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AULA 4 NEUROCIÊNCIA E COMPORTAMENTO HUMANO Prof. Reginaldo Daniel da Silveira 2 INTRODUÇÃO Movimento: sistema motor e cognição – primeiras palavras Para interagir com pessoas, objetos e o ambiente que nos rodeia, precisamos ter controle voluntário sobre os movimentos do corpo. Isso não significa apenas controlar braços e pernas, mas tudo aquilo que se mexe em nosso organismo, incluindo cabeça, olhos, expressões faciais, articulações dos músculos da boca e da língua, além de vários outros pontos corporais. Afinal, todos eles estão relacionados à comunicação motora. Nos lobos frontais, encontramos o sistema motor do cérebro. Ele começa com áreas pré-motoras, importantes para planejar e coordenar movimentos complexos, e termina com o córtex motor primário, região de saída e envio pela medula espinhal, que causa contrações e movimentos de músculos específicos. Observamos neste estudo os argumentos de que os processos motores estão funcionalmente relacionados com processos cognitivos. A informação apoiada por dados clínicos e neurais nos mostra que algumas regiões do cérebro integram funções motoras e cognitivas. TEMA 1 – INTRODUÇÃO À BASE NEURAL DO MOVIMENTO Na casa de Helena, ela, Célia, Nestor e Lucas se reuniram para preparar a apresentação na semana seguinte de um trabalho sobre sistema motor e cognição. Os quatro universitários conversaram, discutiram, escreveram e depois decidiram dar uma paradinha. O pai de Helena tinha acabado de chegar, e ao vê- lo no corredor Lucas o cumprimentou sorrindo: – Como vai, Dr. Aníbal: Depois, para relaxar, ligaram a TV em um reality show. Helena se espantou com um participante do programa e exclamou: – Nossa! Olha o fulano! Ele fica paradão, com os olhos fixos para o nada. Ele é bem diferente dos outros, não acha, Lucas? – Ele está pensando, alguém vai dizer que ele está pirando, mas o cara é tranquilo, não tem problema. Acho que ele ficou chateado com alguém. Olha, ele foi para a cozinha, Helena! – Vai dar problema, a sicrana que criticou ele publicamente está lá. Ih! Ela se posicionou como quem quer encarar ele! 3 Na cena da TV de fato, a moça começou a discutir com o rapaz e Nestor se manifestou. – Gente, olha ele oferecendo um copo de água para acalmar a nervosa. Sabem o que é isto? É o sistema motor que estamos estudando. Primeiro, ele estava na outra peça pensando, aí decidiu ir para a cozinha. A moça reparou que ele estava por perto, pensou e foi querer discutir. Ele viu que ela estava nervosa e ofereceu água. Gente! Ele usou a parte mais importante do nosso sistema nervoso, o córtex cerebral. Não acha Célia? – Sim! Aconteceu ali o potencial de ação, os sinais neurais. Os neurônios dele, quando perceberam que ela estava esquentada, passaram a transmitir impulsos eletromagnéticos pelo corpo. – E aí – interrompeu Nestor – os neurônios eferentes acionados pelo córtex cerebral carrearam informações de que a moça estava mal e geraram impulsos. O que aconteceu? Os músculos se movimentaram e o esqueleto levou o rapaz até a geladeira, pegou o copo, botou água e ofereceu a água. Os dois se movimentaram pelas percepções que tiveram. Vamos deixar de lado, por ora, os quatro colegas de faculdade com a sua conversa sobre o reality show e o sistema motor, e vamos buscar entender como os músculos esqueléticos de nosso corpo se movem. O ponto de partida é dado pelas mensagens do SN que causam as contrações musculares. Podemos resumir esse entendimento em três passos: • A informação vai do SN para o sistema muscular. Quando isso acontece, diferentes reações químicas são estabelecidas. • As reações químicas fazem com que fibras musculares se organizem, contraindo a musculatura e provocando a ação motora. • À medida que o sinal do SN desaparece, o processo químico se inverte, as fibras musculares se reorganizam e a musculatura relaxa. Podemos dizer que a contração muscular começa com o potencial de ação – em outras palavras, quando ocorre “uma mudança muito breve na carga elétrica de um neurônio que viaja ao longo de um axônio” (Weiten, 2010). Essa viagem acontece por meio de um neurônio motor, que contacta a célula muscular formada por fibras. No momento em que o SN se comunica com a junção neuromuscular, a mensagem química é liberada pelo neurônio motor. Nesse ponto, um neurotransmissor, chamado de acetilcolina, se liga a receptores externos da fibra muscular. Assim ocorre a reação química no músculo. 