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Crise Hipertensiva URGÊNCIA E EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA Urgências hipertensivas (UH): situações clínicas sintomáticas em que há elevação acentuada da pressão arterial (PAS ≥ 180 e/ou PAD ≥ 120 mmHg) sem lesão aguda e progressiva em órgãos-alvo (LOA) e sem risco iminente de morte. Emergências hipertensivas (EH): são situações clínicas sintomáticas em que há elevação acentuada da PA (PAS ≥ 180 e/ou PAD ≥ 120 mmHg) com LOA aguda e progressiva, com risco iminente de morte. A EH não é definida pelo nível da PA, apesar de frequentemente muito elevada, mas predominantemente pelo status clínico do paciente. Pode manifestar-se como um evento cardiovascular, cerebrovascular, renal ou com envolvimento de múltiplos órgãos ou mesmo na forma de pré-eclâmpsia com sinais de gravidade/eclâmpsia. Pseudocrise hipertensiva (PCH): não há LOA aguda ou risco imediato de morte. Geralmente, ocorre em hipertensos tratados e não controlados, ou em hipertensos não tratados, com medidas de PA muito elevadas, mas oligossintomáticos ou assintomáticos. Também se caracteriza como PCH a elevação da PA diante de evento emocional, doloroso, ou de algum desconforto, como enxaqueca, tontura rotatória, cefaleias vasculares e de origem musculoesquelética, além de manifestações da síndrome do pânico. Urgência Emergência Sem LOA aguda e progressiva Com LOA aguda e progressiva Combinação medicamentosa oral Fármaco parenteral Sem risco iminente de morte Com risco iminente de morte Acompanhamento ambulatorial precoce (7 dias) Internação preferencial em UTI CLASSIFICAÇÃO Emergências hipertensivas Cerebrovasculares - Encefalopatia hipertensiva - Acidente vascular encefálico isquêmico - Acidente vascular encefálico hemorrágico - Hemorragia subaracnóidea Cardiocirculatórias - Dissecção aguda de aorta - Edema agudo de pulmão com insuficiência ventricular esquerda - Síndromes coronarianas agudas Renais/comprometimento de múltiplos órgãos - Hipertensão acelerada/maligna - Hipertensão MDO - Crises adrenérgicas graves - Crise do feocromocitoma - Dose excessiva de drogas ilícitas (cocaína, crack, LSD) - Hipertensão na gestação - Eclâmpsia - Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade - Síndrome “HELLP” - Hipertensão grave em final de gestação EPIDEMIOLOGIA A CH responde por 0,45% a 0,59% de todos os atendimentos de emergência hospitalar e EH por 25% de todos os casos de CH. O acidente vascular encefálico isquêmico (AVEI) e o edema agudo de pulmão (EAP) são as situações mais encontradas nas EH. É condição clínica de incidência decrescente nas últimas décadas. FISIOPATOLOGIA PA sistêmica: débito cardíaco (DC) X resistência vascular periférica (RVP), elevações agudas da PA podem resultar de alterações nessas variáveis. Aumento do volume intravascular, da RVP, produção reduzida de vasodilatadores endógenos e/ou ativação de sistemas vasoconstritores podem precipitar maior vasorreatividade resultando em CH. A autorregulação tissular é suplantada, particularmente nos leitos vasculares cerebral e renal, causando isquemia local, o que desencadeia um círculo vicioso de vasoconstrição, lesão endotelial e ativação plaquetária, do sistema da coagulação e do sistema imune, com proliferação miointimal, necrose fibrinóide de arteríolas e isquemia em órgãos-alvo. A curva de autorregulação é deslocada para a direita nos hipertensos crônicos, o que faz com que tanto o nível de PA atingido quanto a velocidade da elevação sejam importantes na gênese da EH. Por outro lado, esse deslocamento da curva de autorregulação predispõe à isquemia tissular em reduções agressivas da PA no tratamento das EH. - Autorregulação tissular: vasoconstrição → lesão endotelial → ativação plaquetária → proliferação miointimal → necrose fibrinóide → isquemia em órgão alvo. A fisiopatologia da crise hipertensiva ainda não está bem elucidada. O início abrupto sugere um mecanismo de gatilho, possivelmente relacionado a vasoconstritores séricos, sobreposto à hipertensão preexistente. A elevação abrupta da PA provoca estresse mecânico vascular e lesão do endotélio. Estes, por sua vez, iniciam ativação inflamatória celular, aumento da permeabilidade vascular e ativação da cascata de coagulação e deposição de fibrina, levando à isquemia tecidual. Esse processo libera mediadores inflamatórios e substâncias vasoativas e ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona, resultando em vasoconstrição, que perpetua o processo de elevação pressórica. Entre as substâncias vasoativas, ocorre liberação de vasopressina, provocando natriurese e podendo resultar em hipovolemia, ampliando, então, a resposta vasoconstritora. A vasoconstrição inicial também pode ser provocada por excesso de sódio e por excesso de catecolaminas (como em uma crise adrenérgica por feocromocitoma). Pacientes com EH apresentam uma falha nos mecanismos autorregulatórios e a resposta ao aumento abrupto da pressão arterial ocorre através da vasoconstrição arteriolar e arterial, que mantém a pressão de perfusão tecidual constante e protege os órgãos-alvo desse aumento pressórico. Esses pacientes apresentam oclusão vascular e microtromboses evidentes, principalmente em exame de fundo de olho, e necrose fibrinóide em arteríolas. Pacientes com EH apresentam com maior frequência HAS secundária se comparados a outros pacientes hipertensos. Causas comuns de HAS secundária incluem hipertensão renovascular, doença renal crônica, hiperaldosteronismo primário e feocromocitoma. PROGNÓSTICO A letalidade da EH, caso não tratada, é de aproximadamente 80% ao final de um ano, e o tratamento anti-hipertensivo efetivo associa-se à melhora substancial em seu prognóstico. A sobrevida de até 5 anos é maior em indivíduos com UH do que com EH. DIAGNÓSTICO É essencial a realização de uma história clínica direcionada para a causa possível. A investigação clínica e a solicitação de exames devem prover a adequada avaliação da PA e a presença de LOA agudas. A PA deve ser medida inicialmente nos dois braços, de preferência em um ambiente calmo, e repetidamente até a estabilização (no mínimo, três medidas). Deve-se rapidamente coletar informações sobre a PA habitual do paciente e as situações que possam desencadear um aumento da PA e comorbidades; o uso de fármacos anti-hipertensivos ou sua descontinuação (particularmente inibidores adrenérgicos); ou a utilização de substâncias que aumentem a PA. - Fumar, andar, correr, café. TRATAMENTO O tratamento da UH deve ser iniciado após um período de observação em ambiente calmo, condição que ajuda a afastar casos de PCH (conduzidos somente com repouso ou uso de analgésicos ou tranquilizantes). Para o tratamento agudo, indicam-se a captoprila e a clonidina. A captoprila, na dose de 25-50mg, tem seu pico máximo de ação em 60 a 90 minutos, enquanto a clonidina apresenta ação rápida, em torno de 30 a 60 minutos, na dose de 0,100 a 0,200mg. Não há evidência de ensaios clínicos randomizados