um tanto quanto esquisito, parecendo até o modo como deixamos o telefone celular em reuniões (ou, pelo menos, o modo como deveríamos deixá-lo). Assim como Chomsky, Gattegno não aceitava o behaviorismo como um arcabouço teórico que explicasse, de maneira convincente, a aquisição da linguagem. Para Gattegno, “a língua não deve ser considerada um produto da formação de hábitos, e sim, um produto da formação de regras” (Larsen- Freeman, 1986: 51). Isso já aponta para a ausência de repetições mecânicas e de memorizações, técnicas características do método audiolingual. Não por acaso, o site da empresa16 que Gattegno criou para divulgar sua abordagem e, principalmente, vender os produtos necessários para as aulas que seguem os princípios basilares do Silent Way, apresenta a seguinte mensagem na sua página de abertura: I don’t teach. I let them learn. Como veremos aqui, esse método promove as aulas centradas no aprendiz com a menor interferência possível do professor. Richards e Rodgers (1994: 99) apresentam as seguintes hipóteses de aprendizagem subjacentes ao método proposto por Gattegno: (1) A aprendizagem é facilitada se o aprendiz descobre ou cria em vez de lembrar-se e repetir o que é para ser aprendido. (2) A aprendizagem é facilitada quando é mediada por objetos físicos. (3) A aprendizagem é facilitada pela resolução de problemas envolvendo o material a ser aprendido. É interessante observar como Gattegno traz, embutidanas suas hipóteses, por meio da frase “A aprendizagem é facilitada”, a questão do papel do professor: suas hipóteses se baseiam na rejeição da ideia de que o professor é um transferidor de conhecimentos e enfatiza o papel do professor como um facilitador da aprendizagem. Além disso, na primeira hipótese, está clara a recusa ao uso dos procedimentos de repetição e de memorização, tão caras ao método audiolingual. Tais recusas ecoam a posição de Gattegno acerca do behaviorismo. Contudo, de acordo com Richards e Rodgers (1994: 101), o Silent Way e o método audiolingual convergem para a concepção estruturalista da língua, já que “a sentença é a unidade básica do ensino, e o professor foca no significado proposicional em vez de focar no significado comunicativo”. Em outras palavras, ensinam-se estruturas gramaticais descontextualizadas tanto no audiolingualismo quanto no Silent Way. Como lembra Larsen- Freeman (1986: 62), o conteúdo das aulas no Silent Way é composto por estruturas linguísticas. Entretanto, esse conteúdo não é organizado de maneira linear, como acontece no método audiolingual: a reciclagem dos pontos praticados é feita constantemente. Outro ponto de aproximação entre esses dois métodos é a sequência das habilidades a serem trabalhadas com os estudantes: compreensão oral, fala, leitura e escrita. Entretanto, os pontos de aproximação param aí. A segunda hipótese está diretamente relacionada a dois recursos didáticos essenciais para o Silent Way e disponíveis para venda no site da empresa Educational Solutions Inc. O primeiro são os famosos bastões coloridos, os chamados cuisenaire rods, usados para mediar a produção de significados na sala de aula. Por exemplo, imagine-se que o professor planeje apresentar os numerais a alunos iniciantes. Ele atribui um número para cada cor, apresenta os bastões e pronuncia o número correspondente à cor de cada bastão. Depois ele mostra um bastão a um aluno para que ele pronuncie o número correspondente ao bastão e faz isso com cada aluno diversas vezes. O segundo tipo de material essencial para as aulas no Silent Way são os cartazes de apoio. Um deles é o cartaz de cor-som (sound-color chart, em inglês) e outro é o Fidel, que traz combinações de letras para a prática da pronúncia. Outro cartaz é o word chart, que contém palavras e que é usado para auxiliar os alunos no processo de construção de sentenças por meio da técnica chamada de ditado visual por Gattegno (1983), a qual consiste em o professor apontar para as palavras no quadro para que os alunos as repitam na sequência determinada pelos movimentos do professor17. Você encontra um exemplo de como usar word charts no site da organização francesa Une Education Pour Demain, localizado no endereço <http://www.uneeducationpourdemain.org/en/silent-way-en/216-the- silent-way-word-charts>; acesso em 7 de fevereiro de 2014. Os cuisenaire rods, o Fidel, os color charts e os sound-color charts, segundo o próprio Gattegno (1983), se tornam uma “segunda natureza” dos estudantes. A terceira hipótese do Silent Way está ligada ao princípio formulado por Gattegno, chamado de subordinação do ensino à aprendizagem. O nome desse princípio já explicita, de imediato, o deslocamento do foco do professor para o aprendiz, representando as aulas centradas no estudante. O princípio está intimamente ligado à ideia de silenciamento do professor durante as aulas, a qual originou o nome do método. O silenciamento do professor é a redução mais radical do tempo de sua fala já proposta por um método. Vale lembrar que o tempo de fala do professor é um elemento importante do gerenciamento da sala de aula. O corolário dessa redução é a diminuição da importância da fala do professor como fonte de dados linguísticos para os alunos. Além do mais, os alunos podem até se sentir angustiados, ansiosos, em determinados momentos com o silêncio do professor. Lembro-me de uma aula-demonstração de japonês realizada por Donald Freeman em um seminário para professores brasileiros na School for International Training, em Brattleboro, no verão estadunidense de 1994. Foi a única experiência que tive com o Silent Way na posição de aluno e confesso que não gostei nem um pouco dela por achar aquela forma de ensino muito chata, com um ritmo muito lento. Note-se que o problema não foi o professor — Donald Freeman não apenas demonstrou ter muita familiaridade com o método, como também mostrou ser uma pessoa muito simpática, com um excelente rapport com o grupo. Imagino que minha experiência naquele dia poderia ter sido mais frustrante ainda se o professor não fosse ele. Um texto disponível no site da empresa que vende os materiais necessários para as aulas que seguem o Silent Way explica que o professor fica silencioso porque ele “já fala a língua e não precisa praticar — os estudantes são aqueles que precisam praticar a fala. O professor fala quando necessário, mas os estudantes não precisam de um modelo contínuo do professor para aprender a língua”. Ainda de acordo com o texto: O silêncio é um mecanismo pedagógico que possibilita aos estudantes perceberem, desde o começo, que podem aprender muito mais ao dependerem de si mesmos em vez de dependerem de uma autoridade externa. Para o professor, o silêncio permite que mais tempo e energia sejam despendidos observando seus alunos e pensando em diferentes formas de intensificar a aprendizagem18. Percebe-se que a terceira hipótese está ligada à ideia de apresentar desafios pedagógicos aos estudantes. Tais desafios têm a intenção não apenas de ajudá-los a se tornarem conscientes de seu aprendizado, mas também de levá-los à experimentação de hipóteses de aprendizagem e, consequentemente, à autonomia. Observe-se que esse princípio está de acordo com as ideias construtivistas de Piaget e de Vygotsky, apresentadas no primeiro capítulo. Entretanto, repito, o silêncio do professor pode causar desconforto nos alunos. No Silent Way, os erros cometidos pelos estudantes não são vistos como comportamentos ou hábitos negativos a serem corrigidos, mas, isto sim, como consequências naturais do processo de construção da aprendizagem. A partir dos erros, o professor tem uma ideia do que precisa planejar para as aulas, a fim de auxiliar seus alunos a produzirem enunciados compatíveis com o sistema sintático, fonológico, morfológico e lexical da língua estudada. Essa é uma maneira pedagogicamente saudável, construtivista, de se considerarem os erros dos estudantes. O professor precisa ficar atento aos erros de seus alunos para poder auxiliá-los no processo da construção das suas hipóteses. Diferentemente do método audiolingual, o Silent Way não atribui ao professor o papel de modelo a ser imitado cegamente pelos estudantes, que são colocados no centro da aula e provocados a pensarem e a construírem suas próprias hipóteses sobre a língua. O papel dos estudantes não é o de um papagaio ou o de uma esponja. Eles são considerados seres ativos no processo de construção dos seus conhecimentos. Aliás, um pensamento de Benjamin Franklin que se tornou muito popular entre professores de inglês que buscavam concepções de aprendizagem alternativas à behaviorista e que representa a posição de Gattegno foi o seguinte: Tell me and I forget Teach me and I remember Involve me and I learn. Antes de finalizar esta seção, gostaria de comentar algo curioso. Gattegno parte do pressuposto de que a língua tem um espírito, que está estreitamente relacionado à maneira como os falantes nativos respiram (lá vem essa história de falante nativo de novo, né?). Para ele, o espírito da língua não pode ser ensinado aos alunos, mas eles podem, alertados pelo professor, desenvolver sua intuição acerca desse espírito: Assim como a maneira como respiramos tem um componente cultural, assim como proferir enunciados está conectado com a respiração, podemos ver por que ganharemos mais e mais do espírito da língua à medida que aprendermos a alterar nossa respiração para adequá-la a sua melodia (Gattegno, 1983: 76). Parece que o que ele chama deespírito é o conjunto de idiossincrasias da língua e o que ele chama de respiração como elemento cultural é o ritmo que caracteriza a maneira como os falantes nativos pronunciam a língua. Se encontrar uma definição pacífica para falante nativo é algo complicado, imagine definir espírito da língua. Por isso, deixei esse comentário para o final da seção, apenas como uma nota de curiosidade. Gattegno não foi o único pesquisador que buscou um método de ensino de línguas estrangeiras que representasse uma alternativa mais eficiente ao método audiolingual. Como veremos a seguir, um psiquiatra e educador búlgaro também daria sua contribuição nessa busca por uma forma mais eficiente de ensinar uma língua estrangeira. 3.2. Suggestopedia (Reservopedia) Os anos 1960 pareciam mesmo fervilhar de reflexões sobre o ensino e a aprendizagem de línguas estrangeiras desencadeadas pela queda da popularidade do método audiolingual. Foi naquela década que o psiquiatra e educador búlgaro Georgi Lozanov deu sua contribuição para essas reflexões e apresentou a sua explicação para as dificuldades que muitas pessoas sentem para aprender uma língua estrangeira: barreiras psicológicas. Por exemplo, muitos estudantes sentem medo de fracassarem na aprendizagem e não serem capazes de produzir enunciados na língua que estudam. Esse medo é uma barreira psicológica para o aprendizado. Outros já ouviram tantas pessoas dizerem que é difícil aprender uma língua que não apenas acreditam nessa dificuldade como a vivenciam. A crença na dificuldade inerente de aprender uma língua estrangeira é uma barreira psicológica. Para Lozanov, as barreiras psicológicas são sugestões mentais, que, segundo a versão eletrônica do dicionário Merriam-Webster19, são os processos pelos quais um estado físico ou mental é influenciado por um pensamento ou uma ideia. Assim, o medo e a crença mencionados no parágrafo anterior são barreiras psicológicas e acabam por influenciar negativamente o pensamento de um estudante a respeito da sua aprendizagem. Para ajudar os aprendizes a eliminar as barreiras psicológicas, Lozanov criou o método chamado de Suggestopedia. Esse termo é resultado da mistura de dois outros termos: suggestology e pedagogy. A sugestologia é o estudo científico da sugestão mental, das suas causas e da sua relação com o meio ambiente e com os comportamentos do ser humano. Conforme Lozanov gentilmente esclareceu por e-mail, a Suggestopedia surgiu como um ramo experimental da sugestologia aplicada à educação. Após esse surgimento, ele cunhou o termo Reservopedia, que é um sinônimo de Suggestopedia, mas que destaca o objetivo da Suggestopedia: alcançar as reservas da mente. Larsen-Freeman (1986: 72) afirma que, para Lozanov e outros pesquisadores, o ser humano usa apenas entre 5% e 10% da sua capacidade mental por causa das barreiras psicológicas. Dessa forma, os outros 95% ou 90% de reservas mentais ficam escondidos, ociosos, mas podem ser usados se a pessoa for dessugestionada, ou seja, liberada de sugestões negativas preexistentes. Contudo, a assistente de Lozanov, Vanina Bodurova, por e- mail, contestou essa afirmação e me informou que, em nenhum texto, Lozanov afirma algo acerca da percentagem da capacidade mental usada pelos seres humanos pelo simples fato de ele não saber que percentagem é essa. Bodurova recomenda a leitura de Suggestopedia/Reservopedia: Theory and Practice of the Liberating-Stimulating Pedagogy on the Level of the Hidden Reserves of the Human Mind, livro de Lozanov, para o esclarecimento desse ponto. Earl Stevick (1983) cita dois elementos que tendem a aumentar a tensão dos alunos: o uso, por parte do professor, apenas da língua-alvo, o que pode deixar algum aluno frustrado por não entender determinados enunciados; e o medo que o aluno tem de ser julgado pelo professor por causa da pronúncia ou da construção sintática que faz. Ele lembra que o comportamento do professor é um elemento determinante para a redução da tensão do aluno, o que nos remete, mais uma vez, ao professor como facilitador da aprendizagem. Por isso, segundo Stevick, o elemento mais importante do meio ambiente de aprendizagem não é a pintura, as poltronas ou uma mesa limpa: é o que Lozanov chama de “autoridade” do professor, cujo elemento central é a sua competência aparente aos olhos de seus alunos. “A Suggestopedia difere dos outros métodos por considerar a autoridade do professor (e da escola, e da Suggestopedia em geral) como sendo parte integrante do método, e não apenas uma característica desejável do professor” (Stevick, 1983: 124). Embora os professores que adotam a Suggestopedia nunca digam aos alunos algo como “Isso está errado” ou “Não é assim que se pronuncia essa palavra”, Lozanov se preocupou em encontrar uma forma de reduzir a tensão dos alunos e fazê-los perder o medo de errar. Foi aí que ele teve uma ideia criativa: atribuir-lhes identidades substitutas. Assim, se eu estudo inglês em um curso que adota a Suggestopedia e assumo uma identidade fictícia, por exemplo, Eric Franklin, quem comete erros na aula é ele, Eric Franklin, e não eu, Luciano. Artifício interessante esse, né? Vale registrar que Lozanov não restringiu suas reflexões ao ensino de línguas, mas vou-me ater aqui apenas ao ensino e à aprendizagem de línguas estrangeiras. Para guiar o professor no processo de dessugestionamento dos estudantes e, assim, facilitar sua aprendizagem, Lozanov propõe sete leis, ou condições sine qua non, que devem ser seguidas pelo professor20 e que refletem inequivocamente a influência do humanismo. Vejamos cada uma dessas leis. A primeira lei é o AMOR, que não deve ser entendido como algo sentimental, mas como amor pelo ser humano. Para Lozanov (2014), os professores não devem “começar a trabalhar no nível das reservas se eles não possuem amor humanista sincero”. Ele usa a metáfora da bicicleta para ilustrar isso: “A mãe ou o pai ensinam seus filhos a andarem de bicicleta sem que as crianças sejam capazes de saber, a cada momento, se ela ou ele está segurando a bicicleta por trás”. Analogamente, os estudantes não têm consciência da ajuda do professor, o que aponta para um princípio básico da Suggestopedia: deixar o aprendiz o mais relaxado possível pela confiança que deposita no professor, similarmente ao que acontece com a confiança que os filhos depositam em suas mães e em seus pais. A segunda lei é a LIBERDADE. Como afirma Lozanov (2014), “quando há amor, há liberdade”. A pergunta que você pode estar-se fazendo agora é: liberdade de quem? Do professor ou do aluno? Na verdade, de ambos. Na Suggestopedia, o professor não tem de seguir princípios metodológicos rígidos, como acontece no método audiolingual e no método direto. Ele pode, por exemplo, lançar mão da tradução ou alterar o curso de uma aula se notar que os alunos não desejam praticar determinada atividade que ele havia preparado. Os alunos são livres, por exemplo, para decidir se querem ou não realizar uma atividade. Essa liberdade é muito importante, pois há professor que se sente até ofendido se os alunos afirmam não quererem fazer a atividade que ele preparou e os constrange para que a façam. A terceira lei é a CONVICÇÃO DO PROFESSOR DE QUE ALGO INCOMUM ESTÁ ACONTECENDO. Essa lei significa o seguinte: o professor precisa estar convicto de que “algo extraordinário, diferente da norma social sugestiva, está ocorrendo” na sala de aula. Segundo Lozanov (2014), essa convicção é importante porque o professor acaba levando os alunos, periférica e inconscientemente, a sentirem a mesma convicção. A forma como isso se dá deve ser ressaltada: perifericamente e inconscientemente. Afinal, uma questão crucial para a Suggestopedia é exatamente o nível de relaxamento que o aluno precisa atingir para que suas reservas mentais sejam colocadas em funcionamento. Para isso, não deve haver nenhuma pressão por parte do professor sobre os alunos. A quarta lei é o AUMENTO DUPLICADO OU TRIPLICADO DO VOLUME DE INPUT. Para Lozanov, o material didático apresentado aos alunos deve conter deduas a três vezes mais input do que o material didático de outros métodos de ensino de línguas. Entenda-se input como as informações linguísticas, p. ex.: palavras e estruturas morfossintáticas, que os alunos recebem durante as aulas. A quinta lei é GLOBAL-PARCIAL, PARCIAL-GLOBAL; PARCIAL POR MEIO DO GLOBAL. Essa lei traz um ponto interessante: o ensino das palavras e das estruturas gramaticais não deve ser feito em isolamento, separadamente do discurso. Lozanov propôs essa lei baseando-se em dois pontos. O primeiro ponto é a motivação neurocognitiva da lei: “Esse conceito se baseia em algumas investigações sobre o funcionamento cerebral, no qual as partes do cérebro contêm informações sobre o cérebro como um todo” (Lozanov, 2014). O segundo ponto é sua motivação filosófica: o todo está na parte e a parte está no todo. Contudo, é possível perceberem-se, subjacentes a essa lei, duas questões muito importantes para o ensino de línguas contemporâneo: a do contexto discursivo e a do funcionamento da língua. Em outras palavras, fica implícita nessa lei a ideia de que não se devem ensinar estruturas gramaticais sem um foco nas funções comunicativas que elas realizam nos encontros linguísticos, no processo de interação. A sexta lei é PROPORÇÃO DOURADA. Ao propor essa lei, Lozanov estava se referindo à harmonia no universo, à qual o ensino e a aprendizagem devem se submeter: “A capacidade de aprender é melhorada quando o processo de ensino engenhosamente encontra o equilíbrio adequado em termos de ritmos, entonações, estímulos emocionais, etc.” (Lozanov, 2014). Essa lei reflete claramente valores da educação humanista. A sétima e última lei é o USO DA ARTE E DA ESTÉTICA CLÁSSICAS. Essa lei reforça uma questão essencial da Suggestopedia: o relaxamento que o estudante precisa atingir para poder utilizar suas reservas mentais. O objetivo de se colocar, por exemplo, música clássica durante as aulas é criar condições de relaxamento físico e mental e propiciar estados harmoniosos, facilitando a aprendizagem dos estudantes. Lozanov me informou que a música, na Suggestopedia, tem sido profissionalmente selecionada e experimentada como parte de um programa de pesquisa no Instituo Estadual de Pesquisa de Sugestologia em Sofia, na Bulgária. Além disso, de acordo com Bodurova, há aquilo que eles chamam de suggestopedic art, que é uma síntese de música clássica, belas artes, balé, fotografia, literatura e teatro, ferramenta importante para a aplicação da sétima lei. Essas leis englobam os princípios mais importantes da Suggestopedia, que sintetizo a seguir: (1) A criação de um ambiente relaxante e confortável para que as barreiras psicológicas dos estudantes sejam mais facilmente eliminadas. (2) A junção do consciente com o subconsciente por meio da aprendizagem periférica, já que a atenção dos estudantes não precisa estar direcionada para um objeto determinado para eles poderem aprender e apreender esse objeto. (3) O papel do professor como facilitador da aprendizagem dos alunos, propiciando um ambiente favorável à aprendizagem, vendo os erros dos alunos como indicadores de aprendizagem e de preparação de atividades, usando tanto a linguagem não verbal quanto recursos visuais para veicular significados. (4) O papel da tradução no nível iniciante, no qual os textos em inglês vêm lado a lado com suas traduções na língua materna dos estudantes para diminuir sua ansiedade; (5) O uso de dramatizações (role-plays) para diminuir o medo que alunos sentem de errar, já que os papéis nas dramatizações conferem aos alunos novas identidades — assim, se houver erros, são suas personagens que estão errando, não eles. (6) Aceleramento da aprendizagem do aluno com o aumento do volume de input e o caráter de imersão do curso que, geralmente, dura 25 dias úteis, com 4 horas de aula por dia durante 5 dias da semana, embora haja formatos diferentes, como aquele informado por Richards e Rodgers (1994: 147), em que o curso é dividido em 10 unidades estudadas em 30 dias, 4 horas por dia e 6 dias por semana. Quando notícias sobre a Suggestopedia chegaram à América do Norte, vários linguistas aplicados se sentiram atraídos pelas ideias de Lozanov, principalmente pela possibilidade de um método ajudar a acelerar a aprendizagem de uma língua estrangeira. W. Jane Bancroft (1983) analisou a adaptação da Suggestopedia para a realidade estadunidense, uma adaptação inevitável porque, nos Estados Unidos, as aulas duram uma hora e, pela proposta de Lozanov, a aula tem uma duração de quatro horas para dar conta do ciclo sugestopédico. Esse ciclo é composto de três partes, que basicamente são as seguintes: (1) a revisão do material trabalhado no dia anterior seguida de atividades práticas que incluem exercícios estruturais e de repetição; (2) a apresentação de novos elementos, com explicações e traduções, se necessárias; (3) a sessão de reforço dos novos elementos em um nível inconsciente. Para Bancroft, a terceira parte se constitui no que há de original na proposta de Lozanov. A sessão, que dura uma hora, é baseada em duas formas de concentração da yoga e é dividida em uma parte ativa e uma passiva. Na parte ativa, seguindo o ritmo da respiração dos alunos, o professor lê um trecho traduzido para a língua nativa dos alunos em dois segundos, lê o trecho na língua estrangeira em quatro segundos, faz uma pausa por dois segundos: “Enquanto a frase na língua estrangeira está sendo lida, os alunos prendem a respiração por 4 segundos, olham para a parte apropriada do texto, e mentalmente repetem a frase ou grupo de palavras na língua estrangeira. A concentração é grandemente favorecida pela retenção ou suspensão da respiração”, explica Bancroft (1983: 106). Na parte passiva da sessão, música barroca é tocada, e o professor representa o diálogo da lição com um tom artístico, emotivo, enquanto os alunos ouvem de olhos fechados, pensando sobre o texto. Eu nunca tive a oportunidade de aprender uma língua em um instituto de idiomas que adotasse a Suggestopedia. É uma pena, pois parece ser bastante interessante. Obviamente, uma escola pública no Brasil não pode adotar esse método por conta das condições materiais: a sala deveria estar pintada com cores suaves, deveria haver poltronas confortáveis e aparelho de som de qualidade na sala, o professor deveria estar bem capacitado e a escola deveria possuir CDs de música barroca à disposição do professor. Bem, enquanto a Suggestopedia joga suas fichas nos elementos psicológicos e emocionais dos estudantes, na organização do ambiente da aprendizagem e, principalmente, na autoridade do professor, para um melhor aproveitamento das aulas, outro método vai apostar nos elementos corporais dos aprendizes, como veremos na próxima seção. 