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As Teorias Psicanalíticas

Apostila sobre Freud e a origem da psicanálise, com sumário e módulos que tratam do inconsciente, histeria e hipnose; teoria da sexualidade; aparelho psíquico; mecanismos de defesa; seguidores e dissidentes de Freud; inclui objetivos, preparação e plano de ensino.

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Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 2
Tema 2 - A teoria da sexualidade 45
Tema 3 - O aparelho psíquico 89
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 137
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 174
Plano de Ensino 224
DESCRIÇÃO
O surgimento do pensamento psicanalítico a partir das descobertas de Freud sobre o inconsciente.
PROPÓSITO
A teoria e a clínica psicanalíticas são essenciais para a compreensão do funcionamento do sujeito a partir
das motivações inconscientes, sendo este um grande modelo interpretativo para campos importantes da
Psicologia, como as teorizações sobre o desenvolvimento humano e da personalidade, fundamentais para
a sua atuação como psicólogo.
PREPARAÇÃO
Para auxiliar nos estudos, você pode recorrer a dicionários de psicanálise que contêm explicações
conceituais da psicanálise dispostas de maneira estruturada e organizada.
OBJETIVOS
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 2
MÓDULO 1
Identificar a histeria como fenômeno essencial para a clínica e teoria psicanalítica
MÓDULO 2
Analisar historicamente a importância da hipnose e do método catártico
MÓDULO 3
Reconhecer as várias dimensões do conceito fundamental do inconsciente
INTRODUÇÃO
Ao falarmos sobre a teoria psicanalítica e o trabalho desenvolvido por Freud, precisamos pensar no
inconsciente, no psiquismo e nas transformações que esses conceitos provocaram.
A partir de Freud, passamos a entender a forma como agimos e somos de maneira diferente. Mas para
compreendermos melhor todas essas transformações, temos que lembrar as características da sociedade
que predominava na Europa nos últimos 20 anos do século XIX.
DE FORMA REVOLUCIONÁRIA, A TEORIA DE FREUD SE
DEPARA COM TABUS E PRECONCEITOS TANTO NO MEIO
SOCIAL COMO NO MEIO CIENTÍFICO DA ÉPOCA, EM UMA
SOCIEDADE BURGUESA, CAPITALISTA E PATRIARCAL, EM
QUE A SEXUALIDADE E, ESPECIALMENTE A SEXUALIDADE
FEMININA, ERA MUITO OPRIMIDA.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 3
Imagem: Natata / Shutterstock.com
Vamos estudar, então, a origem de todas essas ideias e a forma como elas foram transformando a nossa
visão do comportamento humano.
MÓDULO 1
 Identificar a histeria como fenômeno essencial para a clínica e teoria psicanalítica
HISTÓRIA: HISTERIA E HIPNOSE
A psicanálise é um campo importante na compreensão do funcionamento psíquico, que diz respeito aos
aspectos inconscientes do indivíduo. Freud foi o grande inventor da psicanálise a partir do fenômeno da
histeria.
VOCÊ JÁ DEVE TER OUVIDO A EXPRESSÃO: “FREUD
EXPLICA!”. MAS O QUE SIGNIFICA QUE FREUD EXPLICA E O
QUE ELE EXPLICA? PARA RESPONDER
INTRODUTORIAMENTE A ESSA QUESTÃO, FAREMOS UMA
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 4
IMERSÃO NO UNIVERSO DOS PRIMÓRDIOS DA
PSICANÁLISE.
O Inconsciente é, talvez, o conceito mais importante da formulação psicanalítica. Esse é um conceito que
aponta para uma região do psiquismo que é acessível por meio das chamadas formações do inconsciente,
como os sonhos, os atos falhos, os lapsos, os sintomas e os chistes. Por meio da descoberta do
Inconsciente, Freud impõe uma terceira ferida narcísica na humanidade, como ele próprio afirmou, tendo
sido a primeira realizada pela teoria heliocêntrica, com Copérnico, e a segunda com a teoria evolucionista
de Darwin.
Foto: Everett Collection / Shutterstock.com
Sigmund Freud.
 VOCÊ SABIA
Um psicanalista francês da metade do século, Jacques Lacan, chegou a reformular jocosamente a
formulação do cogito cartesiano, o “Penso, logo sou”. Se em Descartes o lugar da verdade está no
pensamento e no eu, por outro lado, com o inconsciente, teríamos a frase reformulada em “Sou onde não
me penso”, ou seja, o lugar mais verdadeiro de mim mesmo é o inconsciente.
De uma forma ilustrativa, podemos pensar na imagem de um iceberg. A parte visível é sua menor parte. A
maior parte de um iceberg está submersa, mas está lá. Assim seríamos nós: temos acesso consciente a
uma pequena parte de nós mesmos. O inconsciente é a grande parte de nós e, no entanto, não é
visível à consciência.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 5
Imagem: Shutterstock.com
A origem da psicanálise remonta ao século XIX, quando o fenômeno da histeria causava grande
inquietação no campo médico e científico e o grande paradigma nesse momento era o modelo da anatomia
e da patologia. Significa que, para o aparecimento de alguma doença, deveria haver necessariamente uma
explicação dentro de um referente anatomopatológico. Isso não era encontrado na histeria. Não havia
algum dano neurológico ou corporal qualquer.
 SAIBA MAIS
A histeria, palavra que vem do grego ὑστέρα, remonta à ideia de “útero”. Acreditava-se que seria um
acometimento feminino apenas. Hoje sabemos que não existem apenas mulheres histéricas. Para
compreender um pouco mais sobre a origem da psicanálise, investigaremos a problemática histérica no
século XIX e como ela contribuiu fundamentalmente para a criação da psicanálise.
A SEGUIR, APRESENTAREMOS ALGUNS ASPECTOS
HISTÓRICOS FUNDAMENTAIS SOBRE O SURGIMENTO DA
PSICANÁLISE A PARTIR DA QUESTÃO DA HISTERIA. PARA
FALAR DA ORIGEM DA PSICANÁLISE E, PORTANTO, DE
FREUD COMO GRANDE CLÍNICO E PENSADOR,
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 6
REMONTAMOS ÀS CONCEPÇÕES SOBRE O FENÔMENO DA
HISTERIA NO SÉCULO XIX.
Até então, aquilo que podemos chamar de manifestação histérica era interpretado como possessão
demoníaca. A mulher histérica era vista como um ser possuído por algum demônio, que a fazia agir
involuntariamente, simulando doenças.

SÉCULO XV
Por volta do século XV até o século XVIII, a Igreja Católica Romana, por meio da Inquisição, conduzia um
processo que identificava e investigava os casos de protesto e de subversão em relação aos dogmas
religiosos. Esse processo coincide com o período da “caça às bruxas”, que privilegiava, sobretudo, uma
vigilância constante com relação às mulheres que supostamente agiam em favor da feitiçaria. Durante esse
período, muitas mulheres histéricas foram condenadas à fogueira, pois os seus sintomas e manifestações
comportamentais não eram factíveis de explicação.
SÉCULO XVIII
Isso começa a se modificar em meados do século XVIII com o fenômeno do mesmerismo. As concepções
de histeria centradas em uma perspectiva demoníaca cedem espaço para uma interpretação científica,
passando, paulatinamente, a ser efetivamente entendida como uma doença dos nervos, algo que teria sua
etiologia centrada nas estruturas do sistema nervoso.

MESMERISMO
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 7
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Técnica de cura criada pelo médico alemão Franz Anton Mesmer (1766, ano de defesa de sua tese),
que acreditava em uma energia relativa a um sexto sentido ou reciprocidade entre os seres vivos, por
causa do fluido magnético que emana dos indivíduos. Quando essa energia era liberada, poderiam
acontecer curas maravilhosas.
Franz Anton Mesmer supunha que as doenças nervosas tinham origem em um certo desequilíbrio do fluido
energético universal. Isso significa que os corpos possuiriam uma certa quantidade de energia vital que,
aliás, perpassa todos os seres.
 EXEMPLO
Uma doença, por exemplo, nessa leitura, seria o resultado de um desequilíbrio nessa energia. Quando
alguém está triste e ganha um abraço de uma pessoa querida, isso pode revigorar uma quantidade de
energia, ou uma palavra que conforte e ampare ajuda a restaurar essa vitalização.
Imagem: Shutterstock.com
Antiga ilustração de Mesmer.
É nesse sentido que se entende o magnetismo como uma técnica em que pela utilização de um objeto
como um imã, portador de polos magnéticos, seria possível reorganizar o fluido energético. Assim, o
médico, nesses casos, atuaria como um magnetizador, que trataria de reorganizar um equilíbrio
homeostático do fluido.
Mais tarde, já no século XIX, James Braid, com a hipnose, permitiu o início da transformação da teoria do
fluido energético por uma concepção físico-química da histeria, como veremos com Charcot. A ideia era
que, a partir da indução do estadohipnótico, alterações orgânicas fossem verificadas.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 8
 RESUMINDO
Portanto, no século XIX e com o paradigma médico em cena, a intenção, no caso da histeria, era investigar
no corpo o que se passava, e não mais se fazer uma leitura de algo como uma possessão.
HISTERIA E HIPNOSE NA ORIGEM DA
PSICANÁLISE
O doutor Maicon Pereira da Cunha aborda a origem da psicanálise investigando a problemática histérica no
século XIX e como ela contribuiu para a criação da psicanálise.
A HISTERIA
A histeria é uma manifestação de quadros clínicos bastante variados, que, em geral, expressam
classicamente no corpo o resultado manifesto de um conflito psíquico. Desde as origens da humanidade,
são conhecidas histórias de histeria. O tratamento prescrito na época de Hipócrates era a inalação de
vapores que emanavam de produtos excêntricos e atividades físicas que teriam como função recolocar o
útero no seu lugar certo. Curiosamente, indicava-se preventivamente a prática de atos sexuais.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 9
Imagem: Shutterstock.com
A histeria, na atualidade, encontra-se um pouco dispersa dentro dos manuais psiquiátricos. Hoje, vemos
algo da histeria figurando entre os chamados transtornos somatoformes ou transtorno de
personalidade histriônica. Os transtornos somatoformes representam uma categoria psicodiagnóstica que
nos manuais de diagnóstico específicos, como o DSM e CID, aparecem descritos pelos transtornos com
sintomas somáticos, conversivos e dissociativos e outros, apresentando como característica comum a
presença de sintomas somáticos (Default tooltip) associados a pensamentos, sentimentos e sofrimento
psíquico.
 SAIBA MAIS
Uma série de sintomas, como paralisias de membros (pernas, braços ou músculo da face, por exemplo),
dispneia, convulsões, cegueira ou estrabismo, tosses, falas confusas, enfim, uma ampla variedade pode se
enquadrar na noção de histeria. Portanto, o que diz respeito à etiologia da histeria não são exatamente os
sintomas, pois esses podem ser múltiplos e variados. A questão é que esses sintomas aparecem sem um
referente anatomopatológico. Em outras palavras, não é uma causa orgânica que provoca o(s) sintoma(s)
histérico(s).
Vamos compreender a histeria como algo determinado por certas experiências do paciente que atuaram de
modo traumático e que são reproduzidas em sua vida psíquica, fazendo parte do grupo das neuroses.
Então, começando-se a observar o problema dessa neurose, ou assim chamada “doença dos nervos”,
ressaltamos que não havia indícios de qualquer lesão orgânica que justificasse o aparecimento dos
sintomas histéricos, de forma que a solução procurada pelo campo hegemônico da medicina seguia na
direção de afirmar que se tratava de uma teatralização ou simulação.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 10
Imagem: Shutterstock.com
A HIPNOSE COMO TÉCNICA
De forma sintética, podemos apontar a hipnose como método que produz um rebaixamento de consciência
sob indução da sugestão hipnótica, ou seja, por meio da fala e do poder simbólico do hipnotizador.
Certamente, você se lembrará da imagem de um relógio de bolso sendo movimentado de um lado para o
outro em uma cena em que alguém é induzido ao estado hipnótico, não é verdade?
Uma vez hipnotizada, a pessoa entrava em um transe que permitia que o médico tivesse acesso ao
conjunto de sintomas histéricos bem definidos observado dentro de um contexto narrativo. Assim, osTema 1 - Freud e a origem da psicanálise 11
sintomas começaram a ser vistos dentro de uma história do que tinha acontecido à pessoa e que permitia
compreender a origem dos mesmos.
Começou-se a perceber alguns elementos a partir daí:
Imagem: Shutterstock.com
Os sintomas histéricos não eram produções de pactos diabólicos ou de simulação.
Imagem: Shutterstock.com
O conjunto bem definido de sintomas dessa neurose era passível de ser observado e recolocado dentro de
uma trama de sentidos, em uma narrativa histórica, e não dentro de uma perspectiva orgânica meramente.
Ao observar que os sintomas histéricos podiam ser investigados e alterados a partir de um estado
hipnótico, Charcot introduziu a histeria no meio científico. Posteriormente, ele começa a observar que os
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 12
conteúdos, em geral, apresentavam uma relação com algo sexual, apesar de ele não entrar muito nessa
seara.
NO SÉCULO XIX, HAVIA MUITO MORALISMO EM TORNO DA
SEXUALIDADE, COM MUITOS TABUS ENVOLVENDO A
QUESTÃO DO SEXO.
Nessa contemporaneidade, Sigmund Freud era um jovem médico austríaco, ambicioso, que almejava
realizar algo grande em sua vida. Freud sabia das investigações de Charcot com as histéricas no Hospital
Salpêtrière, em Paris, na França. Conseguiu uma bolsa de estudos e partiu rumo a Paris para entender
melhor a relação da histeria com a hipnose.
Uma vez hipnotizada a paciente histérica, a crise dela passou a ser reconstruída nas investigações de
Charcot. Acontece que as pacientes, que maioritariamente eram mulheres, passaram a oferecer muito mais
informação do que lhes era solicitado, e constantemente conteúdos sexuais apareciam nas narrativas.
 RESUMINDO
Foi assim que a hipnose, técnica inicialmente utilizada pelo médico James Braid, surgiu como a ferramenta
de acesso à histeria. Dessa forma, progressivamente, aprofundada por Charcot, a histeria começou a poder
estar dentro de um registro institucional no Hospital.
A SEXUALIDADE NA CENA
Freud começa a se interessar pelo fenômeno da histeria, e não hesita em desbravar os enigmas da
sexualidade nessa condição.
Retornando a Viena, Freud consegue continuar suas investigações com Josef Breuer, um médico mais
experimentado, também curioso sobre os efeitos da hipnose na histeria e que ajudara bastante Freud, seja
com incentivos morais seja financeiramente.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 13
Imagem: WolfgangRieger / Wikimedia Commons / Public domain.
Nas Obras Completas de Freud, especificamente nos textos dos Estudos sobre a Histeria, vemos o passo a
passo das investigações desse momento mais inicial da formulação do edifício teórico-clínico da
psicanálise.
A relação da histeria com a hipnose vai ser conectada pela ideia de sexualidade, eixo básico para a
compreensão da origem da psicanálise. Essa relação começa a ser aprofundada a partir do encontro de
Freud com Breuer.
É por meio de Breuer que Anna O., sua paciente, surge na cena. É o caso princeps, o caso pioneiro a
respeito das investigações psicanalíticas sobre o inconsciente, apesar de esse conceito fundamental da
psicanálise ainda estar sendo gestado nesse momento.
TAL QUAL UM BEBÊ QUE NASCE, SUA HISTÓRIA NÃO SE
INICIA QUANDO HÁ O NASCIMENTO. HÁ TODA UMA
PREPARAÇÃO DESDE A CONCEPÇÃO, PASSANDO PELA
FORMAÇÃO DO FETO ATÉ QUE VEM O NASCIMENTO. VEJA
COMO MUITOS PROCESSOS ACONTECEM ATÉ O
NASCIMENTO. ASSIM É A GÊNESE DE UMA TEORIA.
ESTAMOS ACOMPANHANDO AQUI O PROCESSO DE
GESTAÇÃO DA PSICANÁLISE. NESSE MOMENTO, INCLUSIVE,Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 14
PODEMOS ACOMPANHAR PARTICULARMENTE UM
CONCEITO QUE VEREMOS MAIS ADIANTE, O INCONSCIENTE.
A partir dos relatos de Breuer sobre Anna O., Freud começou a se interessar cada vez mais pelos enigmas
da histeria:

Nos Estudos sobre a Histeria, que compõem textos entre 1893 e 1895, Breuer e Freud acompanharam as
evoluções sobre a histeria a partir da hipnose.
O famoso texto da Comunicação Preliminar (1893) é escrito pelos dois médicos. Logo após o texto, segue-
se a descrição de outros casos clínicos desse primeiro momento da psicanálise. Se observarmos juntos os
cinco casos clínicos descritos no texto da Comunicação Preliminar, veremos alguns elementos básicos do
germe inicial da psicanálise.

As correspondências de Freud com Wilhelm Fliess também são interessantes para acompanhar esse
período inicial. Do ponto de vista teórico, observamos a concepção da primeira ideia da relação entre
representação e afeto, que está na origem de umaprimeira noção de trauma.
Foto: Shutterstock.comTema 1 - Freud e a origem da psicanálise 15
 RELEMBRANDO
Lembrando que o conceito de trauma na teoria de Freud acaba tendo uma conotação diferente do conceito
de trauma em outros contextos, pois aqui estamos falando de trauma psíquico. De qualquer forma, estamos
fazendo referência ao fato de que um trauma é uma intensidade excessiva que se torna insuportável
para uma determinada estrutura comportar, ou seja, é um excesso que transborda.
Mesmo dentro da psicanálise, a concepção de trauma ganhará diversas possibilidades interpretativas. Mas
queremos sublinhar, nesse primeiro momento da formulação freudiana, a dimensão de um excesso de
intensidade com o qual o psiquismo não conseguiu lidar.
 EXEMPLO
Quando alguém leva um susto tão grande que fica paralisado, essa paralisia diz respeito a esse excesso de
intensidade.
AB-REAÇÃO E A DIVISÃO DA CONSCIÊNCIA
Por meio da hipnose, começa-se a provocar as lembranças do trauma, e a ideia inicial da origem está
constantemente em um acidente, insulto, enfim, algum susto que o psiquismo não conseguiu descarregar,
ou seja, houve alguma emoção, afeto ou energia psíquica que ficou represada, gerando efeitos tóxicos no
psiquismo.
Imagem: Shutterstock.comTema 1 - Freud e a origem da psicanálise 16
A representação do trauma age como um corpo estranho alojado na mente e a hipnose foi um primeiro
modo de se ter acesso a essa trama, de forma que o sintoma histérico desaparecia quando se conseguia
trazer à luz a lembrança do fato provocador. Falamos, então, que é a lembrança do acontecimento que
evoca o afeto a ele acoplado, de forma que “os histéricos sofrem principalmente de reminiscências”.
(BREUER; FREUD, 1893, p. 43)
Então, a ab-reação é a forma pela qual um afeto represado consegue ser liberado por meio do acesso à
lembrança do evento a ele ligado. É necessária a expurgação do afeto para não continuar gerando efeitos
tóxicos:
EM OUTRAS PALAVRAS: PARECE QUE ESSAS LEMBRANÇAS
CORRESPONDEM A TRAUMAS QUE NÃO FORAM
SUFICIENTEMENTE AB-REAGIDOS.
(BREUER; FREUD, 1893, p. 45)
ESSE PROCESSO DA AB-REAÇÃO SERÁ DEFINIDO EM SEU
MECANISMO AO LONGO DO TEXTO, MAS PODEMOS
ENTENDÊ-LO COMO UMA ESPÉCIE DE DESCARGA
EMOCIONAL QUE PERMITE LIBERAR O AFETO ASSOCIADO A
UM EVENTO TRAUMÁTICO.
Freud, então, constata o que vai ser essencial na formulação do aparelho psíquico, ou seja, o seu caráter
dividido. A consciência se encontra dividida e é isso que aparece de forma emblemática na histeria. Os
sintomas histéricos aludem ao fato de que um episódio traumático força a divisão da consciência na medida
em que uma ideia, uma representação conflituosa, instaura a necessidade de que essa representação fique
isolada da comunicação associativa com o restante do conteúdo da consciência. Dessa forma, essa ideia
conflituosa fica separada do resto, impedindo que ela gere mais incômodo ao sujeito.
 ATENÇÃO
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 17
Aqui encontramos o pressuposto básico trabalhado pela psicanálise da divisão do aparelho psíquico entre
consciente e inconsciente. Preste atenção: inconsciente! E não subconsciente! O termo subconsciente é
utilizado em outros campos que não a psicanálise. Em psicanálise, algo mais próximo da ideia de
subconsciente seria o que chamaremos de pré-consciente. Falaremos mais sobre isso posteriormente.
Bem, falamos de teoria. E como presenciamos na prática isso tudo? Com os casos clínicos, vemos a
hipnose sendo primariamente utilizada na investigação dos fatos relativos à histeria, bem como o seu
abandono e sistematicamente o processamento das transformações técnicas que levarão até a ideia de
associação livre, a chamada regra de ouro da psicanálise. É a história desses processos que estamos
vendo.
“FALE LIVREMENTE O QUE LHE VEM À CABEÇA!”.
Essa é a frase inicial do tratamento psicanalítico, e que deriva das descobertas sobre o inconsciente desde
o início da histeria investigada sob hipnose.
Mas Freud não se achava um bom hipnotizador, além disso os sintomas voltavam de outras formas. Havia
uma série de limitações que fizeram com que Freud abandonasse a hipnose e adotasse a “associação livre”
em seu lugar.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. QUAL FOI A IMPORTÂNCIA DA HIPNOSE PARA A FORMULAÇÃO INICIAL DA
PSICANÁLISE?
A) Descobrir que a histeria se tratava de uma teatralização.
B) Permitir que o médico encontrasse no cérebro o que estava disfuncional.
C) Interpretar os sintomas histéricos à luz de uma trama de sentidos.
D) Fazer com que a pessoa não se lembre de seus traumas e assim não sofra.
E) Fazer a pessoa sentir o afeto e encobrir a lembrança do trauma.
2. (CCV-UFC ‒ 2019 ‒ UFC ‒ PSICÓLOGO ‒ CLÍNICA) SOBRE O MÉTODO
CATÁRTICO EMPREGADO POR FREUD E BREUER, É CORRETO AFIRMAR QUE:
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 18
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A) Foi empregado por Freud logo após abandonar o método da hipnose utilizado por Charcot.
B) Freud utilizava a hipnose para atingir a vivência traumática que supostamente gerava o sintoma. Sob
efeito da hipnose, quando o paciente chegava ao fato traumático, acontecia a ab-reação e a descarga do
afeto ligado ao fato traumático.
C) Foi criado por Breuer que o aplicou com sucesso na paciente frau Emmy von N. Posteriormente, Freud
utiliza o método com uma pequena variação e o aplica no famoso caso Anna O., caso clínico que marca o
início da psicanálise como a conhecemos.
D) Foi criado por Charcot nas suas apresentações de hipnose com histéricas, posteriormente desenvolvido
por Freud como método terapêutico e empregado pela primeira vez na famosa paciente frau Emmy Von N.,
caso clínico que marca o início da psicanálise como a conhecemos.
E) Consistia em solicitar para o paciente falar livremente (associação livre) sobre seus sintomas. Essa fala
era conduzida por Freud até que o paciente chegasse aos eventos desencadeadores do sintoma. Por essa
razão, o método também é conhecido por “associação livre”, nome derivado da fala livre do paciente.
GABARITO
1. Qual foi a importância da hipnose para a formulação inicial da psicanálise?
A alternativa "C " está correta.
A importância da hipnose foi de permitir encontrar uma trama de sentidos na questão histérica, de forma a
identificar que a neurose não era algo inscrito no registro anatomopatológico. Por meio da hipnose, era
possível acessar o conteúdo narrativo e identificar o represamento do afeto ligado a um evento ao qual
houve reação adequada, gerando efeitos tóxicos no psiquismo.
2. (CCV-UFC ‒ 2019 ‒ UFC ‒ Psicólogo ‒ Clínica) Sobre o método catártico empregado por Freud e
Breuer, é correto afirmar que:
A alternativa "B " está correta.
O método catártico era empregado já na hipnose e permaneceu mesmo após o abandono da hipnose como
técnica por Freud. Isso ocorre porque a catarse é uma forma de expurgação de um afeto ligado a um
evento traumático. A hipnose foi abandonada devido a diversos fatores, dentre eles, o fato de os sintomas
se deslocarem e Freud não se achar um bom hipnotizador. No entanto, o fato de existir o processo de
expurgação do afeto restou como princípio fundamental para a estruturação da concepção de cura
psicanalítica posteriormente.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 19
MÓDULO 2
 Analisar historicamente a importância da hipnose e do método catártico
A HIPNOSE E O MÉTODO CATÁRTICO
A histeria foi se apresentando como um enigma que intrigava a comunidade médico-científica no século
XIX. Como era possível a apresentação de um quadro bem delineado de sintomas na histeria sem a
existência de lesão anatômica, diferentemente de outras doenças?
CHARCOT
BERNHEIM
CHARCOT
Com Charcot, a histeria passou a ser acompanhada dentro dos cânones científicos. Ao hipnotizar alguém
com um quadro histérico, o médico parisiense constatava modificações fisiológicas, como deslocamento da
excitabilidade no sistema nervoso e contraturas sonambúlicas (tipo de contratura que as pacientes
experimentavam durante o quadro histérico, semexplicação anatomofisiológica).
BERNHEIM
Hippolyte Bernheim, outro médico neurologista francês, no final do século XIX, contribuiu no
aprofundamento dos mecanismos presentes na hipnose, preservando o que julgava ser o essencial do
processo, que era a sugestão, ou seja, a importância de se ater ao aspecto do poder do médico exercido
sobre o paciente.
Charcot viu que era possível criar sintomas histéricos, assim como removê-los, pela sugestão hipnótica.
Ao submeter uma paciente histérica à hipnose, ele demonstrava que era possível produzir uma paralisia de
algum membro pelo poder do hipnotizador. Um comando era proferido no estado da hipnose, como dizer
que algum membro do corpo estaria paralisado e, ao despertá-la, o membro realmente estava paralisado.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 20
Foto: Shutterstock.com
A sugestão, portanto, produzia um estado de equivalência à formação do processo sintomático. Chamava a
atenção que não houvesse nenhuma causa fisiológica determinada, do mesmo modo era possível ordenar
que um sintoma histérico se extinguisse durante a hipnose, o que permanecia extinto ao acordar a
paciente.
A EXPURGAÇÃO DO AFETO
Inicialmente, a histeria fora investigada a partir da hipnose. O método utilizado era o método catártico. A
catarse é um termo antigo, que remonta à Grécia Antiga e que significa purificação, purgação.
 EXEMPLO
Podemos vivenciar a catarse quando estamos assistindo a um jogo de futebol ou acompanhamos uma
novela ou algum programa de entretenimento e ficamos “vidrados” naquela ação ou cena. Parece que
vivemos algo experienciado por uma personagem, sentimos junto com alguém com quem nos
identificamos, ou quando repugnamos uma personagem de quem não gostamos, e vivenciamos fortes
sentimentos de repulsa. Uma série de emoções pode ser vivida nessa trama.
Catharsis fora utilizada por Aristóteles para designar o que era produzido no espectador na encenação de
uma tragédia. Tempos depois, mais precisamente no século XIX, Breuer e Freud utilizaram o termo “ab-
reação” para expressar a necessidade da liberação afetiva adequada a um evento traumático.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 21
Foto: Shutterstock.com
A ideia de trauma é complexa e com diversos significados e contextos, mas nesse momento podemos
sintetizar como um excesso diante do qual o psiquismo não consegue reagir adequadamente; pode
ser um insulto, um susto, enfim, qualquer evento que desencadeie um excesso de energia no psiquismo e
que não consegue liberação.
Os afetos que não conseguiram acesso à descarga ficavam represados e gerando efeitos tóxicos. Portanto,
nesse contexto, a ideia de cura seria obtida pela liberação do afeto. Freud estava descobrindo a
importância do dito popular de que é importante “pôr as emoções para fora!”
CADA SINTOMA HISTÉRICO DESAPARECIA, DE FORMA
IMEDIATA E PERMANENTE, QUANDO CONSEGUÍAMOS
TRAZER À LUZ COM CLAREZA A LEMBRANÇA DO FATO QUE
O HAVIA PROVOCADO E DESPERTAR O AFETO QUE O
PROVOCAVA, E QUANDO O PACIENTE HAVIA DESCRITO
ESSE FATO COM O MAIOR NÚMERO DE DETALHES
POSSÍVEL E TRADUZINDO O AFETO EM PALAVRAS.
(BREUER; FREUD, 1893, p. 42)
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 22
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De início, o método catártico estava ligado e acessível estritamente por meio da hipnose, mas a concepção
de descarga emocional, a ab-reação, permanece posteriormente, mesmo depois do abandono de Freud
com relação à hipnose. Com os casos clínicos relatados nos Estudos sobre a Histeria, percebemos do
ponto de vista clínico os impasses colocados por Freud com relação à hipnose:

Ele percebia que os sintomas desapareciam com a ab-reação, entretanto não era raro reaparecerem de
outro modo.
Alguns pacientes simplesmente não eram hipnotizáveis.


Freud não se julgava um bom hipnotizador.
HIPNOSE, CATARSE E A ASSOCIAÇÃO LIVRE NA
EXPURGAÇÃO DO AFETO
O doutor Maicon Pereira da Cunha debate a importância e as limitações da hipnose para Freud, e sua
substituição pela associação livre com método catártico.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 23
MÉTODO CATÁRTICO: DA HIPNOSE À ASSOCIAÇÃO
LIVRE
Talvez o mais importante de enunciar seja que Freud percebeu que, com a hipnose, havia o acesso a uma
produção narrativa que envolvia o sintoma histérico, mas que o sintoma facilmente se deslocava, o que
provocava empecilhos em sua ideia de cura da histeria. Algo permanecia oculto nessa trama de sentidos.
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Apesar das limitações da hipnose, estava nítido que a cura pela palavra era uma grande sacada nesse
contexto. Anna O. dizia que havia a “limpeza de chaminé”. Ou seja, a ideia do psicólogo ouvindo o paciente
vem daí. Era o início da Talking cure.
NESSE SENTIDO, A LINGUAGEM SERVE DE
SUBSTITUTA PARA A AÇÃO, MAS QUAL O
MECANISMO QUE ESTÁ EM CENA E QUE FICOU
REVELADO PELO MÉTODO CATÁRTICO?
RESPONDER
Quando uma representação entra em conflito com a cadeia de representações consciente, uma segunda
consciência é inaugurada para reter essa representação conflitiva. Vislumbramos, desse modo, o início do
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 24
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surgimento daquilo que será chamado de inconsciente.
Então, seguimos a pista da importância da cura por meio da palavra, mas precisamos pontuar o quanto é
fundamental observar as transformações técnicas que permitiram o caminhar desde as primeiras
conduções das manifestações histéricas até a ideia da formação do conceito de inconsciente.
Do ponto de vista técnico, a hipnose cede lugar à técnica da pressão. Esta não precisava da indução do
estado hipnótico. Em vez da hipnose, a ênfase na técnica da pressão está centrada no domínio da
sugestão, de forma consciente, fora da hipnose.
Nesse contexto, Freud solicitava à paciente que deitasse e fechasse os olhos, de modo semelhante ao
método hipnótico. Ocorre que à medida que o processo de questionamento sobre os fatos que levavam a
determinado(s) sintoma(s) aumentava, não obstante, persistiam as resistências que faziam a defesa
dificultar o caminho em direção à origem da neurose.
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POUPEI-ME DESSE NOVO EMBARAÇO AO ME LEMBRAR DE
QUE EU PRÓPRIO VIRA BERNHEIM DAR PROVAS DE QUE AS
LEMBRANÇAS DOS ACONTECIMENTOS OCORRIDOS
DURANTE O SONAMBULISMO SÃO APENAS
APARENTEMENTE ESQUECIDAS NO ESTADO DE VIGÍLIA, E
PODEM SER REVIVIDAS POR MEIO DE UMA ORDEMTema 1 - Freud e a origem da psicanálise 25
DELICADA E DE UMA PRESSÃO COM A MÃO, DESTINADA A
INDICAR UM ESTADO DIFERENTE DE CONSCIÊNCIA (...).
ASSIM, QUANDO ALCANÇAVA UM PONTO EM QUE, DEPOIS
DE FORMULAR AO PACIENTE UMA PERGUNTA COMO “HÁ
QUANTO TEMPO TEM ESTE SINTOMA?” OU “QUAL FOI SUA
ORIGEM?”, RECEBIA COMO RESPOSTA “REALMENTE NÃO
SEI”, EU PROSSEGUIA DA SEGUINTE MANEIRA. COLOCAVA
A MÃO NA TESTA DO PACIENTE OU LHE TOMAVA A CABEÇA
ENTRE A MÃOS E DIZIA: “VOCÊ PENSARÁ NISSO SOB A
PRESSÃO DA MINHA MÃO. NO MOMENTO EM QUE EU
RELAXAR A PRESSÃO, VERÁ ALGO À SUA FRENTE, OU
ALGO APARECERÁ EM SUA CABEÇA. AGARRE-O. SERÁ O
QUE ESTAMOS PROCURANDO. ‒ E ENTÃO, O QUE FOI QUE
VIU OU O QUE LHE OCORREU?”
( FREUD, 2006, p. 137)
Freud usou esse método por um tempo. No entanto, o caráter sugestivo era um problema da técnica da
pressão, pois esbarrava-se com resistências, de modo que algo esquecido simplesmente não pode ser
facilmente lembrado. Aí precisamos falar em defesa e mencionar o embrionário conceito do recalque, pedra
angular da psicanálise.
DEFESA
A concepção de defesa é publicamente expressa no artigo Psiconeurose de Defesa (1894). Nesse
momento, Freud articula a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise, que é a
teoria do recalcamento.
De acordo com Laplanche e Pontalis (2004): “a defesa incide sobre a excitação interna (pulsão) e,
preferencialmente, sobre uma das representações (recordações, fantasias) a qual está ligada, sobre uma
situação capaz de desencadear essa excitação na medida em que é incompatível com este equilíbrio e, por
isso, desagradável para o ego.” (p. 107).
Tema 1 - Freud e a origem dapsicanálise 26
 ATENÇÃO
Como o ego deve ser o espaço de tentativa de preservação de uma certa coerência consciente, sendo
assim a forma para lidar com o conflito psíquico, a defesa age sobre o que vem a ser perturbador para o
sistema consciente. As variadas formas de defesa consistem nesse jogo de separação entre a
representação e o afeto. Por exemplo, podemos notar isso em um mecanismo histérico: uma representação
conflitante é separada das demais e sofre o processo do recalque, e o afeto fica investido no corpo, em um
processo de conversão somática. Dessa forma, a paciente investe a energia do afeto inaceitável (amor
proibido, por exemplo) no seu corpo, por meio do sintoma (por exemplo, apresentando uma cegueira sem
causa anatomofisiológica existente) e, assim, consegue dar conta do conflito psíquico que a atormenta.
Freud estava bastante atento aos relatos de suas pacientes histéricas, e pelo viés do corpo, de um corpo
que fala, que expressa uma equivalência ao psíquico, ele vai descobrindo cada vez mais a importância da
articulação do indivíduo na linguagem.
OS ABUSOS, OS TRAUMAS, AS VIOLÊNCIAS, MAS TAMBÉM O
QUE SE VIVE DE BOM, ENFIM, TODAS AS EXPERIÊNCIAS
PROVOCAM UMA MARCA NO PSÍQUICO, E O PSICANALISTA
TRABALHA COM ESSES EFEITOS QUE SURGEM NA CLÍNICA.
À medida que Freud escuta suas pacientes, se intriga com a constância dos relatos de abusos sexuais, em
geral exercidos por uma figura masculina mais velha. A frequência dos relatos fazia Freud se questionar se
praticamente a totalidade de Viena era composta de abusadores.
Se é verdade que em muitos casos há realmente abusos sexuais, por outro lado, Freud percebe
paulatinamente que em muitos relatos havia presença da narrativa de abuso, de fatos que não
aconteceram materialmente, no que conhecemos como realidade material, e ao mesmo tempo, as moças
não estavam mentindo. Os fatos ocorrem aqui em uma outra dimensão, a dimensão da vivência da
fantasia de cenas de abusos que abriram espaço para a importância da vivência interna da realidade no
entendimento da história do paciente, a realidade psíquica.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 27
Imagem: Shutterstock.com
Aliado a isso, Freud escreve a Fliess que “não acredita mais em sua neurótica”, elencando a importância
da noção de fantasia e a primazia da realidade psíquica sobre a realidade material, com a fundação da
interpretação sobre o sujeito. Assim, ficam constituídos os papéis dessas duas realidades no entendimento
do paciente.
FLIESS
Médico alemão cirurgião que conheceu Freud em 1897, e contribuiu na fundação do movimento
psicanalista. Fliess troca com Freud, por correspondência, suas dúvidas e hipóteses dos casos que
atendia.
 RESUMINDO
Articulando esses eixos, temos o germe inicial da teoria do inconsciente. O inconsciente é o conceito
principal da psicanálise, a descoberta por excelência de Freud.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA O TERMO UTILIZADO PARA
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 28
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DESIGNAR A LIBERAÇÃO AFETIVA LIGADA A UM EVENTO TRAUMÁTICO:
A) Ab-reação
B) Translocação
C) Mutação
D) Chateação
E) Absorção
2. A FAMOSA FRASE DE FREUD A SEU AMIGO FLIESS, “NÃO ACREDITO MAIS EM
MINHA NEURÓTICA”, INSERE A NECESSÁRIA DISTINÇÃO ENTRE:
A) Mentira e verdade
B) Simulação e teatralização
C) Realidade e fantasia
D) Realidade material e realidade psíquica
E) Neurose e psicose
GABARITO
1. Assinale a alternativa que apresenta o termo utilizado para designar a liberação afetiva ligada a
um evento traumático:
A alternativa "A " está correta.
A ab-reação é uma descarga emocional pela qual o sujeito se liberta do afeto ligado à recordação de um
acontecimento traumático, permitindo, assim, que ele não se torne ou não continue sendo patogênico.
2. A famosa frase de Freud a seu amigo Fliess, “Não acredito mais em minha neurótica”, insere a
necessária distinção entre:
A alternativa "D " está correta.
A partir dos variados relatos no início da clínica freudiana, ficou nítida a necessidade de se ater à fantasia
como pressuposto básico da organização subjetiva, de forma a distinguir a realidade material da realidade
psíquica.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 29
MÓDULO 3
 Reconhecer as várias dimensões do conceito fundamental do inconsciente
A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE
SOBRE O CONCEITO DE INCONSCIENTE
VOCÊ SABE O QUE É O INCONSCIENTE? DESCREVA
COM SUAS PALAVRAS.
RESPOSTA
O Inconsciente não é meramente o que não está consciente. Portanto, esta é a primeira diferença básica: ser
ou estar inconsciente não é o mesmo que afirmar o conceito do Inconsciente. E perceba que estamos
realizando uma diferença gráfica: ao falar da descoberta de Freud, utilizamos a letra maiúscula, Inconsciente,
como substantivo, para marcar a diferença em relação ao inconsciente com letra minúscula, adjetivo,
associado a ser ou estar inconsciente.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 30
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QUANDO ALGUÉM DESMAIA, DIZEMOS QUE A PESSOA ESTÁ
INCONSCIENTE. MAS NÃO ERA A RESPEITO DISSO QUE
FREUD ESTAVA SE REFERINDO. TAMPOUCO FALARA DE
SUBCONSCIENTE! SUBCONSCIENTE É UM TERMO
GENÉRICO QUE PODE SIGNIFICAR ALGO QUE NÃO ESTEJA
CONSCIENTE, APENAS.
O Inconsciente freudiano é o lugar da causa psíquica, é o Inconsciente dinâmico. Esse Inconsciente é
dinâmico, uma região lógica do psiquismo. É uma instância psíquica, com suas leis próprias e, portanto, um
sistema próprio em contraposição ao sistema Consciente.
Ainda sobre as diferenças conceituais, podemos afirmar que a oposição que fizemos entre o Inconsciente
substantivo x inconsciente adjetivo equivale à diferença entre o Inconsciente dinâmico e o inconsciente
descritivo.
inconsciente substantivo
inconsciente dinâmico

inconsciente adjetivo
inconsciente descritivo
Já existia a ideia do inconsciente descritivo no século XIX. Os estudos em Psicologia se ocupavam dos
processos psicológicos conscientes. Mas dentro disso, evidentemente, teria que haver espaço para as
descrições lacunares desses processos: são os déficits, o não funcionamento apropriado, os desgastastes
dos processos mentais, enfim, os limites dos processos psicológicos.
TUDO ISSO APONTA PARA ALGO QUE TEM A VER COM
PROCESSOS QUE PODEMOS DIZER QUE NÃO SÃO
EXATAMENTE CONSCIENTES.
Entretanto, dizer que alguém bateu com a cabeça em algum lugar ou que desenvolveu uma anomalia que
fez perder alguma funcionalidade psíquica e que, portanto, a pessoa está inconsciente, desacordada, ou
que uma parte de si não está funcional, estando inconsciente, nada disso é o que diz respeito ao
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 31
Inconsciente freudiano. E onde percebemos esse Inconsciente? Para tanto, precisaremos fazer alusão às
chamadas formações do Inconsciente.
AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE
J. Lacan (1901 – 1981) realizou o que chamou de um retorno a Freud, e desenvolveu em seu seminário V o
que chamou de formações do Inconsciente. Para entender melhor as considerações de Lacan, precisamos
voltar ao processo de formação dos sintomas na histeria.
 ATENÇÃO
O sintoma é uma formação do Inconsciente, justamente porque realiza um compromisso entre o que pode e
o que não pode ser mantido no sistema Consciente.
Uma moça poderia resolver o conflito entre uma representação conflitiva com o restante da cadeia das
representações recalcando-a. O exemplo do caso Elizabeth, um daqueles cinco casos iniciais dos Estudos
sobre Histeria, é um bom exemplo. A moça tinha um apaixonamento velado pelo cunhado, marido da irmã.
No entanto, quando a irmã morre e ela sente que tem o caminho aberto para realizar seu desejo pelo
cunhado, ela desenvolve uma paralisia da perna, como alguém que “não podia andar com aquela história”.
Imagem: Shutterstock.com
Vejam como o Inconsciente realiza uma operação altamente sofisticada para resolver um conflito, pois,
apesar da perna paralisada, ela não entrava em contato com a representação conflitiva, que poderia lhe
causarmal-estar, sobretudo em uma sociedade repressora, moralista como era a do final do século XIX.
Então, o sintoma surgiu como uma formação de compromisso entre o desejo e a expressão.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 32
Assim, o sintoma é uma satisfação substitutiva. É uma maneira de revelar o conflito ao mesmo tempo em
que o encobre. Assim como o sintoma, os sonhos, os atos falhos, os chistes, os lapsos são outras
formações do Inconsciente, pois operam segundo essa mesma lógica de revelar de maneira desviada
algum conteúdo do Inconsciente.
 COMENTÁRIO
O material recalcado deveria permanecer inconsciente, sob a ótica do sistema Consciente, dado que o
recalcado é algo conflitivo. No entanto, o recalcado insiste em surgir na cena, e as formações do
Inconsciente são a forma de expressão do material recalcado.
O INCONSCIENTE E OS SONHOS
Freud resgata o sonho como índice de um sentido, e que revela algo do Inconsciente. Os sonhos são um
enigma que Freud resgatou da tradição pré-moderna, atribuindo-lhes um sentido. Na modernidade, os
sonhos eram tidos como um material psíquico descartável, sendo vistos como um material advindo de uma
certa reciclagem mental.
Freud inicia sua exposição sobre os sonhos expondo que:
Na época pré-científica, facilmente os homens atribuíam significações mitológicas para seus sonhos.

