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AULA 6 NEUROCIÊNCIA DA LINGUAGEM Profª Tammy Ribeiro 2 CONVERSA INICIAL As discussões sobre como funcionam o cérebro e a linguagem foram iniciadas há vários anos e incluíram um número de ilustres estudiosos de várias disciplinas, porém, os interessados na biologia do cérebro humano tiveram poucos métodos disponíveis em suas mãos. O máximo de que dispunham era a investigação comportamental de indivíduos com lesões cerebrais de vários tipos, com o objetivo de relacionar a natureza e a distribuição da lesão à extensão dos distúrbios comportamentais. Esse método de “correlação clinicopatológica” ou “análise de lesões” foi amplamente praticado e levou aos grandes avanços de Pierre Paul Broca, Karl Wernicke, Jules Dejerine, Norman Geschwind e muitos outros que contribuíram para um entendimento mais básico do cérebro e da linguagem (Small, 2008). Talvez tenha chegado o momento de ir além da ideia de que a linguagem é simplesmente uma manifestação central do funcionamento da mente humana que se relaciona interativamente com todos os aspectos do pensamento. A questão, portanto, não é decidir se a linguagem e o pensamento humano podem estar inelutavelmente ligados (eles simplesmente são), mas determinar as características dessa relação e entender como a linguagem influencia – e pode ser influenciada – processos não verbais da informação (Thierry, 2016). Diante disso, nesta aula, discutiremos como os estudos do cérebro e da linguagem têm sido realizados nos dias atuais. Começamos fazendo um apanhado dos estudos da neolinguística na contemporaneidade, buscando identificar as grandes questões que estão em voga atualmente na pesquisa neolinguística. Dando continuidade, buscamos compreender os desafios que se impõem na atualidade aos estudos neurolinguísticos, percebendo, principalmente, a ligação entre os aspectos biológicos e virtuais do cérebro, ou seja, os achados da neurobiologia, que são, em parte, incompatíveis com as teorias da linguagem. Continuamos nossa discussão, destacando os novos estudos em neurolinguística, analisando o crescimento das pesquisas nesta área, atrelada ao crescimento tecnológico perceptível nos últimos anos, como é o caso dos estudos computacionais em neuropsicolinguística, que se utilizam de modelos informáticos do cérebro humano para realização de estudos na área. 3 Por fim, realizamos uma compilação das principais tecnologias utilizadas na atualidade não somente para o diagnóstico de problemas cerebrais, mas, principalmente, para o aprofundamento das pesquisas nas áreas disciplinares que têm como foco o cérebro humano. CONTEXTUALIZANDO O estudo da linguagem e do cérebro tem se apresentado mais evidente em consequência do grande número de estudos publicados desde a década de 1990. Para isso, várias tecnologias têm sido utilizadas, como a eletroencefalografia e a magneto-encefalografia, que investigam aspectos do cérebro e da linguagem em domínios linguísticos que vão da fonética ao discurso em processamento. Segundo Poeppel e Embick (2005), a quantidade de recursos dedicados a tais estudos sugere que são motivados por um programa de pesquisa viável e bem-sucedido, e implica na formação de progressos substanciais. A última década do século XX foi designada “Década do Cérebro” pelo congresso dos EUA. No entanto, alguns cientistas argumentaram que isso era excessivamente otimista e sugeriram que deveríamos designar o século XXI como o "século do cérebro" (Bear et al., 2001). A razão de ser excessivamente otimista sobre o destino da "Década do cérebro" é que uma vasta quantidade de pesquisas em neurociência básica demonstrou que já se sabe muito sobre a função do cérebro humano. O que sabemos hoje, contudo, é insignificante comparado ao que ainda precisa ser aprendido, especialmente se considerarmos a compreensão dos correlatos neurais e dos mecanismos responsáveis pelos níveis mais elevados da atividade mental humana (Bear et al., 2001). Compreender como estão sendo realizados os estudos atuais em neurolinguagem é imprescindível para compreendermos até aonde está