Prévia do material em texto
POLÍTICA E ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL Neste capítulo, você vai estudar o financiamento da educação no Brasil, identificando como as leis distribuem as competências e responsabilidades das entidades governamentais. Você também vai ver qual é a função do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) na organização dos investimentos e na manutenção da educação no País. Por fim, vai examinar as possibilidades de financiamento, verificando quais são as mais eficazes, que oportunizam melhor proveito dos recursos arrecadados. AULA 03 COMO SE ORIGANIZA O FINACIAMENTO DA EDUCAÇÃO Para se apropriar de tais conhecimentos, são objetivos desta aula: • Descrever a maneira como se organiza o financiamento da educação. • Identificar a função do Fundeb no financiamento. • Examinar possibilidades para um financiamento mais eficiente 3 COMO SE ORGANIZA O FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO O sistema de ensino básico brasileiro sempre manteve profundas relações com o contexto histórico, econômico e social em que esteve inserido. Além disso, sempre esteve vinculado ao modo como cada governo concebeu os princípios e finalidades da educação. Atualmente, temas relativos ao financiamento educacional têm ocupado um papel de destaque cada vez maior. Isso decorre de sua complexidade, já que o financiamento da educação envolve diversas esferas governamentais e entidades de setores educacionais públicas e privadas. Além disso, hoje existem estudos avançados sobre as relações entre a organização, a gestão e o investimento no sistema de educação brasileiro. Como você sabe, a Constituição Federal, promulgada em 1988, representou um avanço significativo na trajetória do País. A Carta Magna instituiu a educação como um direito para todos os cidadãos e além disso, outros elementos se vinculam a esse direito, como por exemplo, a promoção do bem-estar social. Para se assegurar uma educação com equidade e qualidade, é fundamental reconhecer as responsabilidades das esferas governamentais federais, estaduais e municipais em relação aos investimentos nas áreas educacionais. Isso vale para as áreas pedagógica, administrativa, de infraestrutura e formação dos profissionais da educação. Observe o Quadro 1, a seguir, como se organiza o financiamento da educação a partir das três esferas administrativas dispostas na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases (BRASIL, 1996): Quadro 1 – Regime de Colaboração Financeira entre os entes federados Esfera Governamental Constituição Federal LDB União Organizará o sistema Federal de ensino e o dos territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir Prestará assistência técnica e financeira aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios para o desenvolvimento de seus sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios (art. 211, § 1º, redação dada pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996). obrigatória, exercendo sua função redistributiva e supletiva (art. 9º, III). Estados, Municípios e Distrito Federal Aplicará, anualmente, nunca menos de 18, e os estados, o Distrito Federal e os municípios, 25%, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e no desenvolvimento do ensino (art. 212). Definirá, com os municípios, formas de colaboração na oferta do ensino fundamental, as quais devem assegurar a distribuição proporcional das responsabilidades, de acordo com a população a ser atendida e os recursos financeiros disponíveis em cada uma dessas esferas do Poder Público (art. 10, II) Fonte: Adaptado de Brasil, 1996 Observando o Quadro 1, você pode identificar que a LDB reforça o que a Constituição dispõe sobre questões relacionadas ao financiamento educacional. Afinal, essas formas de organização são complexas em um país marcado por tantos problemas nos mais variados setores, tais como o educacional. Além das disposições que determinam as competências dos setores governamentais, a Constituição Federal determina que no mínimo 25% das receitas tributárias estaduais e municipais e 18% de impostos federais sejam aplicados na educação. Outro ponto a ser analisado é que essas possibilidades de investimento estão relacionadas às arrecadações governamentais. Consequentemente, há desigualdades e distorções entre as regiões com maiores e menores índices de desenvolvimento. Ao observar como o cenário educacional brasileiro se apresenta, você acha que esses recursos estão sendo devidamente aproveitados? Por essa razão, essa questão diz respeito a todos os brasileiros, uma vez que: É indispensável a participação da comunidade no acompanhamento e na fiscalização dos recursos destinados à educação e, particularmente, à manutenção e ao desenvolvimento no ensino. É princípio da administração pública a publicização de seus atos. A peça orçamentária está disponível para qualquer cidadão, basta procurar as instituições do poder legislativo ou executivo para obter tais informações (BRASIL, 2006, p. 40-41). Assim, ao verificar como se articulam as organizações e o financiamento da educação, você deve ter em mente que a sociedade civil e todos os demais atores envolvidos nesse processo precisam se esforçar para se apropriarem das formas como esses financiamentos são organizados pela União, Distrito Federal, municípios e setor privado. Além disso, precisam acompanhar e fiscalizar se o que está assegurado por lei de fato é sendo cumprido. 