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AULA 5 NEUROCIÊNCIA E COMPORTAMENTO HUMANO Prof. Reginaldo Daniel da Silveira 2 INTRODUÇÃO Nosso conteúdo sobre sensação, percepção e comportamento diz respeito a processos separados que estão intimamente relacionados. A sensação é a nossa entrada no mundo físico por meio de receptores sensoriais. A percepção é o caminho por onde o cérebro seleciona, organiza e interpreta as sensações. Esses dois processos se desenvolvem com a participação dos sentidos, que são a base fisiológica da percepção, e juntos eles se conectam com o fator cognição construído por meio de elementos como a aprendizagem, memória, emoções e expectativas individuais. É dessa forma que determinamos nossos comportamentos. TEMA 1 – UMA BREVE INTRODUÇÃO O casal de namorados foi ao litoral aproveitar os dias quentes. No segundo dia, Lucas ligou pra Célia contando que a Helena havia pisado numa pedra e estava reclamando de desconforto. — Machucou muito, ela precisou fazer algum procedimento médico? — Que nada Célia! Ela está usando isso para aprender mais sobre o que a sensação causa, como ela reagiu na hora do pisão e quais os reflexos disso. — Lucas, acho que nós somos uns pirados. Tudo que acontece com a gente nós usamos a neurociência pra compreender. Por certo ele deve estar falando da sensação que foi pisar na pedra. Ainda sobre isso, quero te falar daquela nossa professora do ensino médio. Te ligo daqui a pouco. Entendida como a forma pela qual os órgãos dos sentidos respondem aos estímulos externos e transmitem as respostas ao cérebro (Gazzaniga; Heatherton, 2005), a sensação refere-se a como aspectos do ambiente físico são codificados por diferentes impulsos neurais. A luz verde no semáforo é codificada pelos neurônios na retina do olho, o pisão de Helena na pedra resultou em circuitos neurais que sinalizaram a dor. Os autores referenciados explicam que os receptores são neurônios especializados nos órgãos dos sentidos. Eles enviam impulsos aos neurônios conectores no momento em que ocorre a estimulação física ou química, num processo chama de transdução. Depois da transdução nos receptores, os neurônios conectores nos órgãos dos sentidos transmitem informações para o cérebro na forma de 3 impulsos neurais. A maioria das informações sensoriais vai primeiro para o tálamo, uma estrutura no meio do cérebro. Os neurônios conectores do tálamo levam então a informação até o córtex, onde o cérebro interpreta, os impulsos neurais que chegam como visão, cheiro, som, toque ou sabor. (Gazzaniga; Heatherton, 2005, p. 147) Em conteúdos anteriores sobre o sistema nervoso (SN), vimos que ele se divide em sistema nervoso central (SNC) e sistema nervoso periférico (SNP). O primeiro (cérebro e medula espinhal se combina com o segundo (nervos sensoriais e motores). Quando Helena pisou numa pedra, o SNP entrou em cena por meio de um nervo sensorial que diferenciou a pedra de outro objeto mais macio como uma bolinha de papel. O arranjo envolveu uma rede neural em que diferentes fibras nervosas respondendo ao pisão produziram uma resposta química que determinou uma interpretação. Nesse caso, se a dor foi alta, os nervos enviaram sinais associados ao pisão. Se a dor foi baixa, os nervos enviaram sinais associados ao toque leve. Helena sentiu e percebeu a dor? A resposta indica que sensação e percepção parecem se fundir num processo contínuo, mas existem pontos distintos. Vejamos o telefonema que Celia deu a Lucas instantes depois. — Lembra da professora Janete do ensino médio? Outro dia ela me encontrou num supermercado e não me reconheceu. Depois que entramos na faculdade falei diversas vezes com ela, mas não fui reconhecida. Me disseram que ela também não reconhece outras pessoas com quem conviveu ou teve relações. O problema pelo que soube chama-se prosopagnosia, uma espécie de cegueira facial. Dizem que ela nem se reconhece quando olha no espelho. Se considerarmos Myers e DeWall (2022), quando a professora Janete olha para sua ex-aluna ou outras pessoas com quem conviveu sua sensação é normal, os receptores sensoriais detectam a informação e o sistema nervoso a transmite para o cérebro. Contudo, sua percepção é quase normal. Ela pode reconhecer as pessoas pelo jeito de andar, a cor do cabelo, a voz ou compleição física, mas não pelo rosto. Celia, soube depois que sua ex-professora sofreu um derrame há cerca de oito meses, o que poderia explicar a prosopagnosia. Doenças