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56 Unidade II Unidade II 5 MEIOS DE CONTRASTE NÃO IODADO 5.1 Meio de contraste sulfato de bário Para tornar o trato gastrointestinal visível radiograficamente são usados os meios de contraste positivos ou radiopacos e os negativos ou radioluzentes (radiotransparentes). Os meios de contraste negativos ou radioluzentes podem ser produzidos através do ar deglutido e também através da ingestão de cristais de carbonato de cálcio e de citrato de magnésio, os quais produzem o gás dióxido de carbono (CO2). Além disso, temos o contraste negativo natural, que são as bolhas de gás normalmente presentes no estômago. A barita, cujo nome tem origem no grego barus (pesado), é um mineral de sulfato de bário e fórmula química BaSO4. Ainda que contenha bário, que é um metal pesado, ela não é considerada tóxica por conter elevada insolubilidade. O sulfato de bário natural é um mineral com característica inorgânica e quimicamente inerte que é extraído das jazidas. Em seu estado puro, ele é um pó fino branco. A maior reserva da barita do mundo e a maior produtora é a China, enquanto o Brasil tem participação com somente 0,3% das reservas e 1% da produção mundial. A barita em sua forma química é o sulfato de bário, que contém várias impurezas, como óxidos de ferro, alumínio, carbonato de cálcio e sílica. Essas impurezas são extraídas pelo processo de flotação, o qual é um processo físico de separação de misturas heterogêneas. Esse processo consiste na adição de bolhas de ar no meio, com o objetivo de suspensão das partículas no líquido e aglutinação nas bolhas. A espuma que se forma deve ser removida, levando consigo as partículas impuras. O meio de contraste sulfato de bário (BaSO4) é uma substância equivalente a um pó branco, o qual é positivo e radiopaco, usado unicamente para estudo do sistema gastrointestinal. Figura 38 – Sulfato de bário Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 461). 57 BIOQUÍMICA Por causa da sua elevada densidade, o sulfato de bário funciona como um marcador tecidual, o que permite checar a integridade da mucosa ao longo de todo o trato gastrointestinal. O sal de bário (BaSO4) em pó deve ser misturado com água anteriormente à ingestão pelo paciente. Eles são insolúveis, ou seja, não se dissociam em água nem em outras soluções aquosas, como os ácidos. Essa propriedade impede que seja absorvido pelos tecidos, transformando-o em um marcador seguro. A mistura de sulfato de bário e água não forma uma solução, mas, sim, uma suspensão coloidal. Para representar uma solução, as moléculas dessa substância, quando adicionadas à água, deveriam se dissolver na água, porém o sulfato de bário não se dissocia em meio aquoso e permanece disperso nesse meio. Isso se deve ao diâmetro dessas partículas, que tende a variar entre 1 e 100 nanômetros (BONTRAGER; LAMPIGNANO, 2010). Nos meios de contraste comercializados por alguns fabricantes, ocorre precipitação das partículas de sulfato de bário quando o sistema está em repouso. Nesses casos, podemos inferir que as partículas que depositaram são maiores do que 100 nanômetros e constituem uma suspensão grosseira com o meio dispersante, que é a água. Existem alguns sais de bário que possuem uma característica tóxica ou venenosa para o corpo humano, porém o sulfato de bário utilizado na radiologia precisa ser quimicamente puro. Por causa da sua insolubilidade, o sulfato de bário não interage de forma química com o corpo humano; devido a isso, a ocorrência de reação alérgica é raridade (ATSDR, 2007). Geralmente, é utilizada a suspensão oral ou retal, as quais precisam ser preparadas um pouco antes da realização do exame. Esse tipo de suspensão não é metabolizado no organismo e pode ser expelido em sua forma intacta por via retal depois do procedimento radiográfico. A figura a seguir exemplifica essa situação ao evidenciar quatro marcas diferentes de bário. Em cada copo foi adicionada uma parte de água para uma parte de bário, ficando em repouso por 24 horas. Observa-se então que alguns copos demostram maior sedimentação que outros; sendo assim, é necessário que ele seja revolvido antes de ser de fato utilizado. Marca A Marca B (menor separação) Marca C Marca D (maior separação) Figura 39 – Copos de bário Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 461). 58 Unidade II Outra aplicação importante da barita é a fabricação de concreto pesado, o qual tem atuação como um escudo contra radiação. Em geral, o sulfato de bário é pré-empacotado – nesse caso, acrescenta-se água –, enquanto outros já vêm na forma líquida, porém devem ser bem misturados antes do uso. Existem várias marcas com diferentes cheiros e sabores com objetivo de minimizar o gosto de giz, como chocolate, chocolate maltado, baunilha, limão, laranja ou morango. A consistência do meio de contraste sulfato de bário varia de acordo com a estrutura a ser estudada. Sendo assim, ele poderá ser preparado ralo ou espesso. O bário ralo contém uma parte de sulfato de bário e uma parte de água, ficando com a consistência de um milk-shake ralo, o qual é usado para o estudo de todo o trato gastrointestinal. A forma de preparação segue a preferência do radiologista e o protocolo da instituição. O tempo de mobilidade do sulfato de bário dentro do trânsito gastrointestinal depende da consistência, da temperatura e também da condição clínica do paciente. Figura 40 – Mistura de sulfato de bário e água Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 461). O bário espesso é preparado com três ou quatro partes de sulfato de bário e uma parte de água; assim, ficará com a consistência de cereal cozido. Com essa consistência, o bário ficará mais difícil de deglutir; entretanto, é adequado para o uso no esôfago, pois desce lentamente, recobrindo o revestimento mucoso. 59 BIOQUÍMICA Figura 41 – Sulfato de bário espesso Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 461). As reações alérgicas ao sulfato de bário são raras, devido a sua insolubilidade. Entretanto, esse medicamento é contraindicado quando houver possibilidade de o sulfato de bário escapar para a cavidade peritoneal ou mediastinal, fato que pode ocasionar infartos intestinais ou peritonite. Esse escape pode ocorrer por meio de uma víscera perfurada ou durante cirurgia seguida de procedimentos radiográficos. Outras contraindicações ocorrem nos casos de pós e pré-operatório do tubo digestivo, quando houver suspeita de perfuração de vísceras. Quando ocorrer alguma dessas contraindicações, é indicada a realização do exame com o uso do meio de contraste iodado hidrossolúvel, o qual poderá ser removido facilmente por aspiração antes ou durante a cirurgia. Se qualquer material hidrossolúvel escapar para a cavidade abdominal, o corpo pode prontamente absorvê-lo; já o sulfato de bário, por outro lado, não é absorvido. O paciente deve ser alertado de que os meios de contraste hidrossolúveis têm como desvantagem o gosto amargo. Por esse motivo, eles algumas vezes são misturados com bebidas que possuam sabores para ocultar o gosto desagradável, mas são frequentemente diluídos em água, pois é dessa forma que chegam nos centros de diagnóstico. Os meios de contraste iodados hidrossolúveis percorrem o trato gastrointestinal muito mais rápido que o sulfato de bário. Eles devem ser guardados na memória, caso imagens tardias do estômago e do duodeno forem solicitadas, e o tecnólogo deve ter conhecimento desse fato. Observação Caso o paciente seja sensível ao iodo ou tenha desidratação severa, não deve ser usado o meio de contrastes iodados, pois os agentes de contraste hidrossolúveis intensificarão ainda mais a desidratação. Deve ser dada também atenção aos sinais de reações alérgicas ao sulfato de bário, que, apesar de serem raras, foram relatadas em um pequeno número de pacientes. 60 Unidade II A suspensão baritada, em contato com as secreções gástricas ou com os colos intestinais, após algum tempo da administração, poderá perder suas características radiológicas (adesão à mucosa)– sendo assim, ficará aglomerada em flocos, impossibilitando a sua adesão à mucosa. Essa aparência recebe o nome de floculação do meio de contraste baritado. Outra situação importante é que o bário tende a tornar as fezes endurecidas, levando a uma difícil evacuação. Para que isso não ocorra, o paciente deve ser orientado posteriormente ao exame a aumentar a ingestão de líquidos e, caso haja necessidade, fazer uso de laxativos (óleo mineral), tendo como critério nos 2 dias consecutivos ao exame uma evacuação por dia. A técnica do duplo contraste foi desenvolvida no Japão, onde existe uma alta incidência de carcinoma de estômago. Essa técnica consiste no emprego tanto do meio de contraste positivo e radiopaco quanto do negativo e radiotransparente, tendo como objetivo reforçar o diagnóstico de doenças gastrointestinais. O meio de contraste radiopaco é o sulfato de bário. Sua alta densidade oferece uma boa cobertura da mucosa do estômago. Já o meio de contraste negativo inclui o ar ambiente, que será introduzido através de pequenos furos no canudinho; assim, quando o paciente aspira o sulfato de bário, ele aspira também o ar ambiente. Dióxido de carbono também é usado como meio de contraste negativo. Nesse caso, ele é produzido com a ingestão de citrato de cálcio e citrato de magnésio, que são cristais produtores de gás dióxido de carbono. Quando os cristais atingem o estômago, eles formam uma bolha de gás; sendo assim, o gás se mistura com o bário, forçando este contra a mucosa do estômago, o que oferece uma melhor cobertura e melhor visibilidade da mucosa, conforme mostrado na figura a seguir. O gás também distende as alças intestinais que estão colabadas, devido ao jejum do paciente, necessário para a realização do exame. Figura 42 – Duplo contraste: estômago cheio de gás e bário Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 462). 61 BIOQUÍMICA Figura 43 – Duplo contraste: estômago cheio de gás e bário (pregas mucosas delineadas pelo bário) Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 462). Nas figuras é demonstrado o trânsito gastrointestinal com duplo contraste. O estômago está cheio de gás e bário, com as pregas mucosas delineadas pelo bário. Na seta são vistas dobras das mucosas longitudinais do estômago. Nessa técnica também são demonstrados pólipos potencias, divertículos e úlceras. 5.2 Gadolínio O gadolínio é um meio de contraste utilizado na ressonância magnética. Ele é considerado paramagnético, pois é constituído de íons metálicos. Observação Possuir propriedades paramagnéticas significa que a substância é atraída do mesmo modo que o ferro, mas de forma muito mais fraca. O exame de ressonância magnética é realizado através do recebimento do sinal dos átomos de hidrogênio do corpo do paciente por uma bobina do equipamento de ressonância magnética. 62 Unidade II Figura 44 – Equipamento de ressonância supercondutor Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 789). O hidrogênio é o átomo mais abundante no corpo humano e possui apenas um próton, o que fornece a ele uma propriedade magnética, ou seja, sobre a ação de um campo magnético ele é atraído. O magneto de cada núcleo de hidrogênio contém um polo norte e um polo sul de força equivalente; sendo assim, ele possui dipolos magnéticos. O momento magnético nuclear age como uma... ... que apresenta Sentido Tamanho Vetor magnéticoBarra de ímã Figura 45 – O momento magnético do núcleo de hidrogênio Fonte: Westbook, Roth e Talbot (2013, p. 5). Trazendo para a ressonância, o conceito de paramagnetismo consiste na tendência que os dipolos magnéticos atômicos (spin dos átomos de hidrogênio) têm de se alinharem paralelamente com um campo magnético externo (campo magnético da ressonância magnética). 63 BIOQUÍMICA Paralelo - baixa energia Antiparalelo - alta energia Mo Bo B)A) Figura 46 – A) spins dos átomos de hidrogênio fora do campo magnético; B) spins do átomo de hidrogênio atraídos pelo campo magnético Fonte: Hage e Iwasaki (2009, p. 1289). O gadolínio é o íon metálico utilizado como meio de contraste paramagnético em ressonância magnética, sendo amplamente usado na prática clínica. No fim da década de 1980, houve sua aprovação regulatória. Supõe-se que mais de 450 milhões de doses de meios de contraste à base de gadolínio foram administradas mundialmente (BALZER, 2017). Hoje em dia temos oito meios de contraste à base de gadolínio disponíveis no mercado. Cada fabricante determina os nomes genéricos/acrômios e os nomes comerciais. Quadro 1 – Meios de contraste à base de gadolínio disponíveis no mercado Nome genérico / Acrônimo Nome comercial (fabricante) Gadopentetato de dimeglumina / Gd-DTPA Magnevistan ® (Bayer) Gadoterato de muglumina / Gd-DOTA Dotarem ® (Guerbet) Gadoteridol / Gd-HP-DO3A ProHance ® (Bracco) Gadodiamida / Gd-DTPA-BMA Omniscan ® (GE Healthcare) Gadoversetamida / Gd-DTPA-BMEA Optimark ® (Guerbet) Gadobutrol / Gd-BT-DO3A Gadovist ® (Bayer) Gadoxetato dissódico / Gd-EOB-DTPA Primovist ® (Bayer) Gadobenato de dimeglumina / Gd-BOPTA MultiHance ® (Bracco) Adaptado de: Dutra (2020). Na tabela periódica, é possível observar que o íon gadolínio é um metal pertencente à família dos lantanídeos e do grupo terras raras, com número atômico 64 e massa 157. 64 Unidade II Fi gu ra 4 7 – Ta be la p er ió di ca Fo nt e: L im a, B ar bo sa e F ilg ue ira s ( 20 19 , p . 1 14 3) . 65 BIOQUÍMICA Embora sejam abundantes, as terras raras, ou metais de terras raras, recebem esse nome por serem de difícil extração. A maioria das terras raras é extraída pela China, maior exportadora do mundo desses elementos. Mas devido à diminuição da quantidade da exportação das terras raras pelo país asiático, outros países, como Brasil e Alemanha, passaram a se dedicar à sua mineração. O problema é que o processo de reciclagem de terras raras é complicado, pois, após recolher o material, ele deve passar por um processo químico de separação. Em seguida, os elementos químicos devem ser purificados e, no caso de óxidos, devem ser combinados com outros produtos para serem reutilizados. Saiba mais Para conhecer mais sobre o estudo da separação do gadolínio, leia o artigo: COSTA, A. F. Estudo da separação de gadolínio a partir da extração líquido-líquido em regime contínuo. XXVI JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E II JORNADA DE INICIAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO E INOVAÇÃO. Anais... 