Prévia do material em texto
Caro aluno Você está recebendo o primeiro livro da Unidade Técnica de Imersão (U.T.I.) do Hexag Vestibulares. Este material tem o objetivo de retomar os conteúdos estuda- dos nos livros 1 e 2, oferecendo um resumo estruturado da teoria e uma seleção de questões dissertativas que preparam o candidato para as provas de segunda fase dos principais vestibulares. Além disso, as questões dissertativas permitem avaliar a capacidade de análise, organização, síntese e aplicação do conhecimento adquirido. É também uma oportunidade de o estudante demonstrar que está apto a expressar suas ideias de maneira sistematizada e com linguagem adequada. Aproveite este caderno para aprofundar o que foi visto em sala de aula, compreender assuntos que tenham deixado dúvidas e relembrar os pontos que foram esquecidos. Bons estudos! SUMÁRIO LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias GRAMÁTICA 3 INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS 19 LITERATURA 27 REDAÇÃO 43 INGLÊS 65 CIÊNCIAS HUMANAS e suas tecnologias HISTÓRIA GERAL 83 HISTÓRIA DO BRASIL 107 FILOSOFIA 131 SOCIOLOGIA 145 GEOGRAFIA 1 155 GEOGRAFIA 2 189 CIÊNCIAS DA NATUREZA e suas tecnologias BIOLOGIA 1 217 BIOLOGIA 2 253 BIOLOGIA 3 261 FÍSICA 1 277 FÍSICA 2 289 FÍSICA 3 309 QUÍMICA 1 325 QUÍMICA 2 339 QUÍMICA 3 359 MATEMÁTICA e suas tecnologias MATEMÁTICA 1 371 MATEMÁTICA 2 385 MATEMÁTICA 3 395 © Hexag SiStema de enSino, 2018 Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2022 Todos os direitos reservados. Coordenador-geral Raphael de Souza Motta reSponSabilidade editorial, programação viSual, reviSão e peSquiSa iConográfiCa Hexag Sistema de Ensino editoração eletrôniCa Felipe Lopes Santos Letícia de Brito Ferreira Matheus Franco da Silveira projeto gráfiCo e Capa Raphael de Souza Motta imagenS Freepik (https://www.freepik.com) Shutterstock (https://www.shutterstock.com) Pixabay (https://www.pixabay.com) Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusi- vo o ensino. Caso exista algum texto a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à dis- posição para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos direitos sobre as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições. O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra é usado apenas para fins didáticos, não repre- sentando qualquer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora. 2022 Todos os direitos reservados para Hexag Sistema de Ensino. Rua Luís Góis, 853 – Mirandópolis – São Paulo – SP CEP: 04043-300 Telefone: (11) 3259-5005 www.hexag.com.br contato@hexag.com.br LINGUAGENS CÓDIGOS e suas tecnologias ENTREENTRE LETRASLETRAS 1 U.T.I. GRAMÁTICA LINGUAGENS CÓDIGOS e suas tecnologias ENTREENTRE LETRASLETRAS 1 U.T.I. 4 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s formação de palavras As palavras da língua portuguesa são formadas basica- mente pelos processos de derivação e composição, mas também por onomatopeia, neologismo e hibridismo. Formação por derivação No processo de formação por derivação, a palavra primiti- va (primeiro radical) sofre acréscimo de afixos. São seis os tipos de formação por derivação. § Derivação prefixal: acréscimo de prefixo à pala- vra primitiva. Exemplo: in-capaz. § Derivação sufixal: acréscimo de sufixo à pala- vra primitiva. Exemplo: papel-aria. § Derivação prefixal + sufixal: acrescenta-se um pre- fixo e um sufixo a um mesmo radical de modo sequen- cial, ou seja, os afixos não são encaixados ao mesmo tempo. Percebe-se facilmente, ao remover um dos afi- xos, a presença de uma palavra com sentido completo. Exemplo: in-feliz-mente. § Derivação parassintética: acréscimo simultâneo de um prefixo e de um sufixo a um mesmo radical ou à palavra primitiva. Em geral, as formações parassintéticas originam- -se de substantivos ou adjetivos para formarem verbos. Exemplo: en-triste-cer. § Derivação regressiva: ocorre redução da palavra pri- mitiva. Nesse processo, formam-se substantivos abstratos por derivação regressiva de formas verbais. Exemplo: ajuda (substantivo abstrato da deriva- ção regressiva do verbo ajudar). § Derivação imprópria: ocorre a alteração da classe gramatical da palavra primitiva. Exemplos: (o) jantar – de verbo para substantivo; (um) Judas – de substantivo próprio para comum. Formação por composição Nos processos de formação de palavras por composição, ocorre a junção de dois ou mais radicais. Palavras com significados distintos formam uma nova palavra com um novo significado. Exemplo: guarda (flexão do verbo guardar; sentinela) + roupa (vestuário) = guarda-rou- pa (mobiliário). São dois os processos de formação por composição: § Composição por justaposição: quando não ocorre a alteração fonética das palavras. A justaposição tam- bém pode ocorrer por hifenização. Exemplos: girassol (gira + sol); guarda-chuva (guarda + chuva). § Composição por aglutinação: quando ocorre alte- ração fonética, em decorrência da perda de elementos das palavras. Exemplos: aguardente (água + ardente); embora (em + boa + hora). Outros processos Neologismo Neologismo é o nome dado ao processo de criação de novas palavras. São três tipos: Semântico (a palavra já existe no dicionário, mas adquire um novo significado); Le- xical (criação de uma palavra nova, sem necessariamente seguir regras formais); Sintático (construção sintática que passa a ter um significado específico). Exemplo: Originalmente, a palavra bonde significava certo veículo utilizado como meio de transporte. Hoje, na variedade linguística utilizada por falantes inse- ridos no estilo do funk carioca, foi dado um novo significado para a palavra bonde: turma, galera. FORMAÇÃO DE PALAVRAS 5 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s artigo Artigo é a palavra que se antepõe a um substantivo (é um marcador pré-nominal), com a função inicial de determiná- -lo ou indeterminá-lo. Subdivide-se em dois grupos: defini- dos e indefinidos. § Artigos definidos: determinam o substantivo de ma- neira precisa. São eles: o(s), a(s). Exemplo: Preciso que você me traga a cadeira branca. (O artigo definido marca a necessidade de se pegar uma cadeira determinada.) § Artigos indefinidos: determinam o substantivo de maneira vaga/imprecisa. São eles: um(uns), uma(s). Exemplo: Preciso que você me traga uma cadeira branca. (O artigo indefinido marca a necessidade de se pegar uma cadeira qualquer, indeterminada.) Artigo combinado com preposições A contração de artigos com preposições é um movimento essencial para a demarcação de sentido em construções textuais. Muitas vezes, fazer ou não fazer a contração do artigo com a preposição pode alterar significativamente o entendimento que se tem de um texto. Esses eventos tex- tuais serão discutidos no próximo tópico (o artigo aplicado ao texto). Ficaremos aqui com as possibilidades de contra- ção do artigo com a preposição. Preposições Artigos o, os a, as um, uns uma, umas a ao, aos à, às — — de do, dos da, das dum, duns duma, dumas em no, nos na, nas num, nuns numa, numas por pelo, pelos pela, pelas — — substantivo Classe de palavras variável que dá nome aos seres, obje- tos e coisas em geral. Os substantivos são classificados em próprios, comuns, concretos, e abstratos. Eles se fle- xionam em número, gênero e grau. adjetivo Palavra que acompanha e modifica o substantivo, podendo caracterizá-lo ou qualificá-lo. Nomes substantivos e nomes adjetivos No contexto de uma frase, é possível identificar palavras de outras classes, entre elas os adjetivos, que se transformam em nomes (substantivos) desde que precedidas de um artigo. verbo Formas nominais do verbo O infinitivo, o particípio (regular e irregular) e o gerúndio são chamados formas nominaisdo verbo porque podem funcionar como nomes – substantivo, adjetivo, advérbio. § Infinitivo O comer demais faz mal. (substantivo) O viver é bom. (substantivo) § Gerúndio Ela bebeu chá fervendo. (advérbio) Fervendo, desligue. (advérbio) § Particípio A feira foi inaugurada. (adjetivo) O parque foi inaugurado. (adjetivo) ARTIGOS, SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS VERBOS: NOÇÕES PRELIMINARES E MODOS INDICATIVO E SUBJUNTIVO 6 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Modos e tempos verbais Os modos verbais traduzem a intencionalidade com que se emprega a forma verbal. São classificados em indi- cativo (fato), subjuntivo (desejo, hipótese) e imperativo (ordem, apelo). Quando lemos, falamos ou escrevemos, posicionamo-nos em um determinado tempo. No momento do enunciado, os verbos ocorrem (presente), ocorreram (passado) ou ocorrerão (futuro), dependendo do modo verbal. Tempos do modo indicativo Presente § Indica processo no momento da fala. Faço minhas escolhas. (atualmente, agora) § Indica processo habitual, constante, fato real, verdade. Ela cumpre seus acordos. (ação habitual) § Indica processo ocorrido até o momento da declaração. Moro com meus colegas. § Em narrativas históricas (presente histórico), em lugar do pretérito perfeito. Colombo chega à América e, em 1492, conquis- ta o Novo Mundo. § Em acontecimento próximo, em lugar do futuro. Não posso almoçar contigo amanhã. § Em expressões condicionais (se...), em lugar do subjuntivo. Se tudo corre bem, podemos viajar. Pretérito perfeito § Indica um processo, algo já realizado, concluído, termina- do, sem necessidade de referência à outra ação anterior ou contemporânea. João saiu ontem. Fiz as compras. Cheguei. § Indica processo ocorrido antes da declaração expressa pelo verbo. Em 1939, Hitler invadiu a Polônia. § É frequente o emprego do pretérito perfeito compos- to – presente do indicativo do verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do verbo principal. Pode indicar ato habitual: Eu tenho lido bastante. Os alunos têm estudado muito. § Também pode indicar fato ocorrido até o momento da declaração: Tenho comprado muitos carros iguais a este. Pretérito imperfeito § Indica um processo ocorrido anteriormente ao mo- mento da declaração, mas contemporâneo a outro fato passado. Eu ouvia samba quando se deu o estouro. Ele comia quando da sua chegada. § É empregado para indicar processo em desenvolvimento. Eu dançava quando ele entrou. § Indica processo em continuidade, habitual, constan- te, frequente. Eu residia nesta casa. § Indica processo idealizado, não realizado. Pretendíamos ir à Bahia, mas o frio repentino não permitiu. § Como manifestação de cortesia, de polidez, em lugar do presente do indicativo ou do imperativo. Queria só um abraço. § Em lugar do futuro do pretérito do indicativo. Se ele pagasse, já estávamos (em vez de “estaríamos“) na França. Pretérito mais-que-perfeito § Indica uma ação passada, um fato concluído que acon- teceu antes de outro fato (ambos no passado). O trem partira quando ele enfim chegou. Ela estivera presente a toda reunião. Ele dançara muito. § Em construções exclamativas. Quem lhe dera tê-la nos braços naquela tarde! § Em lugar do pretérito imperfeito do subjuntivo. Nadou como se estivera (estivesse) à beira da morte. § É bastante frequente o emprego do mais-que-perfeito composto – imperfeito do verbo auxiliar “ter“ ou “ha- ver“ e particípio do verbo principal. Eu tinha falado bastante. Já havia ocorrido o pior. 7 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Futuro do pretérito § Exprime ação futura em relação ao passado, ação que te- ria ocorrido em relação a um fato já ocorrido no passado. Eu iria se você chegasse a tempo. § Designa ações posteriores à época em que se fala. Ainda ficaria. Esperaria a noite. (Marques Rabelo) § Designa incerteza, probabilidade, dúvida, suposição so- bre fatos passados. Seriam mais ou menos dez horas quando che- garam. (Monteiro Lobato) § Forma polida do presente para denotar um desejo. Eu precisaria namorar aquela moça. § O futuro do pretérito composto expresso – verbo auxi- liar “ter“ ou “haver“ no futuro do pretérito e particípio do verbo principal. Eu teria dito (diria) umas verdades a você. § Indica fato que teria acontecido no passado mediante certa condição. Teria sido diferente, se eu a amasse. (Ciro dos Anjos) § Indica possibilidade de um fato passado. Teria sido melhor não escrever nada. (Ruben Braga) § Indica incerteza sobre fatos passados em certas frases interrogativas. Ele só teria falado ou também...? Futuro (do presente) § Indica a ação ainda não ocorrida, mas já declarada pelo verbo. Ora (direis) ouvir estrelas! / (...) E eu vos direi: amai para entendê-las! (Olavo Bilac) § Empregado para indicar um fato aproximado ou para enfatizar uma expressão. Na África, quantos não estarão mortos de fome! § Indica incerteza, probabilidade, dúvida, suposição. Há uma várzea em meu sonho, mas não sei onde será. (Augusto Meyer) § Indica fatos de realização provável. Vem, dizia ele na última carta; se não vieres depres- sa, acharás tua mãe morta. (Machado de Assis) § Como forma polida, em vez do presente. Mas como foi que aconteceram? E eu lhe direi: sei lá, aconteceram: eis tudo. (Drummond) § É frequente o emprego do futuro do presente compos- to – futuro do presente do verbo auxiliar “ter“ ou “ha- ver“ e particípio do verbo principal. Quando você chegar, eu já terei ido. § Indica ação futura a ser consumada antes de outra. Quando o guarda chegar, já teremos fugido. § Indica possibilidade de um fato passado. Terá passado o furacão dentro de oito dias? § Indica certeza de uma ação futura. Se não voltarmos em algumas horas, teremos perdido a oportunidade. Tempos do modo subjuntivo Presente § Expressa hipótese, desejo, suposição, dúvida. Tomara que você tenha boas festas! Bons ventos o levem! Pretérito imperfeito § É empregado nas orações subordinadas da oração principal em que o verbo esteja no pretérito imper- feito, no pretérito perfeito ou no futuro do pretérito do indicativo. Ela desejava que todos morressem. Esperei que eles fizessem os trabalhos direito. Apreciaria que você me beijasse. Futuro simples § Designa fato provável, eventualidade futura. Quando ela vier, encontrará uma bagunça. 8 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s modo imperativo O modo imperativo manifesta ordem, conselho, súplica ou exortação do emissor e pode ser imperativo afirmativo ou imperativo negativo. § Se beber, não dirija! § Dorme, que já está na hora! TABELA PARA CONJUGAÇÃO DO MODO IMPERATIVO presente do indicativo imperativo afirmativo imperativo negativo presente do subjuntivo eu compro x x (ainda que) eu compre tu compras compra tu* compres tu (ainda que) tu compres ele compra compre você compre você (ainda que) ele compre nós compramos compremos nós compremos nós (ainda que) compremos nós vós comprais comprai vós compreis vós (ainda que) vós compreis eles compram comprem vocês comprem vocês (ainda que) eles comprem *As duAs pAssAgens do presente do IndIcAtIvo pArA o ImperAtIvo AfIrmAtIvo ImplIcAm nA perdA do “s” fInAl que compõe A construção verbAl. vozes verbais O fato expresso pelo verbo pode ser representado em três vozes. § João cortou árvores. O fato (cortou) é praticado pelo sujeito (João). Por- tanto, o verbo está na voz ativa. § Árvores foram cortadas por João. O sujeito (árvores) é alvo, ou seja, sofre a ação de João. Portanto, o verbo está na voz passiva. § João cortou-se com o machado. O sujeito (João) é alvo (cortou-se) do machado. Portanto, o verbo está na voz reflexiva. Voz passiva analítica § A voz passiva dos verbos é formada pelo verbo auxiliar ser, conjugado no tempo e na pessoa desejados, segui- do do particípio doverbo principal: A árvore foi cortada pelo lenhador./ Muitas mansões foram alugadas em Bra- sília./ Muita gente ainda vai ser julgada inocente. § A voz passiva analítica sempre é formada por tempos compostos – ser + verbo principal transitivo direto –, bem como pelos verbos auxiliares ter e haver. Têm sido (foram) alugadas muitas mansões em Brasília. Voz passiva sintética § Formada com o verbo principal transitivo direto na voz ativa, na terceira pessoa do singular ou do plural, acom- panhado da partícula apassivadora “se“. Aluga-se casa. Alugam-se casas. Compra-se apartamento. Compram-se apartamentos. Voz reflexiva § Necessariamente formada pelos verbos pronominais – acompanhados de “me“, “te“, “se“, “nos“, “vos“, “se“ –, cuja ação designada parte do sujeito e volta-se para ele mesmo. Eu me feri. (O ato e o efeito do ferimento par- tem e voltam para o “eu”, que é o sujeito.) Tu te feriste. Ele se machucou. Nós nos prejudicamos. Eles se feriram com faca. advérbios Os advérbios formam uma classe de palavras invariá- veis que se associam a verbos, a adjetivos ou a outros advérbios, cada qual com intenções bastante específicas. § Associam-se a verbos para indicar com maior precisão as circunstâncias da ação verbal. Exemplo: Paula viajou ontem. (O advérbio “ontem” indica com maior precisão quando Paula viajou.) VERBOS: MODO IMPERATIVO E VOZES VERBAIS ADVÉRBIOS 9 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s § Associam-se a adjetivos para intensificar o adjetivo já apresentado. Exemplo: Roberto ficou bastante preocupado. (O advérbio “bastante” intensifica o adjetivo pre- ocupado.) § Associam-se a advérbios para intensificar outro advér- bio já apresentado. Exemplo: O jogador do Corinthians está se recuperando muito bem. (O advérbio “muito” intensifica o outro advérbio “bem”.) Classificação dos advérbios Os advérbios e as locuções adverbiais estabelecem diferen- tes relações semânticas, que são as seguintes: § De lugar: aqui; antes; dentro; ali; adiante; fora; acolá; atrás; além; lá; detrás; aquém; cá; acima; onde; perto; aí; abaixo; aonde; longe; debaixo; algures; defronte; ne- nhures; adentro; afora; alhures; aquém; embaixo; exter- namente; a distância; a distância de; de longe; de perto; em cima; à direita; à esquerda; ao lado; em volta, etc. § De tempo: hoje; logo; primeiro; ontem; tarde; outro- ra; amanhã; cedo; depois; ainda; antigamente; antes; doravante; nunca; então; ora; jamais; agora; sempre; já; enfim; afinal; amiúde; breve; constantemente; imediata- mente; primeiramente; provisoriamente; sucessivamente; às vezes; à tarde; à noite; de manhã; de repente; de vez em quando; de quando em quando; a qualquer momen- to; de tempos em tempos; em breve; hoje em dia, etc. § De modo: bem; mal; assim; melhor; pior; depressa; de- balde; devagar; às pressas; às claras; às cegas; à toa; à vontade; às escondidas; aos poucos; desse jeito; desse modo; dessa maneira; em geral; frente a frente; lado a lado; a pé; de cor; em vão; e a maior parte dos que termi- nam em ”–mente”: calmamente; tristemente; proposi- tadamente; pacientemente; amorosamente; docemente; escandalosamente; bondosamente; generosamente, etc. § De afirmação: sim; certamente; realmente; decerto; efetivamente; certo; decididamente; deveras; indubita- velmente, etc. § De negação: não; nem; nunca; jamais; de modo algum; de forma alguma; tampouco; de jeito nenhum, etc. § De dúvida: acaso; porventura; possivelmente; provavel- mente; talvez; casualmente; por certo; quem sabe, etc. § De intensidade: muito; demais; pouco; tão; em exces- so; bastante; mais; menos; demasiado; quanto; quão; tanto; que (quão); tudo; nada; todo; quase; de todo; de muito; por completo; extremamente; intensamente; gran- demente; bem (aplicado a propriedades graduáveis), etc. § Interrogativos: onde; aonde; donde; quando; como; por que; empregados em interrogações diretas ou indi- retas – entende-se por interrogações diretas aquelas em que as palavras em destaque iniciam uma frase interro- gativa. As interrogações indiretas, por sua vez, são aque- las em que os termos destacados não iniciam a frase. Interrogação direta Interrogação indireta Como isso aconteceu? Queria saber como isso aconteceu. Onde ela mora? Precisava saber onde ela mora. Por que ela não veio? Quero entender por que ela não veio. Aonde você vai? Quero saber aonde você vai. Donde vem esse rapaz? Necessito entender donde vem esse rapaz. Quando que chega a carta? Quero saber quando chega a carta. Locuções adverbiais Locuções adverbiais são expressões formadas a partir de duas ou mais palavras que exercem função adverbial. Em geral, são constituídas por uma preposição seguida de ou- tra palavra, como substantivo, advérbio ou verbo, que seja capaz de indicar a circunstância. § De lugar: à esquerda; à direita; de longe; de perto; para dentro; por aqui, etc. § De afirmação: por certo; sem dúvida, etc. § De modo: às pressas; passo a passo; de cor; em vão; em geral; frente a frente, etc. § De tempo: à noite; de dia; de vez em quando; à tarde; hoje em dia; nunca mais, etc. Amanhã precisarei acordar cedinho. Ela mora pertinho daqui. O advérbio aplicado ao texto Em relação aos advérbios aplicados ao texto, existe uma gradação semântica entre os advérbios frásicos e advérbios extrafrásicos, além da distribuição de advérbios modais (terminados em –mente). § Advérbios frásicos: são aqueles que se relacionam com um elemento específico da frase. Não apresentam mar- cas de deslocamento (vírgulas). Exemplo: O veículo corre muito. § Advérbios extrafrásicos: são aqueles exteriores à frase, que estão no âmbito da enunciação e, geralmente, des- locados por vírgula. Exemplo: Ele, infelizmente, não jogou bem hoje. Observação: os advérbios extrafrásicos atuam como elementos de avaliação do enunciador acerca do conteúdo enunciado. 10 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s § Distribuição textual de advérbios modais (mais de um advérbio terminado em “–mente”) Quando ocorre uma frase que congrega mais de um advérbio terminado em “–mente”, deve-se fazer a con- tração dos advérbios centrais (retirar o termo “– men- te”) e preservar apenas o último advérbio flexionado. Errado: Ele saiu calmamente, sorrateiramen- te e rapidamente. Certo: Ele saiu calma, sorrateira e rapidamente. pronome Pronome é a palavra variável que identifica os participantes da interlocução (pessoas do discurso), os seres e objetos no mundo, além de eventos ou situações aos quais o dis- curso faça referência. Em geral, os pronomes, operam em conjunto com os subs- tantivos (nomes), podendo substituí-los, referenciá-los ou, ainda, acompanhá-los em um processo qualificativo. Pronomes pessoais Os pronomes pessoais são aqueles que substituem os substantivos. Eles se caracterizam por evidenciar as três pessoas do discurso. Para designar a pessoa que fala (1ª pessoa), são usados os pronomes eu (singular) e nós (plu- ral). Para marcar a pessoa com quem se fala (2ª pessoa), são utilizados os pronomes tu (singular) e vós (plural). Por fim, para apontar a pessoa de quem se fala (3ª pessoa), são utilizados ele(s) e ela(s). De acordo com o posicionamento nos processos sintáticos, os pronomes pessoais podem funcionar como: § Caso reto: são pronomes pessoais que, em uma cons- trução sintática, ocupam a posição de sujeito ou de predicativo do sujeito. Exemplos: Eu fiquei bastante chateado. (sujeito) O encarregado do projeto sou eu. (predicativo do sujeito) § Caso oblíquo: são pronomes pessoais que, em uma construção sintática, ocupam a posição de comple- mento verbal (objeto direto ou indireto) ou complemento nominal. Exemplo: Compraram-nos alguns presentes. (O pronome é complemento do verbo comprar.) pronomes possessivos São pronomes que acrescentam à pessoa gramatical a ideia de posse sobre algo. Exemplo: Este dinheiro é meu.pronomes demonstrativos Os demonstrativos são utilizados para situar, no espaço e no tempo, a pessoa ou a coisa designada. O aspecto funda- mental dos pronomes demonstrativos é sua capacidade de indicar um objeto sem nomeá-lo. Também evidenciam o po- sicionamento de uma palavra em relação a outras palavras ou em relação a um contexto. Esses processos ocorrem em relações espaciais, temporais e sintáticas. § Os pronomes demonstrativos dividem-se em dois gru- pos: os variáveis e os invariáveis. § Variáveis: este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s), aquela(s). § Invariáveis: isto, isso, aquilo. Relações espaciais § Os pronomes este, esta e isto indicam que o item/ objeto está perto de quem fala. Exemplo: Usarei este lápis (aqui) mesmo. § Os pronomes esse, essa e isso indicam que o item/ objeto está perto da pessoa a quem se fala. Exemplo: Usarei esse lápis (aí) mesmo. PRONOMES PESSOAIS PRONOMES DEMONSTRATIVOS E POSSESSIVOS 11 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s § Os pronomes aquele, aquela e aquilo indicam que o item/objeto está afastado tanto de quem fala como da pessoa a quem se fala. Exemplo: Usarei aquele lápis (ali) mesmo. Relações temporais § O pronome este e suas variantes são utilizados para indicar tempo presente em relação ao momento em que se fala. Exemplo: Esta noite eu vou ao shopping / Neste mês chove bastante. § O pronome esse e suas variantes são utilizados para indicar tempo futuro ou passado recente em relação ao momento em que se fala. Exemplo (futuro): Nessa reunião definiremos os parâmetros de venda. Exemplo (passado): Esse aumento da crise ocorreu em todos os países da América do Sul. § O pronome aquele e suas variantes são utilizados para indicar tempo passado distante em relação ao momento em que se fala. Exemplo: Naquela época ainda havia telefones de rua, chamados de orelhões. / Aquelas praças costumavam ser seguras. Relações Sintáticas § O pronome este e suas variantes são utilizados para anunciar/adiantar o que será dito na sequência frasal ou para remeter a um termo imediatamente anterior (recém-mencionado). Exemplo (anunciando informação): O maior problema está neste relatório: ele não dá conta de explicar todos os problemas. Exemplo (retomando termo recente): Não sei se eu adquiro uma moto ou um carro. Acho que este (último = carro) é um pouco mais seguro. § O pronome esse e suas variantes são utilizados para retomar um termo, uma ideia ou uma oração já mencionados. Exemplo: Duas vezes por ano, o Sol atinge sua maior declinação em latitude. Esse fenômeno é conhecido como solstício. § O pronome aquele e suas variantes são utilizados para retomar um termo mais distante entre dois apresenta- dos em uma sentença (em geral, ele é trabalhado em conjunto com o pronome este, que retomará o item mais próximo). Exemplo: Na empresa há dois funcionários que se destacam: Pedro e Rogério. Este pela sua or- ganização, e aquele pela sua eficiência. pronomes indefinidos Os pronomes indefinidos fazem referência à 3a pessoa do dis- curso, dando-lhe caráter indeterminado, vago ou impreciso. Exemplo: Alguém quebrou os copos da cristaleira. Nota-se que o termo alguém refere-se a uma terceira pes- soa (de quem se fala), mas não é possível atribuir identi- dade a essa pessoa, pois a informação é vaga e imprecisa. pronomes relativos Pronomes relativos são aqueles que se referem a nomes anteriormente mencionados (antecedentes), estabelecen- do com eles relação. Exemplo: A escola tem um calendário que pos- sui muitos feriados. No exemplo apresentado, o pronome “que” recupera o subs- tantivo calendário (o antecedente). Observação 1: Os pronomes que, o qual, os quais, a qual e as quais são equivalentes; no entanto, o pronome que é invariável, cabendo em qualquer circunstância, enquanto os demais necessitam de um substantivo já determinado. Exemplo: Esta é a garota com a qual conversei. Observação 2: Para evitar ambiguidades e outros pro- blemas de sentido, o pronome relativo onde deve ser uti- lizado para recuperar lugares físicos/localidades (regiões, cidades, ambientes, etc.). Exemplo: Este é o armazém onde estocamos os produtos. Observação 3: O pronome relativo cujo não realiza a recu- peração de um antecedente, mas aponta para uma relação de posse com o consequente. PRONOMES RELATIVOS, INTERROGATIVOS E INDEFINIDOS 12 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Exemplo: A mulher cuja casa foi invadida já está em segurança. Observação 4: O pronome quem faz referência a pesso- as e ocorre sempre precedido de preposição. Exemplo: Aquele é o sujeito a quem devo mui- to dinheiro. pronomes interrogativos Os pronomes interrogativos são utilizados nas formulações de perguntas diretas ou indiretas. Fazem referência direta aos pronomes de 3ª pessoa. Os principais pronomes in- terrogativos são que, quem, qual e quanto (e suas va- riações). Entende-se como pergunta direta aquela em que o pronome interrogativo aparece no início do questiona- mento (há sinal de interrogação no fim da pergunta). A pergunta indireta, por sua vez, é aquela em que o pronome interrogativo aparece em outra posição na frase, e não no início (não há sinal de interrogação). Pergunta direta Pergunta indireta Quanto custou a reforma da casa? Gostaria de saber quanto custou a reforma da casa. U.T.I. - Sala 1. (FUVEST 2018) Leia o texto. Um tema frequente em culturas variadas é o do desafio à ordem divina, a apropriação do fogo pelos mortais. Nos mitos gregos, Prometeu é quem rouba o fogo dos deuses. Diz Vernant que Prometeu representa no Olim- po uma vozinha de contestação, espécie de movimento estudantil de maio de 1968. Zeus decide esconder dos homens o fogo, antes disponível para todos, mortais e imortais, na copa de certas árvores – os freixos – por- que Prometeu tentara tapeá-lo numa repartição da car- ne de um touro entre deuses e homens. Na mitologia dos Yanomami, o dono do fogo era o jaca- ré, que cuidadosamente o escondia dos outros, comen- do taturanas assadas com sua mulher sapo, sem que ninguém soubesse. Ao resto do povo – animais que na- quela época eram gente – eles só davam as taturanas cruas. O jacaré costumava esconder o fogo na boca. Os outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir e soltar as chamas. Todos fazem coisas engraçadas, mas o jacaré fica firme, no máximo dá um sorrisinho. betty mIndlIn. o fogo e As chAmAs dos mItos. revIstA Estudos AvAnçAdos. AdAptAdo. a) O emprego do diminutivo nas palavras “vozinha” e “sorrisinho”, consideradas no contexto, produz o mesmo efeito de sentido nos dois casos? Justifique. b) Reescreva o trecho “Os outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir (...). Todos fazem coisas engra- çadas”, substituindo o verbo “fazer” por sinônimos adequados ao contexto em duas de suas três ocor- rências. 2. (UNICAMP 2018) Enquanto viveu em Portugal, o es- critor Mário Prata reuniu centenas de vocábulos e ex- pressões usados no português falado na Europa que são diferentes dos termos correspondentes usados no português do Brasil. Reproduzimos abaixo um dos ver- betes de seu dicionário. Descapotável É outra palavra que em português faz muito mais senti- do do que em brasileiro. Não é mais claro dizer que um carro é descapotável, do que conversível? márIo prAtA. dicionário dE português: schifAizfAvoirE. são pAulo: globo, 1993, p. 48. a) Identifique os dois afixos que formam a palavra “des- capotável” a partir do substantivo “capota” (cobertura de um automóvel) e explique a função de cada um. b) Explique por que o autor considera, com certo humor, que a palavra “descapotável“ do português europeu faz mais sentido de que o termo “conversível”, usado no português brasileiro. 3. (UERJ 2018) MORTE E VIDA SEVERINA (AUTO DE NA- TAL PERNAMBUCANO) O retirante explica ao leitor quem é e a que vai — O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. 13 U.T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem fala ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia. Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida). neto, João cAbrAl de melo. MortE E vidA sEvErinA E outros poEMAs EM voz AltA. rIo de JAneIro: José olympIo, 1980. O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. (l. 2-3) E se somos SEVERINOS iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte SEVERINA: (l. 40-43) No poema, o autor lança mão da mudança de classe de palavras como recurso expressivo da criação poética. a) Com base nisso, indique a classe gramatical das palavras sublinhadas, na ordem em que aparecem. b) Em seguida, explique o sentido que o termo severi- na assume na expressão “morte severina”, tendo em vista a representação que se faz do retirante. 4. (UERJ 2018) Ao oferecer-se para ajudar o cego, o ho- mem que depois roubou o carro não tinha em mira, nesse momento preciso, qualquer intenção malévola, muito pelo contrário, o que ele fez não foi mais que obedecer àqueles sentimentos de generosidade e al- truísmo que são, como toda a gente sabe, duas das melhores características do gênero humano, podendo ser encontradas até em criminosos bem mais empe- dernidos do que este, simples 1ladrãozeco de auto- móveis sem esperança de avanço na carreira, explo- rado pelos verdadeiros donos do negócio, que esses é que se vão aproveitando das necessidades de quem é pobre. (...) Foi só quando já estava perto da casa do cego que a ideia se lhe apresentou com toda a natu- ralidade (...). Os cépticos acerca da natureza humana, que são muitos e teimosos, vêm sustentando que se é certo que a ocasião nem sempre faz o ladrão, tam- bém é certo que o ajuda muito. 2Quanto a nós, permi- tir-nos-emos pensar que se o cego tivesse aceitado o segundo oferecimento do afinal falso samaritano, naquele derradeiro instante em que a bondade ainda poderia ter prevalecido, referimo-nos o oferecimento de lhe ficar a fazer companhia enquanto a mulher não chegasse, quem sabe se o efeito da responsabilidade moral resultante da confiança assim outorgada não teria inibido a tentação criminosa e feito vir ao de cima o que de luminoso e nobre sempre será possível encontrar mesmo nas almas mais perdidas. sArAmAgo, José. EnsAio sobrE A cEguEirA. são pAulo: compAnhIA dAs letrAs, 1995. O narrador de Ensaio sobre a cegueira emite uma opi- nião sobre o homem que roubou o carro ao chamá-lo de ladrãozeco (ref. 1). a) Considerando os diferentes tipos de narrador, classi- fique o do romance de José Saramago. b) Em seguida, indique o processo de formação da pala- vra ladrãozeco e aponte o morfema responsável pela avaliação depreciativa que se faz do ladrão. 5. (UNESP 2018) Leia o poema de Murilo Mendes (1901-1975). O PASTOR PIANISTA Soltaram os pianos na planície deserta Onde as sombras dos pássaros vêm beber. Eu sou o pastor pianista, Vejo ao longe com alegria meus pianos Recortarem os vultos monumentais Contra a lua. Acompanhado pelas rosas migradoras 1Apascento os pianos: gritam E transmitem o antigo clamor do homem 14 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Que reclamando a contemplação, Sonha e provoca a harmonia, Trabalha mesmo à força, E pelo vento nas folhagens, Pelos planetas, pelo andar das mulheres, Pelo amor e seus contrastes, Comunica-se com os deuses. (As metAmorfoses, 2015) 1apascentar: vigiar no pasto; pastorear. a) Explique por que se pode afirmar que o verso inicial desse poema opera uma perturbação ou quebra do discurso lógico. b) Sem prejuízo para o sentido dos versos, que ex- pressões poderiam substituir os termos “onde” (2º verso da 1ª estrofe) e “pelo” (4º verso da 3ª estro- fe), respectivamente? u.t.i. - e.o. 1. (UNESP) A questão a seguir toma por base um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Fuga De repente você resolve: fugir. Não sabe para onde nem como nem por quê (no fundo você sabe a razão de fugir; nasce com a gente). É preciso FUGIR. Sem dinheiro sem roupa sem destino. Esta noite mesmo. Quando os outros estiverem dormindo. Ir a pé, de pés nus. Calçar botina era acordar os gritos que dormem na textura do soalho1. Levar pão e rosca; para o dia. Comida sobra em árvores infinitas, do outro lado do projeto: um verdor eterno, frutescente (deve ser). Tem à beira da estrada, numa venda. O dono viu passar muitos meninos que tinham necessidade de fugir e compreende. Toda estrada, uma venda para a fuga. Fugir rumo da fuga que não se sabe onde acaba mas começa em você, ponta dos dedos. Cabe pouco em duas algibeiras2 e você não tem mais do que duas. Canivete, lenço, figurinhas de que não vai se separar (custou tanto a juntar). As mãos devem ser livres para pesos, trabalhos, onças que virão. Fugir agora ou nunca. Vão chorar, vão esquecer você? ou vão lembrar-se? (Lembrar é que é preciso, compensa toda fuga.) Ou vão amaldiçoá-lo, pais da Bíblia? Você não vai saber. Você não volta nunca. (Essa palavra nunca, deliciosa.) Se irão sofrer, tanto melhor. Você não volta nunca nunca nunca. E será esta noite, meia-noite. em ponto. Você dormindo à meia-noite. (menIno AntIgo, 1973) 1soalho: o mesmo que “assoalho”. 2algibeira: bolso de roupa. a) Identifique uma forma verbal e um substantivo que, bastante retomados ao longo do poema, ilustram seu tema. b) Em seguida, valendo-se dessa informação, explique a oposição entre o último verso e o restante do poema. 2. (UERJ) Inocência Depois das explicações dadas ao seu hóspede, sentiu-se o mineiro mais despreocupado. — Então, disse ele, se quiser, vamos já ver a nossa do- entinha. — Com muito gosto, concordou Cirino. E, saindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas cercas e rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, fronteira a magnífico laranjal, naquela ocasião todo pontuado das brancas e olorosas flores. 1— Neste lugar, disse o mineiro apontando para o po- mar, todos os dias se juntam tamanhos bandos de graú- nas, que é um barulho dos meus pecados. Nocência gos- ta muito disso e vem sempre coser debaixo do arvoredo. É uma menina esquisita... Parando no limiar da porta, continuou com expansão: 2— Nem o Sr. imagina... Às vezes, aquela criança tem lembranças e perguntas que me fazem embatucar... Aqui, havia um livro de horas da minha defunta avó... Pois não é que 3um belo dia ela me pediu que lhe ensinasse a ler? ... Que ideia! Ainda há pouco tempo me disse que qui- sera ter nascido princesa... Eu lhe retruquei: E sabe você o que é ser princesa? Sei, me secundou ela com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que tem uma coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados no pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio tonto. 4E se o Sr. visse os modos que tem com os bichinhos?! ... Parece que está falando com eles e que os entende... (...) Quando Cirino penetrou no quarto da filha do mineiro,era quase noite, de maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde lobrigar, além de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradadas. (...) Mandara Pereira acender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se ambos do leito da enferma que, ache- gando ao corpo e puxando para debaixo do queixo uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e vol- tou-se para os que entravam. — Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez. 15 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s — Boas noites, dona, saudou Cirino. Tímida voz murmurou uma resposta, ao passo que o jo- vem, no seu papel de médico, se sentava num escabelo junto à cama e tomava o pulso à doente. Caía então luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o rosto, parte do colo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por trás da nuca. Apesar de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência de beleza deslumbrante. Do seu rosto, irradiava singela expressão de encantado- ra ingenuidade, realçada pela meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia coar por entre os cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e compridos a ponto de proje- tarem sombras nas mimosas faces. Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca peque- na, e o queixo admiravelmente torneado. Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um nada a camisinha de crivo que vestia, dei- xando nu um colo de fascinadora alvura, em que ressal- tava um ou outro sinal de nascença. Razões de sobra tinha, pois, o pretenso facultativo para sentir a mão fria e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil cliente. vIsconde de tAunAy. inocênciA. são pAulo: átIcA, 2011. graúna – pássaro de plumagem negra, canto melodioso e hábi- tos eminentemente sociais livro de horas – livro de preces secundou – respondeu lavrados – na província de Mato Grosso, colares de contas de ouro e adornos de ouro e prata lobrigar – enxergar escabelo – assento facultativo – médico — Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos os dias se juntam tamanhos bandos de graúnas, que é um barulho dos meus pecados. Nocência gosta muito disso e vem sempre coser debaixo do arvoredo. (ref. 1) Nesta passagem, há duas palavras, de mesma classifica- ção gramatical, empregadas pelo locutor para indicar a proximidade ou distância do elemento a que se referem. a) Cite essas palavras e identifique sua classificação gra- matical. b) Transcreva o trecho em que uma dessas palavras se refere a uma informação presente no próprio texto. 3. (G1 CP2) ANTIGUIDADES (fragmento) Quando eu era menina bem pequena, em nossa casa, certos dias da semana se fazia um bolo, assado na panela com um 1testo de 2borralho em cima. Era um bolo econômico, como tudo, antigamente. Pesado, grosso, pastoso. (Por sinal que muito ruim.) Eu era menina em crescimento. Gulosa, abria os olhos para aquele bolo que me parecia tão bom e tão gostoso. A gente mandona lá de casa cortava aquele bolo com importância. Com atenção. Seriamente. Com vontade de comer o bolo todo. Era só olhos e boca e desejo daquele bolo inteiro. Minha irmã mais velha governava. 3Regrava. Me dava uma fatia, tão fina, tão delgada... E fatias iguais às outras 4manas. E que ninguém pedisse mais! E o bolo inteiro, quase intangível, se guardava bem guardado, com cuidado, num armário, alto, fechado, impossível. corA corAlInA. melhores poemAs. 2. ed. são pAulo: globAl, 2004. 1testo: camada; 2borralho: brasido coberto de cinzas; cinzas quentes, rescaldo; 3regrar: traçar linhas ou regras sobre; 4mana: irmã; Na terceira estrofe, o eu lírico caracteriza a si mesmo, quando criança, por meio de um adjetivo. a) Transcreva esse adjetivo. b) Copie o verso por meio do qual o eu lírico justifica essa sua característica. 4. (G1 CP2) A POLÊMICA DA USINA DE BELO MONTE (fragmento) A polêmica em torno da construção da usina de Belo Monte na Bacia do Rio Xingu, em sua parte paraense, já dura mais de 20 anos. Entre muitas idas e vindas, a hidrelétrica de Belo Monte, hoje considerada a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, vem sendo alvo de intensos deba- tes na região, desde 2009, quando foi apresentado o novo Estudo de Impacto Ambiental (EIA) intensifican- do-se a partir de fevereiro de 2010, quando o MMA [Ministério do Meio Ambiente] concedeu a licença am- biental prévia para sua construção. Os movimentos sociais e lideranças indígenas da re- gião são contrários à obra porque consideram que os impactos socioambientais não estão suficientemente dimensionados. Em outubro de 2009, por exemplo, um painel de especialistas debruçou-se sobre o EIA e ques- tionou os estudos e a viabilidade do empreendimento. Um mês antes, em setembro, diversas audiências pú- blicas haviam sido realizadas sob uma saraivada de críticas, especialmente do Ministério Público Estadual, seguido pelos movimentos sociais, que apontava pro- blemas em sua forma de realização. 16 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Ainda em outubro, a Funai [Fundação Nacional do Ín- dio] liberou a obra sem saber exatamente que impactos causaria sobre os índios e lideranças indígenas kayapó enviaram carta ao Presidente Lula na qual diziam que, caso a obra fosse iniciada, haveria guerra. Para culmi- nar, em fevereiro de 2010, o Ministério do Meio Am- biente concedeu a licença ambiental, também sem esclarecer questões centrais em relação aos impactos socioambientais. (...) Exemplos infelizes como a construção das usinas hidrelé- tricas de Tucuruí (PA) e Balbina (AM), as últimas constru- ídas na Amazônia, nas décadas de 1970 e 1980, estão aí de prova. Desalojaram comunidades, inundaram enormes extensões de terra e destruíram a fauna e flora daquelas regiões. Balbina, a 146 quilômetros de Manaus, significou a inundação da reserva indígena Waimiri-Atroari, mortan- dade de peixes, escassez de alimentos e fome para as po- pulações locais. A contrapartida, que era o abastecimento de energia elétrica da população local, não foi cumprida. O desastre foi tal que, em 1989, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), depois de analisar a situ- ação do Rio Uatumã, onde a hidrelétrica fora construí- da, concluiu por sua morte biológica. Em Tucuruí não foi muito diferente. Quase dez mil famílias ficaram sem suas terras, entre indígenas e ribeirinhos. Diante desse quadro, em relação à Belo Monte, é preciso questionar a forma antidemocrática como o projeto vinha sendo conduzido, a relação custo-benefício da obra, o destino da energia a ser produzida e a inexistência de uma política energética para o país, que privilegie energias alternativas. (...) A persistência governamental em construir Belo Mon- te está baseada numa sólida estratégia de argumentos dentro da lógica e vantagens comparativas da matriz energética brasileira. Os rios da margem direita do Ama- zonas têm declividades propícias à geração de energia, e o Xingu se destaca, também, pela sua posição em relação às frentes de expansão econômica (predatória) da região central do país. O desenho de Belo Monte foi revisto e os impactos reduzidos em relação à proposta da década de 80. O lago, por exemplo, inicialmente previsto para ter foi reduzido, depois do encontro, para Os socioambien- talistas, entretanto, estão convencidos de que além dos impactos diretos e indiretos, Belo Monte é um cavalo de 1troia, porque outras barragens virão depois, modifican- do totalmente e para pior a vida na região. fonte: <www.socIoAmbIentAl.org/esp/bm/Indez. Asp>. Acesso em: 24 out. 2011. 1Cavalo de Troia – A lenda do Cavalo de Troia diz que os gre- gos deram de presente aos troianos um grande cavalo de ma- deira como sinal de que estavam desistindo da guerra. O cavalo, porém, escondia, em seu interior, soldados gregos, que, durante anoite, saíram e abriram os portões de Troia para o exército grego. Este invadiu e dominou a cidade. Para expressar seu pessimismo com as mudanças pro- postas, o autor propõe uma equivalência entre o adjetivo econômica e um outro adjetivo. Que adjetivo é esse e de que maneira ele produz tal efeito? TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Texto I – ETNIA (fragmento) Somos todos juntos uma miscigenação E não podemos fugir da nossa etnia Todos juntos uma miscigenação E não podemos fugir da nossa etnia Índios, brancos, negros e mestiços Nada de errado em seus princípios O seu e o meu são iguais Corre nas veias sem parar Costumes, é folclore, é tradição Capoeira que rasga o chão Samba que sai da favela acabada É hip hop na minha embolada [...] 1Maracatu 2psicodélico Capoeira da pesada Bumba meu rádio 3Berimbau elétrico Frevo, samba e cores Cores unidas e alegria Nada de errado em nossa etnia. lucIo mAIA e chIco scIence. In: <http://vAgAlume.com.br/ chIcoscIence-nAção-zumbI/etnIAhtml>. 1 Maracatu: dança e música de origem africana, em que se executam passos e sapateados ao som de violas, flautas, cuícas, chocalhos, pandeiros etc. 2 Psicodélico: que remete a coisas muito coloridas. 3 Berimbau: instrumento musical usado na capoeira. Texto II – Na Bélgica, presidenta destaca diversidade cultural brasileira Na abertura do Festival 1Europalia, em Bruxelas, a presi- denta Dilma Rousseff fez uma homenagem à diversidade cultural do Brasil, que estará presente em manifestações artísticas e culturais na capital da Bélgica. Segundo ela, são exposições desde a pré-colonização até a “vanguarda mais experimental em mais de 400 atividades envolven- do as mais variadas linguagens artísticas e manifestações regionais do país”. Para a presidenta Dilma, a cultura é a expressão maior da alma de uma sociedade e, no momento em que o mundo precisa reaprender a importância do diálogo, o Brasil e a América do Sul têm a oferecer a capacidade de conviver em paz nessa diversidade. “A diversidade cultural do Brasil integra nossas raízes históricas. 2Somos um país mestiço, no qual migrantes de todas as regiões do mundo somam-se às três ma- trizes onde surgiram o povo brasileiro: a indígena, a europeia e a africana. Eis uma mistura que nos orgu- lha e define. 3Os brasileiros orgulham-se muito de seu patrimônio cultural e de suas tradições populares, mas também ousam reinventá-los e reinterpretá-los. Mos- traremos aqui, na Europalia, 4um pouco dessa cultura viva em movimento permanente.” 17 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s 5A presidenta avaliou ainda que o Festival Europalia poderá contribuir para que a Europa supere “os per- calços do momento”. Além disso, acrescentou, “é mais um passo no aprofundamento do conhecimento mútuo, fundamental para a construção do mundo mais demo- crático, aberto e plural que todos queremos”. dIsponível em: <blog.plAnAlto.gov.br>. Acesso em: 4 out. 2011. 