degenerativas ou ferimentos podem causar danos a alguma das regiões cerebrais especializadas em processar faces. O exemplo referido nos aguça a curiosidade sobre o impacto da percepção visual em Cherry (2020) por meio dos fatores: estímulo ambiental e assistido, imagem na retina, transdução, processamento neural, percepção, reconhecimento e ação. 4 • Estímulo ambiental: vivemos entre estímulos que nos atraem a atenção por meio de vários sentidos. Compreende tudo no ambiente com potencial para ser percebido. O mundo está repleto de estímulos que podem atrair a atenção por meio de vários sentidos. Por exemplo: no instante em que você lê este texto, pode haver sons no ambiente que não estejam sendo percebidos, embora possa ser provado que seus neurônios do ouvido estejam ativos, o que mostra que a percepção é mais seletiva que os sentidos. • Estímulo assistido: corresponde ao objeto específico no ambiente no qual a atenção está focada. • Imagem na retina: a luz passa pela córnea, pupila e lente do olho. A córnea ajuda a focalizar a luz quando a íris do olho controla o tamanho das pupilas para determinar quanta luz deixar entrar. A córnea e o cristalino agem juntos para projetar uma imagem invertida na retina. • Transdução: a imagem na retina é transformada em sinais elétricos pelo processo conhecido como transdução. Nesta condição, as mensagens visuais são transmitidas ao cérebro para serem interpretadas. • Processamento neural: os sinais elétricos passam por um processamento neural. O caminho de determinado sinal depende do tipo (ou seja, um sinal auditivo ou um sinal visual). • Percepção: é neste ponto que, ao se perceber o objeto de estímulo no ambiente, a pessoa tem consciência do estímulo. • Reconhecimento: a consciência do estímulo não garante a percepção, pois é necessário ao cérebro categorizar e interpretar o que a pessoa está sentido. A capacidade de interpretar e dar significado ao objeto caracteriza o passo do reconhecimento, o que no exemplo da professora Janete não aconteceu. • Ação: nesta fase, ocorre algum tipo de atividade motora em resposta ao estímulo reconhecido. Se assim ocorresse com a professora Janete ao ver sua ex-aluna Celia, ela poderia responder com uma fala de cumprimento, uma expressão facial ou um gesto. Vejamos a seguir. TEMA 2 – CONCEITOS BÁSICOS A sensação e a percepção são dois processos separados-relacionados. A sensação, podemos dizer, é a porta de entrada do mundo físico obtida por nossos 5 receptores sensoriais, e a percepção é o processo no qual o cérebro seleciona, organiza e interpreta essas sensações. Ao vermos uma maçã, por exemplo, temos a sensação dos seus contornos redondos ou de sua cor vermelha e de outra forma, nossa experiência com a fruta como um objeto unitário (redondo e vermelho) ocorre graças à percepção. A atenção vincula as qualidades elementares do objeto e a integra como objeto unitário. Esta distinção sensação- percepção, contudo, envolve mecanismos perceptivos complexos que nos permite ver o vermelho conforme o padrão de luminosidade, o que nos dá limiares de sensibilidade a estímulos. De forma objetiva, dizemos que os sentidos representam a base fisiológica da percepção e isso varia de indivíduo para indivíduo, porque o cérebro de cada um é sujeito a aprendizagem, a memória e as emoções. 2.1 Sensação Quando sentimos algo, nossos receptores sensoriais(neurônios especializados) respondem a tipos específicos de estímulos. Ao ser detectada a informação sensorial por um receptor sensorial ocorre a sensação. Desse modo, podemos dizer que sensação é a estimulação dos órgãos dos sentidos (Weiten, 2010). Como exemplo, temos a luz, que ao chegar ao olho, provoca alterações químicas nas células oculares que por sua vez transmitem mensagens, na forma de potenciais de ação para o SNC. Essa conversão é a transdução que vimos a pouco. Para acontecer, ela depende de valores mínimos detectáveis no estímulo: os limiares da estimulação, estudados pela psicofísica (relação entre estímulos físicos e suas sensações). Num cinema escuro, o celular de alguém, ao se iluminar ante uma mensagem de texto, chama a atenção de outras pessoas. Num pequeno e bem iluminado anfiteatro durante uma palestra um celular também brilha, mas não chama a atenção dos outros espectadores. O brilho no celular não muda, mas a capacidade para ser detectado varia em contextos diferentes. Myers e DeWall (2022, p. 189) explicam que limiar absoluto é a intensidade na