Prévia do material em texto
Indaial – 2020 Primeiros socorros Prof. Dionei Alves dos Santos 2a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Prof. Dionei Alves dos Santos Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: S237p Santos, Dionei Alves dos Primeiros socorros. / Dionei Alves dos Santos. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 275 p.; il. ISBN 978-65-5663-174-5 ISBN Digital 978-65-5663-175-2 1. Emergências médicas. - Brasil. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 616.025 APresentAção Olá, acadêmico! É um prazer encontrar você aqui. Seja muito bem- vindo ao Livro Didático de Primeiros Socorros. Nesta etapa, focaremos nossos esforços para melhor compreender os princípios que norteiam os Primeiros Socorros e suas ocorrências, correlacionando-os às possíveis intervenções passíveis de serem aplicadas! Estudaremos seus princípios, algumas intervenções possíveis de serem aplicadas como primeiro atendimento quando necessários, apontaremos alguns procedimentos e seus conceitos, e, ainda, as particularidades e cuidados através de uma contextualização mais acurada acerca de cada evento. Destacamos aqui que será necessária a busca por apoio em outras literaturas (referências) para que seu conhecimento se torne ainda mais fortalecido. Uma vez que falar de Primeiros Socorros é uma vertente infindável e que não se pode limitar em apenas alguns conceitos ou termos. Uma vez feito isso, acreditamos que você fará a diferença no mercado de trabalho. As informações contempladas neste livro estão distribuídas em três unidades, as quais temos o maior prazer em apresentar. Dentro de cada unidade, você irá se deparar com tópicos inerentes à temática principal. Na primeira unidade, nominada de “Eventos Agudos I”, abordaremos temáticas como: choque anafilático e hipertermia maligna; irregularidade respiratória e/ou insuficiência respiratória aguda, por fim, acerca das lesões por choque elétrico. Com relação à segunda unidade, ora nominada de “Eventos Agudos II”, sinalizamos alguns apontamentos acerca das seguintes temáticas: Atendimento Pré-Hospitalar e Síncope, Crise epiléptica, Precordialgia e Infarto Agudo do Miocárdio. Na terceira unidade, nominada de “Primeiro Atendimento a Vítimas de Parada Cardiopulmonar, Ovace, Traumas e Queimaduras”, os tópicos principais se referem ao título da própria unidade, simbolizando quão expressivas são as respectivas temáticas. Na distribuição das três unidades deste livro, procuramos elencar as principais situações e/ou ocorrências de riscos que estão atreladas ao nosso cotidiano, aquelas que mais requerem que tenhamos melhor compreensão em relação ao seu significado, bem como tentar entender o que pode ser feito até a chegada do socorro especializado. No entanto, cabe ressaltar que será necessário buscarmos leituras para que possamos ampliar nosso teor de conhecimento, haja visto a imensidão de informações, dados estatísticos, apresentações clínicas e sinais que, com o avançar dos tempos, também se modificam. Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! É um grande prazer encontrá-lo aqui! Bons estudos! Prof. Dionei Alves NOTA • O que é anafilaxia ou choque anafilático? • Quais cuidados devo ter ao me deparar com uma vítima de choque elétrico? • O que é choque elétrico? • Qual o significado de Insuficiência respiratória e cuidados que posso aplicar? Esses são alguns questionamentos básicos, porém essenciais, dos quais iremos, através do livro didático, elucidar por meio de respostas para contribuir que ocorra ampliação do seu conhecimento. UNI Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen- tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE sumário UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I .............................................................................................. 1 TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA ................................... 3 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3 2 ANAFILAXIA AGUDA ....................................................................................................................... 4 2.1 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA ............................................................................................... 4 2.2 ACHADOS CLÍNICOS .................................................................................................................. 7 3 DIAGNÓSTICO ................................................................................................................................... 9 3.1 EXAMES COMPLEMENTARES ................................................................................................. 12 3.1.1 Diagnóstico diferencial ....................................................................................................... 12 3.2 TRATAMENTO ............................................................................................................................. 13 4 EMERGÊNCIAS ALÉRGICAS ........................................................................................................ 16 4.1 EPIDEMIOLOGIA ....................................................................................................................... 17 4.2 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA DA ANAFILAXIA EM CONDIÇÕES CRÍTICAS ....... 18 4.3 ACHADOS CLÍNICOS ................................................................................................................ 22 4.4 DIAGNÓSTICO ........................................................................................................................... 25 4.5 EXAMES COMPLEMENTARES ................................................................................................. 25 4.6 TRATAMENTO EM SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA (CRITICIDADE) ............................. 26 5 HIPERTERMIA E/OU HIPERTERMIA MALIGNA ...................................................................28 5.1 INTRODUÇÃO AOS CONCEITOS DE HIPERTEMIA E HIPERTEMIA MALIGNA........ 29 5.2 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA ............................................................................................. 33 5.3 ACHADOS CLÍNICOS ................................................................................................................ 34 5.4 EXAMES COMPLEMENTARES ................................................................................................. 36 5.5 TRATAMENTO ............................................................................................................................. 37 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 38 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 40 TÓPICO 2 — IRREGULARIDADE RESPIRATÓRIA E/OU INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA .......................................................................................... 41 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 41 2 FISIOLOGIA RESPIRATÓRIA ....................................................................................................... 42 3 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA................................................................................................ 44 4 ACHADOS CLÍNICOS .................................................................................................................... 47 4.1 EXAMES COMPLEMENTARES ................................................................................................ 47 4.2 TRATAMENTO ............................................................................................................................ 49 RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 53 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 56 TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO ....................................................................... 57 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 57 2 FISIOPATOLOGIA DAS LESÕES ................................................................................................. 58 3 APRESENTAÇÃO CLÍNICA ........................................................................................................... 59 3.1 LESÕES NA CABEÇA E PESCOÇO .......................................................................................... 59 3.2 LESÕES NA PELE ......................................................................................................................... 63 3.3 LESÕES NO SISTEMA CARDIOVASCULAR .......................................................................... 65 3.4 LESÕES NO SISTEMA NERVOSO ............................................................................................ 67 3.5 LESÕES NO SISTEMA RENAL .................................................................................................. 68 3.6 LESÕES NO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO................................................................ 68 3.7 LESÕES NO SISTEMA RESPIRATÓRIO ................................................................................... 69 3.8 LESÕES NO SISTEMA GASTRINTESTINAL .......................................................................... 69 4 ABORDAGEM AO PACIENTE ....................................................................................................... 69 4.1 TRATAMENTO GERAL .............................................................................................................. 71 4.2 EXAMES COMPLEMENTARES ................................................................................................. 75 4.3 TRATAMENTO DAS COMPLICAÇÕES .................................................................................. 76 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 78 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 85 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 87 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 88 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II .......................................................................................... 91 TÓPICO 1 —ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE............................................... 93 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 93 2 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR EM EVENTOS AGUDOS ........................................... 94 2.1 O SÍMBOLO INTERNACIONAL DOS SERVIÇOS DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR ....................................................................................................................... 94 2.2 GOLDEN HOURS OU HORA DE OURO ................................................................................ 95 2.3 ATIVAÇÃO DO SISTEMA ........................................................................................................... 96 2.4 AVALIAÇÃO DA CENA OU DO AMBIENTE EM QUE A OCORRÊNCIA SE INSTALOU ..................................................................................................................................... 96 2.5 AVALIAÇÃO DO PACIENTE ..................................................................................................... 99 2.6 COMUNICAÇÃO ...................................................................................................................... 109 2.7 TRANSPORTE ............................................................................................................................ 110 2.8 DOCUMENTAÇÃO E INTEGRAÇÃO COM O HOSPITAL ............................................... 111 3 SÍNCOPE ........................................................................................................................................... 112 3.1 FATORES CAUSAIS (ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA) ................................................... 113 3.2 ACHADOS CLÍNICOS .............................................................................................................. 114 3.3 EXAMES COMPLEMENTARES .............................................................................................. 116 3.4 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ............................................................................................. 117 3.5 HIPOTENSÃO ORTOSTÁTICA (HO) ..................................................................................... 119 3.6 TRATAMENTO .......................................................................................................................... 123 3.7 HIPOTENSÃO ORTOSTÁTICA ............................................................................................... 126 3.8 HIPERSENSIBILIDADES DO SEIO CAROTÍDEO ............................................................... 126 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 128 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 130 TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA .................................................................................................. 131 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................131 2 PARTICULARIDADES NA CRISE EPILÉTICA ....................................................................... 131 2.1 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA DAS CRISES ................................................................... 135 2.2 ACHADOS CLÍNICOS .............................................................................................................. 138 2.3 EXAMES COMPLEMENTARES .............................................................................................. 139 2.4 CONDUTA ................................................................................................................................... 141 2.5 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL .............................................................................................. 142 2.6 TRATAMENTO .......................................................................................................................... 143 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 146 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 148 TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO ......................... 149 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 149 2 PARTICULARIDADES DO SISTEMA CARDIOVASCULAR E SANGUÍNEO ................ 149 3 DEFINIÇÕES ................................................................................................................................... 152 3.1 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA ........................................................................................... 154 3.2 ACHADOS CLÍNICOS E/OU SINAIS CLÍNICOS ................................................................. 155 3.3 EXAMES COMPLEMENTARES .............................................................................................. 157 3.4 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ............................................................................................. 158 3.5 TRATAMENTO .......................................................................................................................... 159 4 CARDIOLOGIA INTERVENCIONISTA EM EMERGÊNCIAS CARDIOVASCULARES ................................................................................................................ 161 4.1 ANGIOPLASTIA PRIMÁRIA .................................................................................................. 162 4.2 ANGIOPLASTIA FACILITADA .............................................................................................. 163 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 165 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 172 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 174 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 175 UNIDADE 3 — PRIMEIRO ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE PARADA CARDIOPULMONAR, OVACE, TRAUMAS E QUEIMADURAS ............. 179 TÓPICO 1 — ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE PARADA CARDIOPULMONAR (PCP) ...... 181 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 181 2 RESSUSCITAÇÃO CARDIOPULMONAR E CEREBRAL ...................................................... 182 3 MANOBRAS DE SUPORTE BÁSICO DE VIDA ...................................................................... 184 3.1 AVALIAR O NÍVEL DE CONSCIÊNCIA (RESPONSIVIDADE) ......................................... 184 3.2 ABRIR AS VIAS AÉREAS E CHECAR VENTILAÇÃO ....................................................... 188 3.2.1 Se a respiração estiver ausente, realizar duas ventilações de resgate ........................ 189 3.2.2 Checar o pulso ................................................................................................................... 189 3.2.3 Iniciar a ressuscitação cardiopulmonar RCP ................................................................. 191 3.2.4 Realizar a desfibrilação elétrica, se indicada ................................................................. 195 4 MANOBRAS DE SUPORTE AVANÇADO DE VIDA ............................................................. 200 4.1 PCR EM FV/TV SEM PULSO .................................................................................................... 201 5 PARADA CARDIOPULMONAR EM RITMO NÃO PASSÍVEL DE CHOQUE: ATIVIDADE ELÉTRICA SEM PULSO (AESP) E ASSISTOLIA (RITMOS NÃO CHOCÁVEIS) ................................................................................................................................... 209 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 213 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 215 TÓPICO 2 — OVACE E PRIMEIRO ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE TRAUMAS .......... 217 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 217 2 INGESTÃO DE CORPOS ESTRANHOS ................................................................................... 217 3 CONDUTAS FRENTE A INGESTÃO DE CORPOS ESTRANHOS...................................... 221 3.1 VÍTIMA QUANDO CRIANÇA ................................................................................................ 223 3.2 VÍTIMAS DE PEQUENO PORTE ............................................................................................. 224 3.3 VÍTIMAS ACORDADAS ........................................................................................................... 225 3.4 VÍTIMAS DESACORDADAS OU INCONSCIENTES .......................................................... 227 4 VÍTIMAS DE TRAUMAS .............................................................................................................. 229 4.1 TRAUMAS CERVICOTORÁCICOS PENETRANTES .......................................................... 232 4.2 TRAUMA VASCULAR .............................................................................................................. 233 4.2.1 Considerações sobre os mecanismos de lesão vascular .............................................. 234 4.2.1.1 Isquemia ........................................................................................................................ 236 4.2.1.2 Hemorragia ................................................................................................................ 236 3.2.1.3 Hematoma .................................................................................................................... 238 4.3 TRAUMA DE PARTES MOLES DA FACE ............................................................................. 238 4.3.1 Tratamento .......................................................................................................................... 240 4.3.2 Limpeza dos ferimentos ................................................................................................... 240 4.4 TRAUMA ABDOMINAL........................................................................................................... 240 4.4.1 Etiologia e fisiopatologia .................................................................................................. 241 4.5 TRAUMA CONTUSO ................................................................................................................ 242 4.6 TRAUMA ABDOMINAL PENETRANTE .............................................................................243 5 PRINCÍPIOS GERAIS DO TRAUMA ORTOPÉDICO ............................................................ 244 5.1 FRATURAS EXPOSTAS ............................................................................................................. 246 5.1.1 Tratamento das fraturas expostas ................................................................................... 247 5.2 FRATURAS DOS MEMBROS NO PACIENTE POLITRAUMATIZADO ........................... 249 5.2.1 Fraturas da diáfise do fêmur ............................................................................................ 249 5.2.2 Fraturas da diáfise da tíbia ............................................................................................... 250 5.2.3 Fraturas da diáfise do úmero e do antebraço ................................................................ 250 5.2.4 Luxações .............................................................................................................................. 251 5.3 FASCIOTOMIA .......................................................................................................................... 252 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 253 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 255 TÓPICO 3 — PRIMEIROS SOCORROS PARA VÍTIMAS DE QUEIMADURAS ................ 257 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 257 2 QUEIMADURAS ............................................................................................................................. 258 2.1 CAUSAS MAIS COMUNS ........................................................................................................ 258 2.2 CLASSIFICAÇÃO DAS QUEIMADURAS E SUAS CARACTERÍSTICAS ........................ 259 2.2.1 Primeiro grau ..................................................................................................................... 260 2.2.2 Segundo grau ..................................................................................................................... 260 2.2.3 Terceiro grau ....................................................................................................................... 261 2.2.4 Quarto grau ........................................................................................................................ 262 3 TRATAMENTO ................................................................................................................................ 263 3.1 TRATAMENTO POR TIPO DE GRAVIDADE NO ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR ..................................................................................................................... 263 3.1.1 Queimaduras por fogo (em caso de incêndios e chamas) ........................................... 263 3.1.2 Queimaduras elétricas ...................................................................................................... 264 3.1.3 Queimaduras químicas ..................................................................................................... 265 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 266 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 269 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 271 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 272 1 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • descrever a importância em distinguir o que é choque anafilático e suas fontes geradoras; • identificar as medidas passíveis de serem aplicadas em vítimas com insuficiência respiratória e/ou esforço respiratório; • apontar os tipos de cuidados necessários passíveis de serem aplicados ao se deparar com uma vítima em potencial de choque elétrico; • compreender o significado de hipertermia; • desmistificar o que é irregularidade respiratória e/ou insuficiência respiratória aguda e conhecer os tipos de lesões em decorrência de queimaduras. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA TÓPICO 2 – IRREGULARIDADE RESPIRATÓRIA E/OU INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA TÓPICO 3 – LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 — UNIDADE 1 CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 1 INTRODUÇÃO A reação alérgica pode ocorrer ou começar a apresentar as primeiras manifestações em questões de segundos a minutos, depois da ocorrência de exposição a um determinado alérgeno (camarão, veneno de abelha, medicamentos, alimentos, temperos, corantes, dentre outros). Dentre os sintomas mais comuns que sinalizam a existência de um processo alérgico em curso (em andamento) incluem: irritação na pele associado ou não a prurido (coceira), sintomas gastrointestinais (náuseas, vômitos), sintomas respiratórios como dificuldade respiratória (falta de ar) e choque hemorrágico (quando uma pessoa perde uma quantidade significativa de fluido corporal, em especial o sangue em uma proporção igual ou superior a 20%). Reações alérgicas requerem atenção e necessitam de intervenções pontuais o mais breve possível. Dentre elas, afastar o agente gerador da alergia e, em alguns casos (a maioria deles), há a necessidade de administração de terapia medicamentosa especificamente como corticoides (hormônio sintético com ação anti-inflamatória), anti-histamínicos (inibe a ação da histamina), epinefrina (hormônio simpaticomimético e neurotransmissor responsável que possui ação anti-inflamatória). A referida síndrome clínica (reação alérgica) possui extrema relevância no tempo atual devido à modernidade e à globalização pela possibilidade de nos depararmos com substâncias cada vez mais modificadas com materiais diversos. Essa enfermidade pode causar inconsciência e levar à morte se não identificada a sua existência. O choque anafilático, também é popularmente conhecido como anafilaxia ou reação anafilática, é um processo relacionado à reação alérgica que pode se apresentar em graus variados como leve, moderado ou grave em poucos segundos. Já com relação ao termo Hipertermia ou Hipertermia maligna, este se refere à elevação expressiva da temperatura corporal de forma desordenada, trazendo importante prejuízo ao corpo humano do ponto de vista funcional, resultando resposta hipermetabólica (alterações funcionais em nível celular). Considerada clinicamente como uma condição que traz vulnerabilidade à pessoa que se depara com tal enfermidade. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 4 2 ANAFILAXIA AGUDA Anafilaxia se refere a manifestações clínicas sistêmicas potencialmente graves, desencadeadas por reações mediadas pela imunoglobulina-E (IgE), após exposição a um determinado antígeno quando um indivíduo é previamente sensibilizado (alérgico) (FERREIRA; INACIO, 2018). As reações ditas pseudoalérgicas ou anafilactoides, segundo Ribeiro, Chong Neto e Rosario Filho (2017), por sua vez, são clinicamente indistinguíveis da anafilaxia, porém, sem comprovação de participação da IgE, o quepode ser observado é o início de manifestações relacionadas ao edema em determinadas regiões do corpo sendo estas simples em algumas vezes ou comprometedoras em outras (Figura 1). Neste texto, adotaremos o termo anafilaxia para designar genericamente todas as situações clínicas pertinentes, reservando os termos “reação anafilactoide” ou “pseudoalérgica” às considerações a respeito de fisiopatologias, por estes não serem muito comumente utilizados na prática clínica. FIGURA 1 – EDEMA LABIAL FONTE: <https://bit.ly/2xFIw6R>. Acesso em: 17 abr. 2020. 2.1 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA A anafilaxia, inicialmente, afeta pelo menos dois sistemas a incluir a pele e mucosas com cerca de 80 a 90% dos casos e o sistema respiratório com taxas de 70% dos casos. Outro alerta importante acerca das reações anafiláticas (alergias), é quando há acometimento do trato gastrintestinal e do sistema cardiovascular, tornando-se um maior grau de emergência clínica, em que se faz necessária a administração de terapia farmacológica imediata como a adrenalina por via intramuscular (IM), sendo a primeira linha de tratamento para tentativa de reversão dos sintomas que podem se fazer presente (SALGADO et al., 2012; AUN et al., 2016). De modo geral, os autores anteriormente citados mencionam que as causas mais frequentes que desencadeiam alergia em humanos estão apontadas no Quadro 1 e suas percentagens são: TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 5 • Alimentos (33% a 34%). • Veneno de insetos da ordem Hymenoptera (abelha de vespas, 14%). • Medicamentos (13 a 20%). • Exercício (associado a um aumento ou isoladamente, 7%). • Imunoterapia (aplicação terapêutica de alérgenos, 3%). • Látex e transfusão de plasma: foram responsáveis por menos de 1% dos casos. • Nenhuma causa identificada ou causa indefinida (19% a 37%). QUADRO 1 – CAUSAS DE ANAFILAXIA/REAÇÃO ANAFILACTOIDE • Alimentos • Medicamentos (antibióticos, insulina, heparina, protamina, bloqueadores neuromusculares, anestésicos, sulfas e derivados, anti-inflamatórios, opiáceos, vacinas) • Veneno de insetos • Hemoderivados • Óxido de etileno • Látex • Progesterona • Líquido seminal • Exercício • Contrastes (iodados, fluoresceína) • Idiopática, dentre outros FONTE: O autor O termo Atopia (presença de outras manifestações alérgicas, como rinite, asma, dermatite atópica) nem sempre é fator de risco para a ocorrência de anafilaxia, a não ser em casos de anafilaxia gerada por alimentos, látex, anafilaxia por exercício, anafilaxia idiopática e reação a contraste iodado. Além da reversão do quadro emergencial, é preciso prevenir a presença de novos episódios, bem como orientar pacientes/vítimas e familiares quanto às ações de primeiro momento que devem ser adotadas para que seja possível evitar um desfecho fatal (SALGADO et al., 2012). A conduta dos profissionais diante da anafilaxia representa um ponto crucial, e espera-se da equipe de saúde (médicos e enfermeiros) atuantes em ambientes de urgência e emergência, um rápido reconhecimento e manejo apropriado para serem aplicadas como medidas de resgate. A anafilaxia é um processo alérgico e, portanto, mediado por imuno- globulinas de classe E (IgE), caracterizando mecanismos de hipersensibilida- de do tipo I. Tais imunoglobulinas estariam ligadas a receptores específicos de alta afinidade, em células circulantes (basófilos) e células tipicamente teciduais (mastócitos), sendo produzidas em indivíduos a partir de um contato prévio e um antígeno (alérgeno – desencadeador da alergia). Numa exposição subse- UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 6 quente, havendo uma ligação entre os mesmos determinante antigênico e duas IgEs próximas, seria desencadeada uma série de cadeias (reações e ações celu- lares) culminando com a liberação de mediadores pré-formados (estocados nos grânulos daquelas células), tais como: histamina, triptase, quimase, heparina, fator liberador de histamina, citocinas e mediadores derivados de fosfolipídios da membrana celular – prostaglandina D2, leucotrienos B4, C4, D4 e E4) (AUN et al., 2016). Para Medeiros et al. (2006) e Ferreira e Inácio (2018), a fase efetora da resposta imune depende basicamente da imunoglobulina IgE, ocorrendo em três padrões ou reações que se diferem quanto ao tipo do alérgeno, ao intervalo de tempo entre a exposição e o aparecimento da reação e aos tipos celulares envolvidos. Os mesmos autores ainda sinalizam que tais reações podem ser classificadas da seguinte forma: reação aguda, reação tardia e ainda em reação crônica. Tais termos estão descritos a seguir para que possamos melhor nos familiarizar com eles: • Reação aguda: surge de segundos a minutos após a exposição, e é decorrente especialmente da ação de mediadores pré-formados. • Reação tardia: aparece horas depois ao contato e em resposta ao alérgeno. Nesta fase, leucócitos circulantes, tais como eosinófilos, basófilos, neutrófilos, macrófagos e linfócitos T, são recrutados por substâncias miotáticos liberadas na fase aguda e passam a influenciar as reações locais, pela participação adicional de citocinas e substâncias pró-inflamatórias. • Fase crônica: ocorre em tecidos ou órgãos expostos de forma prolongada e repetida ao alérgeno. É responsável por mudanças estruturais e funcionais no local envolvido, bem como pode envolver estruturas secundárias. No caso da anafilaxia, por esta ser uma reação de hipersensibilidade aguda potencialmente fatal, as primeiras fases ou reações representadas por suas manifestações ocorrem em decorrência da ação de diversos mediadores químicos que são liberados como estratégia de defesa no organismo humano. Dentre os mediadores que participam dessa ação, são os mastócitos, basófilos os quais realizam recrutamento de células inflamatórias, sendo a histamina a que mais se destaca através dos seus respectivos receptores (H1 e H2), estando presente na musculatura lisa, no endotélio, nas glândulas e terminações nervosas, determinando respectivamente a existência de vasodilatação e broncoconstrição, gerando aumento da permeabilidade vascular, hipersecreção mucosa e ativação do sistema nervoso autônomo (CRIADO et al., 2010). Os mesmos autores ainda destacam dizendo que as reações anafilactoides possuem os seguintes mecanismos: • Ativação do sistema complemento e geração de anafilatoxinas, induzidas por complexos imunes (exemplo: reação e derivados do sangue com IgA, em pacientes portadores de IgG anti-IgA). TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 7 • Ativação direta de mastócitos ou do sistema complemento, por parte da substância (exemplo: reação à contraste iodado ou demais terapias farmacológicas). • Ação de anafilatoxinas exógenas pré-formadas, como histamina, C3a e C5a (exemplo: derivados do sangue). 2.2 ACHADOS CLÍNICOS A anafilaxia é visada por manifestações clínicas isoladas ou em diversas combinações, envolvendo algum dos seguintes sistemas: respiratório, cardiovascular, neurológico, cutâneo e gastrintestinal. Os sintomas se estabelecem em cerca de minutos a horas depois do contato com o alérgeno, sendo mais comuns na primeira hora subsequente. A rapidez com que os sintomas ocorrem guarda relação com a gravidade dos sintomas, ou seja, quanto mais intensas forem percebidas as manifestações iniciais, maior deverá ser a preocupação em se iniciar a profilaxia o mais brevemente possível (VALENCIA, 2015). A mesma autora pontua que, após a exposição, pode haver um intervalo de horas para que as manifestações clínicas se iniciem, dependendo da via de administração do agente. O quadro clínico pode seguir um curso unifásico, em queos sintomas aparecem e não mais retornam, ou curso bifásico, quando somem ou diminuem, reaparecendo em cerca de 1 a 8 horas após (aproximadamente) ou mais tarde. O curso bifásico é encontrado em 5% a 20% dos casos, sendo mais frequente em pacientes/vítimas após exposição oral ao antígeno ou naqueles com manifestações iniciais após 30 minutos da exposição. Corresponderia, nos casos mediados por IgE, à expressão clínica da reação tardia da resposta alérgica. A duração dos sintomas pode se prolongar até 48 horas (anafilaxia prolongada). Na ótica de Criado et al. (2010), Sandrin e Santo (2015) e Valencia (2015), a depender do status de sensibilidade e grau de exposição ao agente alérgeno, a pessoa acometida pode apresentar as manifestações que podem incluir: • Pele: o envolvimento cutâneo é a apresentação mais comum (ausente em apenas 10% a 15% dos casos), representando por urticária e angioedema, que podem ser precedidos por eritema e prurido (Figura 2). As lesões da pele podem ser chamadas tecnicamente de erupções cutâneas ou lesões urticariformes. • Tonturas (vertigens) ou síncope: podem estar presentes na presença ou não de hipotensão ou choque anafilático. • Gastrintestinal: náusea, vômitos, diarreia e cólicas. • Vias aéreas: tanto superiores como inferiores podem ser acometidas. Manifestações como estridor, disfonia, rouquidão ou dificuldade para deglutir indicam o envolvimento alto e servem de alerta quanto à gravidade do caso em decorrência da possibilidade de edema de glote (Figura 3). Rinoconjuntivite também pode ocorrer. Já a presença de sibilância e sensação de aperto no peito indicam envolvimento de acometimento das vias aéreas baixas. O termo sibilância também pode ser nominado de broncoespasmo, quando há estreitamento das vias aéreas inferiores (brônquios, bronquíolos e alvéolos). UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 8 • Outros: em alguns casos, a anafilaxia pode se manifestar apenas como perda de consciência, morte súbita ou convulsões. FIGURA 2 – ERUPÇÃO CUTÂNEA FONTE: <https://www.wanista.com/wp-content/uploads/2013/07/alergy.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020. FIGURA 3 – EDEMA DE GLOTE Descrição: ao avaliarmos essas imagens, é possível percebermos uma diferença estrutural bem significativa. Na imagem A, não é possível identificar edema (inchaço) ou deformidade na sua estrutura, podendo, assim, ser considerada como normal do ponto de vista anatômico. Já nas figuras B, C e D percebemos um importante aumento nas estruturas ali dispostas, as quais circundam a fenda central (traqueia). Na Figura D, a estrutura com maior saliência chama-se epiglote. FONTE: <https://ars.els-cdn.com/content/image/1-s2.0-S1368837512000747-gr1.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020. TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 9 3 DIAGNÓSTICO O diagnóstico de anafilaxia é eminentemente clínico. Naturalmente, em situações com expressão de clínica menos grave, não será fácil definir se o quadro em questão é apenas uma manifestação alérgica localizada ou uma anafilaxia. Os quadros alérgicos localizados, tais como renite e asma, surgem comumente após exposição local ao alérgeno (aeroalérgeno como ácaros, fungos, alérgenos de animais e pólen), enquanto a anafilaxia normalmente decorre de exposição sistêmica ao agente. Da mesma forma, quando as manifestações forem apenas cutâneas, haverá maior dificuldade para o diagnóstico. Considerando que as alterações cutâneas são as mais comuns na anafilaxia, pacientes/vítimas com urticária idiopática, que venham a desenvolver broncoespasmo, esforço respiratório, estão intimamente expostos e sujeitos a evoluírem para parada cardiorrespiratória se nenhuma medida avançada como aplicação de oxigenioterapia suplementar, administração de corticoides e adrenalina foram ofertados. Esses são apenas mais dois exemplos de situações que podem trazer dificuldades para o diagnóstico. Referente às dificuldades quanto à realização do diagnóstico de anafilaxia, recentemente foram criados alguns critérios para tentar facilitar a interpretação quanto à presença do evento, mas ainda necessitam de validação clínica, segundo Aun et al. (2016). Os mesmos autores sinalizam dizendo que a anafilaxia é altamente provável quando, pelo menos, um dos três critérios a seguir se faz presente, conforme apresentação clínica aguda (após minutos a horas): • Acometimento de pele e/ou mucosas (exemplo: urticária localizada ou generalizada). • Prurido ou flushing. • Angioedema nos palpeobral (Figura 4), na língua (Figura 5), lábios (Protusão) e/ou úvula (Figura 6). FIGURA 4 – ANGIOEDEMA PALPEOBRAL BILATERALMENTE FONTE: <https://www.clinicadrbrom.com.br/arqs/informativos/14.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 10 FIGURA 5 – ANGIOEDEMA DE LÍNGUA (PROTUSÃO) FONTE: <https://bit.ly/3afmWDp>. Acesso em: 17 abr. 2020. FIGURA 6 – ANGIOEDEMA DE LÁBIO FONTE: <https://bit.ly/2KbyJrN>. Acesso em: 17 abr. 2020. Aun et al. (2016) nos dizem que, pelo menos, uma das condições a seguir pode estar muito evidente ou imperceptível, servindo como sinal de alerta: • Sintomas respiratórios (exemplo: dispneia – falta de ar leve, moderado ou intensa), broncoespasmo, estridor (estreitamento da traqueia), redução do fluxo expiratório (exalação), hipoxemia (diminuição na concentração de oxigênio no corpo humano). Qualquer desses sintomas ou sinais estando presente, este se refere a um sinal de alerta quanto à presença de desconforto respiratório. Dessa forma, se faz necessário solicitar avaliação da equipe de saúde imediatamente. Esteja atento a esses sinais como indicativo de alerta importante. TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 11 • Redução da pressão arterial ou sintomas relacionados à disfunção de órgãos-alvo (exemplo: hipotonia, síncope, incontinência). É possível que no momento do primeiro contato com o paciente/vítima, não tenhamos acesso a equipamentos para aferir a pressão arterial, por tanto, é possível identificarmos se este sustenta uma pressão arterial compatível com a necessidade fisiológica, devemos avaliar a qualidade do pulso arterial distal (radial, braquial) e, sequencialmente, o pulso carotídeo ou femoral. Começamos da periferia para a avaliação central. A segunda avaliação que nos dará um parâmetro importante acerca da pressão arterial do paciente/vítima é o seu nível de consciência. Apresentar-se sonolento, confuso e/ou desorientado é um sinal de que o sistema nervoso central não está sendo perfundindo adequadamente, ou por ventilação inadequada ou por falha no suprimento de oxigênio que é carreado pela corrente sanguínea. Outro ponto importante é avaliar e considerar as condições descritas a seguir, pois podem ser relevantes e auxiliá-lo durante o processo diagnóstico ou na interpretação quanto à possibilidade diagnóstica: • Presença de sintomas semelhantes no passado: aponta para uma recorrência de uma manifestação alérgica localizada (embora haja a possibilidade de repetição de quadros anafiláticos). Essa informação somente será possível coletá-la se o paciente/vítima estiver consciente. • Definir o agente casual: interrogar minuciosamente os agentes que mais causam a anafilaxia (alimentos, medicamentos, esforço, picada de abelhas, vespas, formigas e/ou látex), a relação temporal entre o contato e o início dos sintomas são muito importantes. Se o paciente/vítima estiver inconsciente, avalie o local que ele se encontra. Através dessa conduta, você poderá obter detalhes importantes do ambiente que a circunda. • O paciente/vítima usa algum medicamento? Todos os medicamentos usados pelo paciente devem ser ou estar listados, e todo o esforço deve ser dirigido para tentar estabelecer uma relação temporal entre a medicação suspeita e o início dos sintomas. • Diagnosticarse o quadro trata de anafilaxia ou relação anafilactoide é menos importante e vincula-se essencialmente a questões de nomenclatura. Se o agente suspeito é sabidamente causador de relações pseudoalérgicas (contraste iodado, por exemplo), se a reação aconteceu num primeiro e único contato ou não houve intervalo compatível com fase de sensibilização (normalmente em torno de duas semanas), o diagnóstico mais provável será de reação anafilactoide. O mais importante é estabelecer medidas de suporte básico, até que o serviço avançado chegue na cena, caso seja necessário acionar apoio. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 12 3.1 EXAMES COMPLEMENTARES Em virtude de tais dificuldades no diagnóstico clínico é compreensível a procura por marcadores de anafilaxia. As dosagens de triptase e de histamina podem ser úteis, particularmente nos casos duvidosos, desde que disponíveis. Outras investigações podem ser realizadas, envolvendo a pesquisa in vitro de IgE específica, testes cutâneos ou de provocação. No entanto, são passos normalmente praticados fora do ambiente de emergência, num seguimento ambulatorial que pode vir requerer a participação de um alergista. 3.1.1 Diagnóstico diferencial O paciente/vítima estando na unidade de saúde, a equipe avaliará a necessidade de realizar investigação mais minuciosa. Para tanto, a lista de diagnósticos diferenciais é extensa e deve incluir especialmente todas as condições que determinem ou simulem as manifestações mais graves ou mais comuns da anafilaxia, tais como hipotensão, choque, dispneia, instabilidade respiratória leve a moderada, erupções cutâneas como urticária ou angioedema e/ou alterações do nível de consciência. Por fim, Pereira, Gaspar e Ferreira (2018) descrevem que existem algumas situações que podem elevar a concentração endógena de histamina, assim como condições que se expressam clinicamente com eritema ou flushing. Neste sentido, são apresentadas no Quadro 2, alguns exemplos diagnóstico diferenciais da anafilaxia, a saber: QUADRO 2 – DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DA ANAFILAXIA OU REAÇÕES ANAFILACTOIDES 1) Causas orgânicas que determinem hipotensão, dispneia ou síncope: arritmias cardíacas, infarto agudo do miocárdio (IAM), sepse, hipovolemia, urticária ao frio grave, aspiração de corpo estranho, tromboembolismo pulmonar, hipoglicemia, dentre outros. 2) Causas orgânicas relacionadas ao aumento endógeno e histamina: mastocitose, urticária pigmentosa, ingestão de peixe contaminado com histamina, dentre outros. 3) Causas não orgânicas que simulam anafilaxia: reação vasovagal, alergia factícia, disfunção de cordas vocais, síndrome do pânico, dentre outros. 4) Causas de eritema difuso (flushing): síndrome carcinoide, uso de clorpropamida, carcinoma medular da tireoide, epilepsia com manifestação autonômica, climatério, eritema facial idiopático, dentre outros. 5) Causas de urticária e angioedema: angioedema hereditário, uso de inibidores de enzima conversora, urticária crônica, dentre outros. FONTE: O autor TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 13 3.2 TRATAMENTO Em estudo realizado através de revisão integrativa da literatura médica, a qual abordou o conhecimento dos médicos sobre a temática “anafilaxia”, em que a coleta dos dados ocorreu em dezembro de 2016, por meio de consultas nas plataformas de pesquisa PubMed, que abrange a Medical Literature Analysis and Retrievel System Online (Medline), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (Scielo) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Foram incluídos estudos publicados entre 2012 e 2016, resultantes da busca pelos descritores “anafilaxia, terapia e conhecimento”, observou-se que os Estados Unidos apresentaram frequência de prescrição de adrenalina autoinjetável muito superiores aos demais países pesquisados como primeira escolha para tratamento da anafilaxia e/ou processos alérgicos. Dada a diversidade de apresentação clínica da anafilaxia, as condutas podem variar na dependência da gravidade dos sintomas, conforme descrevem Ribeiro, Chong Neto e Rosario Filho (2017): a) Parada cardiorrespiratória: devem ser seguidas as recomendações do suporte avançado de vida (ACLS), utilizadas no presente período (DUFF et al., 2018). Especial atenção deve ser dada à manutenção da perveabilidade das vias aéreas superiores, pois, na presença do edema de glote, pode ser necessária a realização de cricotiroidotomia de emergência (Figura 7), tal intervenção deve ser realizada por profissional capacitado, habilitado e que possua respaldo legal. A seguir, o Quadro 3 ilustra algumas orientações que podem e/ou devem ser aplicadas, conforme recomendação do ACLS, mediante a necessidade de manutenção ventilatória de suporte às vítimas de anafilaxia, já que na presença de edema de glote, tal função poderá estar debilitada e induzir a presença de Parada Cardiorrespiratória (PCR), sendo um segundo evento de maior criticidade. QUADRO 3 – PARTICULARIDADES DA PCR NA ANAFILAXIA Na PCR por anafilaxia, o ritmo mais frequente é AESP ou assistolia 1) Volume: Dois acessos vasculares de grosso calibre (preferencialmente abocath 16, 14), para que possa ser permitida a infusão rápida de solução endovenosa (soro fisiológico – 4 a 8 litros). 2) Epinefrina (adrenalina) em altas doses: Prescrição de 1 a 3 mg, inicialmente. Doses crescentes: 3 a 5 mg/de 3-5 a minutos. Infusão contínua após. 3) Via aérea avançada, se possível, e avaliar a possibilidade se ritmo chocável. