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1 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINA Incontinência e Prolapso 1M3 – INCONTINÊNCIA URINÁRIA E PROLAPSO DE ÓRGÃOS PÉLVICOS INCONTINÊNCIA URINÁRIA FISIOLOGIA DA MICÇÃO: Para entender a incontinência, é necessário entender a micção e a continência. Primeiro estamos em um estado de continência. Na bexiga existem 2 forças: Existe uma força empurrando a urina para fora e outra força fechando a uretra para a urina não sair. Quando estamos segurando a urina, exercendo a continência, a força que empurra a urina para fora é menor que a força que fecha a uretra. Quando queremos urinar, relaxamos a força de fechamento uretral ao mesmo tempo em que aumenta a força sobre a bexiga e a urina sai. Neurotransmissores e receptores: tem dupla inervação na bexiga. Na bexiga tem receptor colinérgico e noradrenérgico. No canal da uretra tem receptor NE (noraepinefrina) e ACh. Um desses sistemas age pela micção (ACh) e outro pela continência (NE). Adrenalina, sistema simpático, reação de luta e fuga – NE relaxa o músculo da bexiga e contrai o esfíncter. ACh relaxa o esfíncter e contrai o músculo da bexiga (detrusor). Para urinar: diminui o estimulo noradrenergico e aumenta o estimulo acetilcolinergico – contração do detrusor e relaxamento do esfíncter. FISIOLOGIA DA CONTINÊNCIA: Para manter e não perder urina sem querer: inibição do detrusor através da NE forte e ACh fraca. Existe contração esfincteriana reflexa (involuntária) e voluntária – a bexiga dá para sinal para o cérebro de que o involuntário não é suficiente e isso aumenta a força esfincteriana. • Detrusor inibido • Contração esfincteriana reflexa • Contração esfincteriana voluntária Existem outros fatores importantes: O colo vesical (saída da bexiga) é intra-abdominal: quando o detrusor está relaxado pq não é hora de urinar e está malhando, contrai a barriga ao fazer esforço (manobra de valsava – aumentando a pressão intrabdominal) e a bexiga está dentro do abdome, então essa pressão do abdome se distribui para a bexiga e mesmo sem contrair o detrusor, vai aumentar a força que empurra a urina para fora. Para que nesse momento em que há aumento da pressão abdominal (exercício, tosse, espirro, riso), esse aumento sobre a bexiga não faça perder urina, é importante que o começo da uretra esteja dentro do abdome também. Então quanto está fazendo esforço, e a pressão da barriga aumenta e empurra a urina para fora, essa pressão também se distribui para o colo vesical e aumenta a pressão de fechamento do esfíncter – 2 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINA então equilibra: a mesma pressão que empurra urina para fora, empurra o esfíncter para se fechar. Isso é importante pq quando a pct perder sustentação da bexiga e o colo vesical sair para fora do abdome, o aumento da pressão intrabdominal vai empurrar a urina para fora, mas não contribui para o fechamento do esfíncter. • Colo vesical intra-abdominal Ainda existe o processo de acotovelamento da uretra. PUL – osso púbico, ligamento pulbouretral que sai do púbis, passa atras da uretra e volta para o púbis. Esse ligamento segura a uretra nessa posição. Quando a pressão intrabdominal aumenta, por conta da forma que a bexiga e o útero estão colados lá dentro, a tendência da bexiga é ir para trás e para baixo. Quando ela faz isso, se o ligamento está bem posicionado, a uretra se dobra e isso impede a saída da urina. Se o ligamento começa a ficar frouxo, quando a bexiga desce, a uretra desce junto e fica reta perdendo o acotovelamento. • Acotovelamento da uretra – ligamento pulbouretral íntegro • Todos esses mecanismos colaboram para manter a continência urinária. Existem motivos neurológicos e da estrutura de sustentação. INCONTINÊNCIA URINÁRIA • Qualquer perda involuntária de urina. Prevalência alta – em algum momento da vida, a maior parte das pessoas vão apresentar perda involuntária de urina. • Prevalência 15-55% - diferentes definições nos estudos. • ¼ procura atendimento: vergonha, acesso limitado, rastreamento inadequado. • Perda de qualidade de vida, distúrbios psicológicos, afastamento social. 