1 Europalia: Festival Internacional de Cultura da Europa, que homenageia, este ano, o Brasil. “SOMOS UM PAÍS MESTIÇO (...)” (TEXTO II, REF. 2) 5. Que substantivo do texto I tem sentido semelhante ao do adjetivo do trecho acima? 6. (UERJ) AUTORRETRATO FALADO Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas. Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da Marinha, onde nasci. Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios. Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos. Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz. Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me sinto como que desonrado e fujo para o Pantanal onde sou abençoado a garças. Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo. Descobri que todos os caminhos levam à ignorância. Não fui para a sarjeta porque herdei uma [fazenda de gado. Os bois me recriam. Agora eu sou tão ocaso! Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço coisas inúteis. No meu morrer tem uma dor de árvore. mAnoel de bArros. poEsiA coMplEtA. são pAulo: leyA, 2010. Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá--los me sinto como que desonrado e fujo para o Pantanal ONDE sou abençoado a garças. a) A palavra “onde”, destacada acima, remete a um ter- mo anteriormente expresso. Transcreva esse termo. b) Nomeie também a classe gramatical de “onde”, sub- stitua-a por uma expressão equivalente e indique seu valor semântico. 7. (G1 CP2) A DEVASTAÇÃO, UMA HERANÇA PARA AS FUTURAS GERAÇÕES Quando fecho os olhos à noite, onde quer que esteja, minha mente volta com frequência ao passado, à época em que o recém-construído Calypso flutuava sob o céu do Mediterrâneo. O barco foi meu lar durante a infân- cia, embora nunca tivesse nele um local só para mim. Eu dormia num beliche diferente todas as noites, às vezes com minha mãe, às vezes com meu pai, e algumas ve- zes dentro da gaveta da cômoda. O Calypso foi minha identidade infantil. Tive sorte: o barco de meu pai foi minha base, o come- ço de meu futuro. À medida que o Calypso percorria os mares do mundo, ele passou a abarcar a filosofia de que a vida em nosso planeta é frágil, e sua beleza, embora aclamada, é perecível. Meu pai imbuiu em mim a convicção de que não somos donos dos recursos do mundo, apenas seus administra- dores. Somos responsáveis pela proteção daquilo que legaremos a nossos sucessores. Hoje, tento viver por essa cartilha, mas em minhas viagens me dou conta de quão raramente os adultos pensam nas gerações futuras. No mundo inteiro, vemos pais que parecem pouco se importar com a condição do planeta que seus filhos herdarão. Poluímos os rios e mananciais que serão a fonte de água potável de nossos filhos, interferimos com a camada de ozônio, que protege nossos filhos contra os perigosos raios solares. Pusemos em andamento o que parece ser um perigoso aquecimento da Terra, ameaçando nossos filhos com a seca e a calamidade. As crianças por nas- cer não podem se pronunciar, mas nem por isso somos menos responsáveis por gerações que não conhecemos. [...] Atentem para o caso, agora clássico, de Wezip Alolum, que tem que ver simplesmente com a lama. Alolum, ha- bitante da aldeia Jobto, na província papua de Madang, era dono de terras com matas nas quais havia um poço de lama. Durante gerações sua família ganhou a vida trocando bolas de lama e potes de lodo barrento por ali- mentos. O poço, sua herança, lhe fora confiado intacto por seus ancestrais. Um dia chegaram estrangeiros, que lhe pediam permis- são para abater árvores nas terras de sua família. “Você não precisa mais de lama, agora que tem dinheiro”, dis- seram. Alolum hesitou, mas finalmente concordou. Contudo, ele não percebera que a companhia pretendia abater ou queimar todas as árvores, não deixando nenhu- ma para o replantio. Nunca lhe passara pela cabeça que a companhia trataria a terra sem o menor respeito por seu futuro. Não demorou para que todas as árvores desapare- cessem e, com a resultante erosão, o poço de lama fosse afetado. Seu barro ficou arruinado, seco demais para ser utili- zado. Pouco depois, o dinheiro de Alolum acabou. Sem lama, pela primeira vez na história de sua família ele estava pobre. Alolum procurou a companhia florestal, exigindo que o reembolsasse pela perda do poço, mas quem paga compensação por lama? No entanto para Wezip Alolum o poço de lama representava o capital herdado de seus antepassados. Ele fora dono e administrador, mas agora não tinha nada para deixar para seus filhos, e o ciclo de sua famí- lia fora rompido. Alolum foi vítima da falta de visão ao trocar recursos por dinheiro. Mas o que dizer de nós? Ao desperdiçarmos recursos naturais não estamos nos comportando irresponsa- 18 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s velmente em relação a nossos filhos? Quando perce- berem que lhes legamos um sem-número de perigos ambientais,um inventário de recursos completamente exaurido, o que pensarão de nós, a despeito de nossa tendência a lhes comprar o que há de melhor ao nosso alcance? O Calypso foi mais que um presente da infância. Ele continua sendo uma herança para mim, um lembrete de continuidade e o ideal de herança combinada com res- ponsabilidade. Ele é um documento vivo, minha Consti- tuição do amanhã. Talvez, se modificarmos nossos modos, uma Constitui- ção global proteja um dia o ar, a água, as florestas e a vida selvagem – nossa herança natural – para futuras gerações. Nossos filhos talvez a escrevam. JeAn-mIchel cousteAu, em reportAgem publIcAdA no JornAl dA tArdE Releia o seguinte trecho do texto: “Meu pai imbuiu em mim a convicção de que não so- mos donos dos recursos naturais do mundo, APENAS seus administradores.” Reescreva-o, substituindo o termo sublinhado por outro que mantenha o mesmo sentido. 8. (Fuvest) Leia a seguinte fala, extraída de uma peça teatral, e responda ao que se pede. Odorico – Povo sucupirano! Agoramente já investido no cargo de Prefeito, aqui estou para receber a confirma- ção, ratificação, a autenticação e, por que não dizer, a sagração do povo que me elegeu. dIAs gomes. o bEM-AMAdo: fArsA sócio-político-pAtológicA EM 9 quAdros. a) A linguagem utilizada por Odorico produz efeitos humorísticos. Aponte um exemplo que comprove essa afirmação. Justifique sua escolha. b) O que leva Odorico a empregar a expressão ”por que não dizer”, para introduzir o substantivo ”sagração”? 9. (UERJ) INFÂNCIA Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. 1No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: — Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! 2Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. cArlos drummond de AndrAde. poEsiA coMplEtA. rIo de JAneIro: novA AguIlAr, 2002. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos LONGES da senzala – e nunca se esqueceu (ref. 1) Lá LONGE meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. (ref. 2) Classifique gramaticalmente as palavras sublinhadas e aponte a diferença de sentido entre elas. 10. (UNICAMP) UM CHAMADO JOÃO João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? (...) Mágico sem apetrechos, civilmente mágico, apelador de precípites prodígios acudindo a chamado geral? (...) Ficamos sem saber o que era João e se João existiu deve pegar. cArlos drummond de AndrAde, em corrEio dA MAnhã, 22/11/1967, publIcAdo em rosA, J.g. sAgArAnA. rIo de JAneIro: novA fronteIrA, 2001. a) No título, ”chamado” sintetiza dois sentidos com que a palavra aparece no poema. Explique esses dois sentidos, indicando como estão presentes nas passa- gens em que ”chamado” se encontra. b) Na primeira estrofe do poema, ”fábula” é derivada em ”fabulista” e ”fabuloso”. Mostre de que modo a formação morfológica e a função sintática das três palavras contribuem para a formação da imagem de Guimarães Rosa. LINGUAGENS CÓDIGOS e suas tecnologias ENTREENTRE LETRASLETRAS 1 U.T.I. INTERPRETAÇÃO DE TEXTOSLINGUAGENS CÓDIGOS e suas tecnologias ENTREENTRE LETRASLETRAS 1 U.T.I. 20 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s A teoria das funções da linguagem afirma que a lingua- gem apresenta funções mais amplas do que simplesmen- te as de caráter informativo. Nesse sentido, os sistemas comunicativos seriam pautados por seis funções da lin- guagem, que seriam determinadas a partir de um “foco” (ou uma ênfase) que recai em pontos específicos da men- sagem observada. As funções seriam as seguintes: § Emotiva ou expressiva: foco no emissor, locutor ou enunciador (a pessoa que fala ou escreve); § Apelativa ou conativa: foco no receptor ou interlo- cutor (a pessoa para quem se fala ou escreve, ou, em algumas abordagens, aquele com quem se conversa); § Referencial ou denotativa: foco no contexto ou na referência de mundo (o assunto, situação ou objeto so- bre o qual se fala); § Fática ou de contato: foco no canal de comunicação ou a partir da abertura de contato (físico ou psicológi- co) com terceiros; § Poética: foco nos modos de elaboração da mensagem e do texto que a compõe; § Metaliguística: foco no código comunicativo (nas bases prévias de comunicação, sejam elas verbais ou não verbais). A variação linguística é a diversificação dos sistemas de uma língua em relação às possibilidades de mudança de seus ele- mentos (vocabulário, fonologia, morfologia, sintaxe). Linguagem formal versus linguagem informal a. Norma culta/padrão: é a denominação dada à varieda- de linguística dos membros da classe social de maior prestí- gio dentro da classe literária. Observação: não se trata da única forma correta. b. Linguagem informal/popular: é a denominação dada à variedade linguística utilizada no cotidiano e que não exige a observância total da gramática. Língua falada versus língua escrita a. Língua falada/oral: dispõe de um número incontável de recursos rítmicos e melódicos – entonação, pausas, ritmo, flu- ência, gestos – porque, claro, o emissor (pessoa que fala ou transmite uma mensagem numa dada linguagem) está pre- sente fisicamente. Algumas das características principais são: § frequência da ocorrência de repetições, hesitações e bordões de fala (“Pois, eu aaa... eu acho que... pronto, não sei...“, “Cara, o que é isso, cara?“); § frases curtas; § frases inacabadas, porque foram cortadas ou inter- rompidas; § uso frequente da omissão de palavras; Exemplo: Eu vou com minha mãe e com meu pai; em- presta o seu caderno? § formas contraídas; Exemplo: prof, med, refri, facul § afastamento das regras gramaticais; Exemplo: Eu vi ele. § possibilidade de adequar o discurso de acordo com as reações dos ouvintes. b. Língua escrita: recorre a sinais de pontuação e de acentuação para exprimir os recursos rítmicos e melódicos da oralidade: § uso de descrições ricas; § obedece às regras gramaticais com maior rigor; § sinais de pontuação e acentuação para transmitir a ex- pressividade oral; § frases longas, apesar de também poder usar frases curtas; § uso de vocabulário mais amplo e cuidadoso; § conectivos e estruturas sintáticas para garantir a coe- são textual. FUNÇÕES DA LINGUAGEM VARIAÇÃO LINGUÍSTICA 21 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Variação diatópica Também conhecida como variação regional ou variação geográfica, ocorre quando a linguagem apresenta va- riações de acordo com o espaço em que ela é operada. É por meio dessa variação que são estudados os so- taques ou dialetos interioranos (como o dialeto caipira). Variação diacrônica Também conhecida como variação histórica, ocorre quan- do a linguagem apresenta variações de acordo com o tem- po em que ela é operada. Parte-se do pressuposto de que a linguagem é um sistema vivo e constantemente mutável. Variação diastrática Também conhecida como variação social, ocorre quando a linguagem apresenta variações por causa de dois fatores mais gerais: fatores socioeconômicos e uso de socioleto (na linguística, um socioleto é a variante de uma língua falada por um grupo social, uma classe social ou subcultura). Variação diafásica Também conhecida como variação situacional, ocorre quan- do a linguagem apresenta variações de acordo com o con- texto/situação em que elaé usada. É verificável quando um indivíduo, adaptado a um tipo de uso linguístico, é obrigado a fazer uma alteração momentânea em seu registro por cau- sa de uma situação de mundo específica. Variação diamésica Ocorre quando a linguagem apresenta variações de acordo com os diferentes “meios” em que ela é usada, entenden- do esses “meios” como espaços de uso oral da linguagem (fala) e uso escrito. Preconceito linguístico Denomina-se preconceito linguístico aquele gerado pelas diferenças linguísticas existentes dentro de um mes- mo idioma. Ele está associado a diferenças de base lin- guística, especialmente as regionais (envolvendo dialetos, socioletos, regionalismos, gírias e sotaques). Também é ge- rado em menor grau pelos outros tipos de variação. O preconceito linguístico tem sido muito praticado na atu- alidade (de modo voluntário e involuntário), sendo forte marcador de exclusão social. Não existe uma forma “certa“ ou “errada“ dos usos da língua e que o preconceito linguístico, gerado pela ideia de que existe uma única língua correta (baseada na gra- mática normativa), colabora com a prática da exclusão social. No entanto, é necessário lembrar que a língua é mutável e vai se adaptando ao longo do tempo de acordo com as ações dos falantes. Além disso, as regras da língua, determinada pela gramá- tica normativa, não incluem expressões populares e varia- ções linguísticas, como gírias, regionalismos, dialetos etc. Figuras de som ou de harmonia As figuras de som ou de harmonia são aquelas formadas a partir de parâmetros sonoros da língua. São divididas da seguinte forma: 1. Aliteração 2. Assonância 3. Paronomásia 4. Onomatopeia Figuras de palavra Também conhecidas como tropos (figuras em que ocorrem mudanças internas ou externas de significado), as figuras de palavra funcionam a partir da “realização de um em- préstimo“ de uma determinada palavra ou expressão que, por uma aproximação de sentidos, funciona de maneira específica dentro de um contexto determinado. Observe a seguir as principais figuras de palavra do português: 1. Metáfora 2. Comparação ou símile 3. Catacrese 4. Metonímia 5. Antonomásia ou perífrase 6. Sinestesia FIGURAS DE LINGUAGEM 22 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Figuras de sintaxe O objetivo das figuras sintáticas é dar maior expressivida- de ao significado geral de uma frase. As principais figuras sintáticas do português são as seguintes: 1. Hipérbato 2. Anáfora 3. Pleonasmo 4. Catáfora 5. Elipse 6. Zeugma 7. Silepse 8. Anacoluto 9. Polissíndeto 10. Assíndeto 11. Hipálage Figuras de pensamento As figuras de pensamento são formadas a partir do empre- go de termos conotativos, contrariando a expectativa do ouvinte. As principais figuras de pensamento são: 1. Antítese 2. Paradoxo ou oximoro 3. Eufemismo 4. Ironia 5. Hipérbole 6. Prosopopeia ou personificação 7. Apóstrofe 8. Gradação 9. Quiasmo 10. Preterição U.T.I. - Sala 1. (UFJF) Observe a charge abaixo: Agora, responda: a) Qual é a temática principal da charge acima? b) Quais são os elementos verbais e não verbais utilizados na charge para construir o seu significado? Justifique sua resposta por menção direta a esses elementos. 2. (G1 CP2) O SAL DA TERRA Anda! Quero te dizer nenhum segredo Falo nesse chão da nossa casa Vem que tá na hora de arrumar... Tempo! Quero viver mais duzentos anos Quero não ferir meu semelhante Nem por isso quero me ferir Vamos precisar de todo mundo Pra banir do mundo a opressão Para construir a vida nova Vamos precisar de muito amor A felicidade mora ao lado E quem não é tolo pode ver... A paz na Terra, amor O pé na terra A paz na Terra, amor O sal da... Terra! És o mais bonito dos planetas Tão te maltratando por dinheiro Tu és a nave nossa irmã 23 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Canta! Leva tua vida em harmonia E nos alimenta com seus frutos Tu que és do homem, a maçã... Vamos precisar de todo o mundo Um mais um é sempre mais que dois Pra melhor juntar as nossas forças É só repartir melhor o pão Recriar o paraíso agora Para merecer quem vem depois... Deixa nascer o amor Deixa fluir o amor Deixa crescer o amor Deixa viver o amor beto guedes e ronAldo bAstos. dIsponível em: <http://letrAs.terrA.com.br>. Acesso em: 05 dez. 2009. Na quinta estrofe do texto, o uso da linguagem colo- quial é evidente. Reescreva o verso que exemplifica a afirmação, empregando o registro formal. 3. (PUC-RJ) No começo de seu “Mercury; Ou: O Mensa- geiro Secreto e Rápido“ (1641), John Wilkins conta a seguinte história: O quanto 1essa Arte de escrever pareceu estranha quan- do da sua Invenção primeira é algo que podemos ima- ginar pelos Americanos recém-descobertos, que ficaram espantados ao ver Homens conversarem com Livros, e não conseguiam acreditar que um Papel pudesse falar... Há um relato excelente a esse Propósito, referente a um Escravo Índio; que, ao ser mandado por seu Senhor com uma Cesta de Figos e uma Carta, comeu durante o Percurso uma grande Parte de seu Carregamento, entre- gando o Restante à Pessoa a quem se destinava; que, ao ler a Carta e não encontrando a Quantidade de Figos correspondente ao que se tinha dito, acusa o Escravo de comê-los, dizendo que a Carta afirmava aquilo contra ele. Mas o Índio (apesar dessa Prova) negou o Fato, acu- sando o Papel de ser uma Testemunha falsa e mentirosa. Depois disso, sendo mandado de novo com um Carrega- mento semelhante e uma Carta expressando o Núme- ro exato de Figos que deviam ser entregues, ele, mais uma vez, de acordo com sua Prática anterior, devorou uma grande Parte deles durante o Percurso; mas, antes de comer o primeiro (para evitar as Acusações que se seguiriam), pegou a Carta e a escondeu sob uma grande Pedra, assegurando-se de que, se ela não o visse comer os Figos, nunca poderia acusá-lo; mas, sendo agora acu- sado com muito mais rigor do que antes, confessou a Falta, admirando a Divindade do Papel e, para o futuro, promete realmente toda a sua Fidelidade em cada Ta- refa. Poder-se-ia dizer que um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do autor) e das cir- cunstâncias concretas de sua criação (e, consequente- mente de seu referente intencionado), flutua (por assim dizer) no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis. Wilkins poderia ter objetado que, no seu relato, o senhor tinha certeza de que a cesta mencionada na carta era a mesma levada pelo escravo, que o escravo que a levara era exatamente o mesmo a quem seu amigo dera a cesta, e que havia uma relação entre a expressão “30” escrita na carta e o número de figos contidos na cesta. Naturalmente, bastaria imagi- nar que, ao longo do caminho, o escravo original fora assassinado e outra pessoa o substituíra, que os trinta figos originais tinham sido substituídos por outros figos, que a cesta foi levada a um destinatário diferente, que o novo destinatário não sabia de nenhum amigo ansioso por lhe mandar figos. Mesmo assim seria possível con- cluir o que a carta estava dizendo? Entretanto, temos o direito de supor que a reação do novo destinatário seria algo do tipo: “Alguém, e Deus sabe quem, man- dou-me uma quantidade de figos menor do que o nú- mero mencionado na carta que os acompanha.” Vamos supor agora que não apenas o mensageiro tivesse sido morto, como também que seus assassinos tivessem co- mido todos os figos, destruído a cesta, colocado a carta numa garrafa e a tivessem jogado no oceano, de modo que fosse encontrada setenta anos depois por Robinson Crusoé. Não havia cesta, nem escravo, nem figos, só uma carta. Apesar disso, aposto que a primeira reação de Ro- binson Crusoé teria sido: “Onde estão os figos?” AdAptAdo de: eco, umberto. intErprEtAção E supErintErprEtAção. são pAulo: mArtIns fontes, 2001, p. 47-49. a) Explique como se ilustra no Texto a relação entre a interpretação de um textoe as circunstâncias de sua leitura. b) Umberto Eco imagina contextos alternativos para a circulação da carta mencionada por John Wilkins. Explicite o conteúdo que se mantém inalterado nos diferentes contextos imaginados. 4. (UFSC) Leia as citações a seguir e responda à questão proposta. “Mas muito lhe será perdoado, à TV, pela sua ajuda aos doentes, aos velhos, aos solitários.“ brAgA, rubem. 200 crônicAs EscolhidAs. rIo de JAneIro/são pAulo: record, 2004, p. 486. “Sinhô e Sinhá num mêis ou dois mêis se há de casá!“ lImA, Jorge de. novos poEMAs. rIo de JAneIro: lAcerdA edItores, 1997, p. 3. “... eu osvi falá que os bugre ero uns bicho brabo...“ cAscAes, frAnklIn. o fAntástico nA ilhA dE sAntA cAtArinA. florIAnópolIs: edItorA dA ufsc, 2004, p. 27. “... morreu segunda que passou de uma anemia nos rim...“ mAchAdo de AssIs. brás, bExigA E bArrA fundA. são pAulo: mArtIn clAret, 2004, p. 55. Levando em conta as diferentes formas linguísticas utilizadas pelos autores na composição de suas obras, comente sobre a linguagem usada como recurso na construção dos textos. Para tanto, considere as duas pro- posições a seguir: a) variação linguística versus erro linguístico; b) funções da linguagem na literatura. 24 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s 5. (UERJ) COPLAS1 I O GERENTE - Este hotel está na berra2! Coisa é muito natural! Jamais houve nesta terra Um hotel assim mais tal! Toda a gente, meus senhores, Toda a gente ao vê-lo diz: Que os não há superiores Na cidade de Paris! Que belo hotel excepcional O Grande Hotel da Capital Federal! CORO – Que belo hotel excepcional etc... II O GERENTE – Nesta casa não é raro Protestar algum freguês: Acha bom, mas acha caro Quando chega o fim do mês. Por ser bom precisamente, Se o freguês é do bom-tom Vai dizendo a toda a gente Que isto é caro mas é bom. Que belo hotel excepcional! O Grande Hotel da Capital Federal! CORO – Que belo hotel excepcional etc... O GERENTE (Aos criados) – Vamos! Vamos! Aviem-se! To- mem as malas e encaminhem estes senhores! Mexam- -se! Mexam-se!... (Vozerio. Os hóspedes pedem quarto, banhos etc... Os criados respondem. Tomam as malas, saem todos, uns pela escadaria, outros pela direita.) CENA II O GERENTE, depois, FIGUEIREDO O GERENTE (Só.) – Não há mãos a medir! Pudera! Se nunca houve no Rio de Janeiro um Hotel assim! Serviço elétrico de primeira ordem! Cozinha esplêndida, música de câmara durante as refeições da mesa redonda! Um relógio pneumático em cada aposento! Banhos frios e quentes, duchas, sala de natação, ginástica e mas- sagem! Grande salão com um plafond3 pintado pelos nossos primeiros artistas! Enfim, uma verdadeira novi- dade! – Antes de nos estabelecermos aqui, era uma ver- gonha! Havia hotéis em S. Paulo superiores aos melho- res do Rio de Janeiro! Mas em boa hora foi organizada a Companhia do Grande Hotel da Capital Federal, que do- tou esta cidade com um melhoramento tão reclamado! E o caso é que a empresa está dando ótimos dividendos e as ações andam por empenhos! (Figueiredo aparece no topo da escada e começa a descer.) Ali vem o Figuei- redo. Aquele é o verdadeiro tipo do carioca: nunca está satisfeito. Aposto que vem fazer alguma reclamação. Azevedo, Arthur. A cApitAl fEdErAl. rIo de JAneIro: servIço nAcIonAl de teAtro, 1972. 1espécie de estrofe 2estar na moda 3teto O texto faz parte de uma peça de teatro, forma de ex- pressão que se destacou na captação das imagens de um Rio de Janeiro que se modernizava no início do século XX. a) Aponte o gênero de composição em que se enquadra esse texto e um aspecto característico desse gênero. b) A fala do gerente revela atitudes distintas, quando se dirige aos criados e quando está só. Identifique o modo verbal e a função da linguagem predominantes na fala dirigida aos criados. U.T.I. - E.O. 1. (UNESP 2018) Para responder à questão, leia o soneto de Raimundo Correia (1859-1911). Esbraseia o Ocidente na agonia O sol... Aves em bandos destacados, Por céus de ouro e de púrpura raiados, Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia... Delineiam-se, além, da serrania Os vértices de chama aureolados, E em tudo, em torno, esbatem derramados Uns tons suaves de melancolia... Um mundo de vapores no ar flutua... Como uma informe nódoa, avulta e cresce A sombra à proporção que a luz recua... A natureza apática esmaece... Pouco a pouco, entre as árvores, a lua Surge trêmula, trêmula... Anoitece. a) Transcreva da primeira estrofe um exemplo de per- sonificação. Justifique sua resposta. b) Cite duas características que permitem filiar esse soneto à estética parnasiana. 2. (UERJ 2018) MORTE E VIDA SEVERINA (AUTO DE NA- TAL PERNAMBUCANO) 01 O retirante explica ao leitor quem é e a que vai. 02 — O meu nome é Severino, 03 não tenho outro de pia. 04 Como há muitos Severinos, 05 que é santo de romaria, 06 deram então de me chamar 07 Severino de Maria; 08 como há muitos Severinos 09 com mães chamadas Maria, 10 fiquei sendo o da Maria 11 do finado Zacarias. 12 Mas isso ainda diz pouco: 13 há muitos na freguesia, 14 por causa de um coronel 15 que se chamou Zacarias 16 e que foi o mais antigo 17 senhor desta sesmaria. 18 Como então dizer quem fala 20 ora a Vossas Senhorias? 21 Vejamos: é o Severino 22 da Maria do Zacarias, 22 lá da serra da Costela, 25 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s 23 limites da Paraíba. 24 Mas isso ainda diz pouco: 25 se ao menos mais cinco havia 26 com nome de Severino 27 filhos de tantas Marias 28 mulheres de outros tantos, 29 já finados, Zacarias, 30 vivendo na mesma serra 31 magra e ossuda em que eu vivia. 32 Somos muitos Severinos 33 iguais em tudo na vida: 34 na mesma cabeça grande 35 que a custo é que se equilibra, 36 no mesmo ventre crescido 37 sobre as mesmas pernas finas, 38 e iguais também porque o sangue 39 que usamos tem pouca tinta. 40 E se somos Severinos 41 iguais em tudo na vida, 42 morremos de morte igual, 43 mesma morte severina: 44 que é a morte de que se morre 45 de velhice antes dos trinta, 46 de emboscada antes dos vinte, 47 de fome um pouco por dia 48 (de fraqueza e de doença 49 é que a morte severina 50 ataca em qualquer idade, 51 e até gente não nascida). João cAbrAl de melo neto. MortE E vidA sEvErinA E outros poEMAs EM voz AltA. rIo de JAneIro: José olympIo, 1980. vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia. (l. 30-31) a) Na descrição da serra, observa-se o emprego de uma figura de linguagem. Nomeie essa figura. b) Indique, ainda, a relação estabelecida entre a per- sonagem e o ambiente, a partir do efeito produzido por essa descrição. 3. (UFJF-PISM 1) SOMBRAS MIÚDAS A história de Ivanildo é que ele simplesmente não tem história. Morador de rua, virou notícia porque teve corpo queimado por gasolina e faleceu na última terça-feira (27), e é só, mais nada. O assassino, conforme as investigações policiais, era ou- tro morador de rua, e o crime, vejam vocês a ironia da miséria humana, foi motivado por conquista de territó- rio. Dizem que precisavam de mais espaço para viverem na rua. Pois é, as calçadas! Há pessoas em guerra pelas calçadas frias da cidade de São Paulo. Não conheci Ivanildo nem o seu algoz piromaníaco, mas tenho uma vaga ideia de quem sejam os infelizes. Já os vi queimando na retina dos meus olhos, numa dessas noites geladas e indignas, em suas casas de papelão que se movem como fantasmas pela nossa imaginação. Ivanildo não devia ter documentos, tampouco identida- de. Indigente, deve ter sido enterrado com seus trapos numa vala qualquer, de um cemitério qualquer, que é o lugar certo para qualquer um de nós, miserável ou não. Outro dia vi um Ivanildo fuçando uma lata de lixo à pro- cura de comida que sobra dos nossos pratos, mas o dono da lanchonete apareceu para expulsá-lo com um cabo de vassoura. Fiquei com a impressão de que mendigos trazem má sor- te para o comércio, e que restos de comida não são para restos de pessoas. “Nós, os filhosde Deus, privatizamos até as migalhas”. Tenho a impressão que os únicos que gostam dos mora- dores de rua são os cachorros. Aliás, de raça ou não, não conheço nenhum cachorro que não tenha um mendigo pra cuidar. Moradores de rua são uma espécie rara de seres huma- nos: Eles não têm dentes, eles não cortam os cabelos, eles não tomam banho, pedem-nos esmolas, dormem no nosso caminho de casa, e nós, a não ser que peguem fogo, simplesmente não os vemos. É difícil vê-los. Somos cristãos demais para enxergá-los. E tem mais, dizem que são invisíveis a olho nu. Mas não são, suas sombras miúdas se arrastam em nos- sas orações, para o deleite da nossa hipocrisia. Fingir que gostamos de deus é a melhor forma de agradar o diabo. Um ser humano pegando fogo na calçada e os nossos joelhos doendo de tanto rezar pela nossa felicidade ma- terial... Deus sabe o que faz, a gente não. Devia ser o contrário. Se dependesse de mim, a humanidade (?) já tinha pega- do fogo há muito tempo. Um por um. vAz, sérgIo. litErAturA, pão E poEsiA: históriAs dE uM povo lindo E intEligEntE. são pAulo: globAl, 2011. p. 67-68. Segundo o Dicionário Houaiss, ironia é “figura por meio da qual se diz o contrário do que se quer dar a entender“ (2001, p. 1651). Localize no texto de Sérgio Vaz dois casos em que se emprega a ironia e explique a utilização delas. 4. (UNESP 2018) Leia o poema de Murilo Mendes (1901-1975) para responder à questão. O PASTOR PIANISTA Soltaram os pianos na planície deserta Onde as sombras dos pássaros vêm beber. Eu sou o pastor pianista, Vejo ao longe com alegria meus pianos Recortarem os vultos monumentais Contra a lua. Acompanhado pelas rosas migradoras Apascento1 os pianos: gritam E transmitem o antigo clamor do homem Que reclamando a contemplação, Sonha e provoca a harmonia, Trabalha mesmo à força, E pelo vento nas folhagens, Pelos planetas, pelo andar das mulheres, Pelo amor e seus contrastes, Comunica-se com os deuses. (As metAmorfoses, 2015.) 1apascentar: vigiar no pasto; pastorear. 26 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s a) Na segunda estrofe, verifica-se a personificação dos pianos. Que outro elemento também é personifi- cado nessa estrofe? Justifique sua resposta. b) Quem é o sujeito do verbo “comunica-se” (3ª es- trofe)? Justifique sua resposta. 5. (UNESP) A questão focaliza um trecho de um poema de 1869 do poeta romântico português Guilherme Bra- ga (1845-1874) e uma marcha de carnaval de Wilson Batista (1913-1968) e Roberto Martins (1909-1992), gravada em 1948. EM DEZEMBROWW Olhai: naquele operário Tudo é força, ânimo e vida; Se o trabalho é o seu calvário Sobe-o de cabeça erguida. Deus deu-lhe um anjo na esposa, E as filhas são tão pequenas Que delas a mais idosa Conta dez anos apenas. Tem cinco, e todas tão belas Que, ao ver-lhes a alegre infância, Julga estar vendo as estrelas E o céu a menos distância; Por isso, quando o trabalho Lhe fatiga as mãos calosas, Tem no suor o fresco orvalho Que dá seiva àquelas rosas, [...] Depois, da ceia ao convite, Toda a família o rodeia À mesa, aonde o apetite Faz soberba a humilde ceia. [...] No entanto, como a existência Não tem em si nada estável, Num dia de decadência Este obreiro infatigável, Por ter gasto a noite inteira Na luta, cede ao cansaço, E cai da máquina à beira, E a roda esmaga-lhe um braço... Ai! o infortúnio é severo! Bastou por tanto um só dia Para entrar o desespero Donde fugiu a alegria! Empenha em vão tudo, a esmo, Pouco dinheiro lhe fica, E não lhe cobre esse mesmo As despesas da botica. Pobre mãe, pobres crianças! Já, de momento em momento, Vão minguando as esperanças, Vai crescendo o sofrimento; (herAs e vIoletAs, 1869) PEDREIRO WALDEMAR Você conhece O pedreiro Waldemar? Não conhece? Mas eu vou lhe apresentar De madrugada Toma o trem da Circular Faz tanta casa E não tem casa pra morar Leva a marmita Embrulhada no jornal Se tem almoço, Nem sempre tem jantar O Waldemar, Que é mestre no ofício Constrói um edifício E depois não pode entrar. (roberto lApIccIrellA (org.). “AntologIA musIcAl populAr brAsIleIrA”, 1996.) Explique o caráter metafórico do emprego da palavra rosas na quarta estrofe do trecho reproduzido do poe- ma de Guilherme Braga. LITERATURA LINGUAGENS CÓDIGOS e suas tecnologias ENTREENTRE LETRASLETRAS 1 U.T.I. 28 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Prosa e poesia Prosa e poesia são formas diferentes de comunicação lite- rária. A prosa é mais referencial e se vale do uso do texto corrido organizado da esquerda para a direita no papel ocidental sem preocupação com a forma, apenas com o conteúdo e as linhas cheias. Já o poema está primordialmente preocupado com a for- ma e adquire, no decorrer da história, várias estruturas a partir da lógica do verso, que é a linha do poema, e de um conjunto deles, denominado estrofe. Estão imersos num trabalho de ritmo e rimas que podem ou não seguir padrões de tamanho e convenção. Os termos “poesia”, “poética” e “poeta” derivam dos termos gregos poíesis, poiêtikê, poiêtês, que significam criar. o que é gênero literário? Gênero é o modo como se veicula a mensagem literária, o padrão a ser utilizado na composição artística. Há gran- des diferenças entre o conteúdo e a forma dos textos. Um poema não se confunde com um conto, e um romance segue padrões bastante próprios em relação a uma peça de teatro, por exemplo. Na Antiguidade Clássica, Aristóteles conceituou o con- teúdo como elemento constitutivo da representação das paixões, das ações e do comportamento humano. A for- ma desse conteúdo, a princípio aplicada apenas à poesia, compreende três gêneros: épico, lírico e dramático. O gênero épico Épico é derivado do grego épos que, entre outras coisas, significa palavra, verso, discurso. Esse gênero, também chamado de epopeia, nasceu com a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Oriundas das tradições orais, as epopeias contam histórias que auxiliam os homens a entender a trajetória de seus povos. Narrados de maneira elevada e com vocabulário grandilo- quente e solene, os assuntos históricos sofrem influência do imaginário e não se privam de recorrer à imaginação, bem como à mitologia. As epopeias são divididas em “clás- sicas ou primárias” ou de “imitação ou secundárias”. O gênero lírico Esse gênero nasceu na Grécia antiga, cujos poemas eram acompanhados musicalmente pela lira. É o gênero centrado na expressão do “eu poético” ou “eu poemático” voz que fala no poema, não necessariamente correspondente à voz do autor. Menos grandiosos que os da epopeia, seus temas dizem respeito ao mundo interior do eu lírico, aos sentimentos, ao individualismo, às relações consigo mesmo. Pronomes e verbos vêm normalmente na primeira pessoa do singu- lar e predominam emoções, rimas, ritmo, sonoridade das palavras, metáforas, repetições, entre outras figuras de lin- guagem que trazem aos versos musicalidade e suavidade. O gênero lírico é subdividido em: soneto, elegia, ode, madri- gal, écloga etc. São formas poéticas mais afeitas ao gênero lírico. Natureza das rimas § Ricas – entre palavras de classes gramaticais diferentes: Cristina e ensina § Pobres – entre palavras de mesma classe gramatical: Precisava esconder sua afeição... Na Idade Média, uma imortal paixão § Toantes – entre sons vocálicos repetidos: hora e bola; saltava e mata § Aliterantes – entre sons consonantais idênticos ou semelhantes: vozes, veladas, veludosas, vozes vagam nos velhos vórtices velozes § Consoantes – entre sons e letras repetidos: terra e serra; amoníaco e zodíaco; rutilância e infância § Esdrúxulas – entre palavras proparoxítonas: É um flamejador, dardânico uma explosão de rápidas ideias, que com um mar de estranhas odisseias saem-lhe do crânio escultural, titânico!... (cruz e sousA) § Agudas – entre palavras oxítonas: dó e só; fez e vez; ti e vi § Preciosas – entre palavras combinadas: múmia e resume-a; résteae veste-a; águia e alague-a; estrela e vê-la § Versos brancos – verso sem rimas. FUNDAMENTOS PARA ESTUDO LITERÁRIO: ARTE E TÉCNICA 29 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Classificação das rimas § Monossílabos: uma sílaba. § Dissílabos: duas sílabas. § Trissílabos: três sílabas. § Tetrassílabos: quatro sílabas. § Pentassílabos: cinco sílabas ou redondilha menor. § Hexassílabos: seis sílabas. § Heptassílabos: sete sílabas ou redondilha maior. § Octossílabos: oito sílabas. § Eneassílabos: nove sílabas. § Decassílabos: dez sílabas. § Hendecassílabos: onze sílabas. § Dodecassílabos: doze sílabas ou alexandrino. § Verso bárbaro: mais de doze sílabas. Classificação dos versos § Monossílabos – uma única sílaba. § Dissílabos – duas sílabas. § Trissílabos – três sílabas. § Tetrassílabos – quatro sílabas. § Pentassílabos ou redondilha menor – cinco sílabas § Hexassílabos – seis sílabas. § Heptassílabos ou redondilha maior – sete sílabas. § Octossílabos – oito sílabas. § Eneassílabos – nove sílabas. § Decassílabos ou Medida Nova – dez sílabas. § Hendecassílabos – onze sílabas. § Dodecassílabos ou Alexandrinos – doze sílabas. § Bárbaros – mais de doze sílabas. O gênero dramático A característica e a finalidade primordiais do gênero dramático (do grego drân: agir) é ser levado à representação, à “ação”. Compreende o gênero teatral, cuja encenação, no entanto, escapa à alçada da literatura propriamente. O eu poético relaciona-se com um tu/vós, segunda pessoa do discurso, a plateia. O texto dramático pressupõe essa plateia, que o vivencia e tem probabilidade de fruir emoções mediante a representação do texto. Caracterizam o gênero dramático a ausência de narrador, o discurso direto – estrutura dialogada – e as rubricas – instruções que sinalizam ao diretor e aos atores a postura no palco, o tom de voz etc. Em vez do narrador, o texto dramático conta a história pre- tendida por meio do diálogo entre os personagens, que estabelecem com o público uma relação direta, a fim de comprometê-lo emocionalmente com a história contada e com os personagens dela. O termo teatro deriva do grego théatron, que significa “ver”, “contemplar”. Esse gênero subdivide-se em tragédia, comédia, drama, auto e farsa. O gênero narrativo Oriunda do gênero épico, a narrativa organiza uma história levando em consideração aspectos primordiais de sua es- trutura: apresentação, desenvolvimento, clímax e desfecho. Os gêneros narrativos apresentam-se como: § Conto Narrativa curta centrada em um único acontecimento. Apre- senta uma ação que se encaminha para uma tensão (clí- max) entre personagens, delimitados num tempo e espaço reduzidos. Exemplos: Amor, de Clarice Lispector; O menino do boné cinzento, de Murilo Rubião; e A causa secreta, de Machado de Assis. § Novela Narrativa situada entre a brevidade do conto e a longevi- dade do romance. Exemplos: A hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa; e Os crimes da rua Morgue, de Edgar Allan Poe. § Crônica Narrativa breve baseada na vida cotidiana, delimitada por tempo cronológico curto, em linguagem coloquial e leve to- que de humor e crítica. Exemplos: Comédias da vida priva- da – 101 crônicas escolhidas, de Luís Fernando Veríssimo. § Romance Narrativa longa que discorre sobre um grande conflito cen- tral que dá origem a outros secundários, compreendendo vários personagens em constante conflito psicológico, envol- vidos pela trama que caminha para um clímax. Exemplos: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; São Bernardo, de Graciliano Ramos; e O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien. § Anedota Relato de um acontecimento curioso ou engraçado. Como o provérbio, a anedota, além da tradição oral, vem inserida em textos literários. Exemplos: O asno de ouro, do escritor latino Apuleio, é uma constelação de pequenas aventuras picantes. § Apólogo Historinha entre objetos inanimados com moral implícita ou explícita. Um apólogo, de Machado de Assis, trata da conversa entre uma agulha e uma linha que discutem so- bre a importância delas. Observe o último parágrafo em que está implícita a moral: “Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 30 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s – Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro cami- nho para ninguém. Onde me espetam, fico. Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: – Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!” § Fábula Difere do apólogo, uma vez que seus personagens são ani- mais. Esse gênero teve ilustres cultores na literatura ociden- tal, como Esopo, Fedro e La Fontaine, cujas fábulas estão reunidas em doze livros. Contexto § Idade Média (século XII–XIV). § Formação dos países europeus e de suas línguas. § Reconhecimento do reino de Portugal, no ano de 1179. § Feudalismo. § Teocentrismo (Deus como centro do Universo / motivo de tudo). § Sociedade com estamentos estáticos: o clero (os padres = homens de oração), a nobreza e a cavalaria (poder mundano e defesa militar) e os servos (o povo = tra- balhadores). O código do amor cortês Os termos que definiam as relações feudais foram trans- postos para as cantigas, caracterizando a linguagem do Trovadorismo: a mulher era a senhora, o homem era o seu servidor. Eram muito prezadas a generosidade, a lealdade e, acima de tudo, a cortesia. As cantigas de amor do Trovadorismo desenvolvem um mes- mo tema: o sofrimento provocado pelo amor não correspon- dido – a “coita de amor”. Como o princípio do amor cortês é a idealização da dama pelo trovador, os textos não manifes- tam a expectativa de correspondência amorosa. As cantigas satíricas passeiam por muitos temas, sempre expressando um olhar crítico sobre a conduta de nobres, homens e mulheres, nas esferas individual e social. É bas- tante comum os trovadores ridicularizarem um nobre que se envolve com uma serviçal ou que não percebe a trai- ção da esposa. tipos de Cantiga As cantigas trovadorescas são divididas em dois grupos: as líricas, que falam de sentimento e são subdivididas em cantigas de amor e cantigas de amigo; e as cantigas satíricas, intencionalmente críticas e cômicas, também subdivididas em cantigas de escárnio e de cantigas de maldizer. Líricas A poesia lírica diz respeito à lira, instrumento musical da Antiguidade clássica que acompanhava as canções expres- sando sentimentos. cantigas de amor cantigas de amigo eu-lírico masculino, pobre eu-lírico feminino, pobre amor impossível saudade poucos refrãos muitos refrãos ausência de paralelismo paralelismo linguagem refinada (amor cortês) linguagem popular submissão à dama “mulher idealizada” (vassalagem amorosa) grau de igualdade “mulher atrevida” coita d’amor amor correspondido origem em Provença, sul da França península Ibérica (galega) Satíricas As cantigas satíricas fazem críticas ao comportamento das pessoas em suas ações sociais e usam o humor e o vocabu- lário chulo para denunciar alguns nobres e damas. Além disso, a sátira se estende a instituições sociais, censu- rando os males da sociedade ou dos indivíduos, quase tudo com tom sarcástico, irônico e obsceno. Cantigas de escárnio Cantigas de maldizer Crítica sutil Crítica direta Linguagem ambígua e velada Linguagem direta e clara Vocabulário comedido Vocabulário agressivo TROVADORISMO E HUMANISMO 31 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s três CanCioneiros Os cancioneiros são manuscritos, coletâneas de cantigas com características variadas e escritas por diversos autores. Os mais importantes são os três cancioneiros que concen- tram boa parte da produção conhecida dos séculos XII,XIII e XIV: Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Biblioteca Nacio- nal e Cancioneiro da Vaticana. as novelas de Cavalaria As novelas de cavalaria são os primeiros romances, ou seja, longas narrativas em verso, surgidas no século XII. Elas contam as aventuras vividas pelos cavaleiros an- dantes e tiveram origem com o declínio do prestígio da poesia dos trovadores. Estão organizadas em três ciclos, de acordo com o tema que desenvolvem e com o tipo de herói que apresentam: § Ciclo clássico: novelas que narram a guerra de Troia e as aventuras de Alexandre, o Grande. O ciclo recebe essa denominação porque seus heróis vêm do mundo clássico mediterrâneo. § Ciclo arturiano ou bretão: histórias envolvendo o rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda. Nessas nove- las, podem ser identificados vários núcleos temáticos: a história de Percival, a história de Tristão e Isolda, as aven- turas dos cavaleiros da corte do rei Arthur e a demanda do Santo Graal. § Ciclo carolíngio ou francês: histórias sobre o rei Carlos Magno e os Doze Pares de França. Humanismo Contexto § Século XV – fim da Idade Média. § Grandes navegações. § Desenvolvimento das cidades e do comércio. § Burguesia. § Período de transição dos valores medievais para os va- lores do Renascimento, ou seja, do teocentrismo para o antropocentrismo. § Valorização da cultura. Produção literária § Crônicas – histórias curtas sobre o cotidiano dos no- bres que queriam registrar seus grandes feitos. O mais famoso cronista de Portugal foi Fernão Lopes, nome- ado cronista-mor da Torre do Tombo, por D. Duarte. § Poesia palaciana – poemas compostos em redondi- lhas, sem o acompanhamento musical, e impres- sos, feitos para declamação dentro dos palácios; além de tratar da vida da corte, retomavam os temas das cantigas trovadorescas, porém com preocupação técni- ca e novas formas poemáticas, como é o caso do Vilan- cete, da Trova e da Esparsa. Toda a produção de poesia palaciana foi reunida num volume chamado Cancio- neiro geral, organizado por Garcia de Resende. § Teatro – voltado para temas religiosos e didáticos, ou seja, feito para ensinar religião. Representava cenas bí- blicas, vidas dos santos e mártires da Igreja. O teatro propriamente dito, com texto elaborado, inaugurou-se em Portugal com a obra de Gil Vicente, que mostrou peças cheias de sátira à sociedade, com temas tanto profanos, nas farsas, como religiosos, nos autos. Seu teatro desenvolveu essencialmente “tipos sociais”, isto é, personagens que representavam figuras que desen- volviam papéis específicos na sociedade e apontavam os defeitos da personalidade humana. A sua crítica al- cançou desde os mais pobres aos mais ricos ou mais graduados clérigos. Sua obra aponta o equilíbrio entre a razão e a emoção, que norteou a arte do século XV, considerando que ele alcançou o século XVI e viveu o início e o auge do Renascimento. Por isso, notam-se em sua obra valores teocêntricos e antropocêntricos. RENASCIMENTO: CLASSICISMO E LUIS VAZ DE CAMÕES ClassiCismo Contexto § Renascimento – século XVI – resgate da Antiguida- de clássica. § Crescimento do comércio e fortalecimento da burguesia. § Descobrimentos. § Antropocentrismo (homem como centro das preocu- pações). Produção artística O classicismo seguiu os modelos da cultura greco-latina, uma vez que representavam o equilíbrio e a perfeição. 