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AULA 4 
NEUROCIÊNCIA E 
COMPORTAMENTO 
HUMANO 
Prof. Reginaldo Daniel da Silveira 
 
 
2 
INTRODUÇÃO 
Movimento: sistema motor e cognição – primeiras palavras 
Para interagir com pessoas, objetos e o ambiente que nos rodeia, 
precisamos ter controle voluntário sobre os movimentos do corpo. Isso não 
significa apenas controlar braços e pernas, mas tudo aquilo que se mexe em 
nosso organismo, incluindo cabeça, olhos, expressões faciais, articulações dos 
músculos da boca e da língua, além de vários outros pontos corporais. Afinal, 
todos eles estão relacionados à comunicação motora. 
Nos lobos frontais, encontramos o sistema motor do cérebro. Ele começa 
com áreas pré-motoras, importantes para planejar e coordenar movimentos 
complexos, e termina com o córtex motor primário, região de saída e envio pela 
medula espinhal, que causa contrações e movimentos de músculos específicos. 
Observamos neste estudo os argumentos de que os processos motores 
estão funcionalmente relacionados com processos cognitivos. A informação 
apoiada por dados clínicos e neurais nos mostra que algumas regiões do cérebro 
integram funções motoras e cognitivas. 
TEMA 1 – INTRODUÇÃO À BASE NEURAL DO MOVIMENTO 
Na casa de Helena, ela, Célia, Nestor e Lucas se reuniram para preparar a 
apresentação na semana seguinte de um trabalho sobre sistema motor e 
cognição. Os quatro universitários conversaram, discutiram, escreveram e depois 
decidiram dar uma paradinha. O pai de Helena tinha acabado de chegar, e ao vê-
lo no corredor Lucas o cumprimentou sorrindo: 
– Como vai, Dr. Aníbal: 
 Depois, para relaxar, ligaram a TV em um reality show. Helena se espantou 
com um participante do programa e exclamou: 
– Nossa! Olha o fulano! Ele fica paradão, com os olhos fixos para o nada. 
Ele é bem diferente dos outros, não acha, Lucas? 
– Ele está pensando, alguém vai dizer que ele está pirando, mas o cara é 
tranquilo, não tem problema. Acho que ele ficou chateado com alguém. Olha, ele 
foi para a cozinha, Helena! 
– Vai dar problema, a sicrana que criticou ele publicamente está lá. Ih! Ela 
se posicionou como quem quer encarar ele! 
 
 
3 
Na cena da TV de fato, a moça começou a discutir com o rapaz e Nestor 
se manifestou. 
– Gente, olha ele oferecendo um copo de água para acalmar a nervosa. 
Sabem o que é isto? É o sistema motor que estamos estudando. Primeiro, ele 
estava na outra peça pensando, aí decidiu ir para a cozinha. A moça reparou que 
ele estava por perto, pensou e foi querer discutir. Ele viu que ela estava nervosa 
e ofereceu água. Gente! Ele usou a parte mais importante do nosso sistema 
nervoso, o córtex cerebral. Não acha Célia? 
– Sim! Aconteceu ali o potencial de ação, os sinais neurais. Os neurônios 
dele, quando perceberam que ela estava esquentada, passaram a transmitir 
impulsos eletromagnéticos pelo corpo. 
– E aí – interrompeu Nestor – os neurônios eferentes acionados pelo córtex 
cerebral carrearam informações de que a moça estava mal e geraram impulsos. 
O que aconteceu? Os músculos se movimentaram e o esqueleto levou o rapaz 
até a geladeira, pegou o copo, botou água e ofereceu a água. Os dois se 
movimentaram pelas percepções que tiveram. 
Vamos deixar de lado, por ora, os quatro colegas de faculdade com a sua 
conversa sobre o reality show e o sistema motor, e vamos buscar entender como 
os músculos esqueléticos de nosso corpo se movem. 
O ponto de partida é dado pelas mensagens do SN que causam as 
contrações musculares. Podemos resumir esse entendimento em três passos: 
• A informação vai do SN para o sistema muscular. Quando isso acontece, 
diferentes reações químicas são estabelecidas. 
• As reações químicas fazem com que fibras musculares se organizem, 
contraindo a musculatura e provocando a ação motora. 
• À medida que o sinal do SN desaparece, o processo químico se inverte, as 
fibras musculares se reorganizam e a musculatura relaxa. 
Podemos dizer que a contração muscular começa com o potencial de ação 
– em outras palavras, quando ocorre “uma mudança muito breve na carga elétrica 
de um neurônio que viaja ao longo de um axônio” (Weiten, 2010). Essa viagem 
acontece por meio de um neurônio motor, que contacta a célula muscular formada 
por fibras. No momento em que o SN se comunica com a junção neuromuscular, 
a mensagem química é liberada pelo neurônio motor. Nesse ponto, um 
neurotransmissor, chamado de acetilcolina, se liga a receptores externos da fibra 
muscular. Assim ocorre a reação química no músculo. 
 