indo a pesquisa sobre o cérebro humano. TEMA 1 – A NEUROLINGUÍSTICA NA CONTEMPORANEIDADE Avanços teóricos na pesquisa da linguagem e a disponibilidade de técnicas experimentais nas neurociências com resolução cada vez mais alta estão mudando profundamente a forma como se investigam e se concebem as bases neurais do processamento da fala e da linguagem. Trabalhos recentes alinham de perto a 4 pesquisa da linguagem a questões do núcleo da neurociência, variando de caracterizações neurofisiológicas e neuroanatômicas a questões sobre codificação neural (Poeppel et.al, 2012). Até fins do último milênio, o conhecimento que se tinha da base cerebral do processamento da linguagem, a faculdade mental considerada o cerne da natureza humana, derivava em grande parte de medidas bastante grosseiras, como correlações de déficit-lesão em pacientes com AVC, dados eletrofisiológicos, bem como registros intracranianos ocasionais, associados a intervenções cirúrgicas e medidas relativamente cruas, como o teste de Wada, que tinha como função descobrir o lado dominante para a linguagem, antes da realização de cirurgias em pessoas com epilepsia. O "modelo clássico" do cérebro e da linguagem, desenvolvido no século XIX pelos neurologistas Broca (1861), Wernicke (1874), Lichtheim (1885) e outros, dominou o discurso no campo por mais de cem anos. Até hoje, o modelo Wernicke-Lichtheim, que simula a região frontal inferior esquerda e uma área temporal posterior do cérebro, conectada pelo feixe de fibras do fascículo arqueado, é familiar a todos os estudantes de neurociências, linguística e psicologia. Esse modelo icônico, publicado em praticamente todos os livros-texto relevantes, teve, e continua a ter, enorme influência nas discussões sobre os fundamentos biológicos da linguagem (Geschwind, 1970). Segundo Poeppel (et.al, 2012), as grandes questões em relação às neurociências estavam ligadas à "lateralização da função" e à "dominância hemisférica". As ciências cognitivas e pesquisas sobre a linguagem preocupavam- se em atribuir diferentes aspectos da função da linguagem às regiões da linguagem anterior e posterior, e produção versus compreensão, respectivamente, embora as versões mais antigas (ou seja, de Wernicke) fossem realmente mais sutis do que muitos trabalhos subsequentes. Crucialmente e problematicamente, a avaliação dos distúrbios de fala, linguagem e leitura em contextos clínicos continua a ser amplamente informada pela visão clássica e pelas ideias e dados que vão de 1860 a 1970. Não surpreendentemente, mas vale a pena apontar explicitamente, a era do modelo clássico acabou (Geschwind, 1970). A conceptualização subjacente da relação entre cérebro e linguagem é irremediavelmente subespecificada, tanto do ponto de vista biológico quanto das perspectivas linguística e psicológica (Poeppel; Hickok, 2004). Por mais útil que tenha sido, servindo como um guia heurístico para estimular a pesquisa básica e o diagnóstico clínico, esse modelo está sendo 5 radicalmente adaptado e, em partes, descartado. Dito isto, sua longevidade é um testemunho do quão profundamente o modelo clássico penetrou, tanto na imaginação científica quanto na popular. Poucos modelos científicos em qualquer disciplina têm esse poder de permanência (Poeppel et.al 2012). Grandes mudanças na conceituação das relações cérebro-linguagem ocorreram, ambas relacionadas a uma melhor "resolução". Obviamente, nos últimos 20 anos, a pesquisa nessa área tem sido dominada por imagens cerebrais funcionais não invasivas. As novas técnicas aumentaram as resoluções espaciais e temporais com as quais podemos investigar os fundamentos neurais do processamento da linguagem. A melhoria da resolução das técnicas experimentais levoua dados neurais de melhor qualidade, gerando uma série de novos insights e modelos de larga escala (Hickok; Poeppel 2004). Em relação aos avanços nos métodos, as notáveis melhorias nas técnicas de registro e análise de dados produziram novos mapas da anatomia funcional da linguagem. Falando espacialmente, as regiões locais, os fluxos de processamento, os dois hemisférios e