Com a modernidade, os sonhos eram predominantemente concebidos como resíduos da vida psíquica.
Freud distingue três linhas de pensamento sobre a significação dos sonhos:
O PENSAMENTO DOS FILÓSOFOS
Consideravam a vida onírica uma elevação da atividade mental.
O PENSAMENTO DOS PENSADORES
Consideravam os sonhos uma manifestação de forças que não se expandiram durante o dia.
O PENSAMENTO DOS MÉDICOS
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 33
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Defendem que os únicos induzidores do sonho são os estímulos sensoriais e somáticos externos ou
internos ao indivíduo.
Para Freud, o sonho é uma maneira de o Inconsciente revelar um desejo de um modo disfarçado. No
sonho, é como se tivéssemos uma licença para entrar em contato com nossa loucura privada, como se não
tivesse relação conosco. Mas Freud vai dizer que o sonho revela justamente aquilo que é mais nosso!
O SONHO É UMA REALIZAÇÃO ALUCINATÓRIA DE UM
DESEJO.
O sonho é como uma janela para o Inconsciente. A importância dos sonhos para a psicanálise foi central,
na medida em que foi pela interpretação dos sonhos que o aparelho psíquico freudiano foi fundado, e,
como tal, a própria psicanálise.
Apesar de o texto do Inconsciente ter sido lançado objetivamente em 1915, considera-se a fundação da
psicanálise a partir do livro A Interpretação dos Sonhos, de 1900. Foi nesse livro que ficou registrado o
modelo do item B do capítulo VII, que é o primeiro modelo do funcionamento do aparelho psíquico, sendo
este modelo esboçado para a compreensão dos sonhos:
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 34
Imagem: Freud, 2006, p. 571.
Primeiro esquema de Freud do aparelho psíquico.
 COMENTÁRIO
É nesse modelo em que espacialmente o Inconsciente ganha um lugar na topografia do aparelho psíquico,
onde vemos a abreviação ICS equivalente a ‘Ucs’, Unbewusste, Inconsciente em alemão, idioma de Freud.
Além dos sintomas e dos sonhos, Freud desenvolve outras formações do Inconsciente, como no texto no
qual fala sobre a psicopatologia do ponto de vista psicanalítico, que é a Psicopatologia da Vida Cotidiana
(1901). Além desse momento, em outros desenvolve a temática dos lapsos, dos chistes, das parapraxias,
ou os famosos atos falhos. Todas essas manifestações são formações do Inconsciente, pois revelam aquilo
que estava oculto, mas que não podia ser lembrado, pois estava mais do que esquecido, estava recalcado.
PARAPRAXIAS
As parapraxias são ações que a pessoa realiza de forma contrária à intenção original. Em outras
palavras, em alguns casos, realizamos atividades que conscientemente consideramos de uma forma,
mas inconscientemente essas atividades assumem o desejo que as originou em primeiro lugar e que
se encontra guardado. Como exemplo, podemos citar a ação de trocar um nome por outro durante
uma conversa.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 35
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A PSICOPATOLOGIA PELA QUAL SE INTERESSA O
PSICANALISTA É AQUELA DAS FORMAÇÕES DO
INCONSCIENTE QUE SE MANIFESTA NO DIA A DIA.
É em um momento em que se tropeça na linguagem, quando se diz algo sem ser intencional ou
deliberadamente, mas que é, na verdade, o que lá no fundo se desejava dizer. Sabe a brincadeirinha que
diz e que revela a verdade manifestada de maneira sutil, pelas bordas? Então, assim funciona o
Inconsciente, revelando-se sempre de maneira disfarçada, burlando a barreira do recalque.
Dessa forma, temos que:
Imagem: Shutterstock.com
Os sonhos não são restos psíquicos, mas são a possibilidade de um desejo realizar-se de maneira
alucinatória, ou seja, por meio de imagens.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 36
Imagem: Shutterstock.com
Os sonhos são uma formação de compromisso entre o sistema consciente e o sistema inconsciente.
Imagem: Shutterstock.com
Assim como os sonhos, os sintomas, os atos falhos, os chistes e os lapsos são formações do Inconsciente.
SISTEMAS INCONSCIENTE E CONSCIENTE/PRÉ-
CONSCIENTE
O aparelho psíquico freudiano é formado pelos sistemas inconsciente e consciente. Essa é a divisão básica
do aparelho psíquico tal qual Freud o concebe.Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 37
 ATENÇÃO
O pré-consciente faz parte do sistema consciente.
O pré-consciente é como um guardião, que faz a vigilância do que pode e do que não pode aparecer
no consciente.
Vamos tentar explicar um pouco o desenho do aparelho psíquico, como vimos acima, na figura do esquema
feito por Freud. Lembrando que essa organização do aparelho psíquico é totalmente lógica. Os lugares
psíquicos não existem espacialmente, ou seja, não existem referentes anatômicos para essas instâncias. É
um erro querer reduzir o aparelho psíquico em uma tradução cerebral, por exemplo.
NÓS SOMOS MUITO MAIS QUE AS RELAÇÕES ORGÂNICAS
DO CORPO.
Dito isso, retomamos as descrições do aparelho psíquico, pois como vemos na figura anterior, na qual
Freud esboça o primeiro modelo do aparelho psíquico, temos dois polos do psiquismo, uma extremidade
sensorial, onde se encontra um sistema perceptual (Pcpt), e uma extremidade motora (M). Perto do polo
M, Freud define o Pré-consciente e o Inconsciente.
Assim, temos:
No lado esquerdo o polo perceptivo, onde incidem os estímulos sensoriais.
&
No lado direito temos o polo motor, que corresponde à resposta.
ENTRE ESSES DOIS POLOS, TEMOS O SISTEMA DA
MEMÓRIA E A FUNÇÃO DO PENSAMENTO.
Nessa esquematização, o estímulo incide sobre o polo perceptivo e a resposta diz respeito ao polo motor.
Esse par estímulo-resposta, característico do estado de vigília, obedeceria a um vetor progressivo. Assim,
podemos entender que, quando estamos acordados, os estímulos que chegam à nossa percepção
são processados pelo nosso pensamento e sistema de memória até chegarmos a uma resposta.Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 38
 SAIBA MAIS
Os estímulos perceptivos simplesmente não trabalham sob o ponto de vista dos registros, estes que
causam a memória. Isso vai ocorrer, pois há um sistema mnêmico (Mnem), onde ocorrem as associações
entre os traços de memória. É assim que os traços de memória chegam até a consciência de forma que
podemos organizar nossas lembranças em uma cadeia associativa coerente. E esse é o sentido das
produções psíquicas durante a vigília, sentido que vai do polo Perceptual ao polo Motor. Esse sentido é
chamado por Freud de sentido progrediente.
Durante os sonhos, o material se apresenta, normalmente, de forma diferente, como formas alucinatórias e
fragmentadas das imagens sensoriais. Isso ocorre para que os conteúdos recalcados possam burlar o pré-
consciente e fazer sua manifestação no consciente.
O que acontece é queos pensamentos oníricos (que correspondem ao material dos sonhos que durante o
dia ficam barrados pelo Pré-consciente), no polo motor, ganham força no sentido contrário, sentido
regrediente (sentido direita-esquerda na figura acima). Em outras palavras, durante os sonhos, os
pensamentos que não podem acessar a motilidade voltam ao sistema de percepção. Assim, esse material
ganha força ao passar pelo Inconsciente, usando, na teoria, pela primeira vez, o Inconsciente como
substantivo, o Inconsciente dinâmico.
Imagem: Freud, 2006, p. 571.
 RESUMINDO
Portanto, podemos dizer que o sentido que vai do polo Pcpt ao polo M é o sentido progrediente e o sentido
dos sonhos é o sentido regrediente, que vai do polo M ao polo Pcpt.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 39
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Ao elaborar uma constituição teórica nessa grafia do que ocorre nos sonhos, Freud inaugurou o modelo do
psiquismo com o qual trabalha em toda sua primeira tópica, que organiza a teoria da psicanálise até o texto
de 1923, O Ego e o Id, quando um outro desejo do psiquismo se faz presente.
Imagem: Shutterstock.com
Dessa vez, a organização se dará em Id, ego e superego.
SISTEMAS INCONSCIENTE E CONSCIENTE / PRÉ-
CONSCIENTE
O doutor Maicon Pereira da Cunha explica o sentido progrediente e o sentido regrediente segundo os
sistemas Inconsciente, Pré-consciente e Consciente e a importância de cada um.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 40
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1. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA O PRINCIPAL CONCEITO DA
PSICANÁLISE
A) Inconsciente
B) Subconsciente
C) Representação
D) Afeto
E) Hipnose
2. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA AS FORMAÇÕES DO
INCONSCIENTE:
A) Memória e atenção
B) Sonhos e lapsos
C) Percepção e sistema mnêmico
D) Associações inconscientes e associações perceptuais
E) Representações e afetos
GABARITO
1. Assinale a alternativa que apresenta o principal conceito da psicanálise
A alternativa "A " está correta.
Foi a principal descoberta de Freud a partir da investigação da histeria. O Inconsciente dinâmico, com suas
leis próprias, o lugar por excelência da causa psíquica, subverte os pressupostos com os quais lidava a
Psicologia, sendo a psicanálise conhecida como uma metapsicologia.
2. Assinale a alternativa que apresenta as formações do Inconsciente:
A alternativa "B " está correta.
Lacan, no seminário 5, registra os sonhos, lapsos, chistes, sintomas e atos falhos como formações do
inconsciente, pois são formas de expressão de formação de compromisso entre os sistemas inconsciente e
consciente.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 41
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A psicanálise surgiu a partir do enigma da histeria. Freud se debruçou sobre a histeria a partir de seu
encontro com um nó epistemológico provocado na comunidade médico-científica, que não encontrava um
referente orgânico para essa neurose.
Com a hipnose, foi possível colocar a histeria dentro de um setting narrativo, de forma que a expressão em
palavras transformava a experiência. A “limpeza de chaminé” permitia a liberação do afeto por meio da
lembrança do evento traumático. Com isso, Freud pôde construir um aparelho psíquico a partir da noção
de uma consciência dividida.
AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE FORAM FORMAS DE
ACESSO AO CONTEÚDO RECALCADO E OS SONHOS FORAM
O CARRO-CHEFE NESSA INVESTIGAÇÃO.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 42
FREUD, S. (1893). Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: Comunicação preliminar.
In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 2
(Estudos sobre a histeria. Cap. 1). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S. (1893-1895). Casos clínicos. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud. v. 2 (Estudos sobre a histeria. Cap. 2). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 3. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos (parte II). In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 5. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S. (1901). A psicopatologia da vida cotidiana. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S. (1915). O inconsciente. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud. v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. V, parte II. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. 21. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LACAN, J. O seminário. Livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. Vocabulário de Psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
EXPLORE+
Para saber mais sobre os assuntos tratados neste conteúdo, leia:
O livro Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo, de 2016, que é uma biografia de Freud,
realizada pela psicanalista e historiadora Élisabeth Roudinesco.
A biografia de Freud, por Peter Gay, Freud, uma vida para o nosso tempo, e a clássica biografia de
Ernest Jones, Vida e Obra de Sigmund Freud.
Pesquise:
O canal no YouTube do psicanalista Christian Dunker costuma ter bons vídeos introdutórios sobre
questões interessantes da psicanálise.
O site Freudonline é uma ferramenta que contém a obra completa disponibilizada de Sigmund Freud.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 43
CONTEUDISTA
Maicon Pereira da Cunha.
Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise 44
28/05/2023, 22:24 A teoria da sexualidade
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212sa/02241/index.html# 1/44
A teoria da sexualidade
Prof. Maicon Pereira da Cunha
Descrição
A formulação e o reconhecimento de uma teoria sobre a sexualidade no
interior do pensamento psicanalítico e sua importância para o
desenvolvimento humano.
Propósito
A compreensão dos conceitos desenvolvidos pela Psicanálise advindos
de uma interpretação contextualizada sobre a sexualidade é de
fundamental importância na investigação dos profissionais ligados aos
saberes psicológicos a respeito do desenvolvimento humano, da
personalidade e do laço social.
Preparação
Para auxiliar nos estudos, você pode recorrer a dicionários de
Psicanálise, que contêm explicações conceituais da área dispostas de
maneira estruturada e organizada.
Objetivos
Tema 2 - A teoria da sexualidade 45
28/05/2023, 22:24 A teoria da sexualidade
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212sa/02241/index.html# 2/44
Módulo 1
Constituição psíquica infantil
Localizar a sexualidade infantil como eixo importante da constituição
psíquica.
Módulo 2
Conceito de pulsão
Identificar o conceito de pulsão como um conceito fundamental da
Psicanálise.
Módulo 3
Elementos do desenvolvimento
psicossexual
Relacionar os elementos do desenvolvimento psicossexual.
Módulo 4
Complexos de Édipo e de
castração
Relacionar os complexos de Édipo e de castração no
desenvolvimento.
A Psicanálise apresenta uma série de provocações importantes
para uma interpretação do psiquismo a partir de um novo olhar
sobre os fenômenos da sexualidade.
Introdução
Tema 2 - A teoria da sexualidade 46
28/05/2023, 22:24 A teoria da sexualidade
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212sa/02241/index.html# 3/44
1 - Constituição psíquica infantil
O primeiro reconhecimento, nesse sentido, ocorre a partir da
identificação da existência da sexualidade na infância, algo
bastante estranho para aquela época vitoriana do século XIX. Freud
ousou realizar uma imersão no universo psicológico de uma forma
totalmente diferente das premissas com as quais a Psicologia
trabalhava naquele tempo. Se a pautada Psicologia era atada ao
universo consciente, no estudo das faculdades psíquicas, tais
como memória, atenção, percepção, sensação, a Psicanálise opera
um conjunto de conceitos que dizem respeito ao fundamento da
organização psicológica a partir do privilégio do inconsciente. A
Psicanálise está para além da Psicologia, por isso mesmo é
chamada de uma metapsicologia; o prefixo “meta” significa “além
de”.
Se, por um lado, o inconsciente é o fundamento básico para
localizar as coordenadas fundacionais da Psicanálise, por outro,
essa localização não se faz sem entendermos a função da
sexualidade como essencial para o sujeito. No entanto, não está
falando exatamente da sexualidade de que trata a sexologia.
Portanto, se “Freud só pensa naquilo”, o que é, afinal de contas,
aquilo?
Faremos neste momento uma imersão no universo da sexualidade
não apenas como genitalidade, mas como algo que inclusive funda
o próprio sujeito. Acompanharemos mais detalhadamente o que
isso quer dizer.
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Ao �nal deste módulo, você será capaz de localizar a sexualidade
infantil como eixo importante da constituição psíquica.
A construção moderna
sobre o infantil
A sexualidade infantil é uma grande novidade incorporada por Freud na
investigação sobre o psiquismo. Até o século XIX, podemos dizer que
não existia um olhar para a sexualidade infantil. A criança não
comportava nem mesmo um espaço de visibilidade social legítimo. O
conceito do infantil é uma construção eminentemente moderna, como
vai desenvolver Phillipe Ariès, um historiador que organiza um estudo
muito completo acerca de como as noções de criança e família foram
forjadas, sobretudo na modernidade.
Para aquela época, era uma grande novidade falar da criança como um
ser com especificidades próprias.
Vamos lembrar que a criança era vista como um adulto em miniatura,
como retratava-se em pinturas renascentistas e barrocas.
A organização das ideias de infância e de família como conhecemos
hoje é datada historicamente. A família nuclear burguesa, esta que
conhecemos organizada em torno do pai, mãe e filho(s), é uma
construção moderna. A própria ideia de família se organiza em torno da
criança que ganha um estatuto de existência, conceitualmente falando.
O nascimento da infância como conceito está inserido
numa rede de articulações que envolve os cuidados da
família na relação com a Psicologia, com a Educação e
com a Medicina.
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A criança, até então, é vista como uma espécie de anjinho, que não teria
sexualidade. Ou, no caso das famílias pobres, nem se tinha o
sentimento de intimidade com a criança, haja vista que provavelmente
não sobreviveria, por causa dos precários ou inexistentes cuidados
médicos. Quem sobrevivia era já um adulto. Não se tinha o sentimento
da infância.
A sexualidade, nesse contexto, seria uma prerrogativa da vida adulta, de
forma a estar articulada com os fins de reprodução da espécie. Essa é
uma cartografia intimamente relacionada à biologia.
Sendo o sexo visto como algo da ordem da procriação, a criança não
participaria desse enredo.
Em outras palavras, a visão que existia sobre as crianças antes de Freud
era relativa a um ser ingênuo e angelical que despertava pouco interesse
na sociedade.
O surgimento da infância
sexualizada
Freud organiza, nesse contexto, um ousado descentramento em relação
à infância imaculada. A Psicanálise, com seu inventor, desdobra
importantes considerações acerca do desenvolvimento psicossexual do
sujeito. Mas para entender isso, é importante frisar a distinção entre
uma sexualidade ligada a fins procriativos e uma outra dimensão da
sexualidade. Essa diferenciação é extremamente relevante.
Se organizarmos uma incursão na história da sexualidade, veremos
basicamente o quanto o sexo exerce uma importância na economia
libidinal relacionada aos corpos, aos relacionamentos, à maneira de se
conceber como pessoas. Por isso mesmo, a sexualidade é um eixo
privilegiado do exercício do poder.
A sexualidade, sobretudo na tradição ocidental, marcada pelo traço
judaico-cristão, sempre esteve às voltas com uma inspeção minuciosa
pela religião. Nessa chave de leitura, há uma articulação da sexualidade
à biologia na intenção de respaldar a noção de sexo como propósito de
procriação.
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Daí a visão hegemônica de um relacionamento heterossexual bem como
a ausência da sexualidade até a vida adulta, matrimonial.
Os inícios da manifestação da vida sexual pela via genitalizada são
altamente vigiados. Há toda uma tradição que incrementa de medos e
fantasias a relação com o conhecimento do corpo não ligada aos fins
reprodutivos. A manifestação da puberdade é imantada por fantasmas.
Você já ouviu alguém dizer sobre a lenda de que a prática da
masturbação masculina provocaria o crescimento de pelos na mão?
Esse tipo de crença estava associado a essa vigilância, tendendo ao
controle do movimento dos corpos, do conhecimento sexual.
Assim, o corpo deveria ser preservado até o casamento, quando se há
uma certa “liberação oficial”, digamos, para a vivência da dimensão
sexual, circunscrita, inclusive, na relação com uma outra pessoa, para
fins de procriação.
Certamente, esse é um aspecto da sexualidade. No entanto, a
sexualidade não se restringe à dimensão genitalizada e procriativa. É
nesse campo que Freud adentra em seus Estudos sobre a histeria e cria,
posteriormente, o dispositivo psicanalítico.
A primeira teoria do trauma, advinda da teoria e da terapia da histeria,
sustentava que a neurose era produzida a partir de uma sedução sexual
real, em geral ocorrida na infância. No início dessa construção teórica, a
sedução era significada em um momento posterior, em geral na
adolescência, gerando efeitos tóxicos no psiquismo e se manifestando,
sobretudo, no corpo, por meio dos sintomas relacionados à
impossibilidade de reação ao caráter sexual da sedução. Assim, o efeito
patogênico seria cessado pela remissão sintomática por meio da ab-
reação, que seria a expurgação do afeto, a descarga de energia que
permitiria que a pessoa se livrasse de sentimentos e emoções
associados a algum evento traumático.
Atenção
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Freud explicava a neurose e, especialmente, a histeria como
consequências de um evento traumático relacionado com alguma
situação de sedução, que podia ocorrer na infância, mas que somente
era significada como tal na adolescência ou depois. Os efeitos tóxicos
dessa situação de sedução no psiquismo se deviam ao fato de
considerá-la como indevida ou proibida, gerando um incômodo
significativo na pessoa que passaria a recalcar tal situação.
Lembremos que, ao falarmos recalcar, estamos dizendo que essa
situação ficaria fora do sistema consciente, mas ocasionando, ainda,
sintomas geralmente somáticos. Esses sintomas só cessariam a partir
do momento em que a paciente, com a ajuda do psicanalista,
conseguisse voltar a lembrar do evento e expurgar, ou seja, liberar os
afetos a ele associados que geravam o incômodo original.
Essa concepção do trauma não comportava a noção de sexualidade
infantil em um primeiro momento. Ficava pouco claro o registro da
afirmação de que o trauma neurótico tinha raízes numa sedução sexual
no registro infantil. A operação da significação traumática em um
momento posterior foi uma primeira maneira de ainda preservar algo da
infância. Não podemos esquecer que esse era um terreno arenoso para
Freud.
Uma boa perspectivasobre o trauma psicológico, na relação das
diferenças entre a criança e o adulto, pode ser mais bem observada na
leitura feita por Sándor Ferenczi (1873–1933), importante psicanalista e
médico húngaro que colaborou significativamente no trabalho de Freud.
Separando a qualidade da linguagem do sexual entre a criança e o
adulto, Ferenczi pressupõe que a linguagem a que a criança está
remetida é a da ternura, enquanto o adulto está inscrito na linguagem da
paixão.
No entanto, retornando a Freud, acompanhamos o desdobramento da
característica sexual infantil sendo pautada pelo discurso psicanalítico
de maneira cada vez mais densa.
Os constantes relatos de abuso sexual promoveram uma investigação
mais atenta pelo pai da Psicanálise, no sentido de verificar a
materialidade dos relatos. Nesse aprofundamento, Freud se vê às voltas
com a constatação de que nem todo relato de uma cena de sedução
sexual ocorreu na realidade material dos fatos.
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Certamente, os abusos sexuais reais existiam, como infelizmente ainda
existem, e precisamos nos atentar para a violência disso. No entanto, do
ponto de vista teórico, é importante sublinhar o caráter intrigante com o
qual Freud se debruçava em sua clínica, de que muitos relatos eram
cenas vivenciadas na fantasia.
Daí a famosa frase de Freud a seu interlocutor Fliess:
“Não acredito mais em minha neurótica”.
Fantasia e cuidados
primários da criança
Estava colocada na cena a fantasia como eixo central na organização
do psiquismo. Para compreender melhor a questão das fantasias,
exploraremos, mais adiante, o complexo de Édipo. No entanto, a fim de
contextualizar preliminarmente a questão, continuaremos a pensar junto
com Freud na curiosidade a respeito dos relatos sexuais nas histéricas.
O fato de haver sucessivos relatos de abusos faz Freud se perguntar se
toda Viena era pervertida sexualmente, abusando de suas crianças.
O que ocorre é que o abuso poderia existir até certo ponto, pois o fato de
não ter acontecido na realidade não implicava que fosse uma mentira.
Fica evidente aqui a necessidade de enunciar a caracterização de outra
dimensão da realidade, a realidade psíquica. Essa é a realidade com a
qual o psicanalista trabalha, e ela é recheada de processos psicológicos
complexos, muitos deles inconscientes, e nos quais a fantasia de
sedução exerce uma centralidade.
Realidade material e realidade psíquica são dois eixos distintos, que se
entrecruzam. Quantas realidades podem existir na realidade? Questão
complexa, hein...
A centralidade da fantasia
de sedução
O professor Maicon Pereira da Cunha explica a centralidade da fantasia
de sedução na organização do psiquismo e na delimitação da realidade
psíquica e da realidade fatual.

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Freud nunca abandona a teoria da sedução exatamente, mas o
abandono passa a ser da factualidade do caso, quer dizer, da suposição
de uma cena originária de abuso. Por outro lado, a sedução vai ser
entendida como um complicado jogo de processos de identificação, de
idealização, de amor e de relações intersubjetivas complexas.
Os primeiros cuidados maternos são fonte da instauração de uma rede
de afetos e intensidades que organizam o psiquismo. A função materna
envolve a criança em sua necessidade, o que Donald Winnicott (1896–
1971), um pediatra inglês que se tornou um grande psicanalista, chamou
de concern, ou seja, um estado de preocupação materna primária.
Aliás, cabe ressaltar que os cuidados maternos não são
necessariamente realizados pela mãe, mas por qualquer pessoa que
realize a função de maternagem. Quando falamos de função materna e
função paterna, não estamos necessariamente nos referindo às figuras
dos genitores, mas dos que cuidam.
Maternagem
Termo originalmente usado por Winnicott e depois utilizado pelos
psicólogos para falar dos bons cuidados e da proteção que mães e
cuidadores têm com os seus bebês (incluindo não somente o atendimento
às necessidades fisiológicas dos filhos, mas também todo o amor e
aconchego).
Na organização da família nuclear burguesa, havia uma separação
muito evidente entre os processos exercidos pelo homem e pela mulher.
O espaço da rua, o espaço público, das decisões macro era destinado
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aos homens, enquanto o espaço privado, o cuidado com as atividades
domésticas, o cuidado com a casa e com as crianças era destinado às
mulheres. A mulher não precisa ficar restrita ao espaço doméstico,
porque, afinal, lugar de mulher é onde ela quiser!
A mulher pode ocupar os espaços que desejar, assim como
evidentemente é importante que as tarefas domésticas sejam
compartilhadas por todos que compartilhem aquele espaço, porque
todos usufruem dos benefícios de uma casa limpa e funcional. Também
todos devem participar da organização da divisão das tarefas pelo
cuidado da casa e dos filhos. Entretanto, por esse traço histórico,
falamos da maternagem como algo relativo apenas à mãe.
O importante é sublinhar que a função materna é realizada por qualquer
pessoa que se ocupe da atenção materna primária.
Não importa se trata-se de uma organização familiar tradicional, ou de
outras formas de organização da família, como as famílias
homoparentais, ou famílias unipessoais, por exemplo. O modo como a
família se organiza não é relevante, o importante é o elo afetivo que une
seus componentes.
Assim, dizemos que a função materna é essa que oferece uma forma de
comunicação inicial com o bebê, de modo que as necessidades do bebê
sejam sanadas e, nesse ínterim, a qualidade da relação com quem
exerce a função de maternagem é algo imprescindível para a
estruturação e o desenvolvimento global do bebê e, consequentemente,
daquele ser.
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
(IF ‒ SP ‒ Psicólogo ‒ 2012) Considerando a teoria do
desenvolvimento psicossexual, assinale a alternativa correta.
A
Refere-se a um processo de mudanças quantitativas
na organização da vida intelectual do sujeito. Tal
processo de mudanças é regido pelo binômio
“estímulo-resposta”.
B
Refere-se ao estudo e à compreensão dos
processos de ampliação do ego e do superego e,
principalmente, à evolução da libido. Tal
compreensão é dividida, por Piaget, em fases que
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Parabéns! A alternativa C está correta.
A constituição subjetiva, do ponto de vista psicanalítico, é marcada
pelas impressões que advém do campo do outro, ou seja, daqueles
que cuidam da criança em um primeiro momento. A partir da
experiência intersubjetiva é que todas as nossas marcas subjetivas
serão constituídas, a partir da nossa qualidade relacional-pulsional.
Questão 2
Qual das alternativas a seguir caracterizam a sexualidade infantil,
segundo a teoria psicanalítica?
são: sensório-motor, pré-operatório, operatório-
concreto e operatório-formal.
C
Propõe uma visão do processo de mudanças
emocionais que ocorre ao longo da vida infantil, ou
seja, uma compreensão das relações subjetivas que
a criança estabelece com o mundo e com o “outro”.
D
É uma teoria desenvolvida por Freud que se refere a
uma compreensão inatista (que não depende da
experiência) do desenvolvimento emocional, pois
considera o desenvolvimento do aparelho mental a
partir das pulsões e do Id.
E
É uma compreensãodo desenvolvimento sexual
desde o ponto de vista genital-fisiológico, em que as
mudanças físicas e hormonais afetam o psiquismo
e podem gerar diversas patologias, caso o sujeito
não consiga viver plenamente a sua sexualidade.
A
Uma sexualidade genitalizada e procriativa
tradicional.
B Uma ausência de sexualidade e autoerotismo.
C
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Parabéns! A alternativa D está correta.
A sexualidade infantil é marcada pelo autoerotismo e pela
masturbação. Diferentemente da sexualidade adulta, que faculta o
encontro dos corpos e, por isso, a possibilidade do encontro sexual
genital, a sexualidade infantil é polimorfa, com pulsões parciais que
não necessariamente ficam no domínio da zona genital.
2 - Conceito de pulsão
Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car o conceito de
pulsão como um conceito fundamental da Psicanálise.
As pulsões e os cuidados
maternos primários
Uma sexualidade centrada nos genitais e na
masturbação.
D
Uma sexualidade autoerótica e sem fins de
reprodução.
E
Uma expressão da sexualidade apenas na atividade
onírica.
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Com o desenvolvimento das primeiras marcas psíquicas do sujeito,
advindas do cuidado do outro, Freud afirma que a relação de uma
criança com quem cuida dela proporciona “uma fonte infindável de
excitação sexual e de satisfação de suas zonas erógenas.” (FREUD,
1905, p. 210). É importante que aquele que cuida da criança se atente
não apenas aos cuidados orgânicos, mas à qualidade da relação, à
forma como aquele cuidado marca o corpo. Para Freud, essa já é uma
marca de sexualização. O corpo passa a ser erogeneizado a partir dessa
relação.
Para a Psicanálise, o corpo passa a ser entendido além do modelo
mecanicista predominante no pensamento científico da época. O corpo
é erogeneizado, em outras palavras, compreende a conexão entre
aspectos físicos e psíquicos, pois o mesmo se encontra marcado tanto
pela pulsão como pela linguagem de forma inseparável.
Aqui estamos falando da pulsão, e por isso é relevante apontar a
importância desses cuidados maternos primários, pois aí a pulsão
começa a ser verificada:
O trato da criança com a pessoa que a assiste é,
para ela, uma fonte incessante de excitação e
satisfação sexuais vindas das zonas erógenas. Em
adição, essa pessoa cuidadora — usualmente a
mãe — contempla a criança com os sentimentos
derivados de sua própria vida sexual: ela a
acaricia, beija, e embala, e é perfeitamente claro
que a trata como o substituto de um objeto sexual
plenamente legítimo.
(FREUD, 1905, p. 210-211)
Portanto, um primeiro registro é de que os cuidados maternos primários
erotizam a criança à medida que se imprime uma qualidade relacional
que erotiza o corpo e, como tal, o psiquismo nascente junto com a
dimensão corporal. Falamos, em psicanálise, de um corpo que não é
apenas um conjunto de órgãos com funções vitais e com uma dimensão
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anatômica e fisiológica de determinada configuração. Falamos,
sobretudo, de um corpo pulsional, um corpo que é indissociável de sua
dimensão de relação ao outro que o cuidou.
Mas estamos falando de pulsão, e até agora não a definimos.
Considerando a problemática em questão, comecemos por delinear
esse conceito importante, ou por assim dizer, fundamental, em
Psicanálise. O conceito de pulsão ganha uma materialidade dentro da
obra freudiana, de forma sistemática, a partir do texto Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade (1905), uma das importantes obras de
Freud na qual o autor desenvolve a teoria da sexualidade e o
desenvolvimento psicossexual, embora tal conceito já se faça presente
anteriormente, sob a forma de uma excitabilidade endógena que se
impõe constantemente e se movimenta rumo à descarga.
Por pulsão, nos Três ensaios, Freud concebe como sendo:
“O representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação
que flui continuamente, para diferenciá-lo do ‘estímulo’, que é produzido
por excitações isoladas vindas de fora.
Pulsão, portanto, é um dos conceitos de
delimitação entre o anímico e o físico.
A hipótese mais simples e mais indicada sobre a natureza da pulsão
seria que, em si mesma, ela não possui qualidade alguma, devendo
apenas ser considerada como uma medida de exigência de trabalho
feita à vida anímica” (FREUD, 1905, p. 159)
A pulsão, como delineia Freud, se instaura na borda do aparelho
psíquico, ou aparelho anímico (de alma), por sua relação com o
corporal. A questão da ligação indissociável entre corpo e psíquico
ganha notoriedade nessa concepção, justamente porque, em outras
palavras, a pulsão é um conceito que diz respeito a uma medida de
exigência de trabalho feita do corpo ao psíquico. Por isso que a função
do apoio da pulsão sexual no instinto, como veremos adiante, é
importante. Exemplificando, comer é uma atividade necessária ao corpo,
mas comer por ansiedade já é outra coisa!
Essa formulação crítica da concepção do psíquico a partir das
imposições do corpo abre espaço para a discussão acerca do
funcionamento do aparelho anímico. A pulsão, ao contrário do instinto,
não se caracteriza pela fixidez, declarando Freud nesse texto que o
objeto é o que existe de mais variável na pulsão.
É importante distinguir a pulsão do instinto, pois os dois termos são
passíveis de confusões. Entenda as diferenças:
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Pulsão
O aspecto pulsional remonta à ideia de uma variabilidade do objeto
que visa à satisfação. A satisfação, refere-se à ideia da obtenção
de prazer, e não apenas a necessidade biológica.
Instinto
O instinto remete-se a um impulso natural para a obtenção de
objetos que visam satisfazer as necessidades de sobrevivência
própria ou da espécie.
Na maior parte de sua obra, Freud fala de Trieb (pulsão) e não de Instinkt
(instinto). Mas vamos explicar melhor essa diferença e o conceito de
pulsão ao longo deste texto.
As características da pulsão
Essa diferença fica mais nítida ao adentrarmos no texto dos Três
ensaios. Lendo a obra de Freud, podemos compreender melhor que a
caracterização da sexualidade infantil é marcada pela variabilidade
objetal, ou seja, as pulsões parciais.
As pulsões parciais estão ligadas a zonas erógenas específicas (zonas
do corpo por meio das quais a criança sente prazer), compondo a
sexualidade infantil de caráter autoerótico. Essa composição nos
remete ao caráter perverso-polimorfo da sexualidade.
Mas o que quer dizer isso?
Para Freud, o conceito de perversão polimorfa se refere à capacidade de
obter prazer fora dos comportamentos sexuais socialmente
determinados, marcados sobretudo pelo aspecto genital. O traço
perverso-polimorfo se centra na perspectiva de desvio, justamente um
desvio em relação a um objeto fixo, este que está presente no instinto.
Por isso esse é um traço perverso. E é polimorfo, pois a disposição
sexual incide em múltiplas áreas possíveis do corpo. Para um instinto,
existe um objeto específico para sua satisfação. Na questão da pulsão,
o objeto não é natural, marcando o caráter da sexualidade pela não
fixidez, mas pela mobilidade, portanto.