 
4 
O processo molecular da viagem motora passa por algumas etapas a partir 
do momento em que a acetilcolina se liga aos receptores. Dentro das fibras 
musculares, proteínas são organizadas em longas cadeias, que interagem entre 
si para contrair ou relaxar. Ao cessar a estimulação do neurônio motor, a reação 
química é interrompida e vemos revertido o processo químico nas fibras 
musculares; assim, a musculatura relaxa. 
Segundo Lent (2016), para realizar um ato motor, existe a necessidade de 
um “arquivo” de predição do que é necessário para que ele exista. O 
planejamento, a correção e a execução dos movimentos devem estar inscritos em 
redes neurais a partir do córtex pré-frontal. Participam desse processo o córtex 
motor primário, o córtex não primário, com as áreas motora e suplementar, o 
córtex parietal, o córtex cingulado, o cerebelo e os núcleos de base. Também 
devem ser levados em conta os núcleos talâmicos, os núcleos do tronco 
encefálico e a medula espinhal. 
Podemos assim verificar uma orquestração entre as redes cerebrais 
corticais, subcorticais e medulares, interconectadas em série e em paralelo. A 
forma como isso acontece depende da experiência individual, da integridade da 
rede neural, do tipo e da complexidade do movimento a ser executado, 
considerando ainda a perspectiva de plasticidade, em mudanças por 
aprendizagens ou por lesões centrais e periféricas. 
As ações de planejar e controlar o movimento podem não ser pensadas, 
mas isso não significa que ações como tocar violão, jogar bola, escrever ou comer 
com talheres sejam simplesmente atos reflexos. Leisman, Moustafa e Shafir 
(2016) definem que o movimento não é simplesmente desencadeado por um 
estímulo externo, como a reação a um objeto quente. Ele pode ser resultado de 
processos mentais cognitivos, mesmo quando não há nenhum movimento. 
Os mesmos autores reportam que o movimento e a ação muitas vezes são 
entendidos como a mesma coisa. Eles esclarecem que, no movimento, partes do 
corpo são deslocadas no espaço físico, de forma voluntária ou involuntária, para 
uma atividade direcionada a um objetivo. No exemplo da conversa entre os quatro 
estudantes, o rapaz do reality show se depara com uma pessoa nervosa, olha 
para ela e decide caminhar até a geladeira e pegar água, colocar no copo e 
oferecer aos outros. Tal ação motora envolve, implicitamente, várias funções 
cognitivas integradas, de modo a permitir um desempenho motor bem-sucedido. 
 