as redes globais distribuídas estão agora implicados na função da linguagem de maneiras imprevistas. Por exemplo, a região de linguagem canônica, ou seja, a área de Broca, agora é conhecida com base em dados citoarquitetônicos e imunocitoquímicos inovadores, compostos de várias sub- regiões, implicando plausivelmente um número muito maior de funções diferentes do que se supunha anteriormente (Amunts et al., 2010), suportando processamento de linguagem e não linguagem. Além disso, há um consenso emergente de que as regiões estão organizadas em pelo menos duas correntes de processamento, dorsais e ventrais, que sustentam diferentes sub-rotinas de processamento, por exemplo, mediando aspectos de reconhecimento lexical e combinação lexical versus aspectos das transformações sensório-motoras para produção (Hickok; Poeppel 2004). Segundo Zatorre (et al. 2002), a questão clássica da lateralização da função está agora sendo investigada com relação a especializações fisiológicas muito específicas, desde a otimização computacional para a codificação de sons até a codificação de significados de palavras. Diante disso, pode-se considerar que as abordagens de rede para organização do cérebro estão começando a informar como o processamento da linguagem é executado. Os avanços conceituais na pesquisa linguística e psicológica definiram o que constitui a "lista de peças" que compreende o conhecimento da linguagem, sua 6 aquisição e seu uso. Essa descrição se estende de importantes e amplas distinções a análises sutis dos tipos de representações e operações que fundamentam a construção de significado ou acesso lexical. Os primeiros trabalhos sobre a neurobiologia da linguagem foram amplamente desconectados da pesquisa em linguagem e psicologia per se e levaram a linguagem a ser bastante monolítica, com distinções sendo feitas no tamanho de grão da "percepção" ou "compreensão" versus "produção" (Poeppel et.al 2012). Estudos atuais tentam relacionar estrutura e função do cérebro à fonologia, sintaxe ou semântica. Isso representa um progresso significativo, mas os resultados ainda são de natureza correlacional. A partir de uma perspectiva neurobiológica, o objetivo é desenvolver hipóteses mecanicistas que conectem princípios linguísticos bem definidos com mecanismos neurobiológicos igualmente bem definidos. A próxima fase da pesquisa neolinguística começa agora, com o desenvolvimento de uma neurobiologia computacional da linguagem, havendo motivos para acreditar que hipóteses de ligação genuínas entre as neurociências e as ciências cognitivas estão sendo elaboradas (Poeppel, 2012). TEMA 2 – DESAFIOS DA NEUROLINGUÍSTICA NA ATUALIDADE Diante do que já foi discutido nesta aula e de todos os avanços dos estudos da neurociência relacionada à linguagem, é necessário apontar que alguns desafios ainda se impõem à pesquisa nessa área de estudo. Segundo O’shea (2005), ainda estamos longe de entender como objetos e percepções são codificados no cérebro pelas atividades dos neurônios, porém, por exemplo, a hipótese de que pode haver um neurônio em nosso cérebro que apenas reconhece nossa “avó” merece uma séria reconsideração. Segundo Bear (et al. 2001), talvez o maior desafio da neurociência no século XXI seja entender os mecanismos neurais responsáveis pelos níveis mais elevados da atividade mental humana. Nesse ponto, três grandes áreas foram propostas, a autoconsciência, as imagens mentais e a Língua. Para Nilipour (2012), a principal meta de pesquisa em cada nível é ver como a atividade do cérebro cria a mente ou atividades mentais superiores. Diante disso, os modelos clássicos de linguagem cerebral derivados de estudos de grandes neuroanatomistas e neuropsicólogos, como Broca, Wenicke, Geshwind e outros, têm sido considerados empiricamente errados e anatomicamente subespecificados 7 (Poeppel; Hickok, 2004). Consequentemente, novos modelos têm sido propostos com a base neurobiológica de palavras e sentenças em termos de formação de redes neurais específicas no cérebro (Pulvemuller, 2004). Ao mesmo tempo, Poeppel e Embrick (2015) apontam que, em alguns