2018. Disponível em: https://cutt.ly/QQozfpA. Acesso em: 15 jul. 2021. O gadolínio é um elemento altamente tóxico em sua forma livre, podendo levar à degeneração esplênica (baço), à necrose hepática (fígado), ao bloqueio na produção de enzimas, à inibição dos canais de cálcio (o bloqueio dos canais de cálcio causa a redução da pressão arterial) e a uma série de desequilíbrios no sangue. O uso clínico do íon de gadolínio só é possível porque ele é fortemente ligado a um quelante, evitando os efeitos tóxicos relacionados a sua forma livre. Os agentes quelantes têm como finalidade capturar, transportar e/ou eliminar substâncias (metais) do organismo onde o íon metálico (íon gadolínio) é envolvido por ligações covalentes do agente quelante. O íon gadolínio apresenta nove pontos de ligação; os ligantes (moléculas ou átomos) se ligam diretamente a esses pontos através de ligações covalentes, onde pares de elétrons são compartilhados e cedidos ao íon metálico pelo ligante. Portanto, o quelante usado para o meio de contraste gadolínio apresenta oito átomos doadores. Dos nove pontos ligantes do íon gadolínio, oito são ocupados pelo quelante e um é ligado a uma molécula de água. Vale ressaltar que, ao término do exame, o quelante vai transportar o íon gadolínio para fora do corpo humano (MORCOS, 2014). A interação do gadolínio com um grande número de moléculas de água aumenta o sinal da ressonância na sequência ponderada em T1. Isso só é possível por causa da ligação do único ponto ligante do íon gadolínio com a molécula de água que acabamos decitar. 66 Unidade II Observação Ponderação T1 é o tempo necessário para a recuperação de aproximadamente 63% da magnetização longitudinal dos prótons. Numa imagem com contraste em T1 aparecem em branco a gordura, os fluidos com proteínas, as moléculas com lipídeos, as hemorragias subagudas, a melanina e o gadolínio; já em escuro aparecem as neoplasmas, os edemas, as inflamações, os fluidos puros e o líquido cefalorraquidiano. 5.2.1 Característica paramagnética A ponderação T1 (tempo de relaxamento) tem alta sensibilidade para o gadolínio; então, após a administração do meio de contraste gadolínio se realiza a ponderação T1. Isso ocorre porque o gadolínio possui sete elétrons não pareados, o que produz o efeito paramagnético. Essa condição (efeito paramagnético) leva ao encurtamento dos tempos de relaxamento T1 e T2 (tempo de relaxamento 2) e, consequentemente, ao aumento significativo do sinal de ressonância na sequência T1 – portanto, intensifica a diferença de contraste entre as estruturas avaliadas. Isso significa que o efeito paramagnético altera o relaxamento das moléculas de água contidas nos tecidos adjacentes. É importante destacar que o encurtamento T2 geralmente ocorre quando são utilizadas altas concentrações de gadolínio. Para uso clínico são utilizadas baixas concentrações de doses; isto posto, dificilmente será detectado o encurtamento T2 após administração do gadolínio (MORCOS, 2014). Observação A Lei da Indução Eletromagnética, elaborada por Michael Faraday em 1833, faz referência a três forças individuais: movimento, magnetismo e carga elétrica. Se existirem duas delas, a terceira é automaticamente induzida. Núcleos ativos em ressonância magnética que têm carga efetiva e estão em rotação (spin) adquirem automaticamente um momento magnético e se alinham a um campo magnético externo. Os meios de contraste à base de gadolínio podem variar quanto as suas propriedades químicas, como a estrutura molecular, que pode ser macrocíclica ou linear, e também na sua ionicidade, que pode ser iônica e não iônica. 180º C Figura 48 – Estrutura molecular linear 67 BIOQUÍMICA H H H HH H H HH H H H C C C CC C C CC C C C Figura 49 – Estrutura molecular macrocíclica Essas variações na estrutura molecular e na ionicidade estão relacionadas à estabilidade da ligação do íon gadolínio ao quelato. Chama-se estrutura macrocíclica um composto orgânico cuja cadeia possui uma sequência de átomos de carbono ligados, ou seja, uma cadeia fechada. Sendo assim, os meios de contraste macrocíclicos possuem uma formação anelar rígida (cadeia fechada) em sua estrutura, na qual o íon de gadolínio é aprisionado no centro. Isso estabelece maior proteção do íon gadolínio dentro da molécula, pois, como abordado anteriormente, o gadolínio em sua forma livre (fora do quelato) é extremamente tóxico ao corpo humano. Por outro lado, temos os meios de contraste com estrutura molecular linear, ou seja, aberta, que proporciona menor proteção, já que o íon de gadolínio fica mais exposto. A ionicidade é outra característica que influencia a ligação do íon de gadolínio no interior da molécula do quelato. A ionicidade é estabelecida conforme seus ligantes (átomos ou moléculas). Os meios de contraste iônicos (íon gadolínio) possuem oito ligantes, dos quais cinco são ácidos carboxílicos (COOH) e três são átomos aminonitrogênios (amina carbono ligado a nitrogênio). A característica dissociativa de sais e meglumina ou sódio no composto contribui para a propriedade iônica da molécula. Gadopentetato de dimeglumina Magnevistan® Gadobenato de dimeglumina MultiHance® LinearesMacrocíclicos Iô ni co s Gadoxetato dissódico Primovist® Gadoterato de meglumina Dotarem® O O O O O O N N N N N N N N N N N N N Gd3+ Gd3+ Gd3+ Gd3+ O O O O O O O O O O O O O O O CH3 O- -O -O O- O- O- O- O- O- O- O- O- O- O- O- O- O- -O -O Figura 50 – Meios de contraste iônicos: estrutura molecular macrocíclica Fonte: Dutra (2020, p. 38). 68 Unidade II Nos contrastes não iônicos, os ácidos carboxílicos são reduzidos de cinco para três, os quais neutralizam as três cargas positivas do íon gadolínio (Gd3+), tornando o meio de contraste um estado neutro. Sendo assim, os dois ácidos carboxílicos reduzidos são substituídos por duas metilamidas não iônicas, as quais apresentam ligações mais fracas ao gadolínio quando comparadas aos ácidos carboxílicos. Gadoteridol ProHance® Gadodiamida Omniscan® Gadobutrol Gadovist® Gadoversetamida Optimark® N ão iô ni co s HN NH CH3 CH3 O N N N Gd3+ O O -O O O O- -O N N N N Gd3+ O O O O O- O- O- O- N N N N HO OH Gd3+ O O O O- O- O O- HN NH CH3 H3C O N N N Gd3+ O O -O O O O O O- -O Figura 51 – Meios de contraste não iônicos: estrutura molecular macrocíclica Fonte: Dutra (2020, p. 38). Via de regra, os meios de contraste macrocíclicos (cadeia fechada) e iônicos possuem maior estabilidade, enquanto os meios de contraste lineares e não iônicos possuem menor estabilidade. A estabilidade do meio de contraste é um fator importante, uma vez que a alta instabilidade dos meios de contraste está relacionada com as taxas de dissociação do gadolínio da molécula de contraste, ou seja, os meios de contraste macrocíclicos e iônicos apresentam uma maior estabilidade em solução pelo fato de a cadeia ser fechada, fazendo com que o íon de gadolínio fique aprisionado no interior da molécula e impedindo a dissociação ou separação do íon de gadolínio com a molécula de quelato. Além do mais, a dissociação do gadolínio está relacionada com o aparecimento de depósito do meio de contraste nos tecidos, podendo levar à fibrose sistêmica nefrogênica (FSN). Lembrete A fibrose sistêmica nefrogênica é uma complicação grave do uso do gadolínio em pacientes com insuficiência renal. A osmolaridade dos meios de contraste é um fator determinante na ocorrência de reações adversas, e isso ocorre porque ela está relacionada com o número de partículas osmoticamente ativas na solução, tornando-se relacionada a sua ionicidade. 69 BIOQUÍMICA Os meios de contraste iônicos apresentam maior osmolaridade, o que justifica a sua maior taxa de reações adversas e também maior toxidade nos tecidos locais quando ocorre extravasamento. Essas combinações são muito comuns quando são usados os meios de contraste iodados, porém, mediante o uso do meio de contraste à base de gadolínio, se tornam menos importantes em razão da baixa osmolaridade do meio de contraste à base de gadolínio, se comparado com os meios de contraste iodados. Exemplificando, uma dose frequente de um determinado meio de contraste à base de gadolínio (Magnevistan) contém uma osmolaridade de 27 mOsm, considerando um paciente com 70 kg, o que estabelece perturbação de 3% na osmolaridade plasmática. Entretanto, com o meio de contraste iodado ocorre o contrário: mesmo sendo de baixa osmolaridade, quando administrada uma injeção de 150 ml, compreende cerca de 100 mOsm de carga osmótica, o que aumentará significativamente a osmolaridade plasmática e proporcionará maior probabilidade de reação alérgica. Ademais, quando se utilizam quantidades menores de volume do meio de contraste à base de gadolínio, ocorre menor impacto hemodinâmico associado. Outra propriedade importante dos meios de contraste é a viscosidade, que é a resistência de um fluido ao escoamento. Quanto menor a viscosidade, mais fácil será a sua administração. No entanto, essa propriedade é menos significativa para o meio de contraste à base de gadolínio quando comparado aos meios de contraste iodados, isso porque o volume injetado do gadolínio é mais baixo, resultando pouquíssimo na alteração da viscosidade plasmática. O gadolínio Gd+3 é um íon metálico paramagnético que diminui o tempo de relaxamento T1 e T2. Ele é utilizado como quelato, e isso significa moléculas orgânicas grandes (complexo ligante) que formam um complexo estável ao seu entorno,o que ocorre devido à toxidade de sua forma iônica. O quelato diminui a chance de toxidade, e a frequência de reações adversas é baixa. A segurança do meio de contraste à base de gadolínio sempre foi considerada como tendo um perfil altamente favorável. Os efeitos colaterais ou reações alérgicas são raros. No entanto, nas últimas décadas, se iniciou uma grande preocupação quanto ao uso do gadolínio. Em pacientes com função renal normal, esses meios de contraste são facilmente excretados pelo organismo, porém, em pacientes com insuficiência renal, o meio de contraste tende a ter uma excreção lenta, possibilitando que o íon de gadolínio (Gd+3) na sua forma iônica se dissocie do quelato, podendo levar a possíveis efeitos colaterais. A fibrose nefrogênica sistêmica (FNS) é uma condição que ocorre apenas em pacientes em disfunção renal. Inicia-se com uma lesão cutânea, podendo evoluir para outros órgãos, incluindo fibrose de músculo esquelético, articulações, fígado, pulmão e coração, e pode ser fatal (SILVEIRA, 2011). A literatura relata que o uso do quelato de gadolínio leva ao desencadeamento de fibrose nefrogênica sistêmica. Ademais, foi detectada a sua presença na pele e nos tecidos moles de pacientes com a doença. A mais recente preocupação surgiu com a descoberta da presença do gadolínio nos tecidos encefálicos de pacientes com função renal normal. Através de estudos, foi identificado que essa condição está 70 Unidade II mais associada ao uso de meios de contraste mais instáveis, ou seja, com estruturas lineares (abertas). Sendo assim, as agências reguladoras, mediante preocupação com esses meios de contraste de baixa estabilidade (lineares), tomaram providências, estabelecendo alerta ou até interdição da venda de alguns meios de contraste (mercado europeu). Em seguida foi elaborada, com base nas diretrizes europeias e americanas, a categorização dos meios de contraste de acordo com seu risco de FSN (veja o quadro a seguir), levando à suspensão dos meios de contraste de alto risco para o mercado europeu. Quadro 2 – Classificação de risco dos meios de contraste à base de gadolínio para fibrose sistêmica nefrogênica, de acordo com as diretrizes do comitê de meio de contraste da European Society of Urogenital Radiology (ESUR, versão 10.0, 2018) e do American College of Radiology (ACR, versão 2020) Nome comercial Classificação ESUR Classificação ACR Omniscan ® Risco alto Grupo I Magnevistan ® Risco alto Grupo I Optimark ® Risco alto Grupo I MultiHance ® Risco intermediário Grupo II ProHance ® Risco baixo Grupo II Gadovist ® Risco baixo Grupo II Dotarem ® Risco baixo Grupo II Primovist ® / Eovist Risco intermediário Grupo III Fonte: Dutra (2020, p. 47). No quadro é demonstrada a classificação de risco dos meios de contraste à base de gadolínio para fibrose sistêmica nefrogênica. O grupo I é o que apresenta mais casos de FSN, o grupo II é associado a poucos ou nenhum caso de FSN e o grupo III é o dos meios de contraste recentes no mercado, ou seja, com dados ainda limitados. 5.3 Reações adversas O conhecimento das possíveis reações adversas aos meios de contraste é essencial por parte da equipe, já que no cotidiano de trabalho nas unidades de imagenologia as reações adversas são eventos que apresentam desde formas leves até quadros ameaçadores à vida do paciente. Toda instituição deve desenvolver um planejamento, medidas de profilaxia e um atendimento adequado de forma individual para cada paciente. Após a injeção dos meios de contraste iodados, dois efeitos colaterais são considerados comuns – ou seja, são esperados –, como onda de calor (fogacho) e gosto metálico na boca, os quais passam de forma rápida. 71 BIOQUÍMICA Foi constatado que muitos pacientes desenvolvem reações adversas por ansiedade ou receio de receber o meio de contraste e da realização do exame. Uma forma de evitar esse quadro é o tecnólogo fornecer ao paciente uma cuidadosa explicação a respeito do exame e dos efeitos colaterais comuns. Uma maneira de averiguar a intolerância e a hipersensibilidade do paciente ao meio de contraste é através da obtenção da história clínica. Portanto, é realizada uma anamnese (questionário) antes da administração do meio de contraste, na qual será questionado se o paciente possui história de alergia, se faz uso de medicamento (e de qual tipo), se é alérgico a iodo ou a medicamentos, se já tomou o meio de contraste antes, se possui doenças como insuficiência renal ou pulmonar ou autoimune etc. Uma resposta positiva a quaisquer dessas questões alerta a equipe para a probabilidade de uma maior reação, e, dependendo da conduta médica, pode ser recomendada a administração de uma pré-medicação como corticoides ou anti-histamínico para reduzir a gravidade das reações do meio de contraste. Pacientes que têm asma ou alergia a medicamentos podem ser candidatos a esse procedimento. Ressaltamos que todo paciente é considerado de risco, independentemente de ter ou não uma história de alergia. 5.3.1 Classificação das reações e tratamento As reações adversas podem ser categorizadas de acordo com sua temporalidade e severidade. A identificação dessas categorias irá direcionar a conduta oferecida ao paciente. 5.3.1.1 Temporalidade A temporalidade pode ser aguda, tardia ou muito tardia. Nas reações agudas, a ocorrência se dá após 1 hora da administração do meio de contraste; nas reações tardias, a ocorrência se dá entre 1 hora e 7 dias da administração do meio de contraste, sendo que a maioria é observada dentro de 3 horas a 2 dias; já nas reações muito tardias, a ocorrência se dá após uma semana da administração do meio de contraste (DUTRA, 2020). 