 
5 
TEMA 2 – CÓRTEX MOTOR PRIMÁRIO 
Na área do lobo frontal, encontramos o sistema motor, que se inicia nas 
áreas pré-motoras, buscando planejar e coordenar movimentos complexos, e 
finaliza com o córtex motor primário. Nesse local, a saída é enviada pela medula 
espinhal para causar contração e movimentar músculos específicos. No lado 
esquerdo do cérebro, o córtex motor primário (designado como M1) controla o 
movimento do lado direito do corpo, da mesma forma que o córtex motor direito 
controla o movimento do lado esquerdo do corpo. A sua representação corporal é 
chamada de somatotópica (Lent, 2016), entendida como movimento de diferentes 
partes do corpo, centrado em regiões específicas do córtex. A área do córtex 
motor é a mais sensível à estimulação elétrica, uma vez que requer a menor 
quantidade de estimulação para produzir um movimento muscular 
correspondente. 
O processamento, quando diferentes áreas docórtex motor primário se 
conectam e controlam o movimento de diferentes partes do corpo, forma uma 
espécie de mapa corporal, conhecido como homúnculo. O tamanho da área no 
homúnculo determina o nível de controle de movimento finos que o indivíduo tem 
com essa região do corpo. Sabemos que grande parte do córtex motor primário 
está ligado ao controle com precisão das mãos, do rosto e dos lábios, como vemos 
representado na Figura 1. Podemos dizer, assim, que as áreas dedicadas a 
polegar, dedos, bocas e lábios são vitais para manipular objetos e articular a fala. 
O modelo de homúnculo, também chamado de “homúnculo de Penfield”, é 
uma representação artística mapeada do cérebro com diferentes pontos da 
superfície do corpo, considerando o mapa neural sobre a sensibilidade corporal 
(Silva, 2013). A Figura 1 é uma visão representativa da diferença de tamanho de 
sensibilidade, que revela por exemplo que os movimentos motores de nosso corpo 
são executados especialmente pelas mãos. Podemos verificar ainda a dimensão 
da boca e da língua, a área de movimentos complexos e finos, além de outras 
áreas do tronco. 
 
 
 
6 
Figura 1 – Homúnculo cortical 
 
Crédito: shumpc/adobe stock. 
Experimentos com cães mostrados na literatura indicam que, quando 
partes do córtex recebem estimulação elétrica, são provocados movimentos em 
diferentes áreas do corpo. Em 1870, os médicos Gustav Theodor Fritsch e Eduard 
Hitzig, usando cães acordados como sujeitos, estimularam eletricamente a área 
do cérebro que veio a ser chamada de córtex motor, descobrindo que o movimento 
dos cães era involuntário em resposta à estimulação. A estimulação fazia com que 
os cães se movessem involuntariamente (Purves et al., 2008). Esse experimento 
levou à identificação do córtex motor como área primária do nosso cérebro, 
envolvida no planejamento e na execução de movimentos voluntários. 
A estimulação em um hemisfério cerebral resulta em movimento no lado 
oposto do corpo, o que ajuda a entender o controle e a execução de movimentos 
do corpo pelo envio de sinais ao cerebelo e à medula espinhal. Desse modo, o 
córtex motor primário é fundamental para iniciar os movimentos motores (Guy-
Evans, 2021). 
 
 
 
7 
Podemos entender a dinâmica do córtex motor primário considerando os 
seguintes aspectos: 
• As suas áreas correspondem precisamente a partes específicas do corpo; 
• Nele encontramos os grandes neurônios, chamados de neurônios motores 
superiores (ou neurônios piramidais) e as células de saída primárias do 
córtex motor; 
• A largada no fluxo do movimento se desenvolve quando os axônios dos 
neurônios motores superiores saem do córtex motor com informações 
sobre movimentos voluntários; 
• Ao entrar em um dos tratos do sistema piramidal (vias ligadas com a 
motricidade voluntária), os neurônios motores superiores levam 
informações para a medula espinhal; eles viajam por meio do trato (vias) 
córtico-espinhal; 
• Logo que a informação chega à medula espinhal, ela é usada para os 
movimentos; 
• Para suprir os músculos esqueléticos no movimento, os neurônios motores 
superiores formam conexões com outros neurônios, chamados de 
neurônios motores inferiores (ou neurônios eferentes), que conectam o 
sistema nervoso central aos músculos; 
• Quando os neurônios motores superiores percorrem o trato córtico-bulbar, 
eles transportam informações motoras para o tronco encefálico, onde os 
núcleos dos nervos cranianos são estimulados em movimentos de cabeça, 
pescoço e face. 
Ambos os tratos, portanto, carregam informações específicas sobre 
movimentos voluntários do cérebro. O trato córtico-espinhal carrega movimentos 
que sinalizam os movimentos na medula espinhal. O trato córtico-bulbar 
transporta sinais para o tronco cerebral para causar movimento de cabeça, 
pescoços e rosto. O córtex motor primário geralmente não controla os músculos 
diretamente, mas tende a iniciar movimentos individuais ou sequências de 
movimentos que dependem da atividade de muitos grupos musculares. 
A conexão do córtex motor primário com os músculos do corpo é tão 
importante que qualquer dano acarreta uma capacidade prejudicada de 
movimento. Como veremos mais à frente, se uma pessoa sofre um derrame, que 
causa, por exemplo, danos ao córtex motor primário, em apenas um lado do 
 