mostrando que os anti-hipertensivos reduzem a morbidade ou a mortalidade em indivíduos com EH. No entanto, baseando-se na experiência clínica e na evolução dos pacientes tratados, o tratamento anti-hipertensivo é benéfico e reduz a mortalidade. O tratamento dos pacientes com EH visa à redução rápida da PA com a finalidade de impedir a progressão das LOA. Os indivíduos devem ser admitidos preferencialmente em UTI, tratados com anti-hipertensivos intravenosos (IV) e monitorados cuidadosamente durante a terapia para evitar hipotensão. As recomendações gerais de redução da PA para EH devem ser (GR: I; NE: C): - PA média ≤ 25% na 1ª hora; - PA 160/100-110 mmHg nas próximas 2 a 6 h; - PA 135/85 mmHg em um período de 24-48 h subsequentes. PAM: PS + 2.PD/3. Entretanto, as EH devem ser abordadas considerando o sistema ou o órgão-alvo acometido. Urgência Captopril (6,25-12,5 mg), clonidina (0,2 mg) e hidralazina (12,5-25 mg) Emergência Nitroprussiato de sódio EV 0,25-10 µg/kg/min. Nitroglicerina EV 5-100 µg/min. TRATAMENTO DE HAS COMO PREVENÇÃO DE AVC E DISLIPIDEMIA Acidente Vascular Encefálico Isquêmico (AVEI) A PA frequentementediminui espontaneamente em um período de 90 a 120 minutos durante a fase aguda. As recomendações são as seguintes: 1. Em caso de AVEI com indicação de trombólise, recomenda-se uma redução da PA < 185/110 mmHg antes da terapia fibrinolítica (GR: I; NE: B).5,652 Se a PA permanecer > 185/110 mmHg, a terapêutica trombolítica não deverá ser administrada. Essa recomendação também se aplica a indivíduos que serão submetidos à trombectomia.751 A PA deve ser mantida < 180/105 mmHg nas primeiras 24h após trombólise. 2. A redução inicial da PA em 15% pode ser aplicada nos casos de PA muito elevada (≥ 220/120 mmHg) e com outras EH associadas (dissecção de aorta, eventos coronarianos agudos, eclâmpsia, pós-trombólise e/ou EAP) (GR: I; NE: C). 3. Em pacientes com PA ≥ 220/120 mmHg que não receberem trombolítico e não apresentarem outras EH que necessitem de tratamento anti-hipertensivo, o benefício de iniciar ou reiniciar tratamento da hipertensão nas primeiras 48 a 72h é incerto. Parece ser prudente reduzir PA em 15% durante as primeiras 24 h após o início do AVEI (GR: IIb; NE: C). 4. Iniciar ou reiniciar a terapia anti-hipertensiva durante a hospitalização em pacientes com PA ≥ 140/90 mmHg, que estejam neurologicamente estáveis, é seguro para melhorar o controle de PA a longo prazo (NE: B; CR: IIa). 5. Nos demais casos de AVEI, a redução da PA em 5 a 7 dias após o evento tem efeitos neurológicos controversos, sendo necessária a individualização do tratamento (GR: I; NE: A). Acidente Vascular Encefálico Hemorrágico (AVEH) A elevação da PA aumenta o risco de expansão do hematoma e o risco de morte, além de piorar o prognóstico da recuperação neurológica. No entanto, as evidências não são conclusivas para a rápida redução da PA. O edema cerebral ocorre em 30% dos casos e normalmente ocorre nas primeiras 24 h. Nesses casos, a craniectomia descompressiva e a transferência para centros especializados deve ser realizada (GR: I; NE: B).5,752 Para indivíduos com apresentação aguda (< 6 h do início do AVEH): 1. PAS > 220 mmHg – considerar a redução da PA com infusão IV contínua e o monitoramento frequente da PA (GR: IIa; NE: C). 2. PAS entre 150 a 220 mmHg – reduzir a PA abaixo de 140 mmHg não apresenta benefícios para diminuir mortalidade ou incapacidade grave e é potencialmente perigoso (GR: III; NE: A). Considerar alvo de PAS < 180 mmHg. Acidente Vascular Encefálico Isquêmico AVE ISQUÊMICO Responsável por 87 % dos casos. O infarto agudo do sistema nervoso central (SNC) é definido como um episódio agudo de disfunção focal do encéfalo, retina e/ou medula espinal com duração maior que 24h, ou de qualquer duração, se houver evidência radiológica ou patológica de isquemia focal que justifique os sintomas. Quando o infarto acomete estruturas encefálicas, considera-se o evento como um acidente vascular cerebral isquêmico (AVCi). Por outro lado, quando os sintomas do paciente persistem por menos de 24h e não há evidência radiológica de infarto encefálico, denomina-se o quadro de ataque isquêmico transitório (AIT). Principal causa: descolamento de placa aterosclerótica. FATORES DE RISCO Hipertensão arterial crônica (principalmente sistólica), hipercolesterolemia, aterosclerose carotídea e fibrilação atrial. Outros fatores predisponentes relevantes incluem: tabagismo, abuso de álcool, diabetes mellitus, doença renal crônica, obesidade, doença arterial periférica, antecedente familiar ou pessoal de infarto agudo do miocárdio e/ou acidente vascular cerebral isquêmico, e antecedente familiar de morte súbita. METAS DE TEMPO Tempo é cérebro: a redução do aporte sanguíneo para uma determinada região encefálica leva à formação de uma área menor de tecido infartado (cuja função é comprometida de forma irreversível), e uma área maior de penumbra isquêmica adjacente (cuja função pode ser recuperada caso seja obtida a reperfusão tecidual). A cada minuto que passa, a área de isquemia cresce sobre a área de penumbra e a probabilidade de recuperação funcional do paciente diminui. Estima-se que a cada minuto que se passa o paciente perde 1,9 milhão de neurônios. Consequentemente, a eficácia terapêutica das estratégias de reperfusão do AVCi agudo diminui progressivamente com o tempo, e, quanto antes elas forem instituídas, maior a chance de recuperação funcional do paciente. SUSPEITA CLÍNICA Déficit neurológico de início súbito. Quadro é variável e depende da região do encéfalo acometida. Cerebral média: broca, wernicke e condução. - Proximal: afasia global. - + lobo frontal: broca. - + lobo temporal: wernick. Carótida interna: Classificações afasias: - Wernick: - Broca: - Condutiva: compreende mas não verbaliza. - Global: não compreende e não fala. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ATENDIMENTO INICIAL Critérios clínicos de indicação de trombectomia mecânica: < 16 h de ictus: NIHSS ≥ 6; 16-24 h de ictus: NIHSS ≥ 10. C AVCi que compromete mais de 50% do território da artéria cerebral média ou tem > 145 mL de volume no território dessa artéria. D Critérios de indicação de dupla antiagregação com AAS e clopidogrel (todos necessários): AVCi não cardioembólico; NIHSS ≤ 3; não recebeu trombólise endovenosa; sem contraindicações a AAS e/ou clopidogrel. Avaliação clínica inicial: Anamnese: - Quando foi o último momento em que o paciente estava assintomático: Nos casos em que o doente desperta pela manhã com déficits (wake-up stroke), é importante não apenas questionar quando ele adormeceu, mas também se ele teve despertares durante a noite, nos quais ainda estava assintomático, e quando esses despertares ocorreram. Caso tenham se transcorrido mais de 4,5 h desde o último momento assintomático, deve-se precisar também o momento em que o déficit neurológico foi percebido pelo paciente, ou reconhecido por outros (caso o paciente não seja capaz de prover essa