qual uma pessoa consegue detectar um estímulo na metade das vezes. Os testes de audição localizam estes limiares para várias frequências. Ele se refere ao mínimo de um estímulo que causa uma sensação. Exemplos: chama de uma vela a 48 quilômetros de distância (visão); a batida de um relógio que gira a 6 metros 6 (audição); uma gota de perfume em uma casa de 6 cômodos (olfato) ou uma colher de chá de açúcar em um galão d’água (sabor). Os estímulos não detectados 50% do tempo entram no campo da persuasão subliminar. Fracos, esses estímulos não são notados conscientemente. É deste modo, como frisam os autores, que: “grande parte do nosso processamento de informações ocorre automaticamente, fora da vista, fora da tela do radar da nossa mente consciente”. A psicofísica também é usada para medir a diferença mínima entre dois estímulos que um sujeito é capaz de perceber, o que é chamado de limiar diferencial ou diferença mínima perceptível (Lent, 2016). Exemplos: a menor diferença no som para percebermos uma mudança no volume do rádio; a diferença mínima de peso para percebermos uma mudança entre dois montes de areia ou a diferença mínima na intensidade da luz para percebermos uma diferença entre duas lâmpadas. Um outro conceito importante é o da adaptação sensorial ilustrado por Myers e DeWall (2022), quando uma pessoa entra num ambiente cheirando a mofo. Após a exposição contínua ao estímulo (odor), as células nervosas disparam com menos frequência, e a pessoa passa a ter menos consciência deste estímulo. A adaptação sensorial é, desta forma, a diminuição da sensibilidade como consequência de Estimulação Constante. 2.2 Percepção Seja lá o que você fez antes de estar lendo este texto ou que vai fazer depois dele, seus receptores sensoriais estiveram, estão e estarão o tempo todo coletando informações do ambiente. Em última análise, é assim que interpretamos e agimos com o que está ao nosso redor. Ao processarmos, organizarmos e interpretarmos os sinais sensórios, criamos uma representação interna do estímulo, resultando no que chamamos de percepção (Gazzaniga; Heatherton, 2005). Na percepção, encontramos duas formas de processamento. No processamento de baixo para cima, denominado botton-up, as percepções são construídas a partir de informações sensoriais. Já a forma como interpretamos essas sensações é influenciada pelo nosso conhecimento disponível, nossas experiências e nossos pensamentos. Isso é chamado de processamento de cima para baixo denominado top-down. Para que isso ocorra, nossos sentidos: recebem estímulos sensoriais, na maioria das vezes utilizando células receptoras 7 especializadas; transformam esses estímulos em impulsos neurais e entregam a informação neural para nossos cérebros. Vejamos o processamento de baixo para cima da figura a seguir. Nas linhas, verticais e horizontais, não se observa um contexto que possa atribuir-se um significado e nesta condição o processamento se dá de baixo para cima. Processamento de baixo para cima I3 Na próxima figura, criaram-se à forma dois contextos diferentes. O cérebro vê letras sequenciais, e o que se percebe são as linhas formando a letra “B”. O processamento de cima para baixo usa o contexto para dar significado à imagem. Processamento de cima para baixo A I3 C Agora, na figura seguinte, cercado por números, a mesma forma agora se parece com o número “13”. Quando dado um contexto, sua percepção é impulsionada por suas expectativas cognitivas. Agora você está processando a forma de cima para baixo. Processamento de cima para baixo 12 I3 14 TEMA 3 – INFLUÊNCIAS NA PERCEPÇÃO Num bate papo entre os estudantes Celia, Helena, Nestor e Lucas, este último perguntou o que influenciaria a percepção. — Experiências passadas – disse Helena. — Educação, valores e cultura – apresentou-se Nestor. — Preconceitos e circunstâncias presentes – completou Celia. — Sabem aquele teste de Rorschach, das manchas que parecem morcegos? – manifestou-se Lucas — Eu fiz o dito. No início parecia um esquema de tarô, mas o psicólogo depois me disse que o que eu via ali era o que eu percebia e que era diferente do que outras pessoas percebiam. Em outras palavras, o grupo de amigos disse que aquilo que se constrói como percepção se torna realidade. Neste processo, existem fatores focados no observador, na situação ou no alvo. O conjunto perceptivo integra Informações 8 sensoriais que se encontram com experiências vividas, por meio das quais cria-se