 
8 
cérebro, há prejuízo de movimento no lado oposto do corpo. Se a área do dano 
estiver localizada em uma determinada parte do córtex motor primário, como a 
área da mão do homúnculo, ela afetará os movimentos apenas da parte 
correspondente do corpo, o que pode ocorrer, por exemplo, com a mão. 
TEMA 3 – CÓRTEX PRÉ-MOTOR 
Encontramos o córtex pré-motor (PM) na área anterior ao córtex motor 
primário. Embora o nome possa sugerir um papel secundário ao córtex motor 
primário, ele desempenha importante papel no movimento. Abrange duas áreas: 
a área pré-motora (APM) e a área motora suplementar (AMS). Ambas as áreas 
estão envolvidas em diferentes aspectos do movimento, como o planejamento da 
ação e a seleção de tarefas com base no contexto ambiental (Purves et al., 2008). 
A APM, como uma área envolvida no controle do movimento voluntário 
(Bear; Connors; Paradiso, 2017), está localizada à frente da mas, que planeja 
movimentos complexos e coordena as duas mãos, e também à frente do córtex 
motor primário, que controla o movimento dos músculos próximos ao eixo do 
corpo. Nas últimas décadas, foram desenvolvidos inúmeros estudos sobre o 
sistema motor; ainda assim, parece haver um consenso entre os estudiosos sobre 
a necessidade de melhor entendimento das funções exatas nas duas áreas do 
córtex pré-motor. 
Outro dado dos pesquisadores refere-se à ideia de que o PM é mais ativo 
do que o M1, durante o planejamento, e não na execução do movimento. Purves 
et al. (2008) abordam ainda a possibilidade de a AMS ter papel relevante para a 
execução sequencial de movimentos, a aquisição de habilidades motoras e o 
controle executivo, o que envolveria decisões relativas a mudanças, de acordo 
com informações sensoriais. Vejamos a seguir alguns aspectos de cada uma 
dessas áreas. 
3.1 Área pré-motora 
O córtex motor pré-primário tem sido objeto de estudo especialmente com 
humanos e macacos. Pelo que os estudos até aqui levantaram, ele se projeta 
diretamente para a medula espinhal, de modo que desempenha um papel 
importante no controle direto do comportamento, notadamente nos músculos do 
tronco do corpo. Conforme já definimos, essa área está relacionada ao 
 