3.3. TPR — Total Physical Response A busca pelo melhor método de ensino de línguas estrangeiras atraiu o psicólogo estadunidense James Asher. Ele elaborou um método conhecido como TPR, acrônimo de Total Physical Response (Resposta Física Total), nome que aponta para uma característica fundamental dessa proposta teórica: o uso dos movimentos corporais como mecanismos de aprendizagem de línguas. Sobre a TPR, Stephen Krashen (2014b) faz um comentário curioso: “A TPR é um método (ou técnica) de ensino de inglês iniciante de estrondoso sucesso”. Por que afirmo que é um comentário curioso? Por duas razões. A primeira é indefinição quanto à classificação: método ou técnica de ensino? Richards e Rodgers (1994) e Larsen-Freeman (1986) se referem à TPR usando o termo método; em um momento, Asher (2011d) se refere à TPR usando o termo abordagem e, em outro momento, ele deixa transparecer que a TPR é uma técnica ao afirmar que “a TPR é poderosa ferramenta alternativa à tradução”, que é uma técnica (ou procedimento) de ensino (Asher, 2011a). Krashen (2014b) aumenta a confusão: “A TPR não é um método completo. Ele não pode fazer todo o trabalho de ensino de línguas e nem foi delineado para fazer isso”. Um método incompleto é um método ou é o quê? Como se diz na minha terra, quemsouber morre. Essa indefinição é um exemplo claro de como o conceito de método não é entendido de maneira uniforme, unânime, no meio acadêmico. A segunda razão pela qual considero o comentário de Krashen curioso é a afirmação implícita de que a TPR não é eficaz com aprendizes que se encontram nos níveis intermediários e avançados. E isso está ligado à primeira razão mencionada no parágrafo anterior, principalmente às palavras contundentes de Krashen. Asher está ciente da dúvida que paira sobre a eficácia da TPR no ensino de línguas estrangeiras para estudantes intermediários e avançados, e a qualifica como mito: A TPR é uma ferramenta poderosa que possibilita aos alunos internalizar um volume enorme da língua-alvo a uma alta velocidade. Mas essa realização pode cansar os alunos. O segredo aqui é alternar com outras técnicas. A TPR deve ser reservada para qualquer outro item novo de vocabulário ou de gramática. Internalizar o item primeiro por meio do corpo e depois passar para o lado verbal do cérebro em diálogos curtos, histórias, exercícios estruturais de substituição etc. Todos os nossos livros guiarão você, passo a passo, na maneira como melhor aplicar a TPR para obter melhores resultados em todos os níveis (Asher, 2011c, grifos do autor). Note-se que Asher chama a TPR de técnica ao falar em “outras técnicas”. Suas palavras objetivam rebater a ideia (ou mito, como ele chama) de que a TPR não serve para o ensino em níveis intermediários e avançados. Contudo, elas não convencem e ainda forçam bastante a veia comercial de Asher ao tentar instigar os leitores a comprarem os livros dele e dos seus associados para aprenderem a usar a TPR naqueles dois níveis. Talvez uma atividade sirva para você pensar acerca da eficácia ou ineficácia da TPR em níveis avançados. Krashen (2014b) oferece um exemplo de atividade para a prática dos artigos definido e indefinido em uma sala de aula em que haja uma prateleira com livros. A atividade consiste em o professor dizer aos alunos para realizarem as seguintes ações: Go to the bookshelf. Take a book. Open the book. Look at the book. Close the book. Put the book back on the bookshelf. Essa atividade é claramente voltada para iniciantes. Será que os alunos em um nível avançado vão se sentir motivados a seguirem instruções, mesmo de atividades mais complexas? Acredito fortemente que não. Mas isso é minha intuição falando (e eu confio muito nela!). A ideia de se utilizarem movimentos corporais no ensino e na aprendizagem de línguas parece encontrar-se em sua forma embrionária no século XIX. Segundo Howatt (1991), François Gouin considerava a estrutura de um texto o reflexo da estrutura da experiência descrita por ele e acreditava que uma experiência era primariamente caracterizada por uma sequencialidade, podendo qualquer evento ser descrito em termos de uma série de eventos menores. Essa forma de ensino ficou conhecida como as Séries de Gouin, nas quais o professor apresenta o cenário de um determinado evento que será oralmente descrito por ele. Os verbos de ação em um determinado tempo verbal são o foco do ensino. O exemplo clássico das lições do livro criado por Gouin é apresentado por Howatt (1991: 163) e transcrito a seguir: The maid chops a log of wood The maid goes and seeks her hatchet, seeks the maid takes a log of wood, takes the maid draws near to the chopping-block draws near the maid kneels down near the block kneels down the maid places the log of wood upright upon this block. places The maid raises her hatchet, raises the maid brings down her hatchet, brings down the hatchet cleaves the air, cleaves the blade strikes the wood, strikes the blade buries itself in the wood, buries itself the blade cleaves the wood, cleaves the two pieces fall to the ground. fall The maid picks up these pieces, picks up the maid chops them again and again to the size desired, chops again the maid stands up again, stands up the maid carries back the hatchet to its place. carries back O professor repete cada uma das sentenças fazendo mímica e usando objetos. Depois ele as repete e os alunos fazem mímica junto com ele; e o professor as repete com os alunos gesticulando, em grupo e depois individualmente. Depois os alunos as repetem sem o professor, em grupo e individualmente. Não há como não perceber aí uma proximidade com a TPR — os movimentos corporais cristalizados na mímica, na pantomima; os verbos de ação concreta, que não apresentam maiores dificuldades de demonstração. E é aí que surge um ponto acerca da TPR que inquieta alguns professores: qual é exatamente a viabilidade de se ensinarem abstrações por meio dos comandos físicos? O próprio Asher relata a inquietação expressa por um professor após esse e outros professores assistirem a um filme em que crianças aprendem japonês por meio da TPR: “Os comandos estão bem. Mas o que vem depois? Como o estudante aprende outros elementos linguísticos, tais como os tempos verbais, as palavras funcionais e especialmente as abstrações que são difíceis de manipular como, por exemplo, honor, justice e government?” (Asher et al., 1983: 62). Questionamento importante, do qual Asher, Jo Ann Kusodo e Rita de la Torre não tinham como escapar. Transcrevo a seguir, in extenso, a resposta que eles deram baseada nos resultados de uma pesquisa que Asher realizou em março de 1972 envolvendo aprendizes adultos e um instrutor de alemão que usou comandos mirando a compreensão oral dos alunos: Em primeiro lugar, nós descobrimos que a maioria dos elementos gramaticais da língua alemã podem ser aninhados na forma imperativa. Com imaginação, quase todos os aspectos do código linguístico da língua-alvo podem ser comunicados usando-se comandos. Por exemplo, o futuro pode ser inserido em um comando como When Luke walks to the window, Marie will write Luke’s name on the blackboard! O pretérito pode ser incorporado à estrutura do comando. Por exemplo, diga: Abner, run to the blackboard! Depois que Abner tiver completado a ação, diga: Josephine, if Abner ran to the blackboard, run after him and hit him with your book. Quanto ao presente, foi aninhado no imperativo, tal como, por exemplo, When Luke walks to the window, Mary will write Luke’s name on the blackboard. Nossa segunda descoberta foi que a fluência na compreensão oral pode ser atingida em alemão sem o uso da língua nativa do estudante. Para certas abstrações, contudo, escreveu-se em alemão em um lado de um cartão e em inglês no outro lado. Então, tais abstrações como honor, justice e government foram manipuladas como objetos. Por exemplo, o instrutor dizia em alemão Luke, pick up ‘justice’ and give it to Josephine. Abner, throw ‘government’ to me (Asher et al., 1983: 62-63, grifos dos autores). Claramente, Asher, mais uma vez, não convence. Ele, Kusodo e de la Torre vão construindo todo um cenário discursivo para inserir sua resposta afirmando que a imaginação do professor é essencial para o sucesso da TPR. Percebe-se que ele joga a responsabilidade toda nas costas do professor. Afinal, se o professor não conseguir, por exemplo, comunicar o present perfect aos alunos usando comandos, a culpa é da sua falta de imaginação! E essa história de “pegar” justice e “jogar” government não dá para ser levada a sério quando se pensa em ensinar aos alunos o sentido e o uso dos substantivos abstratos. Isso é forçar a barra demais. Além disso, não posso deixar de ver nessa citação um ponto curiosíssimo: Asher, Kusodo e de la Torre dizem a uma aluna que bata no colega com um livro, o que se configuraria, atualmente, em incentivo ao bullying! De qualquer forma, a TPR é uma técnica interessante para estudantes iniciantes em alguns momentos da aula, a depender do tópico abordado. Por exemplo, para ensinar os alunos a seguirem e a darem direções na rua, a TPR é muito eficaz. Basta o professor desenhar quarteirões e prédios no chão da sala de aula com giz ou criar quarteirões de papelão e organizá-los no chão. Em seguida, ele pratica as direções com cada um dos alunos, que ficarão empé na sala e seguirão comandos como os seguintes: ► Walk straight ahead two blocks. ► Turn left. ► Turn right. ► Walk to the corner. ► Stop across from the restaurant. Apesar dessa limitação da TPR, as reflexões de Asher foram muito importantes para as reflexões sobre o ensino e a aprendizagem de línguas estrangeiras. Assim como Chomsky, ele acredita que o ser humano nasce com a faculdade da linguagem, ou seja, a capacidade inata de aprender uma língua. Afinal, todo ser humano sem problemas patológicos graves aprende, pelo menos, uma língua, que é aquilo que geralmente se chama de língua materna. Para Asher, basta observarmos uma criança aprendendo a falar sua língua materna para percebermos como o cérebro contém um programa biológico para a aquisição de uma língua natural. Essa programação linguística cerebral, embora ainda seja tema de muita polêmica, é a premissa na qual a TPR se baseia. Com essa premissa em mente, ele traça um paralelo entre a aquisição de língua materna e a aquisição de línguas estrangeiras. Segundo Asher, a relação comunicativa que se estabelece entre uma criança e sua mãe ou seu pai é uma espécie de conversação língua-corpo: “Um dos pais fala, e o bebê responde com uma ação física, olhando, sorrindo, rindo, virando-se, andando, esticando-se, agarrando, segurando, sentando-se, correndo e assim por diante” (Asher, 2011a). Essas reações físicas supostamente evidenciam que o bebê entende os enunciados dos pais (ou os enunciados de quem interagir linguisticamente com ele). Obviamente, ao dar relevância à conversação língua-corpo, Asher acaba designando um papel importante à questão afetiva presente no processo de aquisição da língua materna. Para ele, os fatores emocionais desempenham um papel essencial no processo de aprendizagem de uma língua estrangeira. Não por acaso, Asher apresenta a TPR como um método livre de estresse por ser cérebro-compatível e não cérebro-antagônico: As abordagens “cérebro-antagônicas” começam com produção (“Ouça e repita depois de mim!”) ou memorização (“Memorize este diálogo.”) ou instrução explícita de gramática (“Aqui está a explicação do ponto gramatical para hoje!”). Essas abordagens diretas são estressantes para a maioria das pessoas que estão aprendendo uma língua estrangeira (Asher, 2011b). Asher defende a ideia de que, assim como ocorre com a aquisição da língua materna, a compreensão deve ser o alvo do professor: primeiramente, os estudantes ouvem e compreendem os enunciados linguísticos e reagem fisicamente a eles; depois, e somente depois, eles devem começar a produzir enunciados linguísticos. A justificativa que ele fornece para colocar a compreensão no centro da aprendizagem é técnica: a área de Broca21, localizada no lobo frontal no hemisfério esquerdo do cérebro, é responsável pela fala, e a área de Wenicke22, localizada no hemisfério direito do cérebro, é responsável pelo processamento de significados na compreensão. Assim, se o processo estimula as duas áreas ao mesmo tempo, ao exigir do estudante compreensão e produção, o cérebro fica sobrecarregado. Talvez esse raciocínio de Asher se aplique a uma pessoa ou outra por alguma razão. Contudo, intuitivamente, e segundo a minha própria experiência como professor e estudante de línguas estrangeiras, posso afirmar que as pessoas podem, sim, compreender e começar imediatamente a produzir enunciados numa língua estrangeira já no primeiro dia de aula no nível iniciante. Afinal, elas vão para a sala de aula portando todo um conjunto de conhecimentos linguísticos de sua língua materna e de estratégias de aprendizagem e de comunicação que lhes possibilita mobilizar processos cognitivos na aquisição de uma nova língua. O problema, no entendimento de Asher, é que “os adultos devem passar novamente por aqueles processos pelos quais as crianças adquirem sua língua materna”, conforme Richards e Rodgers (1994: 87). Ora, isso é ignorar totalmente todos os conhecimentos prévios e as estratégias de comunicação que o adolescente e o adulto levam consigo para a sala de aula de inglês – uma aproximação inegável com princípios behavioristas que fazem da mente do aprendiz uma tabula rasa. Entretanto, vale registrar que minha objeção a essa posição de Asher não minimiza o valor de suas reflexões acerca do ensino e da aprendizagem de língua estrangeira. Ele provavelmente foi o primeiro teórico a reconhecer e a enfatizar o papel da compreensão do input no processo de aquisição de línguas estrangeiras. Vejamos, na próxima seção, outro método de ensino preocupado com o aprendiz, visto como um ser dotado de cognição e emoções. 3.4. CLL — Community Language Learning As discussões sobre o papel dos aspectos afetivos, emocionais, na aprendizagem de línguas estrangeiras ofereceram um campo propício para que Charles Curran, psicólogo e padre jesuíta, desse sua contribuição na busca de um método de ensino eficiente. Inspirado nas ideias de Carl Rogers, que havia sido seu professor de psicologia, Curran foi quem trilhou o caminho mais próximo da psicologia para propor um novo método de ensino de línguas estrangeiras: a Community Language Learning (CLL), que pode ser traduzido como “aprendizagem comunitária de língua”. Vou usar a sigla CLL pelo fato de não haver uma tradução consagrada para o nome desse método no Brasil. Curran aplicou as técnicas de aconselhamento psicológico desenvolvidas por Rogers à aprendizagem de línguas estrangeiras. A CLL se aproveita da “metáfora do aconselhamento para redefinir os papéis do professor (o conselheiro) e dos estudantes (os clientes)”, segundo Richards e Rodgers (1994: 113, grifos dos autores). Essa metáfora é proveniente da Counseling Learning, aprendizagem por aconselhamento, conjunto de técnicas de aconselhamento que foram aplicadas ao ensino de línguas estrangeiras por Curran dentro de uma perspectiva humanística. Isso implica que o professor precisa considerar o estudante como uma pessoa total, não como uma pessoa dividida, vista apenas intelectualmente ou apenas emocionalmente. Vale observar que o termo community dá nome ao método porque o professor, ou conselheiro, estimula a cooperação e não a competição entre os alunos, ou clientes. Entretanto, o professor que decide adotar a CLL não precisa ser psicólogo. Afinal, “um conselheiro de línguas não significa alguém treinado em psicologia; significa alguém que é um entendedor hábil da luta que os estudantes travam à medida que tentam internalizar outra língua”, conforme esclarece Larsen-Freeman (1986: 89). A dependência do aluno em relação ao professor é óbvia. Entretanto, a ideia da CLL é que o estudante vá se tornando mais independente à medida que avance nos estudos. No entendimento de Curran, o professor é inicialmente visto pelos alunos como uma espécie de deus23, de uma criatura remota e não encarnada, inatingível por causa dos conhecimentos que possui da língua-alvo. Já os alunos seriam inicialmente criaturas encarnadas, com quase nenhum conhecimento se comparados ao professor, necessitados de redenção. Em outras palavras, à medida que o aprendizado ocorre e os alunos vão se tornando mais capazes de se comunicar na língua-alvo, eles começam a ver o professor como uma criatura que vai se encarnando, ficando menos distante deles, e vão se tornando mais seguros, confiantes e independentes. Note-se, no parágrafo anterior, a presença das palavras deus, encarnada e redenção. Em seus textos sobre a CLL, Curran utiliza termos oriundos do discurso religioso, o que gerou alguma polêmica. Dois desses termos são encarnado e relação redentora. No texto Counseling-Learning, por exemplo, ele explica o uso que faz desses termos: (a) quanto a encarnado, ele afirma que não o utiliza no sentido teológico, mas, isto sim, no sentido literal, pois “os eus das pessoas do professor- conhecedor e dos alunos-aprendizes não são vistos abstratamente, intelectualmente, ou simplesmente como reagentes a estímulos, mas como pessoas viventes, misteriosas, únicas e ‘encarnadas’”; (b) quanto a relação redentora, ele explicaque o sentido também não é teológico, pois usa esse termo “para indicar como nós conquistamos nossa principal conscientização do nosso próprio senso de valor pelas atitudes que os outros nos mostram, refletido na maneira como eles nos tratam e nos consideram” (Curran, 1983: 167). A explicação de Curran não convence Oller, que escreve a Introdução do texto de Curran no livro que organizou juntamente com Richard-Amato. Oller deixa explícita a sua inquietação quanto aos conceitos usados por Curran, originados no discurso religioso e faz uma crítica contundente: Ele toma emprestado parte da sua terminologia e, pelo menos, um aforismo conciso de escritos “teológicos”. Por exemplo, entre os termos de Curran, encontram-se “encarnação”, “redenção”, “renascimento” e “ressurreição”. Mais de uma vez, ele repete a afirmação de João Batista em referência ao Messias: “Ele deve crescer, mas eu devo diminuir”, como se se aplicasse à própria relação entre conselheiro e cliente (i.e., professor e aluno). […] O aprendiz começa como uma criatura cuja existência encarnada é uma forma pungente de sofrimento que requer “redenção”. Isso é alcançado, até o ponto de “ressurreição”, por meio da “encarnação” do conhecedor (i.e., o tornar-se vulnerável à comunidade de aprendizes, e possivelmente o tornar-se um deles) e a progressiva “redenção” do “aprendiz”, que gradualmente se torna um conhecedor. Daí o professor deve dizer: “Ele deve crescer, mas eu devo diminuir”. Embora Curran insista que sua terminologia teológica é meramente uma maneira de falar, um de nós (Oller) acha que a insistência meramente oculta o próprio papel divino de Curran em toda essa discussão (Oller, Richard-Amato, 1983: 146). Stevick sai em defesa de Curran, com quem estudou. Analisando os sentidos das ocorrências de encarnação e de redenção em textos de seu mestre, Stevick sustenta que ele não usou esses termos em sentido religioso. No entendimento de Stevick, encarnação tem dois sentidos possíveis nesses textos. O primeiro é o de autocongruência. A ideia por trás desse sentido é a de que o aluno precisa estar inteiro, não dividido, sem dicotomias interiores, para poder aprender línguas estrangeiras. Curran afirma que o termo encarnação é usado para se referir ao ato de trazer ordem ao caos que se encontra dentro da pessoa (Curran apud Stevick, 1991). O segundo sentido de encarnação é o de renúncia ao poder, de abrir mão do poder: “Isso tem a ver com a renúncia de poder de criaturas com atributos semelhantes ao de um deus, tais como estar no poder, estar sempre correto por definição e ser capaz de evitar a dor e a humilhação” (Stevick, 1991: 80). Stevick explica que o uso do termo god-like, que eu traduzi aqui como “semelhantes ao de um deus”, refere-se “apenas à posse de poder e conhecimento dentro da área muito limitada representada pela habilidade particular de usar uma competência, e que isso não significa igualdade com Deus” (Stevick, 1991: 80). Ainda de acordo com Stevick, a palavra redenção tem dois sentidos. O primeiro é o de sentimento que o aluno tem de conquista de valor, de sentido e de segurança. O segundo sentido é o de aprovação interior que o aluno vivencia. Stevick defende a CLL afirmando que ela “é claramente um exemplo da visão secular humanística” e que “as referências à teologia convencional são analogias”. Ele cita algumas palavras de Curran para evidenciar isso, no que diz respeito à relação entre encarnação, redenção e humanismo: ”Deus voluntariamente abriu mão do poder que ele tinha, e, na abordagem por aconselhamento, os professores voluntariamente abrem mão do poder que eles têm” (Stevick, 1991: 85). É, sim, uma analogia, mas uma analogia entre Deus ou um deus e o professor, o que é obviamente polêmico. E quanto à crítica que Oller faz a Curran, ao dizer que ele assume um papel semelhante ao de deus na discussão da CLL? Stevick não concorda com ela e tenta rebatê-la: É verdade que, no contexto dos institutos de aprendizagem por aconselhamento que eu frequentei, os membros da equipe tenderam a aceitar tudo o que Curran dizia e tentaram entender isso sem criticar ou sem argumentar com ele. Ao mesmo tempo, parecia claro que todos percebiam que Curran era apenas mais um ser humano com seus defeitos e que a atitude aparentemente não crítica de todos era motivada mais por um desejo de aprender a partir do que ele tinha para dizer do que por reverência. Portanto, esse comentário específico de Oller não era coerente com a minha experiência de Curran (grifos meus). Bem, notem que essa argumentação de Stevick é ad hominem, ou seja, baseada no indivíduo e na percepção que ele tem de Curran. Além disso, percebemos uma clara falta de contundência nas suas palavras, marcadas por dois modalizadores semânticos, i.e., “parecia” e “aparentemente”. E ele admite que Curran não foi criticado nem questionado por seus alunos, entre os quais o próprio Stevick. O que há de fato nessa polêmica é a escolha que Curran fez por termos oriundos do discurso cristão. Isso é inegável. E inserir termos oriundos da religião cristã em uma proposta humanística de ensino e aprendizagem é uma contradição em termos: humanismo e religião não se bicam. Curran poderia ter usado termos que não fossem oriundos do discurso cristão, mas não o fez. E não o fez por escolha própria. Compartilho com Oller o incômodo. Apresentada a polêmica em torno da terminologia de Curran, sigamos em frente para ver outros pontos da CLL associados à concepção humanística de ensino que têm reflexo direto na sala de aula. Na visão de Curran, aprender determinadas disciplinas, como as línguas estrangeiras, pode ser algo ameaçador para os estudantes, pode causar-lhes ansiedade. Por isso, o professor precisa buscar formas de evitar que seus alunos se sintam ameaçados e ansiosos, o que tem implicações pedagógicas importantes. O uso da língua materna em sala de aula é uma dessas implicações. O professor encoraja os alunos a conversarem usando a língua-alvo e a língua materna se não souberem algo, e até mesmo usando apenas a língua materna. Você deve estar-se perguntando: como assim? Apenas a língua materna? Bem, uma técnica adotada pela CLL é a gravação da conversa dos alunos. Larsen-Freeman explica como essa técnica é usada: Solicita-se aos alunos que mantenham uma conversa sobre qualquer coisa que queiram, usando sua língua materna como a língua comum do grupo (em grupos multilíngues, os gestos dos alunos podem ser usados como a língua comum). Depois de cada enunciado na língua materna, o professor traduz para a língua-alvo o que o aluno diz. O professor fornece aos alunos a tradução em blocos de enunciados de tamanho apropriado. Cada bloco é gravado, dando-se aos alunos uma fita cassete final apenas com a língua-alvo nela (Larsen-Freeman, 1986: 104)24. O uso da língua materna aponta para outra implicação pedagógica da busca por um ambiente emocional tranquilo para os alunos: o uso da tradução em sala de aula. O