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Para Freud, a criança não tem seu gozo restrito ao aspecto genital, daí a
ideia de polimorfo; ao mesmo tempo, a criança não apresenta um objeto
fixo para um determinado impulso, daí a ideia de perverso. Logo, é
frequente que a criançasinta prazer de diversas formas e com diversos
objetos.
Mas é importante que entendamos que esse prazer da criança não se
enquadra, necessariamente, à lógica do prazer caraterístico da vida
sexual adulta.
Podemos exemplificar como o prazer na mucosa da boca. O beijo ou o
ato de fumar podem ser, tradicionalmente, do ponto de vista
psicanalítico, vistos como derivados do prazer infantil da sucção no ato
da amamentação.
A pulsão: de�nição e
características
Neste vídeo, o professor Maicon Pereira da Cunha explicará a diferença
entre os conceitos de pulsão e de instinto, apresentando as principais
características da pulsão e a importância desse conceito para o
entendimento do traço de perversão polimorfa da teoria psicanalítica.
A variabilidade do objeto da pulsão é destrinchada a partir do primeiro
dos três ensaios, intitulado As aberrações sexuais. Nele, Freud subverte
a ideia de perversão, trazendo-a para mais perto de uma certa noção de
normalidade. Para o psicanalista, numa perspectiva psicodinâmica da
subjetividade, a linha que separa o normal do patológico é muito mais
tênue do que se possa vir a supor. E o conceito de perversão é uma

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categoria importante para entender isso, pois a perversão não é apenas
uma condição ligada a uma perspectiva psicopatológica.
Na visão de Freud, a perversão é um conceito com muitos significados.
Dizemos a respeito do traço perverso que ele é a afirmação de um
desvio em relação a uma finalidade sexual genitalizada. No entanto,
existe uma série de práticas que visam apenas ao prazer. Algumas delas
são tão estranhas em relação ao comportamento sexual dito normal
que são consideradas aberrações.
Justamente tomando esses exemplos é que Freud constrói sua
teorização em torno da variabilidade do objeto da pulsão sexual. O
objeto da pulsão pode ser qualquer objeto.
Do ponto de vista da energia, dizemos que a energia da pulsão sexual,
seu motor, é a libido. Freud faz uma diferença entre a pulsão sexual, da
qual seu protótipo é o amor, e a pulsão de autoconservação, que visa à
preservação do indivíduo e da espécie. O protótipo desta é a fome e o
motor da pulsão de autoconservação é a necessidade.
O objetivo é outro elemento da pulsão. Em relação à sexualidade
genitalizada e com o olhar dentro da perspectiva biológica, o objetivo
sexual seria caracterizado pela união dos órgãos sexuais com fins
reprodutivos. No entanto, Freud pressupõe que, em não existindo o que
se poderia dizer de uma sexualidade normal, genitalizada e com fins
procriativos apenas, o objetivo da pulsão é a descarga, ou seja, a
satisfação. Freud afirma que há sempre algo de perverso no
concernente à atividade sexual, contornando-se um objeto para a
finalidade de obtenção da satisfação.
No segundo ensaio, Freud realiza sua maior polêmica para a época, que
é descrever sua teoria da sexualidade infantil. Afirmar que existe
sexualidade na infância foi algo bastante perturbador, como já
anunciamos. Mas vamos ao detalhamento do que Freud quer dizer com
isso.
Primeiro, é preciso reafirmar que a sexualidade infantil não é,
evidentemente, caracterizada, pela genitalização. No entanto, ela
comporta uma dimensão de sexualidade.
A sexualidade infantil é caracterizada pelo caráter
autoerótico, o que significa que a criança tem
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satisfação consigo própria, em partes do seu corpo.
O autoerotismo designa o estrato sexual mais primitivo da vida
psicossexual, se caracteriza pela ausência de objeto sexual exterior. A
criança, nessa fase, extrai satisfação, por exemplo, ao chupar seu dedo.
Há uma satisfação que se serve do apoio advindo da pulsão de
autoconservação, ou seja, da necessidade corpórea de manutenção.
A noção de “apoio” é importante, pois um circuito do prazer se inicia por
meio da necessidade corporal satisfeita. Então, o chuchar, que pode,
inclusive, durar muito tempo, se apoia na primeira forma de satisfação
no objeto seio materno. Existe a satisfação de uma necessidade
orgânica derivada da nutrição do aleitamento materno, e apoiada nessa
inscrição da satisfação da necessidade, a pulsão sexual se inscreve
como registro de prazer. Aqui, temos o início da organização das fases
do desenvolvimento psicossexual, relativo à fase oral, mas disso nos
ocuparemos posteriormente.
Queremos apontar a importância de afirmar que há uma sexualidade no
ato de mamar o seio, no qual se inscreve um registro de prazer e o início
da atividade sexual da criança caracterizado pela oralidade, nesse
momento. É essa dissociação da pulsão sexual em relação ao instinto
que vai constituir a diferença do sexual entendido como instinto e do
sexual como pulsional.
Ou seja, o corpo humano é caracterizado pela pulsão, uma vez que é
imantado pela inscrição do prazer. Então, falamos das zonas erógenas,
que são certas regiões do corpo que são fonte de investimento do
prazer de maneira mais intensa e facilitada. Há áreas do corpo que são
mais sensíveis a propiciarem prazer, como a boca ou os genitais. Essas
áreas são mais facilmente passíveis de investimento libidinal.
Voltamos, então, aos outros elementos da pulsão. Falamos do objeto,
que é o que de mais variável existe na pulsão. Existe o objetivo, que é a
satisfação. Os outros dois elementos são a força, o motor, a energia
necessária para que a pulsão exerça seu circuito. A força da pulsão é
sempre constante. A fonte da pulsão, como vimos pela noção de
“apoio”, está sempre referida ao corpo, portanto, é sempre
endossomática, ou seja, advém do interior do corpo.
Os destinos da pulsão
No texto A pulsão e os destinos da pulsão (1915), Freud disserta sobre
seus destinos. A questão gira não apenas em torno da discussão sobre
o que é a pulsão, mas sobretudo para o desenvolvimento dos seus
destinos.
Tema 2 - A teoria da sexualidade 63
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Os destinos se desenvolvem em quatro partes, conforme podemos
observar a seguir:
O primeiro destino da pulsão é o recalque. O recalque é uma
operação psíquica que consiste numa divisão, a divisão que
opera o próprio funcionamento do aparelho psíquico, dividido
entre os sistemas consciente e inconsciente. Aquilo que é
conflitivo ao sujeito tenderá a ser recalcado.
Por exemplo, um pensamento que se julga moralmente errado,
como ter desejo por alguém casado, tenderá a ser recalcado no
inconsciente.
O segundo destino da pulsão é o retorno contra a própria pessoa.
Considerando que há uma relação de objeto na qual o sujeito
obtém satisfação, o eixo do narcisismo afirma que é possível ao
sujeito tomar seu eu como objeto. Isso implica numa dialética
bastante rica: as dinâmicas sadomasoquistas encontram aqui
sua economia.
Por exemplo, no masoquismo o sujeito pode obter prazer ao
fazer as vezes de objeto para o sádico. No sadismo acontece o
oposto: o prazer está no exercício do poder e na dominação. Ou
seja, o objeto da satisfação pulsional no masoquismo se
deslocou, posto que o masoquismo seria um sadismo voltado
contra a própria pessoa.
Recalque 
O retorno contra a própria pessoa 
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O terceiro destino da pulsão é a mudança de conteúdo em seu
oposto. O mais comum é a ambivalência, na qual sentimentos
opostos se mesclam em relação ao mesmo objeto. Nessa
reversão em seu contrário, encontramos a transformação do
amor em ódio, por exemplo. A pulsão obtém satisfação do
mesmo objeto que já amou, no entanto, odiando-o.
O último destino da pulsão é a sublimação. Tendemos a pensar a
sublimaçãocomo sinônimo de criação, especialmente a
artística. Pode haver sublimação na arte, mas nem toda arte é
sublimação, e tampouco toda sublimação se converte em arte. A
sublimação é, sobretudo, a necessidade de criação de um
caminho que seja orientado pela transformação da energia
sexual em fins culturais.
Um exemplo de sublimação pode ser encontrado quando o
artista pinta um quadro.
Antes de passarmos às fases do desenvolvimento psicossexual,
retomamos os Três ensaios de Freud, somente para elencar o terceiro
deles, que diz respeito às transformações da puberdade. Aqui, fala-se da
sexualidade em sua caracterização já genitalizada, devido à
possibilidade do exercício sexual já desenvolvido. A pulsão, que em sua
fase infantil é caracterizada pela parcialidade, devido ao seu caráter
A mudança de conteúdo em seu oposto 
Sublimação 
Tema 2 - A teoria da sexualidade 65
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autoerótico, a partir da puberdade pode ser determinada pela primazia
dos genitais.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Tema 2 - A teoria da sexualidade 66
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Questão 1
(MB ‒ 2014 ‒ CSM ‒ Primeiro Tenente ‒ Psicologia). Freud (1905),
em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, postula um
importante conceito da Psicanálise como sendo "O representante
psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui
continuamente" e "um dos conceitos da delimitação entre o anímico
e o físico". Qual é a denominação desse conceito?
Parabéns! A alternativa C está correta.
Conceito fundamental da Psicanálise, a pulsão se delineia como
uma medida de exigência de trabalho feita do somático, ou seja, do
corpo ao psíquico. Trabalhado primeiramente no texto Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade, de 1905, esse conceito será
sistematizado em 1915, no texto A pulsão e os destinos da pulsão.
Questão 2
(Concurso Público ‒ Psicologia Clínica ‒ UERJ ‒ 2015). No segundo
dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), em relação
ao chuchar (contato de sucção com os lábios, do qual está excluído
qualquer propósito de nutrição), que Freud toma como uma
manifestação na qual se pode estudar os traços essenciais da
atividade sexual infantil, considera-se que
A Latência
B Libido
C Pulsão
D Zona erógena
E Disposição perverso-polimorfa
Tema 2 - A teoria da sexualidade 67
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Parabéns! A alternativa B está correta.
A característica da sexualidade infantil é o autoerotismo,
diferentemente da sexualidade da vida adulta, marcada
notadamente pela possibilidade da vivência da sexualidade em sua
manifestação genitalizada. O autoerotismo comporta a dimensão
do prazer com partes do próprio corpo.
A
o sexual se confunde com o genital e a satisfação
da pulsão é autoerótica.
B
o sexual não se confunde com o genital e a
satisfação da pulsão é autoerótica.
C
o sexual se confunde com o genital e a satisfação
da pulsão não é autoerótica.
D
o sexual não se confunde com o genital e a
satisfação da pulsão não é autoerótica.
E
o genital se confunde com o sexual e a satisfação
da pulsão é autoerótica.
Tema 2 - A teoria da sexualidade 68
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3 - Elementos do desenvolvimento
psicossexual
Ao �nal deste módulo, você será capaz de relacionar os elementos do
desenvolvimento psicossexual.
Desenvolvimento
psicossexual
Freud realiza, durante sua pesquisa, um importante mapeamento acerca
do desenvolvimento psicossexual do sujeito a partir da sexualidade
infantil. Para a Psicanálise, o desenvolvimento humano e a
personalidade não se encerram apenas na observação dos aspectos
orgânicos ou cognitivos. A experiência psicanalítica ressalta a
importância do aspecto emocional nesse sentido. Freud entendia que o
sujeito se desenvolve de forma integrada com seus aspectos físico e
psíquico, cognitivo e emocional. Nessa leitura, mente e corpo andam
juntos. E como é realizado esse desenvolvimento? É isso que veremos
neste módulo.
O desenvolvimento humano atrelado à sexualidade preconizado pela
Psicanálise está de acordo com a Organização Mundial da Saúde
(OMS), quando diz que:
A sexualidade forma parte integral da personalidade de cada
um. É uma necessidade básica e um aspecto do ser humano
que não pode ser separado dos outros aspectos da vida.
Sexualidade não é sinônimo de coito e não se limita à presença
ou não do orgasmo. Sexualidade é muito mais do que isso, é a
energia que motiva a encontrar o amor, o contato e a
intimidade e se expressa na forma de sentir, na forma de as
pessoas tocarem e serem tocadas. A sexualidade influencia
pensamentos, sentimentos, ações e interações e tanto a saúde
física como a mental. Se a saúde é um direito humano
fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada
como um direito humano básico.
Tema 2 - A teoria da sexualidade 69
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(OMS, 1975, apud EGYPTO, 2003, p. 15-16)
Assim, é importante observar o desenvolvimento psicossexual do
sujeito, e essa observação é feita por Freud a partir do infantil. A criança
obtém prazer no seu cotidiano, e esse prazer, seja na brincadeira com as
outras crianças, com seus pais, enfim, com seu meio, seja com seu
próprio corpo, cria marcas que serão constitutivas de sua organização
psicológica.
Com a ajuda da interlocução com W. Fliess (cartas 52 e 75), desde 1896,
Freud empenha-se em estabelecer os períodos do desenvolvimento
individual, os quais estariam relacionados a zonas erógenas
determinadas. Por isso, emprega desde sempre o termo “fase”, para
com ele designar as etapas da evolução da libido, isto é, da energia
sexual.
A noção de fase é importante, pois permite entendermos de forma
ampla alguns elementos e acontecimentos daquele período do
desenvolvimento. Uma determinada fase está ligada à centralidade de
alguma zona erógena. A partir da noção de zona erógena e da
suposição de que algumas partes do corpo são mais suscetíveis à
erogeneização, Freud desenvolveu seu conceito de “organização” da
libido, implicando certo modo de relação do indivíduo com seu mundo.
Importante afirmar que Freud não pensa o desenvolvimento de forma
exatamente linear e progressiva. Isso quer dizer que pode haver
regressões.
Exemplo
Uma criança já passou por algumas fases do desenvolvimento, de
forma que ela já conseguiu adquirir um controle muscular e
esfincteriano e, portanto, ela já não faz xixi na cama. Após o nascimento
de uma irmã ou irmão, ela pode se sentir insegura com relação ao amor
dos pais por ela e reage à ameaça que a criança mais nova lhe causa.
Com isso, ela pode rechaçar aquele bebê e voltar a fazer xixi na cama.
Quer dizer, o aspecto emocional é importante para entender essa trama.
Antes de prosseguirmos, vejamos o que temos até aqui:
Há sexualidade na infância, mas essa sexualidade não é
caracterizada pelo traço da genitalidade, esta que é a sexualidade
que se presencia na vida adulta. Entende-se sexualidade como
uma energia de vida.
A sexualidade infantil remonta à ideia de marcas ligadas ao outro,
denotando o seu caráter intersubjetivo.
O corpo não é meramente um corpo orgânico, mas um corpo
pulsional.
Tema 2 - A teoria da sexualidade 70
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A pulsão é um conceito que se instaura entre o corpo e o psíquico,
ou anímico.
As fases de evolução e
organização da libido
O professor Maicon Pereira da Cunha explicará por que, para Freud, o
desenvolvimento psicossexualpode ser dividido em fases, apresentará
sua relação com as zonas erógenas, bem como as cinco etapas de
desenvolvimento.
As fases do desenvolvimento
psicossexual
Conheça as fases do desenvolvimento psicossexual:

Fase oral

Fase anal-sádica

Fase fálica

Período de latência

Fase genital

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A fase oral
É a primeira fase da evolução sexual pré-genital, corresponde aos
primeiros momentos de vida até 2 anos de idade, aproximadamente, e
refere-se ao momento em que o prazer ainda está ligado à ingestão de
alimentos e à excitação da mucosa dos lábios e da cavidade bucal. É
também relacionada ao caráter canibalístico, devido à centralidade da
oralidade, na qual o conhecimento do mundo se dá pela boca. O objetivo
sexual consiste na incorporação do objeto, o que funcionará como
protótipo para identificações futuras, como a significação comer-ser-
comido que caracteriza a relação de amor com a mãe, por exemplo.
O canibalismo é um termo utilizado em Psicanálise por referência ao
canibalismo praticado por povos, em geral, primitivos. A qualificação do
canibalismo se dá por relações de objeto e fantasias que estão em
correlação com a atividade oral. O termo exprime de modo figurado
múltiplas dimensões da incorporação oral: amor, destruição,
conservação no interior de si mesmo e apropriação das qualidades do
objeto. O caráter canibalístico se refere ao extrato primitivo, mas pode
ser observado socialmente, por exemplo, em rituais religiosos. O ato de
comungar no rito católico diz respeito a incorporar oralmente a figura de
Jesus Cristo.
No caso da organização oral, a fonte é a zona oral, o objeto é o seio e o
objetivo é a incorporação do objeto. É importante assinalar que a fase
oral não é caracterizada apenas pelo predomínio de uma zona de corpo,
mas também por um modo de relação de objeto: a incorporação.
Entende-se com isso que o alimento, enquanto objeto de uma
necessidade orgânica, física, se distingue, como objeto do instinto,
daquilo que constituirá o objeto da pulsão, isto é, o seio materno para o
bebê. No desmame, quando esse objeto é abandonado, ou seja, quando
a satisfação se desliga da necessidade de nutrir-se, tanto o objeto
quanto o objetivo ganham autonomia com respeito à nutrição, constitui-
se o protótipo da sexualidade oral para Freud — o chupar o dedo — e o
início do autoerotismo.
A fase anal-sádica
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A fase anal-sádica é a segunda fase pré-genital da sexualidade infantil,
situada entre os 2 e os 4 anos, aproximadamente. Essa fase é
caracterizada por uma organização da libido sob o primado da zona
anal e por um modo de relação de objeto que Freud denomina “ativo” e
“passivo”. É uma fase marcada pelo controle dos esfíncteres.
Freud salienta o valor simbólico dessa fase, sobretudo ligado às fezes.
Tal é o caso da significação de que se reveste a atividade de dar e
receber ligada à expulsão e à retenção das fezes. É na fase anal que se
constitui a polaridade atividade-passividade que Freud faz corresponder
à polaridade sadismo-masoquismo.
A dimensão da ordem começa a surgir nessa fase, de forma a separar e
organizar o limpo do sujo. Incentiva-se a criança a utilizar o “troninho”
para defecar. Em geral, há um certo encanto da criança com suas fezes;
ela fica observando suas fezes no troninho ou na privada. Nesse
momento, simbolicamente, ela se encanta com o fato de seus
excrementos serem uma produção de si, de seu corpo, e não é raro a
criança “presentear” seus pais e cuidadores com sua produção. É a
primeira oferta da criança devolvendo algo ao mundo.
A fase fálica
Marcará o momento posterior às fases oral e anal, portanto, entre os 3–
5 anos. É nela que a criança reconhece apenas um órgão genital: o
masculino. Para Freud, essa fase apresentará a oposição entre os sexos,
por meio da distinção fálico-castrado, portanto, caracterizada pela
castração.
A libido é de natureza masculina, tanto na mulher como no homem,
devido à centralidade do falo. O falo é o equivalente simbólico do pênis,
símbolo de poder nessa teorização. A inveja do pênis, nessa leitura, é
caracterização do feminino, marcado pela castração.
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Nessa fase, Freud identificou reações de crianças a seus pais como
ameaça potencial à satisfação de suas necessidades. Dessa forma,
para o menino que deseja estar próximo de sua mãe, o pai se torna
como que um rival. Ao mesmo tempo, o menino ainda quer o amor e a
afeição de seu pai. Surge, portanto, a ideia de ambivalência, ou seja, a
criança terá que lidar com o fato de amor e ódio estarem muito
próximos, sobretudo na fantasia. A criança está na posição de querer e
temer ambos os pais.
Período de latência
O período de latência no desenvolvimento da criança não é
caracterizado como uma fase do desenvolvimento psicossexual
exatamente, mas sim uma fase na qual o desenvolvimento fica como
que suspenso.
A palavra latência expressa exatamente um período durante o qual algo
se elabora, antes de assumir existência efetiva. Na Medicina, em geral,
latência diz respeito ao intervalo entre o começo de um estímulo e o
início de uma reação associada a esse estímulo; tempo de reação.
No desenvolvimento psicossexual, ocorre entre 5–6 anos até a
puberdade. Nesse período, já houve a superação do complexo de Édipo.
O superego, a instância crítica do aparelho psíquico, resta como herdeira
do complexo edipiano. É a parte responsável pela porção moral do
psiquismo e representa os valores da sociedade.
No período da latência, a pulsão sexual é desviada para outras
finalidades, tais como a construção de aspirações estéticas e morais e a
aquisição de conhecimento. Os impulsos da pulsão sexual são
desviados para atividades intelectuais e outras destinações, como
amizades, estudos ou esportes.
A fase genital (puberdade e vida
adulta)
A fase genital se caracteriza pela viabilidade da vida sexual genitalizada.
Marca a vida adulta, e há uma volta à energia sexual para os órgãos
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genitais e, portanto, em direção às relações amorosas. Os conflitos
internos típicos das fases anteriores atingem aqui uma relativa
estabilidade conduzindo a pessoa a uma estrutura do ego que lhe
permite enfrentar os desafios da idade adulta. Nesse momento,
meninos e meninas estão conscientes de suas identidades sexuais
distintas e começam a buscar formas de satisfazer suas necessidades
eróticas e interpessoais.
Segundo Freud, a fase genital começa a partir do desenvolvimento da
puberdade. Não há uma idade precisamente, até porque isso varia de
pessoa para pessoa e contingências variadas, mas podemos afirmar
que por volta dos 11 ou 12 anos mudanças corporais, hormonais e
psicológicas são sensivelmente notadas.
A fase genital é uma fase que marca o fim da vida etária infantil e marca
o início da vida adulta. A atenção da organização da energia libidinal se
concentra nos órgãos genitais.
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
(UFPR/PRHAE ‒ Processo Seletivo ‒ Hospital de Clínicas – 2009 –
Psicólogo) Na obra clássica Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade, Freud propõe fases de desenvolvimento da
organização sexual na infância que permeariam a estruturação
psíquica da criança.
Sobre essas fases, assinale a alternativacorreta:
A
As fases descritas são caracterizadas pelo
autoerotismo.
B
A fase oral, ou organização sexual pré-genital
canibal, encontra-se ligada à ingestão de alimentos
e fundamenta-se na incorporação do objeto.
C
A fase anal apresenta uma organização na qual dois
objetos idênticos e parciais seriam buscados.
D
A fase de maturidade genital caracteriza-se pelo
reconhecimento do genital masculino, para onde
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Parabéns! A alternativa B está correta.
A primeira fase do desenvolvimento psicossexual é a fase oral,
marcada pelo conhecimento do mundo pela incorporação objetal.
Como a centralidade ocorre na boca, essa fase também é
conhecida como organização sexual pré-genital canibal.
Questão 2
Fase do desenvolvimento psicossexual marcada pelo controle dos
esfíncteres:
Parabéns! A alternativa D está correta.
É uma fase que ocorre mais ou menos entre os 2 e 4 anos e segue a
fase oral. É marcada pelo caráter anal, no qual o controle retentivo é
uma importante aquisição do desenvolvimento, além de ter uma
troca simbólica envolvida na questão da produção das fezes.
convergem todos os impulsos sexuais.
E
A fase fálica ocorre durante a adolescência, uma vez
que os objetos encontram-se hipererotizados.
A Fase canibalística
B Fase genital
C Fase oral
D Fase anal
E Fase de latência
Tema 2 - A teoria da sexualidade 77
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4 - Complexos de Édipo e de castração
Ao �nal deste módulo, você será capaz de relacionar os complexos de
Édipo e de castração no desenvolvimento.
Origens do complexo de
Édipo
Chegamos a um ponto que diz respeito não exatamente às fases do
desenvolvimento psicossexual, mas aos eixos-chave na interpretação
sobre o processo de elaboração da subjetividade pela perspectiva da
Psicanálise. Aqui, a referência é à centralidade do complexo de Édipo e
ao seu correlato, o complexo de castração.
Para entender melhor essa centralidade, precisaremos fazer um recuo à
superação da teoria do trauma. Lembremos que Freud se deparava
naquele momento inicial da Psicanálise com os casos de histeria em
que teria havido uma sedução sexual. Essa sedução teria sido exercida
por uma figura masculina mais velha que, em geral, seria o pai. Freud
começa a se espantar que quase toda Viena seria abusadora, haja vista
que eram recorrentes os relatos de abusos.
Evidentemente que havia casos de abuso materialmente falando.
Ocorriam abusos naquela época e ainda hoje, infelizmente, e esses
casos muitas vezes são silenciados. Todavia, Freud começou a prestar
atenção na escuta de uma cena de sedução que ocorria na fantasia.
Nessa medida, isso demonstrava a importância da fantasia e da
sexualidade infantil, e essas duas dimensões ficam articuladas pela
descoberta do complexo de Édipo.
Freud faz poucas referências ao complexo de Édipo, apesar de trabalhar
em toda a sua teoria com esse elemento. O complexo de Édipo surge
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pela primeira vez em uma carta a Fliess, de 15 de outubro de 1897. Mas
antes de mencionar essa carta, observaremos como Freud articula essa
ideia com o que vinha observando em sua clínica da histeria e como
alguns dos principais conceitos da Psicanálise foram surgindo.
Em 1897, Freud narra:
Os impulsos hostis contra os pais (desejo de que
eles morram) também são um elemento integrante
das neuroses. (...) Estes são recalcados nas
ocasiões em que é atuante a compaixão pelos
pais — nas épocas de doença ou morte deles. (...)
Parece que esse desejo de morte, no filho, está
voltado contra o pai e, na filha, contra a mãe.
(FREUD, 1950, p. 304-305)
Logo a seguir, na famosa Carta 69, Freud dirige a Fliess sua dúvida com
relação à teoria do trauma, dizendo não acreditar mais em sua neurótica
[teoria das neuroses]. É nesse momento que ele articula a teoria da sua
neurótica com as fantasias edipianas, afirmando serem estas o motivo
de suas descrenças nas cenas de abusos reais em todos os casos. O
importante de ser compreendido aqui é a fantasia sexual tendo
invariavelmente os pais como tema.
Os complexos edipiano e de
castração
O professor Maicon Pereira da Cunha refletirá sobre como a teoria do
trauma e a fantasia de sedução permitem que Freud articule o complexo
de Édipo e seu correlato, o complexo de castração, e derivados:
complexo de Electra, complexo de Édipo invertido.

Tema 2 - A teoria da sexualidade 79
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Freud segue na estruturação dos primeiros passos na organização do
complexo de Édipo constatando em si mesmo uma série de
sentimentos ambivalentes com relação às suas figuras familiares, pais e
até um irmão. Essa constatação se dá por meio de sua produção
onírica, ou seja, por meio de um sonho seu. Aí constata o que considera
como um evento universal do início da infância, a paixão pela mãe e o
ciúme do pai, que é justamente o eixo axial da trama edipiana: “Sendo
assim, podemos entender a força avassaladora de Oedipus Rex, apesar
de todas as objeções levantadas pela razão contra a sua pressuposição
do destino; (...) Cada pessoa da plateia foi, um dia, em germe ou na
fantasia, exatamente um Édipo como esse” (FREUD, 1950, p. 316).
A trama a qual todo vivente passaria em seu processo de
desenvolvimento é concebida por Freud por meio da alegoria da
tragédia grega do Édipo Rei, na qual sentimentos ambivalentes em
relação às figuras parentais orquestrariam nossa concepção subjetiva.
A tragédia Édipo Rei trata-se de uma peça de teatro grego antigo, escrita
por Sófocles aproximadamente em 427 a.C. A história central dessa
tragédia relata a história de Édipo. Édipo é o governante de uma cidade
que está sendo dizimada por uma praga. Envia, então, Creonte, seu
cunhado, para consultar o oráculo de Delfos. A resposta que recebe é
que o homem responsável pela morte de Laio, rei anterior a Édipo, vive
entre eles e deve ser morto para findar o terror.
Um velho adivinho, Tirésias, acusa Édipo pela morte de Laio, pois existia
uma profecia na qual Édipo assassinaria seu pai para casar com sua
mãe. Nesse momento, um mensageiro revela que Édipo tem pais
adotivos. Então, ele descobre que é filho de sua esposa Jocasta e que
matou Laio, seu pai, em uma de suas viagens.
Édipo era um bebê tebano abandonado para morrer. Por piedade, um
pastor coríntio o leva para sua cidade, onde será adotado pelo rei Pólibo.
Após muitos anos consultando o oráculo de Delfos para esclarecer uma
dúvida sobre sua origem, Édipo é atingido por uma grande profecia: seu
destino é matar o pai e casar com a própria mãe.
Tentando fugir de seu destino, como ocorre em toda tragédia grega,
Édipo abandona Corinto. Em suas andanças, encontra um homem mais
velho, com quem discute em uma encruzilhada. Encolerizado, mata o
viajante. Seguindo sem rumo, chega às portas de Tebas, onde a Esfinge
lhe propõe um enigma. Se errar, morrerá. A resposta de Édipo salva a
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sua vida e a da cidade. Como dupla recompensa, recebe de Creonte —
irmão da rainha e até então regente de Tebas — o título de rei e a mão de
Jocasta, viúva de Laio, o rei assassinado misteriosamente.
Em uma Conferência de 1917, intitulada O Desenvolvimento da Libido e
as Organizações Sexuais, Sigmund Freud alude:
E, agora, os senhores estarão ávidos por ouvir o
que esse terrível Complexo de Édipo contém. Seu
nome o diz. Todos os senhores conhecem a lenda
grega do rei Édipo, fadado pelo destino a matar
seu pai e a desposarsua mãe, que fez todo o
possível para escapar à decisão do oráculo e
puniu-se a si próprio cegando-se, ao saber que,
apesar de tudo, havia, sem querer, cometido
ambos os crimes.
(FREUD, 1917, p. 334.)
Édipo na teoria psicanalítica do
desenvolvimento do sujeito
A partir da referência à tragédia grega do apaixonamento pela mãe de
Édipo e da rivalidade paterna, Freud formula a trama edipiana no
menino. Essa é a forma simples do Édipo. Lembrando que Freud não
trabalha com o conceito do complexo de Electra, que seria tal qual o
complexo de Édipo no menino, mas na menina. A ideia do complexo de
Electra é trabalhada por Carl Gustav Jung posteriormente.
Freud preconiza que o Édipo na menina é o inverso em relação ao
menino, o que quer dizer que há um apaixonamento da menina pelo pai
e a rivalidade com relação à mãe. A questão vai se tornando um pouco
mais complexa ao longo de outros textos, mas estamos tentando
simplificar aqui para entender a lógica estrutural do complexo de Édipo:
Tema 2 - A teoria da sexualidade 81
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Complexo de Electra
Complexo de Édipo
Em sua Conferência de 1917, Freud afirma que a conduta do menino se
origina em motivos egoísticos, e explica que esse caráter egoísta é
justamente a fonte de ligação com a mãe, na medida em que ela
satisfaz todas as necessidades da criança. É aí que o interesse
egoístico oferece um ponto de apoio ao qual a tendência erótica se
vincula, de forma que o menino pode mostrar a mais indisfarçada
curiosidade sexual para com sua mãe.
Freud fornece exemplos disso, como a insistência em dormir ao seu
lado, solicitar sua presença à noite, permanecer junto a ela quando ela
está se vestindo ou mesmo fazer tentativas reais de seduzi-la. E chama
atenção que a mãe dedica a mesma atenção à sua filhinha, sem
produzir igual resultado. Por outro lado, o pai frequentemente compete
com a mãe em proporcionar cuidados ao menino, e, no entanto, não lhe
é atribuída a mesma importância que a ela.
Acompanhando a evolução da trama edipiana por uma outra
perspectiva, verificar-se-á um apaixonamento que surge da simbiose
mãe-bebê. Essa simbiose se verá ameaçada quando outros elementos
importantes se impõem na cena. É a distinção anatômica entre os
sexos, à medida que há posteriormente a identificação da existência de
seres com o pênis e seres sem.
Essa constatação surge simbolicamente referida à fantasia de que em
um início todos os seres tinham o pênis (agora numa referência ao
phallus — falo, o equivalente simbólico do pênis), mas que alguns seres
o perderam (as mulheres).

Tema 2 - A teoria da sexualidade 82
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Em 1924, no texto da Dissolução do complexo de Édipo, Freud articula o
complexo de Édipo como o fenômeno central do período sexual da
primeira infância. Ele afirma que, após esse período, se efetua sua
dissolução, e é seguido pelo período de latência. É nesse ponto que
Freud amarra o complexo de Édipo ao complexo de castração.
A observação que organiza o complexo de castração é a visão dos
órgãos genitais femininos. O menino, tendo orgulho da posse de um
pênis, tem uma visão da região genital de uma menina e não pode
deixar de convencer-se da ausência de um pênis na menina. “Com isso,
a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça de castração
ganha seu efeito adiado.” (FREUD, 1924, p. 195).
Resumindo
O complexo de Édipo se desfaz pela ameaça de castração, posto que
uma fantasia poderosa de que há seres castrados (as meninas) e o
medo de ele próprio também ser castrado leva o menino a abandonar o
apaixonamento pela mãe. Assim, ele se identifica com a lei simbólica,
atribuída ao pai. Em outras palavras, o menino se alia ao seu pai, como
forma de lidar com o medo de ser castrado por ele.
Por outro lado, Freud sustenta que o complexo de Édipo da menina é
muito mais simples que no menino. Dado que a menina se vê como um
ser castrado, tentativas de compensação seriam orquestradas. Pode-se
dizer, simbolicamente, que ela desloca do pênis para um bebê. Seu
complexo de Édipo culmina em um desejo fantasioso de ter um filho do
pai, numa atitude restauradora pelo seu narcisismo por meio do bebê.
Os dois desejos — possuir um pênis e um filho — permanecem
fortemente investidos no inconsciente e ajudam a preparar a menina
para seu papel posterior, de mulher.
Tema 2 - A teoria da sexualidade 83
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
(FEPESE ‒ Prefeitura Municipal de Bombinhas ‒ Psicólogo ‒ 2019)
Analise as afirmativas abaixo a respeito do complexo de Édipo:
1. É em torno dele que ocorre a estruturação psíquica do sujeito.
2. A mãe é o objeto de desejo do menino e o pai é o rival que
impede o acesso ao objeto desejado.
3. Acontece após os 14 anos de idade, na puberdade.
4. O menino escolhe o pai como modelo de identificação
comportamental para ter a mãe.
Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas.
A É correta apenas a afirmativa 1.
B É correta apenas a afirmativa 2.
Tema 2 - A teoria da sexualidade 84
28/05/2023, 22:24 A teoria da sexualidade
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Parabéns! A alternativa D está correta.
O complexo de Édipo organiza a subjetividade dentro da
perspectiva psicanalítica. Inicia-se pela simbiose com a mãe, e o pai
exerce a função de corte dessa relação, de modo que a triangulação
edipiana é o que permite a constituição neurótica. A identificação
com o pai é uma forma de permanecer com o vínculo amoroso com
a mãe, mas com uma qualidade relacional diferente em relação ao
primeiro estágio, o da simbiose.
Questão 2
Sobre o complexo de Édipo, um dos principais conceitos da teoria
psicanalítica, pode-se afirmar que
C São corretas apenas as afirmativas 2 e 4.
D São corretas apenas as afirmativas 1, 2 e 4.
E São corretas as afirmativas 1, 2, 3 e 4.
A
esse complexo é percebido apenas no gênero
masculino.
B
tal complexo envolve a relação mãe-filho, em nada
influenciando as demais relações da criança.
C
o complexo de Édipo masculino vai ter seu término
concomitantemente com o término da angústia de
castração no menino.
D
esse complexo é um conceito trabalhado apenas na
análise individual, não sendo possível concentrá-lo
em grupos.
E
tal complexo é considerado uma patologia que gera
nas crianças que o padecem severos problemas
Tema 2 - A teoria da sexualidade 85
28/05/2023, 22:24 A teoria da sexualidade
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Parabéns! A alternativa C está correta.
O complexo de Édipo e o seu correlato, o complexo de castração,
culminam com a organização da trama edipiana e,
consequentemente, com a síntese da constituição psíquica em seu
processo inicial. À trama edipiana segue-se o período de latência.
Considerações �nais
Ao abordar a teoria da sexualidade no pensamento freudiano,
percorremos um caminho polêmico de desvios e de provocações em
relação à moral sexual vitoriana do século XIX. Ao abordar a sexualidade
infantil, Freud ousou não apenas afirmar que existe uma sexualidade na
infância, como, a partir daí, constituiu uma teorização sobre a vida
sexual dos neuróticos.
Ao contrário da vida sexual adulta, associada à genitalidade, a
sexualidade infantil é caracterizada pelo traço autoerótico, no qual o
corpo é marcado pelas impressões e marcas advindas do campo do
outro. As zonas erógenas do corpo, impressas pelas excitabilidades
pulsionais, constituem o circuito da pulsão.
Percorremos a caracterização da pulsão, bem como os seus destinos
tendo em vista realizar uma imersão no campo da vida sexual do
neurótico e na constituiçãoda teorização da sexualidade, vistos pela
Psicanálise. O complexo de Édipo e seu correlato, o complexo de
castração, exercem importância fundamental nesses imbróglios.
Podcast
O professor Maicon Pereira da Cunha apresenta exemplos do cotidiano
que ilustram as diversas fases do desenvolvimento psicossexual na
teoria de Freud e a diferença entre o traço autoerótico na infância e a
vida sexual adulta.
adaptativos e transtornos de personalidade.