 
9 
planejamento do movimento, além de orientar o movimento espacial, o movimento 
sensorial, a compreensão das ações externas e o uso de padrões abstratos para 
tarefas específicas. 
Lent (2016) define que tanto a área motora pré-primária quanto a área 
motora suplementar foram inicialmente definidas como regiões corticais cuja 
estimulação elétrica era também capaz de induzir movimentos, desde que as 
correntes aplicadas apresentassem intensidade considerável. O autor cita o 
estudo do neurofisiologista americano Michael Graziano, o qual demonstra que, 
junto com o córtex motor primário, as áreas pré-motoras produzem movimentos 
que envolvem várias articulações, à semelhança dos movimentos naturais de 
preensão e alcance ou de esquiva. 
Estudos com macacos, citados por Tassinari e Durange (2014), mostram 
que neurônios-espelhos no córtex pré-motor têm papel importante na atenção e 
no movimento comportamental. Esse tipo de neurônio não só dispara quando o 
macaco faz uma ação, mas também quando o animal observa alguém que 
executa aquela mesma ação. Os autores reportam que, com o uso da 
Ressonância Magnética Funcional (fMRI) em humanos, é possível presumir a 
presença de neurônios-espelho no espelhamento de sentimentos, o que nos leva 
à expectativa de circuitos neurais como base para o comportamento empático, 
desencadeado por ações responsivas ao sofrimento de outraspessoas. 
3.2 Área motora suplementar 
A área motora suplementar (AMS), entre o córtex primário e o córtex motor, 
está envolvida no planejamento de movimentos complexos e na coordenação de 
movimentos envolvendo ambas as mãos. Lent (2016) destaca que a estimulação 
da AMD leva a movimento bilaterais, com frequência, o que sugere a sua 
participação na coordenação de movimentos que envolvem os dois lados do 
corpo. 
Estudos eletrofisiológicos com primatas treinados concluíram que a 
atividade neuronal da AMS pode estar relacionada com sequências memorizadas 
de movimentos, iniciados voluntariamente, enquanto os neurônios do córtex pré-
motor estariam ativos de modo preferencial em atividades dependentes de uma 
pista sensorial visual. 
Lent (2016) complementa esses dados ao citar um experimento com 
macacos, em que a atividade neural se desenrola por três células: uma em M1, 
 
 
10 
outra em PM e uma terceira em AMS, quando um macaco aperta três botões em 
sequência. Inicialmente, a sequência se dava em pistas visuais. À medida que o 
animal se acostumava com uma sequência, a intensidade de luz no experimento 
era diminuída. até que o macaco realizasse a tarefa de memória. Os neurônios 
em M1 mantinham uma atividade neural similar, independentemente da forma 
como a tarefa era realizada (visual ou disparada por pistas internas). O neurônio 
PM, porém, era mais ativo em resposta às pistas visuais em comparação às 
internas, enquanto o oposto acontecia com o neurônio da AMS. 
Na condição reportada por Lent (2016), se a ação requer o uso de 
sequências motoras aprendidas, acredita-se que a maior contribuição para a 
realização da tarefa ocorrE pela AMS. No exemplo do jogador de tênis que precisa 
saber onde a bola está, para preparar o movimento da raquete, ocorre uma 
integração entre o plano motor aprendido e a retroação sensorial. De outra forma, 
o sinal sensorial externo é o primeiro a ser recrutado no caso de um motorista com 
o carro parado em frente a um semáforo, esperando o sinal de trânsito para pisar 
no acelerador e mudar a marcha. 
TEMA 4 – COGNIÇÃO E MOVIMENTO 
Nestor convidou Célia, Helena e Lucas para dar uma volta no carro que 
ganhou do pai. Ao andar pelo centro da cidade, os amigos notaram que os olhos 
de Nestor não paravam quietos. Helena então perguntou: 
– Por que a gente mexe tantos os olhos? 
– Depende. No trânsito eu tenho que ficar atento a tudo. 
– Eu não me refiro só ao trânsito, mas a tudo. Quando eu visito a minha 
avó no sítio, eu vejo que a galinha e a coruja mantêm os olhos fixos, é a cabeça 
que se mexe. 
– É que esses bichos não têm aquela manchinha amarela no centro da 
retina. É por ali que se forma a imagem que vai para o cérebro. Como é que é o 
nome mesmo? – foi a pergunta de Lucas. 
Célia ia dizer que era fóvea, mas nem pode abrir a boca, pois Nestor fez 
uma manobra brusca e freou o carro de súbito, exclamando: 
- Céus! Foi por pouco! Gente, o que vocês acham de a gente dar uma 
paradinha ali naquela lanchonete perto do Passeio Público e comer um daqueles 
sanduíches que vem com dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, 
cebola e picles num pão com gergelim. Tem que ver se ela está aberta. 
 