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 14 4) Tratar causa reversível - Anti-histamínicos*: Difenidramina: 25 a 50 mg Ev. Ranitidina: 50 mg Ev. 5) Tratar causa reversível - Corticosteroide*: É prudente não encerrar os esforços precocemente, haja visto a idade jovem da maioria dos pacientes. * Não existem evidências para recomendar anti-histamínicos ou esteroides na PCR, entretanto as literaturas complementares recomendam a administração. b) Suporte inicial: oxigênio nos casos com envolvimento respiratório, acesso venoso, fluídos isotônicos por via endovenosa e elevação de membros inferiores para controle inicial da pressão arterial. c) Adrenalina: principal tratamento, deve ser prescrita o mais precocemente possível após o reconhecimento do quadro (Quadros 4 e 5). Alguns trabalhos apontam as seguintes diretrizes para o uso da adrenalina são: • Intervalos de aplicação da adrenalina (empírico): cada 5, 10 ou 15 minutos, norteados genericamente pela gravidade do quadro clínico, nível de resposta à aplicação anterior e pelo aparecimento de efeitos colaterais desse medicamento. • Aplicação da adrenalina próxima ao local de injeção de substâncias implicadas na anafilaxia, o uso de torniquetes não é recomendado. • Doses recomendadas e as concentrações de adrenalina (Quadro 5). QUADRO 4 – PAPEL DA ADRENALINA NA ANAFILAXIA A adrenalina é a principal medicação. A via de administração principal é a intramuscular em vasto lateral da coxa. Deve ser fornecida o mais precocemente possível. As doses recomendadas para anafilaxia são diferentes da PCR. Não há contraindicação absoluta ao uso da adrenalina na anafilaxia. FONTE: O autor QUADRO 5 – DOSE DE ADRENALINA NA ANAFILAXIA Via Adultos Crianças SC/IM Concentração: 1:1.000 (ampola padrão de 1 ml)Dose: 0,3 a 0,5 mL (0,3 a 0,5 mg) Concentração: 1:1.000 Dose: 0,01 mL/kg/dose Máximo: 0,3 mL EV Concentração: 1:10.000 (1 ampola padrão de 1 mL diluída em 9 mL de soro fisiológico) Dose: 0,1 a 0,3 mL em infusão lenta (5 minutos) Concentração: 1:10.000 Dose: 0,01 mL/kg/dose Máximo: 0,3 mL FONTE: O autor FONTE: O autor TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 15 d) Anti-histamínicos: bloqueadores H1 e H2 são recomendados (Quadro 6). • Adultos que se apresentam com quadro alérgico agudo: aadministração de ambos os bloqueadores determina, ao menos, uma resolução mais rápida da urticária, sem, entretanto, haver diferenças no controle da pressão arterial ou de outros sintomas. • Via de administração: parental ou oral, embora a via parental nos pareça mais indicada no contexto de emergência, a difenidramina é o bloqueador H1 mais estudado, embora qualquer outro possa ser utilizado. QUADRO 6 – DOSES DE ANTI-HISTAMÍNICOS (H1 E H2) NA ANAFILAXIA Adultos Difenidramina EV/IM: 25 a 50 mg até de 4/4 ou 6/6 horas. Ranitidina EV: 50 mg até 8/8 horas. Crianças Difedramina IM/EV: 1 a 2 mg/ kg/dose até de 4/4 ou 6/6 horas (máximo de 75 mg/dose). Ranitidina EV: 1,5 mg/kg/dose até de 8/8 horas. FONTE: O autor e) Corticosteroides (Quadro 7): são indicados empiricamente, em especial com o objetivo de atenuar possíveis reações tardias (o que nem sempre parece ser bem-sucedido) e no tratamento do broncoespasmo. QUADRO 7 – DOSES DE CORTICOSTEROIDES NA ANAFILAXIA Via Adultos Crianças Ev (Endovenoso) Metilprednisolona: 125 mg, até 6/6 horas. Pode-se usar doses equivalentes de outros corticoides. Metilprednisolona: 1 a 2mg/ kg/dose até 6/6 horas. Máximo de 125mg/dose. Pode-se usar doses equivalentes de outros corticoides. Oral Prednisona: 1 mg/kg/dose (40 a 60 mg) até 6/6 horas. Prednisona: 1 a 2mg/kg/dose até 6/6 horas. Máximo de 75 mg/dose. FONTE: O autor f) Outros medicamentos: podem ser indicados em situações especiais: UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 16 • Broncoespasmo: broncodilatadores inalatórios. • Drogas vasoativas em infusão contínua: dopamina e noradrenalina, em vítimas/doentes com hipotensão refratária ao tratamento inicial. • Glucagon (Quadro 8): opção de tratamento para os casos pouco responsivos à adrenalina, particularmente por uso prévio de β-bloqueadores. O glucagon possui propriedades inotrópicas e cronotrópicas positivas e efeitos vasculares independentes dos receptores β, além de induzir o aumento de catecolaminas. Seus efeitos colaterais mais comuns são náuseas, vômitos e hiperglicemia. QUADRO 8 – DOSES DE GLUCAGON NA ANAFILAXIA Adultos IM/EV: 1 a 2 mg de 5/5 minutos. EV: 1 a 5 mg em 5 minutos, contínua de 5 a 15µg/minuto. Crianças EV: 20 a 30 µg/kg em 5 minutos (máximo de 1 mg), seguido de infusão contínua de 5-15 µg/minuto. FONTE: O autor FIGURA 7– CRICOTIROIDOTOMIA Cricotireoidotomia Traqueostomia dilacional percutânea Local de traqueostomia cirúrgica Cartilagem da tireoide Membrana cricotireóidea Cartilagem cricoide Espaço subcoracoide Primeira cartilagem traqueal Segunda cartilagem traqueal FONTE: Adaptada de <https://o.quizlet.com/6VLeBz0aeAFHlHNSizIhkw_b.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020. 4 EMERGÊNCIAS ALÉRGICAS Como já sabemos, a anafilaxia é uma condição clínica imunoalérgica súbita, apresentada por alguns indivíduos quando expostos a determinados alimentos, medicamentos, picada de insetos e fatores físicos, podendo acarretar situação ameaçadora para a vida. Determina alterações respiratórias (broncoespasmo, TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 17 edema de laringe), cardiovasculares (hipotensão, arritmias, isquemia miocárdica), cutâneas (urticária, angioedema, rubor) e/ou gastrintestinais (náusea, cólica abdominal, vômito e diarreia) agudas e graves, que necessitam de tratamento imediato. Apesar de não serem imunomediadas, as reações anafilactoides serão inclusas neste grupo por apresentarem características fisiopatológicas e clínicas muito semelhantes. A anafilaxia é e pode ser considerada como uma doença dos tempos modernos. Em geral, a anafilaxia ocorre em ambientes comunitários, onde não há profissionais da saúde. Isso fortalece a necessidade de treinamento do público leigo, para suporte básico de vida, bem como conscientização e orientações no sentido da prevenção. Para tanto, cabe sinalizar aqui a sua epidemiologia, etiologia (causas) e fisiopatologia (como a doença ocorre), quais os mediadores imunológicos (de defesa) são recrutados frente ao agente gerador da reação alérgica, dentre outras informações. 4.1 EPIDEMIOLOGIA A alergia alimentar responde por mais da metade dos casos de anafilaxia em crianças que procuram o serviço de emergência. Acredita-se que a prevalência de anafilaxia induzida por alimentos nos EUA alcance a marca aproximada de 29 mil internações e 150 mortes. Pacientes que experimentaram manifestações alérgicas quando expostos anteriormente a esses alimentos e aqueles que apresentam antecedentes pessoais de asma, possuem maior risco de desenvolver anafilaxia. Alguns indivíduos toleram determinados alimentos, mas quando se submetem à prática de exercícios apresentam anafilaxia, provavelmente pela ocorrência de incremento do fluxo mesentérico, com maior absorção dos antígenos (SARINHO; LINS, 2017). Sarinho e Lins (2017) descrevem que alguns achados epidemiológicos interessantes revelam que a anafilaxia acomete principalmente crianças e adolescentes. É mais comum em ambiente comunitário, quando comparado ao hospitalar. As ocorrências são mais frequentes na população com maior poder aquisitivo; até os 15 anos de idade, verifica-se predileção pelo sexo masculino, mas após essa idade, passa a haver mais predominância no sexo feminino. Os alimentos estão mais relacionados aos casos em jovens, enquanto picada de inseto, medicamentos e contrastes acometam principalmente a meia-idade e os idosos. No Brasil, não há informações estatísticas sobre esse tipo de reação. Se for possível inferir dados por analogia, pode-se dizer que, no Brasil, a incidência de choque anafilático apresenta valores semelhantes aos americanos, principalmente se forem consideradas a livre venda de medicamentos e a falta de informação nas embalagens dos alimentos. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 18 4.2 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA DA ANAFILAXIA EM CONDIÇÕES CRÍTICAS As reações anafilactoides basicamente são semelhantes do ponto de vista clínico quando comparado às reações anafiláticas, embora a fonte geradora (etiologia x causa) possa ser distinta, não relacionada especificamente à presença da IgE. No entanto, cabe destacar que ambas são potencialmente graves e se caracterizam pela presença de broncoconstrição alveolar (unidade funcional do pulmão – estrutura que permite a troca gasosa), repercuções importantes do ponto de vista hemodinâmico como a hipotensão e choque (ausência de perfusão e/ou irrigação de sangue em estruturas nobres como o próprio coração, cérebro, estruturas renais, dentre outros, bem como, ser fonte ocasionadora de óbito em alguns casos. Apesar de sermos repetitivos, torna-se importante enfatizar que para que ocorra a anafilaxia é preciso que a pessoa tenha contato prévio com o antígeno como já sabemos. O contato subsequente com o agente sensibilizador desencadeia todo esse processo reacional por ser mediada pela imunoglobulina E (IgE), que frente a “proteínas e agentes estranhos” forma complexos antígeno-anticorpos e induz liberação de mediadores inflamatórios de proteção tentando impedir a progressão do agente agressor porém, o status de sensibilidade começa ser percebido conforme já apontado anteriormente (SARINHO; LINS, 2017). A Figura 8 ilustra o que ocorre quando um antígeno entra em contato com o corpo humano, ativando e/ou recrutando células de defesa a começar pelos macrófagos, seguidos pelos linfócitos e liberação dos mediadores químicos demais eventos conforme exposto na ilustração. TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 19 FIGURA 8 – CRICOTIROIDOTOMIA MECANISMO DE ATIVAÇÃO DO MASTÓCITO (REAÇÃO DE HIPERSENSIBILIDADE) FONTE: <https://docplayer.com.br/docs-images/91/107277987/images/16-0.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 20 A histamina e a prostaglandina são responsáveispelos principais eventos fisiológicos observados, como: aumento da permeabilidade vascular, vasodilatação, depressão miocárdica e contração da musculatura lisa, resultando em queda da pressão arterial, angioedema, urticária, náuseas, vômitos, diarreia e dor abdominal e sibilância. Ainda que as manifestações anafiláticas sejam precoces e graves, a liberação maciça de mediadores inflamatórios não costuma ser persistente e, em geral, a recuperação é completa (SARINHO; LINS, 2017; RIBEIRO, CHONG NETO, ROSARIO FILHO, 2017). Os mecanismos imunológicos envolvidos na anafilaxia e relação anafilactoide implica e se relaciona aos seus efeitos sobre os diferentes órgãos e sistemas. O Quadro 9 correlaciona os mediadores inflamatórios com os efeitos fisiológicos e achados clínicos presentes na anafilaxia. As causas mais comuns de anafilaxia nas crianças diferem dependendo da população analisada. As reações observadas no ambiente hospitalar, em geral, relacionam-se aos medicamentos e ao látex, enquanto na comunidade a ingestão de alimentos responde por aproximadamente metade dos casos de anafilaxia nos países ocidentalizados, no entanto, leite, ovos, cereais, legumes, verduras, frutas, aditivos alimentares, carnes, peixes e frutos do mar, dentre outros, também estão associados a manifestações alérgicas graves (RIBEIRO; CHONG NETO; ROSARIO FILHO, 2017). QUADRO 9 – RELAÇÃO ENTRE MEDIADORES INFLAMATÓRIOS DA ANAFILAXIA E SEUS EFEITOS Mediadores Efeitos fisiológicos Manifestações clínicas FAP Aumenta a permeabilidade vascular Angioedema Prostaglandinas Vasodilatação periférica Urticária Leucotrienos Vasoconstrição coronariana Edema de laringe Triptase Contração da musculatura lisa Hipotensão Cininas Irritação dos nervos sensoriais Rubor Heparina Ativação de outras vias da inflamação Isquemia miocárdica Quimase Ativação de outras vias da inflamação Sibilância Fator de necrose Recrutamento de células inflamatórias Náuseas,vômito, diarreia, dor abdominal Interleucina-1 (IL-1) Ativação das vias vagais Prurido FONTE: O autor Ainda dentre as manifestações IgE-mediadas, destacam-se picadas de insetos (Hymenoptera), látex, medicamentos, materiais biológicos, inalantes e alérgenos ocupacionais. Entre os fatores etiopatogênicos não IgE-mediados, podemos citar fatores físicos, etanol e certos medicamentos. Há ainda as causas idiopáticas, que, em alguns estudos, chegam a somar 75% dos casos descritos (FERREIRA et al., 2015). O Quadro 10 descreve os principais fatores desencadeantes do processo, relacionando-os aos mecanismos de reação alérgica envolvidos. TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 21 QUADRO 10 – MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA ANAFILAXIA Órgãos e sistemas Sinais e sintomas Trato respiratório alto • Rinite o congestão de mucosa nasal o prurido nasal o rinorreia o espirros • Edema de laringe, supraglótico e glótico o dispneia o estridor o rouquidão o sialorreia o sensação de sufocamento Trato respiratório baixo • Broncoespasmo o tosse o roncos e sibilos o taquipneia o tiragem o desconforto respiratório o dispneia o cianose Cardiovascular • Colapso circulatório o tontura o fraqueza generalizada o síncope o dor torácica isquêmica o taquicardia o hipotensão o má perfusão o choque o incontinência • Arritmias o iguais às anteriores o palpitações o alterações do ECG: taquicardia, desnivelamento de ST, alterações de VD, extrassístoles atriais e ventriculares, ritmo nodal, FA o parada cardíaca o ausência de pulso o alterações ECG: FV, assistolia UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 22 Pele e mucosa • Urticária o prurido o formigamento o ardor o eritema • Angioedema o edema de extremidades não pruriginoso o edema perional, língua e úvula o edema periorbital o edema não papuloso e geralmente assimétrico Olhos • Conjuntivite o prurido ocular o lacrimejamento o olhos vermelhos Gastrointestinal o disfagia o cólicas abdominais o náuseas e vômitos o diarreia (raramente sanguinolenta) o teresmo Sistema nervosa central o ansiedade, irritabilidade, letargia, confusão o tontura, desorientação o tremor o cefaleia, aura o sensação de morte iminente o síncope o convulsão (rara) o coma (tardio) Hematológico • Fibrinólise e coagulação intravascular disseminada o sangramento mucoso o equimose Geniturinário o dor pélvica por aumento do tônus uterino o sangramento vaginal o incontinência urinária FONTE: O autor 4.3 ACHADOS CLÍNICOS O diagnóstico da alergia depende de obtenção de história minuciosa sobre mudança e hábitos alimentares, de meio ambiente e atividades físicas e de exame físico detalhado, que inclui exposição completa da pele. Os sinais e sintomas podem variar de moderados a intensos, conforme descrevem Sarinho e Lins (2017), podendo ser um diferencial para interpretar o grau de acometimento: TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 23 • Urticária aguda: é a manifestação clínica mais frequente, caracteriza-se pela presença de máculas ou placas eritematosas, isoladas ou disseminadas, altamente pruriginosas que podem ser acompanhadas de sensação de dor ou queimação. • Eritema multiforme: acomete pele e mucosa (essa última, na forma mais grave – síndrome de Stevens-Johnson), de forma autolimitada. Tipicamente, surgem máculas planas eritemato-pruriginosas distribuídas simetricamente nas extremidades, de bordas bem delimitadas e centro claro (forma de alvo). Na evolução, tornam-se elevadas e, em 2 a 3 dias, a porção central da lesão volta a ficar mais pálida e plana, podendo surgir pápulas ou vesículas ali. A combinação das diversas etapas dessas afecções caracteriza o eritema multiforme, que pode perdurar por uma semana e ressurgir em surtos por 2 a 3 semanas. • A síndrome de Stevens-Johnson: é uma forma rara e grave do eritema multiforme que acomete também membranas mucosas (olhos, vias aéreas superiores, cavidade oral, esôfago, trato digestivo e mucosa anogenital), com surgimento de bolhas que se rompem e expõem camadas mais profundas da pele. Envolve face, tronco e membros e é acompanhada de febre, toxemia e manifestações sistêmicas (úlcera de córnea, uveíte, panoftalmite (Figura 9), bronquite, pneumonite, miocardite, hepatite, enterocolite, poliartrie, hematúria, necrose tubular aguda, resultando em insuficiência renal. A erosão causada na pele favorece perdas sanguíneas e infecção bacteriana. O eritema multiforme tem sua patogênese pouco conhecida, mas trata-se de reação de hipersensibilidade desencadeada por drogas, doenças infecciosas (viroses por Herpes simples, Mycoplasma pneumoniae) e doenças neoplásicas. • Angiodema: é uma forma de inchaço que envolve o tecido cutâneo profundo e subcutâneo; não apresenta aspecto eritematoso e tampouco é pruriginoso, mas pode ser doloroso ou urticante. Em geral, acompanha a urticária, mas pode se manifestar de forma isolada. Envolve principalmente a região palpebral, língua, lábios, úvula e extremidades. É mais grave que a urticária, porque pode comprometer a via respiratória, provocando obstrução aguda. • Anafilaxia: é a forma mais exacerbada, aguda e grave de alergia, desencadeada pela exposição ao antígeno que envolve múltiplos órgãos e sistemas. Tem instalação rápida, se não diagnosticada e tratada de forma precoce e agressiva pode ameaçar a vida. Os sintomas surgem, em geral, entre 5-10 minutos após a exposição ao fator desencadeante, mas podem ocorrer algumas horas após. Entre 1 a 30% dos indivíduos pode experimentar um segundo surto, cuja intensidade está relacionada ao primeiro. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 24 FIGURA 9 – PANOFTALMITE Descrição: Irritação (Hiperemia versus vermelhidão na conjuntiva), associado a lacrimejamento. FONTE: <https://www.adenovir.com/wp-content/uploads/2015/01/about-ekc-300x278.jpg>.Acesso em: 17 abr. 2020. As manifestações mucocutâneas como urticária, prurido, eritema e angioedema, congestão conjuntival e nasal e rinorreia são as mais frequentes, no entanto, o uso prévio de anti-histamínico pode mascarar o quadro e/ou os sintomas. O acometimento do trato respiratório também é bastante prevalente (aproximadamente 50% dos casos); tosse, taquipneia, dispneia, sensação de engasgo, rouquidão, estridor e chiado promovido pelo broncoespasmo são preditores de gravidade. Os sintomas cardiovasculares podem aparecer em aproximadamente 25% dos casos, na forma de taquicardia, má perfusão periférica e central, hipotensão, choque hipovolêmico e arritmias cardíacas, estas últimas menos comuns. O envolvimento neurológico manifesta-se na forma de aura, irritabilidade, letargia, desorientação, cefaleia, tontura, tremor, síncope ou convulsão. Algumas crianças maiores queixam-se da sensação de morte iminente. Cólicas abdominais, náuseas, vômito e diarreia retratam o envolvimento do trato gastrointestinal, o que acontece em aproximadamente 30% dos pacientes (CHAMBEL; ANTUNES; PRATES, 2011). TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 25 4.4 DIAGNÓSTICO O diagnóstico da anafilaxia, como já sabemos, é fundamentado em aspectos clínicos. As manifestações alérgicas menos graves, em geral, melhoram espontaneamente, o que retarda a busca por atendimento médico. Os estudos têm demonstrado que, de modo geral, os clínicos subestimam os achados e confundem apresentações menos intensas de anafilaxia com relações alérgicas, oferecendo tratamentos inadequados ou demasiadamente demorados e tornando o prognóstico menos favorável. Sempre que possível, o médico deverá obter informações rápidas e objetivas (incluindo detalhes das etapas que acontecem o evento), no tocante aos sinais e sintomas, tempo de surgimento, busca do agente desencadeante (medicamentos, exames ou terapias recente, introdução de novos alimentos na dieta, uso de produtos químicos, picadas de insetos, atividades físicas, doenças recentes) e antecedentes alérgicos da criança, bem como de seus familiares. A avaliação clínica na visão de Ribeiro, Chong Neto e Rosario Filho (2017), deve se iniciar pelos fundamentos da ressuscitação: A - Via aérea. B - Respiração. C - Circulação. D - Avaliação neurológica. E - Exposição e avaliação cefalopodal (da cabeça aos pés). 4.5 EXAMES COMPLEMENTARES Os exames complementares não são fundamentais, nem são empregados rotineiramente, mas podem confirmar a hipótese auxiliar nos eventos duvidosos. Dosagem sérica de histamina (elevação precoce e transitória, de pouca valia do ponto de vista clínico), triptase (elevação mais tardia e duradoura) e urinária de N-metil-histamina que apresentam valores acima dos basais, são consistentes com anafilaxia. Encontra-se em fase de pesquisa a utilização de marcadores da ativação mastócitos e basófilos (β-triptase, carboxipeptidase A3 do mastócito, quimase, FAP), como exames complementares capazes de auxiliar no diagnóstico. Os testes cutâneos (patch test – adesivo, prick test – punção) e a detecção de Ac-IgE no soro são úteis para o segmento ambulatorial, não sendo úteis nas situações de emergência. Cabe destacar que os testes cutâneos não são utilizados como rotina devido sua inviabilidade duvidosa quanto ao resultado e nem todos os serviços contam com o referido recurso (LOPES et al., 2019). UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 26 4.6 TRATAMENTO EM SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA (CRITICIDADE) O tratamento da anafilaxia objetiva diminuir os riscos de mortalidade imediata e prevenir a recorrência. Para isso, é preciso avaliar os riscos, tratar as comorbidades de forma eficiente, identificar e evitar os fatores desencadeantes do processo. A conduta inicial visa realizar rápida avaliação e intervenção do A B C do suporte básico: permeabilizar vias aéreas e garantir respiração e circulação sanguínea efetivas, além de observar as condições neurológicas, aspecto da pele e estimar o peso corpóreo (mais comumente em pediatria). Tão logo seja possível, providenciar monitorização cardiorrespiratória e aferição de dados vitais (DUFF et al., 2018). Identificar e afastar causas que eventualmente perpetuem o estímulo antigênico (medicamentos infundidos na veia, luvas de látex, ferrão ou picadas de insetos, roupas contaminadas, dentre outros). Crianças que apresentem manifestações clínicas menos intensas podem ser poupadas da oxigenoterapia, da obtenção do acesso venoso e da administração de epinefrina, mas devem permanecer sob vigilância médica (RIBEIRO; CHONG NETO; ROSARIO FILHO, 2017). Da mesma forma, apesar de já termos sinalizado anteriormente alguns pontos em relação ao tratamento e intervenções na anafilaxia, visamos potencializar um atendimento sequencial e suporte efetivo, enfatizamos a seguir, acerca de cada sistema que possa estar envolvido com o processo alérgico e recursos a serem usados conforme enfatizam os autores supracitados, são estes: • Via aérea: a permeabilidade da via aérea pode estar gravemente comprometida, em função do angioedema, e a equipe ou o socorrista deve estar preparado para identificar a presença de irregularidade respiratória, solicitar ajuda e realizar intubação se possuir respaldo legal para tal. O profissional mais habilitado deve realizar o procedimento, visto que o edema acentuado pode distorcer a anatomia da via superior, gerando impossibilidade da intubação. Dessa forma, está indicada a cricotireoidostomia. • Oxigênio: um gás essencial para a sobrevivência humana, deve ser ofertado de acordo com a necessidade e/ou grau da dificuldade respiratória da melhor forma, conforme tolerada pelo paciente/vítima (de preferência com máscara com reservatório, não reinalante). Nos casos graves, é necessário garantir suporte respiratório por meio de ventilação com bolsa autoinflável com reservatório de O2 (100%) (Figura 10) ou por ventilação mecânica. TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 27 FIGURA 10 – REANIMADOR MANUAL (Ambú®) FONTE: <http://www.tckmed.com.br/wp-content/uploads/2017/12/reanimador-manual-spur-ii- -tck.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020. • Circulação: manter o paciente em posição supina, com os membros inferiores elevados e obter acesso venoso (duas vias de grosso calibre), se possível, e se tiver dispositivos disponíveis para a infusão de fluidos e fármacos. O tratamento medicamentoso inicial consiste em administrar epinefrina intramuscular, bem como estar com acesso disponível para administrar demais fármacos, se ocorrer alguma intercorrência clínica. • Epinefrina: é o fármaco de primeira escolha e deve ser administrada tão logo seja feita a suspeita diagnóstica de anafilaxia. Quando usada reduz, de forma drástica, as manifestações clínicas da anafilaxia. A evolução desfavorável e a mortalidade relacionadas à doença têm sido atribuídas à demora no reconhecimento dos sintomas e na administração da epinefrina. A dose inicial preconizada é de 0,01 mg/kg (máximo de 0,5 mg), de preferência por via intramuscular (IM), na face anterolateral da coxa (absorção mais rápida e níveis plasmáticos mais elevados, quando comparados ao uso subcutâneo). A administração por via endovenosa pode ser utilizada, principalmente nas hipotensões graves e na parada cardiopulmonar refratária ao uso de epinefrina IM e volume. Uma segunda dose pode ser necessária nas formas mais graves ou na demora na recuperação, pode ser aplicada após 5 a 15 minutos. O fornecimento de epinefrina contínua em baixas doses permite titulação do fármaco, o que torna seu uso mais seguro. Caso não ocorra melhora significativa após a aplicaçãoda segunda dose de epinefrina, deve-se iniciar infusão de fluido de ressuscitação. • Fluido endovenoso: deve ser administrado sempre que houver resposta insatisfatória à aplicação da epinefrina, hipotensão arterial à admissão e hipotensão ortostática. A solução salina 0,9% é preferível e deve ser infundido em bolus (de forma rápida) na dose de 10-20 mL/kg, sob pressão, em alguns minutos e repetidas vezes, se necessário, torna-se importante tentar buscar a informação se a vítima é ou possui cardiopatia dilatada (coração grande). Pacientes portadores de cardiopatia ou nefropatia devem ser cuidadosamente monitorados. A literatura atesta de que não há diferenças significativas quanto à infusão de coloides, em comparação com os cristaloides. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 28 • Anti-histamínicos: devem ser administrados a todos os pacientes que apresentam anafilaxia. No entanto, são considerados tratamento de segunda linha e só podem ser aplicados após a injeção de epinefrina. A combinação de anti-histamínico antagonista H e anti-histamínico antagonista H2 mostrou-se mais efetiva quando comparada ao uso isolado. O fármaco dessa categoria e de escolha é a difenidramina, cuja dose de ataque é de 1-2 mg/kg (máx. 50 mg), administrado por via Ev, lentamente (manutenção de mg/kg/dia, 6/6h; dose Max. 300 mg/dia) e deve ser associada à ranitidina 1 mg/kg,EV, infundida em 10-15 minutos (manutenção de 2-4 mg/kg/dia), 8/8h; dose máxima de 200mg/ dia). • Broncodilatadores: terapia inalatória por nebulização com broncodilatadores como o fenoterol [0,25 mg (1 gota/3kg); máximo 10 gotas, em 3 a 5 ml de soro fisiológico] ou albuterol (15mg/h), fazem parte das medicações de segunda linha e devem ser empregadas quando houver broncoespasmo associado. • Corticosteroide: não é útil no tratamento de anafilaxia aguda, mas baseado na experiência em previnir a fase tardia de reação IgE-mediada da asma pode ser utilizado com o objetivo de prevenir ou melhoras a reação bifásica. A administração de metilprednisolona na dose de 1-4 mg/kg/dia a 6/6h por 4 dias parece suficiente. Como a anafilaxia pode cursar com um segundo surto, a observação clínica se torna fundamental. Um período de 4-6 horas seria suficiente para a maioria dos pacientes, sendo necessário período mais longo para os casos graves. Quanto à alta hospitalar, o paciente e/ou familiar/acompanhante devem ser exaustivamente orientados quanto à recorrência dos sintomas e a necessidade de portar plano de ação com identificação pessoal, telefones de emergência, fatores precipitantes, sinais clínicos e tratamento. O paciente/vítima deve ser estimulado a procurar auxílio de profissionais da área da saúde, bem como profissional médico especialista em alergia, pela complexidade do evento e pela possibilidade de tratamento e cura. Em países de primeiro mundo como os Estados Unidos, aqueles que são sensíveis à presença de anafilaxia são orientados a portar dispositivos para autoaplicação de epinefrina, uma prática não adota aqui no cenário nacional. 5 HIPERTERMIA E/OU HIPERTERMIA MALIGNA A procura por serviços de atendimento em urgência e emergência, em decorrência da queixa de aumento da temperatura, é frequente nesses serviços e uma realidade. A maioria dos casos corresponde à febre, que decorre de processos infecciosas e/ou inflamatórios. No entanto, torna-se importante se ter em mente que o conceito de hipertermia difere do de febre e, a partir de então, investigar os diagnósticos diferenciais de ambas as síndromes, torna-se necessário quando esta é contínua e/ou manifesta irregularidades fisiológicas a aqueles que a experienciam como delírios, crises convulsivas, dentre outras manifestações. É preciso compreender melhor a fisiopatologia envolvida para que possa ter melhor noção acerca da sua terapêutica ideal, para correlacionar a causa ou fator gerador propriamente dito, responsável pela elevação da temperatura. TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 29 Sugerimos a leitura do trabalho nominado como Hipertermia maligna: aspectos moleculares e clínicos, o qual descreve alguns termos conceituais acerca da referida temática e aponta que é uma enfermidade farmacogenética, potencialmente letal, que acomete indivíduos geneticamente predispostos. Um trabalho com linguagem clara e pontual, a qual acreditamos que poderá ampliar o seu grau de entendimento a respeito do tema. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-70942012000600007. DICAS 5.1 INTRODUÇÃO AOS CONCEITOS DE HIPERTEMIA E HIPERTEMIA MALIGNA O termo hipertermia se caracteriza pela elevação da temperatura do corpo quando o organismo produz e/ou absorve mais calor do que consegue dissipar (eliminar). Tal evento se constitui e/ou se justifica do ponto de vista clínico como uma condição de emergência médica, a qual requer tratamento imediato para evitar complicações, dentre elas crise convulsiva e inclusive a morte. A temperatura do corpo humano dita como ideal e/ou fisiológica (normal), medida por meio da adaptação de termômetro nas axilas, é de 36,5 °C. Temperatura corporal acima do valor anteriormente mencionado, mas inferiores a 40 °C, em geral, não representam risco de morte, mas predispõem as pessoas a condições de metabolismo mais acelerado, como maior consumo de oxigênio e de energia. Em casos em que a temperatura corporal eleva-se a valores superiores a 40 °C, podem ser potencializado maiores probabilidade de haver a presença de manifestações colaterais como crises convulsivas. A hipertermia pode ser também usada como forma de tratamento médico para determinadas doenças, através de sua indução por meio de medicamentos ou utilização de dispositivos médicos. Já com relação à Hipertermia Maligna (HM), no meio clínico, o referido termo é pouco difundido em se tratar de um evento associado a uma desordem do ponto de vista farmacogenética potencialmente fatal, atrelado ao uso de anestésicos inalatórios, relaxantes musculares despolarizantes (Succinilcolina) ou uma atividade física extrema (desacerbada) em ambientes com temperaturas elevadas, tornando-se, assim, gatilhos para desencadeamento um imenso acúmulo de cálcio (Ca2+) no interior da célula (mioplasma), o que leva a uma aceleração do metabolismo e atividade contrátil do músculo esquelético (mioclonia). A verificação e/ou monitorização dos sinais vitais (SSVV) são fortes indicadores de como se encontra o estado de saúde do ser humano, possibilitando- nos realizar interpretações acerca da garantia das funções circulatórias, respiratória, neurológicas e endócrinas. Tais informações podem nos auxiliar e servir como um mecanismo de comunicação universal sobre o estado de pessoas UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 30 que se encontram adoecidas e da gravidade da sua doença, a temperatura é um importante parâmetros. Esses parâmetros, medidos de forma seriada, contribuem para que o enfermeiro identifique os diagnósticos de enfermagem avalie as intervenções implementadas e tome decisões sobre a resposta do paciente à terapêutica. A seguir, encontram-se disponíveis no Quadro 11, os parâmetros ideais de temperatura no corpo humano, no Quadro 12, encontram-se disponíveis alguns parâmetros relacionados aos termos aplicados acerca da temperatura devido as suas oscilações. Há várias formas de se aferir a temperatura: axilar, retal, oral, esofágica, vaginal e membrana timpânica. Mais comumente na prática clínica, devido a sua acessibilidade, a mais utilizada é a temperatura axilar (Figura 11) (CORREIA; SILVA; SILVA, 2012). QUADRO 11 – TEMPERATURA = PADRÃO Axilar 36 – 37 °C Inguinal 36 – 37 °C Oral 36,5 – 37,5 °C Retal / Vaginal 37 – 37,7 °C Central (Venoso / Arterial/ Esofágico) 37,2 – 38 °C FONTE: O autor QUADRO 12 – TEMPERATURA = TERMOS E IRREGULARIDADES Hipotermia ≤ 35,4 °C Afebril (Normal vs Esperado vs Fisiológico) 35,5 – 37 °C Febril ou Subfebril 37,1 – 37,7 °C Febre 37,8 – 38,9 °C Pirexia 39 – 40 °C Hipertermia (Hiperpirexia) ≥ 41 °C FONTE: O autor TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 31 FIGURA 11 – AFERIÇÃO DA TEMPERATURA AXILAR FONTE: <https://www.farmaciadapenha.pt/uploads/photologue/photos/axila.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020. O local que mais representaria a temperatura real de um indivíduo seria aquela proveniente da medição do sangue venoso e/ou arterial, porém, devido à necessidade da invasibilidade na corrente sanguínea, é utilizada apenas em setores clínicos específicos como UTI, bem como na prática se utiliza a temperatura esofágica através de transdutor, o qual é inserido por meio da cavidade nasal ou oral, até ao nível (Altura) do coração por ser a que mais se aproxima da temperatura sanguínea (Figura 12 e Figura 13). FIGURA 12 – SENSOR PARA AFERIÇÃO DE TEMPERATURA ESOFÁGICA FONTE: <https://bit.ly/2ROlWzT>. Acesso em: 17 abr. 2020. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 32 FIGURA 13 – POSIÇÃO DO SENSOR PARA AFERIÇÃO DE TEMPERATURA ESOFÁGICA Energia de ultrassom de calor sob pressão Esôfago Movimento retrativo FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/2wKnB22>. Acesso em: 17 abr. 2020. Cabe destacar que essa conduta (aferição da temperatura sanguínea e esofágica) é aplicada em setores de alta complexidade como Unidades de Terapia Intensivas em pacientes/clientes que se encontram criticamente enfermos, e por existirem nesses cenários, monitores multiparâmetros os quais disponibilizam várias informações – parâmetros como Pressão Arterial Média (PAM), Pressão Venosa Central (PVC), Saturação Venosa de Oxigênio SvO2, dentre outros. Como os pacientes consistentes normalmente toleram menos o cateter nasofaríngeo, para monitorização da temperatura esofágica, está reservado para os inconscientes. A temperatura retal fornece, em segundo lugar, os resultados mais fidedignos, sendo geralmente alguns décimos de graus centígrados superior à temperatura sanguínea. A temperatura vaginal é, teoricamente, idêntica a retal (Figura 14). TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 33 FIGURA 14 – ADAPTAÇÃO DO BULBO DO TERMÔMETRO (PARTE DE METAL DO INSTRUMENTO) NA REGIÃO ANAL Reto Ponta de prata do termômetro digital Ânus FONTE: Adaptada de <http://nextews.com/images/17/26/17268d3870360ea5.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020. A temperatura oral não é um bom indicador de temperatura interna e não pode ser aferida em pacientes inconscientes, confusos, desorientados, que estejam apresentando agitação psicomotora ou vômitos, porém tem de 0,5 a 1,5 °C abaixo da temperatura retal. Quanto às temperaturas timpânica, estas não devem ser utilizadas em pacientes hipertérmicos, pois há poucas evidências de que estejam apropriadas e clinicamente úteis (SIMÕES; MARTINO, 2007; ÁLVAREZ et al., 2017). 5.2 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA A temperatura corporal é o resultado do equilíbrio entre a produção e a dissipação do calor. Para que ocorra tal equilíbrio, o núcleo pré-óptico do hipotálamo anterior e o hipotálamo posterior assumem o papel da termorregulação. Em resposta ao aumento da temperatura corporal, há ativação de fibras eferentes do sistema nervoso autônomo, levando à vasodilatação cutânea – que dissipa o calor por convecção, e aumento da sudorese – com dissipação pela evaporação. Além disso, no próprio hipotálamo ocorre controle por meio de receptores da pele e no próprio centro regulador da temperatura para que não ocorra hipotermia. Conceitos importantes são de hipertermia e o de febre. Embora sejam fisiologicamente distintos, é quase sempre difícil de diferenciá-los clinicamente (HALL; GUYTON, 2017). UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 34 Hall e Gayton (2017) mencionam que a febre é a elevação da temperatura corpórea que ocorre por aumento da temperatura-alvo, após o ajuste realizado no termostato hipotalâmico (centro regulador da temperatura) excedendo a variação normal ao longo do dia. Para manter uma temperatura mais elevada, o organismo lança mão de mecanismos que conservam o calor, como a vasoconstrição periférica, e que produzem calor, como calafrios e o aumento das atividades metabólicas. Com relação à hipertermia, essa é caracterizada pela falência dos mecanismos periféricos em corrigir (ajustar) o aumento da temperatura corporal, podendo ser causada pela produção metabólica exagerada e/ou excessiva de calor corpóreo, influenciada pelo calor excessivo do ambiente ou pela dissipação prejudicada de calor (uso de muitas roupas, por exemplo). Em geral, os centros reguladores de temperatura no hipotálamo são impactos, porém a síndrome hipertérmica também pode ser causada, mais raramente, por distúrbios da função hipotalâmica, como em alguns casos de encefalite, sarcoidose ou outras infecções granulomatosas (uma espécie de distúrbio de imunodeficiência primária que envolve defeitos nas células fagocíticas). 5.3 ACHADOS CLÍNICOS Para facilitar a abordagem algumas perguntas podem ser realizadas na avaliação de um paciente com hipertermia, por exemplo: O paciente está hipertérmico ou febril? Frente a um paciente com suspeita de hipertermia ou febre, é fundamental a aferição da temperatura corporal. Apesar de ser difícil, em muitos casos, diferenciar hipertermia de febre, uma história minuciosa é fundamental para o diagnóstico. Deve-se sempre lembrar que a febre é muito mais comum do que hipertermia, sendo, na prática, um diagnóstico de exclusão. Uma forte suspeita de quadro infeccioso e/ou inflamatório fortalece a hipótese de uma síndrome febril. Na febre, o paciente/cliente apresenta vasoconstrição periférica, piloereção (os pelos do corpo podem ficar arrepiados), calafrios e alteração no comportamento (como querer usar agasalhos ou cobertores para aumentar tanto a produção quanto a conservação de calor – resposta de defesa do corpo humano). Já na hipertermia, o hipotálamo estimula o sistema nervoso autônomo, promovendo sudorese e vasodilatação cutânea, de forma a reduzir a temperatura corporal. Como é possível identificar a causa da hipertermia? Os dados de história desempenham um papel fundamental na investigação da etiologia da síndrome hipertérmica. É importante questionar o uso prévio de drogas ilícitas como cocaína e de outros medicamentos ou substâncias (Quadro 13), para diagnosticar, por exemplo, a síndrome TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 35 neuroléptica maligna ou a síndrome serotoninérgica, a qual se caracteriza por um conjunto de sintomas resultante da estimulação excessiva de receptores serotoninérgicos centrais e periféricos, caracterizada pela tríade de sintomas: alteração do estado mental, anormalidades neuromusculares e hiperatividade autonômica. A exposição a agentes anestésicos sugere o diagnóstico de hipertermia maligna. O abuso e abstinência de álcool também estão relacionadas ao quadro de hipertermia, especialmente o delirium tremens, estado confusional breve, acompanhado de perturbações somáticas, que usualmente acomete usuários de bebidas alcoólicas gravemente dependentes dessa substância que quando há um interrupção de seu uso, o sujeito apresenta abstinência absoluta ou relativa, bem como tremores musculares e mal estar (CORREIA; SILVA; SILVA, 2012; HALL; GUYTON, 2017). A hipertermia também pode estar presente frente a uma resposta fisiológica ao exercício intenso. No entanto, a exposição a ambientes quentes e úmidos podem limitar a capacidade dos mecanismos compensatórios e, quando presentes, pode... pode serindicativo a hospitalização para acompanhamento. Endocrinopatias também podem levar a hipertermia, por exemplo, a tireotoxicose (atividade excessiva da glândula tireoide). Essa é a causa endocrinológica mais comum de hipertermia. Embora ocorra hipermetabolismo, a temperatura corporal está normal ou pouco elevada. Nas crises tireotóxicas, a temperatura retal pode ser superior a 40 °C. Assim como os hormônios tireoidianos, as catecolaminas também são termogênicas e a hipertermia pode ser grave durante uma crise de feocromocitoma. Outras endocrinoparatias que podem levar à hipertermia, geralmente leve, são a insuficiência adrenal, a hipoglicemia e o hiperparatireoidismo (MAIA et al., 2013). Quais os principais achados clínicos que podem estar presentes? A taquicardia é um achado bastante comum na hipertermia. Pacientes saudáveis normalmente toleram o estresse de uma hipertermia leve ou moderada, mas pacientes com cardiopatias podem ter isquemia, arritmia, hipertensão ou insuficiência cardíaca subsequentes. Também estão associadas à síndrome hipertérmica e taquipneia, a sudorese e as alterações da pressão arterial e do nível de consciência. Os achados típicos de cada síndrome serão descritos mais detalhadamente nessa unidade. Quais as complicações da síndrome hipertérmica? São complicações mais graves das síndromes hipertérmica: rabdomiólise (síndrome caracterizada por uma destruição das fibras musculares esqueléticas e que resulta na liberação dos constituintes intracelulares das fibras para a circulação sanguínea), insuficiência renal, respiratória, hepática, coagulação intravascular disseminada, convulsões, arritmia cardíacas, choque, coma e óbito. UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I 36 QUADRO 13 – CAUSAS DE HIPERTERMIA E RESPECTIVOS MECANISMOS FISIOPATOLÓGICOS Mecanismo fisiopatológicos Causas Produção excessiva de calor Hipertermia por exercício. Síndrome do golpe de calor relacionada ao exercício. Hipertermia maligna. Síndrome neuroléptica maligna*. Síndrome serotoninérgica. Catatonia letal. Tireotoxicose. Feocromocitoma. Intoxicação por salicilatos. Abuso de drogas (exemplo: cocaína e anfetaminas). Delirium tremens. Tétano, dentre outros. Dissipação reduzida de calor Síndrome do golpe de calor clássica*. Uso exagerados de vestimentas oclusivas. Desidratação. Disfunção autonômica. Uso de agentes anticolinérgicos. Síndrome neuroléptica maligna*, dentre outros. Disfunção do termostato hipotalâmico Síndrome neuroléptica maligna*. Acidentes vasculares cerebrais. Encefalites. Sarcoidose e infecções granulomatosas. Traumas, dentre outros. * Patogênese mista FONTE: O autor 5.4 EXAMES COMPLEMENTARES As alterações nos exames complementares são diversas e refletem as complicações da hipertermia. Segundo Batista, Martins e Pimenta (2018), não existem exames específicos para o diagnóstico das síndromes hipertérmica. Como alterações, podemos encontrar: • No hemograma: leucocitose com ou sem desvio à esquerda e plaquetopenia (diminuição das plaquetas) ou plaquetocitose (elevação das plaquetas). • Hipercalemia (aumento do potássio) ou hipocalcemia (diminuição do potássio) e hiperfosfatemia (aumento do fosfato) e aumento de creatinina fosfoquinase (CPK), pelo acometimento muscular. TÓPICO 1 — CHOQUE ANAFILÁTICO E HIPERTERMIA MALIGNA 37 • Alterações relacionadas à insuficiência renal e/ou hepática. • Na gasometria arterial: sinais de acidose metabólica ou mista, hipercarbia, hipoxemia e alcalose respiratória. • No coagulograma: alterações relacionadas à Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD) ou seja, predisposição à formação de coágulos, assim como aumento dos produtos de degradação do fibrinogênio e redução dos níveis séricos de fibrinogênio. • Na urina 1: mioglobinúria (traços de sangue na urina). • Na radiografia de tórax: sinais de edema pulmonar e de síndrome da angústia respiratória aguda. • No eletrocardiograma: arritmias, alterações de condução, alterações inespecíficas do segmento ST, sinais de isquemia ou de infarto do miocárdio. Os pacientes/clientes com acometimento do sistema nervoso central devem ser submetidos à tomografia computadorizada de crânio e a função liquórica para melhor avaliação dos estágios neurológicos e também descartar outros diagnósticos diferenciais. 5.5 TRATAMENTO Os passos mais importantes no manejo de hipertermia são o diagnóstico e o tratamento da causa de base (fonte geradora da ocorrência), além do fornecimento de suporte cardiovascular e metabólico. Convém lembrar que, muitas vezes, é importante realizar a diferenciação entre febre e hipertermia. Diferentemente dos pacientes febris, os hipertérmicos não tem benefício com agentes antipiréticos com atividade central (exemplos: dipirona, ácido acetilsalicílico, paracetamol ou ibuprofeno). O resfriamento por medidas físicas e exposição do corpo (retirada de excesso de roupas) é o mais adequado. Em todos os casos, orienta-se retirar roupas de cama e cobertores e utilizar ventiladores e compressas frias nas regiões onde há grandes vasos e artérias de forma alternada, como pescoço (A. carótidas), axilar (A. axilar), inguinal (A. Femoral). Para reduzir a temperatura mais rapidamente, podem-se utilizar colchões para indução da hipotermia ou recipiente com gelo. O uso de compressas com álcool é de eficácia constatada conforme sinaliza Salgado et al. (2016). Em situações de emergência, o tratamento também pode incluir administração intravenosa soluções geladas, lavagem gástrica ou enema com água gelada e até circulação extracorpórea. Seja qual for à medida adotada, é importante sempre monitorizar a temperatura do paciente para evitar a hipotermia durante a realização e/ou aplicação das intervenções. 38 Neste tópico, você aprendeu que: • Anafilaxia se refere a manifestações clínicas sistêmicas potencialmente graves, desencadeadas por reações mediadas pela imunoglobulina-E (IgE), após exposição a um determinado antígeno quando um indivíduo é previamente sensibilizado (alérgico). • As causas mais frequentes que desencadeiam alergia em humanos em suas percentagem são: alimentos (33% a 34%); veneno de insetos da ordem Hymenoptera (abelha de vespas, 14%); medicamentos (13 a 20%); exercício (associado a um aumento ou isoladamente, 7%); imunoterapia (aplicação terapêutica de alérgenos, 3%); látex e transfusão de plasma: foram responsáveis por menos de 1% dos casos; nenhuma causa identificada ou causa indefinida (19% a 37%). • A anafilaxia é um processo alérgico e, portanto, mediado por imunoglobulinas de classe E (IgE), caracterizando mecanismos de hipersensibilidade do Tipo I. Tais imunoglobulinas estariam ligadas a receptores específicos de alta afinidade, em células circulantes (basófilos) e células tipicamente teciduais (mastócitos), sendo produzidas em indivíduos a partir de um contato prévio e um antígeno (alérgeno – desencadeador da alergia). • Os sintomas se estabelecem em cerca de minutos a horas depois do contato com o alérgeno, sendo mais comuns na primeira hora subsequente. A rapidez com que os sintomas ocorrem guarda relação com a gravidade dos sintomas, ou seja, quanto mais intenso for percebido as manifestações iniciais, maior deverá ser a preocupação em se iniciar a profilaxia o mais brevemente possível. • A epinefrina (adrenalina) é o primeiro fármaco de escolha para tratamento da anafilaxia e/ou processos alérgicos, bem como é possível a aplicação de outros cuidados como: em caso de PCR por anafilaxia, o ritmo mais frequentes é AESP ou assistolia devem ser instituídos administração de volume (solução salina 0,9%); epinefrina (adrenalina) em altas doses; via aérea avançada, se possível, eavaliar a possibilidade se ritmo chocável; tratar causa reversível – anti- histamínicos; corticosteroide. • A verificação e/ou monitorização dos sinais vitais (SSVV) são fortes indicadores de como se encontra o estado de saúde do ser humano e nos possibilita realizar interpretações acerca da garantia das funções circulatórias, respiratória, neurológicas e endócrinas. Tais informações podem nos auxiliar e servir como um mecanismo de comunicação universal sobre o estado de pessoas que se encontram adoecidas e da gravidade da sua doença, a temperatura é um importante parâmetros. RESUMO DO TÓPICO 1 39 • A temperatura corporal é o resultado do equilíbrio entre a produção e a dissipação do calor. Para que ocorra tal equilíbrio, o núcleo pré-óptico do hipotálamo anterior e o hipotálamo posterior assumem o papel da termorregulação. Em resposta ao aumento da temperatura corporal, há ativação de fibras eferentes do sistema nervoso autônomo, levando à vasodilatação cutânea – que dissipa o calor por convecção, e aumento da sudorese – com dissipação pela evaporação. • Febre é a elevação da temperatura corpórea que ocorre por aumento da temperatura-alvo, após o ajuste realizado no termostato hipotalâmico (centro regulador da temperatura) excedendo a variação normal ao longo do dia. Para manter uma temperatura mais elevada, o organismo lança mão de mecanismos que conservam o calor, como a vasoconstrição periférica, e que produzem calor, como calafrios e o aumento das atividades metabólicas. • Hipertermia é caracterizada pela falência dos mecanismos periféricos em corrigir (ajustar) o aumento da temperatura corporal, podendo ser causada pela produção metabólica exagerada e/ou excessiva de calor corpóreo, influenciada pelo calor excessivo do ambiente ou pela dissipação prejudicada de calor (uso de muitas roupas, por exemplo). • Quanto ao tratamento da hipertermia, o resfriamento por medidas físicas e exposição do corpo (retirada de excesso de roupas) é o mais adequado. Em todos os casos, orienta-se retirar roupas de cama e cobertores e utilizar ventiladores e compressas frias nas regiões onde há grandes vasos e artérias de forma alternada, como pescoço (A. carótidas), axilar (A. axilar), inguinal (A. Femoral). Para reduzir a temperatura mais rapidamente, pode-se utilizar colchões para indução da hipotermia ou recipiente com gelo. O uso de compressas com álcool é de eficácia constatada. 