2,5x chance de ser internada em asilo nos EUA. FATORES DE RISCO: • Idade • Menopausa • Gestação – perda de qualidade da estrutura de sustentação pélvica • Parto vaginal • IMC elevado – aumenta pressão intrabdominal • DPOC – aumenta pressão intrabdominal • Tabagismo Que danificam o sistema nervoso: • Diabetes mellitus • Lesão neurológica • Retenção urinária crônica • Malformações lombossacrais 3 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINA • Histerectomia É importante separar 2 doenças: incontinência aos esforços e bexiga hiperativa – elas são diferentes, mas acontecem juntas frequentemente. E a pct que tem bexiga hiperativa muitas vezes vai ter a incontinência de urgência. INCONTINÊNCIA AOS ESFORÇOS: • Perda de pequenas quantidades de urina concomitante com aumento da pressão intra- abdominal: espirro, tosse, exercício, relação sexual. • Aumento fisiológico da pressão intra- abdominal leva a perda por baixa pressão de fechamento uretral Era pra conseguir conter por ser um aumento fisiológico, mas a baixa pressão de fechamento é a causa de perder. É um conceito da queixa da paciente. BEXIGA HIPERATIVA: Hiperatividade do músculo detrusor. Músculo que contrai para urinar. • Urgência, frequência, noctúria, urgoincontinência. • Urgência: necessidade súbita e imperiosa de urinar, frequentemente desencadeada por esforço, frio, contato com água, mudança de decúbito. • Frequência urinária < 2h com consumo normal de líquidos. • Noctúria: mais de um despertar por noite para urinar. É uma vontade muito forte de urinar, não necessariamente a pct perde urina. Tem pessoas que tem bexiga hiperativa, mas não tem incontinência. Mas tem pcts que chegam ao ponto de perder urina – urgoincontinência (incontinência de urgência). URGOINCONTINÊNCIA: • Após episódio de urgência miccional, perda em geral de grande parte do conteúdo vesical. • Pressão anormalmente alta do detrusor supera pressão de fechamento uretral possivelmente normal. OUTRAS CAUSAS DE INCONTINÊNCIA: • Incontinência funcional – fica muito tempo em pé • Iatrogenia – uso de hidroclorotiazida • Transbordamento: retenção urinária, faz encher demais e escapa • Fístula: cirurgia, radioterapia, trauma obstétrico. • Malformação do trato urogenital. • Infecção urinária • Atrofia urogenital – pct que menopausou, precisa excluir antes de fechar o diagnóstico de incontinência. (hormônio local resolve atrofia) AVALIAÇÃO CLÍNICA: • Sintomas o Incontinência aos esforços, urgoincontinência ou incontinência mista. A pct relata que as duas coisas acontecem – quando tosse perde um pouco e as vezes dá uma vontade muito forte e acaba perdendo tudo – mista. o Urgência, noctúria, frequência. o Perda insensível – não sente a saída, só percebe a calcinha molhada, sugere fístula. o Outros sintomas urinários (Esvaziamento incompleto, digitação, ITU de repetição). • Hábitos alimentares: café, gaseificados, cítricos, álcool, alta ingesta hídrica – favorecem incontinência • Hábitos miccionais: retenção voluntária, ocupação, planejamento (sempre procurando banheiro, planejando quando vai fazer xixi), uso de PAD/fraldas. • História pregressa: paridade, menopausa, comorbidades, cirurgia, etc. Lembrar da incontinência funcional, mesmo a pct que não tem bexiga hiperativa, existem medicamentos que vão atrapalhar. Diário miccional: • Registrar todas as tomadas de líquido 4 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINA • Registrar perdas e sintomatologia • Registrar micção voluntária AVALIAÇÃO OBJETIVA: • IMC • Avaliar trofismo urogenital – mucosa pálida é atrófica• Localizar fístulas (teste do corante) – injeta na bexiga e observa se saí • Presenciar perda aos esforços: mais difícil acontecer deitada – pedir para tossir, fazer valsava • Avaliar prolapsos de órgãos pélvicos • Laboratório: urina 1 e urocultura – afastar infecção urinária • Citoscopia – corpo estranho, cistite intersticial • Cistometria • Avaliação de resíduo miccional • PAD TEST • Estudos urodinâmicos ESTUDO URODINÂMICO: • “A bexiga não é uma testemunha confiável” Richard Turner-Warwick • 20% das pacientes com queixas somente de esforços apresentam HD ao EUD. HD – hiperatividade do detrusor EUD – Estudo