 
11 
– Eu vou comer dois deles – disse Lucas. 
– Eu não! Vocês sabiam que um sanduíche desses tem mais de quinhentas 
calorias? Eu, hein! – respondeu Helena. 
Já na lanchonete, nossos estudantes começaram a conversar sobre o que, 
como e onde ocorria, no cérebro, aquele processo que fez Nestor ficar mexendo 
os olhos, cuidando do trânsito, até a freada brusca. No bate-papo, eles falaram 
sobre a evolução humana, que nos faz caminhar usando os dois pés, sobre o 
hábito aprendido em relação ao ato de dirigir, além do uso de processos cognitivos 
diretamente nos gânglios basais e no cerebelo. 
Leisman, Moustafa e Shafir (2016) definem que a associação entre função 
motora e cognição oferece subsídio para entender o bipedismo como 
característica evolutiva humana. Por conta disso, criou-se uma base para um 
maior desenvolvimento do neocórtex humano. Caminhar apoiado apenas nos pés 
é uma característica humana (mesmo que pássaros no solo, alguns mamíferos e 
primatas também caminhem de modo similar). No ser humano, o bipedismo 
trabalha com a coluna ereta, ao contrário de outros seres. Por conta disso, os 
processos cognitivos tornaram-se mais sofisticados, estando associados à 
necessidade de adaptação a movimentos mais complexos. Nessa evolução, a 
função cognitiva e a motora passaram a ser controladas por certas áreas do 
cérebro, como lobos frontais, cerebelo e gânglios da base, em uma interação 
coletiva com governança e controle executivo, dando impulso à intencionalidade 
dos movimentos. 
Os gânglios basais agrupam estruturas como núcleo caudado, putâmen, 
globo pálido e núcleo subtalâmico (Bear; Connors; Paradiso, 2017), que 
estabelecem respostas musculares. Tieppo (2021) destaca que eles “estão 
estreitamente ligados ao nosso comportamento voluntário inconsciente – aquele 
em anuência com nossa vontade, mas sem a consciência direta de sua 
realização”. Os gânglios basais recebem inputs do córtex cerebral, enviando-os 
para os centros motores do tronco cerebral, antes de retornarem para a área de 
planejamento do motor do córtex. Gazzaniga e Heatherton (2005) reportam que 
eles estão envolvidos na aprendizagem de hábitos. Lembramos que Nestor, ao 
dirigir, tinha o hábito automático de olhar o tráfego de veículos no trânsito. 
O cerebelo, ligado ao tronco encefálico, é um importante centro de controle 
do movimento (Bear; Connors; Paradiso, 2017). A ação brusca de Nestor ao frear 
o veículo é um ato de aprendizagem motora envolvido com o cerebelo. “Treinado” 
 
 
12 
pelo sistema nervoso, ele opera de modo independente-inconsciente (Gazzaniga 
e Heatherton, 2005), permitindo que Nestor consiga dirigir, olhar o trânsito e 
pensar no assunto da conversa ao mesmo tempo. 
 Encadeamentos apreendidos em circuitos neurais fazem com que Nestor 
consiga trocar as marchas do veículo sem estar completamente focado. Caminhar 
ou andar de bicicleta também é resultado de aprendizagens baseadas em 
processos cognitivos básicos, que envolvem percepção, atenção e memória, 
relacionados a processos cognitivos superiores, como o raciocínio e a tomada de 
decisão. 
O cérebro capta e processa muitas informações, que não chegam todas 
à consciência - podem vir a se tornar conscientes, através da atenção, 
da focalização consciente de algumas informações ou de partes da 
realidade. Inicialmente, a execução de muitas tarefas é realizada por 
processos controlados, conscientes e posteriormente automáticos. 
Muitas tarefas, principalmente aquelas que requerem prática, precisam 
ser inicialmente percebidas conscientemente. (Balbinota; Zarob; Timm, 
2011) 
Os efeitos do processamento cognitivo no movimento envolvem três fases: 
a fase perceptiva, responsável pela síntese aferente das condições externas e 
internas; a fase da tomada de decisão, que analisa uma situação para predispor 
à ação; e a fase efetora, que atende à execução do movimento programado 
(Gonzales, 1999). Assim, podemos entender que movimentos como equilibrar-se 
em uma viga, lançar objetos e deslocar-se demandam processos cognitivos de 
menor complexidade. Por outro lado, movimentos relacionados a papéis, ou 
atribuições com a participação de pessoas e objetos, requerem uma 
representação simbólica para a tomada de decisão. 
Segundo Weiten (2010), nossas vidas são repletas de tomadas de decisão. 
Ler um livro, levantar-se, lavar o rosto, escovar o dente, tomar ou não tomar o café 
são arbítrios da nossa rotina que fazemos com pouco esforço. Às vezes, contudo, 
temos que tomar decisões que requerem maior concentração. 
No momento em que chegou na lanchonete, Helena vivenciou um jogo 
mental que a fez lembrar da última consulta com o seu médico, que relatou com 
preocupação o resultadode exames recentes: aumento de glicose e do IMC 
(índice de massa corporal), além de sinais de sensibilidade a insulina, foram os 
gatilhos determinantes para a tomada de decisão. Enquanto os outros iam até o 
caixa, ela permaneceu sentada. 
– Come pelo menos um sanduíche de pão integral, geleia light e uma fatia 
de queijo light ! – gritou Célia. 
 