40 1 Descreva o que é anafilaxia. 2 Qual é o primeiro fármaco de escolha frente a uma situação de anafilaxia? 3 Qual é o significado de febre? 4 Qual é o significado de hipertermia? AUTOATIVIDADE 41 TÓPICO 2 — UNIDADE 1 IRREGULARIDADE RESPIRATÓRIA E/OU INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA 1 INTRODUÇÃO O termo Insuficiência Respiratória Aguda (IRpA) refere-se à presença de incapacidade do sistema respiratório em realizar e/ou atender às demandas metabólicas de oxigênio do organismo (através do processo inspiratório) ou de eliminação do dióxido de carbônico (gás carbônico) através do processo expiratório, caracterizando-se, assim, como a instalação aguda do respectivo evento. Segundo Santana et al. (2012), é possível determinar dois grandes grupos de situações/doenças cujas manifestação é IRpA com características comuns: • IRpA do Tipo I ou hipoxêmica (PaO2 < 50 – 60 mmHg) ou Saturimetria abaixo de 90 – 88%. • IRpA do Tipo II ou hipercápnica (PaCO2 > 50 – 60 mmHg) com um pH < 7,20 – 7,25. Acerca de situações clínicas associadas ao desconforto respiratório ou falta de ar, se faz necessário destacarmos alguns pontos importantes acerca do referido evento, tais como: a insuficiência respiratória aguda (IRpA) é a incapacidade do sistema respiratório de atender às demandas metabólicas de oxigênio do organismo, podendo ser de instalação aguda; a reversão da insuficiência respiratória (falta de ar ou desconforto para respirar) depende do reconhecimento e correção de sua causa de base (fonte geradora do evento); um dos objetivos iniciais, se refere em corrigir rapidamente as alterações agudas que possam comprometer a troca gasosa (aproveitamento de oxigênio e eliminação do dióxido de carbono). Uma vez obtida estabilização clínica, a obtenção de história e exame físico mais completo e de exames diagnósticos complementares deve buscar a identificação da causa da insuficiência respiratória. Dentre os exames que possibilita se ter uma melhor noção de como está o processo de troca gasosa, se refere ao exame de Gasometria arterial e radiografia de tórax, os quais são indispensáveis e, em muitos casos, suficientes para apontar o diagnóstico correto, mas, em outros casos, exames mais complexos podem ser necessários. 42 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I Em ambientes extra-hospitalar (local onde a vítima de IRpA estará desprovida de recursos avançados para confirmação do evento), as pessoas ditas como leigas ou profissionais que prestam o primeiro atendimento, devem realizar avaliação sistêmica e identificar como está a qualidade do padrão respiratório, ou seja, avaliar se o paciente/cliente respira com limitação, se há expansibilidade torácica viável (se o tórax se eleva de forma igual), se há algo que está impedindo a presença da respiração ou expansão torácica e, se houver, identificar se existe a possibilidade e indicação de remoção, avaliar se há possibilidade de reposicionar a vítima (deixá-la parcialmente sentada e confortável por exemplo), dentre outros. Já com relação ao tratamento específico para tal evento, varia bastante conforme a etiologia (causa). A utilização de recursos avançados, tais como ventilação mecânica invasiva ou não invasiva, funciona como suporte ventilatório até que a causa de base seja corrigida. 2 FISIOLOGIA RESPIRATÓRIA O sistema respiratório é composto por diversos órgãos e seu funcionamento normal pode ser, resumidamente, explicado assim: o centro respiratório, localizado no bulbo do tronco cerebral, é sensível a variações da pressão parcial do gás carbônico (PCO2) de modo que elevações da pressão parcial sanguínea (PaCO2) deste gás estimulam, via nervo frênico, a contração do diafragma e musculatura acessória da respiração – essas últimas, em situações de aumento da necessidade de trabalho respiratório (em especial a musculatura intercostal via nervos intercostais). A contração do diafragma determina o aumento do volume da caixa torácica, com consequente geração de uma pressão pleural “negativa” (na realidade, subatmosférica), que gera o gradiente para o influxo aéreo aos pulmões. No final desta fase do ciclo respiratório (inspiração, que é ativa), observa-se a saída de ar dos pulmões (expiração), que normalmente ocorre de maneira passiva pelas forças de recolhimento elástico do pulmão (a energia potencial acumulada no final da inspiração transforma-se em cinética na expiração) a não ser em situações específicas em que haja limitação ao fluxo aéreo (obstrução ao fluxo), podendo ser necessário esforço expiratório (FONTE et al., 2011; SANTANA et al., 2012). Ainda com relação à fisiologia da respiração, levando-se em conta a interação com o sistema circulatório, o ciclo respiratório determina uma série de eventos hemodinâmicos interessantes de serem ressaltados. Durante a inspiração, o volume torácico determina uma tração radial nas estruturas torácicas (que estão todas “ancoradas”) de modo que o volume do átrio direito e da veia cava superior aumentam, diminuindo-se, assim, a pressão do sangue no interior desses compartimentos, o que gera aumento no gradiente de pressão para veia cava inferior e tributárias da veiacava superior, aumentando o retorno venoso. Se o coração tem função preservada, aumentos na pressão de enchimento determinam o aumento do volume ejetado (até um certo limite, conforme diafragma de Frankie- TÓPICO 2 — IRREGULARIDADE RESPIRATÓRIA E/OU INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA 43 Starling). Portanto o volume sistólico do ventrículo direito aumenta na inspiração (VERON et al., 2016; HALL; GUYTON, 2017). Acreditamos que tal colocação seja pertinente, se o paciente/cliente possuir algum acometimento cardiovascular associado a uma instabilidade respiratória, pois essas características já sinalizam certo teor de maior gravidade. O ar entra pelo nariz é filtrado, umedecido, aquecido, passa pela faringe, pela laringe, pela traqueia, pelos brônquios e, assim, chega aos pulmões e, posteriormente, aos alvéolos, onde ocorrem as trocas gasosas entre o pulmão em um evento chamado de hematose, migrando aos capilares pulmonares os quais se comunicam com os vasos sanguíneos que ao contato com a hemácia absorve o oxigênio e é levado as demais estruturas para perfundi-las, e após essa etapa faz o mesmo sentido contrário para que ocorra a eliminação de gás carbônico (dióxido de carbono). Para que tal processo aconteça na sua totalidade, ocorre dois eventos: a inspiração e a expiração. Na inspiração, é realizada a entrada de ar nos pulmões, por meio de um movimento essencial para a obtenção de oxigênio. Esse processo ocorre por causa da contração do músculo diafragma, que abaixa e alonga a cavidade torácica, e da contração dos músculos intercostais, que levantam as costelas. Já a expiração acontece quando há relaxamento da musculatura do diafragma e dos músculos intercostais, eleva-se o diafragma e as costelas abaixam, diminuindo, assim, o volume da caixa torácica, expulsando o ar de dentro dos pulmões. O retorno venoso volta ao valor basal. Essa variação do volume sanguíneo ejetado determina uma variação da pressão de pulso (diferença entre a pressão arterial sistólica e diastólica de modo que quanto maior o volume sanguíneo ejetado, maior amplitude da diferença) (HALL; GUYTON, 2017). Os autores supracitados mencionam que numa situação de desconforto respiratório por uma crise de broncoespasmo, por exemplo, observa-se um aumento da amplitude e excursão do diafragma, com consequente aumento do gradiente, para o retorno venoso e aumento da pressão de pulso da inspiração, seguido de queda ao valor basal do retorno venoso na expiração, porém em decorrência do esforço expiratório para vencer a resistência aumentada ao fluxo aéreo, pode-se observar aumento da pressão pleural (supra-atmosférica), como numa manobra de Valsalva, e consequente aumento da pressão no átrio direito e veia cava superior, diminuição do gradiente para o retorno venoso e diminuição do volume ejetado. Ocorreu, portanto, um aumento da variabilidade da pressão de pulso que pode ser a manifestação clínica sobre o sistema circulatório do desconforto respiratório (por isso, variação da pressão de pulso maior que 10 mmHg é fator de gravidade em crise de sibilância). Por tudo que foi exposto anteriormente, conclui-se que, fisiologicamente, o ser humano respira no paradigma de pressão “negativa”. Por questões operacionais e dificuldades em simular este paradigma quando se oferece suporte ventilatório, isso se dá num sistema de pressão positiva, ou seja, o gradiente de pressão para o fluxo de ar ocorre com o aumento da pressão intratorácica na 44 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I inspiração e queda na expiração, do ponto de vista do sistema circulatório, o inverso do que observa na respiração normal esse é um dos motivos pelos quais é comum que os indivíduos que é hipotenso quando passa a respirar com suporte impressão positiva. Outra subversão da fisiologia acontece quando submete-se um indivíduo a ventilação com pressão positiva de maneira invasiva (através de sonda/cânula oro ou nasotraqueal) (Figura 15), pois elimina-se o efeito da válvula que as cordas vocais têm, de modo que existe tendência de colapso alveolar por diminuição do volume residual e consequente “desrecrutamento alveolar” e diminuição de superfície de troca aérea. FIGURA 15 – INTUBAÇÃO TRAQUEAL PRECOCE NA PARADA CARDÍACA FONTE: <https://www.emergenciausp.com.br/wp-content/uploads/2017/08/Intubation_ed- -1200x480.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2020 O emprego de uma pressão positiva no final da expiração (PEEP) compensa esse mecanismo, ou seja, mantém o sistema pressurizado durante a expiração, o que permite a adequada manutenção de patência alveolar. A PEEP considerada “fisiológica” é a de pressão de uma coluna de 5 cm de água. 3 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA A hipoxemia possui como principal causa a inadequação do balanço ventilação/perfusão pulmonar, a seguir, conforme exposto no Quadro 14, encontram-se disponíveis alguns fatores relacionados ao desencadeamento da IRA (Insuficiência Respiratória Aguda) em decorrência da presença de determinadas etiologias. Sabe-se da fisiologia que o ajuste adequado da utilização da perfusão pulmonar para as áreas mais bem ventilados é complexo e baseia- se nos princípios de vasoconstrição hipóxica, ou seja, abaixa a pressão parcial TÓPICO 2 — IRREGULARIDADE RESPIRATÓRIA E/OU INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA 45 de oxigênio em determinadas unidades alveolares gerando estímulo que induz aumento da resistência ao fluxo da microcirculação daquela região, fazendo com que o sangue seja desviado dessa área que não contribuiria para hematose em detrimento de outras em que a ventilação estiver adequada (do ponto de vista fisiológico interessa que passa mais sangue onde há mais oxigênio). Desse modo, uma parcela do sangue é shunt ou shuntado e chega ao átrio esquerdo desoxigenado, misturando-se com o sangue proveniente das áreas bem ventiladas e determinando uma concentração resultante potencialmente baixa – a depender da relação do volume de sangue bem oxigenado e do sangue desoxigenado (Figura 16). O termo shunt ou shuntado refere-se a uma condição fisiológica que resulta quando os alvéolos do pulmão são perfundidos, normalmente, com sangue, mas a ventilação (o fornecimento de ar) falha em suprir a região perfundida. QUADRO 14 – ETIOLOGIA DA INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA Hipoxêmica Neoplasias. Infecções: vírus, bactérias, fungos. Trauma: contusão, laceração. Embolia pulmonar. Atelectasias (colabamento alveolar). Insuficiência cardíaca. Asma e Doença Pulmonar Obstrutiva Aguda (DPOC). Síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). Doenças intersticiais pulmonares; dentre outras. Hipercapnia Medicações depressoras do SNC (opioides, benzodiazepínicos, barbitúricos etc.). Metabólicos: hiponatremia, hipernatremia, hipoglicemia, hipercalcemia etc. Neoplasias do SNC. Infecções relacionadas ao SNC: meningite, encefalite. Elevação da pressão intracraniana. Apneia do sono. Hipoventilação central. Nervos e músculos Trauma: medula, diafragma. Medicações: curares, aminoglicosídeos. Metabólicos: potássio, fósforo e magnésio. Infecções: poliomielite, tétano. Miastenia gravis. Guillain-Barré. Distrofia muscular. Esclerose lateral amiotrófica. 46 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I Vias aéreas superiores e inferiores Obstrução da Vias aéreas por Corpo Estranho (OVACE). Infecções: epiglotite, laringite. Trauma. Aumento do volume de estruturas: hiperplasia adenoide, neoplasias, bócio. Paresia das cordas vocais. Laringomalácia. Traqueomalácia. Tórax, pleura e restrição Trauma: costelas, tórax instável. Queimadura extensa. Outros fatores contribuintes (cifoescoliose, esclerodermia, pneumotórax, derrame pleural, obesidade, ascite). FONTE: O autor Além dos distúrbios V/Q (Ventilação/Perfusão), outras causas de hipoxemia são: • Alteração da capacidade funcionaldo oxigênio pela membrana alveolocapilar (edema intersticial, processos inflamatórios intersticiais etc.). • Elevadas altitudes. • Hipoventilação alveolar. Portanto, a elevação da PaCO2 pode ser decorrente da diminuição da frequência respiratória ou do volume corrente ou, ainda, do aumento do espaço morto fisiológico. No quadro de etiologias mencionada anteriormente, é possível encontrar diversas situações associadas à diminuição de frequência respiratória como drogas, patologias em SNC/tronco cerebral, hipertensão intracraniana, entre outras. Já o volume corrente pode estar diminuído em situações como quadros neuromusculares, doenças obstrutivas e fadiga muscular, por exemplo. TÓPICO 2 — IRREGULARIDADE RESPIRATÓRIA E/OU INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA 47 FIGURA 16 – SHUNT OU SHUNTADO (DÉFICIT NA RELAÇÃO VENTILAÇÃO PERFUSÃO V/Q) Capilar pumonar Al vé olo co lap sa do Alvéolo consolidado ou cheio de líquido Sangue não oxigenado Tipos de derivações FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3cFgKXa>. Acesso em: 17 abr. 2020. 4 ACHADOS CLÍNICOS As manifestações clínicas e desconforto respiratório, na visão de Grangeia et al. (2007), incluem uma infinidade de sinais e sintomas clínicos com intensidade bastante variável, a depender da reserva fisiológica, tempo de instalação e compensação. Pode-se ressaltar os seguintes: • Alterações no nível de consciência (agitação ou sonolência). • Evidência de aumento do trabalho respiratório: uso de musculatura acessória à respiração (batimento de asas de nariz, a tiragem intercostais, supraesternal e fúrcula), taquipneia, hiperpneia, respiração paradoxal, entre outras. • Cianose. • Outras: sudorese, taquicardia, hipertensão (sinais e descarga adrenérgica) etc. 4.1 EXAMES COMPLEMENTARES O diagnóstico de insuficiência respiratória geralmente é suspeitado por sinais de desconforto respiratório os quais, na maioria das vezes, encontram-se evidentes, sendo, portanto, basicamente clínico e confirmado pela oximetria de pulso ou gasometria. A oximetria de pulso é um recurso muito útil por ser não invasivo, oferece resultado imediato e contínuo e ser uma medida direta. Sua acurácia é muito boa quando a saturação de hemoglobina está acima de 70%, não sendo tão confiável abaixo desse nível. Alguns fatores podem interferir na leitura dos oxímetros de pulso e superestimar e/ou subestimar a saturação de hemoglobina (Figura 17). No pronto-socorro, os mais importantes são má perfusão periférica, anemia, arritmia cardíacas, artefato de movimentação, presença de esmalte de unhas, ambientes com baixa temperatura, equipamento não calibrado, dispositivo incompatível com a anatomia do paciente/cliente, excesso de luminosidade no ambiente, dentre outros. Quando algum desses 48 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I fatores estiver presente, deve-se interpretar o resultado da oximetria com cautela e confirmar a saturação com gasometria arterial. O termo gasometria arterial, refere-se a um tipo de exame clínico laboratorial o qual mede (quantifica) as taxas de concentração de oxigênio e dióxido de carbono circulante em amostra de sangue arterial. A gasometria arterial, apesar de ser invasiva e não oferecer resultado tão imediato, é mais completa, pois permite a avaliação não só da hipoxemia, mas também da ventilação alveolar pela mensuração do CO2 e do estado metabólico pela mensuração do pH. Os dois métodos devem ser utilizados de maneira complementar, a gasometria para avaliação mais completa inicial e após medidas para correção da insuficiência respiratória, e a oximetria para monitorização continua durante o atendimento Inicial e ao longo do tratamento. As causas pulmonares e cardíacas são as mais comuns, mas doenças neuromusculares e sistêmicas também podem levar a insuficiência respiratória (LIMA JUNIOR et al., 2012). Hall e Guyton (2017) enfatizam dizendo que, em alguns casos, a etiologia fica evidente na avaliação inicial, por exemplo, paciente jovem sentando-se como taquipneia, sibilo, aumento do tempo expiratório, cuja acompanhante pode revelar ser asmática, em crise de sibilância e tosse. Em outros casos, mesmo após exame físico, breve história, gasometria e radiografia de tórax, o diagnóstico não é claro e mais exames são necessários para elucidação diagnóstica. O paciente com queixa de dispneia ao desconforto respiratório, apresentando-se ao setor de emergência, deve ser prontamente avaliado, pois é insuficiência respiratória não corrigida pode rapidamente evoluir para parada respiratória. O objetivo principal é corrigir hipoxemia e, em algumas situações especiais, a hipercapnia (presença de doses excessivas de dióxido de carbono no sangue). Quando houver sinais de nítido desconforto respiratório, o paciente deve ser levado para uma unidade de atendimento de pronto atendimento (sala de emergência) e, rapidamente, monitorizado com monitor cardíaco e oxímetro de pulso. Se a oximetria de pulso for menor do que 90%, O2 suplementar deve ser imediatamente oferecido por um cateter ou máscara de reinalação com reservatório (Figura 17). Pacientes portadores de DPOC devem receber O2 suplementar em baixo fluxo. Se for possível, logo na entrada, uma amostra de sangue arterial deve ser coletada para a dosagem das concentrações dos gases, antes da suplementação de O2, mas em nenhum caso sua coleta deve retardar a correção de hipoxemia identificada pela oximetria de pulso (ZÜGE et al., 2019). Züge et al. (2019) declaram que pacientes com diagnóstico de DPOC e/ou com suspeita de retenção crônica de CO2 devem receber oxigênio suplementar com cautela, monitorização com gasometria arterial para avaliar hipercapnia, objetivando-se saturação de hemoglobina acima de 90% e abaixo de 95%. A suspeita de hipercapnia não deve impedir a suplementação de O2, pois a hipoxemia é muito mais deletéria para o organismo do que a hipercapnia (HALL; GUYTON, 2017). TÓPICO 2 — IRREGULARIDADE RESPIRATÓRIA E/OU INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA 49 FIGURA 17 – MÁSCARA DE REINALAÇÃO COM RESERVATÓRIO (OFERECE 100% DE OXIGENIO- TERAPIA SUPLEMENTAR) FONTE: <https://fibracirurgica.vteximg.com.br/arquivos/ids/165203/Mascara-de-Alta-Concentra- cao-Adulta-com-Reservatorio.jpg?v=635487886263630000>. Acesso em: 17 abr. 2020. 4.2 TRATAMENTO O tratamento adequado da IRpA deve ser específico para cada caso e a quantidade de intervenções e possibilidades é muito grande para ser discutida de maneira genérica. Em virtude da alta prevalência de hipoxemia como manifestação clínica de IRpA, a oxigenoterapia é muito importante no manejo dessa condição clínica. Ofertar oxigênio em abundância faz aumentar o gradiente para a difusão da luz alveolar (PAO2) para os capilares (PAO2), por consequente tendência de correção de hipoxemia. No entanto, essa é uma maneira imediata, porém, inespecífica de resolver a situação e a busca da causa e consequente instituição de tratamento adequado nunca deve ser esquecida. Devemos destacar aqui que existem diversas maneiras de oferecer oxigênio e/ou oxigenioterapia assistida dependendo do fluxo requerido, assim como da capacidade de se controlar a Fração Inspirada de Oxigênio (FiO2), o que corresponde a quantidade de O2 inalado a cada inspiração. Seguem, a seguir, em ordem crescente de gravidade e suporte terapêutico para essas intervenções, conforme recomendam Dres e Demoule (2017): a) Cateter nasal – Considerado como sistema de baixo fluxo (0,5 a 4-5 L/min) com FiO2 não determinável (a princípio entre 3-4% para cada L/min., controlado por fluxômetro, ou seja, com 2L/min, FiO2 = 21% + 2 x 3-4% = a 27-28% é a concentração inalada pelo paciente/cliente). É útil em casos em que a hipoxemia é leve ou naquelas situaçõesem que o processo fisiopatológico requer baixos fluxos de oxigênio como em portadores de DPOC. São dispositivos que toleram um fluxo de até 4-5 litros/min. Cabe destacar que o referido dispositivo deve estar bem adaptado no usuário, para que aconteça o aproveitamento desejado/ esperado. 50 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I b) Máscara facial – Naqueles casos em que são necessário alto fluxo de oxigênio, esses são os dispositivos mais adequados, podendo ser acoplados a acessórios específicos como válvulas de Venturi, que são estruturas capazes de aumentar o fluxo, ofertado assim como determinar a FiO2 oferecida. Já o acoplamento do reservatório de oxigênio, as máscaras permitem oferecer altos fluxos com FiO2 a 100%. Além da oxigenoterapia, intervenções mais avançadas são eventualmente necessárias, dentre elas, as técnicas de ventilação mecânica, utilizada em setores avançados como unidades móveis de atendimento avançado, serviços de urgência e emergência e unidade de terapia intensiva. Para tanto, ao utilizar tal intervenção, os pacientes/clientes estarão utilizando dispositivo invasivo de acesso a via aérea inferior e, possivelmente, estarão submetidos a sedação continua (coma induzido). Outra medida importante para a liberação da via aérea para pacientes/ clientes com dispositivos invasivos ou não, é a necessidade de aspiração das VAS, pois de nada adianta ofertar O2 se houver uma barreira (secreções ou queda da base de língua) que impeça a passagem do ar ofertado. Para obtenção de eficiência máxima, deve-se utilizar cânula rígida e calibrosa conectada ao aspirador. Secreções pulmonares, sangue e vômito são as causas comuns de obstrução das vias aéreas. Outra manobra simples, porém, eficiente, é a elevação da base da língua do paciente/cliente, por meio da utilização de cânula orofaríngea, popularmente conhecida como cânula de Guedel (Figura 18). Nos pacientes/clientes inconscientes a queda da língua é uma causa frequente de obstrução das vias aéreas. A cânula orofaríngea, ou cânula de Guedel e a cânula nasofaríngea, também desempenham esse papel de elevação da base da língua. Como técnica de inserção adequada, recomendamos que a cânula orofaríngea deve ser colocada na cavidade oral com sua concavidade (ponta), voltada para cima em direção ao palato (céu da boca). Uma vez que sua ponta ultrapassa a língua, ela deve ser rodada em 180°, para que fique na posição adequada. Em crianças, no entanto, não se deve colocar essa cânula dessa forma, pois o palato dos pequenos pacientes é muito tênue (frágil) podendo, assim, ser lesado durante a rotação da cânula. Prefere-se a utilização de espátula para abaixar a língua, colocando a cânula com sua concavidade voltada para baixo, posteriormente. Essa técnica também pode ser utilizada em adultos. A cânula orofaríngea é contraindicada em doentes que possuem o reflexo de deglutição e/ou de tosse presente. Nesses casos, a cânula pode provocar estímulo de vômito e o paciente/cliente pode aspirar seu conteúdo gástrico, gerando assim, um novo agravo. Nos doentes com reflexo de deglutição presente, prefere-se a utilização da cânula nasofaríngea. Como o nome diz, essa cânula é introduzida pelo nariz até a base da língua. Ela é contraindicada em doentes que experienciaram algum evento traumático na cabeça (TCE – Traumatismo TÓPICO 2 — IRREGULARIDADE RESPIRATÓRIA E/OU INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA AGUDA 51 Cranioencefálico) com sinais suspeitos de fratura de base de crânio e que quando presente apresentam as seguintes características: equimose bipalpebral (roxo ao redor dos olhos, hematoma na região do mastoide, saída de líquor pelo nariz e/ou ouvido e hemotimpano na otoscopia. Nesses doentes, a cânula pode ser introduzida inadvertidamente na base do cérebro, causando mais danos. Outra manobra básica muito eficiente é a ventilação com máscara e dispositivo bolsa- valva-máscara. FIGURA 18 – CÂNULA OROFARÍNGEA (UTILIZADA PARA ANTERIORIZAR A LÍNGUA E DESOBSTRUIR A VAS) FONTE: <https://i0.wp.com/www.deportebalear.com/wp-content/uploads/2014/09/Canula-de- -Guedel.jpg?resize=636%2C249>. Acesso em: 17 abr. 2020. No nosso país, as manobras avançadas da abordagem das vias aéreas só podem ser realizadas por profissionais médicos. São elas: a intubação endotraqueal oral ou nasal e as cricotireoidostomia por punção ou cirurgia. Antes da realização da intubação, é importante que se tenha em mãos todo o material necessário para o procedimento. O material deve ser e estar adequado e testado para que o procedimento não tem falhas. O material essencial deve conter: cânulas de intubação de diferentes tamanhos, dispositivo bolsa-valva- máscara com reservatório de oxigênio e com máscara transparente, fonte de oxigênio, laringoscópio com lâminas curvas e retas, cânulas de aspiração da orofaringe, cânulas nasotraqueal e orotraqueal e seringas de diferentes tamanhos. A lâmpada de laringoscópio e o balonete da cânula de intubação deve ser testados previamente. Antes da realização da abordagem definitiva da via aérea, o paciente/ cliente deve ser oxigenado com máscara e dispositivo bolsa-valva-máscara, para se obter a maior saturação disponível do sangue arterial. A intubação oral não possui contraindicações. Em situações onde se tenha um reanimador completo, podem ser usados provisoriamente até a chegada da equipe de suporte avançado, um dispositivo chamado de pocket, o qual possui válvula unidirecional (permite somente a insuflação e veda o contato de secreções eliminadas pela vítima pela existência de um diafragma) (Figura 19). 52 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I FIGURA 19 – MÁSCARA DE REANIMAÇÃO POCKET BOCA A BOCA C/ BOJO C/ESTOJO FONTE: <https://lh3.googleusercontent.com/pfRl4IQXGhXIMy8-gIRr8deGhE0rO-6x5urNqHK- po_U0tjzult9qCQYXrkwZoGcfAkFA=s129>. Acesso em: 17 abr. 2020. 53 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • O termo Insuficiência Respiratória Aguda (IRpA) refere-se à presença de incapacidade do sistema respiratório em realizar e/ou atender às demandas metabólicas de oxigênio do organismo (através do processo inspiratório) ou de eliminação do dióxido de carbônico (gás carbônico) através do processo expiratório, caracterizando-se, assim, como a instalação aguda do respectivo evento. • Segundo Santana et al. (2012), é possível determinar dois grandes grupos de situações/doenças cujas manifestação é IRpA com características comuns: IRpA do Tipo I ou hipoxêmica (PaO2 < 50 – 60 mmHg) ou Saturimetria abaixo de 90 – 88%, e/ou IRpA do Tipo II ou hipercápnica (PaCO2 > 50 – 60 mmHg) com um pH < 7,20 – 7,25. • O sistema respiratório é composto por diversos órgãos e seu funcionamento normal pode ser, resumidamente, explicado assim: o centro respiratório, localizado no bulbo do tronco cerebral, é sensível a variações da pressão parcial do gás carbônico (PCO2) de modo que elevações da pressão parcial sanguínea (PaCO2) deste gás estimulam, via nervo frênico, a contração do diafragma e musculatura acessória da respiração – essas últimas, em situações de aumento da necessidade de trabalho respiratório (em especial a musculatura intercostal via nervos intercostais). • Outra subversão da fisiologia acontece quando se submete um indivíduo a ventilação com pressão positiva de maneira invasiva (através de sonda/cânula oro ou nasotraqueal), pois elimina-se o efeito da válvula que as cordas vocais têm, de modo que existe tendência de colapso alveolar por diminuição do volume residual e consequente “desrecrutamento alveolar” e diminuição de superfície de troca aérea. • Dentre as causas (etiologia) de IRA hipoxêmica, destacam-se: neoplasias; infecções: vírus, bactérias, fungos; trauma: contusão, laceração;embolia pulmonar; atelectasias (colabamento alveolar); insuficiência cardíaca; asma e doença pulmonar obstrutiva aguda (DPOC); síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA); doenças intersticiais pulmonares; dentre outras. • Dentre as causas (etiologia) de IRA relacionada à hipercapnia, destacam-se: medicações depressoras do SNC (opioides, benzodiazepínicos, barbitúricos etc.); metabólicos: hiponatremia, hipernatremia, hipoglicemia, hipercalcemia etc.; neoplasias do SNC; infecções relacionadas ao SNC: meningite, encefalite; elevação da pressão intracraniana; apneia do sono; hipoventilação central. 54 • Dentre as causas (etiologia) de IRA relacionada aos nervos e músculos, destacam-se: trauma: medula, diafragma. medicações: curares, aminoglicosídeos. metabólicos: potássio, fósforo e magnésio; infecções: poliomielite, tétano; miastenia gravis; Guillain-Barré; distrofia muscular; esclerose lateral amiotrófica. • Dentre as causas (etiologia) de IRA relacionada as vias aéreas superiores e inferiores, destacam-se: obstrução das vias aéreas por corpo estranho (OVACE); infecções: epiglotite, laringite; trauma; aumento do volume de estruturas: hiperplasia adenoide, neoplasias, bócio; paresia das cordas vocais; laringomalácia; traqueomalácia. • Dentre as causas (etiologia) de IRA relacionada ao tórax, pleura e restrição, destacam-se: trauma: costelas, tórax instável; queimadura extensa. • Dentre outros fatores contribuintes para a IRA, destacam-se: cifoescoliose, esclerodermia, pneumotórax, derrame pleural, obesidade, ascite. • A insuficiência respiratória (IR) pode ser definida como a condição clínica na qual o sistema respiratório não consegue manter os valores da pressão arterial de oxigênio (PaO2) e/ou da pressão arterial de gás carbônico (PaCO2) dentro dos limites da normalidade ou daquilo que é considerado fisiológico. Para tanto, distúrbios V/Q que se refere a ventilação/Perfusão quando presente, podemos considerar que há presença de hipoxemia (diminuição na concentração de oxigênio circulante) e estará expresso pela seguintes alterações fisiológicas: alteração da capacidade funcional do oxigênio pela membrana alveolocapilar (edema intersticial, processos inflamatórios intersticiais etc.); elevadas altitudes; hipoventilação alveolar. • As manifestações clínicas e desconforto respiratório incluem uma infinidade de sinais e sintomas clínicos com intensidade bastante variável, a depender da reserva fisiológica, tempo de instalação e compensação. Pode-se ressaltar os seguintes: alterações no nível de consciência (agitação ou sonolência); evidência de aumento do trabalho respiratório: uso de musculatura acessória à respiração (batimento de asas de nariz, a tiragem intercostais, supraesternal e fúrcula), taquipneia, hiperpneia, respiração paradoxal, entre outras; cianose; e outras: sudorese, taquicardia, hipertensão (sinais e descarga adrenérgica) etc. • Quando houver sinais de nítido desconforto respiratório, o paciente deve ser levado para uma unidade de atendimento de pronto atendimento (sala de emergência) e, rapidamente, monitorizado com monitor cardíaco e oxímetro de pulso. Se a oximetria de pulso for menor do que 90%, O2 suplementar deve ser imediatamente oferecido por um cateter ou máscara de reinalação com reservatório. 55 • O tratamento adequado da IRpA deve ser específico para cada caso e a quantidade de intervenções e possibilidades é muito grande para ser discutida de maneira genérica. Em virtude da alta prevalência de hipoxemia como manifestação clínica de IRpA, a oxigenoterapia é muito importante no manejo desta condição clínica. Ofertar oxigênio em abundância faz aumentar o gradiente para a difusão da luz alveolar (PAO2) para os capilares (PAO2), por consequente tendência de correção de hipoxemia. • Outra manobra simples, porém, eficiente, é a elevação da base da língua do paciente/cliente, por meio da utilização de cânula orofaríngea, popularmente conhecida como cânula de Guedel. Nos pacientes/clientes inconscientes a queda da língua é uma causa frequente de obstrução das vias aéreas. A cânula orofaríngea, ou cânula de Guedel e a cânula nasofaríngea, também desempenham esse papel de elevação da base da língua. 56 1 Qual o significado do termo Insuficiência Respiratória Aguda? 2 Pacientes/clientes com acometimento das Vias Aéreas Superiores (VAS) quando acometidas podem desencadear IRA. Sabendo disso, descreva os fatores que desencadeiam a referida síndrome clínica. 3 A literatura atesta que a IRA pode ser manifestada pela carência de oxigênio (Hipoxêmica). Sabendo disso, descreva os eventos que podem estar relacionados a tal evento. 4 Paciente com acometimento neurológico pode apresentar a chamada queda de base de língua, o que, secundariamente, ocasiona obstrução da VAS. Sabendo disso, descreva o nome do dispositivo que pode ser utilizado diretamente em pacientes adultos. AUTOATIVIDADE 57 TÓPICO 3 — UNIDADE 1 LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 1 INTRODUÇÃO O termo “Eletricidade”, segundo Lima e Takahashi (2013), é uma forma de energia que se encontra presente em todos os segmentos da sociedade, em todos os lugares/espaços/ambientes e que, de certa forma, sempre há disposição através de uma fonte provedora/fornecedora de tensão. Essa difusão, mesmo através de suas facilidades, coloca o ser humano em risco de acidente com eletricidade. Quando é presente, na maioria das vezes é muito grave e, em pleno século XXI, ainda é desconhecido por grande parte da população quanto à necessidade de atenção ao manusear fios desencapados ou deixar tomadas de energia sem proteção. Estatísticas apontam que os norte-americanos deparam-se com lesões por choque elétrico em uma taxa bem expressiva, sendo responsáveis, a cada ano, por cerca de 5.000 atendimentos nas unidades de urgência e emergência, e que ocorrem cerca de 3.000 admissões em unidades especializadas para tratamento de lesões relacionadas a queimaduras e, ainda, ocorrem cerca de 1.000 mortes (GAWRYSZEWSKI et al., 2012; BISINOTTO et al., 2017). As ocorrências se destacam entre a população do sexo masculino, que representam 80% (Figura 20) das vítimas, seguido por crianças com idade inferior a 5 anos de idade (Figura 21). A taxa de mortalidade global em decorrência desse tipo de dano/lesão varia de 3% a 40% (GAWRYSZEWSKI et al., 2012; BISINOTTO et al., 2017). FIGURA 20 – EXPOSIÇÃO À ALTA TENSÃO DE ENERGIA FONTE: <https://www.acritica.com/uploads/news/image/735912/show_AlKyTxlr9219_QkPXrc- 9gATuBvJC1mQ2EvcSc2RQql6X.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. 58 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I FIGURA 21 – ACESSO FACILITADO À TOMADA DE ENERGIA FONTE: <https://thumbs.dreamstime.com/z/beb%C3%AA-perto-das-tomadas-el%C3%A9tri- cas-25854234.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. 2 FISIOPATOLOGIA DAS LESÕES O mecanismo e/ou desenvolvimento das lesões ocasionadas por choque elétrico, mesmo nos tempos atuais, não é completamente esclarecedor, por existirem muitas variáveis as quais não podem ser medidas e/ou controladas no momento em que ocorre o incidente. Entretanto, Hall e Guyton (2017) apontam sete mecanismos fisiopatológicos que podem ser aceitos, relacionando à ocorrência com energia ou descarga elétrica, podendo revelar a gravidade do dano gerado pela eletricidade, são eles: • Conversão de energia elétrica em energia térmica durante a passagem da corrente pelos tecidos, ou seja, refere-se ao percurso da corrente no corpo o que determina o dano e/ou grau de lesão tissular. • Tipo de corrente vs tipo de tensão, ou seja, se é direta ou alternada. • Voltagem e amperagem, ambas são medidas de força corrente, ou seja, refere- se à tensão de descarga.• Duração da exposição (quanto mais longa a exposição, maior a gravidade do dano), o que se traduz em alterações a nível celular. • Resistência do corpo quanto ao evento sofrido. • Lesões traumáticas secundariamente a contusões, contrações musculares vigorosas e quedas pós recebimento da descarga elétrica. • Liberação intensa e desordenada de catecolaminas. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 59 3 APRESENTAÇÃO CLÍNICA Os achados relacionados às lesões pelo choque elétrico podem variar. Esses podem apresentar-se por queimaduras superficiais há lesões por disfunção a múltiplos sistemas e órgãos que, quando o tratamento é aplicado demoradamente, a evolução para óbito é certa. Sabendo disso, a seguir, descreveremos algumas lesões mais comumente presentes, conforme as regiões do corpo e suas apresentações. Cabe destacar que descargas elétrica de alta voltagem ocasionam lesões tegumentares tipo queimaduras, devido haver a conversão de energia em calor, resultando em lesões térmicas propriamente dita. Hall e Guyton (2017) nos explicam que os danos associados aos tecidos internos podem depender de alguns achados, conforme sinalizado anteriormente, tais como: aqueles atrelados à resistência e da densidade gerada pela corrente, ou seja, aquela corrente por unidade de área (entrada) e a energia quando se torna concentrada (percurso e saída), através de pequenas áreas. Um bom exemplo pode ser correlacionado quando o contato com a corrente de energia elétrica foi proveniente da periferia (um braço ou mão), este primariamente pode ser classificado como sendo de baixa resistência, pois envolve músculos, vasos e nervos. Outra etapa importante a ser considerada relaciona-se à densidade da corrente, pois torna-se aumentada e/ou intensificada nas articulações, visto que há uma significativa proporção de áreas de cruzamentos nesta região, a qual consiste em tecidos de alta resistência (maior concentração de energia) como estruturas ósseas e tendões, diminuindo a área de tecidos de baixa resistência. Dessa forma, a densidade da energia elétrica influencia na presença das lesões, entretanto, os danos aos tecidos de baixa resistência é que tendem a ser mais graves e agressivos nas articulações. 3.1 LESÕES NA CABEÇA E PESCOÇO Porth e Kunert (2004) descrevem que a cabeça, na maioria das vezes, é o primeiro ponto de contato com lesões ocasionadas por choque elétrico de elevada amperagem e/ou alta voltagem. As pacientes/clientes e/ou vítimas, na sua maioria, podem apresentar porta de entrada da corrente elétrica em qualquer parte da cabeça e através disso apresentar, posteriormente, devido à condução (deslocamento do feixe elétrico), perfurações e dano à membrana timpânica, lesões oculares como catarata, lesões que lembram queimaduras na face e no pescoço, danos e/ou lesões importantes na medula espinhal e traumatismo cranioencefálico, em decorrência da possibilidade de perda do equilíbrio, em função da estimulação desordenada da atividade elétrica cerebral. Porth e Kunert (2004) e Hall e Guyton (2017) possuem a mesma linha de pensamento, referindo que a passagem ou percurso da corrente pelo corpo é determinada por quais estruturas foram lesionadas e danificadas, pelo tipo da corrente alternada (CA), pois ela não percorre em um sentido único, por isso, usa- se o termo alternada. Esse parâmetro torna-se importante para aquela pessoa que irá prestar os primeiros cuidados, pois poderá interpretar a área de entrada e a 60 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I região de saída da condução elétrica, tendo, assim, noção noção de quais órgãos e/ou estruturas foram ou podem ter sido prejudicadas. Cabe destacar que os termos mais comumente utilizados, relacionados a lesões que envolve corrente elétrica, é ponto de entrada e ponto de saída, entretanto, estes são considerados como inapropriados/incorretos, devendo ser usados os seguintes termos: ponto fonte (local que obteve contato com a fonte de energia) e ponto terra (local onde ocorreu a saída da descarga elétrica), sendo mais precisos. O ponto de fonte pode ser qualquer parte do corpo humano, mas é mais comum ser a cabeça e a mão. Já o ponto de terra é mais comum ser o pé. Porth e Kunert (2004), Hall e Guyton (2017) afirmam que a corrente elétrica é aquela relacionada à energia de condução mediante o contato de uma extremidade desprotegida a uma via de exposição (fio desencapado ou com ausência de instrumentos de proteção, como luvas), que passa entre os braços ou de um pé para outro. Podem ser danosos, desencadeando lesões de pele. Entretanto, aquelas descargas elétricas que percorrem entre a cabeça e os braços ou dos braços e migram para os pés tendem serem mais perigosos, pois existe a grande probabilidade de atingirem o coração, estimulando e desordenando, assim, a nodo/nodu ou nódulo sinusal (marcapasso fisiológico/natural do coração), ocasionado um novo evento, arritmias cardíacas. Essa corrente tende a ser mais perigosa e, ainda, destaca-se que correntes elétricas que tiveram seu ponto fonte pela cabeça, este pode danificar/lesionar o sistema nervoso central (SNC) e seu funcionamento. Segundo Ferreira et al. (2010), o efeito relacionado ao campo elétrico pode vir a desencadear dano à membrana celular devido à chamada “eletroporação”, mesmo quando a descarga elétrica ou a energia atribuída ao evento for discreta ou insuficiente, o que ocasionará lesão térmica variada (discreta, moderada ou intensa). Junto a essas lesões, ocorrem outros efeitos, tais como: porta de entrada para infecção, limitação ou restrição ao movimento, dor, dentre outros. Ferreira et al. (2010) também reforçam dizendo que dentre as lesões oculares geradas por choque elétrico, a catarata é a mais presente complicação, com taxas de em média de 5% a 20% das vítimas. Daqueles que apresentam tais acometimentos nessas estruturas, aproximadamente cerca de 70% dos casos são necessários a intervenção por procedimento cirúrgico. Em lesões associadas a eventos externos da natureza como raios, também são mencionadas novas complicações como: lesões de córneas; uveíte (inflamação que acomete a úvea ou uma de suas partes – íris, corpo ciliar e coroide, ocasionando irritabilidade/vermelhidão nos olhos) Figura 22a e Figura 22b; iridociclite (inflamação aguda ou crônica da íris e/ou do corpo ciliar, com presença de exsudatos dentro da câmara anterior, descoloração da íris “vermelhidão” e pupila contraída); hifema (acúmulo de sangue na câmara anterior do olho – micro-hemorragias) Figura 23; hemorragia vítrea (reflete na luz captada pelo olho, gerando borramento e distorção visual) Figura 24; atrofia do nervo óptico (possui como característica a chamada desconexão das ligações nervosas que unem o olho ao cérebro) Figura 25; descolamento de retina e coriorretinite. Como conduta a esses pacientes/clientes que sofreram alguma das respectivas lesões em decorrência de descarga elétrica deverão ser avaliados TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 61 por um especialista (oftalmologista), em que, possivelmente, realizará um exame chamado de fundoscopia ou avaliação do fundo do olho e exames relacionados à acuidade visual (se há ou não perda da visão). Os tecidos com alto teor (quantidade) de líquidos e eletrólitos se tornam uma fonte condutora de eletricidade, quando comparado aos tecidos com menos fluidos. A corrente elétrica pode induzir a contração muscular sustentada ou tetania (contrações musculares vigorosas), o efeito global varia de acordo com o tipo Corrente Alternada (AC) ou Correte Direta (DC), sua frequência, tensão e extensão do contato). Como conduta imediata pós-evento, havendo relato de alguma manifestação clínica ou queixa da vítimaque esteja relacionada a ter sofrido choque elétrico, é importante realizar proteção ocular com o chamado tampão ocular, para evitar maior tensão por parte da referida estrutura na tentativa de manter a visão (Figura 26). Quanto mais estático o olho acometido ficar até avaliação de especialista, menor será a tensão e/ou pressão interna ocular. FIGURA 22A – ANATOMIA OCULAR FONTE: <https://www.provisu.ch/images/Portuguese/coroide.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. FIGURA 22B – APRESENTAÇÃO CLÍNICA (IRRITABILIDADE OCULAR/HIPEREMIA) FONTE: <https://www.fisioterapiaparatodos.com/p/wp-content/uploads/2017/12/uveite.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. 62 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I FIGURA 23 – HIFEMA FONTE: <https://i2.wp.com/www.lenteseoculos.com.br/wp-content/uploads/2017/11/Derrame- -ocular.png?w=1024&ssl=1>. Acesso em: 22 abr. 2020. FIGURA 24 – APRESENTAÇÃO CLÍNICA (IRRITABILIDADE OCULAR/HIPEREMIA) FONTE: <https://www.admiravision.es/resources/images/20161010-hemorragia-vi- trea2219830076294436017.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. FIGURA 25 – ATROFIA DO NERVO ÓPTICO FONTE: <http://www.bertinooftalmologia.com.br/glaucoma.php>. Acesso em: 22 abr. 2020. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 63 FIGURA 26 – TAMPÃO OCULAR FONTE: <https://www.ideco.med.br/blog/wp-content/uploads/2018/11/tampaoocular2.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. Lesões como fraturas de crânio e da coluna cervical, segundo Porth e Kunert (2004), são complicações comuns e que, de certa forma, são esperadas quando as lesões ocorrem em ambientes externos por raios, os chamados eventos da natureza. Tal evento ocorre em virtude da energia cinética ou cinemática da ocorrência, gerando quedas importantes associadas pelo lapso de memória, desencadeamento de desequilíbrio e estimulação cerebral desordenada. Quanto à ruptura da membrana timpânica, esta é observada e registrada em cerca de 45% a 75% dos casos, pelo fato dos seguintes mecanismos: pelo choque elétrico descarga elétrica propriamente dita; o trauma pela queda a qual pode vir a desencadear uma probabilidade elevada de fratura de base de crânio; e/ou o surgimento de queimaduras localizadas (PORTH; KUNERT, 2004). 