urodinâmico • Baixa complacência vesical, obstrução infravesical, hipoatividade detrusora – só se vê isso com EUD. O estudo urodinâmico é desconfortável. A pct senta, fica com uma tigela embaixo da uretra para urinar e essa tigela conta fluxo da urina que sai e coloca 2 transdutores – um pela vagina/ânus que dá a pressão intrabdominal e outro na bexiga que dá a pressão vesical. Ainda é colocado uma sonda na bexiga para encher com soro. Então vai enchendo a bexiga e pede para a pct dizer quando sentir vontade de urinar. Quando a bexiga estiver bem cheia, pede para a pct tossir e observa se há perca de urina. Após isso, pede para urinar normalmente e registra o fluxo. Isso dá 2 gráficos: • Da micção – urofluxometria Volume urinário vai crescendo, acabou a micção. Fluxo sobe, fica mais forte e começa a acabar o fluxo diminui. 5 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINA Pct com obstrução (mais comum no homem) – gráfico azul pequeno: faz esforço, sai um pouco, para. Incontinência urinaria aos esforços urodinâmica • Perdas < 60 mmHg: defeito esfincteriano Flow – fluxo de urina, mostra os momentos de perda. Pves – azul – transdutor de pressão intravesical Pabd – verde – abdome – transdutor na vagina ou ânus mostrando a pressão abdominal Pde = pressão do detrusor. Como essa pressão é traçada? Quando a pressão da barriga aumenta, a da bexiga aumenta, então toda vez que tem aumento da pressão vesical, e tem o mesmo aumento na pressão intrabdominal, isso foi a barriga apertando a bexiga. No final do gráfico, há o aumento da pressão vesical e não há aumento da pressão intrabdominal. O que faz a pressão da bexiga aumentar sem a pressão do abdome aumentar? O músculo detrusor. Então a linha de pressão do detrusor, na verdade é a vesical menos a abdominal. Essa pct tem uma incontinência urinária aos esforços urodinâmica pq ela não tem contração involuntária do detrusor, só que quando tosse ela tem uma perda. Hiperatividade detrusora: Vermelho: pressão dentro da bexiga Verde: pressão dentro do abdome. Enquanto a bexiga está sob altas pressões, o abdome está quieto. O que está aumentando a pressão da bexiga é o detrusor. A curva do detrusor é o resultado da vesical menos a abdominal. Tem bexiga hiperativa, incontinência de urgência. Incontinência mista: Tem perda aos esforços. E tem hiperatividade detrusora. São 3 traçados: abdome, bexiga e detrusor. Se tem contração do detrusor antes da etapa final de micção é hiperatividade do detrusor. Se existe fluxo de urina quando tosse é perda aos esforços. Se existe os dois é incontinência mista. TRATAMENTO: Primeira linha: conservador • Perda de peso • Suspender medicamentos implicados (diuréticos) 6 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINA • Mudanças de hábitos alimentares • Mudanças de hábitos miccionais • Fisioterapia pélvica Se o tratamento conservador falha, é necessário lançar mão de outras coisas. A bexiga hiperativa é um problema de hiperativação do detrusor, e isso é consequência geralmente de defeitos neurológicos então é necessário agir nos receptores colinérgicos e noradrenérgicos para diminuir a atividade do detrusor. Os antimuscarínicos fazem bloqueios nos receptores no corpo inteiro, levando à diminuição do detrusor e aumento da atividade do esfíncter causando continência, mas vai gerar vários efeitos colaterais. É anticolinérgico pq o sistema parassimpático faz a micção e beta-3-agonista pq o sistema simpático faz a continência. Tratamento IUU: • Antimuscarínicos clássicos: oxibutinina, tolterodina • Bloqueio em Diferentes receptores muscarinicos • Efetos colaterais: boca seca, olhos secos, taquicardia, confusão mental • Cautela em idosos, contraindicado em glaucoma – tende a causar delírio, confusão, aumento do risco de queda. • Menos efeitos colaterais: • Antimuscarinicos seletivos m3: Darifenacina, solifenacina, tolterodina • Beta-3-agonistas: Mirabegrona • Toxina botulínica – no detrusor • Neuromodulação sacral – inibe o detrusor Tratamento IUE: Cirúrgico: Avaliar estudo urodinâmico antes de procedimento Não adianta medicamento. • burch, marshal-marchetti-krantz: reforça sustentação do colo vesical • Sling de uretra