32 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Nesse sentido, as características gerais do período fo- ram o racionalismo, o universalismo, a perfeição formal, o resgate da mitologia clássica e o humanismo. A Itália foi onde essa tendência renascentista apareceu com mais intensidade, sendo o palco desse retorno ao mundo da Antiguidade, ou seja, fez renascer, desde me- ados do século XIII, os ideais de valorização dos gregos e latinos, dos esforços individuais, da perfeição, da superio- ridade humana e da razão como parâmetro de observação e interpretação da realidade. Pintura, escultura e arquitetura Na pintura, alguns dos principais traços do Renascimento foram a noção de perspectiva e a tematização de elemen- tos da Antiguidade, bem como a humanização do tema sacro. A técnica era levada em conta acima de tudo, e o sombreado realçava a ideia de volume dos corpos. Também teve início a utilização da tela e da tinta a óleo. Na escultura, o que mais chama a atenção é a busca pela representação ideal do homem, normalmente retratado nu a fim de exaltar as formas humanas. A arquitetura também se inspirou nos traços clássicos, retra- tando a figura humana e o conceito de beleza dos templos construídos de maneira harmônica, normalmente cobertos por uma cúpula. Entre os artistas mais importantes da arte renascentista es- tão Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475- 1564) e Rafael Sanzio (1483-1520). Literatura O poeta Dante Alighieri, autor da Divina comédia, intro- duziu o verso decassílabo, chamado de “medida nova”, o dolce stil nuovo (doce estilo novo), em contraponto à re- dondilha, considerada como “medida velha”. O poeta Fran- cesco Petrarca, criador do soneto, influenciou vários poetas europeus, entre o quais o inglês William Shakespeare e os portugueses Luís Vaz de Camões e Sá de Miranda. Em 1527, Sá de Miranda, retornando da Itália, introduziu em Portugal a “medida nova”. Contudo, foi Luís Vaz de Camões quem se destacou na literatura portuguesa des- se período. luis vaz de Camões Luís Vaz de Camões teria nascido em 1524 ou 1525, pro- vavelmente na cidade de Lisboa (talvez Coimbra ou San- tarém). Morreu em 10 de junho de 1580. Curiosamente, o herói da poesia portuguesa expirou quando se iniciou o declínio do poderio imperial de Portugal, no mesmo ano da União da Península Ibérica, em que o país ficou sob o domínio da coroa espanhola. Em 1572, publicou Os Lusíadas, sua obra-prima. Em 1595, foi publicada a obra Rimas, com uma compilação de sua obra lírica, de versos redondilhos elaborados à maneira medieval, e também de seus sonetos decassílabos de in- fluência petrarquiana. Camões épiCo Engenho e arte A obra épica Os Lusíadas é a mais importante epopeia em língua portuguesa. Teve como modelos estruturais as epopeias da Antiguidade: a Ilíada e a Odisseia. Entretan- to, Camões introduziu uma novidade, pois, em Os Lusía- das, o herói é coletivo, ou seja, é o povo português; ao contrário do que ocorre nas epopeias modelares. Essa modalidade de escrita passou a ser chamada de epo- peia secundária. Os Lusíadas conseguiu conciliar a mitologia pagã (fruto do gosto renascentista pelo estudo da cultura pagã) e a mito- logia cristã (ideologia pessoal do autor). Estrutura da obra A obra de Camões apresenta 8.816 versos decassílabos, di- vididos em 1.102 estrofes, todas em oitava-rima, organizada em dez cantos. Além disso, existem outras cinco partes: § Proposição (canto I, estrofes 1 a 3) O poeta apresenta o que vai cantar, ou seja, o tema dos fei- tos heroicos dos ilustres barões de Portugal, o herói, Vasco da Gama, e o destino da viagem. § Invocação (canto I, estrofes 4 e 5) O poeta invoca as Tágides, ninfas do rio Tejo, pedindo a elas para inspirá-lo na composição da obra. § Dedicatória ou oferecimento (canto I, estrofes 6 a 18) O poeta dedica seu poema a D. Sebastião, rei de Portu- gal na época em que o poema foi publicado, visto como a esperança de propagação da fé cristã e continuação dos grandes feitos de Portugal. § Narração (canto I, estrofe 19 até canto X, es- trofe 144) O poeta relata a viagem propriamente dita dos portugueses ao Oriente. O desenrolar dos fatos começa In Media Res, ou seja, no meio da ação, quando Vasco da Gama e sua esqua- dra se dirigem ao Cabo da Boa Esperança. 33 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s quinHentismo Contexto histórico § Século XVI. § Início da colonização do Brasil. Literatura de informação Textos criados para enviar a Portugal notíciassobre as terras descobertas. Esses relatórios, denominados “crôni- cas de viagem”, possuem caráter mais histórico do que literário, e a linguagem é predominantemente referencial ou denotativa. Considerada o primeiro documento da literatura no Brasil, A carta, de Pero Vaz de Caminha, inaugurou, em 1500, a chamada literatura informativa. Literatura de formação ou jesuítica Ao lado da prosa informativa, ocorreram manifestações em poesia e teatro escritas por jesuítas com a finalidade de catequizar os índios. Essa produção é denominada literatura de formação, em decorrência do aspecto di- dático que apresenta. Seus principais expoentes são os padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. barroCo Contexto histórico § reforma × contrarreforma § no Brasil: ciclo da cana-de-açúcar Conceptismo § clareza dos argumentos § valorização da lógica § bom uso da retórica § silogismos § sofismas § Epílogo É a conclusão do poema (estrofes 145 a 156 do canto X), em que o poeta demonstra cansaço e, em tom melancólico e pessimista, aconselha ao rei e ao povo português que sejam fiéis à pátria e ao cristianismo. Camões líriCo “Tu, só tu, puro amor” A obra lírica de Camões compreende poemas feitos na me- dida velha e na medida nova. A medida velha obedece à poesia de tradição popular, na forma e no conteúdo. São exploradas as redondilhas, de cinco ou de sete sílabas (me- nor ou maior, respectivamente). Os poemas em medida nova são relacionados à tradição clássica: sonetos, éclogas, elegias, oitavas, sextinas. Quan- to ao conteúdo, a poesia lírica clássica se relaciona com o petrarquismo. Francesco Petrarca foi o responsável por fixar a forma do soneto, no século XIV; o conteúdo de sua poesia delineia um lirismo amoroso platônico, relacionado indissoluvelmente a uma mulher inacessível, Laura, a que dedicou perto de 360 sonetos, no seu Cancioneiro. A lírica amorosa O tema amoroso é explorado na lírica camoniana sob du- pla perspectiva. Com frequência, aparece o amor sensual, próprio da sensualidade renascentista, inspirada no paga- nismo da cultura greco-latina. Predomina, porém, o amor neoplatônico, espécie de extensão e aprofundamento da tradição da poesia medieval portuguesa ou da poesia hu- manista italiana, em que o amor e a mulher se configuram como idealizados e inacessíveis. Em Camões, percebe-se o conflito entre o sentimento espi- ritual, idealizado, e o sentimento de manifestação carnal. O amor é, dessa forma, complexo, contraditório. Esses sentimentos contraditórios, bem como certo pessimis- mo existencial que marca a poesia lírica de Camões, fogem ao espírito harmonioso e racional do Renascimento e pre- nunciam o movimento literário do século XVII: o Barroco. QUINHENTISMO E ESTÉTICA BARROCA 34 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s gregório de matos Gregório de Matos (1633-1696) é o maior poeta barroco brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica e satírica no Brasil. Em sua obra, Gregório acolheu a poesia religiosa, os costumes e a reflexão moral. Em relação aos temas, convi- vem em seus poemas um desenfreado sentimento de sen- sualismo, erotismo e paixão idealizada. Seus poemas são dados ao gosto pelo jogo de palavras e das brincadeiras. O “língua de trapo” Irreverente como poeta lírico, Gregório seguiu e ao mes- mo tempo implodiu os modelos barrocos europeus. Foi apelidado de Boca do Inferno, graças à sua poesia satírica, dirigida aos governantes corruptos, a religiosos licenciosos e às hipocrisias da sociedade. Poesia satírica Não poupa aspecto algum do sistema e do poder, o que faz dele um poeta maldito. Provoca os políticos e ridiculariza os que viviam para bajular e louvar os poderosos, traços que contribuíram para o “abrasileiramento” do Barroco importado da Europa. Poesia lírica: sacra e amorosa A poesia lírica de Gregório de Matos é idealista, às vezes emocional, às vezes conceitual, mas frequente- mente preocupada em entender contradições. A lírica sacra ressalta o senso do pecado ao lado do desejo do perdão. O lirismo amoroso é contraditório, marcado pela ambiguidade da mulher, vista como uma dualidade entre matéria e espírito. Poesia lírica filosófica A lírica filosófica de Gregório de Matos revela um poeta que, tal qual os clássicos, transmite um forte senso do “descon- certo do mundo”, ocupando-se com a transitoriedade da vida, o escoamento do tempo e a fragilidade do homem. antônio vieira Antônio Vieira (1608-1697) é a principal expressão do Barroco em Portugal. Sua obra pertence tanto à literatu- ra portuguesa quanto à brasileira. Sua característica mais marcante é a de orador e pregador da fé cristã. As qualidades de Vieira como orador são incomparáveis. Dotado de boa formação jesuítica, pronunciou sermões que se tornaram ao mesmo tempo a expressão máxima do Barroco em prosa sacra e uma das principais expressões ideológicas e literárias da Contrarreforma. Pregou no Brasil, em Portugal e na Itália, sempre com grande repercussão. Entre sua vasta produção de mais de duzentos sermões e quinhentas cartas, destacam-se: § Sermão da sexagésima, proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, cujo tema é a arte de pregar. § Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal con- tra as de Holanda, proferido na Bahia, em 1640, posi- ciona-se contra à invasão holandesa. § Sermão de Santo Antônio (aos peixes), proferido no Maranhão, em 1654, ataca a escravização de índios. § Sermão do mandato, proferido na Capela Real de Lis- boa, em 1645, desenvolve o tema do amor místico. Contexto histórico Europa § Iluminismo – século XVIII (o século das Luzes). § Retomada da cultura clássica. § Linguagem simples. Brasil § Inconfidência Mineira. Características A partir da segunda metade do século XVIII, junto às profundas transformações sociais e econômicas que anunciavam revoluções intelectuais nas sociedades euro- peias, desenvolve-se um novo estilo literário, o Arcadismo. O Arcadismo foi chamado também de Neoclassicismo, um novo Classicismo, em decorrência da retomada dos modelos clássicos. As principais características do estilo são: § Busca pela perfeição. § Referências mitológicas. ESTÉTICA NEOCLÁSSICA: O ARCADISMO GREGÓRIO DE MATOS E PADRE ANTONIO VIEIRA 35 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s § Racionalismo. § Pastoralismo. § Bucolismo: proposta de uma vida no campo como alternativa à agitação das cidades e contraponto às normas sociais e religiosas. § Valorização da cultura greco-latina. § Eu lírico = pastor. § Uso de psudônimos. Autores de destaque Em Portugal, Manuel Maria Barbosa Du Bocage, que já prenuncia o Romantismo. No Brasil, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, Alvarenga Peixoto, Santa Rita Durão e Basílio da Gama. Os poetas brasileiros, na verdade, refletiam a maneira de pensar dos europeus, porque estudaram na Europa, apesar de o país ainda ser colônia. Para recuperar a perfeição e o equilíbrio dos clássicos e do Renascimento, era comum entre os autores o uso de cli- chês árcades ditos sempre em latim: § Carpe diem (aproveitar o dia). § Fugere urbem (fugir da cidade). § Locus amoenus (lugar tranquilo). § Aurea mediocritas (equilíbrio de ouro, desprezo aos bens materiais). § Inutilia truncat (cortar o inútil). Arcádias As Arcádias eram academias literárias. Em Portugal existi- ram duas importantes academias árcades: a Arcádia Lu- sitana, que efetivamente deu início ao movimento árcade em Portugal, e a Nova Arcádia (1790), da qual participou o maior poeta português do século XVIII: Bocage. Manuel Maria Barbosa du Bocage Bocage entrou para a história da literatura portuguesa como um poeta erótico, embora sua poesia lírica árcade seja considerada superior. A obra Rimas, de 1791, valeu-lhe o convite para a Nova Arcádia, onde usava o pseudônimo Elmano Sadino. A fase inicial da poesia de Bocage é marcada por formas e temaspróprios do Arcadismo: o ambiente bucólico (fugere urbem), o ideal de vida simples e alegre (aurea mediocritas), a simplicidade e a clareza das ideias e da linguagem, etc. Idílios marítimos, Rimas (três volumes) e Parnaso bocagia- no reúnem a produção literária de Bocage. Os sonetos de Rimas são o ponto alto de sua produção. e alguns estudio- sos chegam a compará-lo a Camões. A solidão, a desilu- são amorosa, o sentimento de desamparo e a dor de viver impactaram de tal maneira sua poesia que ela acabou se afastando da estética árcade para se enveredar pelo cam- po dramático e confessional, fato que inseriu Bocage num contexto pré-romântico. A produção satírica de Bocage foi uma das que mais se po- pularizou, embora seja considerada inferior à poesia lírica. Foi por meio dessa poesia que o poeta recebeu a alcunha de “poeta maldito”, uma vez que tratava de temas de na- tureza grosseira, vulgar e obscena. arCadismo no brasil Os escritores brasileiros do século XVIII assumiram uma postura peculiar em relação ao Arcadismo importado de Portugal. Por um lado, procuravam seguir os princípios estabelecidos pelas academias literárias portuguesas e se inspiravam em escritores clássicos consagrados, como Ca- mões, Petrarca e Horácio. Ao mesmo tempo, com o intuito de tornar a literatura da Colônia mais universal e equipa- rá-la às literaturas europeias, tentavam eliminar vestígios pessoais ou locais. Dessa maneira, apresentaram em suas obras aspectos dife- rentes dos prescritos pelo modelo importado. Na poesia de Cláudio Manuel da Costa, por exemplo, a natureza aparece mais bruta e selvagem do que na poesia europeia; o mito do “homem natural” culminou na figura do índio, persona- gem das obras de Basílio da Gama e Santa Rita Durão; a expressão dos sentimentos, em Tomás Antônio Gonzaga e Silva Alvarenga, é mais espontânea e menos convencional. Esses aspectos da poesia árcade brasileira foram mais tarde recuperados e aprofundados pelo Romantismo, movimento que buscou definir uma identidade nacional à literatura. Além dessa espécie de adaptação do modelo europeu, não se pode esquecer da forte influência barroca ainda durante o século XVIII. As igrejas de Ouro Preto só tiveram sua constru- ção concluída quando o Arcadismo já vigorava na literatura. Destacam-se entre os autores árcades brasileiros: § Líricos: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Silva Alvarenga. § Épicos: Basílio da Gama, Santa Rita Durão e Cláudio Manuel da Costa. § Satíricos: Tomás Antônio Gonzaga. § Encomiásticos: Silva Alvarenga e Alvarenga Peixoto. Os poetas árcades e a inconfidência mineira Os escritores árcades mineiros Tomás Antonio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa participa- ram diretamente do movimento da Inconfidência Minei- 36 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s romantismo em portugal Partidários do liberalismo de D. Pedro e antimiguelistas, os jovens escritores Almeida Garrett e Alexandre Herculano ti- veram de exilar-se na Inglaterra e na França, onde tomaram contato com as obras de Lord Byron, Walter Scott e William Shakespeare. De volta, em 1825, Garrett publicou uma biografia roman- ceada concebida em versos brancos chamada Camões. Com esse poema, introduziu-se o Romantismo em Portugal. Suas características viriam a firmar-se no espírito romântico: ver- sos decassílabos brancos, subjetivismo, nostalgia, melancolia e a grande combinação dos gêneros literários. O Romantismo português durou aproximadamente 40 anos, como nos demais países europeus, o Romantismo português atrelou-se ao liberalismo e à ideologia burguesa e assumiu compromissos com o novo público leitor. gerações do romantismo português Nos anos caóticos de lutas entre liberais e conservadores, os românticos foram, pouco a pouco, implementando as refor- mas literárias que modificariam o quadro estético neoclássico português. O Romantismo português conheceu três momentos distintos. A Primeira Geração (Almeida Garrett e Alexandre Herculano), entre os anos de 1825 e 1840, muito contribuiu para a con- solidação do liberalismo no país. A Segunda Geração (Camilo Castelo Branco), ultrarromân- tica, levou o movimento ao exagero, e prevaleceu entre os anos 1840 e 1860. A Terceira Geração (Júlio Dinis), de transição para o Realismo, marcou presença nos anos de 1860. Nesses três momentos, a poesia, o romance, o teatro, a historiografia e o jornalismo se desenvolveram de forma inédita em Portugal. 1.ª Geração Almeida Garrett § É um dos principais escritores do romantismo português. § Em 1832, participou do cerco à cidade do Porto, empre- endido pelos liberais. § Escreveu romances, poesia e teatro. § Viagens na minha terra é um relato-personagem que registra o pitoresco da terra natal. Trata-se de um mis- to de diário, literatura de viagens, reportagens e ficção, cujo fio narrativo é uma viagem de Lisboa e Santarém. É organizada em capítulos que relatam os aconteci- mentos e as reflexões do narrador sobre vários assun- tos, entre os quais amor, política, curiosidades. Alexandre Herculano § Assim como Garrett, engajou-se na luta ao lado dos pedristas (liberais). § A obra literária de Herculano obedece ao princípio ro- mântico de busca da realidade ideal para o país me- diante a reconstituição das formas sociais mais signifi- cativas de sua história. Esse historicismo tem sua origem no romantismo histórico e social do escritor inglês Wal- ter Scott e do francês Victor Hugo. § A ficção histórica é constituída por 3 obras: O bobo, que trata da formação de Portugal em meio a uma intriga romântica; Eurico, o presbítero, que registra a situação histórica portuguesa sob o domínio mouro e discute criticamente a questão do celibato clerical; e O monge de Cister, romance que marca o momento his- tórico da centralização política monárquica. 2.ª Geração Camilo Castelo Branco § Camilo concentrou seus esforços profissionais na car- reira de escritor, fonte de seu sustento. Sua vasta obra compreende as temáticas com foco no mistério, nas questões históricas e na crítica aos costumes. § A novela camiliana atende ao gosto popular, com predomínio do ultrarromantismo e do passiona- lismo, traço distintivo e força artística. O mundo é frustrado sob o ângulo das grandes paixões: Carlota Ângela (1858), Amor de perdição (1863), Amor de salvação (1864), A doida do Candal (1867), O retra- to de Ricardina (1868). ESTÉTICA ROMÂNTICA: PROSA ra. Ao voltarem de Coimbra com ideias enciclopedistas e influenciados pela independência dos EUA, eles não apenas se somaram aos revoltosos contra a exploração pelo erário régio, que confiscava a maior parte do ouro extraído da Colônia, mas ajudaram a divulgar o ideal de um Brasil independente, contribuindo para a organização do grupo inconfidente. 37 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s § A obra que rompe com as características típicas do romantismo é Coração, cabeça e estômago, livro que realiza uma crítica aos costumes como numa antecipa- ção ao realismo. 3.ª Geração Júlio Dinis § Criava seus personagens sob a lógica dos tipos sociais e substituiu o ultrarromantismo pelas antecipações re- alistas, em que a oralidade e os comportamentos ob- serváveis passaram a figurar em suas narrativas. No en- tanto, é estudado ainda no Romantismo, por conta do processo de redenção nas conclusões de suas tramas. § Suas principais obras são: As pupilas do senhor reitor (1867), A morgadinha dos canaviais (1868), Uma famí- lia inglesa (1868), Serões da província (1870), Os fidal- gos da casa mourisca (1871), Poesias (1873), Inéditos e esparsos (1910) e Teatro inédito (1946-47). o romanCe brasileiro e a busCa do naCional Nas décadas que sucederam a Independência do Brasil, os romancistas se empenharam no projeto de construir uma cultura brasileira autônoma, que exigia dos escritores o re- conhecimento da identidade de nossagente, da nossa lín- gua, das nossas tradições e diferenças regionais e culturais. Nessa busca, o romance se voltou para os espaços nacio- nais, identificados como a selva, o campo e a cidade, que deram origem, respectivamente, ao romance indianista e histórico (a vida primitiva), ao romance regional (a vida ru- ral) e ao romance urbano (a vida citadina). O mais fértil ficcionista romântico brasileiro foi o cearense José Martiniano de Alencar (1829-1877), cuja meta era formar uma literatura nacional autêntica, que rompesse os vínculos com a lusitana e retratasse a realidade brasileira. Esse objetivo foi alcançado. José de Alencar José de Alencar (1829-1877) foi o principal romancista brasileiro da fase romântica. Sua vasta produção literária compreende vinte romances, oito peças de teatro (como Mãe e O jesuíta, encenadas à época), crônicas, escritos políticos e crítica literária. Em razão da abrangência de seus romances, eles foram clas- sificados de acordo com o tema. § Romances indianistas: O guarani (1857); Iracema (1865); e Ubirajara (1874). § Romances regionalistas: O gaúcho (1870); O tron- co do ipê (1871); Til (1871); e O sertanejo (1875). § Romances históricos: As minas de prata (dois vo- lumes: 1865 e 1866); Guerra dos mascates (dois vo- lumes: 1871 e 1873); Alfarrábios (1873, composto de O garatuja, O ermitão da Glória e A alma de Lázaro). § Romances urbanos (ou “perfis de mulheres”): Cinco minutos (1856); A viuvinha (1857); Lucíola (1862); Diva (1864); A pata da gazela (1870); Sonhos d’ouro; Senhora (1872); e Encarnação (1877). Principais obras O guarani, 1857, romance histórico-indianista que mostra a convivência entre portugueses e as tribos indígenas da época. A obra se articula a partir de alguns fatos essen- ciais: a devoção e fidelidade do índio goitacá Peri a Cecília; o amor de Isabel por Álvaro e o amor deste por Cecília. A morte acidental de uma índia aimoré, provocada por D. Dio- go, e a consequente revolta e ataque dos Aimorés, ocorre simultaneamente a uma rebelião dos homens de D. Antô- nio, liderados pelo ex-frei Loredano, homem ambicioso e devasso que queria saquear a casa e raptar Cecília. Iracema, 1865, romance histórico-indianista que desen- volve a lenda da fundação do Ceará e a história de amor entre a índia Iracema e o português Martim. Guardadora dos segredos da Jurema, Iracema faz um voto de castidade, que rompe ao tornar-se esposa de Martim. Abandona sua tribo e segue com ele. Dá à luz um filho – Moacir –, símbolo do homem brasileiro miscigenado. Mar- tim tem de partir para Portugal por um longo tempo. Quan- do regressa, encontra Iracema à morte. Enterra-a ao pé de uma palmeira e retorna a Portugal, levando consigo o filho. Til, 1871, romance regionalista em que o narrador utiliza descrições pormenorizadas da região e de cenários em tor- no do rio Piracicaba. A história do romance gira em torno do misterioso nascimento de Berta, uma jovem muito bon- dosa e bonita que mesmo sendo uma típica heroína român- tica, abnega de seus desejos para cuidar daqueles a quem quer bem. Por trás de tudo isso, o romance mostra uma visão patriarcal e senhorial presentes no Brasil escravista e patriarcal. Os preconceitos de classe e as relações de poder são enfocadas na obra. Senhora, 1875, romance urbano, é uma das últimas obras escritas por Alencar. Ao tematizar o casamento como forma de ascensão social, o autor deu início à discussão sobre certos valores e comportamentos da sociedade cario- ca da segunda metade do século XIX. Aurélia Camargo é uma moça pobre e órfã de pai, noiva de Fernando Seixas, bom rapaz, que ambiciona ascender socialmente. Em razão 38 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s u.t.i. - sala LEIA O TEXTO A SEGUIR PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 1 E 2. À SUA MULHER ANTES DE CASAR Discreta, e formosíssima Maria, Enquanto estamos vendo a qualquer hora Em tuas faces a rosada Aurora, Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia: Enquanto com gentil descortesia O ar, que fresco Adônis te namora, Te espalha a rica trança voadora, Quando vem passear-te pela fria: “Goza, goza da flor da mocidade, Que o tempo trata a toda ligeireza, E imprime em toda a flor sua pisada, Oh não aguardes, que a madura idade, Te converta essa flor, essa beleza, Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada”. (gregórIo de mAtos) 1. Explique quais aspectos do tema da efemeridade da vida revelam aspectos do contexto histórico da estética barroca. Além disso, determine a estrutura formal do poema em seus vários aspectos. 2. Leia o trecho a seguir de Luiz Vaz de Camões e deter- mine de qual obra ele foi retirado. Em seguida, justifi- que do ponto de vista temático e formal sua resposta. As armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia lusitana, Por mares nunca dantes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram; (...) Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Duma austera, apagada e vil tristeza 3. Durante o século XIV, a poesia trovadoresca entra em decadência, surgindo uma nova forma de poesia, total- mente distanciada da música, apresentando amadureci- mento técnico, com novos recursos estilísticos e novas formas poemáticas. Qual é o nome deste momento literá- rio e qual a determinação dada para a poesia da época? 4. Leia o poema a seguir e determine de qual fase da poesia do escritor Bocage ela se enquadra. Justifique sua resposta. Ó retrato da morte, ó noite amiga Por cuja escuridão suspiro há tanto! disso, troca Aurélia por outra moça de dote mais valioso. Aurélia passa a desprezar todos os homens. Eis que, com a morte de uma avó, torna-se milionária, e consequentemen- te, uma das mulheres mais cortejadas do Rio de Janeiro. Como vingança, manda oferecer a Seixas um dote de cem contos de réis, sem revelar seu nome, que seria conhecido só no dia do casamento. Seixas aceita e se casa. Na noite de núpcias, Aurélia revela-lhe seu desprezo. Seixas cai em si e percebe o quanto fora vil em sua ganância. Outros autores da prosa romântica brasileira § Bernardo Guimarães – criou o romance regionalis- ta. Tornou artísticos os “casos” da literatura oral, valen- do-se das técnicas narrativas dos folhetins. Suas obras mais lidas são O seminarista (1872) e A escrava Isaura (1875), construídas com temas básicos dos romances de ênfase social de sua época, respectivamente o celi- bato clerical e a escravidão. § Visconde de Taunay – É também autor do romance regionalista. Por conta de suas andanças no Mato Gros- so, soube reproduzir com precisão aspectos visuais da paisagem sertaneja, especialmente da fauna e da flora da região. Foi autor do romance Inocência (1872), sua obra-prima, e de livros sobre a guerra e o sertão, como Retirada da Laguna (1871). § Franklin Távora – Nasceu no Ceará e estudou Direito no Rio de Janeiro. Foi um dos mais polêmicos e radicais escritores regionalistas. Rebelou-se contra a “literatura do Sul”, especialmente a de Alencar, seu conterrâneo, alegando que ele se deixava levar pelos modelos es- trangeiros – nos romances urbanos – e que, ao dedi- car-se a romances regionalistas, nem sequer conhecia a região retratada – em O gaúcho. Com O cabeleira, inaugurou um dos veios mais férteis de nossa ficção regional. Trouxe à tona problemas até então pouco co- nhecidos em outras regiões do país, como o banditismo, o cangaço, a seca, a miséria, as migrações, mais tarde retomados e aprofundados por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado. § Joaquim Manuel de Macedo – Foi autor do primei- ro romance brasileiro propriamente dito, A moreninha (1844), depois de algumas tentativasmalsucedidas no gênero. Embora formado em Medicina, Macedo se dedicou ao jornalismo e à política. A moreninha confe- riu-lhe ampla popularidade, mantida com a publicação de outros romances. § Manuel Antônio de Almeida – Como escritor, pro- duziu uma única obra. O descompromisso com o suces- so e um grande senso de humor lhe permitiram criar uma das obras originais do Romantismo brasileiro: Me- mórias de um sargento de milícias. 39 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Calada testemunha do meu pranto, De meus desgostos secretária antiga! Pois manda Amor, que a ti somente os diga, Dá-lhes pio agasalho no teu manto; Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto Dorme a cruel, que a delirar me obriga: E vós, ó cortesãos da escuridade, Fantasmas vagos, mochos piadores, Inimigos, como eu, da claridade! Em bandos acudi aos meus clamores; Quero a vossa medonha sociedade, Quero fartar meu coração de horrores. 5. (PUC-RJ) Texto 1 Beijei na areia os sinais de teus passos, beijei os meus braços que tu havias apertado, beijei a mão que te ul- trajara num momento de loucura, e os meus próprios lábios que roçaram tua face num beijo de perdão. Que suprema delícia, meu Deus, foi para mim a dor que me causavam os meus pulsos magoados pelas tuas mãos! Como abençoei este sofrimento!... Era alguma cousa de ti, um ímpeto de tua alma, a tua cólera e indig- nação, que tinham ficado em minha pessoa e entravam em mim para tomar posse do que te pertencia. Pedi a Deus que tornasse indelével esse vestígio de tua ira, que me santificara como uma cousa tua! .................................................................. Quero guardar-me toda só para ti. Vem, Augusto: eu te es- pero. A minha vida terminou; começo agora a viver em ti. (José de AlencAr. “dIvA”. rIo de JAneIro: edIouro, 1996. p.121.) O texto acima é um trecho do último capítulo de “Diva”, romance de Alencar que, ao lado de “Senhora” e “Lucí- ola”, forma a trilogia de “perfis femininos”. Trata-se de uma carta escrita por Emília, protagonista da estória, ao jovem médico Augusto. A partir da leitura do texto, indique as características românticas presentes no frag- mento, justificando com exemplos. U.T.I. - E.O. LEIA O TEXTO A SEGUIR PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 1 A 3. Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo! E ai Deus, se verrá1 cedo! Ondas do mar levado2, se vistes meu amado! E ai Deus, se verrá cedo! mArtIm codAx 1verrá - virá 2levado - agitado 1. Segundo a tradição da poesia medieval, como pode- -se classificar a cantiga de Martim Codax? 2. Determine as características que justificam sua clas- sificação. 3. A estrutura paralelística é, neste poema, particularmen- te expressiva, pois revela uma relação importante com o aspecto da temática. Determine qual é esta relação. LEIA O TEXTO A SEGUIR PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 4 E 5. Mote: Perdigão perdeu a pena, Não há mal que lhe não venha. Volta: Perdigão que o pensamento Subiu a um alto lugar, Perde a pena do voar, Ganha a pena do tormento. Não tem no ar nem no vento Asas com que se sustenha: Não há mal que lhe não venha. (cAmões) 4. De que fase da poesia de camões este poema se en- quadra? 5. Do ponto de vista formal, como pode se classificar o poema classicista de Luís Vaz de Camões? LEIA O TEXTO A SEGUIR PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 6 A 8. Passada esta tão próspera vitória, Tornado Afonso à Lusitana terra, A se lograr da paz com tanta glória Quanta soube ganhar na dura guerra, O caso triste, e dino da memória Que do sepulcro os homens desenterra, Aconteceu da mísera e mesquinha Que despois de ser morta foi Rainha. (luIs vAz de cAmões) 6. De que obra de Luis Vaz de Camões o trecho apresen- tado foi retirado? 7. Qual o ano da publicação da obra em que o trecho se enquadra? 8. O texto faz menção a uma passagem importante da obra que se enquadra. Qual é esta passagem e qual o seu significado no todo da obra? LEIA O TEXTO A SEGUIR PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 9 A 11. Eu cantarei de amor tão Docemente, Por uns termos em si tão concertados, Que dois mil acidentes namorados Faça sentir ao peito que não sente. Farei que amor a todos avivente, Pintando mil segredos delicados, Brandas iras, suspiros magoados, 40 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Temerosa ousadia e pena ausente. Também, Senhora, do desprezo honesto De vossa vista branda e rigorosa Contentar-me-ei dizendo a menor parte. Porém, para cantar de vosso gesto A composição alta a milagrosa, Aqui fala saber, engenho e arte. 9. De que fase da obra de Luis Vaz de Camões o trecho a cima foi retirado? 10. Camões possui temas fundamentais em sua poesia. Determine qual a temática predominante no texto “Eu cantarei de amor tão docemente”? 11. Do ponto de vista formal, como se pode classificar o poema acima? Justifique com pelo menos um aspecto. LEIA O TEXTO A SEGUIR PARA RESPONDER À PRÓXIMA QUESTÃO. Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente me- recem este título são aqueles a quem os reis encomen- dam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. pAdre AntônIo vIeIrA – “sermão do bom lAdrão” 12. O jesuíta padre Antônio Vieira ficou famoso por seu poder de argumentação em função do projeto de coloni- zação catequética de Portugal. Um de seus instrumentos era o “silogismo aristotélico”. Determine suas premissas e conclusão no trecho do “Sermão do bom ladrão”. 13. Qual é o documento que na história da Literatura pode ser considerado a “Certidão de nascimento da Literatura Brasileira”? Determine também quem foi o responsável por sua autoria e a data de sua publicação. 14. (UFLAVRAS) Leia os seguintes fragmentos de “Marí- lia de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga. Texto 1 Verás em cima de espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos; Ver-me-ás folhear os grandes livros, E decidir os pleitos. Texto 2 Os Pastores, que habitam este monte, Respeitam o poder do meu cajado; Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja me tem o próprio Alceste. Responda: Em qual dos fragmentos o sujeito lírico é caracterizado de acordo com a convenção arcádica? Explique. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855. Poucos dias depois da minha chegada, um amigo e companheiro de infância, o Dr. Sá, levou-me à festa da Glória; uma das poucas festas populares da corte. Conforme o costume, a grande romaria desfilando pela Rua da Lapa e ao longo do cais serpejava nas faldas do outeiro e apinhava-se em torno da poética ermida, cujo âmbito regurgitava com a multidão do povo. Era ave-maria quando chegamos ao adro; perdida a es- perança de romper a mole de gente que murava cada uma das portas da igreja, nos resignamos a gozar da fresca viração que vinha do mar, contemplando o deli- cioso panorama da baía e admirando ou criticando as devotas que também tinham chegado tarde e pareciam satisfeitas com a exibição de seus adornos. Enquanto Sá era disputado pelos numerosos amigos e conhecidos, gozava eu da minha tranquila e indepen- dente obscuridade, sentado comodamente sobre a pequena muralha e resolvido a estabelecer ali o meu observatório. Para um provinciano lançado recém-lan- çado-chegado à corte, que melhor festa do que ver passar-lhe pelos olhos, à doce luz da tarde, uma parte da população desta grande cidade, com os seus vários matizes e infinitas gradações? Todas as raças, desde o caucasiano sem mescla até o africano puro; todas as posições, desde as ilustrações da política, da fortuna ou do talento, até o proletário humilde e desconhecido;todas as profissões, desde o banqueiro até o mendigo; finalmente, todos os tipos grotescos da sociedade brasileira, desde a arrogante nulidade até a vil lisonja, desfilaram em face de mim, roçando a seda e a casimira pela baeta ou pelo algo- dão, misturando os perfumes delicados às impuras exa- lações, o fumo aromático do havana às acres baforadas do cigarro de palha. AlencAr, José de. lucíolA. são pAulo: edItorA átIcA, 1988, p. 12 15. (PUC-RJ) O romance “Lucíola”, publicado em 1862, é considerado uma das mais importantes obras de José de Alencar. Cite TRÊS aspectos que marcam o estilo de época a que se filia o autor, tendo como referência o fragmento selecionado. LEIA OS TEXTOS A SEGUIR PARA RESPONDER À PRÓXIMA QUESTÃO. TEXTO I SONETO DO EPITÁFIO Lá quando em mim perder a humanidade Mais um daqueles, que não fazem falta, Verbi-gratia – o teólogo, o peralta, Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade: Não quero funeral comunidade, Que engrole “sub-venites” em voz alta; Pingados gatarrões, gente de malta, Eu também vos dispenso a caridade: 41 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Mas quando ferrugenta enxada edosa Sepulcro me cavar em ermo outeiro, Lavre-me este epitáfio mão piedosa: “Aqui dorme Bocage, o putanheiro; Passou vida folgada, e milagrosa; Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”. (bocAge, mAnuel mArIA bArbosA du. In: lAJolo, mArIsA. (org.) lIterAturA comentAdA: bocAge. são pAulo: AbrIl culturAl, 1980. p. 91. ortogrAfIA AtuAlIzAdA.) TEXTO II LEMBRANÇA DE MORRER Quando em meu peito rebentar-se a fibra, Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento. Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto, o poento caminheiro – Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro; Como o desterro de minh’alma errante, Onde o fogo insensato a consumia: Só levo uma saudade – é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia. [...] Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida, À sombra de uma cruz, e escrevam nela: Foi poeta – sonhou – e amou na vida. Sombras do vale, noites da montanha Que minha alma cantou e amava tanto, Protegei o meu corpo abandonado, E no silêncio derramai-lhe canto! Mas quando preludia ave d’aurora E quando à meia-noite o céu repousa, Arvoredos do bosque, abri os ramos. Deixai a lua pratear-me a lousa! (Azevedo, álvAres de.lIrA dos vInte Anos. In: obrA completA. rIo de JAneIro: novA AguIlAr, 2000. p. 188-189.) Com base nos textos I e II, responda: a) Quais são as características do soneto de Bocage (texto I) que nos permitem identificá-lo como satírico? b) Os poemas de Bocage (texto I) e Álvares de Azeve- do (texto II) tratam diferentemente do mesmo tema. Identifique esse tema e explicite as maneiras como cada autor o trata, relacionando-as com o contexto de época. LINGUAGENS CÓDIGOS e suas tecnologias ENTREENTRE FRASESFRASES 1 U.T.I. REDAÇÃO 44 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s DISSERTAÇÃO ARGUMENTATIVA: é o gênero textual em que se discute um tema, a partir da defesa de um posicionamento sustentado por argumentos. Trata-se de um tipo de texto frequentemente exigido nos exames vestibulares do país. estrutura da dissertação argumentativa INTRODUÇÃO Trata-se do parágrafo inicial do texto. Ele tem função de situar o leitor a respeito do assunto e da problemática a serem tratados e de anunciar o direcionamento a ser desenvolvido ao longo do texto, isto é, a tese. DESENVOLVIMENTO O desenvolvimento da redação ocorre nos parágrafos intermediários do texto. Eles apresentam os argumentos selecionados para a defesa da tese. CONCLUSÃO Trata-se do parágrafo de encerramento da redação. A depender do vestibular, pode apresentar uma reiteração da tese e dos argumentos desenvolvidos ou apresentar uma intervenção para o problema discutido. (ENEM) elementos básiCos da dissertação argumentativa TESE: É o posicionamento a respeito do tema. Trata-se de um período dentro do texto que resume ao leitor qual será o ponto de vista defendido ao longo da redação. Geralmente, a tese aparece ao final do 01º parágrafo, isto é, da introdução. ARGUMENTO: É uma ideia que sustenta a tese. Deve ser apresentada e discutida por meio de dados, fatos, citações, exemplos ou analogias artísticas. reflexão CrítiCa A elaboração da redação exige um momento de reflexão especial do candidato. Na maior parte dos casos, é mais produtivo dedicar um tempo maior para a análise do tema e para a seleção dos argumentos que para a própria escrita, uma vez que a construção de um ponto de vista claro e objetivo é a principal finalidade do texto. Uma das maneiras de refletir criticamente sobre um assunto é separar o “joio do trigo”. No caso das dissertações xargu- mentativas, a reflexão pode ser iniciada separando o senso comum do senso crítico. O SENSO CRÍTICO se encarrega de analisar a fundo as problemáticas discutidas observando seu surgimento, suas causas e seus principais agentes; o SENSO COMUM, por sua vez, apenas reflete uma opinião superficial ou limitada, usualmente baseada em hábitos, crenças e preconceitos ou numa visão menos esclarecida sobre determinada situação. OBJETIVIDADE E CLAREZA A linguagem utilizada na redação deve respeitar a norma padrão da língua portuguesa e prezar pela clareza e pela objetivi- dade. Os termos que atribuem incerteza e imprecisão às afirmações devem ser deixados de lado. IMPESSOALIDADE Predomínio da 3º pessoa do singular § Nota-se que... § Observa-se que... § É possível perceber... § Pode-se afirmar... § Vale mencionar que... § Convém ressaltar... § É importante abordar... § Não se pode esquecer... § Torna-se fundamental reavaliar ... § É necessário rever... § Passa-se a discutir... § É notável que... DISSERTAÇÃO ARGUMENTATIVA A LINGUAGEM NA DISSERTAÇÃO ARGUMENTATIVA 45 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s APRESENTAÇÃO DA OPINIÃO ALGUNS VERBOS NO PRESENTE Vale dizer também que veículos de mídia distorcem as informações fornecidas pelos entrevistados. A elite brasileira ignora a noção de cidadania e, assim, submete os outros a uma relação de hierarquia. No entanto, tal discurso deturpa a visão da sociedade a respeito de política. ADJETIVOS A sociedade civil é conivente com as ações... As ações vinculadas à cultura são inexpressivas... A adoção de uma postura crítica é essencial aos sujeitos... SUBSTANTIVOS ABSTRATOS Há uma hipocrisia no discurso de parte da classe média brasileira. Logo, nota-se o desprezo da opinião pública em uma questão que deveria ser de interesse coletivo. Assim, esse cenário apenas fortalece o desconhecimento sobre o assunto. VERBOS DE LIGAÇÃO Diante disso, nota-se que o racismo continua presente no cotidiano brasileiro, ainda que parte da sociedade civil negue sua existência. Tornou-se comum negar o próprio discurso. Além disso, vale dizer que o corpo docente permanece distante do interesse de seus alunos. Características principais da redação ENEM: § Elaborar um texto em prosa, do tipo dissertativo-argumentativo, com tema de ordem social, científica, cultural ou política. (Geralmente, discute-se problemas da sociedade). § Compor o texto a partir de uma tese que seja comprovada por argumentos. § Sugerir uma intervenção para o problema abordado. (A sugestão deve respeitar os direitos humanos). CompetênCias COMPETÊNCIA 1: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. Dicas: § Esteja muito atento à construção sintática das orações e aos problemas de acentuação, pontuação, concordância e ortografia; § Dê preferência ao emprego de períodos menores, em que as subordinações e orações intercaladas possam ficar mais claras e organizadas aos olhosdo leitor; § Releia o seu rascunho antes de passar a limpo procurando eliminar quaisquer desvios da norma padrão e usos lexicais da informalidade. COMPETÊNCIA 2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa. Dicas: § Leia com MUITA ATENÇÃO o recorte temático proposto, buscando elaborar uma redação que atende integralmente ao que se pede; § Construa seus parágrafos de modo a deixar claro que seu texto possui uma introdução com uma tese, desenvol- vimento conclusão; § Utilize ao menos dois repertórios externos na redação que estejam vinculados ao tema e que sejam provenientes de outras áreas do conhecimento: literatura, história, sociologia, filosofia, direito, cinematografia, música, etc. ESPECIFICIDADES DO ENEM 46 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s COMPETÊNCIA 3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. Dicas: § Construa uma tese que já anuncie ao leitor quais serão seus argumentos: § Elabore seus parágrafos de desenvolvimento com sua opinião (introduzida pelo tópico frasal) e com explicações, infor- mações e fatos que a comprovem. COMPETÊNCIA 4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação. Dicas: § Capriche na coesão entre os períodos e parágrafos de seu texto. Lembre-se que as ideias devem estar sempre muito bem amarradas; § Use a coesão referencial para retomar temos apresentados anteriormente, evitando ao máximo a repetição de palavras. § Use os conectivos para ligar seus períodos e parágrafos. Evite repetir conectivos: a pontuação máxima também depende de um repertório amplo de operadores argumentativos. COMPETÊNCIA 5: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direi- tos humanos. Dicas: § Faça uma proposta concreta. Pense em ações possíveis e evite clichês. § Não se esqueça de nenhum dos elementos: AGENTE, AÇÃO, MEIO, FINALIDADE. Lembre-se também de que ao menos 1 desses elementos precisa estar DETALHADO. EXEMPLO: REDAÇÃO ENEM 2019 – Nota 1000 Na obra “A Invenção de Hugo Cabret”, é narrada a relação entre um dos pais do cinema, Georges Mélies, e um menino órfão, Hugo Cabret. A ficção, inspirada na realidade do começo do século XX, tem como um de seus pontos centrais o lazer propor- cionado pelo cinema, que encanta o garoto. No contexto brasileiro atual, o acesso a essa forma de arte não é democratizado, o que prejudica a disponibilidade de formas de lazer à população. Esse problema advém da centralização das salas exibidoras em zonas metropolitanas e do alto custo das sessões para as classes de menor renda. Primeiramente, o direito ao lazer está assegurado na Constituição de 1988, mas o cinema, como meio de garantir isso, não tem penetração em todo território brasileiro. O crescimento urbano no século XX atraiu as salas de cinema para as grandes cidades, centralizando progressivamente a exibição de filmes. Como indicativo desse processo, há menos salas hoje do que em 1975, de acordo com a Agência Nacional de Cinema (Ancine). Tal fato se deve à falta de incentivo governamental – seja no âmbito fiscal ou de investimento – à disseminação do cinema, o que ocasionou a redução do parque exibidor interiorano. Sendo assim, a democratização do acessoao cinema é prejudicada em zonas periféricas ou rurais. Ademais, o problema existe também em locais onde há salas de cinema, uma vez que o custo das sessões é inacessível às classes de renda baixa. Isso se deve ao fato de o mercado ser dominado por poucas empresas exibidoras. Conforme teorizou inicialmente o pensador inglês Adam Smith, o preço decorre da concorrência: a competitividade força a redução dos preços, en- quanto os oligopólios favorecem seu aumento. Nesse sentido, a baixa concorrência dificulta o amplo acesso ao cinema no Brasil. Portanto, a democratização do cinema depende da disseminação e do jogo de mercado. A fim de levar os filmes a zonas periféri- cas, as prefeituras dessas regiões devem promover a interiorização dos cinemas, por meio de investimentos no lazer e incentivos fiscais. Além disso, visando reduzir o custo das sessões, cabe ao Ministério da Fazenda ampliar a concorrência entre as empresas exibidoras, o que pode ser feito pela regulamentação e fiscalização das relações entre elas, atraindo novas empresas para o Brasil. Isso impediria a formação de oligopólios, consequentemente aumentando a concorrência. Com essas medidas, o cinema será democratizado, possibilitando a toda a população brasileira o mesmo encanto que tinha Hugo Cabret com os filmes. Trecho extraído de redação nota 1000 publicada na Cartilha do participante – Redação ENEM 2020 47 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s COMENTÁRIO DO INEP C1: O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente e não há presença de desvios em seu texto. C2: Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que o participante apre- senta introdução em que expõe seu ponto de vista, desenvolvimento de justificativas que comprovam esse ponto de vista e conclusão que encerra a discussão, demonstrando excelente domínio do texto dissertati- vo-argumentativo. O tema é abordado de forma completa, revelando uma leitura cuidadosa da proposta de redação: ainda no primeiro parágrafo, o participante anuncia a problemática ao abordar a centralização das salas de cinema e o preço elevado dos ingressos que impedem a democratização efetiva do cinema. Observa-se também o uso produtivo de repertório sociocultural pertinente à discussão proposta pelo participante em mais de um momento do texto: no primeiro parágrafo, o filme “A Invenção de Hugo Cabret” foi utilizado com o objetivo de contextualizar o tema, apresentando o cinema como um lugar de lazer; no segundo parágrafo, o participante compara o que é assegurado pela Constituição Federal com a situação atual do país; e, no terceiro parágrafo, ele se vale de um argumento de autoridade, encontrado no pensamento de Adam Smith, para fundamentar a justificativa de que o preço dos ingressos é alto porque há poucas empresas atuando no Brasil. C3: Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto estratégico, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em defesa do ponto de vista. No primeiro parágrafo, o participante destaca a importância do cinema como fonte de lazer e apresenta a situação dessa arte no Brasil: de acordo com ele, o acesso ao cinema é prejudicado porque as salas estão centralizadas emg randes cidades e o preço dos ingressos é alto. Esses dois aspectos serão aprofundados de forma orga- nizada, cada um em um parágrafo próprio. No segundo parágrafo, discutem-se as causas da centralização das salas do cinema nas grandes cidades, o que fez com que as áreas rurais ou periféricas ficassem sem acesso a ele. Já no terceiro parágrafo, as causas do alto custo das sessões de cinema são apresentadas e detalhadas. No último parágrafo, são apre- sentadas propostas de solução para os dois problemas discutidos no texto, reforçando a importância de se proporcionar esse tipo lazer à população brasileira. C4: Em relação à coesão, encontra-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inade- quações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Ademais”, “Portanto”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “seus pontos centrais”, “essa forma de arte”, “o que”; 2º parágrafo: “mas”, “desse processo”, “Sendo assim”; 3º parágrafo: “também””, “uma vez que”, “enquanto”; 4º parágrafo: “dessas regiões”,“Além disso”, “Com essas medidas”, entre outros). C5: Por fim, o participante elabora proposta de intervenção muito boa: concreta, articulada à discussão desen- volvida no texto, detalhada e que respeita os direitos humanos ao propor investimentos em salas de cinemas em lugares afastados e aumento da competitividade entre as empresas exibidoras. 