3.2 LESÕES NA PELE As lesões no sistema tegumentar, oriundas de queimaduras elétrica, são as complicações mais presentes e frequentes (Figura 27). Porth e Kunert (2004) descrevem que os pontos de contato com a fonte geradora de energia e com o solo, são os locais que expressam a presença de maiores níveis de lesões teciduais, os quais instigam a necessidade de cuidados direcionados e especiais pelo uso de materiais de alta complexidade em alguns casos – curativos especiais, por exemplo. Os tipos de queimaduras podem variar, podendo ser classificadas como aquelas de primeiro, segundo ou terceiro grau. Ferreira et al. (2010) afirmam que as lesões mais graves são aquelas que geralmente: • São indolores, porque há perda da sensibilidade. • Podem apresentar coloração amarelo acinzentada. • Estão associadas à presença de necrose central (Figura 28). 64 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I Ferreira et al. (2010) ainda descrevem que as lesões quando superficiais (visíveis externamente) nem sempre se tornam um bom preditor (indicador) de envolvimento e/ou acometimento de estruturas/tecidos internos. O grau de lesão externa pode gerar no avaliador (aquele que está prestando os primeiros cuidados) a subestimação da lesão interna, especialmente nos casos de lesões por baixa-voltagem. Pelo contrário, toda avaliação pós-evento que envolve choque ou descarga elétrica deve ser sistêmica e deve ser dada devido importância, não apenas à região lesionada, mas deve ser avaliado toda a cena (local que circunda o incidente). Nas queimaduras, mesmos que superficiais ou pouco significativas (discretas), podem coexistir com coagulação muscular maciça, edema estrutural importante o que pode levar a chamada síndrome compartimental (edema de tecido/músculo interno e autocompreensão dessas estruturas, o que pode gerar dor e morte tecidual) e necrose, além de comprometimento de outros órgãos e vísceras secundários. Um detalhe importante acerca das descargas elétrica é que quando ocorre descarga elétrica por meio de eventos convencionais (manipulação de fiação elétrica por exemplo) a probabilidade de lesões são mais expressivas, quando comparadas com aquelas geradas por raios, pois a duração do contato é muito curta e o raio atravessa a superfície cutânea, sendo descarregado no solo. Ambas geram exposição à vida desses que experienciam tais situações. FIGURA 27 – QUEIMADURA NA MÃO POR DESCARGA ELÉTRICA FONTE: <https://66.media.tumblr.com/tumblr_mblmdwkrLM1r8vrhxo1_540.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. Hall e Guyton (2017) também descrevem outro evento associado a descargas elétricas provenientes de causas naturais, como a chamada “figuras de Lichtenberg – são imagens produzidas por descargas elétricas ramificadas, arborescentes” as quais ocorrem poucas horas após o incidente/acidente. Tais lesões possuem como características um aspecto de ramificações dendríticas (Figura 29), as quais podem desaparecer rapidamente, não requerendo a necessidade de tratamento direcionado. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 65 FIGURA 28 – QUEIMADURA NA MÃO COM ÁREA DE DESPIGMENTAÇÃO Descrição: Área mais escura (Necrose); Área amarelada (Isquemia) FONTE: <https://paisefilhos.uol.com.br/wp-content/uploads/2019/12/mao-choque-tomada-be- be.png>. Acessado em: 22 abr. 2020. FIGURA 29 – FIGURAS DE LICHTENBERG FONTE: <https://www.mibrujula.com/wp-content/uploads/2018/08/figuras-de-Lichtenberg- -0-480x276.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. 3.3 LESÕES NO SISTEMA CARDIOVASCULAR Relacionado aos eventos elétricos atrelados ao sistema cardiovascular, aproximadamente cerca de 18% dos pacientes desenvolvem algum tipo de arritmia cardíaca, segundo Hall e Guyton, (2017), na maioria das vezes, aquelas consideradas como sendo benignas (sem efeito hemodinâmico) até 48 horas após o incidente ou lesão. Com relação às alterações eletrocardiográficas, as mais comumente observadas e registradas são aquelas chamadas de taquicardia sinusal (batimento cardíaco acima do fisiológico, mas em um mesmo compasso). 66 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I Entretanto, podem ser observadas elevação transitória do segmento ST (fisiologicamente, nesta etapa de relaxamento ventricular, esse evento não deveria ocorrer), prolongamento reversível do segmento QT (intervalo entre o relaxamento ventricular parcial e seu relaxamento completo), bloqueios de ramo e bloqueios atrioventriculares de 1°, 2°, 3° graus ou total (inibição de condução elétrica – não há distribuição de condução elétrica completo) (HALL; GUYTON, 2017). Os pacientes quando atingidos por correntes elétricas que atravessam de um braço ao outro, podem apresentar menores chances de arritmias que possam vir a colocar em risco a vida desses acometidos. Entretanto, Hall e Guyton (2017) expressam que tal evento (descarga elétrica) atinge alguma via superior (cabeça, braço, por exemplo) e possui sua via de saída, os membros inferiores (pés), as vítimas podem desencadear grandes chances de estimular a presença de uma arritmia cardíaca de grande magnitude, tal como Fibrilação Ventricular (FV), considerada como um ritmo de modalidade de Parada Cardiopulmonar (PCP). A morte súbita secundária à FV é muito mais comum em pacientes vítimas de choques de baixa voltagem/amperagem com corrente alternada. Já arritmia nominada de “Assistolia” está, geralmente, associada a choques de alta voltagem/ amperagem. O termo assistolia se refere quando há ausência de sístoles cardíacas (contração do coração) e que, consequentemente, ausência de batidas cardíacas em decorrência da inexistência de atividade elétrica.Nem as células musculares cardíacas, nem o sistema de condução elétrica estão funcionando. Isso caracteriza- se como uma emergência médica. O principal motivo de morte após acidentes por raios é o desenvolvimento de parada cardiopulmonar (PCP), devido à elevada descarga elétrica. Os raios provocam e/ou induzem a presença de assistolia, o que sinaliza a existência de geração e condução elétrica, ou seja, há perda do automatismo cardíaco intrínseco, dessa forma, a parada respiratória e/ou cardiopulmonar se fará presente. Destaca- se que, havendo PCP, todo sujeito está propenso a desenvolver lesão do SNC por não existência de circulação sanguínea (ausência de suporte de nutrientes e oxigênio) ao respectivo órgão (FERREIRA et al., 2010). Ferreira et al. (2010) também descrevem a presença de outro ritmo que justifica a presença de PCP, a chamada Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP). Esta pode manifestar-se não imediata, ou seja, na hora do evento, mas posterior à ocorrência. Pesquisas descrevem que tal arritmia ocorre em períodos de 24-48 horas, podendo decorrer os seguintes eventos ou apresentações clínicas: • Hipoxemia pela parada respiratória e acidose (rabdomiólise e disfunção renal). • Desajustes na estrutura celular elevando o teor de potássio circulante – hipercalemia. • Hipovolemia pela presença de queimaduras. • Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) – pelo vasoespasmo coronariano. • Tamponamento cardíaco – em decorrência do estiramento e/ou ruptura cardíaca. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 67 • Contusão cardíaca – achado anatomopatológico comum, seguido por hemorragia petequial miocárdica. • Hemorragias do miocárdio, endocárdio, pericárdio. • Lesões na valva aórtica – estiramento. • Dilatação atrial (FERREIRA et al., 2010). 3.4 LESÕES NO SISTEMA NERVOSO Uma das primeiras condutas que devem ser aplicadas pelo socorrista ou aquele que presta os primeiros cuidados após ter afastado a fonte geradora de energia (se esta não forma de causa natural), é a avaliação do nível de consciência da vítima. Este deve checar e/ou avaliar o nível de consciência da vítima, ou seja, avaliar se esta acordada ou não responsiva. Porth e Kunert (2004) e Hall, Guyton (2017) sinalizam dizendo que na fase aguda do evento, os pacientes/ clientes podem apresentar perda transitória da consciência ou rebaixamento do nível de consciência, desorientação, confusão mental e lapsos de memória (esquecer quem são, por exemplo, nome). Nos casos em que for constato a presença de Traumatismos Cranianos Encefálico (TCE), para tal achado clínico não é incomum o aparecimento de depressão e/ou falência respiratória e, ainda, evolução para um estágio de torporosidade (pré-coma – baixa responsividade) e coma. Porth e Kunert (2004) descrevem que o surgimento de astenia (fraqueza) e parestesias (formigamento, perda da força parcialmente) podem ocorrer poucas horas após a constatação da lesão. Relacionado às lesões no SNC, ocorre como diferencial o comprometimento dos membros inferiores comumente do que nos membros superiores. Lesões ou danos neurológicos tardios podem se apresentar dias ou anos após a lesão, sendo necessário o acompanhamento rotineiro dessas vítimas. Paralisia ascendente, esclerose lateral amiotrófica e mielite transversa podem ser algumas complicações tardias, assim como aquelas complicações que envolvem a neuropsiquiatria, tais como: depressão, bipolaridade, ansiedade, alterações comportamentais, tentativas de suicídio, dentre outras. A complicação neurológica mais frequente nas vítimas de choque elétrico (urbano ou de causas naturais como raios) é o desenvolvimento de uma paralisia motora temporária. Tal complicação, pode se fazer presente em cerca de 65-70% dos casos (LOURENÇO et al., 2007). Acomete preferencialmente os membros inferiores e a sua fisiopatologia pode ser identificada por meio de espasmo vascular, disfunção sensorial e disfunção autonômica. Outro achado clínico que pode ser presenciado pelo avaliador é a presença de pupilas fixas, dilatadas ou anisocóricas (uma maior e a outra menor), a qual pode ocorrer pela presença de disfunção autonômica (Figura 30). Esse achado não deve ser usado como justificativa para interromper a reanimação cardiopulmonar, se tal conduta for requerida. Na maioria das vezes, a pupila quando dilatada, não apresentará responsividade à estimulação da luz. 68 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I FIGURA 30 – FIGURAS DE LICHTENBERG FONTE: <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcRx3prYIo2gWrUhRYqN- Dyt6TwautaYZ11iN2yCtO-IH47aPY_61&usqp=CAU>. Acesso em: 22 abr. 2020 3.5 LESÕES NO SISTEMA RENAL No entendimento de Hall e Guyton (2017), a presença de pigmentúria em vítima de choque elétrico pode ser um grande indicativo de lesão muscular e um importante marcador de dano. Os pigmentos envolvidos são oriundos da mioglobina (resultante de rabdomiólise – síndrome de destruição do músculo esquelético, a qual ocasiona aumento descontrolado do cálcio intracelular livre e a ativação de proteases dependentes de cálcio) e hemoglobina livre (proveniente de hemácias lisadas). Os pacientes com lesões tipo queimaduras extensas, podem vir a apresentar hipovolemia, secundariamente ao extravasamento vascular, podendo, assim, desenvolver insuficiência renal, pré-renal e necrose tubular aguda. 3.6 LESÕES NO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO Queimaduras periosteais, destruição da matriz óssea e osteonecrose são alguns eventos que acometem tal sistema, com complicações elevadas uma vez que a estrutura óssea permite e/ou serve como meio de passagem ou e condução da corrente elétrica. Neste sistema, as síndromes compartimentais podem surgir ainda nas primeiras 48 horas pós-evento. Uma das características mais presentes na referida síndrome é a presença de edema no órgão ou em suas proximidades, o que ocasiona aumento de pressão na estrutura local, limita o fluxo sanguíneo levando à isquemia grave e, em alguns casos, quando a manifestação clínica se encontra muito avançado, existe a necessidade de amputação do membro (ASTUR et al., 2014). Toda vítima deve ser de forma sistêmica, como pontuado anteriormente, e caso a fonte de entrada ou de saída tenha sido algum membro (superior ou inferior), deve ser avaliado a integridade da lesão, a pulsão, se o membro se encontra aquecido e como está a perfusão periférica local. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 69 3.7 LESÕES NO SISTEMA RESPIRATÓRIO Quanto ao acometimento e/ou comprometimento da árvore respiratória e contusão pulmonar por lesão traumática, Morais et al. (2011) descrevem que podem estar presente em vítimas de lesões traumáticas, as quais apresentam, como manifestações clínicas, hemorragias e hemoptise (expectoração com traços de sangue). Toda vítima que apresenta lesão torácica, possuem também como probabilidade, ter sofrido de lesão cardíaca grave. 3.8 LESÕES NO SISTEMA GASTRINTESTINAL Morais et al. (2011) observam descrevendo que lesões no sistema gastrointestinal é incomum, por estas estruturas pertencerem a um grupo de órgãos sólidos, tais como: estômago, intestino delgado e intestino grosso. Quando há envolvimento abdominal, este pode ter sido agravado nos casos em que há formação de fístulas intestinais e/ou perfurações nessas estruturas que podem vir a manifestar complicações como infecções bacterianas secundária e sepses. 4 ABORDAGEM AO PACIENTE O Atendimento Pré-Hospitalar (APH) e triagem de pacientes/clientes e/ ou vítimas de choques elétricos torna-se de fundamental importância, porque é através desse primeiro contato (de quem socorre vs vítima) que será possível aplicar algumas intervenções tais como: • Se a vítima está ou não mais em contato com a fonte geradora de energia. • Se a fonte de energia já estádesligada (causa convencional – tomadas de energia). • Se o local é e está seguro para iniciar as primeiras abordagens. • Como está o nível de responsividade da vítima, se ela se encontrar sonolenta ou inconsciente. • Se a vítima possui pulso e se este é perceptível. • Se a vítima está respirando e qual é a qualidade do padrão respiratório; dentre outras abordagens. Vítimas de acidentes elétricos possuem maior probabilidade de morte e desenvolvimento de PCP. Os pacientes/clientes ou vítimas que não possuem essa condição, apresentam, a priori, menores chances de morrer, entretanto, quando constatada a ausência de pulso central (Figura 31 e Figura 32), o atendimento deve ser iniciado nas vítimas sem pulso ou respiração, mesmo em casos de acidentes de massa. 70 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I FIGURA 31 – VERIFICAÇÃO DO PULSO CENTRAL EM ADULTOS – CAROTÍDEO FONTE: <https://bit.ly/2SehoTR>. Acesso em: 22 abr. 2020 FIGURA 32 – VERIFICAÇÃO DO PULSO CENTRAL EM LACTENTES – (A) AXILAR E (B) FEMORAL FONTE: <https://docplayer.com.br/docs-images/81/84051758/images/22-0.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 71 4.1 TRATAMENTO GERAL Este grupo de pacientes e/ou vítimas de choques elétricos podem se enquadrar no grupo de vítimas de trauma e de eventos cardiovasculares. Dessa forma, a utilização de protocolos do Advanced Cardiology Life Support (ACLS) para PCP, do Advanced Trauma Life Support (ATLS) para o trauma e do Prehospital Trauma Life Support (PHTLS) para atendimento a vítimas de causas externas, estão perfeitamente recomendados. Assim, a seguir, encontram-se elencados alguns cuidados pertinentes às respectivas vítimas. Um dos pontos mais importantes que deve ser levado em consideração, com relação ao atendimento de vítimas de choque elétrico, é observar se ela encontra-se ou não em contato com a fonte geradora de energia, caso esteja, torna- se imprescindível suspender/desliga-la (se possível) (Figura 33a e Figura 33b) ou removê-la com auxílio que algum dispositivo que não ocasione transferência de energia ao socorrista, por exemplo, madeira (Figura 34). FIGURA 33 – CENTRAL DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA – DISJUNTOR DISJUNTOR A FONTE: <https://oximaq.com.br/3063-tm_thickbox_default/disjuntor-tripolar-25a-curva-c-steck.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. DISJUNTOR B FONTE: <https://www.hiperfer.com.br/img/2019/07/produto/2893/1/home/disjuntor-30a-preto.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. 72 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I A realização de imobilização cervical, controlar a perveabilidade das vias áreas (abertura e manutenção), realizar manobras de reanimação e desfibrilação (quando esta for indicada) constituem-se de medidas iniciais cruciais para a manutenção da vida, sendo as mais importantes. A atenção de via área avançada através do uso de dispositivos avançados pode ser indicada e, ainda, pode ser dificultada em pacientes/vítimas com queimaduras na face ou no pescoço pelo desenvolvimento de edema local. A intubação e/ou entubação orotraqueal ou nasotraqueal precoce, deve ser realizada naquelas vítimas que: • Apresentam sinais evidentes de hipoxemia grave. • Queimaduras faciais ou orais. • Queimaduras por inalação. • Perda da consciência. • Ausência de pulso (além da intubação/entubação, deve ser instituída massagem cardíaca externa – MCE). • Manifestem desconforto respiratório; dentre outros. FIGURA 34 – REMOÇÃO DE UMA VÍTIMA QUE ESTÁ EM CONTATO COM A FONTE GERADORA DE ENERGIA Descrição: a) o socorrista deve avaliar se há possibilidade de suspender e/ou desligar a fonte ge- radora de energia; b) o socorrista deve avaliar a cena (aos arredores da vítima) para realizar diag- nóstico da área; c) o socorrista deve manter certa distância entre este e a vítima; d) o socorrista deve idealmente estar com calçado fechado e com solado de borracha – torna-se como meio isolante; e) o socorrista não deve utilizar dispositivo molhado ou feito de metal para que não ocorra transferência de energia para o próprio socorrista. FONTE: <https://bit.ly/2KoDA9t>. Acesso em: 22 abr. 2020. Entretanto, a depender do acesso a materiais/dispositivos avançados como tubo orotraqueal (Figura 35), o socorrista ou pessoa que aplica os primeiros cuidados, deve aplicar a manobra de retificação das Vias Aéreas Superiores (VAS), se elas não apresentarem sinais de trauma craniano (Clínico), caso estas apresentem, devem ser aplicados tracionamento com retificação das VAS (Trauma) (Figura 36). TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 73 FIGURA 35 – TUBO OROTRAQUEAL (PARA MANUTENÇÃO DE VIA AÉREA AVANÇADA) FONTE: <https://img.medicalexpo.com/pt/images_me/photo-mg/77318-9455195.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. FIGURA 36 – TRACIONAMENTO E RETIFICAÇÃO DAS VAS FONTE: <https://lh3.googleusercontent.com/3g9UQi_K-JOI1vCIN0zU0FensueFfWAJBz- fXubANYYYAm_7DtWENLe-QG2hPpiNptGyJ0Q=s170>. Acesso em: 22 abr. 2020. Como já abordado anteriormente, a presença de disfunção autonômica pode vir a imitar e/ou simular a presença de morte cerebral. Entretanto, a reanimação prolongada está indicada mesmo quando há presença de achados que sejam compatíveis com a de Morte Encefálica (ME), como presença de pupilas fixas e dilatadas (Figura 37). FIGURA 37 – PUPILAS DILATADAS – MIDRÍASE FONTE: <https://segredosdomundo.r7.com/wp-content/uploads/2019/03/7-possiveis-causas-e- -significados-para-uma-pupila-dilatada-9.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. 74 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I A administração de fluidos está indicada para sustentar e reestabelecer o volume circulante, combater e corrigir as perdas para o terceiro espaço e estabilizar a vítima hemodinamicamente. Já as vítimas de choque oriundas de raios, devem ser tratadas como vítimas de lesão por esmagamento, conforme elencado nos protocolos internacionais. A administração de fluidos garantirá uma adequada diurese e facilitará a excreção/eliminação de escórias metabólicas e de produtos que ocasionam destruição tecidual se acumulados no organizamos humano. Os fluidos devem ser administrados em velocidade suficiente para manter a diurese em 0,8 a 1,3 ml/kg/h (na ausência de pigmentúria) e em 1,5 a 2,0 ml/kg/h (se houver pigmentúria) (BERNOCHE et al., 2019). O uso de diuréticos em ambientes hospitalares ou no primeiro atendimento por equipes de salvamento como furosemida (Lasix®) e manitol, assim como a alcalinização urinária são condutas alternativas que visam aumentar a depuração de mioglobina (reduzir defeitos). O aparecimento de hipotensão aguda quando presente, pode ser um sinal clínico que indique a presença de sangramento (abdominal ou torácica). Outra medida simples quanto aos cuidados para evitar que ocorra choque elétrico no meio industrial ou domiciliar, é que profissionais estejam munidos dos EPIs necessários, tais como: capacetes, protetores oculares, luvas de tecido, botas de borrachas, cintos de contenção para evitar quedas de alturas, protetores visuais (máscaras), dentre outros (Figura 38) e cuidados direcionados que envolvam crianças de pequeno porte, que é evitar que estes tenham contato com fios desencapados e que seja aplicado a adaptação de protetores de tomadas de energia, conforme exemplificado na Figura 39. Uma medida simples, porém, muito eficaz (SILVA; MENDES, 2005; MOLENTO, 2017). FIGURA 38 – UTILIZAÇÃO DE EPIS NA MANUTENÇÃO DE CENTRAIS DE ENERGIA FONTE: <https://www.epi-tuiuti.com.br/blog/profissoes/dia-eletricista-conheca-os-10-epis-fun- damentais-para-quem-trabalha-no-setor//>. Acesso em: 22 abr. 2020. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 75 FIGURA 39 – PROTETORES DE TOMADAS DE ENERGIA FONTE: <http://imagens.revista.zapcorp.com.br/wp-content/uploads/2012/03/foto-protecao.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2020. 4.2 EXAMES COMPLEMENTARES Quando os pacientes/clientes e/ou as vítimas de choqueelétrico se encontrarem em ambientes de saúde de nível terciário como hospitais, é possível que sejam necessárias realizações de investigações mais minuciosas, por meio de exames laboratoriais. No caso de lesões mais graves, uma avaliação laboratorial adequada inclui os seguintes exames: • Hemograma completo com índices hematimétricos e coagulograma. • Bioquímica básica: sódio (Na), potássio (K), ureia (Ur), creatinina (Cr), marcadores musculares e cardíacos (CPK, CK-MB), gasometria arterial, parcial de urina – urina Tipo I, mioglobina sérica, marcadores hepáticos (TGO, TGP) e marcadores pancreáticos (amilase). • Eletrocardiograma seriado – visando identificar se há distúrbio de condução elétrica ou arritmias. • Ultrassonografia, caso haja suspeita de lesão intra-abdominal. Os exames de imagem são úteis para avaliar principalmente as complicações relacionados ao trauma. Qualquer alteração do estado mental indica a realização de Tomografia Computadorizada (TC) de crânio. Eletrocardiograma sequencial e monitorização eletrocardiográfica contínua, estão indicadas para aquelas pacientes com lesões importantes e/ou consideradas como graves (pós- PCP, perda ou rebaixamento do nível de consciência documentada/presenciada, anormalidades perceptíveis no pulso e no primeiro ECG, história de doença cardíaca (independentemente do tipo/modalidade), presença de fatores de risco significativos para doença cardíaca, suspeita de lesão de condução elétrica, hipoxemia e/ou dor torácica. 76 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I A dosagem de marcadores musculares e cardíaco como CPK, CK-MB e parâmetros bioquímicos como Na e K são fundamentais para a realização de diagnóstico complementar de rabdomiólise e na condução de tratamento das arritmias. Exames de maior complexidade, tais como: Eco Doppler cardíaco e cintilografia miocárdica, podem ser úteis (futuramente) para avaliar se há presença de contusão miocárdica ou disfunção ventriculares pós-choque, caso haja presença de instabilidade hemodinâmica (falência de contração vs hipotensão – queda da pressão arterial e não responsividade a infusão do volume. 4.3 TRATAMENTO DAS COMPLICAÇÕES Dentre as complicações mais evidentes, além das que foram apontadas anteriormente, destacam-se as queimaduras e a síndrome compartimental. Para tanto, as queimaduras quando presente, geralmente, devem ser tratadas de modo similar a queimaduras de origem térmicas. Em alguns casos, será necessário a instituição de procedimentos cirúrgicos invasivos como fasciotomias, escarotomias e reconstrução de áreas de deformação da pele e em uma condição mais avançada a amputação. Os procedimentos anteriormente elencados são intervenções mais comumente executados em serviços especializados após uma série de avaliações. A abordagem inicial das queimaduras em uma unidade de urgência e emergência, consiste inicialmente em: • Sustentar a profilaxia antitetânica adequada. • Manutenção da volemia (volume sanguíneo ou volume circulante) do paciente. • Instituição de profilaxia com antibioticoterapia (se indicado). A Síndrome compartimental se refere ao aumento de pressão em um determinado espaço anatómico restrito, o qual se reflete na queda da perfusão sanguínea dos músculos – suprimento de oxigênio e glicose. Como característica, pode se apresentar com parestesia (dormência), dor contínua, edema (inchaço) e enrijecimento da região acometida. Tal intervenção se faz necessária quando há um alto índice de suspeita de compressão interna de estruturas na área lesada, baseada em exames seriados e através da medição da pressão intracompartimental, quando possível e superior a 30 mmHg, é uma confirmação clínica. Nesse sentido, devido a uma elevada taxa de morbidade, recomenda-se que haja exploração e desbridamento precoce do órgão ou área afetada em até́ 24 horas pós-evento, pós constatação da queimadura e/ou lesão tegumentar. As lesões por choque elétrico, por causas naturais como raios, expressam a existência de pequena proporção quanto ao número de admissões em unidades de urgência e emergência. Por outro lado, há ocorrência de admissão de taxas mais expressivas de vítimas por meio choque elétrico por fatores convencionais, como aqueles oriundos do manuseio de redes elétricas, o que resultam em elevado custo quanto ao risco às vítimas e à sociedade, bem como expressivos gastos que devem aplicados a elas. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 77 O profissional ou socorrista responsável pelo primeiro atendimento ou aquele que se depara com uma vítima de choque elétrico, deve estar atento aos diversos mecanismos causadores de lesão, possuindo noções básicas de avaliação quanto às manifestações clínicas relacionadas aos tipos de queimaduras (superficiais ou não), se a vítima está em PCP ou não e, ainda, identificar qual a intervenção inicial a ser aplicada. A abordagem ao paciente/cliente ou vítima deve ser baseada nos protocolos do ACLS, ATLS e/ou PHTLS e instituída de maneira precoce e correta, visando melhor substancialmente a possibilidade de melhor sobrevida destes. A identificação de complicações como rabdomiólise nem sempre ocorrerá na cena onde ocorreu o incidente (poderá ocorrer posteriormente no serviço avançado de saúde), mas é importante identificar se há lesões tegumentares e se estas são queimaduras profundas, se há sinais que evidenciem a presença de síndrome compartimental, pois é muito importante, essas vítimas devem receber suporte inicial e ser encaminhadas para serviços especializados o mais brevemente possível. 78 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I LEITURA COMPLEMENTAR ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM À VÍTIMA DE QUEIMADURA ELÉTRICA: UMA PROPOSTA ESTRATÉGICA Evelyn Nascimento de Morais Enedina Soares Alinny Rodrigues Lamas André Pinto de Souza Pereira Renata do Espírito Santo Donola Wellington Tavares Meira Queimadura é um evento de grande complexidade, de difícil tratamento, desencadeada por agentes térmicos, químicos, radioativos ou elétricos, danificando diversos tecidos orgânicos, com altas taxas de morbidade e mortalidade em todo o mundo, afetando mais de um milhão de pessoas ao ano. As queimaduras elétricas podem ser ocasionadas por correntes de baixa tensão, possuindo voltagem menor que 1000 volts, ou de alta tensão, com voltagem acima de 1000 volts, de grande gravidade para a vítima. A circulação da corrente elétrica no corpo humano é acompanhada do Efeito Joule, fenômeno de produção de calor, sendo mais elevadas as temperaturas nos locais de entrada e saída da corrente e mais graves as lesões nesses pontos. Estudos demonstram que os principais efeitos fisiológicos que a corrente elétrica (externa) produz no organismo humano são classificados como: • Tetanização – fenômeno decorrente de contração muscular máxima e contínua, produzida por impulsos elétricos sucessivos, impedindo que a musculatura retorne ao estado de repouso. • Fibrilação ventricular – contrações cardíacas desordenadas, decorrentes de sinais elétricos excessivos e irregulares, superestimulando as fibras ventriculares. • Parada cardiorrespiratória – decorrente dos surtos de corrente elétrica que passam pelo corpo humano com elevada intensidade em curtos períodos. • Queimaduras. Os fatores que determinam a forma e a gravidade da lesão por eletricidade incluem amperagem, resistência do corpo no ponto de contato, tipo e magnitude no trajeto da corrente e duração do contato. Com relação à fisiopatologia, as lesões produzidas pelo calor sobre a superfície cutânea variam de acordo com a intensidade, a duração da atuação do agente e a morfologia da pele no local atingido, sendo caracterizada por dor, perda local de líquidos, destruição de tecidos e infecções. Porisso, um trauma térmico causado por um agente elétrico, TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 79 independentemente de sua extensão, pode causar danos físicos e psicológicos a sua vítima. Para os que necessitam de hospitalização, essa fase é muito complicada, pela ocorrência de variáveis estressores físicos, por exemplo: perda de fluidos, acidose metabólica, alterações no equilíbrio endócrino, infecções, dores incessantes, além dos estressores psicológicos decorrentes de situações, como a separação da família, afastamento das funções laborais, mudanças corporais, despersonalização, dependência de cuidados, perda da autonomia e tensões constantes. Após a ocorrência de um acidente térmico, a vítima enfrentará situações dramáticas na fase de recuperação, tanto pela ameaça de morte como pela intensidade da dor vivenciada. Na fase de reabilitação, a preocupação é com a vida fora do hospital, considerando-se as mudanças corporais que poderá apresentar. A literatura que trata dessa temática denota que os problemas emocionais que a pessoa queimada pode apresentar na fase aguda incluem o choque emocional, decorrente de fatores emocionais e orgânicos que se manifestam por meio de sintomas característicos, como insônia, labilidade emocional, estado de alarme e pesadelos com o traumatismo, e acrescenta-se que, nessa fase, muitos pacientes não reconhecem a gravidade de sua condição clínica. Entretanto, o medo da mutilação poderá ocorrer na fase de reabilitação, pois começam a gerar expectativas em relação aos seus resultados. Entende-se, portanto, a necessidade de conhecimento e raciocínio compreensivo ao avaliar as condições físicas e emocionais da pessoa que sofreu queimaduras. Normalmente, quando esta vítima necessita de hospitalização, deve-se estar atento ao estado de saúde em todos os preâmbulos – diagnóstico, planejamento das ações, implementações e avaliações de enfermagem condizentes e apropriadas, e que todos os registros sejam elaborados de forma clara e objetiva, retratando inteiramente as condições do paciente, documentando todas as atividades realizadas pelos membros da equipe. Histórico No dia 17/7/2010, paciente do sexo masculino, 20 anos, residente na cidade do Rio de Janeiro, foi admitido no hospital, vítima de queimadura elétrica, após ser atraído através de uma peça de roupa molhada que estava em sua mão, pelo gerador de alta tensão responsável pelo fornecimento de energia do estabelecimento onde trabalhava; tendo como ponto de entrada da corrente elétrica o braço esquerdo e ponto de saída, a região peniana. Encontrava-se lúcido, orientado, eupneico, com intenso edema em membro superior esquerdo, regiões peniana e escrotal; hematoma, necrose e ruptura parcial em base do pênis; queimaduras de 2° grau em face interna das coxas direita e esquerda e 3° grau na região anterior da coxa esquerda, totalizando 12% de superfície queimada, conforme diagrama de Lund-Browder (porcentagem atribuída a cada região queimada do corpo). 80 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I Relatório estratégico Ao exame clínico, apresentava Glasgow 15, hemodinamicamente comprometido, auscultas cardíacas e pulmonares normais. Conduta terapêutica inicial com reposição volêmica, sedação, analgesia, cateterização vesical de demora e balneoterapia, cuja finalidade é a remoção de sujidade, crostas e tecidos desvitalizados, ocluindo com curativos em bandagens sobre medicações tópicas prescritas. Ao exame físico, foi diagnosticada síndrome compartimental em membro superior esquerdo; complicação que se desenvolve nos músculos quando sua perfusão sanguínea não está satisfatória, comprometendo gradualmente a função circulatória arterial. Os sinais clássicos são: diminuição da temperatura no membro acometido, palidez cutânea, ausência de pulso arterial, parestesia e dor local. Observou-se, então, necessidade de intervenção cirúrgica imediata, conhecida como fasciotomia (Figura 1), utilizada na descompressão de elementos neuromusculares e músculos esqueléticos por meio da abertura da pele, subcutâneo e fáscia que revestem os tecidos profundos, favorecendo a descompressão dos vasos, facilitando a vascularização da área comprometida, visando prevenir isquemias e necroses neuromusculares. FIGURA 1 – FASCIOTOMIA EM MEMBRO SUPERIOR ESQUERDO Após 24h de internação, as avaliações clínicas indicaram a necessidade da desarticulação do membro superior esquerdo e amputação peniana. As indicações para amputação são sinais de lesão tecidual profunda (membro não viável) ou foco séptico. Esses sinais são apresentados por edema, alterações isquêmicas, perda motora ou sensorial, queimadura de terceiro grau no trajeto da lesão, deformidade em flexão persistente e foco infeccioso. Sabe-se que as intervenções cirúrgicas dessa natureza exigem autorização escrita de cunho próprio ou, frente a sua impossibilidade, poderá ser procedida pelo seu responsável direto (pai, mãe, cônjuge ou tutor legal). No caso em estudo, o paciente apresentava-se angustiado, inseguro, com medo do desconhecido, com dúvidas e incertezas que o impossibilitaram a assinar o termo de liberação para a realização da cirurgia; fatos que direcionaram TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 81 para uma assistência de enfermagem estratégica, individualizada e diferenciada. Perceber e respeitar o paciente como alguém que não se resume a um ser apenas com necessidades biológicas, mas como um sujeito biopsicossocial e espiritual com direitos decisórios quanto ao que deseja para si, para sua saúde e seu corpo, é essencial para a humanização da assistência hospitalar. Para tal, o preparo educacional do enfermeiro o torna responsável pelo cuidado universal do paciente. No decorrer do tratamento, a equipe multidisciplinar sabia da necessidade vital do ato cirúrgico; porém, o paciente não estava seguro de sua decisão. Entretanto, para que pudéssemos compreender seu histórico de vida, suas convicções, seus valores, desejos e perspectivas, infindáveis diálogos foram estabelecidos e estratégias foram criadas, buscando meios que facilitassem melhor enfrentamento do momento vivido, a compreensão real sobre a gravidade de seu estado de saúde e a importância da indicação terapêutica. Concomitante a essa realidade, procedeu-se continuamente à avaliação de sinais e sintomas de infecção, avaliações clínicas e laboratoriais foram realizadas sistematicamente, dando- se ênfase para aferição dos níveis térmicos, gasometria arterial, intercorrências respiratórias, alteração da consciência, contagens leucocitárias, elevação dos níveis de proteína C reativa e monitorização do equilíbrio volêmico registrado em impresso específico, visto que, dentre outras injúrias, as lesões teciduais são responsáveis pela liberação de catabólitos de alto peso molecular (mioglobina) na circulação, podendo desencadear insuficiência renal aguda. Vale ressaltar que, após vários esclarecimentos acerca da indicação cirúrgica que a cada dia se tornava imprescindível e inadiável, o cliente aquiesceu aos apelos da equipe e, em 21/7/2010, quatro dias após sua admissão, foi encaminhado ao centro cirúrgico para realização da desarticulação de membro superior esquerdo e amputação peniana (Figuras 2 e 3), com instalação de cateteres ureterais do tipo Foley. Nos primeiros dias pós-operatórios, o paciente relutou muito em aceitar sua atual condição. Recusou-se a falar sobre o assunto, não permitia que a enfermagem o auxiliasse durante quaisquer atividades e se negava a retirada dos curativos, caso não estivesse completamente sedado. FIGURA 2 – DESARTICULAÇÃO DE MEMBRO SUPERIOR ESQUERDO 82 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I FIGURA 3 – AMPUTAÇÃOPENIANA Todos esses momentos foram respeitados pelos integrantes da equipe, o que estabeleceu um vínculo de confiança entre o paciente e os profissionais. Respeitar envolve buscar interpretar o que o outro tem a transmitir, é ter compaixão, ser tolerante, atencioso e entender suas necessidades pautadas em sua individualidade e subjetividade. Acrescente-se que as rotinas hospitalares nunca deixaram de serem cumpridas; diariamente eram realizados: balneoterapia, desbridamentos mecânicos e cirúrgicos dos tecidos desvitalizados, evitando que os tecidos desvitalizados servissem como meio de cultura aos agentes biológicos oportunistas e curativos oclusivos sobre as áreas lesionadas. Porém, sempre que possível, permitíamos a participação do paciente nas decisões relativas à condução de sua terapêutica, ações fundamentais para o fortalecimento de sua autonomia e autoconfiança. As áreas atingidas foram sendo preparadas para a autoenxertia (processo que se dá quando o órgão ou tecido a ser enxertado é retirado do próprio indivíduo, indicada em casos de queimaduras de 2° e 3° graus, em que haja perda cutânea sem possibilidades de regeneração tecidual). Nessa etapa do processo, o paciente revelou que já se sentia melhor e não queria mais continuar internado, desejava sua alta hospitalar, pois se encontrava apto a realizar seu autocuidado em domicílio, com a ajuda de familiares. Entretanto, foi-lhe esclarecido, que sua assistência era mais complexa do que a higienização corporal e curativos, e que as áreas lesionadas estavam sendo preparadas para serem enxertadas. Apesar do intenso esforço dos enfermeiros, o paciente relutava contra a sua permanência no hospital. Foi quando tivemos a ideia de chamar uma das pacientes internadas para conversar com ele, pois ela havia tido a mesma atitude de negação ao tratamento sob regime de internação e precisou ser reinternada, apresentando intensas dores, infecções e miíases nos ferimentos. Suas orientações fizeram com que o paciente repensasse sua decisão, convencendo o a aquiescer a continuidade do tratamento intra-hospitalar. Com a obtenção de tecido de granulação adequado nas regiões lesionadas, no dia 17/8/2010, 27 dias após a desarticulação do membro superior esquerdo, procedeu-se à autoenxertia, tendo como área doadora a face interna da coxa direita e locais receptores a fossa axilar esquerda e coxa esquerda, optando-se pelo enxerto laminar, suturados em bordas. TÓPICO 3 — LESÕES POR CHOQUE ELÉTRICO 83 Apresentando cicatrização favorável, no 14° dia pós-cirúrgico, os pontos cirúrgicos foram retirados, com aderência de 90% dos enxertos (Figura 4). Diante do êxito da terapêutica proposta, a enfermagem comprometida profissionalmente com a recuperação desse paciente, respeitando a sua dignidade, desenvolvendo habilidades que o ajudaram a superar tanto os problemas físicos quanto as reações emocionais, sentiu-se contemplada. FIGURA 4 – ADERÊNCIA DE 90% DO ENXERTO REALIZADO EM FOSSA AXILAR ESQUERDA O paciente estudado recebeu alta hospitalar após 68 dias de internação, em 23/9/2010. Fez muitos amigos e se despediu das equipes de enfermagem e médica extremamente emocionado, relatando que jamais se esqueceria daqueles profissionais que o ajudaram a enfrentar os momentos mais difíceis de sua vida. Após a alta hospitalar, foi encaminhado ao tratamento ambulatorial acompanhado pela equipe multiprofissional do hospital onde esteve internado e sempre que possível comparece ao setor de tratamento de queimados nos demonstrando suas superações e apresentando suas evoluções terapêuticas. Podemos destacar que a participação da equipe de enfermagem foi fundamental nesse processo, visto que essa categoria ocupa o maior número de trabalhadores inseridos na área de saúde, perpassando por vasta diversificação de tarefas, sempre presencial, e com contato físico para a execução de ações por vezes intransferíveis, responsável por cerca de 60% das ações direcionadas ao cliente com assistência ininterrupta, diuturnamente. Discussão Percebeu-se, neste estudo, que quando se desenvolve uma assistência de qualidade utilizando a competência, o respeito aos princípios da comunicação, da individualidade, da compreensão, da benevolência, do acolhimento e da empatia, como instrumentos essenciais à assistência, eles contribuem para minimizar os agentes estressores que afetam o paciente com queimaduras, provenientes de lesões corporais agressivas, de procedimentos terapêuticos de alta complexidade 84 UNIDADE 1 — EVENTOS AGUDOS I e internação prolongada, podendo-se considerar como ações estratégicas para a obtenção da participação do cliente e, consequentemente, resultados satisfatórios relativos à imposição do tratamento. Percebeu-se, também, ser possível a execução de uma assistência de enfermagem diferenciada e individualizada, pautada no princípio da participação do usuário, sem que as normas e rotinas estabelecidas pelo sistema da saúde sejam infringidas. É relevante salientar a importância que o enfermeiro possui como administrador da assistência, sendo capaz de arremeter os membros de sua equipe a refletirem sobre suas práticas, levando-os a reconhecerem o propósito e o significado de suas atividades e no âmbito gerencial, sendo autor e/ou organizador de métodos e estratégias que viabilizem o atendimento as necessidades do paciente em todas as suas dimensões, redefinindo a essência da arte do cuidado de enfermagem. FONTE: MORAIS, E. N. de et al. Assistência de enfermagem à vítima de queimadura elétrica: uma proposta estratégica. Revista Brasileira de Queimaduras, Goiânia, v. 10, n. 4, p. 144-148, 2011. Disponível em: http://www.rbqueimaduras.com.br/export-pdf/88/v10n4a11.pdf. Acesso em: 22 abr. 2020. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 85 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • O termo eletricidade é uma forma de energia que se encontra presente em todos os segmentos da sociedade, em todos os lugares/espaços/ambientes, e que de certa forma, sempre há disposição através de uma fonte provedora/ fornecedora de tensão. • Existem sete mecanismos fisiopatológicos que podem ser aceitos, relacionando à ocorrência com energia ou descarga elétrica, podendo revelar a gravidade do dano gerado pela eletricidade, são eles: conversão de energia elétrica em energia térmica durante a passagem da corrente pelos tecidos, ou seja, refere- se ao percurso da corrente no corpo o que determina o dano e/ou grau de lesão tissular; tipo de corrente vs tipo de tensão, ou seja, se esta é direta ou alternada; voltagem e amperagem, ambas são medidas de força corrente, ou seja, se refere a tensão de descarga; duração da exposição (quanto mais longa a exposição, maior a gravidade do dano), o que se traduz em alterações a nível celular; resistência do corpo quanto ao evento sofrido; lesões traumáticas secundariamente a contusões, contrações musculares vigorosas e quedas pós recebimento da descarga elétrica; liberação intensa e desordenada de catecolaminas. • Os danos associados aos tecidos internos podem depender de alguns achados, tais como: aqueles atrelados à resistência e da densidade gerada pela corrente, ou seja, aquela corrente por unidade de área (entrada) e a energia quando se torna concentrada (percurso e saída), através de pequenas áreas. • A passagem ou percurso da corrente pelo corpo é determinada pelas estruturas que foram lesionadas e danificadas, pelo tipo da corrente alternada (CA), pois ela não percorre em um sentido único, por isso usa-se o termo alternada. • Os termos mais comumente utilizados, relacionados a lesõesque envolve corrente elétrica, é ponto de entrada e ponto de saída, entretanto, estes são considerados como inapropriados/incorretos, devendo ser usados os seguintes termos: ponto fonte (local que obteve contato com a fonte de energia) e ponto terra (local onde ocorreu a saída da descarga elétrica), sendo mais precisos. O ponto de fonte pode ser qualquer parte do corpo humano, mas é mais comum ser a cabeça e a mão. Já o ponto de terra é mais comum ser o pé. • Descargas elétricas que percorrem entre a cabeça e os braços ou dos braços e migram para os pés tendem serem mais perigosos, pois existe a grande probabilidade de atingirem o coração, estimulando e desordenando, assim, a nodo/nodu ou nódulo sinusal (marcapasso fisiológico/natural do coração), 86 ocasionado um novo evento, arritmias cardíacas. Essa corrente tende a ser mais perigosa e, ainda, destaca-se que correntes elétricas que tiveram seu ponto fonte pela cabeça, este pode danificar/lesionar o sistema nervoso central (SNC) e seu funcionamento. • O efeito relacionado ao campo elétrico pode vir a desencadear dano à membrana celular devido à chamada “eletroporação”, mesmo quando a descarga elétrica ou a energia atribuída ao evento for discreta ou insuficiente, o que ocasionará lesão térmica variada (discreta, moderada ou intensa). Junto a essas lesões, ocorrem outros efeitos, tais como: porta de entrada para infecção, limitação ou restrição ao movimento, dor, dentre outros. • São complicações comuns e que, de certa forma, são esperadas quando as lesões ocorrem em ambientes externos por raios, os chamados eventos da natureza. Tal evento ocorre em virtude da energia cinética ou cinemática da ocorrência, gerando quedas importantes associadas pelo lapso de memória, desencadeamento de desequilíbrio e estimulação cerebral desordenada. • As lesões mais graves, oriundas do choque elétrico, são aquelas que geralmente, são indolores, porque há perda da sensibilidade; podem apresentar coloração amarelo acinzentada; estão associadas à presença de necrose central. • Figuras de Lichtenberg são imagens produzidas por descargas elétricas ramificadas, arborescentes” as quais ocorrem poucas horas após o incidente/ acidente. Tais lesões possuem como características um aspecto de ramificações dendríticas. • Com relação às alterações eletrocardiográficas, as mais comumente observadas e registradas são aquelas chamadas de taquicardia sinusal (batimento cardíaco acima do fisiológico, mas em um mesmo compasso). Entretanto, podem ser observadas elevação transitória do segmento ST (fisiologicamente, nesta etapa de relaxamento ventricular, esse evento não deveria ocorrer), prolongamento reversível do segmento QT (intervalo entre o relaxamento ventricular parcial e seu relaxamento completo), bloqueios de ramo e bloqueios atrioventriculares de 1°, 2°, 3° graus ou total (inibição de condução elétrica – não há distribuição de condução elétrica completo). • Descargas elétricas que atingem alguma via superior (cabeça, braço por exemplo) e possui sua via de saída, os membros inferiores (pés), as vítimas podem desencadear grandes chances de estimular a presença de uma arritmia cardíaca de grande magnitude, tal como Fibrilação Ventricular (FV), considerada como um ritmo de modalidade de Parada Cardiopulmonar (PCP). • A morte súbita secundária à FV é muito mais comum em pacientes vítimas de choques de baixa voltagem/amperagem com corrente alternada. Já arritmia nominada de “Assistolia” está, geralmente, associada a choques de alta voltagem/amperagem. 87 1 As descargas elétricas que possuem como ponto ou foco de entrada a cabeça, e sua saída alguma via dos membros inferiores podem desencadear quais eventos? 2 Sabemos que além do aspecto da lesão, existem outras formas de classificar sua extensão e seu dano. Descreva algumas características que simbolizam a sua gravidade. 3 Qual é o significado do termo Figuras de Lichtenberg? 