informação). - Obter dados sobre antecedentes mórbidos e medicações em uso. Se o paciente fizer uso de anticoagulantes, questionar quando ele fez uso da última dose. - Avaliar a presença de contraindicações para trombólise endovenosa (TEV). Exame físico: - Monitorização de sinais vitais e coleta da glicemia capilar. - Aferição da pressão arterial (PA) em quatro membros. A assimetria significativa da PA entre membros superiores, ou entre membros superiores e inferiores, pode sugerir dissecção aórtica. - Realizar exame neurológico sucinto e calcular o National Institutes of Health Stroke Scale (NIHSS). NIHSS 1A Nível de consciência 0 – Alerta 1 – Desperta a estímulos leves 2 – Desperta a estímulos vigorosos, repetitivos e/ou dolorosos 3 – Não desperta 1B Orientação (idade e mês atual) 0 – Responde adequadamente às 2 questões 1 – Responde adequadamente 1 questão 3 – Não responde adequadamente ambas as questões 1C Resposta a comandos simples (abrir e fechar mão, abrir e fechar olhos) 0 – Realiza adequadamente os 2 comandos 1 – Realiza adequadamente 1 comando 3 – Não realiza adequadamente ambos os comandos 2 Olhar conjugado horizontal 0 – Normal 1 – Desvio conjugado do olhar, suprimível pelo reflexo oculocefálico E/OU paresia de 1 nervo da motricidade ocular extrínseca 2 – Desvio conjugado do olhar não suprimível pelo reflexo oculocefálico OU oftalmoparesia de todos os movimentos do olhar 3 Campo visual 0 – Normal 1 – Hemianopsia incompleta ou quadrantoanopsia OU extinção visual 2 – Hemianopsia completa 3 – Cegueira 4 Paralisia facial 0 – Ausente 1 – Discreta 2 – Evidente, apenas em andar inferior da hemiface 3 – Evidente, em andares superior e inferior de hemiface 5 Motricidade de membro superior (5a – esquerdo e 5b – direito) 0 – Sem queda por 10 s 1 – Queda em menos de 10 s, sem encostar em suporte ou leito 2 – Queda em menos de 10 s, encostando em suporte ou leito 3 – Não vence gravidade 4 – Sem movimento Não testável – se amputação ou fusão articular 6 Motricidade de membro inferior (5a – esquerdo e 5b – direito) 0 – Sem queda por 5 s 1 – Queda em menos de 5 s, sem encostar em suporte ou leito 2 – Queda em menos de 5 s, encostando em suporte ou leito 3 – Não vence gravidade4 – Sem movimento Não testável – se amputação ou fusão articular 7 Ataxia de membro 0 – Ausente 1 – Presente em 1 membro 2 – Presente em 2 membros Não testável – amputação ou fusão articular 8 Sensitivo 0 – Normal 1 – Hemi-hipoestesia 2 – Hemianestesia OU comprometimento sensitivo bilateral OU paciente em coma 9 Linguagem 0 – Normal 1 – Leve. Presente, porém com limitação pequena à comunicação 2 – Grave, com limitação importante à comunicação 3 – Mutismo ou comunicação impossibilitada, ou paciente em coma 10 Disartria 0 – Normal 1 – Presente, porém compreensível 2 – Comunicação não compreensível ou anartria Não testável (presença de barreira à avaliação, p. ex., cânula endotraqueal) 11 Extinção ou heminegligênci a 0 – Ausente 1 – Extinção presente para 1 modalidade (visual, auditiva, somestésica) 2 – Extinção presente para mais de 1 modalidade, não reconhece parte de próprio corpo ou orienta comportamento motor para apenas 1 hemimundo Estabilização clínica inicial: ABC (A – via aérea, B – breathing/respiração, C – cardiovascular e hemodinâmico). Se, durante a avaliação, for observada escala de coma de Glasgow ≤ 8 ou risco de aspiração significativo (disfagia), deve-se considerar a intubação orotraqueal (CR I; NE C). A saturação de oxigênio deve ser mantida > 94% (CR I; NE C-LD). Porém, não há benefício em suplementar oxigênio se a saturação de oxigênio em ar ambiente for ≥ 95% (CR III; NE B-R). A estratégia de controle de pressão arterial (PA) depende do contexto clínico do paciente. Caso o paciente tenha indicação de trombólise endovenosa, recomenda-se manter a PA < 185 × 110 mmHg até a infusão do trombolítico (CR IIa, NE B-NR), e mantê-la ≤ 180 × 105 mmHg durante e por até 24 h após a sua infusão (CR I; NE B-R). Também, entre pacientes com indicação de trombectomia mecânica, recomenda-se manter a PA < 185 × 110 mmHg (CR IIa; NE B-NR) até o procedimento e ≤ 180 × 105 mmHg por até 24 h (CR IIa; NE B-NR) após a sua realização. Por outro lado, caso não haja indicação de trombólise e/ou trombectomia mecânica, não é necessário controle pressórico agressivo, desde que não haja condição comórbida que assim o demande (dissecção aguda de aorta, eclâmpsia/pré-eclâmpsia, infarto agudo do miocárdio). Reduções muito agressivas da PA nessas circunstâncias, em teoria, podem comprometer ainda mais a área de penumbra isquêmica e a recuperação a longo prazo do paciente. Por essa razão, nesse contexto, apenas se a PA for ≥ 220 × 110 mmHg, é razoável a redução dos níveis pressóricos iniciais em 15% durante as primeiras 24 h do ictus (CR IIb; NE C-Eo). Por outro lado, a hipotensão não é um achado frequente no paciente com AVCi. Sempre quando presente, deve-se investigar ativamente a presença de situações comórbidas potencialmente graves que a justifiquem, como sepse, infarto agudo do miocárdio, dissecção da aorta, entre outros. Além do mais, a hipotensão e a hipovolemia devem ser corrigidas de modo a manter a perfusão sistêmica necessária à função dos órgãos (CR I, NE C-Eo). Como já mencionado, a hipotensão excessiva pode favorecer o estabelecimento do infarto definitivo na área de penumbra e comprometer o prognóstico funcional do paciente. Outros cuidados importantes na avaliação inicial do paciente incluem: corrigir hipoglicemia em caso de glicemia capilar < 60 mg/dL (CR I; NE C-LD) e obter ao menos um acesso venoso periférico adequado (que será fundamental para infusão de contraste radiológico, trombolíticos e drogas vasoativas, caso se façam necessários). Exames complementares antes da infusão de trombolíticos: Esses exames também devem ser considerados no caso de suspeita clínica forte de coagulopatia. Outros exames importantes que devem ser realizados o quanto antes, mas que não devem atrasar a infusão de trombolíticos, são: troponina (CR I; NE C-LD), eletrocardiograma (CR I; NE B-NR), hemograma, ureia e creatinina, eletrólitos e radiografia simples de tórax (CR IIb, NE B-NR). EXAME DE IMAGEM TC de crânio: suficiente para exclusão de diagnósticos diferenciais (hemorragia intracraniana) e identificação das complicações. No AVCi agudo a TC pode ser normal ou evidenciar apenas sinais discretos de isquemia encefálica (p. ex., a perda de diferenciação da atenuação entre as substâncias branca e cinzenta, edema cortical leve, hipoatenuação discreta no local do infarto). Outro sinal que pode estar presente na fase aguda do AVCi é o da artéria cerebral média hiperdensa. Esse sinal é caracterizado pela hiperatenuação da artéria cerebral média ipsilateral ao suposto infarto cerebral e sugere a presença de um coágulo nesse vaso. Trata-se de um sinal com alta especificidade, porém de baixa sensibilidade para o diagnóstico de AVCi. TRATAMENTO Terapias de reperfusão cerebral Trombólise endovenosa (TEV) com alteplase: considerada quando assintomático em menos de 4,5h. Em situações em que o momento exato do ictus é desconhecido, mas o déficit foi reconhecido há menos de 4,5 h, a TEV também deve ser considerada. Administração de alteplase: Tratamento das complicações da infusão de alteplase: A complicação mais importante da infusão de alteplase é a transformação hemorrágica sintomática. Ela ocorre em 5 a 6% dos pacientes e os seus fatores de risco são: NIHSS elevado, uso prévio de antiagregante ou anticoagulante, presença de microssangramentos em RM de encéfalo. A suspeita clínica é levantada se o paciente desenvolver hipertensão aguda e/ou refratária, náuseas, vômitos, cefaleia intensa ou deterioração neurológica durante ou após a infusão do trombolítico. O tratamento dessa condição é apresentado no Quadro 4. Outra complicação é o angioedema orolingual. Ele ocorre em 1,3 a 5,1% dos pacientes. Os fatores de risco são: uso de inibidor da conversão de angiotensina e infartos em córtex frontal e ínsula. A suspeita clínica se dá quando há edema de língua, lábios ou orofaringe, em geral contralateral à isquemia cerebral. Trombectomia mecânica: A trombectomia mecânica (TM) é uma estratégia de reperfusão cerebral incluída nas recomendações de tratamento do AVCi agudo de forma relativamente recente. Em essência, essa estratégia consiste na retirada do trombo agudo de grandes artérias que participam da vascularização cerebral, por meio de dispositivos específicos, denominados stent retrievers. TM e a TEV não são terapias mutuamente exclusivas: pacientes elegíveis para TEV devem receber o trombolítico mesmo que também tenham indicação de TM (CR 1; NE A); da mesma forma, deve ser considerada a TM tanto em pacientes que receberam quanto nos que não receberam a TEV. Não é recomendado aguardar a resposta clínica à TEV para definir a indicação de TM (CR III: malefício; NE B-R). Indicações de TM < 6h: ATAQUE ISQUÊMICO TRANSITÓRIO Acidente Isquêmico Transitório (AIT): episódio transitório de disfunção neurológica provocado por uma isquemia focal do encéfalo e/ou retina, com duração de sintomas tipicamente menor que 1 hora, e na ausência de evidência de infarto agudo do encéfalo. A presença de sinais clínicos persistentes ou de anormalidades características em exame de imagem define a presença de um acidente vascular cerebral isquêmico. Os diagnósticos diferenciais ao AIT são os mesmos que para o AVCi, com ênfase na aura de enxaqueca, síncope e crises epilépticas. Apesar de o AIT não resultar, por definição, em infarto encefálico, os mecanismos etiológicos potenciais subjacentes a essa doença são os mesmos do AVCi. Esses pacientes têm um risco de cerca de 10% de ocorrência de AVCi nos primeiros 90 dias após o AIT. Esse risco aparenta ser maior nas primeiras 48h, quando de um quarto a metade dos AVCi ocorrem. Uma forma de estratificar o risco de AVCi em até 2 dias após o AIT é por meio do escore ABCD2. Considerando-se o alto risco de AVCi em um futuro próximo, os cuidados do paciente com AIT não devem ser diferentes daqueles preconizados para os pacientes com AVCi. A exceção se faz à instituição de estratégias de reperfusão cerebral agudas, como a TEV e a TM, das quais o paciente com AIT não tem indicação. O principalobjetivo no tratamento do paciente com AIT é a identificação rápida do mecanismo etiológico subjacente e a instituição de profilaxia secundária específica o quanto antes (CR I; NE B). Nesse sentido, recomenda-se a internação hospitalar do paciente com AIT que se apresente a serviços de saúde nas primeiras 72 h do evento e tenha quaisquer dos seguintes critérios: - Escore ABCD2 ≥ 3 (CR IIa; NE C). - Escore ABCD2 de 0 a 2 e incerteza de que a investigação diagnóstica do mecanismo do AIT possa ser completada em menos de 2 dias em ambiente extra-hospitalar (CR IIa; NE C). - Escore ABCD2 de 0 a 2 e outra evidência que indique que o evento do paciente foi provocado por AVCi, e não AIT (CR IIa; NE C). AIT é definido como episódio único de déficit neurológico focal agudo, com recuperação completa em < 1 hora. - Aplicar Escore ABCD2 (Anexo E) – preditor de AVC após episódio de AIT; - Avaliar tomografia de crânio (TC): se TC normal, confirmado diagnóstico de AIT. Iniciar tratamento com: - AAS 100 mg/dia (se alergia ou intolerância a AAS, prescrever clopidogrel 75 mg/dia); - Clopidogrel 75 mg/dia associado a AAS nos pacientes que apresentaram AVC em uso prévio de AAS ou naqueles com evidência de doença aterosclerótica carotídea; - Sinvastatina 40mg/dia; - Pacientes hipertensos: ajustar anti-hipertensivo se pressão arterial (PA) sistólica > 140 mmHg ou iniciar medicamento anti-hipertensivo se o paciente ainda não utilizava nenhum medicamento anti-hipertensivo. Realizar os seguintes exames o mais breve possível (em, no máximo, 6 dias): - Ecografia de carótidas e vertebrais com Doppler; - Ecocardiograma com Doppler; - Eletrocardiograma; - Exames laboratoriais: hemograma, glicemia de jejum, creatinina, ureia, sódio, potássio, colesterol total, HDL, triglicerídeos. Checklist de alta para domicílio: - Fornecer as medicações dos primeiros 7 dias após alta hospitalar; - Agendar consulta em ambulatório neurovascular até 7 dias da alta hospitalar; - Encaminhamento para Unidade de Atenção Primária para gerenciar cuidado e realizar a prevenção secundária; - Orientação aos pacientes e familiares para chamar o Atendimento Móvel de Urgência SAMU (192) ou procurar a Emergência de uma unidade hospitalar se novo sintoma de AVC. Hemorragia Subaracnóidea AVC HEMORRÁGICO Hemorragia subaracnóidea (HSA): extravasamento de sangue para os espaços que cobrem o sistema nervoso central (SNC) que são preenchidos com fluido cerebrospinal ou líquor. Hemorragia que ocorre no espaço entre as membranas pia-máter e aracnóide. Os acidentes vasculares cerebrais (AVC) hemorrágicos representam 13% de todos os acidentes vasculares cerebrais. A hemorragia intraparenquimatosa representa 10% dos casos, e a HSA cerca de 3%. A principal causa de HSA não traumática é a ruptura de um aneurisma intracraniano, que corresponde a 80 a 85% dos casos de HSA e tem uma alta taxa de mortalidade. Outras causas incluem coagulopatias, malformações arteriovenosas e trombose venosa cerebral. Entre as causas não aneurismáticas, temos: - HSA perimesencefálica. - HSA pré-truncal secundária a hematoma intramural de artéria basilar. A HSA perimesencefálica ocorre em cerca de 10 a 20% dos casos e tem um bom prognóstico, com complicações sendo incomuns. A incidência aumenta com a idade, com uma média na apresentação de 55 anos. O risco em mulheres é 1,6 vez maior do que em homens, e o risco para os negros é 2,1 vezes maior do que em caucasianos. A mortalidade chega a 32%, com 3 a 26% dos pacientes não chegando ao hospital e 20% dos sobreviventes com sequelas neurológicas significativas. ETIOLOGIA A ruptura de um aneurisma sacular é a principal causa de HSA. Os aneurismas saculares ocorrem por alterações congênitas, ou mais frequentemente por alterações adquiridas com fisiopatologia multifatorial. Estresse hemodinâmico, fluxo turbulento e inflamação fazem parte da gênese dessas lesões. Os aneurismas micóticos ocorrem por embolização séptica de vasos cerebrais. FATORES DE RISCO Estatinas e dislipidemia são controversos. Doenças associadas com aneurisma: Doença renal policística, Síndrome de Ehlers-Danlos (tipo IV), Pseudoxantoma elástico, Displasia fibromuscular. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Início súbito de cefaléia grave em 97% dos casos, e em 80% dos casos é descrita como a “pior dor de cabeça da vida”, com náuseas (77% dos casos), vômitos, dor cervical, fotofobia e perda de consciência (em 10 a 50% dos casos) em geral transitória. Outra manifestação possível de HSA é a morte súbita, com 10 a 15% dos pacientes falecendo antes de chegar ao hospital. Alguns pacientes apresentam sintomas prodrômicos com episódio súbito de cefaléia intensa, precedendo a instalação da HSA, chamado de “cefaleia sentinela” e pode representar um pequeno vazamento de aneurisma ou alterações constitucionais na parede aneurismática. Precede a ruptura do aneurisma em 1 a 2 semanas, sendo descrita em até 43% das HSA. São situações em que o diagnóstico deve ser considerado: - Presença de sinais meníngeos. - Alterações neurológicas focais. - Alterações do nível de consciência. - Presença de papiledema. - Piora progressiva da cefaléia. - Início abrupto da cefaleia. - Cefaleia agravada por tosse ou manobra de Valsalva. - Cefaleia de início recente em paciente com mais de 50 anos de idade. - Cefaleia com interrupção do sono. - Presença de sintomas sugestivos de doença secundária como febre e perda de peso, entre outros. - Cefaleia em pacientes imunossuprimidos ou em uso de anticoagulantes. HIC: tríade de Cushing (hipertensão, taquipnéia, taquicardia). Vômito em jato (sem ser precedido por náusea). Regra de Ottawa: pesquisa de HSA se pelos menos 1 dos sintomas: - Dor ou rigidez cervical. - Idade > 40 anos. - Perda de consciência. - Início com esforço. - Cefaleia em “trovoada”, ou thunderclap. - Flexão limitada do pescoço no exame. A “cefaleia em trovoada”, ou thunderclap headache, é típica nesses pacientes. A cefaleia tem início súbito e atinge a máxima intensidade em poucos segundos. Os pacientes podem apresentar hemorragia vítrea, que é um sinal de mau prognóstico; assim, a realização de fundoscopia é indicada em todos os pacientes com suspeita de HSA. A combinação de hemorragias vítreas e HSA caracteriza a síndrome de Terson; esses pacientes costumam ter maior mortalidade e pior pontuação na escala de Hunt-Hess. Os pacientes podem ainda apresentar sinais neurológicos focais; entre eles, podemos destacar: - Paralisia do III nervo craniano (aneurisma de comunicante posterior). - Paralisia do VI nervo craniano (devido a aumento da pressão intracraniana). - Paresia de ambos os membros inferiores (aneurisma de comunicante anterior). - Hemiparesia, afasia e heminegligência (aneurisma de artéria cerebral média). Sinais focais são menos comuns do que na hemorragia craniana intraparenquimatosa, uma vez que o sangramento ocorre no espaço subaracnóideo e não no parênquima cerebral. Os sinais meníngeos podem demorar várias horas até o seu aparecimento, e a sua ausência não pode ser utilizada para descartar o diagnóstico de HSA. Convulsões são descritas em apenas 10% dos pacientes nas primeiras 24 horas de apresentação, mas sua presença é associada a pior prognóstico. EXAMES COMPLEMENTARES A tomografia de crânio (TC) sem contraste com ou sem punção liquórica é o exame essencial para o diagnóstico de HSA. A TC realizada nas primeiras 24 horas tem 92% de sensibilidade (> 95% na primeira hora). Na imagem, a característica do sangue extravasado é de uma lesão hiperdensa nos sulcos e cisternas encefálicas. Pequenas quantidades de sangue podem passar despercebidas, de modo que todas as verificações devem ser realizadas com cortes finos através da base do crânio. A TC de crânio pode demonstrar hematomas intraparenquimatosos, hidrocefalia e edema cerebral e pode ajudar a prever o local da ruptura do aneurisma, particularmente em pacientes com aneurismas na artéria cerebral anterior ou artéria comunicante anterior. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O principal diagnóstico diferencial são outrascefaleias, que podem cursar com cefaléia sentinela ou cefaléia intensa. Essas causas incluem hemorragia intracraniana parenquimatosa (HIP), trombose venosa cerebral, hidrocefalia aguda, meningoencefalites, apoplexia pituitária e mesmo aneurismas não rotos. CLASSIFICAÇÃO Classificação Hunt-Hess 0: paciente sem sangramento na imagem, assintomático. Ia: sangramento presente, paciente assintomático. IIa: presença de sinais meníngeos. IIb: presença de sinais meníngeos + déficit focal. IIIa: presença de confusão mental (Glasgow 13-14). IIIb: presença de confusão mental (Glasgow 13-14) + déficit focal. IVa: sonolência (Glasgow 9-12). IVb: sonolência (Glasgow 9-12) + déficit focal. V: paciente em coma. Classificação Fischer 0: ausência de sangue visível. 1: sangue pouco denso e localizado. 2: sangue pouco denso e presente difusamente nas cisternas basais. 3: sangue muito denso e localizado. 4: sangue muito denso e presente difusamente nas cisternas basais. Classificação da Federação Internacional de Neurologia (CFIN) TRATAMENTO Todos os pacientes com HSA devem ser avaliados e tratados em caráter de urgência com a manutenção da via aérea e monitorização cardiovascular. Os pacientes com escala de coma de Glasgow ≤ 8, aumento de pressão intracraniana, hipoxemia ou instabilidade hemodinâmica devem ser intubados e colocados em ventilação mecânica invasiva. Após a estabilização inicial, os pacientes devem ser transferidos para centros com experiência neurovascular, de preferência com uma unidade neurológica, com cuidados de unidade de terapia intensiva (UTI). Os principais objetivos do tratamento são a prevenção de ressangramento, a prevenção e o manejo do vasoespasmo e o tratamento de outras complicações médicas e neurológicas. Pressão arterial sistólica: deve ser mantida com valores de pressão arterial sistólica < 160 mmHg ou pressão arterial média < 110 mmHg, antes do tratamento do aneurisma, se necessário, por via intravenosa com agentes anti-hipertensivos, como labetalol e nicardipina. Após o tratamento do aneurisma pode-se permitir que os níveis pressóricos se elevem para manter a pressão arterial sistólica < 200 mmHg. Analgesia: muitas vezes necessária, e agentes reversíveis, tais como narcóticos, são indicados. Glicemia: o objetivo é manter o nível de 80 a 120 mg/dL, utilizando infusão contínua de insulina, se necessário. Temperatura: manter a temperatura ≤ 37,8°C; administrar, se necessário, paracetamol ou dipirona. Profilaxia de úlcera de estresse: podem ser utilizados ranitidina (150 mg duas vezes ao dia VO ou 50 mg IV a cada 8-12 horas), omeprazol (20 a 40 mg VO) ou lansoprazol (30 mg VO diariamente). Manter níveis