4 O processo molecular da viagem motora passa por algumas etapas a partir do momento em que a acetilcolina se liga aos receptores. Dentro das fibras musculares, proteínas são organizadas em longas cadeias, que interagem entre si para contrair ou relaxar. Ao cessar a estimulação do neurônio motor, a reação química é interrompida e vemos revertido o processo químico nas fibras musculares; assim, a musculatura relaxa. Segundo Lent (2016), para realizar um ato motor, existe a necessidade de um “arquivo” de predição do que é necessário para que ele exista. O planejamento, a correção e a execução dos movimentos devem estar inscritos em redes neurais a partir do córtex pré-frontal. Participam desse processo o córtex motor primário, o córtex não primário, com as áreas motora e suplementar, o córtex parietal, o córtex cingulado, o cerebelo e os núcleos de base. Também devem ser levados em conta os núcleos talâmicos, os núcleos do tronco encefálico e a medula espinhal. Podemos assim verificar uma orquestração entre as redes cerebrais corticais, subcorticais e medulares, interconectadas em série e em paralelo. A forma como isso acontece depende da experiência individual, da integridade da rede neural, do tipo e da complexidade do movimento a ser executado, considerando ainda a perspectiva de plasticidade, em mudanças por aprendizagens ou por lesões centrais e periféricas. As ações de planejar e controlar o movimento podem não ser pensadas, mas isso não significa que ações como tocar violão, jogar bola, escrever ou comer com talheres sejam simplesmente atos reflexos. Leisman, Moustafa e Shafir (2016) definem que o movimento não é simplesmente desencadeado por um estímulo externo, como a reação a um objeto quente. Ele pode ser resultado de processos mentais cognitivos, mesmo quando não há nenhum movimento. Os mesmos autores reportam que o movimento e a ação muitas vezes são entendidos como a mesma coisa. Eles esclarecem que, no movimento, partes do corpo são deslocadas no espaço físico, de forma voluntária ou involuntária, para uma atividade direcionada a um objetivo. No exemplo da conversa entre os quatro estudantes, o rapaz do reality show se depara com uma pessoa nervosa, olha para ela e decide caminhar até a geladeira e pegar água, colocar no copo e oferecer aos outros. Tal ação motora envolve, implicitamente, várias funções cognitivas integradas, de modo a permitir um desempenho motor bem-sucedido. 5 TEMA 2 – CÓRTEX MOTOR PRIMÁRIO Na área do lobo frontal, encontramos o sistema motor, que se inicia nas áreas pré-motoras, buscando planejar e coordenar movimentos complexos, e finaliza com o córtex motor primário. Nesse local, a saída é enviada pela medula espinhal para causar contração e movimentar músculos específicos. No lado esquerdo do cérebro, o córtex motor primário (designado como M1) controla o movimento do lado direito do corpo, da mesma forma que o córtex motor direito controla o movimento do lado esquerdo do corpo. A sua representação corporal é chamada de somatotópica (Lent, 2016), entendida como movimento de diferentes partes do corpo, centrado em regiões específicas do córtex. A área do córtex motor é a mais sensível à estimulação elétrica, uma vez que requer a menor quantidade de estimulação para produzir um movimento muscular correspondente. O processamento, quando diferentes áreas docórtex motor primário se conectam e controlam o movimento de diferentes partes do corpo, forma uma espécie de mapa corporal, conhecido como homúnculo. O tamanho da área no homúnculo determina o nível de controle de movimento finos que o indivíduo tem com essa região do corpo. Sabemos que grande parte do córtex motor primário está ligado ao controle com precisão das mãos, do rosto e dos lábios, como vemos representado na Figura 1. Podemos dizer, assim, que as áreas dedicadas a polegar, dedos, bocas e lábios são vitais para manipular objetos e articular a fala. O modelo de homúnculo, também chamado de “homúnculo de Penfield”, é uma representação artística mapeada do cérebro com diferentes pontos da superfície do corpo, considerando o mapa neural sobre a sensibilidade corporal (Silva, 2013). A Figura 1 é uma visão representativa da diferença de tamanho de sensibilidade, que revela por exemplo que os movimentos motores de nosso corpo são executados especialmente pelas mãos. Podemos verificar ainda a dimensão da boca e da língua, a área de movimentos complexos e finos, além de outras áreas do tronco. 