4 Qual é a terminologia correta a ser usada quanto à via de entrada e de saída de uma corrente elétrica? AUTOATIVIDADE 88 REFERÊNCIAS ÁLVAREZ, V. E. et al. Fiabilidad en la medición de la temperatura corporal con un termómetro timpánico en pacientes geriátricos. Gerokomos, Barcelona, v. 28, n. 2, p. 68-72, 2017. ASTUR, D. C. et al. Lesão muscular: perspectivas e tendências atuais no Brasil. Rev. bras. ortop., São Paulo, v. 49, n. 6, p. 573-580, dez. 2014. AUN, M. V. et al. Anafilaxia perioperatória: A experiência brasileira. Rev Port Imunoalergologia, Lisboa, v. 24, n. 2, p. 99-106, jun. 2016. BATISTA, R.; MARTINS, S. C.; PIMENTA, M. de F. Revisitando as síndromas hipertérmicas fármaco-induzidas. Medicina Interna, Lisboa, v. 25, n. 3, p. 224- 232, set. 2018. BERNOCHE, C. et al. Atualização da diretriz de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados cardiovasculares de emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia - 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, [s.l.], p. 449-663, 2019. BISINOTTO, F. M. B. et al. Queimaduras relacionadas à eletrocirurgia: relato de dois casos. Rev. Bras. Anestesiol, Campinas, v. 67, n. 5, p. 527-534, oct. 2017. CHAMBEL, M.; ANTUNES, J.; PRATES, S. O mundo da urticária, com e sem alergia. Rev. Port. Clin. Geral, Lisboa, v. 27, n. 1, p. 84-94, jan. 2011. CORREIA, A. C. de C.; SILVA, P. C. B.; SILVA, B. A. da. Hipertermia maligna: aspectos moleculares e clínicos. Rev. Bras. Anestesiol., Campinas, v. 62, n. 6, p. 828-837, dez. 2012. CRIADO, P. R. et al. Histamina, receptores de histamina e anti-histamínicos: novos conceitos. An. Bras. Dermatol., Rio de Janeiro, v. 85, n. 2, p. 195-210, abr. 2010. DRES, M.; DEMOULE, A. O que todo intensivista deve saber sobre oxigenoterapia nasal de alto fluxo em pacientes críticos. Rev. Bras. Ter. Intensiva, São Paulo, v. 29, n. 4, p. 399-403, dez. 2017. DUFF, J. P. et al. American Heart Association Focused Update on Pediatric Advanced Life Support: an update to the american heart association guidelines for cardiopulmonary resuscitation and emergency cardiovascular care. Circulation, [s.l.], v. 138, n. 23, p. 1-8, 4 dez. 2018. FERREIRA, A. V. S. et al. Emergências pediátricas. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2010. 89 FERREIRA, H. et al. Anafilaxia e alergia alimentar: O resultado de uma intervenção na comunidade. Nascer e Crescer, Porto, v. 24, n. 3, p. 103-107, set. 2015. FERREIRA, F.; INACIO, F. Patologia associada ao trigo: alergia IgE e não IgE mediada, doença celíaca, hipersensibilidade não celíaca, FODMAP. Rev Port Imunoalergologia, Lisboa, v. 26, n. 3, p. 171-187, set. 2018. FONTE, M. et al. Insuficiência respiratória aguda: quando o tempo conta. Nascer e Crescer, Porto, v. 20, n. 1, p. 45-48, mar. 2011. GAWRYSZEWSKI, V. P. et al. Atendimentos decorrentes de queimaduras em serviços públicos de emergência no Brasil, 2009. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 28, n. 4, p. 629-640, Apr. 2012. GRANGEIA, T. de A. G. et al. Insuficiência respiratória aguda como manifestação da síndrome de eosinofilia-mialgia associada à ingestão de L-triptofano. J. Bras. Pneumol., São Paulo, v. 33, n. 6, p. 747-751, dez. 2007. HALL, J. E.; GUYTON, A. C. Guyton & Hall tratado de fisiologia médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. LIMA JUNIOR, N. A. et al. Gasometria arterial em dois diferentes métodos de transporte intra-hospitalar no pós-operatório imediato de cirurgia cardíaca. Rev. Bras. Ter. Intensiva, São Paulo, v. 24, n. 2, p. 162-166, jun. 2012. LIMA, S. C. de; TAKAHASHI, E. K. Construção de conceitos de eletricidade nos anos iniciais do Ensino Fundamental com uso de experimentação virtual. Rev. Bras. Ensino Fís., São Paulo, v. 35, n. 3, p. 1-11, set. 2013. LOPES, C. et al. Protocolo clínico de abordagem das reações agudas de hipersensibilidade a meios de contraste em Imagiologia. Revista Portuguesa de Imunoalergologia, [s.l.], v. 27, n.1, p. 41-54, mar. 2019. LOURENÇO, S. R. et al. Um estudo sobre os efeitos da eletricidade no corpo humano sob a égide da saúde e segurança do trabalho. Exacta, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 135-143, jan./jun. 2007. MAIA, A. L. et al. Consenso brasileiro para o diagnóstico e tratamento do hipertireoidismo: recomendações do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Arq. Bras. Endocrinol. Metab., São Paulo, v. 57, n. 3, p. 205-232, abr. 2013. MEDEIROS, D. et al. Nível sérico de IgE total em alergia respiratória: estudo em pacientes com alto risco de infecção por helmintos. J. Pediatr. (Rio J.), Porto Alegre, v. 82, n. 4, p. 255-259, ago. 2006. MORAIS, E. N. de et al. Assistência de enfermagem à vítima de queimadura elétrica: uma proposta estratégica. Revista Brasileira de Queimaduras, Goiânia, v. 10, n. 4, p. 144-148, 2011. Disponível em: http://www.rbqueimaduras.com.br/ export-pdf/88/v10n4a11.pdf. Acesso em: 22 abr. 2020. 90 MOLENTO, F. H. B. Biossegurança e a prática baseada em evidências. Rev Pan- Amaz Saude, Ananindeua, v. 8, n. 1, p. 7-8, mar. 2017. PEREIRA, A. M.; GASPAR, Â.; FERREIRA, M. B. Algoritmo de diagnóstico diferencial de anafilaxia. Rev Port Imunoalergologia, Lisboa, v. 26, n. 3, p. 221- 228, set. 2018. PORTH, C. M.; KUNERT, M. P. Fisiopatologia. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. RIBEIRO, M. L. K. K.; CHONG NETO, H. J.; ROSARIO FILHO, N. A. Diagnóstico e tratamento da anafilaxia: há necessidade urgente de implementar o uso das diretrizes. Einstein, São Paulo, v. 15, n. 4, p. 500-506, dez. 2017. SALGADO, P. de O. et al. Physical methods for the treatment of fever in critically ill patients: a randomized controlled trial. Revista da Escola de Enfermagem da USP, [s.l.], v. 50, n. 5, p.823-830, out. 2016. SALGADO, M. et al. Anafilaxia, alimentos e futebol. Nascer e Crescer, Porto, v. 21, n. 4, p. 241-244, dez. 2012. SANTANA, A. R. et al. Insuficiência respiratória aguda causada por pneumonia em organização secundária à terapia antineoplásica para linfoma não Hodgkin. Rev. bras. ter. intensiva, São Paulo, v. 24, n. 4, p. 415-419, dez. 2012. SARINHO, E.; LINS, M. das G. M. Formas graves de alergia alimentar. J. Pediatr. (Rio J.), Porto Alegre, v. 93, supl.1, p. 53-59, 2017. SIMÕES, A. L. B.; MARTINO, M. M. F. de. Variabilidade circadiana da temperatura oral, timpânica e axilar em adultos hospitalizados. Rev. Esc. Enferm. USP, São Paulo, v. 41, n. 3, p. 485-491, set. 2007. SILVA, L. F.; MENDES, R. Exposição combinada entre ruído e vibração e seus efeitos sobre a audição de trabalhadores. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 39, n. 1, p. 9-17, jan. 2005. VALENCIA, M. I. B. Anafilaxia perioperatória. Brazilian Journal Of Anesthesiology, [s.l.], v. 65, n. 4, p.292-297, jul. 2015. VERON, H. L. et al. Implicações da respiração oral na função pulmonar e músculos respiratórios. Revista Cefac, [s.l.], v. 18, n. 1, p. 242-251, fev. 2016. ZÜGE, C. H. et al. Entendendo a funcionalidade de pessoas acometidas pela Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) sob a perspectiva e a validação do Comprehensive ICF Core Set da Classificação Internacional de Funcionalidade. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, [s.l.], v. 27, n. 1, p. 27-34, 2019. 91 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • descrever a importância em distinguir o que é síncope de crise epilética; • identificar as medidas passíveis de serem aplicadas em vítimas com infarto agudo do miocárdio; • identificar os conceitos inerentes à crise epiléptica; • conhecer os sinais e/ou manifestações mais comuns quanto aos eventos agudos relacionados ao infarto agudo do miocárdio. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE TÓPICO 2 – CRISE EPILÉTPICA TÓPICO 3 – PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 92 93 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Até pouco tempo, o Atendimento Pré-Hospitalar (APH) era aplicado somente a vítimas de traumatismo, porém, com o advento relacionado à elevação de casos agudos ou eventos agudos, tal medida de cuidado se amplia a respectiva temática, podendo, também, ser nominados de “casos clínicos ou enfermidades agudas”. Sabe-se hoje, no entanto, que o atendimento às vítimas de traumas e àqueles relacionados a situações agudas, devem ser iniciados o mais precocemente possível, não deixando sofrer descontinuidade até a chegada a serviços que possuam maiores recursos, como as unidades de urgência e emergência. O primeiro atendimento é crucial e pode ser decisivo no desfecho da condição vivenciada pelas vítimas que experienciam tal situação. Isso reforça o entendimento de que o atendimento deve-se iniciar já no local da ocorrência (onde ocorreu o evento), se em uma via pública, em escolas, universidades, shoppings, residências, dentre outros ambientes, devendo haver a aplicação de assistência segura e não expositiva, e, ainda, melhor integração possível entre o atendimento prestado por aquele que socorre no local. Além dos cuidados prestados inicialmente, deve haver planejamento e preocupação quanto à realização do transporte, o qual deveria ser realizado por serviços especializados, mas sabemos que nem sempre é possível aguardarmos por tal assistência, pois, muitas vezes, o tratamento definitivo é necessário e não deve ser postergado, por exemplos os casos em que o paciente/cliente e/ou vítima é encontrada desmaiada e não apresenta lesão no couro cabeludo (cabeça), o que pode nos fazer pensar que se trata de uma síncope (popularmente conhecida como desmaio), o qual pode estar associado a uma crise convulsiva, hipoglicemia (baixa no teor de açúcar no sangue) ou, ainda, aqueles casos relacionados à chamada precordialgia (popularmente conhecida como dor no peito), a qual se remete a compreendermos de que a vítima, pode sofrer alguma injúria ou colapso cardiovascular, ou mesmo estar experienciando um infarto. São inúmeros casos que o socorrista que presta o primeiro atendimento deve levar em consideração. Frente a isso, entende-se a necessidade de haver, por parte desses, conhecimento não apenas do que fazer, mas de como tal situação “clínica ou traumática” ocorreu, deve haver organização por parte dos sistemas de atendimento a essas vítimas e disponibilidade de centrais de atendimento por meio da telemedicina, para que profissionais especializados possam nos auxiliar na condução dos primeiros atendimentos em cenários externos. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 94 Essa organização visa permitir que haja pessoal treinado (leigos ou da área da saúde), atendendo o mais rápido e adequadamente possível às vítimas, prestando, no local e a caminho do hospital, mesmo que seja por meios próprios, os cuidados assistências indispensáveis para a manutenção da vida, de forma segura, rápida e eficiente, até o início do tratamento definitivo. 2 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR EM EVENTOS AGUDOS 2.1 O SÍMBOLO INTERNACIONAL DOS SERVIÇOS DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR Segundo O’dwyer et al. (2017), a estrela de seis pontas ou estrela azul da vida (Figura 1) foi criada em 1977 por Leo R. Schwartz. É o símbolo internacional que representa os serviços médicos de emergência no Atendimento Pré-hospitalar (APH) ou em ambientes externos. Cada ponta da estrela representa um aspecto da função do atendimento de emergência. A serpente e o bastão são símbolos da medicina desde o século XVI. As funções representadas na estrela da vida se traduzem nos seguintes significados: • Detecção – detectar a emergência. • Alerta – reportar a emergência.• Pré-socorro – enviar a equipe e o equipamento mais adequados. • Socorro – iniciar o atendimento no local. • Transporte – atendimento durante o transporte. • Hospital – transferência para o tratamento definitivo. FIGURA 1 – ESTRELA DA VIDA FONTE: <https://medilarblog.files.wordpress.com/2019/08/estrela-da-vida-blog_prancheta-1-1. png?w=645&h=525>. Acesso em: 20 maio 2020. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 95 De uma forma simples, os respectivos símbolos, hoje utilizado e reconhecido em todo o mundo, representam os principais aspectos interligados ao APH ou em ambientes externos. Tais condutas, na sua maioria, são aplicados por equipes treinadas e capacitadas para intervirem em condições extremas, entretanto, pessoas leigas, desde que instruídas adequadamente, também podem salvar vidas utilizando os mesmos princípios apontado na estrela da vida. De uma maneira ainda mais simples, poderíamos dizer que intervenções aplicadas em cenários externos ou no APH possuem como essência e/ou função principal, socorrer rapidamente vítimas de traumatismo ou aqueles que possuem natureza clínica, conforme mencionados em exemplos anteriormente, fazendo no local e a caminho do hospital intervenções pontuais, as quais podem ser consideradas fundamentais para manter estabilizada uma vítima, sem perder tempo, mas encaminhando-a de forma segura para uma unidade de saúde que possua maiores recursos. 2.2 GOLDEN HOURS OU HORA DE OURO Adams Cowley (cirurgião americano, considerado pioneiro na medicina de emergência e no tratamento de trauma de choque) fundou o Maryland Institute of Medical Emergencies (Instituto de Emergências Médicas de Maryland), sendo considerado um dos primeiros centros de trauma dos Estados Unidos, criando, assim, o mnemônico e/ou conceito chamado de “hora de ouro”. O criador do referido termo, chegou à conclusão com base em suas observações da condição com que os traumatizados recebiam, precocemente, o primeiro tratamento e identificou que eles tinham sobrevida muito maior quando comparado com aqueles que, por qualquer motivo, tinham o tratamento definitivo postergado e/ ou retardado (MALVESTIO; SOUSA, 2010). Esse período, dentro do qual o paciente deveria ter o tratamento de forma ideal e definitivo, pelo menos iniciado, para que suas chances de sobreviver ocorressem sem sequelas ou que fossem mínimas. Para o paciente com um ferimento penetrante no coração (um evento traumático, mas com íntima ligação clínica), minutos correspondem à vida, enquanto que, para paciente com sangramento não muito abundante, pode ser de até algumas horas. Por isso, alguns autores preferem falar em” período de ouro”, em vez de “hora de ouro”. De qualquer modo, o conceito enfatiza a importância de não se perder tempo no atendimento a qualquer vítima, pois, mesmo uma vítima com boa condição clínica, pode estar tão exposta a perder sua vida quanto uma vítima de traumatismo. Vida é vida, já que essa perda de tempo pode diminuir muito a possibilidade de recuperação plena. Muitas vezes, o tratamento do traumatizado inclui cirurgia, e nos casos clínicos, intervenções amplamente invasivas para potencializar a recuperação. Assim, para que o traumatizado e o paciente, vítima de um evento clínico, tenham seu tratamento definitivo iniciado, é necessário que eles recebam um primeiro UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 96 atendimento uniforme sem variáveis de exposição, mas de recuperação, que o sistema tenha avançado seja ativado e/ou comunicado, os recursos necessários sejam enviados e cheguem ao local, o paciente seja avaliado e tratado no local ou durante o seu percurso até serviços especializados, seja removido para o hospital apropriado com o atendimento necessário durante o transporte, seja avaliado e, eventualmente, submetido a exames complementares no pronto-socorro e melhor estabilizado (LADEIRA; BARRETO, 2008; O’DWYER et al., 2017). 2.3 ATIVAÇÃO DO SISTEMA Uma vez ocorrido o trauma ou dano clínico, para que o sistema seja ativado, é necessário que alguém detecte a ocorrência e ligue para uma central informando, de maneira bem simples, mas completa, informando o tipo de ocorrência (colisão, atropelamento, queda, incêndio, desabamento, agressão, dor e em que região, qual a duração e sua intensidade, se existe alguma limitação mais em evidência, dentre outros), o número de vítimas, se a ocorrência for um trauma, suas condições e as circunstâncias relacionadas ao trauma ou se está se tratar de uma condição clínica, existe alguma particularidade e irregularidade mais aparente? Com essas informações é iniciada a resposta, pois o profissional que a recebe em uma central de regulação médica pode ir dando dicas de como intervir. A montagem e o envio da resposta dependem da solicitação recebida pela central. A ativação do sistema pode ser feita pela própria vítima ou por alguém que presencie a ocorrência. No Brasil, mesmo em diferentes estados, o sistema de solicitação de ajuda pode ser ativado pelos números 193 (Corpo de Bombeiros), 192 (SAMU), 191 (Polícia Rodoviária Federal) ou 190 (Polícia Militar). O ideal seria que em todo país houvesse um único número, que fosse facilmente memorizado por todos, mesmo por crianças pequenas, para que o sistema de atendimento extra-hospitalar pudesse ser facilmente ativado. De qualquer modo, já existe uma integração razoável entre algumas centrais (SAMU, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar), de modo que, qualquer que seja a central chamada, a solicitação chega rapidamente ao órgão que deve ser ativado. 2.4 AVALIAÇÃO DA CENA OU DO AMBIENTE EM QUE A OCORRÊNCIA SE INSTALOU Com relação à avaliação da cena ou do ambiente onde ocorreu o incidente, esta é uma das etapas mais importante e significativas que deve ser realizado por aquele que irá prestar socorro. Importante no sentido de que este deve estar atento aos riscos inerentes ao evento, pois existem aqueles que já se fazer presente e existem aqueles que podem surgir durante o atendimento. Dessa forma, avaliando a cena antecipadamente, é possível prevermos alguns riscos e evitá-los que estes gerem uma segunda vítima (aquele que socorre). TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 97 Para tanto, devem ser avaliados os possíveis riscos e aqueles em potencial envolvidos (ex.: nova colisão e atropelamento (caso o incidente tenha sido com veículos ou motocicletas, explosão e risco de fogo, desabamento, eletricidade, materiais perigosos, agressão, dentre outros). É importante que esteja garantido a sua segurança enquanto socorrista, o próximo passo será fazer uma breve avaliação e esta deve ser rápida, pontual, objetiva para determinar qual é a real situação ou grau de dano (grau de acometimento) tanto a vítima ou aos arredores do incidente. Isso significa que você deve realizar algumas perguntas a vítima e se fazer algumas perguntas e obter auto respostas, tais como: O socorrista deve perguntar há vítima - o que aconteceu de fato? Essa pergunta permite ao socorrista compreender o que ocorreu e ter uma visão um pouco mais ampliada do evento. Da mesma forma, você enquanto socorrista deve se perguntar e prever uma resposta: • Avaliar: qual a cinemática envolvida? Esta é de pequeno, baixo ou grande impacto. Permitindo ao socorrista, interpretar qual a situação (gravidade) do evento. • O caso é isolado (único) ou quantas são as vítimas envolvidas? Existem apenas uma, duas, cinco ou mais vítimas envolvidas no evento. • Qual a idade provável (estimativa) das vítimas envolvidas? Essa pergunta auxilia na solicitação de ajuda e a depender da disponibilidade de socorro, este pode ser melhor direcionado • Existem danos gerados por um eventual trauma (colisão), há vítimas encarceradas? • Se ocorrências em ambientes fechados como domicílio é possível ter acesso à vítima? • São necessários outros recursos mais avançados para socorrer a vítima como a presença de médicos ou outros? • É necessário fazer triagem (quando há múltiplasvítimas - classificação em prioridade de atendimento)? • Há algum problema de saúde pré-existente (passível de ser observado ou visível) envolvido na gênese do trauma (convulsão, arritmia, infarto ou hipoglicemia colisão de carro, por exemplo)? • A vítima em questão está responsiva? UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 98 • Como está a sua respiração (normal, superficial, limitada)? • Como está a sua coloração da pele da vítima (rósea, pálida)? • A vítima queixa-se de dor em local específico ou está se irradia para outras partes do corpo? Quanto à sequência de perguntas anteriormente apontadas, sugerimos que estas sejam utilizadas durante o seu atendimento, pois lhe permitirá ter uma noção mais ampla do que e como realizar sua prestação de socorro. A avaliação da cena deve ser realizada muito rapidamente, para identificar se você também não estará exposto e para que você possa proceder ao atendimento propriamente dito. Outro aspecto importante é a autoproteção contra possíveis contaminações por meio de material biológico através do sangue, secreções, saliva, vômito, dentre outros. Sua segurança virá sempre em primeiro lugar, lembre-se disso. Para iniciar o atendimento, deve ser usado equipamento adequado de proteção individual (EPIs), tais como: luvas, gorros, máscaras, avental, óculos, e ainda, deve-se tomar cuidado com a manipulação e o descarte de objetos perfurocortantes se o socorrista possuir acesso, como materiais para punção venosa. Com relação à segurança da cena, vamos lembrar que nem sempre os riscos estão ou encontram-se imediatamente evidentes. Pode haver riscos latentes, que podem se fazer presente e ser mais sérios no decorrer do atendimento ou, mesmo, podem surgir perigos que não pareciam ameaçadores inicialmente. Por isso, é necessário que a preocupação com a sua segurança seja potencializada. Esta conduta, é a primeira prioridade no atendimento pré-hospitalar. Feita a avaliação da cena, é o momento de fazer a comunicação com algum meio de socorro, relatando os achados iniciais da cena e considerando a possibilidade de solicitar novos recursos ou dispensar recursos eventualmente já acionados e/ou enviados que podem não ser necessários. Obviamente, as informações são ainda ou podem ser muito iniciais, superficiais e incompletas, devendo ser seguidos por novas comunicações, à medida que novos dados estejam disponíveis. Para aqueles eventos traumáticos (colisão, quedas, dentre outros), a cinemática do trauma e a triagem devem ser consideradas precocemente na avaliação da cena e do paciente ou vítima. Discutir a cinemática do trauma foge do objetivo deste material, mas devemos instigar você a buscar por tais informações e conceitos. Contudo, é extremamente importante que ela seja considerada, já que sua análise ajuda a suspeitar de prováveis lesões das vítimas, o que agiliza o atendimento, evitando lesões secundária e que estas fiquem sem um provável diagnóstico ou, ainda, que a vítima possa vir a sentir dor ou desconforto mais tarde. Além de ajudar a prever as possíveis lesões, a consideração da cinemática envolvida ajuda a prever outros riscos envolvidos no incidente, tanto para vítima quanto para aqueles que os socorrem (por exemplo: possibilidade de novos TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 99 desabamentos ou explosões, intoxicação, risco de ferimentos por arma de fogo, no caso de agressão ou assalto). A triagem, por sua vez, é um procedimento fundamental quando houver incidentes ou acidentes com pessoas. Sabendo da importância de se abordar de tal tema “Cinemática do trauma”, recomendamos a leitura do artigo nominado de “Análise comparativa entre os mecanismos de trauma, as lesões e o perfil de gravidade das vítimas, em Catanduva – SP”, pois o referido material pontua informações interessantes e com linguagem acessível, facilitando a compreensão do significado do trauma e os nuances que o circundam, pois compreende- se que trauma pode ser definido como uma condição caracterizada por alterações que acometem estruturas ou desencadeiam desequilíbrio fisiológico do organismo induzido e/ ou conduzido pela troca e transferência de energia entre os tecidos (partes moles) e o meio. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rcbc/v33n1/v33n1a02.pdf>. DICAS 2.5 AVALIAÇÃO DO PACIENTE A base do APH adequado se inicia com uma boa avaliação do paciente ou vítima. A partir da avaliação, é possível determinar a sequência das intervenções que se farão necessárias. Como no atendimento ao traumatizado, o tempo é fundamental, no atendimento clínico, como já enfatizado, também é uma condição intimamente aplicável e não há espaço para indecisões ou incertezas, é necessário que a abordagem seja sistematizada (integral) e que permite não perder tempo nem deixar passar despercebida qualquer lesão ou queixa clínica que possam sinalizar a existência de risco de vida ou de sequelas. Essa sistematização refere-se à divisão do atendimento a ser aplicado em pacientes e vítimas em ambientes externos, o qual direciona a avaliação de forma conjunta acerca dos sistemas e suas funções. Apesar de ter havido a adição de mais um mnemônico o “X” na 9ª edição do PHTLS 2018, no capítulo 6, o qual retrata a necessidade de avaliar se há algum agravo em potencial em decorrência de hemorragia exsanguinante ou seja, hemorragia externa grave. O novo consenso ainda não se encontra publicado oficialmente e traduzido para o português, dessa forma, o exame primário para a nossa realidade ainda se baseia fortemente no ABCD e o secundário com a adição do exame detalhado “E”, que começa com a história da vítima. Assim, o atendimento aos pacientes e vítimas em ambientes externos, resume-se nas iniciais ABCDE, em que A - (Airway) Via aérea e coluna cervical; B - (Breathing) Respiração e ventilação; C - (Circulation) Circulação e controle de hemorragia; D - (Disability) Exame neurológico; E - (Explosure) Exposição e controle térmico. UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 100 Ao nos reportamos sobre temas como atendimento a vítimas de trauma, devemos estar atento aos detalhes que o atendimento em si requer. Sabendo disso, recomendamos a leitura do artigo nominado de Atendimento pré-hospitalar a múltiplas vítimas com trauma simulado. O artigo traz algumas contextualizações com linguagem acessível e clarificadora, permitindo nossa compreensão acerca do referido tema. Boa leitura! Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rcbc/v39n3/a13v39n3.pdf>. DICAS Segundo Silveira e O'dwyer (2017), o exame primário busca identificar a presença ou a possibilidade de existência lesões com risco de vida imediato. É concomitante com a aplicação de reanimação, logo que uma lesão com risco em potencial de vida venha ser detectada, deve-se tomar as medidas necessárias para corrigir o problema, prosseguindo com avaliação e atendimento após de corrigi- lo, na medida do possível. O exame primário e a reanimação (termo também usado como estabilização primária), podem se resumir da seguinte forma: • vias aéreas com proteção da coluna cervical; • respiração e ventilação; • circulação (controlar hemorragia e tratar o choque); • estado neurológico (avaliação do status neurológico de forma rápida, com determinação do score (pontuação) da escala de Glasgow) (Tabela 1); • exposição e controle da hipotermia. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 101 TABELA 1 – ESCALA DE GLASGOW APLICADA AO ADULTO Descrição: devemos ressaltar que ocorreu a adaptação de um novo modelo de escala para ava- liação neurológica, entretanto, na prática clínica a que se encontra aqui exposta, é o instrumento que ainda é mais utilizada rotineiramente no meio clínico. FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/94/6d/b1/946db1cbc79b3ac6940b25b7c0344477.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. Perceba que as etapas anteriores representam que se encontram unicamente direcionadas ao atendimento ao paciente e/ou vítima traumatizada, porém o paciente clínico, em decorrência do evento clínico experienciado,carece das mesmas avaliações, pois quando aplicadas, evidenciam maior segurança por permitir que a vítima está sendo avaliada na sua totalidade. Segundo Brasil (2016), em relação ao APH, as prioridades são as mesmas, mas é necessário levar em consideração que a intervenção no local pode ser limitada em alguns momentos em decorrência do tipo da ocorrência e o cenário onde ocorreu: a) Permeabilizar as vias aéreas (removendo corpos estranhos, retificando ou tracionando a via aérea superior – VAS (utilizando desde manobras manuais), Figuras 2 e 3, até manobras avançadas, como a aplicação de via aérea definitiva) (Figura 4), mantendo a coluna cervical imobilizada. UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 102 FIGURA 2 – RETIFICANDO A VAS (AUSÊNCIA DE TRAUMA CEFÁLICO) Descrição: o socorrista deve apoiar a mão não dominante, firmemente, sobre o face frontal (tes- ta) da vítima e com a mão dominante adicionar, levemente, os dedos indicador e médio abaixo da região mentual (queixo) e elevar (pressionar) para cima e com o polegar, você deve abrir a boca da vítima visando inspecionar se há algum corpo estranho para removê-lo, conforme exemplifica a imagem. FONTE: <https://unasus2.moodle.ufsc.br/pluginfile.php/14685/mod_resource/content/2/un01/ img_content/figura1.18.png>. Acesso em: 20 maio 2020. FIGURA 3 – TRACIONANDO A CERVICAL VISANDO PERVEABILIZAR A VAS (PRESENÇA DE TRAUMA CEFÁLICO) Descrição: o socorrista adiciona os dedos indicador, médio, anular e mínimo na altura do ângu- lo da mandíbula, e com o polegar viabiliza a abertura da boca visando inspecionar se há algum corpo estranho para removê-lo, após aplicado tais etapas, o socorrista deve tracionar as referidas estruturas suavemente, conforme exemplifica a imagem. FONTE: <http://4.bp.blogspot.com/-wqc8xtG71uE/U-uavybfs5I/AAAAAAAAACE/FbSab8QHjOk/ s1600/Imagem4.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 103 FIGURA 4 – VIA AÉREA AVANÇADA FONTE: <https://www.soccorritori.ch/wp-content/uploads/2014/12/m_1407858829.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. FIGURA 5 – VIA AÉREA AVANÇADA Descrição: o colar cervical possui diversos tamanhos e marcas, quanto aos tamanhos, estes são: bb (neo) – rosa; pediátrico – azul-claro; pp – lilás; pequeno – azul-royal; médio – laranja; grande – verde; gg – branco. Quanto à medida do tamanho do colar cervical: você deverá com o dorso da mão, medir a altura entre o ângulo da mandíbula e a base do pescoço da vítima (Figuras 6A e 6B). FONTE: <https://www.soccorritori.ch/?tag=endotracheale>. Acesso em: 20 maio 2020. FIGURA 6A – DELIMITAÇÃO Descrição: no colar, medir do parafuso ou marca indicadora até o final da parte rígida. FONTE: <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR2nSZgA89MIB6sgdF- qReHNdhTsKHo0nXagXALJBLOyJcLpz9Bk&s>. Acesso em: 20 dez. 2019 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 104 FIGURA 6B - ADIÇÃO DO COLAR CERVICAL FONTE: <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTkVQi7fRn5zzwuqTQ3Ji1C- QWrZhSN0Zyn69F32lF3Kn3FmohQi2w&s>. Acesso em: 20 maio 2020. b) Oferecer O2 (por máscara ou por cânula endotraqueal, conforme a situação), e/ou descomprimir o tórax, se houver suspeita de pneumotórax hipertensivo (Figuras 7A, 7B e 7C) que, quando presente, limita drasticamente a respiração das vítimas. FIGURA 7A – PNEUMOTÓRAX OU TÓRAX HIPERTENSIVO À E A) Descrição: perceba que o pulmão esquerdo da vítima não se encontra totalmente expandido, devido à presença de ar (área esbranquiçada) na imagem, justificando e/ou simbolizando a ar no interior do tórax (entre as pleuras), justificando a presença de pneumotórax. FONTE: <https://image.freepik.com/vetores-gratis/uma-anatomia-humana-do-pneumoto- rax_1308-13588.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 105 FIGURA 7B – DISPOSITIVOS UTILIZADOS PARA DESCOMPRESSÃO TORÁCICA POR PUNÇÃO DEVIDO PNEUMOTÓRAX OU TÓRAX HIPERTENSIVO B) Descrição: procedimento exclusivamente médico, por ser invasivo. FONTE: <http://tklbrasil.com.br/2018/wp-content/uploads/2017/09/cateter-simples-mediplus2. png>. Acesso em: 20 maio 2020. FIGURA 7C – ÁREAS DE DELIMITAÇÃO PARA DESCOMPRESSÃO TORÁCICA POR PUNÇÃO DEVIDO PNEUMOTÓRAX OU TÓRAX HIPERTENSIVO C) Descrição: uma vez localizado a linha medioclavicular, também conhecida como linha hemi- tórax ou terço médio hemiclavicular, basta apenas localizar o 2° espaço intercostal (espaço entre uma costela e outra) no lado acometido e introduzir o dispositivo escolhido (preferencialmente o mais calibroso) em uma angulação de 90°. FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/5-150412170128-conversion-gate01/95/5-trax-e-ris- co-de-morte-rx-do-trauma-41-638.jpg?cb=1428876198>. Acesso em: 20 maio 2020. UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 106 c) Parar o sangramento externo, quando presente, através de compressão direta ou em trajetos arteriais. Em casos extremos, até com torniquetes (apesar da literatura trazer divergência entre utilizar ou não tal conduta) conforme simbolizado na Figura 8. Suspeitar de sangramento interno (que não é passível de tratamento no pré-hospitalar), imobilizar fraturas, o que pode efeito de diminuir o sangramento e elas associado, iniciar reposição de volume (necessária apenas em algumas situações específicas e, de preferência, já durante o transporte. FIGURA 8 – APLICAÇÃO DE TORNIQUETE FONTE: <https://md.uninta.edu.br/geral/primeirossocorros/#/os-torniquetes>. Acesso em: 20 maio 2020. d) Avaliação neurológica, com a aplicação da escala de Glasgow, conforme mencionado anteriormente, devido a sua praticidade, pois o referido instrumento avalia três parâmetros principais através dos seus subitens. e) Exposição de todo doente com a preocupação de proteger da hipotermia (queda da temperatura). No pré-hospitalar, deve-se ter também a preocupação com o pudor, uma vez que o paciente fica, muitas vezes, exposto em ambiente desprotegido (externo) e na presença de curiosos (populares). Nesse sentido, as intervenções, quando possível, devem ser feitas em ambiente restrito e se possível dentro da ambulância, onde o paciente/vítima ficará menos exposta. Mesmo para os profissionais de que atuam no APH, há mais tranquilidade em trabalhar fora do olhar de curiosos e até, não raro, de câmeras de celulares e imprensa, uma prática muito comum nos tempos atuais. Uma vez estabilizado o paciente (feito o exame primário com a reanimação e/ou estabilização concomitante), faz-se a reavaliação do ABCDE, partindo-se, então, para o exame secundário que, no paciente grave, deve ser feito já durante TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 107 o transporte, com o paciente imobilizado em prancha longa. No doente não grave, embora a preocupação com a perda de tempo, também deve estar sempre presente (pode haver lesões não evidentes as quais não foram identificadas previamente e que podem ser ou tornar-se graves e/ou aparecer instabilidade a qualquer momento por agravamento de lesão já existente, percebida ou não), o exame secundário pode ser feito no local. Na visão de Roessle et al. (2013) e Rodrigues, Galvão e Santana (2017), o exame secundário inicia-se com a história na qual o socorrista ou aquele que está prestando os primeiros cuidados deve buscar informações sobre (A) alergias, (M) medicamentos em uso, (P) passado médico, (L) líquidos ingeridos e última refeição e (A) ambiente eventos relacionados ao trauma. Mnemonicamente, podemos dizer que a história dos pacientes em atendimento extra-hospitalar, resumem-se através do termo AMPLA. Alguns dados da história só podem ser obtidos no pré-hospitalar, já que no hospital, pelo menos inicialmente, poderá não haver familiares ou conhecidos para fornecer tais informações as quais podem ser úteis para a avaliação e auxiliar no início do tratamento. Além disso, os autores supracitados pontuam que as informações relacionadas à história desses sujeitos, podem ser muito importantes para entender o que aconteceu: o uso de medicações ou alguma doença preexistenteque pode implicar na gênese do evento sofrido naquele instante, e alterar a avaliação do paciente e na resposta do tratamento instituído o qual são utilizadas. Depois da história, deve ser feito o exame completo, da cabeça aos pés, incluindo um exame neurológico, agora mais detalhado. O paciente deve ser reavaliado repetidamente para afastar a hipótese de novas lesões, até então não percebidas, e alterações e lesões existentes “piora” e para avaliar a resposta as medidas tomadas “se estas estão sendo assertivas ou não”. Ao mesmo tempo, o paciente deve ser preparado para o transporte, sendo completamente imobilizado em prancha longa (Figura 9). Mesmo não tendo acesso a um equipamento padrão, conforme exemplificado na figura a seguir, é possível utilizar de outras superfícies para manter estabilização da coluna e manter o corpo imóvel e alinhado, o importante é que esta estrutura seja uniforme, plana e rígida. A imobilização deve ser feita logo que possível, durante o exame primário, no final dele ou durante o exame secundário, dependendo da situação. No paciente ou vítima grave, pode ser preferível não fazer a imobilização de cada membro fraturado isoladamente, mas simplesmente imobilizar o paciente como um todo em prancha longa, o que permite uma imobilização razoável de possíveis fraturas de membros, o que também minimizará a existência de dor. O princípio é: “não perder tempo precioso com imobilização de fraturas que não representam grande risco”, enquanto o paciente pode apresentar lesões que necessitam de tratamento urgente que só pode ser feito no hospital (hemorragia interna, por exemplo) (FONSECA et al., 2011). No Quadro 1, encontra-se uma breve descrição de forma organizada e pontual, para que possa ser aplicada no momento em que o socorrista se depara com uma vítima de eventos clínicos ou traumáticos, visando a otimização no cuidado que deverá ser prestado. UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 108 FIGURA 9 – MACA OU PRANCHA RÍGIDA FONTE: <https://apolomedical.com.br/wp-content/uploads/2019/06/prancha-longa-em-polieti- leno-600x600.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. QUADRO 1 – AVALIAÇÃO DE AVALIAÇÃO DE GRAVIDADE Problema de vias aéreas: O via aérea inadequada; O via aérea em risco; O necessidade de permeabilização das VAS com uso de dispositivo complementar. Problema de ventilação: O ventilação muito rápida, muito lenta ou superficial; O dispneia; O sinais de hipóxia evidentes; O suspeita de pneumotórax; O pneumotórax aberto; O tórax instável. Hemorragia: O hemorragia externa significativa; O suspeita de hemorragia interna. Alteração neurológica: O paciente/vítima encontra-se confusa ou desorientada; O Glasgow ≤13; O síncope; O convulsões; O déficit sensitivo ou motor. Ferimento: O penetral em cabeça; O pescoço; O tronco ou membros superiores; O membro(s) inferior(es); O o objeto se encontra empalado no paciente/vítima; O amputação ou quase amputação proximal aos dedos. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 109 Qualquer trauma na presença de: O comorbidades presente (coronariopatia, doença pulmonar, doença imunológica ou autoimune); O extremos de idade (criança pequena ou idoso); O hipotermia presente; O queimadura; O gravidez. FONTE: O autor 2.6 COMUNICAÇÃO Devesa (2016) descreve que a comunicação é um aspecto crucial do atendimento pré-hospitalar, porém, até hoje, apresenta problemas e fragilidades. Por esse motivo, cabe elencar o referido tópico, nesta unidade, para que possamos minimizar a existência de tais fragmentos. A importância da comunicação começa na ativação do sistema. Dependendo de como a primeira comunicação chegar à central, os recursos humanos e de equipamentos enviados para atender à emergência podem ser adequados ou não. Mesmo enquanto a equipe de atendimento ainda está a caminho do local da ocorrência ou evento, a comunicação com a central permite obter novas informações que podem orientar a preparação da equipe para o atendimento. Por esse motivo, ao iniciar o primeiro atendimento e se for necessário a solicitação de auxílio de equipes especializada, o solicitante deve ter noções do que avaliar na vítima, para realizar o repasse das informações de forma mais pontual e direcionada, o que de certa forma, tal conduta contribui para o atendimento da equipe que está a caminho. Logo ao chegar ao local e durante todo o desenrolar do atendimento pré-hospitalar, a comunicação é fundamental. Inicialmente, as informações podem ser ainda incompletas. Mesmo assim, é importante iniciar precocemente a comunicação e mantê-la durante o atendimento, informando as alterações que vão ocorrendo ou que ocorreram. A boa comunicação permite monitorar o atendimento a distância, adequando sempre os recursos a cada situação, o que é particularmente importante nas ocorrências de maior complexidade. Quando o atendimento no local e o transporte forem feitos por equipes de atendimento básico, a comunicação com a central é, eventualmente, com o médico por meio da telemedicina. O profissional lá inserido pode orientar e melhorar o atendimento prestado por você quando estiver ao lado da vítima desde o início. Posteriormente, o ideal é que o hospital de destino também seja comunicado de o encaminhamento do paciente/vítima antes do transporte ser iniciado. Tais etapas são um ciclo de início, meio e fim. Isso permite que o hospital se prepare para receber o paciente e evite que este seja encaminhado para um hospital que, naquele momento, não tem as condições ideais para recebê-lo ou não esteja preparado para tal (MALVESTIO; SOUSA, 2010; HAYASHIDA et al., 2014). UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 110 É altamente desejável que seja possível a comunicação por mais de um sistema (rádio e telefone, por exemplo). Não é raro que um dos sistemas possa falhar. Em algumas regiões, mesmo em grandes metrópoles, pode não haver cobertura por um dos sistemas de operação. Se não houver um sistema reserva, a comunicação fica impossível e o que deve ser evitado a todo custo. 2.7 TRANSPORTE Vimos que, no paciente crítico (clínico ou traumático), é fundamental iniciar precocemente o transporte para hospital adequado. É fundamental que o hospital escolhido seja adequado, capaz de tratar as lesões ou queixas existentes que o paciente possa apresentar e que seja notificado da chegada do paciente antes de o transporte propriamente dito seja iniciado. O transporte de paciente para o hospital não apropriado pode significar perda grande de tempo e exposição ao mesmo. No nosso meio, esse processo pode ser extremamente demorado, o que pode retardar muito o início do tratamento definitivo e direcional. Por outro lado, se o hospital não for notificado antes de ser iniciado o transporte, pode não ter condições de atender adequadamente ao paciente naquele momento o que novamente significa perda de tempo e exposição. Assim, nem sempre o hospital mais próximo é o mais adequado, naquele momento, para aquele paciente. A importância da comunicação com a central e com hospital de destino fica evidente. Na maioria das vezes, quem presta os primeiros cuidados, não realiza esse tipo de conduta “ligar para o hospital”, mas a depender do caso, esta é uma estratégia viável, importante e decisiva para a vítima. Quando o socorro avançado se encontra disponível, o transporte poderá ser feito por via terrestre ou aérea, por uma unidade básica ou avançada, já quando estes não se encontram disponíveis e a depender do caso, o transporte pode ser realizado por meios próprios. A escolha do meio de transporte depende da gravidade do paciente e da distância entre a ocorrência e o hospital de destino, além, obviamente, dos recursos disponíveis e das condições de acesso. À noite, por exemplo, não se pode contar com o recurso de helicópteros de resgate. O mesmo pode acontecer dependendo das condições climáticas e do local da ocorrência. Pode ser difícil conseguir pousar a aeronave em alguns locais e o deslocamento do pacienteaté o local onde o helicóptero pode pousar pode retardar mais o atendimento pós-evento. Dependendo da distância do hospital e da gravidade do paciente, pode ser feita a interceptação, durante o transporte, por uma unidade avançada, passando para outra equipe de suporte avançado até a chegada ao hospital. Dessa forma, podem ser feitas as intervenções necessárias, que não seriam possíveis se o transporte fosse feito inteiramente pela unidade básica. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 111 Outro aspecto que deve ser considerado é que nem sempre é fácil cuidar do paciente grave em trânsito na unidade de atendimento de urgência e emergência móvel. O espaço é muito limitado. A própria movimentação com o balanço da ambulância dificulta qualquer intervenção. Devem ser antecipadas as possíveis necessidades do paciente e providenciadas as condições para que possam ser atendidas, com as menores intervenções possíveis. Intervenções mais complexas quando absolutamente necessárias, talvez possam ser feitas dentro da ambulância mesmo antes de iniciar o transporte ou com a ambulância andando lentamente. Cuidados especiais devem ser realizadas acerca da forma como a viatura (ambulância) é conduzida, pois a velocidade do transporte quando exagerada, pode significar risco considerável para o paciente e para a equipe (além da possibilidade de colisões, pode haver deslocamento ou queda de equipamento dentro da ambulância), dentre outros. 2.8 DOCUMENTAÇÃO E INTEGRAÇÃO COM O HOSPITAL Quando o transporte do paciente/vítima é realizado por equipes de atendimento pré-hospitalar ou de resgate, logo que possível ao final do atendimento ou, ainda, durante o mesmo, deve ser feito o registro, por escrito, de todas as informações pertinentes à ocorrência e ao paciente ou aquelas recebidas por pessoas (populares) que presenciaram o evento ou que prestaram os primeiros cuidados. A documentação deve ser sucinta, mas completa. Deve haver informações sobre a cena, com particular atenção ao mecanismo de trauma (se for o caso) ou sobre a queixa principal (se este for clínico) e à situação inicial do paciente. O exame primário, os sinais vitais, as intervenções feitas durante a reanimação, a resposta do paciente a essas intervenções, o exame secundário, além de possíveis alterações na situação do paciente, devem estar registrados neste prontuário inicial. Idealmente, também de forma sucinta, deve ser registrado o motivo de se ter feito, ou não, determinada intervenção. A cronologia dos acontecimentos pode ter implicação na avaliação e no tratamento do paciente. Todas essas informações devem ser passadas para a equipe que assumirá o paciente/vítima e que cuidará dele no hospital. Uma cópia desse prontuário deve constar no prontuário completo do paciente. Há muitas informações que só a equipe do APH possui e que podem ser importantes para manter a continuidade do tratamento do paciente, para que não haja interrupções nem perda de tempo. A equipe de atendimento dentro da unidade de saúde deve valorizar essas informações e usá-las para melhor atender o paciente/vítima nunca deverá subjugar o relato da equipe ou de familiares que conduziram o paciente/vítima. O paciente só tem a ganhar com a boa integração entre as equipes e responsáveis por seu atendimento, desde o pré-hospitalar até o tratamento definitivo. O trabalho da equipe do pré-hospitalar não acaba quando se chega ao hospital, mas quando o tratamento do paciente passa a ser feito pela equipe do hospital. Isso ocorre apenas quando as informações são passadas para a nova equipe, com a devida documentação escrita. UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 112 3 SÍNCOPE Segundo Alvares (2015), síncope pode ser definida como perda súbita da consciência e do tônus postural, podendo haver a recuperação espontânea. De maneira geral, todas as formas de síncope cursam em decorrência da diminuição ou rápida interrupção do fluxo sanguíneo cerebral. A referida síndrome clínica corresponde por cerca de mais de 7% de todas as consultas em serviços de urgência e emergência, podendo a sua causa ser uma condição benigna ou marcador de grande risco de morte súbita. É uma condição que pode ocorrer a qualquer momento e local. As causas mais frequentes são: síncope mediada por reflexo (vasovagal clássica, situacional), hipotensão ortostática, arritmias (especialmente a taquicardia ventricular), alterações anatômicas do sistema cardiovascular (especialmente, estenose aórtica e cardiomiopatia hipertrófica), associada a doenças metabólicas como o diabetes, dentre outras. Anamnese e exames físicos minuciosos, associados ao eletrocardiograma, no entendimento de Benditt (2011), são as principais ferramentas utilizadas para realizar o diagnóstico de causa da síncope, quando as vítimas se encontrarem na unidade de saúde. Deve-se sempre questionar familiares (quando presente) se o paciente e/ou vítima que experienciou tal evento, faz uso de algum medicamento dos quais podem induzir a presença de síncope, tais como: • antiarrítmicos; • antidepressivos; • anti-hipertensivos (β-bloqueadores, diuréticos, inibidores de ECA, bloqueadores dos canais de cálcio, dentre outras categorias); • antiparkinsonianos; • anticonvulsionantes; • digitálicos; • benzodiazepínicos etc. Benditt (2011) menciona que quando a vítima é admitida na unidade de saúde, a equipe que lhe acolhe não devem medir esforços e devem ser concentrados na tentativa de detectar, definir e tratar doenças cardíacas de base, bem como situações potencialmente catastróficas, em doentes com risco de eventos adversos (incluindo morte súbita). Os achados de maior risco para o desenvolvimento de tal condição clínica são: • idade acima de 45 anos; • presença cardiopatia: o insuficiência cardíaca; o história de arritmia ventriculares; o ECG alterado. • síncope desencadeada durante esforço físico; • fator metabólico presente. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 113 Deve-se ter cuidado com as causas potencialmente catastróficas que causam ou simulam síncope (associadas a cefaleia súbita, dor torácica, sinais e sintomas de tronco cerebral, dor abdominal). O tratamento deve ser direcionado para a causa de base (fator que gerou o evento) e se o paciente e/ou vítima estiver na unidade de saúde deve ser considerado a necessidade de internação daqueles que possuem maior risco de novos eventos. Os pacientes deverão ser orientados quanto aos riscos profissionais e quanto à direção de veículos automobilísticos. Tais cuidados são considerados como simples, entretanto, são cruciais para se evitar exposições múltiplas (paciente vs demais membros da sociedade). 3.1 FATORES CAUSAIS (ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA) Em geral, as síncopes resultam em hipofluxo cerebral transitório. Em cada grupo há particularidades em relação ao mecanismo da síncope, conforme descrito no Quadro 2. Assim com base no seu mecanismo fisiopatológico, Vilas et al. (2002) e Rodrigues, Santiago e Lima (2018) pontuam que as síncopes correspondem à: • Síncope neuralmente mediadas: refere-se a alterações nos reflexos de bradicardia e/ou vasodilatação periférica. A síncope vasovagal (clássica e não clássica) é a mais frequente em qualquer estudo. Essa classificação também inclui a síncope situacional (precipitada por tosse, defecação, micção com esforço), a síndrome do seio carotídeo (síncope que ocorre nos doentes com hipersensibilidade do seio carotídeo) e a síncope associada à neuralgia do glossofaríngeo. • Hipotensão ortostática. • Arritmia. • Doença anatômica ou estrutural (cardíaca ou cardiopulmonar). • Cerebrovascular: síndrome do roubo da subclávia. QUADRO 2 – CAUSAS DE SÍNCOPE Grupo (%) Etiologia e frequência relativa (%) Vascular (42%-62%) Mediada por reflexo: síncope vasovagal (clássica e não clássica), hipersensibilidade do seio carotídeo, síncope situacional, síncope associada à neuralgia do glossofaríngeo (36%-56%). Ortostática: insuficiência autonômica, hipovolemia, medicamentosa,idiopática (1%-14%). Cerebrovascular: síndrome do roubo da subclávia (rara). Cardíaca (10%-23%) Anatômica: estenose aórtica, dissecção de aorta, mixoma atrial, tamponamento cardíaco, cardiomiopatia hipertrófica, estenose mitral, isquemia ou infarto do miocárdio, embolia pulmonar, hipertensão pulmonar (3%-4%). Bradiarritmias: disfunção do nó sinusal, bloqueio atrioventricular (5%-15%). Taquiarritmias: arritmias supraventriculares, arritmias ventriculares, síndrome do QT longo (2%-7%). Idiopática (5%-20%) Menos frequente atualmente. FONTE: O autor UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 114 Várias situações podem ser confundidas com síncope devido às íntimas semelhanças às quais simulam um episódio de síncope, conforme sinalizadas no Quadro 3. Tais situações se organizam em dois grupos, conforme descrevem Rodrigues, Santiago e Lima (2018), relacionados à perda ou não de consciência: • não há perda de consciência alguma: queda, ataque isquêmico transitório de território carotídeo, doenças psiquiátricas; • pode ter perda parcial ou completa de consciência: crise epiléptica, intoxicação exógenas, alterações metabólicas (hipoglicemia, hipoxemia, hiperventilação, insuficiência vertebrobasilar). QUADRO 3 – CAUSAS QUE SIMULAM SÍNCOPE Neurológica o crise epiléptica: parcial complexa, lobo temporal; o insuficiência vertebrobasilar: ataque isquêmico transitório ou acidente vascular cerebral; o outras: hemorragia subaracnoidea, migrânea, malformação de vasos cerebrais. Metabólica o causas variadas: uso de medicamentos, drogas, álcool, hipoxemia, distúrbio metabólico (hipoglicemia). Psicogênica o transtornos da ansiedade; o transtornos somatoformes (são aqueles em que há a presença de sintomas físicos que sugerem avaliação médica geral, pelos efeitos diretos e indicativos da ação de uma substância ou por qualquer outro transtorno mental); o transtornos conversivos. FONTE: O autor 3.2 ACHADOS CLÍNICOS Anamnese e o exame físico minuciosos, na ótica de Vilas et al. (2002) e Rodrigues, Santiago e Lima (2018), são elementos cruciais e primordiais na avaliação e na tentativa de identificação da causa geradora da síncope. O principal objetivo é detectar potenciais doentes com risco aumentado de óbito ou de complicações que irão necessitar de investigação adicional imediata ou de internação futura. No Quadro 4, encontram-se disponíveis alguns pontos a serem levados em consideração acerca da investigação daqueles que experienciaram tal evento. Síncope vasovagal, hipotensão ortostática (relacionada a agentes ou não), síncope situacional, bloqueio atrioventricular de terceiro grau são exemplos em que a história o exame físico sugere o diagnóstico e indica o início de tratamento. Em outras situações, “as chamadas pistas ou possibilidades” podem sugerir o diagnóstico conforme elencado no Quadro 5. Rodrigues, Santiago e Lima (2018) descrevem que na síndrome do seio carotídeo, o qual acomete principalmente idosos, a massagem do seio carotídeo pode reproduzir sinais e sintomas similares, mas deve ser evitada em doentes com doença cerebrovascular conhecida ou sopro carotídeo. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 115 QUADRO 4 – PASSOS NA AVALIAÇÃO DE PACIENTES COM SÍNCOPE o História pessoal ou familiar de doenças cardíaca (especialmente morte súbita ou cardiopatias hereditárias). o Sempre questionar acerca do uso de medicações potencialmente causadoras de síncope. o Quantificar o número de episódios de síncope e seu caráter temporal (início recente ou crônico). o Buscar fatores precipitantes, especialmente, posturais ou situacionais. o Avaliar se há sinais ou sintomas prodrômicos (sudorese, náusea, vômitos, sintomas olfativos, visuais, gustativos). o Tentar perceber se há hálito cetônico (o que sugere doença metabólica descompensada). FONTE: O autor QUADRO 5 – PISTAS OU POSSIBILIDADES DIAGNÓSTICAS AO EXAME FÍSICO Achados Probabilidades Hipotensão ortostática. Desidratação, medicações (diuréticos, anti-hipertensivos) e outras causas de disfunção autonômica. Ictus desviado, sopro de regurgitação mitral, B3 (sugerindo disfunção ventricular esquerda). Taquicardia ventricular. Hipotensão e/ou assistolia ventricular durante a massagem do seio carotídeo. Síndrome (hipersensibilidade) do seio carotídeo. Sopros de ejeção (estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica). Obstrução ao fluxo de saída do ventrículo esquerdo. Segunda bulha pulmonar (P2) palpável ou hiperfonética. Embolia pulmonar, hipertensão pulmonar. FONTE: O autor Características relevantes da história, segundo Vilas et al. (2002) devem incluir fatores precipitantes, como dor, ansiedade, estresse, experiência traumática vivenciada antes da ocorrência, queda, jejum prolongado, longos períodos em ortostase, exercício físico extremo, situações como defecação ou tosse, dentre outros fatores. Deve ser checada história de morte súbita na família, doenças ou tratamento para doenças psiquiátricas, sintomas neurológicos associados a medicações em uso. No exame físico, deve-se aferir a pressão arterial (se possível e se o equipamento estiver disponível/acessível) em ambos os membros superiores, tanto na posição supina como em ortostase e, se possível, se você possuir habilidade e conhecimento, deve-se realizar minuciosa ausculta cardíaca e de tentar identificar se há presença de sopros carotídeos, bem como UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 116 exames neurológicos. Caso você não tenha acesso a aparelhos de pressão arterial (esfigmomanômetro), é importante que verifique a pulsação periférica (Artéria radial e pediosa bilateralmente), pois, através de tal conduta, você poderá ter uma percepção de como está a distribuição sanguínea realizada pelo ventrículo esquerdo, o que dá dará indícios de como o SNC está sendo perfundido. 3.3 EXAMES COMPLEMENTARES Já em uma condição mais avançada (na unidade de saúde), o paciente/ vítima de síncope e se não houver indicativos causais para tal evento, é possível que o profissional médico venha solicitar um exame nominado de eletroencefalograma (EEG), apesar desse exame possuir baixa sensibilidade, é solicitado devido ao seu baixo custo não ser invasivo e estar acessível em alguns serviços, conseguindo indicar o diagnóstico da causa da síncope em até 10% dos pacientes ou sugere uma etiologia em outros 12 a 17%. O inconveniente é que está disponível em serviços onde contenham especialidade neurológica. A presença de alterações do ritmo ou condução elétrica neurológica, pode elucidar o diagnóstico e auxiliar na definição de condutas imediatas (BENDITT, 2011). Outro exame acessível e que se encontra disponível na maioria dos serviços de saúde, refere-se ao eletrocardiograma (ECG). Um exame intimamente ligado à interpretação de condução elétrica (ritmo elétrico), no qual através do seu registro sinaliza como está ocorrendo todo o percurso do estímulo elétrico, o qual se inicia no nodu/nodo ou nódulo sinusal e se finaliza no feixe de his. Esse exame é realizado nas vítimas de síncope, pois, ao ocorrer a referida síndrome clínica, na sua maioria está associada a eventos de contratilidade cardíaca, dessa forma, esse exame possui tal indicação, o que quando identificado alguma irregularidade, pode vir a indicar algumas intervenções, como: implante de marcapasso provisório em um caso de bloqueio atrioventricular total (BAVT) ou auxiliar na investigação futura (nos casos de bloqueio completo de ramo) (BENDITT, 2011). Benditt (2011) informa que em pacientes com esse ECG normal e sem doença cardíaca, a síncope neuralmente mediada torna-se a principal hipótese. Doentes com episódio único de síncope, exame físico e de eletrocardiograma normais, sem nenhum achado sugestivo de doença de base podem ser acompanhados sem necessidade de investigação diagnóstica adicional. Dependendo dos achados, incluindo aqueles dois ECG, pode ser necessário indicar testes específicos, tais como: ecocardiograma, monitorização contínua ECG (Hotter,telemetria ou dispositivos de longa gravação), teste de isquemia miocárdica ou mesmo cineangiocoronariografia. Algumas situações são consideradas de alto risco para morte súbita, portanto, pode ser necessária a indicação de estudo eletrofisiológica cardíaca para complementação da avaliação. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 117 3.4 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Algumas situações potencialmente catastróficas podem se apresentar como pré-indicativos de tal evento, bem como em alguns casos quando o paciente/cliente se encontra com problemas emocionais, este pode por algum motivo, simular uma síncope. Independentemente da classificação, Benditt (2011) descreve que a presença dos seguintes achados pode apontar para a gravidade e indício clínicos de acometimento, são estes: • Cefaleia súbita, com ou sem alteração neurológica: pode sugerir hemorragia subaracnoidea. • Diplopia, disartria, vertigem: podem indicar Acidente Vascular Encefálico (AVE) ou uma isquemia transitória do sistema vertebrobasilar (neste caso, com exame neurológico normal). • Dor torácica: isquemia miocárdica, embolia pulmonar, dissecção da aorta. • Bradicardia intensa: bloqueio AV em alto grau. • Dor abdominal: hemorragia digestiva, aneurisma da aorta abdominal, gravidez ectópica rota (se mulher). • Desencadeada durante exercício físico: estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica. Outros sinais como vertigens (tontura), vertigens pré-síncope não resultam em perda do nível de consciência ou do tônus postural. O diferencial da síncope de uma crise epiléptica pode, ocasionalmente, ser difícil, conforme elencamos no Quadro 6. Sintomas prodrômicos como náusea, vômito, sudorese e palidez cutânea, geralmente ocorrem na síncope, a aura (sintomas premonitórios) é típica da crise epiléptica. A recuperação da consciência na síncope é rápida, já ao contrário na crise convulsiva, pois os pacientes e/ou vítimas apresentam desorientação, lentificação ou demora maior do que cinco minutos para recuperar a consciência, assim, sugestivas de crises epilépticas (BENDITT, 2011). QUADRO 6 – DIFERENCIAÇÃO ENTRE ARRITMIA, SÍNCOPE NEURALMENTE MEDIADA E CRISE EPILÉPTICA* Características Arritmias Crise epiléptica Neuralmente mediada Idade Idade mais avançada (> 54 anos) Idade mais avançada (> 54 anos) Menor idade (> 55 anos) Prevalência de sexo Homens > mulheres Semelhante Mulheres > homens Número de episódios Poucos (<3) Variável Mais episódios (>2) UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 118 Cenário clínico Qualquer um Qualquer um Estresse emocional, ambiente hiperaquecido (quente) Achados durante o evento Curta duração (<6 segundos); palpitação pouco frequente Pode ter aura com sintomas gustativos, olfatórios ou visuais Maior duração (>5 segundos): palpitações, visão borrada, náusea, diaforese, sudorese e iminência de desmaio Sintomas durante o evento Não costumam ter palidez. Podem ocorrer incontinência e movimentos clônicos breves Não costumam ter palidez; podem surgir movimentos tônicos, clônicos, incontinência, desvio do olhar, sialorreia (salivação excessiva), síncope prolongada (>5 minutos) Palidez, diaforese, midríase, bradicardia, hipotensão. Movimentos clônicos e incontinência podem ocorrer Sintomas após o evento Paciente orientado; são incomuns sintomas residuais (excesso se hipotensão prolongada) Sintomas residuais são comuns: dor muscular, confusão, fadiga, cefaleia; recuperação mais lenta. Orientado (sem confusão): sintomas residuais são comuns (fadiga em >90% dos pacientes) *Achados mais frequentes; nenhum isoladamente permite o diagnóstico. FONTE: O autor Quando é descrita atividade motora rítmica (clônica ou mioclônica), é o diagnóstico mais provável de crise epiléptica, porém a síncope pode ser acompanhada por rápidos movimentos similares (espasmos musculares). Em algumas vezes, a observação em laboratórios especializados eletroencefalograma serão necessários para uma correta diferenciação entre as duas doenças. Perda de consciência precipitada por dor, longo tempo em ortostase e estresse, geralmente surgem síncope situacional (RODRIGUES; SANTIAGO; LIMA, 2018). Transtornos psiquiátricos podem simular a presença de síncope, mas não há perda de consciência. Os principais diagnósticos, psiquiátricos, nesse caso, são: transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico, transtorno de ouvir voz ou ouvidores de voz (típico em vítimas de transtornos mentais) e depressão. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 119 3.5 HIPOTENSÃO ORTOSTÁTICA (HO) A presença de hipotensão ortostática (HO) implica a falência do sistema nervoso autônomo e é caracterizada por redução da Pressão Arterial Sistólica (PAS) ≥ 20mmHg ou Pressão Arterial Diastólica (PAD) ≥ 10 mmHg, após três minutos em posição sentada (depois de repouso de cinco minutos em posição supina). Uma queda menor da PA, associada a quadros de sintomas semelhantes, possui igual grau de importância (números absolutos são menos relevantes para definir a doença). As etiologias são muito variadas, conforme elencado no Quadro 7, e os dois achados mais frequentemente associados à hipotensão postural são: idade maior que sessenta anos e uma etiologia medicamentosa em mais de 50% dos casos (antidepressivos, tricíclicos, inibidores de ECA, bloqueadores dos canais de cálcio, β-bloqueadores, fenotiazinas, benzodiazepínicos, dentre outros depressores da função/atividade neurológica) (RODRIGUES; SANTIAGO; LIMA, 2018). QUADRO 7 – CAUSAS DE HIPOTENSÃO ORTOSTÁTICA Agentes e medicamentos o diuréticos; o bloqueadores adrenérgicos (α, β, mistos); o inibidores da ECA; o antidepressivos; o fenotiazinas; o barbitúricos; o vasodilatadores (hidralazina, bloqueadores dos canais de cálcio); o agonistas α2-centrais (metildopa, clonidina); o álcool; o anfetaminas; o cocaína. Disfunção neurogênica secundária o idade > sessenta anos; o doenças hipertensivas ou endócrinas (metabólicas): diabetes melito, feocromocitoma, hipoaldosteronismo, hipertensão renovascular, hipertensão maligna; o doenças metabólicas ou sistemas: uremia, amiloidose, porfiria, alcoolismo, deficiência de vitamina B12; o neurológicas ou autoimunes: síndrome de Guillain-Barré, esclerose múltipla, lesões vasculares ou tumorais afetando o tronco cerebral ou o hipotálamo, lesões em coluna cervical, lúpus, artrite reumatoide, doença mista do tecido conectivo, dentre outras; o infecções: sífilis, tétano, vírus HIV, botulismo; o outras causas: anemia, anorexia nervosa, diarreia, hemorragia. Disfunção autonômica primária o doença de Alzheimer, doença de Parkinson com disfunção autonômica. FONTE: O autor UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 120 Os sintomas mais comuns em vítimas que apresentam hipotensão ortostática são aqueles associados à pré-síncope (desmaio), alterações visuais (borramento ou visão turva), astenia (fraqueza), cefaleia (dor de cabeça) e alterações cognitivas (dificuldade para falar). A literatura atesta que há três tipos de eventos ou estilos que corroboram para o desenvolvimento da síncope: a Hipersensibilidade do Seio Carotídeo (HSSC), Síncope vasovagal, Síncope cardíaca. Com relação à Hipersensibilidade do Seio Carotídeo (HSSC), em alguns indivíduos, a massagem do seio carotídeo induz uma extrema queda de frequência cardíaca (FC) que pode ser associada ao declínio da pressão arterial e déficit significativo quanto à perfusão neurológica (cerebral). Essa reação exagerada é descrita como hipersensibilidade do seio carotídeo e se deve à resposta exagerada de barorreceptores localizados nas artérias carótidas internas, logo acima da bifurcação das artérias carótidas comuns (AZEVEDO; BARBISAN, 2009). Azevedo e Barbisan (2009) fortalecem dizendo que o quadro de hipersensibilidade do seio carotídeo, pode ser responsável por cerca de 10% a 27% das queixas da pré-síncope e síncope (mais frequente em idosos), constituindo assim a síndromedo seio carotídeo. É uma condição clínica significativa e que pode colocar em risco a vida daqueles que a experienciam, pois, estes, em decorrência do lapso de memória, podem sofrer quedas importantes, fraturas, traumatismo craniano, crise convulsiva, vômito seguido de broncoaspiração, dentre outros eventos. O diagnóstico é sugerido quando a massagem do seio carotídeo induz: • Assistolia ventricular ≥ três segundos, por parada sinusal e bloqueio atrioventricular: forma cardioinibitória. • Diminuição da PAS de 50 mmHg ou mais: forma vasodepressoras. • Formas mistas: vaso depressoras associada a cardioinibitória. A Massagem do Seio Carotídeo (MSC) é uma técnica simples e dentre as indicações terapêuticas, destaca-se a possibilidade de reversão de uma crise de taquicardia paroxística supraventricular (TPSV), que em outras palavras significa que o coração bate de forma desordenada e/ou acelerada, dando uma impressão de palpitação e angústia a vítima que experiencia esse evento. A reversão súbita de uma crise de TPSV, quando obtida por um leve toque de dedo abaixo da mandíbula, pode desencadear uma situação muito gratificante para a vítima, bem como uma surpresa agradável este, que se vê livre das palpitações angustiantes por um toque “mágico, porém, pode ocasionar complicações neurológicas e deve ser evitado em pacientes com doenças com aterosclerose e naqueles que possuem história de Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou sopro carotídeo (VILAS et al., 2002). A Síncope vasovagal trata-se de uma das mais frequentes causas de síncope. Embora, geralmente benigna, ela pode ser recorrente, resultar em grande perda funcional para os doentes e ocasionar graves lesões e fraturas. Ocorre na posição ortostática, raramente deitada ou sentada. Geralmente, existe a fase prodrômica, TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 121 seguida da perda de consciência e do período de recuperação. Os doentes relatam situações que podem precipitar (triggers) o evento, como estresse emocional, antecipação de dor física, trauma, ambientes quentes e posição ortostática por um longo período. Junto a essa categoria, existe ainda a síncope situacional, na qual os fatores precipitantes são a defecação, a tosse ou esforço para urinar. Doentes com síncope vasovagal devem ser encaminhados ao ambulatório para diagnóstico ou para tratamento (LACERDA et al., 2009). Com relação à Síncope cardíaca, Vilas et al. (2002), Azevedo e Barbisan (2009) possuem a mesma linha de pensamento quando descrevem que as síncopes de causa ou origem cardíaca, são divididas em dois grandes grupos: aquelas associadas à arritmia e aquelas associadas a falhas ou doenças anatômicas, conforme sinalizado no Quadro 8. Em comum, elas ocasionam uma redução do débito cardíaco e relação à diminuição da Fração de Ejeção liberada pelo ventrículo esquerdo. Embora a bradiarritmia e as taquiarritmias possam levar à síncope, não a um valor fixo abaixo ou acima do qual possa ocasionar a síncope. Os sintomas dependerão da capacidade de compensação do sistema nervoso autônomo e do grau de doença aterosclerótica dos vasos do sistema nervoso central pré-existentes. QUADRO 8 – CAUSAS DE SÍNCOPE CARDÍACA Bradiarritmias: síndrome de Stokes-Adams, doença do nó sinusal, bloqueio AV de 2° e 3° graus, disfunção do marcapasso. Taquiarritmias: taquicardia ventricular, taquicardia supraventricular, fibrilação ou flutter atrial. Isquemia ou Infarto Agudo do Miocárdio (IAM). Síndrome de Wolff-Parkinson-White. Alterações valvares: estenose tricúspide. Dissecção de aorta (associada à ruptura de aorta, tamponamento pericárdico, dissecção de vasos do SNC ou de coronária. Mixoma atrial. Embolia pulmonar. Cardiomiopatia hipertrófica. Hipertensão pulmonar. Displasia arritmogênica de ventrículo direito. Insuficiência cardíaca (associação com morte súbita). FONTE: O autor Ao se pensar em sistema de condução e contratilidade cardíaca, a Figura 10 sinaliza perfeitamente o significado e diferenciação entre um ritmo normal do anormal, o qual pode ser o desencadeador de influxo de perfusão cerebral e cardíaco. Uma vez que o primeiro órgão que o coração perfunde e/ou nutre com sangue rico em oxigênio é ele mesmo, através da sua contratilidade e ejeção. Em algumas casuísticas, a síncope de teologia cardíaca pode explicar de 14% a 23% dos casos. A taquicardia ventricular é a mais frequente taquiarritmia. Já a síndrome do nó sinusal e os bloqueios AV, são as mais frequentes arritmias associadas à síncope (UCAR et al., 2017). UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 122 A maioria dos doentes com síncope cardíaca e arritmia não apresentam sintomas podrômetros e o quadro geralmente é súbito, o que pode ajudar a diferenciar o fator gerador da síncope. No entanto, existem doenças cardíacas estruturais na qual a síncope costuma ser desencadeada por esforço físico ou por vasodilatação arterial (calor ou medicação). A Estenose aórtica (estreitamento da aorta) é particularmente comum em idosos; a clássica a apresentação é o surgimento de dispneia, dor torácica ou síncope aos esforços (VILAS et al., 2002; AZEVEDO; BARBISAN, 2009; HALL; GUYTON, 2017). FIGURA 10 – SISTEMA DE CONDUÇÃO CARDÍACA Descrição: percebam que a primeira figura a sua direita desse material (no topo) acusa como batimento cardíaco normal, sinalizando que o ciclo elétrico (fenômeno mecânico) está em um mesmo compasso. Já nas demais figuras podemos perceber uma diferença no sistema de condução, o que sugere alteração também quanto ao efeito contrátil (fenômeno de contração) estará alterado. FONTE: <https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-do-cora%C3%A7%C3%A3o- -e-dos-vasos-sangu%C3%ADneos/arritmias-card%C3%ADacas/considera%C3%A7%C3%B5es-ge- rais-sobre-arritmias-card%C3%ADacas>. Acesso em: 20 maio 2020. Segundo os autores supracitados, a cardiomiopatia hipertrófica é a mais comum em jovens, embora também possa ocorrer em indivíduos de mais de sessenta anos. Até 13% dos doentes com embolia pulmonar podem manifestar um quadro de síncope que pode ter a presença de um grande embolo gerado por oclusão (fechamento) de um segmento arterial, tanto coronariano (artéria do coração), quanto neurológico. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 123 3.6 TRATAMENTO A síncope não é uma doença, mas uma manifestação “um sintoma” de algum distúrbio de base. Dessa forma, a abordagem inicial segue os mesmos princípios do tratamento do Suporte Avançado de Vida (ACLS). Assim, pode haver necessidade de cardioversão (se presença de taquiarritmias), instalação de marcapasso (se bradiarritmias), tratamento da dissecção de aorta (com ressuscitação volêmica – infusão de volume), embolia, de isquemia miocárdica, dentre outros (RODRIGUES; SANTIAGO; LIMA, 2018). Para ambientes externos, a pessoa ou profissional quando se depara com uma vítima caída ao chão, deve: • Avaliar o local que circunda a vítima, observar a posição como ela se encontra e se aquele espaço (cena) está seguro para que você se aproxime da vítima em potencial (Figura 11). FIGURA 11 – AVALIAÇÃO DA CENA DA OCORRÊNCIA Descrição: observar a posição da vítima lhe permitirá ter noções de como o evento ocorreu e por onde você poderá se posicionar perante ela. FONTE: <https://www.portaldozacarias.com.br/site//arquivos/imagens/imgeditor/livia-cai-no- -chao%20(1).jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. • Uma vez próximo da vítima, a próxima etapa é observar como se encontra o nível de responsividade dela (atende ao chamado verbal facilmente? Vagarosamente? Não atende ao chamado verbal?); não havendo responsividade ao chamado verbal, informe-a que você irá tocá-la e realize estimulação dolorosa (Fig.12a e 12b) caso não responda, realize estimulação dolorosa sobre o esterno; havendo movimentação por parte dela, procure identificar o(s) provável(eis) desencadeadores do evento (síncope) (Figura 12C) e, ainda, caso a vítima se mantenha sonolenta e não possua sinais de trauma, mantenha-a lateralizada(posição de proteção / posição de recuperação), pois todo paciente sonolento, em decorrência de algum evento clínico, possui risco de apresentar vômito e broncoaspiração (Figura 13). UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 124 FIGURA 12 - REALIZANDO ESTIMULAÇÃO DOLOROSA NA VÍTIMA a) Descrição: a imagem da esquerda representa a estimulação dolorosa nominada como ponto glabelar. Já a imagem da esquerda representa estimulação dolorosa chamada de ponto ungueal (ponta dos dedos e sobre a unha da vítima). FONTE: <https://clinicalgate.com/intensive-care-after-neurosurgery/>. Acesso em: 28 maio 2020. b) Descrição: para esse estímulo, você poderá realizar (traçar) uma linha imaginária entre os mami- los e na parte central sobre o esterno deve pressionar firmemente utilizando os dedos conforme simbolizado na figura. FONTE: <http://www.bcehs.ca/health-info/public-health/responding-to-an-overdose/what-to- -do-for-a-suspected-overdose>. Acesso em: 28 maio 2020. • Caso não tenha ocorrido nenhuma movimentação por parte da vítima, tente checar o pulso central (carotídeo ou femoral em adultos ou, ainda, braquial, axilar ou femoral em lactentes e crianças). Havendo pulso palpável avalie a qualidade do mesmo e priorize a identificação da fonte geradora do evento, entretanto, caso não haja pulso ou este se encontre ≤ 40 batimentos cardíacos por minuto, após ter estimulado vigorosamente a vítima, você está diante de uma condição de emergência, você terá que iniciar o Suporte Básico de Vida (SBV). Em pacientes estáveis ou pós-estabilização, o tratamento deverá ser feito para a causa de base (fonte geradora do evento). Entretanto, uma das atitudes de extrema importância no pronto-socorro é decidir se o paciente deve ir de alta para o ambulatório ou se ele deve ser observado na unidade de emergência (unidades TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 125 de síncope, se o hospital tiver disponível) ou mesmo ser internado. Os quatros fatores de maior risco de morte em doenças com síncope, segundo Rodrigues, Santiago e Lima (2018), são: • idade ≥ 45 anos; • história de doença cardíaca e/ou insuficiência cardíaca propriamente dita; • história de arritmias ventriculares; • ECG normal (exceto alterações de repolarização inespecíficas). Rodrigues, Santiago e Lima (2018) descrevem que pacientes que não apresentam nenhum fator de risco possuem < 5% de chance de apresentar eventos adversos. Já paciente com três ou quatro fatores de risco presente possuem 58% – 80% de chance de apresentar eventos adversos. Outro achado que podem indicar uma doença grave é a presença de síncope durante o exercício físico (doença coronariana, embolia pulmonar, mixoma atrial, estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica, hipertensão pulmonar, estenose mitral), embora também possa ocorrer nas síncopes neuralmente mediada. FIGURA 13 – POSIÇÃO DE RECUPERAÇÃO Descrição: imagine que você irá virar a vítima para o lado direito como na Imagem 1 – o socorrista deverá flexionar o braço esquerdo e apoiar a mão do mesmo membro junto a face lateral do rosto no lado contrário (direito); Imagem 2 – flexionar levemente o membro superior esquerdo sobre a perna direita e virar a vítima utilizando o peso do seu corpo – você deverá adaptar a sua mão esquerda junto a região escapular da vítima (ombro esquerdo) e a mão direita na face posterior da coxa no membro esquerdo da vítima e, ainda, utilizar o peso do seu corpo para lateralizar a vítima; Imagem 3 – você deverá se certificar de que a face da vítima está apoiada sobre o braço da mesma (dorso da mão esquerda na face do lado direito da vítima) e de que a cavidade oral se encontra aberta (permitindo a drenagem de resíduo gástrico caso ocorra algum episódio de vômito; Imagem 4 – deixar a perna esquerda semiaberta e flexionada visando dar sustentação à posição. FONTE: <https://demedbook.com/images/1/first-aid-the-recovery-position-and-cpr_2.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 126 3.7 HIPOTENSÃO ORTOSTÁTICA Com relação ao tratamento da Hipotensão Ortostática (HO), na visão de Vilas et al. (2002), inclui evitar situações de vasodilatação periférica ou que dificultem o retorno venoso por meio das atividades listadas na no Quadro 9. Em casos de queda de pressão arterial ao levantar-se, uma boa opção seria a utilização de cafeína durante a refeição desde que não contraindicado, uma vez que tem ação pressórica e bloqueia o receptor de adenosina. A elevação da cabeceira (decúbito) em 5°– 20° ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona e pode ser útil, entretanto, a vítima também pode ser colocada deitada, devendo manter os membros inferiores elevados acima do nível do coração. É importante destacar que, em qualquer etapa de atendimento das vítimas, a verificação do teor de açúcar através da realização de hemoglicoteste (HGT), se tal equipamento estiver acessível. QUADRO 9 – SITUAÇÕES QUE DEVEM SER EVITADAS EM DOENTES COM HIPOTENSÃO ORTOSTÁTICA Clima e banhos quentes. Exercício isométrico. Grandes refeições. Hiperventilação e ascensão rápida e grandes altitudes. Permanecer em pé por tempo prolongado, sem movimentos. Uso de vasodilatadores, diuréticos, tricíclicos e álcool. FONTE: O autor 3.8 HIPERSENSIBILIDADES DO SEIO CAROTÍDEO Quando a ocorrência estiver atribuída à hipersensibilidade do seio carotídeo, o tratamento incluirá: • evitar comprimir a região do seio carotídeo (gravata, colares); • evitar medicamentos que possam exacerbar a bradicardia e a hipotensão; • forma vasodepressoras podem responder a agentes vasoconstritores ou aos inibidores da recaptação da serotonina; • marcapasso definitivo de câmera dupla pode ser necessário na forma cardioinibitória da doença quando a vítima já se encontrar em algum ambiente de saúde o qual possua recursos avançados. TÓPICO 1 — ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E SÍNCOPE 127 Cabe destacar a existência de risco ocupacional e automobilístico por parte das vítimas que possuem pré-disposição para tal evento. O emergencista deve orientar o paciente, caso ele tenha alta hospitalar, sobre os riscos no trabalho e ao dirigir (exemplos: pedreiros, operadores de máquinas, motoristas, dentre outros). A regra geral é orientar o paciente e seus familiares, de que esse sujeito deve evitar situações de risco, sobretudo a direção automobilística, até completa avaliação ambulatorial e desfecho do caso, bem como receba alta definitiva por parte da equipe médica. 128 Neste tópico, você aprendeu que: • A estrela de seis pontas ou estrela azul da vida foi criada em 1977. É o símbolo internacional que representa os serviços médicos de emergência no Atendimento Pré-hospitalar (APH) ou em ambientes externos. Cada ponta da estrela representa um aspecto da função do atendimento de emergência. • As funções representadas na estrela da vida se traduzem nos seguintes significados: (1) Detecção – detectar a emergência; (2) Alerta – reportar a emergência; (3) Pré-socorro – enviar a equipe e o equipamento mais adequados; (4) Socorro – iniciar o atendimento no local; (5) Transporte – atendimento durante o transporte; (6) Hospital – transferência para o tratamento definitivo. • Uma vez ocorrido o trauma ou dano clínico, para que o sistema seja ativado, é necessário que alguém detecte a ocorrência e ligue para uma central informando, de maneira bem simples, mas completa o tipo de ocorrência (colisão, atropelamento, queda, incêndio, desabamento, agressão, dor e em que região, qual a duração e sua intensidade, se existe alguma limitação mais em evidência, dentre outros), o número de vítimas, se a ocorrência for um trauma, suas condições e as circunstâncias relacionadas ao trauma ou se está se tratar de uma condição clínica, se existe alguma particularidade e irregularidade mais aparente. • Aproximar-se do local e com segurança deve ser a etapa mais importante a ser considerada, para que aquele que deseja socorrer, não se torne a segunda vítima. Devem ser avaliados os possíveisriscos envolvidos (nova colisão, atropelamento, explosão, fogo, desabamento, eletricidade, materiais perigosos e agressão) e se estes se encontram presente. Uma vez na cena ou local onde a vítima está instalada (se encontra) e havendo garantia de segurança, o próximo passo será fazer uma avaliação rápida para determinar qual é a real situação ou grau de dano (grau de acometimento), da vítima. • Para iniciar o atendimento, deve ser usado equipamento adequado de proteção individual (EPIs), tais como: luvas, gorros, máscaras, avental, óculos, e ainda deve-se tomar cuidado com a manipulação e o descarte de objetos perfurocortantes se o socorrista possuir acesso, como materiais para punção venosa. • A base do APH adequado se inicia com uma boa avaliação do paciente ou vítima. A partir da avaliação, é possível determinar a sequência das intervenções que se farão necessárias. Como no atendimento ao traumatizado, o tempo é RESUMO DO TÓPICO 1 129 fundamental, no atendimento clínico, como já enfatizado, também é uma condição intimamente aplicável e não há espaço para indecisões ou incertezas, é necessário que a abordagem seja sistematizada (integral) e que permite não perder tempo nem deixar passar despercebida qualquer lesão ou queixa clínica que possam sinalizar a existência de risco de vida ou de sequelas. • O exame primário busca identificar a presença ou a possibilidade de existência lesões com risco de vida imediato. É concomitante com a aplicação de reanimação, logo que uma lesão com risco em potencial de vida venha ser detectada, deve-se tomar as medidas necessárias para corrigir o problema, prosseguindo com avaliação e atendimento após de corrigi-lo, na medida do possível. • O exame primário e a reanimação (termo também usado como estabilização primária), podem se resumir da seguinte forma: (a) vias aéreas com proteção da coluna cervical; (b) respiração e ventilação; (c) circulação (controlar hemorragia e tratar o choque); (d) estado neurológico (avaliação do status neurológico de forma rápida, com determinação do score (pontuação) da escala de Glasgow); (e) exposição e controle da hipotermia. • A comunicação é um aspecto crucial do atendimento pré-hospitalar. A importância da comunicação começa na ativação do sistema. Dependendo de como a primeira comunicação chegar à central, os recursos humanos e de equipamentos enviados para atender à emergência podem ser adequados ou não. A comunicação deve ser contínua. • Síncope é uma condição que pode ocorrer a qualquer momento e local. As causas mais frequentes são: síncope mediada por reflexo (vasovagal clássica, situacional), hipotensão ortostática, arritmias (especialmente a taquicardia ventricular), alterações anatômicas do sistema cardiovascular (especialmente, estenose aórtica e cardiomiopatia hipertrófica), associada a doenças metabólicas como o diabetes, dentre outras. • Deve-se sempre questionar familiares (quando presente) se o paciente e/ ou vítima que experienciou tal evento, faz uso de algum medicamento dos quais podem induzir a presença de síncope, tais como: antiarrítmicos; antidepressivos; anti-hipertensivos (β-bloqueadores, diuréticos, inibidores de ECA, bloqueadores dos canais de cálcio, dentre outras categorias); antiparkinsonianos; anticonvulsionantes; digitálicos; benzodiazepínicos etc. • A presença de hipotensão ortostática (HO) implica a falência do sistema nervoso autônomo e é caracterizada pela redução da Pressão Arterial Sistólica (PAS) ≥ 20mmHg ou Pressão Arterial Diastólica (PAD) ≥ 10 mmHg, após três minutos em posição sentada (depois de repouso de cinco minutos em posição supina). 130 1 Sobre a síncope, descreva as causas mais frequentes associados à referida síndrome clínica. 2 Frente a uma pessoa que se encontrava desacordada e que está com a recuperação da consciência em andamento, quais os questionamentos que devem ser aplicados pelo avaliador na tentativa de identificar a possível causa geradora do evento? 3 Em que consiste o exame primário? 4 Relacionado ao Atendimento Pré-Hospitalar (APH), qual é o significado e/ ou importância da avaliação da cena onde ocorreu determinado incidente? AUTOATIVIDADE 131 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO As células do nosso cérebro, os neurônios, comunicam-se uns com os outros usando impulsos elétricos. Durante uma crise epiléptica estes impulsos elétricos são perturbados no sentido de existirem uma proporção excessiva de estímulos, levando o corpo a se comportar estranhamente. A severidade da crise epiléptica, pode variar de pessoa para pessoa. Algumas apenas irão apresentar um estado de “transe”, que pode durar segundos ou minutos, enquanto outras perderão a consciência e terão convulsões. Crise epiléptica caracterizada por tremor incontrolável do corpo. TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA 2 PARTICULARIDADES NA CRISE EPILÉTICA Em eventos clínicos nominado como crise epiléptica, é comum a admissão de sujeitos que apresentam a referida síndrome clínica em unidades de urgência e emergência. Entretanto, até essas vítimas chegarem a esses respectivos serviços, cabe a nós, pessoas leigas ou não, prestarmos os primeiros cuidados em decorrência desse advento, pois em alguns casos, tal situação pode indicar uma condição de risco de morte. Em todos os pacientes ou vítimas que experienciaram tal ocorrência e quando já estão em unidades de emergência, faz-se necessário a obtenção de uma minuciosa história clínica (uso de medicamentos, drogas ilícitas, possibilidade de abstinências – principalmente aos sedativos e hipnóticos, uso de depressores do SNC e álcool etílico, se há história sobre a lesão neurológica prévia ou epilepsia, se estes são doentes epilépticos prévio e se utilizam medicações e quais medicações, se a vítima faz uso eventual ou não, ou seja, se adere ao tratamento). Entretanto, a coleta de informações não se restringe apenas quando a vítima encontra-se na unidade de saúde, tais informações devem ser coletadas no momento em que o socorrista (aquela pessoa ou profissional) se depara perante a crise ou pós-crise (pós-ictal ou estado pós-ictal) de uma pessoa (FERNANDES, 2013). Os referidos termos se traduzem dizendo que após as crises, com exceção às de ausência (lapsos de memória), o paciente apresenta período confusional, prolongado (nem todos, mas a maioria), sonolência, dor muscular e fadiga. Esses sintomas são úteis na diferenciação de síncope com crise convulsiva. Essas primeiras informações se referem: 132 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II • Como o paciente ou vítima se apresentava durante a crise – havia espasmos? (Figura 14). • Havia liberação de salivação pela boca? • Há algum ferimento proveniente de queda? • Ocorreu algum fato desencadeador? • O paciente ou vítima está ou ficou inconsciente pós-evento (a crise)? • A vítima está se debatendo e/ou apresenta espasmos musculares expressivos com contração dos membros (na maioria das vezes há retração dos membros superiores e se você tentar hiperestendê-lo (se tal evento for uma crise convulsiva), você não conseguirá estendê-lo). • Ocorreu relaxamento de esfíncter (a vítima se urina e/ou se defeca)? – se ocorreu tal condição o evento foi significativo, devendo ser acionado o serviço de emergência móvel. Essas perguntas são consideradas simples, porém são pontuais e possibilitam que você tenha um arsenal de dados relevantes podendo ser repassadas à equipe de saúde, se a vítima for encaminhada a alguma unidade de atendimento (a maioria é encaminhada para análise ou controle, a depender da apresentação clínica vivenciada e de como se apresenta pós-evento) (Figura 15). FIGURA 14 – APRESENTAÇÃO DURANTE A CRISE FONTE: <http://emercor.com.br/wp-content/uploads/2018/09/EEF14E47-2.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. FIGURA 15 – APRESENTAÇÃO PÓS-CRISE FONTE: <https://enfermagemflorence.com.br/wp-content/uploads/2019/04/convuls%C3%A3o.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA 133 Hopker et al. (2017) descrevemalguns pontos pertinentes que devem ser levados em consideração acerca do que observar nas vítimas recorrentes: • Relacionado ao exame clínico geral: idealmente, nesta etapa, deveria ser incluído a verificação dos sinais vitais, avaliação do teor glicemia capilar e a saturação de oxigênio. Entretanto, a vítima nem sempre apresenta epilepsia ou convulsão em uma unidade de saúde, mas em casa, no ambiente de trabalho e na via pública. Uma vez havendo a disponibilidade de tais instrumento para a verificação desses parâmetros, não devemos negligenciá-los. • Exame neurológico: com ênfase na pesquisa de rigidez de nuca, avaliação do diâmetro pupilar e fundo de olho. Tal exame se justifica pela proximidade e/ou conectividade e responsividade do SNC para os referidos testes. • Causas: sempre pensar e buscar as causas geradoras das crises agudas sintomáticas (infecções, distúrbios metabólicos, ação medicamentosa, tóxico, dentre outros). As causas mais frequentes de crises de epilepsia e de estado de mal epilético, no entendimento de Moreira (2004), incluem: • Exacerbação de crises em doentes epiléticos: deve-se suspeitar de uso irregular de medicação, suspensão abrupta ou troca intensiva de medicação ou associação desordenada, por vezes e iatrogênica. • Intoxicação exógena: álcool, cocaína, anfetaminas, barbitúricos, organofosforados, dentre outros. • Abstinência: de drogas sedativas do sistema nervoso central, troca de terapia medicamentosa ou ajustes de dose. • Distúrbio hidroeletrolítico ou metabólicos. • Trauma: traumatismo cranioencefálico. • Lesões celulares desordenadas: tumores do SNC. • Processos infecciosos acometendo o Sistema Nervoso Central (SNC): como meningites e encefalites (principalmente a meningoencefalite herpética). • Outras lesões agudas do SNC: Acidente Vascular Encefálico Transitório (AVE.T), Acidente Vascular Encefálico Hemorrágico (AVE.H) ou Acidente Vascular Encefálico Isquêmico (AVE.I). Para tanto, segundo o autor supracitado, o tratamento inclui tratar a causa de base e utilizar agentes antiepiléticos durante a crise para a estabilização. O tratamento da crise vai além da administração medicamentosa apenas, muitas vezes, o paciente e/ou a vítima devem receber outras medidas como oxigenioterapia suplementar, monitoramento neurológico e glicêmico, bem como buscar por análise laboratorial e de imagem. O tecido nervoso pode ser compreendido, de uma forma extremamente simplificada, como um sistema eletroquímico. Esse tecido possui uma capacidade inerente de gerar em condições patológicas, uma atividade elétrica anormal que quando presente de forma sustentada pode manifestar-se clinicamente como uma crise epiléptica. 134 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II Entretanto, a literatura traz uma abrangência expressiva quanto aos tipos de acometimento neurológico em decorrência da atividade elétrica desordenada, tais como: convulsão, convulsão febril, crise epiléptica ou epilepsia (proposta principal deste material), epilepsia sintomática, epilepsia idiopática ou criptogenética, status convulsivo ou estado de mal epiléptico e crise convulsivas neonatais. Convulsão é uma alteração paroxística de atividade motora, autolimitada, com ou sem alteração da consciência ou do comportamento, provocada por uma atividade elétrica cerebral anormal. Pelo menos 12% das crianças apresentam, no mínimo, um episódio convulsivo ao longo da vida, 3 a 5% apresentam epilepsia e 0,4% possuem epilepsia refratária com crises de difícil controle. Com relação ao termo crise convulsiva febril ou convulsão febril é um estilo de convulsão que ocorre em decorrência da presença do estado febril com subida rápida da febre, sendo, geralmente, quando a temperatura está acima dos 39 °C. A crise tônico-clônica em 86% das vezes dura poucos minutos. Ocorre entre os 9 meses e 5 anos de idade (pico de incidência entre os 14 e 18 meses), geralmente em crianças sem antecedentes neurológicos, com exame neurológico normal e sem evidências clínicas e/ou laboratoriais. Ocorre entre 4% a 12% na população em geral. Quanto ao termo Epilepsia, é um tipo de doença caracterizada por episódios recorrentes ou por uma ocorrência de duas crises em um intervalo de tempo maior do que 24 horas. Esse tipo de convulsão ocorre sem uma causa provocadora ou detectável que não a própria disfunção elétrica cerebral (FERNANDES, 2013). Fernandes (2013) também escreve que a epilepsia sintomática é ocasionada por más-formações, doenças congênitas ou provenientes de sequelas neurológicas traumáticas, infecciosas, isquêmicas, cirúrgicas, dentre outros. As crises agudas secundárias são decorrentes de distúrbios agudos transitórios oriundos de infecção, hipoglicemia, hiponatremia, hipocalemia, hiponatremia, hipóxia, intoxicações, dentre outros fatores, e possuem como particularidade, o desaparecimento após o distúrbio ou desordem ter sido tratada. Em se tratando da epilepsia idiopática ou criptogenética, não há uma causa aparente (anatômica ou metabólica) ou alterações eletroencefálicas. Status convulsivo ou estado de mal convulsivo, tais termos referem-se à persistência da crise convulsiva ou de uma sucessão do evento (repetição), sem recuperação do nível de consciência, por um período superior a 30 minutos. Cabe destacar que, a crise convulsiva, independente da sua fonte geradora, quanto mais contínua ou persistente/prolongada, maiores serão os danos cerebrais. E quanto às crises convulsivas neonatais, o referido termo possui causas e prognósticos diferentes. Sua identificação e tratamento imediato são fundamentais, já que se relacionam a doenças graves e que, frequentemente, precisam ser abordadas como emergências. TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA 135 Crises epilépticas são problemas frequentemente encontrados nos setores de emergência, pois podem ser causadas por diversas situações na prática clínica, como distúrbios hidroeletrolíticos, lesões neurológicas agudas, efeito de medicamentos e outras. A probabilidade de um indivíduo apresentar uma crise epiléptica em qualquer momento da vida é relativamente alta. Apesar da literatura se divergir em muitas informações, nesse primeiro momento, apontaremos, através desse material, que tal risco é estimado entre 7% e 13%. Em muitos casos, um fator desencadeante das referidas crises pode ser identificado e, uma vez removido, a crise não deverá recorrer. Outras vezes não identificada um fator causal para a crise epilética, mas, ainda assim, muitos desses doentes podem não voltar a apresentar crises epiléticas recorrentes e são, portanto, considerados epiléticos (MAIA; MOREIRA; MARTINS, 2017). Embora a maioria dos textos médicos que abordam condutas na sala de emergência descrevam maior ênfase à conduta no estado de mal epiléptico, a maior parte das crises epilépticas é autolimitada, cessando antes mesmo do atendimento médico. Outros autores como Moreira (2004) e Maia, Moreira e Martins (2017), também trazem novos conceitos por considerarem ser mais importantes: • Crise epiléptica: é a expressão clínica decorrente de uma descarga anormal e esquecida do tecido cerebral. • Crise aguda sintomática ou crise provocada: crise epiléptica decorrente de uma causa imediata identificada como distúrbio metabólico, intoxicação exógena, abstinência de fármacos sedativos ou insulto neurológico agudo (trauma por exemplo). • Epilepsia: doença neurológica que se caracteriza pela ocorrência de crises espontâneas recorrentes (duas ou mais). • Crises isoladas: uma ou mais crises recorrendo no período de 24 horas. Pode corresponder a uma crise aguda sintomática ou a primeira manifestação de epilepsia. 