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Anabolizantes SUMÁRIO 1. Introdução .................................................................................................................... 4 2. Histórico ....................................................................................................................... 5 3. Epidemiologia ............................................................................................................. 7 4. Aplicabilidade .............................................................................................................. 8 4.1. Crianças e adolescentes....................................................................................... 8 4.2. Hipogonadismo masculino .................................................................................. 8 4.3. Metabolismo ósseo .............................................................................................. 9 4.4. Anemia hipoplásica ............................................................................................... 9 4.5. Balanço nitrogenado negativo .............................................................................. 9 4.6. Terapia hormonal masculina para homens transgêneros ................................. 9 4.6.1. Contracepção hormonal masculina ................................................................. 9 5. Fisiologia .................................................................................................................... 11 5.1. Eixo hipotalâmico-hipófise-testicular ................................................................. 11 5.2. Testosterona ....................................................................................................... 13 5.2.1. Efeito anabólico ...................................................................................... 14 5.2.2. Efeito virilizante ........................................................................................ 14 5.3. DHT ...................................................................................................................... 15 5.4. Conclusão ........................................................................................................... 16 6. Modificações genéticas na molécula de testosterona ............................................ 16 7. Outros anabolizantes não tão potentes .................................................................. 16 7.1. SARMs ................................................................................................................. 16 7.2. Bloqueio de estrogênio ....................................................................................... 17 7.3. Antiestrogênios ................................................................................................... 17 7.4. Inibidores de aromatase ..................................................................................... 18 7.5. Uso de hCG .......................................................................................................... 18 8. Uso clínico ................................................................................................................. 19 9. Complicações ............................................................................................................ 19 9.1. Cardiovascular ..................................................................................................... 19 9.2. Neuropsiquiátricas .............................................................................................. 20 9.3 Reprodutivo (mulheres) ....................................................................................... 21 9.4. Reprodutivo (homens) ........................................................................................ 21 9.5. Outros .................................................................................................................. 22 10. Diagnóstico ............................................................................................................. 24 11. Tratamento .............................................................................................................. 26 11.1. Indicação de reposição androgênica ............................................................... 26 11.2. Terapia de reposição androgênica .................................................................. 26 11.2.1. Intramuscular ....................................................................................... 26 11.2.2. Gel de testosterona .............................................................................. 27 11.3. Contraindicações ............................................................................................. 28 Referências bibliográficas ............................................................................................. 30 Bibliografia consultada .................................................................................................. 30 Anabolizantes 4 1. INTRODUÇÃO Os esteroides do tipo anabolizantes são drogas as quais se relacionam com a testos- terona, o hormônio masculino produzido pelos testículos. Assim, esses fármacos têm algumas utilizações clínicas e a sua principal função é a reposição de testosterona, a qual patologicamente esteja em déficit. Os efeitos dos esteroides, que atuam de forma anabólica, envolvem a síntese de proteína para atuar no crescimento e na reparação do músculo, uma vez que, nas atuações de explosão, os músculos sofrem microrrupturas. A testosterona tem duas funções fundamentais1: • Função androgênica: "estimula o desenvolvimento e manutenção das caracte- rísticas sexuais secundárias masculinas (como o pelo facial, timbre de voz, dis- tribuição e quantidade de gordura no corpo, e outras características associadas aos traços masculinos)"1 • Funções anabólicas: incluem o desenvolvimento e a manutenção da muscula- tura, esse é o objetivo principal visado por fisiculturistas, porém muitas vezes utilizadas de forma equivocada causando diversos prejuízos ao