6 Figura 1 – Homúnculo cortical Crédito: shumpc/adobe stock. Experimentos com cães mostrados na literatura indicam que, quando partes do córtex recebem estimulação elétrica, são provocados movimentos em diferentes áreas do corpo. Em 1870, os médicos Gustav Theodor Fritsch e Eduard Hitzig, usando cães acordados como sujeitos, estimularam eletricamente a área do cérebro que veio a ser chamada de córtex motor, descobrindo que o movimento dos cães era involuntário em resposta à estimulação. A estimulação fazia com que os cães se movessem involuntariamente (Purves et al., 2008). Esse experimento levou à identificação do córtex motor como área primária do nosso cérebro, envolvida no planejamento e na execução de movimentos voluntários. A estimulação em um hemisfério cerebral resulta em movimento no lado oposto do corpo, o que ajuda a entender o controle e a execução de movimentos do corpo pelo envio de sinais ao cerebelo e à medula espinhal. Desse modo, o córtex motor primário é fundamental para iniciar os movimentos motores (Guy- Evans, 2021). 7 Podemos entender a dinâmica do córtex motor primário considerando os seguintes aspectos: • As suas áreas correspondem precisamente a partes específicas do corpo; • Nele encontramos os grandes neurônios, chamados de neurônios motores superiores (ou neurônios piramidais) e as células de saída primárias do córtex motor; • A largada no fluxo do movimento se desenvolve quando os axônios dos neurônios motores superiores saem do córtex motor com informações sobre movimentos voluntários; • Ao entrar em um dos tratos do sistema piramidal (vias ligadas com a motricidade voluntária), os neurônios motores superiores levam informações para a medula espinhal; eles viajam por meio do trato (vias) córtico-espinhal; • Logo que a informação chega à medula espinhal, ela é usada para os movimentos; • Para suprir os músculos esqueléticos no movimento, os neurônios motores superiores formam conexões com outros neurônios, chamados de neurônios motores inferiores (ou neurônios eferentes), que conectam o sistema nervoso central aos músculos; • Quando os neurônios motores superiores percorrem o trato córtico-bulbar, eles transportam informações motoras para o tronco encefálico, onde os núcleos dos nervos cranianos são estimulados em movimentos de cabeça, pescoço e face. Ambos os tratos, portanto, carregam informações específicas sobre movimentos voluntários do cérebro. O trato córtico-espinhal carrega movimentos que sinalizam os movimentos na medula espinhal. O trato córtico-bulbar transporta sinais para o tronco cerebral para causar movimento de cabeça, pescoços e rosto. O córtex motor primário geralmente não controla os músculos diretamente, mas tende a iniciar movimentos individuais ou sequências de movimentos que dependem da atividade de muitos grupos musculares. A conexão do córtex motor primário com os músculos do corpo é tão importante que qualquer dano acarreta uma capacidade prejudicada de movimento. Como veremos mais à frente, se uma pessoa sofre um derrame, que causa, por exemplo, danos ao córtex motor primário, em apenas um lado do 8 cérebro, há prejuízo de movimento no lado oposto do corpo. Se a área do dano estiver localizada em uma determinada parte do córtex motor primário, como a área da mão do homúnculo, ela afetará os movimentos apenas da parte correspondente do corpo, o que pode ocorrer, por exemplo, com a mão. TEMA 3 – CÓRTEX PRÉ-MOTOR Encontramos o córtex pré-motor (PM) na área anterior ao córtex motor primário. Embora o nome possa sugerir um papel secundário ao córtex motor primário, ele desempenha importante papel no movimento. Abrange duas áreas: a área pré-motora (APM) e a área motora suplementar (AMS). Ambas as áreas estão envolvidas em diferentes aspectos do movimento, como o planejamento da ação e a seleção de tarefas com base no contexto ambiental (Purves et al., 2008). A APM, como uma área envolvida no controle do movimento voluntário (Bear; Connors; Paradiso, 2017), está localizada à frente da mas, que planeja movimentos complexos e coordena as duas mãos, e também à frente do córtex motor primário, que controla o movimento dos