3.1 A função do Fundeb no financiamento Você faz ideia de quanto custa a manutenção financeira da educação no Brasil? De onde especificamente esses recursos provêm? Questões como essas envolvem discussões e esforços do governo a fim de formular políticas para organizar investimentos e a manutenção dos sistemas de ensino. Um desses esforços data de 1996 e consiste na regulamentação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), implementado em 1998. Ele representou um avanço para o enfrentamento dos problemas do ensino fundamental público, adotando novos critérios para a distribuição dos recursos públicos vinculados à educação. Além disso, previa o alcance de resultados satisfatórios nos índices de desempenho nacionais, principalmente nas regiões mais impactadas pelas desigualdades (BRASIL, 1996). Em 2007, foi criado o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), por meio da Emenda Constitucional nº 53. Ele é regulamentado pela Lei nº 11.494/2007 e pelo Decreto nº 6.253/2007. O Fundeb substitui o Fundef, que vigorou de 1998 a 2006. O Fundeb: é um fundo especial, de natureza contábil e de âmbito estadual (um fundo por estado e Distrito Federal, num total de vinte e sete fundos), formado, na quase totalidade, por recursos provenientes dos impostos e transferências dos estados, Distrito Federal e municípios, vinculados à educação por força do disposto no art. 212 da Constituição Federal. Além desses recursos, ainda compõe o Fundeb, a título de complementação, uma parcela de recursos federais, sempre que, no âmbito de cada Estado, seu valor por aluno não alcançar o mínimo definido nacionalmente. Independentemente da origem, todo o recurso gerado é redistribuído para aplicação exclusiva na educação básica. O aporte de recursos do governo federal ao Fundeb, de R$ 2 bilhões em 2007, aumentou para R$ 3,2 bilhões em 2008, R$ 5,1 bilhõesem 2009 e, a partir de 2010, passou a ser no valor correspondente a 10% da contribuição total dos estados e municípios de todo o país. Os investimentos realizados pelos governos dos Estados, Distrito Federal e Municípios e o cumprimento dos limites legais da aplicação dos recursos do Fundeb são monitorados por meio das informações declaradas no Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação (Siope), disponível no sítio do FNDE (BRASIL, 2018). O Fundeb se destina aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios que oferecem a educação básica, tendo como critérios de distribuição o quantitativo de matrículas nas instituições de ensino públicas e com convênios, a partir dos dados coletados por meio do censo escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Para conhecer as instituições que fazem parte da operacionalização do Fundo e as suas principais atribuições, analise o Quadro 2, a seguir (BRASIL, 2018). Quadro 2 – Instituições que Fazem Parte da Operacionalização do Fundo e suas Principais atribuições. Órgãos gestores/ áreas gestoras Atribuições INEP Realizar o censo escolar e disponibilizar dados. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) Dar apoio técnico acerca do Fundo aos estados, Distrito Federal, municípios, conselhos e instâncias de controle; Realizar capacitação dos membros dos conselhos; Divulgar orientações e dados; Realizar estudos técnicos com vistas à definição de um valor referencial anual por aluno que assegure qualidade do ensino; Monitorar a aplicação de recursos Ministério da Fazenda Definir a estimativa de receita do Fundo; Definir e publicar os parâmetros operacionais do Fundeb, junto ao Ministério da Educação (MEC); Disponibilizar os recursos arrecadados para distribuição ao Fundo; Realizar o fechamento de contas das receitas anuais do Fundo. Ministério do Planejamento Assegurar no orçamento recursos federais que entram no Fundo; Participar do Conselho do Fundo, no âmbito da União. Banco do Brasil Distribuir recursos e manter contas específicas do Fundo de estados e municípios. Caixa Econômica Federal Manter contas específicas do Fundo de estados e municípios. Fonte: Adaptado de Brasil, 2018. Assim, a partir da articulação entre todos esses órgãos e deles com as esferas governamentais, o Fundeb é distribuído em todo o território nacional, considerando o contexto social e econômico das localidades. Além disso, há uma complementação de valores, realizada pela União, voltada para regiões em que o valor de investimento calculado para cada aluno é inferior à média estipulada para cada ano letivo. A ideia é que essa redistribuição oportunize uma educação com equidade (BRASIL, 2018). 