corpo. Figura 1. Anabolizantes. Fonte: Love Solutions/Shutterstock2. Anabolizantes 5 Os esteroides anabólicos são feitos de forma sintética mimetizando os efeitos ana- bólicos da testosterona e tentam minimizar os efeitos androgênios. Assim, a principal função dos esteroides é a estimulação da síntese proteica. Isso ocorre de certa forma pois os esteroides estimulam o armazenamento do nitrogênio, o que promove um crescimento muscular1. Os esteroides androgênios são prescritos por médicos para diversas finalidades que detalharemos no decorrer deste Super Material; eles têm a propriedade de aumentar volume dos músculos e por esse motivo são muito procurados por atletas ou pessoas que querem melhorar a performance e a aparência física. Conceito: O conceito mais utilizado de anabolizantes é o de subs- tâncias quimicamente sintetizadas em laboratórios com efeito androgênico e uti- lizadas para melhorar o desempenho físico, a força geral e/ou aparência pessoal. 2. HISTÓRICO Os primeiros relatos do uso de substâncias com a finalidade de melhoria do desem- penho físico é bem remoto. Existem relatos de que, na Grécia Antiga, os competidores olímpicos ingeriam extratos de testículos de touro e plantas. Na China, em torno de 2.700 a.C., os lutadores utilizavam a planta “machuang”. Saiba mais! O chá da planta chamada “machuang” contém efedri- na em altas doses. A efedrina é remédio vasoconstritor que ajuda a contrair os vasos sanguíneos do corpo, fazendo aumentar a pressão arterial. Com isso, os competidores conseguiam aumentar seu desempenho. Anabolizantes 6 Os primeiros Jogos da Era Moderna, organizados pelo barão de Coubertin, em Atenas, em 1896, marcaram o aparecimento das “bolinhas”, esferas contendo diversas subs- tâncias estimulantes como cocaína, efedrina e estriquinina. Daí o termo “usar bola” como sinônimo de dopar-se. No período inicial do século XX, as Olimpíadas eram momentos decelebração e esporte. O espírito olímpico prevalecia e o uso do doping era eventual, pois os atletas competiam pelo prazer da superação individual. A Olimpíada de Berlim, em 1936, marcou o início da utilização política dos jogos. A fantasia de supremacia hitlerista, fragorosamente derrotada por Jesse Owens, mudou o espírito das competições para sempre. Dessa forma, observou-se na década de 1930 o “boom” dos anabolizantes com o isolamento da testosterona, a princípio para um tratamento de distúrbios hormonais, no entanto, as novas finalidades surgiram rapidamente. A Segunda Guerra Mundial traz do front a pesquisa de substâncias que mantinham soldados acordados por mais tempo e aumentavam sua resistência ao cansaço. Com a necessidade de recuperação dos prisioneiros desnutridos dos campos de concen- tração, aperfeiçoamos o uso dos hormônios anabolizantes. Seja por motivos políticos ou financeiros, o doping passou a ser utilizado de forma cada vez mais “científica”. Agora, o que vale é a vitória a qualquer preço. E esse preço foi cobrado de forma dolorosa nos jogos de 1960 e de 1964, com a morte de dois atletas por uso excessivo de substâncias estimulantes e hormônios. E, na década de 1970, observamos o consumo sendo difundido em larga escala. Quadro 1. Histórico do doping. Grécia Antiga Extratos de testículos de touro e plantas China (2700 a.C.) Planta “machuang” Jogos da Era Moderna (1896) Esferas “bolinhas” com diversas substancias 1930 Isolamento da testosterona Segunda Guerra Aperfeiçoamento de sustâncias para soldados não dormirem 1970 Uso difundido em larga escala Fonte: Elaborado pela autora. Anabolizantes 7 3. EPIDEMIOLOGIA O uso de andrógenos se espalhou de esportes competitivos para esportes de lazer e fitness. Fisiculturistas e não atletas usam andrógenos como estratégia para aumentar a massa muscular, melhorar o desempenho e aumentar a atratividade física. A frequência desse uso de drogas por atletas e não atletas foi abordada em vários estudos. O uso de esteroides androgênicos tornou-se um grave problema de saúde pública global. Em uma meta-análise de 187 estudos, a taxa global de prevalência global ao lon- go da vida foi de 3,3%, mas foi maior em homens (6,4%) do que em mulheres (1,6%). A taxa foi maior entre atletas recreativos do que atletas profissionais (18,4 versus 13,3%) e variou por região (mais alta no Oriente Médio [22%] em comparação com outras regiões do mundo [2 a 5%]). Acredita-se que o uso de esteroides androgênicos seja comum entre policiais e mili- tares, embora os dados de prevalência sejam limitados. Em um estudo sobre o uso em soldados britânicos, o uso relatado foi baixo em comparação com outros grupos acima: 4,2% para testosterona, 1,1% para outros esteroides androgênicos e 2% para hormônio do crescimento. Uma pesquisa com militares dos Estados Unidos descobriu que 1,4% dos indivíduos relataram uso e/ou uso indevido de esteroides anabolizantes prescritos nos últimos 12 meses, e 5,6% relataram uso/uso indevido em sua vida. Até um terço dos usuários desenvolve dependência; a maioria dos indivíduos que de- senvolvem dependência é de homens. Estima-se que, apenas nos Estados Unidos, um milhão de homens tenham experimentado dependência de esteroides androgênicos. Em um relatório, os usuários de esteroides androgênicos com dependência eram mais pro- pensos do que aqueles sem dependência a ter abuso de substâncias e transtornos de saúde mental coexistentes (uso de heroína, ansiedade e depressão). Em 2013, os Centros dos Estados Unidos para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) relataram que 3,2% dos estudantes do ensino médio haviam tomado esteroides andro- gênicos sem receita médica pelo menos uma vez. Entre os estudantes de todo o país, a prevalência aumentou de 1991 a 2001 (de 2,7 para 5,0 por cento) e depois diminuiu entre 2001 e 2013 (de 5,0 para 3,2 por cento). A prevalência de uso ao longo da vida em homens e mulheres do ensino médio foi de 2,2 e 4,0 por cento, respectivamente. Embora o uso de andrógenos seja comum entre adolescentes, a idade média de início do uso parece ser no início dos 20 anos, caracterizando-se como um grave problema de saúde pública. Se liga! No entanto, existem alguns problemas para a melhoria des- ses dados: 1. Existem poucos estudos e muitos deles não relatam as doses utilizadas pelos participantes; 2. Literatura médica de baixa qualidade; 3. Procedência duvidosa das substâncias; 4. Impossibilidade de randomizar os estudos. Anabolizantes 8 4. APLICABILIDADE O uso de esteroides androgênicos com a finalidade de melhorar a performance a aparência física usado indiscriminadamente por atletas profissionais e amadores é de conhecimento geral. No entanto, existe a aplicabilidade clínica e recomendada por médicos em diversas áreas da saúde e vamos detalhá-las agora. 