48 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Siga as orientações abaixo para produzir um projeto de texto produtivo no vestibular: PASSO 1. Análise do tema Dedique alguns minutos a refletir sobre o recorte temático. Analise as palavras chaves que aparecem na proposta. Use-as na hora de introduzir o tema na sua redação. Caso tenha dificuldades, procure transformar esse recorte em perguntas para ajudar seu planejamento. TEMA PERGUNTAS POSSÍVEIS A democratização do acesso ao cinema no Brasil Por que o acesso ao cinema não é democratizado no Brasil? Essa democratização ocorre efetivamente? Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil Quais são os desafios dessa formação? Quais problemas a formação desse indivíduos precisa enfrentar? Eutanásia: entre a preservação à vida e a liberdade de escolha A eutanásia representa mais uma liberdade de escolha ou um atentado à vida? Por quê? PASSO 2. Leitura da coletânea § Destaque as informações principais; § Analise a fonte de cada um dos excertos; § Relacione as informações dadas pela coletânea. Você deve avaliar os posicionamentos dos autores, analisar criticamente os dados de infográficos, e verificar como todas essas informações aparecem no meio social abordado, podendo criar orações que ilustrem a reflexão gerada a partir dessas análises. PASSO 3. Brainstorm § Faça uma tempestade de ideias acerca do tema. Anote tudo aquilo que vier na cabeça: exemplos, analogias, compara- ções, citações, definições, ilustrações, etc.; § Defina sua tese: a partir daqui você já sabe qual posicionamento defender. PASSO 4. Aplicação de critérios de seleção § Selecione os argumentos que apresentem uma relação mais direta com a tese a ser desenvolvida e com a temática abordada na coletânea; § Selecione os argumentos que tenham uma melhor sustentação: exemplo, argumento de autoridade, dado histó- rico, comparação, etc; § Selecione o argumento que possa ser embasado por alguma teoria (sociológica, filosófica). § Após selecionar os argumentos e seus respetivos repertórios para comprovação, aproveite e selecione também o repertório a ser utilizado na introdução para apresentar o tema. PLANEJAMENTO DE TEXTO 49 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s PASSO 5. Crie uma lista organizada ou um mapa mental com as ideias que você vai defender em cada parágrafo § Organize a ordem se aparecimento das informações em seu texto, inserido frases, orações das ideias que serão apresen- tadas em cada um dos parágrafos. LISTA ORGANIZADA POR PARÁGRAFOS 1.º § Repertório: A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) – todo ser humano tem o direito de ser reconhecido como pessoa perante a lei. § Problema: No entanto, essa situação não se concretiza de modo efetivo no Brasil/ muitas pessoas ainda se tornam vítimas do tráfico humano no país/ tratadas como mercadoria. § Tese: O problema ocorre em função do desconhecimento civil sobre o assunto e é reforçado pela ação ineficaz do Estado. 2.º § Falta de informação entre a população. § Explicação: Baixa escolaridade + más condições econômicas § Exemplo: Caso “Fada madrinha” – Franca SP 3.º § Ações do Estado são pouco eficazes. § Explicação: falta de controle sobre os dados/b estratégias de fiscalização § Legislação: Isso contraria o Código civil brasileiro que prevê aperfeiçoamento. 4.º § Intervenção 1: MDH – informar a população sobre os riscos – campanhas em massa (tv/redes/transportes públicos) – diminuir o número de vítimas § Intervenção 2: Gov. Federal – aperfeiçoar o sistema de segurança – criação secretaria tecnologicamente especializada no recolhimento das informações – a fim de desmontar as organizações criminosas com mais facilidade § Assim, o Brasil poderá garantir maior proteção, como determina a DUDH. MAPA MENTAL 1.º) PARÁGRAFO Repertório: A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) – todo ser humano tem o direito de ser reconhecido como pessoa perante a lei. Problema: No entando, essa situação não se concretiza de modo efetivo no Brasil / muitas pessoas ainda se tornam vítimas do tráfico humano no país / tratadas como mercadoria. Tese: O problema ocorre em função do desconhecimento civil sobre o assunto e é reforçado pela ação ineficaz do Estado. 2.º) PARÁGRAFO Falta de informação entre a população. Explicação: Baixa escolaridade + más condições econômicas = Exemplo: Caso “Fada madrinha” – Franca SP. 4.º) PARÁGRAFO Intervenção I: MDH/informar a população sobre os riscos/campanhas em massa (tv/redes/transportes públicos)/ diminuir o número de vítimas 4.º) PARÁGRAFO Intervenção: Gov. Federal – aperfeiçoar o sistema de segurança – criação secretaria tecnologicamente especializada no recolhimento das informações – a fim de desmontar as organizações criminosas com mais facilidade. Assim o Brasil poderá garantir maior proteção, como determina a DUDH. 3.º) PARÁGRAFO Ações do Estado são pouco eficazes. Explicação: Falta de controle sobre os dados/estratégias de fiscalização Exemplo: Isso contraria o que o Código civil brasileiro que prevê aperfeiçoamento. 50 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s A Declaração Universal dos Direitos Humanos – documento do qual o Brasil é signatário – prevê que todo ser humano tem o direito de ser reconhecido como pessoa perante a lei. Todavia, essa situação não se concretiza de modo efetivo no Brasil, já que muitas pessoas ainda se tornam vítimas do tráfico humano no país, e passam a ser tratadas como mer- cadoria por diferentes organizações criminosas. Nesse contexto, pode-se afirmar que a dificuldade em se combater tal questão ocorre em função do desconhecimento civil sobre o assunto e é reforçada em virtude da ação ineficaz do Estado no controle das ocorrências. Inicialmente, a falta de informação da população mostra-se como um dos principais entraves no enfrentamento ao problema. Isso porque pessoas com baixa escolaridade e más condições econômicas são enganadas pelas quadri- lhas ao buscarem melhor qualidade de vida e, assim, aceitarem falsas promessas de emprego. Um exemplo dessa articulação foi descoberto no município paulistano de Franca, onde uma quadrilha foi denunciada por traficar jovens transexuais para fora do país. Na ocasião, os criminosos ofereciam o pagamento da cirurgia de mudança de sexo como remuneração pelo trabalho, o que sugere a facilidade de tais organizações em se aproveitarem de grupos mais vulneráveis da sociedade. Cabe salientar, ainda, que a ineficácia do Estado em coibir a ação dessas quadrilhas acentua a gravidade do proble- ma. Isso se deve ao fato de, mesmo diante das denúncias, não haver um sistema que organize os dados coletados por diferentes entidades – como a polícia Federal e delegacias regionais – e, com eles, produza ações estratégicas de combate às quadrilhas. Esse cenário contraria o Código Civil Brasileiro, que determina a ampliação e aperfeiçoamento das políticas de repressão ao tráfico humano no país. Nesse sentido, nota-se que o problema também carece de ações na esfera da administração pública. Diante desse contexto, é fundamental aprimorar o combate ao tráfico humano no Brasil. Portanto, cabe ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos informar a sociedade a respeito da ação das quadrilhas, por meio da ampliação em massa de campanhas que alertem sobre os riscos de propostas atraentes, com o objetivo de diminuir o número de vítimas. Além disso, o Governo Federal deve implantar um sistema decontrole das ocorrências desse crime, mediante a criação de secretarias tecnologicamente preparadas para reunir as informações e repassá-las aos órgãos competentes, a fim de que estes ajam de modo mais efetivo. Desse modo, o Brasil se aproximará da proteção ao indivíduo prevista pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Redação Modelo - Hexag Vestibulares 51 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s espeCifiCidades da Fuvest PROPOSTA COM VIÉS MAIS ABSTRATO/ REFLEXIVO Os recortes temáticos costumam trazer discussões mais amplas que abordem questões referentes ao indivíduo ou à sociedade como: os limites da arte, a menoridade do homem, a interferência do passado na compreensão do presente, o papel da ciência do mundo contemporâneo, entre outros. DESENVOLVIMENTO DO TEMA E LEITURA DA COLETÂNEA A FUVEST avalia a capacidade do aluno de desenvolver o tema apresentado. De modo geral, o tema não é avaliado apenas pela sua pertinência à proposta, mas sim pela sua profundidade e articulação com as ideias sugeridas nos textos motivadores. Nesse sentido, ela exige que o aluno desenvolva o tema de modo profundo, a partir de um ponto de vista crítico, que transcenda os elementos da coletânea e analise as relações tensivas entre todos os elementos enfocados na proposta. AUTORIA Evite fórmulas prontas: procure fugir de estruturas pré-fabricadas e mostre ao leitor que possui competência para elaborar um texto argumentativo a partir de suas próprias reflexões. Autoria dentro da estrutura dissertativa argumentativa: busque a construção de um texto que único que atenda ao gênero e ao tema proposto. REPERTÓRIO PESSOAL Fundamente seus argumentos e crie sua introdução a partir de um repertório sociocultural diferente e criativo: procure selecionar autores, teorias, livros, filmes, etc. que efetivamente tenham uma relação próxima com o tema e que acrescentem à discussão realizada. Evite usar “citações-coringa” muito divulgadas na internet como base de seus argumentos. REFLEXÃO CRÍTICA Analise o tema de modo aprofundado: Na Fuvest, é fundamental fugir do senso comum sobre o tema abordado. Sempre procure ler os textos da coletânea e encontrar uma abordagem mais profunda para a temática discutida, valendo-se, sobretudo, de teorias que possam fundamentar seus argumentos. VALORIZAÇÃO DO VOCABULÁRIO EXPRESSIVO Atente à escolha do léxico: A Fuvest valoriza não apenas o uso da norma culta do português, mas também uma seleção vocabular expressiva que contribua para a construção das ideias dentro de um determinado tema. Portanto, procure empregar um vocabulário preciso, conciso e adequado ao tema discutido, evitando clichês e frases feitas. Lembre-se das especificidades da FUVEST § Proposta que discute temas abstratos, amplos ou atemporais; § Coletânea composta por textos de diferentes gêneros: pinturas, poemas, textos da filosofia, sociologia ou história; DICAS: § Evite fórmulas prontas ou muito engessadas: Você não precisa estruturar seu texto com mecanismos de coesão tão comuns como “Em primeira análise..” etc. § Fundamente seus argumentos e crie sua introdução a partir de um repertório sociocultural diferente: Evite citações “coringas”. Nesses casos, prefira referir-se ao conceito do autor. § Analise o recorte temático e a coletânea de modo profundo: Na FUVEST, o aluno é avaliado pela capacidade de desenvolver aquele tema. Ou seja, mais do que compreendê-lo, é fundamental estabelecer uma análise profunda da discussão proposta. § Atente à escolha do léxico. ESPECIFICIDADES DA FUVEST E DA VUNESP 52 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s espeCifiCidades da vunesp PROPOSTA COM VIÉS MAIS POLÊMICO As provas frequentemente abordam temas sociais, políticos, culturais, econômicos ou científicos que estão em discussão na mídia, nas esferas legislativas, nas redes sociais, etc. (Uberização/aborto/descriminalização da maco- nha/eutanásia/educação domiciliar/DST entre jovens, etc). POLARIZAÇÃO DE IDEIAS Os excertos escolhidos pela VUNESP costumam apresentar pontos de vista divergentes sobre o assunto em questão. Essa escolha não é aleatória: ela induz o candidato a criar argumentos que sejam capazes de corro- borar ou contestar os posicionamentos apresentados na coletânea, fazendo – sobretudo – o uso de ressalvas. Sendo assim, é importante observar se os argumentos escolhidos para sustentar a tese já não estão “invalida- dos” por um desses excertos da coletânea. ATENÇÃO AO RECORTE TEMÁTICO É preciso muita atenção ao ler o recorte temático proposto pela VUNESP. Isso porque ele costuma abordar um mesmo assunto a partir de recortes diferentes. Exemplo: O voto nulo é um ato político eficaz? (UNIFESP 2017)/ O voto deveria ser facultativo no Brasil? (UNESP 2018). Ambos os temas falam sobre votos e eleição, mas possuem recortes diferentes. Além disso vale considerar que esse recorte pode ser apresentado em forma de perguntas ou de afirmações. PADRÃO DE COLETÂNEA Diferentemente da FUVEST, a VUNESP possui um modelo padronizado de apresentação da proposta. Ele consiste na seleção de 2 a 5 textos que servem de auxílio para a compreensão do tema e para a elaboração dos argumentos pelo candidato. Como a maior parte desses excertos é proveniente do meio jornalístico, entende-se que as propostas da VUNESP dialogam com temas em constante debate na mídia, o que facilita a construção dos argumentos. No entanto, é importante saber interpretar todos os gêneros textuais: quadri- nhos, charges, textos filosóficos, poemas, etc, pois – eventualmente – algumas coletâneas são compostas de diferentes tipos de texto. ADOÇÃO DE UM POSICIONAMENTO CLARO Adote um posicionamento claro. É fundamental que o ao ler o recorte temático e a coletânea, você já saiba ao menos qual das ideias quer defender. Evite “ficar em cima do muro”, pois corre-se um risco muito alto de cair em contradição. Assuma seu posicionamento, e escolha ao menos dois argumentos para provar que você está correto em sua argumentação. Lembre-se das especificidades da VUNESP § Proposta que discute temas contemporâneos diante dos quais o aluno precisa se posicionar; § Coletânea composta por visões e posicionamentos polarizados; § Recortes temáticos com assuntos polêmicos; DICAS: § Atente ao recorte temático proposto: cuidado com a fuga ao tema. § Adote um posicionamento claro: evite cair em contradição ao longo do texto § Valorize seu repertório pessoal: procure legitimar suas ideias com repertórios exteriores à coletânea. § Capriche no desenvolvimento de seu parágrafo. 53 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Composição da introdução: Uso de um repertório para a contextualização do tema, apresentação do recorte temático proposto e apresentação da tese. CONTEXTUALIZAÇÃO 1. Repertório: Inicie o texto com algum repertório sociocultural para poder criar uma analogia com o tema a ser discutido. (Literatura; História; Sociologia; Filosofia; Legislação). DIRECIONAMENTO 2. Apresentação do tema: A partir da analogia estabelecida, apresente o tema da redação. Use palavras próximas ao recorte temático para garantir a compreensão do tema. 3. Tese: Apresente o seu posicionamento a respeito do tema proposto. estratégias de introdução APRESENTAÇÃO DA QUESTÃO Esse modelo de introdução, usado por muitos alunos, é um dos mais seguros para os que possuem mais dificuldade de iniciar a redação. Ele pode ser iniciado por afirmações, declarações gerais e até mesmo exemplos a respeito do assunto, seguidos de exposição da problemática que envolve o tema e, finalmente, a tese do autor. USO DE IMAGENS Esse modelo consiste em apropriar-se de uma imagem/metáfora que, de alguma forma, relacione-se com o as- sunto em questão. Trata-se selecionar uma imagem (dentro de um universo simbólico) que conduzirá o raciocínio a ser construído. Essa imagempode ser uma história, uma anedota, um dito-popular, isto é: algo que aparentemente não se relaciona com o tema, mas que é usado como forma de construir uma analogia. DADOS HISTÓRICOS O uso de dados históricos é um dos modelos mais usados na redação, justamente por ser uma forma segura de iniciar o período. No entanto, é preciso ter cuidado: a informação deve estar diretamente relacionada com o tema e deve ser usada apenas para introduzir a questão. Muitas vezes, alguns alunos exageram nos detalhes históricos e esquecem o objetivo principal, deixando a introdução longa e tediosa. REFERÊNCIAS FICCIONAIS Outra forma produtiva de se iniciar uma redação é a partir do uso de referências da ficção, isto é, menções a filmes, livros, séries, poemas e até mesmo pinturas. Para empregar essa técnica, é preciso criar uma relação entre um aspecto da obra e a realidade do tema abordado, estabelecendo semelhanças, diferenças e outras analogias possíveis. No entanto, a recomendação é a mesma do uso de dados históricos:a referência ficcional só deve entrar se ela efetivamente puder criar uma analogia com o tema discutido. USO DE LEIS Também é possível introduzir a redação apresentando dados de leis que se relacionem com o tema abor- dado. É comum encontrar redações que se referem à Constituição Federal Brasileira, ao Estatuto da Criança e do Adolescente e a outras determinações legais, estabelecendo uma relação entre tais leis e os recortes temáticos propostos. USO DE TEORIAS FILOSÓFICAS/ SOCIOLÓGICAS E DE OUTRAS ÁREAS CIENTÍFICAS Usar recortes teóricos da filosofia e da sociologia na introdução da redação pode ser uma boa alternativa para o seu texto, pois essas áreas dialogam, direta ou indiretamente, com questões sociais, políticas, científicas, culturais e comportamentais que estão presentes em muitas propostas de redação. A dica é tentar selecionar um repertório bem adequado à temática discutida e caprichar na conexão entre esse repertório e a apresentação do tema. Além disso, é fundamental conhecer bem o conceito e saber escrever o nome do autor da obra, pois isso trará legitimidade e veracidade às analogias estabelecidas. INTRODUÇÃO I: ESTRUTURA 54 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s exemplos de introdução EXEMPLO ENEM: A BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA NO BRASIL 1. REPERTÓRIO O dramaturgo alemão Bertold Brecht, na peça “A exceção e a regra”, afirma que as pessoas devem desconfiar daquilo que se apresenta como aparentemente natural, já que o cotidiano da sociedade da época estava repleto de confusões e conflitos capazes de produzir enganos e injustiças no convívio entre os cidadãos. 2. APRESENTAÇÃO DO TEMA/PROBLEMA Embora a concepção do autor esteja presente em uma obra ficcional do início do século XX, é possível dizer que essa recomendação seria providencial para o momento contemporâneo brasileiro, uma vez que boa parte da população do país naturaliza a violência contra determinados grupos sem refletir atentamente sobre tal hábito. 3. TESE Nesse sentido, pode-se afirmar que a ausência de uma consciência histórica entre a sociedade civil e a legi- timação da violência por parte do Estado são umas das principais razões para a persistência desse processo de banalização. EXEMPLO VUNESP: A ESPETACULARIZAÇÃO DA NOTÍCIA NA TELEVISÃO: ENTRE O COMPROMISSO COM A INFORMAÇÃO E AUSÊNCIA DE POSTURA ÉTICA 1. REPERTÓRIO Noticiar fatos, eventos ou testemunhos a partir de um relato jornalístico mais apelativo ou emocional não é algo recente na história da comunicação brasileira. Na passagem do século XIX para o XX, era comum encontrar no- tícias de violência, suicídio ou atropelamentos sendo apresentadas de modo dramático e até mesmo cômico em veículos de grande projeção, como no jornal o Estado de São Paulo. 2. APRESENTAÇÃO DO TEMA/POLÊMICA Atualmente, essa mesma lógica baseada no espetáculo ainda pode ser vista na mídia nacional, seja ela impres- sa ou televisiva, pois muitos jornais, revistas, programas policialescos e até mesmo atrações vespertinas voltadas a temas variados se valem dessa narrativa chamativa para apresentar os fatos do dia a dia. Nesse contexto, muitas emissoras de televisão defendem que essa espetacularização se trata apenas de um modo diferente de informar a opinião pública, marcado, sobretudo, por uma forte ligação com os telespectadores e pelo uso constante da linguagem popular. 3. TESE No entanto, convém ressaltar que tais atrações não se mostram tão comprometidas com a informação e, ain- da, rompem com a ética ao explorarem as dores e os traumas dos indivíduos e ao banalizarem discussões importantes para a vida em sociedade. EXEMPLO FUVEST: DE QUE MANEIRA A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA LIDA COM AS EMOÇÕES? 1. REPERTÓRIO + APRESENTAÇÃO DO TEMA O cientista Charles Darwin, em 1872, escreveu o livro “A expressão das emoções nos homens e nos animais” buscando evidenciar o modo como as espécies reagiam emocionalmente em diferentes situações. No século XX, Sigmund Freud também procurou estudar o funcionamento da mente humana e sua relação com as ações e emoções dos indivíduos. 2. TESE No entanto, apesar dos avanços e esforços históricos da ciência em compreender o funcionamento das emoções humanas, pode-se afirmar que o sujeito contemporâneo não apresenta uma relação positiva com tal ques- tão: em vez reconhecer a naturalidade das emoções, a sociedade de hoje recusa tais afetos e assim passa a sofrer graves consequências com essa escolha. 55 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s CaraCterístiCas De modo geral, a escrita da tese não costuma ser muito extensa. Em geral, ela é redigida em um ou dois períodos de modo sucinto a fim de que o leitor consigo identificar facilmente qual será o ponto de vista adotado naquela dissertação. Além disso, também tem a função de mostrar ao leitor qual será o projeto de texto adotado ao longo da redação, fazendo possíveis referências aos argumentos a serem discutidos nos parágrafos de desenvolvimento. Essa apresenta- ção permite ao corretor identificar um planejamento prévio por parte do aluno e também a existência de uma possível progres- são textual ao longo da dissertação. Há também um outro detalhe importante, por se tratar de um posicionamento do autor, é fundamental que a tese seja com- posta por enunciados argumentativos, que possam ser questionados, contestados e que, obrigatoriamente, pressuponham explicações. Lembre-se das sugestões oferecidas na AULA 02 para redigir suas teses. TEMA Democratização do acesso ao cinema no Brasil – Enem 2019 – 1ª aplicação EXEMPLO “O cinema, considerado a sétima arte, é um importante meio de difusão do conhecimento, entretenimento e cultura. Por oferecer tamanha carga intelectual, ele deveria ser de fácil acesso a todos. No Brasil, entretanto, percebe-se que, no decorrer dos anos, o acesso a essa arte tornou-se pouco democrático devido a fatores históricos e à reduzida a atuação estatal para resolver essa problemática. trecho extrAído de redAção notA 1000 do enem 2019, publIcAdA nA cArtIlhA “redAção A mIl 2.0” COMENTÁRIO A tese do candidato descreve que o cinema se tornou pouco democrático devido a fatores históricos e devido à baixa atuação do Estado para promover essa democratização. Da mesma forma, o autor se vale de substantivos abstratos e adjetivos “fatores históricos” e “atuação reduzida” para declarar seu posicionamento e determinar seu desenvolvimento. TEMA O PAPEL DA CIÊNCIA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO – Fuvest 2020 EXEMPLO A produção de conhecimento acompanha o ser humano desde as origens da espécie, paulatinamente, foi pos- sível transformar a roda em carro e este em avião. No entanto, algumas épocas históricas elucidam mais clara- mente a valorização da razão e da ciência, fazendo uma ruptura com o passado, como o Renascimento. Inscrito em um quadrado e em um círculo, o “Homem-Vitruviano” de Leonardo da Vinci sintetiza essaexaltação do saber e da potencialidade humana, opondo-se, assim, aos saberes dogmáticos da “Idade das Trevas”. Contudo, a sociedade contemporânea caminha ao contrário da história da humanidade: vem desvalorizando a luz da ciência, retornando às sombras do passado. (trecho extrAído de redAção notA 48 dA fuvest 2020 – estAtístIcAs e desempenho dos Alunos dA 108ª turmA dA fAculdAde de medIcInA dA unIversIdAde de são pAulo.) COMENTÁRIO O posicionamento adotado pelo autor da redação defende que ciência tem sido desvalorizada, o que tem levado a sociedade de volta às sombras do passado. É possível perceber que essa tese mostra um ponto de vista claro e direto sobre o tema abordado, ao empregar os verbos no gerúndio “desvalorizando a luz da ciência” e “retor- nando às sombras do passado”. TEMA VESTIMENTAS RELIGIOSAS NO ESPORTE: LEGITIMAÇÃO DA OPRESSÃO OU LIBERDADE DE MANI-FESTAÇÃO RELIGIOSA? – Unifesp 2020 EXEMPLO Recentemente, uma marca de materiais de esporte optou por suspender as vendas de seu hijab esportivo, um traje demandado por algumas praticantes de corrida islâmica, o que gerou controvérsias entre segmentos da co- munidade global. Por um lado, políticos nacionalistas ocidentais, como Aurore Bergé, defendem que a existência do hijab esportivo é uma legitimação da opressão às mulheres e afronta os valores ocidentais; por outro lado, há quem enxergue na vestimenta um modo de tornar o esporte acessível às mulheres islâmicas. De qualquer forma, a presença de vestimentas religiosas no esporte configura-se em uma liberdade de manifestação religiosa, uma vez que a opção pelo seu uso é uma escolha individual de cada mulher e permite que sua integração ao esporte seja acompanhada da preservação de sua cultura. (trecho extrAído de redAção notA 47,727 do vestIbulAr unIfesp 2020 – dIsponível em: estAtístIcAs dos estudAntes AprovAdos em medIcInA nA escolA pAulIstA de medIcInA/unIversIdAde federAl de são pAulo.) COMENTÁRIO A tese em destaque no trecho acima mostra uma resposta direta à pergunta elaborada pela banca, bem como traça o desenvolvimento dos argumentos que comprovam essa tese: o fato de se tratar de uma escolha individual e o fato de tal ação permitir a integração ao esporte acompanhada da preservação da cultura. INTRODUÇÃO II: ELABORAÇÃO DA TESE 56 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Exemplos A) ENEM § A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira A adoção sistemática dessas ações bárbaras é fruto da grande dificuldade do país em combater, no discurso e na prática, as ações que inferiorizam as mulheres. E tal ineficiência apenas reforça os ciclos violentos, pois transformam a omissão de todos em uma regra a ser seguida. § O Histórico desafio de se valorizar o professor Nesse contexto, torna-se ainda mais difícil valorizar a profissão docente, pois, apesar de sua importância, ela ainda enfrenta uma forte estigmatização diante da opinião pública que é reforçada pela ausência de incentivos salariais por parte das instituições de ensino. B) VUNESP § O fracasso da lei de cotas para deficientes: negligência das empresas ou falha do estado? No entanto, pode-se afirmar que a ineficácia da lei reside, sobretudo, na falta de interesse das empresas em contratar os defi- cientes, ao subjugar a capacidade destes em atuar profissionalmente e ao burlar a legislação com a finalidade de não ser punida. § Uberização: entre a autonomia do trabalhador e a perda de direitos trabalhistas Nesse contexto, pode-se afirmar que o processo de uberização, de fato, representa uma perda grave dos direitos trabalhistas, afetando tanto a saúde quanto a qualidade dos trabalhadores. E a pretensa autonomia conquistada por tais indivíduos nesse processo apenas legitima a precarização de sua função. C) FUVEST Como os temas abordados pela FUVEST trazem sempre abordagens mais amplas, reflexivas e atemporais, é importante que o aluno treine diferentes formas de elaborar sua tese, seja utilizando alguns verbos no presente, verbos de ligação, adjetivos ou substantivos abstratos. A melhor solução é trabalhar bem com todos os recursos argumentativos disponíveis para que sua tese tenha autoria e possa ser clara e objetiva em relação ao tema abordado. TEMA: PARTICIPAÇÃO POLÍTICA: INDISPENSÁVEL OU SUPERADA? É muito comum ouvir da boca de jovens hoje em dia que são apolíticos ou que a política não os diz respeito. Ainda assim, o Brasil possui um gigante movimento estudantil que participa das mais variadas discussões e lutas. É possível não ser engajado – seja por preguiça ou acomodação – mas apolítico, nunca. A política está presente em toda e qualquer detalhe da vida econômica e social, ela é indispen- sável e ser apolítico é uma ilusão. (trecho extrAído de redAção modelo do exAme fuvest 2012 - dIsponível www.fuvest.br (Acesso em 17.07.2017) O surgimento da ciência política remonta à época da Antiguidade, ainda quando os gregos se organizavam em torno da pólis e começavam a definir os primeiros conceitos de cidadania que, posteriormente, difundir-se-iam pelo mundo. É indiscutível a importância da política para a, então, formação da sociedade tal como ela é conheci- da na contemporaneidade. A partir dela, foram definidos direitos e deveres e, ainda mais relevante, tornou-se possível a participação do povo nas decisões que dizem respeito à vida em comunidade. (trecho extrAído de redAção modelo do exAme fuvest 2012 - dIsponível www.fuvest.br (Acesso em 17.07.2017) 57 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s É IMPORTANTE SABER i. DaDo HiSTÓriCo releVanTe Lei de Terras, como ficou conhecida a lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, foi a primeira iniciativa no sentido de organizar a propriedade privada no Brasil. Até então, não havia nenhum documento que regulamentasse a posse de terras e com as modificações sociais e econômicas pelas quais passava o país, o governo se viu pressionado a organizar esta questão. A Lei de Terras foi aprovada no mesmo ano da lei Eusébio de Queirós, que previa o fim do tráfico negreiro e sinalizava a abolição da escravatura no Brasil. Grandes fazendeiros e políticos latifundiários se anteciparam a fim de impedir que negros pudessem também se tornar donos de terras. https://www.InfoescolA.com/hIstorIA ii. arGuMenTo De auToriDaDe “Não é somente a sociedade inteira que se torna o lugar da re-produção (das relações de produção e não somente os meios de produção), mas o es- paço inteiro. Ocupado pelo neocapitalismo, setorizado, reduzido ao homogêneo ao mesmo tempo em que fragmentado, esmigalhado pelo mercado imobiliário (pois só fragmentos de espaço são vendidos para a clientela), o espaço torna-se a sede de poder e essa capacidade produtiva se estende ao espaço terrestre. O espaço natural é reduzido e transformado em um produto social pelo conjunto das técnicas, da física à informática; deste modo, se de um lado o espaço reproduz ativamente as relações de produção, de outro, contribui para sua manutenção e consolidação”. henrI lefebvre, fIlósofo e socIólogo frAncês. In: do rurAl Ao urbAno. iii. eXeMPloS Do CoTiDiano a) O número de mortos em Petrópolis após a tempestade de terça (15.02.2022) chegou a 104 até as 23h30 desta quarta-feira – ao menos 8 vítimas são crianças. Segundo a Secretaria Estadual de Defesa Civil, 24 pessoas foram resgatadas com vida. Pelo menos 54 casas foram destruídas pelas chuvas que atingiram a região e mais de 370 pessoas foram acolhidas em abrigos improvisados. “temporAl em petrópolIs deIxA 104 mortos; mp regIstrou 35 desApArecIdos” https://g1.globo.com/ (16.02.2022) b) A tragédia da vez no Brasil está dentro do Estado mais rico do Brasil. A última atualização da Defesa Civil e Corpo de Bombeiros de São Paulo contabiliza 39 mortos e 41 desaparecidos nas enchentes que atingiram a região da Baixada Santista, no litoral sul de São Paulo, no início da semana. Entre as cidades afetadas,Guarujá se destaca com o maior número de vítimas, 27 no total, e é lá que estão os 41 não localizados, todos moradores de comunidades em regiões populares da cidade que é um dos destinos mais desejados por turistas no litoral de São Paulo. Os números tornam o desastre natural pior do que a tragédia na barragem de Mariana, em 2015, que vitimou 19 pessoas em Minas Gerais, e é até agora o mais impactante no verão chuvoso deste ano que já causou enchentes em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. “com 39 mortos e 41 desApArecIdos, trAgédIA nA bAIxAdA sAntIstA pode ser três vezes mAIor que mArIAnA” https://brAsIl.elpAIs.com/brAsIl (06.03.2020) c) Uma força-tarefa do Ministério Público e da Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu, em janeiro de 2019, cinco suspeitos de integrar uma milícia que age em grilagem de terras. Entre eles, está um major da PM e um tenente reformado. Outras oito pessoas são procuradas, entre elas um ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). O grupo é suspeito de comprar e vender imóveis construídos ilegalmente na Zona Oeste do Rio, além de crimes relacionados à ação da milícia nas comunidades de Rio das Pedras, Muzema e adjacências, como agiotagem, extorsão de moradores e comerciantes, pagamento de propina e utilização de ligações clandestinas de água e energia. “mAJor dA pm e mAIs 4 são presos em operAção contrA mIlícIA que Age em grIlAgem de terrAs no rJ” https://g1.globo.com (22.01.2019) iV. aToreS ou SiTuaÇÕeS Que PoDeM Ser MoBiliZaDoS na DiSCuSSÃo Do TeMa (ProPoSTa eneM) Um estudo da WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis, é focado em três abordagens práticas que as gestões municipais podem se valer para combater a crise habitacional, com exemplos específicos de diferentes partes do mundo: § Participação social como ferramenta para melhorar as condições habitacionais sem afastar os moradores para a periferia. § Ampliar o acesso ao aluguel para pessoas em todas as faixas de renda. § Converter terrenos centrais e não utilizados em empreendimentos de habitação social. “InIcIAtIvAs dIversAs procurAm crIAr hábIto de leIturA em um pAís que lê pouco” http://www.comcIencIA.br/ / (05.12.2019) V. analoGia liTerÁria a) Quem reside na favela não tem quadra de vida. Não tem infância, juventude, maturidade. Carolina Maria de Jesus. In: Quarto de despejo. b) Esta cova em que estás com palmos medida É a conta menor que tiraste em vida É a conta menor que tiraste em vida É de bom tamanho nem largo nem fundo É a parte que te cabe deste latifúndio É a parte que te cabe deste latifúndio (...) Não é cova grande, é cova medida É a terra que querias ver dividida João cAbrAl de melo neto. In: morte e vIdA severInA. tema 1: a moradia digna no brasil 58 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s MULTIMÍDIA i. Ver § Era o hotel cambrige – Direção: Eliane Caffé – 2017 Refugiados recém-chegados ao Brasil dividem com um grupo de sem-tetos um velho edifício abandonado no centro de São Paulo. Além da tensão diária que a ameaça de despejo causa, os novos moradores do prédio terão que lidar com seus dramas pessoais e aprender a conviver com pessoas que, apesar de diferentes, enfrentam juntos a vida nas ruas. § Leva - Documentário sobre a Ocupação Mauá – Direção: Juliana Vicente e Luiza Marques – 2012 No coração de São Paulo pulsa o maior movimento de luta por moradia da América Latina. Famílias desabrigadas ocupam o edifício Mauá, um dentre muitos ocupados no centro da cidade., O documentário LEVA acompanha a vida de moradores da ocupação e revela a organi- zação de siglas que se unem numa organização para transformar os espaços abandonados em habitáveis. A estruturação do edifício pelos movimentos de luta de moradia irá refletir na reorganização e redescoberta das pessoas como indivíduos através do coletivo. dIsponível em: https://www.youtube.com/wAtch?v=xn2um8xhc4o § “Fim de Semana” – Direção: Erminia Maricato (1976) Esse documentário trata da autoconstrução em bairros da periferia e municípios da Grande São Paulo. Colhe depoimentos de moradores de 3 áreas: Taboão – São Bernardo do Campo; Jardim d´Ávila – Osasco e Embu. O filme documenta as condições de vida nessas áreas e os sacrifícios em que se vêem empenhados os trabalhadores que desejam realizar o “sonho da casa própria”: construir, aos poucos, com a ajuda de amigos e parentes, nos fins de semana. dIsponível em: https://www.youtube.com/wAtch?v=-l1cvrw14J0&feAture=emb_logo ii. ler § Justiça espacial e o direito à cidade – Ana Fani Alessandri Carlos, Glória Alves, Rafael Faleiros de Pádua (Org) - 2017 iii. aCeSSar https://www.brcidades.org/direito-a-moradia-e-a-funcao-social http://www.labhab.fau.usp.br/ http://www.direitoamoradia.fau.usp.br/?lang=pt iV. ouVir § BR Cidades #3 – Desigualdades no Território - Spotify Vi. CiTaÇÃo A ideia do direito à cidade não surge fundamentalmente de diferentes caprichos e modismos intelectuais. Surge basicamente das ruas, dos bairros, como um grito de socorro e amparo das pessoas oprimidas em tempos de desespero. dAvId hArvey, cIdAdes rebeldes, mArtIns edItorA, 2014. AdAptAdo. Vii. leGiSlaÇÃo Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (redAção dAdA pelA emendA constItucIonAl nº 90, de 2015) Art. 21. Compete à União: XX - instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos; Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: IX - promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico; fonte: http://www.plAnAlto.gov.br/ccIvIl_03/constItuIcAo/constItuIcAocompIlAdo.htm 59 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s PROPOSTA ENEM Texto I Em consonância com o Comentário Geral do Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da Organização das Nações Unidas – ONU, moradia adequada não é aquela que apenas oferece guarida contra as variações climáticas. Não é apenas um teto e quatro paredes. É muito mais: é aquela com condição de salubridade, de segurança e com um tamanho mínimo para que possa ser considerada habitável. Deve ser dotada das instalações sanitárias adequadas, atendida pelos serviços públicos essenciais, entre os quais água, esgoto, energia elétrica, iluminação pública, coleta de lixo, pavimentação e transporte coletivo, e com acesso aos equipamentos sociais e comunitários básicos (postos de saúde, praças de lazer, escolas públicas, etc.). “dIreIto à morAdIA” http://www.urbAnIsmo.mppr.mp.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=9 (Acesso em 18.09.2022) Texto II A incapacidade de integrar os segmentos mais pobres da população às cidades é fruto não só do padrão excludente de desenvolvimento, mas também das políticas de planejamento e gestão urbana, do próprio sistema político que favorece determinados grupos e do regime jurídico que definiu ao longo do tempo os mecanismos de acesso à terra favoráveis à formação de uma sociedade patrimonialista que, ao fim e ao cabo, difi- culta o reconhecimento de direitos sociais e estimula mercados de terras especulativos. Tais fatores não ofereceram aos grupos sociais mais pobres as condições adequadas de acesso à terra e à moradia, provocando a ocupação irregular do solo urbano. O acesso à terra é um dos nós na urbanização brasileira, e, nas duas últimas décadas do século XX, no bojo da crise econômica mundial que afetou o país, as barreiras a este acesso pela população de menor renda se exacerbam, estimulando conflitos. Neste período, as desigualdades sociais se acirram no país e a concentração da pobreza se torna predominantemente urbana. “A regulArIzAção fundIárIA urbAnA nA AmAzônIA legAl” denIse de cAmposgouvêA; pAulo coelho ávIlA; sAndrA bernArdes rIbeIro. Texto III “omIssão” https://AmArIldochArge.wordpress.com/ (Acesso em 17.02.2022) Texto IV A ausência de debate sobre o direito à moradia digna é equivalente à ausência de debate sobre desigualdade social e racial. O Estado perpetuou um modelo habitacional que privilegia a concentração fundiária e distribui os problemas habitacionais e urbanos na população de baixa renda. Mesmo as iniciativas isoladas, não responderam à necessidade urgente de redistribuição de terra e de renda. O que se vê é uma desigualdade abissal. E nesse contexto, está exposto à pobreza quem mora em lares de alvenaria e taipa sem revestimento ou feitos de madeira e artigo impróprios. Quem não tem banheiro, coleta de lixo, rede de esgoto ou abastecimento de água. Quem vive com mais três pessoas por cômodo e gasta demais com aluguel. O debate sobre outras dimensões de qualidade de vida precisa se ampliar. flAvIA olIveIrA. “morAdIA dIgnA é debAte urgente” https://oglobo.globo.com/ (24.05.2019) A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-ar- gumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema OS IMPASSES NO ACESSO À MORADIA DIGNA NO BRASIL, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista. 60 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s PROPOSTA VESTIBULAR Texto I Menos de 24 horas após decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), que prorrogou até 31 de março de 2022 as regras que suspendem as remoções durante a pandemia de covid-19, 248 famílias foram despejadas na cidade de São Paulo, nesta quinta- -feira (02.12.2021). Em decisão tomada ontem, o ministro determinou que a medida vale para imóveis localizados tanto na zona rural como na urbana. Mas este não foi o entendimento do Tribunal de Justiça (TJ-SP), que ordenou a retirada dos ocupantes do local na manhã de hoje. A ocupação Nova Conquista está localizada na Vila Sônia, na zona sul da capital paulista. A maioria das famílias reside no local desde abril e, segundo os relatos, a ocupação foi a forma encontrada por elas de garantir moradia em meio à situação de vulnerabilidade financeira agravada pela crise sanitária. O terreno, no entanto, pertence a uma construtora que entrou na Justiça solicitando a reintegração. De acordo com o Movimento Nova Conquista, a desocupação do terreno deveria ter sido suspensa nesta quinta devido à falta de contrapartida da prefeitura de São Paulo em garantir um local provisório e seguro para essas famílias. O acolhimento também havia sido determinado pela Justiça, mas não foi providenciado. “fAmílIAs são despeJAdAs em são pAulo mesmo Após stf estender suspensão de remoções” https://www.redebrAsIlAtuAl.com.br/ (02.12.2021) Texto II A lei brasileira proíbe a invasão de terras, com todas as suas letras, artigos e parágrafos; até agora, em 132 anos de República, ainda não apa- receu nenhum jurista que tenha sido capaz de descobrir uma exceção, mesmos nos confins mais remotos da legislação, que permita a alguém invadir alguma terra que não lhe pertence e ficar ali de boa, com direito a não ser incomodado. Pode ser área rural. Pode ser área urbana. Não faz diferença: é proibido invadir. A Constituição estabelece que no Brasil existe a propriedade privada e que o Estado tem a obrigação de proteger a sua existência; não há nenhuma dúvida quanto a isso. Também não há dúvida que é um direito constitucional do cidadão receber essa proteção. Invadir propriedade alheia, segundo a visão corrente no Brasil de hoje, é “justo”. Pronto: o invasor, pelo fato de invadir, passa a ter razão. O proprietário, pelo fato de ter uma escritura, passa a ser o delinquente. A última exibição oficial dessa aberração acaba de ser fornecida pelo Supremo Tribunal Federal. As ordens judiciais de despejo contra invasões – sim, ainda há juízes que reconhecem o direito de propriedade no Brasil – ficam suspensas até o mês de março. A desculpa é a “pandemia”. Até março, segundo o STF, há pandemia, e havendo pandemia não se pode cumprir a lei. Não tem pé nem cabeça, é claro. J. r. guzzo “o dIreIto à InvAsão” https://revIstAoeste.com/ (12.12.2021) Texto III Como de costume, ante a inércia do Poder Público, são os ocupantes – e não invasores, como de forma praticamente uníssona a grande mídia os define – que dão função social à propriedade imóvel inutilizada. Diante de tamanho déficit habitacional, preços inflacionados no mercado imobiliário –com imóveis vazios sendo instrumentos de especulação – são os ditos invasores que fazem com que a lei seja cumprida, já que o proprietário e o Poder Público mantêm-se inertes. Os que criticam os ocupantes, sob o argumento de que seria uma invasão ilegal, com efeito não percebem serem estes que, na verdade, cumprem o previsto no ordenamento jurídico, uma vez que conferem à propriedade inutilizada uma função social. Ora, se desejam tanto que as leis sejam cumpridas deveriam apoiar as ocupações, que nada mais são do que o cumprimento da lei e das normas constitucionais. Isso para ficarmos apenas na questão da propriedade, desconsiderando diversas outras previsões constitucionais que legitimam tais atos de ocupação. umberto Abreu noce. “ocupAr é dAr função socIAl à proprIedAde” http://www.JustIfIcAndo.com (07.05.2018) Texto IV A invasão de terras urbanas no Brasil é parte intrínseca do processo de urbanização. Ela é gigantesca e não é, fundamentalmente, fruto da ação da esquerda e nem de movimentos sociais que pretendem confrontar a lei. Ela é estrutural e institucionalizada pelo mercado imobiliário exclu- dente e pela ausência de políticas sociais. No entanto, a dimensão e os fatos são dissimulados sob notável ardil ideológico. ermínIA mArIcAto. “A terrA é um nó nA socIedAde brAsIleIrA ... tAmbém nAs cIdAdes” revIstA vozes, 1993. Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva um texto dissertativo-argumentativo, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema: O USO DE PROPRIEDADADES PRIVADAS POR MOVIMENTOS DE MORADIA BRASIL: ENTRE O DIREITO À MORADIA E O DIREITO À PROPRIEDADE É IMPORTANTE SABER i. DaDo eSTaTÍSTiCo releVanTe De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021, divulgado no mês de julho, o número de pessoas desaparecidas no Brasil no ano passado foi de 62.587. Em São Paulo, Estado com maior registro de casos, a taxa foi reduzida em 15% em comparação ao ano anterior, mas o número de 18.342 desaparecidos ainda é preocupante. Para além do dado, os familiares sofrem com esta condição e demandam necessidades específicas durante o processo de busca pelo ente, conforme revela o relatório Ainda? Essa é a Palavra que Mais Dói, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), também lançado em julho. “quAse 63 mIl pessoAs desApArecerAm em 2020 no brAsIl; como reAgem fAmílIAs?” http://AgencIAbrAsIl.ebc.com.br (08.08.2021) ii. DaDo HiSTÓriCo releVanTe Fundada em 31 de março de 1996, a Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD) nasceu da iniciativa de duas mães de crianças desaparecidas, Ivanise Esperidião da Silva e Vera Lúcia Gonçalves. Elas quiseram criar em São Paulo uma entidade que atuasse em busca de soluções para um problema que atinge milhares de famílias no país, mas que nem sempre chega ao conhecimento da maioria da população: o desaparecimento de crianças. Ivanise, que hoje ocupam cargos de presidente e vice-presidente da ABCD, respectivamente, conheceram-se em janeiro de 1996 quando estavam num grupo de mães de crianças desaparecidas de São Paulo, que foi convidado a participar das gravações da novela Explode Coração. Para quem não se lembra, a novela, de autoria de Glória Perez, levou para o horárionobre da TV Globo o drama de familiares de pessoas desapa- recidas, dando origem a uma campanha nacional que resultou na localização de 113 pessoas desaparecidas, entre crianças, adolescentes e adultos. http://www.mAesdAse.org.br/pAgInAs/InstItucIonAl.Aspx (AcessAdo em 20.02.2022) iii. eXeMPloS Do CoTiDiano Três meninos desapareceram no último domingo (27), em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, depois de saírem para brincar em um campo de futebol perto de casa. Uma vizinha das crianças, amiga das mães, Ednalda Gonçalves, disse que os meninos tinham o costume de brincar no campinho e sempre voltavam no mesmo horário para casa. PUBLICIDADE RELACIONADAS Guarda-vida desaparece no mar e é encontrado em frente a posto de trabalho Menina de 5 anos desaparece e é encontrada morta em SP; padrasto confessa PM resgata adolescente baiana mantida sob cárcere privado por 4 meses no RJ O desaparecimento foi registrado na delegacia e a Polícia Civil investiga o sumiço de Lucas Matheus, 8, o primo dele, Alexandre da Silva, 10, e Fernando Henrique, de 11 anos. As crianças moram na rua João Alves, no bairro Castelar, e saíram juntas de casa e não retornaram mais. “rJ: três crIAnçAs desApArecem em belford roxo Após sAírem pArA brIncAr” https://notIcIAs.uol.com.br/ (29.12.2020) iV. aToreS ou SiTuaÇÕeS Que PoDeM Ser MoBiliZaDoS na DiSCuSSÃo Do TeMa (ProPoSTa eneM) (REESTRUTURAÇÃO DA POLÍCIA E TECNOLOGIA) O Estado pode capacitar profissionais para trabalhar na polícia, implantar o Registro Geral (RG) Nacional, criar banco de dados entre delegacias, hospitais, institutos médicos legais, albergues, inclusive com imagens das pessoas que circulam ali diariamente”, sugere Lucineide Damasceno. “InIcIAtIvAs dIversAs procurAm crIAr hábIto de leIturA em um pAís que lê pouco” http://www.comcIencIA.br/ / (05.12.2019) V. CiTaÇÃo A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar. mArtIn luther kIng. Vi. leGiSlaÇÃo Art. 1º Esta Lei institui a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas e cria o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. Parágrafo único. Os deveres atribuídos por esta Lei aos Estados e a órgãos estaduais aplicam-se ao Distrito Federal e aos Territórios. Art. 2º Para efeitos desta Lei, considera-se: I - pessoa desaparecida: todo ser humano cujo paradeiro é desconhecido, não importando a causa de seu desaparecimento, até que sua recupera- ção e identificação tenham sido confirmadas por vias físicas ou científicas; II - criança ou adolescente desaparecido: toda pessoa desaparecida menor de 18 (dezoito) anos; III - autoridade central federal: órgão responsável pela consolidação das informações em nível nacional, pela definição das diretrizes da investigação de pessoas desaparecidas e pela coordenação das ações de cooperação operacional entre os órgãos de segurança pública; IV - autoridade central estadual: órgão responsável pela consolidação das informações em nível estadual, pela definição das diretrizes da investiga- ção de pessoas desaparecidas em âmbito estadual e pela coordenação das ações de cooperação operacional entre os órgãos de segurança pública; V - cooperação operacional: compartilhamento de informações e integração de sistemas de informação entre órgãos estaduais e federais com a finalidade de unificar e aperfeiçoar o sistema nacional de localização de pessoas desaparecidas, coordenado pelos órgãos de segurança pública, com a intervenção de outras entidades, quando necessário. tema 2: o desapareCimento de pessoas no brasil 62 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s MULTIMÍDIA i. Ver § Pelo menos oito pessoas desaparecem por hora no Brasil – https://www.youtube.com/ § Onde está segunda? – Direção: Tommy Wirkola (2017) § A troca – Direção: Clint Eastwood (2008) ii. ler § Cartilha de enfrentamento ao desaparecimento – http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/Cartilhas/EnfrentamentoDesaparecimento.pdf 63 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s PROPOSTA ENEM Texto I Desaparecimento é o sumiço repentino de alguém, sem aviso prévio a familiares ou a terceiros. Uma pessoa é considerada desaparecida quando não pode ser localizada nos lugares que costuma frequentar, nem encontrada de qualquer outra forma. Não é necessário aguardar algum intervalo de tempo para que alguém seja considerado como desaparecido. https://www.prefeIturA.sp.gov.br/(29.12.2021) Texto II https://www.fAcebook.com/cnJ.ofIcIAl Texto III Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021, além dos pro- blemas vinculados ao sofrimento emocional da ausência de seus entes, as famílias também sofrem com outras fontes externas de desgaste. Entre elas, estão as experiências negativas ocorridas durante ações de busca, a piora da condição econômica e a percepção de que não há reconhecimento social do desaparecimento como um problema coletivo e que vai além de experiências ou dramas individuais. Para Maria Júlia Kovács, professora sênior do Depar- tamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Persona- lidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, ao Jornal da USP, a sociedade precisa entender esse problema dentro da esfera coletiva”- Como todas as questões que envolvem crise, violência, dor e sofrimento, o problema do desaparecimento atinge a sociedade como um todo e nenhum núcleo familiar é invulnerável a este problema”, comenta Maria. “É impor- tante entender que esse é um problema coletivo e de toda a sociedade.” “quAse 63 mIl pessoAs desApArecerAm em 2020 no brAsIl; como reAgem fAmílIAs” www.uol.com.br/vIvAbem (08.08.2021) Texto IV Há quatro anos o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, responsável pelo anuário, apresenta informações sobre o desaparecimento de pessoas no País. A medição é feita em parceria com os estados e o Distrito Federal, tomando como base boletins de ocorrência. A média é de 69 mil casos por ano. Larissa Leite, coordenadora de proteção adjunta no Comité Internacional da Cruz Vermelha que, em 2017, se juntou ao trabalho do FBSP, explica onde ainda moram as inconsistências. “Diante de um caso de desaparecimento, um familiar pode registrar mais de um BO. Então pode ser que, dos 79 mil boletins contabilizados em 2019, tenham casos correspondentes à mesma pessoa. Ou ainda que um mesmo boletim trate do desaparecimento de mais de uma pessoa”, explica. “Sem contar a subnotificação dos casos, já que há famílias que não fazem o registro do desaparecimento.” Os boletins também não trazem dados exatos de quando o desaparecimento ocorreu e de eventuais descobertas do paradeiro. “Os 39 mil boletins de encontro que foram reportados ao longo de 2019 podem ser de pessoas que desapareceram em outros anos. Ainda há casos de pessoas encon- tradas que nem chegaram a ser registradas, dada a solução rápida do caso”, esclarece. “A buscA por lucAs, AlexAndre e fernAndo reflete um longo e complexo drAmA brAsIleIro” https://www.cArtAcApItAl.com.br/ (13.02.2021) A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-ar- gumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema O ENFRENTAMENTO DO DESAPARECIMENTO DE PESSOAS NO BRASIL, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista. 64 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s PROPOSTA VESTIBULAR Texto I Desaparecimento é o sumiço repentino de alguém, sem aviso prévio a familiares ou a terceiros. Uma pessoa é considerada desaparecida quando não pode ser localizada nos lugares que costuma frequentar, nem encontrada de qualquer outra forma. Não é necessário aguardar algum inter- valo de tempo para que alguém seja considerado como desaparecido. https://www.prefeIturA.sp.gov.br/(29.12.2021))Texto II Segundo o relatório do CICV, todas as famílias entrevistadas revelaram que o desaparecimento do ente impactou a saúde mental de alguma forma, desde condições psicológicas até consequências psiquiátricas, em seus diferentes graus de duração e intensidade. Dentre os relatos presentes no documento ansiedade e depressão são condições comuns entre quase todos os entrevistados. E esse desgaste emocional e físico, gerado pelo desaparecimento de um ente, está ligado às necessidades que cada um encontra no processo de busca pela pessoa. De acordo com o órgão internacional, muitos problemas jurídicos e administrativos que familiares de desaparecidos enfrentam não encontram soluções na legislação nacional atual e sequer há definição jurídica da situação do desaparecido e dos direitos de seus familiares até que se tenha esclarecido o paradeiro da vítima. Para Maria, a atuação do governo e das políticas públicas devem ser fundamentais nesse processo. “Como se tem visto, o número de desaparecidos aumenta e é muito importante a atuação pública para identificaras lugares com maior potencial e frequência de desaparecimentos, além de oferecer um serviço de apoio aos familiares tanto no enfrentamento quanto nas buscas pelo ente desaparecido.” “quAse 63 mIl pessoAs desApArecerAm em 2020 no brAsIl; como reAgem fAmílIAs” www.uol.com.br/vIvAbem (08.08.2021) Texto III Há quatro anos o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, responsável pelo anuário, apresenta informações sobre o desaparecimento de pessoas no País. A medição é feita em parceria com os estados e o Distrito Federal, tomando como base boletins de ocorrência. A média é de 69 mil casos por ano. Larissa Leite, coordenadora de proteção adjunta no Comité Internacional da Cruz Vermelha que, em 2017, se juntou ao trabalho do FBSP, explica onde ainda moram as inconsistências. “Diante um caso de desaparecimento, um familiar pode registrar mais de um BO. Então pode ser que, dos 79 mil boletins contabilizados em 2019, tenham casos correspondentes à mesma pessoa. Ou ainda que um mesmo boletim trate do desaparecimento de mais de uma pessoa”, explica. “Sem contar a subnotificação dos casos, já que há famílias que não fazem o registro do desaparecimento.” Os boletins também não trazem dados exatos de quando o desaparecimento ocorreu e de eventuais descobertas do paradeiro. “Os 39 mil bole- tins de encontro que foram reportados ao longo de 2019 podem ser de pessoas que desapareceram em outros anos. Ainda há casos de pessoas encontradas que nem chegaram a ser registradas, dada a solução rápida do caso”, esclarece. “A buscA por lucAs, AlexAndre e fernAndo reflete um longo e complexo drAmA brAsIleIro” https://www.cArtAcApItAl.com.br/ (13.02.2021) Texto IV Milhares de pessoas sofrem com o sentimento provocado pela perda de um ente querido: a ausência. Ela é uma mistura de saudade e de angustia e pode ser comparado a um buraco sem fundo, segundo o psicólogo Gilberto Fernandes, da ONG Mães do Brasil, instituição que atua no combate ao desaparecimento de crianças e jovens. “A falta preenche mais que a presença de quem ficou”, diz. PUBLICIDADE O especialista comenta que a pessoa passa viver em função do desaparecimento. Ela procura por vários lugares, fica sem dormir, perde a fome, não tem vontade de trabalhar e de viver. Muitas vezes ainda existe a questão da culpa. “elA se sente culpAdA porque deIxou o fIlho nA pAdArIA e ele não voltou, ou que permItIu que fosse A umA festA” https://www.uol.com.br/vIvAbem/ (02.02.2021) Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva um texto dissertativo-argumentativo, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema: O DESAPARECIMENTO DE PESSOAS NO BRASIL E O DRAMA VIVIDO POR SEUS FAMILIARES LINGUAGENS CÓDIGOS e suas tecnologias BETWEEN ENGLISH AND PORTUGUESE 1 U.T.I. INGLÊS 66 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s tipos de provas No Brasil, existem dois tipos de provas de vestibular que são comuns: as provas compostas por questões de múltipla escolha e as provas compostas por questões dissertativas com respostas em português. Além desses dois casos, é comum encontrar provas de somatória e provas com ques- tões do tipo certo/errado. Provas de múltipla escolha Os vestibulares brasileiros, em sua maior parte apresen- tam questões de múltipla escolha, sendo que elas podem demandar habilidades de leitura e compreensão de texto, vocabulário ou gramática. Além disso, os enunciados e alternativas dessas questões podem ser apresentados em português ou inglês. Provas Dissertativas A principal característica das provas de Inglês dos princi- pais vestibulares é a prevalência de questões que deman- dem domínio de vocabulário e leitura de texto. Questões objetivas sobre gramática são cada vez mais raras. No entanto, três tópicos ainda são muito comuns: Pronomes, Conectores e Modal Verbs. Estes temas são pedidos exa- tamente porque sem esse domínio não se faz uma leitura de texto correta neste idioma. alguns falsos Cognatos importantes § actual (real, verdadeiro) § actually (na verdade, na realidade, o fato é que) § admiral (almirante) § alias (pseudônimo, nome falso) § amass (acumular, juntar) § animus (rivalidade) § anthem (hino) § appoint (nomear, indicar) § argument (discussão, debate) § beef (carne bovina) § braces (aparelho dental) § collar (gola) § college (faculdade) § commodity (mercadoria) § comprehensive (abrangente, extenso, amplo) § compromise (entrar em acordo, fazer concessão, acordo) § condom (preservativo) § convict (condenado) § corporate (cabo na hierarquia militar) § costume (fantasia) § deception (fraude, falsificação) § devolve (transferir) § diversion (desvio) § durex (preservativo) § eventually (finalmente, por fim) § exit (saída, sair) § fabric (tecido) § grip (agarrar algo firmemente) § hospice (albergue) § idiom (expressão idiomática) § ingenious (engenhoso) § inhabitable (habitável) § injury (ferimento) § interest (juros) § lecture (palestra, aula) § library (biblioteca) § lunch (almoço) § mayor (prefeito) § novel (romance escrito) § office (escritório) OVERVIEW AND ANALYSIS DO YOU UNDERSTAND? (TEXT INTERPRETATION) 67 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s § parents (pais) § phony (trapaceiro , mau caráter) § prejudice (preconceito) § preservative (conservante) § private (recruta) § push (empurrar) § realize (perceber) § requirement (requisito) § retired (aposentado) § retribution (represália, punição) § scholar (erudito) § sensible (sensato) § service (atendimento) § support (appoiar, apoio) § tax (imposto) § tenant (inquilino) personal pronouns Subject Pronouns Object Pronouns I ME YOU YOU HE HIM SHE HER IT IT WE US YOU YOU THEY THEM Os personal pronouns da língua inglesa podem, com al- gumas variações, ser relacionados aos pronomes pesso- ais da língua portuguesa. O que o português chama de pronomes pessoais do caso reto, a língua inglesa chama de subject pronouns, e os pronomes oblíquos são análo- gos aos object pronouns. Observe alguns usos dos subject pronouns: I am Brazilian – Eu sou brasileiro You are Brazilian – Você(s) é(são) brasileiro(s) He is Brazilian – Ele é brasileiro She is Brazilian – Ela é brasileira It is Brazilian – Isto/Esta coisa é brasileira We are Brazilian – Nós somos brasileiros They are Brazilian – Elas/Eles são brasileiros(as) Em linhas gerais, a função dessa classe de pronomes nas duas linguagens é similar: pronomes substituem nomes. Não é comum repetirmos o mesmo nome muitas vezes, mas sim usar um pronome, uma vez que sabemos a quem tal pronome se refere. Exemplos: Kate loves Brian. She loves Brian. O exemplo acima faz a substituição do nome Kate pelo pronome She. Observe o exemplo a seguir Brian loves Kate. Brian loves her. A diferença entreeles é que no exemplo 1 o nome Kate tem função de sujeito e foi substituído por um pronome de sujeito (She). Já no exemplo 2, o nome Kate tem função de objeto e foi substituído por um pronome de objeto (her). Veja mais exemplos: Brazilians agree with you. We agree with you. They agree with other Brazilians. They agree with them. The police officer will adress the issue She/He will adress the issue. possessive pronouns Possessive Adjective Pronouns Possessive Substantive Pronouns MY MINE YOUR YOURS HIS HIS HER HERS ITS ------- OUR OURS YOUR YOURS THEIR THEIRS WHO IS WHO? 68 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Os pronomes desse tópico, como o próprio nome supõe, introduzem uma relação de posse com um substantivo e são bastante semelhantes ao que encontramos na língua portuguesa. Mas aqui podemos enfrentar alguns problemas. Se por um lado o português apresenta mar- cação quádrupla de pronomes (Eu – meu, minha, meus, minhas), o inglês apresente marcação simples para eles, com dois tipos de pronomes possessivos (Adjective e Substantive), enquanto aquele tem apenas um, o que pode gerar algumas dificuldades. Possessive Adjective ou Possessive Substantive? Em alguns casos, pode ser pedido que o vestibulando opte entre os dois tipos de pronomes acima mencionados. Além de ser um ponto que gera uma dúvida razoável, ele tam- bém é muito solicitado em questões gramaticais. Tenha em mente que os pronomes Possessive Adjectives (my, your, his, her, its, our, their) são aqueles nor- malmente usados. Você só os substituirá pelos Possessive Substantives (mine, yours, his, hers, ours, theirs) em situações específicas. São elas: 1. Quando o substantivo a que se referir o pronome estiver omitido/subentendido. Exemplo: I can’t find my pen. Can I use yours? (Eu não consigo encontrar minha caneta. Pos- so usar a sua (caneta)? 2. Quando o substantivo a que se refere o pronome estiver antes do próprio pronome. Exemplo: It belongs to a friend of mine. (Isto pertence a um amigo meu). 3. Após preposições. Exemplo: They will come with their parents, and we’ll come with ours. (Eles virão com os pais deles e nós, com os nossos). reflexive pronouns Reflexive Pronouns Myself Yourself Himself Herself Itself Ourselves Yourselves Themselves O uso dos pronomes reflexivos é de certa forma simples. Ele é utilizado como uma autorreferencia do sujeito. Ao contrário do que ocorre na Língua Portuguesa, a autorre- ferência não faz uso do mesmo pronome do objeto, e sim de um específico. É uma referência a si mesmo e que não possui tradução direta. Exemplo: Farei isso por mim mesmo. I will do it by myself (jamais me, como uma tradução direta poderia sugerir) simple present (regra geral) Ao contrário do português, que apresenta múltiplas desinên- cias, o inglês tem como regra geral (exceções serão vistas no final deste item) a adição da letra “s” às terceiras pessoas do singular (he, she, it). Observe os exemplos a seguir: To need = precisar, necessitar I need to work better. (Eu preciso trabalhar melhor) You need to work better. (Você precisa trabalhar melhor) He needs to work better. (Ele precisa trabalhar melhor) She needs to work better. (Ela precisa trablhar melhor) It needs improvements. (Isto precisa de melhorias) We need to work better. (Nós precisamos trablhar melhor) THE HERE AND NOW 69 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s You need to work better. (Vocês precisam trablhar melhor) They need to work better. (Eles/elas precisam trablhar melhor) Percebe-se que, enquanto a língua inglesa acrescenta ao bare infinitive dos verbos (infinitivo sem a partícula ‘to’) a letra ‘s’ aos pronomes de terceira pessoa do singular (he, she, it), a língua portuguesa acrescenta várias desinências ao verbo (preciso, precisa, precisamos etc). Formas negativas do simple present A forma negativa dos verbos no simple present segue uma norma bem simples: acrescente do not (don’t) quando o sujeito for I, you, we, they; acrescente does not (doesn’t) quando o sujeito for he, she, it. Importante: Após o uso dos auxiliares do ou does, utilize o base form (infinitivo sem o to). Formas interrogativas Para que se obtenham as formas interrogativas dos ver- bos no simple present, deve-se fazer uso dos verbos au- xiliares do (para os pronomes I, you, we, they) e does (he, she, it), colocados antes dos respectivos sujeitos. to be O verbo to be não segue as mesmas regras que orientam a maioria dos verbos em inglês. Ele é o único que apresenta três formas de presente. São elas: § I am Brazilian. (Eu sou brasileiro) § He, she it is from the Netherlands. (Ele/ela/isto é da Holanda.) § You, we, they are thirsty. (Você(s), nós, eles(as) estão com sede) Talvez a maior dificuldade ao se lidar com o verbo to be resida no fato de que, ao ser vertido para o português, ele possa ter tanto estar quanto ser como significado, depen- dendo do contexto em que o verbo está inserido. Formas negativas Para se conseguir as formas negativas do verbo to be, deve-se apenas acrescentar a partícula not à forma afirmativa. Formas interrogativas Para que se obtenham as formas interrogativas do verbo to be, deve-se apenas inverter a posição do verbo e do sujeito. tHere to be A estrutura there to be é usualmente entendida como o verbo haver, existir, ocorrer. Ele apresenta duas formas no presente there is (para o singular) e there are (para o plural). Deve-se acrescentar a partícula not às formas afirmativas do there to be para que se obtenham suas respectivas for- mas negativas. Formas interrogativas Para que se obtenham as formas interrogativas do verbo there to be, deve-se apenas inverter a posição do verbo e do sujeito. present Continuous (present progressive) O Present Continuous apresenta enorme semelhança com o tempo verbal Presente Contínuo da língua portuguesa. Ele é um tempo verbal que serve para expressar ações que estão acontecendo simultâneas à fala. O Present Conti- nuous (ou Progressive) é formado pelo presente do verbo to be (concordando com cada sujeito) mais um outro verbo no gerund (sufixo ING). Veja os exemplos: § I am composing a song right now. (Eu estou compondo uma música neste exato momento.) § You are listening my music. (Você está ouvindo minha música.) § He is composing a song on his acoustic guitar. (Ele está compondo uma música em sua guitarra.) § She is singing in her room. (Ela está cantando no quarto dela.) § It is working very well. (Isto está funcionando muito bem.) § We are watching a very interesting movie. (Nós estamos assistindo um filme muito interessante.) § You are wasting money. (Vocês estão desperdiçando dinheiro.) § They are surfing the web on their computers. (Eles estão navegando na internet em seus computa- dores.) As formas interrogativas do Present Continuous são dadas pela inversão do sujeito com o to be. Exemplos: § Are you paying attention to the instructions? (Você está prestando atenção às instruções?) 70 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s § Is it working properly? (Isto está funcionando corretamente?) As formas negativas do Present Continuous são dadas pela adição de not às formas do to be. simple past Regular verbs (verbos regulares) Os verbos regulares são os “queridinhos”dos alunos bra- sileiros por se configurarem de forma mais simples. Para obter o passado dos verbos regulares, basta acrescentar o sufixo - ED a sua base form (infinitivo sem a partícula to), independentemente de quem seja o sujeito. Observe os exemplos a seguir: to need (precisar, necessitar) I needed to be smarter (Eu precisei ser mais inteligente.) You needed to be smarter (Você precisou ser mais inteligente.) He needed to be smater. (Ele precisou ser mais inteligente) She needed to be more careful. (Ela precisouser mais cuidadosa.) It needed to be practical (Isto precisava ser mais prático.) We needed to be more practical. (Nós precisamos ser mais práticos(as).) You needed to be more practical (Vocês precisaram ser mais práticos) They needed to be more practical. (Elas(es) precisaram ser mais práticos(as).) Irregular verbs (verbos irregulares) Encarar os verbos irregulares talvez seja a maior dificul- dade para o estudante brasileiro quando esse se depara com o simple past da língua inglesa. Nesse aspecto, a língua inglesa se parece com a portuguesa, apresentan- do formas verbais variadas (daí o termo irregular), dessa forma, assim como para aprender o português, também é necessário memorizar tais formas. Entretanto, tenha em mente que há apenas uma forma de passado para cada verbo, independente do sujeito. Seguem-se apenas alguns exemplos. § to take – took (past) I took the subway to work. (Eu peguei o metro para trabalhar) She took the subway to work. (Ela pegou o metro para o trabalho) We took the subway to work. (Nós tomamos o metro para o trabalho) § to go – went (past) You went to school. (Você foi para a escola) He went too far. (Ele foi longe demais.) They went home together. (Eles foram juntos para casa) § to eat – ate (past) I ate the whole pizza (Eu comi a pizza inteiro) The dog ate our food (O cachorro comeu a nossa comida) We ate pasta toguether (Nós comemos macarrão juntos) Formas Negativas Para chegar as formas negativas dos verbos no simple past, é preciso acrescentar, após o sujeito e antes do verbo principal, o verbo auxiliar did e a partícula not, independentemente do verbo ser regular ou irregular. Formas interrogativas Para se verter uma frase para a forma interrogativa quando um verbo está no simple past é preciso acrescentar o verbo auxiliar did antes do sujeito da oração. O verbo principal deve permanecer no base form (infinitivo sem to). FOCUS ON THE PAST § She is not (isn’t) composing a music. (Ela não está compondo uma música.) § I am not thinking about it. (Eu não estou pensando sobre isso.) 71 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s to be O verbo to be tem duas formas de passado: was (I, he, she, it) e were (you, we, they). Observe os exemplos: I was at work yesterday. (Eu estava no trabalho ontem). You were at home yesterday. (Você estava em casa ontem.) He was an French singer. (Ele era um cantor francês.) She was an Spanish doctor. (Ela era uma médica espanhola) The bike (it) was here four hours ago. (A bicicleta estava aqui há quatro horas atrás.) We were busy yesterday. (Nós estávamos ocupados(as) ontem.) They were bought in Russia in 2019. (Eles foram comprados na Rússia em 2019.) Formas interrogativas Para chegar as formas interrogativas de passado do verbo to be, deve-se trocar a posição do verbo com o sujeito da oração. Formas negativas Para chegar as formas negativas do verbo to be no passa- do, deve-se inserir a palavra not após o verbo. tHere to be Assim como no presente, duas formas de passado para o verbo there to be se apresentam: there was (para passa- do singular) e there were (para passado plural). Veja os exemplos a seguir. There was a restaurant near here. (Havia/existia um restaurante perto daqui.) There were many restaurants here. (Havia/existiam muitas restaurantes perto daqui.) Formas negativas Para chegar as formas negativas de passado do there to be, é preciso acrescentar a palavra not às formas afirmativas. Formas interrogativas Ao trocar a posição da forma verbal was ou were com o pronome there, obtém-se a forma interrogativa do verbo there to be. Can O verbo can tem todas as suas formas de passado (incluí- das as de subjuntivo) concentradas na palavra could com qualquer que seja o sujeito envolvido. Sophia could play sing very well when she was a child. (Sophia podia cantar muito bem quando ela era criança.) Two years ago we could buy a car, but today this is impossible. (Há dois anos nós podíamos comprar um carro, mas hoje isto é impossível.) I would go home if I could. (Eu iria para casa se eu pudesse.) used to Ao se deparar com textos em língua inglesa, o aluno sem- pre lida com um problema comum de quem tem português como língua materna: as formas de passado do inglês são correspondentes aos nossos verbos do pretérito perfeito ou do pretérito imperfeito? Como devo entender uma frase como ‘I played very well’? ‘Eu joguei muito bem’ ou ‘Eu jogava muito bem’? As frases grafadas em simple past em inglês usualmente correspondem ao que nós nomeamos como pretérito per- feito (ex: joguei, comi, bebi). Para se obter o mesmo sig- nificado das nossas sentenças no pretérito imperfeito (ex: jogava, comia, bebia), a língua inglesa faz uso da estrutura used to. Em linhas gerais, ela é utilizada para expressar uma ação que era verdadeira no passado, mas que não é mais. Observe os exemplos: I used to play basketball very well. (Eu costuma- va jogar/jogava basquete muito bem) She used to be a great singer. (Ela era/costu- mava ser uma grande cantora) Did you use to travel to the country when you lived abroad? (Você costumava viajar/viajava para o interior quando você morou no exterior?) I didn’t use to like it, but now I do. (Eu não costumava gostar disso, mas agora eu gosto) 72 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s past Continuous Muito parecido com o caso previamente apresentado do present continuous, o past continuous da língua inglesa é um tempo verbal utilizado para expressar uma ação que estava acontecendo simultaneamente à outra, no passado e é formado por uma forma de passado do verbo to be (was ou were) mais um outro verbo de ação acrescido do sufixo - ING (gerund). Estude os exemplos: When you called, I was taking a shower. (Quando você ligou eu estava tomando banho) Were you sleeping when I called you yesterday? (Você estava dormindo quando eu te liguei ontem? She wasn’t paying attention when the teacher assigned her homework. (Ela não estava prestando atenção quando o professor passou a lição de casa.) Apêndice #1: formas interrogativa-negativas As diversar formas verbais abordadas nesta unidade (sim- ple past, to be, there to be e can) mostram, além das for- mas apresentadas (afirmativa, negativa e interrogativa) uma quarta forma: a interrogativa-negativa. As formas interrogativa-negativas são obtidas a partir das formas ne- gativas, cada um dos verbos seguindo suas próprias regras. Estude os exemplos abaixo: Didn’t they like their new clothes? (Eles(as) não gostaram de suas novas roupas?) Didn’t you talk to him? (Você não conversou com eles?) Weren’t you at home yesterday? (Você não estava em casa ontem?) Wasn’t there a person waiting here? (Não havia uma pessoa esperando aqui?) Couldn’t you ride bicycles when you were 6? (Você não conseguia andar de bicicleta quando você tinha 6 anos de idade?) Apêndice #2: Uso enfático do auxiliar did Além das formas interrogativas e negativas,há outro uso para o auxiliar did: o enfático. Veja os exemplos a seguir. I liked the show (Eu gostei do show) I did like the show (Eu gostei muito do show) She told you not to be mad (Ela te pediu que não se chateasse) She did tell you not to be mas (Ela realmente te pediu/foi muito clara ao te pedir que não se chateasse.) Apêndice #3: Tabela dos 150 verbos mais comuns da língua inglesa (regulares e Irregulares). A segunda coluna apresenta as formas de passado desses verbos, e a terceira coluna, as formas de particípio passado (past participle). Existem duas estruturas verbais básicas para se apresentar ações futuras em língua inglesa: will e going to. Will É a forma mais comum. Serve para expressar um futuro mais incerto, sem data definida ou que acontecerá em um futuro mais distante. Afirmativa: Sujeito + WILL + verbo (base form) Exemplos: I will buy a house (Eu vou comprar umacasa.) She will forgive me someday. (Ela um dia vai me perdoar.) Those two countries will face a war. (Aqueles dois países vão encarar uma guerra.) Negativa: Sujeito + WILL NOT (WON”T) + verbo (base form) Exemplos: I will not (won’t) marry to her. (Eu não vou casar com ela) She will never forgive me. (Ela nunca me perdoará) Those two countries will not (won’t) face a war. (Aqueles dois países não vão enfrentar uma guerra) LOOKING FORWARD 73 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Interrogativa: WILL + Sujeito + verbo (base form) Exemplos: Will you marry her? (Você vai casar com ela?) Will she ever forgive you? (Ela algum dia irá te perdoar?) Will those two countries face a war? (Aqueles dois países enfrentarão uma guerra) WILL: expressa também decisão pessoal súbita, sem programação. Exemplo: “Look that dog! It is very cute. I will buy it!” Observações: NUNCA utilize to antes ou depois do verbo auxiliar WILL. I will to help you. (incorrect) I will help you. (correct) NUNCA acrescente ‘s’ no verbo auxiliar WILL para as terceiras pessoas do singular she, he, it. She wills help you. (incorrect) She will help you. (correct) going to A estrutura verbal going to é utilizada para expressar um futuro mais próximo, com data ou preparação já definidos. Afirmativa: Sujeito + to be (present) + going to + verbo Exemplos: I am going to marry her. (Eu vou casar com ela.) George is going to take your credibility into account. (George vai levar em conta sua credibilidade.) Japan is going to host the 2020 Olympic Games. (O Japão vai sediar os jogos olímpicos de 2020) Those two countries are certainly going to face a war (Aqueles dois países certamente vão entrar em guerra.) Negativa: Sujeito + to be (present) + NOT + going to + verb Exemplos: You are not going to buy it! (Você não vai comprar isso!) People are going to accept any changes. (As pessoas vão aceitar quaisquer mudanças) This is going to be designed in China. (Isto vai ser projetado na China) Interrogativa: to be (present) + sujeito + going to + verb Exemplos: Are we going to accept his apologies? (Nós vamos aceitar suas desculpas?) Am I going to obey you? (Eu vou obedecer vocês?) Is Laura going to live abroad? (Laura vai viver no exterior?) Going to: expressa também ideia de futuro a partir de evidências notáveis. Exemplo: “The sky is cloudy. It is going to rain soon.” Apêndice #1 Embora muito menos comuns, existem duas outras estru- turas verbais que também apresentam ações futuras. Estu- de os exemplos abaixo: Present Continuous Exemplos: I can’t go to the club with you because I am se- eing my dentist tomorrow. (Eu não posso ir para balada com você porque eu vou no meu dentista amanhã) They are answering the e-mail very soon. (Eles estarão respondendo ao e-mail muito em breve) Simple Present Exemplos: Governments are likey to face challenges in a near future. (Governos estão propensos a ter desafios em um futuro próximo) 74 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s mais comumente encontrado associado aos sujeitos I e WE. Estude os exemplos a seguir: I shall/will talk to the principal about that. (Eu conversarei o diretor sobre isso) We shall/will not pass beyond this point. (Nós não iremos além desse ponto) His schoolmates play basketball every Friday sin- ce 1993. (Os colegas de escola dele jogam basquete toda sexta-feira desde 1993) Apêndice #2 O verbo auxiliar SHALL tem a mesma função de WILL, embora seja muito mais formal e raro. SHALL é muito Os verbos modais são: can, could, may, might, should, must, ought to, will, shall e would. Veja as regras gramaticais dos verbos modais: § Não adicione ‘s’ à terceira pessoa do singular. § Não são usados verbos auxiliares para frases negativas ou interrogativas. § Nunca acrescente a partícula to nem antes nem depois de um verbo modal (com exceção de have to e ought to). Can/Could, may/migHt Expressam capacidade, habilidade, possibilidade, probabi- lidade, para pedir e dar permissão e pedir auxílio. Todas as leituras possíveis incluem, no português, o verbo poder, sendo que o verbo can está sempre no presente. Could, além de ser a forma de passado de can, também pode ser compreendido como futuro do pretérito do verbo can (po- deria, poderíamos). May e might também são usualmente compreendidos como poderia, poderíamos etc. sHould, must, ougHt to, Have to Normalmente expressam sugestões, conselhos, ordens, proibições e obrigações. Eles são normalmente entendi- dos em português como os verbos dever (ria) ou ter que. Todos os verbos desse grupo são verbos auxiliares, ou seja, não têm sentido sozinhos, mas somente associados ou re- ferindo-se a outros verbos. Formas negativas As formas negativas dos modal verbs são obtidas através da adição da palavra not. Formas interrogativas As formas interrogativas dos modal verbs são obtidas atra- vés da inversão do sujeito da oração e do verbo modal. 1. present perfeCt HAVE/HAS + PAST PARTICIPLE O Present Perfect é um tempo verbal utilizado para expres- sar uma ação que começou no passado e cujas consequên- cias se estendem (e são relevantes) até o momento da fala. Exemplos: I have lost my bag (Eu perdi minha bolsa). Neste caso, meu passaporte continua perdido. She has left the house (Ela saiu da casa). Ela saiu da casa e ainda não retornou. Be quiet, please! I haven’t finished it yet. (Fique quieto, por favor! Eu ainda não terminei.) Ou seja, eu comecei algo e ainda estou executan- do esta tarefa. § Ele é utilizado para expressar ações que têm se repeti- do nos últimos tempos. Exemplos: She has worked a lot recently. (Ela tem trabalhado muito recentemente) I have slept very well since I changed room with my sister. (Eu tenho dormido muito bem desde que eu troquei de quarto com a minha irmã.) SHOULD WE CONTINUE PERFECTION 75 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s We have been responsible for her for 5 years. (Nós somos/temos sido os responsáveis por ela nos últimos 5 anos.) Nós começamos e ainda somos responsáveis por ele. § Ele é utilizado por ações que acabaram de acontecer ou estão quase acontecendo. Exemplos: I have just sent you my report. (Eu acabei de te mandar meu relatório) Rush! The plane has arrived. (Apresse-se! O avião está chegando) § Com as palavras ever (ou never) normalmente expres- sam-se experiências de uma vida inteira. Exemplos: Have you ever seen a lion? (Você já viu um leão?) Ou seja, desde o nascimento até o momento da fala. No, I have never seen a lion. (Não, eu nunca vi um leão) Ou seja, desde o nascimento até o momento da fala. She has never been abroad (Ela nunca esteve no exterior) Present Perfect Continuous HAVE/HAS + BEEN + VERB(ING) É uma variação do Present Perfect. Ele é utilizado quando se quer enfatizar a continuidade de uma ação que come- çou no passado e continua no presente. Exemplos: She has been washing the dishes since she arrived. (Ela está lavando louça desde que ela chegou) Ou seja, ela não interrompeu a lavagem em nenhum momento. They have been married for 35 years. (Eles es- tão casados há 35 anos.) Ou seja, há 35 anos, eles estão casados. past perfeCt HAD + PAST PARTICIPLE O Past Perfect corresponde ao tempo verbal que a lín- gua portuguesa chama de Pretérito mais-que-perfeito. A definição e o uso são quase os mesmos. Eles servem para expressar uma ação que está no passado do pas- sado. Ou seja, caso se faça necessário expressar duas ações não simultâneas no passado, a ação mais antiga (que aconteceu primeiro) deve ser estar no Past Perfect, enquanto a mais recente (que aconteceu depois), deve estar no Simple Past. Estude os exemplos a seguir. Exemplos: Don’t be mad! When you arrived work, we had already finished the meeting (Não fique bravo! Quando você chegou ao tra- balho, nós játínhamos terminado a reunião.) Portugal and Spain had already signed the Tordesilhas treat when Pedro Àlvares Cabral ar- rived in the Brazilian Coast in 1500. (Portugal e Espanha já tinham/haviam assi- nado o tratado de Tordesilhas quando Pedro Ál- vares Cabral chegou na costa brasileira em 1500) Past Perfect Continuous HAD + BEEN + VERB (ING) O Past Perfect também pode ser utilizado em sua forma contínua, e, assim como o Present Perfect Continuous, a ênfase está na duração e continuidade da ação. Exemplos: I was short of breath on the phone because I had been running in the park. (Eu estava ofegante ao telefone porque eu tinha corrido/ estava correndo no parque.) She had been waiting for a long time when you arrived. (Ela havia esperado/ esteve esperando por um longo tempo quando você chegou.) future perfeCt Continuous Mesmo que sejam muito mais raros, é possível que você encontre os dois tempos acima em textos mais sofisticados, portanto, vamos aprender um pouco sobre eles. Ambos são usados para expressar ações no futuro que se iniciaram em algum ponto do passado. Estude os exemplos a seguir: In a near future, Brazil will have hosted the two greatest events in the world. (Em um futuro próximo, o Brazil terá se- diado os dois maiores eventos do mundo.) – Future Perfect. By 2030, I will have been living for 59 years. (Quando 2030 chegar, eu terei vivido por 59 anos.) – Future Perfect Continuous. 76 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Formas interrogativas As formas negativas dos tempos perfeitos são conseguidas por meio da inversão do verbo auxiliar to have com o su- jeito da oração. Formas Negativas As formas negativas dos tempos perfeitos são consegui- das através da adição do advérbio not junto ao verbo auxiliar to have, ou em alguns casos por meio da adição do advérbio never. U.T.I. - Sala TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Climate change: How do we know? The Earth’s climate has changed throughout history. Just in the last 650,000 years there have been seven cycles of gla- cial advance and retreat, with the abrupt end of the last ice age about 7,000 years ago marking the beginning of the modern climate era – and of human civilization. Most of these climate changes are attributed to very small variations in Earth’s orbit that change the amount of solar energy our planet receives. The current warming trend is of particular significance because most of it is extremely likely (greater than 95 percent probability) to be the result of human activity since the mid-20th century and proceeding at a rate that is unprece- dented over decades to millennia. Earth-orbiting satellites and other technological advances have enabled scientists to see the big picture, collecting many different types of information about our planet and its climate on a global scale. This body of data, collected over many years, reveals the signals of a changing climate. The heat-trapping nature of carbon dioxide and other gases was demonstrated in the mid-19th century. Their ability to affect the transfer of infrared energy through the atmosphere is the scientific basis of many instruments flown by NASA. There is no question that increased levels of greenhouse gases must cause the Earth to warm in response. (https://clImAte.nAsA.gov. AdAptAdo.) 1. (UNESP 2018) De acordo com o terceiro parágrafo: a) o que permite que os cientistas obtenham dados sobre a Terra na atualidade? b) que tipo de dados têm sido obtidos e o que revelam? 77 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO AID WITH LESS BAGGAGE by sIlvIA sprIng The last thing you’d probably expect to see a Malawian drought victim do is whip out her ATM card and pull cash out of a machine. But that’s exactly how some aid recipients in this beleaguered African nation now recei- ve 1their monthly entitlements. [...] It’s a novel development idea that’s catching on around the world. Until recently, most of the world’s relief aid came in the form of material goods like food, water, blankets, medicines or building materials, delivered by international staff that parachute into disaster areas, or local NGOs funded by rich donors. But in recent years, as the nonprofit world has increasingly come under fire for inefficiency, mismanagement and even corruption, there has been a push for new strategies. Cash aid, whi- ch has been delivered to about 100,000 aid recipients in countries like Bangladesh, Pakistan, and Ethiopia via pilot programs, is one of 2them. The idea behind cash aid is to cut the cost of aid de- livery, reduce opportunities for corruption and theft of goods, and empower aid recipients by giving them more control over their own well-being. [...] (newsweek, June 11, 2007: 35.) 2. (UFRJ 2008) Transcreva do texto os termos que foram substituídos por: a) “their” (ref. 1); b) “them” (ref. 2). TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: JOB INTERVIEW: ESCAPE THE PITFALLS 1 It begins even before you say your first word in an interview. By the time the interviewer walks toward you, an opinion is already being formed. There you sit waiting to give your answers to questions you’ve pre- pared for, while you are already being judged by your appearance, posture, smile or nervous look. NONVERBAL PITFALLS TO WATCH FOR: 2 The Handshake: It’s your first encounter with the in- terviewer. The person holds out his hand and receives a limp, damp hand in return - not a very good beginning. Your handshake should be firm, not bone-crushing, and your hand should be dry and warm. 3 Your Posture: Stand and sit erect. We’re not talking “ramrod” posture, but show some energy and enthu- siasm. A slouching posture looks tired and uncaring. Check yourself out in a mirror or on videotape. 4 Eye Contact: Look the interviewer in the eye. You don’t want to stare, as this shows aggression. Occasion- ally, glance at the interviewer’s hand as he is speaking. By constantly looking around the room while you are talking, you convey a lack of confidence or discomfort with what is being discussed. 5 Your Hands: Gesturing or talking with your hands is very natural. Getting carried away with hand gestures can be distracting. Also, avoid touching your mouth while talking. Watch yourself in a mirror while talking on the phone. Chances are you are probably using some of the same gestures in an interview. 6 Don’t Fidget: There is nothing worse than people play- ing with their hair, clicking pen tops, tapping feet or un- consciously touching parts of the body. 7 Preparing what you have to say is important, but practicing how you will say it is imperative. The nonver- bal message can speak louder than the verbal message you’re sending. cArole mArtIn http://IntervIew.monster.com/ArtIcles/ActIons 3. (UERJ 2004) Este texto, caracterizado como instrucio- nal, pressupõe o emprego de formas verbais específi- cas. Retire uma oração em inglês cujas formas verbais ex- pressam a noção de sugestão e conselho: TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: COMICS AS AN AMERICAN ART FORM Whether in the Sunday paper or in a critically acclaimed graphic novel, comics have become a distinctive American art form. Comic strips, comic books, and the characters that people them, are reflections of the cou- ntry’s culture from the end of the 19th century to the present. 1In the late 1800s, many conditions seemed ripe for the arrival of a new form of communication that was nei- ther merely literature nor merely graphic art. New and more advanced printing presses were allowing newspa- pers to print more copies, better and faster, making it possible to easily reach an ever-increasing public. Also at that time, the enormous influx of new immigrants from eastern and southern Europe, with little or no knowledge of the English language, gave the medium of visual communication a steady audience. The new cultural form was characterized bynarrative told in a sequence of pictures, with continuing casts of characters, and dialogue or text within the picture fra- me. At this point, a new distinction was created that se- parates most comic strips from the pictorial narratives of previous centuries. Comic strips were designed to compel the eye to travel forward from panel to panel, whereas earlier drawings were static and mainly served as illustrations for text. This new, kinetic, dimension of American comic art was a major departure from the car- toons created at that time in other parts of the world. 2Many experts designate the “birthdate” of American comics as 1895, when the Yellow Kid first appeared. Among the many comics artists, 3one of the earliest was Richard Outcault (1863-1928), who created two of the field’s important characters, the Yellow Kid (1895) and Buster Brown (1902), and pioneered the development of the Sunday funnies and the merchandising of comics’ characters. Using his childhood insecurities and failures as material, 5Charles Schulz (1922-2000) was the writer 78 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s and artist of the incomparable Peanuts, which became the most widely read comic strip in the world, inspiring animated cartoons, toys, and reprint books. Gary Trudeau’s (1948- ) Doonesbury made him the most prominent cartoonist-commentator on the political sce- ne during the 1970s, 4bringing him the 1975 Pulitzer Prize, the first ever awarded for a comic strip. 7Calvin and Hobbes is written and drawn by former political cartoonist Bill Watterson (1958- ), who is known for ha- ving his characters, a manic six-year-old and a level-he- aded tiger, make abrupt mid-strip shifts from fantasy to reality, and from one character’s viewpoint to another. 6In the approximately 110 year-long-life of comics, they have encompassed every aspect of American life, from the down-to-earth to the esoteric. Today, due to cutba- cks on space for continuity strips in newspapers, artists no longer have as much size available to include exten- sive detail in their work and comics have become less popular with newspaper readers. The impact that the arrival of the computer age will have on comic artistry remains to be seen. Clearly, animation of cartoon characters is making a co- meback in movies and on digital entertainment websi- tes. Fans of “the funnies” will be waiting to see. www.AskArt.com 4. (UERJ 2009) Observe os fragmentos: Charles Schulz (1922-2000) was the writer and artist of the incomparable “Peanuts”, (ref. 5) In the approximately 110 year-long-life of comics, they have encompassed every aspect of American life, (ref. 6) Justifique o emprego das formas verbais sublinhadas. A seguir, retire do texto, em inglês, outro exemplo para cada uma das noções temporais expressas por essas formas. Responda EM PORTUGUÊS. U.T.I. - E.O. 1. (UNICAMP 2014) South America’s Earliest Empire Images of winged, supernatural beings adorn a pair of heavy gold-and-silver ear ornaments that a high-ranking Wari wo- man wore to her grave in the newly discovered mausoleum at El Castillo de Huarmey in Peru. The Wari forged South America’s earliest empire betwe- en 700 and 1000 A.D., and their Andean capital boasted a population greater than that of Paris at the time. To- day, Peru’s Minister of Culture will officially announce the discovery of the first unlooted Wari imperial tomb by a team of Polish and Peruvian researchers. In all, the archaeological team has found the remains of 63 indivi- duals, including three Wari queens. (dIsponível em http://news.nAtIonAlgeogrAphIc.com/ news/2013/06/pIctures/130627-peru-ArchAeology-wArI- south-AmerIcA-humAnsAcrIfIce-royAl-AncIent-world-photos/. AcessAdo em 27/08/2013.) a) Que tipo de ornamento pessoal foi encontrado em um sítio arqueológico no Peru, do que ele é feito e a quem ele pertencia? b) Explicite duas informações sobre o povo Wari presentes no texto. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: HOW TO CLOSE THE ACHIEVEMENT GAP All over the world, your chances of success in school and life depend more on your family circumstances than any other factor. By age three, kids with professional parents are already a full year ahead of their poorer peers. They know twice as many words and score 40 points higher on IQ tests. By age 10, the gap is three years. By then, some poor children have not mastered basic reading and math skills, and many never will: this is the age at which failure starts to become irreversible. A few school systems seem to have figured out how to erase these gaps. Finland ensures that every kid com- pletes basic education and meets a rigorous standard. One Finnish district official, asked about the number of children who don’t complete school in her city, replied, “I can tell you their names if you want.” In the United Sta- tes, KIPP (Knowledge Is Power Program) charter schools enroll students from the poorest families and ensure that almost every one of them graduates high school – 80 percent make it to college. Singapore narrowed its achie- vement gap among ethnic minorities from 17 percent to 5 percent over 20 years. These success stories offer lessons for the rest of us. First, get children into school early. High-quality preschooling does more for a child’s chances in school and life than any other educational intervention. 1One study, which began in the 1960s, tracked two groups of students from disadvantaged backgrounds. 2Some were given the opportunity to attend a high-quality preschool;4others were not. 3Thirty-five years later, the kids who went to preschool were earning more, had better jobs, and were less likely to have been in prison or divorced. Second, recognize that the average kid spends about half his waking hours up until the age of 18 outside of school – don’t ignore that time. KIPP students spend 60 percent more time in school than the average American 79 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s student. They arrive earlier, leave later, attend more re- gularly, and even go to school every other Saturday. Si- milarly, in 1966, Chile extended 5its school day to add the equivalent of more than two more years of schooling. Third, pour lots of effort into training teachers. Studies in the United States have shown that kids with the most effective teachers learn three times as much as 6those with the least effective. Systems such as Singapore’s are choosy about recruiting; they invest in training and con- tinuing education; they evaluate teachers regularly; and they award bonuses only to the top performers. Finally, recognize the value of individualized attention. In Finland, kids who start to struggle receive one-on-one support from their teachers. Roughly one in three Finnish students also get extra help from a tutor each year. If we can learn the lesson of what works, we can build on it. mourshed, monA; whelAn, fenton. how to close the AchIevement gAp. newsweek, new york, Aug. 23&30, 2010. p. 33. peers: companheiros. 2. (UFBA 2012) Say to which words or phrases the following words refer to: • “others” (ref. 4): • “its” (ref. 5): • “those” (ref. 6): TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: An earthquake rides on a principle of disintegration-the disintegration not only of architecture and pavements and lives but also of the entire idea of order of process and human control. “What can one believe quite safe” asked Seneca, “if the world itself is shaken and its most solid parts totter to their fall... and the earth lose its chief characteristic stability?” In March 1933, Albert Einstein was visiting the Long Be- ach campus of the University of California. He and his host from the department of geology walked through the campus, intently discussing the motions of earth- quakes. Suddenly they looked up in puzzlement to see people running out of campus buildings. Einstein andthe other scientist had been so busy discussing seismo- logy that they did not notice the earthquake occurring under their feet. tIme. october 30.1989 3. (FUVEST) “What can one believe quite safe, if the world itself is shaken?” Reescreva no passado e no futuro. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: 4. (UERJ 2017) Na tirinha, Calvin e seu pai conversam sobre um assunto importante. Com base no primeiro quadrinho, indique o que moti- vou essa conversa. Identifique, ainda, os referentes do pronome we no primeiro e no último quadrinho, res- pectivamente. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: A few notes about humour Charlie Chaplin said it best: “A day without laughter is a day wasted”. Money might be what makes the world go round, but humour is what makes the journey tolera- ble. What better way to acknowledge something than to consume it in jest? Humor is the spice of life. Fun and laughter help reduce stress, and also help to keep you happy and healthy. Everybody loves a good laugh, and everybody needs a good reason to laugh once in a while. I have always en- joyed listening to people tell jokes, and enjoyed telling jokes too. There are many ways in which comedy can be used in life, but my personal favourite is undoubtedly observational humour. Observational humour is the sort where people make fun of life in general, turning the run-of-the-mill day into something people can laugh about. It takes a good amount of story-telling skill to turn a mundane, silly instance into a funny and witty* remark. Some of the comedians who have this skill are Mitch Hedberg, Dylan Moran, Louis C. K., George Carlin, Ed Byrne, and the list goes on. Many people can manage to get out a laugh or two about aspects of life that pertain to a specific audience – for example, an in-joke that only locals will unders- tand. But it takes something else to execute a brilliantly funny story about people in general, something that manages to creep past the cliché bin, which is why I have a good deal of respect for those comedians. A sub-section of observational humor is when co- medians, or regular folk, poke fun at current affairs, generally serious current affairs, and turn them into something satirical. 1This is significantly easier than compiling a whole show, and only requires you to follow current affairs and have a bit of wit about you. Besides this, with some skilled wordplay and a good performan- ce, many a situation can be turned into a joke. The more grave the actual situation, the funnier and darker the spin-off story can be, if pun permits. 80 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s Twitter is one of the current hang-outs for the exchan- ges of these situational comics, and word plays spread like wildfire** once they’re out – 2like they did during the rescue of the Chilean miners, in october, 2010, for instance. Many of the jokes come from dedicated come- dy spots (such as Sickipedia or Uncyclopedia), but the point is that there are many healthy communities and opportunities for people to express their farce take on things. After a while, your mind is always ready to come up with a quirky statement about anything; it actually becomes habitual – which could be detrimental to your reputation if you’re not careful. It’s also really fun as it keeps you on your toes. <theAmAteurobserver.wordpress.com> (*) witty – espirituoso(a) (**) spread like wildfire – alastrar-se 5. (UERJ 2013) Em blogs, é comum o uso de marcas de primeira pessoa para explicitar a presença do autor. Retire do texto, em inglês, duas orações que contenham essas marcas. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: The re-enchantment of everyday life Enchantment is both the capacity of the world to charm us and the inspiration that comes upon us when we open ourselves to the magic in everyday experiences. An enchanted world is alive and rich in personality. It re- veals itself to us in its beauty and poetic presence that ultimately make life feel worth living. 1Over the years, we have taken such pride in our scienti- fic and technological achievements that we have come to imagine our entire lives as mechanical. We prize our ratio- nality and quantifying methods, believing that they offer unmatched reliability. 2We have even introduced them into our arts and our psychological studies and therapies. But we pay a price for this kind of progress. We have lost much that quickens the heart and nurtures the imagination. Our arts are marginalized as never before. Education has been reduced to information gathering and training. Medicine neglects the soul and spirit, and focuses exclusively on the purely physical dimensions of the person, using only mechanical and chemical means of healing. Politics appears obsessed with power and money instead of genuine needs of communities. All of these aspects of modern life hurt the soul and, therefo- re, decrease our humanity. 3It’s tempting to respond to these serious problems with remedies that remain within the paradigm of modern culture instead of imagining an altogether di- fferent way of life. A philosophy of enchantment turns current values upside down and asks that we step out- side the frontiers of contemporary wisdom. Instead of rushing into the future, we might profoundly appreciate the past, and instead of treating nature as an inert, ina- nimate substance - a resource for making the merely physical world, we might grant it its soul and persona- lity. We become enchanted and inspired when we open our senses and our imagination to the song and speech of the world. To live in an enchanting world we have to assume a receptive posture rather than an exclusively active one. We can become skilled at allowing the world in, taking its secrets to heart and finding power outside of our- selves. This is the chief teaching of the wise, who have explored the secret potentialities of nature and human ingenuity in every period of history and in every culture. When, emptied of the debris of modernism, we enjoy the role of being a conduit for the powers that lie outsi- de us, the world floods us with its wisdom and support. thomAs moore (http://www.spIrItuAlItyheAlth.com) 6. (UERJ 2006) Observe os seguintes fragmentos: 1) We have even introduced THEM into our arts (ref. 2) 2) It’s tempting to respond to THESE SERIOUS PRO- BLEMS with remedies (ref. 3) As palavras destacadas são exemplos de mecanismo de coesão textual. Indique: a) os referentes de THEM no fragmento 1; b) dois dos problemas a que se refere o fragmento 2. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: No fragmento I, do romance O retrato de Dorian Gray, o personagem Dorian vê pela primeira vez sua imagem retratada em uma pintura. 1Twenty minutes later Hallward stopped painting. He stood back and looked at the portrait for a few mo- ments. Then he bent down and signed his name in red paint on the bottom left-hand corner. “It is finished”, he cried. Lord Henry came over and examined the picture. It was certainly a wonderful work of art. “My dear man”, he said, “It is the best portrait of our time. Mr. Gray, come over and look at yourself”. Dorian walked across to look at the painting. When he saw it, his cheeks went red with pleasure. He felt that he recognized his own beauty for the first time. But then he remembered what Lord Henry had said. His beauty would only be there for a few years. One day he would be old and ugly. “Don’t you like it?”, cried Hallward, not understanding why the young man was silent. “Of course he likes it”, said Lord Henry. “It is one of the greatest paintings in modern art”. (...) “How sad it is!”, said Dorian Gray, who was still sta- ring at his own portrait. “I will grow old and horrible. But this painting will always stay young. It will never be older than this day in June… If only it were the other way!” “What do you mean?”, asked Hallward. “If I could stay young and the picture growold! For that – for that – I would give everything! Yes, there is no- 81 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s thing in the whole world I would not give! I would give my soul for that!” “I don’t think you would like that, Basil”, cried Lord Henry, laughing. “I certainly would not, Harry”, said Hallward. 2Dorian Gray turned and looked at him. “You like your art better than your friends.” 3The painter stared in surprise. Why was Dorian spe- aking like that? What had happened? His face was red, and he seemed quite angry. “You will always like this painting. But how long will you like me? 4Until I start getting old. Lord Henry Wotton is perfectly right. When I lose my beauty, I will lose every- thing. I shall kill myself before I get old.” (...) Many years passed. Yet the wonderful beauty that had so fascinated Basil Hallward stayed with Dorian Gray. Even those who had heard terrible rumours against him could not believe them when they met him. He always had the look of someone who had kept himself pure. Many people suspected that there was something very wrong with Dorian’s life, but only he knew about the portrait. Some nights he would secretly enter the locked room. Holding a mirror in his hand, he would stand in front of the picture Basil Hallward had painted. He would look first at the horrible, old face in the picture, and then at the handsome young face that laughed back at him from the mirror. He fell more and more in love with his own beauty. And more and more interested in the corrup- tion of his own soul. AdAptAdo de wIlde, oscAr. the pIcture of dorIAn grAy. hArlow: peArson, 1994. 7. (UERJ 2019) No último parágrafo do texto, a forma ver- bal would é usada em três frases com a mesma função. Aponte essa função. Justifique, ainda, esse uso de would, considerando o sentimento de Dorian pelo quadro. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: O fragmento II, do romance de Dorian Gray apresenta- do a seguir, apresenta os momentos finais da história, após o personagem Dorian, durante muitos anos, ter le- vado uma vida libertina e de experiências amorais. What worried Dorian was the death of his own soul. Basil had painted the portrait that had destroyed his life. He could not forgive him that. 1It was the portrait that had done everything. (…) A new life! That was what he wanted. That was what he was waiting for. Perhaps it had begun already. He would never again spoil innocence. He would be good. (…) He looked around and saw the knife that had killed Ba- sil Hallward. He had cleaned it many times until there was no mark left on it. It was bright, and it shone. 2It had killed the painter. Now it would kill the painter’s work, and all that it meant. It would kill the past. When that was dead he would be free. He picked up the knife and pushed it into the picture. 3There was a cry, and a crash. The cry was so horrible that frightened servants woke and came out of their rooms. Two gentlemen, who were passing in the Square below, stopped, and looked up at the great house. They hurried on until they met a policeman, and brought him back. The policeman rang the bell several times, but there was no answer. Except for a light in one of the top windows, the house was all dark. After a time, he went away and stood in the garden of the next house and watched. (…) Inside the house the servants were talking in low whis- pers to each other. 4Old Mrs Leaf was crying. Francis was as white as death. After about a quarter of an hour, they went fearfully upstairs. (…) When they entered the room they found a portrait han- ging on the wall. It showed Mr Dorian Gray as they had last seen him, young and beautiful. Lying on the floor was a dead man in evening dress. He had a knife in his heart. He was old and horribly ugly. It was not until they saw his rings that they recognized who the man was. AdAptAdo de wIlde, oscAr. the pIcture of dorIAn grAy. hArlow: peArson, 1994. 8. (UERJ 2019) (1) It was the portrait that had done everything. (ref. 1) (2) It had killed the painter. (ref. 2) Identifique os agentes das ações sublinhadas, respec- tivamente, em (1) e em (2). Explique, também, o efeito produzido pela escolha de tais agentes. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: Leia um fragmento do romance If today be sweet para responder à(s) questão(ões). Neste fragmento, os leitores têm acesso aos sentimen- tos e pensamentos do filho de Tehmina, Sorab, a respei- to da esposa (Susan, uma americana), da mãe, da infân- cia em Bombaim e da vida como imigrante na América do Norte. Sorab felt the familiar rush of heat in the back of his neck that he felt each time Susan said something cri- tical of Tehmina. He heard the frustration in his wife’s voice, but behind his eyes there was another, older image – of his mother bent over the kitchen counter chopping onions, her face flushed from the steam from the pressure cooker and the sting of the onions. Do you realize that my mother spent – wasted – her entire youth cooking and taking care of five other people? he wanted to say to Susan. (...) It’s just that ... there are some things, some thoughts so elusive that they wiggle like fish out of the web of words. Some differences were so great that they were beyond language, beyond explanation. How envious Su- san had been when he had first told her that his mother had always had servants. That the fisherwoman and the newspaper boy and the baker and the butcher all made 82 U. T. I. 1 L IN G UA G EN S, C Ó D IG O S e su as te cn ol og ia s their morning rounds to the house, delivering their wa- res. How easy, how luxurious Susan had imagined his mother’s life to be. And yet that‘s not how he remem- bered her life, at all. 1What he remembered of his chil- dhood was a blur of ringing doorbells and raised voices and his mother’s tired, flushed face and the complaints of neighbors and the haggling with the vendors and the arguments with the servants and the chain of unexpec- ted visitors and demanding relatives who dropped in without calling first. And somehow, like the conductor of a mad orchestra, his mother had to manage it all (...). He had never asked and his mother had never said, but Sorab knew that Tehmina would have willingly traded in the servants and the vendors who came to her door for a dishwasher that didn’t complain, a vacuum cle- aner that didn’t ask for a raise, a supermarket where the prices were fixed, a clothes dryer that didn’t talk back, a food processor that chopped onions without le- aving a trail of tears in its wake. He looked at Susan, trying so hard to understand him, and he felt the gap between them as enormous as the distance between Bombay and Ohio. How to explain to his wife the rift that opened up in his heart each time there was a conflict between the two women he loved most in the world? How to describe to her his first few years in America, when he had felt that rootlessness that only immigrants feel, so that he felt as if his head was touching the skies of America while his feet were rooted in Bombay, as if he was straddling two conti- nents. (...) Sorab wanted to tell Susan about how, for years, he had longed for his life to be seamless, how he yearned to have all his loved ones under the same roof. And how, after his mother and father began to visit him in Ohio, he had finally felt whole, complete, seamless. thrIty umrIgAr. If todAy be sweet. new york: hArpercollIns publIshers, 2007. 9. (UERJ 2014) Por se tratar de uma narrativa de memó- rias, o texto faz uso frequente de dois tempos verbais: o pretérito perfeito (simple past) e o pretérito mais-que- -perfeito (past perfect). Retire do último parágrafo, em inglês, uma frase que contém verbos conjugados nesses dois tempos e expli- que a diferença de uso entre eles. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: Os quadrinhos 5, 6 e 7 apresentam uma história criada por Calvin.Considere esta informação para responder às questões. 10. (UERJ 2013) Indique o tempo verbal mais usado na história escrita por Calvin. Em seguida, retire, em inglês, dois verbos regulares conjugados nesse tempo. HISTÓRIAHISTÓRIA CIÊNCIAS HUMANAS e suas tecnologias 1 U.T.I. HISTÓRIA GERAL 84 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Historiador e Historiografia A História é uma ciência humana. Como uma ciência, a História possui métodos para investigar o passado. His- toriografia é o termo utilizado para designar o campo de estudo, as reflexões e os exames de discursos, narrativas e pesquisas sobre o passado. O historiador é o profissional apto para pesquisar e construir o saber histórico, definindo linhas de pesquisa, objetivos e, sobretudo, utilizando docu- mentação para a análise do passado. Para iniciar um trabalho de pesquisa histográfica, o histori- ador precisa utilizar documentação, ou seja, algum elemen- to humano que seja um vestígio do período que ele estuda. Por exemplo, a utilização de fontes textuais, evidências arqueológicas, fontes de cultura material, repre- sentações pictóricas (gênero da pintura, com o objetivo de representar a aparência visual do sujeito, em geral um ser humano, embora também possam ser representados animais) e registros orais. É a partir destes vestígios que o historiador elabora a sua ideia e monta a sua pesquisa com o objetivo de com- preender o que ocorreu. periodização da História Ao longo do tempo, os historiadores convencionaram-se a organizar os eventos em períodos. Essa periodização, naturalmente, seguia uma organização cronológica e utili- zava acontecimentos marcantes para determinar o fim de um período e o começo de outro. O fim de um período, no entanto, não significava o registro de mudanças pro- fundas e imediatas, mas indicava a partir daquele marco o acontecimento de mudanças significativas com o passar do tempo. Apesar de muitos historiadores questionarem a datação dos marcos de cada período, ela permanece em vigência e é utilizada como mecanismo para organizar o estudo da História e facilitar o ensino. Através de uma concepção eurocêntrica do mundo, difun- diu-se uma linha do tempo baseada em eventos ligados ao contexto do continente europeu. Esta linha do tempo, considerada “oficial”, divide-se tradicionalmente em: § Pré-História: Surgimento dos primeiros hominídeos até cerca de 4 mil anos a.C., com o surgimento dos primeiros tipos de escrita. § Idade Antiga: até 476 d.C. (Queda do Império Romano) § Idade Medieval: até 1453 (Tomada de Constantinopla) § Idade Moderna: até 1789 (Revolução Francesa) § Idade Contemporânea: Dias atuais. Esta linha do tempo é um recorte eurocêntrico e, portanto, limitada à não oferecer dados para a compreensão históri- ca e temporal de diversas outras sociedades humanas. A periodização tradicional divide a História em duas gran- des partes: “Pré-História” e “História”. Ou seja, o critério utilizado por essa visão histórica para dividir os dois perí- odos é o surgimento da escrita. Vale destacar, porém, que essa visão é amplamente criticada. Colocar a escrita como um critério de divisão se mostra arbitrário e até mesmo preconceituoso, reduzindo sociedades ágrafas como “infe- riores”. Aliás, como a própria denominação “Pré-História” explicita, é como se esses povos, por não terem uma cultu- ra literária, nem ao menos teriam, portanto, História. De qualquer forma, estudar esse antigo e importante perío- do da História humana é uma tarefa bastante complexa. O estudo desse período advém, sobretudo, de metodologias interdisciplinares. Portanto, o conhecimento desse período advém, por exem- plo, dos vestígios e dos estudos arqueológicos e paleon- tológicos, como pinturas rupestres, instrumentos antigos, restos de fósseis, etc. Com ajuda desses vestígios é possível elaborar teorias sobre esses povos. Os historiadores, durante suas pesquisas, fizeram uma divisão em dois períodos da pré-história, esses perío- dos foram denominados como: Período Paleolítico e Período Neolítico. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE HISTÓRIA “PRÉ-HISTÓRIA” 85 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s período paleolítiCo O período Paleolítico ou também conhecido como Idade da Pedra Lascada, ocorreu aproximadamente por volta de 2,7 milhões de anos atrás até 10 mil a.C. O Paleolítico foi o maior período da pré-história, esse pe- ríodo é chamado de Idade da Pedra Lascada porque uma das características principais desse período é o começo do desenvolvimento de ferramentas e de instrumentos de tra- balho provenientes da pedra. O período Paleolítico foi marcado pelo domínio do fogo, o nomadismo (mobilização de grupos humanos sem local fi- xos), caça em grupo, divisão de tarefas, coletas de recursos na natureza (frutos e raízes), as primeiras manifestações artísticas (pinturas rupestres), uso da pele de animais, uso de cavernas como abrigos naturais e o domínio do fogo. período neolítiCo O período Neolítico ou também conhecido como Idade da Pedra Polida ocorre aproximadamente 10 mil a.c. até 3 mil a.c., ou seja, ele ocorre desde a Revolução Neolítica até a criação da escrita. O Neolítico começa pela Revolução Neolítica, processo mar- cado pelo momento em que alguns agrupamentos humanos começaram a desenvolver a agricultura e a domesticação dos animais. A partir desse contexto, o processo de sedentarização se intensificou e os agrupamentos humanos passaram por um grande aumento demográfico, transformações que deram ori- gem as primeiras civilizações da humanidade. Ao longo desse processo, por volta de 6000 a.C, o desenvolvimento da meta- lurgia e o surgimento de instrumentos de metal acabaram por aperfeiçoar ainda mais os utensílios humanos, dando origem ao período denominado “Idade dos Metais”. Ainda nessa conjuntura de grandes transformações, vale ressaltar que, por volta de 4000 a.C. teria surgido a cultura letrada, a escrita. egito A civilização egípcia se desenvolveu no nordeste da África. A vida girava em torno do ciclo de cheias e vazantes do rio Nilo. O rio Nilo dividia o Egito em duas partes bem distintas: o Alto e o Baixo Egito. O Alto Egito é a região do interior do território, com cerca de 10 quilômetros de largura e que chega até a primeira catarata. O Baixo Egito é a região do delta, cheia de alagadiços e que se alarga à medida que se aproxima do Mediterrâneo. Império Antigo (3200-2200 a.C.) A história do Egito começa quando as populações que vi- viam às margens do Nilo tornam-se comunidades dedica- das mais à agricultura do que à caça ou à pesca. No quarto milênio antes de Cristo, evoluem para pequenas unidades políticas, chamadas nomos. Formaram-se dois reinos, um ao norte e outro ao sul. Por volta de 3200 a.C., o faraó Menés (ou Narmer) unificou os reinos, com capital em Tínis, daí o período até 2800 a.C. chamar-se Tinita. Os sucessores de Menés organizaram uma monarquia poderosa e de maior prosperidade do Antigo Império. En- tre 2700 e 2600 a.C., foram construídas as célebres pirâ- mides de Gizé, atribuídas aos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, da terceira dinastia, fundada por Djoser em cerca de 2850 a.C. , com a nova capital era Mênfis. Império Médio (2000-1750 a.C.) Entre 1800 e 1700 a.C., chegam os hebreus, mas são os hicsos, vindos da Ásia, que criam as maiores dificulda- des. Trazem cavalos e carros de combate, que os egípcios desconhecem. Dominaram a região e instalaram-se no delta de 1750 a 1580 a.C. Império Novo (1580-1085 a.C.) Depois da expulsão dos hicsos, a nova fase, de enorme desenvolvimento militar, transformou o Egito em potência imperialista. O Novo Império marca o apogeu da civilização egípcia. No reinado de Tutmés III (1480-1448 a.C.), o império atin- giu sua maior expansão territorial, ampliando-se até o rio Eufrates, na Mesopotâmia. Marido da rainha Nefertiti, Amenófis IV empreendeu uma revolução religiosa,provavelmente para anular o poder e a autoridade da camada sacerdotal, instituindo o culto mono- teísta ao deus Áton, simbolizado pelo disco solar, chegando a mudar seu nome para Akhenaton (“aquele que agrada a Aton”). Tutancáton, seu sucessor, restaurou o deus Amon e pôs fim à revolução. Mudou o próprio nome para Tutancâmon. Os faraós da dinastia de Ramsés II (1320-1232 a.C.) enfren- taram novos obstáculos, como a invasão dos hititas, vindos da Ásia Menor. O Império entrava em declínio. Em 525 a.C., ANTIGUIDADE ORIENTAL 86 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s o rei persa Cambises derrota o faraó Psamético III. A inde- pendência acabou. Nos séculos seguintes, os povos do Nilo seriam dominados pelos gregos e, finalmente, cairiam nas mãos do imperialismo romano, em 30 a.C. Sociedade e Economia A agricultura de regadio era a principal atividade econô- mica no Egito Antigo. Estava diretamente ligada às obras hi- dráulicas que tornavam possível o controle das águas do Nilo. A economia egípcia pode ser enquadradada no modo de produção asiático, em que coexistiam comunidades ca- racterizadas pela propriedade coletiva do solo e organizadas sobre as relações de parentesco, com um poder estatal que representava a unidade verdadeira ou aparente de tais co- munidades. O Estado organizava as atividades produtivas por meio de uma rígida estrutura repressiva. A população camponesa pa- gava impostos em produto ou em trabalho, numa estrutura denominada servidão coletiva. O governo do Egito antigo era teocrático. O faraó era con- siderado filho de Amon-Rá, o deus Sol, e encarnação de Hórus, simbolizado pelo falcão. A nobreza era formada pelos parentes do faraó, altos funcionários do palácio, oficiais do exército, chefes administrativos e sacerdotes. Camponeses e artesãos eram a camada inferior da sociedade, mas deles dependia a prosperidade do país. Recebiam mí- seros pagamentos em forma de produtos, moravam em ca- banas, vestiam-se pobremente e comiam pouco. Aquilo que poupavam, guardavam para o funeral, para garantir uma vida melhor após a morte. Cultura e religião Os egípcios eram politeístas, ou seja, adoravam vários deu- ses. Antropozoomórficos esse deuses apresentavam forma de homem e animal. As principais divindades eram: Osíris, Amon-Rá, Isis, Hórus, Ápis e Anúbis. Para os egípcios, a morte apenas separava o corpo da alma. Por isso, era preciso conservar o corpo. Com essa finalidade, os egípcios desenvolveram técnicas de mumificação. Ciência e arte A arquitetura egípcia é reconhecida pelos seus templos, as pirâmides, as mastabas e os hipogeus. pIrâmIdes de quéops, quefren e mIquerInos Seus escritores se inspiravam em temas morais, poéticos ou religiosos, como o Texto das Pirâmides e o Livro dos Mortos. Tinham três tipos de escrita. Uma sagrada, em túmulos e templos, a hieroglífica; uma versão mais simplificada, a hierática, em documentos administrativos; e a demócri- ta, mais popular. mesopotâmia Mesopotâmia (atual Iraque), é uma palavra de origem grega que significa “terra entre rios”. Localizava-se numa exten- sa faixa de terra conhecida como Crescente Fértil, entre os rios Tigre e Eufrates A Mesopotâmia era formada por cidades-Estado com au- tonomia religiosa, política e econômica e governadas por um sacerdote. Sua cidade mais famosa foi Acad, que deu origem ao termo acádios. Estes estabeleceram uma organização centralizada em seu Império, afastando a influência dos sacerdotes. Por volta de 2330 a.C., o rei semita Sargão unificou as cidades sumérias, criando o Primeiro Império Mesopotâmico. Sociedade e economia Marcadas pela agricultura de regadio e pela servidão coletiva, várias civilizações mesopotâmicas inseriram-se no chamado modo de produção asiático. A estrutura social mesopotâmica assemelhava-se à egípcia Primeiro Império Babilônico (1800-1600 a.C.) Hamurábi foi um dos primeiros reis babilônicos (1728- 1686 a.C.). Ampliou o Império e foi sobretudo um legisla- dor, responsável pelo primeiro código de leis que se conhe- ce: o Código de Hamurábi. Império Assírio (1875-612 a.C.) Com origem por volta de 1800 a.C., o Império Assírio teve seu período de maior expansão entre 883 e 612 a.C., conquistando a Síria e o Egito. O Império Assírio chegou ao fim com a invasão e o domínio dos medos. Novo Império ou Segundo Império Babilônico (612-539 a.C.) Nabucodonosor (605 a 563 a.C.) tomou Jerusalém em 587 a.C., levou numerosos israelitas cativos para a Babilônia), conquistou a Síria, a Fenícia e construiu grandiosas obras, como os Jardins Suspensos da Babilônia e a Torre de Babel. O Segundo Império Babilônico foi tomado por Ciro em 539 a.C. 87 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Cultura e religião Estado teocrático, a religião mesopotâmica tinha cará- ter politeísta. A escrita era em forma de cunha (cuneiforme). Na literatura, as principais obras foram o Poema da Criação e a Epopeia de Gilgamesh. Também avançaram em Matemática, criando tábuas de multiplicação e divisão. Na astronomia, desenvol- veram um calendário baseado nos ciclos da Lua. A arquite- tura se destacou pela construção de palácios e zigurates. Hebreus A Palestina, localizada no Oriente Próximo, era formada pelo vale do rio Jordão, as áridas terras da Judeia e a planí- cie costeira. Inicialmente habitada por cananeus, filisteus e arameus, foi povoada por volta de 2000 a.C. pelos hebreus, povo de origem semita. Segundo a Bíblia, Abraão foi o primeiro patriarca, tendo conduzido seu povo à terra prometida por Deus, Canaã, ou Palestina. De seu neto, Jacó, originaram-se as 12 tri- bos de Israel. Por volta de 1800 a.C., as secas obrigaram os hebreus a emigrarem para o Egito. Os hebreus deixaram o Egito rumo à Palestina por volta de 1250 a.C. A luta pela reconquista da Palestina desencadeou um pro- cesso de unificação das tribos hebraicas e centralização política, cujo desfecho foi a fundação do reino de Israel. As relações comerciais com a Fenícia foram intensificadas. A morte do rei Salomão, em 933 a.C., desencadeou uma crise política conhecida como o cisma hebraico, resul- tando na divisão do reino em duas partes: o Reino de Judá (duas tribos), situado ao sul, e o Reino de Israel (dez tri- bos), localizado no norte. Em 722 a.C., o Reino de Israel foi conquistado por Sargão II e transformado em província do Império Assírio. O Reino de Judá foi conquistado por Nabucodonosor em 587 a.C. O Templo de Jerusalém foi destruído e os hebreus foram levados como escravos para a Babilônia (Cativeiro da Babilônia). Em 539 a.C. termina o Cativeiro da Babilônia. Os hebreus retornam à Palestina, reconstroem o Templo de Jerusalém e se tornam parte do Império Persa. Situados nos territórios da antiga tribo de Judá, os habitantes dessa região passa- ram a ser chamados de judeus. Os judeus foram dominados por vários povos. Em 63 a.C., a Palestina foi conquistada por Pompeu e transformada em província do Império Romano. Em 70 d.C., os judeus se rebelaram contra o domínio dos romanos, que destruíram Jerusalém, inclusive o Templo, e expulsaram os judeus da Palestina. A dispersão dos judeus pelo mundo ficou conhe- cida como Diáspora. Sociedade e economia A economia era predominantemente agropastoril. Durante o Período dos Reis, a terra ficou concentrada nas mãos da aristocracia ligada ao Estado. Camponeses, pastores e uma pequena parcela de escravos estavam subordinados a essa aristocracia. Cultura e religião No Direito, os hebreus produziram o Código Deuteronô- mio, e sua literatura está contida no Antigo Testamento. Constituíram a única civilização monoteísta da antigui- dade oriental. Vale dizer que o monoteísmo judaico exerceu grande influência sobre o cristianismo e o islamismo. feníCios Os fenícios A estreita faixa de terra entre as montanhas e o mar Medi- terrâneo, atualmente região do Líbano, começou a ser ocu- pada por povos de origem semita porvolta de 3000 a.C. Sociedade e economia Na Fenícia, a agricultura cedeu lugar ao comércio, à pesca e a um rico artesanato. As vastas florestas de cedros e os bons portos naturais favoreceram a atividade marítimo- -comercial. Isso fez dos fenícios os principais navegantes e comerciantes da antiguidade. Era uma sociedade de castas constituída por sacerdotes, aristocratas, comerciantes, homens livres e escravos. A Fenícia não constituiu um Estado unificado com um go- verno centralizado. Agrupavam-se em cidades-Estado, de governo autônomo e soberano. Cultura e religião A religião era politeísta, de divindades associadas às forças da natureza. A principal contribuição dos fenícios foi a in- venção do alfabeto fonético. Criaram 22 sinais dos sons das palavras. Com as vogais, tornou-se o alfabeto grego. império persa Dois grupos arianos ocuparam o Irã a partir de 2000 a.C., os medos e os persas. Tornaram-se pequenos reinos rivais no século VIII a.C.. No século VI a.C., Ciro I, rei dos persas, conquistou o Reino da Média, provocando a unificação po- lítica dos povos do Planalto Iraniano em 550 a.C. 88 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s geografia O território grego era composto por duas regiões distintas: a parte continental, ao sul da península dos Balcãs, e a Grécia insular, que ocupava as ilhas do mar Egeu e a costa da Ásia Menor. Com a expansão colonial, ela ocupou também a cos- ta egeia da Ásia Menor e o sul da península Itálica. Período Pré-homérico (2000-1200 a.C.) De origem indo-europeias, os gregos ou helenos chegaram à Grécia em cerca de 2000 a.C. Antes deles, os aqueus já ocupavam as melhores terras. Os aqueus formaram os núcleos urbanos de Micenas, Tirinto e Argos. Os habitantes de Micenas integraram sua cultura à dos cretenses, cuja civilização era bastante avançada, o que deu origem à civilização creto-micênica. Com a chegada de novos grupos indo-europeus, os jônios e os eólios, por volta de 1700 a.C., os núcleos arianos ins- talados na Grécia foram fortalecidos. Os troianos, outra im- portante civilização pré-helênica, desenvolveram-se ao norte da Anatólia. Troia tinha uma população aparentada com os primeiros gregos, e foi erguida por volta de 1900 a.C. No início do século XII a.C., os gregos destruíram Troia. Os dórios, último grupo de povos arianos a penetrar na Grécia, chegaram enquanto a civilização micênica se ex- pandia em direção à Ásia. Aguerridos, nômades e conhe- cedores de armas de ferro, os dórios arrasaram as cidades gregas, causando fugas para o interior e para o exterior. Numerosas colônias gregas formaram-se na costa da Ásia Menor e nas ilhas do mar Egeu. Essa foi a Primeira Di- áspora Grega. Período Homérico (séc. XII-VIII a.C.) O nome “homérico” é baseado em dois poemas épicos atri- buídos a Homero: a Ilíada e a Odisseia. Depois do século XII a.C., a célula básica da sociedade grega era o genos (comunidade gentílica), uma grande família. Os descendentes de um mesmo antepassado vi- viam no mesmo lar. Cada membro (gens) dependia da unidade da família, cujo chefe era o páter-famílias. Seu poder era passado para o filho mais velho. A sociedade era igualitária e sem classes sociais. Os meios de produção e o resultado da produção pertenciam à co- munidade. A falta de terras férteis e o crescimento demo- gráfico levou as comunidades gentílicas a lutas internas e desagregação. Era o fim do Período Homérico. Os gregos passaram do sistema de propriedade coletiva para o de propriedade privada. Os parentes mais próximos do pa- ter, os eupátridas, ficaram com as áreas mais férteis; aos seus parentes mais distantes, os georgóis (agricultores) destirna- ram as restantes. Os denominados thetas (marginais) fica- ram sem terra. Uma parte deles se dedicou ao comércio e ao artesanato. Os demais deixaram a Grécia e fundaram colô- nias nos mares Negro e Mediterrâneo, processo conhecido Sociedade e Economia Ocorreu um rápido expansionismo territorial durante o go- verno de Ciro I (559-529 a.C.). O dárico, moeda-padrão cunhada em ouro e prata, facilitou a integração econômica das regiões e dos povos do império. A rede de estradas reais, o dárico e a padronização dos pesos e medidas possibilitaram o desenvolvimento das ati- vidades comerciais. A elite persa era composta pelo imperador e sua família e por altos burocratas, comandantes militares e sacerdotes. A massa da população era sujeita ao trabalho compulsório nos sistemas de regadio e/ou nas obras públicas, e ainda tinha que pagar uma pesada tributação. Cultura e religião OIs persas desenvolveram uma arquitetura monumental. Ti- nham uma religião dualista, em que o deus do bem, Ahura- -Mazda (ou Ormuz), opunha-se ao deus do mal, Arimã. E fun- damentava-se na crença do Juízo Final, onde o bem triunfaria sobre o mal, descritos no livro sagrado Zend Avesta, escrito pelo lendário Zoroastro ou Zaratustra. CIVILIZAÇÃO GREGA 89 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s como Segunda Diáspora Grega (século VIII a.C.). Foram os eupátridas que originaram a aristocracia grega, cujo poder resultava da posse de terra. Eles uniam-se em ir- mandades, as frantrias, que se uniam em tribos. Da reunião de seus vilarejos surgiu a organização política da antiga Grécia: a cidade-Estado (pólis). Período Arcaico (séc. VIII-VI a.C.) A evolução e consolidação das cidades-Estado foi o que marcou o Período Arcaico grego. Isoladas geograficamente, evoluíram de modos distintos, gerando modelos por vezes antagônicos e rivais. Esparta, a cidade-estado militarista. Esparta foi uma das primeiras cidades-Estado gregas, fun- dada pelos invasores dórios no século IX a.C. Sem saída para o mar e isolada pelas montanhas, Esparta era uma cidade-estado avessa a influências externas. A sociedade espartana se dividida em: espartanos ou esparciatas, a camada dominante; periecos, agriculto- res livres, dedicavam-se também ao artesanato e ao co- mércio; hilotas, a camada mais baixa da sociedade es- partana, servos pertencentes ao Estado e à disposição dos esparciatas para o cultivo da terra. Política A economia e sociedade imobilistas explicam o governo espartano menos progressista e mais conservador. Apenas uma minoria de cidadãos, os esparciatas, partici- pava do governo oligárquico, os homoioi (iguais). Seu ob- jetivo fundamental era conservar o status quo, a situação vigente de privilégios da aristocracia e de dominação sobre os escravos. Esparta regrediu culturalmente com as mudanças estru- turais do século VII a.C. O governo passou a estimular o laconismo: falar tudo em poucas palavras, o que limitava a capacidade de raciocínio e o espírito crítico dos falantes. Rigidamente militarista, a educação dos esparciatas con- tribuía significativamente para a manutenção dessa estru- tura política e social fechada. Aos sete anos de idade, os meninos eram entregues aos cuidados do Estado para que tivessem uma rígida educação militar. Dos dezoito aos ses- senta anos, serviam no exército. Só depois dos trinta anos, quando então recebiam seu lote de terra e passavam a ser cidadãos, poderiam casar. A fim de evitar mudanças radicais e de garantir o domínio da minoria dória sobre a maioria escrava, Esparta perma- neceu nesse sistema até o século IV a.C. A cidade-estado democrática, Atenas. Atenas foi fundada numa planície, a Ática, uma península do mar Egeu. Os atenienses se consideravam originários dos povos aqueus, eólios e jônios. A economia de Atenas, no século VIII a.C., era ainda essen- cialmente rural. Mas atividades artesanais e comerciais já ultrapassavam os limites da Ática. A proximidade de Atenas do mar Egeu abriu-a a influências externas, facilitou sua participação no movimento de colonização e transformou-a numa pólis de navegadores e comerciantes. Os eupátridas, grandes proprietários de terras, eram a camada social dominante. Os georgois eram agriculto- res donos de terras poucoférteis perto das montanhas. Os thetas eram os marginalizados (recebiam menos de 200 medimnos por ano). Na região litorânea, concentravam-se os artesãos (demiur- gos), trabalhadores livres. Cerca de 100 mil estrangeiros residiam em Atenas, os metecos, dedicados ao artesanato e ao comércio. A maioria da população de Atenas era de es- cravos, que desempenhavam todas as atividades manuais. A primeira forma de governo de Atenas foi a monarquia ou realeza. No século VII a. C. ocorreu a substituição da realeza pelo arcontado, órgão de caráter executivo. Assim o regime de governo passou de monárquico para oligárquico. Em 507 a.C., ocorreu uma insurreição do partido popular (demos) e a ascensão de Clístenes ao governo de Atenas. A democracia ateniense Clístenes, apesar de sua origem aristocrática, traçou um governo baseado na isonomia, a igualdade dos cidadãos perante a lei. A primeira medida foi a divisão da população da Ática em três zonas: o litoral (parália), o interior (me- sógia) e a cidade (ásty). Cada uma dessas zonas foi divi- dida em dez unidades. Da reunião das unidades de cada zona formou-se uma tribo, totalizando dez tribos. A menor unidade de divisão eram as demos, base desse sistema de governo, razão pela qual a reforma de Clístenes ficou co- nhecida pelo nome de democracia. Período Clássico (séc. V e IV a.C.) Período de hegemonias e imperialismo no mundo grego. Atenas foi a primeira potência dominante, seguida por Es- parta e Tebas. A vitória dos gregos nas guerras médicas ou pérsicas projetaram a hegemonia ateniense até a Guer- ra do Peloponeso. Filipe II anexou o mundo grego ao Reino da Macedônia e, na fase seguinte, ao Império Helênico de Alexandre Magno. 90 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s A hegemonia de Atenas (443-429 a.C.) Atenas alcançou seu apogeu sob o governo de Péricles. O con- trole do mar Egeu, o comando da Confederação de Delos e a prosperidade econômica contribuíram para o fortalecimento do partido democrático formado pelos ricos comerciantes e armadores. Sob a direção desse partido, Atenas desenvolveu, ao mesmo tempo, uma política democrática e imperialista. pArtenon A Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) A Grécia foi assolada por uma terrível guerra, envolvendo todas as cidades-Estado gregas. A disputa era entre a Liga do Peloponeso, liderada por Esparta, e a Confederação de Delos, por Atenas. Essa disputa entre as duas pólis foi se tornando tão acir- rada que desembocou em um conflito de grandes propor- ções. No final do conflito, do qual Esparta saiu vencedora, a Grécia se encontrava materialmente arrasada, com grande diminuição de sua população masculina mais jovem e en- fraquecida militarmente. Esparta, assim como Atenas, ado- tou uma política imperialista. Período Helenístico (séc. IV-I a.C.) No século IV a.C., Filipe apoderou-se da Grécia. Conhe- cedor do individualismo das cidades-Estado e de muita astúcia política, respeitou-lhes a autonomia. Assim, foi pro- clamado hegemon (líder), com o direito de chefiar uma liga contra os persas, a Liga de Corinto. Filho de Filipe II, Alexandre Magno assumiu o trono com uma Macedônia organizada e bem armada pelo exército, usou de violência e arrasou as cidades gregas, exceto Ate- nas. Como líder supremo do helenismo, deveria libertar as cidades da Ásia e levar os gregos à vingança contra os persas. Alexandre rumou para a Ásia com 40 mil homens, 12 mil dos quais na infantaria, o forte de seu exército. Recusou o acordo de paz oferecido por Dario III, derrotou-o em pleno centro do Império Persa em 331 a.C. Já impera- dor persa, avançou para a Índia, percorreu a região do rio Indo e só não chegou ao Ganges porque os soldados recu- saram-se ir com ele. Aos 33 anos, morreu na Babilônia em 323 a.C., deixando um dos mais vastos impérios já criados. Cultura e religião Os gregos eram politeísta: cultuavam grandes deuses, que habitavam o Olimpo, e os heróis, homens que praticaram ações extraordinárias e se igualavam aos deuses. Mito- logia é o conjunto dos mitos, as lendas que contam as aventuras de deuses e heróis. estátuA de poseIdon - o deus dos mAres - em huA hIn, tAIlândIA. Atenas abrigou alguns dos maiores pensadores e artistas que a humanidade conheceu. A filosofia grega divide-se em antes e depois de Sócrates. Foram pré-socráticos: Tales de Mileto (fim do século VII-iní- cio do século VI a.C.); Pitágoras (582-497 a.C.); Demócrito (460-370 a.C.); Heráclito (535-475 a.C.); e Parmênides (540-? a.C.). No tempo de Sócrates, predominava a escola dos sofistas, que se serviam da reflexão para atingir fins imediatos, ainda que por falsos argumentos. O maior dos sofistas foi Protágoras. Sócrates (470-399 a.C.): fundou a filosofia humanista. Platão (427-347 a.C.): principal discípulo de Sócrates, fun- dou a Academia de Atenas. Aristóteles (384-322 a.C): considerado por muitos o maior filósofo de todos os tempos, compreendeu todos os conhecimentos de seu tempo: Lógica, Física, Metafísica, Moral, Política, Retórica e Poética. Marcada pela harmonia, a simplicidade, o equilíbrio e uma decoração perfeitamente adaptada ao conjunto, a arte grega era religiosa e manifestada em templos e esculturas representando deuses e passagens mitológicas. 