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Geovana Sanches, TXXIV INCONTINÊNCIA URINÁRIA DEFINIÇÃO A incontinência urinária refere-se a qualquer perda involuntária de urina, desde um pequeno escape até a completa incapacidade de contar a diurese. Pode ocorrer com ou sem alerta. Nem sempre diz respeito a uma doença, mas quando é frequente e incontrolável, torna-se uma patologia que diminui a produtividade dessas mulheres, interfere nas relações sociais e sexuais e pode levar, inclusive, a depressão. PREVALÊNCIA • Queixa relativamente comum • Envelhecimento da população à aumento no número de casos o Além da infância, a partir da menopausa a perda urinária passa a ser mais prevalente. CICLO NORMAL DA MICÇÃO Enchimento da bexiga • Músculo detrusor relaxado • Uretra e assoalho pélvico contraídos 1º desejo miccional O primeiro desejo indica que a bexiga está cheia de urina. Mas, ainda é possível segurá-la voluntariamente. • Músculo detrusor relaxado • Uretra e assoalho pélvico mais contraídos o Possível contrair voluntariamente para não deixar a urina escapar Desejo normal Quando o músculo detrusor está muito esticado, não é mais possível mantê-lo relaxado. • Músculo detrusor contrai • Uretra e assoalho pélvico relaxam A partir do momento em que a pessoa urina, a fase de enchimento se inicia novamente. CONTINÊNCIA URINÁRIA Anatomia • Músculo detrusor: é o músculo da bexiga • Trígono vesical: contém os dois ureteres • Uretra: está numa posição mecânica que impede a perda de urina o O esfíncter externo é composto pelos músculos do assoalho pélvico o O esfíncter interno é uma espécie de válvula – depende do esfíncter externo para funcionar bem o A uretra fica “amarrada” para impedir a perda urinária Sistema simpático e parassimpático O sistema nervoso autônomo, através do simpático, controla o assoalho pélvico e promove armazenamento (relaxa o detrusor e contrai o esfíncter) por meio dos receptores α e β. Já através do parassimpático ocorre o esvaziamento da bexiga (contração do detrusor e relaxamento do esfíncter) por meio dos receptores muscarínicos e nicotínicos. O SN somático promove controle do assoalho e esfíncter externo pelo nervo pudendo. Geovana Sanches, TXXIV Mecanismos de continência • Anatomia pélvica íntegra o Posição correta da uretra • Músculo detrusor o Com correto funcionamento • SNC íntegro TIPOS DE INCONTINÊNCIA A Incontinência urinária ocorre quando há falha em algum dos mecanismos de continência. • Incontinência de esforço (50%) • Incontinência de urgência (11%) • Incontinência mista (36%) o Urgência + esforço • Outras (3%) FATORES DE RISCO • Idade o Mais de 43% dos casos ocorrem em mulheres acima dos 34 anos • Raça o Maior prevalência em mulheres brancas, quando comparada às negras • Parto normal associado a trauma o Como lesão da musculatura dos esfíncteres • Fatores hereditários o História familiar presente aumenta 2x o risco • Menopausa o O hipoestrogenismo prejudica o tônus do assoalho pélvico • Obesidade o O aumento da pressão abdominal leva ao aumento da pressão vesical • Doenças crônicas o Tussígenas, como DPOC ou HAS em uso de iECA, aumentam a pressão vesical; • Obstipação o Provoca aumento da pressão intra- abdominal e, consequentemente, da vesical • Cirurgias prévias • Hábitos o Tabagismo: promove tosse crônica e prejudica os efeitos do estrógeno o Cafeína: aumenta a repleção vesical por inibir o ADH o Exercícios físicos intensos INCONTINÊNCIA DE URGÊNCIA (OU DO DETRUSOR) A incontinência de urgência está relacionada ao músculo detrusor. Em 90% dos casos é idiopática, mas pode decorrer da síndrome da bexiga hiperativa. Ocorre quando há contrações involuntárias fora do momento de urinar, fazendo com que a pressão vesical seja maior do que a uretral em momentos inoportunos. Com isso, o primeiro desejo miccional é muito intenso e o indivíduo tem que correr para ir ao banheiro, caso contrário irá perder urina. Nesses casos, a paciente perde grandes quantidades de urina e não apenas algumas gotas. Hiperatividade do detrusor • Receptores muscarínicos: contração o Na hiperatividade, há maior atividade desses receptores • Receptores adrenérgicos: relaxamento Bexiga hiperativa Caracteriza-se pela irritabilidade do músculo detrusor, que leva a contrações enquanto a bexiga está enchendo – gera vários primeiros desejos miccionais e aumenta a continuamente a exigência da continência uretral. INCONTINÊNCIA DE ESFORÇO (OU URETRAL) A incontinência urinária de esforço está relacionada à uretra e ao assoalho pélvico. Ocorre geralmente por hipermobilidade do colo vesical e da uretra, se não conseguem se manter fixos e, por conseguinte, não conseguem se manter ocluídos. Pode se dar por uma deficiência anatômica do esfíncter, sobretudo do externo. Assim, com a angulação da uretra flácida, ela se move e há perda de urina conforme há aumento da pressão do detrusor. Esse tipo de incontinência está mais relacionado a idade e gera queixas como a perda de urina ao tossir, dar risada ou pular; nem todo esforço provoca perda de urina. Q tip test • Cotonete introduzido na uretra Geovana Sanches, TXXIV • Solicita-se que a paciente faça a manobra de valsalva, a qual aumenta a pressão intrabdominal à aumento da pressão do detrusor à mobilidade da uretra o Mobilidade > 30º à indica hipermobilidade da uretra DIAGNÓSTICO Anamnese • Há perda de urina? • Como ela ocorre? Em que condições? o Só aos esforços? o A partir de uma vontade súbita? • Utilização de protetores diários ou fraldas? Qual a frequência da troca? A melhor maneira de solucionar as perguntas relacionadas a incontinência é através do preenchimento do diário miccional, em qual a paciente anota o horário em que ela ingere líquidos e quando tem a perda. Exame físico • Avaliar perda de urina durante manobra de esforço (Valsalva) Q-tip test Consiste em introduzir um cotonete na uretra da paciente e solicitar que ela realize a manobra de Valsalva, causando aumento da pressão intrabominal. Assim, há aumento da pressão do detrusor e mobilização da uretra, gerando uma angulação do cotonete pelas contrações musculares. • Mobilidade > 30º indica hipermobilidade da uretra Prova de Bonney Consiste em introduzir dois dedos no canal vaginal e sustentar a uretra sem pressioná-la. A seguir, solicita-se que a paciente realize manobra de esforço – se não houver perda, pode-se inferir que os dedos realizaram a sustentação necessária para retardar a hipermobilidade. Exames laboratoriais • Urina I e urocultura para excluir infecção de urina Estudo urodinâmico O estudo urodinâmico é o padrão ouro para identificação da causa da incontinência, bem como para a malhor escolha terapêutica. Todavia, é um exame completo, invasivo e desagradável. Está indicado para falhas no tratamento anterior, história ou exame físico inconclusivos, avaliação pré-operatória e suspeita de bexiga neurogênica. Modo de realização • Injeta-se uma sonda uretral no interior da bexiga da paciente, a partir da qual será injetado soro fisiológico para simular o enchimento vesical. • Dentro da bexiga também há um transdutor, o qual medirá a pressão intravesical conforme ela é preenchida. • Há outro transdutor no reto, o qual mede a pressão intra-abdominal (parâmetro para medir a pressão sobre o músculo detrusor) • Os dados coletados são inseridos em um computador, o qual gera um gráfico do exame. à Classificação da pressão de perda de Valsalva Valor da pressão Significado clínico < 60 cm H2O Uretra normal, lesão intrínseca do esfíncter uretral 60 a 90 cm H2O Faixa de dúvida Geovana Sanches, TXXIV > 90 cm H2O Ausência de lesão intrínseca do esfíncter uretral à Exame normal A linha vermelha indica a pressão vesical, a verde a pressãoabdominal, e a rosa a pressão sobre o detrusor. Os picos de pressão se referem a momentos em que foi solicitado que a paciente realize alguma manobra, como tossir ou Valsalva. Durante esses picos, entretanto, não houve perda de urina, indicando um exame normal. à Hiperatividade do Detrusor A hiperatividade do detrusor é identificada ao exame em que se identifica aumento da pressão vesical e do detrusor em diversos momentos, mesmo com a paciente em repouso e sem realizar testes de esforço. Assim, diagnostica- se a incontinência de urgência. à Incontinência de esforço Na incontinência de esforço, verifica-se aumento da pressão vesical em decorrência do aumento da pressão abdominal e, consequentemente, a perda de urina. TRATAMENTO o tratamento da incontinência urinária é multidisciplinar, devendo incluir médicos, fisioterapeutas e enfermeiros. Medidas gerais (adjuvantes) • Diminuição da ingesta hídrica • Eliminação da cafeína, refrigerantes e derivados cítricos da dieta • Ir ao banheiro a cada 2h • Fisioterapia para o fortalecimento da musculatura relacionada à micção Incontinência de urgência Os tratamentos medicamentosos são mais direcionados à hiperatividade do detrusor. Os receptores colinérgicos promovem a contração muscular vesical e, na hiperatividade, eles estão muito sensíveis. As medicações de escolha são, portanto, aquelas que atuam antagonizando os receptores colinérgicos. • Antimuscarínicos: fazem com que o detrusor fique menos reativo e mais relaxado o Medicações § Darifenacina § Tolterodina § Oxibutina o Efeitos colaterais: boca seca e constipação o Contraindicação: glaucoma de ângulo fechado e arritmias • Antidepressivos tricíclicos, como amitriptilina, cujo efeito colateral é o bloqueio colinérgico • Tratamento intravesical com toxina botulínica: melhora os sintomas, mas seus efeitos são limitados a sucessivas aplicações (muito caro) Menopausadas • Estrogênio tópico o Melhora o trofismo vaginal de forma a manter a pressão uretral o Não age diretamente sobre os receptores o Tratamento adjuvante tanto para incontinência de esforço, quanto de urgência Geovana Sanches, TXXIV Incontinência de esforço O tratamento da incontinência de esforço é cirúrgico, visto que o problema é anatômico. A cirurgia pode ser feita via abdominal (atualmente em desuso), através das técnicas de Burch ou MMK, ou via vaginal, pela técnica de Kelly Kennedy de colpoperineoplastia anterior (plástica da parede vaginal anterior). Slings de uretra média • Tratamento de escolha • É feito um suporte com uma fita para fixar a uretra; também pode ser feita com aponeurose • Não é realizada quando a pressão da perda é baixa o Caso a paciente não tenha incontinência de esforço, o sling causa obstrução ao invés de sustentação. Laser • Aumenta o trofismo e a produção de colágeno • Usado para rejuvenescimento vaginal Incontinência mista Nos casos de incontinência mista, trata-se inicialmente o que é mais incômodo – em geral, a hiperatividade do detrusor.