5.3.1.2 Severidade e tratamento A severidade é classificada de acordo com o grau de sintomas associados à reação, podendo ser dividida em quatro categorias: leve, moderada, grave ou específica de um órgão. A reação leve é considerada uma reação não alérgica. Ela não requer tratamento medicamentoso e nem assistência médica e pode ocorrer por ansiedade ou medo. Mesmo não sendo uma situação letal, o tecnólogo deve estar atento a qualquer necessidade do paciente. Os sintomas são ansiedade, tontura, náuseas, vômitos, eritema leve, coceira e urticária leve e espalhada, e incluem também os efeitos colaterais comuns, como gosto metálico e sensação de calor durante a administração do meio de contraste (fogacho). Nesse caso, o tratamento consiste em fazer o paciente respirar lentamente, fornecendo a ele uma toalha molhada fria. Deve-se sempre tranquilizar e observar o paciente. 72 Unidade II A reação moderada é uma verdadeira reação alérgica (reação anafilática). Ela inclui os sintomas urticária (moderada e severa), edema de laringe, broncospasmo, angioedema, hipotensão, taquicardia (> 100 batimentos por minuto) ou braquicardia (< 60 batimentos por minuto). Essa reação pode evoluir para uma condição letal, por isso a assistência médica deve ser fornecida imediatamente. O tratamento envolve intervenção farmacológica. A reação grave é conhecida como reação vasovagal, e o nervo vago é o principal nervo do sistema nervoso parassimpático; portanto, a reação vasovagal nada mais é do que um aumento do tônus parassimpático. O nervo vago percorre do cérebro até o abdômen e possui funções sensitivas e motoras, sendo importante para a manutenção de funções vitais, como a regulação da frequência cardíaca e arterial. A reação vasovagal compromete o nervo vago, portanto, é uma condição que causa desmaios e fraqueza muscular. Quanto ao tratamento, uma emergência médica deve ser declarada. O uso do carrinho, de drogas de emergência, de oxigênio e do equipamento de sucção é imprescindível, e a hospitalização é iminente (BONTRAGER; LAMPIGNANO, 2010). Na reação específica de um órgão, ocorrem diversos sintomas: no sistema cardíaco, atividade elétrica sem pulso; no sistema respiratório, edema pulmonar; no sistema vascular, trombose venosa; no sistema nervoso, indução de convulsões;no sistema renal, insuficiência temporária ou paralisação completa e extravasamento do meio de contraste fora do vaso para dentro dos tecidos moles. O início da reação segue a injeção do meio de contraste e pode não ser identificado por até 48 horas após a finalização do exame. O tratamento inclui monitoramento, hidratação, administração de diurético, medicamento para intervenção cardíaca, anticonvulsivantes e diálise geral. Caso o paciente tenha dificuldade para produzir urina ou outros sintomas incomuns, deve ser orientado a procurar o médico. 5.3.2 Fatores de riscos As reações adversas de hipersensibilidade agudas ao meio de contraste ocorrem de forma inesperada, sem previsão, porém alguns pacientes manifestam maior risco para esse evento. Vale destacar os pacientes que já receberam o meio de contraste e tiveram reações adversas, sendo esse o fator de risco mais importante, pois abre possibilidades para futuras reações adversas, isso considerando que foi administrado novamente o mesmo meio de contraste que o anterior e se a reação ocorrida foi moderada ou grave. Ademais, pacientes que tiveram reação adversa ao meio de contraste iodado também apresentam o risco ao meio de contraste à base de gadolínio (DUTRA, 2020). Portanto, se houver indicação da administração do meio de contraste em pacientes que já tiveram reação devido ao uso do meio de contraste, é necessário escolher um diferente do anterior. Outro fator de risco é a asma, que, por definição, é um estreitamento dos brônquios (canais que levam ar aos pulmões), o que dificulta a passagem de ar, levando a crises que tornam a respiração difícil. Apesar de ser um fator de risco, considera-se mais importante o controle dos sintomas da asma antes do exame do que o paciente ser acometido da doença. Desse modo, a estabilização do quadro asmático 73 BIOQUÍMICA é fundamental para a realização do exame contrastado. É importante destacar que pacientes asmáticos não têm indicação para pré-medicação. Alergias causadas por alimentação ou por quaisquer outras substâncias e pacientes portadores de eczema (afecção alérgica da pele) também são fatores de risco, porém, são considerados baixos. Esses pacientes têm maior probabilidade de desenvolver reação adversas após a administração do meio de contraste. Provavelmente esse fator está associado à reação hipersensibilidade e não alérgica, por isso não há contraindicação do uso do meio de contraste e também não é recomendada a pré-medicação para esses pacientes. No caso de pacientes com alergia a frutos do mar, apesar de ser um fator risco desenvolver uma reação adversa aos meios de contraste, esse risco não é aumentado se comparado a pacientes com outros tipos de alergia (BROWN et al., 2008). Ao contrário do conceito que é amplamente difundido de que os frutos do mar, que contêm iodo, têm uma reação cruzada com o meio de contraste iodado, não há uma associação comprovada até o momento. Na verdade, o principal alérgeno dos frutos do mar são as proteínas contidas na carne do peixe (parvalbumina) ou do camarão (tropomiosina), e não o iodo. É importante ressaltar que a ansiedade contribui para uma possível reação aos meios de contraste. Por isso, um bom diálogo com o paciente é fundamental para esclarecer todas as dúvidas antes do exame, com o objetivo de reduzir a probabilidade de reações ao meio de contraste. A idade e o gênero do paciente também são fatores de risco, pois existem relatos que crianças, idosos e pessoas do sexo masculino têm menor possibilidade de manifestar uma reação adversa. O próximo fator de risco são os medicamentos denominados betabloqueadores. Eles são responsáveis por bloquear os receptores adrenérgicos do tipo beta, que respondem à ligação da norepinefrina (noradrenalina) e da epinefrina (adrenalina), as quais são as catecolaminas liberadas pelo sistema nervoso simpático. Por esse motivo, os betabloqueadores inibem as respostas mediadas pela adrenalina quando esta é administrada para se reverter um quadro alérgico. Estudos relatam que o uso de betabloqueadores pode estimular o risco de uma reação adversa e também inibir a resposta ao tratamento com adrenalina, aumentando, assim, a severidade da anafilaxia, que nada mais é do que uma reação alérgica grave e de rápida progressão que pode provocar a morte. Porém, como esses estudos são heterogêneos, com resultados inconsistentes, não é recomendando suspender os betabloqueadores ou usar pré-medicação previamente à administração do meio de contraste (TEJEDOR-ALONSO et al., 2019). A cardiomiopatia pode levar a uma inflamação do músculo cardíaco que provoca sua ampliação e enfraquecimento. Dessa maneira, a cardiomiopatia severa pode aumentar o risco de reações cardíacas fisiológicas, mediante a ocorrência da reação adversa ao meio de contraste. No entanto, como o risco é baixo, não é contraindicado o uso do meio de contraste ou da pré-medicação (BUSH; SWANSON, 1991). 74 Unidade II 5.3.3 Marcadores da função renal Para avaliar a função renal, devem ser realizados exames laboratoriais de ureia e creatinina antes do exame de imagem. O tecnólogo deve examinar o prontuário do paciente para verificar os níveis dessas substâncias. O objetivo do exame laboratorial da ureia é avaliar a quantidade de ureia no sangue, e através dele é possível saber se os rins e o fígado estão funcionando corretamente. O fígado metaboliza as proteínas provenientes da alimentação; como resultado desse metabolismo é produzida a ureia, a qual é direcionada para o sangue, que será filtrado pelos rins, e eliminada na urina. Porém, caso ocorra algum problema no fígado ou nos rins, mesmo em casos em que o paciente tem uma dieta rica em proteínas, a quantidade de ureia circulante no sangue aumenta, caracterizando a uremia, que é tóxica para o organismo. As doenças que comprometem a função dos rins geralmente levam ao aumento dos níveis sanguíneos de ureia. A creatina é produzida pelo próprio organismo, ou seja, no fígado, rins e pâncreas, mas pode também ser obtida por meio dos alimentos ricos em proteína, como carnes e peixes. Em seguida, é transportada para os músculos e o cérebro, onde é transformada em creatina fosfato (processo de fosforilação), também conhecida como fosfocreatina. A creatina fosfato possui uma elevada reserva energética, sendo essencial no processo de contração muscular. Para os músculos realizarem suas atividades, eles consomem creatina fosfato. A quebra da creatina fosfato é uma condição essencial para a contração dos músculos, o que dá origem à creatinina. Em níveis elevados, a creatinina pode indicar condições como insuficiência renal, infecção nos rins, desidratação e problemas durante a gravidez. A creatinina é filtrada nos rins e excretada na urina. Quando os rins não estão funcionando adequadamente, a filtração da creatinina é comprometida. Isso significa que boa parte da creatinina produzida não será excretada na urina, elevando sua concentração no sangue. Pacientes com níveis sanguíneos elevados apresentam maior chance de experimentar uma reação adversa aos meios de contraste. Níveis normais de creatinina adulto são de 0,6 a 1,5 mg/dl, e de ureia são de 8 a 25 mg/100 ml. 5.3.4 Medidas de prevenção, tipos de exames e meios de contraste Antes da administração do meio de contraste, é fundamental a análise de algumas questões. A primeira é se existe uma indicação e uma justificativa válida para a administração do meio de contraste; a segunda, se o benefício da administração do meio de contraste é maior que o risco; e a terceira, se existe outro método de imagem que não necessite do meio de contraste e forneça a mesma informação diagnóstica. Baseada nessa análise, a decisão do uso ou não do meio de contraste depende do contexto clínico, levando em consideração todos os riscos, benefícios e alternativas de métodos de diagnósticos (ENG et al., 2016). É fato que os meios de contraste de alta osmolaridade (hiperosmolares) causam maior nefrotoxidadedo que os meios de contraste de baixa osmolaridade (hipo ou iso-osmolares). Comparando os meios 75 BIOQUÍMICA de contraste de baixo risco – os hipo-osmolares e os iso-osmolares –, o perfil de nefrotoxidade é semelhante; portanto, é indicado o uso da menor dose de meio contraste capaz de fornecer a informação diagnóstica. Lembrete A nefrotoxicidade se refere aos efeitos deletérios (nocivos) causados aos rins por uma determinada substância, nesse caso, os meios de contraste. A função renal basal é o fator mais importante para o desenvolvimento do IRA-PC quando comparado com o volume de contraste injetado, assim como a presença de diabetes ou a idade do paciente. Observação A insuficiência renal aguda pós-contraste (IRA-PC), mais conhecida como insuficiência renal aguda (IRA), é uma síndrome caracterizada por perda abrupta da função renal. A função basal se refere ao nível de atividade de um órgão em repouso ou em jejum. A presença de nefropatia crônica grave é o fator de risco mais alto para IRA-PC. O risco de IRA-PC é bem maior se a injeção do meio de contraste for por via intra-arterial do que por via intravenosa. Nesses grupos, o uso do meio de contraste intravascular só pode haver se o benefício for maior que o risco potencial. Para esses grupos, a ação preventiva é a hidratação profilática intravascular, que deve ser monitorada e individualizada a fim de deter sobrecarga de volume. Os meios de contraste de alta osmolalidade são os mais ligados ao acontecimento de IRA-PC. Devido a isso, deve-se preferir o uso de meios de contraste de baixa osmolalidade e na menor dose possível para a aquisição da informação diagnóstica, evitando múltiplas injeções de meio de contraste em pequenos intervalos de tempo. É indicado suspender medicamentos nefrotóxicos para os pacientes de risco, como medida de prevenção (MÜLLER et al., 2002). Observação A diabetes se caracteriza por uma elevação dos níveis de glicose no sangue, causada pela falta de produção do hormônio insulina no pâncreas ou pela perda da eficiência da ação de insulina em pessoas com excesso de gordura no corpo. A insulina transporta a glicose para dentro das células e permite a sua transformação em energia para o funcionamento equilibrado do organismo. Quando não controlado, o aumento de glicose no sangue pode levar a danos nos vasos sanguíneos e nervos, acarretando em complicações – por exemplo, disfunção e falência de órgãos como rins, olhos e coração. 76 Unidade II 5.3.5 Preparo do paciente ou prevenção Antes do início do exame, no momento da abordagem do paciente, algumas diretrizes devem ser seguidas: a conferência de dados do paciente, como idade, nome e gênero, assim como da avaliação do estado mental e emocional, para saber se ele tem condições de realizar o exame. Além disso, são coletadas informações relevantes através da anamnese, e, na sequência, o paciente deve assinar o termo de consentimento esclarecido e informado. Uma explicação detalhada sobre o procedimento deve ser dada ao paciente com o objetivo de tranquilizá-lo. Após deitar, é necessário avaliar se o paciente está confortável, principalmente se houver preocupação com a ocorrência de uma síncope (perda de consciência temporária). Caso o paciente seja criança, o tecnólogo deve avaliar se ela será colaborativa ou não; se considerar que a criança pode ser tornar arredia ou se mexer abruptamente durante a inserção da agulha, deve solicitar ao responsável ou a outra pessoa que possa ajudar a imobilizar o membro e manter a criança calma. No entanto, o método de preferência para obter a colaboração da criança é sempre a comunicação terapêutica, ou seja, conversar com ela, com o objetivo de passar confiança, e jamais enganá-la a respeito dos desconfortos do procedimento. Toda atenção deve ser dada à criança e é necessário ser receptível a suas queixas e valorizar suas preocupações. 