expectativas, explora-se contextos e na motivação e emoção se completa a percepção, que é diferente em cada indivíduo. Myers e DeWall (2022, p. 193) afirmam “ver é acreditar. Embora nos agrade menos, acreditar é ver”. O argumento leva em conta que pela experiência, passamos a esperar resultados. Tais expectativas, ao nosso ver, se constroem pelo modo como estamos motivados, pela emoção que nos afeta e deste modelo chegamos ao conjunto perceptivo, definido pelos autores como “um conjunto de tendências e pressupostos mentais que afetam (de cima para baixo) o que ouvimos, experimentamos, sentimos e vemos”. Informações processadas encadeiam cognições no padrão estímulo- resposta e estabelecem processos seletivos que gerenciam respostas comportamentais. A experiência com avaliação psicológica nos mostra que uma mancha de tinta do teste de Rorschach1, por exemplo, ativa esquemas mentais combinando o contexto do momento com as experiências armazenadas na memória. O componente perceptivo é a percepção da totalidade global vivenciada em uma multiplicidade difusa e uma impressão holística que enseja reações de humor. Villemor-Amaral e Werlang (2011) destacam que, neste teste, as cores das manchas oscilando entre claro e escuro se dissolvem entre si e provocam impressões. O humor é eufórico em tons claros e disfórico em escuros, conforme a percepção do observador. A ambiguidade de uma imagem, de qualquer modo, depende do ponto de vista do observador, conforme verificamos na figura a seguir, onde a clássica imagem “vaso de Rubin”, se focada no preto ou no branca, nos faz ver faces ou um vaso. Na figura a seguir, por meio da experiência, formamos conceitos, ou esquemas, que organizam e interpretam informações que não são familiares. Nossos esquemas preexistentes para monstros e troncos de árvore influenciam como aplicamos o processamento de cima para baixo (top-down) para interpretar sensações ambíguas (Myers; DeWall, 2022, p. 193). 1 O Teste de Rorschach, elaborado em forma de questionário, usa cartões com manchas de tinta para identificar traços da personalidade de uma pessoa. Um ponto crítico curioso é que o aplicador está sujeito ao seu próprio conjunto perceptivo para interpretar as respostas. 9 Figura1 – Conjunto perceptivo (Vaso Rubin) Créditos: Peter Hermes Furian/Shutterstock. 3.1 Expectativas Trafton (2019) informa que há décadas pesquisas mostraram que a percepção do mundo é influenciada por nossas expectativas, também chamadas de crenças anteriores. Elas nos ajudam a dar sentido ao que estamos percebendo no presente, com base em experiências passadas semelhantes. Uma sombra não percebida na imagem de raio-x de um paciente por um estagiário é interpretada por um médico experiente como um sinal ainda que fraco. A combinação do conhecimento prévio com evidências incertas conhecido como “integração bayesiana” impacta a percepção. Se o indivíduo não consegue dizer o que exatamente é algo, ele usa a experiência anterior e cria uma expectativa do que deveria ser. A autora relata que num estudo assinado por Mehrddad Jazayere, pesquisador do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em que foram registradas as atividades de 1400 neurônios do córtex frontal de animais, revelou- se que o uso de experiências anteriores no cérebro modifica a dinâmica neural e geram sequências de atividades neurais em imprecisões da percepção. Para isso são usados os esquemas mentais formados. Uma citação anterior falou que esquemas preexistentes de monstros influenciam o processamento perceptivo de cima para baixo. Ao lembrar a publicação de um jornal britânico em 1972 com imagens e o título O Monstro do Lago Ness, Myers e DeWall (2022) asseguram que quem criar em si mesmo as expectativas que as imagens causaram à maioria dos leitores do jornal, também há de ver monstros em fotografias similares. 10 3.2 Contexto Um estímulo desencadeia percepções diferentes em parte devido a um contexto imediato. O lugar em que a pessoa está, o número de pessoas ou objetos, a luz, o calor, os sons, quando caracterizam determinado contexto influenciam o processo perceptivo. A seleção de estímulos é condicionada pelas circunstâncias organizacionais em que a pessoa e o ambiente se encontram. Uma sala de aula, uma cancha de esportes, um hospital, um clube de dança, oferecem diferentes enquadramentos que influenciam diferentes perfis profissionais, como o professor, o atleta, o médico ou o músico. Diante de um contexto, há uma distinção em situações de natureza fraca ou forte, a dizer estímulo mais ou menos claro. Neste âmbito, Alvareza, Merinoa e Gonzalez (2011) ressaltam o grau de nitidez do estímulo e confiabilidade da fonte que influenciam a seleção do estímulo. Se o seu nome é Saulo ou Maria e você vai a um posto de saúde para ser atendido e ouve uma voz em algum canto com as palavras aula, sala, ou Mara, guria, você vira a cabeça imaginando que alguém lhe chamou. O que vale é o limiar absoluto do som da voz e o local em que você está. Se você estiver vendo um jogo de futebol no estádio, sua atenção perceptiva será outra. 