pontos, a pesquisa neolinguística atual não avançou na compreensão da teoria linguística ou da neurociência. Para os autores, esta falha continuará até que certos desafios fundamentais sejam identificados, reconhecidos e resolvidos. No seu texto “A relação entre Linguística e Neurociência” (Poeppel; Embrick, 2005), os autores apresentam dois importantes desafios que “travam” o processo de avanço da pesquisa em neurociência e linguagem. O primeiro desafio, denominado pelos autores de Problema da Incompatibilidade Granular (PIG), se caracteriza por um descompasso entre a "granularidade conceitual" dos conceitos elementares da linguística e os conceitos elementares de neurobiologia e da neurociência cognitiva. Segundo os autores, estudos linguísticos e neurocientíficos da linguagem operam com objetos de granularidade diferente. Em particular, a computação linguística envolve uma série de distinções refinadas e operações computacionais explícitas. As abordagens neurocientíficas da linguagem operam em termos de distinções conceituais mais amplas. Neste ponto, esse desencontro impede a formulação de hipóteses de ligação teoricamente motivadas, biologicamente fundamentadas e computacionalmente explícitas, que unem a neurociência e a linguística. Naturalmente, o PIG se aplica não apenas à interface linguístico-neurocientífica, mas também a outras disciplinas experimentais que operam com objetos de diferentes tamanhos (Poeppel; Embrick, 2005). O segundo desafio foi chamado de Problema de Incomensurabilidade Ontológica (PIO). Para Poeppel e Embrick (2005), os elementos fundamentais da teoria linguística não podem ser reduzidos ou combinados com as unidades biológicas fundamentais identificadas pela neurociência. Este problema resulta de uma falha em responder à questão de como as estruturas neurológicas podem ser especializadas para executar tipos específicos de computação, linguística ou não. Ou seja, enquanto o foco particular é na linguagem, o PIO e o PIG poderiam ser aplicados a toda a gama de áreas nas quais a relação entre cognição e biologia é examinada e, portanto, apresentam-se como problemas gerais de interface para o estudo da cognição. 8 TEMA 3 – NOVOS ESTUDOS EM NEUROLINGUÍSTICA Neste momento, um número crescente de psicólogos, neurocientistas e linguistas está estudando as bases neurais da linguagem, e um número crescente de periódicos que se concentram em neurociência cognitiva e de sistemas estão publicando pesquisas de linguagem de alto impacto. Além disso, os periódicos mais gerais de neurociência, psicologia e linguística publicam constantemente trabalhos sobre o cérebro e a linguagem, assim como revistas clínicas em neurologia, neurocirurgia, psiquiatria e fonoaudiologia, além de revistas básicas em ciência da computação, antropologia, biologia matemática e sociologia. O campo emergente da neurociência social também está captando o interesse de muitos pesquisadores sobre o cérebro e a linguagem, com uma quantidade grande de competição pelos melhores artigos, que mostram uma profunda sofisticação interdisciplinar na estrutura e no processamento da linguagem e da biologia do cérebro humano (Poeppel; Embrick, 2005). Usando palavras-chave “cérebro” e “linguagem” e restringindo os resultados aos anos de 1974 e 2004, respectivamente, uma rápida pesquisa nasprincipais revistas sobre o tema disponibilizou pouco mais de 100 artigos no primeiro ano e por volta de 1000 no segundo. Um grande aumento em 30 anos. O que mais contribuiu para esse aumento? Segundo Small (2008), a resposta é que o desenvolvimento tecnológico levaria a mais e melhores maneiras de estudar o cérebro e a linguagem. Isso aconteceu em um grau tão notável que ninguém poderia ter dado essa previsão em tão pouco tempo. Essas mudanças não só aumentaram o volume de pesquisa no campo da neurociência como alteraram sua própria natureza, tornando possível a realização de perguntas que dificilmente eram consideradas antes. Nos últimos 20 anos, vários métodos surgiram para estudar essas relações de estrutura/função de maneiras muito novas, levando a perguntas e elaborações