professor pode lançar mão dessa técnica para reduzir a ansiedade dos estudantes e para garantir que eles entendam determinados pontos gramaticais ou determinados significados lexicais. O uso da tradução traz no seu bojo outra implicação: o uso da língua materna dos estudantes em sala de aula quando se fizer necessário para reduzir a ansiedade dos alunos. Outra implicação da preocupação com o conforto emocional dos alunos diz respeito à posição em que o professor fica na sala de aula: preferencialmente atrás dos alunos, cujas cadeiras são dispostas em semicírculo. Para Curran, essa posição é menos intimidadora do que aquela em que o professor fica na frente dos alunos. Fica claro que, na CLL, o uso da língua materna é parte integrante das rotinas de sala de aula. “Uma mensagem/lição/aula é apresentada primeiro na língua nativa e depois na segunda língua”, de acordo com Richards e Rodgers (1994: 114). Assim, se um estudante deseja dizer a um colega, por exemplo, que foi ao cinema com dois amigos no dia anterior, ele diz ao professor: “Fui ao cinema com dois amigosontem”. O professor, em seguida, traduz a mensagem para a língua-alvo: I went to the movies with two friends yesterday. O estudante repete a sentença em inglês para o colega. Richards e Rodgers esclarecem que esse processo de tradução acaba levando cada membro do grupo a entender o que um dos membros está tentando comunicar para o outro. Entretanto, vejo aí a perda de oportunidades valiosas para os alunos tentarem usar a língua-alvo para satisfazerem necessidades comunicativas reais, usando gestos e expressões úteis em sala de aula como How do you say _______ in English?, How do you spell_______?, Could you repeat that, please? e, apontando para uma palavra, How do you pronounce this word? O uso da tradução para a comunicação do que os estudantes desejam expressar a qualquer momento tem uma implicação pedagógica importante: não existe um syllabus preestabelecido. Logo, não se adota um livro didático na CLL. (Não é necessário dizer que as grandes editoras estadunidenses e britânicas devem detestar a CLL, né?) É possível depreender que existe aí uma preocupação com a autoestima dos alunos. Afinal, a tradução garante, sim, o entendimento das sentenças por parte dos alunos, reduzindo muito o risco que eles correm de se sentirem constrangidos por cometerem um erro ou por não saberem dizer algo. Contudo, o uso da língua materna dos alunos parece não encontrar eco na concepção humanista de ensino de línguas estrangeiras defendida por Moskowitz (1981: 31): Fique atento ao fato de que os alunos podem ficar tão absortos em um exercício que acabam se ancorando na sua língua nativa se não conseguem usar a língua-alvo. Eles podem fazer isso de qualquer forma a fim de expressarem mais facilmente tudo o que desejam dizer. Se isso acontecer, lembre-lhes que uma razão central para usar os exercícios é aprender a língua estrangeira e torná-la interessante e significativa para eles. Você irá ajudá-los se eles precisarem de ajuda com a língua, mas eles não devem abandonar a língua-alvo ao fazerem um exercício. (Há ocasiões em que você pode querer que eles expressem suas reações na língua nativa no final de um exercício se ainda não conseguirem fazê-lo na língua-alvo). A recomendação de Moskowitz procede. Afinal, repito, o uso constante da língua materna nas rotinas da sala de aula reduz excessivamente os desafios de aprendizagem para os alunos, o que, a meu ver, não os estimula a elaborarem hipóteses de aprendizagem. A preocupação humanista da CLL para com os alunos, vistos como seres totais, considerados não apenas do ponto de vista cognitivo, mas também do ponto de vista afetivo, é resumida numa sigla que, segundo Richards e Rodgers (1994), é usada para referir um conjunto de ideias referentes aos requisitos psicológicos para uma aprendizagem bem-sucedida: S — segurança A — atenção e agressividade R — retenção e reflexão D — discriminação Os estudantes precisam se sentir seguros, não ameaçados. Do contrário, a aprendizagem fica comprometida, pois o sentimento de ameaça gera tensão, que, por sua vez, cria barreiras cognitivas. Quando um aluno se sente ameaçado, ele tem medo de que seus colegas riam de seus erros ou o critiquem por conta da pronúncia ou de suas dificuldades. Daí a preocupação de Curran com a segurança emocional dos estudantes. A atenção é, obviamente, uma condição essencial para que a aprendizagem ocorra. Além disso, para a CLL, o estudante precisa ser agressivo no sentido de ter iniciativa para aprender. A retenção das informações, dos dados linguísticos, por parte dos estudantes, precisa se dar de forma reflexiva. Por isso, a CLL prevê um período de silêncio para que eles reflitam sobre o que estão aprendendo. A ideia é que tal reflexão leve os alunos a discriminarem aquilo que aprenderam, ou seja, a articularem o conhecimento que construíram na aula com os conhecimentos que já possuíam. Podemos facilmente inferir, a partir dos elementos representados pela sigla SARD, que o processo de aprendizagem nesse método depende profundamente do desenvolvimento da relação entre alunos e professor. Daí a necessidade de o professor e os alunos se tornarem membros de uma comunidade para que a aprendizagem ocorra através da interação entre esses membros. Paul La Forge, discípulo de Curran, afirma que há espaço para aconselhamento real na CLL, pois “reconhece-se explicitamente que problemas psicológicos podem surgir na aprendizagem da segunda língua” (La Forge apud Richards, Rodgers, 1994: 122). Essa é uma questão complicada. Afinal, o aconselhamento requer do professor de línguas estrangeiras as competências e as habilidades de um psicólogo. Além disso, será que os professores de línguas estrangeiras estariam dispostos a lidar com os problemas psicológicos dos seus alunos? E se os professores estivessem dispostos, estariam preparados para lidar com esses problemas? Acho muito difícil responder afirmativamente qualquer uma dessas perguntas. Conselho não se dá, mas aqui vai um: os professores que se sentirem tentados a responder essa pergunta positivamente devem pensar duas vezes antes de decidirem aconselhar psicologicamente os alunos. Talvez a dificuldade dos professores em lidar com problemas alheios e a falta de competência para atuarem como conselheiros psicológicos tenham sido as razões para a CLL não ter se tornado popular. Imagino que no Brasil, por exemplo, poucos professores de inglês estejam familiarizados com a CLL. Minha única experiência com a CLL ocorreu no verão estadunidense de 1994. Durante um seminário para professores brasileiros de inglês na School for International Training, participei de um minicurso dado por Kathleen Graves sobre a CLL. Ela deu uma aula de japonês usando esse método, com o qual demonstrou muita familiaridade. Contudo, confesso que não gostei nem um pouco da experiência. Achei o ritmo muito lento e não gostei de estar naquela posição de aprendiz. Vários colegas também não gostaram e se retiraram da aula, mas eu fiquei por respeito à pessoa de Graves, que se mostrou muito simpática e comprometida com o que estava fazendo. Obviamente, há pessoas que podem se sentir interessadas em aulas que sigam esse método. A CLL fecha o grupo dos métodos humanistas de ensino de línguas, os métodos dos gurus, ou métodos de grife, mas não fecha este capítulo. Ainda há uma proposta metodológica considerada alternativa por alguns teóricos e que eu não poderia deixar de tratar neste livro, mesmo que brevemente. 3.5. Ensino de línguas baseado em competências Acredito que a proposta metodológica de que trato nesta seção não costume ser abordada nos cursos de treinamento de professores e nas disciplinas de metodologia nos cursos de Letras no Brasil. Tal desconhecimento provavelmente se deve ao fato de essa proposta ter-se originado e firmado na área pedagógica mais ampla e não na área de ensino de línguas. É uma proposta que toca vários aspectos das outras propostas comunicativas e resvala em concepções behavioristas. Nos anos 1970, o sistema educacional estadunidense vivia uma crise em que instituições e professores eram muito cobrados por resultados. A expressão crise de letramento (em inglês: literacy crisis) não saía da boca das pessoas envolvidas com o gerenciamento daquele sistema. Foi em meio a tal crise que surgiu a educação baseada em competências, “um movimento educacional que defende a definição das metas educacionais em termos de descrições mensuráveis precisas do conhecimento, das habilidades e dos comportamentos que os alunos possuem ao final do curso” (Richards, Rodgers, 2001: 141). Dois pontos chamam a atenção a respeito da educação baseada em competências. O primeiro é a preocupação das autoridades com a prestação de contas à sociedade, uma preocupação em mostrar claramente os resultados das ações educacionais. Daí a necessidade da realização de descrições mensuráveis exatas do que os alunos aprendem, o que traz uma implicação teórica subjacente muito relevante: se há uma preocupação clara e inequívoca com os resultados obtidos pelos alunos, os processosde aprendizagem tornam-se praticamente irrelevantes. O segundo ponto é a determinação das competências específicas que os alunos precisam desenvolver para funcionarem socialmente. Voltarei a esses dois pontos mais adiante. No começo dos anos 1980, a educação baseada em competências havia se disseminado e se popularizado tanto entre os gestores escolares estadunidenses que foi inevitável a sua influência sobre o ensino de línguas estrangeiras, fazendo surgir o ensino de línguas baseado em competências, foco desta seção. Segundo Auerbach (1986), não há consenso quanto a uma definição desse método. Mas ela apresenta a definição proposta por Allene Grognet e Jo Ann Crandall: Um currículo baseado em competências é um delineamento baseado em desempenho de tarefas linguísticas que levam a um comprovado domínio da língua associado a habilidades específicas necessárias para que os indivíduos funcionem proficientemente na sociedade em que vivem (Grognet, Crandall apud Auerbach, 1986: 413). Já Richards define o ensino de línguas baseado em competências da seguinte forma: […] uma abordagem que tem sido largamente utilizada como a base para o delineamento de programas de ensino para adultos, direcionados para a sobrevivência ou relacionados ao trabalho. Ela procura ensinar aos alunos as habilidades básicas de que precisam para prepará-los para situações que comumente encontram na vida diária (Richards, 1996: 41). As palavras de Grognet e Crandall e as de Richards revelam que o ensino de línguas para uso geral não é o que move esse método, mas sim o ensino de línguas para propósitos específicos, previamente delineados pela instituição. Além disso, chama minha atenção o fato de o público-alvo inicialmente vislumbrado pelos proponentes desse método ser composto de adultos trabalhadores e imigrantes, o que traz questões ideológicas interessantes, como veremos adiante. Mas isso foi o que caracterizou, em um momento inicial, o ensino de línguas baseado em tarefas, pois escolas em partes diferentes do mundo passaram a adotar essa metodologia para crianças e adolescentes. Também é de se notar que a língua é concebida funcionalmente, pois o importante é o que os alunos sabem fazer com a língua e não o que eles sabem sobre a língua ou como eles aprenderam a fazer o que sabem fazer. Para que o syllabus de um curso baseado nesse método seja construído, as necessidades linguísticas dos estudantes precisam ser analisadas e mapeadas. Ou seja, é preciso obter respostas para perguntas como “para que eles usarão essa língua?”, “em que situações de trabalho usarão essa língua?”, “que funções linguísticas realizarão?”. Se, por um lado, tal foco é válido por estar atrelado diretamente aos interesses dos alunos, por outro acaba deixando esse método voltado exclusivamente para os resultados obtidos por eles, resultados traduzidos exatamente como sendo as competências que os alunos desenvolvem e as tarefas que são capazes de realizar. Depois de analisar uma extensa literatura a respeito do ensino de línguas baseado em competências, Auerbach (1986) chegou a uma lista de oito características dessa proposta metodológica, as quais resumo e comento a seguir. A primeira característica é o foco no funcionamento bem-sucedido dos estudantes na sociedade, o que implica capacitar os estudantes para lidarem com o mundo. Ora, questões ideológicas importantes permeiam esse foco. Uma delas é o que se entende por “funcionamento bem-sucedido”. A quem cabe julgar esse sucesso? Qual o parâmetro usado para mensurar esse sucesso? Outra questão é o que se entende por mundo. Afinal, o mundo, ou a realidade, não é algo que existe fora de nós, não é algo que nos é dado pronto. A realidade é uma construção que fazemos por meio da língua, que é historicamente situada. Logo, não existe um mundo que seja apenas objetivo exatamente pelo fato de a subjetividade ser um elemento essencial para sua construção. Essas duas questões não escaparam aos olhos de críticos do ensino de línguas baseado em competências, os quais argumentam que o currículo “carrega suposições escondidas sobre a realidade e sobre a ordem social que servem para apoiar a ordem socioeconômica vigente” (Auerbach, 1986: 416). E de que forma se materializa o apoio ao status quo apontado pelos críticos? Exatamente por meio da especificação das competências e tarefas que os estudantes supostamente precisam desenvolver e desempenhar, o que nos remete de imediato à segunda característica, que é o foco nas habilidades da vida diária para que se ensinem aos estudantes apenas as habilidades e formas linguísticas exigidas pelas situações em que eles vivem. Auerbach (1986: 417-418) apresenta o trecho de um texto didático de 1984 para ilustrar o que elaboradores de materiais didáticos que aderem ao ensino de línguas baseado em tarefas concebem como sendo essencial para o estudante aprender: 1. Go to work on time. Don’t be late… 2. Work hard. Don’t be lazy. 3. Work carefully. Always do your best. 4. Ask questions if you don’t understand or are not sure… 5. Be friendly. Get along with everybody. Be nice to the other workers… Smile at them. Be clean and neat. Não há como não vermos aí o caráter capitalista de disciplinamento do trabalhador subalterno. Na verdade, as questões ideológicas que permeiam o ensino de línguas baseado em tarefas são tão patentes que hoje, segundo Auerbach, alguns dos seus proponentes reconhecem abertamente que um dos objetivos desse método é servir às necessidades do sistema econômico. Tais necessidades são traduzidas nas tarefas que se preparam para os alunos realizarem na sala de aula. E a terceira característica é exatamente o ensino centrado no desempenho ou em tarefas, enfatizando-se os comportamentos observáveis e não o conhecimento sobre a língua e sobre as habilidades. Ora, uma questão se torna crucial aí: como determinar que competências e que tarefas devem compor o currículo? A resposta vai depender da classe social a que pertencem os alunos. Jean Anyon realizou uma pesquisa em cinco escolas de educação básica no Estado de Nova Jérsei, sendo duas de classe trabalhadora, uma de classe média, uma de classe média alta e uma da elite executiva (capitalistas). Anyon, que não limitou o escopo da sua pesquisa ao ensino de línguas, buscava evidência empírica para a argumentação de teóricos como Pierre Bourdieu, Basil Bernstein e Michael Apple, segundo a qual os conhecimentos e as habilidades necessárias para obter poder e respeito social estão disponíveis aos grupos socialmente privilegiados e são negados às classes trabalhadoras, às quais é oferecido um currículo voltado para conhecimentos e habilidades mais práticas, manuais (Anyon, 2014). Anyon observa diversas coisas em sua pesquisa, desde a curiosa inexistência de sinos na escola das elites executivas e sua existência nas outras, até a não explicação aos alunos das escolas da classe operária das razões pelas quais eles precisavam aprender a desenvolver determinadas habilidades e realizar determinados tipos de tarefas. Essas observações levam Anyon a confirmar empiricamente que os argumentos de teóricos como Bourdieu, Bernstein e Apple procedem. Em outras palavras, há, no dizer de Auerbach, um currículo oculto: o que deve ser ensinado e como deve ser ensinado frequentemente depende da classe social à qual pertencem os alunos. Para assegurar o objetivo de levar os alunos a desenvolverem determinadas competências e a saberem realizar determinadas tarefas, a instrução é feita de forma modularizada, o que se constitui na quarta característica do ensino de línguas baseado em competências. A modularização é a subdivisão dos objetivos para que o professor e seus alunos possam ter uma ideia clara do progresso que eles vêm atingindo. Note-se que isso está estreitamente vinculado à quinta característica: a explicitação a priori dos resultados, que são especificados em termos de comportamentos esperados dos alunos para que a prestação de contas à sociedade possa ser feita. Inevitavelmente, e esta é a sexta característica,é necessário fazer uma avaliação contínua para determinar quais competências faltam aos alunos, e quais competências estão e quais ainda não estão satisfatoriamente desenvolvidas. E como a avaliação é feita? Não é por meio das tradicionais provas escritas: o parâmetro é a habilidade que o aluno tem de demonstrar os comportamentos previamente especificados, constituindo-se na sétima característica do ensino de línguas baseado em competências. Obviamente, a avaliação está estreitamente vinculada à última característica, que é a instrução individualizada, centrada no aluno. Isso implica respeitar o tempo de aprendizagem e o foco do aluno nas áreas que precisa desenvolver. Surge aí uma indagação dos críticos desse método: a noção de avaliação pode e deve ser objetiva? Auerbach (1986: 421), comentando uma pesquisa que fez junto a professores de escolas que adotam o ensino de línguas baseado em competências, descobriu que eles reclamam que a “necessidade de satisfazer as demandas dos financiadores da escola por controles mensuráveis dos resultados controla todas as decisões curriculares”, o que faz com que professores e diretores se sintam compelidos a seguirem o modelo para satisfazer os ditames do financiamento. Ela inclusive cita uma professora que explicita a razão pela qual ela, seus colegas e diretores aderiram ao ensino de línguas baseado em competências: porque esse método vende, porque esse método atrai recursos financeiros para a escola. Essa discussão deixa claro que não há como desvincular as questões ideológicas do ensino de línguas estrangeiras. O corolário disso é que às propostas metodológicas, não importa quais sejam, subjazem valores ideológicos, que podem não ser imediatamente detectados pelo professor. Além disso, fica no ar uma questão para nossa reflexão: qual a implicação pedagógica do fato de o ensino de línguas baseado em competências estar voltado para os resultados? Podemos pensar, de imediato, na seguinte implicação: se o que importa são os resultados, não importam os processos que levam os alunos até eles. E aí vem outra implicação importante: “De certa forma, pode-se dizer que, com essa abordagem, não importa que metodologia é empregada, desde que ela entregue os resultados da aprendizagem” (Richards, 1996: 43). Bem, se a metodologia não importa, a ideia de método parece cair por terra. Parece, sim. E tal aparência nos leva inevitavelmente a uma discussão sobre a continuidade da existência dos métodos. Continuarei seguindo a linha ortodoxa de pensar a supostamente breve história dos métodos de ensino de línguas estrangeiras e aportarei nas propostas metodológicas que se inserem no ensino comunicativo de línguas. N capítulo quatro Os métodos comunicativos os anos 1970, a busca pelo suposto método ideal de ensino de línguas estrangeiras continuava. Vários linguistas aplicados britânicos vislumbraram o ensino de línguas estrangeiras focando a comunicação. Segundo Richards e Rodgers (1994), tal foco se deve ao fato de a interdependência entre os países europeus ter aumentado com a consolidação do Mercado Comum Europeu em 1957 e com a criação do Conselho da Europa em 1974. Esse aumento fez surgir a necessidade de ensinar aos adultos as línguas europeias mais importantes do ponto de vista econômico-político para consolidar o bloco geopolítico que se formava. As décadas de 1970 e 1980 testemunharam a disseminação de propostas metodológicas comunicativas dentro e fora da Europa. A influência dessas propostas foi forte o bastante para tirar um bom pedaço do espaço ocupado pelo método audiolingual nos meios acadêmico, editorial e escolar. Foi uma tomada de espaço que começou a ser delineada com o questionamento de Hymes aos conceitos de competência e desempenho de Chomsky, conforme vimos no primeiro capítulo. Diferentemente do que acontece com as propostas humanistas e com o método audiolingual, não existe um nome, não existe um teórico específico que possamos associar emblematicamente ao ensino comunicativo de línguas, pois diversos teóricos contribuíram para o desenvolvimento de propostas metodológicas de cunho comunicativo. Realmente, muitos nomes vêm à minha mente quando penso nesse método: Hymes, Halliday, Widdowson, Littlewood, Brumfit, Candlin, Johnson, Canale, Swain, Savignon, Wilkins. A década de 1970 realmente fervilhava em discussões acerca do ensino de línguas estrangeiras. Keith Johnson dá sua visão para o estado de coisas daquela década: Muito do considerável desenvolvimento atual no ensino de línguas pode ser visto como uma resposta a um problema do qual os professores têm consciência há muito tempo. É o problema do estudante que pode ser estruturalmente competente, mas que não consegue se comunicar adequadamente (Johnson, 1994: 192). A busca por uma solução para esse problema gerou algumas propostas comunicativas, cinco das quais veremos neste capítulo: a abordagem natural, a abordagem comunicativa, a aprendizagem baseada em tarefas, a abordagem lexical e a abordagem comunicativa intercultural. Todas elas compartilham os seguintes aspectos teóricos gerais do ensino comunicativo de línguas: (a) a língua é concebida como interação social, como comunicação e, por isso, não é considerada neutra quando está em uso; (b) as estruturas gramaticais não são o eixo em torno do qual as aulas devem girar, mas são alvo de atenção do professor no sentido de auxiliar os alunos a aprenderem a usar tais estruturas adequadamente; (c) o aprendiz não é visto como um papagaio ou uma esponja, mas, sim, como um ser capaz de construir seus conhecimentos e de negociar sentidos nas interações sociais; (d) o professor tem o papel de facilitar a aprendizagem dos seus alunos e não é um modelo a ser imitado; (e) os erros dos alunos são tolerados porque são vistos como parte integrante e natural do processo de aprendizagem; (f) o objetivo do ensino é auxiliar o aluno a desenvolver sua competência comunicativa, o que implica a construção de conhecimentos gramaticais, discursivos e sociolinguísticos da língua assim como de estratégias de compensação e de comunicação. Embora compartilhem essas características, as propostas metodológicas do ensino comunicativo de línguas estrangeiras apresentam diferenças significativas entre si, como veremos a seguir. 