3.3 Motivação e emoção A percepção influenciada de cima para baixo vai além das expectativas e contextos ao falarmos na relação entre motivação e emoção como fatores de influência. Pessoas com sede percebem um copo d’água mais rapidamente do que as que não tem sede. Isso é mostrado em evidências recentes, afirmam Zadra e Clore (2019), ao afirmar que o sistema perceptivo é ajustado para que o mundo seja visto de forma consistente com a motivação. Por outro lado, a emoção tem influência em níveis de percepção visual e em uma variedade de estímulos afetivos. Para os autores, a valência afetiva e a excitação transmitem informações sobre o valor e importância de objetos e eventos. Neste entendimento, a emoção do medo aumenta as chances de se perceber ameaças em potencial, o humor positivo estimula um modo atual de ver o mundo e o humor negativo estimula mudar. Pelo que se depreende em Myers e DeWall (2022) e Zadra e Clore (2019), objetos no ambiente com relevância emocional e motivacional atraem a atenção 11 e mais facilmente são detectados. As evidências mostram que a percepção é sistematicamente alterada na busca de metas, pela emoção que altera a percepção para motivar escolhas e afastar perigos. TEMA 4 – OS SENTIDOS E A PERCEPÇÃO As informações que recebemos por meio dos órgãos sensoriais determinam os comportamentos que manifestamos. Quaisquer que sejam esses órgãos, eles são especialistas em gerar respostas que envolvem perspectivas temporais, espaciais ou moleculares. No processo de transdução, uma fonte de energia informacional se transforma em energia utilizável pelo sistema nervoso no espaço neural. Transduzidos em impulsos elétricos os estímulos sensoriais são transmitidos para o cérebro por meio dos nervos cranianos em pares e que conectam o cérebro à cabeça, pescoço e tronco. É oportuno salientar a importância dos nervos cranianos nos sentidos. Eles são um conjunto de 12 pares de nervos na parte de trás do cérebro que enviam sinais elétricos entre o cérebro, rosto, pescoço e tronco. Seus nervos cranianos ajudam você a saborear, cheirar, ouvir e sentir sensações. Eles também ajudam você a fazer expressões faciais, piscar os olhos e mover a língua (veja a figura a seguir). Figura 2 – Nervos cranianos Nervo Tipo Função I Olfatório Sensorial Informação olfativa II Óptico Sensorial Informação visual III Oculomotor Motor Função muscular na pupila e no globo ocular IV Troclear Motor Movimenta o globo ocular para cima/baixo/frente e para trás V Trigêmeo Misto Envolve-se com movimento faciais (bochecha, mandíbula) VI Abducente Motor Controla o movimento dos olhos VII Facial Misto Ligado à expressão facial, mandíbula, língua e ouvidos VIII Auditivo/vestibular Sensorial Funções ligadas à audição e equilíbrio IX Glossofaríngeo Misto Função gustativa posterior da língua e controle muscular da faringe 12 X Vago Misto Função ligada à digestão e frequência cardíaca XI Acessório Motor Controla músculos do pescoço e ombro XII Hipoglosso Motor Controla músculos da língua Fonte: Silveira, 2022. 4.1 Visão Quando nossos olhos focalizam a luz na retina, temos no nível fisiológico uma percepção visual. É no interior da retina que se encontram células fotorreceptoras que transformam a luz em sinais eletroquímicos transmitidos ao cérebro. A percepção visual ocorre no córtex cerebral, mais precisamente no córtex visual primário, também chamado de área V (de visual) conforme indicam os autores a pouco citados. Nas células fotorreceptoras estão as opsinas, moléculas responsáveis pela fototransdução (Lent, 2016), que transforma a energia luminosa em sinais elétricos. Deste modo, raios luminosos entram no olho pela pupila, atravessam o cristalino e seguem em direção ao fundo do olho, onde formam imagens. Pegar uma luz e transformá-la em algo compreensível exige distinguir o primeiro plano, do plano