desses mapeamentos localizados. Muitos desses novos métodos não dependem da investigação de um sistema neural danificado para fazer inferências sobre o estado do sistema normal, mas permitem a investigação do sistema normal diretamente, por exemplo, tomografia por emissão de pósitrons, ressonância magnética funcional e magnetoencefalografia (Poeppel; Embrick, 2015). Outros métodos permitem “lesões” transitórias (estimulação magnética transcraniana, estimulação transcraniana por corrente contínua), de modo que o comportamento 9 pode ser estudado repetidamente em diferentes estados do sistema. Combinados com dados prévios da correlação clinicopatológica e/ou novos dados coletados de pacientes com lesão e usando versões avançadas de tais análises de lesões, esses métodos são ainda mais poderosos. Com as abordagens agora disponíveis e com o crescente número de cientistas fazendo uso delas, tanto individualmente quanto em combinação, tornou-se não só possível, mas comum, fazer perguntas sobre os mecanismos básicos da linguagem no cérebro (Small, 2008). Com imagens funcionais e gravação elétrica e magnética de alta densidade (e estimulação), uma neurociência robusta da linguagem é agora possível. Ao examinar quatro dos principais periódicos de neurociência (Neuron, Nature Neuroscience, Journal of Neuroscience e Annals of Neurology), observa-se um aumento constante no número de artigos publicados em linguagem humana, de 0 em 1974 (apenas dois desses periódicos existiam na época), para entre 30 e 40 por ano atualmente. Isto é acompanhado por um crescimento exponencial em publicações biológicas e linguísticas em um grande número de periódicos e o aumento no número de artigos publicados que fazem referência ao cérebro. E é provável que esta tendência só aumente (Small, 2008). TEMA 4 – ESTUDOS COMPUTACIONAIS EM NEUROPSICOLINGUÍSTICA Entender o cérebro humano é de importância central para as ciências biológicas, cognitivas e sociais. Todas as funções corporais básicas (coração, pulmão, controle de temperatura etc.) são controladas e reguladas pelo sistema nervoso central. Mas, mais relevante no contexto atual, atividades como perceber, lembrar, sentir, avaliar, decidir, agir, falar, são aspectos críticos da mente e, consequentemente, funções que o cérebro instancia. Um entendimento teoricamente motivado e com nuances, biologicamente sofisticadas e detalhadas e computacionalmente explícitas, de como o cérebro implementa as funções que constituem a mente, terá um significado fundamental para a pesquisa básica, para aplicações translacionais e para o desenvolvimento tecnológico (Poeppel, 2013). Segundo Poeppel (2013), o estudo da linguagem e de seus fundamentos neurais pode e deve desempenhar um papel central na realização de progressos na investigação de funções cerebrais complexas. A pesquisa em linguagem se baseia em uma rica base teórica, estabelecida após várias décadas de pesquisas sobre a computação e as representações que compõem a linguagem. Além disso, as ferramentas neurobiológicas para estudar a linguagem são de crescente 10 resolução e sofisticação analítica. No entanto, a base computacional de como o cérebro opera com representações linguísticas permanece pouco compreendida. Para o autor, estamos perdendo análises computacionais relevantes no processo de vinculação entre o processamento de linguagem e a neurociência. Como consequência, o objetivo de várias investigações foi e continua sendo o de identificar novas direções na neurobiologia computacional da linguagem (Poeppel, 2013). As técnicas experimentais disponíveis para caracterizar a função do cérebro humano estão se tornando cada vez mais sofisticadas e alcançando resoluções cada vez maiores no espaço e no tempo. Abordagens que vão desde gravações hemodinâmicas (fMRI, PET, NIRS) e eletrofisiológicas (EEG, MEG, ECog) até técnicas de estimulação e interferência (TMS, ETCC), bem como os impressionantes novos truques analíticos, estão sendo aplicadas a praticamente todos os aspectos da experiência humana (Poeppel, 2013). A questão mais geral que confronta as pesquisas atuais