4.1. Abordagem natural A abordagem natural (termo que usarei aqui para natural approach) foi desenvolvida por Tracy Terrell nos anos 1970. Dessa vez, não foi um matemático, um psicólogo, um psiquiatra ou um pedagogo que apresentou uma nova visão sobre o ensino e a aprendizagem de línguas estrangeiras, mas, sim, um professor de espanhol. Terrell uniu forças com um linguista aplicado, Krashen, para juntos elaborarem um arcabouço teórico. Krashen (2014: 138), em seu livro Principles and Practice in Second Language Acquisition, apresenta os seguintes princípios da abordagem natural: (1) O tempo da aula é primariamente dedicado a fornecer input para a aquisição. (2) O professor só fala a língua-alvo na sala de aula. Os alunos podem falar a língua-alvo ou a sua língua materna. No caso de eles optarem pela língua-alvo, o professor só corrige erros dos alunos se eles atrapalharem seriamente a comunicação. (3) A gramática pode ser incluída nas atividades para casa. (4) Os objetivos do curso são semânticos, ou seja, a comunicação é o que importa. Esses princípios não apenas revelam os elementos que são alvos das preocupações de Krashen e Terrell no que diz respeito à aprendizagem, mas também deixam transparecer uma interlocução com os trabalhos de outros teóricos que ficaram em evidência nas décadas de 1960 e 1970, como Lozanov, Asher e Gattegno. O primeiro princípio mostra a importância que eles dão à compreensão, que é o eixo em torno do qual as aulas devem girar. Vale lembrar que input é o conjunto de informações lexicais e gramaticais que o aprendiz recebe do professor, dos colegas, do material didático e do meio ambiente em que se encontra. Nesse ponto, eles se aproximam de Lozanov, para quem o aprendiz deve serexposto ao máximo de input possível, e se distanciam de Gattegno, que defende a importância de o professor ficar, o máximo possível, em silêncio. O segundo princípio mostra a atenção de Krashen e Terrell para com os fatores afetivos que podem interferir na aprendizagem, evidenciando a influência humanista em seu método. Há estudantes que, por exemplo, se sentem constrangidos quando são corrigidos pelo professor. Outros são tão tímidos que evitam, ao máximo, falar na sala de aula com medo de cometerem erros, o que é um grande obstáculo para o desenvolvimento de suas habilidades comunicativas. O terceiro princípio mostra que as aulas de gramática não ocupam um lugar central na abordagem natural. A lógica para isso é o fato de o ser humano aprender sua língua materna sem ter instrução formal de gramática. Obviamente, essa lógica pode ser contestada na medida em a aquisição de língua estrangeira mobiliza determinados processos cognitivos que lhe são específicos e que não estão presentes na aquisição de língua materna. Afinal, a criança aprende a sua primeira língua e, posteriormente, como pré- adolescente, adolescente ou adulta, já dominando sua língua materna, aprende uma segunda língua. Somado a isso, há o fato de um adulto aprendendo uma língua estrangeira em seu país não ser exposto à mesma quantidade de input a que uma criança é exposta quando está aprendendo a língua materna. O último princípio revela a concepção de língua como um instrumento de comunicação, o que leva muitos teóricos a incluírem a abordagem natural no ensino comunicativo de línguas. Novamente, isso tem a ver com o aprendizado da língua materna: nós a aprendemos para nos comunicar com as pessoas ao nosso redor. Há aí um claro distanciamento em relação ao método audiolingual, que adota uma concepção estruturalista de língua. As reflexões de Krashen e Terrell sobre a aquisição da língua materna levaram Krashen a propor cinco hipóteses acerca do processo de aquisição de uma segunda língua. A primeira é a HIPÓTESE DA AQUISIÇÃO-APRENDIZAGEM, provavelmente a mais conhecida dos professores de inglês no Brasil. De acordo com Terrell (1983), a aquisição é a formulação inconsciente dos princípios gramaticais e a aprendizagem é o estudo da gramática feito de forma consciente e baseado na cognição. Segundo Krashen (2014), os adultos podem desenvolver sua competência numa língua de duas maneiras distintas e independentes. A primeira é a aquisição, um processo subconsciente e muito semelhante, talvez até idêntico, à maneira como as crianças desenvolvem sua competência na língua materna. Há três sinônimos para o termo aquisição: aprendizagem implícita, aprendizagem informal e aprendizagem natural. Para Krashen, a única consciência que os aprendizes têm é a de estarem usando a língua para se comunicar. Se cometem um erro gramatical, por exemplo, eles sentem que há algo errado, mas não sabem o que está errado. A segunda maneira de desenvolver competência numa língua é a aprendizagem, ou seja, um processo consciente de construção do conhecimento de uma segunda língua. Há dois sinônimos para o termo aprendizagem: conhecimento formal de uma língua e aprendizagem explícita. Nesse caso, os aprendizes não apenas têm consciência acerca das regras da língua como também podem falar a respeito delas. Para Krashen, a aquisição é central e a aprendizagem é periférica. Logo, é a aquisição que deve ser enfatizada no ensino de línguas. A aquisição envolve processos inconscientes, como aparentemente acontece com as crianças aprendendo a língua materna. A aprendizagem envolve processos conscientes, como aparentemente ocorre com os adultos aprendendo uma segunda língua. Contudo, Krashen (2014) faz um alerta para o fato de alguns teóricos presumirem que as crianças adquirem uma língua estrangeira enquanto os adultos a aprendem: com base na hipótese da aquisição- aprendizagem, ele alega que os adultos também adquirem uma língua estrangeira, porém, diferentemente das crianças, eles nem sempre conseguem atingir o nível de proficiência dos falantes nativos (lá vem o tal falante nativo de novo!). Essa distinção entre aquisição e aprendizagem não me parece interessante. Afinal, a aprendizagem não é um fenômeno que envolve apenas processos cognitivos conscientes. Além disso, fica parecendo que a aprendizagem requer uma maior capacidade cognitiva do que aquela que é exigida pela aquisição, que envolve complexos processos de construção e reconstrução de hipóteses que podem, sim, ter algum grau de consciência. Também não convencido de que essa dicotomia seja válida, Rod Ellis, em um dos seus livros, opta por usar os termos aquisição e aprendizagem como sinônimos: A aquisição de segunda língua é, às vezes, contrastada com a aprendizagem de segunda língua com base no pressuposto de que são diferentes processos. O termo “aquisição” é usado para se referir ao ato de adquirir uma língua por meio da exposição a ela enquanto o termo “aprendizagem” é usado para se referir ao estudo consciente de uma segunda língua. Entretanto, eu desejo manter a mente aberta a respeito de essa ser uma distinção real ou não. Por isso, usarei “aquisição” e “aprendizagem” de maneira intercambiável, independentemente de haver processos conscientes ou subconscientes envolvidos (Ellis, 1991: 6, grifos do autor). Ellis não é o único a demonstrar resistência em relação à distinção entre aquisição e aprendizagem. Barry McLaughlin (1990) aponta dois problemas teóricos sérios nessa distinção. O primeiro é o fato de Krashen não definir adequada e precisamente o conceito de aquisição e o conceito de aprendizagem. Dessa forma, não é possível diferenciar um do outro. O segundo problema é o fato de ele não explicitar a diferença entre os processos conscientes e subconscientes que ocorrem, respectivamente, na aprendizagem e na aquisição. A rigor, não é possível determinar se um indivíduo está aprendendo ou adquirindo uma língua. McLaughlin defende que se evite usar os termos consciente e inconsciente na discussão teórica sobre segunda língua e critica veementemente a distinção entre aprendizagem e aquisição exatamente pelo fato de ela “assumir ser possível diferenciar o que é consciente daquilo que é inconsciente” (McLaughlin, 1990: 627). Não há como se discordar dessa crítica, né? A HIPÓTESE DA ORDEM NATURAL afirma que a aquisição de estruturas gramaticais ocorre em uma ordem previsível. Contudo, se ela é previsível, então a aquisição de estruturas gramaticais se dá de maneira linear, o que é extremamente improvável. Além disso, Krashen acaba dando um tiro no próprio pé, conforme aponta Romeo (2014): a abordagem natural minimiza o papel da gramática, mas propõe que a aquisição/aprendizagem se dê seguindo uma suposta ordem natural. Com base nessa hipótese, o planejamento do currículo de um curso de línguas, então, será feito de acordo com uma sequência de elementos gramaticais, fazendo com que a gramática retorne ao centro das atenções. A HIPÓTESE DO MONITORAMENTO é a terceira hipótese proposta por Krashen e é especificamente associada à aprendizagem. Segundo essa hipótese, o falante monitora ou edita sua produção linguística com base no que aprendeu. Como o aprendizado se dá de forma consciente, o monitoramento é uma ação consciente por parte do falante. Aliás, vale notar que Krashen considera o monitoramento a única função da aprendizagem. É por meio dele que o falante corrige algo que considerou inadequado ou impreciso, o que se evidencia em repetições reformuladas de enunciados e em comentários metalinguísticos do tipo: “Acho que isso não ficou claro. Peraí. O que eu quis dizer foi o seguinte…”. A quarta hipótese foi considerada por Krashen, sem nenhuma modéstia, como “o conceito mais importante na teoria da aquisição de segunda língua” na época em que ele e Terrell escreveram The Natural Approach. A HIPÓTESE DO INPUT enfatiza o papel da compreensão no processo de aquisição da língua estrangeira. É nessa hipótese que Krashen propõe o famoso i + 1: “Adquirimos uma língua que contém estruturasum pouco acima do nosso nível de competência atual (i + 1). Isso é feito com a ajuda do contexto ou da informação extralinguística” (Krashen, 2014). Ora, você deve estar se perguntando: “Como é que eu vou saber o que ‘um pouco acima’ significa exatamente?”. E o que exatamente é “nível de competência atual”? Como determiná-los? Pois é. Não há como. E essa impossibilidade de determinação é um ponto fortemente criticado na hipótese do input. Afinal, como um professor, por exemplo, vai saber se o input que está fornecendo ao aluno se encontra acima do nível de competência atual do aluno na proporção i + 1? Repito o que se diz na minha terra: quem souber morre! De qualquer forma, a importância do input para a aprendizagem (ou aquisição) de línguas estrangeiras é ponto pacífico. Alguma controvérsia surge quando se discute o que do input é apropriado pelos estudantes. E é aí que entra o conceito de intake. Kumaravadivelu (2009: 29) lembra que o intake pode ser concebido como produto ou como processo: concebê-lo como produto implica aceitar a ideia de que ele é um subconjunto do input e, logo, é algo não processado psicolinguisticamente pelo estudante; diferentemente, concebê-lo como processo implica aceitar a ideia de que o intake é algo que vem depois do processamento psicolinguístico feito pelo estudante. Kumaravadivelu critica a concepção de intake como produto, pois ela implica a não necessidade de se distinguir input de intake. Ele está certo, pois isso realmente não procede: um estudante não processa nem internaliza todos os dados linguísticos a que está exposto: apenas uma parte dele é assimilada, exatamente o input processado. Mas o que ajuda e o que atrapalha o estudante a processar psicolinguisticamente o input? O processo psicolinguístico é afetado por algo? Para Krashen, o aprendizado é, sim, afetado tanto pelos processos cognitivos quanto pelos estados emocionais do estudante. Por isso, ele sugere a HIPÓTESE DO FILTRO AFETIVO, relacionada à influência das variáveis afetivas no processo de aquisição (e não no de aprendizagem). Segundo Krashen (2014), essas variáveis podem ser agrupadas em três categorias: (a) motivação; (b) autoconfiança; (c) ansiedade. As duas primeiras precisam estar elevadas para que a aprendizagem seja facilitada, enquanto a ansiedade precisa estar reduzida. Para Krashen (2014), “a hipótese do filtro afetivo implica que nossas metas pedagógicas deveriam incluir não apenas input inteligível, mas também a criação de uma situação que encoraje um filtro afetivo baixo”. O professor precisa criar uma atmosfera afetiva positiva na sala de aula, pois, se o filtro afetivo estiver elevado, de nada adiantará o estudante receber uma quantidade adequada e desejada de input: nesse caso, a aprendizagem será dificultada. Por exemplo, um estudante com problemas pessoais ou que não acredita poder aprender a falar a língua estrangeira acaba ficando com seu filtro afetivo elevado, o que dificulta sua aprendizagem. Críticas à parte, as reflexões de Krashen demonstram a importância dos aspectos afetivos do estudante no processo de aquisição de língua estrangeira. Veremos, a seguir, a proposta metodológica comunicativa mais conhecida dos professores de inglês no Brasil. 4.2. Abordagem comunicativa Seguramente, quando muitos professores de inglês pensam em uma proposta comunicativa de ensino, o que vem à sua mente é a abordagem comunicativa, resultado de reflexões e de questionamentos acerca da maneira como as línguas estrangeiras vinham sendo ensinadas nas décadas de 1960 e 1970. Enfatize-se aí a palavra maneira, pois mesmo o método audiolingual ou a TPR, por exemplo, têm o objetivo último de ajudar os estudantes a se tornarem capazes de usar a língua estudada para se comunicarem, mas diferem em termos da maneira com que se pode chegar a esse objetivo e em termos das concepções de língua e de aprendizagem que adotam. Um teórico cujas reflexões e questionamentos contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da abordagem comunicativa foi David Wilkins (1994). Ele criticou fortemente os métodos de ensino de línguas estrangeiras existentes até a década de 1970 por possuírem um syllabus gramatical e, consequentemente, por não conseguirem ajudar o estudante a desenvolver sua competência comunicativa, entendida, nos anos 1970, ainda em termos do modelo de Hymes. Sua crítica é procedente, pois o foco nas estruturas gramaticais e no vocabulário, sem atenção às questões contextuais de adequação sociolinguística e de produção de significados, realmente não contribui para que os estudantes desenvolvam sua competência comunicativa e sejam capazes de realizar atos linguísticos mais complexos. Ele também teceu críticas ao syllabus situacional, baseado na previsão das prováveis situações nas quais os estudantes terão de usar a língua estrangeira, afirmando que um syllabus dessa natureza é impróprio para um curso geral de línguas devido às dificuldades de definir o que é uma situação e de determinar o tipo de reação específica que um usuário da língua tem em cada situação. Essa crítica de Wilkins também procede. Afinal, se pensarmos em situações tradicionalmente apresentadas em livros didáticos que seguem a abordagem situacional, perceberemos como elas são vagas. Por exemplo, tomemos uma situação que era muito comum em livros didáticos orientados por um syllabus nocional: at the airport. Em um aeroporto, as pessoas podem ter interações orais totalmente imprevisíveis: oficiais da imigração interrogam um passageiro suspeito de tráfico de drogas; um passageiro discute com outro passageiro que fuma na área de embarque; uma mulher que espera um passageiro conversa com um desconhecido no bar do aeroporto sobre animais de estimação; uma passageira reclama com o funcionário de uma empresa aérea por causa do atraso no voo… Eu poderia escrever várias páginas com exemplos de interação oral no aeroporto, o que evidencia que há muitas possibilidades de interação dentro da situação At the airport, seja lá o que situação signifique. Afinal, estar no aeroporto não significa apenas fazer o check-in, ir ao portão de embarque e embarcar. Outros eventos com diversas interações podem ocorrer. E o corolário disso é que há uma miríade de possibilidades de enunciados que podem ocorrer nessas interações, muitos dos quais imprevisíveis. Jan Ate van Ek, com o propósito de definir um nível de proficiência geral de uma população tão heterogênea e ampla de usuários da língua como os habitantes dos países da comunidade europeia, oferece uma definição de situação que é útil como uma definição operacional, mas que evidencia toda a dificuldade de definir esse conceito de uma forma inquestionável: Por situação nós queremos nos referir ao complexo de condições extralinguísticas que determinam a natureza de um ato linguístico. Adequadamente falando, as situações são estritamente pessoais e únicas. Uma das condições é sempre o próprio usuário individual da língua com seu background único (e a soma total de suas experiências). Para os nossos propósitos […], devemos ignorar as condições estritamente individuais e nos concentrar em quatro componentes das situações […] (Van Ek, 1994: 105, grifo do autor) Apenas a título de curiosidade, eis os quatro componentes que, segundo Van Ek, formam uma situação: as regras sociais que o aprendiz será capaz de usar; as regras psicológicas que ele será capaz de usar; os cenários nos quais ele será capaz de usar a língua estrangeira; e os tópicos com os quais ele será capaz de lidar usando uma língua estrangeira. Percebe-se como é complexo, realmente, definir situação para fins pedagógicos. Bem, Wilkins faz um comentário importante sobre os métodos que adotam um syllabus gramatical ou situacional, o qual vale a pena transcrever aqui: As abordagens gramatical e situacional são essencialmente respostas para diferentes perguntas. A abordagem gramatical é uma resposta para a pergunta como?. Como os falantes da língua X se expressam? A abordagem situacional é uma resposta às perguntas quando?ou onde?. Quando e onde o aprendiz precisará da língua-alvo? Existe, contudo, uma pergunta mais fundamental a ser feita, cuja resposta pode fornecer uma alternativa às organizações gramaticais e situacionais do ensino ao mesmo tempo em que permite que considerações gramaticais e situacionais continuem operando. A pergunta é quais?. Quais as noções que um aprendiz espera ser capaz de expressar por meio da língua-alvo? Deve ser possível estabelecer que tipo de coisas um aprendiz provavelmente deseja comunicar (Wilkins, 1994: 84). Para responder a essa pergunta, Wilkins propõe um syllabus nocional ou semântico, baseado na previsão das necessidades comunicativas dos estudantes expressas em noções semânticas e em funções comunicativas. O syllabus é dividido em duas categorias: a categoria semântico-gramatical (tempo, quantidade, espaço, matéria, caso e dêixis) e a categoria de funções comunicativas (modalidade, disciplina e avaliação moral, persuasão, argumentação, exposição e inquisição racional, emoções pessoais, relações emocionais e relações interpessoais). Wilkins acredita que o syllabus nocional pode ajudar o estudante a desenvolver sua competência comunicativa. Entretanto, H. Douglas Brown (1994), claramente seguindo a terminologia proposta por Richards e Rodgers, discorda de Wilkins quanto a essa crença porque o syllabus nocional (ao qual Brown se refere como syllabus nocional-funcional) é apenas um syllabus, ou seja, é parte do design, e não um método: um syllabus apenas apresenta a língua como uma lista de unidades, sejam elas gramaticais, funcionais, nocionais ou situacionais, e, portanto, não trata das estratégias envolvidas no processo de comunicação que o estudante deve aprender. Para Brown, um syllabus não necessariamente contribui para desenvolver a competência comunicativa dos estudantes, o que não diminui, porém, a importância do trabalho de Wilkins para o desenvolvimento da abordagem comunicativa. Afinal, a grande sacada de Wilkins foi a importância da análise das necessidades comunicativas dos estudantes, essencial para as reflexões sobre as propostas metodológicas de ensino de línguas estrangeiras. No caso do Brasil, se um professor não sabe quais são as necessidades dos estudantes, se não sabe com que objetivo os estudantes estudam inglês, não terá ciência do que incluir e do que não incluir no syllabus do curso e de como trabalhar esse conteúdo. O comentário de Brown aponta para uma questão curiosa: a rigor, muitos teóricos afirmam que os métodos comunicativos não são métodos, mas, sim, abordagens (seguindo-se aí, mais uma vez, a terminologia proposta por Richards e Rodgers). A razão disso é o fato de não haver um design nem procedimentos que sejam característicos dos métodos comunicativos, como acontece com o método audiolingual, por exemplo. Nas propostas metodológicas comunicativas, há, claramente, uma teoria da língua subjacente ao ensino comunicativo de línguas, que é a teoria comunicativo-interacional, da qual tratei no primeiro capítulo. E há uma teoria implícita da aprendizagem, como esclarecem Richards e Rodgers: Elementos de uma teoria subjacente de aprendizagem podem ser discernidos a partir de algumas práticas do ensino comunicativo de línguas […]. Um desses elementos pode ser descrito como o princípio da comunicação: as atividades que envolvem comunicação real promovem a aprendizagem. Um segundo elemento é o princípio da tarefa: as atividades nas quais a língua é usada para a realização de tarefas significativas promovem a aprendizagem. Um terceiro elemento é o princípio da significância: a língua que é significativa para o aprendiz dá suporte ao processo de aprendizagem (Richards, Rodgers, 1994: 72). É curioso notar que nenhum proponente dos métodos comunicativos, até o começo dos anos 1980, havia explicitado uma teoria da aprendizagem, evidenciando a ênfase que eles deram na constituição do syllabus. Mas os objetivos foram explicitados: (a) fazer da competência comunicativa a meta do ensino de línguas; (b) desenvolver procedimentos para o ensino das quatro habilidades linguísticas, os quais reconheçam a interdependência entre a língua e a comunicação (Richards; Rodgers, 1994: 66). Pensar no ensino de línguas com propósitos comunicativos tem três implicações pedagógicas importantes. A primeira é o entendimento funcional das estruturas gramaticais, que passam a ser vistas como meios de o usuário da língua atingir seus objetivos discursivos. Isso significa que o professor não ensina gramática apenas para ensinar gramática, mas sim para ajudar o estudante a desenvolver sua competência comunicativa, sua capacidade de realizar funções linguísticas como, por exemplo, convencer, informar, ameaçar e convidar. A gramática é um meio importante, mas apenas um meio, para atingir os fins comunicativos. Assim, por exemplo, o fato de o verbo would ser um verbo modal, i.e., um verbo que não expressa tempo verbal, que não é flexionado em número e que é usado para construir enunciados que expressam situações hipotéticas ou significados sociais, é apenas parte das informações necessárias para o desenvolvimento da competência comunicativa do estudante de inglês. É importante que ele também tenha informações semânticas sobre esse verbo, como, por exemplo, a informação de que would expressa volição, vontade. Por essa razão, construções subjuntivas do tipo I wish I would ou Mary wishes she would, nas quais há dois sujeitos correferenciais, ou seja, que se referem à mesma pessoa, não são permitidas em inglês, pois wish também expressa volição, logo não faz sentido dizer algo que em português corresponderia a “Eu queria que eu quisesse” ou “Mary queria que ela quisesse”. O estudante precisa ter informações pragmáticas sobre would e aprender que esse verbo também é usado para fazer pedidos de maneira respeitosa. Se um funcionário de uma empresa quiser pedir a um colega com quem não tem muita proximidade para fechar a porta do escritório, ele pode dizer-lhe: “Would you please close the door?”. Se usasse o imperativo e dissesse “Close the door.”, ele estaria dando uma ordem, e seu colega poderia não gostar nem um pouco de receber uma ordem para fazer algo. Foi uma informação semântico-pragmática sobre o verbo would que escapou a uma colega minha e me deu a oportunidade de oferecer este exemplo agora. Ela se encontrava nos Estados Unidos no final da década de 1990 e namorava um estadunidense, que, um belo dia, durante um encontro, lhe disse: “Would you marry me?”. Minha colega entendeu esse enunciado apenas como uma pergunta sobre uma situação hipotética e respondeu: “Yes”. O problema é que seu namorado acabara de fazer um pedido de casamento e ela o aceitara… sem saber que estava aceitando! O rapaz, crente de que estava noivo, compartilhou com seus parentes e amigos a novidade. E alguns desses amigos telefonaram para minha colega para dar-lhe os parabéns. A reação dela não poderia ser outra: “Parabéns? Como assim? Por que parabéns?”