2.1 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA DAS CRISES Para Maia, Moreira e Martins (2017), as crises agudas sintomáticas podem ocorrer em qualquer indivíduo, devido às alterações na excitabilidade neuronal secundária ao fator desencadeante. As causas mais comuns de crises agudas sintomática são: disfunção tóxico-metabólica – relacionadas à intoxicaçãoexógena (principalmente por drogas estimulantes do SNC) ou abstinência de drogas depressoras do SNC e Lesão neurológica aguda – geralmente com lesão cortical. A correção do distúrbio de base geralmente previne o surgimento de novas crises. No caso das crises agudas sintomáticas, decorrente de lesão aguda do SNC, no entanto, nem sempre é possível corrigir a causa de base ou geradora (por exemplo, um hematoma intracerebral nominado de hematoma intraparenquimatoso). Nestes casos, pode ser necessário o uso de terapia medicamentosa para controle do fator desencadeante de crise. 136 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II Maia, Moreira e Martins (2017) descrevem que a ocorrência de lesão do SNC implica maior risco de desenvolvimento futuro de crises espontâneas recorrentes (epilepsia). Na ausência de lesão cerebral permanente, a possibilidade de um doente tornar-se epilético (apresentar crises espontâneas recorrentes) após uma crise aguda sintomática é pequena. O que é uma informação rica quanto ao prognóstico (futuro). Nas epilepsias idiopáticas, pressupõe-se hiperexcitabilidade cortical e/ ou hiperexcitabilidade neural/cerebral, em alguns casos secundários e alteração na função dos canais iônicos, de sódio ou potássio, de caráter familiar. Essas epilepsias representam apenas cerca de 5 a 8% dos casos de epilepsias em pacientes ou vítima adultas. O quadro clínico se manifesta antes dos 20 anos de idade, podendo haver como fator predisponente história familiar de epilepsia e, geralmente, o paciente/vítima não apresenta outras anormalidades neurológicas ou ao exame de imagem (AGUILAR; ALVES; SERRANO, 2016). Nas epilepsias sintomáticas, existem lesões corticais adquiridas em qualquer momento da vida. A etiologia de bases dessas lesões e/ou afecções incluem as doenças congênitas (más-formações), doenças infecciosas do SNC (adquiridas), lesões vasculares (congênitas ou traumáticas), neoplasias benignas e malignas ou degenerativas. A epilepsia, nesses casos pode ser considerada como consequente a uma lesão cerebral antiga (epilepsia, sintomática remota) e pode manifestar-se em diversos momentos da vida, desde o período perinatal até após a sexta década de vida. Habitualmente a lesão causadora de epilepsia pode ser vista através de exame de neuroimagem, como tomografia computadorizada de crânio (TC) (Figura 16) ou ressonância magnética (RM) (MOREIRA, 2004). Nas epilepsias criptogênicas, epilepsia idiopática ou criptogenética (também conhecidas como sintomáticas), não se observam lesões ao exame de neuroimagem, porém os pacientes/vítimas não apresentam características clínicas da epilepsia idiopática. TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA 137 FIGURA 16 – TOMOGRAFIA DE CRÂNIO FONTE: <https://pesquisanimed.files.wordpress.com/2015/06/img_20150629_021229389. jpg?w=238&h=300>. Acesso em: 20 maio 2020. Com relação à tomografia computadorizada (TC), esta pode ser realizada com ou sem o aditivo de contraste. As realizadas sem contraste são consideradas uma ferramenta auxiliadora para identificar muitas causas geradoras de atividade epiléptica. Já as TCs que são realizadas com contraste endovenoso, pode ser mais específica para um diagnóstico em particular, porém a utilização de contraste, na maioria das vezes, não melhora a sensibilidade para detecção de lesões, com exceção das doenças metastáticas existentes no SNC. Já a RM demonstra maior sensibilidade para o reconhecimento e localização de lesões encefálicas preexistentes associadas a convulsões e/ou epilepsia. Anomalias de ordem congênitas de migração, pequenas lesões inflamatórias, áreas de hemorragia parenquimatosa, processos degenerativos de substância branca, áreas de injúria cerebral ou de infarto e neoplasias intracranianas, mesmo aquelas de pequenas dimensões, tanto primárias como já em estágio evoluído (metastáticas), são mais claramente identificadas com a RM, quando comparado a qualquer outra modalidade de imagem. 138 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II 2.2 ACHADOS CLÍNICOS Uma situação comum em prontos-socorros (PS) é o médico ser chamado para avaliar um doente que, pela primeira vez apresentou crise epiléptica tônico- clônica generalizada (TCG). Habitualmente, o doente chega ou é trazido ao PS no período pós-ictal, sonolento ou confuso. Quando acorda, em geral, não se recorda do ocorrido, queixando-se de dores no corpo e intensa cefaleia. É importante lembrar que muitos eventos associados à perda de consciência e movimentos anormais não são, necessariamente, crises epilépticas. Esses eventos podem ser confundidos inicialmente com crises epilépticas, mas devem ser diferenciados destas, pois seu tratamento é distinto (MAIA; MOREIRA; MARTINS, 2017). Os pacientes podem apresentar apenas a crise epiléptica sem quaisquer outros achados. Entretanto, a crise pode indicar um problema clínico neurológico subjacente sem que os sinais e sintomas da doença de base, clínica neurológica estejam evidentes. A causa das crises pode ser sintomática, aguda ou remota, conforme já exposto anteriormente. Em alguns casos, podem não ser possível determinar a causa da crise. Uma primeira crise epiléptica não provocada pode apresentar manifestação inicial divergente. Moreira (2004) nos diz que em um paciente que apresente uma primeira crise epiléptica, deve ser pesquisado: • Se há presença de febre: embora uma crise epiléptica possa causar aumento da temperatura corpórea (geralmente inferior a 38 °C), a presença de febre, especialmente em vigência de rigidez nucal e confusão mental, obriga a investigação da etiologia infecciosa (meningoencefalites virais – incluindo herpética, bacterianas, incluindo tuberculose e de etiologia fúngica). • Rigidez na nuca: indica irritação meníngea e pode estar presente em meningites, encefalites e hemorragia meníngea. Tente evitar o contato de outras pessoas com a vítima até que se prove ao contrário. Não esqueça de utilizar preventivamente máscara de procedimento (simples). • Identifique se há evidência de traumatismo craniano: crises epilépticas podem ser desencadeadas por traumatismo craniano banal “crises de impacto” ou traumatismos cranianos mais graves. É importante determinar que o traumatismo craniano foi decorrente da crise ou foi fator causal da crise. • Presença de déficit neurológico focal (hemiparesia): pode indicar lesão neurológica aguda ou crônica, que pode estar relacionada à etiologia da crise. Podem ocorrer déficits focais transitórios, de duração habitualmente não superior a 24 horas, secundárias às crises, conhecidos como “paralisia de Todd”, que indicam disfunção transitória do parênquima cerebral decorrente da crise. Na situação de emergência, não há como determinar se o déficit é transitório, o mais importante é saber que qualquer déficit focal presente, deve ser investigado posteriormente. Déficits focais associados a crises podem indicar acidente vascular encefálico/cerebral (hemorrágico ou isquêmico), outras lesões parenquimatosas (tumores primários ou metastáticos), lesões sequelares, dentre outros. TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA 139 Devendo ainda ser pesquisado na história daqueles que experienciaram tal evento, se há: • Evidência de doença clínica descompensada, como diabetes mellitus, doenças pulmonares, renais, autoimunes, dentre outros. • Histórias de uso de medicação prescrita, de drogas ilícitas ou tentativas de suicídio (antidepressivos, isoniazida, lítio, teofilina, anticolinérgicos, organofosforados, cloroquina, entre outros). • História de etilismo crônico, com redução ausência da ingestão nas últimas horas ou dias, sugerindo abstinência alcoólica. 2.3 EXAMES COMPLEMENTARES Todo paciente que entra no setor de emergência com crise epiléptica, deve imediatamente ser submetido à avaliação da glicemia capilar. Se houver hipoglicemia deve ser colhida amostra de sangue para confirmar o achado e, imediatamente, antes do resultado do exame, deve ser corrigida. Deve- se administrar, concomitantemente, tiaminaou glicose hipertônica por via endovenosa, para impedir o desencadeamento de encefalopatia (MAIA; MOREIRA; MARTINS, 2017). Em seguida, deve-se proceder a exames que visam a determinar a etiologia das crises. Em pacientes sem história prévia de epilepsia Maia, Moreira e Martins (2017) nos dizem que para tais vítimas, deve-se obrigatoriamente, proceder da seguinte forma: • Avaliação de causas clínicas: hemograma, plaquetas, exames de coagulação, função renal, hepática, glicemia, sódio, potássio, cálcio iônico, magnésio, e, em casos selecionados, gasometria arterial, parcial de urina e urocultura, hemocultura e perfil toxicológico. • Neuroimagem: preferencialmente ressonância magnética de crânio (melhor resolução para dissecção de lesões) ou alternativamente, tomografia de crânio (com contraste, em casos selecionados). • Exame de líquor deve ser colhido desde que não haja contraindicação, em casos selecionados: é imprescindível quando há suspeita de quadro infeccioso. Meningoencefalites, incluindo a encefalite herpética, podem manifestar-se, inicialmente, apenas por crise epiléptica, sem outras anormalidades. Quando não houver etiologia definida da crise, e na ausência de contraindicações, deve- se proceder à coleta de líquor. • Eletroencefalograma: exame raramente disponível no PS em caráter de urgência. É extremamente útil para revelar anormalidades epileptiformes em pacientes epiléticos na avaliação de estado de mal eletrográfico, em pacientes com rebaixamento do nível de consciência de etiologia não definida (Figuras 17A e 17B). 140 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II FIGURA 17A – ELETROENCEFALOGRAMA – ADAPTAÇÃO DOS ELETRODOS NO POLO CEFÁLICO FONTE: <https://www.cukiert.com.br/wp-content/uploads/2019/05/eletroencefalograma-clini- ca-cukiert.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. FIGURA 17B – ELETROENCEFALOGRAMA – ADAPTAÇÃO DOS ELETRODOS NO POLO CEFÁLICO Descrição: a proposta desta imagem é sinalizar que uma das formas de se observar a presença de irregularidades quanto aos impulsos elétricos cerebrais é através da captação desses impulsos por meio do eletroencefalograma. Este exame permite realizar a comparação do traçado das imagens ora captadas, as quais evidenciam onde há latência (excitabilidade fisiológica – atividade cerebral normal) como esboça a imagem a esquerda. Já na figura central, é possível percebermos a existência de um traçado (linhas maiores no sentido vertical) justificando a presença de maior excitabilidade. E na figura à direita percebemos que esses traçados (linhas no sentido vertical), se apresentam ainda com deformidade e/ou irregularidades sequenciais, justificando hiperexcitabilidade cerebral (desordem). FONTE: <https://www.msdmanuals.com/pt/casa/distúrbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos- -nervos/transtornos-convulsivos/transtornos-convulsivos>. Acesso em: 20 maio 2020. Nos casos de primeira crise epiléptica, o paciente deve ser mantido em observação hospitalar até que sejam afastadas as causas, citadas anteriormente. É importante que se determine a etiologia da crise epiléptica, pois o tratamento de causa de base é essencial para o sucesso terapêutico, minimizando sequelas ao longo do prazo. Para aqueles pacientes e/ou vítimas de epilepsia com história prévia, estes devem ser avaliados criteriosamente, pois, nem sempre é possível excluir a ocorrência de novo quadro neurológico agudo. Cada caso deve ser avaliado de modo individualizado, com a solicitação de exames apropriados em cada situação clínica (neuroimagem, líquor, exames de sangue e EEG, se for o caso). Nesses casos, é de extrema importância a história do uso de medicações, aderências ao tratamento, história de parada abrupta da medicação ou mudança no esquema medicamentoso (ajuste da dose). Para os casos onde foram feitos ajustes na miligramagem do fármaco utilizado, a dosagem de níveis séricos do fármaco que age de forma a evitar a antiepilepsia pode ser útil (MAIA; MOREIRA; MARTINS, 2017). TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA 141 2.4 CONDUTA A seguir, encontra-se disponível o que orientam Moreira (2004), Aguilar, Alves e Serrano (2016), acerca do que as pessoas que prestam cuidado às pessoas que manifestam epilepsia devem observar e de como devem intervir perante a existência dessa síndrome clínica, a saber: • Paciente epilético, em uso de fármacos para controle e que parou de tomar por conta própria a medicação por alguns dias: neste caso, avaliar individualmente há necessidade de exames complementares. Administrar a medicação de que o paciente faz uso (compensando-se também as doses “perdidas”). A suspensão abrupta ou redução intempestiva dos fármacos (barbitúricos ou benzodiazepínicos) são causas frequentes de descompensação do controle de crises epilépticas e devem ser tratadas com a reintrodução das mesmas ou de similares. • Pacientes epiléticos em uso de um ou mais fármacos antiepilépticos sem um desencadeante aparente: o manejo dos fármacos, nestas situações, deve ser feito, preferencialmente, em conjunto com o médico que acompanha o paciente e/ou vítima. Em algumas situações isso não é possível, podendo ser necessário ajustes na dose da medicação no pronto-socorro. • Estado de mal epiléptico independentemente da etiologia da crise epiléptica: o doente pode apresentar-se em uma situação de emergência, cuja situação caracterize o chamado de mal estado epilético. O estado de mal epiléptico pode ocorrer no contexto de uma crise aguda sintomática ou em decorrência da descompensação de epilepsia prévia. Crises prolongadas podem, potencialmente, causar dano ao SNC. Estudos experimentais sugerem que crises não controladas predispõem o cérebro a crises de mais difíceis controle por meio do uso de medicamentos. Embora, tecnicamente, o diagnóstico de estado de mal epiléptico refere-se a crises com duração de mais de vinte minutos, estudos em animais de laboratório indicam alterações teciduais a partir de cinco minutos do início da crise. Como a maioria das crises epilépticas essa ocorre em menos de dois minutos (não incluindo o período de confusão pós-ictal), justifica-se que comecem a ser tomadas medidas terapêuticas para abordar as crises a partir de quinto minuto após o início da crise. • Acerca do estado de mal convulsivo: caracteriza-se por crises tônico-clônico generalizadas reentrantes, sem recuperação completa da consciência entre as crises ou crises generalizadas que pode durar por até mais de vinte minutos (esse é um diferencial). Representa risco de morte. Deve ser identificado e tratado prontamente. A ocorrência da crise generalizada é frequente, com intervalos breves de recuperação de consciência entre as crises, embora não represente estado de mal epiléptico, também deve ser diagnosticada e tratada prontamente. • O estado de mal não convulsivo (ou estado de mal com manifestações clínicas e sutis): pode ocorrer espontaneamente seguida de crises tônico-clônico generalizadas ou de crises parciais com perda de consciência (crises parciais complexas). Manifesta-se por rebaixamento persistente do nível de consciência, 142 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II a despeito da sensação de crises clinicamente perceptíveis. Podem ocorrer manifestações clínicas sutis como abalos nistagmoides dos olhos, abalos musculares (geralmente mioclônicos – espasmos “contrações”) dos membros e face e movimentos mastigatórios. O nível de consciência pode flutuar em alguns casos (lapsus de memória), o paciente pode manter contato com o meio de modo extremamente lentificado (seu pensar fica lentificado e suas respostas ficam vagarosas). O diagnóstico pode ser difícil. O estado de mal não convulsivo pode ser confundido com rebaixamento do nível de consciência por causas tóxico-metabólicas ou com período pós-ictal. O diagnóstico é feito pelo eletroencefalograma (nem sempre disponível em condições de emergência). O estado de mal não convulsivo também pode representar risco iminente de morte, embora menos que o estado de mal convulsivo.Seus fatores desencadeantes e agravantes devem ser reconhecidos e eliminados o mais rapidamente possível. O tratamento medicamentoso também deve ser estabelecido com rapidez, sendo uma competência exclusivamente médica, entretanto, a pessoa que presta o primeiro atendimento deve ter essa noção de que seu atendimento deve ser otimizado. • Estado de mal parcial (ou focal) simples. Caracteriza-se por crises focais reentrantes ou contínuas, sem comprometimento do nível de consciência. Pode caracterizar-se por abalos motores em um dos membros ou face. Nesses casos, também é fundamental afastar fatores etiológicos ou desencadeantes (especialmente neste contexto, estado hiperosmolar não cetótico) e tratar adequadamente as crises. Assim, a urgência do tratamento é um pouco menor que nos dois casos anteriores, devendo-se pesar cuidadosamente a necessidade de introdução de medidas agressivas, como intubação orotraqueal e infusão (administração) de fármaco antiepilépticas endovenosas. 2.5 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL As principais situações clínicas que geram a confusão são: • quedas vs traumas; • síncope; • crise não epilética de origem psicogênica; • ataques de pânico; • distúrbios de sono; • enxaqueca; • distúrbios metabólicos. É importante, contudo, checar e buscar causas secundárias das crises epilépticas, pelo simples fato de que o tratamento da causa de base torna-se essencial para o sucesso da recuperação da vítima, minimizando a probabilidade de sequelas. TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA 143 2.6 TRATAMENTO No atendimento de emergência é fundamental para que a conduta médica seja guiada por um processo diagnóstico estruturado, visando à intervenção terapêutica eficaz. A troca de informações com aqueles que prestaram o primeiro socorro é crucial. A prioridade inicial é avaliar se há presença de hipoglicemia e realizar as manobras de suporte avançado de vida (garantir vias aéreas, ventilação, circulação, dentre outros). Em seguida, é necessário que se estabeleça, paralelamente, algoritmo diagnóstico e terapêutico. Sob o ponto de vista diagnóstico, é necessário que se estabeleça a etiologia da crise, eliminando-a, se possível. A conduta farmacológica com medicação antiepilética, é reservada para casos selecionados, uma vez que a maioria das crises tende a não se repetir se eliminado o fator casual. O uso de fármacos antiepilépticos possui como objetivo cessar uma crise prolongada, prevenir novas crises e deixar outras estruturas vulneráveis, como o sistema respiratório em decorrência do risco de broncoaspiração. Seu uso deve ser criterioso, norteado pelo cenário clínico (Quadro 10). QUADRO 10 – TRATAMENTO DO ESTADO DE MAL EPILÉPTICO Tempo* Sequência terapêutica 1° até 5 minutos Estabilização: vias aéreas, acesso venoso, oxigênio, monitor e glicemia capilar (dextro/hemoglicoteste). 2° de 5 a 10 minutos No Brasil: Diazepan**, EV (endovenoso) < 1 a 2 mg/minuto, até 10 a 20 mg. 3° de 10 a 20 minutos Fenitoína: 20 mg/kg de peso, EV, 50 mg/minuto, diluída em soro fisiológico. 4° após 20 minutos Fenobarbital: 10mg/kg de peso, EV, 50 a 75 mg/minuto. Repetir mais 10 mg/kg de peso fenobarbital, se necessário. Anestesia geral com monitorização do eletroencefalograma: Midazolan: 0,2 mg/kg, EV, lentamente, manutenção de 1 a 10 µg/kg/minuto ou, Propofol: 1 a 2 mg/kg, EV, lentamente; manutenção de 1 a 15 mg/kg/hora ou, Fenobarbital: 10 a 15 mg/kg, EV, em 1 hora; manutenção de 0,5 a 1,0 mg/kg/hora. * Da chegada ao PS. ** Doses adicionais de Diazepan podem ser administradas posteriormente em qualquer momento. FONTE: O autor 144 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II Nas crises agudas sintemáticas, agentes antiepiléticos são, em geral, pouco eficazes no controle de crises epilépticas agudas sintomáticas decorrentes e distúrbios metabólicos. Nesses casos, o melhor tratamento é a correção da causa. Assim, geralmente não se inicia tratamento com agentes antiepiléticos nesta situação. Não devem ser administrados benzodiazepínicos se a crise tiver cessado e o doente estiver no período pós-ictal. Nesse contexto, o emprego de benzodiazepínicos não tem indicação e pode acentuar a depressão do SNC, prolongando o período de recuperação do nível de consciência ou acentuando o quadro confusional. Além disso, os benzodiazepínicos têm curta duração (não mais que trinta minutos para o Diazepan), não sendo agentes eficazes contra a prevenção de recorrência de crises. Esses agentes devem ser reservados para casos que se caracterize estado de mal epiléptico, em crises com duração superior a cinco minutos (SIQUEIRA, 2010; MAIA; MOREIRA; MARTINS, 2017; SILVEIRA; O'DWYER, 2017). No caso de crises agudas sintomáticas secundárias a lesões neurológicas agudas, na visão dos autores supracitados, habitualmente se entregam agentes antiepilépticos na prevenção de recorrência de crises, embora sua eficácia possa ser limitada nesse contexto. O agente mais empregado é a Fenitoína ou comercialmente conhecida como Hidantal® e ser passível de administração endovenosa em dose de “ataque”, permitindo rápido início de ação. Quanto à crise única (excluída crise aguda sintomática), a maior parte dos doentes com crise única na emergência não apresenta a recorrência de crises. Logo, a introdução de agentes antiepilépticos não está indicada na maioria dos casos. Sua utilização em doentes com crise isolada é restrita àqueles casos em que há alto risco de recorrência (novo episódio). Para uma conduta adequada, portanto, deve ser feita estratificação do risco de recorrência das crises. Para isso, são necessários os resultados de dois exames, tais como: • Neuroimagem (ressonância magnética de crânio – preferível, quando disponível – ou tomografia computadorizada de crânio). • Eletroencefalograma (nem sempre disponível no setor de emergência). A decisão de se iniciar tratamento crônico com medicação antiepiléptica deve ser discutida com o doente, ponderando o risco de recorrência e o impacto de uma nova crise na vida do doente. Como dito anteriormente, doentes com crise única de etiologia não esclarecida idealmente não devem receber alta hospitalar até que se tenham dados completos de investigação que forneçam subsídios para decidir sobre a introdução ou não de medicação antiepiléptica. Em relação às crises epilépticas em doentes com epilepsia, conforme descreve Silveira e O'dwyer (2017), as causas mais frequentes identificadas que levam ao descontrole de crises em doentes, incluem: falta de aderência ao tratamento, troca de agentes antiepilépticos, distúrbios metabólicos, infecção sistêmica, interações medicamentosas e outras situações que levem à queda da biodisponibilidade do agente antiepiléptico. Checar o fator desencadeante, portanto, é fundamental para uma conduta adequada. Em alguns casos, a dosagem sérica do agente anticonvulsivante pode ajudar na conduta, conforme já mencionado anteriormente. TÓPICO 2 — CRISE EPILÉTPICA 145 Se for comprovada a irregularidade no uso do agente antiepiléptico devem ser administradas as doses “perdidas”. Em doentes aderentes ao tratamento e sem sinais clínicos de intoxicação, o aumento na dose do agente antiepiléptico de que já faz uso, pode ser suficiente para controlar o controle das crises. Deve-se sempre explorar o tratamento em monoterapia, ajustando a dose do agente até a máxima dose tolerada, sem efeitos adversos, objetivando-se controle completo das crises. Vítimas de estado de mal epiléptico independentemente da etiologia da crise, pode apresentar-se na emergência em situação que caracterize o chamado estado de mal epiléptico. O conceito de estado de mal epiléptico está intrinsecamente ligado ao fato de crises prolongadas, pode causar danos na SNC. Estudos experimentais e clínicos demonstram que crises não controladas predispõem o cérebro a crises de mais difícil controle. O tratamento precoce, portanto, se justifica. Uma vez que a maior parte das crises epilépticas cessa espontaneamente, em poucos minutos, algunsautores recomendam operacionalmente que condutas para o estado de mal epiléptico sejam adotadas após cinco minutos contínuos de crise ou a ocorrência de duas ou mais crises sem que seja recuperada consciência entre os ataques (MAIA; MOREIRA; MARTINS, 2017). Os mesmos autores descrevem que essa situação caracteriza emergência médica que requer tratamento imediato e adequado. Segundo alguns estudos, sua mortalidade pode chegar a 20%, não sendo justificável nenhum atraso no tratamento. Portanto, qualquer crise que dure cinco minutos ou mais deve ser tratada agressivamente. Crises não epilépticas psicogênicas podem ser diagnosticadas erroneamente como estado de mal epiléptico. Em alguns estudos, de 20% a 40% dos doentes, com suposto estado de mal epiléptico, apresentavam na realidade crises não epilépticas de origem psicogênica. Esses diagnósticos devem ser realizados prontamente para tratamento adequado. 146 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A literatura traz uma abrangência expressiva quanto aos tipos de acometimento neurológico em decorrência da atividade elétrica desordenada, tais como: convulsão, convulsão febril, crise epiléptica ou epilepsia (proposta principal deste material), epilepsia sintomática, epilepsia idiopática ou criptogenética, status convulsivo ou estado de mal epiléptico e crise convulsivas neonatais. • Convulsão é uma alteração paroxística de atividade motora, autolimitada, com ou sem alteração da consciência ou do comportamento, provocada por uma atividade elétrica cerebral anormal. Pelo menos 12% das crianças apresentam, no mínimo, um episódio convulsivo ao longo da vida, 3 a 5% apresentam epilepsia e 0,4% possuem epilepsia refratária com crises de difícil controle. • Com relação ao termo crise convulsiva febril ou convulsão febril, é um estilo de convulsão que ocorre em decorrência da presença do estado febril com subida rápida da febre, sendo, geralmente, quando a temperatura está acima dos 39 °C. • Epilepsia é um tipo de doença caracterizada por episódios recorrentes ou por uma ocorrência de duas crises em um intervalo de tempo maior do que 24 horas. Esse tipo de convulsão ocorre sem uma causa provocadora ou detectável que não a própria disfunção elétrica cerebral. • Relacionado à estimulação excessiva do SNC, este é um dos fatores que predispõe a presença de crises epiléticas. Alguns pontos pertinentes devem ser levados em consideração acerca do que observar nas vítimas recorrentes tal como: verificação dos sinais vitais (pós-crise), avaliação do teor glicemia capilar e a saturação de oxigênio; realizar exame neurológico: com ênfase na pesquisa de rigidez de nuca, avaliação do diâmetro pupilar (Tal exame se justifica pela proximidade e/ou conectividade e responsividade do SNC); Tentar identificar possíveis causas, tais como infecções, distúrbios metabólicos, ação medicamentosa, tóxico, dentre outros. • Quanto às causas mais frequentes de crises de epilepsia e de estado de mal epilético, incluem: uso irregular de medicação, suspensão abrupta, troca intensiva de medicação ou associação desordenada, por vezes e iatrogênica; intoxicação exógena: álcool, cocaína, anfetaminas, barbitúricos, organofosforados, dentre outros; abstinência: de drogas sedativas do sistema nervoso central; distúrbio hidroeletrolítico ou metabólicos; trauma: traumatismo cranioencefálico; lesões celulares desordenadas: tumores do SNC; processos infecciosos acometendo o 147 Sistema Nervoso Central (SNC): como meningites e encefalites (principalmente a meningoencefalite herpética); outras lesões agudas do SNC: Acidente Vascular Encefálico Transitório (AVE.T), Acidente Vascular Encefálico Hemorrágico (AVE.H) ou Acidente Vascular Encefálico Isquêmico (AVE.I). • Quanto às crises convulsivas neonatais, o referido termo possui causas e prognósticos diferentes. Sua identificação e tratamento imediato são fundamentais já que se relacionam a doenças graves e que, frequentemente, precisam ser abordadas como emergências. • Com relação à tomografia computadorizada (TC), esta pode ser realizada com ou sem o aditivo de contraste. As realizadas sem contraste são consideradas uma ferramenta auxiliadora para identificar muitas causas geradoras de atividade epiléptica. Já as TCs que são realizadas com contraste endovenoso pode ser mais específica para um diagnóstico em particular, porém a utilização de contraste, na maioria das vezes, não melhora a sensibilidade para detecção de lesões, com exceção das doenças metastáticas existentes no SNC. • Já a RM demonstra maior sensibilidade para o reconhecimento e localização de lesões encefálicas preexistentes associadas a convulsões e/ou epilepsia. Anomalias de ordem congênitas de migração, pequenas lesões inflamatórias, áreas de hemorragia parenquimatosa, processos degenerativos de substância branca, áreas de injúria cerebral ou de infarto e neoplasias intracranianas, mesmo aquelas de pequenas dimensões, tanto primárias como já em estágio evoluído (metastáticas), são mais claramente identificadas com a RM, quando comparadas a qualquer outra modalidade de imagem. 148 1 Descreva as causas mais frequentes que desencadeiam crises de epilepsia. 2 Conceitue convulsão. 3 Descreva algumas considerações que devem ser observadas no momento do atendimento a vítimas de crises epiléticas. 4 O que caracteriza status convulsivo ou estado de mal convulsivo? AUTOATIVIDADE 149 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO O Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) se dá em decorrência da oclusão da artéria coronária tanto direita ou esquerda e suas ramificações, através da formação de um coágulo sanguíneo ou por placas de ateroma (gordura), o que predispõe na diminuíção do fluxo sanguíneo que é levando e/ou direcionado ao músculo miocárdio, fazendo a morte celular dessa estrutura, chamada de necrose. A extensão da necrose depende de fatores como o calibre da artéria acometida que foi acometida, qual o tempo de evolução da obstrução e se há desenvolvimento de circulação colateral (SANTOS et al., 2018). Os autores supracitados descrevem que dentre os sinais e sintomas mais frequentes são a dor torácica persistente, também conhecida como precordialgia. Sua intensidade pode variar, ser de leve, moderada e forte intensidade. Outras regiões podem através da presença da dor, sinalizar que a vítima pode apresentar um problema cardíaco tal como dor no peito (já mencionado) com irradiação para o braço esquerdo e mandíbula, pode haver dor no pescoço e dor no ombro (direito e esquerdo). Essa dor pode vir acompanhada de sudorese (suor), náusea (enjoo), vômito, palidez (a pele fica branca), podendo ocorrer uma síncope. TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 2 PARTICULARIDADES DO SISTEMA CARDIOVASCULAR E SANGUÍNEO O sistema cardiovascular é formado por vasos sanguíneos, sangue e coração. Funcionalmente, esses órgãos devem levar material nutritivo e oxigênio às células; transportar os produtos residuais do metabolismo celular, desde os locais onde foram produzidos até os órgãos encarregados de eliminá- los. O sangue está contido em um sistema fechado, nominado como “Sistema Circulatório”, que permite a sua circulação no interior dos vasos sanguíneos, os quais são representados pelas veias, capilares e artérias (Figura 18). O sistema circulatório tem função de transporte de gases, nutrientes, produtos metabólicos e hormônios para todo o corpo. 150 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II FIGURA 18 – ESQUEMA DA CIRCULAÇÃO DO SANGUE FONTE: O autor O sangue é um tecido conjuntivo viscoso e denso com uma temperatura aproximada de 38 oC e um pH que varia entre 7,35 a 7,45. O sangue está constituído por uma parte líquida denominada plasma (55%) e uma parte celular, os elementos figurados (45%). O plasma é a parte acelular do sangue constituído por 90% de água, 8% de proteínas, 1% de sais inorgânicos e o restante formado por compostos orgânicos diversos. A parte celular do sangue, os elementosfigurados, são formados por hemácias, leucócitos (neutrófilos, linfócitos, monócitos, eosinófilos e basófilos) e plaquetas, que são restos celulares, os quais se encontram dispostos na Quadro 11 (TORTORA; DERRICKSON, 2012). QUADRO 11 – CONSTITUIÇÃO DO SANGUE PLASMA ELEMENTOS FIGURADOS Água Proteínas (albumina, globulinas, fibrinogênio) Sais Íons Bicarbonato Glicose Hormônios Enzimas Gases Aminoácidos Vitaminas Eritrócitos Plaquetas Neutrófilos Eosinófilos Basófilos Monócitos Linfócitos FONTE: O autor TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 151 O coração é o órgão central do sistema cardiovascular, responsável pelo bombeamento de todo o sangue pelo corpo. Pesa em média 250 g nas mulheres e 300 g nos homens. É um órgão muscular oco, que funciona como uma bomba contrátil-propulsora, situado na cavidade torácica, posteriormente ao osso esterno, superior ao músculo diafragma, no espaço compreendido entre os dois pulmões e a pleura, denominado mediastino (Figura 19) (TORTORA; DERRICKSON, 2012). FIGURA 19 – MARGENS E FACES DO CORAÇÃO FONTE: Adaptada de Martini, Timmons e Tallitsch (2009) O coração lembra o aspecto de um cone, sendo que a porção pontiaguda está voltada inferiormente à esquerda, sendo denominada de ápice. Do lado oposto ao ápice, encontramos a base, onde chegam e saem os grandes vasos do coração, denominados vasos da base. O coração possui duas faces, a face esternocostal, localizada posteriormente ao esterno e às costelas; e a face diafragmática, representada pela parte do coração que repousa sobre o diafragma. Além disso, o coração possui duas margens, a margem direita, voltada para o pulmão direito e a margem esquerda, voltada para o pulmão esquerdo (TORTORA, 2013). Apesar de ter havido importantes avanços no tratamento de pacientes com Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) nos últimos tempos, essa síndrome clínica ainda permanece como uma das maiores causas de óbito em todo mundo ocidental. O diagnóstico quando realizado de forma precoce a partir do início dos sintomas, é fundamental e crucial, uma vez que as terapêuticas de recanalização sejam por meio do uso de medicamentos especiais os chamados fibrinolíticos (aqueles que quebram coágulos que estão obstruindo o ramo arterial) ou por meio de procedimentos mecânicos as chamadas angioplastias (realizadas com o uso de cateteres especiais que permitem esmagar placas de gordura que estão impedindo 152 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II a passagem de sangue arterial para o músculo cardíaco). Concomitante, ao uso desses recursos, existe ainda a utilização de ácido acetilsalicílico (AAS®) como terapia coadjuvante para diminuir a viscosidade sanguínea diminuindo assim a possibilidade de formação de trombos e coágulos sanguíneos (VOLSCHAN et al., 2002; LOTUFO et al., 2015). 3 DEFINIÇÕES O principal mecanismo patogenético de instabilização da placa aterosclerótica, nas síndromes isquêmicas miocárdicas instáveis é a ocorrência da rotura/erosão da placa aterosclerótica (Figura 20), levando às seguintes complicações: ativação inflamatória, aumento de agregação plaquetária, vasoconstrição e trombose intraluminal da artéria coronária. A oclusão coronária por tempo prolongado promove completa interrupção no fornecimento de nutrientes para uma determinada região do miocárdio, constitui o substrato anatômico para o desenvolvimento do Infarto Agudo do Miocárdio com ou sem elevação do segmento ST (IAM) (Figura 21). FIGURA 20 – ADERÊNCIA DE PLACA ATEROSCLERÓTICA NA ÍNTIMA DA ARTÉRIA FONTE: <http://1.bp.blogspot.com/-qDxt6WFs9iY/TiN-kIFGGrI/AAAAAAAABd8/04BNoJZ1Sns/ s200/placa-ateroma.gif>. Acesso em: 20 maio 2020. TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 153 FIGURA 21 – ADERÊNCIA DE PLACA ATEROSCLERÓTICA NA ÍNTIMA DA ARTÉRIA Descrição: imagens em vermelho trazem o significado de hemácias, já a imagem em destaque na cor amarela, se traduzem em placas de ateroma, impedindo a passagem do sangue arterial, dando assim a origem ao IAM. FONTE: <https://www.bancodasaude.com/cdn/press/0000000005886.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. O diagnóstico de IAM, até recentemente, era feito com base na recomendação da Organização Mundial da Saúde citado por Santos et al. (2018), segundo a qual a presença de pelo menos dois dos três critérios a seguir descritos estabeleceria o diagnóstico: • história clínica de desconforto precordial sugestivo de isquemia; • alterações compatíveis em traçados seriados de ECG; • aumento enzimático de pelo menos duas vezes em relação ao valor normal. Atualmente, segundo Piegas et al. (2015), o diagnóstico de infarto agudo do miocárdio com ou sem elevação do segmento ST é realizado sempre que ocorrem curva típica (aumento e diminuição) nos marcadores bioquímicos de necrose miocárdica, preferencialmente troponina e CKMB massa, acompanhada pelo menos um dos seguintes critérios: • sintomas compatíveis com isquemia; • desenvolvimento de ondas Q patológicas no ECG; • alterações no ECG indicativos de sofrimento miocárdico, sendo que a presença da elevação dos segmentos ST faz o diagnóstico do IAM, foco desse tópico. Em virtude dos processos obtidos no tratamento do IAM, a mortalidade hospitalar nessa entidade vem sofrendo progressiva queda desde a década de 1960, inicialmente, por conta da implementação das Unidades Coronárias, que propiciou melhor controle das arritmias potencialmente fatais e, mais tarde, com o desenvolvimento dos métodos terapêuticos de recanalização/reperfusão coronária, fundamentalmente a ácido acetilsalicílico, terapia fibrinolítica e intervenção coronária percutânea (ICP) primária (Tabela 2) (OUCHI et al., 2017). 154 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II TABELA 2 – MORTALIDADE HOSPITALAR POR IAM Pré-unidade coronariana Unidade coronariana Recanalização química ou mecânica 20% – 30% 15% 6% – 10% FONTE: O autor 3.1 ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA A Doença Arterial Coronária (DAC), embora seja uma doença multifatorial, em uma visão fisiopatológica mais atual, baseia-se no processo inflamatório, presente em todas as fases de aterogênese (Formação de lesões ateromatosas ou de ateromas nas paredes arteriais), desde a formação da placa até a sua instabilização. Processos patológicos como tabagismo, diabetes, hipertensão arterial e dislipidemia, entre outros, podem lesar o endotélio, levando à disfunção, promovendo alterações de suas propriedades homeostáticas normais. Surge, então, o endotélio propício para o recrutamento de células inflamatórias circulantes, aprisionamento de LDL no espaço subendotelial e formação de trombos, que reduzem importantemente produção de substâncias vasodilatadoras (especialmente óxido nítrico) e aumenta também, de modo marcante, a produção de substâncias vasoconstritoras (PESARO; SERRANO JUNIOR.; NICOLAU, 2002; ESCOSTEGUY et al., 2002; OUCHI et al., 2017). A placa aterosclerótica em sua fase mais tardia apresenta, além de células, dois componentes estruturais distintos: um núcleo lipídico pouco denso e altamente trombogênico, e uma capa fibrosa (componente fibroso) que, quanto mais espessa, menos propensa para rotura. Além das características clássicas de vulnerabilidade da placa, variáveis anatômicas e hemodinâmicas, assim como a localização do ateroma e a força de cisalhamento, participam da estabilização dela. Após a rotura da capa fibrosa, mecanismo responsável pelo aparecimento de dois terços dos IAM, ocorre a exposição e contato do material intraplaca com a corrente sanguínea. Consequentemente, ocorre trombose arterial. Já na ocorrência de erosão da placa ocorre apenas denudação endotelial, isto é, o desenvolvimento do trombo que se dá pelo contato dos elementos sanguíneos com a superfície dela (Quadro 12) (PESARO; SERRANO JUNIOR.; NICOLAU, 2002; ESCOSTEGUY et al., 2002). TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 155 QUADRO 12 – COMPOSIÇÃO HISTOLÓGICA DA PLACA DE ATEROMA VULNERÁVEL Núcleo lipídico grande Densidade de células musculares lisas reduzidasCapa fibrosa fina Aumento da atividade e densidade de macrófagos Neovascularização aumentada Aumento da atividade e densidade de linfócitos T Conteúdo de colágeno reduzido Aumento de atividade e número de mastócitos FONTE: O autor Segundo os autores supracitados, a intensidade da resposta trombótica à rotura/erosão depende da extensão da rotura (ação de romper, de quebrar; em que há rompimento), do conteúdo do material intraplaca, do grau de estenose e do grau de irregularidade da superfície da placa, e balanço dos fatores trombogênicos vs trombolíticos no momento da instabilização. Por outro lado, o tipo de síndrome isquêmica miocárdica instável desenvolvida pelo paciente (com ou sem elevação do segmento ST) dependerá da velocidade da ocorrência e duração da trombose arterial, do grau de obstrução gerado (total ou parcial) e da presença ou não de circulação colateral. 3.2 ACHADOS CLÍNICOS E/OU SINAIS CLÍNICOS Classicamente recomenda-se incluir a possibilidade de IAM no diagnóstico diferencial de todos os pacientes que apresentam dor acima do umbigo, principalmente as de forte intensidade. As características clássicas de dor torácica, no IAM no entendimento de Ouchi et al., (2017), na maioria das vezes, a vítima leva a mão no peito ou na região epigástrica e apresenta as seguintes características: • tipo: em aperto, opressiva, queimação, esmagadora e asfixiante; • localização: retroesternal, epigástrica ou torácica difusa (à direita e/ou à esquerda); • irradiação: membro superior esquerdo (aspecto ulnar) ou ambos os membros superiores, ombros, pescoço, mandíbula, região interescapular ou epigástrio; • fatores concomitantes: náusea, vômitos, sudorese, dispneia; • fatores desencadeantes: estresse emocional, esforço físico moderado ou intenso. não é incomum a ocorrência de repouso. 156 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II FIGURA 22 – PONTOS DE DOR SUGESTIVOS DE SOFRIMENTO CARDÍACO FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/d7/f4/41/d7f4418e2c5a8f6ed15cc80e1688f9e1.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. Para Santos et al. (2018) e Oliveira e Villela (2018), concomitantemente ou não com o quadro álgico, outros sinais/sintomas podem se desenvolver, sendo os mais comuns: dispneia, estado confusional, desconforto gastrintestinal, síncope e sinais e/os sintomas de acidente vascular encefálico. O aparecimento desses chamados equivalentes isquêmicos e outros sintomas atípicos é mais comum em idosos, diabéticos, mulheres e portadores de insuficiência cardíaca. Os achados do exame físico geralmente são inespecíficos para o diagnóstico de IAM, porém podem fornecer dados prognósticos e direcionar o examinador para possíveis diagnósticos diferenciais. Os principais focos de atenção no exame físico inicial do paciente com IAM são: • vias aéreas, respiração e circulação; • sinais vitais; • presença de estase jugular (jugulares túrgicas/dilatadas); • presença de estertores crepitantes; • presença de terceira bulha; • presença de bradicardia/taquicardia; • piora ou surgimento de sopro mitral; • assimetria ou ausência de pulsos; • sinais de choque; • sinais sugestivos de acidente vascular encefálico. TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 157 3.3 EXAMES COMPLEMENTARES Quanto à utilização de exames complementares, elencaremos a seguir alguns exames mais comuns e utilizados rotineiramente no meio clínico, quando a equipe se depara com uma vítima com relato de precordialgia na unidade de emergência, conforme descreve Santos et al. (2018): • Eletrocardiograma (ECG): exame simples e de baixo custo, deve ser realizado idealmente em até 10 minutos após a chegada do paciente à emergência (Figura 23). Fornece informações diagnósticas, prognósticas e auxilia na decisão de conduta a serem aplicadas. A presença de supradesnível do segmento ST ou bloqueio do ramo esquerdo novo e supostamente novo, em pacientes com até 12 horas de evolução do quadro clínico, indica o uso imediato de terapêutica de recanalização (fibrinolítico/angioplastia primária), desde que não exista contraindicação. Em pacientes com sintomas sugestivos, a elevação do segmento ST no primeiro traçado tem, especificamente, de 91% e sensibilidade de 46% para diagnóstico de IAM; esses percentuais aumentam importantemente com traçados adicionais. O ECG deve ser realizado antes e após qualquer método de recanalização, de 12/12 horas nas primeiras 24 horas e, a partir daí, uma vez ao dia, durante o período de internação. Traçados adicionais devem ser feitos sempre que necessários. FIGURA 23 – PACIENTE POSICIONADO PARA REALIZAÇÃO DE ELETROCARDIOGRAMA FONTE: <https://www.medicalequipment-msl.com/upload/img/20180404/2018040415223 75722.jpg>. Acesso em: 20 maio 2020. 158 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II • Marcadores bioquímicos de necrose miocárdica: a Creatinofosfoquinase fração MB (CKBM) massa é um marcador de eleição no acompanhamento dos pacientes com infarto agudo do miocárdio. É detectada no sangue periférico, a partir da terceira ou quarta hora de evolução, devendo ser coletada no momento da chegada do paciente, de 8/8 horas até o pico e, a partir daí, de 12/12 horas até normalização. Novas dosagens devem ser solicitadas sempre que houver suspeita de novo quadro isquêmico. • Eletrólitos, glicemia, ureia, creatinina, hemograma, coagulograma e perfil lipídico devem ser dosados logo após a chegada do paciente ao hospital. Com exceção do perfil lipídico, dosado apenas uma vez, os outros exames serão repetidos de acordo com evolução do paciente. • Raio X de tórax e ecocardiograma (preferencialmente transesofágico): devem ser solicitados de forma emergencial, caso haja suspeita de dissecção aguda da aorta. Ecocardiograma transtorácico deve ser realizado rotineiramente pelo menos nas primeiras 24 horas para análise da área comprometida e função ventricular, e a qualquer momento no caso de estabilização súbita do quadro clínico ou no aparecimento de novos sopros cardíacos. • Estudo hemodinâmico (pacientes não submetidos à ICP primária): é indicado rotineiramente nos pacientes com disfunção ventricular e/ou com isquemia residual espontânea ou detectada após testes provocadores e/ou com complicações mecânicas, sendo opcional em pacientes de baixo risco se a indicação foi eletiva sugere-se realizá-lo entre 48 e 72 horas, a partir do início dos sintomas. • Ergometria convencional, cintilografia miocárdica ou ecocardiograma com estresse farmacológico: em pacientes de baixo risco, estáveis em que se opta por estratificação não invasiva. Qualquer dos testes listados, principalmente os de estresse farmacológico, podem ser realizados a partir do 3° ou 4° dia devolução. 