na neurociência cognitiva é como o trabalho neuroanatômico e de imagem, cada vez mais detalhado, pode ser empregado no desenvolvimento de teorias com conexões explicativas entre cognição e neurobiologia. Recentes avanços tecnológicos constituem grandes melhorias em relação às formas anteriores de observar a função cerebral. Ao mesmo tempo, porém, não está claro que esses sucessos tecnológicos tenham sido acompanhados pelos avanços conceituais necessários para o desenvolvimento de teorias verdadeiramente integradas ou unificadas que vinculam cognição e neurobiologia (Embrick; Poeppel, 2015). Segundo Poeppel (2013), no caso da pesquisa de idiomas, todas essas abordagens foram usadas com bons resultados. Atualmente, existem mapas cerebrais bastante razoáveis, no nível da anatomia giral e sulcal, que especificam a parte do cérebro em que ocorrem as principais operações subjacentes a vários aspectos do processamento da linguagem. Os modelos correntes típicos apontam para regiões como a de Broca, fluxos, o dorsal versus o ventral, hemisférios ou redes de áreas que estão implicadas no processamento fonológico, acesso lexical, análise sintática e assim por diante. Hickok (2012) apresenta um modelo anatômico funcional bem desenvolvido da produção de fala. O pesquisador enfatiza que análises de dados de ativação cerebral de audição e assinatura de falantes/ouvintes, bem como dados sobre plasticidade cerebral no contexto de desenvolvimento anormal, apontam para um equilíbrio sutil entre especificidades. 11 Mas o que é um modelo? Segundo Arbib (et al. 2014), para alguns pesquisadores, um modelo pode ser uma técnica para organização de diversos dados em formato coerente, chamado “modelo para tratamento de dados”, enquanto, para outros, um modelo (conceitual ou computacional) fornece uma explicação de como as interações de entidades do cérebro medeiam entre entradas, estados internos e saídas, conhecido como “modelo de princípios operacionais”, ou “conexionistas”. Nesse ponto, o resultado da modelagem de dados é crucial para qualquer especificação de o que um modelo de processamento deve explicar. Como discutido por Embick e Poeppel (2015), essa perspectiva computacional tem desempenhado um papel importante no enquadramento das questões, alavancando a moderna abordagem da ciência da computação para arquiteturas computacionais complexas. Parece haver pelo menos duas "grandes áreas de desafio" que exigem uma investigação renovada de como nosso conhecimento de computação pode informar a conexão da linguagem neurobiológica. O primeiro tem a ver com a compreensão de como computações paralelas e complexas funcionam, com base em numa maior compreensão da arquitetura de computadores; e o segundo, sobre a maneira pela qual a memória pode ser organizada biologicamente, por meio de sistemas endereçáveis por conteúdo, em oposição à memória de acesso aleatório convencional (Poeppel,2013) Ainda segundo Poeppel (2013), ao longo das últimas décadas, a ciência da computação desenvolveu um conjunto extremamente poderoso de métodos para projetar, analisar e testar dispositivos computacionais muito complexos que funcionam de maneira altamente paralela. O design moderno da CPU tem levado em conta essas ferramentas abstratas, incluindo análise de fluxo de dados, modelos para arquitetura de computadores em pipeline e várias camadas de máquinas abstratas, todas organizadas com o entendimento de que muitas operações ocorrem simultaneamente, por exemplo, buscando várias instruções para executar durante a decodificação, e executando muitos outros comandos. Arbib (et al. 2014) defendem modelos de indexação não apenas em relação às estruturas cerebrais, por exemplo, um modelo de circuitos nos gânglios da base e no córtex pré-frontal, mas também em relação aos princípios operacionais cerebrais, que fornecem mecanismos gerais, como aprendizado por reforço, vencedor leva tudo, acoplamento por feedforward-feedback, e outros, que podem 12 ser empregados na análise dos papéis de regiões cerebrais muito diferentes em diversos comportamentos. Além disso, argumentam que cada