Tema 2 - A teoria da sexualidade 86
28/05/2023, 22:24 A teoria da sexualidade
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Referências
ARIÉS, P. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro:
Guanabara, 1973.
EGYPTO, A. C. Orientação sexual na escola. São Paulo: Cortez, 2003.
FERENCZI, S. Escritos psicanalíticos (1908-1933). Rio de Janeiro:
Taurus, 1988.
FREUD, S. Extratos dos documentos dirigidos a Fliess (1950 {1892-
1899}). In: ______. Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos
(1886-1899). Rio de Janeiro: Imago, 2006. (Edição Standard Brasileira
das Obras Completas de Sigmund Freud, v. 1)
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In: ______.
Um caso de histeria, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros
trabalhos (1901-1905). Rio de Janeiro: Imago, 2006. (Edição Standard
Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. 7)
FREUD, S. Pulsão e destinos da pulsão (1905). In: ______. Escritos sobre
a Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 2004.
FREUD, S. Conferência introdutória XXI: O desenvolvimento da libido e
as organizações sexuais. In: ______. Conferências introdutórias sobre
psicanálise (Parte III) (1916-1917). Rio de Janeiro: Imago, 2006. (Edição
Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. 16)
FREUD, S. A dissolução do complexo de Édipo (1924). In: ______. O ego e
o ID e outros trabalhos (1923-1925). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
(Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v.
19)
GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o Inconsciente. 21. ed. Rio de Janeiro:
Zahar, 2005.
WINNICOTT, D. Preocupação materna primária. In: ______. Textos
selecionados: da pediatria à psicanálise. Tradução de J. Russo. 2. ed.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, p. 491-498.
Tema 2 - A teoria da sexualidade 87
28/05/2023, 22:24 A teoria da sexualidade
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Para saber mais sobre os assuntos tratados neste conteúdo, leia:
A biografia Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo, de
2016, realizada pela psicanalista e historiadora Elizabeth
Roudinesco. Sua visão histórica contempla uma perspectiva que
mapeia de maneira bem interessante as coordenadas do
pensamento psicanalítico em Freud.
A biografia de Freud, por Peter Gay: Freud, uma vida para o nosso
tempo.
A clássica primeira biografia de Freud, de Ernest Jones: Vida e
obra de Sigmund Freud.
Na internet, há ótimas fontes que contribuem para o seu estudo.
Pesquise:
O canal no YouTube do psicanalista Christian Dunker tem bons
vídeos introdutórios sobre questões interessantes da Psicanálise.
O site freudonline é uma ferramenta que contém a obra completa
disponibilizada de Sigmund Freud.
Tema 2 - A teoria da sexualidade 88
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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O aparelho psíquico
Maria Thereza Toledo
Descrição
O aparelho psíquico e a teoria freudiana acerca do funcionamento
mental em seus diferentes vieses e conformações.
Propósito
Compreender o aparelho psíquico e os fenômenos mentais a partir do
olhar de Freud é fundamental para o estudo da Psicanálise e para
atuação profissional como psicólogo.
Objetivos
Módulo 1
O aparelho psíquico
Analisar o aparelho psíquico a partir da primeira tópica freudiana e a
relação entre inconsciente, pré-consciente e consciente.
Tema 3 - O aparelho psíquico 89
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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Módulo 2
A importância e o funcionamento do
inconsciente
Definir o conceito de inconsciente, sua importância na teoria
psicanalítica e seu modo de funcionamento.
Módulo 3
A segunda tópica freudiana e suas relações
Descrever a segunda tópica freudiana e a relação entre id, ego e
superego.
Módulo 4
A compreensão do funcionamento psíquico
Reconhecer a contribuição do texto O mal-estar na civilização para a
compreensão do funcionamento psíquico.
Introdução
Aparelho psíquico é o nome dado à organização proposta por
Freud para compreender a dinâmica mental. Descrever o aparelho
psíquico foi uma forma de tornar compreensível o funcionamento
psíquico, dividindo-o e atribuindo uma função específica a cada
parte constitutiva.
A concepção do aparelho psíquico é uma construção teórica de
Freud, que traduzia para a teoria a sua vivência clínica. Essa
prática teorizada da Psicanálise nos permite observar várias

Tema 3 - O aparelho psíquico 90
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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alterações e/ou aprimoramentos dos conceitos freudianos ao
longo do tempo. Freud foi construindo sua trama conceitual à
medida que caminhava em sua experiência clínica. Dessa forma,
temos duas propostas para compreender o aparelho psíquico:
Primeira tópica: Dividida em inconsciente, consciente e pré-
consciente;
Segunda tópica: Consiste na tríade id, ego e superego.
1 - O aparelho psíquico
Ao �nal deste módulo, você será capaz de analisar o aparelho psíquico a partir da primeira
tópica freudiana e a relação entre inconsciente, pré-consciente e consciente.
A primeira tópica freudiana:
inconsciente, pré-consciente e
consciente
Teoria fundamental para realizar o ponto de partida de Freud na
compreensão do psiquismo, a primeira tópica de Freud designa a
primeira concepção do aparelho psíquico e é composta por três
sistemas:
(Ics)
Tema 3 - O aparelho psíquico 91
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Inconsciente
(Pcs)
Pré-consciente
(Cs)
Consciente
Trata-se de uma noção de aparelho psíquico como um conjunto
articulado de moda lugares (virtuais), que são explicitados no capítulo
sétimo de A interpretação dos sonhos, intitulado “A Psicologia dos
Processos Oníricos”. Freud relaciona a consciência à função de um
órgão sensorial capaz de distinguir qualidades psíquicas (prazer e
desprazer, por exemplo). A excitação chega à consciência de duas
direções: do sistema perceptivo e do interior do próprio aparelho, ou
seja, os estímulos vêm de dentro ou de fora, na percepção do sujeito.
Freud promove uma quebra de paradigma ao a�rmar que a
consciência é apenas “a ponta do iceberg” quando se trata
de conhecer as reais motivações e desejos de alguém.
Segundo Gracia-Roza (1993):
Todo o pensamento moderno, de Descartes a
Hegel, tem na Consciência uma referência central.
Com Freud a Cons-ciência perde esse estatuto.
Passa a representar uma pequena parte da
totalidade psíquica, além de deixar de ser a sede
da verdade.
(GARCIA-ROZA, 1993, p. 219)
A verdade passa a ser relacionada ao desejo (logo, ao inconsciente) e a
consciência passa a ser o lugar da ilusão. A imagem a seguir mostra a
relação entre esses três sistemas para Freud:
Tema 3 - O aparelho psíquico 92
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Representação dos sistemas de Freud pelo iceberg.
Podemos perceber que o funcionamento inconsciente é a principal fonte
para a compreensão dos fenômenos psíquicos. Entretanto, os dois
outros sistemas são fundamentais para a estrutura psíquica,
proporcionando o desenvolvimento de um bebê até sua inserção no
meio social. Veja o detalhamento a seguir:
Estão as representações mentais das quais estamos plenamente
conscientes no momento, o que faz comque esse sistema
psíquico esteja em permanente transformação, pois há uma
grande circulação de representações na consciência, de acordo
com a vivência de cada pessoa.
Localizam-se aquelas representações que podem vir à tona na
consciência, mas que não estão disponíveis no momento. Sobre
o pré-consciente, podemos pensá-lo ainda como algo entre o
inconsciente e o consciente, filtrando as informações que
passarão para o consciente. O sistema pré-consciente foi
concebido como um sistema articulado ao consciente (Pcs-Cs),
funcionando, assim, como uma espécie de peneira. O pré-
consciente também funciona como um tipo de arquivo de
registros e, embora as ideias pré-conscientes possam estar fora
do alcance da consciência, elas não são inconscientes, ou seja,
não foram recalcadas. Dessa forma, os pensamentos pré-
conscientes podem ser recordados sem a resistência da
censura.
Consciente 
Pré-consciente 
Inconsciente 
Tema 3 - O aparelho psíquico 93
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Estão as representações que já ocuparam o consciente e/ou o
pré-consciente, mas que foram expulsas porque causavam
angústia. São representações que sofreram recalque e, dessa
forma, não podem mais se tornar conscientes sem que se
aplique um intenso trabalho.
O inconsciente merece destaque como conceito fundamental
para a compreensão da proposta psicanalítica, não somente
como uma das instâncias psíquicas.
O inconsciente
A ideia de inconsciente surge associada ao conceito de recalque, ambos
derivados do tratamento da histeria. Freud começou a tratar as
pacientes histéricas juntamente com Josef Breuer, utilizando o método
catártico, com o auxílio da hipnose.
O que nos interessa entender aqui, entretanto, não é o
método e sim a operação psíquica sobre a qual ele incidia.
Por meio da hipnose, a qual provocava um estado de rebaixamento da
consciência, a paciente lembrava do trauma que originou o sintoma. A
partir dessa lembrança, a paciente podia reagir da forma como não
reagiu no momento exato do trauma. Freud e Breuer chamaram de ab-
reação essa emoção que funcionava como uma catarse; daí o nome de
“método catártico” conferido a essa prática.
Exemplo
Para exemplificar brevemente o tratamento exposto, vamos abordar o
caso de Anna O., paciente de Breuer, cuja história causou grande
interesse em Freud e deu margem a vários desdobramentos teóricos.
Anna O. era uma mulher de 21 anos que adoeceu enquanto cuidava de
seu pai enfermo. Sua doença começou como uma tosse intensa,
evoluindo para vários outros sintomas.
Em determinado período de sua doença, durante algumas semanas,
Anna O. recusava-se a beber água e saciava sua sede apenas com
frutas. Certa vez, durante um estado de hipnose, ela descreveu uma
cena em que ficara enojada ao ver um cachorro bebendo água de um
copo. Após lembrar e reagir ao episódio traumático, pôde beber água
normalmente.
Esse é apenas um exemplo dentro de uma questão muito mais
complexa, não só o caso de Anna O., mas também essa relação entre
trauma e sintoma.
Tema 3 - O aparelho psíquico 94
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Por que Anna O. não podia recordar essa cena sem o auxílio da hipnose?
Por que todos os relatos das primeiras pacientes histéricas seguem
essa mesma lógica?
Lembrando que essa prática de Freud foi a base para seus primeiros
conceitos, vamos entender, a partir do exemplo, o que é o inconsciente.
As pacientes não tinham acesso às lembranças traumáticas, não se
tratava de um esquecimento. O esquecimento relaciona-se à seleção de
representações que registramos ao longo da vida. Muitas vezes, pode
estar associado ao tempo decorrido entre o fato e a lembrança deste ou
à importância de tal fato. É possível, entretanto, que o contato com
determinados estímulos leve à lembrança do que foi esquecido.
Exemplo
Você não lembra de uma colega de infância, mas, ao se deparar com o
cheiro do perfume que ela usava, pode vir a lembrar-se dessa amiga,
sem muitas dificuldades.
No caso da histeria, não se tratava de um simples esquecimento, o que
estava em questão ali era o recalque, um mecanismo de defesa que
impede a lembrança. Estamos diante da distinção entre inconsciente e
pré-consciente.
No pré-consciente, estão as representações que podem vir à
consciência, mas não estão no momento, como no exemplo da
amiga de infância.
No inconsciente, estão representações que foram expulsas do
sistema pré-consciente/consciente por causarem mal-estar, como
o cachorro bebendo água no copo, no caso de Anna O.
O recalque, dessa maneira, é uma forma de proteção diante da dor do
trauma ou do mal-estar causado em face das normas sociais vigentes.
Assim, podemos compreender o inconsciente como uma consequência
do recalque. As lembranças traumáticas perdem o investimento afetivo
e se tornam inconscientes.
Atenção!
Não é possível lembrar da ideia que subjaz ao trauma, entretanto, o
conteúdo recalcado continua a exercer força por meio das formações
do inconsciente. O sintoma do caso aqui exemplificado ilustra o retorno
do recalcado, uma formação patológica do inconsciente.
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Tema 3 - O aparelho psíquico 95
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Nota-se que a primeira tópica teve como um dos seus eixos a natureza
das representações mentais que causavam angústia e sofriam recalque.
Outra característica foi a abordagem do ponto de vista econômico, que
veremos a seguir.
Princípio do prazer e princípio da realidade
Para abordar esses dois princípios, é necessário associá-los à oposição
entre processo primário e processo secundário. Eles correspondem às
duas formas de circulação de energia no psiquismo:
Energia livre (processo primário)
No processo primário, a energia escoa livremente de uma representação
para outra, como nos processos de condensação e deslocamento dos
sonhos, e tende a investir aquelas representações associadas a
experiências de satisfação.
Energia ligada (processo secundário)
No caso do processo secundário, a energia está “ligada” antes de
escoar e a satisfação pode ser adiada. O processo primário caracteriza
o sistema inconsciente e o processo secundário diz respeito ao sistema
pré-consciente/consciente.
O processo primário está relacionado à descarga de excitação imediata,
sem barreiras, enquanto o processo secundário se relaciona ao
pensamento de vigília, ao juízo, à atenção. Os processos psíquicos
primários funcionam sob a égide do princípio do prazer:
Pelo qual a realidade externa cede lugar à
economia pulsional, ou seja, à regulação prazer-
desprazer. E aparecem sob a forma de sonho ou
do fenômeno neurótico, pois são incapazes de
conduzir sua existência.
(FREUD, 1989g, p. 192)
De fato, os bebês nascem imersos no princípio do prazer, sem
dispositivos para lidar com as exigências da realidade. O princípio da
realidade começa a operar à medida que o desenvolvimento permite.
Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud observa
que o bebê “alucina o seio”, repetindo a experiência de satisfação
Tema 3 - O aparelho psíquico 96
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advinda da amamentação. Mas é quando o bebê chora, comunicando ao
meio externo a sua demanda, que existe a possibilidade do encontro
com um objeto real, que vai satisfazê-lo naquele momento.
Apesar de o bebê, nos primeiros meses, não distinguir o seio de si
mesmo, ele está em contato com uma via real de satisfação. Vemos aí a
ação do processo psíquico secundário, que envolve uma ligação —
catexia — do ego com um objeto externo real.
Atenção!
O ego, nesse contexto, não é o ego da segunda tópica, que veremos
mais adiante; aqui o ego surge como um fator de ligação dos processos
psíquicos, associado ao sistemapré-consciente/consciente.
Freud assinala que a mais primitiva satisfação pulsional está
relacionada à nutrição e “não é sem boas razões que, para a criança, a
amamentação no seio materno torna-se modelar para todos os
relacionamentos amorosos” (FREUD, 1989j, p. 209). A amamentação
imprime uma marca de prazer no bebê que vai além da necessidade
biológica. Nesse sentido, Freud afirma que a satisfação humana vai
além das necessidades. Entretanto, é necessário que o bebê saia do
circuito da energia livre, no qual impera absoluto o princípio do prazer,
para que a vida aconteça. “Em última análise, é preciso amar para não
adoecer” (FREUD, 1989i, p. 101).
Essa frase do texto Sobre o narcisismo: uma introdução, de 1914, é
bastante difundida nas redes sociais com uma conotação romântica.
Mas, na verdade, é disto que Freud está falando: é preciso fazer ligação
com objetos reais, mesmo que revestidos de fantasia, para não adoecer
psiquicamente.
O desenvolvimento do princípio da realidade é o que permite a inserção
no meio social. Por exemplo: um bebê de três meses urina na fralda
como descarga de tensão imediata. Seria impossível esperar dele algo
diferente, uma vez que não existe desenvolvimento cognitivo, perceptivo
ou psicomotor para outra ação. No entanto, de uma criança de 5 anos,
pode-se esperar que segure a descarga imediata de urina e aguarde sua
vez para ir ao banheiro (dentro de um limite aceitável, é claro), assim
como compreenda que é necessário adquirir esse comportamento.
Tema 3 - O aparelho psíquico 97
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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Por vezes, entretanto, o princípio do prazer pode imperar também no
funcionamento psíquico de um adulto. É uma forma de explicar a
drogadição, outras compulsões e até mesmo determinadas formas de
se relacionar.
O equilíbrio entre princípio do prazer e princípio da
realidade, nesse sentido, está associado à saúde
psíquica e à vida em sociedade, na qual normas
precisam ser introjetadas e o prazer muitas vezes
precisa ser adiado.
O desenvolvimento do princípio da
realidade
O prof. doutor Luciano de Souza Dias aborda o processo de saída do
ego do circuito da energia livre, no qual impera absoluto o princípio do
prazer, para que a vida aconteça, além de falar sobre o equilíbrio entre
princípio do prazer e princípio da realidade, associado à saúde psíquica.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1

Tema 3 - O aparelho psíquico 98
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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Durante a quarentena provocada pela pandemia da covid-19, muitas
mudanças e adaptações foram necessárias. Algumas famílias
ficaram em casa, com os pais trabalhando em home office e as
crianças estudando on-line. A dificuldade de concentração nas
tarefas escolares, o confinamento e a distância da escola, amigos e
familiares foram motivos que deixaram as crianças mais irritadas e,
em alguns casos, agressivas. Débora é uma mãe que se encontra
nessa situação. Está trabalhando em casa e fica o dia inteiro com
suas duas filhas, Laura e Nina, sem contar com ajuda o tempo todo.
Laura tem 7 anos e Nina é um bebê de 3 meses. Na hora de
amamentar Nina, Laura pede a atenção da mãe em uma tarefa
escolar. Quando Débora responde que não pode ajudá-la naquele
momento, a menina chora e diz que a mãe não gosta dela. Ao
mesmo tempo, Nina chora no berço. Débora segura Nina no colo
para amamentá-la e diz a Laura que vai conversar com ela mais
tarde e ajudar em toda a tarefa escolar.
Como podemos justificar a decisão da mãe em relação às duas
filhas que pediam sua atenção ao mesmo tempo? Marque a
alternativa que apresenta a resposta correta.
Parabéns! A alternativa C está correta.
A
Laura pode prescindir da atenção da mãe, pois o
desejo inconsciente já não se faz tão presente na
idade dela.
B
O processo primário é mais dominante no
comportamento de Laura do que no comportamento
de Nina.
C
O princípio da realidade já se faz presente na vida de
Laura, o que faz com que ela consiga lidar com o
adiamento do prazer.
D
No caso de Laura, o princípio do prazer não se faz
mais presente.
E
O processo secundário é o funcionamento
primordial na idade de Nina.
Tema 3 - O aparelho psíquico 99
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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O princípio da realidade se desenvolve com o processo de
amadurecimento. Um bebê de 3 meses é regido pelo princípio do
prazer, que não suporta o adiamento da satisfação. Assim, a filha
mais velha, mesmo experimentando certa frustração, é capaz de
lidar com a espera pela atenção da mãe.
Questão 2
Entre as primeiras histéricas tratadas por Freud, ainda com o
método da hipnose, encontra-se o caso de Emmy von N. A seguir,
temos um trecho do tratamento descrito por Freud nos Estudos
sobre a histeria:
“Em seguida, coloquei-a em hipnose e perguntei mais uma vez: Por
que a senhora não consegue comer mais? A resposta veio
prontamente e consistiu, mais uma vez, numa série de razões
dispostas em ordem cronológica a partir de seu acervo de
lembranças: Estou pensando em como, quando eu era criança,
muitas vezes acontecia que, por malcriação, recusava-me a comer
carne ao jantar. Minha mãe era muito severa a esse respeito e, sob
a ameaça de um castigo exemplar, eu era obrigada, duas horas
depois, a comer a carne, que era deixada no mesmo prato. A essa
altura a carne já estava muito fria e a gordura, muito dura (ela
demonstrou sua repulsa) …. ainda posso ver o garfo na minha
frente… um de seus dentes era meio torto. Sempre que me sento à
mesa vejo os pratos diante de mim, com a carne e a gordura frias.”
(FREUD, S. Estudos sobre a histeria (1893-1895). Rio de Janeiro:
Imago, 1989, p. 42).
Dentre as opções abaixo, assinale aquela que explica corretamente
esse fragmento clínico.
A
Emmy von N. tinha dificuldades alimentares que
poderiam se transformar em um transtorno
alimentar, como a anorexia.
B
Freud tentava, por meio da hipnose, ter acesso ao
pré-consciente de Emmy von N.
C
O recalque incide sobre o fato traumático, mas esse
processo não tem relação com os sintomas.
Tema 3 - O aparelho psíquico 100
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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Parabéns! A alternativa D está correta.
O recalque, mecanismo na base do inconsciente, impede a
lembrança de uma situação traumática, a não ser pelo trabalho da
análise. Não se trata do esquecimento de uma representação que
pode vir à consciência caso algum estímulo a essa lembrança
aconteça. Esse tipo de representação esquecida diz respeito ao pré-
consciente, não ao inconsciente. Ainda, nesse contexto, não se
falava em transtorno alimentar.
2 - A importância e o funcionamento do inconsciente
Ao �nal deste módulo, você será capaz de de�nir o conceito de inconsciente, sua importância
na teoria psicanalítica e seu modo de funcionamento.
As formações do inconsciente:
sonhos, atos falhos e chistes
D
Emmy von N. relata sua lembrança mais facilmente
por meio da hipnose, porque, estando no
inconsciente, a história não estava esquecida, mas
sim recalcada.
E
Mediante o recalque se forma o pré-consciente, no
qual estão representações que podem ser
acessíveis à consciência.
Tema 3 - O aparelho psíquico 101
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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As formações do inconsciente são efeitos dos processos psíquicos
inconscientes. Trata-se de uma elaboração psíquica e simbólica que
tem relação com o conteúdo recalcado.
Os sonhos
Em sua obra A interpretação de sonhos, publicada em 1899, Freud
(1989a, p. 99) escreveu que “O sonho é a estrada real que conduz ao
inconsciente”. O trabalho com os sonhos o levou a uma compreensão
profunda do psiquismo, quefoi fundamental para a criação da
Psicanálise.
A essência do sonho é um desejo que fora recalcado durante a infância.
Nesse sentido, o sonho é sempre uma realização de desejo. Podemos
entender os sonhos como processos primários que produzem o modelo
da experiência de satisfação do princípio do prazer (GARCIA-ROZA,
1993).
Segundo Freud, sempre haverá dois conteúdos básicos intrínsecos na
interpretação do sonho: o conteúdo manifesto do sonho e os
pensamentos oníricos latentes. O material do primeiro corresponde ao
sonho lembrado, que pode ser relatado pelo sonhador. Já o material do
segundo é o que há de oculto e inconsciente no sonho, o que se
pretende atingir pela interpretação. Afirmamos, então, que há uma
distância entre o sonho sonhado (conteúdo latente) e o relato do sonho
(conteúdo manifesto).
Entre esses dois conteúdos, impera a censura, impedindo
que o conteúdo latente seja acessado pelo sujeito, exceto
pelo trabalho de interpretação analítica.
Podemos explicar a censura como uma tendência que domina a
consciência de uma pessoa, com a finalidade de inibir outra tendência
que lhe é oposta, mantendo, assim, o conteúdo inconsciente fora do
alcance da consciência. A censura atua, dessa forma, como uma força
que impede o acesso ao fato traumático.
Quando adormecemos, desligamo-nos dos estímulos externos, que
permanecem parcialmente afastados, ocorrendo um relaxamento
Tema 3 - O aparelho psíquico 102
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da censura.
Ao acordarmos e lembrarmos do sonho, entretanto, a censura se
faz presente entre o que foi sonhado e o que pode ser lembrado.
Nisso consiste o trabalho do sonho ou elaboração onírica.
Ainda assim, apesar do trabalho da censura, Freud afirma que os sonhos
são sempre realização de desejo, especificamente de desejos que estão
na contramão das imposições sociais, como os costumes, a educação,
a religião, os tabus e as normas. Aquilo que lembramos do sonho passa
pelo trabalho da censura, assim, essa realização de desejo pode não ser
percebida por aquele que sonha.
Quando falamos do pesadelo, essa relação entre o que pode ser
percebido e o que se sonha fica mais evidente. O que ocorre nos
pesadelos é uma falha no processo de trabalho do sono. Um conteúdo
inconsciente não teria sido suficientemente deformado ao ponto de
poder habitar a consciência. Segundo Absáber (2005):
Sendo assim, o pesadelo tomaria vantagem da
diminuição da censura para fazer existir na
consciência um conteúdo recalcado, o qual no
estado de vigília não estaria ‘autorizado’ a estar lá.
(ABSÁBER, 2005, p. 46)
Ou seja, a realização de desejo relacionada ao sonho não diz respeito a
uma sensação percebida pela consciência, mas ao próprio mecanismo
do conflito psíquico, que se atualiza no embate entre desejo e censura.
Atenção!
É importante ressaltar que, para Freud, esses desejos inconscientes se
ligam a restos diurnos. São fatos, afetos, acontecimentos
experimentados durante o dia ou no dia anterior. O desejo inconsciente
atravessa a barreira da censura no momento do sonho e se articula a
esses elementos, que no sonho ganham um sentido diferente daquele
vivenciado quando estamos acordados. Por isso, muitas vezes, os
sonhos são absurdos, não “fazem sentido” para nossa consciência:
diversos elementos se fundem e o sonho não obedece à lógica da
consciência.

Tema 3 - O aparelho psíquico 103
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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Para chegar à narrativa do sonho, faz-se necessário o trabalho da
elaboração onírica, por intermédio dos quatro mecanismos
fundamentais do trabalho do sonho: condensação, deslocamento,
figuração e elaboração secundária, sendo esta última um segundo
momento da elaboração onírica, na tentativa de conferir inteligibilidade
ao sonho.
Os elementos que lembramos dos sonhos são resumidos se os
compararmos aos elementos oníricos dos quais eles se
originaram. Vários elementos vivenciados se combinam em uma
só ideia. O conteúdo manifesto é menor do que o conteúdo
latente; o contrário nunca acontece. Assim, pode ocorrer o
ocultamento de alguns acontecimentos do sonho latente,
passando apenas alguns fragmentos para o sonho manifesto. A
combinação de vários elementos em um só passa por uma
espécie de filtro, sob o comando da censura.
Um exemplo de condensação é quando sonhamos com uma
pessoa que conhecemos, mas no sonho ela é outra pessoa, tem
a imagem de outra pessoa, conhecida ou não. No sonho
sonhado, esses dois elementos estiveram presentes, mas, com o
trabalho da condensação, lembramos da fusão entre os dois, a
princípio ininteligível.
Consiste na inversão da intensidade psíquica de alguns
elementos do sonho. O aspecto mais significativo do sonho
ganha menos importância, enquanto os elementos secundários
podem aparecer com riqueza de detalhes. A intensidade é
deslocada para elementos que não carregam significados mais
profundos.
Ao narrar o sonho, muitas vezes, nos damos conta da presença
de determinada pessoa, por exemplo, que apareceu no sonho
sem que tivesse muita importância, muitas vezes não vemos
nenhum sentido em sua presença. Podemos dizer que essa
lembrança sem intensidade carrega, no sonho, um significado
importante no que diz respeito ao desejo inconsciente. Mais uma
vez, é compreensível a ação desse mecanismo quando
lembramos do funcionamento da censura sobre o sonho.
Condensação 
Deslocamento 
Tema 3 - O aparelho psíquico 104
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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Consiste na seleção e transformação dos pensamentos dos
sonhos em imagens. A figuração, por si só, é um mecanismo
responsável pela distorção resultante da elaboração onírica.
Ocorre a modificação do sonho, de forma que ele pareça uma
história coerente e compreensível. Esse mecanismo faz com que
o sonho perca parte de sua aparência de absurdidade. Acontece
na narrativa do conteúdo manifesto.
Conteúdos básicos intrínsecos na
interpretação do sonho
O prof. doutor Luciano de Souza Dias esclarece, neste vídeo, que os
sonhos são processos primários que produzem o modelo da experiência
de satisfação do princípio do prazer; abordando o conteúdo latente e o
conteúdo manifesto do sonho e o papel da censura.
O ato falho
Quando Freud substitui a técnica da hipnose pela associação livre, a fala
do paciente toma um valor ainda mais imprescindível na clínica. A partir
daí, Freud percebe que o inconsciente insiste e surge também na fala,
emergindo no consciente pelo equívoco.
A narrativa é importante do ponto de vista do que é
contado, mas também nos momentos em que falha.
Figuração 
Elaboração secundária 

Tema 3 - O aparelho psíquico 105
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Em suas Conferências introdutórias XXI (1916-1917), Freud aborda o ato
falho. O lapso verbal, em especial, será considerado por Freud como o
mais apropriado para investigação, pois:
[...] ao enunciar algo distinto do que intencionava,
o que cada sujeito encontra é perplexidade ou
irritação. Por vezes, esse fenômeno sequer é
reconhecido pelo falante, sendo revelado pela
reação do interlocutor. A perplexidade ou irritação,
como breve resposta afetiva, leva o sujeito a se
questionar sobre o que esse fenômeno específico
quer dizer.
(AYRES, 2017, p. 28)
Entende-se, portanto, que falar uma palavra no lugar daquela que seria
intencional conscientemente permite uma forma de acesso aos
conteúdos que são repelidos pela consciência. Para Freud, o ato falho
evidencia que há mais de uma intenção em jogo. “A interferência ou
confronto de duas intenções diferentes permite que uma dada
expressão ou frase seja enunciada, a despeito da intenção consciente
do falante” (AYRES, 2017, p. 28).
Em outras palavras, o confronto entre intençõesevidencia a existência
de dois sistemas psíquicos (consciente e inconsciente) e o conflito
entre eles, o que está na base de toda a teoria freudiana.
Podemos citar como exemplo de ato falho chamar uma pessoa pelo
nome de outra ou trocar palavras de sentidos diferentes: “hoje o dia está
muito quente”, quando a intenção consciente era dizer “hoje o dia está
muito frio”. A palavra quente, que emerge na narrativa, abre sentido para
outro conteúdo, que seria inconsciente.
Dessa forma, Freud afirma esse fenômeno — do ato falho — como uma
formação do inconsciente. Tal como o sintoma, há no ato falho uma
formação de compromisso entre a intenção consciente da pessoa e o
conteúdo recalcado.
Tema 3 - O aparelho psíquico 106
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Os chistes
Em 1905, Freud escreve O chiste e a sua relação com o inconsciente.
Nesse texto, Freud analisa elementos, características e motivações por
trás das piadas cotidianas das quais a maioria de nós acha graça. Ele
tenta compreender qual seria o real motivo delas serem contadas.
As piadas, principalmente as tendenciosas, serviriam como uma forma
de liberar pensamentos inibidos.
O chiste também carrega o duplo sentido, ou seja, a graça está no que
não é dito, mas é compreendido. Não se explica uma piada, o riso é
provocado pela compreensão do não dito. O conteúdo é, muitas vezes,
de cunho sexual, agressivo ou crítico. Nesse sentido, Freud considera
que conteúdos inconscientes, muitas vezes hostis e reprimidos
socialmente, podem ser externalizados pelo humor.
O chiste também é visto na Psicanálise como uma forma de laço social,
é uma narrativa feita ao outro. A piada provoca o riso do grupo para o
qual é contada, gerando uma satisfação em quem conta. Outro tipo
comum de piada é aquele direcionado a uma figura de poder, um credo,
um povo etc.
Atenção!
Aquilo que não se pode falar abertamente devido às restrições da
cultura, é revelado pelo humor, configurando uma suspensão temporária
da censura. Isto é, por meio do chiste, do humor, também é possível
observar a expressão do inconsciente, não de forma explícita, já que o
recalque incide sobre esse conteúdo, mas de forma simbólica.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Tema 3 - O aparelho psíquico 107
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Em sua obra A interpretação de sonhos, publicada em 1899, Freud
escreveu que “O sonho é a estrada real que conduz ao
inconsciente”. Essa afirmativa continua atual na Psicanálise, sendo
o sonho uma formação do inconsciente que desperta o interesse do
psicanalista no decorrer de uma análise. Assinale a alternativa que
apresenta o porquê de isso acontecer.
Parabéns! A alternativa B está correta.
O sonho é sempre uma realização de desejo e, por essa razão,
torna-se um acesso privilegiado aos conteúdos recalcados. O
desejo realizado não é acessível à consciência devido à censura,
mas o conteúdo manifesto do sonho se presta à interpretação do
analista.
Questão 2
Sonhos, atos-falhos e chistes são formações do inconsciente. Isso
significa que, apesar da força do recalque, o inconsciente consegue
se expressar e produzir efeito na vida consciente. Entretanto, para
conseguir se expressar, é necessário que o conteúdo passe por
mecanismos que driblem a censura. Entre esses três tipos de
formação do inconsciente, os sonhos têm atenção privilegiada
A
O sonho latente é mais extenso do que o conteúdo
manifesto.
B
O sonho é sempre uma realização de desejo e,
nesse sentido, uma via privilegiada para o
inconsciente.
C
O sonhador consegue contar na análise tudo o que
sonhou durante a noite, revelando seus desejos e
medos.
D
O trabalho do analista consiste na interpretação dos
sonhos.
E
A elaboração secundária permite total acesso ao
sonho sonhado.
Tema 3 - O aparelho psíquico 108
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como via para o inconsciente. Sobre os mecanismos do sonho,
assinale a alternativa correta.
Parabéns! A alternativa C está correta.
A elaboração secundária é o mecanismo que confere
inteligibilidade ao sonho. O mecanismo responsável pela fusão de
vários elementos em um só é a condensação. Os outros
mecanismos mencionados nas demais alternativas não
correspondem ao sonho.
A
O recalque permite que o conteúdo oculto e
inconsciente no sonho seja lembrado pelo
sonhador.
B O sonho obedece ao tempo lógico, da consciência.
C
A elaboração secundária faz com que o sonho
pareça mais coerente.
D
O conteúdo latente é o sonho relatado ou, podemos
dizer, o sonho lembrado.
E
No sonho, muitas vezes, a imagem de uma só
pessoa representa mais de uma pessoa. Isso é
possível por meio do processo de elaboração
secundária.
Tema 3 - O aparelho psíquico 109
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3 - A segunda tópica freudiana e suas relações
Ao �nal deste módulo, você será capaz de descrever a segunda tópica freudiana e a relação
entre id, ego e superego.
A segunda tópica freudiana: id, ego e
superego
Em O ego e o id, texto de 1923, Freud apresenta sua segunda tópica,
uma outra forma de compreender o aparelho psíquico, considerada
estrutural. A divisão do aparelho psíquico em consciente, pré-consciente
e inconsciente começou a se mostrar insuficiente à medida que Freud
foi avançando em suas observações e teorias.
O ego, até então, estava totalmente situado no consciente e no pré-
consciente, enquanto no inconsciente estariam as representações
mentais que o ego teria recalcado. Freud considerava que o conflito
psíquico seria travado entre o ego e o inconsciente. Um ego consciente
que protegeria o sujeito de pensamentos e ideias inconciliáveis com o
sistema de crenças e valores versus um conjunto de representações
recalcadas.
Id, ego e superego.
Tema 3 - O aparelho psíquico 110
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A experiência clínica levou Freud a perceber, entretanto, que uma parte
considerável do ego também era inconsciente. Durante uma análise, a
dificuldade de lembrar ou falar de um assunto indica sua relação com
representações recalcadas, que são inconscientes. Freud observou que
haveria uma resistência do ego impedindo o acesso às representações
mentais recalcadas. Mas essa resistência também seria inconsciente, o
paciente não tinha consciência de sua ação.
Ora, se a resistência era uma função do ego e também
era inconsciente, o ego não poderia ser totalmente
consciente.
Essa mudança do olhar de Freud reorganiza a concepção de ego e a
torna mais complexa, englobando também uma parte inconsciente. O
aparelho psíquico toma uma nova conformação teórica e passa a ser
dividido em novas três instâncias:

Ego

Id

Superego
O id
O id é considerado o polo pulsional da personalidade, cujos conteúdos
são inconscientes. Do ponto de vista econômico, é o reservatório da
libido (energia psíquica de ordem sexual) e, do ponto de vista dinâmico,
entra em conflito com o superego, que tem a função do juízo moral.
Atenção!
O id não é sinônimo de inconsciente — o inconsciente se torna mais
amplo na segunda tópica —, mas seu funcionamento e conteúdo são de
ordem inconsciente.
Segundo Freud, o id seria nossa parte mais instintiva, que sustenta
desejos, ímpetos e vontades, sem conhecer freios morais. O id funciona
de acordo com o princípio do prazer e faz uma exigência constante de
satisfação. O id é organizado segundo a lógica inconsciente, na qual
não existe tempo cronológico, noção de espaço ou de certo e errado.
Tema 3 - O aparelho psíquico 111
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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Podemos dizer que o bebê, em seus primeiros momentos de vida, é puro
id. À proporção que o ego se desenvolve, permite que a satisfação seja
alcançada com auxílio do princípio da realidade, mediante investimentos
em objetos reais. É na relação entre id e ego que o sujeito consegue
construir sua relação com o mundo, tornando-se um ser social.
O ego
O ego da segunda tópica ganha uma versão ampliada, o que torna o
conceito mais complexo. Veja a seguir:
Primeira tópica
Nela, como já vimos, Freud sinaliza um laço muito estreito entre o ego e
o consciente/pré-consciente.
Segunda tópica
O ego continua sendo o polo da consciência em que podemos verificar a
ação do princípio da realidade, tendo uma função adaptativa.
O ego é uma parte diferenciada do id, a partir de seu contato com a
realidade externa.
A construção da segunda tópica leva em conta uma relação entre as
instâncias, e essa relação vai caracterizar o funcionamento psíquico. O
ego mantém uma relação com as reivindicações do id, com os
imperativos do superego e com as exigências da realidade, situando-se
como um mediador. Sua autonomia, entretanto, é relativa. Segundo
Laplanche e Pontalis (2001):
Do ponto de vista dinâmico, o ego representa
eminentemente, no conflito neurótico, o polo
defensivo da personalidade; põe em jogo uma
série de mecanismos de defesa, estes motivados
pela percepção de um afeto desagradável — sinal
de angústia.
Tema 3 - O aparelho psíquico 112
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(LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 124)
É importante ressaltar que o ego não tem função de bloquear o desejo.
Em vez disso, o que está em questão é garantir que as necessidades do
id sejam satisfeitas, mas de formas que sejam seguras, eficazes e
adequadas. Do ponto de vista econômico, o ego impede
temporariamente a descarga de energia do id até a hora e lugar
adequado. Esse embate entre princípio do prazer e princípio da
realidade é constante e importante para lidar com situações da vida.
Exemplo
Pedro e João são dois colegas adolescentes que descem para o pátio
comum do condomínio onde moram. Pedro está comendo um
hamburguer, João pede um pedaço e Pedro diz não. A ação do princípio
da realidade fará com que João aguarde até poder comprar seu próprio
hamburguer para, então, saciar esse desejo. Esse comportamento,
diferente de arrancar sanduíche da mão do colega, propicia a vida em
sociedade.
Freud compara o id e o ego com um cavalo e seu cavaleiro (FREUD,
1989e):
O cavalo representa o id: governado pelo princípio do prazer, ele
busca apenas satisfazer as suas necessidades, mas também
fornece a energia necessária para impulsionar os dois para a
frente.
Tema 3 - O aparelho psíquico 113
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O cavaleiro representa o ego: guiado pelo princípio de
realidade, ele aproveita a energia do id e cria maneiras para
guiá-lo na direção mais adequada.
Embora seja conciliador e se adapte à realidade, o ego também
funciona, em parte, pela lógica do inconsciente. Diante do fato
traumático, o ego lança mão de mecanismos de defesa que são
disparados sem que a consciência tenha acesso a isso.
Os mecanismos de defesa do ego
Os mecanismos de defesa visam proteger a pessoa de traumas ou
situações desagradáveis que causam dor. É um movimento automático,
que, apesar de proteger, apresenta soluções que também podem causar
dor e desconhecimento sobre si mesmo. Vamos abordar os principais
mecanismos e suas funções:
O recalque é um conceito fundamental na construção da
Psicanálise, indissociável do conceito de inconsciente. Consiste
em tirar da consciência a representação dolorosa, desagradável
ou inconciliável com o sistema de crenças. O recalque “decide”
que a pessoa “não quer saber” sobre tal representação e a torna
inconsciente. O material recalcado, que compõe o inconsciente,
retorna nos sintomas, o que demonstra que seu caráter de
defesa não é totalmente bem-sucedido.
A projeção é um tipo de defesa que atribui ao outro
características, sentimentos e desejos que o sujeito se recusa a
reconhecer em si mesmo. É um movimento que lança para fora
aquilo que o sujeito não quer em si ou que causa incômodo.
Verifica-se com certa frequência nas relações interpessoais.
Por exemplo: uma mulher encontra-se insatisfeita no casamento
e nutre desejos inconscientes por outros homens,
eventualmente. Ela passa a ser extremamente ciumenta e
receosa de que o marido a esteja traindo. Por não saber lidar
com o próprio desejo, ela o lança para fora, projetando em seu
marido o interesse por outras mulheres.
Recalque 
Projeção 
Tema 3 - O aparelho psíquico 114
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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Outro exemplo em que podemos observar a projeção é na
aplicação de testes projetivos, muito utilizados para
psicodiagnóstico na Psicologia clínica. São testes que oferecem
estímulos que não trazem em si um conteúdo fechado. Essa
atividade pressupõe que o sujeito vai projetar conteúdos internos
naqueles estímulos, frequentemente apresentados em pranchas.
Um exemplo é o teste de Rorschach, que se baseia, entre outros
pressupostos, em concepções psicanalíticas.
Teste de Rorschach.
É um mecanismo caracterizado pela transformação de um
pensamento ou sentimento no seu oposto, em que o sujeito
adere à ideia contrária àquela que foi recalcada, muitas vezes de
forma excessiva. As formações reativas costumam ser
investidas com intensidade, mantendo vivos os desejos originais
no inconsciente.
Como exemplo, podemos citar alguém com desejos
homossexuais que não consegue aceitá-los. Essa pessoa pode
desenvolver um comportamento homofóbico, intolerante a
qualquer menção feita à homossexualidade.
O mecanismo de racionalização indica a atribuição de
motivações mais aceitáveis e intelectuais do que as verdadeiras,
das quais o ego se defende. O conteúdo desconfortável para o
ego é transformado em uma justificativa de ordem racional ou
ideal, no campo do pensamento. Trata-se de uma defesa que se
apoia num raciocínio lógico, explicando sentimentos e emoções
e, assim, disfarçando os conflitos internos.
Formação reativa 
Racionalização 
Tema 3 - O aparelho psíquico 115
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É um mecanismo que induz o retorno a uma fase anterior do
desenvolvimento, em que as satisfações eram mais imediatas e
o princípio do prazer tinha mais espaço.
Um menino tem 6 anos quando nasce a irmãzinha. Esse fato o
faz retornar, por exemplo, à fase oral. Ele passa a chupar dedo,
pede mamadeira e chupeta. O que está em jogo nesse exemplo?
A criança experimenta uma sensação de insegurança que gera
desprazer de forma excessiva, além do que ela consegue
elaborar. O ego se defende com a regressão a um estado em que
a própria criança era um bebê e tinha a atenção da mãe de forma
mais intensa, tal como hoje a irmã recebe.
Percebemos que, mesmo em sua parte inconsciente, o ego tem a
função de preservar o “eu”, afastando representações dolorosas.
Defesa, adaptação e controle de impulsos são as principais funções
dessa instância. A capacidade de controlar impulsos e adiar a
satisfação são características de uma personalidade madura. Pelo
processo de educação, as normas culturais são introjetadas e as
crianças vão aprendendo como controlar seus impulsos e se comportar
de formas que sejam socialmente adequadas.
Os mecanismos de defesa do ego
O prof. doutor Luciano de Souza Dias aborda a importância dos
mecanismos de defesa do ego. Assista!
O superego
O superego é um elemento estrutural do aparelho psíquico, responsável
pela imposição de normas, padrões e sanções. É uma instância que
incorpora uma lei e proíbe sua transgressão, tendo como função fazer
juízomoral. O superego é a última das três instâncias a se desenvolver
Regressão 