de fundo, o que implica reconhecer objetos no meio de uma diversidade espacial. Para o reconhecimento visual ocorrer, a luz dos fotorreceptores (sinais eletroquímicos) se vale de comunicação neuronal que chega atrás da retina. Eles ajudam a detectar contrastes numa imagem (luminosidade, bordas) e ao fazer esse registro, passam os sinais eletroquímicos alterados, via nervo óptico, para o cérebro. São dois os tipos de fotorreceptores – cones e bastonetes. Os primeiros, estão no centro da retina (fóvea) e trabalham com tarefas visuais de alta acuidade, como leitura e visão de cores. Myers e DeWall (2022) explicam que boa parte dos cones tem linha direta para o cérebro, transmitindo a mensagem para a única célula bipolar envolvida com a transmissão. Eles permitem perceber cores. Os bastonetes localizam-se nas áreas periféricas da retina e respondem a baixos níveis de luz, o que explica sua importância para a visão noturna. Eles não dispõem da linha direta destacada pelos autores quanto aos cones e assim, compartilham células bipolares com outros bastonetes, enviando mensagenscombinadas. Os bastonetes possibilitam a visão em preto e branco. Gazzaniga e Heatherton (2005) destacam na visão a organização retinotópica que se refere à ordenação do caminho neuronal da retina ao lobo 13 occipital, mantendo relações espaciais de forma que as adjacências da retina correspondem às adjacências no córtex visual primário. O nervo óptico é o responsável pela visão, e o nervo oculomotor está relacionado ao movimento ocular, o movimento das pálpebras e a função da pupila e do cristalino. 4.2 Audição O sentido da audição à luz de Myers e Dewall (2022), Bradford e Harvey (2022) e Lent (2016) pode ser entendido como o som que, ao chegar até nós, é canalizado pelo ouvido e enviado para o canal auditivo externo, onde ondas sonoras atingem o tímpano, cujo tecido conjuntivo vibra quando ondas sonoras o atingem. As vibrações são transferidas para três pequenos ossos (martelo, bigorna e estribo) da cavidade cheia de ar do ouvido médio e batem contra a abertura do ouvido interno. Este, por sua vez, é formado por canais cheios de líquido, incluindo a cóclea em forma de espiral. À medida que os pequenos ossos se afastam, células especializadas na cóclea (tubo em formato de caracol no ouvido externo) detectam pressão no fluido e ativam receptores nervosos enviando sinais ao cérebro. Diferentemente da visão, que para ocorrer se vale de fotorreceptores, a audição é entregue aos mecanorreceptores (Lent, 2016), que são entendidos como receptores da pele humana, sensíveis à pressão mecânica. Isso acontece por meio de várias estruturas que filtram, amplificam e ajustam a estimulação das células sensoriais. Essas estruturas estão localizadas na orelha externa, média e interna. De modo objetivo, podemos dizer que no processo de audição: O ouvido externo coleta as ondas sonoras, que são traduzidas em ondas mecânicas pelo ouvido médio e transformadas em ondas e fluidos no ouvido interno. O nervo auditivo traduz a energia em ondas elétricas e as envia para o cérebro, que percebe e interpreta o som. (Myers; DeWall, 2022, p. 215) A audição tem sua localização no lobo temporal. Neurônios auditivos no tálamo direcionam-se para o córtex auditivo primário (chamado A1) mais especificamente para uma área chamada de giro de Heschl. Gazzaniga e Heatherton (2005) lembram que experimentos mostram que A1 tem uma organização tonotópica, o que significa que neurônios na extremidade posterior do giro de Heschl respondem melhor a frequências mais baixas, e neurônios na extremidade dianteira respondem melhor a frequências mais altas. A parte auditiva 14 do nervo auditivo/vestibular é que conduz impulsos nervosos relacionadas com a audição. 4.3 Olfação A olfação, assim como a gustação que veremos na sequência, tem um sentido químico. Na mucosa olfatória, há uma grande quantidade de receptores sensíveis a um tipo diferente de moléculas, que nos possibilita sentir e distinguir os mais variados cheiros. A proximidade entre olfato e paladar faz Tieppo (2021) lembrar daqueles dias em que estamos com o nariz entupido por uma gripe, por exemplo. Ao não sentirmos o cheiro das coisas, dizemos que a comida está insossa, sem sabor. As partículas de odor passam pelo nariz e pelas porções superior e posterior da cavidade nasal (Gazzaniga e Heatherton, 2005). Quando sentimos o cheiro ao inalar substâncias químicas pelo nariz, ativamos os receptores que