4.1. Crianças e adolescentes Finalidade de reverter, muitas vezes, o desenvolvimento atrasado nesse paciente: • Puberdade atrasada; • Baixa estatura; • Micropênis. 4.2. Hipogonadismo masculino Síndrome causada pela falência dos testículos em produzir níveis de testosterona e número adequado de espermatozoides, em virtude da falência de um ou mais itens do eixo hipotálamo-hipófise-testicular, podendo ser congênita ou adquirida. Saiba mais! Existem três tipos de hipogonadismo masculino: 1) Hipogonadismo primário – Falência testicular direta, das células de Leydig e/ou de Sertoli, causando redução da testosterona e da espermatogênese, com níveis elevados de hormônio luteinizante (LH) e hormônio folículo-estimulante (FSH); 2) Hipogonadismo secundário – Falência hipofisária ou hipotalâmica, cursando com níveis baixos de testosterona em vigência de gonadotrofinas baixas ou inapropriadamente normais. Os testículos são anatômica e funcionalmente normais, mas não produzem testosterona em níveis adequados devido à falta de estímulo apropriado; 3) Hipogonadismo misto/combinado – Falência associada do testículo e da hipófise- -hipotálamo, causando níveis baixos de testosterona com gonadotrofinas em valores variáveis, de acordo com qual o local de predominância da falência. As causas são hemocromatose, talassemia, corticoterapia prolongada, alcoolismo, envelhecimento, diabetes melito, síndrome metabólica, obesidade, entre outras.4 Trecho retirado de: P, Halpem A, Cercato C. O essencial em endocrinologia. Rio de Janeiro: Roca, 2016. Anabolizantes 9 4.3. Metabolismo ósseo Finalidade de melhora na massa óssea e para evitar e/ou tratar a osteoporose: • Reabilitação após fraturas; • Osteoporose. 4.4. Anemia hipoplásica • Leucemia; • Insuficiência renal; • Anemia aplástica. 4.5. Balanço nitrogenado negativo Estimulação do apetite e preservação e aumento da massa muscular, nos casos de: • Politraumatizado; • Queimadura; • Pós-operatório; • Desmame de ventilação mecânica; • Caquexia (HIV, DPOC, IRC, oncológico). 4.6. Terapia hormonal masculina para homens transgêneros 4.6.1. Contracepção hormonal masculina • Ainda em fases experimentais de teste. Anabolizantes 10 MAPA MENTAL 1. APLICABILIDADE CLÍNICA. Puberdade atrasada Terapia de deficiência androgênica Osteoporose Reabilitação após fraturas Micropênis Baixa estatura Deficiência androgênica parcial em idosos APLICABILIDADE Contracepção hormonal masculina Terapia hormonal masculina para homens transgêneros Crianças e adolescentes Politraumatizado Insuficiência renal Pós-operatório Anemia aplástica Desmame de ventilação mecânica Caquexia Leucemia Queimadura Balanço nitrogenado negativo Anemia hipoplásica Hipogonadismo masculino Metabolismo ósseo Fonte: Elaborado pela autora. Anabolizantes 11 5. FISIOLOGIA Para entendermos a fisiologia dos anabolizantes é fundamental o conhecimento sobre o eixo hipotálamo–hipófise–testículo e sua fisiologia prévia, para posteriormente comentarmos sobre cada molécula. 5.1. Eixo hipotalâmico-hipófise-testicular •Célula de Leydig: O hipotálamo controla a produção de gonadotrofinas pela hi- pófise através da secreção de GnRH (hormônio de liberação da gonadotrofina), de maneira pulsátil. Quando GnRH liga-se aos gonadotrofos da hipófise anterior, estimula-se a liberação de LH e FSH. A secreção de testosterona é regulada pelo LH que atua nas células de Leydig tendo como segundo mensageiro o AMPc. Este estimula a mobilização de colesterol a partir dos ésteres colesteril e sua conversão à pregnenolona. Os hormônios secretados pelos testículos exercem um feedback negativa sobre hipotálamo e hipófise. Ambos possuem receptores androgênicos e estrogênicos. A testosterona inibe a secreção de LH, atuando di- retamente sobre adeno-hipófise e indiretamente sobre a liberação de GnRH pelo hipotálamo. No entanto, o efeito inibitório da testosterona sobre a secreção de FSH só é obtido com altas concentrações. O estradiol, derivado da aromatização (enzima aromatase) da testosterona também exerce um efeito inibidor sobre o hipotálamo. Observação: A exposição prolongada ao GnRH (como o uso farma- cológico) provoca a diminuição da regulação dos seus receptores na hipófise. Desta forma o uso prolongado de análogo de GnRH em pessoas com puberdade precoce dessensibiliza a hipófise e bloqueia as gonadotrofinas, impedindo o de- senvolvimento sexual prematuro em crianças. • Túbulo seminífero: O estímulo dos gonadotróficos da hipófise pelo GnRH também leva a secretar FSH. Este, nos testículos, leva as células de Sertoli a produzirem o fluido testicular, que ajuda no transporte de espermatozoides e na secreção de duas proteínas: proteína ligada ao androgênio (ABP) e inibina. A ABP liga-se à testosterona e lhe transporta para o lúmen dos túbulos seminíferos, assegurando sua alta concentração local, necessária à espermatogênese, enquanto a inibina atua diretamente sobre a hipófise na inibição da secreção de FSH (sem afetar LH). O FSH também estimula a atividade de aromatase nas células de Sertoli, o que favorece a produção local de estradiol. Indiretamente, a maturação das células de Leydig e sua produção de androgênios também podem ser influenciadas pelo FSH, que modula os efeitos do LH por intermédio de fatores autócrinos e parácrinos. A secreção de testosterona é regulada pelo LH, que atua nas células de Leydig tendo como segundo mensageiro o AMPc. Este estimula a mobilização de colesterol a partir dos ésteres colesteril e