músculos próximos ao eixo do corpo. Nas últimas décadas, foram desenvolvidos inúmeros estudos sobre o sistema motor; ainda assim, parece haver um consenso entre os estudiosos sobre a necessidade de melhor entendimento das funções exatas nas duas áreas do córtex pré-motor. Outro dado dos pesquisadores refere-se à ideia de que o PM é mais ativo do que o M1, durante o planejamento, e não na execução do movimento. Purves et al. (2008) abordam ainda a possibilidade de a AMS ter papel relevante para a execução sequencial de movimentos, a aquisição de habilidades motoras e o controle executivo, o que envolveria decisões relativas a mudanças, de acordo com informações sensoriais. Vejamos a seguir alguns aspectos de cada uma dessas áreas. 3.1 Área pré-motora O córtex motor pré-primário tem sido objeto de estudo especialmente com humanos e macacos. Pelo que os estudos até aqui levantaram, ele se projeta diretamente para a medula espinhal, de modo que desempenha um papel importante no controle direto do comportamento, notadamente nos músculos do tronco do corpo. Conforme já definimos, essa área está relacionada ao 9 planejamento do movimento, além de orientar o movimento espacial, o movimento sensorial, a compreensão das ações externas e o uso de padrões abstratos para tarefas específicas. Lent (2016) define que tanto a área motora pré-primária quanto a área motora suplementar foram inicialmente definidas como regiões corticais cuja estimulação elétrica era também capaz de induzir movimentos, desde que as correntes aplicadas apresentassem intensidade considerável. O autor cita o estudo do neurofisiologista americano Michael Graziano, o qual demonstra que, junto com o córtex motor primário, as áreas pré-motoras produzem movimentos que envolvem várias articulações, à semelhança dos movimentos naturais de preensão e alcance ou de esquiva. Estudos com macacos, citados por Tassinari e Durange (2014), mostram que neurônios-espelhos no córtex pré-motor têm papel importante na atenção e no movimento comportamental. Esse tipo de neurônio não só dispara quando o macaco faz uma ação, mas também quando o animal observa alguém que executa aquela mesma ação. Os autores reportam que, com o uso da Ressonância Magnética Funcional (fMRI) em humanos, é possível presumir a presença de neurônios-espelho no espelhamento de sentimentos, o que nos leva à expectativa de circuitos neurais como base para o comportamento empático, desencadeado por ações responsivas ao sofrimento de outraspessoas. 3.2 Área motora suplementar A área motora suplementar (AMS), entre o córtex primário e o córtex motor, está envolvida no planejamento de movimentos complexos e na coordenação de movimentos envolvendo ambas as mãos. Lent (2016) destaca que a estimulação da AMD leva a movimento bilaterais, com frequência, o que sugere a sua participação na coordenação de movimentos que envolvem os dois lados do corpo. Estudos eletrofisiológicos com primatas treinados concluíram que a atividade neuronal da AMS pode estar relacionada com sequências memorizadas de movimentos, iniciados voluntariamente, enquanto os neurônios do córtex pré- motor estariam ativos de modo preferencial em atividades dependentes de uma pista sensorial visual. Lent (2016) complementa esses dados ao citar um experimento com macacos, em que a atividade neural se desenrola por três células: uma em M1, 10 outra em PM e uma terceira em AMS, quando um macaco aperta três botões em sequência. Inicialmente, a sequência se dava em pistas visuais. À medida que o animal se acostumava com uma sequência, a intensidade de luz no experimento era diminuída. até que o macaco realizasse a tarefa de memória. Os neurônios em M1 mantinham uma atividade neural similar, independentemente da forma como a tarefa era realizada (visual ou disparada por pistas internas). O neurônio PM, porém, era mais ativo em resposta às pistas visuais em comparação às internas, enquanto o oposto acontecia com o neurônio da AMS. Na condição reportada por Lent (2016), se a ação requer o uso de sequências motoras aprendidas, acredita-se que a maior contribuição para a realização da tarefa ocorrE pela AMS. No exemplo do jogador de tênis que precisa saber onde a bola está, para preparar o movimento da raquete, ocorre uma integração entre o plano motor aprendido e a retroação sensorial. De outra forma, o sinal