média (tvt e tot): fibrose induzida pela fita recompõe força de ligamento pubouretral Incontinência urinária mista: • Primeira linha também conservador • Cirurgia para esforço resolve urgência em cerca de 67% dos casos • Pode permanecer urgência ou piorar • Pode ser necessária cirurgia + medicamento PROLAPSO DE ÓRGÃOS PÉLVICOS: SUSTENTAÇÃO VAGINAL: • Nível 1 – ligamentos cardinais e uterossacros (paramétrio - útero) • Nível 2 - ligamento cardinais e uterosacros (paracolpo - vagina) • Nível 3 – assoalho pélvico Paramétrio parte que está no útero. Paracolpo parte que está na vagina. Então o primeiro nível de sustentação da vagina é o paramétrio, que vem do próprio útero, uterossacro e cardinais para o lado. Esses ligamentos mantém o útero lá em cima e acabam sustentando a vagina tb. O nível 2 são os mesmos ligamentos, mas já colados na própria vagina. O nível 3 – próprio assoalho pélvico, parte muscular – sustenta a porção mais inferior da bexiga. 7 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINA A vagina não consegue manter sua integridade por si só. O que sustenta são essas estruturas envolta (assoalho, paracolpo e paramétrio) – se qualquer uma dessas se romper, abre caminho para que as estruturas que estão envolta da vagina empurrem ela para dentro e aí tem o prolapso. PROLAPSO DE ÓRGÃOS PÉLVICOS: • Eversão da vagina com deslocamento de órgão pélvico em seu interior Esse tecido é a parede vaginal – a bexiga cai para dentro da vagina e a empurra para fora. FATORES DE RISCO: • Gestação • Parto vaginal • Menopausa • Idade • Aumento crônico da pressão intra-abdominal (DPOC, constipação, obesidade, ocupação) • Trauma do soalho pélvico • Distúrbios do tecido conectivo • Malformações lombossacrais CLASSIFICAÇÃO: Descrição do conteúdo: (nome do que vem dentro da vagina) • Cistocele (bexiga) – bexiga dentro da vagina • Retocele (reto) – reto empurrando a parede posterior da vagina. • Enterocele (intestino) – pct que tirou o útero e aí a alça do delgado empurra a vagina. • Prolapso uterino – se o útero que empurra a vagina. 8 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINA Melhor descrever o que é visto: a parede vaginal prolapsada • Anterior • Posterior • Uterino • De cúpula vaginal – se pct retirou o útero e é vagina saindo DESCRIÇÃO – POP-Q (PELVIC ORGAN PROLAPSE – QUANTIFICATION Pontos Aa, Ba, Ap, Bp, C, D • A: ponto a 3 cm do hímen • B: ponto acima do A que está mais abaixo • a: parede anterior • p: parede posterior • C: colo ou cúpula vaginal • D: fundo de saco de douglas Medidas: • CVT (comprimento vaginal total) • HG (hiato genital) – distância entre uretra e ânus • CP (corpo perineal) – distância entre vagina e ânus Normal: DESCRIÇÃO - NA PRÁTICA: • Anterior • Apical • Posterior • Grau 1, 2 ou 3 9 Laís Flauzino | GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA | 7°P MEDICINAGrau 1: everte até no máximo 1cm do hímen para dentro– não saiu para fora ainda. Grau 2: de 1cm do hímen para dentro até 1cm do hímen para fora. Grau 3: de 1cm para fora até 1cm do comprimento vaginal total. – saiu bastante, mas não foi total. Grau 4: total – vagina toda para fora. QUADRO CLÍNICO: • Sensação de abaulamento – sente como algo empurrando na vagina • Sintomas urinários – incontinência ou retenção • Sintomas intestinais – retenção • Distúrbios sexuais • Dor TRATAMENTO: Prolapsos grau 1, assintomáticos, constatados pelo médico: • Não tratar • Não mencionar como patologia Prolapsos clínicos: • Fisioterapia • Cirurgia • pessários Fisioterapia: • resultados pouco expressivos • Evitam progressão e recidiva pós cirúrgica Cirurgia: Procedimento obliterativo (colpocleise) • Definitivo e seguro – fecha a vagina • Discutir com a paciente, método de exceção!!! Procedimento reconstrutivo: • Colporrafias anteriores • Colporrafias posteriores • sacrocolpopexia Pessários: • alternativa não cirúrgica. • Fácil, seguro, eficaz. Referências: • Ginecologia de williams segunda edição, 2014 • Uroginecologia e disfunções do assoalho pélvico, Ostergard, quinta edição, 2010 • Tratado de ginecologia, Girão, Manoel João Batista Castello, Baracat, Edmund Chada, Lima, Geraldo Rodrigues de, 2017 • uptodate