sua conversão à pregnenolona. A testosterona, por Anabolizantes 12 sua vez, inibe a secreção de GnRH pelo hipotálamo e atua diretamente nos gona- dotrofos hipofisários, inibindo a secreção de LH. No entanto, um efeito inibitório da testosterona sobre a secreção de FSH só é obtido com altas concentrações. Em homens com supressão da produção de gonadotrofinas, a espermatogênese cessa na sua fase inicial e nem mesmo espermatócitos são formados. Para que a espermatogênese seja restaurada, é necessário administrar medicamentos com atividade de ambas as gonadotrofinas. A produção e a maturação de esper- matozoides requerem a presença e a ação combinada das duas gonadotrofinas. Figura 2. Eixo hipotálamo-hipófise-testicular. Fonte: joshya/Shutterstock3. Anabolizantes 13 5.2. Testosterona A testosterona irá atuar em três vias dentro da sua fisiologia normal: • Aromatase – Será transformada em estrogênio atuando no osso, estimulando a função sexual e diminuindo a gordura corporal em homens; • 5ª redutase – Via do DHT que se ligará ao receptor androgênico; • Via direta – Ligando-se ao receptor androgênico. MAPA MENTAL 2. FISIOLOGIA DA TESTOSTERONA. Testosterona Aromatase Estimular função sexual Diminuir gordura corporal em homens E2 RECEPTOR ANDROGÊNICO 5-alfa-redutase DHT Fonte: Elaborado pela autora. Saiba mais! A di-hidrotestosterona pertence à classe dos com- ponentes chamados andrógenos, também geralmente chamados de hormônios androgênicos. A DHT é cerca de 30 vezes mais potente que a testosterona devido à sua afinidade aumentada pelo receptor de andrógenos. Anabolizantes 14 Com isso, observam-se duas maneiras de ativar o receptor androgênico: através do DHT e pela via direta. Pelo receptor androgênico teremos o efeito anabólico e o efeito virilizante. 5.2.1. Efeito anabólico • Aumento de força e volume muscular – As miofibrilas (elementos contráteis da célula muscular) aumentam de número através do treinamento intenso e regi- me alimentar adequado. Uma certa quantidade de força pode ser conseguida, contudo, ela é temporária. Também há um crescimento em volume devido tanto a edema (retenção de água) quanto ao aumento do conteúdo sarcoplasmático (músculo); • Aumento do nível respiratório e resistência – Aumento do número de mitocôn- drias, melhorando assim a capacidade de respiração celular. Também porque o nível de cortisona no sangue aumenta, fornecendo maior resistência; • Aumento da vascularidade (fisiculturistas) – Acredita-se que o aumento da pressão sanguínea que geralmente acompanha o uso de esteroides seja o fator principal; • Melhoria no tempo de recuperação após lesão ou treinamento – Devido ao fato da maior quantidade de nitrogênio no organismo e consequentemente facilidade para repor os tecidos; • Aumento da capacidade de executar repetições e séries com mais intensidade e peso – Provém da ressintetização do creatino-fosfato (cp), um importante substrato de energia rápida do músculo e também pelo aumento de cortisona no sangue. 5.2.2. Efeito virilizante Crescimento das vesículas seminais, do pênis e da próstata, engrossamento das cordas vocais (voz mais grave), aumento da quantidade de áreas de pelos no corpo e genitália, oleosidade da pele (produzindo acne) e aumento (ou excitação inicial) da per- formance sexual, além de ossificação prematura dos ossos longos (em adolescentes). Alguns atletas alegam um engrossamento dos pelos faciais, crescimento de pelos no peito e parada da queda de cabelo. As mulheres podem experimentar sintomas seme- lhantes, incluindo a dilatação do clitóris, modificação da voz, aumento no tamanho das glândulas sebáceas, acne e o fluxo menstrual interrompido ou irregular, sendo apenas este último reversível com a parada da administração da droga os outros efeitos virili- zantes permanecem. Anabolizantes 15 MAPA MENTAL 3. FISIOLOGIA DO RECEPTOR ANDROGÊNICO. Receptor androgênico Efeito anabólico Efeito virilizante Aumento de massa muscular Eritropoiese Crescimento e maturação do pênis e próstata Comportamento social Função erétil Fonte: Elaborado pela autora. 5.3. DHT A di-hidrotestosterona (DHT) provém da transformação periférica da testosterona no homem e da androstenediona na mulher, pela ação da enzima 5-alfa-redutase. Pequenas quantidades são secretadas pelos testículos. É um potente androgênio, importante para o desenvolvimento da genitália masculina externa, crescimento prostático e me- tabolismo da pele. Na fisiologia da testosterona imaginamos que, quanto maior a formação de DHT, maior será a conversão no receptor androgênico, porém isso não é verdade. A molécula de DHT seguirá outro caminho na sua fisiologia, sendo degradada pela 3-alfa-HSD e resultando em uma redução do receptor androgênico. Saiba mais! Nos casos de pseudo-hermafroditismo masculino por deficiência de DHT, a testosterona mostra-se normal ou elevada, a DHT baixa ou normal e a relação entre testosterona e DHT bem maior que o normal (normal após puberdade: menor que 20; casos de deficiência de 5-alfa-redutase: maior que 35). Anabolizantes 16 5.4. Conclusão • Atividade da 5-alfa-redutase agirá mais na próstata do que no músculo; • A atividade direta é maior no músculo do que na próstata; • Afinidade com 3-alfa-HSD – quanto maior, menor efeito anabólico. Saiba mais! O inibidor de 5-alfa-redutase é um fármaco utilizado no tratamento da hiperplasia prostática benigna, no câncer de próstata e na sín- drome do trato urinário inferior. 6. MODIFICAÇÕES GENÉTICASNA MOLÉCULA DE TESTOSTERONA A molécula de testosterona foi modificada para atuar somente no receptor androgênico ocorrendo uma preferia de via em detrimento da via da aromatase e da 5-alfa-redutase. Além disso, o DHT sintético irá inibir menos (pelo feedback negativo) os receptores androgênicos. No entanto, os efeitos colaterais são bem acentuados como: problemas prostáticos, virilização e calvície. 