de hemoglobina entre 8 e 10 g/dL. Avaliar pressão intracraniana com ventriculostomia se ventrículos aumentados ou se escore da CFIN ≥ 3. Manter idealmente pressão intracraniana menor que 20 mmHg e perfusão cerebral maior que 70 mmHg. Manter cabeceira elevada a 30 graus. Usar meias compressivas e dispositivos pneumáticos de compressão sequencial; pode-se administrar heparina (5.000 U SC três vezes por dia) após o tratamento do aneurisma. Anticonvulsivantes: seu uso é controverso e não recomendado de rotina. Um estudo demonstrou piores desfechos com uso de fenitoína profilática. Devido ao risco de sangramento por convulsão, muitas vezes se faz essa opção de profilaxia anticonvulsivante com o ácido valproico. Manter a euvolemia (PVC entre 5-8 mmHg): se vasoespasmo cerebral estiver presente, pode-se considerar manter o paciente em hipervolemia (PVC entre 8-12 mmHg, ou PCP 12-16 mmHg). Deve-se tentar a ingestão oral precocemente (após avaliação da deglutição); caso seja necessário utilizar rotas alternativas, pode-se tentar alimentação enteral. Deve-se manter o paciente adequadamente sedado. Ácido tranexâmico pode ser uma opção nas primeiras 72 h, em pacientes que não foram submetidos a correção do aneurisma, por algum motivo, a fim de reduzir o risco de ressangramento precoce, mas a medicação não deve ser utilizada por mais de 72 horas. Durante a internação, deve-se realizar exame neurológico sumário a cada 1 a 4 horas, como também manter aferição contínua dos sinais vitais. Pacientes em uso de anticoagulação ou agentes antitrombóticos: - Heparina IV: sulfato de protamina. - Varfarina: complexo protrombínico ou concentrado de complexo protrombínico (CCP) ativado. - Vitamina K Prevenção do vasoespasmo: O vasoespasmo é uma reação inflamatória na parede dos vasos sanguíneos e se desenvolve principalmente entre 3 e 14 dias após a HSA. O melhor preditor de vasoespasmo é a quantidade de sangue vista na TC de crânio inicial. O vasoespasmo angiográfico é mais comum (ocorre em cerca de dois terços dos pacientes) do que o vasoespasmo sintomático (com evidência clínica de isquemia cerebral). O quadro clínico em geral se relaciona à instalação de déficit neurológico focal, algumas vezes levando a isquemia cerebral verificada por imagem que ocorre tardiamente em relação ao sangramento. Esta isquemia cerebral tardia é descrita em 30% dos pacientes e supostamente ocorre por vasoespasmo. Cerca de metade dos pacientes com HSA desenvolve vasoespasmo assintomático e um terço é sintomático. Entre 15 e 20% desses pacientes desenvolvem isquemia cerebrovascular ou morrem. Os pacientes com vasoespasmo podem apresentar cefaléia, sinais meníngeos, náuseas e vômitos, febre baixa e taquicardia. A presença de sangue nas cisternas libera oxi-hemoglobina, assim como outros mediadores inflamatórios que podem levar à vasoconstrição. A ultrassonografia com Doppler transcraniano idealmente deve ser realizada diariamente ou a cada 2 dias para monitorizar o vasoespasmo, o qual é definido como uma velocidade média de fluxo sanguíneo cerebral em mais de 120 cm por segundo em um vaso principal. Ultrassonografia Doppler tem uma sensibilidade que é semelhante à da angiografia cerebral para a detecção de vasoespasmo. A nimodipina 60 mg VO ou por sonda de 4/4 horas deve ser administrada em todos os pacientes. Embora não reduza vasoespasmo, melhora o prognóstico neurológico, sendo mantida por 14 a 21 dias. Deve-se evitar hipovolemia com reposição volêmica. Antes da ocorrência de vasoespasmo, idealmente se mantém PVC entre 5 e 8 mmHg. Em pacientes com vasoespasmos, as medidas clínicas incluem: - Benefício controverso com uso de estatinas. - Em pacientes já com vasoespasmo, pode-se considerar terapia com indução de hipervolemia discreta (PVC entre 12-16 mmHg), aumento pressórico discreto (uso de fenilefrina), mas a evidência de benefício é pequena. - O tratamento definitivo é com angioplastia ou uso intra-arterial de vasodilatadores. Hemorragia Intracraniana Parenquimatosa AVE HEMORRÁGICO Os acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos (AVCh) não traumáticos podem ser divididos em: - Hemorragia intraparenquimatosa (HIP): sangramento não traumático do parênquima cerebral. - Hemorragia subaracnóidea (HSA): hemorragia que ocorre no espaço entre as membranas pia-máter e aracnóide. Causas não traumáticas de HSA incluem aneurismas cerebrais, malformações arteriovenosas, tumores, angiopatia amilóide cerebral e vasculopatias (vasculite). A HIP é uma emergência médica e representa de 10 a 25% de todos os AVC. O diagnóstico rápido é crucial, porque deterioração precoce é comum nas primeiras horas após o início do quadro. Mais de 20% dos pacientes apresentam uma diminuição na escala de coma de Glasgow (ECG) de 2 ou mais pontos entre a avaliação pré-hospitalar de emergência e a avaliação inicial no departamento de emergência (DE). Além disso, outros 15 a 23% dos pacientes continuam a apresentar deterioração dentro das primeiras horas após a chegada no hospital. ETIOLOGIA As duas maiores causas de HIP são arteriopatia por hipertensão arterial e angiopatia amilóide. A arteriopatia hipertensiva causa alterações degenerativas em pequenas artérias penetrantes. A maior parte dessas hemorragias ocorre em regiões profundas do cérebro. A angiopatia amilóide, por sua vez, ocorre pelo acúmulo de proteínas amilóides na parede das artérias,tornando-as mais suscetíveis à ruptura. Hemorragias devido a angiopatia amiloide são tipicamente lobares (perto do córtex) e múltiplas, e ocorrem em pacientes com mais de 55 anos de idade. FATORES DE RISCO FISIOPATOLOGIA Inicialmente, acreditava-se que a HIP era um evento monofásico rapidamente interrompido pela formação de coágulos e sendo tamponado pelas regiões adjacentes; porém, estudos com realização de tomografia computadorizada (TC) demonstraram que, em uma hora, 26% dos hematomas apresentam expansão, e em 45 a 50% dos casos ocorre reexpansão. Essa expansão pode ocorrer devido a sangramento contínuo ou ruptura mecânica de vasos adjacentes. A alta taxa de deterioração neurológica precoce após HIP está relacionada, em parte, com esse sangramento ativo, que pode prosseguir por horas após o início dos sintomas. A expansão do hematoma tende a ocorrer precocemente, aumentando o risco de desfecho funcional ruim e morte. A angiografia por TC e a TC com contraste podem identificar indivíduos com alto risco de expansão com base na presença de contraste dentro do hematoma. Pontos de contraste numerosos sugerem maior risco de expansão. Pacientes inicialmente alertas podem, em até 25% dos casos, apresentar deterioração do nível de consciência durante a evolução, que ocorre sobretudo por expansão do hematoma. É interessante notar que o risco de expansão é maior em pacientes que apresentaram sangramento secundário à anticoagulação. São fatores de mau prognóstico em relação à possibilidade de deterioração neurológica: - Escore baixo no escore de coma de Glasgow. - Grandes hematomas. - Sangue