Tema 3 - O aparelho psíquico 116
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
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e, de acordo com Freud, é o herdeiro do complexo de Édipo. Isso indica
o papel central da vivência edipiana na organização do psiquismo.
O complexo de Édipo
Freud atribui ao complexo de Édipo funções fundamentais na
construção subjetiva. O complexo de Édipo é apresentado sob a forma
de uma história que consiste, de maneira simplificada, no fato de a
criança do sexo masculino experimentar, por ocasião da fase fálica,
desejos sexuais com relação à mãe, sendo o pai percebido como um
rival. Isso transcorre até que a criança seja obrigada a renunciar a suas
expectativas amorosas, em decorrência do medo da castração.
Para compreender melhor, é importante ressaltar o que significa a
castração nesse cenário.
A experiência edipiana é transpassada pela descoberta da diferença
anatômica entre os sexos e suas consequências no psiquismo infantil.
Em A organização genital infantil (1923), Freud inclui a fase fálica entre
as fases psicossexuais do desenvolvimento, descrevendo a fase em que
os órgãos genitais constituem a zona erógena para a criança.
Entretanto, quando as crianças se deparam com a diferença anatômica,
o único genital que é registrado psiquicamente é o masculino. Dentro da
lógica infantil, não são os dois genitais, o do menino e o da menina, que
são levados em consideração, mas apenas o órgão masculino.
Atenção!
É fundamental observar que, nesse contexto, Freud se refere ao órgão
genital masculino pelo termo falo. Ao escolher um termo diferente de
pênis, que seria a nomenclatura vigente, Freud sublinha o caráter
simbólico dessa operação. Não se trata exatamente do genital, mas do
que ele simboliza, seja em sua presença, seja em sua ausência.
As crianças percebem a diferença sexual como:
Ausência do falo
(no caso da menina)

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Presença do falo
(no caso do menino)
Para a criança que se encontra na fase fálica, aquilo que é presente,
maior e explícito representa mais prazer. As crianças criam fantasias
chamadas de “teorias sexuais infantis” antes de aceitar, de fato, essa
diferença. Por exemplo: o “falo” da menina é pequeno e ainda pode
crescer ou ela o perdeu por causa de alguma ação que resultou em
punição.
Resumindo
Sendo assim, o falo funciona como símbolo do narcisismo, e a fantasia
de castração significa uma ameaça à onipotência infantil. O falo, em sua
presença, confere importância e valor e, em sua ausência, leva ao
sentimento de inferioridade. Inaugura-se a divisão entre fálico e
castrado, estando tal divisão definida em termos de ausência ou
presença desse símbolo valorizado que é o falo.
Tendo compreendido o significado da castração dentro do universo
infantil, voltemos ao complexo de Édipo:
O menino direciona, então, suas fantasias sexuais e amorosas
para a mãe, enquanto o pai se transforma num rival. Ao
mesmo tempo, tem o órgão genital como zona erógena
privilegiada (fase fálica) e, naturalmente, explora essa área
de prazer, tocando frequentemente em seu genital.
Essa ação é alvo de recriminação e, segundo Freud, o menino
associa as repreensões com a imagem da castração
feminina. Assim, podemos compreender o abandono da
vivência edipiana por medo da castração.
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Toda essa história tem um significado maior do que amor e
identificação com as figuras parentais. O que está em jogo na teoria do
complexo de Édipo é a introjeção da lei que organiza a cultura. Ao
renunciar ao forte impulso edipiano, a criança aceita que não pode ter
tudo o que quer e nem ser tudo para alguém, nem mesmo para a mãe.
No complexo de Édipo, o menino quer ser o objeto exclusivo do amor
materno; ele deseja a atenção, os cuidados e o reconhecimento da mãe
só para ele. Ao aceitar que isso não é possível, ele aceita que a mãe tem
outros interesses além dele e renuncia a uma parcela de seu narcisismo.
O pai aqui funciona como um terceiro elemento fundamental para cortar
a relação dual entre mãe e filho. Nesse sentido, o menino não pode
satisfazer esse desejo, mas entra na ordem simbólica da cultura, em
que poderá ter outros investimentos amorosos.
Trata-se, então, da introjeção da lei paterna, a lei que organiza a
capacidade de renunciar a outros desejos em nome da inserção na
sociedade.
Saiba mais
É importante ressaltar que o complexo de Édipo é uma teoria muito
mais extensa do que aqui apresentada. Os sentimentos infantis são
ambivalentes, o menino tem o pai como rival, mas também o ama.
Destaca-se ainda que o desfecho do Édipo não acarretará,
necessariamente, uma orientação heterossexual e, além disso, essa
experiência se dá de forma diferente para a menina. Ela entra no Édipo
ao se perceber castrada, ao contrário do menino que sai do Édipo por
medo da castração.
Como herdeiro do complexo de Édipo, o superego começa a se
constituir a partir do momento em que a criança renuncia ao pai/mãe
A mãe é abandonada como objeto de desejo e esse
investimento amoroso dá lugar à identi�cação com a �gura
paterna. O menino se identi�ca com os traços de
masculinidade do pai e fará, no futuro, uma escolha amorosa
tal como o pai fez ao casar-se com a mãe.
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como objeto de desejo. É a introjeção da lei, que forma a instância
responsável pelo julgamento a partir das normas sociais. A instância
que carrega a noção de certo e errado exerce autoridade moral sobre as
ações e o pensamento, e de onde surgem a vergonha, a repulsa e a
moralidade. Na relação entre o ego e o superego, este representa as
exigências da cultura, enquanto o id faz pressão para a satisfação
pulsional.
E assim funciona o aparelho psíquico na segunda
tópica, como um esquema que busca um constante
equilíbrio, a fim de permitir a vida dentro das
possibilidades consideradas adequadas e adaptadas à
realidade externa.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Na segunda tópica freudiana, o superego é responsável pela
censura e pelo juízo moral. Última instância psíquica a se
desenvolver, Freud afirma que o superego é o herdeiro do complexo
de Édipo. Isso implica compreender a importância da vivência
edipiana como constitutiva do psiquismo, correlacionando essa
experiência com a formação do superego. Assinale a afirmativa que
explica corretamente a relação entre complexo de Édipo e
superego.
A
O complexo de Édipo está relacionado com a
descoberta da diferença anatômica entre os sexos e
isso faz com que o superego seja rígido em coibir o
desejo sexual.
B
O complexo de Édipo traduz um desejo de subverter
a ordem, ocupando o lugar do pai junto à mãe.
Quando a criança renuncia a esse desejo, há a
introjeção da lei paterna, que está associada à
capacidade de inserção na ordem social.
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Parabéns! A alternativa B está correta.
O superego é herdeiro do complexo de Édipo devido à interdição do
desejo incestuoso, que organiza o psiquismo para que o sujeito seja
inserido na cultura. O superego é a instância responsável pelo juízo
moral advindo da experiência edipiana.
Questão 2
No texto O ego e o id, Freud utiliza a metáfora do cavalo e do
cavaleiro para se referir à relação entre o id e o ego: “O cavalo provê
a energia de locomoção, enquanto o cavaleiro tem o privilégio de
decidir o objetivo e guiar o movimento do poderosoanimal” (FREUD,
S. O ego e o id (1923). Rio de Janeiro: Imago, 1989, p. 121).
Marque a alternativa que traduz adequadamente essa metáfora.
C
Na saída do complexo de Édipo, a criança tem o ego
enfraquecido, o que permite a formação do
superego.
D
O superego é herdeiro do complexo de Édipo porque
engloba um ideal de amor para o futuro.
E
O superego é responsável por todo o sentimento de
medo do ser humano e isso se dá por causa do
medo da castração, que faz o menino abandonar a
mãe como objeto de amor.
A
O id tem a força do desejo inconsciente, com a qual
o ego não consegue lidar. O movimento psíquico é
definido pelo id.
B
O aparelho psíquico indica a necessidade de
adaptação à realidade, portanto, o ego domina
completamente o id.
C
Os mecanismos de defesa do ego são voltados para
o id, com o objetivo de amansar a sua força.
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Parabéns! A alternativa E está correta.
A metáfora usada por Freud diz respeito à relação entre o id e o ego,
em que o ego propicia a satisfação exigida pelo id por meio do
processo secundário e do princípio da realidade. O ego não suprime
os impulsos do id, mas os torna possíveis.
4 - A compreensão do funcionamento psíquico
Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer a contribuição do texto O mal-estar na
civilização para a compreensão do funcionamento psíquico.
O mal-estar na civilização
O texto O mal-estar na civilização foi publicado em 1930 e o seu
conteúdo é considerado bastante atual para refletir sobre a relação entre
o homem e a sociedade.
D
O ego e o id, na verdade, têm a mesma função, mas
como o ego tem contato com a realidade externa,
Freud associa o ego ao cavaleiro.
E
O id é o reservatório da pulsão e exerce sobre o ego
a exigência de satisfação, cabendo ao ego garantir
essa satisfação por meios aceitáveis e possíveis.
Tema 3 - O aparelho psíquico 122
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Freud observa que a civilização é composta por um conjunto de regras e
regulamentos que exercem controle sobre a natureza e os
relacionamentos humanos. Freud analisa as consequências da inserção
na sociedade, descrevendo uma divisão entre natureza e cultura; tal
inserção seria o que diferenciaria o homem de outros animais da
natureza.
O mal-estar provém do embate entre as normas da civilização e as
exigências do id, do princípio do prazer. Nessa obra de Freud, podemos
pensar o aparelho psíquico de forma prática, a partir da condição do
homem civilizado.
O sentimento oceânico
Freud inicia o texto comentando a troca de correspondência com um
amigo, sobre religião. O amigo em questão era Romain Rolland,
professor de História da Arte. Rolland comenta o texto de Freud O futuro
de uma ilusão (1927), em que o autor trata a religião como ilusão.
Rolland discorda sobre a fonte propulsora da religião. Para ele, as igrejas
e sistemas de religião se apoderam de um sentimento que caracteriza a
religiosidade: um sentimento de “eternidade”, de algo ilimitado, sem
barreiras, que denominou “oceânico”. Seria um fato puramente subjetivo,
não um artigo de fé e não traria qualquer garantia de sobrevida pessoal.
O sentimento oceânico seria a base da religiosidade.
Freud passa a refletir, então, sobre o que Rolland chamou de sentimento
oceânico. Para Freud, esse sentimento não indicaria a religiosidade,
embora possa ter sido vinculado posteriormente à religião. Se há um
sentimento oceânico, ele estaria relacionado ao início da vida, antes da
indiferenciação entre o eu e o outro, quando havia o predomínio do
princípio do prazer:
O bebê lactante ainda não separa seu Eu de um
mundo exterior, como fonte das sensações que
lhe sobrevêm. Aprende a fazê-lo aos poucos, em
resposta a estímulos diversos. Deve impressioná-
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lo muito que várias das fontes de excitação, em
que depois reconhecerá órgãos de seu corpo,
possam enviar-lhe sensações a qualquer
momento, enquanto outras — entre elas a mais
desejada, o peito materno — furtam-se
temporariamente a ele, e são trazidas apenas por
um grito requisitando ajuda. É assim que ao Eu se
contrapõe inicialmente um “objeto”, como algo que
se acha “fora” e somente através de uma ação
particular é obrigado a aparecer.
(FREUD, 1989h, p. 35)
No processo de diferenciação entre a criança e o mundo externo, surge
a tendência de afastar o eu de tudo o que pode se tornar fonte de
desprazer, a jogar isso para fora, formando um primitivo “Eu-de-prazer”.
Essa ordenação de fronteiras, no entanto, pode escapar à experiência da
realidade. Esse momento, que pode ser considerado mítico, em que o
bebê e o seio eram um só e o princípio do prazer imperava, é uma marca
indelével de satisfação. Essa unidade narcísica não deixa de impulsionar
o sujeito em sua direção como um movimento desejante, mesmo que
seja inalcançável. É a partir desse movimento desejante nostálgico que
Freud poderia compreender a existência de um sentimento oceânico.
Desse modo, o papel do sentimento oceânico indicaria o desejo de
restabelecer o narcisismo ilimitado, enquanto a religião remontaria mais
ao desamparo infantil, que encontraria conforto numa figura paterna
protetora e divina. O mais importante nessa reflexão de Freud são os
questionamentos que daí se depreendem.
O que revela a própria conduta dos homens acerca da finalidade e
intenção de sua vida, o que pedem eles da vida e desejam nela
alcançar? É difícil não acertar a resposta: eles buscam a felicidade,
querem se tornar e permanecer felizes. (FREUD, 1989h, p. 38)
Ao abordar a felicidade como finalidade humana, Freud vai discorrer
sobre as fontes de sofrimento e as estratégias utilizadas para combatê-
las.
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Civilização: renúncia e sofrimento
Vimos que, para Freud, a busca da felicidade é o que dá sentido à vida,
entretanto, pela própria condição humana na civilização, sabemos que a
felicidade só pode ser experimentada de forma descontínua e episódica.
O sofrimento, por sua vez, é muito mais fácil de ser vivido e advém de
três fontes:

A fragilidade de nossos corpos

O meio externo

O relacionamento entre os homens
Nosso próprio corpo, observa Freud, é fadado ao declínio e à dissolução.
O corpo humano adoece, envelhece, sendo fonte de dor e medo até
como sinais de advertência. O mundo externo é aqui compreendido
como a força superior da natureza, que pode se abater sobre nós de
forma inevitável e destruidora. Não temos controle sobre acidentes e
catástrofes naturais. A relação com outros seres humanos, para Freud, é
a maior fonte dos nossos sofrimentos, de forma mais dolorosa do que
qualquer outra:
Sob a pressão destas possibilidades de
sofrimento, os indivíduos costumam moderar suas
pretensões à felicidade — assim como também o
princípio do prazer se converteu no mais modesto
princípio da realidade, sob a influência do mundo
externo —, se alguém se dá por feliz ao escapar à
desgraça e sobreviver ao tormento, se em geral a
tarefa de evitar o sofrer impele para segundo
plano a de conquistar o prazer.
(FREUD, 1989h, p. 41)
A civilização é descrita por Freud como a soma das realizações e
regulamentos que nos distinguem de nossos antepassados animais e
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que servem a dois intuitos: “o de proteger os homens contra a natureza
e o de ajustar seus relacionamentos mútuos” (FREUD, 1989h, p. 42).
Essas funções são cumpridas, porém, de modo precário, já que a
civilização não é capazde proteger o homem dos perigos e sofrimentos
que a natureza e seu corpo lhe impingem; muito menos é eficaz na
tarefa de regular os relacionamentos para serem sempre fruto de
satisfação. No entanto, conforme Freud descreveu em Totem e tabu, não
fosse essa tentativa, mesmo que falha, de regulamentação, os
relacionamentos ficariam a cargo da vontade arbitrária do indivíduo,
situação em que o homem fisicamente mais forte decidiria o destino
dos demais, de acordo com seus próprios impulsos pulsionais e
interesses.
A civilização impede a satisfação irrestrita de todas as necessidades,
mas permite um quantum de satisfação para todos. Além disso, são
inequívocos os ganhos e a contribuição advindos da civilização.
Exemplo
Freud cita as estradas de ferro, o telefone, a Ciência, certa proteção do
homem diante das forças da natureza como produtos da cultura que
facilitam e prolongam a vida humana. Ainda assim, no texto, Freud
ressalta o mal-estar gerado pela civilização.
O princípio do prazer domina o desempenho do aparelho psíquico e é
contornado justamente pela inserção social. Sobre o princípio do prazer,
Freud afirma: “seu programa está em desacordo com o mundo inteiro,
tanto o macrocosmo como o microcosmo. É absolutamente inexequível,
todo o arranjo do Universo o contraria” (FREUD, 1989h, p. 45). A
necessidade de adaptação custa ao ser humano uma boa parte de sua
natureza. É necessário abdicar da intensidade originária dos impulsos
sexuais e agressivos.
O homem, apesar de seus ideais narcísicos, é constantemente obrigado
a encarar sua natureza incompleta: a incerteza dos relacionamentos e a
finitude, por exemplo, são fatos que se impõem à existência. Freud
explica a neurose como fruto dessa relação do homem com a
civilização. O recalque é consequência de uma série de normas sociais
que entram em choque com o desejo.

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Papel da civilização no nosso
psiquismo
O prof. doutor Luciano de Souza Dias fala sobre as três fontes de
sofrimento e como o homem, apesar de seus ideais narcísicos, é
constantemente obrigado a encarar sua natureza incompleta. Assista!
A busca da felicidade
Segundo Freud, “a vida, tal como nos coube, é muito difícil para nós, traz
demasiadas dores, decepções, tarefas insolúveis. Para suportá-la, não
podemos dispensar paliativos” (FREUD, 1989h, p. 37). Freud indica,
então, uma série de técnicas que os homens utilizam para evitar o
sofrimento e obter prazer, isto é, ser feliz da forma que é possível.
Atenção!
É importante ressaltar que, nesse contexto, Freud usa o termo felicidade
associado ao princípio do prazer, que tem como objetivo evitar o
desprazer e alcançar o prazer.
Uma das saídas seria se isolar voluntariamente, como o eremita, com o
objetivo de evitar os sofrimentos provenientes das relações humanas e
evitar as adversidades do mundo externo. Freud assinala que essa
opção pode alcançar a felicidade pela via da quietude, mas, ao dar as
costas para o mundo externo, o indivíduo pode substitui-lo por um
mundo criado conforme seus próprios desejos e tal afastamento da
realidade externa pode dar lugar à experiência da loucura. Em geral,
essa alternativa não é eficaz para encontrar a felicidade.
Outra forma que o homem usaria para lidar melhor com os infortúnios
da realidade seria o uso de substâncias que produzem sensações
imediatas de prazer, como o álcool e as drogas. A ingestão dessas
substâncias muda as condições de nossa sensibilidade e torna difícil
absorvermos impulsos desprazerosos. Trata-se, entretanto, de
sensações passageiras, que dependem totalmente do acesso a
entorpecentes.
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A sublimação é outra técnica para evitar o desprazer, que ocorre quando
se consegue desviar a meta da pulsão. A satisfação por essa via não se
dá no campo da sexualidade, do princípio do prazer. A satisfação viria
através da criação, da atividade intelectual, da arte.
A satisfação desse gênero, como a alegria do
artista no criar, ao dar corpo a suas fantasias, a
alegria do pesquisador na solução de problemas e
na apreensão da verdade, tem uma qualidade
especial, que um dia poderemos caracterizar
metapsicologicamente.
(FREUD, 1989h, p. 40)
Segundo Freud, a sublimação seria um meio “mais fino e elevado”, além
de consistente e eficaz. No entanto, este método não é acessível a
todas as pessoas e, apesar de produtivo, não proporciona uma proteção
completa contra o sofrimento.
Entre todas as técnicas já citadas, Freud ressalta aquela que mais se
aproxima da felicidade completa: diz respeito à “orientação da vida que
situa o amor no ponto central, que espera toda a satisfação do fato de
amar e de ser amado” (FREUD, 1989h, p. 43). Por certo, os apaixonados
experimentam um êxtase no enamoramento e têm a sensação de serem
um só, o que traz a ilusão de completude, de que nada falta.
Essa demasiada felicidade, entretanto, pode dar lugar ao extremo
sofrimento caso o objeto amado nos abandone de alguma forma.
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Freud termina essa parte do texto afirmando que em nenhum desses
caminhos podemos alcançar tudo o que desejamos e faz uma
observação importante do ponto de vista econômico: “Assim como o
negociante cauteloso evita imobilizar todo o seu capital numa só coisa,
também a sabedoria aconselhará talvez a não esperar toda satisfação
de uma única tendência” (FREUD, 1989h, p. 47).
Dica
A ideia seria investir a libido de formas diversificadas para que, na
ausência de um desses objetos ou forma de satisfação, o sujeito não
experimente um sofrimento desnecessário, pois ainda haverá outros
investimentos. O êxito jamais é certo e seguro, mas encontrar felicidade
dependeria da capacidade da constituição psíquica em adaptar sua
função ao meio e aproveitá-lo para conquistar prazer.
O superego cultural e o sentimento de
culpa
Na obra O mal-estar na civilização, Freud articula a sua teoria pulsional
com a cultura. Ele observa que o desenvolvimento do aparelho psíquico
no sujeito tem grande semelhança com instâncias sociais, mas seu
interesse recai sobre o superego, que tem funções parecidas no
indivíduo e na cultura. Freud diz que a evolução cultural impõe barreiras
à felicidade também pelo sentimento de culpa que provoca.
Mesmo antes de o superego ter se desenvolvido no psiquismo, já havia
a reação de medo da criança perante as autoridades externas. A criança
teme perder o amor dos pais caso contrarie suas ordens e, caso o faça,
se sente culpada. Segundo Freud (1989):
Quanto à consciência de culpa, é preciso admitir
que se apresenta antes do Superego, ou seja,
também antes da consciência moral. É então a
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expressão imediata do medo à autoridade externa,
o reconhecimento da tensão entre o Eu e esta
última, o derivado direto do conflito entre a
necessidade do amor dela e o ímpeto de
satisfação instintual, cuja inibição gera a
tendência à agressão.
(FREUD, 1989, p. 54)
Depois da formação do superego, o sujeito passa a lidar com duas
camadas do sentimento de culpa, uma de origem externa e outra
interna, uma vez que, sendo o superego uma instância interna, não é
preciso cometer o ato transgressor para sentir culpa, basta desejar fazê-
lo.
Atenção!
Freud ressalta que a pulsão não satisfeita gera agressividade, um
impulso natural e constitutivo do humano, que também precisa ser
barrado pelas exigências sociais. Assim, o preço do progresso cultural
seria a perda da felicidade também pela supressão da agressividade e
pelo acréscimo do sentimentode culpa.
Acerca do superego cultural, Freud afirma que toma como base a
personalidade que grandes líderes deixaram para aquela cultura. Não
podemos deixar de lembrar que Freud se baseia na cultura ocidental
moderna para sua análise, pois foi nela que viveu e construiu sua teoria.
Nesse contexto, ele cita Jesus Cristo como o mais impressionante
exemplo. Para Freud, o cristianismo “institui severas exigências ideais,
cujo não cumprimento é punido mediante ‘angústia de consciência’”
(FREUD, 1989h, p. 57).
O mandamento “Ama teu próximo como a ti mesmo” exigiria que a
humanidade visasse à satisfação altruísta acima de qualquer outra, o
que seria impossível alcançar devido à força pulsional do id e às
dificuldades do ambiente real. Ainda que seja humanamente impossível
cumprir um ideal tão avesso à natureza humana, “a civilização
negligencia tudo isso; recorda apenas que quanto mais difícil o
cumprimento do preceito, mais meritório vem a ser ele” (FREUD, 1989h,
p. 58).
Tema 3 - O aparelho psíquico 130
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É importante ressaltar que a intenção de Freud não é propor o fim das
normas culturais e morais, ou simplesmente criticá-las. Freud considera
o progresso da civilização como necessário e precioso. A ideia é
analisar as restrições impostas ao humano e suas consequências.
Ao estudar as neuroses, Freud se deparou com o recalque tal como uma
defesa do ego que visa resguardar a pessoa do sofrimento e de ideias
inconciliáveis com a moral civilizada. Logo, o sintoma, para a
Psicanálise, seria uma consequência da civilização ocidental. Nada
mais natural que o interesse de Freud no tema.
Nesse trabalho, Freud foca bastante a luta entre natureza e cultura, o
embate entre id e superego, no entanto, precisamos lembrar que o ego
tem como uma de suas funções encontrar satisfações substitutas,
aceitas socialmente e a partir de objetos reais (não alucinados).
É também na civilização que encontramos satisfação, tornando
suportável a frustração da existência e permitindo a formação de laços
sociais.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
“O sofrer nos ameaça a partir de três lados: do próprio corpo que,
fadado ao declínio e a dissolução, não pode sequer dispensar a dor
e o medo como sinal de advertência; do mundo externo, que pode
se abater sobre nós com forças poderosíssimas, inexoráveis,
destruidoras; e, por fim, das relações com os outros seres
humanos” (FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). Rio de
Janeiro: Imago, 1989h).
Esse é um trecho de O mal-estar na civilização, publicado em 1930.
Freud descreve as fontes de sofrimento que revelam a fragilidade
humana. A percepção desse fato, aliada ao princípio do prazer, faz
com que o homem utilize estratégias na busca da felicidade.
Entre as alternativas abaixo, assinale aquela que apresenta uma
estratégia descrita por Freud.
Tema 3 - O aparelho psíquico 131
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Parabéns! A alternativa D está correta.
Para Freud, a experiência que as pessoas apaixonadas
experimentam é muito próxima à satisfação plena, por proporcionar
um êxtase altamente efetivo e prazeroso. As outras técnicas
mencionadas nas demais alternativas não correspondem ao
objetivo mencionado no comando da questão.
Questão 2
Em O mal-estar na civilização, Freud analisa as consequências da
inserção na cultura. A vida em sociedade exige restrição da
satisfação pulsional, o que tem consequências para a natureza
humana. Freud fala sobre o superego cultural, que seria construído
de forma correlata ao superego individual, tendo como ideal o
modelo que grandes líderes deixaram para a cultura. Esse embate
entre os impulsos primitivos humanos e a cultura pode ser descrito
pelos conceitos relacionados ao funcionamento do aparelho
psíquico.
Entre as opções abaixo, marque a correta.
A
As regras sociais, que permitem colocar ordem na
sociedade.
B
A religião, que permite lidar com a nossa angústia
existencial.
C
Os chistes, que permitem rir daquilo que ameaça a
nossa felicidade.
D
A relação amorosa romântica, que traz a ilusão da
completude.
E Os sonhos, que nos permitem modificar a realidade.
A
O recalque representa a defesa do ego que visa
resguardar a pessoa do sofrimento experienciado
Tema 3 - O aparelho psíquico 132
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Parabéns! A alternativa D está correta.
A vida civilizada só é possível a partir da renúncia de grande parte
dos impulsos sexuais e agressivos, o que Freud relaciona com o
sofrimento. Dessa forma, a culpa é experimentada tanto pela
existência de impulsos internos inaceitáveis como pelo superego
cultural.
Considerações �nais
Como vimos, o aparelho psíquico é fruto de uma teoria que busca
compreender o conflito psíquico na base da neurose. Tanto a primeira
tópica como a segunda tópica são teorias que trazem uma ideia central
na Psicanálise: o embate entre princípio do prazer e princípio da
realidade.
A Psicanálise traz a ideia de um sujeito dividido, que precisa renunciar à
satisfação imperativa do princípio do prazer, e com isso, torna-se faltoso
e limitado, mas também desejante. É na cultura que encontramos as
possibilidades para nos inventarmos e reinventarmos, mas com muitos
diante da falta de normas e restrições sociais.
B
O id cumpre a função de mediador entre as
exigências do ego e o imperativo do superego.
C
O processo primário passa a ser desnecessário em
relação ao processo secundário para que a ligação
com objetos reais aconteça.
D
As exigências culturais demandam que o sujeito lide
com dois tipos de sentimento de culpa, um externo
e outro interno.
E
O inconsciente consegue ser totalmente controlado
a partir do recalque.
Tema 3 - O aparelho psíquico 133
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212sa/02636/index.html# 46/48
desafios: nada cessará os conflitos entre os sujeitos, a fragilidade e a
finitude do corpo é uma realidade e a natureza sempre poderá mostrar a
sua força de destruição.
Apesar das adversidades, caminhos podem ser construídos, não para a
felicidade plena, mas para uma vida com obtenção de prazer e saúde
psíquica.
Podcast
Agora, o prof. doutor Luciano de Souza Dias encerra o conteúdo
desenvolvendo a ideia de um sujeito dividido, apresentando o papel da
cultura nessa dinâmica.

Referências
ABSÁBER, T. O sonhar restaurado: formas de sonhar em Bion, Winnicott
e Freud. São Paulo: Ed. 34, 2005.
AYRES, S. Atos falhos: interpretação e significação. Natureza humana,
São Paulo, v. 19, n. 1, p. 24-37, jul. 2017.
FREUD, S. A interpretação dos sonhos (I) (1900). Rio de Janeiro: Imago,
1989a. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund
Freud, v. 4).
FREUD, S. A organização genital infantil (1923). In: Freud, S. O ego e o ID
e outros trabalhos (1923-1925). Rio de Janeiro: Imago, 1989b. (Edição
Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. 19)
FREUD, S. Conferência introdutória XXI: O desenvolvimento da libido e
as organizações sexuais. In: Freud, S. Conferências introdutórias sobre
Tema 3 - O aparelho psíquico 134
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212sa/02636/index.html# 47/48
psicanálise (Parte III) (1916-1917). Rio de Janeiro: Imago, 1989c.
(Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v.
16)
FREUD, S. Estudos sobre a histeria (1893-1895). Rio de Janeiro: Imago,
1989d. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund
Freud, v. 2)
FREUD, S. O ego e o id (1923). In: Freud, S. O ego e o ID e outros
trabalhos (1923-1925). Rio de Janeiro: Imago, 1989e. (Edição Standard
Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v.19)
FREUD, S. O futuro de uma ilusão (1927). In: Freud, S. O futuro de uma
ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos (1927-1931). Rio de
Janeiro: Imago, 1989f. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas
de Sigmund Freud, v. 21)
FREUD, S. O inconsciente (1915). In: Freud, S. A história do movimento
psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos (1914-
1916). Rio de Janeiro: Imago, 1989g. (Edição Standard Brasileira das
Obras Completas de Sigmund Freud, v. 14)
FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: Freud, S. O futuro de
uma ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos (1927-1931).
Rio de Janeiro: Imago, 1989h. (Edição Standard Brasileira das Obras
Completas de Sigmund Freud, v. 21)
FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: Freud, S. A
história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e
outros trabalhos (1914-1916). Rio de Janeiro: Imago, 1989i. (Edição
Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. 14)
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In: Freud,
S. Um caso de histeria, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e
outros trabalhos (1901-1905). Rio de Janeiro: Imago, 1989j. (Edição
Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. 7)
GARCIA-ROZA, L.A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: J.Z.E., 1993.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo:
Martins Fontes, 2001.
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Para aprofundar este estudo, recomendamos os seguintes textos de
Freud:
A organização genital infantil (1923).
Tema 3 - O aparelho psíquico 135
28/05/2023, 22:26 O aparelho psíquico
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212sa/02636/index.html# 48/48
A dissolução do complexo de Édipo (1924).
Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os
sexos (1925).
Sexualidade feminina (1931).
Tema 3 - O aparelho psíquico 136
DESCRIÇÃO
Criação do conceito de defesa em Freud; os mecanismos de defesa em Freud e seguidores; o papel da
defesa na formação do sintoma.
PROPÓSITO
Compreender o desenvolvimento dos conceitos e dos mecanismos de defesa, relacionando-os à formação
do sintoma, é fundamental para a prática clínica psicanalítica.
PREPARAÇÃO
Antes de iniciar o estudo deste conteúdo, tenha em mãos alguns dicionários de Psicanálise, tais como:
Vocabulário de Psicanálise, de Laplanche e Pontalis, publicado pela editora Martins Fontes.
Dicionário de Psicanálise, de Elizabeth Roudinesco e Michel Plon, publicado pela editora Zahar.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer o conceito de defesa identificando os diferentes mecanismos de defesa
MÓDULO 2
Relacionar os mecanismos de defesa à formação de sintomas
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 137
INTRODUÇÃO
Todos os seres humanos vivem um conjunto de pressões no seu cotidiano que se originam tanto do mundo
interno quanto do mundo exterior. Tais pressões podem trazer certos impasses que causam angústia. A
teoria psicanalítica entende que, na tentativa de resolução desses conflitos, utilizamos mecanismos
psíquicos inconscientes chamados de mecanismos de defesa. Defender-se é uma tendência normal de
todos os indivíduos. Entretanto, podemos considerar que esses mecanismos podem ser bem-sucedidos ou
não quanto a suprimir sofrimento ou dor psíquica. Nesse sentido, os mecanismos de defesa podem trazer
adoecimento de acordo com sua rigidez, sua repetição e não flexibilidade, levando à criação de sintomas.
Nos próximos módulos, vamos reconhecer e diferenciar os mecanismos de defesa e
sua relação com a formação de sintomas. Tal estudo é fundamental para o
conhecimento de como se encontra o funcionamento da psique, saudável ou
patológica, colaborando para o trabalho na clínica psicanalítica.
MÓDULO 1
 Reconhecer o conceito de defesa identificando os diferentes mecanismos de defesa
A ORIGEM DO CONCEITO DE DEFESA
O desenvolvimento da teoria psicanalítica teve seu fundamento na prática clínica. Freud, ao iniciar seu
trabalho clínico, no final do século XIX, realizou uma mudança de perspectiva – deixou de olhar o sintoma e
passou a escutar o drama de cada paciente, como esse sintoma se organizou. A partir desse ângulo,
passou a buscar a organização e funcionamento do psiquismo. Trabalhando com a histeria, suas primeiras
experiências clínicas o colocaram de frente com a questão do trauma. Na tentativa de compreensão do
traumático, Freud se depara com as origens do mecanismo defensivo.
 VOCÊ SABIA
A primeira vez que Freud fez uso do termo defesa foi no seu texto Neuropsicoses de Defesa, de 1894.
Estamos falando do início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. Veremos mudanças nessa
conceituação com o passar de seus estudos e com as novas concepções sobre o aparelho psíquico, mais
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 138
precisamente a apresentação da segunda tópica, referente ao surgimento das instâncias psíquicas Id, Ego
e Superego.
Freud, no texto Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos (1893), estabelece uma relação
entre o traumático e o adoecimento psíquico. Essa relação é encontrada no processo de “defesa”. E como
Freud descreve tal situação? A existência de uma incompatibilidade na vida mental, mais precisamente uma
experiência de caráter aflitivo, de desprazer, em uma contradição vivida entre uma ideia conflitante e o eu,
produz o ato voluntário na direção do esquecimento. Para tal, será necessária a “divisão da consciência”,
resultado da tentativa de livrar-se dessa lembrança tão aflitiva. Podemos perceber que, no final do século
XIX, havia uma ideia bem geral do conceito de recalcamento, que será melhor entendido posteriormente.
Esse recalque incidiria sobre a ideia ou lembrança e também sobre o afeto, expulsando-os da consciência
e fazendo surgir essa segunda consciência.
Prosseguindo nessas investigações e conclusões, veremos a ação do mecanismo de defesa sofrendo
importantes modificações. No texto, Neuropsicoses de Defesa, Freud (1975, p. 55) descreveu:
(...) HOUVE UMA OCORRÊNCIA DE INCOMPATIBILIDADE EM
SUA VIDA REPRESENTATIVA — ISTO É, ATÉ QUE SEU EU SE
CONFRONTOU COM UMA EXPERIÊNCIA, UMA
REPRESENTAÇÃO OU UM SENTIMENTO QUE SUSCITARAM
UM AFETO TÃO AFLITIVO QUE O SUJEITO DECIDIU
ESQUECÊ-LO, POIS NÃO CONFIAVA EM SUA CAPACIDADE
DE RESOLVER A CONTRADIÇÃO ENTRE A REPRESENTAÇÃO
INCOMPATÍVEL E SEU EU POR MEIO DA ATIVIDADE DE
PENSAMENTO. A TAREFA QUE O EU SE IMPÕE, EM SUA
ATITUDE DEFENSIVA, DE TRATAR A REPRESENTAÇÃO
INCOMPATÍVEL COMO “NON-ARRIVÉ”, SIMPLESMENTE NÃO
PODE SER REALIZADA POR ELE. TANTO O TRAÇO MNÊMICO
COMO O AFETO LIGADO À REPRESENTAÇÃO LÁ ESTÃO DE
UMA VEZ POR TODAS E NÃO PODEM SER ERRADICADOS.
Freud (1975, p. 55).
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 139
 ATENÇÃO
Fica claro o comportamento de sujeito no sentido de se proteger da dor psíquica, mas também seu
insucesso.
Continuando suas pesquisas, principalmente a partir de sua clínica, Freud passa a observar que, para além
da divisão da consciência, destinos múltiplos para o afeto rejeitado da consciência seriam encontrados. No
esforço de afastar a ideia irreconciliável, o afeto a ela ligado toma caminhos diversos. Esse afeto, ou “soma
de energia”, ou “soma de excitação sexual” é deslocada para outra ideia, ou para partes somáticas. Esse
destino dado à carga afetiva será responsável pelo surgimento dos sintomas e das patologias.
Em 1896, no texto Novas observações sobre as psiconeuroses de defesa, Freud identifica os mecanismos
defensivos mais característicos da histeria, da neurose obsessiva e da psicose.
É preciso compreender que o movimento defensivo do sujeito é absolutamente normal. Entretanto, por nem
sempre ser bem-sucedido, poderemos encontrar repercussões no funcionamento da mente significando
adoecimento ou estados patológicos.
No final do século XIX, período chamado pré-psicanalítico, já encontramos o esboço de alguns conceitos de
mecanismos defensivos utilizados por um “eu” que luta contra os impulsos internos, contra a pulsão que
desejase satisfazer. Vislumbramos o recalque e o deslocamento que estudaremos aqui mais adiante.
A pergunta sobre o porquê esse “eu” coloca em jogo uma defesa contra a possibilidade de alcançar uma
satisfação pulsional ou obter prazer só seria mais bem respondida com o aprofundamento teórico-clínico de
conceitos elaborados nos anos e décadas seguintes. A proposição de um modelo do aparelho psíquico em
que existem sistemas com características e funções diferenciadas demonstra a complexidade do
funcionamento da psique. A ação defensiva localiza-se na relação e no surgimento do conflito entre os
diferentes sistemas.
Em um primeiro tempo, é descrita a conhecida primeira tópica: Inconsciente, Pré-consciente e Consciente
(1900); e posteriormente, a segunda tópica: Id, Ego e Superego (1923). Com a caracterização da segunda
tópica, uma nova perspectiva da personalidade, o Ego será apresentado como a instância central e o
responsável por inúmeras funções, incluindo a função de defesa.
O Ego é a via de contato direto com os mundos exterior e interior, servindo de intermediário entre esses
dois “lugares” e buscando regulação e estabilidade psíquica.
O Id é o reservatório da energia pulsional, fonte dessa energia inesgotável que procura ser descarregada,
obter prazer e, enfim, ser apaziguada.
O Superego representa a função crítica e se constitui a partir da interiorização das exigências e proibições
parentais e da cultura.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 140
Em acordo com Freud, sabemos que a origem do Ego parece referir-se a camadas superficiais do Id que
entram em contato com a realidade e, observando todas as funções exercidas pelo Ego, identificamos
partes consciente e inconsciente nele. De posse desse entendimento, podemos afirmar que o processo de
defesa é inconsciente.
Agora vamos circunscrever alguns aspectos do trabalho do Ego nessa função tão essencial que é a
defesa.
O EGO E A FUNÇÃO DE DEFESA
A tarefa defensiva do Ego é motivada devido a algumas fontes internas ou externas: o papel do mundo
exterior, as forças superegoicas, incluindo a culpa, e a experiência de angústia. Vejamos cada uma dessas
fontes:
O PAPEL DO MUNDO EXTERIOR
O mundo exterior auxilia na produção das defesas na medida em que pode oferecer algum estímulo que
seria sentido como traumático ou que teria a capacidade de reconectar outro estímulo anteriormente
doloroso.
AS FORÇAS SUPEREGOICAS
Por meio de exigências e imposições, o Superego pressiona o Ego a respeito se “deve ou não” se permitir
satisfazer as solicitações do Id. Vale lembrar que o Superego é constituído pela incorporação de valores,
crenças e ideais herdados das figuras parentais e da cultura. Um impulso interno, um desejo que se mostre
diferente ou oposto a esses conteúdos, é sempre acompanhado de culpa. Sem dúvida, essa culpa interfere
fortemente no lidar egoico sobre o desejo.Tema 4 - Os mecanismos de defesa 141
A EXPERIÊNCIA DE ANGÚSTIA
A angústia é experimentada desde os primórdios da vida de um bebê. Mesmo com um Ego primitivo, o
bebê exibe comportamentos defensivos com a intenção de afastar situações consideradas traumáticas de
dor e desprazer. Podemos dizer que a experiência de angústia é a fonte básica que motiva o Ego a ativar
seus mecanismos de defesa.
Alguns autores, como Fenichel (1981), classificam as defesas do Ego como exitosas ou ineficazes.
Nas defesas consideradas exitosas, existe sucesso quanto a suprimir a ideia repulsiva e efetivamente
mantê-la afastada da consciência.