7. OUTROS ANABOLIZANTES NÃO TÃO POTENTES 7.1. SARMs Moduladores seletivos de receptores androgênicos (SARMs) são moléculas não esteroides, oralmente ativas, desenvolvidas para se ligar melhor aos receptores an- drogênicos em certos tecidos, como músculos e ossos, do que aos tecidos genitais, com o objetivo de melhorar a fraqueza muscular, osteoporose e outras condições com menor risco de agravar doenças da próstata em homens ou causar virilização em mulheres. Embora nenhum desses compostos tenha sido aprovado para uso em humanos em nenhum país, eles agora estão amplamente disponíveis na internet e o SARM andarine foi detectado em uma amostra de urina de um atleta. Anabolizantes 17 Como muitos suplementos alimentares vendidos na internet, a rotulagem dos pro- dutos SARM comercializados como medicamentos para melhorar o desempenho é enganosa. Em um estudo de 44 produtos SARM adquiridos na internet e analisados usando procedimentos aprovados pela Agência Mundial Antidoping (WADA), apenas 18 tinham rotulagem precisa (por exemplo, continham o SARM correto [andarine, os- tarine ou LGD-4033], e dosagem). Quatro produtos não continham nenhum composto ativo, e o restante (22; 50%) foram rotulados incorretamente (o SARM errado, uma dose imprecisa do SARM listado e/ou pelo menos um medicamento ou substância adicional não aprovado). 7.2. Bloqueio de estrogênio O bloqueio de estrogênio com drogas que bloqueiam a ação ou a síntese do estrogênio é outra estratégia para aumentar os níveis séricos de testosterona em homens. Eles são mais comumente coadministrados com andrógenos para preve- nir a ginecomastia. Drogas nesta categoria incluem antiestrogênios e inibidores de aromatase. 7.3. Antiestrogênios Os antiestrogênios se ligam e bloqueiam o receptor de estrogênio. Os antiestrogênios originais incluíam as drogas não esteroides clomifeno e tamoxifeno. Esses medica- mentos também são chamados de moduladores seletivos do receptor de estrogênio (SERMs); eles têm propriedades agonistas de estrogênio em alguns tecidos e proprie- dades antagonistas de estrogênio em outros. O tamoxifeno é um antiestrogênio que às vezes é usado off-label (10 a 20 mg/ dia) para tratar adolescentes e adultos com ginecomastia dolorosa. Doses seme- lhantes são usadas por fisiculturistas e outros atletas que tomam testosterona para prevenir a ginecomastia que se desenvolve porque a testosterona é convertida em estradiol. Descobriu-se que alguns suplementos alimentares no mercado contêm doses variáveis de tamoxifeno (embora não sejam rotulados como tal). Em um produto, EstoSuppress, a quantidade de tamoxifeno em dois comprimidos, a dose diária recomendada, variou de 0 mg a 7,6 mg. Uma dose de 7,6 mg está próxima da dose terapêutica (10 a 20 mg) usada clinicamente para homens com ginecomastia e para homens com câncer de mama; em homens com câncer de mama, o tamoxifeno tem sido associado à disfunção sexual e aumento do risco de tromboembolismo venoso. Anabolizantes 18 7.4. Inibidores de aromatase Os inibidores de aromatase são agentes esteroides ou não esteroides que blo- queiam a conversão de andrógenos em estrogênio. Exemplos incluem análogos de androstenediona, como testolactona, e os agentes não esteroides letrozol e anastrozol. Embora não sejam muito eficazes, são usados para reduzir o desenvol- vimento de ginecomastia e para tentar elevar a concentração sérica de testosterona. Elevações modestas da testosterona sérica são observadas com o uso de inibidores de aromatase em homens, mas um efeito na força muscular não foi demonstra- do. Existem ensaios sensíveis disponíveis para detectar inibidores de aromatase e antiestrogênios. Tais inibidores podem ser detectados na urina por cromatografia gasosa/espectrometria de massa. 7.5. Uso de hCG A gonadotrofina coriônica humana exógena (hCG), que se liga ao receptor do hor- mônio luteinizante (LH) e estimula as células de Leydig dos testículos a secretar tes- tosterona, também tem sido usada por atletas. O hCG leva à produção de testosterona endógena na proporção normal para epitestosterona, tornando seu uso mais difícil de distinguir da secreção normal. O LH tem uma meia-vida muito curta e não é provável que seja abusado. Os efeitos colaterais do hCG incluem edema e ginecomastia. MAPA MENTAL 4. OUTROS ANABOLIZANTES NÃO TÃO POTENTES. An ab ol iz an te s m en os p ot en te s SARMs Bloqueio de estrogênio Inibidor de aromatase Antiestrogênicos hCG Fonte: Elaborado pela autora. Anabolizantes 19 8. USO CLÍNICO Os efeitos clínicos observados após início do uso de esteroides androgênicos são: • Aumento de massa magra – 2 a 5 kg em curto prazo (menor que 10 semanas); • Aumento de 5 a 20% de força basal; • Desenvolvimento de músculos principalmente na parte superior do corpo (tórax, pescoço, ombro e braços). 9. COMPLICAÇÕES Todos os andrógenos têm alguns efeitos colaterais quando tomados em altas do- ses; outros efeitos colaterais dependem da estrutura do andrógeno ou dos esteroides aos quais é convertido. Alguns efeitos colaterais ocorrem apenas em mulheres. 9.1. Cardiovascular O efeito de altas doses de andrógenos na função cardíaca é incerto. • Hipertrofia cardíaca – Vários relatos de casos descrevem morte súbita em atletas jovens que não tinham doença cardíaca previamente conhecida, mas que estavam tomando andrógenos; hipertrofia cardíaca ou miocardite foram encontrados na autópsia. Não é possível estabelecer causalidade nesses casos esporádicos. Há também relatos de hipertrofia ventricular esquerda em fisiculturistas e levantadores de peso, mas a maioria desses estudos não foi randomizada ou controlada para o grau de exercício, o que por si só pode afetar o grau de hipertrofia cardíaca. Em um estudo randomizado, controlado por placebo, oito fisiculturistas tratados com decanoato de nandrolona não mostraram diferença em vários parâmetros ecocardio- gráficos ao final de oito semanas daqueles tratados com placebo, mas este estudo foi limitado pelo pequeno número de indivíduos e curta duração. • Lipídios – Embora as doses fisiológicas de testosterona não tenham efeitos consistentes nas concentrações de lipídios séricos, doses farmacológicas de andrógenos, especialmente andrógenos 17-alfa-alquilados administrados por via oral, diminuem o colesterol sérico de lipoproteína de alta densidade (HDL) e aumentam a