desencadeiam sinais. Os sinais viajam por fibras nervosas, por meio do epitélio olfativo (camada de células sensíveis ao odor) do osso do crânio em direção aos bulbos olfativos até chegar à área olfativa do córtex cerebral. As fibras nervosas constituem o nervo olfatório, o primeiro dos doze nervos cranianos. Elas são fibras aferentes (que vão do SNP ao SNC) e eferentes (do SNC ao SNP). Seres humanos tem um sentido olfativo inferior à maioria das espécies animais que dele fazem uso para alimentar-se, acasalar-se, reproduzir-se e se organizarem socialmente. A espécie humana é mais sujeita à consciência, o que não lhe tira um papel relevante na interação com o ambiente (Lent, 2016). Somos capazes de perceber muitos milhares de cheiros diferentes, e já se sabe que possuímos cerca de 500 a 1000 genes para as moléculas receptoras do olfato. Trata-se, até o momento, da maior família de genes já descoberta. Ainda assim, a diversidade da família dos receptores moleculares do olfato não é suficiente para explicar a nossa capacidade discriminativa (Lent, 2004, p. 202) 4.4 Gustação O paladar é um estímulo que se dissolve na saliva. Gazzaniga e Heatherton (2005) informam que o ser humano tem cerca de 10 mil botões de paladar que contém os receptores e que estão localizados principalmente na língua. Os botões formam as papilas, que são células gustativas agrupadas que nos fazem distinguir o sabor. Ao nos alimentarmos, os produtos químicos do que comemos chegam às papilas gustativas, que ativam os receptores nervosos. Estes, por sua vez, enviam 15 sinais para as fibras dos nervos fácil, glossofaríngeo e vago. Desse ponto, os nervos carregam os sinais para a medula oblonga (área que comunica o cérebro com a medula espinhal) que os retransmitem para o tálamo e o córtex cerebral. Os nervos envolvidos são o facial, o glossofaríngeo e o nervo vago. 4.5 Tato Células receptoras no interior de três camadas de tecidos da pele (epiderme externa, derme média e hipoderme interna) detectam sensações táteis e transmitem sinais por nervos periféricos em direção ao cérebro. O tato é uma mistura de quatro sentidos básicos: pressão, tepidez, frio e dor (Myers; Dewall, 2022). Células na parte caudal do nervo trigêmeo recebem impulsos de tato leve das regiões proximais da face. Uma lesão neste nervo causa alterações tróficas da mucosa nasal, envolvendo a sensação do tato e temperatura. Esta última é informada por termorreceptores que são células nervosas de toque na pele. Os mecanorreceptores, também receptores de toque, executam movimentos que desencadeiam impulsos nervosos. Ambos os tipos também transmitem a sensação de pressão e dor. Em relação à dor, os autores há pouco citados postulam que não há um tipo específico de estímulo que a determine, mas diferentes nociceptores (neurônios que enviam sinais de percepção de dor em resposta a um estímulo ou dano decidual). Esses neurônios que são receptores de temperatura, toque e dor, têm sua posição terminal na camada mais externa da pele, a epiderme. Bradford e Harvey (2022) acrescenta um outro sentido relacionado a como o cérebro entende onde o corpo está no espaço, a propriocepção. Ela inclui a sensação do movimento e posição dos membros e músculos. Um exemplo seria o toque na ponta do nariz, mesmo de olhos fechados, ou a pessoa que sobre os degraus de uma escada sem olhar. TEMA 5 – PERCEPÇÃO E COGNIÇÃO NO COMPORTAMENTO A recepção de informações da realidade caracteriza a percepção, mas, além disso, esses dados são selecionados, decodificados e interpretados em três estágios: sensorial, perceptivo e cognitivo. Vimos que a fase sensorial é aquela em que receptores identificam o ambiente externo, a fase perceptiva dá uma forma aos dados sensoriais e à luz de Dortier (2007) vamos ver como ocorre a fase cognitiva. 