91 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s A arquitetura grega desenvolveu três estilos: o dórico, mais antigo, era simples e despojado; o jônico, leve e flexível; o coríntio, mais recente, era complexo e rebuscado. A Acrópole é um de seus monumentos mais belos. O es- plendor da arte grega ainda pode ser admirado nas ruínas do Partenon e na Acrópole de Atenas. A Matemática de Euclides e os teoremas de Tales e Arqui- medes foram incorporados ao patrimônio cultural da hu- manidade. Hipócrates, o mais ilustre médico da Antiguida- de, impulsionou o conhecimento do corpo humano. Atenas e seu regime democrático serviu de exemplo para todos os povos. origens Acredita-se que Roma tenha sido fundada por latinos em fuga das invasões etruscas. Roma era um pequeno povo- ado na península Itálica influenciado por diversos povos. O poeta Virgílio, em sua obra Eneida, leva a crer na mítica fundação de Roma por Rômulo e Remo, descendentes do guerreiro troiano Enéas. A lobA cApItolInA representA A lobA dAs nArrAtIvAs romAnAs sobre A fundAção de romA. soCiedade e eConomia Em razão de sua terra de melhor riqueza e graças ao caráter aristocrático de sua sociedade, Roma baseou sua economia em atividades agropastoris. Grandes proprietários rurais, os patrícios, formavam a camada social dominante. Os não proprietários, clientes, prestavam serviços e beneficiavam- -se da proteção de famílias patrícias. Estrangeiros, artesãos, pastores, comerciantes e donos de pequenos lotes pouco férteis eram os plebeus e não pertenciam a um clã. Os escravos não possuíam grande peso na sociedade e na economia romanas, pois ainda eram pouco numerosos. Isso mudaria em consequência das guerras de expansão, quando as conquistas externas transformaram a economia romana num sistema de produção escravista. monarquia (séC. viii-vi a.C.) Da fundação de Roma até a implantação da República, exis- tiu um governo monárquico, em que o rei (rex) tinha função de chefe supremo, sumo sacerdote e juiz, poderes esses de origem divina. A realeza apoiava-se no Imperium (comando supremo) e no Auspicium (conhecimento da vontade divi- na). Os chefes das principais famílias patrícias assessoravam o rei e compunham o Conselho de Anciãos e o Senado. Roma teve sete reis, dos quais os quatro primeiros foram latinos, e os três últimos, etruscos, de acordo com a tradição lendária. Durante o período de reinado etrusco, houve uma série de tentativas dos reis de limitarem o poder patrício ao se aliarem a setores populares. Tarquínio, o Antigo (616-578 a.C.), iniciou a construção de grandes obras públicas. Sérvio Túlio (578-534 a.C.) edificou a primeira muralhade Roma e estabeleceu um regime censitário, dividindo a população em cinco categorias sociais de acordo com sua renda. Por fim, o terceiro rei etrusco, Tarquínio, o Soberbo, edificou o Templo de Júpiter e construiu a Cloaca Máxima (sistema de esgoto de Roma). Governou com o apoio dos plebeus e latinos inimigos dos patrícios. Dessa forma, manteve os patrícios praticamente fora do poder político decisório das cidades. Em razão disso, os patrícios conspiraram e o der- rubaram por meio de um golpe de Estado, no ano 509 a.C. CIVILIZAÇÃO ROMANA 92 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s repúbliCa (séC. vi-i a.C.) A queda da monarquia foi um ato reacionário dos patrícios, que afastaram a realeza comprometida com as camadas populares. O monopólio do poder passou ao patriciado, e a plebe ficou à margem. cícero AcusAndo cAtIlInA no senAdo (Afresco de cesAre mAccArI, século xIx) O Senado era, sem dúvida, uma das mais importantes ins- tituições da República, pois praticamente detinha o poder, apesar das demais instituições. Era composto por 300 se- nadores de origem patrícia. Entre outras tarefas, cabia-lhes eleger os magistrados, autorizar ou não a concessão das honras do triunfo aos generais vencedores, conduzir a polí- tica externa, administrar as províncias, dar seu parecer sobre a escolha de um ditador e zelar pela tradição e pela religião, além de supervisionar as finanças públicas. Os mais altos magistrados eram os cônsules, responsáveis pelo comando do exército e pelo controle da administração, além de exercer o Poder Executivo. Participavam das reuni- ões do Senado e propunham leis. Seriamente discriminados, os plebeus recebiam sempre a menor parte dos espólios de guerra; se precisassem contrair empréstimos, não conseguiam pagar os juros; julgados por magistrados patrícios e com base em leis orais, os devedo- res acabavam escravizados por dívida. Há indícios de cinco revoltas levadas a cabo pelos plebeus, entre 494 e 287 a.C. § Primeira revolta (494 a.C.) – a primeira greve de caráter social da História, em razão da qual os patrícios tiveram de conceder a criação dos tribunos da plebe, ma- gistrados que atuavam em defesa dos direitos e interesses da plebe no Senado. Em 471 a.C., os plebeus constituíram a Assembleia da Plebe para ele- ger seus tribunos, o que aumentou seu poder de veto e de ação. § Segunda revolta (450 a.C.) – os patrícios enviaram repre- sentantes a Atenas para estudar as leis com a promes- sa de resolver os problemas da plebe. O resultado foi a criação do primeiro código de direito escrito em Roma, a Lei das Doze Tábuas. A plebe conseguiu que as leis votadas em sua Assembleia tivessem validade, mesmo dependendo da aprovação do cônsul ou do Senado. § Terceira revolta (445 a.C.) – a Lei das Doze Tábuas man- teve a proibição de casamento entre patrícios e plebeus, o que levou os plebeus a se revoltarem pelo fim da proi- bição, conscientes de que os casamentos mistos quebra- riam a tradição patrícia de exercer o poder com exclusivi- dade. A reivindicação foi atendida com a Lei Canuleia, mas apenas para os plebeus que tinham mais posses. § Quarta revolta (367-366 a.C.) – a pressão da plebe re- sultou na Lei Licínia Sextia, promulgada pelo senado romano, obrigando que, a cada ano, um dos dois cônsu- les fosse um plebeu. Mais tarde, em 326 a.C., foi abolida a escravidão por dívidas por meio da Lei Papiria Poetelia. § Quinta revolta (287-286 a.C.) – os plebeus conseguiram impor aos patrícios a validade das leis votadas na As- sembleia da Plebe para todo o Estado: era a decisão da plebe ou plebiscito. A preocupação com as leis levou os romanos a desenvolver minuciosamente o seu direito. Sendo adotado por vários outros povos europeus, o Direito Romano mantém e conserva sua importância até os dias atuais. Conquistas, a expansão romana A dominação da península Itálica constitui a primeira fase das conquistas romanas. Inicialmente, dominaram as tribos latinas próximas de Roma. A conquista da Campânia, em 290 a.C., região ameaçada pelos samnitas, abriu as portas para a conquista das cidades gregas do sul da Itália. Poste- riormente, Roma subjugou o norte (Etrúria), cujos domínios compreendiam a Itália central e parte da Itália setentrional. Os romanos demonstraram um talento notável para con- verter antigos inimigos em aliados e finalmente cidadãos romanos, ao estender seu domínio sobre a península Itálica. As guerras púnicas dIsponível em: <https://pt.wIkIpedIA.org/wIkI/guerrAs_púnIcAs>. Acesso em: 22 dez. 2015. 93 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Roma travou longa guerra contra Cartago, outra grande potência do Mediterrâneo ocidental, assim que consoli- dou sua supremacia na Itália. Fundada em 800 a.C. pelos fenícios, a cidade norte-africana tornara-se um próspero entreposto comercial. Um império que abrangia a África do Norte, as regiões do litoral meridional da Espanha, a Sardenha, a Córsega e a Sicília ocidental. O confronto romano-cartaginês acabou se transformando numa disputa pela hegemonia marítimo-comercial no Me- diterrâneo ocidental e desdobrou-se em três guerras púnicas. Em seguida, os romanos ocuparam a Espanha e a Gália do sul, constituindo a província da Gália. A conquista da região do Mediterrâneo Oriental foi completada por uma rápida sucessão de campanhas militares. No fim do sé- culo I a.C., o Mediterrâneo havia se transformado num “lago romano” (mare nostrum = nosso mar). Foram tam- bém conquistados os reinos do Ponto, Bitínia, Síria, Egito, Macedônia e Grécia. A expansão romana e suas consequências Com a expansão, o vasto comércio que se desenvolvia ocupava o lugar antes pertencente à atividade agrícola. A concorrência com gêneros advindos das províncias e do la- tifúndio patrício, cujo crescimento dependia da mão de obra escrava, levou ao desaparecimento da ampla camada de pequenos proprietários. Efeito direto da expansão, o crescimento da escravidão esteve ligado à miséria da plebe, visto que grande parte dos escravos era prisioneira de guerra. Mesmo abolida a escra- vidão por dívida, denominada “nexo” na Roma Antiga, ao plebeu endividado só restava entregar a terra ao patrício em troca da dívida. Paulatinamente, Roma entrou em um proces- so de concentração fundiária, com as grandes propriedades patrícias transformadas em latifúndios voltados para a pro- dução extensiva de exportação, ideal para o trabalho escravo. Um processo de êxodo rural, devido à miséria da plebe sem terra e sem trabalho no campo, acabou concentrando em Roma uma massa miserável, aumentando a tensão social e política. Com a finalidade de alienar essa multidão, cuja potencialidade revolucionária era evidente, o Estado forne- cia pão, vinho e espetáculos (política do pão e circo). Expansão romana Com a conquista do Mediterrâneo, foram criadas condi- ções para um grande desenvolvimento da manufatura e do comércio. A consequência dessa prosperidade econômica foi a formação de uma nova classe de comerciantes e mi- litares que enriqueceram com as guerras: os homens no- vos ou cavaleiros. Ao mesmo tempo em que sua condi- ção plebeia impunha-lhes uma situação de marginalização política, sua riqueza tornava-os naturalmente adversários da oligarquia patrícia, fato que também representou um elemento a mais a conspirar contra a ordem republicana. No rastro das conquistas romanas e da necessidade de uma força militar mais eficiente, o exército romano passou por um processo de profissionalização, uma força permanente cujos guerreiros recebiam o soldo para combater (origem do ter- mo soldado). Uma força à margem da estrutura republicana, que alimentou as ambições políticas dos generais. Novas lutas sociais assinalaram a crise da República, desencadeadas por essas transformações em Roma. Crise na repúbliCa (133-27 a.C.) Alguns senadores, depois das transformações resultantes da conquista do Mediterrâneo,concluíram que a estrutura do Estado precisava de reformas. Uma das primeiras medi- das, a votação secreta nas assembleias, permitiu a eleição de magistrados bem-intencionados, os irmãos Tibério e Caio Graco. Tibério Graco foi eleito tribuno da plebe e conseguiu a aprovação de uma lei agrária que limitava a extensão dos latifúndios da aristocracia patrícia e autorizava a distribui- ção de terras para os desempregados. Tibério Graco e mais de 300 partidários seus foram assassinados e lançados ao rio Tibre por proprietários rurais que se opuseram-se à apli- cação da lei agrária em 132 a.C. Caio Graco, irmão mais novo de Tibério, eleito tribuno da plebe em 123 a.C, retomou e aplicou a lei de reforma agrá- ria em Cápua e Tarento; permitiu aos cavaleiros o acesso aos tribunais que julgavam as finanças provinciais; prome- teu a cidadania romana aos aliados itálicos e decretou a Lei Frumentária, que determinava a venda de trigo a preços baixos aos plebeus. Reeleito em 122 a.C., mas derrotado no ano seguinte, Caio tentou um golpe de Estado, que re- sultou no massacre de seus seguidores. Foi morto por um escravo, seguindo suas próprias ordens. Mario e Sila, duas ditaduras militares (107-79 a.C.) A crise da República, agravada pelo fracasso das reformas propostas pelos irmãos Graco, mergulhou Roma numa sangrenta guerra civil, abrindo caminho para as ditadu- ras militares dos generais Mario e Sila. De origem plebeia, Mario era o homem mais rico de Roma, um homem novo que, graças à sua riqueza, foi galgando postos dentro do 94 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s exército romano, no qual chegou a general. Mario foi eleito para o cargo de cônsul, já que dispunha de grande prestí- gio entre as camadas populares. Com o apoio do exército, Mario implantou uma ditadura em Roma e, violando as leis, reelegeu-se seis vezes para o consulado. Aumentou o poder dos cavaleiros e reduziu a autoridade do Senado. Em 86 a.C, após a morte de Mario, o general Sila, aristocra- ta apoiado pelos patrícios e pelo Senado, assumiu o poder e proclamou-se ditador perpétuo de Roma. Líder da reação do partido aristocrático, Sila realizou uma violenta repres- são contra os cavaleiros e as camadas populares, restabe- lecendo os privilégios da aristocracia patrícia e restaurando a autoridade do Senado. A crise da República piorou com a ditadura de Sila, que morreu em 79 a.C. O primeiro triunvirato (60-48 a.C.) A República estava ainda ameaçada por comandantes milita- res que se serviam das tropas em seu próprio interesse políti- co. O Senado não conseguiu impor efetivamente a autoridade que lhe fora restituída. Em 60 a.C., Julio César, um político, Pompeu, um general, e Crasso, um abastado banqueiro, compuseram um triunvirato para tomar o poder em Roma. prImeIro trIunvIrAto: (dA esquerdA pArA A dIreItA) pompeu, JulIo césAr e crAsso Pontífice Máximo, questor eleito pela assembleia do povo e cônsul, Júlio César subiu depressa. Pompeu havia voltado do Oriente, e o Senado desaprovara seu trabalho de reor- ganizar as províncias orientais. O ambicioso Crasso fez uma aliança secreta com César e Pompeu a fim de tomar o poder do Senado: nascia o primeiro triunvirato. Em 55 a.C., Pompeu ficou com a Espanha; Crasso, com as províncias no Oriente; e César, com a Gália (França atual). Em 53 a.C., Crasso morreu combatendo os partas na Síria, povo que reconstruiu o Império Persa. Sobreveio uma crise agravada pela ação de bandos armados que espalhavam o terror em Roma. Contra as ambições políticas de César, em 49 a.C., o Senado confiou a Pompeu a defesa da República. Julio César entrou em Roma à frente de seus exércitos, pronunciando a famosa frase Alea jacta est, (A sorte está lançada), configurando um inegável golpe de Estado. Aba- lado com o prestígio popular de César, Pompeu fugiu para a Grécia, onde foi derrotado em 48 a.C. A ditadura de César (48-44 a.C.) O Senado concedia cada vez mais títulos a César. Tais po- deres permitiram numerosas reformas. César acabou com a guerra civil, começou a construção de obras públicas e pôs as finanças em ordem. Tentou unificar o mundo romano, chegou a elevar gaule- ses ao Senado. Nomeava pessoalmente os governadores e mantinha-os sob controle, para evitar que espoliassem as províncias. César instigou a plebe contra o Senado a fim de se tornar rei, título que era sinônimo de traição depois que o Senado abolira a monarquia. Sofrendo forte oposição do Senado, que via nele uma clara ameaça graças a sua ambição de instaurar uma monarquia hereditária, em 44 a.C., Julio Cé- sar foi assassinado por um grupo de aristocratas liderados por Cássio e Bruto. O segundo triunvirato (43-30 a.C.) Marco Antônio sublevou o povo contra os assassinos de César, que não tomaram o poder. Cícero aconselhou o Senado, que entregou o poder ao sobrinho e herdeiro de César, Caio Otávio, que parecia não ter ambições políticas. Os senadores tinham-no como um instrumento em suas mãos. Otávio atacou Antônio em Módena para, em segui- da, aliar-se a ele e a Lépido, banqueiro que havia fornecido dinheiro para a guerra contra os assassinos de César. O Segundo Triunvirato estava formado. Em 40 a.C., os triúnviros dividiram novamente o Império pelo Acordo de Brindisi. A Itália foi considerada neutra. An- tônio ficou com o Oriente; Lépido, com a África; e Otávio, com o Ocidente. Otávio aumenta suas posses na África ao conseguir elimi- nar Lépido do triunvirato, no ano 36 a.C. segundo trIunvIrAto: (dA esquerdA pArA A dIreItA) mArco emílIo lépIdo, mArco AntônIo e octAvIo August Para garantir a fidelidade de Antônio, Otávio tinha arran- jado o casamento dele com sua irmã, Otávia. Porém, An- tônio separou-se de Otávia em 36 a.C. para se casar com Cleópatra. Deixou sua herança para ela, nomeada também regente do filho que tivera com César, a quem Antônio con- siderava igualmente herdeiro, Cesarion. 95 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Revoltado, Otávio partiu para combater Antônio. Em Ácio, perto da Grécia, Antônio foi derrotado e fugiu com Cleópa- tra para o Egito. Antônio e Cleópatra se suicidaram. O Egito era considerado por Otávio sua conquista pessoal. Apoderou-se do tesouro dos faraós, acumulado durante milê- nios, e, com essa fortuna, organizou 70 legiões, o que o tornou indestrutível. Otávio voltou à Roma triunfante, recebido como um deus. Otávio ganhou o controle das duas maiores fontes de poder: o exército e a plebe romana. Surgia o imperator, uma nova forma de governo exercido pelo comandante do exército. Em 27 a.C., Otávio recebeu o título de Augusto (escolhi- do dos deuses), fato que marcou o fim da República e o início do principado, inaugurando o culto ao imperador. o império romano (27 a.C.-476 d.C.) O Alto Império (27 a.C.-235 d.C.) O Império Romano se dividiu em duas fases: o Alto Impé- rio e o Baixo Império. A primeira fase assinalou o apogeu do Império Romano. A segunda marcou o declínio do Im- pério Romano e sua destruição pelas invasões germâni- cas. A cidade de Roma chegou a possuir uma população de 1,2 milhão de habitantes, e o império abrangia uma área de 5 milhões de km2 em seu auge. O governo de Augusto (27-14 a.C.) Otávio Augusto, durante seu governo, assumiu o controle das principais magistraturas, concentrando mais poderes ainda em suas mãos. Foi reconhecido como Princeps Sena- tus, ou seja, o líder do Senado (razão pela qual seu governo também ficou conhecido como principado). Como impera- dor, assumiu o comando supremo do exército. A política do pão e circo foi a forma que Augusto encon- trou de apaziguar a plebe romana, distribuindo alimentos gra- tuitamente e realizando monumentais espetáculos públicos. Otávio Augusto inaugurou o que os romanos chamavam de pax romana, período esse em que as províncias romanas foram pacificadas, estradas foram construídas, portos foram reformados e pântanos foram drenados. Os aquedutosle- vavam água fresca para grandes parcelas da população ro- mana e o sistema de esgoto eficaz melhorou a qualidade de vida. Na política externa, as guerras de conquista foram substituídas pela política de consolidação das fronteiras. Em14 d.C., Otávio morreu, e recebeu a apoteose, isto é, o direito de ter um lugar entre os deuses. Dinastias que governaram Roma durante o Alto Império: a Dinastia Julio-Claudiana (Tibério, Calígula, Cláudio e Nero) estava ligada à aristocracia patrícia romana; a Dinastia Flávia (Vespasiano, Tito e Domiciano) ascendeu ao poder pelo exército e estava associada aos grandes comercian- tes da Itália central; a Dinastia Antonina (Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio, Marco Aurélio e Cômodo) ligava-se às famílias italianas estabelecidas na Espanha e na Gália (o governo dessa dinastia marcou o apogeu do Império Romano); a Dinastia Severa (Sétimo Severo, Caracala, He- liogábalo e Severo Alexandre) assinalou a transição do Alto para o Baixo Império. O cristianismo Sob controle romano desde 64 a.C., a região da Palestina foi o local do surgimento do cristianismo, uma dissidên- cia do judaísmo. O cristianismo se fundamenta nas pregações de Jesus, que se dizia o Messias, isto é, o Filho de Deus. A crença na exis- tência de um só Deus, que enviou à Terra seu filho para redimir os homens, era o princípio fundamental do cristia- nismo. Foram os discípulos de Jesus, os apóstolos, que difundiram a nova religião pelo mundo romano. No século I da Era Cristã, durante a Dinastia Júlio-Claudia- na, começou a perseguição aos cristãos, que, crentes na existência de um único Deus, recusavam-se a reconhecer os deuses oficiais do politeísmo romano e negavam-se a prestar culto ao imperador. Além disso, graças a sua men- sagem redentora, o cristianismo obteve enorme sucesso entre os excluídos da sociedade romana, o que lhe rendeu um caráter subversivo. O Baixo Império (284-476) Em 313, Constantino (313-337) promulgou o Édito de Milão, concedendo liberdade religiosa aos cristãos. Em 330, fundou uma nova capital, Constantinopla, no local da antiga colônia grega de Bizâncio. Em 391, Teodósio (379-395) transformou o Cristianismo em religião oficial do Império Romano pelo Édito de Tessalônica. Em 395, dividiu o império em duas unidades político-administrativas: o Império Romano do Ocidente e o Império Romano do Oriente. Os bárbaros esfacelaram o Império do Ocidente ao lon- go do século V. Os visigodos saquearam Roma em 410, os vândalos, em 455, e, em 476, os hérulos depuseram Rômu- lo Augústulo, o último imperador. 96 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s O Império Romano e a crise O Império Romano começou a declinar a partir do século III. Entre inúmeras razões, destaca-se a crise do escravismo. Desde o final do século II, as guerras de conquista pratica- mente cessaram, fato que diminuiu muito o número de es- cravos à venda. Com isso, o preço deles foi ficando cada vez mais alto. Os proprietários começaram a arrendar partes das suas terras a trabalhadores livres denominados colonos. A partir do momento em que os colonos ganhavam o direi- to de cultivar a terra, eram obrigados a ceder parte de sua colheita para o senhor e a trabalhar, gratuitamente, alguns dias da semana nas plantações do senhorio. Esse novo sis- tema de trabalho foi denominado colonato. A diminuição da produção e o declínio do comércio foram resultantes da crise do escravismo e do advento do colonato. O desequilíbrio entre a arrecadação fiscal do Estado e sua despesa com a manutenção do aparelho administrativo e militar foram a origem da crise financeira. A falta de gê- neros alimentícios e a inflação provocaram o êxodo urbano e o despovoamento das cidades. De 235 a 285, grassaram os motins militares e guerras civis, e muitos imperadores foram assassinados. Ao mesmo tem- po em que desmoronavam os pilares internos do império, nas fronteiras do Reno, do Danúbio e do Eufrates, as contí- nuas pressões externas abriam novas brechas no dispositi- vo de defesa militar provocadas pelas invasões bárbaras. Descendentes dos indo-europeus ou arianos, os povos bárbaros germânicos habitavam os territórios da Europa Centro-Oriental. Enfraquecido por uma crise mais aguda, o Império Romano do Ocidente foi destruído pelas invasões germânicas. Sob o impacto delas, o Império fragmentou-se e seus territórios foram ocupados por diferentes povos ger- mânicos, que neles fundaram os Reinos Bárbaros da Idade Média. a Cultura vinda de roma A cultura grega influenciou a cultura desenvolvida pelos romanos. Na religião politeísta, os deuses romanos tinham por modelo os deuses gregos. A literatura romana teve grandes nomes: Cícero, Virgílio (Eneida), Horácio, Ovídio, Tito Lívio e Plutarco. As grandes obras da arquitetura roma- na foram o Panteon e o Coliseu. Na filosofia, o epicurismo de Lucrécio e o estoicismo de Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio deixaram legado. Gaio, Ulpiano e Paulo foram os maiores jurisconsultos romanos. Os etruscos deixaram muitos legados para os romanos, mas o maior foi o uso do arco e da abóbada nas cons- truções. Esses elementos arquitetônicos permitiram aos ro- manos criar amplos espaços internos. Assim, nos edifícios destinados à apresentação de espetáculos – os anfitea- tros – os construtores romanos, usando filas sobrepostas de arcos, obtiveram apoio para construir o local destinado ao público. Isso pode ser observado no mais belo dos anfi- teatros romanos: o Coliseu. colIseu IMPÉRIO BIZANTINO império bizantino A morte do imperador Teodósio, em 395 d.C., determinou o fim da unidade do Império Romano, que foi dividido en- tre os seus filhos em duas partes: o Império Romano do Ocidente e o Império Romano do Oriente, com sede em Constantinopla, antiga Bizâncio. Dessa forma, o Império Romano do Oriente se consolidou como Império Bizantino. Economia e sociedade A região oriental, dotada de estruturas econômica, políti- ca e administrativas mais sólidas, teve mais capacidade de absorver a crise do Império Romano. Sua agricultura so- freu um pequeno declínio, mas a manufatura e o comércio mantiveram-se articulados. As levas bárbaras do Oriente chegaram a ocupar algumas províncias, mas Constantino- pla conseguiu manter sua autoridade. 97 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s O comércio proporcionou o enriquecimento de Bizâncio, que se tornou a maior metrópole do Oriente. Centro de importantes rotas comerciais, a cidade passou a controlar o intercâmbio de produtos entre o mar Mediterrâneo e o mar Negro. No setor agrícola, predominavam os latifúndios. A Igreja concentrava em suas mãos uma ampla porcentagem da riqueza agrária, tornando os mosteiros as entidades mais ricas do império. A sociedade era urbanizada. Banqueiros, mercadores, ma- nufatureiros e grandes proprietários de terras constituíam uma elite extremamente enriquecida. Nas camadas inter- mediárias estavam os trabalhadores urbanos do comércio e das manufaturas. No campo, predominavam os servos, proibidos de saírem das terras onde nasceram. Os escravos realizavam trabalhos domésticos. O Estado beneficiou-se do enriquecimento proporciona- do pelo comércio, possibilitando seu fortalecimento como uma monarquia centralizada, despótica, teocrática e here- ditária. O imperador tinha grandes poderes políticos, além de ser o chefe do Exército e da Igreja, com direito de intervir nos assuntos eclesiásticos (cesaropapismo). O auge do império: Justiniano (527-565 d.C.) O principal imperador bizantino foi Justiniano (527-565). Durante seu governo, o poder imperial atingiu seu auge. Os gastos militares forçaram a elevação dos impostos a níveis insuportáveis. As pressões da arrecadação desencadearam, em 532, um violento levante conhecido por Revolta de Nika, que foi duramente reprimida por Justiniano. A publicação do Corpus Juris Civilis ou Código de Justiniano, que serviu de referência paracódigos civis de diversas nações, foi a grande realização de Justiniano no campo jurídico. O código resultou de uma compilação do Direito Romano. A Igreja bizantina No Oriente, o cristianismo foi integrado à cultura local, incorporando aspectos da realidade bizantina, inteiramen- te diversos da realidade ocidental. Assim, o cristianismo oriental passou a ter características próprias, diferencian- do-se cada vez mais do ocidental, com grande ênfase na valorização da espiritualidade. Os cristãos orientais denominavam de ícones quaisquer ima- gens tridimensionais de Cristo ou santos incorporadas às ce- rimônias religiosas. Dentre os principais produtores de ícones encontravam-se os monges, que auferiam grandes lucros nesse ramo comercial. Isentos de tributação, proprietários de grandes propriedades, exercendo grande influência na socie- dade, representavam uma ameaça ao poder central. A corriqueira utilização de ícones nos templos e mesmo nas casas era vista por muitos como uma prática idólatra, ou seja, de adoração de ídolos. Com o intuito de enfraquecer o poder dos monges, o im- perador Leão III, em 725, proibiu o uso de imagens tridi- mensionais nos templos, determinando sua destruição ou iconoclastia. O papa manifestou-se declarando herética a proibição de imagens, aprofundando os desentendimen- tos entre o imperador e a Igreja. O Cisma do Oriente (1054) O patriarca de Constantinopla era a figura eclesiástica de maior poder no Oriente. Ele recusava a supremacia do papa sobre sua Igreja, considerando-se o supremo man- datário do povo cristão. As inúmeras divergências levaram à separação entre as igrejas orientais e ocidentais em 1054. O chamado Cisma do Oriente levou à formação de duas igrejas distintas: a Igreja Católica Apostólica Romana, dirigida pelo Papa, e a Igreja Cristã Ortodoxa, liderada pelo Patriarca de Constantinopla. A entrAdA de mAomé II em constAntInoplA, de JeAn-Joseph-benJAmIn constAnt Decadência do Império Bizantino Além do fortalecimento do poder dos grandes proprietários rurais, do enfraquecimento do poder do imperador e das disputas religiosas, contribuíram para o declínio do Império Bizantino os constantes ataques que Bizâncio passou a so- frer, especialmente das cidades italianas, a partir do século XIII, e das investidas de bárbaros e árabes. 98 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Depois de um longo cerco, em 1453, os turcos otomanos, comandados pelo sultão Maomé II, conquistaram a cida- de de Constantinopla, ou Bizâncio, destruindo o Império Bizantino. Constantinopla tornou-se a capital de outro Estado poderoso, o Império Otomano, passando a se cha- mar Istambul e permanecendo, até os dias atuais, como a maior e mais importante cidade da República da Turquia. A tomada de Constantinopla marcou a transição da Idade Média para a Idade Moderna. A Arábia é uma península árida localizada no Oriente Médio. Os diversos povos da Arábia estavam divididos em várias tri- bos; portanto, não formavam um Estado com unidade políti- ca. Mas tinham elementos culturais comuns, como o idioma árabe e certas crenças religiosas. A principal cidade árabe era Meca, onde havia um santuário religioso, Caaba (casa de Deus), que reunia as principais divindades de toda a Arábia (mais de 300 ídolos pertencentes às tribos do deserto). Ali estava a Pedra Negra, provavelmente um pedaço de me- teorito protegido por uma tenda de seda preta, na forma de um cubo, que era bastante venerada, pois se acreditava ter sido trazida do céu pelo anjo Gabriel. O santuário ajudou a transformar Meca no centro religioso e comercial dos árabes, já que a cidade era o ponto de encon- tro de pessoas e de mercadorias de diversas regiões. O responsável pela unidade política e religiosa da península Arábica foi Maomé, criador e divulgador da religião muçul- mana. Nas suas viagens, Maomé entrou em contato com povos e religiões diferentes. Esteve várias vezes no Egito, Palestina, Pérsia, regiões onde fervilhava o espírito religioso. Conheceu principalmente o cristianismo e o judaísmo, so- frendo profunda influência dessas crenças religiosas. Por volta de 610, já com quase 40 anos, Maomé teve sua primeira visão do anjo Gabriel, que lhe teria ordenado “reci- tar o nome do Senhor” e que “havia um só deus, Alá, e um só profeta, Maomé”. No ano de 622, Maomé teria realizado um milagre para provar que era profeta de Alá: “quebrou” a Lua. Provavelmente tratava-se de um eclipse e talvez Mao- mé tivesse informações sobre o acontecimento, porque tinha muito contato com o Oriente, onde a astronomia era alta- mente desenvolvida. Perseguido pelos coraixitas, que mandaram assassiná-lo, Maomé fugiu para Iatreb (Yathrib), cidade rival de Meca, onde já possuía seguidores. Esse evento ficou conhecido como Hégira, e é utilizado como marco inicial do calendá- rio muçulmano. Em latreb, Maomé conquistou rapidamente prestígio e poder, controlando a cidade que passou a ser chamada de Medina al Nabi – a Cidade do Profeta. Depois da conquista de Iatreb, o alvo principal passou a ser a cidade de Meca. O crescente número de seguidores possibi- litou a formação de um exército numeroso, que cercou a ci- dade, preservando apenas a Caaba. Em seguida, Maomé fez um acordo com os coraixitas, estabelecendo a peregrinação a Meca como uma das obrigações da religião muçulmana. Em 632, Maomé morreu, deixando difundida sua doutrina religiosa. Ao mesmo tempo, a península Arábica, que era um aglomerado de tribos e clãs dispersos, teve sua unificação política realizada por meio da unificação religiosa. Expansão islâmica A partir do século VII, os árabes muçulmanos expandiram- -se, dominando vasta extensão territorial que se estendia da Ásia à Europa, passando pelo Norte da África. Essa expansão teve origem na unidade política e religiosa implantada por Maomé, no início do século VII, quando foi criado um estado teocrático islâmico. Fases da expansão Depois da morte de Maomé, os membros mais influentes dos conselhos municipais das cidades de Meca e Medina decidiram apontar um califa, isto é, um sucessor de Mao- mé, que deveria concentrar em suas mãos o poder político, militar e religioso. O primeiro califa foi Abu Bekr, sogro de Maomé, e os outros três que o sucederam foram também apontados entre seus familiares. As conquistas tiveram início com esses califas de Meca. Su- cessivamente, a partir de 634, a Síria, a Palestina, a Ásia Menor, a Mesopotâmia, a Pérsia, o Egito e a Tunísia caíram sob o domínio muçulmano. Alguns anos depois dessas conquistas, o novo império foi abalado por lutas internas, e o controle do califado passou para as mãos de outra família, os Omíadas, que transferiram a capital para Damasco, na Síria. Sob a liderança dos Omía- das (660-750), os árabes retomaram o processo de expan- são conquistando territórios na Ásia central (Índia), Norte da África e península Ibérica. Os muçulmanos só foram conti- dos na Europa pelos francos, liderados por Carlos Martel, da dinastia carolíngia, em 732, na Batalha de Poitiers. O domí- nio árabe sobre a costa do Mediterrâneo contribuiu para a crise do comércio e a feudalização europeia. CIVILIZAÇÃO MUÇULMANA 99 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Em 750, a dinastia Omíada chegou ao fim, sendo derrota- da por uma conspiração interna que inaugurou a dinastia Abássida (750-1258). A capital passou de Damasco para Bagdá, mudança essa que provocou a primeira divisão do mundo islâmico. A divisão do Império Islâmico foi uma con- sequência de sua enorme expansão, obtida em um período muito curto de tempo. As seitas religiosas sunita e xiita contribuíram para esse fenômeno. A religião muçulmana A doutrina islâmica, muçulmana ou maometana é marcada pelo sincretismo religioso. Possui elementos do cristia- nismo e do judaísmo, de onde provêm suas bases funda- mentais. O principal fundamento da religião é o monote- ísmo, a crençano Deus único Alá e em seu profeta Maomé. cAAbA, grAnde mesquIstA em mecA Os fundamentos da religião estão no livro sagrado – Al- corão ou Corão –, que determina a total submissão do homem à vontade de Alá (Islão). Um aspecto importante da religião islâmica são as inter- pretações e os significados que foram sendo agregados à jihad, que passou cada vez mais a ser interpretada como Guerra Santa e vinculada ao expansionismo. Foi graças à concepção do jihadismo como “esforço” de difusão da fé no islamismo que a expansão territorial foi estimulada e as conquistas de vários territórios pelos árabes muçulmanos foram consumadas. Outra característica importante do islamismo é o sectaris- mo, com a formação de seitas rivais desde a morte de Ma- omé, quando ocorreram sérias divergências em relação à liderança religiosa e política dos muçulmanos. As principais seitas são xiitas e sunitas. Os primeiros aceitam somente o Corão como fonte de verdade, bem como um chefe políti- co religioso descendente de Maomé. Os sunitas admitem, além do Alcorão, os ensinamentos contidos no Suna, livro de relatos de seguidores próximos de Maomé, bem como admitem que o chefe possa ser escolhido entre os fiéis que reúnam as virtudes necessárias. A cultura árabe Os árabes foram os responsáveis pela difusão, no Ocidente, dos conhecimentos adquiridos pelos impérios bizantino e persa. Na Astronomia, os muçulmanos traduziram a obra de Ptolo- meu, que passou a ser conhecida pelo nome de Almagesto. Na Matemática, desenvolveram a álgebra e a trigonometria, além dos conhecimentos deixados pelos gregos. Propaga- ram o sistema numérico arábico, cuja invenção provém dos hindus. Na Química, descobriram substâncias como o álcool, o ácido sulfúrico e o salitre. Foram os primeiros a descrever os processos químicos de destilação, filtração e sublimação. Na Medicina, fizeram importantes descobertas, como o con- tágio proveniente da água e do solo e o diagnóstico de do- enças como a varíola e o sarampo. O mais famoso médico muçulmano foi Avicena, cuja obra Canon foi o manual mé- dico na Europa até o século XVII. Na Literatura, destacam-se os poemas épicos e de amor e contos de aventura, como a coletânea As mil e uma noites e Rubaiat. Nome célebre é o de Averróis, filósofo de Córdova, que traduziu as obras de Aristóteles para a língua árabe e introduziu-as no Ocidente. Merece destaque a arquitetura de palácios e mesquitas. Graças à dominação da península Ibérica, o árabe influen- ciou a formação da língua portuguesa. REINO FRANCO reino franCo Rômulo Augusto, o último imperador romano, foi deposto, em 476, por Odoacro, líder hérulo que decretou o fim do Império Romano do Ocidente, marco utilizado pelos his- toriadores para determinar o fim da Idade Antiga e o início da Idade Média. Os reinos bárbaros O encontro entre romanos e bárbaros reuniu características culturais de ambos os povos e deu início à estrutura do sistema feudal. À medida que os bárbaros entravam no Império Romano do Ocidente, formavam reinos que, de maneira geral, não tinham longa duração. Por esse motivo, os povos germâni- cos não resistiram às pressões externas e foram dominados ou destruídos. Entretanto, os francos conseguiram organi- zar uma estrutura política na Gália. A centralização do po- der foi fundamental para manter a conquista do território, atualmente a França. A formação desse reino teve início no período da Alta Idade Média europeia, a expansão ter- ritorial ocorreu entre as dinastias Merovíngia e Carolíngia. 100 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Dinastia Merovíngia (481-751) Chefiados por Meroveu, os francos venceram os hunos no final do século V, na Batalha dos Campos Catalúnicos. Mas a dinastia Merovíngia foi consolidada, efetivamente, por seu neto, Clóvis, a partir da unificação das tribos francas. Clo- vis reinou durante os anos de 482 a 511. Nesse período, aliou-se à Igreja Católica, oferecendo-lhe proteção militar; em troca, obteve o apoio do papado, o que contribuiu para o fortalecimento da sua autoridade real. Com a morte de Clóvis, em 511, o Reino Franco foi dividido em quatro partes, entre seus filhos, de acordo com o costume germânico de divisão do poder. Mais tarde, uma nova divisão ocorreu entre os netos de Clóvis. Nesse período, um novo sistema econômico se estruturou – o feudalismo –, com a ruralização da economia e o forta- lecimento das relações pessoais entre o rei a seus vassalos. A fidelidade ao rei, suserano de um feudo, era estabelecida me- diante o juramento da vassalagem,composta pelos senhores feudais e pelos cavaleiros, que assumiam o compromisso de servir ao soberano. Em troca, o rei oferecia proteção, terras e outros bens, mantendo o sistema de servidão e enfraquecen- do o poder dos monarcas merovíngios. O poder nobiliárquico também se baseava no contato direto dos majordomus (mordomos ou prefeitos do palácio) com os reis. Oriundos de famílias nobres, os majordomus passaram a exercer o poder no reino, a partir do comando do exército, da administração e divisão das terras e, por fim, da coleta de impostos. Aos reis eram atribuídas funções cerimoniais. Pepino de Heristal, majordomus do Reino da Austrásia, conseguiu submeter os outros majordomus, promovendo a centralização do Reino Franco. Mas foi somente com seu sucessor, Carlos Martel, que os majordomus passaram a ser considerados reis. Carlos Martel conquistou prestígio e poder ao liderar os francos na vitória contra os muçulmanos na Batalha de Poitiers, na França, no ano de 732, contendo o avanço islâ- mico sobre a Europa ocidental. cArlos mArtel nA bAtAlhA de poItIers. chArles steubem (1788-1856) Ao ser considerado pela Santa Sé como o “salvador do cristianismo ocidental”, Carlos Martel fortaleceu sua au- toridade pessoal, fato aproveitado por seu filho Pepino, o Breve, que, com o apoio do papa Zacarias, destronou o último rei merovíngio Childerico III, no ano de 751, e proclamou-se rei dos francos, iniciando a Dinastia Car- olíngia, que perdurou até 987. Dinastia Carolíngia (751-987) Pepino iniciou a administração de seu reinado lutando con- tra os lombardos na Itália. Os territórios conquistados, no centro da península Itálica, foram cedidos à Igreja, que pela primeira foi dona de suas terras, concedendo maior poder ao Papa e fortalecendo ainda mais a aliança entre a Igreja e o reino fanco. Os territórios da Igreja ficaram conhecidos como Patrimônio de São Pedro. Pepino foi sucedido por seu filho Carlos Magno, em 768, que governou até 814, tornando-se o mais importante rei franco, concedendo seu nome à dinastia Carolíngia. Carlos Magno ampliou as fronteiras do reino franco, anexando a Itália lombarda, a Saxônia, a Frísia e a Catalunha, tornan- do-se o único rei da Europa cristã. A expansão foi favorecida pelo apoio da Igreja e da nobre- za guerreira. O reino de Carlos Magno tornou-se o maior Império Ocidenta, durante o período medieval. No Natal do ano 800, Carlos Magno foi coroado pelo Papa Leão III im- perador romano do Ocidente. O imperio de Carlos Magno também foi marcado pelo estímu- lo imperial ao desenvolvimento cultural. Ocorreu um grande incentivo à cultura e às artes, quando houve um florescimento cultural e intelectual, o Renascimento Carolíngio. Em 806, Carlos Magno fez seu testamento dividindo o império entre seus filhos, conforme o costume sucessório germânico, mas acabou sendo sucedido por seu filho mais novo, Luís I, o Piedoso, que governou de 814 a 841, mantendo o império e a estrutura político-administrativa herdados de seu pai. A decadência do Império Carolíngio teve início após a mor- te de Luís I, em 841, quando se iniciou um conflito entre seus filhos pelo trono. Lotário, Carlos e Luís travaram várias batalhas, arruinando as finanças e enfraquecendo militar- mente o império. Em 843, a disputa foi solucionada com a assinatura do Tra- tado de Verdun, que estabeleceu a divisão do império en- tre os netosde Carlos Magno: Lotário recebeu a Lotaríngia, que correspondia aos Países Baixos, Suíça e Norte da Itália; a Luis, o Germânico, coube a parte oriental do Império (Ger- mânia); e a Carlos, O Calvo, coube o território da França. O Tratado de Verdun marcou, segundo as divisões dos períodos da História, o final da Alta Idade Média. A quebra da unidade política e o enfraquecimento militar favoreceram as invasões externas – magiares, árabes e vi- kings –, levando o império franco ao declínio. 101 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s origens do feudalismo Na Europa, a Idade Média caracterizou-se pelo surgi- mento de um sistema econômico, político e social de- nominado feudalismo. Esse sistema foi fruto de uma lenta integração entre algumas características de duas estruturas sociais: a romana e a germânica. Esse pro- cesso de integração, que resultou na formação do feu- dalismo, ocorreu no período histórico compreendido entre os séculos V e IX. Próximo ao fim do Império Romano do Ocidente, os gran- des senhores romanos começaram a abandonar as cida- des, fugindo da crise econômica e das invasões germâni- cas. Os senhores rumaram para latifúndios no campo, onde passaram a desenvolver uma economia agrária voltada para a subsistência. A nova onda de invasões dos séculos VIII ao X Fonte: 28navegadores.blogspot.com.br/2013_04_01_achive.html fonte: <28nAvegAdores.blogspot.com.br/2013_04_01_AchIve.html>. Um grande contingente de romanos de menos posses pas- sou a buscar proteção e trabalho nas terras desses grandes senhores. Para utilizar as terras, eram obrigados a ceder ao proprietário parte do que produziam. Dessa forma, nesses centros rurais conhecidos por vilas romanas, começaram a ser criados os feudos medievais. Com algumas alterações fu- turas, esse sistema de trabalho resultou nas relações servis de produção, um dos traços fundamentais do feudalismo. Com a contínua ruralização do Império Romano, o poder central foi perdendo controle sobre os grandes senhores agrários. Gradativamente, as vilas romanas tornaram-se cada vez mais autônomas, à medida que o poder político descentralizava-se, permitindo ao proprietário de terras ad- ministrar de forma independente sua vila. O contato dos romanos com os povos de origem germâni- ca promoveu a troca de hábitos e costumes entre eles, prin- cipalmente num momento de ruralização e de organização de uma economia baseada nas atividades agropastoris. As várias tribos germânicas viviam de maneira autônoma, es- tabelecendo relações apenas quando se defrontavam com um inimigo comum, unindo-se, nessas ocasiões, sob o co- mando de um só chefe. As relações entre o suserano e o vassalo, fundamentadas na honra, lealdade e liberdade, tiveram suas origens no comitatus germânico. O comitato era um grupo forma- do pelos guerreiros e seu chefe com obrigações mútuas de serviço e lealdade. Os guerreiros juravam defender seu chefe, que se comprometia a equipá-los com cavalos e armas. Mais tarde, essas relações de honra e lealdade de- ram origem às relações de suserania e vassalagem. A formação do Direito no feudalismo também teve influên- cia germânica. Baseando-se nos costumes orais, e não nas leis escritas, o direito era considerado uma propriedade do indivíduo, um direito inerente a ele em qualquer local em que estivesse. Essa forma do Direito, produto dos costumes e da sua prática reiterada e constante, sem ser resultado de um processo formal de criação das leis escritas, é denomi- nada direito consuetudinário. As invasões dos séculos VIII e IX aceleraram a lenta integra- ção entre aspectos da sociedade romana e da sociedade ger- mânica. Em 711, os muçulmanos, vindos do Norte da África, conquistaram a península Ibérica, a Sicília, a Córsega e a Sardenha, fechando o mar Mediterrâneo à navegação e ao comércio dos europeus. Ao norte, no século IX, os norman- dos também se lançaram à conquista da Europa. Penetraram no continente europeu pelos rios, saqueando suas cidades. A leste, os magiares (húngaros), cavaleiros nômades originá- rios das estepes euroasiáticas, invadiram a Europa oriental. O comércio, com o desaparecimento quase total da moe- da, regrediu ao patamar da troca direta. Com a agrarização da economia, as cidades foram despovoadas, completando o processo de ruralização da sociedade. O poder político descentralizou-se em uma multiplicidade de poderes loca- lizados e particularistas. O feudalismo se estabeleceu em sua plenitude. CaraCterístiCas gerais A sociedade feudal era estamental, ou seja, os indivíduos nasciam num determinado estamento (grupo social) e difi- cilmente poderiam ascender a outro; tendiam a permanecer sob a própria condição de nascimento. Segundo a divisão SISTEMA FEUDAL 102 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s clássica, a sociedade medieval era formada pelos seguintes estamentos: clero, nobreza e servos. Os senhores feudais eram os proprietários ou os possui- dores do feudo. Originários da nobreza e do clero, forma- vam uma aristocracia dominante. A nobreza se subdividia em duques, condes, barões e marqueses. Os senhores feudais eclesiásticos, vinculados à Igreja Romana, também pertenciam à alta hierarquia do clero. Em geral, eram bispos, arcebispos e abades. O estamento dos dependentes, que compreendia a maioria da população medieval, compunha-se de servos e vilões. Os servos não tinham a propriedade da terra, embora, na maioria dos casos, tivessem posse parcial dela, o que justifi- cava o fato de estarem adstritos a ela. É importante obser- var que, embora fossem trabalhadores semilivres – donos de seus instrumentos de trabalhos, sementes, etc. –, apenas uma pequena parcela do que produziam era destinada ao próprio sustento. Em número reduzido, havia outro tipo de trabalhador me- dieval: o vilão. Os vilões não estavam presos à terra e des- cendiam de antigos pequenos proprietários romanos. Não podendo defender suas propriedades, entregavam suas terras em troca de proteção de um grande senhor feudal. Economia feudal As terras eram divididas em domínio senhorial, cuja pro- dução destinava-se ao senhor feudal, manso servil, cujo produto do trabalho pertencia aos servos, e terras comu- nais, isto é, pastos e florestas utilizadas tanto pelos senhores como pelos camponeses. O feudo, cujas terras eram des- contínuas, constituía-se como a unidade geral de produção. A terra arável era dividida em três partes: o terreno de plantio da primavera, o de plantio do outono e outro que ficava em pousio (descanso). Esse sistema surgiu na Europa, no século VIII, e ficou conhecido como sistema dos três campos. Nessa sociedade rural, de economia essencialmente agrária, a propriedade e a posse da terra determinavam a posição do indivíduo na hierarquia social. A terra era a ex- pressão da riqueza, da influência, da autoridade e do poder. Além da obediência e fidelidade por juramento que os servos deviam ao seu senhor, as obrigações nas formas de trabalho e produtos eram as seguintes: § corveia: obrigação de trabalhar nas terras do senhor feudal sem direito ao que era produzido; § talha: obrigação de entregar parte da produção no manso servil ao seu senhor; § banalidades: pagamento de impostos com produtos ou trabalho pelo uso de instrumentos do senhor: ferra- mentas, moinhos, armazéns; § capitação: pagamento de imposto per capita dos fa- miliares dos servos; e § mão-morta: pagamento de imposto pelos filhos do servo morto para que continuassem ocupando as terras fornecidas a seu pai pelo senhor. O feudo produzia tudo o que necessitava e consumia tudo que produzia. Era uma economia autossuficiente, organizada para suprir as necessidades do próprio feudo. O comércio não desapareceu da Europa, mas era retraído e sem relevância econômica. A troca de mercadorias realizava-se semanalmen- te dentro do próprio feudo, em um mercado junto de uma Igreja, de um castelo ou na própriaaldeia. As trocas ocorriam de bens por bens. O uso de moedas não era frequente. O senhorio medieval Manso comum Os produtos retirados dessas terras eram de uso tanto dos servos quanto dos senhores. As terras comunais eram constituídas de pastos para criar animais e de florestas e baldios, onde os camponeses colhiam frutos e raízes, extraíam a madeira e o mel. A caça nas florestas era exclusiva dos senhores. No senhorio, em geral, também havia coleiros para armazenar a colheita; um moinho para triturar os grãos; e fornos para assar os pães. Domínio Senhorial Os produtos dessas terras perteciam exclusivamente ao senhor. Nelas trabalhavam servos e outros camponeses. Ali se produzia tudo o que o senhor necessitava para manter sua família e outros dependentes. Manso servil Terras destinadas aos servos. Nelas os servos produziam o que era necessário para a sua sobrevivência, devendo em troca cumprir uma série de obrigações para com o senhor. Ilustração atual de como poderia ter sido um senhorio medieval. Fonte: historiademestre.blogspot.com.br/2014/10/a-idade-media-e-o-feudalismo.htmlfonte: <hIstorIAdemestre.blogspot.com.br/2014/10/A-IdAde-medIA-e-o-feudAlIsmo.html>. 