. Uma vez informada de que estava noiva, ela correu para conversar com o namorado e esclarecer o mal-entendido. O namorado a ouviu. Incrédulo e magoado, terminou o namoro (e o quase noivado). É incrível como a falta de uma informação semântica sobre uma estrutura gramatical pode causar um problema desse tipo, né? Não por acaso, Littlewood alerta para o fato de a língua veicular significados funcionais. O estudante precisa, por exemplo, saber quando um enunciado como “It’s cold here”. pode significar um pedido para que alguém desligue o ar condicionado ou feche a janela, em vez de significar apenas que a temperatura está baixa no local onde o locutor do enunciado se encontra. Similarmente, o estudante precisa saber quando um enunciado não é uma simples pergunta, mas um pedido, como, por exemplo, “Could you pass the salt?”, proferido por alguém que se encontra à mesa almoçando com outras pessoas. A segunda implicação pedagógica de pensar o ensino de línguas estrangeiras com propósitos comunicativos é o entendimento de que a língua é interaçãosocial. Logo, o uso da língua envolve, pelo menos, duas pessoas, social e culturalmente situadas. Por isso, o professor precisa ajudar seus alunos a se conscientizarem da importância de adequar seus enunciados à situação em que se encontram e às posições sociais ocupadas pelos seus interlocutores no momento da interação. Littlewood também lembra que o estudante precisa estar consciente de que a língua veicula significados sociais: “Ao usar a gramática típica de livro didático, sentenças completas e uma pronúncia cuidadosa, ele pode estar enviando sinais de formalidade e de distanciamento social de maneira não intencional” (Littlewood, 1995: 5). Por exemplo, o estudante estará transmitindo essa distância ou até uma impressão de estar zangado se falar o seguinte para seu colega de quarto em uma residência estudantil: “Excuse me, would you mind closing the door?”. Conforme Littlewood observa, ele precisa aprender formas alternativas de se expressar em situações diferentes, como, no caso desse exemplo, formas do tipo “Shut the door, will you?” ou “Could you close the door, please?”. Observe-se que a interação social pode ocorrer em presença ou em ausência. Em outras palavras, os usuários da língua podem interagir uns com os outros face a face ou virtualmente em tempo real (p. ex.: via telefone ou Skype). Essa é a interação em presença, que claramente evidencia a relação entre, pelo menos, duas pessoas. Já a interação em ausência é a que ocorre em tempo não real, como acontece quando assistimos a um filme, enviamos uma mensagem por e-mail, lemos um livro ou escrevemos um ensaio, por exemplo. Nesse caso, a interação entre os interlocutores não é tão óbvia, levando algumas pessoas a se esquecerem de que estão interagindo com os autores dos textos que leem ou com os futuros leitores dos textos que escrevem. Essa observação é relevante por evidenciar a importância de o professor de inglês ajudar seus alunos a se tornarem conscientes das questões discursivas envolvidas nos processos de escrita, de fala, de compreensão oral e de leitura (tanto de textos verbais quanto de textos imagéticos). Afinal, a língua em uso não é neutra: os textos geralmente veiculam valores ideológicos que podem estar explícitos ou implícitos nas escolhas temáticas, no silenciamento acerca de determinados temas, nas escolhas lexicais e nas escolhas sintáticas. Lembro-me de um episódio interessante ao qual subjaz a não neutralidade da língua em uso. A relação entre Barack Obama e a rede de TV Fox sempre foi tão tensa que, logo no primeiro ano de seu primeiro mandato, ele se recusou a dar entrevistas à Fox alegando que ela não é uma rede de TV, mas sim, uma máquina a serviço dos políticos da direita, mais especificamente a serviço dos valores ideológicos defendidos pelo Partido Republicano. Com essa recusa e essa alegação, Obama explicitou a questão da não neutralidade dos textos produzidos pelas corporações midiáticas, cujos programas jornalísticos proclamam-se divulgadores isentos de fatos e verdades. No caso específico da sala de aula, o professor precisa se lembrar de que os livros didáticos elaborados nos Estados Unidos e na Inglaterra, invariavelmente, trazem valores culturais e ideológicos desses países. Por isso, ele precisa estar atento aos textos que compõem o livro didático que utiliza e ajudar seus alunos a ficarem atentos também. Canagarajah nos oferece um exemplo interessante disso analisando as narrativas do livro American Kernel Lessons, adotado por universidades do Sri Lanka em 1980: Uma dessas narrativas relata as experiências de uma mulher negra, Jane, que é indisciplinada, descuidada e está sempre atrasada — para levantar de manhã, para pegar o ônibus, para ir ao trabalho, para encontrar seu namorado e para ir ao cinema. Ela deixa o quarto desarrumado; deixa a sombrinha no cinema. No começo da unidade 9a, quando ela e seu namorado perdem o ônibus, ela começa a pensar que poderia encontrar um namorado que tivesse um carro, e antes de a unidade terminar, ela consegue uma carona. Na unidade seguinte, nós a vemos no cinema com seu novo namorado, apresentado como a pessoa que lhe deu carona. Esse episódio sugere que suas relações são motivadas por egoísmo, conveniência e materialismo. Ao retratar estereótipos de pessoas negras por meio de Jane, e ao usá-la como uma referência para personagens da comunidade dominante, o livro assume os valores da comunidade anglo- americana (Canagarajah, 2009: 87). Embora essa não seja a única leitura possível desse trecho do livro, a análise de Canagarajah sugere que o professor de inglês precisa estar atento aos valores ideológicos veiculados explícita ou implicitamente pelos livros didáticos. Para isso, o professor tem de observar as personagens do livro em termos das posições sociais que ocupam, em termos da maneira como a mulher, o índio, o negro, o latino, o homossexual, a lésbica são representados (ou omitidos e/ou silenciados). A terceira implicação pedagógica de pensar o ensino de línguas com propósitos comunicativos é o cuidado que o professor deve ter com relação aos tipos de atividades que escolhe para seus alunos realizarem em sala de aula. Vejamos a posição de dois proponentes da abordagem comunicativa a respeito das atividades. Christopher Brumfit foi um dos primeiros teóricos a chamar a atenção de professores de línguas para a necessidade de desenvolver no estudante fluência e não apenas precisão (ou correção gramatical). Brumfit (1994) defende enfaticamente sua posição no que diz respeito ao tipo de atividades que um professor deve sugerir a seus alunos: um curso de línguas deve ser baseado em atividades de fluência, apesar de as atividades de precisão, que visam ao desenvolvimento da competência gramatical do estudante, serem importantes no processo de aquisição de uma segunda língua. Fazendo uma analogia com o processo de aquisição da língua materna, Brumfit argumenta que a fluência do indivíduo que aprende uma língua estrangeira é resultado de suas tentativas de se expressar, de se comunicar na língua estudada, de interagir com outras pessoas, sendo o desenvolvimento da sua precisão imprescindível apenas para a comunicação escrita. Um ato de comunicação entre dois indivíduos, A e B, pode ocorrer oralmente ou por escrito. A comunicação oral ocorre em tempo real. Nesse caso, se A ou B não entenderem o que o outro quer expressar, isso ficará imediatamente claro através de algum tipo de feedback, verbal ou não, de A ou de B, gerando, assim, uma negociação de sentidos entre eles para que os significados das mensagens sejam esclarecidos. Na comunicação escrita, por outro lado, o leitor não pode negociar com o escritor os sentidos das mensagens expressas no texto, o que força o escritor a ser o mais claro possível e a utilizar uma linguagem que tanto ele quanto a pessoa que leia o seu texto entendam. O escritor necessita, então, seguir um padrão de linguagem escrita legitimado pela comunidade linguística em que vive. Para Brumfit, a precisão é, portanto, de extrema importância na comunicação escrita devido à impossibilidade de negociação de sentidos da forma como acontece na comunicação oral. Entretanto, não podemos nos esquecer de que ela também tem importância na comunicação oral, mas não na mesma magnitude porque as estratégias de comunicação presentes no processo de negociação de sentido são responsáveis pela maior parte do sucesso dos atos de comunicação. Como exemplo de atividade de precisão, posso citar uma variação do jogo da memória (em inglês, concentration game) utilizada em níveis iniciantes para proporcionar aos estudantes uma oportunidade de praticar as formas afirmativa e negativa do simple present na 3a pessoa do singular em inglês. Divide-se a turma de estudantes em trios, distribuindo-se, para cada trio, um conjunto de cartões (como os apresentados abaixo) que contém profissões e locais de trabalho no verso e, no anverso, uma cor ou um símbolo que diferencie um grupo do outro quando estiverem viradas para baixo sobre a carteira. Oscartões são embaralhados e virados para baixo, exatamente como se faz no jogo da memória. Cada aluno do trio alternará uma tentativa de encontrar os cartões que se correlacionem, formando frases afirmativas. Se os cartões não combinarem, ele fará uma frase negativa. Por exemplo, se o aluno desvirar os cartões contendo as palavras teller e restaurant, ele deverá dizer “A teller doesn’t work in a restaurant”. Se ele desvirar os cartões contendo as palavras teller e bank, ele deverá dizer “A teller works in a bank”. Fica claro que o objetivo dessa atividade é a prática das formas afirmativa e negativa do presente simples na 3a pessoa do singular, embora ela contenha um elemento lúdico importante e parta de uma visão prototípica da relação entre profissões e locais de trabalho. Um exemplo de atividade de fluência é a discussão de um tema controverso que os alunos realizam em trios, expondo depois aos outros trios a opinião que possuem a respeito daquele tema. Uma atividade deste tipo objetiva, claramente, dar oportunidade aos alunos de desenvolverem sua fluência, expressando opiniões e argumentos, usando o vocabulário e as estruturas gramaticais que quiserem e puderem usar. Para Brumfit, fluência e precisão são conceitos metodológicos que podem ter importância para os professores de línguas estrangeiras: A distinção entre precisão e fluência é uma distinção meramente metodológica, ao invés de uma distinção em psicologia ou em linguística. Em outras palavras, é uma distinção que pode ter valor para os professores no processo de tomada de decisão sobre o conteúdo das aulas e a distribuição do tempo entre os diversos tipos de atividade. Seu valor no ensino comunicativo de língua será mais tecnológico do que teórico, no sentido de que é uma distinção que está sendo feita com a intenção de produzir um ensino melhor — ensino que está o mais perto possível do nosso entendimento da natureza da linguagem e da aquisição de linguagem (Brumfit, 1984: 52). As teorias de língua e de aprendizagem com que um professor trabalha é que vão determinar a quantidade de tempo da aula que ele destinará a atividades de fluência e a atividades de precisão. Um professor que segue os princípios teóricos do método audiolingual, acreditando que o desenvolvimento da competência gramatical é suficiente para capacitar os alunos a se comunicarem, vai conduzir suas aulas concentrando-se na utilização de atividades de precisão. Já um professor que segue os princípios do ensino comunicativo e que objetiva ajudar os estudantes a desenvolverem a sua competência comunicativa, dará mais ênfase a atividades que visem ao desenvolvimento da sua fluência em situações variadas. Ele utilizará também atividades de precisão para preparar os alunos para as atividades de fluência, aceitando os erros dos alunos como parte natural do processo de aprendizagem. Entretanto, vale ressaltar que a importância aparentemente excessiva dada por Brumfit ao conceito de fluência, em detrimento do conceito de precisão, recomendando o uso de atividades de fluência e o quase não uso de atividades de precisão, foi um reflexo do momento teórico que o ensino de línguas estrangeiras atravessava, no qual a reação aos princípios oriundos do método audiolingual ainda era muito forte. Um comentário que não pode deixar de ser feito sobre o conceito de precisão é o seguinte: a precisão é relativa. Afinal, uma construção sintática ou uma resposta a uma pergunta consideradas corretas por um professor podem ser consideradas incorretas por outro professor: o conceito de precisão é “baseado em um julgamento social da língua usada por uma comunidade de fala” (Brumfit, 1994: 187). Por exemplo, em determinada comunidade de fala, o enunciado “I don’t have no time.” é aceito naturalmente como correto, enquanto o mesmo enunciado é considerado errado em outra comunidade de fala. Por essa razão, o professor de inglês precisa pensar duas vezes antes de considerar incorretos determinados enunciados proferidos por seus alunos. Littlewood tem uma posição mais flexível do que a de Brumfit no que diz respeito ao papel da fluência e da precisão no ensino de línguas estrangeiras. Ele esclarece que o professor, como facilitador da aprendizagem, cria uma situação para os alunos realizarem uma atividade, explica-lhes o que devem fazer e interfere o mínimo possível na realização da atividade. Ele faz um alerta importante a respeito do papel do professor no momento em que os alunos realizam as atividades: Especialmente nos tipos mais criativos de atividade, intervenções desnecessárias do professor podem impedir que os alunos se envolvam genuinamente na atividade, prejudicando, assim, o desenvolvimento de suas habilidades linguísticas. Contudo, isso não significa que, quando a atividade esteja sendo realizada, o professor deva se tornar um observador passivo (Littlewood, 1995: 19). Em outras palavras, o professor só deve interferir quando perceber que os alunos estão com dificuldades para realizar a tarefa, ou quando algum deles pedir ajuda. Isso se aplica principalmente às atividades voltadas para o desenvolvimento da fluência. Além disso, ele deve monitorar a atividade, observando o desempenho dos alunos, seus pontos fracos e fortes, para tomar decisões quanto ao que vai fazer posteriormente. Por exemplo, se notar que os alunos estão tendo dificuldade com vocabulário ou com determinadas estruturas, pode planejar uma atividade para ajudá-los a superar essa dificuldade. Curiosamente, criou-se um mito sobre o papel que a gramática teria na abordagem comunicativa: seu papel seria nulo. Lembro-me do meu início de trabalho num instituto de línguas binacional no ano de 1989. Vários professores ali diziam que não era preciso trabalhar a gramática na sala de aula porque os alunos a aprenderiam sozinhos com o passar do tempo, pois estavam seguindo os princípios desse método. Ora, a suposta autoaprendizagem das estruturas gramaticais como um princípio da abordagem comunicativa não passa de um mito. Prova disso é que Littlewood (1991) propõe não apenas o uso de atividades que visam ao desenvolvimento da fluência do estudante, mas também o uso de atividades que visam ao desenvolvimento da precisão do estudante, para que sua competência comunicativa seja desenvolvida. Ele cria uma taxinomia que divide as atividades utilizadas em sala de aula em atividades pré- comunicativas e atividades comunicativas. As atividades pré-comunicativas são aquelas voltadas à prática de elementos linguísticos específicos que compõem a competência gramatical do estudante, como as estruturas sintáticas e a pronúncia. Elas correspondem às atividades de precisão e servem como preparação para atividades comunicativas, nas quais o estudante deve ativar e integrar aqueles elementos linguísticos específicos praticados nas atividades pré- comunicativas. Littlewood divide as atividades pré-comunicativas em atividades estruturais e atividades quase comunicativas. As atividades estruturais, como, por exemplo, os tradicionais exercícios de preenchimento de lacunas, objetivam apenas o treinamento de formas gramaticais específicas. Um exemplo de atividade estrutural é o seguinte exercício de preenchimento de lacunas voltado para estudantes iniciantes e com foco no simple present: Fill in the blanks with the appropriate form of the verb given: Tim Robbins __________ (be) from San Diego, but he __________ (live) in New York now. He __________ (like) the public transportation system in New York, but he __________ (like) the weather there. As atividades quase comunicativas servem de ligação entre as formas da língua e seu sentido funcional potencial. Um exemplo desse tipo de atividade é um exercício de compreensão oral no qual o estudante ouve frases contendo tag questions e, em seguida, diz se o falante está fazendo uma pergunta ou querendo saber se o interlocutor concorda com a opinião que ele tem sobre algo. É um exercício que objetiva treinar o aluno no uso de entonações finais ascendentes e descendentes de tag questions,respectivamente, para perguntar algo ou para confirmar algo. As atividades comunicativas, que correspondem às atividades de fluência, visam à comunicação de ideias e informações. Segundo Littlewood, essas atividades contribuem para o aprendizado de uma língua estrangeira porque possibilitam aos alunos a prática integrada de suas habilidades linguísticas e comunicativas, aumentam a motivação dos alunos, permitem que o processo de aprendizagem ocorra de forma natural e podem criar um contexto afetivo que dê suporte ao processo de aprendizagem. Ele divide as atividades comunicativas em atividades funcionais de comunicação e atividades de interação social. As atividades funcionais de comunicação objetivam fazer com que o aluno use a língua para transmitir uma mensagem. Isso implica a existência de uma lacuna de informação25 entre o locutor e o interlocutor. A atividade apresentada a seguir é um exemplo clássico desse tipo de atividade. Ela foi delineada para ser realizada em duplas: um estudante recebe a parte A e o outro recebe a parte B. Cada parte possui lacunas de informação que devem ser preenchidas com informações constantes na outra parte. O objetivo dos estudantes é exatamente preencher essas lacunas fazendo perguntas W-H26 a seu companheiro, por exemplo: “How old is Mary?”, “Where does Cathy work?”, “What does Dale do?” ou “What’s Dale’s occupation?”. PART A PART B Tanto as atividades de interação social quanto as atividades funcionais de comunicação requerem do aluno uma atenção especial ao contexto social no qual a interação ocorre para que ele possa utilizar formas e sentidos apropriados na transmissão de suas mensagens. Como, em sala de aula, o aluno não vai encontrar contextos sociais variados, o professor os cria através dessas atividades, ajudando o aluno a desenvolver a sua competência sociolinguística. Simulações e role-plays, como o mostrado abaixo, são atividades de interação social muito comuns. Note-se que, neste exemplo, existem lacunas de informações (B não sabe o que A vai dizer na conversa, A não sabe como B vai reagir ao convite) e o aluno tem a liberdade de escolher as formas linguísticas para realizar as funções determinadas no role-play. É interessante observar um comentário de Viarcheslav Androsenko (1992: 3) a respeito das atividades comunicativas: “Uma atividade comunicativa deve ter lacuna de informação, livre escolha do que dizer e de como dizer isso e feedback através do qual o falante pode avaliar se seu propósito foi atingido ou não”. Percebe-se que as atividades que tanto Littlewood quanto Androsenko consideram comunicativas possuem três elementos básicos: As formas linguísticas utilizadas nesse tipo de atividade não são, a princípio, relevantes. O sucesso é medido através de quão bem os participantes entendem e expressam informações, o que traz à tona a questão da fluência e da precisão. Uma atividade que enfatize a forma linguística que o aluno deve usar tem como objetivo o desenvolvimento da precisão do estudante e, por isso, não é uma atividade comunicativa. Hans Heinrich Stern deixa isso bem claro: O que distingue os exercícios comunicativos da prática linguística é a intenção do professor em proporcionar oportunidades para o uso relativamente realista da língua, concentrando a atenção do estudante numa tarefa, num problema, numa atividade ou num tópico, e não em um ponto específico da língua (Stern, 1992: 195). Dá para perceber a importância que as atividades didáticas e, por extensão, os materiais didáticos, assumiram na abordagem comunicativa, né? E uma questão que surgiu entre seus proponentes diz respeito à natureza dos materiais didáticos usados em sala: eles devem ou não ser autênticos? A questão dos materiais autênticos procede do fato de os estudantes não encontrarem textos de jornais, de revistas, de livros, de programas de rádio, de programas de televisão, ou de qualquer outro meio de veiculação especificamente produzidos para determinados níveis de proficiência. Todos esses textos são produzidos para comunicarem ideias e informações, para seus autores interagirem com os falantes e leitores de uma dada comunidade linguística. Se o estudante quiser funcionar comunicativamente nessa comunidade, terá de aprender a acessar esses textos na forma como são produzidos, pois não há versões facilitadas deles (à exceção dos livros paradidáticos adaptados para estudantes de inglês, os chamados easy readers). Tal fato levou muitos adeptos do ensino comunicativo de línguas a defenderem o uso de materiais autênticos, ou seja, materiais que não são feitos para fins didáticos. Outro argumento para o uso de materiais autênticos é o fato de os materiais didáticos serem, em geral, tão artificiais que não possuem uma estrutura discursiva natural, a qual é considerada por adeptos do ensino comunicativo como sendo um dos fatores essenciais para o aprendizado da língua (Cunningsworth, 1995: 66). O uso de materiais autênticos, porém, não está livre de controvérsia. Há linguistas e professores que consideram tais materiais muito difíceis para estudantes iniciantes, defendendo, assim, o uso de materiais elaborados especificamente para iniciantes ou a simplificação de materiais autênticos. David Nunan (1989), por exemplo, acredita que o simples uso de materiais autênticos em sala de aula não garante que as tarefas que os alunos realizarão com esses materiais se assemelhem a tarefas realizadas fora da sala de aula. Esses argumentos são rebatidos por aqueles que defendem o uso de materiais autênticos em todos os níveis de proficiência com o seguinte argumento: um mesmo texto autêntico, escrito ou falado, pode ser utilizado desde o nível iniciante até o avançado, contanto que a atividade que o aluno realize com esse texto esteja adequada ao seu nível de competência comunicativa. Além disso, se um texto apresenta certo grau de dificuldade para o estudante, isso pode servir de motivação para que ele pratique o uso de estratégias de leitura, como, por exemplo, não prestar atenção a todas as palavras de um texto e o uso de dicionários. Quanto ao argumento de que a atividade realizada com o material autêntico pode não se assemelhar em nada com as atividades realizadas pelo aluno fora da sala de aula, pode-se rebatê- lo com o argumento de que, mesmo que essa semelhança não se materialize, a atividade didática pode proporcionar ao estudante treinamento em habilidades comunicativas necessárias durante a realização de atividades realizadas fora da sala de aula. Há professores de inglês que selecionam textos para usá-los em sala de aula e os simplificam, os adaptam para seus alunos. Esses professores precisam ter cuidado com esse processo de adaptação, pois podem tornar os textos até mais difíceis para os alunos, a depender do que retirem dos textos: a estrutura discursiva pode ser negativamente afetada. É por isso que existem profissionais especializados na elaboração dos easy readers: não é qualquer um que está apto a fazer isso. A importância das atividades para a abordagem comunicativa é tão grande que outra proposta metodológica vinculada ao ensino comunicativo de línguas foi elaborada em torno de tarefas. É dela que trata a próxima seção. 