3.4 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Diversas doenças cardíacas e não cardíacas podem causar dor precordial (Quadro 13), sendo a doença arterial coronária (nas suas diversas apresentações), de longe, a mais frequente causa cardíaca desse sintoma. Como cursa com alta morbidade e mortalidade, deve ser confirmada ou afastada o mais rapidamente possível. O diagnóstico diferencial mais importante a ser feito em pacientes com suspeita de IAM é a dissecção aguda da aorta, pois quando não detectada é tratada adequadamente, a presença apresenta a mortalidade de 1% a 2% por hora, nas primeiras 24 horas a partir do surgimento dos sintomas (SANTOS et al., 2018). TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 159 QUADRO 13 – DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL NA DOR TORÁCICA Cardiovasculares Não cardiovasculares Angina instável Pneumonia com pleurisia IAM sem elevação de ST Pneumotórax IAM com elevação de ST Distúrbios musculoesqueléticos Dissecção aguda de aorta Herpes zóster Pericardite Refluxo/espasmo esofágico Embolia pulmonar Ulcera péptica Miocardite Doença da vesícula biliar Estenose aórtica Transtornos psiquiátricos FONTE: O autor 3.5 TRATAMENTO Desde o final da década de 1970 e início de 1980, sabe-se que, quanto mais tempo se passa para recanalização, a partir do início dos sintomas, menos evidentes são osbenefícios dela. Daí, o conceito de que “tempo é músculo” e, portanto, a terapia de recanalização, quando indicada deve ser iniciada o mais precocemente possível (OUCHI et al., 2017; SANTOS et al., 2018). Os mesmos autores indicam alguns cuidados adicionais, os quais devem ser aplicados ainda em ambientes extra-hospitalar, conforme descritos a seguir: • Medidas gerais: repouso absoluto; jejum até segunda ordem de líquidos e de sólidos, oxigênio nasal (se disponível mesmo em ambiente extra-hospitalar) por até 3 horas ou por tempo maior caso a saturação esteja < 92%; acesso venoso calibroso e preferencialmente bilateralmente (segurança potencializada); analgesia com morfina (2 a 4 mg diluídos a cada 5 minutos até, no máximo, 25mg – associado à monitorização de sinais vitais como pressão arterial e nível de consciência); monitorização eletrocardiográfica contínua. • Ácido acetilsalicílico (ASS): 200 – 300 mg (macerado – mastigado pela vítima) o mais precocemente possível (até mesmo antes do ECG em pacientes com sintomas sugestivos de coronariopatia aguda), seguido de 200 mg/dia via oral durante a internação e de 100mg diários indefinidamente. • Terapias de recanalização (Quadro 14): angiocoronariografia (ICP) primária, é o método de recanalização ideal no IAM com elevação de ST, e deve ser realizada, idealmente em até 90 minutos após a chegada do paciente ao hospital. Terapia fibrinolítica (Quadros 15, 16, 17 e 18) deve ser implementada nos centros que não dispõe de hemodinâmica, principalmente nos infartos com até 3 horas de evolução ou se ocorrer demora maior que 90 minutos para início da ICP primária. Dentre os fibrinolíticos disponíveis em nosso meio, em termos de eficácia o t-PA e o TNK-PA são similares, e ambos são superiores a estreptoquinase. 160 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II • Heparinas: heparina não fracionada, é utilizada rotineiramente na sala de hemodinâmica quando ocorre a realização de angioplastia primária. Nos pacientes com IAM submetidos à terapia fibrinolítica, o uso rotineiro da heparina deve ser instituído por ao menos 48 horas. No caso da heparina não fracionada, a dose recomendada é de 60 U/Kg/h EV em bolus máximo de 4.000 U e infusão contínua inicial de 12 U/Kg/h com o objetivo de manter TTPa entre 1,5 e 2,0 basal (50-70”). QUADRO 14 – CRITÉRIOS PARA INDICAÇÃO DE RECANALIZAÇÃO CORONÁRIA Clínico: dor sugestiva de isquemia miocárdica aguda com até 12 horas de evolução, não responsiva ao uso de nitrato. Não é obrigatória a presença de dor no momento da avaliação. Eletrocardiográfico: supradesnível do segmento ST > 1 mm em pelo menos duas derivações de mesma parede ou Bloqueio de Ramo Esquerdo (BRE) novo ou presumivelmente novo. FONTE: O autor QUADRO 15 – TERAPIA FIBRINOLÍTICA Tipos e modos de utilização EQ: 1.500.000 unidades em soro fisiológico (SF) 0,9%, 100 ml EV em 30 a 60 minutos. r-tPA: 15 mg em bolo EV, seguido de 0,75 mg/kg (máximo de 50 mg) em 30 minutos e 0,50 mg/kg (máximo de 35 mg) em 60 minutos (não exceder 100 mg). TKN-tPA: dose em bolo único EV: 30 mg se <60 kg; 35 mg se entre 60 e <70 kg; 40 mg se entre 70 e < 90kg; 50 mg se > 90 kg. FONTE: O autor QUADRO 16 – TERAPIA FIBRINOLÍTICA Contraindicações absolutas Qualquer hemorragia cerebral prévia. Lesão vascular cerebral conhecida. Neoplasia intracraniana (primária ou metastática). AVC isquêmico < 3 meses (exceto < 3 horas). Traumatismo craniano ou facial significativo < 3 meses. Sangramento interno ativo (exceto menstruação). Suspeita de dissecção da aorta. Doença de coagulação. Redução da expectativa de vida (coma, sepse, neoplasia). FONTE: O autor TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 161 QUADRO 17 – TERAPIA FIBRINOLÍTICA Contraindicações relativas História de HAS crônica grave e não controlada. Pás > 180/PAD > 110 mmHg, apesar do alívio da dor. AVC isquêmico > 3 meses e outras doenças cerebrais não citadas. Uso de anticoagulantes dicumarinicos. Trauma recente ou cirurgia de grande porte nas últimas 3 semanas. Ressuscitação cardiopulmonar traumática ou prolongada (> 10 minutos). Punção vascular não compressível. Sangramento interno recente (2 a 4 semanas). Úlcera péptica ativa. Para estreptoquinase (EQ) – uso prévio de EQ (>5 dias) ou reação alérgica prévia. Gravidez. FONTE: O autor QUADRO 18 – QUANDO NÃO USAR OS MEDICAMENTOS ASS: úlcera péptica ativa; intolerância comprovada ao medicamento; sangramento digestivo recente. β-bloqueador: DPOC e asma; bradicardias com FC < 60 bcpm principalmente no IAM inferior; BAV 2° e 3° graus; PAS < 90 mmHg. Inibidor de ECA/bloqueador de AT1: gravidez; hipotensão (PAS < 90 mmHg ou queda > 30 mmHg em relação ao nível basal). Diltiazem: bloqueio AV de 2° a 3° graus; bradicardia < 55 bcpm; não usar cronicamente na disfunção ventricular. Nitrato: hipotensão (PAS < 90 mmHg ou queda > 30 mmHg em relação ao nível basal; comprometimento de ventrículo direito. FONTE: O autor 4 CARDIOLOGIA INTERVENCIONISTA EM EMERGÊNCIAS CARDIOVASCULARES A angioplastia coronária, segundo Armendaris et al. (2008) e Piva et al. (2014), foi introduzida na prática clínica no final da década de 1970, inicialmente proposta para indivíduos estáveis com perfil de risco relativamente baixo. No entanto, já na década de 1980, surgiram os primeiros estudos indicando o potencial de angioplastia coronária para o tratamento de pacientes com coronariopatia aguda, tanto angina instável e angina pós-infarto refratária, quanto infarto agudo do miocárdio. O desenvolvimento de técnicas de intervenção avançadas e de terapias medicamentosas adjuvantes eficazes, minimizou bastante o risco do procedimento nessa população. Atualmente, a intervenção percutânea coronária, é utilizada como método terapêutico de escolha em boa parte dos pacientes admitidos com síndromes coronarianas agudas ou sem elevação do segmento ST. 162 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II FIGURA 24 – COLOCAÇÃO DE STENT FONTE: <http://www.icor.com.br/exames-cardiologicos/angioplastia-coronaria-o-que-e-quan- do-deve-ser-realizada/>. Acesso em: 20 maio 2020. Segundo os autores supracitados, há basicamente duas formas competitivas e complementares de abrir a artéria: a reperfusão química (fibrinólise) e a reperfusão mecânica (revascularização percutânea). Esta última será tratada neste tópico. Há quatro modalidades de intervenção coronária percutânea realizadas no paciente com IAM com supra de ST: • Angioplastia primária, angioplastia facilitada, angioplastia de salvamento (ou resgate) e angioplastia pós-fibrinólise ou em pacientes que não receberam qualquer terapia primária de perfusão (Quadro 19). 4.1 ANGIOPLASTIA PRIMÁRIA O tratamento preferencial é a revascularização percutânea de emergência, por meio da angioplastia primária da artéria relacionada ao infarto, realizada rapidamente (em menos de 90 minutos do primeiro contato médico até a abertura da artéria com balão) por operadores experientes, em serviços de grande volume, pois, em relação aos fibrinolíticos, reduz mortalidade, reinfarto não fatal e acidente vascular cerebral. Além disso, a angioplastia é tratamento apropriado para mais de 90% dos pacientes, permite a obtenção de fluxo coronariano 70% a 90%, conforme destaca Piva et al. (2014). Praticamente elimina o risco de hemorragia intracraniana e representa o tratamento de escolha para pacientes de alto risco, como aqueles em choque cardiogênico, insuficiência cardíaca congestiva grave, instabilidade hemodinâmica e elétrica. TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 163 QUADRO 19 – MODALIDADE DE ANGIOPLASTIA CORONÁRIA PERCUTÂNEA NO IAM COM SUPRA DE ST Angioplastia primária Intervenção mecânica imediata (emergência) para reperfusão miocárdica em tempo hábil. Angioplastia secundária Intervenção mecânica de emergência, após administração de drogas (fibriolíticos e/ou inibidores da glicoproteína) na tentativa de antecipar a reperfusão miocárdica (quimicamente), enquanto o paciente aguarda a angioplastia de emergência.Angioplastia de salvamento Intervenção mecânica emergência em pacientes selecionados inicialmente para terapia de reperfusão com fibrinolíticos e que evoluíram com critérios de falha na reperfusão, diagnosticada precocemente. Angioplastia pós- fibrinolítico ou em pacientes sem terapia de reperfusão primária. Intervenção mecânica de emergência ou programada em pacientes submetidos inicialmente a terapia de reperfusão com fibrinolíticos ou naqueles que não receberam qualquer terapia primária de reperfusão. Essa estratégia é realizada fora do contexto da angioplastia de salvamento e é habitualmente motivada por choque cardiogênico, instabilidade clínica, isquemia recorrente ou para estratificação invasiva de risco precocemente após o infarto. FONTE: O autor 4.2 ANGIOPLASTIA FACILITADA A angioplastia facilitada surgiu da ideia de combinar a disponibilidade e a rapidez de reperfusão química com a eficiência da reperfusão mecânica, a fim de maximizar os resultados do tratamento. Precocemente, administra- se um agente farmacológico (fibrinolítico, inibidor da glicoproteína IIb/IIIa ou ambos) na tentativa de restaurar rapidamente o fluxo coronariano e a perfusão miocárdica, enquanto o paciente aguarda a realização de emergência da cineangiocoronariografia com provável angioplastia de artéria relacionada ao infarto (lesão culpada), conforme alguns critérios descritos na Quadro 20 (ARMENDARIS et al., 2008). 164 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II QUADRO 20 – SELEÇÃO DA ESTRATÉGIA DE REPERFUSÃO NO IAM COM SUPRA DE ST Características importantes no processo de seleção da melhor estratégia • tempo do início os sintomas; • gravidade do infarto; • risco de sangramento; • tempo estimado até abertura mecânica da artéria. Favorecem fibrinólise • estratégia invasiva não é possível: o dificuldade para obter acesso vascular. • apresentação precoce: o menos de 3 horas do início dos sintomas sem angioplastia disponível em tempo real. • atraso para estratégia invasiva: o transporte prolongado; o tempo ara abertura da artéria prolongada (> 90 min) ou atraso estimado > 60 min. entre a fibrinólise e a abertura mecânica da artéria; o baixo risco de sangramento. Favorecem a estratégia invasiva • disponibilidade para angioplastia em tempo ideal com operador experiente e retaguarda de cirurgia cardíaca; • infarto do miocárdio de alto risco: o choque cardiogênico; o congestão pulmonar; o IAM anterior extenso; o IAM ínfero-dorsal com infarto de VD. Contraindicações para fibrinólise • alto risco de sangramento; • risco de hemorragia intracraniana; • apresentação tardia: o mais de 3h do início dos sintomas o dúvida quanto ao diagnóstico de IAM FONTE: O autor É importante destacar que falar sobre intervenções em saúde em condições cardiovasculares torna-se um grande problema, haja visto a imensa gama de informações que circundam o referido tema, ou seja, desafio mesmo para a prevenção dos primeiros ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais os quais estão intimamente ligados às pessoas com alto risco cardiovascular ou nos indivíduos com um fator de risco – como hipertensão. A intervenção, quando baseada no enfoque integral e no atendimento precoce, torna-se uma das condutas mais fiéis quanto a possibilidade de recuperação de uma vítima em potencial, dessa forma, nos aprofundamos no enfoque desse material, para que possamos melhor entender as nuances que circundam essa temática. TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 165 LEITURA COMPLEMENTAR TEMPO DE CHEGADA DO PACIENTE INFARTADO NA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA: A IMPORTÂNCIA DO RÁPIDO ATENDIMENTO Janaina Daniel Ouchia Cintia Teixeira César Augusto Góes Ribeiro Cibelli Cristina Oliveira O Infarto Agudo do Miocárdio – IAM faz parte de um grupo de doenças cardíacas causada pela diminuição ou falta de suprimento sanguíneo para uma determinada área do músculo cardíaco, devido à obstrução parcial ou total das artérias coronarianas responsáveis por irrigar o miocárdio. Esta obstrução ocorre, principalmente, pela presença de placa de ateroma na parede do vaso sanguíneo, que diminui a luz do vaso e impede a passagem do sangue, causando morte celular na musculatura cardíaca devido à falta de aporte nutritivo. O IAM também pode ser causado pela formação de trombos, êmbolos e vaso espasmo (estreitamento ou constrição súbita de uma artéria coronária). A área de infarto pode se desenvolver, rapidamente, levando de minutos a horas. À medida que as células são privadas de oxigênio, a isquemia se desenvolve, ocorre a lesão celular e a falta de oxigênio resulta em um infarto ou morte das células. A principal característica do IAM é a dor prolongada localizada na região subesternal se irradiando para o pescoço, ombro e braço esquerdo. Os sintomas clássicos do IAM são: dor no peito ou sensação de forte pressão, dor que irradia para os ombros, braço esquerdo, pescoço e maxilar, dor abdominal, falta de ar, perda temporária da consciência e sensação de morte iminente. De acordo com o Instituto Pró-cardíaco, algumas vezes há sintomas que podem ser confundidos com o de outras doenças. O que pode afetar no reconhecimento precoce do IAM levando ao retardo de atendimento. É necessário ficar atento para outros sintomas além da dor, como: o mal-estar, palidez, suor frio, que surge devido o corpo começar a retirar sangue de áreas menos importantes e, assim, enviar para o coração, sintomas como náuseas e vômitos também são bem frequentes, em determinados casos podendo levar até́ desmaios, isso devido aos mecanismos de defesa que se tem no organismo. É frequente o profissional no atendimento pré-hospitalar confundir estes sintomas com outras patologias, realizando intervenção de forma errônea, causando maiores problemas no tratamento posterior ao atendimento inicial, podendo gerar sequelas e maior tempo de internação na Unidade de Terapia Intensiva – UTI. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, as doenças isquêmicas do coração representam a maior causa de morte no Brasil e no mundo. Cerca de 70% das mortes súbitas por doenças cardíacas ocorrem fora da área hospitalar, de acordo com Franco et al. (2008), apenas 20% dos clientes com dor torácica aguda chegam ao setor de emergência antes de duas horas do início dos sintomas. A IV 166 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia aponta que a maioria das mortes por IAM acontece nas primeiras horas da manifestação da doença, sendo 40 a 65% dos casos na primeira hora e, aproximadamente, 80% nas primeiras 24 horas. Existem vários fatores que podem estar relacionados com o atraso em procurar serviço de emergência: como o não reconhecimento, por parte dos clientes como sendo um evento cardíaco, automedicação utilizada por alguns clientes, o baixo nível socioeconômico, o fator sexo feminino, as condições de transporte, negação em aceitação e pelo atendimento prévio não especializado. Um dos fatores que contribuem para a diminuição da alta mortalidade por IAM é o rápido atendimento dos pacientes, após o início dos principais sintomas. Esta condição mostra que é necessário aos profissionais de Saúde bom domínio acerca do tema, estando aptos a reconhecer, precocemente, os sinais e os sintomas do IAM, além de ter um rápido raciocínio crítico e clínico para assim tomar as decisões imediatas e corretas, relacionadas ao atendimento da vítima, visando aumentar a chance de sobrevida e minimizar os danos recorrentes de lesões ocasionadas pelo IAM. Para um atendimento adequado e eficaz ao IAM é necessário que os Serviços de Atendimento de Urgência mantenham, em seus quadros, profissionais qualificados, Programa de Treinamento e Educação Continuada em Emergências Cardiológicas, protocolo atualizado de atendimento do IAM, integração com centros terciários regionais, além de rígido sistema de controle de qualidade. O Infarto Agudo do Miocárdio – IAM ou Ataque Cardíaco, como é mais conhecido, ocorrequando há́ morte do músculo cardíaco. Esta obstrução ocorre, principalmente, pela presença de placa de ateroma na parede do vaso sanguíneo, que diminui a luz do vaso e impede a passagem do sangue causando morte celular na musculatura cardíaca devido à falta de aporte nutritivo. A aterosclerose tem seu desenvolvimento acelerado pelos chamados fatores de risco cardiovascular. Entre eles, os mais importantes são idade (Homens a partir dos 55 anos, mulheres após os 60 anos), diabetes mellitus, tabagismo, hipertensão arterial, altos níveis sanguíneos de colesterol, histórico familiar de IAM e obesidade. O Infarto Agudo do Miocárdio pode ser precedido por uma angina. Existem dois tipos de angina: estável e instável. A primeira é a forma mais comum, que ocorre em situações de esforço, como subir escadas ou fazer exercícios físicos, e desaparece com o repouso. Isso acontece porque o coração precisa de mais oxigênio, e a quantidade de sangue bombeada não é suficiente para oxigená-lo. Além de atividade física, o estresse emocional, temperaturas frias, refeições pesadas e tabagismo também podem causar esse tipo de dor. Já na angina, instável o desconforto não é amenizado com o repouso. A dor surge de forma súbita, geralmente no repouso, por um bloqueio ou redução do fluxo sanguíneo nas artérias do coração. É um sintoma perigoso, pois geralmente precede ao ataque cardíaco. O diagnóstico do IAM ocorre pelos fatores de risco anteriormente descritos, e pela detecção de alterações em exames subsidiários, como eletrocardiograma e exames de sangue capazes de detectar a morte das células musculares cardíacas. TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 167 A oclusão total de uma artéria coronária, geralmente, leva a um IAM com supra ST, enquanto a angina instável e o IAM sem supra desnível do segmento ST, geralmente, resultam de uma obstrução grave, porém não total, da artéria coronária afetada. Este processo pode ser dividido em três fases: o desenvolvimento, ao longo de muitos anos, da placa de ateroma; o evento agudo, que geralmente ocorre pela formação de um trombo no local de uma placa ateromatosa, que rompeu ou ulcerou; e o risco em longo prazo da recorrência de eventos. O Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) pode ocorrer de forma assintomática, sendo mais comum em idosos, cerca de 80% dos casos de infarto do miocárdio sintomáticos, cursam com dor. Os sintomas clássicos do IAM são: desconforto torácico localizado na região central do peito, o qual pode irradiar para as costas, mandíbula, membros superiores e dorso. A dor pode ocorrer apenas em uma ou várias dessas localizações e não necessariamente no peito. A dor de um infarto do miocárdio é semelhante à dor da angina do peito, porém costuma ser mais prolongada e não é aliviada pelo repouso. Segundo pesquisas do Instituto Procardíaco, algumas vezes há sintomas que podem ser confundidos com o de outras doenças como: Dor localizada na parte superior do abdômen, que pode ser confundida com uma indigestão, úlcera ou gastrite. Além dos sintomas descritos acima, o indivíduo pode apresentar: síncope, ansiedade, sudorese excessiva, palidez, agitação ou até uma sensação de morte iminente. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia, um em cada cinco indivíduos que sofre infarto agudo do miocárdio apresenta apenas sintomas leves ou não apresentam sintomas. Esse infarto é chamado de silencioso e poderá ser detectado algum tempo após a sua ocorrência, por eletrocardiograma de rotina. Medidas utilizadas na fase pré-hospitalar É frequente o profissional no atendimento pré-hospitalar confundir os sintomas do IAM com outras patologias, realizando intervenção de forma errônea, retardando o atendimento e diminuindo as chances de sobrevida do paciente. Conforme dados da IV Diretriz de IAM, cada vez mais tem sido salientada a importância da identificação rápida e eficiente de pacientes com isquemia miocárdica nos serviços de emergência. Para que isso ocorra é necessário que o profissional tenha domínio acerca do tema, sabendo reconhecer todos os sinais e sintomas inerentes ao IAM. Quanto maior o tempo desde o início dos sintomas até a instituição do tratamento (reperfusão química ou mecânica) maior a ocorrência de complicações, portanto o atendimento e transporte ao serviço de emergência devem ser o mais rápido possível. O coração pode perder em média um terço de seu músculo, para evitar danos maiores o ideal é que o paciente seja atendido o quanto antes. Se o atendimento ocorrer em até 60 ou 90 minutos, boa parte dessa musculatura pode ser recuperada; se demorar mais de 6 horas no atendimento, as células perdidas já não podem mais se regenerar. Depois da morte dessas células musculares, o 168 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II músculo cardíaco sofre uma cicatrização e um processo de fibrose muscular. Esse processo pode prejudicar a elasticidade do músculo, diminuindo a capacidade de bombeamento do sangue. Estudos recentes, embora não metodologicamente adequados, analisam o impacto da abordagem do IAM na fase pré-hospitalar com o uso ou não de fibrinolíticos, a realização de eletrocardiografia, o uso de aspirina ou na comparação com a abordagem intra-hospitalar. Para otimizar o tempo de atendimento e minimizar ou zerar os danos decorrentes de um infarto é necessário que a equipe de APH, desde o técnico de regulação médica até o suporte avançado (Médico, Enfermeiro e Tec. Enfermagem) estejam aptos a reconhecer os sintomas e iniciar o atendimento. Após chegada da equipe de urgência ao local e constatação do quadro de IAM por diagnóstico clinico e eletrocardiográfico (realizado em até 10 minutos), com ou sem lesão instalada, a equipe deverá prontamente iniciar o atendimento primário com a instalação do método MONABCH, lembrando que segundo a American Heart Association, o tempo porta-agulha não deverá exceder 30 minutos e o tempo porta-balão 90 minutos. QUADRO 1 – TERAPIA MEDICAMENTOSA PARA O IAM Medicação Indicação Dose Contraindicação Morfina Alivia a dor, diminui consumo de O2, sintomas congestivos e PA. 1 a 5mg em bolus EV a cada 5min. Hipotensão e/ou Bradicardia. Oxigênio Terapia de rotina em pacientes com congestão pulmonar e/ou Sat < 90%. – – Nitratos Isordil: Diminui a pré- carga, diminui consumo de O2, promove dilatação coronariana e diminui vasoespasmo. 5mg SL, repetir a dose a cada 5min até 15mg. – Nitroglicerina: Utilizada para pacientes com sintomas persistentes, congestão pulmonar e/ou hipertensão. 10 a 20mcg/min com incrementos de 5 a 10mcg a cada 5min, até alívio da dor ou PAS < 90mmHg. PAS < 90mmHg ou queda superior a 30mmHg, em relação ao nível basal. AAS Inibe ativação, degranulação e agregação plaquetária, diminuindo risco de morte. Ataque de 200mg e manutenção de 100mg. – TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 169 Beta Bloqueadores Diminui inotropismo e cronotropismo, aumenta o tempo diastólico e a perfusão coronariana, diminui consumo de O2 e diminui os sintomas isquêmicos. Na fase aguda 5mg em bolus, até dosagem máxima de 15mg e, manutenção com Propranolol 20 a 80mg VO 8/8h. DPOC ou Asma, Bradicardia com FC < 60bpm, IAM de parede inferior. Clopidogrel Inibe o ADP envolvido na agregação plaquetária. Ataque de 300mg e, manutenção de 75mg/dia. – Heparina Anticoagulante ou antitrombótico, interage com antitrombina (anticoagulante natural do organismo, capaz de inativar várias enzimas da cascata de coagulação). 1mg/kg SC 12/12h, por 2 a 5 dias. – FONTE: Adaptado de Monabch (2013) Medidas utilizadas na fase intra-hospitalar Com o advento, em 1960, das Unidades de Tratamento Intensivo e, em seguida, das Unidades Coronárias, a mortalidade de pacientes acometidos por IAM caiu, aproximadamente, para 15%, fundamentalmente por conta de melhor controle das arritmias. A partir da década de 1980, houve plena confirmação de evidências demonstradasexperimentalmente, apontando para os benefícios da recanalização da artéria coronária relacionada ao IAM, basicamente, com o uso dos fibrinolíticos e dos novos processos de intervenção percutânea. Com essa abordagem, a incidência de óbitos em pacientes com IAM atingiu os atuais 8-10%. Apesar disso, o IAM continua sendo uma causa líder de mortalidade no mundo ocidental, ocupando o primeiro lugar na lista das principais causas de mortes no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde – OMS, por conta da sua alta prevalência. O IAM sendo uma das causas, líder de mortalidade no mundo, obriga os profissionais de saúde a aprofundarem seus conhecimentos acerca do tema para uma prestação de cuidados direcionado ao problema, visando aumentar a chance de sobrevida e minimizar os danos recorrentes de lesões ocasionadas pelo IAM. Para tanto, é necessário que além do atendimento eficaz e a rápida transferência para o centro de referência pelas equipes de emergência, o paciente seja muito bem assistido pela equipe de terapia intensiva durante todo o período de tratamento, a maioria dos reinfartos ocorre nas primeiras 24 horas. Nessa fase inicial de internação, o paciente deverá ser monitorizado continuamente. O uso de O2 contínuo e drogas que reduzam a dor causada pela baixa concentração de O2 circulante deverá ser mantido para evitar o sofrimento do músculo cardíaco devido a diminuição da quantidade de sangue. 170 UNIDADE 2 — EVENTOS AGUDOS II O tempo mínimo de internação do paciente na UTI deverá ser de, pelo menos, 72 horas, pois há a necessidade de observação dos parâmetros hemodinâmicos continuamente devido às circunstâncias de complicações que possam vir a ocorrer. Durante esse período de internação na Unidade de Terapia Intensiva, o paciente deverá ser submetido a exames de ECG e dosagens enzimáticas seriadas para o diagnóstico conclusivo de IAM, após deverá ser discutido, pela equipe, o melhor tratamento de reperfusão coronariana a ser adotado. A reperfusão poderá ser realizada, de forma mecânica ou através da administração de drogas, que dissolvam o coágulo, também chamado de agentes trombolíticos, estas medicações são indicadas nos casos em que o paciente não se encontrar em condições de ser submetido a uma angioplastia imediata. Nos casos em que não haja contraindicação, a angioplastia poderá ser realizada. Assim, o paciente será encaminhado ao setor de hemodinâmica para fazer um cateterismo cardíaco. Será introduzido um cateter por um vaso sanguíneo de grande calibre em direção ao coração. O contraste é injetado para localizar o bloqueio na artéria coronária, concluindo o diagnóstico preciso da lesão e sua localização. Logo que se detecta a localização da lesão, é realizada a angioplastia na tentativa de desbloquear a artéria coronária. Durante a angioplastia é introduzido um cateter através do bloqueio e, então, o balão é insuflado, o “stent” (pequeno tubo expansível) comprime o coágulo e a placa de ateroma mantém a artéria aberta permitindo novamente a passagem de sangue pela luz do vaso. Existe também a opção de realizar cirurgias, nas quais serão feitas pontes de veia safena ou mamária criando uma via alternativa de passagem do sangue para irrigar o miocárdio. Após o período de 72 horas de internação na UTI, em que não tenha ocorrido nenhuma complicação pós angioplastia ou cirurgia para colocação das pontes, o paciente poderá ser transferido para uma unidade semi-intensiva ou leito privativo, limitando o número de visitas e o esforço físico do paciente. Por volta do quarto dia de recuperação, o paciente já poderá realizar atividades de leve impacto, por tempos breves, como sentar em poltrona, no entanto deve estar em constante monitoramento para que não haja alteração clínica devido esta atividade física. A alimentação neste período também deverá receber uma atenção especial, a fim de evitar alimentos que contribuam para a ocorrência de um novo IAM. Todos os pacientes acometidos por IAM correm grande risco de recorrência da doença, assim sendo, é necessário que seja incluído no tratamento diário algumas medicações que irão minimizar os riscos, além de ajudar a tratar os episódios de dor. Após a alta, o paciente deverá adotar um estilo de vida saudável, incluindo em suas atividades diárias, as atividades físicas moderadas TÓPICO 3 — PRECORDIALGIA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 171 de preferência as aeróbicas como caminhadas, natação e ciclismo em combinação com alimentação saudável. A frequência é de três a cinco vezes por semana, sempre acompanhados de um período inicial de aquecimento e um período de relaxamento após cada exercício. Os indivíduos com doenças mais graves devem se exercitar, sob supervisão médica. Os distúrbios emocionais são comuns nos pacientes acometidos pelo IAM, sendo indicado como tratamento o acompanhamento psicológico com o objetivo de diminuir os níveis de estresse, que é um fator de risco para a recorrência do IAM. Conclusão Constatou-se que a tomada de decisão imediata e o encaminhamento para o centro de referência para melhor diagnóstico e tratamento precoce do IAM é a melhor forma de minimizar ou zerar os danos decorrentes de um infarto ao paciente. Para tanto, é necessário que sejam implantados programas de educação continuada, tanto nos serviços móveis de Urgências e Emergências, quanto nos centros de emergências cardiológicas. Apesar dos avanços terapêuticos, das últimas décadas, o IAM continua sendo causa líder de mortalidade no Mundo, pela alta prevalência e pela mortalidade pré-hospitalar, isto porque grande parte dos pacientes não recebe o tratamento adequado. A introdução do tratamento de reperfusão por fibrinolíticos e a inserção da recanalização, por meio de angioplastia e cirurgia de ponte safena e mamária foi de essencial importância para reduzir a mortalidade e as complicações relacionadas à doença. Entretanto, apenas os pacientes, atendidos precocemente, são os que podem se beneficiar das técnicas terapêuticas hoje disponíveis. Portanto, o prognóstico dos pacientes depende, primordialmente, da agilidade por parte do paciente em acionar o serviço de emergência e da brevidade do serviço em reconhecer o evento e prestar o atendimento com celeridade e eficiência, além de encaminhar o mais rápido possível ao centro de referência mais próximo para inicialização do tratamento intensivo. FONTE: OUCHIA, J. D. et al. Tempo de chegada do paciente infartado na unidade de terapia in- tensiva: a importância do rápido atendimento. Ensaios e Ciência: Cienc. Biol. Agrar. Saúde, v. 21, n. 2, p. 92-97, 2017. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/260/26053412007.pdf. Acesso em: 21 maio 2020. 172 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • O sangue está contido em um sistema fechado, nominado como “Sistema Circulatório”, que permite a sua circulação no interior dos vasos sanguíneos, os quais são representados pelas veias, capilares e artérias. • O sangue é um tecido conjuntivo viscoso e denso com uma temperatura aproximada de 38 oC e um pH que varia entre 7,35 a 7,45. O sangue está constituído por uma parte líquida denominada plasma (55%) e uma parte celular, os elementos figurados (45%). • O plasma é a parte acelular do sangue constituído por 90% de água, 8% de proteínas, 1% de sais inorgânicos e o restante formado por compostos orgânicos diversos. • O coração é o órgão central do sistema cardiovascular, responsável pelo bombeamento de todo o sangue pelo corpo. Pesa em média 250 g nas mulheres e 300 g nos homens. É um órgão muscular oco, que funciona como uma bomba contrátil-propulsora, situado na cavidade torácica, posteriormente ao osso esterno, superior ao músculo diafragma, no espaço compreendido entre os dois pulmões e a pleura, denominado mediastino. • O principal mecanismo patogenético de instabilização da placa aterosclerótica, nas síndromes isquêmicas miocárdicas instáveis é a ocorrência da rotura/ erosão da placa aterosclerótica,levando as seguintes complicações: ativação inflamatória, aumento de agregação plaquetária, vasoconstrição e trombose intraluminal da artéria coronária. • Processos patológicos como tabagismo, diabetes, hipertensão arterial e dislipidemia, entre outros, podem lesar o endotélio, levando à disfunção, promovendo alterações de suas propriedades homeostáticas normais. Surge, então, o endotélio propício para o recrutamento de células inflamatórias circulantes, aprisionamento de LDL no espaço subendotelial e formação de trombos, que reduzem importantemente produção de substâncias vasodilatadoras. • Classicamente, recomenda-se incluir a possibilidade de IAM no diagnóstico diferencial de todos os pacientes que apresentam dor acima do umbigo, principalmente as de forte intensidade. Na maioria das vezes, a vítima leva a mão no peito ou na região epigástrica e apresenta as seguintes características: tipo: em aperto, opressiva, queimação, esmagadora e asfixiante. Localização: 173 Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. retroesternal, epigástrica ou torácica difusa (à direita e/ou à esquerda). Irradiação: membro superior esquerdo (aspecto ulnar) ou ambos os membros superiores, ombros, pescoço, mandíbula, região interescapular ou epigástrio. Fatores concomitantes: náusea, vômitos, sudorese, dispneia. Fatores desencadeantes: estresse emocional, esforço físico moderado ou intenso. Não é incomum a ocorrência de repouso. • Os principais focos de atenção no exame físico inicial do paciente com IAM são: vias aéreas, respiração e circulação; sinais vitais; presença de estase jugular (jugulares túrgicas/dilatadas); presença de estertores crepitantes; presença de terceira bulha; presença de bradicardia/taquicardia; piora ou surgimento de sopro mitral; assimetria ou ausência de pulsos; sinais de choque; sinais sugestivos de acidente vascular encefálico. CHAMADA 174 1 Relacionado ao paciente e/ou vítima de IAM, quais os principais focos que o prestador dos primeiros cuidados deve se ater? 2 Descreva o principal fator e/ou mecanismo patogenético presente no desenvolvimento o IAM. 3 Ao se pensar em alternativa de tratamento para o paciente /ou vítima de IAM, qual se torna a mais adequada? 4 Quais são as manifestações e/ou apresentações mais comuns expressadas por uma vítima de IAM agudo? AUTOATIVIDADE 175 REFERÊNCIAS AGUILAR, S.; ALVES, M. J.; SERRANO, F. Gravidez e epilepsia. Acta Obstet Ginecol Port, Coimbra, v. 10, n. 2, p. 120-129, jun. 2016. ALVARES, S. Síncope em idade pediátrica: avaliação e estratificação de risco. Nascer e Crescer, Porto, v. 24, n. 2, p. 53-55, jun. 2015. ARMENDARIS, M. K. et al. Incidência de complicações vasculares em pacientes submetidos a angioplastia coronariana transluminal percutânea por via arterial transradial e transfemoral. Acta Paul. Enferm., São Paulo, v. 21, n. 1, p. 107-111, mar. 2008. AZEVEDO, M. C. S.; BARBISAN, J. N.; SILVA, E. O. A. A predisposição genética na síncope vasovagal. Rev. Assoc. Med. Bras., São Paulo, v. 55, n. 1, p. 19-21, 2009. BENDITT, D. G. Síncope: revisión diagnóstica y terapéutica. Rev.Urug.Cardiol., Montevideo, v. 26, n. 1, p. 38-54, mar. 2011. BRASIL. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192: serviço de atendimento móvel de urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: http:// bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_suporte_basico_vida.pdf. Acesso em: 31 ago. 2019. DEVESA, L. M. A importância da comunicação no contexto organizacional: a comunicação organizacional como ferramenta de desenvolvimento e eficácia de uma organização. 2016. Dissertação (Mestrado em Ciências Empresariais) – Instituto Politécnico de Setúbal, Portugal. Disponível em: https://comum. rcaap.pt/bitstream/10400.26/17915/1/Laura%20Devesa_140327005%20 Ci%c3%aancias%20Empresariais.pdf. Acesso em: 30 out. 2019. ESCOSTEGUY, C. C. et al. O Sistema de Informações Hospitalares e a assistência ao infarto agudo do miocárdio. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 36, n. 4, p. 491-499, ago. 2002. FERNANDES, M. J. da S. Epilepsia do lobo temporal: mecanismos e perspectivas. Estud. Av., São Paulo, v. 27, n. 77, p. 85-98, 2013. FONSECA, A. S. et al. Enfermagem de emergência. Rio de janeiro: Elsevier, 2011. HAYASHIDA, K. Y. et al. A tomada de decisão da equipe de enfermagem após revitalização do modelo compartilhado de gestão. Texto Contexto - Enferm., Florianópolis, v. 23, n. 2, p. 286-293, 2014. 176 HOPKER, C. del C. et al. A pessoa com epilepsia: percepções acerca da doença e implicações na qualidade de vida. CoDAS, São Paulo, v. 29, n. 1, e20150236, 2017. HALL, J. E.; GUYTON, A. C. Guyton e Hall tratado de fisiologia médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. LACERDA, G. C. et al. Incidência de complicações relacionadas à massagem do seio carotídeo em 502 pacientes ambulatoriais. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo, v. 92, n. 2, p. 82-87, fev. 2009. LADEIRA, R. M.; BARRETO, S. M. Fatores associados ao uso de serviço de atenção pré-hospitalar por vítimas de acidentes de trânsito. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 24, n. 2, p. 287-294, fev. 2008. LOTUFO, P. A. et al. Prevalência de angina do peito pelo questionário de Rose na população brasileira: análise da Pesquisa Nacional de Saúde, 2013. Revista Brasileira de Epidemiologia, [s.l.], v. 18, n. 2, p.123-131, dez. 2015. MAIA, C.; MOREIRA, A. R.; MARTINS, C. Epilepsia em idade pediátrica: casuística da consulta de pediatria de um hospital distrital. Nascer e Crescer, Porto, v. 26, n. 2, p. 109-113, jun. 2017. MALVESTIO, M. A. A.; SOUSA, R. M. C. de. Indicadores clínicos e pré- hospitalares de sobrevivência no trauma fechado: uma análise multivariada. Rev. esc. enferm. USP, São Paulo, v. 44, n. 2, p. 352-359, jun. 2010. MARTINI, F. H.; TIMMONS, M. J.; TALLITSCH, R. B. Anatomia humana. Artmed: Porto Alegre, 2009. MOREIRA, S. R. G. Epilepsia: concepção histórica, aspectos conceituais, diagnóstico e tratamento. Mental, Barbacena, v. 2, n. 3, p. 107-122, nov. 2004. O’DWYER, G. et al. O processo de implantação do serviço de atendimento móvel de urgência no Brasil: estratégias de ação e dimensões estruturais. Cadernos de Saúde Pública, [s.l.], v. 33, n. 7, p.1-14, 7 ago. 2017. OLIVEIRA, G. M. M. de; VILLELA, P. B. A importância da fase pré-hospitalar no infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo, v. 111, n. 4, p. 594-595, out. 2018. OUCHI, J. D. et al. Tempo de chegada do paciente infartado na unidade de terapia intensiva: a importância do rápido atendimento. Ensaios Cienc., Cienc. Biol. Agrar. Saúde, v. 21, n. 2, p. 92-97, 2017. 177 PESARO, A. E. P.; SERRANO JUNIOR, C. V.; NICOLAU, J. C. Infarto agudo do miocárdio: síndrome coronariana aguda com supradesnível do segmento ST. Rev. Assoc. Med. Bras., São Paulo, v. 50, n. 2, p. 214-220, abr. 2004. PHTLS. Atendimento Pré-Hospitalizado ao Traumatizado. 9. ed. Jones & Bartlett Learning. 2018. PIEGAS, L. S. et al. V Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre tratamento do infarto agudo do miocárdio com supradesnível do segmento ST. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo, v. 105, n. 2, supl. 1, p. 1-121, ago. 2015. PIVA, C. dal. et al. Desconfortos relatados pelos pacientes após cateterismo cardíaco pelas vias femoral ou radial. Rev. Bras. Cardiol. Invasiva, São Paulo, v. 22, n. 1, p. 36-40, mar. 2014. ROESSLE, T. R. et al. Avaliação terciaria em pacientes traumatizados em hospital na cidade de São Paulo: uma questão de necessidade. Rev. Bras. Ortop., São Paulo, v. 48, n. 4, p. 357-361, ago. 2013. RODRIGUES, M. de S.; GALVÃO, I. M.; SANTANA, L. F. e. Utilização do ABCDE no atendimento do traumatizado. Revista de Medicina, [s.l.], v. 96, n. 4, p. 278-280, 22 dez. 2017. RODRIGUES, K. G.; SANTIAGO, R. M.; LIMA, É. C. Aspectos clínicos da síncope vasovagal.REFACI. Brasília, 2018. Disponível em: https://dspace. uniceplac.edu.br/bitstream/123456789/78/1/Karine%20Rodrigues_0000549_ Rebeca%20Santiago_0000324.pdf. Acesso em: 10 jan. 2020. SANTOS, J. et al. Mortalidade por infarto agudo do miocárdio no Brasil e suas regiões geográficas: análise do efeito da idade-período-coorte. Ciênc. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 23, n. 5, p. 1621-1634, maio 2018. SIQUEIRA, L. F. M. de. Atualização no diagnóstico e tratamento das crises epilépticas febris. Rev. Assoc. Med. Bras., São Paulo, v. 56, n. 4, p. 489-492, 2010. SILVEIRA, E. da S.; O'DWYER, G. Centro de Trauma: modelo alternativo de atendimento às causas externas no estado do Rio de Janeiro. Saúde Debate, Rio de Janeiro, v. 41, n. 112, p. 243-254, mar. 2017. TORTORA, G. J.; DERRICKSON, B. Corpo humano: fundamentos de anatomia e fisiologia. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. TORTORA, G. J. Princípios de anatomia humana. Guanabara Koogan: Rio de Janeiro, 2007. 178 VILAS, L. A. et al. Síncope vasovagal como fenómeno médico frecuente. Rev. Cub. Med. Mil. Ciudad de la Habana, v. 31, n. 4, dez. 2002. UCAR, F. M. et al. Episódios de Taquicardia Ventricular não Sustentada Predizem Futura Hospitalização em Receptores de CDI com Insuficiência Cardíaca. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo, v. 109, n. 4, p. 284-289, Oct. 2017. VOLSCHAN, A. et al. I Diretriz de dor torácica na sala de emergência. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo, v. 79, supl. 2, p. 1-22, ago. 2002. 179 UNIDADE 3 — PRIMEIRO ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE PARADA CARDIOPULMONAR, OVACE, TRAUMAS E QUEIMADURAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • descrever a importância em distinguir se uma vítima está em franca PCP; • identificar as medidas passíveis de serem aplicadas a uma vítima e PCP; • apontar as manobras mais pertinentes de serem aplicadas a uma vítima de OVACE; • classificar uma lesão tegumentar em decorrência de queimaduras. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE PARADA CARDIOPULMONAR (PCP) TÓPICO 2 – OVACE E PRIMEIRO ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE TRAUMAS TÓPICO 3 – PRIMEIROS SOCORROS PARA VÍTIMAS DE QUEIMADURAS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 180 181 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO A Parada Cardiorrespiratória (PCR) é uma síndrome clínica considerada como uma das mais importantes emergências no setor médico, já que a sua sobrevida está intimamente ligada ao tempo de identificação e/ou constatação do evento e à qualidade do atendimento aplicado. Isso exige atuação rápida, eficaz e objetiva por parte da daquele que presta cuidado. Dentre os principais sintomas que podem preceder uma PCR são: dor torácica, sudorese, palpitações precordiais, vertigens (Tonturas), perda de consciência, alterações neurológicas, sinais de baixo débito cardíaco, parada de sangramento prévio. Já em relação aos sinais clínicos, aqueles ditos como clássicos considerados em uma PCR são: inconsciência, ausência de movimentos respiratórios, ausência de pulsos em grandes artérias (femoral e carótidas) ou ausência de sinais de circulação. Esses são os sinais ditos como principais. Outro ponto de destaque relaciona-se as diretrizes conduzidas pela Associação Americana do Coração, mundialmente conhecida como AHA (American Heart Association), a qual de tempo em tempo atualiza os protocolos de atendimento as pessoas que sofrem algum agravo relacionado ao atendimento em PCR. Protocolos esses que são comumente utilizados por serviços como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), serviços de Atendimento Pré-Hospitalar (APH) por meio de empresas privadas e/ou públicas que prestam o referido socorro, bem como, serve de base instrutiva a população dita como leiga, quanto ao que fazer e como socorrer uma vítima até que o socorro especializado chegue, seja através da aplicação de cuidados básicos ou avançados (AHA, 2018). TÓPICO 1 — ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE PARADA CARDIOPULMONAR (PCP) UNIDADE 3 — PRIMEIRO ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE PARADA CARDIOPULMONAR, OVACE, TRAUMAS E QUEIMADURAS 182 2 RESSUSCITAÇÃO CARDIOPULMONAR E CEREBRAL Dados brasileiros obtidos pelo DataSUS, citados por Gonzalez et al. (2013) mostram que 37% das mortes no Brasil são em decorrência de causas cardiovasculares, resultando em 320 mil casos anuais. Nos Estados Unidos, estima-se que ocorrem cerca de 265 mil mortes súbitas por ano de causa coronariana. Nenhuma situação clínica supera a prioridade de atendimento da Parada Cardiorrespiratória (PCR) ou Parada Cardiopulmonar (PCP), na qual a rapidez e eficácia das intervenções adotadas são cruciais para o melhor resultado no atendimento, garantia de sobrevida e minimização de sequelas. A abordagem desse tema, através da metodologia da medicina baseada em evidências permite aplicar as medidas terapêuticas mais adequadas, uniformes e de forma sistematizada, visando o melhor resultado (Figura 1) (GONZALEZ et al., 2013). Cabe destacar que ao nos depararmos com as abreviações PCR ou PCP neste material, os respectivos termos trazem o mesmo significado. Já no panorama mundial, a Parada Cardiorrespiratória (PCR) é definida como a cessação da atividade mecânica cardíaca (contratilidade) e confirmada pela ausência de sinais de circulação (ausência de contratilidade), é considerada problema de saúde pública, principalmente quando ocorrida em ambiente extra- hospitalar, onde o determinante mais importante para sobrevivência é a presença do indivíduo para efetuar as manobras de Reanimação Cardiopulmonar (RCP), seja o profissional de saúde, que pode aplicar habilidades para reanimação adaptadas às diferentes circunstância, ou aquele dito como leigo, mas desde que esteja treinado em ações de Suporte Básico de Vida (SBV), no caso de PCR ocorrida fora do ambiente de serviço de saúde (TOBASE et al., 2017; AHA, 2018). Com relação ao SBV, este é considerado a base inicial para se proceder à realização do atendimento em casos de PCR e nele é definida a sequência primária de reanimação para salvar vidas e minimizar possíveis sequelas pelo atendimento aplicado, pois, através deste é possível incluir o reconhecimento imediato do agravo, ativação do sistema de resposta de emergência com passagem de informações pontuais e direcional a central de regulação (local onde se concentram os serviços de socorro especializados), realização de RCP precoce e desfibrilação rápida. Já no Suporte Avançado de Vida (SAV) são contempladas intervenções realizadas a partir do suporte básico iniciado previamente a fim de aumentar a probabilidade do retorno da circulação espontânea, com a utilização de recursos medicamentosos, gerenciamento avançado das vias aéreas e monitoramento fisiológico com equipamentos e dispositivos. Após o retorno da circulação espontânea, a sobrevivência e evolução neurológica podem ser melhoradas e potencializadas com os cuidados pós-PCR já na unidade de saúde onde a vítima será encaminhada (TAVARES; PEDRO; URBANO, 2016; TOBASE et al., 2017; AHA, 2018). TÓPICO 1 — ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE PARADA CARDIOPULMONAR (PCP) 183 FIGURA 1 – CADEIA DE SOBREVIDA – APLICÁVEL NO AMBIENTE INTRA-HOSPITALAR E EXTRA-HOSPITALAR FONTE: <https://3.bp.blogspot.com/-42bWwizlQss/V_5JDdoRSJI/AAAAAAAADPk/BYwRIaOme- 1gU9Q6G7mWQc2_ETGPHnA3uACLcB/s640/pcrih-pcreh.png>. Acesso em: 28 maio 2020. Relacionado ao quadro clínico e tratamento da PCR/PCP, a cadeia de sobrevida foi descrita para ressaltar a importância da adoção hierarquizada das atitudes terapêuticas frequente à situação da PCR/PCP em que há Fibrilação Ventricular (FV), é o ritmo inicial presente em mais de 40% dos casos (MARINHEIRO et al., 2018). A cadeia é constituída por cinco passos