no ventrículo. Uma outra possível causa de HIP é a ruptura de um aneurisma intracraniano (em caso de HSA), que pode ser espontânea, precipitada por esforço, ou secundária à hipertensão. Cerca de 1 a 2% da população adulta apresenta um aneurisma intracraniano intacto, porém, em cerca de 1% desses indivíduos, pode ocorrer ruptura do aneurisma. Assim, é necessário selecionar cautelosamente os pacientes para obliteração profilática do aneurisma. Malformações arteriovenosas são, muitas vezes, congênitas e podem se tornar sintomáticas com o passar do tempo. O diagnóstico precoce de anomalias vasculares subjacentes pode ajudar tanto no manejo clínico quanto na avaliação de prognóstico em pacientes com HIP. A HIP pode estar relacionada com o uso de medicações, sobretudo os fibrinolíticos e anticoagulantes. A utilização de agentes antiagregantes plaquetários está associada a taxa de sangramento menor em comparação com a varfarina, e a terapia antiagregante plaquetária dupla com clopidogrel associado a ácido acetilsalicílico (AAS) tem maior taxa de HIP em comparação com o uso isolado de clopidogrel. Os pacientes que recebem anticoagulantes orais constituem de 12 a 20% dos indivíduos com HIP. Os novos anticoagulantes, como rivaroxaban e apixaban, parecem estar associados com um menor risco de HIP do que os antagonistas da vitamina K. Uma causa possível de sangramento cerebral espontâneo são hepatopatias e coagulopatias; várias condições que levam ao dano hepático grave podem causar coagulopatia. Os pacientes hepatopatas graves podem cursar com INR elevado, mas não devem ser considerados anticoagulados naturalmente; ainda assim, podem evoluir eventualmente com hemorragia intracraniana. A prevenção da HIP nesses pacientes é prejudicada pela dificuldade em se padronizar exames de anticoagulação para essa população. O uso de agentes catecolaminérgicos como fenilefrina também foi um fator independente para AVCh em alguns estudos. A avaliação prognóstica de pacientes com HIP pode ser realizada com diferentes instrumentos. A escala do Instituto Nacional de Saúde Americano, o NIH Stroke Scale (NIHSS), comumente utilizada para acidente vascular cerebral isquêmico, também pode ser útil na HIP. No entanto, os pacientes com HIP mais frequentemente têm rebaixamento do nível de consciência na apresentação inicial, e isso pode diminuir a utilidade do NIHSS. A escala mais amplamente utilizada e validada externamente é o ICH (Intracerebral Hemorrhage) Score. - Escala de Glasgow: 3 a 4 (2 pontos); 5 a 12 (1 ponto); 13 a 15 (0). - Volume do hematoma ≥ 30 cm3 (1), < 30 cm3 (0). - Extensão intraventricular da hemorragia presente (1); ausente (0). - Origem infratentorial (1 ponto). - Idade > 80 anos (1 ponto). MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A apresentação clássica da HIP se dá com aparecimento repentino de cefaleia e vômitos com déficits neurológicos focais com progressão em minutos. A cefaleia, entretanto, é menos frequente do que em pacientes com hemorragia subaracnóidea, com cefaleia e vômitos ocorrendo em cerca de 50% dos pacientes. Convulsões são descritas em 4 a 29% dos pacientes, usualmente nos primeiros dias de apresentação (principalmente em hemorragias lobares). As manifestações neurológicas são dependentes do local da HIP. As localizações mais frequentes são: - Putâmen e globo pálido (35 a 56%). - Cápsula interna (46%). - Subcorticais (30%). - Cápsula externa (27%). - Cerebelo (16%). - Tálamo (15 a 31%). - Lobar (14%). - Infratentorial (7%). - Ponte (5 a 12%). Em pacientes com rebaixamento do nível de consciência, a presença de vômitos, pressão arterial sistólica (PAS) > 220 mmHg, cefaleia intensa, coma ou diminuição do nível de consciência, bem como a progressão dos sintomas ao longo de minutos ou horas, sugerem o diagnóstico de HIP. O rebaixamento de nível de consciência ao chegar no DE é um sinal de prognóstico ruim, mas pacientes inicialmente alertas podem, em 25% dos casos, apresentar deterioração do nível de consciência durante a evolução, que ocorre principalmente por expansão do hematoma. Extensão intraventricular ocorre em 30 a 60% dos casos e é associada a pior prognóstico. Um exame físico inicial estruturado, como o proposto pela escala NIHSS para AVC isquêmico, pode ser concluído em minutos e fornece uma quantificação que permite a comunicação fácil da gravidade do evento para outros cuidadores. Outra opção é utilizar a escala de coma de Glasgow. Deve-se ainda realizar um exame físico geral avaliando pupilas, coração, pulmões, abdome e extremidades, com exame neurológico focalizado sumário. Os pacientes podem apresentar deterioração neurológica; assim, é importante determinar a avaliação inicial do paciente e comparar com a sua evolução posterior. EXAMES COMPLEMENTARES Os pacientes devem ser submetidos a exames laboratoriais que incluem função renal, eletrólitos, hemograma, coagulograma e glicemia, além de eletrocardiograma, que deve ser realizado em todos os pacientes. Outros exames recomendados incluem: - Troponina (auxilia na determinação do prognóstico). - Exame toxicológico (detecta abuso de cocaína e outras drogas simpaticomiméticas). - Exame de urina e urocultura, bem como teste de gravidez para mulheres em idade fértil. - Exames de neuroimagem são obrigatórios em todos os pacientes, podendo ser realizada a tomografia computadorizada de crânio sem contraste (TC) ou ressonância magnética (RM) de crânio. A TC é muito sensível para a identificação de hemorragia aguda e é considerada o “padrão-ouro”. A TC de crânio é usualmente o exame de escolha por conta de sua rapidez e praticidade. Alterações incluem lesões hiperdensas que representam o sangramento. A RM é uma opção e mostra sinal hiperintenso em imagens em T2 com gradiente de eco; a sensibilidade e a acurácia se aproximam de 100% em mãos experientes. A presença do chamado “spot sign”, que é uma área focal de realce com contraste, e o “swirl sign”, que representa áreas não realçadas por contraste, arredondadas, lineares ou irregulares, é preditivo de expansão hemorrágica. O atendimento pré-hospitalar deve notificar o DE quando da chegada iminente de um potencial paciente com AVC para que os fluxos sejam devidamente preparados. Esse aviso prévio reduz de forma significativa o tempo para realizar a tomografia computadorizada (TC) no DE. A realização de TC no transporte é feita por alguns serviços, principalmente no exterior, e melhora o cuidado. Quando o quadroclínico é muito sugestivo de HIP secundária à hipertensão arterial, ou seja, a localização é típica e o paciente apresenta pico hipertensivo à admissão, em geral nenhum outro exame é necessário para se estabelecer sua etiologia. Do contrário, deve-se realizar uma angiografia digital ou, em casos selecionados, a angiografia por ressonância magnética, visando pesquisar causas mais raras de HIP, como malformações arteriovenosas. A angiorressonância magnética, a angiorressonância magnética venosa e a angiotomografia ou angiotomografia venosa podem identificar causas específicas de hemorragia, incluindo malformações arteriovenosas, tumores, doença de Moya-Moya e trombose venosa cerebral. A angiotomografia tem sido mais estudada que a angiorressonância, e é bastante sensível e específica para a detecção de anormalidades vasculares. A realização de angiografia cerebral poderá ser considerada se a suspeita clínica de anormalidade vascular for alta ou se estudos não invasivos forem sugestivos de uma lesão. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL A HIP deve ser considerada em todos os pacientes com alteração do nível de consciência de rápida instalação ou pacientes com cefaleia intensa de instalação rápida, principalmente se associada com déficit neurológico associado. Neoplasias intracranianas podem cursar com cefaleia e déficit neurológico associado, mas a sua instalação costuma ser mais gradual e lenta. Um outro diagnóstico diferencial que deve ser lembrado são os êmbolos sépticos, que podem levar a aneurismas micóticos e sepse. Tais aneurismas tendem a ser mais distais que os aneurismas cerebrais espontâneos ou aqueles causados por meningite. TRATAMENTO Os pacientes com suspeita de HIP devem prontamente realizar neuroimagem e ser monitorizados e no atendimento pré-hospitalar o foco é na realização das medidas de suporte e manutenção da perviedade de vias aéreas. Os pacientes com coagulopatia ou plaquetopenia grave devem receber rapidamente terapia com fator apropriado de substituição ou transfusão de plaquetas, respectivamente. Em caso de HIP em pacientes que estavam recebendo heparina intravenosa, o sulfato de protamina pode ser administrado em injeção intravenosa a uma dose de 1 mg/100 U de heparina (dose máxima de 50 mg), tendo ajuste com base no tempo decorrido desde a interrupção da infusão de heparina; uma dose semelhante pode ser utilizada em pacientes que recebem heparina de baixo peso molecular (HBPM), mas a reversão é incompleta. Os pacientes com HIP, cujo INR é elevado por causa do uso de antagonista de vitamina K, devem ter esse uso descontinuado, receber terapia para substituir fatores dependentes de vitamina K e corrigir o INR, bem como receber vitamina K endovenosa. Em portadores de HIP com INR alterado, a correção rápida dos níveis de INR é recomendada. Nesse caso, é possível utilizar o complexo concentrado de protrombina (CCP) e o complexo concentrado de protrombina ativado (primeiras escolhas) ou plasma fresco congelado (PFC) em dose de 15 a 20 mL/kg, juntamente com a vitamina K. A administração de vitamina K intravenosa é insuficiente para a reversão nas primeiras horas, mas deve fazer parte de todas as estratégias agudas de reversão de anticoagulação por antagonistas de vitamina K, em uma dose de 5 a 10 mg, em geral administrada lentamente por via intravenosa. O início da ação começa em 2 horas e dura, no máximo, 24 horas se a função hepática for normal. O plasma fresco congelado tem um risco de reações alérgicas e infecciosas e, muitas vezes, requer grandes volumes para correção completa do INR, ainda que 17% dos pacientes, após 24 horas, ainda tenham INR > 1,4. Novas estratégias para corrigir coagulopatias incluem o complexo concentrado de protrombina (CCP) e o complexo concentrado de protrombina ativado. Esta última medicação foi originalmente desenvolvida para o tratamento da deficiência de fator IX (hemofilia B). Os CCPs contêm os fatores II, IX, e X e podem ser administrados rapidamente em um pequeno volume (20-40 mL) com rápida normalização do INR (dentro de minutos) em pacientes utilizando antagonistas de vitamina K. Embora os estudos tenham mostrado correção mais rápida do INR com vitamina K e CCP do que com vitamina K e plasma fresco congelado, nenhum estudo demonstrou claramente uma melhora nos desfechos clínicos do paciente; dessa forma, apesar de segunda escolha, o plasma fresco congelado é uma alternativa aceitável. O alvo de INR específico em relação a antagonistas de vitamina K para correção na HIP não é claro, com alvos recomendados que variam de < 1,3 a < 1,5, dependendo do autor. Não existem estudos randomizados de agentes para reversão para anticoagulantes mais recentes porque esses agentes só estão disponíveis por alguns anos, sendo a experiência com a reversão limitada. Atualmente, agentes disponíveis nos Estados Unidos (rivaroxaban e apixaban) têm meia-vida relativamente curta, variando de 5 a 15 horas. Estratégias potenciais de reversão usando CCP, ou fator VIIa recombinante, podem ser consideradas, mas não houve benefícios com o fator VIIa recombinante. O plasma fresco congelado é útil nessas situações, mas a vitamina K não é recomendada. O carvão ativado pode ser usado se a dose mais recente de dabigatrana, apixaban ou rivaroxaban foi usada há poucas horas. Hemodiálise é uma opção para dabigatrana, mas nem tanto para rivaroxaban ou apixaban, já que estes são fortemente ligados a proteínas. O uso de rotina do ácido transnexâmico também não demonstrou benefício no estudo TICH-2 com 2.300 pacientes, assim não é recomendado de rotina. O uso de agentes antiplaquetários não foi associado com a expansão do hematoma ou com resultado clínico desfavorável na maioria dos estudos, embora possam causar expansão do hematoma. A monitorização da função plaquetária pode ser útil para avaliar a exposição antiplaquetária e ajudar a tomar decisões em relação a intervenções hemostáticas nesses pacientes. De qualquer forma, os antiagregantes plaquetários devem ser descontinuados na fase aguda da HIP. Em relação à transfusão plaquetária, não existe ainda evidência de benefício e o estudo PATCH mostrou maior risco de dependência funcional em pacientes que receberam transfusão. Dessa forma, a transfusão plaquetária não deve ser utilizada como rotina. O acetato de desmopressina reverte o efeito do AAS e melhora a atividade plaquetária em outras condições, mas não foi formalmente estudado em doentes com HIP. A HIP pode ocorrer após trombólise e está associada a um prognóstico ruim; não existem protocolos de tratamento padronizados. O plasma fresco congelado é indicado, e o crioprecipitado costuma ser reservado para pacientes cursando com hipofibrinogenemia. A hipertensão grave está associada ao crescimento do hematoma após a TC de diagnóstico e piores resultados. Isso implica que o aumento da PA pode causar maior extravasamento de sangue para o cérebro. A redução da PA pode reduzir o crescimento do hematoma, mas poderia aumentar áreas de isquemia da lesão. Os níveis pressóricos são, com frequência, elevados na fase aguda da HIP devido a uma variedade de fatores, incluindo estresse, dor e aumento da PIC, entre outros. Estudos observacionais não mostraram nenhuma penumbra isquêmica significativa no HIP, ao contrário do AVC isquêmico, de modo que não ocorreu diminuição da pressão de perfusão sanguínea cerebral na região peri-hematoma relacionada com redução intensiva da PA para um alvo de PAS de < 140 mmHg dentro de algumas horas da HIP.