5.4 Condições especiais 5.4.1 Gestação Os efeitos dos meios de contraste em fetos e embriões humanos não são totalmente conhecidos, pois os estudos em gestantes são muito limitados. Entretanto, existem estudos demonstrando meios de contraste iodado e à base de gadolínio no feto após administração materna. Após chegar na circulação fetal, os meios de contraste são excretados através dos rins do feto, se misturando com o líquido amniótico, e, em seguida, são engolidos pelo feto; com isso, irão atingir o seu trato gastrointestinal. Sabe-se que o meio de contraste iodado no feto não gera mutação. O principal efeito deletério é o seu potencial impacto sobre a glândula tireoide durante o período fetal e neonatal, condição que pode levar à inibição de hormônios tireoidianos. Estudos relatam que a exposição do gadolínio em gestantes, em qualquer fase da gestação, não tem associação com maior risco de anomalias congênitas, porém, foi observado maior risco de desenvolver anormalidades reumatológicas e inflamatórias, como também risco de aborto ou morte (RAY et al., 2016). Baseado nesses estudos, é recomendado avaliar qual método apresenta menor potencial de risco e maior informação diagnóstica, tanto materno quanto fetal. Caso seja realmente necessário o uso do meio de contraste iodado, deve-se monitorar a função tireoidiana do feto durante a primeira semana após o parto. Em se tratando do meio de contraste à base de gadolínio que seja utilizado somente quando o benefício justificar o risco para o feto, deve ser utilizada a menor dose necessária para obter uma imagem de qualidade e ser administrado o meio de contraste com menor risco (TREMBLAY et al., 2012). 77 BIOQUÍMICA 5.4.2 Lactação O meio de contraste iodado, como já foi visto, quando administrado por via intravenosa, possui meia-vida de aproximadamente 2 horas em paciente com função renal normal, sendo 100% eliminado em 24 horas. Na criança, a dose administrada na mãe e estimada através do leite materno é menor que 0,01%, sendo muito menor que a dose permitida administrada na criança durante o exame contrastado (1,5 a 2 ml/kg). Pode haver sabor no leite materno por um período curto. Assim, as orientações indicam que não há necessidade de suspensão da amamentação após a administração do meio de contraste na lactante, a não ser quando a mãe julgar necessário. São estabelecidas diretrizes no caso do meio de contraste à base de gadolínio com alto risco de fibrose sistêmica nefrogênica, que determina suspensão da amamentação por 24 horas após o uso do meio de contraste. 5.4.3 Disfunção tireoidiana Devido ao fato de possuir iodo, o meio de contraste iodado pode afetar o funcionamento da glândula tireoide, visto que ela utiliza o iodo para a produção dos hormônios tireoidianos (T4 e T3). Qualquer alteração na concentração do iodo sérico afetará a produção de hormônio e pode levar a hipertireoidismo ou hipotireoidismo. Essa ocorrência é rara e pode ocorrer meses após a administração do meio de contraste iodado. Em indivíduos com função tireoidiana normal, dificilmente ocorrerá alteração. No hipertireoidismo, a glândula tireoide fica exageradamente ativa e sintetiza uma grande quantidade de hormônio. Essa condição contraindica o uso de meios de contraste iodados (DUTRA, 2020). Observação O hipertireoidismo é definido pelo aumento excessivo da atividade da glândula tireoide. Essa condição leva ao aumento da concentração dos hormônios e, consequentemente, ao aumento da velocidade do metabolismo orgânico. Já o hipotireoidismo é definido como a redução da atividade da glândula tireoide. Sendo assim, a produção hormonal será insuficiente, reduzindo a velocidade do metabolismo. 78 Unidade II Cartilagem tireoide Glândula tireoide Glândulas paratireoides Região do timoTraqueia Laringe Nível de C6 Nível de T4 ou T5 EsquerdoDireito Figura 52 – Traqueia e glândula tireoide Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 73). As causas do hipotireoidismo são diversas. O motivo mais frequente é a variação autoimune, que ocorre quando o próprio corpocomeça a atacar a tireoide. Esse hipotireoidismo é denominado tireoidite de Hashimoto, doença que corresponde a 95% dos casos de hipotireoidismo. No caso do hipertireoidismo, o sexo feminino é o mais propenso. A causa mais comum ocorre quando a glândula da tireoide se encontra ativa de forma exagerada, o que produz uma grande quantidade de hormônios. Essa condição é conhecida como bócio difuso tóxico ou doença de Graves, a qual também é autoimune. Nesse caso, os anticorpos se ligam nos receptores de TSH presentes na tireoide e os ativa; como resultado, ocorre aumento da atividade da tireoide. 5.4.4 Anemia falciforme A anemia falciforme é uma doença hereditária na qual os glóbulos vermelhos sofrem alterações e ficam com aspecto de foice. A membrana celular acaba sofrendo alterações a ponto de se romper, ocasionando anemia. Na literatura, encontramos relatos sobre, após administração intravenosa do meio de contraste iodado de alta osmolalidade, ocorrer a falcização de hemácias, que é a mudança da forma normal da hemácia para a forma de foice. No entanto, quando administrados meios de contraste iso-osmolares ou de baixa osmolalidade, não ocorre aumento expressivo de eventos adversos em pacientes acometidos com anemia falciforme (CAMPBELL et al., 2012). 79 BIOQUÍMICA A ocorrência da falcização é baixa ou inexistente após o uso dos meios de contraste tanto iodado quanto à base de gadolínio. Sendo assim, pacientes com anemia falciforme não têm contraindicação para o uso de meio de contraste iodado e à base de gadolínio, sendo apenas recomendada a hidratação antes do meio de contraste iodado. Hemácia normal Hemácia falciforme Figura 53 – Glóbulos vermelhos, hemoglobina normal e anormal Anemia de longa data e crises periódicas de vaso-oclusão são duas das maiores características de anemia falciforme. A anemia é causada pelo aumento de deformações dos glóbulos vermelhos. Nos casos ocorridos em crianças, elas podem apresentar um aspecto pálido e olhos amarelados. As crises vaso-oclusivas, que são obstruções dos vasos sanguíneos em qualquer lugar do organismo, são oriundas da deformação dos glóbulos vermelhos, o que acarreta falta de oxigênio na área afetada do organismo. Os sintomas podem depender dos locais onde esses vasos sanguíneos estão bloqueados, embora os que mais aparecem sejam dores nos ossos. Vaso-oclusão de células falciformes Circulação sanguínea normal Glóbulos vermelhos saudáveis Glóbulos vermelhos falciformes a bloquearem a circulação sanguínea Figura 54 – Circulação sanguínea normal e com oclusão no vaso de células falciformes 5.4.5 Feocromocitoma e paraganglioma Nas glândulas adrenais são encontradas as células cromafins, nas quais os tumores feocromocitoma se originam. Esses tumores provocam uma quantidade excessiva de hormônios denominados catecolaminas (epinefrina e norepinefrina). O feocromocitoma causa efeitos relacionados ao aumento do tônus simpático. 80 Unidade II O excesso de produção desse hormônio pode desencadear frequência cardíaca elevada com forte pulsação, sudorese exagerada, vertigem ao se levantar, respiração ofegante e fortes dores de cabeça, sendo a hipertensão arterial o sintoma mais importante. A concentração de catecolaminas no sangue é medida, e, através dos exames de imagem, o tumor é diagnosticado. Geralmente, o tratamento para feocromocitoma é feito com cirurgia para tentar remover o máximo de tumor da glândula adrenal afetada, já que a maioria do crescimento ocorre dentro do córtex das glândulas adrenais, sendo que menos de 10% são cancerosos e 10% se desenvolvem fora das glândulas adrenais de forma específica nas células cromafins. Esse tumor pode ocorrer em homens ou mulheres, independentemente da idade, mas apresenta maior prevalência em indivíduos entre 20 e 40 anos. Vale ressaltar que a maioria das pessoas que são acometidas pelos feocromocitomas têm neoplasia endócrina múltipla, que é uma patologia hereditária incomum, levando a uma maior predisposição ao desenvolvimento de tumores nas glândulas tireoide, paratireoide e adrenais. Glândulas suprarrenais (adrenais) Rim Ureter Bexiga Uretra Direito Esquerdo Figura 55 – Sistema urinário: glândulas suprarrenais (adrenais) Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 107). Observação As adrenais ou suprarrenais são glândulas singulares. Elas são de pequena dimensão, porém de bastante importância e multifuncionais. Encontradas acima dos rins, elas liberam uma variedade de hormônios e neurotransmissões, cada um produzido em compartimentos anatômicos diferentes. 81 BIOQUÍMICA Os paragangliomas possuem a mesma constituição dos feocromocitomas. Ambos são classificados de acordo com sua localização, sendo que 90% dos feocromocitomas acometem as glândulas adrenais. No caso de mudança de localização de feocromocitomas, como coração, peito, crânio ou pescoço, eles passam a ser denominados extra-adrenais ou paragangliomas. Figura 56 – Imagem de tomografia mostrando um feocromocitoma (ver seta) após a injeção intravenosa de contraste Fonte: Herr et al. (2014, p. 234). A B Figura 57 – Imagem de ressonância magnética mostrando um paraganglioma no pescoço Fonte: Düzlü et al. (2018, p. 60). 82 Unidade II Atualmente, não existe comprovação de que o uso dos meios de contraste tanto iodados como à base de gadolínio intravenoso possa intensificar os episódios de hipertensão nos pacientes com tumores como feocromocitomas ou paragangliomas, que são tumores produtores de catecolaminas. Sendo assim, não existem contraindicações para o uso dos meios de contraste nesses pacientes. No caso de tomografia computadorizada, é indicado meio de contraste intravenoso não iônico para pacientes portadores de feocromocitoma ou paraganglioma, e também não há necessidade de nenhum tipo de preparo especial ou qualquer tipo de restrição antes do uso dos meios de contraste iodado iônico ou à base de gadolínio. No entanto, caso seja necessária a administração intra-arterial de meio de contraste iodado, é recomendado o uso oral de bloqueadores alfa e beta-adrenérgicos, com supervisão médica. Esses bloqueadores têm a função de diminuir a pressão arterial. 5.4.6 Mieloma múltiplo O mieloma múltiplo é um tipo de câncer que tem início na medula óssea quando ocorre a mutação de células, ou seja, a produção de plasmócitos anormais chamados de células malignas. Pacientes acometidos com mielomas múltiplos com função renal normal que tenham recebido meio de contraste não possuem risco aumentado de injúria renal aguda pós-contraste IRA-PC, desde que o meio de contraste seja iso ou hipo-osmolar e que o paciente esteja bem hidratado. No entanto, se a função renal estiver alterada, o paciente apresenta maior risco de IRA-PC. Para esses pacientes, é necessário suspender os medicamentos nefrotóxicos e realizar hidratação profilática intravascular, a qual deve ser monitorada e individualizada para evitar sobrecarga de volume. No entanto, não é recomendado o uso de N-acetilcisteina, de diuréticos ou manitol e de hemodiálise como medidas profiláticas. 5.4.7 Miastenia gravis A proteção do corpo humano contra infeções é feita através do sistema imunológico, o qual é constituído por células, tecidos, órgãos e moléculas – também fazem parte desse sistema o baço, linfonodos e células livres, como os leucócitos. As infeções são causadas por patógenos, e o sistema imunológico tenta destruir esses agentes externos, como vírus, bactérias, parasitas ou fungos. Algumas doenças atacam o sistema imunológico contra uma estrutura do próprio organismo; isso é considerado uma resposta imunológica, e essas doenças são denominadas autoimunes. A miastenia gravis é uma doença autoimune caracterizada pela presença de anticorpos que se ligam e inativam especificamente os receptores nicotínicos presentes na junção neuromuscular. Apesar de muitos estudos terem sidos realizados até o momento em relação à injeção intravenosa dos meios de contraste iodados e ao usodo meio de contraste iodado intravenoso em pacientes com mistastenia gravis, o agravamento clínico ainda é questionável, e o assunto ainda é muito contraditório, portanto, o uso do meio de contraste iodado nesses pacientes leva a uma contraindicação relativa. Em contrapartida, estudos com o meio de contraste à base de gadolínio ainda são escassos. 83 BIOQUÍMICA 5.4.8 Metformina A metformina é um medicamento (comprimido) hipoglicemiante oral que pode ser utilizado para diminuir a quantidade de glicose (açúcar) no sangue (glicemia), para tratamento de diabetes mellitus tipo 2, em pacientes obesos, além de tratamento da síndrome de ovários policísticos. No tratamento de diabetes mellitus tipo 2, o corpo não produz insulina ou cria resistência a ela. Para administração do meio de contraste iodado em pacientes com injúria renal aguda ou disfunção renal severa, é recomendada a suspensão da metformina por 48 horas e sua reintrodução após avaliação da função renal. 5.4.9 Outros medicamentos Betabloqueadores são aplicados com o objetivo de diminuir a mortalidade e impedir complicações das doenças cardiovasculares. A interrupção dos betabloqueadores normalmente não é necessária, entretanto, pode ficar comprometido o tratamento do broncoespasmo, como também a resposta à adrenalina, caso ocorra uma reação de hipersensibilidade. A interleucina-2 é um medicamento anticancerígeno. Ela não é um anticorpo, mas pode participar da resposta imune. Pacientes que fazem uso de interleucina-2 precisam estar cientes do grande risco de reação cutânea tardia ao meio de contraste. 6 INDICAÇÕES DOS MEIOS DE CONTRASTE 6.1 Trato urinário Os primeiros estudos orográficos, ou seja, estudos dos rins e ureteres com uso do meio de contraste, ocorreram em 1923, mas somente em 1929 a urografia foi introduzida na prática clínica, mediante o uso do contraste diiodado Uroselectan. Em 1950 foram introduzidos também para esse estudo os meios de contraste triiodados iônicos de alta osmolalidade (Urografina, Conray e Urovision), sendo assim mais uma opção. A preocupação quanto à nefrotoxidade provocada pelo uso do meio de contraste de alta osmolalidade ocorreu apenas quando começaram a aparecer os primeiros casos. Diante desse fato, na década de 1980, foram introduzidos os meios de contraste não iônicos de baixa osmolalidade (Iopamiron e Omnipaque), com menos reações adversas. Na sequência vieram os dímeros não iônicos, com osmolalidade semelhante ao plasma sanguíneo, porém com alta viscosidade, a ponto de limitar seu uso clínico. 84 Unidade II Figura 58 – Urografia excretora contrastada evidenciando rins, ureteres e bexiga Fonte: Nacif et al. (2004, p. 434). 6.2 Sistema cardiovascular Nos exames contrastados do sistema cardiovascular, faz parte dos protocolos dos centros de diagnósticos o uso do meio de contraste de baixa osmolalidade, conduta que reduziu a ocorrência e o agravamento das reações adversas. Apesar dessa redução, as poucas ocorrências chamam atenção quando se referem a danos na condução elétrica miocárdica, que nada mais é do que o estímulo elétrico para a contração do miocárdio, incluindo extra-sístoles (alteração na formação do impulso elétrico do coração), fibrilação (câmaras cardíacas contraem-se em ritmo síncrono) e efeitos tromboembólicos. 