Já as defesas inoperantes são aquelas que precisam seguidamente repetir o movimento de expulsão da
ideia, com o objetivo que ela não ressurja no Ego. As defesas que levam ao adoecimento pertencem a esse
segundo grupo.
Antes de passarmos à descrição dos mecanismos de defesa, é importante dizer que, além de Freud, o
estudo sobre as defesas foi essencialmente aprofundado por sua filha, Anna Freud. Ela se dedicou a
analisar como o desenvolvimento infantil podia ser afetado pela forma como o Ego lidava com os afetos
dolorosos, com a ansiedade, e colocava em jogo os mecanismos defensivos. Outros autores também
contribuíram para a pesquisa e definição desses mecanismos. Poderíamos mencionar Melanie Klein,
Ferenczi, Lacan e Vaillant, este último é um autor mais contemporâneo.
Vamos conhecer agora os principais mecanismos de defesa: o recalcamento, a clivagem, a regressão, o
deslocamento, a formação reativa, o isolamento, a anulação, a projeção, a introjeção, a negação, a
sublimação.
RECALQUE
O recalque é um dos mais importantes mecanismos descritos por Freud, sendo fundamental para se
entender a dinâmica do funcionamento mental. Durante o início do desenvolvimento conceitual, foi
empregado de maneira comparável ao de defesa, ou seja, usados de forma quase equivalente. A partir de
1926, no texto Inibição, sintoma e angústia, Freud estabelece uma diferenciação, tomando a defesa como
uma forma geral de atuação do Ego, e o recalque como uma ação mais específica.
O recalque consiste em um ato de eliminar do nível consciente, e manter no inconsciente, uma
representação psíquica (pensamento, ideia, imagens, lembranças) associada à pulsão, que seria passível
de provocar desprazer no aparelho psíquico, ou parte dele (alguma instância), sendo, portanto, inaceitável
a sua permanência na consciência. Devemos reparar que, para além de afastar da consciência a
representação, tal mecanismo pressupõe a necessidade de continuar mantendo-a afastada. Deduz-se daí
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 142
que aquilo que foi recalcado precisará de um esforço contínuo, um “plus”, para manter tal representação
apartada. Apesar de o representante estar fora da consciência, ele não deixa de estar “vivo” e com energia
psíquica. Nesse sentido, precisará do que Freud chamou de contrainvestimento, uma energia para manter
esse conteúdo recalcado.
Um exemplo usado por Kusnetzoff (1982) tornará clara essa situação “(...) um homem que deseja manter
afundado na água um barril vazio deverá usar uma força constante e a interrupção da mesma permitiria que
o barril voltasse bruscamente à superfície”. Caso não haja esse gasto permanente de energia pelo Ego, o
representante psíquico buscará uma forma de escapar e tenderá a retornar para a consciência. Esse
fenômeno é chamado de retorno do recalcado, uma ação que consiste no reaparecimento desses
elementos recalcados. No retorno do recalcado, os conteúdos reaparecem, mas agora distorcidos.
Retomando o conhecimento do processo de recalque, testemunhamos que as representações expulsas
passam a constituir um “grupo psíquico separado”. Seria inaugurado um núcleo patogênico com
capacidade de atrair uma série de outros representantes assemelhados ou que se correlacionassem entre
si – os chamados derivativos. Observamos então que o mecanismo de recalque não se dá em uma
única e efetiva vez. Freud distingue basicamente dois momentos em relação ao processo de
recalcamento:
RECALQUE ORIGINÁRIO OU PRIMÁRIO
RECALQUE SECUNDÁRIO
RECALQUE ORIGINÁRIO OU PRIMÁRIO
O recalque primário seria o primeiro tempo do recalque, ou aquele que inaugura o impedimento de que a
representação tenha acesso ao consciente. Logo, o recalque originário se relaciona às origens do
inconsciente.
RECALQUE SECUNDÁRIO
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 143
O recalque secundário refere-se à sucessão de derivativos associados à representação primária. Em
outras palavras, consiste na atração de uma série de outros conteúdos representantes assemelhados ou
que se correlacionam com o conteúdo recalcado original.
Um exemplo poderia dar a dimensão do que estamos descrevendo como recalque. Para que a civilização
pudesse existir, foi necessário que o ser humano recalcasse vários conteúdos destrutivos e agressivos,
privilegiando a construção e o amor. Vários outros exemplos podem ser encontrados nos casos clínicos de
Freud. Em um deles, o caso Lucy (1895), observa-se o recalcamento do amor da mulher pelo seu patrão. A
partir do momento que aideia vem à tona durante o processo analítico e é aceito pela mulher, Freud
pergunta por que ela não tinha contado antes e recebe a seguinte resposta: “eu não sabia disso, ou melhor,
eu não queria saber, queria tirar da minha cabeça, nunca mais pensar nisso”. Na verdade, ela sempre
soubera disso, mas queria “tirar da cabeça”. Se colocarmos a questão em termos de instâncias, veremos aí
a existência de uma ação do consciente na direção do inconsciente; o Ego submetido ao Superego, não
permitindo a satisfação desse impulso do Id.
E como diferenciar o recalque da repressão? A primeira diferença encontra-se pelo caráter
absolutamente consciente e sua direção para o pré-consciente por parte da Repressão, no sentido de
deslocar a representação do consciente para o pré-consciente; assim, a representação tem maior facilidade
de ser acessada por um esforço consciente de trazê-la de volta. O recalcado, por outro lado, oferece uma
resistência por meio do contrainvestimento que o impede de vir à tona.
CLIVAGEM
A clivagem ou cisão pode ser descrita como um fenômeno de dividir-se internamente. Um mecanismo
muito particular em que é observada a coexistência, no interior do Ego, de condutas psíquicas diferentes na
relação com a realidade exterior, quando esta não tem possibilidades de atender a uma exigência da
pulsão. Importante perceber que encontramos aqui uma luta entre o Ego e a realidade externa. Segundo
Laplanche (1992), uma dessas condutas leva em conta a realidade e a outra nega essa mesma realidade,
colocando em seu lugar uma criação do desejo. Essas duas atitudes permanecem existindo paralelamente
sem se influenciarem, ou seja, o psiquismo parece estar desconectado entre si.
Muito importante também assinalar que Freud, além de trabalhar a ideia da clivagem como referida a
processos patológicos (perversão, psicose), incluiu-a em uma perspectiva de estruturação da psique em
momentos primitivos do Ego. Melanie Klein é clara quanto a essa ideia na elaboração do desenvolvimento
do bebê quando da clivagem dos objetos e do Ego, tão demonstrada na chamada posição
esquizoparanoide. O termo esquizoparanoide é usado por Klein para se referir a um estágio no
desenvolvimento em que o bebê passa por relações de objeto parciais e uma ansiedade persecutória sobre
a sobrevivência do self. Nessa etapa, o bebê não reconhece que aquela mãe que odeia em um momento e
adora em outro trata-se da mesma pessoa.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 144
Para Klein, a clivagem é o mecanismo de defesa mais primitivo contra a angústia primordial. A divisão inicial
é fundamental para que, somente de forma gradativa, as experiências subjetivas de prazer e desprazer, do
bom e do mau, possam se integrar em Ego e objeto totais e plenos. Servirá para que se consiga diferenciar
e organizar a realidade, interna e externa, amparada na ocorrência de experiências passadas boas e/ou
más. O protótipo das relações vividas posteriormente no mundo adulto estará referido a essa construção
dos relacionamentos primordiais e a possibilidades de integração das tendências boas e más do objeto. O
mecanismo de clivagem pode ser ativado na vida adulta normal e utilizado para colocar em “suspensão”
determinados conteúdos ansiogênicos e realizar outras ações necessárias.
Para exemplificar tal situação, podemos citar as vezes em que colocamos de lado um determinado
problema durante o tempo necessário para assistir a uma aula ou realizar um trabalho que precisa ser
entregue. Nos casos de psicose, podemos exemplificar a criação de um delírio ou substituição da realidade
por um desejo. Nesse sentido, verificamos a produção de uma nova realidade, mais satisfatória, entretanto
nada factual. Para finalizar, importante mencionar que Lacan nomeou esse processo de cisão como
forclusão.
REGRESSÃO
A regressão, de modo mais geral, é um processo psíquico relacionado ao retorno em algum ponto do
desenvolvimento já ultrapassado. Seria um “retorno a formas anteriores do desenvolvimento do
pensamento, das relações de objeto e da estruturação do comportamento” (LAPLANCHE, 1992, p. 440)
Freud diferencia três tipos de regressão:
TÓPICA
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 145
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Alternância e sucessão entre os sistemas psíquicos, processo responsável pelos sonhos.
TEMPORAL
Retorno a etapas transpostas, tais como fases libidinais ou identificações mais primárias em termos
evolutivos.
FORMAL
Retorno a modos de conduta menos complexos, estruturados ou diferenciados.
Na verdade, esses três tipos de regressão constituem um só, e em geral ocorrem juntos.
É possível pensar que todo sintoma se encontra associado a uma regressão, a um outro momento do
desenvolvimento em que o “eu” supõe ter obtido uma satisfação pulsional, permanecendo assim agarrado a
uma antiga forma de satisfação, desprezando o presente.
Por exemplo, uma criança que já deixou de usar fraldas torna a fazer xixi na cama diante de uma situação
ameaçadora ou que lhe gera angústia, como o nascimento de um irmão que ameaça a lhe tirar o amor de
sua mãe.
DESLOCAMENTO
O deslocamento é um mecanismo de defesa reconhecidamente simples e o encontramos como usual nos
sonhos. Caracteriza-se pela “transposição” da energia psíquica vinculada a uma representação incômoda
para outra menos ou nada inoportuna, baseada em elementos associativos com representações entre si. A
independência entre os representantes psíquicos da pulsão (afetivo e ideativo) é demonstrada nesse
mecanismo.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 146
javascript:void(0)
javascript:void(0)
Na análise dos sonhos ou no relato dos pacientes, encontramos vários exemplos de deslocamento. O caso
de fobia do Pequeno Hans (FREUD, 1909) deixa claro o deslocamento do afeto proibido de ódio/medo do
pai para medo de cavalos. Desse modo, durante esse deslocamento, transferimos a importância de uma
ideia para outra diferente.
O mecanismo do deslocamento está presente em inúmeros processos patológicos, mas é na fobia que
poderemos melhor visualizá-lo. O sujeito transfere (desloca) uma reação emocional a um objeto ou pessoa
para outro objeto ou pessoa.
Por exemplo, deslocamos o medo que sentimos pelo nosso pai para outro objeto, por exemplo uma barata.
Claro, isso não quer dizer que o medo de baratas significa ter medo do pai, estamos apenas dando um
exemplo. Cada caso precisa ser analisado cuidadosamente.
FORMAÇÃO REATIVA
A formação reativa trata-se de um modo de garantir um recalque já pactuado. Diz respeito a uma oposição
total à realização de um desejo inadmissível inconsciente por meio de uma atitude ou de um investimento
em um impulso oposto. O Ego produz o aparecimento de uma disposição em direção totalmente oposta ao
impulso para tentar proteger o sujeito de algum perigo interno. Fenichel (1981) aponta a existência de
formas intermediárias de reatividade. Uma das configurações seria, por exemplo, a transformação de um
ódio intenso em relação ao namorado em um aparente carinho e cuidado extremo com ele, assegurando o
recalque de seu ódio. A transformação fica restrita a um aspecto ou um objeto.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 147
Outra forma refere-se a uma total alteração da personalidade, como no caso de neurose obsessiva, onde a
bondade, a consideração e a justiça tornam-se características rígidas da personalidade tentando garantir a
ocultação da agressividade.
A FORMAÇÃO REATIVA E SUAS
PARTICULARIDADES
O especialista Luciano de Souza Dias apresentará algumas das clássicas configurações em que a
formação reativa pode aparecer e como esse mecanismo se relaciona com o recalque.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 148
ISOLAMENTO
O isolamento é um mecanismo que se refere a isolar algum pensamento ou comportamento, desligando-o
de suas conexões e de seu sentido emocional. Realiza-se um bloqueio impossibilitando qualquer tipo de
contato com outros pensamentos relacionados ou até mesmo experiências de vida. Conseguimos perceber
essa tentativa de isolar um pensamento quando norelato o sujeito faz interrupções no seu discurso, ou
intervalos de tempo e espaço em suas ações, quebrando o elo associativo das ideias e dos atos.
“(...) QUANDO O NEURÓTICO ISOLA UMA IMPRESSÃO OU
ATIVIDADE POR PAUSA, DÁ-NOS SIMBOLICAMENTE A
ENTENDER QUE NÃO PERMITIRÁ QUE OS PENSAMENTOS
QUE LHES DIZEM RESPEITO ENTREM EM CONTATO
ASSOCIATIVO COM OUTROS”.
(LAPLANCHE, 1992, p. 259).
ANULAÇÃO
Se na formação reativa encontramos uma atitude oposta ao impulso primário recalcado, na anulação existe
dispêndio de energia para que pensamentos, discursos e até mesmo ações pregressas e já realizadas não
tenham acontecido. Freud entende que esse mecanismo parece utilizar-se de aspectos mágicos,
executando atos imaginários ou mesmo reais, contrários ao anteriormente já executado, com o objetivo de,
nesse segundo tempo, torná-los nulos.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 149
Um paciente, todas as vezes que no seu discurso apresentava pensamentos ou relatos de acontecimentos
agressivos em relação ao seu pai, procurava rapidamente uma madeira para bater nela, dizendo que não
gostaria que nada disso ocorresse, aliviando sua ansiedade e tentando neutralizar seus desejos quanto a
seu pai. Ele agia assim como se, por meio desse movimento, magicamente conseguisse anular seu
pensamento.
PROJEÇÃO
O mecanismo de projeção é considerado bastante primitivo e foi descrito por Freud pela primeira vez em
um caso de paranoia. Entretanto, sabemos que esse mecanismo se encontra a todo instante no cotidiano
de nossa vida, e não só em comportamentos patológicos.
No sentido psicanalítico do termo, entende-se como a atribuição a outrem, sujeito ou objeto,
peculiaridades ou características, sentimentos ou desejos, que se desconhece em si mesmo ou que
não sequer aceitar que possua.
Podemos afirmar que se dá uma operação de colocar para fora aquilo que recusamos em nós mesmos –
transposição do interno para o externo. Um alívio da tensão interna é encontrado nesse mecanismo. Assim
como diz uma famosa frase atribuída a Freud:
“Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 150
Muitos são os exemplos que são encontrados no dia a dia, tais como o ciúme excessivo onde os desejos
de infidelidade são conferidos ao cônjuge; ou quando em uma briga com o colega do trabalho você afirma
que ele está com raiva por perceber sua competência, sendo que ele acabou de ser promovido.
Não podemos deixar de lembrar que os mecanismos de projeção e os de introjeção são atuantes desde o
início da vida psíquica em bebês. Melanie Klein estudou os dois e os associou à ansiedade primitiva do
bebê e aos primórdios da diferenciação entre eu e não eu. Na tentativa de lidar com as ansiedades e
frustrações, o bebê expulsa para o mundo exterior aspectos maus, inaceitáveis, capazes de causar algum
desprazer e dor. Através de sucessivas operações de projeção e introjeção, o bebê irá construindo seu
mundo interior.
INTROJEÇÃO
Foi Ferenczi quem propôs o conceito introjeção em analogia ao de projeção. Freud, posteriormente, o
contrapõe à projeção. Refere-se à apropriação, por parte de um sujeito, de qualidades ou traços de um
outro ou objeto exterior. A introjeção tem similitude com o conceito de incorporação e, no que diz respeito às
crianças, é o método mais natural para desenvolver seu Ego incipiente. Colocar para dentro (eu) cada vez
mais partes do mundo exterior, enriquecendo-o.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 151
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O processo de identificação se concretiza paralelamente ao de introjeção, ou seja, ao introjetar-se, também
se identifica, tornando parte do mundo interno. O desenvolvimento do Ego e do Superego possui estreita
correlação com os mecanismos de introjeção e projeção. O Ego torna-se mais rico por meio do colocar para
dentro aspectos do mundo exterior. O Superego é constituído pelos aspectos provenientes tanto das
interdições parentais quanto da cultura. De um modo mais amplo, podemos afirmar que a personalidade se
constitui por meio de sucessivas identificações, introjeções e projeções.
NEGAÇÃO
A negação é um dos mecanismos visivelmente associados ao recalque. Ao mesmo tempo em que há uma
admissão de um desejo, pensamento ou sentimento incompatível, deparamo-nos com uma negação de
que lhe pertença (LAPLANCHE, 1992). Assim dizemos “você pode imaginar agora que deveria estar
sentindo medo pelo que me aconteceu, mas não era exatamente isso que iria mencionar”, ou “não, jamais
pensei nisso” como típicos exemplos de uma negação.
Freud, em alguns artigos, cita exemplos, especialmente em A Negação (1975, p. 11), onde faz a seguinte
afirmação: “(...) e o ‘não’ é seu sinal característico, um certificado de origem, algo como made in Germany”.
Cada vez que enfaticamente negamos algo, apontamos que é aí que se encontra a verdade, na afirmação
desse conteúdo. É característica da infância a negação de circunstâncias desagradáveis e a busca da
satisfação pela fantasia. Mas quando a vida adulta avança, e com ela o juízo de realidade, a capacidade de
julgamento e percepção interna, esse mecanismo vai reduzindo.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 152
Em alguns casos, Freud apontou o que podemos traduzir como recusa. Esse é um mecanismo de defesa
que se diferencia da negação. Trata-se de negar ou recusar a realidade da percepção da representação
ou do conteúdo. Tal mecanismo é encontrado especialmente nas perversões e nas psicoses. Encontra-se
associado à castração, mais propriamente à recusa e ao reconhecimento da percepção da falta do pênis
(por relação a existência do mesmo em outro sujeito), e de não aceitação da diferença anatômica dos
sexos. Tal operação de rejeição radical é uma defesa primária pela necessidade de afastamento de uma
realidade insuportável – a falta. Nesse caso, o sujeito ao recusar acredita que aquilo que é recusado é
falso. Em algumas traduções de Freud, encontramos o termo denegação, fazendo referência ao sujeito que
desmente o fato, não reconhecendo o mesmo como verdade.
SUBLIMAÇÃO
A sublimação é reconhecidamente o mecanismo de defesa mais bem-sucedido. Apesar de ser um conceito
extremamente relevante, não foi tratado como tal, sendo, portanto, menos investigado do que poderíamos
imaginar. Encontra-se espalhado em toda a obra, mas sem uma organização e elaboração sintética. Sua
primeira conceituação aparece em 1905, nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, e traz como traço
a dessexualização. Portanto, falar em sublimação para a Psicanálise é apresentar um conjunto de condutas
humanas que, apoiadas na energia pulsional (sexual), não se referem à sexualidade, possuindo outros
objetivos.
O que é preciso entender é a ação de dessexualizar a pulsão e utilizar tal energia como força propulsora de
movimento criativo. Vale aqui trazer como Freud, em 1908, expõe o conceito:
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 153
A PULSÃO SEXUAL PÕE À DISPOSIÇÃO DO TRABALHO
CULTURAL QUANTIDADES DE FORÇA
EXTRAORDINARIAMENTE GRANDES (...) CHAMA-SE A ESTA
CAPACIDADE DE TROCAR A META SEXUAL ORIGINÁRIA POR
OUTRA META (...) A CAPACIDADE DE SUBLIMAÇÃO.
(FREUD apud LAPLANCHE, 1992, p. 495).
Algumas características se encontram vinculadas à noção de sublimação: a dessexualização; a estreita
relação com o âmbito da cultura; e a preservação quanto à intensidade do sexual na experiência humana.
A disposição assexual da sublimação foi a primeira marca de afastamento do aspecto sexual da pulsão, em
uma “deflexão da sexualidade”. A relação com a cultura aponta a possibilidade de formas alternativas de
satisfação da pulsão, tais como a construção da cultura. A preservação e a proteção quanto à força do
sexual, ao desejo de manifestar e satisfazer as excitações sexuais, se dariam pelo desvio da pulsão,
tornando-nos capazes de construções culturais ou, como descrito no “Caso Dora”, alcançar objetivos mais
elevados e valorizados.
Encontramos Freud, em toda a sua obra, descrevendo o criar artístico e a atividade intelectual ecientífica
como modelos de processos sublimatórios.
CASO DORA
Dora foi uma paciente de Freud que começou a apresentar sintomas neuróticos aos 8 anos de idade. Esse
caso foi de grande importância para ilustrar conceitos centrais na teoria psicanalítica, como o conceito de
transferência, a interpretação dos sonhos e outros.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 154
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Acabamos de descrever importantes mecanismos de defesa. Conforme pudemos entender, eles são
colocados em ação pelo Ego para lidar com um conflito vivido pelo sujeito. Se as defesas não conseguirem
ser efetivas no bloqueio da ansiedade gerada por esses impulsos provenientes do Id, haverá a criação de
sintomas.
VEM QUE EU TE EXPLICO
As primeiras ideias sobre defesa de Freud
As primeiras ideias sobre defesa de Freud
Explicação do Recalque
Explicação do Recalque
Explicando a clivagem
Explicando a clivagem
VERIFICANDO O APRENDIZADO
MÓDULO 2
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 155
 Relacionar os mecanismos de defesa à formação de sintomas
CONCEITO DE SINTOMA E SUA ASSOCIAÇÃO
COM O CONFLITO PSÍQUICO
Antes de iniciar a temática da formação do sintoma, é necessário estabelecer a diferença desse conceito
em Psiquiatria e Psicanálise. Seguindo a investigação da clínica orgânica em Medicina, a Psiquiatria se
utilizaria da descrição de um conjunto de sinais e sintomas para, a partir da definição diagnóstica, realizar a
medicação e tentativa de eliminação dos referidos sintomas.
 ATENÇÃO
O doente, em sua subjetividade, parece não ser alvo do olhar e atenção. A doença, enquanto uma coleção
de fenômenos, sintomas, são os procurados, reunidos e classificados em grandes manuais. A Psicanálise
traz um deslocamento nessa percepção.
Conforme mencionado, Freud passa a entender o sintoma de suas pacientes como referido às suas
histórias, às experiências vividas, cheias de sentido absolutamente particular. Essas histórias e o sentido
delas só poderiam ser alcançados pela escuta do discurso realizado sobre o sintoma. Discurso esse que só
faz sentido pela relação com quem o produziu.
Foi nessa escuta atenta que Freud encontrou o sintoma associado ao conflito psíquico.
Historicamente, desde o final do século XIX, Freud procurava as origens dos sintomas daqueles que
chegavam até ele reclamando de sofrimentos. Realizou investigações sobre a histeria e a neurose
obsessiva, chamadas de psiconeuroses, buscando a formação dos sintomas.
Em uma de suas publicações iniciais, apresenta a ideia de que as histéricas sofreriam de reminiscências,
lembranças de situações traumáticas que retornavam em forma de dores corporais. Essas situações se
ligavam a conteúdos de vergonha e baixa autoestima, impulsos sexuais inadmissíveis, tanto no âmbito
pessoal quanto no julgamento social. Encontra-se aí o conflito psíquico!
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 156
Com base nisso, os representantes da pulsão, ideativo e afetivo, eram desligados entre si.
O ideativo era afastado da consciência, em uma tentativa de esquecimento.

O afetivo era transformado em sintoma corporal em formas diversas, tais como paralisias, mutismo,
cegueira.
Nessa descrição, Freud menciona dois movimentos, recalque e conversão, como estruturadores do
sintoma histérico, e a existência de um sentido que remete a algo de que os pacientes não querem saber
nem falar, o componente sexual.
Exemplos de casos clínicos podem nos dar a dimensão do que se apresenta:
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 157
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Caso Elizabeth
O famoso “Caso Elizabeth”, descrito em 1895, fala de uma jovem atendida por Freud com dores e paralisias
nas pernas. Após um longo passeio no campo ao lado de seu cunhado, veio à sua mente que ele seria um
excelente marido. Um tempo depois, sua irmã, que já se encontrava adoecida na época do passeio, não
resiste à moléstia e vem a falecer. No momento da morte, ela tem o pensamento de que o cunhado agora
estaria livre para ser seu marido. Tal consideração foi imediatamente repudiada e arrastada para fora de
sua consciência. Em seguida, os sintomas de paralisia e dor aparecem e não produzem nenhum sentido a
Elizabeth. Ela parece não saber a que isso se encontra relacionado, nem como apareceu. Não tem o que
dizer ou evita dizê-lo.
Caso Maria
Um outro exemplo, mais atual, pode ser apresentado. Maria, 30 anos, vem à consulta com queixas de falta
de ar, dores de cabeça e tonturas. Não consegue manter relacionamentos duradouros e sempre se sente
humilhada pelos namorados, tendo crises de falta de ar quando é deixada por eles. Ao ser solicitada que
fale sobre sua história familiar, relata que sua mãe era um pouco distante, mas seu pai era amoroso. Ele
viajava muito a trabalho, e ela o esperava na janela de casa, ficando muito ansiosa quando ele demorava a
retornar. Quando ele aparecia, estava cansado e somente tinha olhos para sua mãe. Nesses momentos,
ela desejava que a mãe desaparecesse ou que algo acontecesse com seu pai. A paciente parecia não
perceber nenhuma conexão entre seus sintomas e sua experiência infantil. Não percebe a repercussão de
sua experiência na sua atualidade das relações.
Durante o atendimento das pacientes histéricas, Freud reconhece uma afirmativa sempre presente no
discurso dessas mulheres: uma experiência de sedução sexual sofrida por elas fruto de fantasia, mais
precisamente de um desejo de serem seduzidas e amadas pela figura parental.
A partir dessa descoberta, novos caminhos foram seguidos pela Psicanálise.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 158
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Ainda dando continuidade ao estudo dos sintomas, percebemos o estabelecimento de diferenças quanto à
neurose obsessiva e a histeria no artigo As Psiconeuroses de defesa, de Freud (1894).
O mecanismo defensivo, apesar de se iniciar com o recalcamento, passa a um segundo tempo diferente.
Distintamente da conversão, observa-se que é o afeto, associado à ideia incompatível de caráter sexual,
que irá ligar-se a outras representações ideativas que se impõem à consciência e assim se tornarão
obsessivas.
A força do afeto é transposta para uma nova ideia. O inconciliável foi apartado da consciência, mas o afeto,
experimentado pelo “eu”, associa-se a alguma representação conveniente para servir de suplente, criando
assim uma desconfiança e incompreensão quanto ao sentimento.
 ATENÇÃO
É comum que os principais sentimentos experimentados se relacionem à culpa e a autoacusações por
motivos claramente inconsistentes, que encobrem a real razão. Parece não fazer sentido, mas é assim que
deve ser, só assim pode ser.
Todo esse processo acontece no campo mental, psíquico, não adentrando no corpo, como no caso da
histeria. O caso do Homem dos Ratos (1909), no qual Freud descreve um quadro de neurose obsessiva,
revela várias substituições de ideias insuportáveis, sintomas e rituais realizados no esforço de impedir o
contato com a ideia recalcada.
 EXEMPLO
Na atualidade, encontramos muitos traços, correlatos dos mecanismos defensivos, nos casos de
transtornos obsessivos, tais como necessidade de organização e perfeição, comportamentos controladores,
excesso de razão em detrimento do afeto e outros.
MECANISMOS DE DEFESA NAS PSICOSES
Continuando suas investigações, Freud elabora uma primeira compreensão (1894) sobre a etiologia das
psicoses. A partir de alguns atendimentos, ele percebe que, no caso das psicoses, um mecanismo de
defesa muito mais poderoso e severo entra em ação. Presente o repúdio a uma ideia incompatível,
separando-a do afeto, mas ocorrendo de forma tão violenta, que ambos são expulsos totalmente do eu que,
agora, passa a viver como se aquela ideia jamais tivesse acessado a consciência.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 159
Desse modo o “eu” se desliga tanto do que era incompatível como também da realidade.
Assim se procede o afastamento da realidade, que acaba trazendo uma série de repercussões, tais como
delírios e alucinações, tentativas de remendar e restabelecer a realidade. Nesses momentosiniciais, Freud
ainda irá se utilizar do mecanismo de recalque, tal como nas neuroses. Posteriormente, ele atribuirá a esse
mecanismo o sentido de recusa ou rejeição.
 EXEMPLO
O estudo clínico do famoso “Caso Schreber” (1911) é uma das grandes contribuições no campo da psicose.
O Caso Schreber representa uma análise de grande importância nos estudos de Freud que foi realizado
partindo da leitura das memórias escritas em 1903 por Daniel Paul Schreber. Schreber nasceu em Leipzig,
Alemanha, em 25 de julho de 1842. Jurista importante da época e escritor, relatou a sua condição mental
descrevendo um quadro complexo com delírios místicos e estupor alucinatório.
Em outros trabalhos posteriores (1924), Freud apontará diferenças fundamentais entre a psicose e a
neurose. Aqui, nos importa mencionar que o conflito essencial para a psicose se dará entre o Ego e a
realidade, em um movimento brusco e defensivo de fugir à realidade externa, de recusar como a realidade
se apresenta. Em um desses textos, Perda da realidade na neurose e na psicose (1924), Freud (1975, p.
196) afirma que
“A NEUROSE NÃO REPUDIA A REALIDADE, APENAS A
IGNORA; A PSICOSE A REPUDIA E TENTA SUBSTITUI-LA.”
Freud (1975, p. 196).
 ATENÇÃO
Sempre temos o conflito e uma ação defensiva, mas, às vezes, de forma mais radical na psicose.
Frente à pulsão sexual demandando satisfação, mas sendo inaceitável a exigência desse tipo, uma ação
inconsciente de defesa se revela para evitar o sofrimento. Esse material, que foi excluído da consciência
pelos processos psíquicos de censura e defesa, pode não ser lembrado, mas não está perdido,
permanecendo no inconsciente.Tema 4 - Os mecanismos de defesa 160
Nessa perspectiva é importante entender que, apesar de retirado da consciência, o impulso ainda possui
um quantum de energia suficiente para buscar se manifestar, reaparecer. Assim as defesas podem não ser
capazes de evitar que os impulsos, que se encontram inconscientes pela ação da defesa, tentem abrir
caminho de volta ao consciente.
Como satisfazer a pulsão e ao mesmo tempo impedir que algo inadmissível se “concretize”?
A RUPTURA COM A REALIDADE NA PSICOSE
O especialista Luciano de Souza Dias apresentará as diferenças fundamentais entre a psicose e a neurose
segundo Freud, ilustrando, brevemente, com exemplos como o caso Schreber.
O SINTOMA E OS MECANISMOS DE DEFESA
É normal fazer uso das defesas. O que seria de nós se não nos defendêssemos? Como afirmava Freud, “é
impossível enfrentar a realidade o tempo todo sem nenhum mecanismo de fuga”. Mas teremos custos.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 161
Na resolução de um conflito, temos a presença de uma luta incessante, muitas negociações e, muitas das
vezes, aparece o sintoma como produção do inconsciente. Assim, será do fracasso da defesa que surgirão
os sintomas. Também encontramos as formações substitutivas, equivalente aos sintomas, descritas por
Freud como formações sintomáticas que proporcionam prazer a partir da substituição do desejado
inconsciente através de algum tipo de proximidade com ele.
Por tanto, podemos traduzir o sintoma como um disfarce do desejo para alcançar alguma satisfação.
Trata-se de um evento elaborado pela operação de distorção do desejo. Dessa forma, os processos
inconscientes só conseguem acessar o consciente pela via dos derivativos, similares ao que foi expulso do
inconsciente.
Temos aqui dois conceitos muito importantes para a teoria psicanalítica que, relacionados ao que
estamos apresentando, precisam de explanação agora.
RETORNO DO RECALCADO
O primeiro deles é o retorno do recalcado, que se caracteriza por ser um processo em que conteúdos
recalcados, porém não destruídos no inconsciente, forçam passagem para o consciente para ressurgir e
tentarem obter satisfação. É claro que precisam de novos caminhos e inclusive outras feições. Esses
componentes inconscientes são capazes de se desfigurar infinitamente sempre com o objetivo de se
depararem com uma possibilidade de satisfação possível no consciente – por meio de sintomas.
FORMAÇÃO DE COMPROMISSO
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 162
Outro conceito estreitamente vinculado ao retorno do recalcado é o de formação de compromisso.
Segundo Laplanche (1992), é a fisionomia que o recalcado assume para conseguir ser aceito no
consciente, enquanto se faz sintoma ou qualquer outra produção do inconsciente (um sonho, por exemplo).
Fundamental perceber que, na formação de compromisso, encontram-se negociadas tanto as exigências
defensivas quanto o desejo inconsciente que demanda ser satisfeito. Podemos observar ambos sendo
atendidos. Existe um prazer associado a esse sintoma, mas, ao mesmo tempo, há um mal-estar, um
incômodo, por trazer sofrimento, já que não era exatamente esse o desejo que deveria ser atendido, o que
é oferecido pelo sintoma.
 EXEMPLO
Vamos nos utilizar agora de um exemplo baseado no proposto por Freud. Imaginemos que uma grande
festa será realizada em uma mansão. Um homem sabe da festa e, apesar de não receber o convite, deseja
ir ao evento. Ao chegar lá, consegue entrar, mas inicia uma discussão com outra pessoa e é convidado a se
retirar pelo segurança, que o encaminha até o lado de fora da mansão. Inconformado, já que a festa tinha
tudo para ser boa, ele resolve tentar voltar. Troca de roupa e, chegando com outro convidado, consegue se
infiltrar. Mas em breve, no meio da dança, novo impasse se dá quando o chefe de segurança reconhece a
semelhança e torna a removê-lo do local, não sem gritaria.
A partir desse exemplo, conseguimos visualizar o sintoma, como uma formação substitutiva, tentando
enganar o Ego, retornando disfarçado. Ainda que tendo algum prazer, acaba causando confusão e
desprazer/mal-estar.
Na formação do sintoma, duas forças encontram-se presentes: a exigência de satisfação da pulsão e a
exigência da censura ao elemento inconsciente inadmissível.
JÁ SABEMOS QUE OS SINTOMAS NEURÓTICOS SÃO
RESULTADO DE UM CONFLITO, E QUE ESTE SURGE EM
VIRTUDE DE UM NOVO MÉTODO DE SATISFAZER A LIBIDO.
AS DUAS FORÇAS QUE ENTRAM EM LUTA ENCONTRAM-SE
NOVAMENTE NO SINTOMA E SE RECONCILIAM, POR ASSIM
DIZER, POR MEIO DO ACORDO REPRESENTADO PELO
SINTOMA FORMADO. É POR ESSA RAZÃO, TAMBÉM, QUE O
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 163
SINTOMA É TÃO RESISTENTE: É APOIADO POR AMBAS AS
PARTES EM LUTA.
(FREUD, 1975, p. 420).
A FALHA DO PROCESSO DEFENSIVO E O
ADOECIMENTO
O sintoma tentará considerar esses dois lados do conflito psíquico, atendendo tanto ao Ego quanto ao Id,
em uma mescla de contenção e prazer. Mas a tentativa de conciliação acaba por não dar certo já que o
prazer experimentado é vivido com certo estranhamento pelo sujeito. Esse não era o prazer reivindicado.
O sintoma é apresentado como algo que incomoda e do qual queremos nos livrar. Sinal de que algo não vai
bem, mas do qual é difícil se desgarrar. Ao menos é a garantia de algum prazer.
Percebemos durante o trabalho clínico o quanto é difícil para o paciente se livrar de um sintoma que ele
mesmo afirma lhe causar desprazer. Assim, é muito difícil conseguir realizar mudanças em sua conduta. A
esse fenômeno é dado o nome de resistência.
Tal como o provérbio português “se não tem tu, vai com tu mesmo”. Mas, como se conformar?
Adoecendo?
Na falha do processo defensivo, vemos surgir o curso do adoecimento.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 164

No texto Conferências Introdutórias (1916/1917), Freud expõe uma série de argumentos importantes sobre
a formação do sintoma, tendo como resultado o adoecimento ou, mais precisamente, a estruturação da
enfermidade mental.
Na conferência O Sentido dos Sintomas, Freud apresenta algumas considerações que vão ao encontro do
que esboçamos acima: o sintoma se mostra como a manifestação distorcida de um elemento
recalcado e inconsciente. Assim, o sintoma tem um sentido passível de ser desvendado, que se encontra
baseado nas experiências vividas pelo paciente. Desse modo, o sintoma mantém conexão estreita com a
vida sexual, ou seja,refere-se a como se deu o desenvolvimento da sexualidade daquele indivíduo em
particular.