4.3. TBL — Abordagem baseada em tarefas A abordagem comunicativa foi uma proposta metodológica que procurou seguir um caminho distante daquele seguido pelo método audiolingual, longe do estruturalismo e do behaviorismo. Ela se tornou tão influente que muitos livros didáticos ostentavam a frase a communicative course na capa, mesmo que não aderissem fidedignamente a seus princípios teóricos (é o caso, por exemplo, da série Spectrum, muito popular na primeira metade dos anos 1990, publicada pela editora Longman e dirigida por Donald Byrd). Contudo, alguns adeptos do ensino comunicativo de línguas têm suas restrições à abordagem comunicativa. Um desses adeptos é Rod Ellis, para quem esse método é uma versão fraca do ensino comunicativo de línguas. Mas o que seria essa versão fraca? Seria exatamente o “ensino baseadoem um conteúdo linguístico, seja ele especificado em termos estruturais, como uma lista de pontos gramaticais, ou em termos nocionais/funcionais”, pois nele costuma-se empregar o procedimento metodológico do PPP (Ellis, 2004: 28-29). A versão forte, obviamente, seria aquela que não se baseia em um conteúdo linguístico e que não segue o procedimento do PPP: A distinção entre uma versão fraca e uma forte do ensino comunicativo de línguas faz um paralelo à distinção entre o ensino de línguas apoiado em tarefas e o ensino de línguas baseado em tarefas27. A versão fraca concebe as tarefas como uma maneira de fornecer prática comunicativa para itens da língua que foram introduzidos de uma maneira mais tradicional. Eles constituem uma base necessária, mas não suficiente para o currículo da língua. A versão forte concebe as tarefas como um meio de capacitar os aprendizes a aprender uma língua vivenciando como ela é usada na comunicação (Ellis, 2004: 28). O eixo em torno do qual gira o raciocínio de Ellis é bem claro: tarefas. Elas são o motor de uma proposta metodológica do ensino comunicativo que se consolidou na década de 1990, chamada de Task-Based Learning, ao qual se costuma referir usando-se a sigla TBL e que traduzo aqui como abordagem baseada em tarefas. E aqui é importante ressaltar a diferença entre as abordagens apoiadas em tarefas e as abordagens baseadas em tarefas: as primeiras são aquelas de caráter tradicional, focadas nos elementos linguísticos, que incorporam incidentalmente tarefas nas atividades a serem realizadas na sala de aula; as segundas são aquelas focadas na comunicação e na interação social e elegem as tarefas como a base para o planejamento das aulas e do curso como um todo. A rigor, a abordagem baseada em tarefas surge a partir de um projeto de ensino de inglês desenvolvido por Prabhu na Índia, entre 1979 e 1984, que ficou conhecido como The Bangalore Project, embora o nome oficial tenha sido Communicational Teaching Project. Esse projeto “não foi delineado como um experimento para ‘provar’ empiricamente determinada metodologia; em vez disso, foi uma operação de sala de aula para desenvolver uma metodologia e entendê-la”, esclarece Prabhu (1987: 3). E a metodologia que surgiu do projeto foi o ensino baseado em tarefas. Prabhu explica que, no primeiro ano, o grupo do projeto consistia de quatro professores preocupados em fazer com que os estudantes se empenhassem na produção e no entendimento de significados, que se esforçassem para entender e dizer coisas. “O grupo também tinha uma noção clara dos procedimentos que desejavam evitar, a saber, a pré-seleção da língua e as atividades com foco nas formas linguísticas” (Prabhu, 1987: 22). Após um processo de experimentações metodológicas, ficou claro para o grupo que eles deveriam utilizar tarefas para conseguirem realizar o que desejavam. Mas, afinal, o que são tarefas? A resposta a essa pergunta é essencial, pois tarefa é, obviamente, o conceito basilar da abordagem baseada em tarefas. Assim como costuma ocorrer com os conceitos na área de ensino de línguas, esse não é um conceito pacífico: não existe unanimidade em relação ao que é uma tarefa. Isso não é por acaso: tarefa, exercício e atividade são termos usados como sinônimos por muitos professores. Jane Willis define tarefa como sendo uma atividade “na qual os aprendizes usam quaisquer recursos que possuem na língua-alvo para resolver um problema, solucionar um enigma ou compartilhar e comparar experiências” (Willis28, 1996: 23). Ellis, por sua vez, oferece a seguinte definição: […] ‘tarefas’ são atividades que demandam primariamente uso linguístico focado na linguagem. Contudo, precisamos admitir que o propósito geral das tarefas é o mesmo que o dos exercícios — aprender uma língua —, a diferença reside nos meios pelos quais esse propósito deve ser atingido (Ellis, 2004: 3). Depreende-se daí que as atividades se dividem em tarefas e exercícios. Ellis acrescenta que, “enquanto uma tarefa envolve o ‘significado pragmático’, i.e., o uso da língua em contexto, um exercício envolve o ‘significado semântico’, i.e., os significados que formas específicas podem veicular independentemente de contexto” (Ellis, 2004: 3). Ou seja, para realizar uma tarefa, o estudante é livre para usar qualquer forma linguística para expressar o que deseja, diferentemente do que ocorre quando ele realiza um exercício. Não há como não perceber a proximidade que os conceitos de exercício e de tarefa propostos por Ellis têm com os conceitos de atividade pré- comunicativa e de atividade comunicativa apresentados por Littlewood, e com os conceitos de atividade de precisão e de atividade de fluência oferecidos por Brumfit. As tarefas, assim como as atividades comunicativas e as atividades de fluência, estariam voltadas especificamente para o desenvolvimento da fluência dos estudantes por meio do uso da língua. Já os exercícios, assim como as atividades pré-comunicativas e as atividades de precisão, estariam voltadas para a prática de estruturas gramaticais e de vocabulário. Os proponentes da abordagem baseada em tarefas retiram do centro das aulas o estudo das estruturas gramaticais — sem negligenciar o desenvolvimento da precisão — e enfatizam o uso da língua como o principal elemento para a aprendizagem de línguas estrangeiras, como esclarece Dave Willis ao comparar a metodologia da apresentação, ou seja, o procedimento PPP, com a abordagem baseada em tarefas: Uma metodologia de apresentação engloba muito controle da língua por parte do professor para satisfazer os interesses da precisão. Ela se baseia no pressuposto de que da precisão resulta a fluência. Uma abordagem baseada em tarefas, por outro lado, é normalmente realizada por meio de uma estratégia deep-end na qual os estudantes fazem o melhor para alcançar algum tipo de resolução para um problema comunicativo por meio do uso dos recursos linguísticos que já possui. Esses recursos podem ser suplementados se necessário, mas o foco principal não é a precisão, e sim a fluência. Uma abordagem desse tipo é baseada no pressuposto de que da fluência se origina a precisão (Willis, 1996: 45). O termo estratégia deep-end, mencionado na citação acima, foi cunhado por Keith Johnson no começo dos anos 1980 com o propósito de oferecer uma alternativa ao procedimento PPP. Seguindo essa estratégia, o professor designa uma tarefa para os alunos realizarem usando os conhecimentos linguísticos e comunicacionais que eles já possuem. Se os alunos sentirem dificuldade por causa de um elemento linguístico, o professor faz uma apresentação desse elemento. Depois, se for necessário, os alunos realizam uma atividade para praticarem esse elemento. Essa estratégia altera completamente a sequência representada pelo PPP, mostrando, de forma inequívoca, como a fluência é colocada em primeiro plano e a precisão, em segundo (Johnson, 2014). Para a abordagem baseada em tarefas, o importante é levar o aluno a usar a língua a partir dos conhecimentos que já possui e não induzi-lo a usar determinadas estruturas gramaticais e vocabulário, exatamente como pretendido pelo grupo do Projeto Bangalore. Afinal, “ditar ou controlar as formas linguísticas que os alunos devem usar numa tarefa significaria destruir a razão de ser da tarefa”, alerta Willis (1996: 24). Além disso, é essencial que sempre haja um propósito lógico para que o aluno se engaje na tarefa, exatamente como acontece nas interações sociais que ocorrem fora da sala de aula: sempre se lê, se escreve, se ouve e se fala com algum propósito. Por exemplo, podemos ler um jornal ou uma revista para passar o tempo ou para nos manter a par do que ocorre no mundo, podemos conversar com alguém para dar e receber informações ou para falar mal dos outros; podemos escrever uma carta para convencer alguém a fazer algo ou para reclamar de algo. Enfim, todo ato linguístico é motivado por um propósito e esse fato não pode ser perdido de vista nas tarefas realizadas em sala de aula. Willis (1996) apresenta um modelo paraas aulas baseadas em tarefas composto por três fases: a pré-tarefa, o ciclo da tarefa e o foco na língua. A fase da pré-tarefa é essencial para a realização da tarefa. É nesse momento que o professor introduz o tópico da tarefa, levando os alunos a ativarem os conhecimentos necessários para a realizarem. O tópico pode ser introduzido por meio de um texto falado ou de um texto escrito. Note-se que esses conhecimentos não se limitam a estruturas gramaticais, palavras e expressões: os conhecimentos enciclopédicos também são ativados. Assim, o professor pode preparar atividades para a pré-tarefa, focando em vocabulário específico ou em informações relacionadas ao tópico. É nessa fase que o professor, após introduzir o tópico e ajudar seus alunos a ativarem os conhecimentos necessários, dá as instruções para que eles realizem a tarefa de maneira adequada. As instruções precisam ser claras e objetivas, pois, se forem instruções confusas, provavelmente interferirão na realização da tarefa, levando alunos, por exemplo, a pedirem orientação ao professor durante sua realização, o que não é interessante, e até mesmo a realizarem a tarefa de forma incorreta. Às vezes, depois de introduzir o tópico e de dar as instruções, o professor precisa dar um tempo para os alunos se prepararem para a tarefa. Se esse for o caso, o professor precisa prever essa preparação para alocar o tempo necessário no seu plano de aula. O ciclo da tarefa é a fase em que os alunos realizam a tarefa. O professor não deve interferir, a não ser se for solicitado. Esse é o momento em que os alunos usam seus conhecimentos para realizar a tarefa e, assim, desenvolver sua fluência. O professor monitora os alunos e anota aquilo que chamar a sua atenção, mas não interrompe os alunos nem para fazer correções nem para sugerir algo. Se ele observar que determinada estrutura gramatical ou itens lexicais não estão bem sedimentados na cabeça dos alunos e, por isso, eles sentem dificuldades para realizar a tarefa, o professor trata desses elementos na última fase, que é exatamente o foco na língua. Além disso, ele monitora os alunos para incentivá-los a usar inglês o máximo possível, pois é natural que os estudantes, principalmente nos níveis iniciais, lancem mão do português para superar alguma dificuldade. Um elemento importante que o professor não pode perder de vista é o tempo que ele espera que os alunos gastem na realização da tarefa. Willis recomenda que o professor estabeleça um limite de tempo que seja o menor possível em vez de o maior possível, pois “é mais fácil estendê-lo do que parar os alunos antes que o limite de tempo chegue ao fim” (Willis, 1996: 54). Uma vez realizada a tarefa, chega o momento de os alunos relatarem o que fizeram. O relatório pode ser oral ou escrito e pode ter como foco a tarefa em si ou os resultados obtidos. Por isso, o professor aloca um determinado tempo para que os alunos planejem o que vão relatar para a turma. Para Willis, o relato é importante porque é uma apresentação pública, para todos os colegas, o que leva os alunos a se preocuparem com a precisão, a clareza e a organização das suas ideias. Isso cria nos alunos a necessidade da precisão, pois as tarefas são essenciais para o aprendizado da língua, mais especificamente, para o desenvolvimento da fluência dos estudantes, mas não são suficientes para que eles desenvolvam a precisão. A falta de atenção à precisão em tarefas voltadas para o desenvolvimento da fluência é corroborada por uma pesquisa de Jessica Williams, que “descobriu que os aprendizes com um nível de proficiência iniciante ou intermediário raramente focavam na forma enquanto realizavam tarefas comunicativas e, quando o faziam era apenas quando o professor estava observando” (Williams apud Ellis, 2004: 268). Isso confirma o que Skehan considera um problema sério da abordagem baseada em tarefas: O problema central para o aprendiz de línguas estrangeiras, no ensino baseado em tarefas, é que os aprendizes operam sob a pressão do tempo e com a necessidade de veicular sentidos. Essa abordagem premia as estratégias de comunicação ligadas à comunicação lexicalizada. Tais estratégias fornecem um incentivo eficaz para os aprendizes fazerem o melhor uso possível da língua que eles já possuem. Mas elas não encorajam um foco na forma. Elas não fornecem um incentivo para uma mudança estrutural em direção a um sistema de interlíngua com maior complexidade (Skehan, 1996: 22). Vale lembrar que existem tarefas especificamente voltadas para conscientizar os alunos acerca de elementos gramaticais. São as consciousness- raising tasks, às quais me referirei aqui usando o termo tarefas C-R, cujo objetivo é ajudar os alunos a desenvolverem seu conhecimento explícito de um determinado ponto gramatical. Quatro características das tarefas C-R são identificadas por Ellis (2004: 162): (1) tenta-se isolar um determinado elemento linguístico para que a ele seja dado foco; (2) aos alunos são fornecidos dados que ilustram esse elemento e até uma regra explícita que descreve ou explica esse elemento pode ser-lhes fornecida; (3) espera-se que os estudantes façam um esforço intelectual para entender o elemento gramatical em questão; (4) pode-se solicitar que os estudantes verbalizem uma regra descrevendo o elemento gramatical. Fica claro que a abordagem baseada em tarefas não ignora o desenvolvimento da precisão dos alunos. Observe-se que a necessidade que os alunos sentem de desenvolver a precisão gramatical, fonológica e semântica surge a partir do desenvolvimento da fluência. A precisão é alvo do foco na língua, a terceira e última fase do modelo apresentado por Willis. É nessa fase que os alunos analisam, discutem e praticam elementos gramaticais, fonológicos e lexicais que usaram na tarefa, principalmente aqueles que os fizeram sentir alguma dificuldade. Para praticar esses elementos, o professor pode preparar uma ou mais atividades, o que significa que a terceira fase desse modelo pode acontecer na aula seguinte. Contudo, o professor precisa ter um cuidado especial, pois essas atividades: […] não devem consistir de apresentação e prática descontextualizadas de elementos linguísticos isolados. Por sucederem o ciclo da tarefa, elas envolvem os aprendizes em um estudo de formas da língua que foram realmente usadas ou demandadas durante o ciclo. Portanto, eles já estão familiarizados com os significados expressos e agora têm a chance de estudar as formas que veiculam esses significados (Willis, 1996a: 102). Vejamos um exemplo de tarefa e de como proceder nas três fases propostas por Willis: TASK: (1) Title: A short biography. (2) Objective: Give students the opportunity to get to know their classmates. (3) Outcome: A one-paragraph biography of a student. PHASE ONE: PRE-TASK (5-10 minutes) (1) Explain to the students that they will get to know their classmates a little more today and that they will write a short biography of one of them. (2) Elicit from the students what kind of information they think a short biography should have and then write their responses on the board. (3) Tell the students to form a pair with a classmate they don’t know very well. (4) Tell the students to ask that information of the classmate they are pairing with and write it down in order to use for the biography. (5) Give the students two sheets of paper — one for the notes and the other for the biography. PHASE TWO: TASK CYCLE (10-15 minutes) (1) Have the students in each pair interview each other and write down the information necessary for the biography. (2) Have the students write the biography. (3) Monitor the interaction and observe what language aspects need to be dealt with in the focus on language phase. (4) Collect the biographies (give feedback on them in the next class). PLANNING (2 minutes) Tell the students to choose the aspects of their classmate’s life that they consider interesting to share with the rest of the group. (They use their notes to do this.) REPORT (10 minutes) Have the students sharethe interesting facts about their classmate’s life. Encourage them to ask questions about what makes them curious. PHASE THREE: FOCUS ON LANGUAGE (15-20 minutes — next class) Based on what you observed during the task and on the biography, prepare an activity or activities to give the students opportunities to practice language elements they showed difficulty using. Willis faz questão de deixar claro que essa proposta é flexível, ou seja, algumas tarefas não precisarão de uma fase de relato formal se a tarefa subsequente originar-se diretamente da primeira. Ellis (2004) tem uma concepção ainda mais flexível de uma aula baseada em tarefas: para ele, apenas a tarefa é obrigatória, embora reconheça a importância da pré-tarefa no sentido de estimular os alunos a se envolverem ativamente na realização da tarefa e de fornecer-lhes as informações necessárias para sua realização. A abordagem baseada em tarefas não está imune a críticas. Para Richards, sua implementação se demonstra complicada por algumas razões, dentre as quais destaco quatro: (1) não há evidência de que o ensino baseado em tarefas seja mais eficiente do que o ensino que segue o procedimento PPP; (2) os critérios para a seleção e para a determinação da sequência das tarefas são problemáticos; (3) o desenvolvimento da precisão linguística dos alunos é um problema; (4) a adoção dessa abordagem em cursos que estão voltados para resultados, como os que preparam alunos para exames de proficiência, é inviável (Richards, 1996: 35). De qualquer forma, a abordagem baseada em tarefas proporciona ao professor de inglês elementos importantes para suas reflexões sobe o ensino e a aprendizagem de línguas estrangeiras. E as críticas de Richards servem para deixar o professor sempre alerta a respeito de propostas teóricas: seus proponentes as defenderão e as apresentarão como a melhor proposta a ser adotada, mesmo que não afirmem isso explicitamente; por isso, o professor precisa sempre tentar analisar tais propostas a partir de uma perspectiva diferente daquela adotada pelos seus proponentes e delas reter o que for mais útil e interessante para a sua realidade. Há uma proposta metodológica de ensino comunicativo de línguas muito próxima da abordagem baseada em tarefas na crítica veemente ao procedimento PPP, mas da qual se distingue pela forte ênfase que dá ao papel do léxico na aprendizagem de línguas estrangeiras. É o que veremos na próxima seção. 4.4. Abordagem lexical No começo da década de 1990, a voz de Michael Lewis se unia à daqueles que criticavam o uso do procedimento PPP nas aulas do ensino comunicativo de línguas. Para ele, “o paradigma PPP é, e sempre foi, nonsense. O elemento da língua que pode ser suscetível ao ensino PPP não passa de uma parte pequenina e periférica da língua necessária para o uso comunicativo” (Lewis, 1996: 11). Lewis não concordava com a importância dada às estruturas gramaticais no ensino de línguas estrangeiras. Por isso, ele ofereceu à comunidade acadêmica sua proposta metodológica, a abordagem lexical, que desenvolve muitos dos princípios teóricos fundamentais apresentados pelos proponentes dos métodos comunicativos. Nesta seção, apresentarei e comentarei alguns desses princípios. Aproveitando a menção ao paradigma PPP, começo abordando um princípio importante da abordagem lexical: esse paradigma é rejeitado em favor do paradigma baseado no ciclo observe-hipotetize-experimente, que pode ser chamado de paradigma OHE. Ressalte-se que isso é um ciclo, o que significa que é recorrente nas aulas que seguem a abordagem lexical. Além disso, a sequência dos três elementos do ciclo não é necessariamente linear — eles podem ocorrer paralelamente ou em sequências diferentes. Uma implicação desse paradigma é a quantidade elevada de input a que os alunos devem ser expostos para observar os elementos linguísticos e, assim, elaborarem hipóteses sobre tais elementos e experimentá-las. Lewis não vai deixar dúvidas sobre o elemento da língua que deve constituir a maior parte do input a que os alunos devem ser expostos: o léxico. Afinal, a língua consiste de um léxico gramaticalizado, não de uma gramática lexicalizada. Eis o princípio que, na minha visão, é o mais basilar da abordagem lexical, pois deixa clara a concepção de Lewis: o léxico é central para a produção de sentidos; as estruturas gramaticais funcionam como coadjuvantes do léxico nessa produção. De forma inequívoca, esse princípio aponta para a retirada da gramática do centro das atenções no ensino de línguas estrangeiras e provoca os professores a voltarem seus olhares para o papel do léxico na aprendizagem. Contudo, vale ressaltar que isso não significa que não se dê espaço algum à gramática nas aulas que seguem essa proposta metodológica: a “abordagem lexical implica um papel diminuto para a gramática sentencial, pelo menos até os níveis pré-intermediários. Em contraste, ela envolve um papel maior para a gramática da palavra (coocorrências29 e cognatos) e para a gramática do texto (traços suprassentenciais)” (Lewis, 1999: 3, grifos meus). Essas palavras traduzem outro princípio da abordagem lexical: o reconhecimento da utilidade dos padrões estruturais, os quais não devem ser desconsiderados por conta da ênfase no papel dos padrões lexicais e metafóricos no aprendizado de línguas estrangeiras. Vale notar que a abordagem lexical não foi a primeira proposta metodológica a enfatizar a importância do vocabulário para a aprendizagem de línguas estrangeiras. A abordagem natural, a Suggestopedia e o método de gramática e tradução já o haviam enfatizado. Entretanto, foi a abordagem lexical que deu ao vocabulário, ou ao léxico, como prefere Lewis, o papel mais importante no processo de aprendizagem de línguas estrangeiras: Assim como a abordagem natural de Krashen, e seguindo a tradição da abordagem comunicativa (da maneira como é concebida por linguistas aplicados, não a versão expurgada que as editoras incorporam aos seus livros didáticos), a abordagem lexical coloca a comunicação de sentidos no coração da língua e da aprendizagem de línguas. Isso leva à ênfase no principal veiculador de significados, o vocabulário (Lewis, 1999: 15). Não é necessário quebrar a cabeça para perceber um fato básico no ensino de línguas estrangeiras que motivou Lewis a propor a abordagem lexical: na maioria das propostas metodológicas existentes até então, aloca-se muito mais tempo para o tratamento das estruturas gramaticais do que para o tratamento dos itens lexicais (que podem ser constituídos por uma palavra ou por um grupo de palavras). A implicação desse fato é que o ensino da gramática sempre foi alvo de sistematização, ao contrário do ensino do vocabulário, que tradicionalmente “consistia de itens separados não generalizáveis, arbitrários até, itens que tinham de ser aprendidos separadamente” (Lewis, 1999: 37). No entendimento de Lewis, não se deve pensar na gramática e no léxico como elementos distintos, pois — e este é outro princípio — a dicotomia gramática/vocabulário é inválida. Para a abordagem lexical, esse princípio é decorrente do fato de uma grande parte da língua consistir de blocos de palavras30, como palavras sintagmáticas (e.g. bus stop e washing machine) e expressões congeladas (e.g. Shame on you! e have the final say). Realmente, muito do que é dito em português ou em inglês não consiste de palavras isoladas. Em inglês, por exemplo, produzem-se muitos enunciados com blocos de palavras como the day before yesterday, movie theater, I’ll see you tomorrow e what’s up? E se duas palavras ocorrem juntas, elas estão sintagmaticamente relacionadas; logo, léxico e gramática estão estreitamente relacionados entre