16 Ao vermos um objeto sobre a mesa, dizemos: é um livro. Essa resposta é provocada por um significado atribuído a uma informação visual. O autor reforça que alguém que nunca viu um livro na vida não seria capaz desta dedução. Antes das cognições vem as sensações, como exterocepção, interceptação e propriocepção, ou seja, a percepção do exterior, a percepção do interior e a posição do nosso corpo no ambiente. A sequência desse processo é determinada pela atenção e motivação. Nossa percepção do mundo é finalizada e orientada conforme a atuação dos nossos órgãos sensoriais, mas também pelos nossos centros de interessee conhecimento prévio. Andamos, corremos, dançamos, conversamos, discutimos, mas para cada indivíduo, se os sentidos se assemelham aos outros indivíduos, a percepção de todos esses eventos é individualizada pelo seu próprio aprendizado pessoal. Pela nossa perspectiva, percepção e cognição estão amplamente relacionadas, pois uma afeta a outra e vice-versa. Uma coleta informações, a outra a molda pelo raciocínio, intuição e experiências armazenadas. Podemos considerar que as informações perceptivas têm o efeito de orientar decisões e ações e deste modo moldar crenças. Estas crenças influenciam o modo como percebemos pessoas e o que está em nossa volta. Deste modo, aspectos internos e externos nos levam a tomar decisões que produzem determinados comportamentos. Isso ocorre tanto inconscientemente como conscientemente. Nesse último caso, ela depende da intensidade informativa do estímulo no comportamento de outra pessoa, ou do ambiente. As duas formas estão relacionadas a processos cognitivos. Vejamos como isso ocorre em Weiten (2010) e Cherry (2022). • A percepção propriamente dita é um processo cognitivo que permite receber informações pelos sentidos como forma de responder e interagir com o mundo. • Por meio da atenção, as pessoas se concentram em um estímulo específico do ambiente. Esse processo cognitivo leva em conta a focalização consciente de uma determinada classe de eventos ou estímulos. • A linguagem é um processo cognitivo vinculado à capacidade de entender e expressar pensamentos por meio de palavras faladas ou escritas. Tal condição nos permite comunicar-se com outras pessoas e tem papel relevante para o pensamento. 17 • A aprendizagem nos leva a assimilar coisas novas, sintetizar informações e integrá-las ao conhecimento prévio. Trata-se de uma mudança relativamente duradoura num comportamento ou conhecimento adquirido devido à experiência. • A memória nos permite codificar, armazenar e recuperar informações. Sua importância está relacionada à perspectiva de reter o conhecimento sobre o mundo e suas histórias pessoais. Um conceito ligado à memória é o esquema, que pode ser entendido como um conjunto de conhecimentos sobre um objeto ou evento abstraído pela experiência anterior. • A aprendizagem requer processos cognitivos envolvidos em assimilar coisas novas, sintetizar informações e integrá-las ao conhecimento prévio. • A emoção impacta como percebemos e respondemos ao mundo ao nosso redor, como interpretamos e, posteriormente julgamos as ações do outro. Ela envolve uma experiência subjetiva (componente cognitivo), uma estimulação física (componente fisiológico) e uma manifestação específica (componente comportamental).2 • O pensamento é uma parte essencial de todo processo cognitivo. Ele permite que as pessoas se envolvam na tomada de decisões, na resolução de problemas e no raciocínio superior. É por ele que relacionamos informações, desenvolvemos operações cognitivas e construímos representações mentais. Embora não exista até o presente momento estudos determinantes sobre uma divisão nítida entre os domínios das habilidades cognitivas e habilidades perceptivas, é inegável que as duas compartilham informações. Enquanto a percepção é a coleta de informações, a cognição é a aquisição de conhecimento por meio do uso dos processos cognitivos. 2 Weiten (2010), p. 292) apresente o seguinte exemplo: ”se você estiver preso em um engarrafamento, provavelmente classificará esta estimulação como raiva. Se estiver se submetendo a um exame importante, talvez a defina como ansiedade. Se estiver comemorando seu aniversário, provavelmente irá chamá-la de alegria” 18 REFERÊNCIAS ALVAREZA, M. V. S.; MERINOA, M. T. G.; GONZALEZ, E. V. La percepción directiva: influencia del perfil cognitivo y de factores contextuales. Cuadernos de Economía y Dirección de la Empresa CEDE, v. 14, n. 2, 2011. Disponível em: <https://www.elsevier.es/es-revista-cuadernos-economia-direccion-empresa- cede-324-articulo-la-percepcion-directiva-influencia-del-S1138575811000144>. Acesso em: 16 maio 2022. BRADFORD, A.; HARVEY, A. The five (and more) human senses. LIVE SCIENCE, 8 mar. 2022. Disponível em: <https://www.livescience.com/60752- human-senses.html>. Acesso em: 16 maio 2022. CHERRY K. What Is Perception? Verywell Mind, 2020. Disponível em: <https://www.verywellmind.com/bottom-up-processing-and-perception-4584296>. Acesso em: 16 maio 2022. _____. What Is Cognition? Verywell Mind, 2022. 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