Mais adiante, em uma outra conferência, Os Caminhos da Formação dos Sintomas, Freud reafirma que os
sintomas neuróticos são resultado de um conflito e da tentativa de uma possibilidade de satisfação
da pulsão, mesmo que um tanto desvantajosa. E, continuando suas colocações, apresenta o conceito de
fixação, o qual é muito importante para entendermos os caminhos feitos por um sintoma.
FIXAÇÃO E REGRESSÃO
Fixação e regressão são processos interdependentes. Ao longo da infância, toda criança vai
experimentando prazeres, desprazeres e traumas durante o desenvolvimento da sua sexualidade. Essas
fases serão superadas, mas jamais plenamente abandonadas ou perdidas, tornando-se sinais ou pistas
passíveis de identificação ou polos de atração.
 VOCÊ SABIA
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 165
Em momentos posteriores, diante de uma frustração, quando a realidade não concede a satisfação
pretendida, a libido, energia da pulsão sexual, buscará se religar a essas fixações (sinais) localizadas no
curso de seu desenvolvimento.
A fixação trata-se de um fenômeno relativo à tendência de reconectar a libido a formas anteriores de
modos de satisfação, a tipos arcaicos de objeto ou de relação (LAPLANCHE, 1992), típicos das
experiências infantis. Zimerman (2001, p. 150) aponta que
OS PONTOS DE FIXAÇÃO SE FORMARIAM COM MAIS
FACILIDADE A PARTIR DE UMA EXAGERADA GRATIFICAÇÃO
OU FRUSTRAÇÃO DE DETERMINADA NECESSIDADE OU DE
UMA ZONA ERÓGENA E, CONFORME O PREDOMÍNIO DE UMA
DAS FORMAS, A MANIFESTAÇÃO CLÍNICA TERÁ
CARACTERÍSTICAS ESPECÍFICAS.
Zimerman (2001, p. 150).
Já a regressão será o movimento de retornar até as “pistas” deixadas onde a libido possa obter satisfação.
Encontramos regressão e fixação se sucedendo no viver o mundo. Desse modo, podemos evidenciar a
presença do passado no presente em um movimento contínuo.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 166
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Exemplos do cotidiano podem nos clarificar essa relação entre a fixação e a regressão. Diante de uma
chamada de atenção do chefe no trabalho, uma pessoa tende a reagir da mesma maneira que fazia com
seu pai quando se sentia rejeitada por ele.
Retomando a questão do sintoma, para o surgimento deste, podemos mencionar a existência de um
impedimento da satisfação de uma pulsão no cotidiano do indivíduo. Esse impedimento gera frustração,
seguida por um processo de regressão às organizações anteriores da libido sexual infantil que jamais foram
plenamente abandonadas – esses são os chamados pontos de fixação no desenvolvimento sexual.
FATORES CONSTITUCIONAIS E AMBIENTAIS
Caminhando um pouco mais, vale apresentar o que Freud entende como fatores responsáveis pela
etiologia das doenças. A formação de sintomas dependerá de fatores múltiplos:
CONSTITUCIONAIS
Aspectos inatos
AMBIENTAIS
Acaso
Para melhor explicar, mostraremos a seguir “série complementar”, descrita em seu texto O Caminho da
Formação dos Sintomas,(1975):
 Série complementar de fatores associados a formação de sintomas segundo Freud.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 167
 COMENTÁRIO
A constituição sexual é tudo aquilo que já trazemos em nós, o que nos compõe quando viemos à vida.
A experiência infantil refere-se ao vivido na infância, ao que foi adquirido nesse período na relação com o
mundo.
A conjugação dessa constituição com a experiência infantil acarretará uma predisposição (disposição) que
interagirá com experiências de frustração vivida pelo adulto na atualidade.
Essa combinação definirá, em algum nível, o destino do sujeito quanto à sua vida amorosa, suas
satisfações pulsionais, fixações, sintomas, enfim, a totalidade da sua vida.
Um esquema talvez possa trazer luz ao que vimos expondo até agora:
Resumo dos fatores constitucionais e ambientais dos sintomas:
Conflitos internos e sofrimento psíquico
Experiências infantis e os processos de fixação e regressão
Frustração
A Falha nos Mecanismos defensivos
Impossibilidade de satisfação da pulsão sexual/libido
Demandas e conflitos externos
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
Esse esquema pode dar uma dimensão a respeito das origens dos sintomas e do que está implicado no
que Freud chamou de “escolha da neurose”. Os sintomas são substitutos das frustrações e revelam os
caminhos realizados ou “escolhidos” para obtenção de uma pseudossatisfação mesclada de sofrimento.
Segundo Bergeret (2008), a estrutura da personalidade implica em determinados componentes psíquicos
essenciais:
Mecanismos de defesa
Grau de evolução da libido
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 168
Pontos de fixação da libido
Grau de desenvolvimento do Ego
Um modo seletivo de relação de objeto
OS MECANISMOS DE DEFESA NOS
TRANSTORNOS PSÍQUICOS
Os transtornos psíquicos apresentam um conjunto de mecanismos de defesa que se associam à exibição
de sintomas. Passaremos a enumerar alguns desses mecanismos que se apresentam como mais
característicos, mas não exclusivos, de determinadas patologias.
RECALQUE
O recalque é o mecanismo fundamental da estruturação da neurose. Logo, estará sempre presente.
PSICOSE
No caso da psicose, podemos verificar a cisão e recusa da realidade.
NEUROSE
Na neurose, podemos observar que a histeria se utiliza de mecanismos de deslocamento, isolamento.
NEUROSE OBSESSIVA
Já no caso da neurose obsessiva, encontram-se de forma muito efetiva os mecanismos de deslocamento,
isolamento, anulação e formação reativa.
Diríamos que, diante do conflito, a defesa age separando os representantes ideativos do afeto, tornando-os
inconscientes. Porém, é onde a libido encontra-se fixada que definirá os caminhos da formação do sintoma
e, assim, o quadro psicopatológico.
Repare na importância do entendimento dos mecanismos de defesa e também do conhecimento da história
do sintoma, contada pelo sujeito, pois nesse sentido poderemos realizar um melhor trabalho clínico.
VOCÊ DEVE ESTAR SE PERGUNTANDO: TODAS AS
VEZES EM QUE TIVERMOS UM CONFLITO OU
FICARMOS FRUSTRADOS DESENVOLVEREMOS
SINTOMAS E, CONSEQUENTEMENTE, UMA DOENÇA?
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 169
RESPOSTA
RESPOSTA
Na verdade, não. Se o Ego conseguir entrar em acordo com a pulsão para que um novo objeto, mais
acessível e propiciado pela realidade, seja aceito como possibilidade de prazer, não teremos um impasse e,
nesse sentido, não veremos um adoecimento.
Freud (1916/1917) aponta que muitas pessoas têm a capacidade de tolerar carências mais do que outras.
Além disso os impulsos parecem ter um tipo de “elasticidade” capaz de assumir o lugar de outro e inclusive
viabilizar satisfação a partir de outro objeto.
 ATENÇÃO
Repare que aquilo que desenvolve a doença refere-se à exclusividade no que diz respeito à satisfação. A
flexibilidade nos padrões de satisfação da libido será fundamental para o não adoecimento.
Talvez possibilitar a flexibilização seja uma das tarefas fundamentais de todo processo analítico.
VEM QUE EU TE EXPLICO
O mecanismo defensivo na neurose obsessiva
O mecanismo defensivo na neurose obsessiva
O sintoma como produto do inconsciente e as formações substitutivas
O sintoma como produto do inconsciente e as formações substitutivas
Fatores constitucionais e ambientais responsáveis pela etiologia das doenças
Fatores constitucionais e ambientais responsáveis pela etiologia das doenças
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 170
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CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apresentamos a ideia de defesa como algo fundamental ao viver humano. Diante da vivência de conflitos e
da impossibilidade de satisfação da pulsão, ou dos desejos correlatos a ela, observamos que o Ego coloca
em jogo um conjunto de mecanismos de defesa, que são processos inconscientes.
O objetivo principal dos mecanismos de defesa é lidar com os conflitos internos e externos, vividos
no cotidiano como ameaçadores.
Discorremos sobre os principais mecanismos de defesa expostosprincipalmente por Freud e Anna Freud,
tais como recalque, regressão, clivagem, deslocamento, anulação isolamento, formação reativa, negação,
projeção e introjeção.
Após a descrição desses mecanismos, estabelecemos sua relação com a criação dos sintomas na história
da Psicanálise. Estabelecemos como fatores fundamentais para a etiologia dos sintomas: o conflito, a
frustação e os processos de fixação e regressão. De acordo com esses fatores, apontamos os diferentes
processos de adoecimento mental e seus mais característicos mecanismos defensivos.
Para finalizar, refletimos sobre a importância do reconhecimento dos processos defensivos e da escuta dos
sintomas como referência para a execução do trabalho analítico.
 PODCAST
Agora, o especialista Luciano de Souza Dias desenvolverá a ideia de como, diante do conflito, a defesa do
Ego age separando os representantes ideativos do afeto, tornando-os em inconsciente. Dessa forma,
explicará a importância de analisar onde a libido encontra-se fixada para entender os caminhos da
formação do sintoma e, assim, o quadro psicopatológico.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 171
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
BERGERET, J. A Personalidade Normal e Patológica. Porto Alegre: Artmed, 2008.
FENICHEL, O. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Atheneu, 1981.
FREUD, A. O Ego e os mecanismos de defesa. Porto Alegre: Artmed, 2006.
FREUD, S. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.
KLEIN, M (Organiz.). Os progressos da psicanálise, Rio de Janeiro: Zahar, 1986
KUSNETZOFF, J. C. Introdução à Psicopatologia Psicanalítica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
LATTANZIO, F. Por que criamos? Reflexões psicanalíticas sobre a gênese da arte, Mosaico. Estudos em
Psicologia, v. 3, n. 1, 2008.
MCWILLIAMS, N. Diagnóstico Psicanalítico. Porto Alegre: Artmed, 2014.
MEZAN, R. A trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1982.
NEVES, T. I.; LOPES, A. M.; MORAES, T. C. B. Reintroduzindo o sintoma: a psicanálise como obstáculo
à cientificização do tratamento psíquico. Revista de Psicologia UERJ, Rio de Janeiro, 2013.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
ZIMERMAN, D. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001.
EXPLORE+
Para aprofundar os seus conhecimentos no assunto estudado:
Leia o artigo Casos Clínicos retratados no cinema: estudo de processos defensivos, de Tales Vilela
Santeiro, Leylane Franco Leal Barboza e Ludimila Faria Souza, publicado na Revista Brasileira de
Psicoterapia, volume 18, número 2, em 2016.
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 172
Acesse o canal do YouTube “Falando nIsso”, de Christian Dunker.
Assista ao vídeo Caso Homem dos Ratos Freud, encontrado no canal SOBRAPSICO, no YouTube.
CONTEUDISTA
Teresinha Maria Nicolini da Fonseca Anciães
Tema 4 - Os mecanismos de defesa 173
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DESCRIÇÃO
Introdução à história do Movimento Psicanalítico; a Psicologia Analítica de Jung; a perspectiva ferencziana;
a teoria winnicottiana; a Escola Lacaniana.
PROPÓSITO
Compreender os principais conceitos de importantes autores herdeiros do pensamento psicanalítico, desde
sua fundação até a contemporaneidade, observando suas variações e divergências capazes de gerar
novas proposições teórico-clínicas no campo psicanalítico, enquanto elemento fundamental para a sua
futura atuação como psicólogo.
PREPARAÇÃO
Antes de iniciar o conteúdo deste tema, tenha à mão alguns dicionários de Psicanálise, tais como:
Vocabulário de Psicanálise, de Laplanche e Pontalis, publicado pela Martins Fontes
Dicionário de Psicanálise, de Elizabeth Roudinesco e Michel Plon, publicado pela Zahar Editor
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar os conceitos junguianos e as divergências em relação à teoria freudiana
MÓDULO 2
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 174
Reconhecer os principais conceitos de Ferenczi colaborativos no aprofundamento da Psicanálise
MÓDULO 3
Identificar a relevância dos estudos psicanalíticos na matriz de desenvolvimento humano mãe-bebê a partir
dos conceitos winnicottianos
MÓDULO 4
Descrever os principais conceitos lacanianos como a releitura da obra freudiana
INTRODUÇÃO
A criação da Psicanálise por Sigmund Freud aconteceu há mais de um século. Durante o período de 1896-
1902, Freud trabalhou árdua e predominantemente sozinho, observando seus pacientes atentamente, com
intuito de entender e tratar a doença mental apresentada por eles.
A descoberta original e fundamental – o inconsciente e a concepção da sexualidade infantil – tornaram-se
os pilares da teoria psicanalítica e foram difundidos entre os médicos e pesquisadores da época que
passaram a se reunir ao seu redor, colaborando e discutindo suas ideias. Entretanto, a aceitação de suas
teorias não tardou em experimentar divergências e antagonismos vindos de alguns discípulos, o que
acabaria por levar ao rompimento com tais pressupostos, inclusive, com o próprio Freud.
Vale pontuar que a fundação, a propagação e o desenvolvimento da Psicanálise enquanto corpo teórico-
clínico deveu-se a reflexões efetivadas em encontros e desencontros, correspondências, entre a série de
estudiosos apreciadores da enigmática mente humana.
Agora, se pudermos voltar no tempo, talvez consigamos entender os caminhos trilhados por alguns dos
sucessivos discípulos de Freud, na ampliação e alteração de seus conceitos, referente ao desenvolvimento
do comportamento e da psique humana.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 175
 Da esquerda para direita: Sigmund Freud, Stanley Hall, Carl Gustav Jung, Abraham Arden Brill,
Ernest Jones e Sándor Ferenczi. Fotografia, 1909.
MÓDULO 1
 Identificar os conceitos junguianos e as divergências em relação à teoria freudiana
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 176
CONHECENDO CARL GUSTAV JUNG
Carl Gustav Jung foi um dos preferidos de Freud. Desde o primeiro encontro, que aconteceu após interesse
de Jung nas ideias sobre os sonhos, decorrente da leitura do texto freudiano A Interpretação dos Sonhos
(1900), o fundador da Psicanálise reconheceu Jung como aquele que poderia ser o herdeiro oficial do
Movimento Psicanalítico. No entanto, esse olhar sobre Jung também refletia algumas preocupações e
motivações políticas que se referiam às garantias do reconhecimento da Psicanálise.
 Carl Gustav Jung.
Existia em Freud um receio de considerarem a Psicanálise uma teoria judaica e, com a participação
obstinada e mesmo passional de Jung (cristão, psiquiatra suíço, respeitado no meio científico), este temor
poderia vir a se dissipar. Esse grande encontro, constituído de amizade e discussões teóricas durou um
longo tempo, de 1907 até 1913, aproximadamente. Após muito trabalho realizado, muitas cartas trocadas,
os antagonismos acabaram por surgir, tão fundamentais, até que um rompimento, um tanto violento, tornou-
se inevitável. Observando a história, fica claro que a questão essencial de tal ruptura pode ser achada no
entendimento do valor da sexualidade e da energia libidinal (sexual) como fundamento dos processos da
psique humana, ponto essencial para Freud.
Iniciava-se a construção da Psicologia Analítica de Jung, que se tornou uma das mais importantes teorias e
linhas de psicoterapias da atualidade.Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 177
A PSICOLOGIA ANALÍTICA DE JUNG
Antes de estudarmos os conceitos mais destacados de Jung, é importante mencionar que ele entendia o
ser humano como um ser único, indivisível, uma unidade, resultado de uma conjugação entre aspectos
psicológicos e biológicos, funcionando dinamicamente.
Veremos agora as principais proposições da Psicologia Analítica defendida por Jung.
O CARÁTER DA LIBIDO
O conceito de LIBIDO para Jung encontrou-se no cerne de sua divergência com Freud. A publicação de
seu livro Metamorfoses e Símbolos da Libido (1912) apresentasua visão, reconhecendo a libido como a
totalidade da energia psíquica, ultrapassando a concepção puramente sexual. Não se tratava de excluir a
disposição sexual da libido, mas incluí-la em uma nova perspectiva, mais ampla, da dinâmica da psique.
Essa concepção monista da libido se contrapunha à de Freud, dualista.
METAMORFOSES E SÍMBOLOS DA LIBIDO
A obra ganhou uma revisão e passou a ser chamada de Símbolos da Transformação.
A SEXUALIDADE ERA VISTA POR JUNG COMO UM ASPECTO
DA VIDA E A ENERGIA PSÍQUICA, UMA MANIFESTAÇÃO VITAL
TOTAL. NESTE SENTIDO, A LIBIDO PODE SER DIRIGIDA A UM
AMPLO ESPECTRO DE INTERESSES: SEXUALIDADE – FOME
– SONO – AFETOS – ESTADOS EMOCIONAIS, EM UM
CONSTANTE IR E VIR, EM UM CONTÍNUO DE
SUBSTITUIÇÕES.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 178
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Libido é movimento! Encontramos progressão e regressão, termos indicadores da direção da libido,
responsáveis pelo ajuste às condições da vida, externa e interna. Na progressão, encontramos o avanço da
libido, fluindo na direção do exterior e se adaptando ao mundo externo. Já na regressão, podemos perceber
uma paralisação, um represamento devido à ativação de conteúdos e fantasias infantis que provocaram um
fracasso adaptativo. Na regressão, veremos um encontro com alguma imagem arquetípica e a possibilidade
de transpor um determinado obstáculo, ou seja, um complexo. Para tal, muito trabalho mental é necessário.
PERSONALIDADE
Para Jung, personalidade e/ou psique é a dinâmica de forças que vem do interior e avança para o exterior e
vice-versa, sendo considerada como uma entidade total. Um dos processos importantes de
desenvolvimento da personalidade é a individuação. Encontramos aí uma busca pelo singular e pela
diferença em relação ao grupal. O processo de individuação é complexo, difícil, com etapas e pressupõe
conflitos para se atingir uma integração e plenitude. Pressupõe a integração dos aspectos, consciente e
inconsciente, através do autoconhecimento e do encontro com o funcionamento arquetípico,
principalmente, com os arquétipos anima/animus, persona/sombra.
INDIVIDUAÇÃO
Significa tornar-se um ser único, incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si
mesmo. Pode ser também traduzida como “tornar-se si mesmo” ou “o realizar-se do si mesmo” (JUNG,
1978).
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 179
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O CONCEITO DE INCONSCIENTE COLETIVO E
ARQUÉTIPOS
Para falar do conceito de inconsciente coletivo, faz-se necessário estabelecer comparação com os
conceitos de consciência e inconsciente individual.
CONSCIÊNCIA
Pode ser definida como a possibilidade de acesso a uma série de elementos psíquicos, um fluxo contínuo
que se alterna indefinidamente; presença e ausência, interior e exterior, pelo qual teremos a possibilidade
de conhecer nossa essência e de nos tornarmos cientes de nossa personalidade. Nosso eu/ego e
consciência encontram-se intimamente associados.