3.2 Possibilidades para um financiamento mais eficiente A responsabilidade de ofertar uma educação de qualidade a todos, como asseguram as leis, é partilhada pelas esferas governamentais. Em um país com uma dívida histórica com o campo educacional, que carrega as marcas de uma educação de caráter excludente e desigual que se arrastou por longos anos, os problemas enfrentados são ainda maiores. As consequências passam, por exemplo, por altas taxas de analfabetismo (e analfabetismo funcional), distorção entre idade e série e evasão escolar. Todas essas circunstâncias envolvem também as relações entre o financiamento e a manutenção da educação, bem como a luta pela democratização do ensino e para assegurar um ensino com equidade e qualidade, tal como dispõem a Constituição (BRASIL, 1988) e a LDB (BRASIL, 1996). Como política social e produtora de oportunidades, a educação deve ser viabilizada com igualdade de direitos, bem como ser de qualidade. Essas questões devem ser pensadas quando se trata da competência dos responsáveis pelo financiamento público do ensino. Para se pensar em meios mais eficientes de administração desses recursos, o governo instituiu novas ações, como a apresentada a seguir: A Comissão Intergovernamental de Financiamento para a Educação Básica de Qualidade — instituída pela Lei n° 11.494, de 20 de junho de 2007 —, em reunião realizada em 26 de abril de 2012, considerando que os critérios definidos por aquela resolução e portaria não permitiam identificar objetivamente os entes federados demandantes de recursos para a complementação do piso salarial dos professores e considerando ainda a impossibilidade de se definirem critérios justos que apontassem o município ou estado em condições mais precárias para receber essa complementação, decidiu, por unanimidade, que os recursos destinados a esse objetivo deveriam ser distribuídos segundo a utilização dos mecanismos usuais e automáticos já adotados pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), já que os estados e municípios que recebem a referida complementação são aqueles cujo valor aluno/ano (VAA) de seus fundos estaduais está abaixo do valor mínimo, comprovando, assim, sua dificuldade financeira. Como consequência dessa reunião, o MEC expediu a Resolução n° 7, de 26 de abril de 2012, ainda em vigor, que se encontra publicada no Diário Oficial da União do dia 30 de julho de 2012 (BRASIL, 2015, p. 303). Outro documento de destaque consiste no Plano Nacional de Educação (PNE, Lei nº 13.005, de 2014), que formulou propostas e estratégias como a Meta 20, que prevê a ampliação do investimento público em educação para que sejam utilizados no mínimo 7% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2019 e 10% dele até 2024. Para entender melhor como ocorrem esses investimentos, observe o Quadro 3, a seguir. Ele apresenta os valores dos investimentos públicos aplicados na educação básica por meio do Fundef, do Fundeb e do salário-educação no ano de 2013. Quadro 3 – Investimentos Públicos Aplicados na Educação Básica Anos Fundef/Fundeb (valores em bilhões) Salário-educação (valores em bilhões) 2004 46,11 6,87 2005 49,17 8,87 2006 51,3 9,90 2007 66,44 9,86 2008 85,59 11,69 2009 92,0 12,06 2010 104,34 13,32 2011 112,64 14,94 2012 113,90 15,80 2013 119,10 16,74 Fonte: Adaptado de Brasil, 2018. Observe que, além do Fundef e do Fundeb, está presente no financiamento o salário-educação. Ele é uma contribuição social destinada ao financiamento de programas e ações da educação básica, regulamentada pela Lei nº 9.424/1996. Analisando as relações entre essas políticas, você pode notar que os maiores desafios para a melhoria do sistema de ensino brasileiro são relativos ao modo como os recursos são recolhidos e aplicados, como registra o Plano Nacional de Educação (BRASIL, 2015, p. 61): [...] a vinculação de recursos financeiros para a educação, a ampliação dos percentuais do PIB para a educação nacional, bem como a vinculação do financiamento a um padrão nacional de qualidade, o acompanhamento e o controle social da gestão e uso dos recursos [...] são passos imprescindíveis para a melhoria do acesso, permanência e aprendizagem significativa dos estudantes. Assim, adequar as políticas educacionais para propor meios de financiamentos qualitativos é fundamental para a formação do Sistema Nacional de Educação (SNE) e se relaciona com todas as metas e estratégias do PNE que devem ser alcançadas gradativamente até 2024. A criação do Fundef e do Fundeb e a presença de formas de organização do financiamento da educação básica em documentos legislativos — tais como a LDB, as emendas constitucionais e o Plano Nacional de Educação — favorecem o uso dos recursos de modo mais transparente, equitativo e responsável. O objetivo dessas articulações, como você viu, é enfrentar os graves problemas que marcam a história educacional brasileira. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/128510890/constituicao-federal-constituicao-da-republica-federativa-do-brasil-1988. Acesso em: 02 jan. 2023. BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Plano Nacional de Educação PNE 2014-2024: linha de base. 2015. BRASIL. Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação - PNE e dá outras providências. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. BRASIL. Lei nº 9.424, de 24 de dezembro de 1996. Dispõe sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, na forma prevista no art. 60, § 7º, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, e dá outras providências. BRASIL. Ministério da Educação. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Sobre o Fundeb. 2018. Disponível em: https://www.fnde.gov.br/financiamento/fundeb. Acesso em: 02 jan. 2023. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Conselho Escolar e o financiamento da educação no Brasil. 2006.