lipoproteína de baixa densidade (LDL) concentração de colesterol. Em um estudo com homens normais de 30 a 56 anos que receberam androste- nediona (300 mg/dia por 28 dias), as concentrações séricas de colesterol HDL diminuíram 15%, uma mudança que, na população em geral, predizia um aumento no risco de doença coronariana. Anabolizantes 20 • Sistema hemostático – A administração de andrógenos também está associada à ativação do sistema hemostático, como ilustrado em um estudo de 49 levanta- dores de peso nos quais o uso de andrógenos foi verificado por histórico e teste de urina. Os usuários confirmados de esteroides tiveram uma porcentagem maior de complexos anormalmente altos de trombina-antitrombina no plasma do que os não usuários (16 versus 6 por cento, p = 0,01); concentrações plasmáticas mais elevadas de fragmento de protrombina 1 (44 versus 24 por cento, p <0,001), antitrombina III (22 versus 6 por cento, p = 0,005) e proteína S (19 versus 0 por cento); e menores concentrações plasmáticas de ativador de plasminogênio teci- dual e seu inibidor. A importância da ativação do sistema hemostático em relação ao risco de trombose não é clara. • Eritropoiese– A testosterona estimula a eritropoiese e, em homens tornados hipogonádicos pela administração de um agonista de GnRH, aumenta a hemo- globina e o hematócrito de maneira dose-dependente. A eritrocitose é um efeito colateral bem conhecido do tratamento do hipogonadismo com doses fisiológicas de testosterona. Eritrocitose, às vezes em grau grave, também foi relatada em associação com a administração de doses farmacológicas de andrógenos, mas apenas em relatos de casos. 9.2. Neuropsiquiátricas Pessoas que utilizam altas doses de androgênio apresentam anormalidades psi- cológicas que já se encontram descritas na literatura tanto médica quanto anedótica. A maioria dos estudos não é controlada, no entanto um estudo foi realizado para comparar pacientes que utilizam e os que não utilizam andrógenos. Para isso, quase 200 homens em academias responderam um formulário sobre uso de andrógenos e sintomas psiquiátricos. Sintomas psiquiátricos, incluindo grandes transtornos de humor e comportamento agressivo, foram mais comuns nos homens que tomaram andrógenos do que naqueles que nunca tomaram andrógenos, e entre os primeiros, os sintomas foram mais comuns quando estavam tomando andrógenos. Estudos controlados usando doses suprafisiológicas de enantato de testosterona, embora menores do que aquelas que os atletas costumam usar, por até seis meses, não demonstram ou mínimas anormalidades psicológicas. Vários estudos descrevem uma associação entre o uso não médico de andrógenos e comportamento de risco ou mesmo criminoso. Em pesquisa por correio6 de aproxima- damente 10.000 a 15.000 estudantes universitários de 1993 a 2001, o uso não médico de andrógenos foi associado ao tabagismo, uso de outras drogas ilícitas, beber e dirigir, e transtorno por uso de álcool5. O exame dos dados do Longitudinal Study of Adolescent Health5, no qual 6.823 adolescentes foram entrevistados em três ocasiões entre a 7a e a 12a série, demonstrou que o uso não médico de andrógenos estava associado a comportamentos violentos, como brigas físicas. Anabolizantes 21 Mulheres que usam esteroides anabolizantes descreveram sintomas hipomaníacos e depressivos. Além disso, algumas mulheres relatam práticas alimentares rígidas (refe- ridas como “transtorno alimentar, tipo fisiculturista”), papéis de gênero não tradicionais e insatisfação/preocupação com seus corpos (referidas como “disforia muscular”). 9.3 Reprodutivo (mulheres) Nas mulheres, os efeitos colaterais dos andrógenos incluem acne, hirsutismo, re- cessão do cabelo temporal em um padrão masculino, clitoromegalia e engrossamento da voz. As alterações de voz são irreversíveis. Embora não seja bem estudada, muitas mulheres também desenvolvem oligomenorreia ou amenorreia. A atrofia mamária também pode ser observada. 9.4. Reprodutivo (homens) • Hipogonadismo após descontinuação de andrógenos exógenos – Nos homens, todos os andrógenos suprimem a secreção de gonadotrofinas e a função testi- cular endógena, tanto a produção de testosterona quanto de espermatozoides. O volume testicular eventualmente diminui com o uso crônico de andrógenos, e a espermatogênese e a fertilidade diminuem bastante. O uso crônico de andrógenos exógenos pode causar supressão prolongada de gonado- trofinas e, portanto, resultar em hipogonadismo após a descontinuação dos andrógenos exógenos. A prevalência de hipogonadismo entre usuários de andrógenos exógenos não é conhecida. No entanto, uma série retrospectiva descobriu que 21% dos 382 homens com hipogonadismo que se apresentaram para terapia com testosterona já haviam tomado esses medicamentos. Essa observação destaca a importância de obter um histórico cuidadoso de drogas antes de prescrever testosterona a homens com hipogonadismo aparente. Entre os homens que param de usar andrógenos, a contagem de espermatozoides geralmente volta ao normal dentro de quatro meses após a descontinuação, mas pode levar mais de um ano. A secreção de gonadotrofina e testosterona permanece suprimida por alguns meses após a descontinuação dos andrógenos. Homens mais jovens podem se recuperar mais rapidamente do que homens mais velhos. Alguns homens solicitam hCG durante a recuperação, mas não deve ser prescrito, porque não foi demonstrado que acelera esse processo e porque alguns homens dizem que querem parar de tomar andrógenos como desculpa para obter uma receita de hCG. • Ginecomastia – A ginecomastia ocorre porque a testosterona é convertida em estra- diol através da ação do complexo enzimático aromatase, de modo que altas doses de testosterona resultam em altas concentrações séricas de estradiol. Andrógenos que foram reduzidos em 5-alfa, como di-hidrotestosterona, e andrógenos sintéticos nos quais o anel A foi modificado não podem ser aromatizados e, portanto, não podem ser convertidos em estrogênios e não causam ginecomastia. Anabolizantes 22 Como observado acima, muitos abusadores de andrógenos masculinos também tomam antiestrogênios ou inibidores de aromatase para prevenir a ginecomastia. Figura 3. Estágios da ginecomastia. Fonte: logika600/Shutterstock6. 