103 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Política feudal Notadamente durante os séculos de IX ao XII, havia um rei, cujo poder era meramente formal. No feudo, cada senhor feudal era o soberano supremo e detinha o monopólio da força como chefe do exército. Esse monopólio, porém, não ultrapassava seu pequeno exérci- to mantido dentro de seus domínios feudais. Quando em estado de guerra, havia uma centralização político-militar desses exércitos sob as ordens e comando do rei. Os laços de suserania e vassalagem estabeleciam os vínculos e a hierarquia entre a nobreza feudal. Um senhor feudal, proprietário de grandes porções de terra, doava uma parcela dela a outro nobre. O doador passava a ser o suserano, e o recebedor, o vassalo. Essas relações eram estabelecidas por contrato de direitos e deveres. Entre ou- tras obrigações, o vassalo obrigava-se a pôr seu exército à disposição do suserano, a dar-lhe hospedagem quando necessário, a contribuir para o dote e o armamento de seus filhos. Ao suserano, por seu vez, cabia proteger militarmen- te o vassalo, garantir a posse do feudo doado, tutelar os herdeiros e a viúva do vassalo depois de sua morte. Para oficializar a vassalagem, havia uma série de cerimônias conhecida como homenagem. O vassalo ajoelhava-se diante do senhor, com a cabeça descoberta e sem espada, punha as mãos entre as mãos do suserano e pronunciava as palavras sacramentais do juramento. Em seguida, o se- nhor permitia que ele se levantasse, beijava-o e realizava a investidura com a entrega de um objeto simbólico – um punhado de terra, um ramo, uma lança ou uma chave – que representava a terra enfeudada. Os laços de suserania e vassalagem vinculavam toda a nobreza feudal. Nos últimos anos do século XI, no início das Cruzadas, o feudalismo en- trou em gradativa decadência. O Renascimento comercial fez com que as estruturas feudais fossem progressivamente modificadas: as cidades ressurgiram, a figura do rei voltou a ganhar progressiva centralização e a cultura teocêntrica foi gradualmente substituída pela antropocêntrica – o homem como centro do Universo. Cultura feudal A cultura feudal era fundamentalmente teocêntrica, ou seja, caracterizou-se pela visão do homem voltado para Deus e para a vida após a morte. A moral religiosa condenava o comércio, o lucro e a usura (empréstimo a juros). As artes, as letras, as ciências e a filo- sofia eram determinadas pela visão religiosa imposta pela Igreja, sempre com predominância de temas e inspiração religiosos. IGREJA CATÓLICA MEDIEVAL A Igreja católica foi a grande catalisadora dos aconteci- mentos e da vida medieval; nesse período, sua trajetória foi marcada pelo crescimento e desenvolvimento em virtude do grande poder conquistado. O crescente poder da Igreja católica na Europa ocidental durante a Idade Média pode ser explicado pelo acúmulo dos poderes espiritual e temporal. O poder espiritual cor- responde ao controle sobre a religião e o monopólio da interpretação das Escrituras Sagradas, permitindo o con- trole ideológico e a interpretação da realidade vigente. O poder temporal era exercido politicamente como resulta- do do controle da Igreja sobre um número crescente de populações que a alimentavam mediante pagamento dos dízimos, doações, além de outras ações realizadas por fiéis crentes da salvação em troca de seus recursos materiais. A Igreja concentrava uma grande quantidade de terras, re- sultado da acumulação de um montante significativo de riquezas materiais. A Igreja era responsável pela educação, mantendo uma série de escolas nos mosteiros, conventos e, mais tarde, nas paróquias. No século XIII, começou a organizar as universidades. Com isso, o poder da Igreja sobre os fiéis era incontestável. Os pecadores deviam cumprir penitên- cias, que variavam de orações e jejuns a peregrinações e participação nas Cruzadas. Um importante instrumento de manutenção do domínio da Igreja Católica Medieval foi a criação do Tribunal da Santa Inquisição, em 1231, pelo papa Gregório IX. A principal função do Tribunal era julgar e punir as heresias. As penas variavam de simples penitências ao confisco de bens, além da excomunhão, torturas e mor- te na fogueira. A Igreja contava com uma rígida organização hierárquica. Havia o alto clero e o baixo clero; este era composto de elementos vindos das camadas mais pobres da sociedade; aquele, ligado à aristocracia, detinha os cargos de direção: dele faziam parte o Papa, os bispos, os abades, etc. Os mosteiros eram os responsáveis pela preservação da cultura, além de serem importantes centros econômicos. O clero regular era constituído por todos os clérigos consa- grados da Igreja católica, que seguiam as regras de uma determinada ordem religiosa, dona de sua própria hierar- quia e de títulos específicos. 104 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s U.T.I. - Sala 1. O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) definiu a cidada- nia em Atenas da seguinte forma: A cidadania não resulta do fato de alguém ter o domi- cílio em certo lugar, pois os estrangeiros residentes e os escravos também são domiciliados nesse lugar e não são cidadãos. Nem são cidadãos todos aqueles que par- ticipam de um mesmo sistema judiciário. Um cidadão integral pode ser definido pelo direito de administrar justiça e exercer funções públicas. AdAptAdo de ArIstóteles, políticA. brAsílIA: edItorA unb, 1985, p. 77-78. Relacionando aquilo que você aprendeu sobre o tema com o texto acima, quais as duas principais condições para que um ateniense fosse considerado cidadão na Grécia clássica? 2. Num antigo documento egípcio, um pai dá o seguinte conselho ao filho: Decide-te pela escrita, e estarás protegido do trabalho árduo de qualquer tipo; poderás ser um magistrado de elevada reputação. O escriba está livre dos trabalhos manuais [...] é ele quem dá ordens [...]. Não tens na mão a palheta do escriba? É ela que estabelece a diferença entre o que és e o homem que segura o remo. Apud luIz koshIbA. históriA – origEns, EstruturA E procEssos. Lendo o texto e lembrando o que você aprendeu sobre o tema, argumente sobre a seguinte afirmação: Nas Civilizações do Antigo Oriente, a Escrita é um dos fundamentos da própria ideia de “Civilização”. 3. Alguns povos da Antiguidade foram mercadores e praticavam intensamente o comércio marítimo. a) Qual a relação entre a localização geográfica da Fenícia e as características econômicas de seu povo? b) Cite o nome de suas três principais cidades. c) Cite e comente um legado importante que os fení- cios deixaram na História. 4. Vivemos numa forma de governo que não se baseia nas instituições de nossos vizinhos; ao contrário, servi- mos de modelo a alguns, ao invés de imitaroutros. [...] Nela, enquanto no tocante às leis todos são iguais para a solução de suas divergências privadas, quando se tra- ta de escolher (se é preciso distinguir em algum setor), não é o fato de pertencer a uma classe, mas o mérito, que dá acesso aos postos mais honrosos; inversamente, a pobreza não é razão para que alguém, sendo capaz de prestar serviços à cidade, seja impedido de fazê-lo pela obscuridade de sua condição. Conduzimo-nos liberal- mente em nossa vida pública, e não observamos com uma curiosidade suspicaz [desconfiada] a vida privada de nossos concidadãos, pois não nos ressentimos com nosso vizinho se ele age como lhe apraz, nem o olhamos com ares de reprovação que, embora inócuos, lhe causariam desgosto. Ao mesmo tempo que evitamos ofender os ou- tros em nosso convívio privado, em nossa vida pública nos afastamos da ilegalidade principalmente por causa de um temor reverente, pois somos submissos às autori- dades e às leis, especialmente àquelas promulgadas para socorrer os oprimidos e às que, embora não escritas, tra- zem aos agressores uma desonra visível a todos. orAção fúnebre de pérIcles, 430 A.c. In: tucídIdes. históriA dA guErrA do pEloponEso. brAsílIA: edItorA unb, 2001, p. 109. AdAptAdo. a) Quais as principais características do regime polí- tico de Atenas? b) Qual a cidade que foi a principal adversária de Ate- nas na Guerra do Peloponeso? c) Cite e comente as principais diferenças entre elas. 5. (FUVEST 2021) “Assim se realizam, no correr do sé- culo IV, a transformação do cristianismo de religião perseguida em religião do estado e a transformação de um deus rejeitado em um Deus oficial. Os homens e as mulheres que vivem na Europa ocidental passam, em poucos decênios, do culto de uma multiplicidade de deuses a um Deus único”. lE goff, J. o dEus dA idAdE MédiA. convErsAs coM JEAn-luc pouthiEr. rio dE JAnEiro: civilizAção brAsilEirA, 2007, p. 19-20. a) Indique uma motivação que levou o Império Ro- mano a adotar o cristianismo como religião oficial em seus domínios. b) Aponte dois exemplos da incorporação de elemen- tos do paganismo às práticas devocionais cristãs na passagem da Antiguidade para a Idade Média. c) Indique duas características do cesaropapismo que se desenvolveu na cristandade oriental. 6. O historiador grego Heródoto (484-420 a.C.) viajou muito e deixou vivas descrições com reflexões sobre os povos e as terras que conheceu. Deve-se a ele a seguin- te afirmação: “o Egito, para onde se dirigem os navios gregos, é uma dádiva do rio Nilo“. “No Antigo Egito, existia uma profunda ligação entre o meio natural e a vida daquele povo.” Explique a afirmação acima, relacionando seus conhe- cimentos sobre o tema com o texto. 7. “Com relação ao ornamento, Roma não correspon- dia, absolutamente, à majestade do Império e, além disso, estava exposta às inundações, como também aos incêndios. Porém, Augusto fez dela uma cidade tão bela que pode se envaidecer, principalmente por ter deixado uma cidade de mármore no lugar onde en- contrara uma de tijolos”. AdAptAdo de: suetônIo. A vidA dos dozE césArEs. são pAulo: mArtIn clAret, 2006, p. 91. Considerando o texto e o período de Otávio Augusto no governo de Roma, responda: a) Qual a relação da reurbanização de Roma durante o Governo de Otávio Augusto, com aquilo que simbo- lizava a PAX ROMANA? b) Identifique uma medida social e uma medida polí- tica estabelecidas por Augusto para adaptar as tradi- ções romanas àquele momento histórico. 105 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s 8. Grande parte da presença humana na Terra é explica- da pelos historiadores tendo como referência o termo "pré-história". Sobre esse período, discorra sobre os seguintes tópicos: a) o significado da revolução neolítica; b) as limitações conceituais do termo "pré-história". U.T.I. - E.O. 1. A palavra árabe iman significa ‘ter certeza’ e desig- na fé, no sentido da certeza. A fé, por conseguinte, não contradiz o conhecimento nem a compreensão. Pelo contrário, o desejo de saber é uma obrigação religiosa, e os tempos pré-islâmicos (século VI) na Arábia são cha- mados pelos islâmicos de jahiliya, ignorância. AdAptAdo de: burkhArd scherer (org.). As grAndEs rEligiõEs: tEMAs cEntrAis coMpArAdos. petrópolIs: vozes, 2005, p. 77. Como a fé e o conhecimento científico estavam relacio- nados entre si no mundo islâmico na Alta Idade Média? 2. (UFPR 2013) Considere a seguinte afirmação sobre o termo bizantino: “É essencial lembrar que bizantino não tem conotação étnica, mas civilizacional (...). O termo bizantino foi vul- garizado apenas a partir do século XVI, depois do des- membramento do império, que, em vida, se via como herdeiro e continuador do império Romano.” (frAnco Jr., hilário; AndrAdE filho, ruy dE olivEirA. o iMpério bizAntino. sp: brAsiliEnsE, 1987, p. 7-8) Em que medida o Império Bizantino pode ser conside- rado herdeiro e continuador do Império Romano? Esta- beleça as diferenças entre esses dois impérios entre os séculos V e VII. 3. (UNICAMP 2014) No Natal de 800, o papa Leão III coroou Carlos Magno como Imperador dos Romanos. O Imperador recebeu o antigo título de Augusto. a) Caracterize a autoridade de Carlos Magno como Im- perador naquele momento. b) Apresente dois aspectos do renascimento carolíngio. 4. (UNESP 2018) Empunhando Durendal, a cortante, O rei tirou-a da bainha, enxugou-lhe a lâmina Depois cingiu-a em seu sobrinho Rolando E então o papa a benzeu. O rei disse-lhe docemente, rindo: “Cinjo-te com ela, desejando Que Deus te dê coragem e ousadia, Força, vigor e grande bravura E grande vitória sobre os infiéis.” E Rolando diz, o coração em júbilo: “Deus mo conceda, pelo seu digno comando.” (lA chAnson d’AsprEMont, século xii. Apud gEorgEs duby. A EuropA nA idAdE MédiA, 1988.) a) Qual é a cerimônia medieval descrita no texto? Iden- tifique dois versos do texto que contenham elementos religiosos. b) Qual é a relação entre o rei e Rolando, personagens do poema? O que essa relação representa no contexto do feudalismo? 5. Observe a ilustração e leia a citação a seguir. Em se- guida, responda ao que se pede. Nascida nos quadros do Império Romano, a Igreja ia aos poucos preenchendo os vazios deixados por ele até, em fins do século IV, identificar-se com o Estado, quando o cristianismo foi reconhecido como religião oficial. (...) Estreitavam-se, portanto, as relações Estado-Igreja. (...) No Império Carolíngio, a aliança entre os reis e a Igreja foi fundamental para a consolidação de ambos os po- deres e, por vezes, a Igreja assumia funções que hoje consideramos ser do Estado e este por sua vez interfe- ria nos assuntos religiosos. frAnco JúnIor, hIlárIo. A idAdE MédiA. nAsciMEnto do ocidEntE. são pAulo: brAsIlIense, 2001. p. 67 e 71. Sobre as relações entre Estado e Igreja, no período me- dieval, responda: a) Qual o papel administrativo desempenhado pela Igreja católica durante o Período Medieval? b) Como o Poder Real dos francos – merovíngios e carolíngios – contribuiu para a expansão do cristia- nismo na Europa ocidental? 6. Qual a importância do ponto de vista geopolítico da- quele período, o surgimento, estabelecimento e expan- são do Islão a partir do século VII? 7. O Imperador Justiniano (527-565) entre outras reali- zações, consolidou o conceito e as práticas do Cesaro- papismo, que iriam ter muitas consequências ao longo do tempo naquela região, particularmente no Leste eu- ropeu e na Rússia. O que é Cesaropapismo? 8. “O aparecimento da polis constitui, na história do pensamento grego, um acontecimento decisivo (...). O que implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. Torna-se o instrumento político por excelência, a chave de toda a autoridade no Estado, o meio de comando e de domínio sobre outrem (...). Uma segunda característica da polis é o cunho de plena publicidade dada às manifestações maisimpor- tantes da vida social. Pode-se mesmo dizer que a polis 106 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s HISTÓRIAHISTÓRIA CIÊNCIAS HUMANAS e suas tecnologias 1 U.T.I. existe apenas na medida em que se distinguiu um domí- nio público, nos dois sentidos diferentes mas solidários do termo: um setor de interesse comum, opondo-se aos assuntos privados; práticas abertas, estabelecidas em pleno dia, opondo-se a processos secretos. Essa exigên- cia de publicidade leva a apreender progressivamente em proveito do grupo e a colocar sob o olhar de todos o conjunto de condutas, dos processos, dos conhecimen- tos que constituíam na origem o privilégio exclusivo.” (JeAn-pIerre vernAnt. As orIgens do pensAmento grego. 1984.) a) O que era a polis? b) Por que a PALAVRA é tão importante nesse contex- to ao qual o autor se refere? 9. O que significa o termo “Mesopotâmia” e qual a rela- ção entre esse significado e as civilizações que surgiram nas várias cidades-Estado daquela região? 10. As perseguições aos cristãos no Império Romano estavam ligadas especialmente a uma atitude dos cris- tãos com relação à figura do Imperador e que era ao mesmo tempo política e religiosa. a) Qual era essa questão? b) Por que ela era simultaneamente política e religiosa? 11. O documentário O Ateliê de Luzia – Arte Rupestre no Brasil, dirigido por Marcos Jorge, apresenta as des- cobertas atuais da arqueologia através dos vestígios visuais do homem brasileiro. No decorrer do filme, o di- retor mostra diferentes sítios arqueológicos, como eles foram descobertos e vestígios que datam dos períodos paleolítico e neolítico. Segundo a antropóloga Maria Beltrão, uma das entrevistadas, A pintura rupestre pode se revestir de intenções no de- correr dos tempos pré-históricos. Ela pode ser apenas uma manifestação artística em algum tempo, ela pode estar escondendo alguma prescrição ecológica, ela pode demonstrar um autoconhecimento astronômico, pode estar ligada ao mundo mágico-religioso etc. Ao final do documentário, o antropólogo Andrei Isnar- dis faz um paralelo entre as inscrições realizadas pelo homem pré-histórico e as pichações e grafites nas gran- des cidades. Com base nos conhecimentos sobre pré-histórica e man- ifestações culturais urbanas na contemporaneidade, cite seis similaridades entre os grafismos rupestres pré-históri- cos e os grafites/pichações realizados na atualidade. HISTÓRIA DO BRASIL HISTÓRIAHISTÓRIA CIÊNCIAS HUMANAS e suas tecnologias 1 U.T.I. 108 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s portugal e sua formação Guerra de reconquista Da guerra dos cristãos contra os mouros (muçulmanos do norte da África) nasceram os reinos de Aragão, Leão, Castela e Navarra. Com a união desses reinos cristãos, iniciou-se a Guerra de Reconquista, com o objetivo de expulsar os mouros da pe- nínsula Ibérica. Henrique de Borgonha (nobre francês), em virtude da sua atuação na Guerra de Reconquista, recebeu do rei Afonso VI, de Leão, em 1094, o condado Portucalense e a mão de sua filha Tereza. Afonso Henriques foi fruto deste casamento. Ele lutaria contra a submissão do condado Portucalense a Leão, no ano de 1139, proclamando sua independência e tornando-se o primeiro rei da dinastia de Borgonha. A Borgonha (1139-1383) Foi a primeira dinastia e configurou plenamente as ca- racterísticas do feudalismo português. Sem se mostrar capaz de acompanhar as transformações so- ciais e econômicas ocorridas em Portugal, a dinastia de Bor- gonha se indispôs com a classe dos mercadores, que cresce- ra bastante nesse período; assim a dinastia de Avis, mais ligada aos interesses comerciais e urbanos, tomou seu lugar. Portugal era predominantemente agrário, e nos fins do sé- culo XIV, passou a desenvolver uma economia mais voltada para a navegação e o comércio. Revolução de Avis (1383-1385) A morte de D. Fernando desencadeou uma luta pela su- cessão do trono português, em 1383, e serviu de estopim para a Revolução de Avis. O rei não havia deixado um filho varão, e sua filha, D. Beatriz, era casada com D. João I, de Castela. Se ela herdasse a coroa, o reino se tornaria domí- nio de Castela e perderia a independência política. A nobreza portuguesa era partidária da união com Cas- tela, que era feudal. A burguesia, que considerava a per- da da independência uma ameaça aos seus interesses, apoiava as pretensões de D. João, mestre de Avis, irmão bastardo do rei. Quando D. João foi proclamado rei, Cas- tela invadiu Portugal. bAtAlhA de AlJubArrotA (1385) A burguesia, a pequena nobreza e a população pobre derrotaram os castelhanos na Batalha de Aljubarrota (Pa- deira), consolidando a independência portuguesa em 1385. A aliança entre a dinastia de Avis e a burguesia for- taleceu a centralização monárquica e abriu caminho para as grandes navegações. as grandes navegações Durante os séculos XV e XVI, os europeus, principalmente portugueses e espanhóis, lançaram-se aos oceanos com dois objetivos principais: descobrir uma nova rota marítima para as Índias e encontrar novas terras. As navegações ajudaram a marcar a passagem da Idade Média para a Idade Moderna e impulsionaram o aumento do comércio da Europa com a Ásia e a África. Além disso, resultaram na descoberta, em 1492, de um novo continen- te a ser explorado pelos europeus: a América. O “Novo Mundo” dividido Os reis da Espanha e de Portugal passaram a disputar en- tre si a posse das terras descobertas e das terras a serem descobertas, assim que a notícia do descobrimento da América chegou à Europa. Em 1493, os reis da Espanha obtinham o apoio do papa Alexandre VI, espanhol de nascimento, na edição da Bula Inter Coetera. A Bula determinava uma divisão do mun- do ultramarino, tomando-se por base um limite a 100 lé- guas a oeste de Cabo Verde. Portugal ficaria com as terras a leste dessa linha. As terras situadas a oeste dessa linha imaginária caberiam à Espanha. FORMAÇÃO DE PORTUGAL E NAVEGAÇÕES ULTRAMARINAS 109 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s Tratado de Tordesilhas Equador ilhas Ilhas Canárias Cabo Verde Linhas de demarcação coloniais entre Espanha e Portugal nos séculos XV e XVI. Linha do Papa Alexandre VI (Bula Inter Caetera, 1493) Tratado de Tordesilhas (1494) Tratado de Zaragoza (1529) dIsponível em: <https://pt.wIkIpedIA.org/wIkI/erA_dos_ descobrImentos>. Acesso em 23 dez. 2015. Devido à insignificância dos territórios lusos, Portugal se opôs a essa Bula,o que levou a sua revogação e assinatura, em 1494, do Tratado de Tordesilhas. Pelos termos do novo Tratado, deslocava-se para 370 léguas a oeste de Cabo Verde o limite entre os domínios portugueses e espanhóis. Algumas nações europeias não iriam respeitar O Tratado de Tordesilhas, pois julgavam injusta a partilha do mundo en- tre as nações ibéricas. Os países mais contrariados foram: a Grã-Bretanha, o Reino dos Países Baixos e a França. A expansão ultramarina e suas consequências § implantação do trabalho compulsório indígena na Amé- rica espanhola; § expansão do comércio europeu; § afluxo de metais preciosos para o continente europeu, que gerou uma enorme inflação na Europa, processo co- nhecido como a Revolução dos Preços, em razão da desvalorização da moeda e do aumento geral dos preços; § diversificação dos artigos de consumo: batata, tabaco, cacau e o milho oriundos da América; § destruição das civilizações pré-colombianas astecas e incas; § enriquecimento da burguesia mercantil europeia; § fortalecimento dos Estados absolutistas; § europeização do mundo, ou seja, a difusão da cultura eu- ropeia (vestimentas, língua, hábitos alimentares); § mudança do eixo econômico europeu do mar Mediterrâneo para o oceano Atlântico; § expansão do mercantilismo; § implantação do sistema colonial na América; § adoção do trabalho escravo e consequente intensificação do tráfico negreiro; § expansão da fé cristã. amériCapré-Colombiana . Olmecas Originada na costa sul do golfo do México, a cultura olmeca é considerada a primeira cultura elaborada da Mesoaméri- ca e matriz de todas as culturas posteriores dessa área. As características marcantes do Império olmeca, que se esten- deu do México ocidental à Costa Rica, foram a presença de centros cívicos religiosos a que se subordinavam áreas periféricas e a escultura monumental. A população olmeca era bastante desenvolvida. Espalhada pelo império, dividia-se entre uma minoria (sacerdotes, ar- tífices de elite), que habitava os centros cerimoniais, e a maioria do povo (camponeses), que vivia nas aldeias. A arte olmeca se caracterizou pela valor religioso. A escultura era bastante desenvolvida: monumentais cabeças de pedra com rosto redondo, lábios grossos e nariz achatado; estatue- tas com formas humanas; e outras apresentando uma mistu- ra de traços humanos e felinos. Conheciam a astronomia, uma vez que foram encontrados registros de datas muito antigas. Também conheciam a es- crita e sistemas matemáticos. Muitos traços e tradições dos olmecas sobreviveram entre as diversas culturas que os su- cederam, como é o caso das culturas dos astecas e maias. Maias Ocupando as planícies da península do Iucatã, os maias elaboraram uma das mais complexas e influentes culturas da América. A economia agrícola considerava o milho um alimento sagrado do qual teria se originado o homem. A terra era cultivada coletivamente e os camponeses eram obrigados a pagar o imposto coletivo. A pecuária ainda era des- conhecida, e a caça e a pesca atividades complementares. Os maias formavam uma sociedade rigidamente hie- rarquizada, em que a posição social era determinada pelo nascimento. Uma elite (militares e sacerdotes) constituía o grupo dominante, de caráter hereditário, que habitava os numerosos centros cerimoniais circundados pelas aldeias AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA, MERCANTILISMO E ADMINISTRAÇÃO ESPANHOLA NA AMÉRICA 110 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s onde vivia a numerosa mão de obra de camponeses sub- metidos ao regime de servidão coletiva. Responsável pela política interna e externa e pelo recolhi- mento do imposto coletivo das aldeias, acredita-se que o governo maia fosse uma teocracia de caráter heredi- tário pIrâmIde de kukulcán, em chIchén Itzá Os maias construíram templos de forma retangular sobre pirâmides truncadas com escadarias que se estendiam ao redor de praças. Também edificaram palácios, que provavel- mente serviam de residências dos sacerdotes. Ao preverem os eclipses solares, o movimento dos planetas e elaborarem um calendário cíclico, bem como ao desenvol- verem noções avançadas, como um símbolo para o zero e o princípio do valor relativo, os maias fizeram notáveis pro- gressos na astronomia e na matemática. Por volta do ano 900, a civilização maia sofreu declínio de população. Há estudiosos que atribuem o abandono dos centros maias à guerra, à insurreição, à revolta social, a invasões bárbaras, etc. A exploração intensiva de meios de subsistência inadequados, que provocaram a exaustão do solo, ao lado dos intensos conflitos entre as cidades-Estado, são as hipóteses mais prováveis. Até a conquista definitiva pelos espanhóis, a cultura maia posterior se fundiu com a dos toltecas. Astecas Os astecas ocuparam originalmente a região noroeste do atual México. Guerreiros e expansionistas, dominaram os toltecas e outros povos da região. Construíram palácios, templos, mercados e canais de irrigação e, em 1325, fun- daram a cidade de Tenochtitlán, capital do império. Com destaque para o cultivo do milho, do algodão, do fei- jão e do cacau, cuja semente era utilizada como moeda, a economia era essencialmente agrária. A sociedade era rigidamente hierarquizada: o imperador e sua família ocupavam a posição mais elevada da pirâmi- de social; em posição intermediária estavam os artesãos e comerciantes; os camponeses e os escravos ocupavam a base da pirâmide social. A maior parte de terra pertencia aos sacerdotes e elites locais (líderes dos clãs), enquanto as comunidades camponesas conservavam pequena parcela para uso familiar. pIrâmIde do sol O imperador possuía representação religiosa, militar e políti- ca, seja por suas conquistas, seja pelo domínio sobre vários povos, o que tornou o Império Asteca um Estado milita- rista e teocrático. Construíram obras arquitetônicas colossais: templos e pa- lácios com terraços em forma piramidal, objetos decorati- vos, obras de ourivesaria em prata, ouro e pedras preciosas utilizadas na decoração de palácios e templos. Os astecas também se destacaram na astronomia, ao elaborarem um calendário solar que lhes possibilitava planejar as épocas de plantio e colheita. A religião asteca era politeísta, com prática de sacrifícios hu- manos. Na crença asteca, para que o mundo fosse preserva- do, os deuses exigiam oferendas do bem mais precioso que os homens possuíam: a vida. Incas A região ocupada pelos incas ainda se estendia ao longo da cordilheira dos Andes, ocupando parte dos atuais territó- rios de Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina. Originariamente nômades, os incas faziam parte do grupo quéchua. Entre os séculos XII e XIII, realizaram várias con- quistas na região andina (civilizações de Tiahuanaco, Huari e Chimu), alcançando seu apogeu na época da conquista espanhola no século XVI. A propriedade era divida em terras do Estado, terras dos sa- cerdotes e terras comunitárias. Rigidamente estratificadas, essa sociedade experimentou a formação de classes sociais, tornando-se estamental. Abaixo do imperador, havia uma elite de sacerdotes e militares (nobreza); artífices do Estado, médicos e contabilistas compunham o grupo intermediário; a base da pirâmide social era constituída por escravos e uma grande massa de camponeses. mAchu pIcchu foI, Ao lAdo de cuzco, um dos doIs mAIs ImportAntes centros urbAnos dA cIvIlIzAção IncA. 111 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s O imperador era considerado um deus (Sapa Inca), descen- dente direto do Sol. Os incas acreditavam em vários deuses vinculados a elementos da natureza. Construíram grandes templos e faziam sacrifícios animais e humanos. Sem escrita, a cultura era transmitida oralmente. O idio- ma quéchua serviu de instrumento unificador do Império Inca. Um conjunto de nós e barbantes coloridos, denomi- nados quipus, permitiu aos Incas desenvolverem um en- genhoso sistema de contabilidade. Na astronomia, foram autores de um calendário. Na matemática, utilizavam o sistema numérico decimal. a Conquista espanHola e o CHoque de Civilizações Os impérios existentes na América foram vistos pelos colo- nizadores espanhóis como as principais ameaças ao projeto de exploração do novo território. Os astecas e os incas fo- ram os que mais sofreram com o contato com os europeus. Uma grande vantagem dos espanhóis sobre os ameríndios foi o fato de possuírem armas de fogo, canhões e cavalos, todos elementos desconhecidos na América. Outro fator que contribuiu para uma rápida conquista por parte dos europeus foi a disseminação de doenças até então inexis- tentes na América (ex.: gripe). Sob a administração da Espanha No início, a Coroa espanhola não desejava gastar muitos recursos com a exploração das colônias americanas. Assim, indivíduos que investiam seus recursos particulares para explorar as novas terras eram chamados de adelantados. Eles ganhavam uma série de prerrogativas jurídicas e milita- res, como o direito de fundar núcleos de ocupação, explorar o solo e erguer fortalezas. Em troca, entregavam um quinto de tudo o que fosse explorado na América e promoviam a cristianização dos ameríndios. Em 1503, a Coroa espanhola criou as Casas de Contrata- ção, órgão responsável por fiscalizar a cobrança do quinto. Com o passar do século XVI, a Espanha foi aprimorando seu sistema de administração coloniale foram criadas as Au- diências, instituições com competência jurídica instaladas nas mais importantes regiões da América hispânica. Para centralizar a administração da colônia espanhola, foi criado o Conselho das Índias em 1524. O passo final para a melhor administração das terras ame- ricanas foi sua divisão em Capitanias (terras de menor representatividade econômica) e Vice-Reinos (terras de maior valor econômico). Mercantilismo A estruturação do capitalismo comercial coincidiu com a formação dos Estados nacionais, organizando e impondo uma série de práticas econômicas visando a proporcionar o acúmulo de metais preciosos como forma de dinami- zar as relações comerciais e fortalecer as moedas nacionais. Essa política econômica dos Estados modernos ficou conhe- cida como mercantilismo. A intervenção do Estado na economia e o meta- lismo (acúmulo de metais preciosos) foram as principais bases do mercantilismo. A principal forma de obtenção e acúmulo de metais era o comércio, o que levou os gover- nos a estimularem as exportações e a inibirem, mediante protecionismo marcado por altas taxas alfandegárias, as importações de artigos estrangeiros, caracterizando, assim, uma balança comercial favorável. Eram muito fortes os estímulos governamentais à produção de artigos manufatu- rados cujos preços eram bastante elevados no exterior e nas áreas coloniais. Chamado também de sistema colonial, o colonialismo figura como parte integrante da política mercantilista. Ele correspondia ao conjunto de relações entre metrópoles e colônias, quando aquelas impuseram uma série de re- strições à economia colonial. As determinações metropoli- tanas às colônias baseavam-se no monopólio e na comple- mentaridade, conhecidas por Pacto Colonial. Colônia Pacto colonial Metrópole Matérias-primas – gêneros tropicais Manufaturas – escravos 112 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s brasil: período pré-Colonial (1500-1530) Logo depois do Descobrimento, o Brasil permaneceu ligado à sua Metrópole por umas poucas expedições ocasionais que aqui chegavam com o objetivo de reconhecer mais amplamente o litoral ou de explorar o pau-brasil, ma- deira com possibilidade de comercialização, ou, ainda, de afugentar os franceses, atraídos pela mesma mercadoria. As primeiras expedições de reconhecimento e explo- ração foram comandadas respectivamente por Gaspar Le- mos, em 1501, e Gonçalo Coelho, em 1503. A crescente presença de franceses exigiu mais esforços para garantir a segurança das novas terras. A mão de obra livre dos índios mediante escambo, que consistia na tro- ca de objetos de pouco valor – espelhos, miçangas, objetos de ferro – pelo corte e transporte do pau-brasil até locais na costa, era favorável aos contrabandistas franceses, que não tinham compromisso com o Tratado de Tordesilhas. Esses fatores forçaram a colonização do litoral, que mu- dou radicalmente a política oficial do Estado português e o montante de investimentos por parte da burguesia. Os portugueses criaram as feitorias – estabelecimentos fundados no litoral da Colônia para armazenar o pau-brasil e assegurar a posse do território contra os invasores. A exploração do pau-brasil era monopólio do rei (Estan- co Régio), como toda atividade ultramarina. Só poderia se dedicar a ela quem tivesse uma concessão da Coroa, que cobrava por isso o quinto (20% do lucro adquirido com o produto). iníCio da Colonização brasileira (1530-1580) obrA de benedIto cAlIxto, “fundAção de são vIcente”, mostrA A vIsão do ArtIstA sobre A chegAdA dos portugueses no lItorAl pAulIstA. A partir de 1530, a posição de Portugal em relação ao Brasil mudou. As necessidades portuguesas de garantir a posse do território e obter uma nova fonte de lucros que substitu- ísse o decadente comércio oriental levaram a Coroa a dar início à colonização da nova terra. Para dar início ao empreendimento, foi organizada a expedi- ção comandada por Martim Afonso de Souza, em 1530, com o objetivo de percorrer o litoral e, quando necessário, explorar o interior em busca de ouro e prata, expulsar os franceses, criar núcleos de povoamento e aumentar o domí- nio português até o Rio da Prata. Em 1532, ao voltar do Rio da Prata, Martin Afonso fundou São Vicente, no litoral do atual estado de São Paulo. São Vicente foi dotado de um engenho para produzir açúcar, além de ser o primeiro núcleo de colonização no Brasil. Capitanias hereditárias (1534) O Estado português adotou o sistema de capitanias he- reditárias. Assim, a iniciativa privada arcaria com os gas- tos da colonização. Em 1534, a costa brasileira foi dividida em quinze faixas de terra. Chamavam-se capitanias hereditárias, pois pas- sariam dos donatários a seus herdeiros. Os donatários dispunham de grandes poderes sobre as terras, inclusive o de distribuir sesmarias (porções de terra que permane- ceriam em poder do sesmeiro e seus descendentes desde que eles as cultivassem) àqueles que as requeressem para estimular a colonização. Martim Afonso de Sousa, em São Vicente, e Duarte Co- elho, em Pernambuco, foram os únicos donatários que tiveram sucesso (em parte porque receberam muita ajuda do rei de Portugal e de banqueiros flamengos). Ataques constantes de índios, falta de recursos, a longa distância até a Metrópole, as dificuldades de comunicação entre as capitanias e a descentralização político-administrativa fo- ram os principais motivos do fracasso do sistema de capi- tanias hereditárias. Governo-Geral (1548) Depois do fracasso do sistema de capitanias, Portugal criou o Governo-Geral, que deveria corrigir as falhas das capitanias hereditárias e não extingui-las. O novo órgão deveria centralizar a administração colonial, sendo o Governador-Geral a maior autoridade da Colônia PERIODO PRÉ-COLONIAL, ADMINISTRAÇÃO COLONIAL E INVASÕES FRANCESAS 113 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s e representante direto do rei. O sistema de Governo-Geral foi criado por D. João III (o colonizador), que, por meio do Regimento de 1548, determinou as principais funções do Governo: ajudar os donatários no que fosse necessário; combater índios e piratas; fundar núcleos de povoamento; estimular a catequese e defender a fé cristã e organizar expedições em busca de metais preciosos. Câmaras municipais As vilas e cidades coloniais eram administradas pelas câ- maras municipais, que representavam os interesses de ricos proprietários chamados de homens bons. Por vezes, as câmaras municipais gozavam de enorme au- tonomia, ignorando leis impostas pela capital e apostando na ausência de qualquer punição, considerando a precarie- dade dos meios de comunicação e transporte. Governadores-Gerais § Tomé de Souza (1549 – 1553) Primeiro Governador-geral do Brasil. Chegou acompanhado de aproximadamente mil homens (soldados, profissionais, funcionários públicos, etc.) a fim de construir a primeira cidade do Brasil, Salvador, que se tornou a capital, sendo originalmente denominada Salvador da Bahia de Todos os Santos. § Duarte da Costa (1553-1558) Um novo grupo de jesuítas, dentre os quais o padre José de Anchieta, desembarcou no Brasil acompanhado do se- gundo Governo-Geral, que, juntamente com Manuel da Nóbrega, fundou, em 1554, o colégio de São Paulo de Piratininga, origem do povoado que se transformaria na cidade de São Paulo. A invasão francesa no Rio de Janeiro, em 1555, foi tam- bém um fato marcante desse governo. Ela estava vinculada aos problemas enfrentados pelos franceses na extração do pau-brasil por causa do maior policiamento. Além disso, problemas internos na França colaboraram para a formação de um núcleo colonial no Brasil: a França Antártica. § Mem de Sá (1558-1572) O terceiro Governador-Geral iniciou a luta contra os franceses. O Forte de São Sebastião do Rio de Janeiro, que seria o núcleo inicial da cidade do Rio de Janeiro, foi funda- do, em 1565, pelo sobrinho do governador,Estácio de Sá, para auxiliar na luta contra os franceses. Dois anos depois, os franceses foram expulsos da região e a França Antártica foi destruída. D. Luís de Vasconcelos, nomeado como quarto Gover- nador-Geral, não chegou ao Brasil, pois sua esquadra foi destroçada por corsários franceses. Também morreram nes- sa ocasião quarenta jesuítas que acompanhavam o gover- nador. Ficaram conhecidos na história como os Quarenta Mártires do Brasil. O Brasil foi dividido em dois governos: o do norte, com capi- tal em Salvador e governado por Luís de Brito Almeida, e o do sul, com capital no Rio de Janeiro e governado por Antônio Salema. Luís de Brito Almeida ficou apenas quatro anos no poder. Ele foi substituído por Lourenço da Veiga, que governava quando, em 1580, Portugal e sua Colônia passaram para o domínio espa- nhol, na chamada União Ibérica. Conselho Ultramarino D. João IV se tornou rei, pondo fim à União Ibérica depois da restauração do trono português, em 1640, quando foi criado o Conselho Ultramarino, regulamentado em 1642. O novo órgão nasceu subordinado à Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos e esta- va encarregado exclusivamente da administração colonial, concluindo o processo iniciado em 1548 com a instalação do Governo-Geral, sendo um passo decisivo para a centra- lização administrativa colonial. a Cana-de-açúCar (séCulos xvi e xvii) A cana-de-açúcar foi o produto escolhido para dar início à ocupação econômica do Brasil por uma série de razões: § A experiência portuguesa na produção de cana na cos- ta africana (Cabo Verde, Madeira, São Tomé). § A possibilidade de atrair investimentos externos. § Solo e clima favoráveis, especialmente o solo de massa- pé e o clima quente e úmido do Nordeste. § O açúcar era um produto altamente lucrativo. § A aceitação do produto no mercado europeu. No Brasil, a atividade açucareira funcionava da seguinte ma- neira: os portugueses ficavam responsáveis pela produção, e ECONOMIA COLONIAL, SOCIEDADE E INVASÕES HOLANDESAS 114 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s os holandeses financiavam a montagem dos engenhos, bem como controlavam o transporte, o refino e a comercialização do açúcar, obtendo a maior porcentagem de lucros. A primeira grande divisão de terras foi fundamental para determinar o modelo de colonização. Esse modelo ficou co- nhecido como plantation e baseava-se em três elementos: grande propriedade (latifúndio), monocultura e tra- balho escravo (escravismo). O rei simplesmente legalizava a escravidão do índio sob pre- texto de defendê-lo. Para aprisionar índios, foram organiza- dos as chamadas bandeiras, expedições que se tornaram um dos principais fatores da atual extensão do território brasileiro, principalmente na região mais ao sul do Brasil Colônia (atual Sudeste). A organização da produção do engenho A grande produção só começa oficialmente com Martim Afonso de Souza, em 1533, em São Vicente. As construções principais são a casa-grande, a senzala, as estrebarias e as oficinas. As principais instalações do engenho são: moen- da, caldeira e casa de purgar. A unidade produtora da agromanufatura açucareira era o engenho, que se constituía basicamente de: § Casa do engenho: formada pelas instalações desti- nadas à produção de açúcar. § Casa-grande: residência, geralmente assobradada, onde viviam o senhor e sua família. Nela também mo- ravam os empregados de confiança (capatazes) que cuidavam de sua segurança. Era a central administra- tiva das atividades econômicas do engenho. § Capela: local das cerimônias religiosas. § Senzala: habitação de um único compartimento, rústi- ca e pobre, onde viviam os escravos. engenho de AçúcAr movIdo A águA Escravidão negreira A escravidão dos negros permitia a obtenção de grandes lucros por parte dos traficantes portugueses, que domina- vam áreas fornecedoras de escravos na África, como Ango- la, Goa, São Tomé e, posteriormente, Moçambique. A substituição da escravidão indígena pela escravidão dos negros foi favorecida pela questão da obtenção de escra- vos. Os índios brasileiros eram nômades e seminômades e, portanto, migravam constantemente. Além disso, a exten- são do território era outro fator que dificultava a captura de índios. Já os negros eram obtidos na África por meio de escambos entre os traficantes e os próprios africanos, que capturavam negros de tribos rivais e trocavam-nos por aguardente, rapadura e fumo trazido do Brasil. negros no porão de um nAvIo negreIro Havia a prática de aborto, infanticídio, suicídio e o banzo”(- caracterizando por greve de fome e depressão por conta da privação da liberdade). Menos comum, mas ocorrente, era o ataque à casa do senhor e a sua família. A resistência negra podia se dar por meio de fugas indivíduais, fugas coletivas e a formação de quilombos. Engenhos e a sociedade Essencialmente a sociedade colonial era: § Inculta: pois mesmo os membros da elite só recebiam o ensino das “letras básicas”, que não passavam do aprender a ler, escrever e contar de modo primário. § Aristocrática: porque dominada pelos ricos propri- etários de terras e de escravos. § Rural: porque a vida econômica baseava-se na agri- cultura. A vida urbana ainda era muito incipiente, com a quase totalidade da população habitando o campo. § Escravista: porque a força de trabalho baseava-se na escravidão do índio ou do negro. § Sem mobilidade social: porque não havia oportu- nidade para trabalhadores e escravos saírem de sua condição e ascenderem socialmente. § Patriarcal: porque o proprietário rural e pai de família, ao considerar-se responsável pelo provimento material do lar, impôs a obrigação de ser respeitado e obedeci- do no âmbito familiar. Esse poder sobre a família era estendido à sociedade, já que, como dono das riquezas materiais, o senhor considerava toda a população não proprietária dependente dele. 115 U. T. I. 1 C IÊ N CI AS H UM AN AS e su as te cn ol og ia s invasões Holandesas (séCulo xvii) União Ibérica (1580-1640) Em 1578, ocupava o trono português D. Sebastião, que viria a ser o último monarca da Dinastia de Avis. As dificul- dades socioeconômicas e o espírito cruzadista levaram-no a lutar contra os mouros no norte da África. D. Sebastião desapareceu, não deixando herdeiros, durante a batalha de Alcácer-Quibir. O velho cardeal D. Henri- que, único sobrevivente masculino da linhagem de Avis, as- sumiu a regência enquanto não se solucionava o problema da sucessão. Em 1580, o cardeal-regente morreu. Felipe II, rei da Espanha, neto de D. Manuel, o Venturoso (o mes- mo que organizara a esquadra de Pedro Álvares Cabral), achou-se no direito de ocupar o trono português. Portugal ficou submetido à Espanha durante 60 anos. Con- sequentemente, o Brasil também passou para o domínio espanhol, sofrendo alterações em sua estrutura interna e no seu relacionamento internacional. Em 1580, quando da união das Coroas Ibéricas, Portu- gal viu-se envolvido pelas rivalidades espanholas, so- bretudo com relação à Holanda. Rebelados desde 1567 contra os altos impostos e a repressão religiosa do cató- lico Felipe II contra o calvinismo, os holandeses tiveram de sustentar longos anos de lutas para preservar sua liberdade diante do poderio espanhol. Visando preju- dicá-los, Felipe II decretou o fechamento dos portos do Brasil, de Portugal e de qualquer domínio espanhol aos navios e comerciantes flamengos. A Holanda não teve outra alternativa senão lançar-se em busca de mercadorias nas áreas produtoras. Paulatinamen- te, a hegemonia holandesa se firmou no Oriente, à custa do recuo dos portugueses que, sem autonomia, dependiam de ações espanholas na região. Assim, já nos últimos anos do século XVI, os holandeses ti- nham atingindo o Oriente pela rota do Cabo, e, em 1602, fundaram a Companhia das Índias Orientais, que con- quistou o monopólio do comércio oriental, compreendido