85 BIOQUÍMICA Figura 59 – Angiograma de abdome inferior, com imagem em ASD (angiografia subtração digital) à direita Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 702). Observação A artéria coronária esquerda deixa a aorta acima da válvula aórtica. Geralmente corre cerca de 1 a 25 mm e se bifurca entre a artéria descendente anterior e a artéria circunflexa esquerda. O entupimento dessa artéria leva à conhecida morte súbita. 6.3 Sistema nervoso central Existem duas formas de os meios de contraste chegarem até o sistema nervoso central: por uma injeção intravascular, no caso de uma angiografia cerebral, ou através de uma injeção subaracnoidal (entre a membrana aracnoide e a pia-máter). A barreira hematoencefálica (BHE) é uma barreira natural cuja função é limitar e regular a troca de substâncias entre o plasma sanguíneo e o sistema nervoso central, incluindo os meios de contraste. Permeabilidade se refere à propriedade de um corpo de se deixar penetrar por uma substância. O aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica pode ocorrer patologicamente, como no caso de tumores ou efeitos diretos dos meios de contraste. Caso isso ocorra, os meios de contraste podem penetrar e chegar em estruturas cerebrais, se espalhando nos espaços ventriculares. A mielografia é um exame realizado para avaliar a medula espinhal, o que é feito por meio da injeção de contraste na região lombar de forma específica no espaço subaracnoidal. Nessa situação, caso ocorra o aumento da permeabilidade da BHE, o meio de contraste alcançará as regiões anteriores do sistema nervoso central. Segundo Sugawara e Daros (2004), ocorrem lesões cerebrais provocadas por altas dose 86 Unidade II dos meios de contraste iodados iônicos. No entanto, os meios de contraste não iônicos são menos agressivos à BHE e menos tóxicos a estruturas cerebrais, mesmo em pacientes com comprometimento da BHE. Sendo assim, é recomendado o uso do meio de contraste iodado não iônicos em pacientes com lesão da BHE. A B C Figura 60 – Angiografia cerebral. A: artéria carótida interna direita; B: artéria carótida externa direita; C: artéria carótida comum direita Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 683). Observação A angiografia, também chamada de arteriografia cerebral, é uma técnica utilizada para encontrar anomalias nos vasos sanguíneos cerebrais. Por exemplo: uma dilatação arterial (aneurisma), uma configuração anormal (malformação arteriovenosa), uma inflamação (arterite) ou uma obstrução vascular (acidente vascular cerebral). 87 BIOQUÍMICA Figura 61 – Mielografia da lombar (OPD – oblíqua posterior direita e OPE – oblíqua posterior esquerda) Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 763). 6.4 Trato gastrointestinal Para os estudos do trânsito gastrointestinal, podem ser utilizados o meio de contraste sulfato de bário (sal insolúvel) ou meios de contraste iodados iônicos e não iônicos (sais solúveis). Desde 1910, data em que ocorreu a primeira descrição do uso do sulfato de bário como meio de contraste, ele tem permanecido como agente de escolha para os estudos gastrointestinais. Achado na natureza em rochas vulcânicas, unido ao mineral conhecido como barita, o sulfato de bário é totalmente insolúvel, e, quando alterado em sal solúvel, como no caso do carbonato de bário, ele passa a ter alta toxicidade, sendo assim um veneno mortal. O sulfato de bário tem como vantagens possuir uma ótima opacidade, não ser absorvido pelo organismo humano, ser excretado em sua forma intacta através das fezes e apresentar alta aderência à parede da mucosa gastrointestinal. O sulfato de bário pode ser administrado por via oral ou retal. O enema baritado é um exame contrastado do intestino grosso no qual o meio de contraste é introduzido por via retal. No caso de paciente não colaborativo e imobilizado, a administração pode ser feita na forma simples, ou seja, somente sulfato de bário de baixa densidade. Entretanto, a preferência para realização do enema baritado é a técnica do duplo contraste, na qual é administrado o sulfato de bário associado a um gás inerte (ar ou gás carbônico) por meio de insuflação. 88 Unidade II O gás se mistura com o bário e força o sulfato de bário contra a mucosa, oferecendo uma melhor cobertura e melhor visibilidade da mucosa. Para estudo do esôfago, pode-se utilizar contraste simples ou duplo. Antes do exame, alguns cuidados são necessários, como jejum, uso de laxantes e clister, que é a injeção de medicação por via retal para lavagem intestinal. Também é indicada medicação para aliviar espasmos viscerais, caso ocorram. As reações adversas e alérgicas são raras. As reações adversas mais comuns são náuseas,vômitos, dor abdominal (no caso das reações alérgicas, normalmente inicia-se com prurido), eritema, edema de glote, broncoespasmo, hipotensão severa, taquicardia, dispneia, agitação, confusão e cianose. Em se tratando das reações graves, elas estão relacionadas com a presença de perfurações do trato gastrointestinal, mesmo porque é contraindicado o uso de sulfato de bário caso o paciente tenha suspeita de perfuração de vísceras (nesse caso, são indicados os meios de contraste iodados iônicos e não iônicos). Os contrastes iodados iônicos possuem alta osmolalidade. Conforme vão circulando pelo trato gastrointestinal, eles vão ficando cada vez mais diluídos, o que leva à perda da opacidade e pode também provocar a desidratação do paciente, motivo pelo qual o seu uso é contraindicado para os recém-nascidos. Também é contraindicado caso haja suspeita de aspiração bronquial, pois essa condição pode levar à pneumonite química. Em relação aos meios de contraste iodados não iônicos, a grande vantagem oferecida é o fato de serem de baixa osmolalidade e não proporcionarem efeitos desidratantes. Figura 62 – Enema baritado com duplo contraste – AP Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 488). 89 BIOQUÍMICA 6.5 Sistema biliar O sistema biliar pode ser avaliado através de exames de diagnósticos por imagem. Nas últimas décadas foi dada ênfase ao desenvolvimento dos meios de contraste iodados para os estudos do sistema biliar, sendo eles colangiográficos e colecistográficos. Os meios de contraste colecistográficos são administrados por via oral, tendo como objetivo opacificar a vesícula biliar. Já os meios de contraste colangiográficos são administrados por via endovenosa, sendo apacificados os ductos biliares. Desde 1952, não ocorreram mudanças nos meios de contraste orais colecistográficos, sendo eles o iopodato (Biloptin) e o ácido iopanoico (Telepaque). Na figura a seguir podemos observar que o grupo ácido (COOH) não está ligado diretamente ao anel benzênico, mas, sim, à cadeia lateral. Isso faz com que os meios de contraste fiquem mais ácidos e lipofílicos (demonstrem maior afinidade com gordura). Já no carbono 5 não há substituinte, liberando a ligação a proteínas plasmáticas. CH2-CH-COOH NH2 CH2CH3 I I Figura 63 – Ácido iopanoico (Telepaque) O iopodato e o ácido iopanoico são absorvidos por difusão passiva através do intestino. Isso significa a passagem de substâncias (meios de contraste) pela região lipídica da membrana plasmática, de um local maior concentrado para um menor concentrado. Após absorvidos, são levados e ligados à albumina plasmática (proteína do plasma, produzida naturalmente pelo fígado), ficando acumulados no tecido gorduroso e no fígado. No fígado são capturados pelos hepatócitos, que são células do fígado com objetivo de formar e excretar bile durante o metabolismo da bilirrubina, e transportados ativamente para os sistemas biliares e grandemente armazenados na vesícula biliar, onde se concentram entre 14 e 20 horas após a ingestão. De maneira oposta aos agentes orais colecistográficos, os colangiográficos são bem solúveis em água e não podem ser absorvidos pelo trato gastrointestinal, sendo unicamente de uso injetável intravascular. Embora seja pouco utilizado na prática clínica, o iotroxaro (Bilisopin) é um exemplo comercial. Ele é um dímero iônico sem substituinte nos carbonos 5, o que gera uma forte ligação com a albumina plasmática, evitando a excreção renal. As características ácidas e lipofílicas trazem a eliminação biliar desse agente. O efeito colerético limita o grau de opacificação das vias biliares por causa do efeito de diluição. A máxima concentração nas vias biliares é atingida 30 minutos depois da administração endovenosa. 90 Unidade II NHCO — (CH2OCH2)3 — CONH COO- COO- I II I Figura 64 – Iotroxato meglumina (Biliscopin). Meio de contraste colangiográfico de uso endovenoso Esses dois tipos de contraste, colecistográficos e colangiográficos, perdem opacificidade em casos de disfunção hepatocelular, e sua utilização nesses casos não é indicada. Seu uso vem diminuindo gradativamente, porém não estão totalmente abandonados, e o conhecimento farmacológico a respeito desses agentes ainda é relevante. Figura 65 – Radiografia dos ductores biliares/colangiografia tubo em T Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 755). 91 BIOQUÍMICA Observação A colangiografia endovenosa tem como objetivo estudar de forma radiológica as vias biliares através de infusão endovenosa. Têm indicações para esse procedimento: o estudo de uma vesícula biliar que não pode ser visualizada durante um colecistograma oral; pacientes colecistectomizados (que removeram a vesícula biliar); vômitos e diarreias intensos que impediram a absorção do meio de contraste. Não tem indicações para esse procedimento: elevada incidência de reações ao meio de contraste. 6.6 Extravasamento do MC 6.6.1 Definição e incidência O uso dos meios de contraste nas imagens diagnósticas tem aumentado de forma significativa nos últimos anos. Os meios de contraste alteram a capacidade de absorção da radiação ionizante nos tecidos, proporcionado, assim, um diagnóstico mais acurado. Ainda que os meios de contraste apresentem vários benefícios, um risco preocupante, embora pouco frequente, está no extravasamento do meio de contraste, em particular os de alta osmolalidade, que são tóxicos aos tecidos circundantes. O profissional deve ter capacidade para reconhecer tal situação e também saber como proceder; consequentemente, essa situação pode levar a um aumento da morbidade e da permanência no hospital. O extravasamento resulta na injeção imprudente do meio de contraste nos tecidos adjacentes, podendo ocorrer uma resposta inflamatória aguda, com seu pico em 24 a 48 horas após o extravasamento. O meio de contraste à base de gadolínio por ser administrado em pequenos volumes. Com maior uso de injeção manual, há menor ocorrência de extravasamento quando comparado com os meios de contraste iodados. 6.6.2 Fatores associados Não há como prever o extravasamento do meio de contraste, mas alguns fatores podem aumentar a chance de ocorrência. Alguns fatores estão diretamente relacionados ao paciente, como dificuldade de comunicação, agitação ou dificuldade de colaboração, indivíduos debilitados e severamente doentes, presença de pouco tecido celular subcutâneo, doença vascular diabética, trombose venosa, alterações vasculares pós-radioterapia, quimioterapia etc. 92 Unidade II Outros fatores estão associados à escolha da via de acesso e à integridade dessa via. Sendo assim, o local de maior incidência de extravasamento é a fossa antecubital, por ser o local mais comum de punção venosa. Os demais fatores são o uso do cateter por mais de 24 horas e do tipo metálico, posicionamento inadequado, várias punções no mesmo local e cateter de menor calibre. A administração dos meios de contraste com o uso de bombas injetoras propicia maior risco de extravasamento que a injeção manual, principalmente se o paciente já tiver outro fator de risco associado. A viscosidade do meio de contraste é controlada através do aquecimento da substância antes da administração a 37 ºC. Sendo assim, os meios de contraste iodado de alta osmolalidade fazem parte dos fatores de risco do extravasamento. 6.6.3 Prevenção A administração dos meios de contraste devem ser realizadas com muita prudência. Diante do conhecimento dos fatores de risco, o tecnólogo deve reconhecer os pacientes de risco, optar por cateter de plástico, dar preferência a acesso da fossa antecúbital, reduzir a viscosidade aquecendo o meio de contraste (iodado) a 37 ºC, orientar o paciente a comunicar a equipe caso sinta dor ou edema no local da injeção e administrar soro fisiológico antes do meio de contraste para checar o acesso. Uma forma de verificar a ocorrência do extravasamento é apalpando o acesso no local da punção venosa durante os primeiros segundos da injeção do meio decontraste. 6.6.4 Tratamento Até o momento não foi bem definido o tratamento diante do extravasamento do meio de contraste. Entretanto, existe um protocolo comum que determina algumas diretrizes a respeito de como o tecnólogo deve comunicar o enfermeiro e/ou o médico responsável pelo setor de que irá entrar com intervenção farmacológica rapidamente: • o membro em que ocorreu o extravasamento deve ser levantado acima do nível do coração para reduzir a pressão nos capilares e favorecer a reabsorção do meio de contraste extravasado; • é necessário revezar sobre o local que ocorreu o extravasamento do meio de contraste uma compressa fria, que propicia uma ação anti-inflamatória, seguida de compressas quentes, para primeiro aliviar a dor e, em seguida, melhorar a reabsorção do meio de contraste; • documentar o extravasamento é essencial, incluindo tipo e volume do meio de contraste extravasado, se a injeção foi manual ou automática, taxa de injeção e pressão de injeção, local do extravasamento, hora e data da ocorrência e nome do radiologista e do enfermeiro que realizaram o atendimento; • deve-se entrar em contato com o paciente em um período de 24 a 48 horas para verificação do quadro clínico. 93 BIOQUÍMICA 7 SELEÇÃO E PREPARAÇÃO DOS PACIENTES ANTES DA ADMINISTRAÇÃO DOS MEIOS DE CONTRASTE 7.1 Triagem dos fatores de risco Para realização do exame contrastado, uma entrevista prévia deverá ser realizada com o paciente, ou seja, uma anamnese, com o objetivo de obter uma história clínica detalhada do paciente na busca de fatores de risco para reações adversas e também esclarecer suas eventuais dúvidas. Em seguida ele deve assinar um termo de consentimento e responsabilidade. Deve-se, então, pesquisar os fatores de risco que podem levam a reações adversas de acordo com o meio de contraste a ser utilizado. Para os meios de contraste iodado, é importante coletar do paciente informações sobre reação prévia ao meio de contraste, asma, histórico alérgico, diabetes mellitus, hipertensão arterial, disfunção renal, insuficiência cardíaca e hipertireoidismo manifesto. Quanto aos meios de contraste à base de gadolínio, é importante atentar às seguintes informações: reação prévia ao meio de contraste, asma, histórico alérgico, injúria renal aguda, diálise e disfunção renal. Pacientes que já tenham tido reação prévia ao meio de contraste são considerados de alto risco para reação de hipersensibilidade. Nesse caso, é recomendado utilizar outra classe de meio de contraste, ademais, as reações de hipersensibilidade aos meios de contraste são inesperadas. 