modelo deve estar associado a resumos de dados empíricos definidos na granularidade do modelo. Esses e outros autores têm, atualmente, se utilizado de processos computacionais para estudar como as funções cerebrais podem funcionar. Para entender um pouco mais sobre isso, sugerimos a leitura do texto abaixo: Saiba mais DIAS, A. M. Modelos e análises computacionais em neurociências: revisão sistemática. Estud. pesqui. psicol. v. 10, n. 2, Rio de Janeiro, ago. 2010. TEMA 5 – TECNOLOGIAS UTILIZADAS NO ESTUDO DA NEUROLINGUÍSTICA Pode-se dizer que os estudos da linguagem e do cérebro têm seu ápice em pelo menos dois momentos: o primeiro, no século XIX, baseado nos estudos de Broca e Wernicke, e, mais tarde, já nos anos 1960, com o surgimento da gramática Chomskyana, o que levou uma nova gama de psicólogos a verificar empiricamente como surge a linguagem no cérebro do homem. Em todos esses anos, os estudos do cérebro humano sadio foram limitados por um problema ético fundamental: não se pode entrar no cérebro humano (Sampaio; França; Maia, 2015). Ainda segundo os autores, outras neurociências construíam modelos animais, que serviam de base empírica na decifração dos processos neurofisiológicos essenciais da visão, audição e de outros processos cognitivos. Todavia, como era impossível estudar o cérebro humano de forma direta, além da dificuldade de obtenção de modelos baseados no cérebro humano, os estudiosos conviviam com uma série de obstáculos, que só puderam ser superados a partir dos anos 1980 com a ajuda de tecnologias que surgiram nessa época, entre estas, o eletroencefalógrafo, do psiquiatra alemão Hans Berger, foi considerado a principal (Sampaio; França; Maia, 2015). Segundo Niedemeyer e Silva (2005), a eletroencefalografia (EEG) é um método de monitoramento eletrofisiológico que registra a atividade elétrica do cérebro. É tipicamente não-invasivo, com os eletrodos colocados ao longo do couro cabeludo, embora eletrodos invasivos sejam usados às vezes, como na eletrocorticografia. A EEG mede as flutuações de tensão resultantes da corrente iônica dentro dos neurônios do cérebro, e é muito utilizada no diagnóstico da 13 epilepsia, do coma, de doenças no encéfalo, distúrbios do sono e morte encefálica. Segundo Sampaio, França e Maia (2015), a EEG não oferece uma precisão espacial muito específica. Os pesquisadores afirmam que o estímulo elétrico pode ricochetear nos líquidos, nos diferentes tecidos nervosos, que podem apresentar distintas densidões e composições ósseas até chegar ao escalpo, fazendo com que se dificulte a precisão na localização do estímulo que se está estudando. Segundo Hansen (citado por Sampaio; França; Maia, 2015), o problema da má resolução espacial foi contornado com outra técnica baseada no magnetismo. Trinta anos após o surgimento da EEG, aconteceriam os primeiros testes em uma técnica de extração de sinais magnéticos, outra face do sinal neural, que não sofre deflexão. A técnica baseada no magnetismo, denominada Magnetoencefalografia (MEG), porém, só foi considerada útil para pesquisa nos últimos anos. Segundo Carlson (2013), a MEG é uma técnica de neuroimagem que tem por função mapear a atividade cerebral por meio da gravação de campos magnéticos produzidos por correntes elétricas que incidem naturalmente no cérebro, por meio da utilização de magnetômetros hipersensíveis. Aplicações de MEG incluem pesquisa básica em processos cerebrais perceptuais e cognitivos, localizando regiões afetadas por patologia antes de remoção cirúrgica, determinando a função de várias partes do cérebro, além de neurofeedback. Essa técnica pode ser aplicada em ambiente clínico a fim de encontrar pontos de anormalidade no cérebro, bem como em um ambiente experimental, para simplesmente medir a atividade cerebral (Carlson, 2013). Outra técnica que, por muitos anos, se mostrou eficaz no estudo de imagens do cérebro é a Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET). Esta técnica é utilizada para medir o metabolismo cerebral e a distribuição de agentes químicos marcados radioativamente desde o exterior, por todo o cérebro. A PET mede as emissões de produtos químicos rotulados metabolicamente ativos radioativamente que foram injetados na corrente sanguínea (Nilsson; Markowitsch, 1999). Segundo Sampaio, França e Maia (2015), desde que foi criado o Tomógrafo por Emissão de Pósitrons, essa técnica permite não apenas o mapeamento do fluxo sanguíneo, mas também o tratamento das imagens multidimensionais obtidas com base na distribuição das substâncias químicas em todo o cérebro. 