si. Daí decorre outro princípio: um elemento central no ensino de línguas é o desenvolvimento da habilidade dos alunos para formar blocos de palavras na língua-alvo de maneira bem-sucedida. Para isso, o tratamento das coocorrências em sala de aula é essencial para ajudar os estudantes a desenvolverem essa habilidade. Vale lembrar que as coocorrênciaspodem ser mais ou menos livres. Por exemplo, o adjetivo rancid geralmente ocorre com o substantivo butter, que pode ocorrer com outros adjetivos. Assim, se virmos a palavra rancid seguida de uma lacuna, automaticamente a preencheremos com butter. Entretanto, esse alto grau de previsibilidade não caracteriza o adjetivo beautiful, que pode ocorrer com muitos substantivos, caracterizando-o como um item lexical de coocorrência mais livre. Além disso, não há reciprocidade nas coocorrências. Ou seja, rancid sugere butter, mas butter não sugere rancid; non-alcoholic sugere drink, mas drink não sugere non-alcoholic. Lewis alerta para um fato lexical muito importante: a coocorrência não diz respeito a ideias ou conceitos, mas, isto sim, a palavras. Ele fornece dois exemplos interessantes disso, ao comentar que, na Inglaterra, no mundo empírico, people drive a car e people drink coffee, mas que isso não acontece na língua inglesa, ou seja, essas ações não são representadas, respectivamente, pelas coocorrências drive a car e drink coffee nas situações enunciativas do dia a dia (o asterisco indica um enunciado improvável ou até impossível de ocorrer). Eis os exemplos: So, how did you come this morning? > Oh, I brought the car. / I drove. > * Oh, I drove the car. Would you like coffee? > No thanks, I’ve just had one. > * No thanks, I’ve just drunk one. Aprender uma palavra vai muito além de aprender sua grafia, as formas de ser pronunciada, seu significado literal e a categoria gramatical à qual pertence. Imagine-se que um professor planeje ensinar aos alunos a falarem sobre dimensões. Ele inevitavelmente vai introduzi-los a pares de antônimos que se referem a dimensões, como shallow/deep, short/long, small/large, low/high e narrow/wide. Mas não basta aos alunos conhecerem o significado literal, a pronúncia e a grafia dessas palavras e a relação de antonímia existente entre os membros de cada par. Para desenvolverem sua proficiência, eles precisam aprender também com que outras palavras esses adjetivos podem coocorrer e suas implicações semânticas. É necessário que eles tenham consciência do que acontece nos usos metafóricos e nas perguntas sobre dimensões. No caso dos usos metafóricos, eles precisam aprender, por exemplo, que shallow coocorre com person, man e woman, designando características intelectuais negativas, e que low coocorre com essas mesmas palavras designando caraterísticas morais negativas. Quanto às perguntas sobre as dimensões de algo, apenas um elemento de cada par é usado de uma forma semanticamente não marcada, ou seja, de uma forma que não direcione o respondente a um aspecto específico da dimensão em questão. Observemos a diferença entre os pares de perguntas abaixo: How deep is the pool? — How shallow is the pool? How long is her hair? — How short is her hair? How large is your room? — How small is your room? How high is the building? — How low is the building? How wide is that street? — How narrow is that street? A primeira pergunta de cada par é não marcada, diferentemente da segunda. Se um sócio de um clube pergunta a um funcionário How deep is the pool?, ele está querendo saber a profundidade da piscina, por não saber se ela é rasa ou profunda. Porém, se ele perguntar How shallow is the pool?, ele já sabe que a piscina é rasa, mas quer saber exatamente quão rasa ela é (seja lá qual for o motivo pelo qual deseje ou precise saber disso). Lewis vê a coocorrência como um elemento gerador de significados e a considera tão importante que a concebe como um princípio organizador dos conteúdos programáticos dos cursos de línguas estrangeiras. Ele dá um exemplo interessante da importância da coocorrência no aprendizado: é praticamente impossível explicar o significado do verbo bark sem fazer referência ao substantivo dog. Para ele, o que constitui o significado de bark é a coocorrência (dogs bark) e o conjunto de oposições lexicais a esse verbo, como se pode ver no enunciado “Dogs bark, but pigs grunt and ducks quack.” (Lewis, 1999: 82). A abordagem lexical concebe a língua como um recurso pessoal e não como uma idealização abstrata. Por isso, Lewis considera essenciais as pesquisas da linguística de corpus como fonte de dados para a elaboração dos conteúdos programáticos dos cursos de línguas estrangeiras. Afinal, a linguística de corpus se baseia em textos orais e escritos que realmente foram produzidos por usuários da língua e não em sentenças criadas pelo próprio pesquisador para seus propósitos de estudo. O recurso aos dados da linguística de corpus pode suscitar uma crítica interessante e séria: mesmo utilizando-se textos que foram realmente produzidos, perde-se de vista todo o contexto situacional em que esses textos ocorreram, pois o foco está no produto e não no processo de produção enunciativa. Entretanto, vale lembrar que a proposta da abordagem lexical é colocar o léxico como eixo em torno do qual as aulas de línguas devem ocorrer. Aliando isso ao papel de destaque que a coocorrência assume na sua proposta metodológica, Lewis minimiza a importância do contexto e maximiza o papel do cotexto na aprendizagem dos itens lexicais. Curiosamente, e, por que não dizer, contraditoriamente, Lewis ressalta a importância do aprendizado de palavras descontextualizadas para o desenvolvimento da habilidade de compreensão dos alunos e rebate duas crenças pedagógicas: “Muitos professores pressupõem que palavras só podem ser aprendidas quando contextualizadas e que qualquer forma de ‘inserir a palavra numa sentença’ representa contextualização. Ambas as pressuposições são falsas” (Lewis, 1999: 103, grifos do autor). Não há como não nos lembrarmos das listas de palavras do método de gramática e tradução, embora ali não exista uma preocupação com a formação de blocos de palavras, mas, sim, com palavras vistas isoladamente. Como, para a abordagem lexical, a recepção do léxico se constitui na atividade mais importante nos estágios iniciais de aprendizagem, os alunos precisam logo aprender o maior número possível de palavras. Ou seja, os alunos precisam identificar o significado de muitas palavras para aumentarem sua capacidade de comunicação, mesmo que não as dominem. Consequentemente, um princípio importante para essa proposta metodológica é a ênfase nas habilidades receptivas, i.e., leitura e compreensão oral, principalmente esta. Para Lewis, enfatizar demais a fala nos níveis iniciais de aprendizagem de uma língua estrangeira inibe os alunos, é contraproducente. Sua posição está de acordo com a hipótese de que os estudantes atravessam um período silencioso no começo do processo de aprendizagem. Contudo, é preciso ter o cuidado de não subestimar os estudantes: eles podem, sim, já nas primeiras aulas, começar a aprender a produzir enunciados simples sobre suas vidas pessoais e sobre a interação típica das rotinas de sala de aula. De qualquer forma, exatamente para diminuir o estresse e a inibição dos alunos nos estágios iniciais, a tradução é vista como uma técnica legítima e inevitável na abordagem lexical, aproximando-se, assim, do que propõe a Suggestopedia. Além disso, Lewis recomenda que a escrita extensiva deve ser adiada o máximo possível, o que parece implicar que ele não vê nenhum problema na prática da escrita nos níveis iniciais, desde que sejam exercícios breves. E o que dizer a respeito dos erros que os alunos cometem durante a aula? O professor que segue os princípios da abordagem lexical encara os erros dos alunos como fenômenos inerentes ao processo de aprendizagem. Afinal, “os professores devem reagir primordialmente ao conteúdo da língua produzida pelo aluno”, alerta Lewis (2002: 34). Isso não significa que o professor ignore todos os erros relativos à estrutura — ele apenas dedica mais atenção ao que os alunos dizem e menos atenção a como eles dizem isso. Lewis divulga a abordagem lexical no livro homônimo The Lexical Approach: The State of ELT and a Way Forward, em 1993. Ali ele discute questões teóricas relevantes concernentes ao ensino e à aprendizagem delínguas estrangeiras para criar o pano de fundo para a apresentação dos princípios da sua proposta metodológica. Quatro anos mais tarde, ele publica Implementing the Lexical Approach: Putting Theory into Practice, no qual retoma questões teóricas e os princípios apresentados no primeiro livro e apresenta dezenas de exercícios voltados para o aprendizado de itens lexicais. É curioso observar que não há tarefas, mas exercícios, o que nos faz perguntar se é possível haver espaço para tarefas em um método que dá foco ao léxico. Além disso, surpreende-me o fato de muitos dos exercícios propostos por ele lembrarem exercícios e técnicas típicos de métodos tradicionais, como o quadro de substituição, usado na abordagem oral, e os drills, típicos do método audiolingual. O próprio Lewis já sabe que vai causar estranhamento ao propor um tipo de exercício que é a cara do método audiolingual ao afirmar, no seu primeiro livro: “Ironicamente, o desacreditado drill pode retornar — em uma forma modificada e restrita — para ajudar os alunos a aprenderem os blocos de palavras” (Lewis, 1999: 127). Ele se sente claramente desconfortável com tal proposta e tenta justificá-la afirmando que o drill que está propondo difere do drill fora de moda porque o elemento praticado pode ser um bloco de palavras totalmente fixo, como You’re making a mountain out of a molehill e No thank you, I’m fine: para Lewis, se estamos lidando com uma expressão fixa, não é necessário focar o domínio da estrutura sintática a ela subjacente. E aí ele faz uma sugestão muito esquisita e surreal: “O drill pode se tornar mais interessante do que o drill tradicional se solicitarmos aos alunos que digam um mesmo bloco de palavras de maneira agressiva ou confidencial, como uma dúvida, ou até mesmo chupando pastilha de hortelã“ (Lewis, 1999: 128). Brincadeira, né? Bem, Lewis é transparente a respeito do que está apresentando à comunidade acadêmica: um conjunto de crenças teóricas e práticas. Afinal, seguindo-se a terminologia proposta por Richards e Rodgers, a abordagem lexical não é mesmo um método nem um syllabus lexical. Ela é exatamente o que seu nome anuncia: uma abordagem, que ele entende como sendo um conjunto de crenças teóricas e práticas baseadas em um novo entendimento da língua. Por isso, em resposta a diversos leitores que lhe perguntaram como seria uma aula lexical, ele afirma: Embora não exista algo como “uma aula lexical” da maneira que alguns correspondentes gostariam que existisse, duas características são comuns a todas as atividades novas, ou atividades com um foco novo: em primeiro lugar, a atenção é direcionada a blocos de palavras maiores do que costuma ser a norma; em vez de palavras, nós conscientemente tentamos pensar em coocorrências e apresentá-las em expressões. Em vez de tentar quebrar as coisas em pedaços cada vez menores, há um esforço consciente para ver as coisas de maneira mais ampla, mais holística. Em segundo lugar, as atividades tendem a unificar o ensino da gramática, do léxico e da pronúncia; um bloco de palavras pode ser ensinado como um item lexical, uma unidade fonológica e input gramatical (Lewis, 2002: 204). Então, é isso. Não existem aulas lexicais, nem métodos ou syllabuses lexicais. Existem concepções teóricas acerca da língua e da aprendizagem atreladas ao léxico e ao papel que o léxico desempenha na produção de sentidos na interação comunicativa. Ao divulgar e defender essas crenças, Lewis tinha a expectativa de provocar os professores de línguas estrangeiras a refletirem sobre o espaço que dão (ou que não dão) ao léxico em suas aulas e sobre a maneira como tratam os itens lexicais em suas aulas, de fazê-los refletir, de uma forma mais geral, sobre o ensino e a aprendizagem de línguas estrangeiras. Acredito que essa expectativa se concretizou. Na década de 1990, surgia outra proposta metodológica no horizonte do ensino comunicativo de línguas. É o que veremos na próxima seção. 4.5. Abordagem comunicativa intercultural Os métodos comunicativos estavam no centro das atenções do universo de ensino de línguas estrangeiras nos anos 1980. A ideia de usar a língua para o preenchimento de lacunas de informação e para a interação social estava se popularizando entre os professores de inglês mundo afora. Entretanto, havia teóricos que começavam a demonstrar preocupação com a dimensão cultural desses métodos. Foi aí que se começou a esboçar o método que viria a ser conhecido como abordagem comunicativa intercultural. O nome do método não deixa dúvidas quanto a sua filiação ao ensino comunicativo de línguas e, ao mesmo tempo, explicita a preocupação dos seus proponentes com os aspectos culturais envolvidos no processo de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras. Entretanto, essa preocupação não é tão nova como alguns podem pensar, pois, nos anos 1950, Robert Lado e Edward Hall já problematizavam o lugar das questões culturais no ensino de inglês como língua estrangeira. Hall inclusive desenvolveu princípios de comunicação intercultural que fizeram surgir “os jogos de simulações, os estudos dos ‘incidentes críticos’ em que a comunicação errônea ocorria, e os estudos comparativos das culturas americana e asiáticas, especialmente a japonesa”, de acordo com Kramsch (2002: 201), que resume em oito as “principais facetas da interação humana que a comunicação intercultural ajudou a definir”: (1) a situação de comunicação propriamente dita, p. ex.: os papéis socialmente convencionalizados e adotados pelos participantes, as normas esperadas de interação e interpretação, o modo como eles constroem um senso compartilhado de realidade; (2) os estereótipos que eles possuem um do outro, como indivíduos e como membros de um grupo social; (3) seu comportamento não verbal e paraverbal; (4) a maneira como eles resguardam o respeito e a reputação de si próprios e dos outros; (5) a maneira como eles estruturam o discurso para atingir suas metas comunicativas; (6) as atitudes, os valores e as crenças (também chamadas de ‘discursos’) que eles compartilham com o grupo social ao qual pertencem; (7) a maneira como sua língua reflete discursos mais profundos; (8) a maneira como os membros de diferentes grupos realizam variados atos de fala (como, por exemplo, cumprimentos, pedidos e desculpas). Essas facetas claramente dizem respeito à cultura com “c” minúsculo (grosso modo, os comportamentos relacionados à interação social do dia a dia, os modos de vida de um grupo cultural), não à cultura com “C” maiúsculo (grosso modo, a literatura, as artes plásticas e a filosofia). Ora, a ênfase na cultura com “c” minúsculo não foi por acaso: a preocupação com a comunicação intercultural no cenário pós-guerra foi provocada por uma razão mercadológica, ou seja, pela necessidade de se treinarem vendedores e executivos das grandes corporações estadunidenses que iam a outros países para estabelecer ou consolidar laços comerciais. Em outras palavras, os estudos voltados para a comunicação intercultural se intensificaram no período pós-guerra por estarem intimamente relacionados com o processo de expansão imperialista dos Estados Unidos. Em um primeiro momento, o objetivo desses estudos era ajudar os funcionários do Instituto de Serviços Estrangeiros que se encontravam em outros países (Kramsch, 2002). Em um segundo momento, que se consolidou nos anos 1980, a comunicação intercultural passa a ser objeto de preocupação dos teóricos da área de ensino de inglês como língua estrangeira com uma perspectiva mais abrangente, os quais capitalizaram o desenvolvimento do ensino comunicativo de línguas, fazendo surgir a abordagem comunicativa intercultural, conforme esclarece John Corbett: Ao mesmo tempo em que reconhecem a importância óbvia da língua como um meio de comunicar informações, proponentes de uma abordagem intercultural também enfatizam suas funções sociais; por exemplo, os modos com que a língua é usada por falantes e escritores para negociarem seu lugar em grupos sociais e hierarquias. Há muito tempo, é evidente que asmaneiras como essas negociações acontecem variam de comunidade para comunidade. Um curso de línguas preocupado com ‘cultura’, então, expande seu escopo de um foco na melhoria das ‘quatro habilidades’ de leitura, escrita compreensão oral e fala, a fim de ajudar os aprendizes a adquirirem habilidades culturais, tais como estratégias para a observação sistemática de padrões comportamentais. Além disso, à medida que os aprendizes atingem um entendimento mais profundo de como a língua-alvo é usada para atingir as metas culturais explícitas e implícitas da comunidade da língua estrangeira, eles devem ser provocados a refletir sobre os modos como suas próprias língua e comunidade funcionam. O aprendiz intercultural serve, no fim das contas, como um mediador entre grupos sociais diferentes que usam línguas e variedades linguísticas diferentes (Corbett, 2003: 2). Fica claro, portanto, que a abordagem comunicativa intercultural não é uma proposta metodológica que nega os princípios do ensino comunicativo de línguas: ela agrega, a esses princípios, uma forte preocupação com a dimensão cultural do ensino e da aprendizagem de línguas estrangeiras. Essa proposta metodológica tem o objetivo de ajudar os aprendizes a desenvolverem não apenas sua competência comunicativa, mas também sua competência comunicativa intercultural, que pode ser definida como o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para que um indivíduo interaja, de forma efetiva e apropriada, com outros indivíduos que são linguística e culturalmente diferentes dele (Fantini, 2005; Byram, Gribkova, Starkey, 2002). Michael Byram, Bella Gribkova e Hugh Starkey (2002: 12-13) propõem cinco componentes para a competência comunicativa intercultural. Obviamente, assim como Canale e Swain fizeram, analisando o conceito de competência comunicativa em quatro componentes, a análise do conceito de competência comunicativa intercultural em cinco componentes é um artifício para facilitar a discussão teórica sobre esse conceito. Afinal, todos os componentes da competência comunicativa cultural, assim como todos os componentes da competência comunicativa, estão estreita e fortemente interligados no momento em que o indivíduo usa a língua. Vejamos quais são os componentes da competência comunicativa intercultural. O primeiro componente é o conjunto de atitudes interculturais (savoir être): a curiosidade, a abertura e a prontidão para suspender descrenças sobre outras culturas e crenças sobre sua própria cultura. São essas atitudes que fazem com que os estudantes de línguas estrangeiras relativizem valores e entendam que seus valores não são valores universais, que seus valores não são os valores de todos os seres humanos. Dessa forma, os estudantes brasileiros aprendem a lidar com diferenças culturais existentes não apenas entre eles e falantes de outras línguas nacionais, mas também entre eles e brasileiros de comunidades culturais diferentes das suas. Estar curioso e aberto a diferentes práticas culturais e estar pronto para suspender crenças são maneiras eficientes de evitar o etnocentrismo, que, “de maneira indevida, consiste em erigir em valores universais os valores próprios à sociedade a que pertenço”, conforme esclarece Tzvetan Todorov (1993: 21). Evitar ser etnocêntrico é essencial para o diálogo intercultural, pois “o etnocêntrico segue a linha do menor esforço e procede de maneira não crítica: crê que seus valores são os valores isso lhe basta; nunca busca verdadeiramente prová-lo” (Todorov, 1993: 21, grifo do autor). Se os estudantes acreditarem que seus valores são os valores de todos, eles tendem a julgar negativamente os indivíduos e grupos que possuem valores e práticas culturais distintos dos seus. Foi por causa do seu etnocentrismo que ingleses, portugueses, espanhóis e outros europeus exterminaram e escravizaram seres humanos nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania, seres humanos que os colonizadores julgaram como sendo primitivos simplesmente por possuírem valores diferentes dos brancos europeus das classes dominantes. As atitudes interculturais são essenciais para que os estudantes estejam alerta para estereótipos, ou seja, para generalizações frequentemente negativas sobre os outros, como, por exemplo, a ideia de que os franceses não gostam de tomar banho ou a de que os baianos são preguiçosos ou a de que os gaúchos são racistas ou a de que os estadunidenses são obesos. Só estando alertas, só adotando essas atitudes interculturais, é que os estudantes serão capazes de identificar estereótipos e preconceitos veiculados em livros didáticos, por exemplo, e de não acreditar ingenuamente nas descrições do tipo “o brasileiro típico” e “o britânico típico”. Os conhecimentos (savoirs) que o indivíduo possui sobre os grupos sociais e sobre seus produtos e suas práticas em seu próprio país e no país do interlocutor formam o segundo componente da competência comunicativa intercultural. Além desses, incluem-se os conhecimentos que ele possui sobre os processos gerais de interação. Claramente os conhecimentos que constroem sobre as culturas dos outros ajudam os estudantes a modificar suas atitudes interculturais no sentido de se tornarem mais abertos, curiosos e dispostos a abrirem mão de determinadas crenças etnocêntricas que possam ter. Conforme recomendam Byram, Gribkova e Starkey (2002), os usuários de uma língua estrangeira precisam prever com quem vão interagir para que possam tentar prever os conhecimentos de mundo de seus interlocutores. Dessa forma, por exemplo, brasileiros que vão morar na terra do Tio Sam precisam saber que visitar um estadunidense sem avisar com uma antecedência razoável é considerado um gesto inconveniente, diferentemente do que ocorre no nosso país. Outro exemplo é válido para os brasileiros que planejam visitar Praga: eles precisam saber que muitos garçons e garçonetes em restaurantes não localizados nas áreas turísticas simplesmente não gostam de turistas estrangeiros ocidentais. De posse dessa informação, o turista brasileiro já fica preparado para tolerar o atendimento ruim (ou o não atendimento!) que receberá em vários restaurantes na capital da República Tcheca, evitando ficar muito chateado e até discutir com garçons e garçonetes. Contudo, uma pergunta acerca desses conhecimentos pode surgir de imediato na mente de uma pessoa mais atenta: como é que o professor de inglês pode ter tantas informações sobre aspectos culturais de outros países para ser capaz de ajudar seus alunos a desenvolverem a competência comunicativa intercultural? Afinal, nenhum professor tem condições de prever os conhecimentos de que seus alunos podem vir a precisar em uma interação com outras culturas (e há tantas culturas diferentes, muitas das quais não conhecemos, né?). Além disso, muitos professores nunca tiveram a oportunidade de ir a outros países para vivenciar, eles próprios, as culturas que seus alunos podem vir a vivenciar. Michael Byram, Adam Nichols e David Stevens fazem um comentário importante a esse respeito, que cito in extenso: Na sala de aula de línguas estrangeiras, o que era frequentemente visto como um problema no ensino da dimensão cultural, ou seja, a falta de oportunidade de viajar para um país e uma sociedade estrangeiros, não deve, de forma alguma, inibir professores e aprendizes. E isso não porque a nova tecnologia pode ‘substituir’ a experiência de primeira mão, mas, sim, porque a dimensão cultural se tornou a dimensão intercultural. Em outras palavras, reconhece-se que não é tarefa do professor fornecer informações exaustivas e tentar levar a sociedade estrangeira para a sala de aula para que os aprendizes a observem e a vivenciem de maneira indireta. Em vez disso, a tarefa é facilitar a interação dos aprendizes com uma pequena parte de outra sociedade e suas culturas, com o propósito de