 
13 
– Não, obrigada – respondeu Helena. 
Como os demais, ela levantou-se e foi até o caixa. 
Gazzaniga e Heatherton (2005) abrodam a tomada de decisão a partir de 
dois fatores: (1) as perdas pesam mais do que os ganhos; e (2) as decisões 
envolvem a imaginação de eventos hipotéticos. Os autores explicam que, no 
chamado modelo satisficing, a tomada de decisão está ligada a um único fator, 
por exemplo entrar na lanchonete porque ela está aberta. Helena está bem 
relacionada aos fatores 1 e 2. No primeiro caso, a sua decisão, com base nos 
autores citados, está ligada à teoria da perspectiva: qual o custo e os benefícios 
da decisão? Sujeitar-se a fugir de uma regra, pois se comprometera a não vacilar 
com a alimentação, o que implica perder um momento saboroso com amigos. O 
segundo caso refere-se ao raciocínio contrafactual. Por um lado, ela irá se sentir 
bem em comer o sanduíche e ficar à vontade com os colegas; embora isso seja 
uma coisa positiva, ela irá dormir se culpando por ter vacilado com a saúde. 
TEMA 5 – CONTROLE E REABILITAÇÃO DO MOVIMENTO 
Comportamentos são produzidos por movimentos que colocam os 
músculos em ação. Fazemos isso ao andar, falar, comer, beber, inspirar, expirar, 
movimentos que compreendem uma imensa gama de comportamentos, como um 
simples “Como, vai Dr. Aníbal?”, dito por Lucas ao pai de Helena. Para que o 
movimento aconteça, precisamos de estruturas cerebrais e de células nervosas. 
A integração entre as estruturas está baseada em diferentes tipos de neurônios. 
Em linguagem mais simples, está ligada ao estímulo sensorial e à resposta 
comportamental; os neurônios sensoriais captam, os neurônios motores levam e 
os interneurônios comunicam. Isso não acontece quando há lesão em uma área 
cerebral relacionada ao movimento ou à degeneração de neurônios motores, 
condições que impedem respostas musculares. 
– Nossa! Você viu o acidente com aquele famoso? Bateu o carro, teve um 
traumatismo craniano e não consegue mais articular as palavras. 
Nesse exemplo, o traumatismo craniano provocou disartria, entendida 
como dificuldade de utilizar os músculos da fala, ou mesmo a sua fraqueza. À 
primeira impressão, parece ser um problema de linguagem, mas se trata de um 
problema motor. Lesões que afetam o tronco cerebral causam uma condição 
neurológica que altera a pronúncia e a articulação da fala. 
 