7.2 Reação de hipersensibilidade As reações de hipersensibilidade independem da dose ou da velocidade de infusão, podendo ocorrer mesmo com quantidades mínimas e sem exposição prévia ao meio de contraste. Podem ser diferenciadas de acordo com o tempo entre a exposição ao meio de contraste e o aparecimento de sintomas em dois grandes grupos: reações imediatas (quando ocorrem na primeira hora) ou reações não imediatas (quando ocorrem entre 1 hora e os 10 dias subsequentes) (BROCKOW; RING, 2010). As reações de hipersensibilidade imediata aos meios de contraste manifestam-se tipicamente como anafilaxia. Sintomas gastrointestinais como náusea, vômitos, dor abdominal ou diarreia podem ocorrer. As reações mais graves envolvem os sistemas respiratório e cardiovascular e caracterizam-se por dispneia, broncoespasmo, hipotensão e taquicardia, podendo, em caso de choque anafilático, associar-se a alteração do estado de consciência. Cerca de 70% dessas reações ocorrem nos primeiros 5 minutos após a administração do meio de contraste, e cerca de 96% das reações graves ou fatais ocorrem nos primeiros 20 minutos (BROCKOW; RING, 2010). 7.3 Pré-medicação Tendo em vista que as reações adversas são imprevisíveis e que todo paciente deve ser considerado um paciente de risco, a equipe e a sala de exame devem estar preparadas para qualquer tipo de intercorrência, por isso, um carrinho de emergência bem equipado deve estar prontamente disponível, contendo nele equipamento para ressuscitação cardiopulmonar, oxigênio portátil, aparelho de sucção e medição de 94 Unidade II pressão sanguínea, desfibrilador e um monitor. Também devem ser mantidas na sala máscaras, cânulas para suporte com oxigênio, pontas de sucção, agulhas e seringas, bem como a epinefrina, droga de emergência muito comum. Figura 66 – Epinephrine Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 540). O tecnólogo é responsável por assegurar que o carrinho de emergência e o carrinho de drogas de emergência estejam equipados e não deve esquecer de conferir isso antes de qualquer procedimento com meio de contraste. Figura 67 – Carrinho de parada Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 540). 95 BIOQUÍMICA A finalidade do uso de pré-medicação é reduzir a gravidade das reações aos meios de contraste. O paciente pode receber a medicação em diferentes estágios. Uma medicação comum nos centros de diagnósticos que faz parte dos protocolos inclui uma combinação de benadryl (princípio ativo difenidramina) e prednisona, dada por um período de 12 ou mais horas antes do procedimento. A história do paciente é analisada através da anamnese para saber se ele é candidato a essa pré-medicação, como no caso de indivíduos com histórico de asma, rinite alérgica (febre de feno) ou alergia a medicamentos. No momento do exame, o tecnólogo deve questionar se o paciente recebeu alguma pré-medicação e anotar sua resposta no prontuário. Atualmente, o tempo de jejum para sólidos varia entre 0 e 12 horas, de acordo com o protocolo aderido pela instituição, mas a maioria das instituições solicita jejum de 4 a 6 horas. 7.4 Escolha dos meios de contraste Quanto à escolha dos meios de contraste, considerando como fator relevante a ocorrência de reação aguda de hipersensibilidade e tendo como objetivo minimizá-las, os meios de contraste iodados não iônicos são recomendados como preferência, pois, quando comparados aos meios de contraste de alta osmolalidade iodados iônicos, é fato que os não iônicos proporcionam um risco de quatro a cinco vezes menor de reações adversas (CLEMENT, 2014). Caso o paciente tenha sido submetido a algum exame contrastado e já tenha ocorrido uma reação ao meio de contraste, seja ele iodado ou à base de gadolínio, é recomendado utilizar uma classe diferente da anterior ou outro meio de contraste dentro da mesma classe, pois isso levará à redução da probabilidade de uma reação adversa futura. Pesquisadores afirmam que a troca do meio de contraste é mais eficaz que o uso de medicação prévia. O aquecimento do meio de contraste reduz a viscosidade e a resistência, tornando a injeção intravascular mais fácil, e diminui o desconforto dos pacientes, assim como a chance de extravasamento, isso levando em consideração os meios de contraste de alta viscosidade. A literatura relata que o aquecimento pode reduzir de forma considerável a periodicidade de reações adversas agudas. Vale ressaltar que os meios de contraste à base de gadolínio são administrados a temperatura ambiente (15 a 30 ºC), de acordo com as bulas; sendo assim, não devem ser aquecidos antes da administração. A princípio, os meios de contraste utilizados eram os iodados iônicos de alta osmolalidade. Nessa época foi iniciado o jejum para o uso de meio de contraste iodado intravenoso, o que ocorreu após se verificar que essas substâncias contrastantes têm altas taxas eméticas, ou seja, alto risco de provocar vômitos e náuseas, aumentado o risco de ocorrer aspiração e, consequentemente, pneumonia (CLEMENT, 2014). Com a introdução dos meios de contraste de baixa osmolalidade, ocorreu a redução considerável das reações adversas e riscos de complicações eméticas. Mesmo assim, o protocolo de jejum é seguido para os estudos contrastados também para os meios de contraste iodados não iônicos de baixa osmolalidade. O tempo de jejum para sólidos varia de acordo com os diversos serviços, ficandoem torno de 0 a 12 horas, mas o mais comum é de 4 a 6 horas. 96 Unidade II 8 ANÁLISE DE IMAGENS E DESCARTE DE MEIOS DE CONTRASTE 8.1 Análise e discussão de imagens radiográficas com e sem meios de contraste A radiologia é uma área da medicina fundamental através da qual são visualizadas imagens internas do corpo humano que auxiliam no diagnóstico de doenças suspeitas. As imagens radiográficas são formadas através da capacidade de distinção entre as estruturas adjacentes, ou seja, é necessário que haja um bom contraste entre as estruturas para que se tenha uma boa visibilidade. Essas imagens são registradas em um filme ou monitor de um computador após a exposição do paciente aos raios X. Quando a diferença de densidade é grande, o contraste é alto; quando a diferença de densidade é pequena, o contraste é baixo. Regiões de maior densidade atenuam mais os feixes de raio X do que as de menor densidade. A figura a seguir representa uma radiografia de tórax em PA. É importante que se tenha uma exposição e um posicionamento adequado. Os fatores técnicos foram selecionados com a finalidade de visualizar os pulmões e outras partes moles, porém, devido à alta densidade óssea, podem ser vistos clavículas, escápulas e arcos costais. No entanto, o esterno e as vértebras torácicas estão superpostas; sendo assim, não são bem visualizados na radiografia de tórax. A B C D E F G Coração Figura 68 – Radiografia de tórax Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 76). 97 BIOQUÍMICA Os pulmões (ou seja, o ar, que possui baixa densidade) e a traqueia, representados pelo contorno pontilhado em A, que fazem parte do sistema respiratório, são bem expostos, embora os brônquios não apresentem a mesma condição. Já o coração, os grandes vasos sanguíneos e o diafragma são bastantes evidentes. Essas estruturas possuem contraste natural, positivo e radiopaco (por exemplo, o osso) e negativo e radiotransparente (por exemplo, o ar). Na imagem, a letra B indica o ápice pulmonar; a letra C, a carina; a letra D, a base pulmonar; a letra E, o diafragma; a letra F, o ângulo costofrênico; e a letra G, o hilo pulmonar. A radiografia simples de abdome anteroposterior (AP) está representada na figura a seguir, com o paciente em decúbito dorsal, sem o uso do meio de contraste. Habitualmente é realizada uma radiografia simples de abdome RUB (rins, ureteres e bexiga) previamente à radiografia com o meio de contraste, com o objetivo de excluir algumas patologias. Figura 69 – AP de abdome RUB Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 104). Obstrução intestinal, perfurações com ar livre intraperitoneal (gás fora do trato digestivo), líquido em excesso no abdome ou possível massa intra-abdominal podem levar a uma situação de emergência. Nesse caso, é realizada uma rotina de abdome agudo ou duas ou três radiografias, que são feitas em posições diferentes com o objetivo de visualizar níveis hidroaéreos e também o ar livre dentro da cavidade abdominal. 98 Unidade II É fundamental que se tenha uma compreensão da anatomia e das relações entre órgãos e estruturas no interior da cavidade abdominal e pélvica. Na radiografia de abdome, três músculos se destacam: o diafragma e os psoas maiores direito e esquerdo. A cavidade abdominal e a cavidade torácica são divididas pelo músculo diafragma. No momento da realização da radiografia do tórax e do abdome esse músculo deve permanecer estático, o que é possível através da orientação correta ao paciente sobre a respiração. Se os parâmetros técnicos forem selecionados de forma adequada, ambos os músculos psoas são visualizados na radiografia de abdome – mais especificamente, suas bordas laterais –, isso considerando uma paciente de porte pequeno ou médio. No entanto, os demais sistemas orgânicos abdominais, como esôfago, estômago, intestino delgado, intestino grosso e todo o sistema excretor, não são visualizados na radiografia simples de abdome, pois apresentam densidades semelhantes às estruturas adjacentes. Sendo assim, para visualização desses sistemas, há necessidade da administração do meio de contraste. Quando a finalidade é o estudo dos órgãos da cavidade abdominal ou torácica, é necessário o uso do meio de contraste, podendo ser iodado ou não iodado. Vale lembrar que, quando se trata do trânsito gastrointestinal, também pode-se trabalhar com a técnica do duplo contraste, ou seja, sulfato de bário e dióxido de carbono. Segue uma radiografia de abdome: Estômago A Bulbo duodenal B A B C Válvula ileocecal C Figura 70 – Radiografia abdominal contrastado com sulfato de bário Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 105). 99 BIOQUÍMICA Na radiografia, é possível evidenciar o meio de contraste sulfato de bário em todo o estômago e também na porção proximal do intestino delgado e intestino grosso. Destaca-se na imagem o bulbo duodenal. A letra A indica o duodeno; a letra B, o jejuno; e a letra C, a válvula ileocecal. A imagem a seguir representa uma radiografia contrastada. Foi realizada a administração intravenosa do meio de contraste iodado, cujo exame é denominado urografia excretora ou intravenosa (UIV). Nesse caso, o objetivo é o estudo do sistema urinário. A visualização desse sistema não é possível numa radiografia simples, ou seja, sem contraste, tendo como fator limitante a cápsula adiposa que contorna os rins, fazendo com que eles fiquem com forma tênue, e também densidades semelhantes entre os tecidos. Observam-se na imagem: letra A, rim esquerdo; letra B, ureter proximal esquerdo; letra C, ureter distal esquerdo antes do esvaziamento na bexiga; e letra D, área da glândula suprarrenal (adrenal) direita, sobre o rim direito. A B C D Figura 71 – Urografia intravenosa (UIV). A: rim esquerdo; B: terço médio do ureter esquerdo; C: ureter distal esquerdo; D: região da glândula suprarrenal Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 107). Os orgãos reprodutores não são vistos em imagens radiográficas sem meio de contraste. Sendo assim, para estudos do sistema reprodutor feminino, é realizada uma histerossalpingografia, em que a cavidade uterina é delineada pela injeção do meio de contraste iodado através do colo uterino. Desse modo, serão avaliadas a cavidade uterina e a permeabilidade (grau de abertura) das tubas uterinas, como também o formato e o contorno para detectar qualquer processo patológico. 100 Unidade II Figura 72 – Histerossalpingografia (HSG) mostra o contraste sendo injetado para dentro da cavidade uterina Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 760). 8.2 Análise e discussão de imagens de tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) com e sem meios de contraste 8.2.1 Análise e discussão de imagens de TC com ou sem meios de contraste A tomografia computadorizada (TC) é um método diagnóstico por imagem cada dia mais utilizado na prática clínica. Assim como na radiologia convencional, o contraste que permite gerar as imagens é resultante da diferença na absorção do feixe de raio X em função das características dos tecidos. Quanto maior a absorção do feixe pelo tecido, mais claro esse tecido aparecerá na imagem, uma vez que haverá grande absorção, e pouca radiação ultrapassará o objeto, e quanto menor a absorção do feixe pelo tecido, mais escuro este se apresentará na imagem. O diagnóstico através da tomografia computadorizada permite observar as estruturas internas do corpo humano por meio de imagens de cortes axiais. A formação da imagem da tomografia segue o mesmo princípio de formação de imagem do raio X convencional, ou seja, estruturas com alta densidade absorvem mais radiação e ficam opacas na imagem, enquanto estruturas com menos densidade absorvem menos radiação e ficam mais escuras. A TC tem como diferencial a escala de densidade de Hounsfield (UH, ou unidades de Hounsfield). As diferentes densidades dos tecidos são medidas por índices de atenuação, os quais são representados numa escala de Hounsfield, composta por 2.000 níveis de cinza. 101BIOQUÍMICA Tabela 2 – Escala de densidade de Hounsfield (UH) Escala de Hounsfield Anatomia 300 a 1.000 Osso denso (compacto) 100 a 200 Osso mole 60 Fígado 50 Pâncreas 36 Encéfalo (parênquima) 20 Músculo 0 Água -20 a -80 Gordura -500 a -800 Pulmão -1.000 Ar Após a radiação atravessar o corpo do paciente, ela é captada pelos detectores localizados no gantry do lado oposto à ampola. Determinadas estruturas precisam do meio de contraste para serem visualizadas. Na varredura da região abdominal, o exame pode ser realizado com ou sem contraste. Ra io s X Osso Tecidos moles Água Gordura Ar i i i i i 1 3 5 8 10 Cabos Detector Computador Figura 73 – Interação da radiação com o corpo do paciente, chegando no detector e demonstrando a imagem no computador A figura a seguir mostra um corte axial sem o uso do meio de contraste, no nível da décima segunda vértebra torácica (T12). Foram identificados o fígado, o baço, o rim esquerdo, a medula espinhal, a aorta descendente e o colo intestinal. 