14 Outra técnica que permite medir o fluxo sanguíneo das áreas cerebrais é a Imagem por Ressonância Magnética Funcional (fMRI), que mede a atividade cerebral por meio da detecção de alterações associadas ao fluxo sanguíneo. Segundo Logothetis (et al. 2001), essa técnica se baseia no fato de que o fluxo sanguíneo cerebral e a ativação neuronal estão acoplados. Quando uma área do cérebro está em uso, o fluxo sanguíneo para essa região também aumenta, não sendo necessária a adição de produtos químicos no sangue. É importante notar que existem basicamente dois grandes grupos de técnicas de neuroimagem: os que têm uma alta resolução espacial e os que têm uma alta resolução temporal. O fMRI, por exemplo, consegue observar a anatomia e as regiões do cérebro mais ativadas de acordo com o consumo de energia. Isso dá a esta técnica uma excelente resolução espacial, sendo extremamente precisa em pesquisas de mapeamento de atividade e de anomalias anatômicas (Sampaio; França; Maia, 2015). Ainda segundo Sampaio, França e Maia (2015), por outro lado, não é possível, por exemplo, indicar o curso temporal entre as áreas ativadas, visto que estas técnicas se limitam à velocidade de distribuição sanguínea no córtex, o que acontece na casa dos segundos. Já as técnicas eletromagnéticas, como o EEG e o MEG, apresentam, em geral, uma excelente resolução temporal, uma vez que monitoram o próprio mecanismo de envio de informação de um neurônio ao outro por meio de sinais elétricos, o que ocorre na casa dos milissegundos. Por outro lado, a resolução espacial é prejudicada porque não é possível indicar com precisão o local que originou a atividade elétrica. Hoje é comum a elaboração de desenhos experimentais que combinam os dois tipos de técnica, buscando driblar as deficiências de cada uma delas. FINALIZANDO Há muitos anos, o ser humano iniciou sua busca por compreender a si próprio mediante estudos do seu cérebro. Ao longo do tempo, muitas teorias surgiram, algumas tiveram mais sucesso, outras foram base para pesquisas mais profundas,outras, ainda, fracassaram na sua tentativa de explicar como o cérebro humano funciona. Na atualidade, com a utilização de processos computacionais para estudar o funcionamento das funções cerebrais, os estudos nas áreas das neurociências 15 têm se multiplicado e grandes avanços têm sido realizados no interior das várias disciplinas que estudam as funções cerebrais. Diante disso, entendendo os grandes desafios da neurociência cognitiva na atualidade, surge a necessidade de iniciar e expandir a pesquisa interdisciplinar nestas áreas do saber. A necessidade da interconexão entre as disciplinas além dos estudos somente de animais é de considerável importância. Esse é o grande desafio para o estudo do cérebro a partir de agora. LEITURA COMPLEMENTAR Saiba mais DIAS, A. M. Modelos e análises computacionais em neurociências: revisão sistemática. Estud. pesqui. psicol. v.10, n. 2, Rio de Janeiro, ago. 2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v10n2/v10n2a15.pdf>. Acesso em: 2 jul. 2018. 16 REFERÊNCIAS AMUNTS, K.; LENZEN, M.; FRIEDERICI, A. D.; SCHLEICHER, A.; MOROSAN, P.; PALOMERO-GALLAGHER, N.; ZILLES, K. Broca’s region: Novel organizational principles and multiple receptor mapping. PLoS Biol.; v. 8, n. 9,. 2010. ARBIB, M. A.; BONAIUTO, J. J.; BORNKESSEL-SCHLESEWSKY, I.; KEMMERER, D.; MACWHINNEY, B.; NIELSEN, F. A.; OZTOP, E. Action and Language Mechanisms in the Brain: Data, Models and Neuroinformatics. Neuroinformatics, v. 12, n. 1, p. 209-225, jan. 2014. BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. 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