relativizar a compreensão que os aprendizes têm de seus próprios valores culturais, crenças e comportamentos, e de encorajá-los a investigar, por conta própria, a alteridade ao seu redor, ouno seu ambiente físico imediato ou em seu engajamento com a alteridade que a internacionalização e a globalização trouxeram para seu mundo (Byram, Nichols, Stevens, 2001: 3). Portanto, o papel do professor é ajudar seus alunos a desenvolverem habilidades que os ajudem a lidar com situações de interação com pessoas que vivem em outras culturas, evitando mal-entendidos com interlocutores de culturas diferentes. São essas habilidades que formam outros dois componentes da competência comunicativa intercultural. As habilidades de interpretação e de relação (savoir comprendre) constituem um desses componentes, o terceiro. Essas habilidades são as que permitem ao indivíduo interpretar um documento ou um evento de outra cultura e explicá-lo e relacioná-lo a documentos ou eventos de sua própria cultura. Por exemplo, consideremos o evento de ir à área de alimentação de um shopping center para comer algo e para tomar um chope geladinho, evento comum em algumas cidades brasileiras. Contudo, os brasileiros que vão estudar, trabalhar ou passear nos Estados Unidos precisam saber que é ilegal tomar cerveja ou qualquer outra bebida alcóolica na rua ou em outras áreas públicas como a área de alimentação de um shopping center naquele país. Assim, se ele observar atentamente as pessoas nas ruas de cidades estadunidenses, perceberá que ninguém toma bebidas alcoólicas abertamente nas ruas e em outras áreas públicas31. Que interpretação deve ser dada a essa proibição? Alguns brasileiros podem interpretá-la como um ato autoritário, que poda a liberdade individual. Outros farão uma relação com a questão da segurança no trânsito e a entenderão como uma das razões pelas quais os Estados Unidos possuem muito mais automóveis que o Brasil e, curiosamente, enfrentam muito menos acidentes automobilísticos do que o nosso país, onde ainda há muitas pessoas que dirigem logo após ingerirem bebidas alcoólicas. As habilidades de descoberta e de interação (savoir apprendre/faire) se constituem no quarto componente. Elas se referem à habilidade que o indivíduo possui de construir novos conhecimentos sobre uma cultura e sobre práticas culturais, e à habilidade de ativar conhecimentos, atitudes e habilidades dentro dos limites da comunicação e da interação em tempo real. Obviamente, uma forma de construir novos conhecimentos sobre uma cultura é ler a respeito dela, o que ficou mais fácil com a internet. Entretanto, há outros instrumentos à disposição dos estudantes para a construção de conhecimentos sobre outras culturas: textos literários, filmes e documentários. Por exemplo, uma questão muito delicada nas interações interculturais é o contato físico. Mulheres e homens brasileiros costumam trocar beijos nas bochechas ao serem apresentados. Contudo, membros de outras culturas, como a japonesa e a alemã, não possuem esse hábito. Por isso, para evitar mal-entendidos, os brasileiros precisam construir conhecimentos sobre como outras culturas lidam com o contato físico com pessoas que nunca viram antes. Nesse caso, a internet é uma ferramenta interessante. Outro exemplo são os hábitos de alimentação dos estadunidenses. Os brasileiros interessados em conhecer um pouco desses hábitos, principalmente no que diz respeito ao consumo de fast food, podem assistir ao documentário Super Size Me: a dieta do palhaço, dirigido por Morgan Spurlock. O último componente da competência comunicativa intercultural é a consciência crítica cultural (savoir s’engager), que nada mais é do que a habilidade que o indivíduo possui de avaliar criticamente, e com base em critérios explícitos, perspectivas, práticas e produtos em sua própria cultura e em outras culturas e países. Para ajudar os alunos a desenvolver sua consciência crítica cultural, o professor precisa ajudá-los a entender que o senso comum pode ser o meio mais curto para a criação de estereótipos e interpretações equivocadas de realidades diferentes daquela com que eles estão acostumados. Por isso, um elemento essencial na construção dessa consciência crítica é estar sempre aberto ao que é diferente e fazer um esforço para não julgar com os critérios de sua própria cultura. Quanto ao papel do professor no desenvolvimento da consciência crítica cultural dos estudantes, Byram, Gribkova e Starkey esclarecem que “não é o propósito do ensino tentar mudar os valores dos estudantes, mas, sim, torná- los explícitos e conscientes em qualquer resposta avaliativa aos outros”, e ressaltam: Há, no entanto, uma posição fundamental acerca de valores que todo ensino de línguas deve promover: a posição que reconhece o respeito pela dignidade humana e a igualdade de direitos humanos como sendo a base democrática para a interação social (Byram, Gribkova, Starkey, 2002: 46, grifos dos autores). Não por acaso, “a consciência crítica cultural com respeito ao país do próprio estudante é vista atualmente como um dos maiores objetivos da aprendizagem de língua e cultura”, comentam Elena Tarasheva e Leah Davcheva (2001: 46). Afinal, nós todos precisamos refletir sobre nossa própria cultura e sobre a maneira como ela parece ser para quem é de fora, para os outros. Por isso, a dimensão intercultural no ensino de línguas estrangeiras “visa desenvolver aprendizes que sejam falantes interculturais ou mediadores capazes de se engajar com complexidade e com identidades múltiplas e evitar a estereotipagem que acompanha a percepção de alguém através de uma única identidade” (Byram, Gribkova, Starkey, 2002: 9, grifos dos autores). Vejamos algumas possibilidades de atividades que podem contribuir para o desenvolvimento da competência intercultural dos estudantes de inglês. São atividades que objetivam levá-los a refletir sobre as diferenças entre suas concepções de mundo e as concepções de mundo de membros de outras comunidades. Essa reflexão os ajuda a desconstruir concepções naturalizadas que os levem a considerar como universais determinados fenômenos culturalmente localizados. Atividades que levam os estudantes a comparar e a interpretar eventos de culturas diferentes são bastante eficazes. Por exemplo, o professor pode solicitar aos estudantes para comparar feriados no Brasil e nos Estados Unidos, tanto em termos de datas quanto em termos das formas de comemorá-los. Eis uma lista de feriados que servem perfeitamente para essa comparação: ► Mother’s Day ► Father’s Day ► Children’s Day ► Easter ► Independence Day ► Christmas ► New Year’s Day O professor orienta os alunos a pesquisarem na internet ou a entrevistarem alguém dos Estados Unidos que eles conheçam ou a observarem pessoas e situações, se possível. Aliás, usar entrevistas e fazer observações para construir conhecimentos sobre culturas diferentes é uma ação etnográfica, recomendada por proponentes da abordagem comunicativa intercultural. Afinal, “a aprendizagem intercultural envolve um elemento de etnografia, que é a observação sistemática e a descrição de como uma comunidade se comporta”, comenta Corbett (2003: 34). Obviamente, o elemento etnográfico depende do acesso dos estudantes a membros e/ou a situações envolvendo membros de outras comunidades culturais. E os conhecimentos construídos precisam ir além das simples informações: os alunos precisam problematizar a razão de ser dos feriados, suas motivações políticas, ideológicas, sociais. Outra atividade é chamada de “adjetivos avaliativos” por Mary Williams (2001: 124-125). O professor apresenta situações para os alunos, seguidas de adjetivos avaliativos e de uma lacuna para os alunos preencherem com outro adjetivo se eles assim acharem necessário. Eis três exemplos apresentados por Williams: Mary asks her friend Gabi to go and pick up theatre tickets for tonight. Gaby says she can’t go because she is very busy. direct unkind …………… You are invited to dinner at 8 o’clock. You arrive at 8:20. on time late …………… At a party a man drinks only fruit juice because he is driving. unsociable intelligent …………… As respostas dos alunos revelarão a forma com que eles concebem esses eventos. O professor, então,discute com os alunos suas respostas e os provoca a pensar na razão pela qual membros de outras comunidades podem dar respostas diferentes. Antes de finalizar esta seção, gostaria de pontuar que a abordagem comunicativa intercultural não está isenta de críticas. De acordo com Catherine Matsuo, governos nacionais, corporações multinacionais e transnacionais “estão encorajando escolas e universidades a produzirem indivíduos que possuam a habilidade de se comunicar em diferentes culturas, i.e., que tenham competência intercultural” (Matsuo, 2014: 347). Essa é uma crítica interessante, pois nos leva de volta à razão de ser da motivação dos estudos sobre a comunicação intercultural comentados no início desta seção: preparar funcionários de empresas estadunidenses para implantarem ou consolidarem filiais de suas empresas em países estrangeiros. Em épocas de intensificação da globalização e da transnacionalização empresarial, a leitura que Matsuo faz do modismo que tomou conta da abordagem comunicativa intercultural parece fazer sentido. Por isso, precisamos ficar alertas às agendas ideológicas subjacentes aos métodos. Matsuo faz outra crítica, direcionada especificamente ao conceito de competência comunicativa intercultural de Byram. Para ela, Byram espertamente se esquiva de definir cultura, central para esse conceito, limitando-se a igualá-la a cultura nacional, o que é também é criticado por Kramsch porque isso “faz a cultura de uma nação parecer mais homogênea do que realmente é” e estabelece limites rígidos entre as culturas nacionais (Kramsch apud Matsuo, 2014: 364). Bem, diante do exposto nesta seção, fica claro que a abordagem comunicativa intercultural não abandona o objetivo de desenvolver a competência comunicativa dos estudantes e não propõe o abandono das atividades comunicativas. Essa proposta metodológica apenas introduz a dimensão intercultural no ensino de línguas estrangeiras buscando ajudar os estudantes a se tornarem mais conscientes da sua própria cultura e da cultura de comunidades de falantes línguas estrangeiras. Além disso, não podemos nos esquecer dos interesses imperialistas que impulsionaram os estudos sobre a comunicação intercultural. Vimos, até aqui, diversos métodos. No próximo capítulo, abordaremos uma questão importante: os método morreram? E capítulo cinco A vida e a morte dos métodos m 1998, fui observar a aula de uma professora em um instituto de idiomas. Na reunião que tive com ela um dia antes da aula, explicitei o propósito da minha observação, combinamos os detalhes. Ela me disse, dentre outras coisas, que seguia a abordagem comunicativa, exatamente a que era adotada por aquele instituto de idiomas. Durante a aula, ela fez um exercício de repetição de sentenças, corrigindo imediatamente qualquer erro de pronúncia ou de estrutura produzido pelos alunos. Sete anos mais tarde, durante a observação de uma aula de outra professora, percebi — e depois ela me confirmou — que ela se recusava terminantemente a usar a língua portuguesa durante a aula. Em consequência dessa recusa, ela perdeu muito tempo dando instruções em inglês para a realização de duas atividades: nem todos os alunos, iniciantes do primeiro nível, entendiam o que ela dizia, mas, mesmo assim, ela insistia em repetir as instruções em inglês. E perdeu tempo também tentando explicar, em inglês, os significados de palavras existentes nas duas atividades e desconhecidas dos alunos, provocando, às vezes, entendimento errôneo por parte de alguns alunos. Ela também havia afirmado seguir a abordagem comunicativa. Esses dois casos me fizeram pensar sobre duas questões. A primeira é a consistência entre o que os professores dizem que fazem (ou acreditam que fazem) e aquilo que realmente fazem em sala de aula. Afinal, a repetição mecânica de sentenças com correção imediata e a recusa total ao uso da língua materna dos alunos na sala de aula não são características da abordagem comunicativa, por mais permissiva que ela possa ser. A segunda questão é exatamente uma suposta permissividade da abordagem comunicativa: por ser uma abordagem e não um método, seguindo-se a terminologia proposta por Richards e Rodgers, ela tende a ser mais flexível e a aceitar procedimentos característicos de métodos diferentes. Porém, em tese, essa abordagem não aceita qualquer coisa. E a repetição mecânica de sentenças isoladas e a proibição do uso da língua materna na sala de aula se afastam de alguns dos princípios que a caracterizam. Entretanto, descobri que a inconsistência entre o que o professor faz em sala de aula e os princípios teóricos que eles alegam seguir é mais generalizada do que eu pensava. Descobri isso lendo um comentário de Kumaravadivelu sobre pesquisas feitas por ele, Nunan e Scott Thornbury, as quais evidenciaram que há professores, em lugares diferentes do mundo, que afirmam seguir determinado método, mas que não aderem aos princípios básicos a ele associados. Isso foi corroborado por uma pesquisa feita por Janet Swaffar, Katherine Arens e Martha Morgan, na qual verificaram que “muitas das distinções usadas para contrastar os métodos, particularmente aquelas baseadas em atividades de sala de aula, não existiam na prática” (Richards, 1995: 36). Em 1999, Robert Oprandy, que havia sido treinado por Gattegno e por Curran, reclamava da inconsistência com a qual professores usavam cuisenaire rods e gravadores, culpando-os pelas críticas feitas ao Silent Way e à CLL: Eu fico envergonhado quando professores sem o devido treinamento levam os cuisenaire rods ou gravadores para suas salas de aula e me dizem que “farão” o Silent Way (ou a CLL) hoje… Eles alegam que estão imitando alguma coisa sobre a qual realmente nada sabem. Consequentemente, apesar da incrível riqueza dessas abordagens, elas sofrem um questionamento injusto (Oprandy, 1999 apud Bell, 2003: 329). A revolta e a vergonha de Oprandy são irrelevantes para nossa discussão aqui. O que é relevante é a constatação da inconsistência entre a prática de professores e o método que eles afirmam adotar, independentemente de qual seja esse método. A generalização dessa inconsistência contribuiu para duas situações importantes: a intensificação do questionamento sobre a validade do conceito de método e o surgimento da tendência a adotar um estilo eclético para o ensino de línguas estrangeiras. O questionamento se intensificou após muitas tentativas infrutíferas de descobrir o método de ensino de línguas que fosse o melhor, que fosse aceito unanimemente, que resolvesse definitivamente os problemas do ensino de línguas estrangeiras. Inevitavelmente, perguntas começaram a pulular na mente de teóricos inquietos. Afinal, os métodos são úteis para alguma coisa ou só fazem atrapalhar a vida dos professores? Não seria melhor jogar fora o conceito de método? Por não resolverem o problema do ensino de línguas, os métodos podem ter sua morte decretada? Em suma, os métodos morreram? As seções que seguem buscam oferecer subsídios para a construção de respostas a essas perguntas. 5.1. A era pós-método Em 1989, Pennycook publicava um artigo intitulado The Concept of Method, Interested Knowledge, and the Politics of Language Teaching, no qual problematizava o conceito de método: “O domínio dessa noção na conceitualização do ensino, em vez de ampliar, diminuiu nosso entendimento sobre o ensino de línguas” (Pennycook, 1989: 596-597). Para ele, o conceito de método é conveniente para a ortodoxia que impera na área de ensino de inglês como segunda ou outra língua, pois não contribui para a reflexão crítica nem para a autonomia do professor, as quais são essenciais para ampliar seu entendimento sobre o ensino de línguas. A voz forte de Pennycook provocava outros teóricos a refletirem sobre a validade da noção de método. Em 1990, Richards lançava o livro The Language Teaching Matrix, no qual há um capítulo sugestivamente intitulado “Beyond Methods”, que nos remete exatamente a algo para além do método. Nele o autor faz uma afirmação que nos provoca e nos faz pensar:“Apesar do apelo dos métodos, sua história é um tanto quanto embaraçosa” (Richards, 1995: 36)32. Realmente, até hoje, nenhum método resolveu, de maneira inquestionável, os problemas do ensino de línguas estrangeiras. E isso, de certa forma, contribui para algum descrédito em relação aos métodos propostos até hoje. No ano seguinte, em uma conferência em Ottawa, Dick Allwright fazia uma apresentação com o impactante título The Death of the Method. Se não estou enganado, essa foi a primeira menção pública à morte do método a ganhar repercussão e notoriedade, provocando outros teóricos a pensarem sobre essa questão. Entre eles, está Kumaravadivelu, que, em 1994, publicava um artigo intitulado “The Postmethod Condition: (E)merging Strategies for Second/Foreign Language Teaching”, que muito bem traduz os sentimentos dos teóricos a respeito da noção de método. Vale lembrar que o ensino de línguas baseado em competências se consolidou, na década de 1980, como uma proposta metodológica extremamente aberta a procedimentos de quaisquer métodos. Como esse é um método voltado para os resultados, os meios usados para se chegar até eles acabam se tornando irrelevantes, o que, por sua vez, implica desconsiderar o próprio conceito de método, tornando-o igualmente irrelevante. É… Parecia que os métodos tinham chegado ao fim. Mas, será que tinham mesmo? Ressalte-se que a discussão sobre a validade, a vida e a morte do método como uma entidade conceitual se aplica também ao conceito de abordagem. Há teóricos e professores que usam um termo pelo outro, embora, a depender do arcabouço teórico que se escolha seguir, a abordagem e o método sejam entidades conceitualmente distintas. Para Richards e Rodgers, não se pode perder tal distinção de vista, pois os métodos tendem a durar menos tempo nas prateleiras do que as abordagens: os métodos, “por serem vinculados a pressupostos muito específicos e a práticas prescritas, tendem a ser desfavorecidos à medida que tais práticas ficam fora de moda ou desacreditadas. Pode-se considerar que os métodos duraram até o fim dos anos 1980” (Richards, Rodgers, 2001: 245). Duraram até o fim dos anos 1980… Bem, escrevo este livro na segunda década do século XXI e me pergunto se realmente os métodos duraram apenas até o final da década de 1980 ou se eles ainda sobrevivem, teimando em contrariar o que dizem alguns teóricos. Minha intuição e minha razão me dizem que não morreram, mas prossigamos para ver onde essa história vai parar. Dos teóricos que defendem a ideia de que nos encontramos em uma era pós-método, Kumaravadivelu provavelmente é o mais conhecido e o mais citado na literatura sobre o tema. Para ele, o método está cercado por mitos, sendo o primeiro deles a possiblidade de existência de um método que é o melhor de todos, que está em algum lugar, prontinho e esperando para ser descoberto. Claramente, ele está ironizando a busca quase frenética que se fez ao longo do século XX por um método que resolvesse os problemas do ensino de línguas estrangeiras. Afinal, não há como negar que foram muitas e que nenhum deles foi aceito unanimemente como sendo a solução para os problemas do ensino e da aprendizagem de línguas estrangeiras. E a existência de algo que pode ser chamado de “o melhor método” é um mito porque simplesmente não há mais o que inventar em termos de métodos que seja novidade e porque nenhum dos métodos já inventados resolveu esses problemas como seus proponentes imaginaram e alardearam. Nos Estados Unidos, a obsessão pela busca do melhor método ainda era forte na década de 1990, no início da qual havia um intenso debate em torno do fraco desempenho acadêmico de estudantes pertencentes a grupos minoritários, como, por exemplo, porto-riquenhos, americano-mexicanos e índios. Segundo Lilia Bartolomé (1994), muitos teóricos que participaram daquele debate afirmavam que a causa do problema era a falta de métodos cognitiva, cultural e linguisticamente adequados. Logo, a solução para o problema seria encontrar o método perfeito. A obsessão pelo método perfeito se devia ao mito de que o método se constitui no princípio organizador para o ensino e para a aprendizagem de línguas, uma ideia “infeliz porque o método é demasiadamente inadequado ou limitado para satisfatoriamente explicar a complexidade do ensino e da aprendizagem da língua”, alfineta Kumaravadivelu (2009: 165). Esse mito também é criticado por Richards: “O problema básico é que os métodos apresentam aos professores um arranjo predeterminado, empacotado, que incorpora uma visão estática de ensino. Nessa visão, papéis específicos do professor, do aluno e das atividades de ensino/aprendizagem são impostos a professores e alunos” (Richards, 1995: 37). Realmente, a adoção de um método por uma escola ou por um instituto de idiomas faz com que professores e alunos se comportem de maneiras determinadas, sigam rotinas específicas mais ou menos rígidas. Talvez, se realmente seguem o que diz o método, o fazem por acreditarem que o método vai ajudar seus alunos a aprender inglês ou o fazem por temerem serem despedidos se não seguirem (é por essa razão que as sessões de observação de aula são vistas, por muitos professores, como uma forma de patrulhamento). Ou os professores acreditam que seguem, mas realizam práticas que nada têm a ver com o método que declaram adotar. Ou eles deliberada e oficiosamente não seguem tudo o que o método diz. Nas entrelinhas dos seus discursos, Kumaravadivelu e Richards deixam transparecer um pressuposto simplista e não dito segundo o qual o professor não tem vontade própria, não se apropria dos métodos e não os altera de acordo com sua realidade imediata. Em suma, deixam transparecer a ideia de que os professores são sujeitos assujeitados, totalmente passivos diante dos métodos, fazendo ecoar o bancarismo, tão criticado por Freire. É desse pressuposto não dito que partem suas argumentações. E eu rejeito esse pressuposto veementemente, pois acredito na capacidade que os professores possuem de se tornarem autônomos e responsáveis pelas decisões que tomam e de escolherem, do cardápio apresentado pelo método, aquilo que consideram mais apropriado para as suas aulas. Nessa mesma direção, Bell faz uma crítica contundente aos teóricos pós- método: Assim como os proponentes dos métodos de grife frequentemente duvidavam que professores deixados com seus próprios recursos conseguissem ensinar sistematicamente, os teóricos pós-método temem que os professores seguirão, como escravos, qualquer método no qual forem treinados. As obsessões de ambos os grupos de teóricos subestimam a autonomia intelectual e o discernimento do praticante (Bell, 2003: 329). Quem há de discordar dessas palavras de Bell? Certamente, não serei eu, pois as citei para reforçar minha crítica ao pressuposto velado que os teóricos pós-método compartilham: o de que os professores não têm vontade própria. Conceber, nas entrelinhas, os professores como indivíduos incapazes de tomar decisões por si próprios e como seguidores obedientes de propostas metodológicas assemelha-se à concepção bancária da educação. Afinal, há evidências claras de que os professores assumem o controle das decisões metodológicas. Uma dessas evidências é exatamente o fato de muitos professores não seguirem à risca o que os métodos prescrevem. Os dois episódios de observação de aula com que abro este capítulo são exemplos disso. Se seguem à risca, geralmente é por conta do medo de serem despedidos ou por falta de experiência e de conhecimentos teóricos. Outra evidência da autonomia relativa que o professor possui para não seguir à risca os ditames de um método é o surgimento do chamado método eclético, no qual o professor adota técnicas, atividades e princípios teóricos de métodos variados sem se comprometer teoricamente com nenhum deles. Retomemos a questão da busca por princípios organizadores para o ensino e a aprendizagem de inglês. Muitos cursos de idiomas na América Latina e na Ásia, por exemplo, adotam livros didáticos elaborados de acordo