9.5. Outros O abuso de andrógenos também foi associado a vários outros efeitos adversos, incluindo: • Infecção – Relatos de casos esporádicos descrevem infecções devido à injeção de andrógenos, incluindo abscesso local no local da injeção, artrite séptica, hepatite B e C e infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) por compartilha- mento de agulhas; • Próstata – Como a próstata é uma glândula dependente de testosterona, existe a preocupação de que as altas doses de andrógenos que os atletas tomam possam aumentar o risco de hipertrofia benigna da próstata e câncer de próstata. Uma meta-análise de doses de reposição de testosterona em homens hipogonádicos não mostrou tais riscos aumentados, mas o risco em atletas que tomam grandes doses de andrógenos não foi relatado; • Ruptura do tendão – O risco de ruptura do tendão (por exemplo, ruptura do ten- dão do tríceps ou bíceps) parece ser maior em levantadores de peso que usam andrógenos; • Fechamento epifisário – Doses farmacológicas de testosterona ou outros an- drógenos que podem ser aromatizados em estrogênios aceleram o fechamento epifisário em adolescentes cujas epífises ainda não fecharam; • Efeitos colaterais hepáticos – Os efeitos colaterais hepáticos ocorrem apenas com andrógenos 17-alfa-alquilados orais e incluem altas concentrações séricas de enzimas hepáticas, icterícia colestática e peliose hepática, caracterizada por cistos hepáticos cheios de sangue. Hepatomas também foram relatados, mas o número de casos é pequeno e a causalidade é incerta. Anabolizantes 23 MAPA MENTAL 5. FISIOLOGIA DA COMPLICAÇÃO PELO USO DE ANABOLIZANTES. Doença coronariana Baixa HDL Colestase HAS Eritrocitose Cardiomiopatia Alta LDL Neoplasia COMPLICAÇÕESCardiovasculares Dislipidemias HIV Hepatite B e C MRSA Infecções Musculoesqueléticas Neuropsiquiátrico Ruptura de tendão Agressão Violência Dependência Hepático Homens Mulheres Ginecomastia Hipogonadismo Infertilidade Acne Virilização Reprodutivo Fonte: Elaborado pela autora. Anabolizantes 24 10. DIAGNÓSTICO O hipogonadismo masculino é confirmado e diagnosticado com a dosagem da testosterona total da manhã baixa ou no limite inferior sendo repetida e reconfirmada. Essa dosagem não deve acontecer em casos de doença aguda ou subaguda. Se os pacientes apresentarem a testosterona total limítrofe ou tiverem suspeita no defeito da globulina ligadora do hormônio sexual (SHBG) por outras causas, como desnutrição, hepatopatia e nefrose, é necessário medir a testosterona livre. A testosterona tem sua liberação de acordo com o ritmo circadiano, com os maiores picos pela manha, sendo esse o motivo da dosagem ser realizada nesse período. O envelhecimento ou doenças agudas ou subagudas ou de estresse alte- ram esse ritmo, não sendo a dosagem nesses momentos fidedigna. Como ocorre uma variação datestosterona para afirmar que ela encontra-se baixa, é necessário 2 medidas alteradas. Os exames de testagem de testosterona sofrem diferenças entre si, sendo o da testosterona total confiável e de fácil detecção, enquanto o da livre é um exame com- plicado, de difícil disponibilidade e não tao confiável. Assim, deve usar a total sempre salve quando há alteração no SHBG. Como traz Sales, Halpem e Cercato4, existem algumas razões que alteram a SHBG: . • Reduzem a SHBG: Obesidade, hiperinsulinemia, diabetes melito, síndrome nefró- -tica, hipotireoidismo, corticoterapia, progestágenos, andrógenos, acromegalia; • Aumentam a SHBG: Idade, cirrose hepática, hepatite aguda, hipertireoidismo, anticonvulsivantes, estrógenos, HIV. É preciso lembrar que apenas se testa os níveis de testosterona em homens com sinais e sintomas da baixa da SHBG ou que tenham indicação para efetuar o rastreio. Não deve ocorre o rastreio de toda a população de forma geral sem critérios4. Anabolizantes 25 MAPA MENTAL 6. DIAGNÓSTICO DE HIPOGONADISMO. 8 – 10 AM: testosterona total Suspeita clínica Normal REPETIR 8-10 AM: T total 2x T total baixa DOSAR LH + FSH Baixo/Suprimido Hipogonadotrófica Fonte: Sales et al4. Na presença de testosterona diminuída, é necessário avaliar o eixo hipotálamo- -hipofisário, dosando LH e FSH para diferenciar causas de hipogonadismo hipo ou hipergonadotrofico4. Nos casos de hipogonadismo congênito, o diagnóstico ocorre de forma mais flui- da, pois os sinais clínicos são bem específicos e o diagnóstico é fechado com com dosagem baixa de testosterona. Contudo, o diagnóstico de hipogonadismo adquirido, em destaque nos casos do Déficit Androgênico do Envelhecimento Masculino (DAEM), que se associa a causas comuns, como obesidade e envelhecimento, o diagnóstico torna-se mais difícil, pois tem sinais e sintomas inespecíficos. Assim, para concluir o diagnóstico nesses casos, é necessário associar pelo menos 3 sintomas sexuais com os níveis baixos de testosterona para os homens jovens4. Anabolizantes 26 Quadro 2. Outros exames. Outros Exames Avaliação do perfil lipídico e glicêmico Densitometria óssea Esoermograma Perfil hepático USG abdome (esteatose hepática) Fonte: SanarFlix. 11. TRATAMENTO O tratamento pode ser com a recuperação do eixo hormonal que é reservado a jovens com desejo de fertilidade ou com a reposição androgênica que falaremos com mais profundidade no Super Material. 11.1. Indicação de reposição androgênica • Hipogonadismo congênito; • Retardo constitucional de crescimento e desenvolvimento (RCCD) em casos selecionados; • Andropausa/DAEM: indicado apenas para homens com deficiência androgênica clássica sintomática; • Transexuais femininos → masculinos. 