sensorial externo é o primeiro a ser recrutado no caso de um motorista com o carro parado em frente a um semáforo, esperando o sinal de trânsito para pisar no acelerador e mudar a marcha. TEMA 4 – COGNIÇÃO E MOVIMENTO Nestor convidou Célia, Helena e Lucas para dar uma volta no carro que ganhou do pai. Ao andar pelo centro da cidade, os amigos notaram que os olhos de Nestor não paravam quietos. Helena então perguntou: – Por que a gente mexe tantos os olhos? – Depende. No trânsito eu tenho que ficar atento a tudo. – Eu não me refiro só ao trânsito, mas a tudo. Quando eu visito a minha avó no sítio, eu vejo que a galinha e a coruja mantêm os olhos fixos, é a cabeça que se mexe. – É que esses bichos não têm aquela manchinha amarela no centro da retina. É por ali que se forma a imagem que vai para o cérebro. Como é que é o nome mesmo? – foi a pergunta de Lucas. Célia ia dizer que era fóvea, mas nem pode abrir a boca, pois Nestor fez uma manobra brusca e freou o carro de súbito, exclamando: - Céus! Foi por pouco! Gente, o que vocês acham de a gente dar uma paradinha ali naquela lanchonete perto do Passeio Público e comer um daqueles sanduíches que vem com dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim. Tem que ver se ela está aberta. 11 – Eu vou comer dois deles – disse Lucas. – Eu não! Vocês sabiam que um sanduíche desses tem mais de quinhentas calorias? Eu, hein! – respondeu Helena. Já na lanchonete, nossos estudantes começaram a conversar sobre o que, como e onde ocorria, no cérebro, aquele processo que fez Nestor ficar mexendo os olhos, cuidando do trânsito, até a freada brusca. No bate-papo, eles falaram sobre a evolução humana, que nos faz caminhar usando os dois pés, sobre o hábito aprendido em relação ao ato de dirigir, além do uso de processos cognitivos diretamente nos gânglios basais e no cerebelo. Leisman, Moustafa e Shafir (2016) definem que a associação entre função motora e cognição oferece subsídio para entender o bipedismo como característica evolutiva humana. Por conta disso, criou-se uma base para um maior desenvolvimento do neocórtex humano. Caminhar apoiado apenas nos pés é uma característica humana (mesmo que pássaros no solo, alguns mamíferos e primatas também caminhem de modo similar). No ser humano, o bipedismo trabalha com a coluna ereta, ao contrário de outros seres. Por conta disso, os processos cognitivos tornaram-se mais sofisticados, estando associados à necessidade de adaptação a movimentos mais complexos. Nessa evolução, a função cognitiva e a motora passaram a ser controladas por certas áreas do cérebro, como lobos frontais, cerebelo e gânglios da base, em uma interação coletiva com governança e controle executivo, dando impulso à intencionalidade dos movimentos. Os gânglios basais agrupam estruturas como núcleo caudado, putâmen, globo pálido e núcleo subtalâmico (Bear; Connors; Paradiso, 2017), que estabelecem respostas musculares. Tieppo (2021) destaca que eles “estão estreitamente ligados ao nosso comportamento voluntário inconsciente – aquele em anuência com nossa vontade, mas sem a consciência direta de sua realização”. Os gânglios basais recebem inputs do córtex cerebral, enviando-os para os centros motores do tronco cerebral, antes de retornarem para a área de planejamento do motor do córtex. Gazzaniga e Heatherton (2005) reportam que eles estão envolvidos na aprendizagem de hábitos. Lembramos que Nestor, ao dirigir, tinha o hábito automático de olhar o tráfego de veículos no trânsito. O cerebelo, ligado ao tronco encefálico, é um importante centro de controle do movimento (Bear; Connors; Paradiso, 2017). A ação brusca de Nestor ao frear o veículo é um ato de aprendizagem motora envolvido com o cerebelo. “Treinado” 12 pelo sistema nervoso, ele opera de modo independente-inconsciente (Gazzaniga e Heatherton, 2005), permitindo que Nestor consiga dirigir, olhar o trânsito e pensar no assunto da conversa ao mesmo tempo. Encadeamentos apreendidos em circuitos neurais fazem com que Nestor consiga trocar as marchas do veículo sem estar completamente focado. Caminhar ou andar de bicicleta também é resultado de aprendizagens baseadas em processos cognitivos básicos, que envolvem percepção, atenção e memória, relacionados a processos cognitivos superiores, como o raciocínio e a tomada de decisão. O cérebro capta e processa muitas informações, que