 
14 
– Você não vai mais se movimentar e infelizmente deixará de viver em dois 
ou três anos! 
Imagine ouvir isso aos 21 anos de idade, como ocorreu com Stephen 
Hawking! Diagnosticado como portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o 
físico inglês viveu até os 76 anos, motivado (dizem) por sua força psicológica e 
uma imensa vontade de viver e de superar novos desafios. A doença de Stephen 
Hawking degenerou os neurônios motores no cérebro, interferindo na transmissão 
de mensagens para os músculos do corpo. Com os músculos atrofiados, ele 
perdeu o controle voluntário, embora outros tipos de neurônios continuassem 
trabalhando, o que não afetou a inteligência, a memória e a personalidade. 
No estudo dos movimentos, descobertas recentes sobre o modo como as 
atividades estão ligadas às estruturas cerebrais têm sido importantes, pois nos 
ajudam a entender a atividade neural ligada ao movimento, por meio do estudo 
de potenciais de prontidão que aparecem, por exemplo, em exames de 
eletroencefalograma. Tais potenciais aparecem em torno de um segundo antes 
da realização dos movimentos (Lent, 2016). 
O autor atribui às técnicas de neuroimagem, com base em medidas do fluxo 
sanguíneo e da atividade metabólico cerebral, o domínio mais apurado que temos 
do mapeamento das regiões cerebrais que participam da produção de movimento. 
Lent defende ainda que a estimulação transcraniana nos ajuda a entender a 
atividade neuromotora induzida. 
Os avanços da tecnologia confirmam que, para interagir com pessoas, 
objetos e ambiente, precisamos ter controle voluntário sobre os movimentos do 
corpo. Perdemos o controle voluntário em situações nas quais o organismo se 
movimenta sem a nossa percepção. Músculos como a parede do estômago não 
recebem controle voluntário, mas sim o controle de outras regiões cerebrais, como 
o hipotálamo. Quando uma pessoa se alimenta, o estômago se contrai, sem que 
a pessoa tenha conhecimento, o que garante a digestão, mesmo quando a pessoa 
dorme. 
Controle voluntário não significa simplesmente estender o braço e pegar ou 
jogar alguma coisa, andar, correr ou nadar. Precisamos que as nossas cabeças 
se mexam, que os nossos olhos explorem imagens, que as nossas expressões 
faciais transmitam emoções pela comunicação de lábios, língua e boca. Tais 
movimentos voluntários são comandados pelo córtex motor, partindo da sua 
localização atrás do lobo frontal. A mensagem neural se move por meio do tronco 
 
 
15 
cerebral, pela medula espinhal, até o músculo que vai ser comandado, que se 
contrai em resposta a uma ordem. 
Pessoas que sofrem traumatismo craniano ou degeneração dos neurônios 
motores, como vimos nos exemplos, perdem a capacidade de controlar os 
movimentos do corpo. E o que isso significa? Como acontece com outras partes 
do cérebro, danos nos neurônios do córtex motor primário significam que eles 
nunca se regeneram ou são reparados. Contudo, o cérebro pode se curar e 
recuperar certas funções a partir da neuroplasticidade. Nesse caso, partes não 
danificadas podem buscar outras conexões, criando um novo mapa, que envolve 
outras áreas, para assumir a função, compensando danos no córtex motor. 
A reabilitação física é base essencial da neuroplasticidade, usada em 
fisioterapia, para auxiliar pacientes que sofreram acidente vascular cerebral. Tal 
prática permite a recuperação da função motora, uma vez que, quando um 
movimento específico é realizado, vemos melhoradas as chances de novos 
caminhos cerebrais. Uma pessoa que tenha sofrido, por exemplo, um derrame 
que afeta os movimentos da perna esquerda, efeito de danos no lado direito do 
cérebro, precisará de acompanhamento fisioterápico em sequências ou padrões 
de caminhada, buscando ativar o controle de grupos musculares específicos da 
perna esquerda. A concentração ao usar os músculos estabelece novos caminhos 
neurais, buscando compensar as áreas danificadas. Com a repetição dessa 
prática, novos caminhos surgem e se fortalecem, em benefício do movimento 
correto, o que passa a exigir menos concentração. 
 
 
 
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