102 Unidade II Medula T12 Colo Rim esquerdo Aorta descendente Baço Fígado Figura 74 – Corte axial do abdome Fonte: Mourão (2015, p. 216). Na imagem a seguir encontra-se um corte axial, no nível da terceira vertera lombar (L3), com o uso do meio de contraste, o que justifica a visualização da aorta descendente, o colo e o rim direito. A introdução do meio de contraste foi realizada por duas vias distintas, através do sistema vascular e digestório. São mostrados na imagem o fígado, a medula espinhal e os tecidos muscular e gorduroso. Colo Rim direito Aorta descendente L3 Fígado Figura 75 – Corte axial do abdome Fonte: Mourão (2015, p. 216). 103 BIOQUÍMICA A figura a seguir mostra uma varredura dos rins. A imagem A determina os limites de varredura, que vão das glândulas suprarrenais até o limite inferior do rim. A imagem B mostra um corte axial sem o uso do meio de contraste, sendo identificado o rim direito, o fígado e os tecidos ósseo, muscular e gorduroso. A imagem C demonstra um corte axial do rim direito com o uso do meio de contraste. A B C Figura 76 – Corte axial do abdome com e sem o uso do meio de contraste Fonte: Mourão (2015, p. 222). 104 Unidade II 8.2.2 Análise e discussão de imagens de ressonância magnética (RM) com ou sem meios de contraste O sinal de RM é produzido quando os spins dos átomos de hidrogênio do corpo do paciente induzem uma corrente na bobina do equipamento de ressonância. Na ressonância magnética não existe radiação ionizante como no raio X convencional e na TC, saindo do equipamento e interagindo com o corpo humano, mas sim um potente campo magnético que tem por objetivo alinhar os spins dos átomos de hidrogênio. Além disso, na ressonância magnética, é usado o meio contraste à base de gadolínio, com o objetivo de intensificar os sinais das estruturas, o que proporciona uma melhor visualização e também contribui na diferenciação de doenças primárias (tumor) dos efeitos secundários (edema). Ela ainda auxilia no diagnóstico de metástase, infecções, processos inflamatórios e infartos subagudos do encéfalo. Após o paciente realizar uma cirurgia da coluna, pode ser indicado o exame de ressonância para diferenciar um processo cicatricial de uma doença discal recorrente. O uso mais frequente do meio de contraste na ressonância magnética envolve a avalição do sistema nervoso central. A figura a seguir mostra uma imagem do encéfalo ponderada em T1 sem contraste. Conforme indicado pela seta, a lesão aparece na cor cinza, o que é denominado isosinal. Figura 77 – Encéfalo ponderada em T1 sem contraste Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 798). 105 BIOQUÍMICA A figura a seguir demonstra uma imagem ponderada em T1 com o uso do meio de contraste à base de gadolínio, o qual realça a lesão, fazendo com que apareça com área brilhante no centro do encéfalo (ver seta). Nesse caso, temos um hipersinal. Figura 78 – Encéfalo ponderada em T1 com o meio de contraste Fonte: Bontrager e Lampignano (2010, p. 798). A B Figura 79 – Lesão medular em esclerose múltipla. Imagem sagital ponderada em T2 (A) e imagem sagital ponderada em T1 pós-contraste (B) mostrando lesões no nível de C2–C3 e C4–C5, a última apresentando realce pós-gadolínio Fonte: Leite (2011, p. 432). 106 Unidade II Substância branca Substância cinzenta Líquido cefalorraquidiano T1 T2 Figura 80 – Diferença da relação de contraste entre a visualização das estruturas nas ponderações T1 e T2 Fonte: Klein (2016, p. 48). 8.3 O descarte dos resíduos de contraste e o meio ambiente A criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos foi importante para obter uma gestão, o que contribuiu para a melhora na qualidade ambiental e na condição de vida. Além disso, a questão ambiental vem sendo uma grande questão política global. Essa preocupação tornou o gerenciamento desse processo de descarte de resíduos extremamente importante para a conservação da saúde do meio ambiente. Ademais, políticas e legislações públicas nacionais e regionais têm como obrigação trazer uma visão proativa sobre a importância dessa estratégia para o meio ambiente, além de criar e desenvolver novos indicadores ambientais. Com eles é possível monitorar a evolução que essa política abrange. Os descartes indevidos de resíduos criam grandes prejuízos ambientais, os quais colocam em risco os recursos naturais globais e a qualidade de vida da população presente por gerações. Esses descartes inadequados criam agentes potencialmente perigosos, físicos, químicos ou biológicos, transformando as condições ambientais e afetando a vida humana. Por isso, cada vez mais políticas públicas vêm sendo criadas com o objetivo de garantir o meio ambiente sustentável e preservar a saúde da população. 107 BIOQUÍMICA Devido ao alto risco para o meio ambiente e saúde pública, foi aprovada a Resolução Conama n. 006, de 19 de setembro de 1991, que tornou não obrigatória a incineração ou queima dos resíduos sólidos oriundos de estabelecimentos de saúde ou similares e deu autoridade para cada órgão estadual de meio ambiente criar normas para o licenciamento ambiental de coleta, transporte e destino final desses resíduos para os estados e municípios que não optaram pela incineração. A criação dessa Resolução trouxe bastante destaque legal para os RSS (resíduos dos serviços de saúde) no final da década de 1990. Posteriormente, foi elaborada a Resolução Conama n. 005, de 5 de agosto de 1993. Ela trouxe as diretrizes da anterior, porém estipulou que os próprios estabelecimentos prestadores de serviço de saúde elaborem o gerenciamento dos resíduos, contemplando a geração, coleta, armazenamento, transporte e destino final. Após ela, surgiu a Resolução Conama n. 283/01, publicada em 12 de julho de 2001. Posteriormente, a Anvisa, que tem como objetivo regulamentar, controlar e fiscalizar produtos e serviços que oferecem riscos à saúde da população, resolveu tomar a responsabilidade e promoveu um debate público a fim de orientar sua própria resolução. Assim, foi promulgada em 2003 a Resolução de Diretoria Colegiada – RDC Anvisa n. 33/03, com o objetivo de regulamentar e gerenciar os resíduos da área da saúde. Essa resolução começou a considerar os riscos existentes à saúde dos trabalhadores, saúde e meio ambiente, porém gerou divergências com as orientações advindas da Conama. Assim, os dois órgãos buscaram uma forma de equilibrar as duas regulamentações, e, por isso, foi deliberada a revogação da RDF Anvisa n. 33/03 e publicadas a RDC Anvisa n. 306 e a Resolução Conama n. 358. Essa unificação trouxe um avanço para as regras de tratamento dos RSS de todo o país, porém ainda com o desafio de considerar cada especificação dos estados e municípios. A RDF Anvisa n. 306/04 e a Resolução Conama n. 358/05 classificam os RSS segundo os grupos de risco e suas exigências para o manejo específico. Esses grupos são: • Grupo A: resíduos com a possível presença deagentes biológicos que, por suas características, podem apresentar risco de infecção. • Grupo B: resíduos químicos. • Grupo C: rejeitos radioativos. • Grupo D: resíduos comuns. • Grupo E: materiais perfurocortantes. 108 Unidade II Figura 81 – Símbolos de identificação dos grupos de resíduos Fonte: Anvisa (2006). 109 BIOQUÍMICA Quadro 3 – Classificação dos resíduos de fontes especiais Resíduos de fontes especiais Classificação Origem Componentes/Periculosidade Industrial Indústrias metalúrgica, elétrica, química, de papel e celulose, têxtil etc. Composição de resíduos varia de acordo com a atividade (exemplos: iodos, cinzas, borrachas, metais, vidros, fibras, cerâmica etc.). São classificados por meio da Norma ABNT 10.004/2004 em classe I (perigosos), classe II-A e classe II-B (não perigosos) Construção civil Construção, reformas, reparos, demolições, preparação e escavação de terrenos Resolução Conama n. 307/2002: A: reutilizáveis e recicláveis (solos, tijolos, telhas, placas de revestimento) B: recicláveis para outra destinação (plásticos, papel/papelão, metais, vidros, madeiras etc.) C: não recicláveis D: perigosos (amianto, tintas, solventes, óleos, resíduos contaminados – reformas de clínicas radiológicas e unidades industriais) Radioativos Serviços de saúde, instituições de pesquisa, laboratórios e usinas nucleares Resíduos contendo substância radioativa com atividade acima dos limites de eliminação Portos, aeroportos, e terminais rodoferroviários Resíduos gerados em terminais de transporte, navios, aviões, ônibus e trens Resíduos com potencial de causar doenças – tráfego intenso de pessoas de várias regiões do país e mundo. Cargas contaminadas – animais, plantas, carnes Agrícola Gerado na área rural/agrícola Resíduos perigosos – contêm restos de embalagens impregnadas com fertilizantes químicos e pesticidas Saúde Qualquer atividade de natureza médico-assistencial humana ou animal – clínicas odontológicas, veterinárias, farmácias, centros de pesquisa – farmacologia e saúde, medicamentos vencidos, necrotérios, funerárias, medicina legal e barreiras sanitárias Resíduos infectantes (sépticos) – cultura, vacina vencida, sangue e hemoderivados, tecidos, órgão, produto de fecundação com as características definidas na Resolução n. 306, materiais resultantes de cirurgia, agulhas, ampola, pipeta, bisturi, animais contaminados, resíduos que entraram em contato com pacientes (secreções, refeições etc.) Resíduos especiais – rejeitos radioativos, medicamento vencido, contaminado ou interditado, resíduos químicos perigosos Resíduos comuns – não entram em contato com pacientes (escritório, restos de alimentos etc.) Adaptado de: Anvisa (2006). Os resíduos de serviços de saúde (RSS) são uma pequena quantidade gerada (cerca de 1% a 3% do total de resíduos), porém eles são partes importantes do global, por apresentarem um alto risco à saúde e ao meio ambiente. Entre os riscos que podem causar ao meio ambiente, se destaca o potencial risco de contaminação do solo e águas superficiais ou subterrâneas oriundas dos lançamentos desses resíduos em lixões ou aterros controlados, que proporcionam também riscos aos catadores. Além disso, existe o risco por contaminação do ar, que se dá através do tratamento desses resíduos pela incineração descontrolada, a qual emite poluentes para a atmosfera. A respeito da destinação desses RSS, segundo a Anvisa (2006), a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB 2000) do IBGE demonstrou que a maior parte dos municípios brasileiros não possui um sistema adequado para efetuar a coleta, tratamento e disposição final desses resíduos. Cerca de 56% dos municípios depositam seus resíduos no solo, e 30% desse número correspondem aos lixões. O restante 110 Unidade II dos municípios dispõe de aterros controlados ou especiais. Ademais, a respeito das formas de tratamento adotadas, os resultados dessa pesquisa demonstraram que cerca de 20% dos municípios realizam queima a céu aberto, enquanto 11% fazem incineração. As tecnologias de micro-ondas e autoclave compõem apenas 0,8% dos municípios, e cerca de 22% não possuem qualquer tratamento para os RSS. Apesar do crescimento de novas e eficazes legislações, poucos municípios vistorizam de forma adequada seus RSS. Até mesmo aqueles que obtêm um sistema específico para o gerenciamento de resíduos, na maior parte dos casos, têm grandes problemas e são focados apenas nos principais hospitais. O Plano de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS) é um documento criado com o objetivo de descrever os seguintes passos para o recolhimento e destino dos resíduos: segregação, acondicionamento, coleta, armazenamento, transporte, tratamento e disposição final. Portanto, os estabelecimentos de saúde são os responsáveis pelo correto gerenciamento de todo resíduo gerado por eles, e os órgãos públicos têm a obrigação, entre suas competências, de fiscalizar e regulamentar esse gerenciamento. 8.4 Análise de artigos nacionais e internacionais Na literatura é encontrada uma enorme quantidade de publicações que abrangem temáticas específicas sobre os meios de contraste. Esse conteúdo também se encontra disponível em acervos de bibliotecas eletrônicas, através de artigos nacionais e internacionais. Além disso, muitos artigos nacionais são baseados em revisões bibliográficas de artigos internacionais, já que a maioria das decisões ligadas ao diagnóstico por imagem é tomada através do Colégio Americano de Radiologia (ACR). Na Revista Brasileira de Alergia e Imunopatologia foi publicado um artigo com o título “Reações alérgicas ou pseudoalérgicas aos meios de contraste iodados?” (GRACITELLI; BELTRAME; GRUMACH, 2001), o qual avalia os fatores interligados a reações alérgicas e aos meios de contraste, assim como o diagnóstico e o tratamento, sendo utilizada como método de pesquisa uma revisão literária dos últimos 25 anos. Reações alérgicas aos meios de contraste sempre foram motivo de discussão. Apesar de os meios de contraste iodado não iônico de baixa osmolalidade diminuírem a probabilidade de ocorrência de reações alérgicas, eles têm como desvantagem o custo elevado, o que inviabiliza seu uso diário. As reações adversas a drogas são classificadas em reações previsíveis, ou seja, que são comuns e podem ocorrer em qualquer paciente, representando a maior parte das ocorrências, sendo que a dose utilizada está diretamente relacionada com os seus efeitos, e as imprevisíveis, que são raras, percebidas somente em pacientes com vulnerabilidade específica, consideradas reações de hipersensibilidade ou alérgicas, uma reação idiossincrática que é uma resposta não característica da administração da droga. Não é possível prever uma reação aos meios de contraste iodados. Os sintomas das reações adversas são classificados como leves, moderados, graves e fatais. Quanto às características dos meios de contraste iodados, podem ser iônicos e não iônicos, sendo que ambos podem ser monômeros e dímeros. 