não chegam todas à consciência - podem vir a se tornar conscientes, através da atenção, da focalização consciente de algumas informações ou de partes da realidade. Inicialmente, a execução de muitas tarefas é realizada por processos controlados, conscientes e posteriormente automáticos. Muitas tarefas, principalmente aquelas que requerem prática, precisam ser inicialmente percebidas conscientemente. (Balbinota; Zarob; Timm, 2011) Os efeitos do processamento cognitivo no movimento envolvem três fases: a fase perceptiva, responsável pela síntese aferente das condições externas e internas; a fase da tomada de decisão, que analisa uma situação para predispor à ação; e a fase efetora, que atende à execução do movimento programado (Gonzales, 1999). Assim, podemos entender que movimentos como equilibrar-se em uma viga, lançar objetos e deslocar-se demandam processos cognitivos de menor complexidade. Por outro lado, movimentos relacionados a papéis, ou atribuições com a participação de pessoas e objetos, requerem uma representação simbólica para a tomada de decisão. Segundo Weiten (2010), nossas vidas são repletas de tomadas de decisão. Ler um livro, levantar-se, lavar o rosto, escovar o dente, tomar ou não tomar o café são arbítrios da nossa rotina que fazemos com pouco esforço. Às vezes, contudo, temos que tomar decisões que requerem maior concentração. No momento em que chegou na lanchonete, Helena vivenciou um jogo mental que a fez lembrar da última consulta com o seu médico, que relatou com preocupação o resultadode exames recentes: aumento de glicose e do IMC (índice de massa corporal), além de sinais de sensibilidade a insulina, foram os gatilhos determinantes para a tomada de decisão. Enquanto os outros iam até o caixa, ela permaneceu sentada. – Come pelo menos um sanduíche de pão integral, geleia light e uma fatia de queijo light ! – gritou Célia. 13 – Não, obrigada – respondeu Helena. Como os demais, ela levantou-se e foi até o caixa. Gazzaniga e Heatherton (2005) abrodam a tomada de decisão a partir de dois fatores: (1) as perdas pesam mais do que os ganhos; e (2) as decisões envolvem a imaginação de eventos hipotéticos. Os autores explicam que, no chamado modelo satisficing, a tomada de decisão está ligada a um único fator, por exemplo entrar na lanchonete porque ela está aberta. Helena está bem relacionada aos fatores 1 e 2. No primeiro caso, a sua decisão, com base nos autores citados, está ligada à teoria da perspectiva: qual o custo e os benefícios da decisão? Sujeitar-se a fugir de uma regra, pois se comprometera a não vacilar com a alimentação, o que implica perder um momento saboroso com amigos. O segundo caso refere-se ao raciocínio contrafactual. Por um lado, ela irá se sentir bem em comer o sanduíche e ficar à vontade com os colegas; embora isso seja uma coisa positiva, ela irá dormir se culpando por ter vacilado com a saúde. TEMA 5 – CONTROLE E REABILITAÇÃO DO MOVIMENTO Comportamentos são produzidos por movimentos que colocam os músculos em ação. Fazemos isso ao andar, falar, comer, beber, inspirar, expirar, movimentos que compreendem uma imensa gama de comportamentos, como um simples “Como, vai Dr. Aníbal?”, dito por Lucas ao pai de Helena. Para que o movimento aconteça, precisamos de estruturas cerebrais e de células nervosas. A integração entre as estruturas está baseada em diferentes tipos de neurônios. Em linguagem mais simples, está ligada ao estímulo sensorial e à resposta comportamental; os neurônios sensoriais captam, os neurônios motores levam e os interneurônios comunicam. Isso não acontece quando há lesão em uma área cerebral relacionada ao movimento ou à degeneração de neurônios motores, condições que impedem respostas musculares. – Nossa! Você viu o acidente com aquele famoso? Bateu o carro, teve um traumatismo craniano e não consegue mais articular as palavras. Nesse exemplo, o traumatismo craniano provocou disartria, entendida como dificuldade de utilizar os músculos da fala, ou mesmo a sua fraqueza. À primeira impressão, parece ser um problema de linguagem, mas se trata de um problema motor. Lesões que afetam o tronco cerebral causam uma condição neurológica que altera a pronúncia e a articulação da fala. 14 – Você não vai mais se movimentar e infelizmente deixará de viver em dois ou três anos! Imagine ouvir isso aos 21 anos de idade, como