11.2. Terapia de reposição androgênica 11.2.1. Intramuscular É a forma mais comum, barata e disponível da testosterona no Brasil. No entanto, não mimetiza o ritmo fisiológico de secreção de testosterona, pois propicia pico sérico elevado de testosterona nos dias seguintes à aplicação. Apresentações comerciais são4: Anabolizantes 27 • Deposteron, Testiormina (cipionato de testosterona) 200 mg: administra-se uma ampola intramuscular (IM) a cada 2 a 3 semanas. Faz pico sérico menor quando comparado ao Durateston; • Durateston, Estandron (mistura de quatro ésteres de testosterona: propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato de testosterona) 250 mg: administra-se uma ampola IM a cada 2 a 3 semanas; • Nebido (undecanoato de testosterona) 1.000 mg: administra-se uma ampola IM a cada 3 meses. Pode-se administrar uma dose de ataque após 6 sema- nas da primeira dose, visando a acelerar a obtenção de bom nível sérico de testosterona. 11.2.2. Gel de testosterona São sachês/envelopes de 2,5 ou 5 g, correspondendo a 25 ou 50 mg de testosterona; ou apresentação em frascos, em que 4 pufs correspondem a 50 mg de testosterona. Orienta-se passar 5 a 10 g do gel (correspondente a 50 a 100 mg de testosterona) 1 vez/dia em pele recoberta por roupa, geralmente ombros, braços ou costas. Sempre se deve orientar a lavagem das mãos imediatamente após a aplicação. A absorção é rápida e eficiente, e mantém níveis séricos de testosterona adequados, não causando pico como as formulações intramusculares. Geralmente não causam irritação na pele, como pode acontecer com os adesivos (patchs). Como apenas 10% do gel é absorvido, conclui-se que a dose absorvida é equivalente a 5 a 10 mg de testosterona, semelhante à produção diária de testosterona pelo homem, que é algo em torno de 7 mg/dia. O uso é diário e tem alto custo. Chegou recentemente ao Brasil um tipo de solução hidroalcóolica de testosterona para aplicação em gel (Axeron). É a forma mais fisiológica de reposição, e a mais uti- lizada nos EUA. Sales (2016) traz que: • Axeron 2% (apresentação em puf de 1,5 mL, cada puf tem 30 mg; aplicar 2 a 4 pufs 1 vez/dia na pele das axilas): é uma solução hidroalcóolica de testosterona que atinge nível sérico estável em 7 dias de uso, e cuja monitorização já pode ser feita com dosagem da testosterona após 2 semanas de uso para ajuste de dose. Dose mínima e inicial de 60 mg/dia (2 pufs)4; • Androgel (apresentação de sachês de 2,5 g e 5 g, e bombas dosadoras a 1% e a 1,62%)4; • Testim (sachês de 5 g, a 1% de testosterona – equivalente a 50 mg de testosterona)4. Existe, no Brasil, a opção de testosterona tópica manipulada: testosterona base micronizada 50 a 200 mg + base hormonal transdérmica ou veículo de ultra-absorção hormonal (VUH) qsp 1 ml, aplicar um jato de 1 mL, 1 vez/dia4. Anabolizantes 28 MAPA MENTAL 7. TERAPIA DE REPOSIÇÃO ANDROGÊNICA. GelIntramuscular NebidoDuratestonDeposteron TestimAndrogelAxeron Testosterona Fonte: Elaborado pela autora. 11.3. Contraindicações • Absolutas: Câncer de próstata e de mama, hematócrito > 55%, PSA > 4 ng/mL ou > 3 ng/mL se houver história familiar de câncer de próstata em parente de primeiro grau, insuficiência cardíaca (ICC) grau 3 ou 4, SAOS grave não tratada, alergia; • Relativas: Sintomas de HPB importantes, condições que piorem muito com a retenção hídrica (ICC, IRC oligoanúrica, cirrose), Ht > 50%. Anabolizantes 29 MAPA MENTAL 8. RESUMO SOBRE ANABOLIZANTES. Anabolizantes Complicações Neuropsiquiátricas Cardiovasculares Reprodutivas Fisiologia Receptor andrógeno DHT Diagnóstico Tratamento Dosagem de testosterona pela manhã Testosterona exógena Aplicabilidade Deficiência androgênica Trauma Homens trans Reabilitação após fratura Puberdade atrasada Fonte: Elaborado pela autora. Anabolizantes 30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Araújo M H P. O uso de esteroides e anabolizantes e o processo de hiperplasia nos tecidos musculares e suas consequências. Ceará: Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual Vale do Acaraú, 2018. 2. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, disponível em: https://www. shutterstock.com/pt/image-photo/doping-anabolic-pills-bodybuilder-bodybuilding-mus- cles-751250758. Acesso em: 6 jun. 2022. 3. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, disponível em: https://www. shutterstock.com/pt/image-vector/classification-gynecomastia-enlargement-male-bre- ast-1855507846. Acesso em: 6 jun. 2022. 4. Sales P, Halpem A, Cercato C. O essencial em endocrinologia. Rio de Janeiro: Roca, 2016. 5. STAAK – MSJ CLINICA MEDICA LTDA. Aspectos neuropsiquiátricos da utilização de testosterona e outros hormônios anabólicos androgênicos. Brasil, 2022. [Internet]. [acesso em 3 jan. 2023]. Disponível em: http://staakmed.com.br/blog/aspectos- neuropsiquiatricos-da-utilizacao-de-testosterona-e-outros-hormonios-anabo-licos-an- drogenicos/. 6. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, disponível em: https://www. shutterstock.com/pt/image-vector/male-hypothalamic-pituitary-gonadal-axis-labe- led-290119091. Acesso em: 6 jun. 2022. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 1.Snyder PJ. Use of androgens and other hormones by athletes.[Internet]; 2022. [acesso em: 6 jun. 2022]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/ use-of-androgens-and-other-hormones-by-athletes. sanarflix.com.br Copyright © SanarFlix. Todos os direitos reservados. Sanar Rua Alceu Amoroso Lima, 172, 3º andar, Salvador-BA, 41820-770 _heading=h.12v1n3s5p4xz _heading=h.prep21aqpnm 1. Introdução 2. Histórico 3. Epidemiologia 4. Aplicabilidade 4.1. Crianças e adolescentes 4.2. Hipogonadismo masculino 4.3. Metabolismo ósseo 4.4. Anemia hipoplásica 4.5. Balanço nitrogenado negativo 4.6. Terapia hormonal masculina para homens transgêneros 4.6.1. Contracepção hormonal masculina 5. Fisiologia 5.1. Eixo hipotalâmico-hipófise-testicular 5.2. Testosterona 5.2.1. Efeito anabólico 5.2.2. Efeito virilizante 5.3. DHT 5.4. Conclusão 6. Modificações genéticas na molécula de testosterona 7. Outros anabolizantes não tão potentes 7.1. SARMs 7.2. Bloqueio de estrogênio 7.3. Antiestrogênios 7.4. Inibidores de aromatase 7.5. Uso de hCG 8. Uso clínico 9. Complicações 9.1. Cardiovascular 9.2. Neuropsiquiátricas 9.3 Reprodutivo (mulheres) 9.4. Reprodutivo (homens) 9.5. Outros 10. Diagnóstico 11. Tratamento 11.1. Indicação de reposição androgênica 11.2. Terapia de reposição androgênica 11.2.1. Intramuscular 11.2.2. Gel de testosterona 11.3. Contraindicações