111 BIOQUÍMICA Os meios de contraste iônicos dissociam-se em solução em duas partículas cátions e ânions; com isso, apresentam alta osmolalidade. Já os não iônicos não dissociam em solução, permanecendo com apenas uma partícula, o que justifica sua baixa osmolalidade. Os testes alérgicos cutâneos ou in vitro não são muito utilizados na prevenção de uma reação alérgica devido à ausência de materiais apropriados. São indicados corticoides e anti-histamínicos em pacientes com maior predisposição a desencadear uma reação alérgica, isso até o momento em que forem definidos critérios de diagnósticos e tratamentos específicos para possíveis reações. Citamos ainda outro artigo, publicado na Revista da Associação Médica e intitulado “Nefropatia induzida por contraste: como prevenir?” (GATTAZ, 2002). Esse estudo menciona a nefropatia induzida por contraste (NIC), em que, como o próprio nome diz, a função renal fica comprometida após a administraçãodo meio de contraste. Para que ocorra a confirmação dessa situação, o paciente não pode ter nenhuma outra causa que possa levar a isso. Pacientes que já têm insuficiência renal são considerados pacientes de alto risco para o surgimento da NIC. Sendo assim, quanto maior a gravidade da insuficiência renal, consequentemente, maior será o risco de NIC e também de diálise. Vale lembrar que esse risco corresponde a dez vezes o valor da creatinina sérica basal. Outro grupo que também merece atenção especial é o dos pacientes diabéticos com insuficiência renal, que são considerados de alto risco para o desenvolvimento da NIC. Se a creatinina estiver alterada, o risco para diabéticos é o dobro em comparação com pacientes não diabéticos. O aumento do risco de NIC está diretamente associado à diminuição do fluxo plasmático. São inseridos nessa classe pacientes desidratados, com insuficiência cardíaca ou que tomam diurético. No caso de pacientes com função renal normal, uma hidratação adequada é satisfatória. Para os pacientes com risco elevado de NIC, é indicado optar por outros métodos de diagnósticos que não façam uso do meio de contraste iodado, não fazer uso de diurético 72 horas antes do procedimento com meio de contraste e não fazer uso de uma nova dose de contrate nas próximas 72 horas, ou fazê-lo somente quando a creatinina sérica estiver normal. Quanto maior a dose de contraste, maior será o risco de NIC; portanto, deve ser administrada a menor dose suficiente, tendo como limite 5 ml de contraste por peso em kg/creatinina sérica. Em pacientes portadores de diabetes com insuficiência renal é indicado o meio de contraste não iônico de baixa osmolalidade. Já para pacientes de risco é indicada hidratação endovenosa com soro fisiológico 0,45%, 1 ml/kg/horas de 12 horas antes até 12 horas após a utilização do contraste. Para pacientes com insuficiência renal crônica, uma alternativa que tem sido eficaz para prevenir a NIC é a administração de acetilcisteína 600 mg via oral de 12 em 12 horas no dia anterior e no dia da administração do meio de contraste junto com solução salina. Levantamentos bibliográficos, assim como pesquisas, sejam eles realizados a partir de conteúdos nacionais ou internacionais, têm contribuindo grandemente com a área de ensino. Os resultados das pesquisas agregam conhecimento para a formação dos profissionais, estimulando-os cada vez mais em busca dos conhecimentos sobre o assunto. 112 Unidade II Saiba mais Leia o artigo a seguir: JUCHEM, B. C.; DALL’AGNOL, C. M.; MAGALHÃES, A. M. M. Contraste iodado em tomografia computadorizada: prevenção de reações adversas. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 57, n. 1, jan./fev. 2004, p. 57-61. Disponível em: https://cutt.ly/GQvUEWW. Acesso em: 4 ago. 2021. Resumo Nesta unidade, inicialmente, destacamos que para o estudo do trato gastrointestinal são usados os meios de contraste positivos ou radiopacos e negativos ou radioluzentes (radiotransparentes), sendo os meios de contraste negativos ou radioluzentes produzidos através da ingestão de cristais de carbonato de cálcio e de citrato de magnésio, os quais produzem o gás dióxido de carbono (CO2). Além disso, temos o contraste negativo natural, que são as bolhas de gás normalmente presentes no estômago. Para o trato gastrointestinal, pode ser administrado o meio de contraste iodado e também o sulfato de bário, sendo que este é contraindicado se houver suspeita de escapar para dentro da cavidade abdominal. Para esse estudo, pode ser utilizada também a técnica do duplo contraste, ou seja, sulfato de bário e dióxido de carbono. O sulfato de bário pode ser administrado por via oral ou retal, e sua eliminação se dá através das fezes. Após o exame gastrointestinal superior ou de um enema baritado, o residual do sulfato de bário no intestino tende a se tonar solidificado. Como resultado, o paciente poderá ter dificuldades de evacuar, podendo ser necessário um laxativo após o exame, o que contribui para a remoção do sulfato de bário. Alguns pacientes não podem fazer uso de laxantes; neste caso, é necessário aumentar a ingestão de líquidos ou fibras até que as fezes não contenham mais sinais de sulfato de bário. Vimos que o gadolínio é um meio de contraste utilizado na ressonância magnética. Ele é considerado paramagnético, pois é constituído de íons metálicos. O exame de ressonância magnética é realizado através do recebimento do sinal do átomo de hidrogênio do corpo do paciente por uma bobina do equipamento. O hidrogênio é o átomo mais abundante no corpo humano e possui apenas um próton, o que fornece a ele uma propriedade magnética, ou seja, sob a ação de um campo magnético, ele é atraído. 113 BIOQUÍMICA O gadolínio é um elemento altamente tóxico. Em sua forma livre, o uso clínico do íon de gadolínio só é possível porque ele é fortemente ligado a um quelante, o que evita os efeitos tóxicos relacionados a sua forma livre. A mais recente preocupação surgiu com a descoberta da presença do gadolínio nos tecidos encefálicos em pacientes mesmo com função renal normal. Através de estudos foi identificado que essa condição está mais associada ao uso de meios de contraste mais instáveis, ou seja, com estruturas lineares (abertas). Sendo assim, as agências reguladoras, mediante preocupação com esses meios de contraste de baixa estabilidade (lineares), tomaram providências, estabelecendo alerta ou até interdição da venda de alguns meios de contraste no mercado europeu. Ressaltamos que as reações adversas podem ser categorizadas de acordo com sua temporalidade e severidade. A identificação dessas categorias irá direcionar a conduta oferecida ao paciente. As reações adversas de hipersensibilidade agudas ao meio de contraste ocorrem de forma inesperada, porém alguns pacientes manifestam maior risco para esse evento. Vale destacar alguns fatores de risco, como idade e gênero, indivíduos que apresentam asma, alergias, ansiedade e cardiomiopatia, uso de betabloqueadores e casos em que o paciente já recebeu o meio de contraste e teve reações adversas. Para avaliar a função renal, são realizados exames laboratoriais de ureia e creatinina. Outro assunto tratado foi a escolha do tipo do meio de contraste. Antes da administração do meio de contraste, é fundamental a análise de algumas questões. Baseando-se nessa análise, a decisão do uso ou não do meio de contraste depende do contexto clínico, levando em consideração todos os riscos, benefícios e alternativas de métodos de diagnósticos. Antes do início do exame, no momento da abordagem do paciente, algumas diretrizes devem ser seguidas: conferência de dados do paciente, como idade, nome e gênero, e avaliação de seu estado mental e emocional, para saber se ele tem condições de realizar o exame. Além disso, são coletadas informações relevantes através da anamnese, e, na sequência, o paciente deve assinar o termo de consentimento esclarecido e informado. Uma explicação detalhada sobre o procedimento deve ser dada ao paciente, com o objetivo de tranquilizá-lo. Acentuamos a análise e discussão de imagens radiográficas com e sem meios de contraste. As imagens radiográficas são formadas através da capacidade de distinção entre as estruturas adjacentes, ou seja, é necessário que haja um bom contraste entre as estruturas para que se tenha uma boa visibilidade. Essas imagens são registradas em um filme ou monitor de um computador após a exposição do paciente aos raios X. Quando a diferença 114 Unidade II de densidade é grande, o contraste é alto; quando a diferença de densidade é pequena, o contraste é baixo. Regiões de maior densidade atenuam mais os feixes de raio X do que as regiões de menor densidade. Sendo assim, estruturas que não apresentam diferença de densidade consequentemente não têm um bom contraste. Para evidenciá-las, há necessidade de meio de contraste, como abdome e pelve, entre outras. Em nossos estudos, avaliamos a criação da PolíticaNacional de Resíduos Sólidos. Ela foi importante para obter uma gestão, o que contribuiu para a melhora na qualidade ambiental e na condição de vida. Vimos também que a questão ambiental vem sendo uma grande questão política global. A preocupação com isso tornou o gerenciamento desse processo de descarte de resíduos extremamente importante para a conservação da saúde do meio ambiente. Devido ao alto risco para o meio ambiente e a saúde pública, foi aprovada a Resolução Conama n. 006, de 19 de setembro de 1991. Essa resolução tornou não obrigatória a incineração ou queima dos resíduos sólidos oriundos de estabelecimentos de saúde ou similares e deu autoridade a cada órgão estadual de meio ambiente criar normas para o licenciamento ambiental de coleta, transporte e destino final desses resíduos para os estados e municípios que não optaram pela incineração. A RDF Anvisa n. 306/04 e a Resolução Conama n. 358/05 classificam os RSS segundo os grupos de risco e suas exigências para o manejo específico. Esses grupos são: • Grupo A: resíduos com a possível presença de agentes biológicos que, por suas características, podem apresentar risco de infecção. • Grupo B: resíduos químicos. • Grupo C: rejeitos radioativos. • Grupo D: resíduos comuns. • Grupo E: materiais perfurocortantes. Finalizamos a unidade com a análise dos artigos “Reações alérgicas ou pseudoalérgicas aos meios de contraste iodados?” e “Nefropatia Induzida por Contraste: como prevenir?”, publicados respectivamente na Revista Brasileira de Alergia e Imunopatologia e na Revista da Associação Médica. 115 BIOQUÍMICA Exercícios Questão 1. A angiografia está relacionada ao estudo dos vasos sanguíneos e à avaliação de obstruções e dilatações, utilizando meio de contraste iodado. Durante a administração desse meio de contraste, podem ocorrer reações adversas, desde formas mais leves até quadros críticos à vida. Além das reações adversas, podem ocorrer interações medicamentosas, para as quais podem ser adotadas condutas que minimizem seus efeitos. Considerando as informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas. I – Pacientes que fazem uso da metformina devem descontinuar o uso do medicamento 48 horas antes e depois da administração do contraste iodado. Porque II – A metformina pode acumular-se no sangue em quantidade suficiente para causar acidose láctica em pacientes com alterações da função renal. A respeito dessas asserções, assinale a opção correta: A) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a asserção II justifica a I. B) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a asserção II não justifica a I. C) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. D) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. E) As asserções I e II são proposições falsas. Resposta correta: alternativa A. Análise da questão Os contrastes iodados, principalmente aqueles que apresentam alta osmolaridade e são administrados por via intravenosa, são nefrotóxicos quando interagem com a metformina, um fármaco hipoglicemiante utilizado no tratamento da diabetes tipo II e da síndrome dos ovários policísticos. Essa interação é observada sobretudo em pacientes que apresentam insuficiência renal; por esse motivo, recomenda-se que o uso do medicamento seja interrompido pelo menos 2 dias antes do uso do contraste. Como resultado da nefrotoxicidade, observa-se aumento dos níveis séricos de creatinina, um marcador da função renal. 116 Unidade II Além disso, com o uso de contrastes iodados, a chance de os usuários de metformina desenvolverem acidose lática aumenta. Isso ocorre porque a metformina inibe a captação de substratos glicogênicos (lactato e alanina) e, assim, bloqueia a respiração mitocondrial, efeito que é potencializado com o uso dos contrastes iodados. Questão 2. O gadolínio é um elemento altamente tóxico que, em sua forma livre, pode levar à degeneração esplênica, à necrose hepática, ao bloqueio na produção de enzimas e ao bloqueio dos canais de cálcio. Por esse motivo, o gadolínio deve ser associado a agentes quelantes antes da sua administração. Assinale a alternativa incorreta a respeito dos agentes quelantes: A) O agente quelante determina a distribuição do gadolínio pelos diferentes compartimentos teciduais. B) O quelante acelera a excreção do gadolínio, o que diminui significativamente sua toxicidade. C) As moléculas de quelante que permanecem livres, ou seja, desligadas do gadolínio, são inertes e não interferem em outros íons presentes no organismo. D) O agente quelante não apresenta propriedades paramagnéticas e, portanto, não participa da formação da imagem. E) Alguns agentes quelantes possibilitam a diminuição do volume de contraste administrada ao paciente. Resposta correta: alternativa C. Análise das alternativas A) Alternativa correta. Justificativa: os contrastes à base de gadolínio podem ser divididos em duas categorias, de acordo com o tipo de quelante que carrega o metal: extracelular (inespecífico) e intracelular (específico). Portanto, o agente quelante determina a distribuição do gadolínio. B) Alternativa correta. Justificativa: os agentes quelantes estabelecem complexos hidrossolúveis com diferentes íons, inclusive o gadolínio. Com isso, a velocidade de excreção renal aumenta e, consequentemente, os efeitos desses íons no organismo diminuem. 117 BIOQUÍMICA C) Alternativa incorreta. Justificativa: o quelante livre pode quelar diversos cátions presentes em nosso organismo, como o cálcio e o zinco, em um processo descrito como transmetalização. A transmetalização pode levar ao desenvolvimento de doenças graves em modelos animais, mas ainda não está claro qual o impacto em humanos. D) Alternativa correta. Justificativa: o único componente com propriedades paramagnéticas e que, portanto, contribui para a formação da imagem na ressonância magnética é o gadolínio. O quelante apenas altera a farmacocinética do gadolínio, principalmente sua distribuição pelo organismo e sua excreção. E) Alternativa correta. Justificativa: existem quelantes que possibilitam tempo de relaxação T1 maior do que outros, o que permite a diminuição do volume de contraste injetado, quando for de interesse. 118 REFERÊNCIAS Textuais AGENCY FOR TOXIC SUBSTANCES AND DISEASE REGISTRY (ATSDR). Toxicological profile for barium and barium compounds. Atlanta, 2007. Disponível em: https://cutt.ly/OQv2Nf7. Acesso em: 5 ago. 2021. ALMEN, T. The etiology of contrast medium reactions. Investigative Radiology, n. 29, p. 37-45, 1994. ALMIRO, M. M. et al. Reações de hipersensibilidade a meios de contraste em idade pediátrica. Nascer e Crescer, v. 2, n. 25, p. 90-98, jun. 2016. ANVISA. Gerenciamento de resíduos da saúde. 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