ocorreu com Stephen Hawking! Diagnosticado como portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o físico inglês viveu até os 76 anos, motivado (dizem) por sua força psicológica e uma imensa vontade de viver e de superar novos desafios. A doença de Stephen Hawking degenerou os neurônios motores no cérebro, interferindo na transmissão de mensagens para os músculos do corpo. Com os músculos atrofiados, ele perdeu o controle voluntário, embora outros tipos de neurônios continuassem trabalhando, o que não afetou a inteligência, a memória e a personalidade. No estudo dos movimentos, descobertas recentes sobre o modo como as atividades estão ligadas às estruturas cerebrais têm sido importantes, pois nos ajudam a entender a atividade neural ligada ao movimento, por meio do estudo de potenciais de prontidão que aparecem, por exemplo, em exames de eletroencefalograma. Tais potenciais aparecem em torno de um segundo antes da realização dos movimentos (Lent, 2016). O autor atribui às técnicas de neuroimagem, com base em medidas do fluxo sanguíneo e da atividade metabólico cerebral, o domínio mais apurado que temos do mapeamento das regiões cerebrais que participam da produção de movimento. Lent defende ainda que a estimulação transcraniana nos ajuda a entender a atividade neuromotora induzida. Os avanços da tecnologia confirmam que, para interagir com pessoas, objetos e ambiente, precisamos ter controle voluntário sobre os movimentos do corpo. Perdemos o controle voluntário em situações nas quais o organismo se movimenta sem a nossa percepção. Músculos como a parede do estômago não recebem controle voluntário, mas sim o controle de outras regiões cerebrais, como o hipotálamo. Quando uma pessoa se alimenta, o estômago se contrai, sem que a pessoa tenha conhecimento, o que garante a digestão, mesmo quando a pessoa dorme. Controle voluntário não significa simplesmente estender o braço e pegar ou jogar alguma coisa, andar, correr ou nadar. Precisamos que as nossas cabeças se mexam, que os nossos olhos explorem imagens, que as nossas expressões faciais transmitam emoções pela comunicação de lábios, língua e boca. Tais movimentos voluntários são comandados pelo córtex motor, partindo da sua localização atrás do lobo frontal. A mensagem neural se move por meio do tronco 15 cerebral, pela medula espinhal, até o músculo que vai ser comandado, que se contrai em resposta a uma ordem. Pessoas que sofrem traumatismo craniano ou degeneração dos neurônios motores, como vimos nos exemplos, perdem a capacidade de controlar os movimentos do corpo. E o que isso significa? Como acontece com outras partes do cérebro, danos nos neurônios do córtex motor primário significam que eles nunca se regeneram ou são reparados. Contudo, o cérebro pode se curar e recuperar certas funções a partir da neuroplasticidade. Nesse caso, partes não danificadas podem buscar outras conexões, criando um novo mapa, que envolve outras áreas, para assumir a função, compensando danos no córtex motor. A reabilitação física é base essencial da neuroplasticidade, usada em fisioterapia, para auxiliar pacientes que sofreram acidente vascular cerebral. Tal prática permite a recuperação da função motora, uma vez que, quando um movimento específico é realizado, vemos melhoradas as chances de novos caminhos cerebrais. Uma pessoa que tenha sofrido, por exemplo, um derrame que afeta os movimentos da perna esquerda, efeito de danos no lado direito do cérebro, precisará de acompanhamento fisioterápico em sequências ou padrões de caminhada, buscando ativar o controle de grupos musculares específicos da perna esquerda. A concentração ao usar os músculos estabelece novos caminhos neurais, buscando compensar as áreas danificadas. Com a repetição dessa prática, novos caminhos surgem e se fortalecem, em benefício do movimento correto, o que passa a exigir menos concentração. 16 REFERÊNCIAS BALBINOTA, A.; A. ZAROB, M.; I. TIMM, M. Funções psicológicas e cognitivas presentes no ato de dirigir e sua importância para os motoristas no trânsito. Ciênc. cogn., Rio de Janeiro, v. 16, n. 2, p. 13-29, ago. 2011. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806- 58212011000200003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 maio 2022. BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. 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