INCONSCIENTE INDIVIDUAL OU PESSOAL
É entendido como o extrato mais básico e aparente, próximo à superfície, ou seja, o que já foi acessado
pela consciência. Refere-se à sorte de experiências pessoais adquiridas na interação com o mundo durante
sua existência. Nesse sentido, ele é único. É nesse inconsciente que podemos encontrar o fato gerador do
conflito, o que um dia quisemos esquecer, o que foi rejeitado/recalcado, experiências consideradas
traumáticas. Tudo aquilo que foi consciente e que da consciência foi subtraído – memórias, emoções,
dores, imagens – e que, portanto, não se tornou conciliável com meu eu, pertence ao inconsciente pessoal
e gera o que chamamos de complexos.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 180
Estes complexos têm uma energia psíquica e podem ser acionados por situações do cotidiano. São
agrupamentos de sensações, pensamentos e afetos que, ao serem ativados, reagem de forma vigorosa e
tendem a controlar o comportamento, a personalidade. Um complexo despertado domina pensamentos,
ações e comportamentos, e pode produzir sintomas. Muitas vezes, encontramos arquétipos associados aos
complexos.
Chegamos ao inconsciente coletivo, um conceito essencial da Psicologia Analítica. Caracteriza-se como
uma parte que se distingue do inconsciente individual, pois nunca fora consciente. Para entendê-lo, será
necessário conhecer alguns aspectos da Mitologia e Antropologia.
Define-se pelo herdado, inerente, pelo que há de mais primitivo e profundo na psique. É um depósito de
experiências universais, atemporal, de temas vividos em diferentes culturas e espaços por todos os
indivíduos. É, portanto, um conjunto de experiências de caráter repetitivo que recebemos de nossos
ancestrais e que moldam nossa forma de reagir e entender o mundo, geração após geração. Iremos
perceber essas imagens - registros simbólicos comuns - em cada um dos indivíduos.
SEGUNDO O DICIONÁRIO MICHAELIS, VERSÃO ON-LINE,
ARQUÉTIPO É UM “TIPO PRIMITIVO OU IDEAL; ORIGINAL
QUE SERVE DE MODELO; MODELO, O EXEMPLAR OU O
ORIGINAL DE UMA SÉRIE QUALQUER”.
NO DICIONÁRIO AURÉLIO, VERSÃO ON-LINE, “MODELO OU
PADRÃO PASSÍVEL DE SER REPRODUZIDO EM SIMULACROS
OU OBJETOS SEMELHANTES”.
Desde o nascimento, já se encontram impressas experiências significativas da humanidade que, servindo
de modelo, inclinam o indivíduo a pensar, pressupor e agir de forma semelhante, ou seja, um padrão pré-
formado de comportamento, independentemente do tempo e cultura. A estas predisposições inatas, Jung
deu o nome de arquétipos - uma série de símbolos e imagens universais representativas observadas no
comportamento. Os arquétipos podem ser encontrados em sonhos, fantasias, mitos.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 181
Existem diferentes arquétipos na mente humana, todos relacionados ao cotidiano da experiência e
existência do ser humano. Vamos exemplificar alguns deles, tais como self; animus e anima; a persona e a
sombra; a mãe e o herói.
SELF
Representa a integração, a totalidade da psique, o que inclui o consciente-inconsciente e os arquétipos.
Executa um trabalho de mediador e organizador das temáticas psíquicas. É o centro da totalidade.
ANIMUS E ANIMA
Essas duas imagens são, para Jung, “imagens da alma”. Consideradas representações inconscientes,
imagens psíquicas do que reconhecemos nas manifestações do masculino e feminino respectivamente.
Cada ser humano possui representações de ambos os arquétipos na sua psique, integrados em uma
constituição bissexual, andrógina. De acordo com o extrato biológico e o contexto cultural, observamos uma
diferenciação maior ou um predomínio de manifestações do masculino ou do feminino, no homem e na
mulher. Interessante lembrar que, nos relacionamentos afetivos, estas representações arquetípicas
cruzadas estarão presentes na construção do ideal de parceria para cada um dos envolvidos. Observe a
importância deste aspecto nas psicoterapias de casal.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 182
PERSONA E SOMBRA
São dois arquétipos que não se confrontam, mas são polos facilmente observáveis nas relações do dia a
dia. Persona é um conceito que apresenta interfaces do eu com a cultura. Mais precisamente, uma
negociação do eu/ego com as exigências da cultura no cumprimento de papéis sociais, sejam eles
familiares, pessoais e/ou sociais. É comum ser descrito como “a máscara social”, já que revela um sentido
de adaptação ao esperado socialmente. Portanto, persona é o que encenamos socialmente, como nos
mostramos nos diferentes espaços que frequentamos por meio dos diferentes papéis sociais – filho, aluno,
professor, profissional. Pertencer ao grupo social, se inter-relacionar, ser aceito, acarreta, muitas vezes,
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 183
submissão ao desejado socialmente. Essa perspectiva indica a direção do próximo conceito. Sombra é um
conceito que se refere a conteúdos inconscientes, nosso lado obscuro, recusado por nós – o abominável,
logo, temido. Organiza-se durante todo o desenvolvimento do indivíduo, pelossucessivos “nãos” recebidos
na tentativa de obtenção de aprovação social e pessoal. Trata-se de um aglomerado de frustrações,
atitudes, afetos e concepções que reconhecemos como inaceitáveis e que encaramos como um “limbo” da
psique, na esperança de mantê-los afastados, inclusive, de nós mesmos. A sombra nos revela a existência
de um outro dentro de nós, ameaçando-nos de dentro, arriscando a perda do amor e lugar ocupados na
sociedade. Contudo, quanto mais nos ocupamos em deixá-la fora de cena, por meio de diferentes
mecanismos de defesa, em busca de uma imagem idealizada, mais a sombra crescerá e mais ameaçará
nossa existência. A integração entre o que realmente somos e o que podemos atender ao outro é o
caminho da individuação e da saúde mental.
GRANDE MÃE
Ligada à representação da maternidade, com seus aspectos positivos e negativos. A energia da
maternagem é o que encontramos associado ao arquétipo. Você já visitou uma família com um recém-
nascido? Se sim, já deve ter experimentado esse fluxo energético no qual todos parecem envolvidos. Todos
que se aproximam deste bebê conectam-se com tal energia. O nascimento de uma criança coloca em jogo
este arquétipo; na verdade, a relação mãe-bebê faz emergir esta energia psíquica.
Desde o nascimento, construímos internamente essa imagem primordial a partir das vivências e relações
travadas com essa que nos gerou e com todos que se aproximam, a partir desta perspectiva energética. A
grande mãe pode ser caracterizada como aquela que dá a vida, nutre e cuida. Vários são os traços
essenciais definidos por Jung deste arquétipo. Seus atributos são o maternal: simplesmente, a mágica
autoridade do feminino; a sabedoria e a elevação espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida, o que
sustenta, o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade e alimento; o lugar da transformação
mágica, do renascimento; o instinto e o impulso favoráveis; o secreto, o oculto, o obscuro, o abissal, o
mundo dos mortos, o devorador, sedutor e venenoso, o apavorante e fatal (JUNG, 2002).
Encontramos nesta descrição dois lados desta grande mãe:
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 184
POSITIVO
A vida e a proteção
NEGATIVO
O engolfamento e a alienação.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 185
Através de Jung, podemos perceber que aquela que protege e acolhe pode também apresentar seu lado
castrador e aprisionante. Vida e morte!
Com o amadurecimento, esta imagem arquetípica será a base da forma como vivemos nossa autoestima,
nosso autocuidado, nossa capacidade de amar e cuidar do outro.
HERÓI
Tem como representação a imagem daquele que está disposto a lutar, defender e proteger o outro e o
mundo. Disponibiliza-se a desafios, enfrentamentos e missões que concedem sentido à sua vida. De
acordo com as experiências familiares e sociais, positivas ou negativas relativas a esse panorama, o
indivíduo poderá apresentar potencial e capacidade plena de conquistar mudanças e buscar seus objetivos,
ou encontraremos comportamentos negativos de insegurança, evitações e paralisações diante de desafios.
TIPOS PSICOLÓGICOS
Os tipos psicológicos, de maneira geral, podem ser descritos como introvertido e extrovertido, que são
absolutamente díspares e se distribuem sem distinção de classe, cor ou credo, o que demonstra sua
característica inconsciente. Desde o início do desenvolvimento infantil, já podemos observar a construção e
a dominância de um dos tipos.
Para comentar os tipos psicológicos, sempre é necessário destacar qual a sua conexão em relação ao
objeto, mundo externo, ou à própria subjetividade. Nesse sentido, veremos a direção da energia para o
exterior ou interior. Podemos identificar a existência de uma alternância entre os tipos em um mesmoTema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 186
indivíduo, mas encontraremos uma atitude prevalente. Ninguém se manifesta exclusivamente a partir de um
dos tipos.
EXTROVERTIDO
O tipo extrovertido tem sua ênfase no objetivado, no exterior, que assume vital importância. A sua força
determinante encontra-se no exterior, mais do que, no subjetivo, mais do que na sua própria ótica. Para
Jung, este tipo pensa, sente e atua diretamente em acordo com as relações objetivas e suas premissas.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 187
INTROVERTIDO
O tipo introvertido direciona sua atenção para seu mundo interno, sua subjetividade, priorizando seus
pensamentos e sentimentos, seus processos internos. Apesar de examinar o exterior, ocupando-se das
impressões que o objeto lhe causou, sua referência máxima encontra-se nas suas disposições subjetivas.
A partir destes tipos gerais, Jung formulou oito tipos ditos especiais, mais singulares, devido às tentativas
de adaptação a partir de seu funcionamento psicológico essencial.
Duas atitudes - extroversão e introversão - e quatro funções: pensamento, sentimento, sensação e
intuição. Cada uma destas funções, se conjugará com as atitudes. Desta forma, veremos, por exemplo,
tipos como: intuitivo extrovertido, pensativo introvertido, pensativo extrovertido, sentimental
introvertido etc.
A ATITUDE RELIGIOSA
Um outro ponto bastante importante da Psicologia Analítica refere-se ao pensamento sobre a religiosidade,
que não está atrelada à participação em algum tipo de religião. Desde sempre, Jung encontrava-se
conectado a este tema, pois era filho de um pastor protestante.
Jung aborda que todos os seres humanos possuem uma atitude religiosa que é fundamental para o
desenvolvimento da personalidade.
MAS, EFETIVAMENTE, DO QUE SE TRATA ESTA ATITUDE
RELIGIOSA?
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 188
Encontra-se associada a uma observação (consciente) zelosa de experiências vividas no mundo que,
entretanto, ultrapassam a objetividade. Estaríamos falando de situações que podem ser sentidas e
interpretadas como atravessamentos da materialidade, do real experimentado, tais como, sensações
espirituais, ideias e contatos com o divino e com o inominável etc. Talvez, venha daí a imagem de que Jung
era místico, pelo seu interesse no religioso. Contudo, a intenção de Jung era definir a atitude religiosa como
uma atitude mental, pertencente ao mundo da psique de todos os indivíduos. Mais do que isso, entendia a
atitude religiosa como uma possibilidade de reconciliação entre os elementos conscientes e inconscientes
da psique (Jung, 1977).
 RESPOSTA
Poderíamos vislumbrar no horizonte a ideia de um arquétipo?
Sim, claro! A imagem simbólica do divino e do sagrado encontra-se presente em todos os seres humanos.
Aquilo que é da ordem do implacável, do arrebatador, que excede qualquer compreensão consciente, com
morada no inconsciente, no desconhecido.
O LUGAR DOS SONHOS PRA JUNG
Falar em sonhos é falar em inconsciente. Foi a partir da leitura do trabalho de Freud A Interpretação dos
Sonhos (1900), que Jung se interessou pela Psicanálise. Apesar de seu interesse, observamos uma grande
divergência no método de interpretação adotado por cada um deles. A ideia de Freud de que todo sonho
encerraria a satisfação de um desejo infantil recalcado foi abolida por Jung, que apresentou uma nova
forma de entender os conteúdos oníricos. Segundo Jung, para interpretar um sonho não será buscada a
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 189
causa (como acontece com Freud), que aparece encoberta, e sim uma finalidade, uma prospecção, um
“para quê”.
O sonho é um indicador, uma mensagem a quem sonha. Falar em sonhos é estabelecer uma conexão com
o mundo inconsciente. Segundo Jung, encontramos nos sonhos toda uma simbologia bastante individual,
espontânea e sem disfarces ou defesas, uma expressão clara do inconsciente pessoal e coletivo. A
interpretação dos sonhos ocupa um lugar fundamental na terapia junguiana.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
MÓDULO 2
 Reconhecer os principais conceitos de Ferenczi colaborativos no aprofundamento da
Psicanálise
CONHECENDO SÁNDOR FERENCZI
Nascido na Hungria, Sándor Ferenczi (1873-1933) foi contemporâneode Freud. Médico formado pela
Universidade de Viena (1894), especializou-se mais tarde em Neurologia. Da primeira geração de
psicanalistas, foi um dos principais seguidores de Freud, muito interessado em divulgar a Psicanálise nos
meios médicos. Entrou em contato com o texto freudiano a partir de A Interpretação dos Sonhos (1900),
mas não demonstrou grande entusiasmo. Somente em 1908, fez seu primeiro contato direto com Freud,
que perdurou por muitas décadas, inclusive, com longa troca de correspondências, em uma relação que
exercia o papel de discípulo, fiel escudeiro e amigo. Após apresentação da conferência Psicanálise e
Pedagogia no I Congresso Internacional de Psicanálise em Salzburg (1908), escreveu um de seus
primeiros trabalhos mais importantes - Transferência e Introjeção (1909), que inspiraria os escritos da
posterior chamada Escola Kleiniana de Psicanálise.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 190
 Sándor Ferenczi
Participou ativamente do início do movimento psicanalítico com a produção de muitos trabalhos, com
originalidade e criatividade ímpares.
APESAR DE ESCREVER E CONTRIBUIR COM QUESTÕES
TEÓRICAS, SUA PREOCUPAÇÃO MAIOR EVIDENCIOU-SE NA
DIREÇÃO DA CLÍNICA, NA CONDUÇÃO DO PROCESSO
TERAPÊUTICO. OCUPADO EM ATENUAR O SOFRIMENTO
DOS SEUS PACIENTES BUSCOU ALTERNATIVAS CLÍNICAS,
FEZ NOVAS OBSERVAÇÕES NA PRÁTICA, SEMPRE COM O
OBJETIVO DE CUIDAR E CURAR.
Seus estudos e proposições encontravam respaldos em sua clínica, caracterizada por um olhar bastante
humano. Seu interesse teórico-clínico abarcava temas e atendimento relacionados a grupos marginalizados
pela sociedade, tais como pobres, prostitutas e homossexuais, além de casos como psicose, transtornos
limítrofes e outros considerados de difícil acesso ou de maior complexidade.
Vale mencionar que suas ideias ainda ficaram veladas por um longo período, mesmo admiradas por Freud
e com toda sua participação e criatividade em diferentes aspectos teórico-clínicos. Somente após sua morte
seus escritos passaram a ser mais amplamente propagados. Atualmente, Ferenczi é bastante estudado e
sua obra é profundamente explorada, sua influência é percebida em toda a prática analítica
contemporânea.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 191
PRINCIPAIS CONCEITOS
Apresentaremos agora alguns dos principais conceitos de Ferenczi: interação mente-corpo, mecanismo
de introjeção, transferência, trauma, empatia e técnica ativa.
Desde o início de seus trabalhos, havia o interesse em estabelecer uma observação da manifestação do
corpo, das doenças orgânicas como componente psíquico simbólico sobreposto. Em 1917, Ferenczi publica
As Patoneuroses que, em essência, aponta a estreita interação mente-corpo. Diante da existência de
doenças orgânicas, poderia ser observado um investimento libidinal dirigido a este órgão que acabaria por
gerar um distúrbio psíquico.
FERENCZI PRESSUPÕE QUE A ENFERMIDADE FÍSICA, AO
RECEBER ESSE INVESTIMENTO LIBIDINAL, EROTIZARIA A
PARTE DO CORPO ACOMETIDA E TERMINARIA POR SE
TRANSFORMAR EM UM LUGAR DE PRAZER SEXUAL. ASSIM,
O ADOECIMENTO FÍSICO DESENCADEARIA EM UM
ADOECIMENTO PSÍQUICO – A ORGANIZAÇÃO
PSICOSSOMÁTICA.
Entretanto, Ferenczi, já em 1926, em sua obra Neuroses de Órgão e seu Tratamento, nomeia como
neurose de órgão a ideia de influência direta do psiquismo, via erotização sobre o corpo. O que ele propõe,
apoiado em algumas ideias freudianas, é que uma região do corpo poderia assumir um papel sexual,
tornando-se uma zona erógena e comprometendo sua função original. A conclusão é que esta condição
acontece devido a alterações psíquicas da sexualidade. Todo seu empenho em discutir esta relação mente-
corpo foi fundamental para as pesquisas da Medicina no campo da Psicossomática.
Outro conceito muito importante é o de introjeção, introduzido na Psicanálise por Ferenczi que, como
outros conceitos, passou por aprimoramentos e acréscimos. O profícuo artigo Transferência e Introjeção
(1909) concebeu o conceito de introjeção referindo-o a uma inclusão no ego e uma posterior representação
de objetos exteriores. Podemos entender este conceito como um mecanismo típico da neurose, uma
tendência a introjetar objetos de interesse. Posteriormente, em 1912, ampliou esse conceito e o colocou
como característico de todo ser humano na construção das relações objetais e, nesse sentido, como um
movimento normal de desenvolvimento do ego e organizador da personalidade. Desta forma, passou da
posição autoerótica para aloerótica de relação com os objetos externos. Dois aspectos atuam nesse
mecanismo: posse amorosa de um objeto e a identificação narcísica com ele. O investimento libidinal
sobre os objetos para introjeção e construção do mundo interno a partir da identificação com ele, agora,
tornando-o si próprio.Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 192
 ATENÇÃO
Ferenczi fala de introjeção de um modo distinto da teoria kleiniana. Para ele, introjeção constitui-se em um
movimento de dentro para fora, em um lançamento da energia e captura de objetos.
Ferenczi começou a descrever o desenvolvimento do ego associado ao modelo de projeção. Desde seu
nascimento, o bebê é capaz de experimentar, mesmo que de forma rudimentar, sensações advindas do
mundo exterior e do mundo interior, entretanto, sem conseguir diferenciá-las. Gradualmente, ele atinge uma
percepção de que nem sempre seus desejos poderão ser imediatamente satisfeitos. Ferenczi fala de um
período inicial de onipotência do bebê, onde, através de seus gritos, agitação corporal e aparente
desespero, obtém, de acordo com a tradução que o adulto conseguir realizar, satisfação e prazer. Parece
mágica! Ele obteve satisfação através de si mesmo, mas o mundo se impõe, nem sempre conseguindo
atendê-lo. As sensações desagradáveis de desprazer tenderão a ser expulsas do mundo perceptivo do
bebê, para manter o agradável, o prazeroso. Nesses primeiros momentos, verificamos a vivência primária
de um dentro e um fora, um eu e um não-eu, mundo interno e mundo externo. Encontra-se inaugurada a
compreensão de uma realidade externa a ele. A partir daí, cada vez mais se torna claro o objetivo (real) e o
subjetivo (o que é do ego). Para o desenvolvimento desse ego e sentido de realidade, é necessário um
acolhimento por parte do outro, adulto.
A NOÇÃO DO TRAUMÁTICO
Nesse percurso, encontraremos sofrimentos muito primários associados ao que Ferenczi denominou
trauma. Ele desenvolve mais completamente este tema em seu artigo Confusão de língua entre os adultos
e a criança (1933). Apresenta uma distinção importante na linguagem infantil e na adulta capaz de gerar um
trauma. A criança se utiliza da linguagem da ternura e o adulto a linguagem da paixão para se relacionar
com o outro.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 193
A criança vivencia o mundo do brincar, do jogo e do faz de conta fantasioso, enquanto o adulto já se
encontra marcado pela sexualidade genital adulta e pelo recalque sexual. No encontro dos dois, não há
como a criança não ser mal interpretada, já que as linguagens e compreensão são diferentes. Ferenczi
reconhece a existência de um trauma nesta relação e o entende também como organizador e estruturante
da psique infantil. Submeter-se às regras do mundo adulto, que vão desde higiene a rotinas estabelecidas,
traz sofrimento à criança, que precisa se submeter. No entanto, o adulto pode invadir a criança, ou profanar
seu psiquismo, respondendo às suas demandas de uma forma passional, sedutora e abusadora, levando-a
a experiência de um evento sexual abusivo, em uma relação de poder, ou a experiência de um abandono,
sem que a criança consiga oferecer algum tipo de resistência. Este pode ser considerado um trauma
desestruturante.
Ferenczi fala de dois tempos do trauma. O primeiro é o choque pela invasão vivida, onde a criança atônita
busca alguém que possa ampará-la e ajudá-la a dar sentido ao vivido. O adulto envolvido (e o ambiente
adulto ao redor), ao não reconhecer ou ignorar o choque, na insistênciade enxergar como fantasia infantil
ou de silenciar diante do fato, coloca a criança diante de um desmentido. Este deslegitima sua alegação e
seu sofrimento. Sensações de desamparo e vazio passarão a ser vividos por esta criança, a partir daí,
totalmente silenciada, submetida ao que o outro lhe impõe. Diante de tal situação, o que vemos ocorrer é
um trauma patogênico e, posteriormente, a clivagem do ego, para tornar o fato traumático, apartado da
memória, sem possibilidade de entendimento. O trabalho analítico tentará alcançar as marcas deixadas por
eventos deste tipo, reorganizando conexões e novos ciclos.
CLIVAGEM DO EGO
“Processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um
certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica (...) Trata-seTema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 194
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aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada.” Fonte:
Dicionário de Psicanálise Laplanche e Pontalis.
MANEJO DA TRANSFERÊNCIA
Importante retornar ao artigo de 1909, onde Ferenczi estabelece uma relação entre os dois conceitos de
introjeção e transferência. Na relação terapêutica, o analista serviria como conexão para os despertados
impulsos e afetos infantis anteriormente introjetados – transferência. Esta só será possível a partir da
introjeção, em um redirecionamento da pulsão. Será a partir desse fenômeno que o analista trabalhará,
tentando alcançar a cura na identificação dos aspectos infantis relacionados.
PULSÃO
Conceito limite entre o psíquico e o somático, como representante psíquico dos estímulos que provêm do
interior do corpo e alcançam a psique, como medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em
consequência de sua relação com o corpo. Fonte: Netto e Cardoso, 2012.
O manejo da transferência pelo analista poderia levar à elaboração destes diferentes complexos infantis
inconscientes. Contudo, é necessário que o analista saiba dosar a tensão da interpretação dos conteúdos,
de acordo com a avaliação prévia do que o paciente é capaz de suportar. Nesse sentido, encontraremos os
aspectos de “sentir com” e do tato psicológico descritos em um dos textos mais importantes de Ferenczi, A
Elasticidade da Técnica (1928).
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 195
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Devemos chamar atenção ao fato de as concepções de transferência negativa e positiva terem sido
trazidas por Ferenczi e, depois, trabalhadas por Freud, ambos dirigidos para a figura do analista. Este
precisaria ser capaz de suportar tais afetos transferenciais em sua direção. Essas polaridades fariam parte
de toda relação terapêutica e ambas, positiva e negativa, deveriam ser levadas em consideração durante o
trabalho analítico no deciframento e entendimento destas forças inconscientes.
A noção de contratransferência mostra-se diferente da elaborada por Freud. Esta é definida não só como os
próprios sentimentos inconscientes do analista, mas como todo um conjunto de respostas emocionais
mobilizadas no analista, na relação com o paciente. Mas, se, para Freud, era vista como um obstáculo,
evidenciando a proposta de uma assepsia, de um controle em relação aos sentimentos e afetos do analista;
em Ferenczi, vemos a possibilidade do uso da sensibilidade da contratransferência como uma ferramenta
no trabalho clínico. Manter contato com o material do paciente, mas não se esquivar de realizá-lo com seus
sentimentos e afetos despertados nessa relação com o paciente. Ferenczi queria deixar claro que o analista
também seria capaz de trazer à tona sensações e emoções a partir da forma como acontecia esse encontro
analítico.
TRANSFERÊNCIA NEGATIVA
O aparecimento de afetos da ordem da raiva, ódio e hostilidade.
TRANSFERÊNCIA POSITIVA
O aparecimento de afetos da ordem do amor e da ternura.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 196
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Em toda sessão analítica, podemos evidenciar um fluxo de afetos em todas as direções que poderão se
prestar ao fazer analítico.
 ATENÇÃO
É importante lembrar que a possibilidade de fazer uso de seus aspectos contratransferenciais pressupõe
que o analista tenha passado por uma boa análise, reconhecida por Ferenczi como a segunda regra
fundamental da Psicanálise, ao passo que a primeira seria a associação livre.
A utilização dessa percepção e conhecimento no contexto da análise precisa ser cuidadosa e empática no
que diz respeito ao momento transferencial vivido pelo paciente. Esta habilidade retoma o que apontamos
acima: o “sentir com” e o tato psicológico. Segundo Ferenczi, esses aspectos são fundamentais para um
adequado manejo clínico do material durante as sessões. O “sentir com” pode ser relacionado a uma
capacidade empática, fator importante em qualquer trabalho terapêutico. A empatia pressupõe mais que
uma identificação com o outro, pressupõe uma sensação de estar tomado pelo outro. Somente assim, é
possível supor, de forma um pouco mais segura, algumas respostas emocionais do paciente ao que
venhamos comunicá-lo, agindo de forma mais responsável e ética. O tato psicológico, intimamente
relacionado “ao sentir com”, muitas vezes, é descrito como o que deve ser escolhido para ser dito, como
será dito e em que momento.
Importante entender que esta perspectiva se impõe a cada interpretação. No encontro analítico, todo
momento é único e todo paciente também.
UMA CLÍNICA PARA PACIENTES DIFÍCEIS
Precisamos lembrar que Ferenczi se dedicava a atender pacientes reconhecidos como mais difíceis e que,
devido a isto, com aspectos regressivos que demandavam mais cuidado ainda.
Alterações da posição do analista foram pensadas e suas ideias nos trouxeram a necessidade da
flexibilização da técnica, através do sentir com e do tato psicológico.
Essas alterações parecem ter sido pensadas a partir das necessidades de seus pacientes. Cada vez mais,
o aspecto relacional do encontro analítico era visto como importante e, de acordo com o paciente,
mudanças técnicas eram implementadas e aceitas com o objetivo de melhor alcançar processos
inconscientes e ajudar os pacientes.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 197
UMA CLÍNICA PARA PACIENTES DIFÍCEIS
VERIFICANDO O APRENDIZADO
MÓDULO 3
 Identificar a relevância dos estudos psicanalíticos na matriz de desenvolvimento humano mãe-
bebê a partir dos conceitos winnicottianos
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 198
CONHECENDO DONALD WOODS WINNICOTT
Donald Woods Winnicott nasceu na Grã-Bretanha em 1896 e faleceu em 1971. Iniciou seu curso de
Medicina próximo ao início da Primeira Guerra Mundial, colaborando em um Hospital Militar. Alistou-se à
Marinha e seguiu para o campo de batalha. Completou seu curso em 1920, na especialidade de Pediatria,
depois, especializou-se em Psiquiatria Infantil e Psicanálise. Atuou ativamente também na Segunda Guerra
Mundial através de programas para acolhimento de crianças separadas de seus pais pelo conflito.
 Ilustração Winnicott.
É importante entender que essas experiências foram fundamentais na criação da teoria de Winnicott, pois
lhe permitiram experienciar situações de traumas, sofrimento e abandono, que influenciaram suas ideias
profundamente e seu lado humano. Podemos considerar que Winnicott foi um dos principais e mais ricos
autores da contemporaneidade. Além disso, sofreu influências do pensamento de Ferenczi e sua teoria
demonstra grande preocupação com o desenvolvimento emocional precoce.
 SAIBA MAIS
Cabe destacar que seu encontro com a Psicanálise aconteceu após algumas leituras de textos freudianos e
kleinianos que o encantaram e determinaram sua disponibilidade para ser analisado e iniciar sua formação
analítica em 1927.
Winnicott não pode ser considerado nem seguidor nem dissidente da Psicanálise. Tornou-se parte de um
grupo inglês chamado Independente, que se afastava da concepção de pulsão e estrutura edipiana,
priorizandoa ideia de relações objetais. Winnicott, bem como seu grupo, não entendia o complexo edipiano
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 199
como o centro dos distúrbios psicopatológicos. Alguns autores costumam dizer que sua obra foi uma
redescrição, uma reformulação de vários conceitos propondo uma visão particular e original do psiquismo.
Uma das suas principais contribuições foi pensar as relações da díade mãe-bebê, o papel do cuidado
materno deste bebê, como essencial ao desenvolvimento mental e emocional humano. Outro aspecto
relevante foi o lugar destinado ao ambiente como facilitador ou complicador do desenvolvimento saudável,
podendo originar patologias e adoecimento. Winnicott entendia que todo ser humano traz consigo, desde
seu nascimento, possibilidades de amadurecimento e integração. Entretanto, só atingirá seus objetivos a
partir do investimento pleno da figura materna sobre ele.
Winnicott sempre se preocupou com a saúde psíquica das pessoas e considerava importante partilhar suas
ideias sobre a importância da relação mãe-bebê em seus primórdios. Além de escrever compulsivamente,
participou de vários programas de rádio, conferências, sempre com o objetivo de informar e disseminar os
conhecimentos e colaborar na construção de uma família e sociedade mais saudáveis.
CONCEITOS BÁSICOS DA TEORIA DE
WINNICOTT
Prosseguiremos agora trabalhando alguns dos conceitos mais importantes da teoria winnicottiana. São
eles: maternagem; preocupação materna primária; mãe suficientemente boa; estágios de
amadurecimento; objeto transicional; verdadeiro e falso self.
Uma das falas mais famosas e enfaticamente repetidas por Winicott e presentes na obra Da Pediatria à
Psicanálise é:
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 200
“NÃO EXISTE ESSA COISA CHAMADA BEBÊ (...) NÃO EXISTE
BEBÊ SEM MÃE NEM MÃE SEM BEBÊ”
(WINICOTT, 2000).
Reflete-se, portanto, sua ideia de que a existência do bebê se encontra atrelada aos investimentos
amorosos da mãe. Para que o bebê possa existir física e psicologicamente, faz-se necessário que alguém
exerça a função materna. Segundo o autor, a mãe seria a mais capacitada para tal.
A ATITUDE DE CUIDADO E ATENÇÃO PODE SER CHAMADA
DE MATERNAGEM. TODO BEBÊ AO NASCER APRESENTA UM
AGLOMERADO DE AFETOS, PULSÕES, IMAGENS E
SENSAÇÕES CORPORAIS QUE DESCONHECE E QUE SE
ENCONTRAM SEM UMA ORGANIZAÇÃO E REPRESENTAÇÃO.
POR MEIO DOS CUIDADOS E DO OLHAR MATERNO, A
CRIANÇA IRÁ SE INTEGRAR E DESENVOLVER.
Ser mãe é se oferecer, com toda a disponibilidade do seu ser, para cuidar de modo empático, participando
enquanto unidade com seu bebê, e colaborando para o seu crescimento. Será a partir desta sensação de
unidade, com características simbióticas, que ela será capaz de se colocar no lugar dele, identificando-se, e
perceber quais são as suas necessidades, dia após dia. Reconhecerá as sutilezas de suas solicitações, as
necessidades mais singulares em uma posição ativa de satisfação e acolhimento, sejam estas
necessidades de colo, acalanto, atenção, alimentação, toque, entre outras.
Podemos perceber a primitividade desta relação. Um bebê necessita da presença e cuidados maternos
para sua sobrevivência emocional, alguém (a mãe) que desenvolveu internamente uma condição
psicológica que Winnicott chamou de preocupação materna primária, desde os momentos iniciais da sua
gravidez e, continuamente, após os primeiros tempos do nascimento. A experiência deste estado é
fundamental, pois, através da mãe, como um espelho seu, sendo atendido nas suas necessidades, o bebê
vivencia um contexto favorável para o seu desenvolvimento. No cotidiano, a mãe renuncia às suas
motivações e se debruça ativamente sobre a existência do seu bebê, dando a ele a possibilidade de viver,
existir e se integrar. Tudo isso no ritmo próprio do bebê.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 201
Percebam a importância deste vínculo! Disponibiliza-se, torna-se unidade com seu bebê, troca carícias e
cuidados, percebe e atende suas faltas, reflete o que experimenta dele empaticamente, colabora na
sensação de sua existência e na conexão com suas sensações corporais e representações psíquicas de si-
mesmo, integrando-as. Nos primeiros meses, esta interação é estruturante do psiquismo. É o momento do
eu sou.
FUNÇÕES DA MATERNAGEM E DESENVOLVIMENTO
DO SELF
Dentro deste contexto, Winnicott apresenta sua ideia de uma mãe suficientemente boa. Aquela capaz de,
por meio de sua sintonia, identificar e atender às necessidades do bebê na medida em que fluam e a partir
do ponto de vista dele. O bebê, inicialmente, não se reconhece e não reconhece essa mãe.
Gradativamente, nesta relação tão delicada, através de contatos corporais e de todos os sentidos (cheiros,
olhares, mamadas, contornos do corpo), ele passará a se integrar, perceber a si mesmo, reconhecê-la e a
conhecer o ambiente no qual está inserido. Neste caminho, irá se diferenciar da mãe e alcançar o
reconhecimento do seu eu. Durante este processo de maternagem efetuado, podemos distinguir,
basicamente, três funções: holding, handling e apresentação dos objetos. A essas três funções, podemos
juntar, respectivamente, as tarefas de integração do eu, personalização e relação com objetos e com o
mundo.
HOLDING (DO INGLÊS, “SEGURANDO”)
Refere-se, portanto, à possibilidade desta mãe de manter este bebê de forma adequada no seu colo.
Repare que, nesse sentido, estamos falando de um duplo aspecto – físico e psicológico. O segurar, a
pegada materna que o leva a viver a segurança, confiar, sentir-se amparado. A partir daí, inicia-se sua
integração, sentir-se unidade, sentir-se uno através do tempo, a continuidade do ser.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 202
HANDLING (DO INGLÊS, “MANIPULAÇÃO”)
Consiste na execução dos cuidados diários. Enquanto realiza esses cuidados, de limpeza, banho, vestir,
cantarolar, acomodar no berço, envolver nos braços, a mãe manuseia seu bebê, desliza as mãos por seu
corpo proporcionando-o as sensações de limites e de contornos desse corpo. Em uma verdadeira
experiência psicossomática, este bebê consegue ser capaz de reconhecer seu espaço corporal, o mundo
interno e externo. Essa percepção do seu corpo nomeamos de personalização, o desvelamento do self.
APRESENTAÇÃO DOS OBJETOS
Seguindo o movimento de amadurecimento, a mãe agora inicia o processo de apresentação dos objetos,
do mundo externo, da realidade ao bebê. Tal processo é fundamental para sua capacidade de relacionar
com os objetos durante toda a sua vida. A cada sucessiva apresentação de objetos da realidade, a mãe vai
se mostrando substituível. Em acordo com as necessidades de seu bebê, percebidas por ela, os objetos seTema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 203
presentificam. Interessante notar que o próprio bebê está pronto para receber o que é apresentado,
essencialmente, por sua mãe encontrar-se em consonância com suas necessidades. Sob o ponto de vista
do bebê, ele mesmo foi capaz de engendrar ou criar o objeto. Estamos diante da relação entre criação e
experiência de onipotência, viabilizada pela figura materna e vivida pelo bebê.
A ilusão de ser responsável pela criação dos objetos e do mundo se torna presente. É claro que, com
sucessivas falhas (empáticas) da mãe e do mundo, o bebê passará a perceber que existe algo para além
dele e que tem vida própria – e se desilude. A desilusão é fundamental, pois dará a esse bebê a percepção
de que suas satisfações poderão acontecer, mas não na imediatez do seu desejo. Aqui, estamos diante da
aprendizagem primária das relações entre o princípio do prazer e da realidade, dois modos de
funcionamento descritos por Freud.
Todas estas funções estão acontecendo nos primeiros momentos da maturação do bebê. Podemos dizer
que falhas graves nestes processos podem ser geradoras de patologia. Encontraremos algumas etapas
descritas deste processo de amadurecimento:
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 204
DEPENDÊNCIA ABSOLUTA
Primeiro estágio do desenvolvimento e aconteceaproximadamente de 0 aos 4/6 meses de idade. É um
estágio de indiferenciação do bebê em relação ao mundo e à sua mãe. Nos meses iniciais de seu
nascimento, encontra-se em situação de simbiose e unidade com a figura materna, dependendo, de modo
vital, de que o outro atenda às suas necessidades. O estado de preocupação materna primária da mãe e as
funções encontradas e executadas asseguram as condições do bebê de seguir maturando.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 205
DEPENDÊNCIA RELATIVA
Estágio é vivido em torno de 6 meses a 2 anos. Por meio da experiência anterior de um ambiente (mãe)
confiável, o bebê agora já conseguiu um self incipiente, ou seja, distinguir entre o eu-não-eu e reconhecer
mentalmente a existência desta mãe como aquela de quem depende. Agora, sim, um “eu” bebê inicia a
manifestação de suas necessidades como próprias. Paralelo a isso, sua mãe “suficiente” começa a
restabelecer suas relações com o mundo e as falhas se inauguram de forma mais perceptiva. A equação
frustração-separação-existência pessoal vai sendo vivida mais claramente pelo bebê, que rumará para a
independência. Aqui, veremos o aparecimento dos objetos transicionais, que falaremos mais adiante.
RUMO À INDEPENDÊNCIA
Em um contínuo de explorações de si mesmo e do ambiente, de frustrações e percepções da realidade,
aprendizagens acontecem e o desenvolvimento da capacidade de se relacionar com os objetos pode ser
aprimorado. Cada vez mais se ampliam seus relacionamentos, cada vez mais complexos, durante todo o
restante da vida.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 206
IMPORTÂNCIA DO BRINCAR NA TEORIA DE
WINNICOTT
VERDADEIRO E FALSO SELF
Na exposição anterior, deixamos claro que, durante o processo de amadurecimento do bebê, o ambiente e
a mãe possuem papel fundamental para colocar em andamento a estruturação da psique. A mãe
suficientemente boa adapta-se às necessidades da criança, promovendo sua satisfação. Esta mãe faz a
leitura das manifestações do bebê e viabiliza nesse encontro a manifestação deste self verdadeiro, do ser e
de suas peculiaridades. Além disso, cumpre a função de evitar que o bebê seja invadido por pressões ou
excessos vindos do meio ambiente.
E se a mãe não constrói essa capacidade de se preocupar, de ser empática e falha na sua função de
cuidado e proteção? Um recém-nascido encontra-se ainda não integrado, fragilizado e impotente diante do
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 207
mundo. Apesar de possuir uma tendência ao crescimento, precisa de um outro que o ajude a se organizar
internamente.
WINNICOTT (1983) AFIRMA QUE, DIANTE DE TAL FALHA, O
BEBÊ, AO INVÉS DE ALCANÇAR “SER”, REAGE E SE
MANIFESTA ATRAVÉS DE UM FALSO SELF. ISTO É, AO INVÉS
DA MÃE SE ACOMODAR ÀS NECESSIDADES DO SEU BEBÊ,
SERÁ ELE QUEM SE SUBMETERÁ ÀS INCAPACIDADES E
NECESSIDADES DELA.
A falha materna é passível de ocorrer. Nesse sentido, a ideia de um falso self aparecerá ao lado de um self
verdadeiro, ligados e se alternando. Esta perspectiva é facilmente exemplificada no mundo adulto e nas
diversas demandas de adaptação social pelas quais passamos.
Uma falha grave da adaptação ativa por parte da mãe poderia levar a um quadro patológico. No início da
vida, o trauma vivido pelos sucessivos ataques ao eu rudimentar levaria a uma prevalência do falso self e
um encobrimento do verdadeiro self. Aparentemente, é um mecanismo defensivo para salvaguardar o
próprio self verdadeiro para posterior aparecimento.
No trabalho clínico, verificamos diferentes manifestações desse tipo de falha, em graus variados, originando
adoecimentos, tais como depressões e personalidades borderline.
Vale ressaltar que Winnicott não esqueceu a importância da figura paterna no percurso de amadurecimento
do bebê. Principalmente no início desta relação, o pai precisa dar apoio e condições para que esta mãe
cumpra sua função. Será necessário proteger esta díade, oferecendo segurança e impedindo qualquer tipo
de invasão ou violência à dupla.
BORDERLINE
Personalidade borderline ou personalidade limítrofe: Apesar de não haver consenso sobre suas causas,
envolve sintomas como instabilidade emocional, sensação de inutilidade, insegurança, impulsividade e
relações sociais prejudicadas.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 208
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MÓDULO 4
 Descrever os principais conceitos lacanianos como a releitura da obra freudiana
CONHECENDO JACQUES LACAN
Jacques Lacan nasceu em Paris, em 1901 e faleceu em 1981. Cursou Medicina na década de 20,
especializando-se posteriormente em Neurologia e Psiquiatria. Durante a década de 30 também realizou
estudos na área de Filosofia e clinicou em Psiquiatria no Hospital Psiquiátrico.
Somente após iniciar sua análise pessoal, em 1932, teve contato com a Psicanálise, com os psicanalistas e
com a IPA (Associação Internacional de Psicanálise - 1910). Este contato ocorreu em um momento em que
o Movimento Psicanalítico já havia alcançado um longo percurso (década de 20). Várias discussões já
vinham sendo travadas, desde as questões teóricas e práticas até a importância do ensino da Psicanálise e
da formação do analista.
Freud encontrava-se empenhado em discutir, junto aos seus discípulos e instituições, sobre os requisitos
mínimos, importantes para a formação do analista – análise pessoal, ensino teórico e supervisão
clínica. A análise pessoal deveria ser feita com um analista didata. Estava definido o tripé da formação
analítica que orientaria toda a comunidade psicanalítica. No entanto, no decorrer do tempo, este modelo foi
se tornando mais rígido e autoritário, com maiores exigências e controle excessivo.
Durante seu processo analítico, Lacan iniciou (1934) sua participação na Sociedade Psicanalítica de Paris
(SPP), da qual se tornou membro em 1938. Sua formação aconteceu dentro do modelo tradicional. Havia
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 209
terminado sua tese de doutorado sobre a paranoia em 1932, obtendo grande repercussão pelas suas
ideias.
Em 1936, apresentou o trabalho Estádio do Espelho, no XIV Congresso Internacional de Psicanálise, em
Marienbad, inspirado em ideias de Wallon sobre representação do esquema corporal na criança. Este
trabalho se mostrou revolucionário e posteriormente foi aprofundado.
Desde sua filiação à SSP, trabalhava seriamente, tanto na produção de novos textos, divulgando e
discutindo a Psicanálise, como também no ensino e formação dos futuros analistas. Por outro lado, desde
que integrou o quadro da SSP, passou a apontar uma série de divergências quanto à rigidez das
Instituições Psicanalíticas e sua forma de condução do processo formativo de um analista.
Em 1953, rompeu com a SSP e abraçou uma nova escola, a Sociedade Francesa de Psicanálise, fundada
por dissidência de diferentes psicanalistas.
Em 1964, Lacan, após romper com a IPA (Associação Internacional de Psicanálise) e com todos os
regulamentos institucionais, criou um modelo de transmissão e formação analítica com a fundação da
Escola Francesa de Psicanálise.
Lacan pode ser considerado um grande renovador, um progressista da Psicanálise. Retornou à obra de
Freud, repleto de contribuições e singularidades. O inconsciente assumiu um lugar privilegiado em sua
obra.
SEGUIDOR OU DISSIDENTE?
O que realmente importa é sua contribuição, um tanto original, de imenso valor e que possui um lugar
primordial na Psicanálise contemporânea.
Selecionamos um conjunto de novas ideias lacanianas que levarão você a uma introdução à obra. Das
ideias originais, nos encontraremos com: o estágio do espelho; o entendimento do inconsciente estruturado
como linguagem; e as categorias conceituais real, simbólico e imaginário. Quanto aos aspectos técnicos e
clínicos: sujeito suposto saber; desejo do psicanalista; tempo variável de sessão; corte de sessão com o
tempo lógico.
ESTÁGIO DO ESPELHO E A FORMAÇÃO DO EU
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 210
Esse período fundamental do desenvolvimentomental infantil tem sua ocorrência entre 6 e 18 meses,
aproximadamente.
Conforme apontado acima, o conceito surgiu em uma conferência em 1936 e passou por alguns
desdobramentos até 1949. A elaboração inicial baseou-se, principalmente, nas descrições feitas por Wallon
sobre o comportamento infantil diante da percepção de sua própria imagem no espelho. Diferentemente da
direção investigada por Wallon, Lacan ocupou-se do percurso que a criança irá fazer, a partir da relação de
identificação estabelecida com a imagem e o significado deste aspecto na estruturação de seu eu. A partir
de seu reconhecimento na imagem do espelho, e do prazer e contentamento esboçados através da
identificação de seu corpo em integração com seu eu, encontramos o início da formação de uma
identidade.
O bebê, logo quando do seu nascimento, não possui a experiência de um corpo em unidade, mas um
amontoado de partes, sem reconhecer um mundo externo. Posteriormente, já é capaz de se perceber ao
olhar para o espelho; o reflexo lhe oferece uma imagem do corpo para que ele, integrando-se, viva como
sendo seu eu. Uma imagem que “fala” dele, um reflexo do eu. Reparem que a experiência de um corpo
integrado, um eu, é apreendida a partir de uma imagem refletida.
Nesse sentido, Lacan aponta a ideia de um eu-ego-imaginário, e do momento inaugural da constituição da
subjetividade. Este eu mesmo identificado é anunciado por Lacan como desvirtuado por, ao menos, dois
motivos: a inversão da imagem e a identificação com algo que vem de fora.
Reconheço-me a partir de uma imagem que entendo como sendo eu mesmo, mas que vem de fora, por um
outro (o espelho), que confirma minha existência. Ou seja, a constituição do eu é processada por um
engano, liberto da não integração, mas aprisionado ao outro.
 SAIBA MAIS
O outro não diz respeito somente à imagem do espelho, pode ser entendido também como o olhar da mãe,
a fala da mãe, etc.Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 211
Lacan nos leva a pensar em uma alienação do eu ao olhar do outro que me constitui. Durante o
crescimento e amadurecimento do bebê, o outro (mãe, pai, etc.) representa seu bebê ao lhe falar sobre o
seu sentir, sobre como ele é e o que perceber, inserindo-o em um discurso projetado por este adulto-outro.
Um conjunto de sentidos lhe é atribuído e, imaturo e desamparado, cede a esse outro. Percebemos a
fazedura de um sujeito a partir do olhar e da fala do outro. Esse outro é o próprio espelho. Prosseguirão
assim bebê e mãe, formando uma dupla inseparável e, essencialmente, o bebê estará amalgamado e
colado a essa mãe. Se este bebê é o que a mãe interpreta e projeta, ele é o próprio desejo desta mãe.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 212
Um longo caminho ainda será trilhado por esse bebê, que precisará se separar dessa mãe (ou de um outro
que cumpra tal função) em busca de seu próprio desejo, desalienando-se, tornando-se sujeito desejante,
como diria Lacan.
O momento da vivência edipiana possibilitará a chance da conclusão do estádio do espelho. A figura
paterna será crucial neste processo, pois agirá como interditora desta relação. Indicará para a criança a
impossibilidade de continuar vivendo a ilusão de uma completude com a figura materna. O pai frustrará esta
criança na satisfação de seu desejo, levando-o a viver um vazio, a falta. Primeiro, a completude
(imaginária) e depois, a falta (simbólica). Estamos falando da experiência edipiana e da vivência da
castração, momento estruturante do sujeito. Somente a partir desta experiência ela poderá iniciar um
movimento desejante e ocupar um lugar no mundo social.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 213
REGISTROS IMAGINÁRIO, SIMBÓLICO E REAL
A apresentação desses conceitos de forma separada tem fins puramente didáticos, pois os três funcionam
absolutamente interligados e articulados. Um trânsito intenso ocorre entre estas três categorias.
Segundo o Dicionário de Psicanálise de Roudinesco e Plon (1988), imaginário é:
TERMO DERIVADO DO LATIM IMAGO (IMAGEM)... AQUILO
QUE SE RELACIONA COM A IMAGINAÇÃO, ISTO É, COM A
FACULDADE DE REPRESENTAR COISAS EM PENSAMENTO,
INDEPENDENTEMENTE DA REALIDADE. UTILIZADO POR
JACQUES LACAN A PARTIR DE 1936, O TERMO É
CORRELATO DA EXPRESSÃO ESTÁDIO DO ESPELHO E
DESIGNA UMA RELAÇÃO DUAL COM A IMAGEM DO
SEMELHANTE. ASSOCIADO AO REAL E AO SIMBÓLICO NO
ÂMBITO DE UMA TÓPICA, A PARTIR DE 1953, O IMAGINÁRIO
SE DEFINE, NO SENTIDO LACANIANO, COMO O LUGAR DO
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 214
EU POR EXCELÊNCIA, COM SEUS FENÔMENOS DE ILUSÃO,
CAPTAÇÃO E CILADA. (P. 371).
A associação direta deste registro imaginário com o eu/ego foi claramente indicada acima pela
descrição das relações de projeção, de identificação e reconhecimento do outro sobre mim. A forma como
eu entendo o mundo encontra-se associada ao imaginário. Ele pode ser entendido como aquilo que eu
interpreto sobre o outro e sobre o mundo, como se o eu tivesse total conhecimento desse outro, como se
fossemos um só, não percebendo a existência de possíveis diferenças – projeção e identificação.
No Dicionário de Psicanálise, Roudinesco e Plon (1988), o simbólico é:
TERMO EXTRAÍDO DA ANTROPOLOGIA PARA DESIGNAR UM
SISTEMA DE REPRESENTAÇÃO BASEADO NA LINGUAGEM,
ISTO É, EM SIGNOS E SIGNIFICAÇÕES QUE DETERMINAM O
SUJEITO À SUA REVELIA, PERMITINDO-LHE REFERIR-SE A
ELE, CONSCIENTE E INCONSCIENTEMENTE, AO EXERCER
SUA FACULDADE DE SIMBOLIZAÇÃO. (P. 714).
Lacan faz uma associação direta do simbólico com a linguagem, como a possibilidade de organização de
tudo que ocorre com o sujeito, em particular, e com o mundo. Falar no registro do simbólico é acessar o que
é da ordem da representação, ou seja, representa, mas não é.
Existe uma coisa colocada no lugar de outra. Vamos novamente a um exemplo: quando, em um sonho,
relato meu encontro com um amigo, mas a fisionomia que aparece é de minha tia, podemos perguntar qual
sentido faz isso para aquele que sonha. Na verdade, o sistema simbólico não tem uma significação por si
mesmo, mas pelas relações que apresenta com o conjunto.
O SIMBÓLICO NÃO É LINEAR, ELE É MÚLTIPLO!
E O REAL?
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 215
Antes de mais nada, cabe dizer que o real de Lacan não tem correlação com o que chamamos de
realidade, ou aquilo que experienciamos e no senso comum assim chamamos. Roudinesco (1988) o trata
como uma realidade fenomênica que é imanente à representação e impossível de simbolizar.
O real é aquilo que não tem unidade, é o imprevisível, tudo aquilo que não tem lugar. A impossibilidade de
simbolização é a marca do real. Ele não se encaixa no simbólico e nem no imaginário; é o impensável, o
impossível de representar, o traumático, o que não consegue ser dito, o típico “sem palavras” e que, de
repente, se impõe. Atravessando o ser em um momento de angústia, aparece e não se faz choro, grito ou
fala. É o inexpressivo, uma angústia que paralisa, sem sentido. Aquelas situações que costumamos traduzir
como “não tenho palavras para dizer”, “não consigo dar um sentido”, “nem parece real”, aproximam-se do
que Lacan denomina de real.
REGISTROS SIMBÓLICO, IMAGINÁRIO E REAL
INCONSCIENTE ESTRUTURADO COMO UMA
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 216
LINGUAGEM
Em 1953, Lacan faz uma proposta bastante diferenciada de Freud em relação ao que entende por
inconsciente. Essa ideia foi baseada nas proposições de Lévi-Strauss e outros, tais como Saussure, com
seu estruturalismo, que enfatizava a função simbólica como reguladora de todos os fatos e relações sociais.
Claro que a linguagem, o discurso, sempre foi importante para Freud, - basta lembrar que a psicanálise
tinha como método a talking cure, cura pela fala. Também basta recorrer a alguns textos famosos, tais
como Psicopatologia da vida cotidiana (1966) e A Interpretação dos sonhos (1900) para entender a
multiplicidade de sentidos de uma única palavra, ou imagem, ou lembrança.
No entanto, Lacan, influenciado pelos estruturalistas e linguistas,produz uma entorse na relação entre
significado e significante, introduzindo uma nova perspectiva do inconsciente. Estes conceitos podem ser
assim entendidos na linguística de Saussure: significado de maior valor é o que se refere ao conceito, à
ideia em si; significante alude a uma representação da imagem psíquica do som, do nome atribuído ao
conceito.
Encontram-se em íntima relação de interdependência, onde, para cada significado, existe um significante
que o representa, o que remete à ideia de imobilidade ou automatismo de sentido.
O deslocamento apresentado por Lacan refere-se à importância na organização da vida psíquica. A relação
entre os dois elementos deixa de ser natural e passa a ser entendida como engendrada pelo grupo social.
Quando falamos algo, o significado só consegue ser dado no depois, após a finalização do expressado e
captura das correlações entre os significantes. Vale insistir que um significante por si mesmo não tem
significado, mas será na relação em cadeia que se chegará a um sentido. Nesse sentido, os significantes
se apresentam para, em seguida, o significado ser apreendido.
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 217
O significante é capaz de produzir significado. O significante ganha, na leitura lacaniana, o lugar
central. Será buscando por ele, nas articulações e encadeamentos da fala, em uma palavra entreposta ou
colocada no lugar de outra, em um neologismo, que chegaremos o mais próximo do desejo. A utilização de
metáforas (condensação) e metonímias (deslocamento) no discurso, ou ainda o aparecimento de sonhos e
lapsos, revela o inconsciente. Podemos dizer que o inconsciente estrutura-se seguindo as mesmas leis da
linguagem.
Lacan entendia que através da regra fundamental da associação livre seria possível se deparar com as
manifestações do inconsciente e perceber as substituições sucessivas.
As contribuições inovadoras de Lacan também tiveram efeito na prática do psicanalista. Indagações foram
realizadas sobre a posição que o analista deveria assumir durante um processo analítico.
UMA DAS PRINCIPAIS QUESTÕES REFERE-SE AO DESEJO
DO ANALISTA EM RELAÇÃO AO ANALISANDO. LACAN É
MUITO CLARO AO AFIRMAR QUE O ÚNICO DESEJO DO
ANALISTA DEVE SER O DE ANÁLISE. O ANALISTA NÃO DEVE
DESEJAR NADA PARA SEU ANALISANDO, TAL COMO QUE
ELE CONSIGA SER FELIZ OU QUE ENCONTRE UM CAMINHO
MELHOR, POR EXEMPLO, E MUITO MENOS IMAGINAR QUE
ELE SABE O QUE É MELHOR PARA SEU ANALISANDO.
Claro que o analisando, ao procurar um analista, em um momento inicial de transferência, acredita que este
saberá o que se passa com ele, saberá sobre o seu sofrimento e como extirpá-lo, curá-lo. Só se inicia um
tratamento se o futuro analisando transfere para esse analista a posição de saber de si e de sua verdade.
Fazendo parte desta relação, na direção do analista, encontramos movimentos transferenciais e deTema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 218
idealização. No entanto, o analista deve estar analisado o suficiente para não ceder a esta tentação
imaginária. Precisa permitir que o analisando assim o veja, mas não assumirá tal posição, não cometerá o
engano de se sentir possuidor de tal saber. Ao contrário, ciente de que nada sabe, não responderá ao
desígnio que lhe foi dado, e irá ocupar um lugar de vazio, impulsionando o analisando, através desse
encontro com a falta, para a busca de seu próprio desejo. Irá trabalhar constituindo-se como “sujeito
suposto saber”, diria Lacan.
Nesse sentido, caminha com o analisando, aprendendo com ele, no compasso dado por ele, atravessando
seu sofrimento e seguindo na direção da cura. A prática analítica se caracteriza pela construção de um
saber junto com o analisando que associa livremente.
Outra consideração importante a ser feita remete-se à duração do tratamento e o tempo da sessão.
Podemos lembrar facilmente das inúmeras vezes que um analista recebe a pergunta:
Quanto tempo vai demorar para ficar bom? Quanto tempo vai durar o tratamento?
Questões com uma única resposta – associe livremente. Durante esse associar, o analisando vai se
encontrando com suas questões e com a dureza desse caminhar, sem tempo previamente determinado.
Cada um é cada um e o analista sabe disso. Portanto, não existe uma única jornada, existem jornadas
singulares.
Freud mencionava a existência de uma atemporalidade do inconsciente, revelando que a passagem do
tempo não ocorre no inconsciente, onde as representações não se importam com passado, presente e
futuro, ligando-se e se misturando ao seu livre arbítrio. Na análise, seria necessário, pela via da
transferência, indagar um tempo de antes vivido no agora.
Vivemos mais diretamente o tempo cronológico, o desenrolar dos fatos e acontecimentos, os dias, as
estações do ano, horário do recreio na escola e assim sucessivamente. É o tempo da realidade e da
história. O tempo psicológico tem um aspecto mais subjetivo, individual, referindo-se a como é sentida a
passagem do tempo, como o evento é vivido pelo sujeito. Se quisermos exemplificar, podemos imaginar
que a Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, um fato histórico, mas a descrição dada por um ex-
combatente é a de que a Guerra parecia nunca terminar.
PRÁTICA DO ANALISTA E TEMPO LÓGICO
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 219
O tempo lógico é descrito por Lacan como um recurso no trabalho com o discurso do analisando, já que é
preciso estar atento ao funcionar do inconsciente. O tempo da análise é o tempo do inconsciente. A
Psicanálise trabalha com a fala do paciente, mais precisamente, com o desenrolar desta fala. Ou seja,
como o sujeito encadeia suas palavras, como organiza sua história contada, como ordena os fatos
relatados, ou como o sujeito desenrola a cadeia de significantes e as infinitas possibilidades de sentido.
O analista precisa escutar esta cadeia, esta organização, qual lógica está se evidenciando e será capaz de
intervir, interrompendo e sinalizando um significante repleto de novos caminhos, muito adiante de um
sentido convencional e social. Para realizar tal façanha, será necessário se desligar do tempo cronológico,
das historinhas contadas e, em atenção flutuante, encontrar o que precisa ser entendido e associado.
O tempo lógico que pode ser associado à intervenção que interrompe a sessão revela uma escuta do
analista de algo que, possivelmente, o analisando não escutou. Será que ele escutou o que disse? Afinal, o
que está sendo dito?
 ATENÇÃO
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 220
Cumpre-se a função de analista, interferindo em um discurso para realizar uma abertura à reflexão.
Interrogar sobre as histórias contadas, criando uma dúvida no sentido apresentado como óbvio e levando
um sujeito a refletir sobre qual verdade ele fala.
Interromper (o corte) a sessão sob os auspícios da escuta do tempo lógico, produz uma tarefa, um “dever
de casa”. Quando se interrompe a sessão, incita-se ao sujeito a ir trabalhar para além da sessão analítica.
Aliás, já sabemos que o inconsciente não para e o trabalho psíquico está sempre a acontecer em todos os
cantos do mundo pessoal e particular.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Percorremos um pouco da história do Movimento Psicanalítico a partir de alguns importantes autores da
Psicanálise, tais como Jung, Ferenczi, Winnicott e Lacan. Conhecemos os principais conceitos que
aprofundaram ou se distanciaram daqueles criados pelo pai da Psicanálise - Freud - e assim, conseguimos
perceber os seguidores e dissidentes. Através da apresentação de seus conceitos, indicamos os caminhos
teórico-clínicos tomados pela Psicanálise até a contemporaneidade.
 PODCAST
AVALIAÇÃO DO TEMA:
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 221
REFERÊNCIAS
FERENCZI, S. A técnica psicanalítica. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
FERENCZI, S. As neuroses de órgão e seu tratamento. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
FERENCZI, S. As patoneuroses. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
FERENCZI, S. Elasticidade da técnica psicanalítica.São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
FERENCZI, S. Psicanálise II. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
FERENCZI, S. Psicanálise III. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
FERENCZI, S. Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
FERENCZI, S. Transferência e introjeção. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
HILLMAN, J. Psicologia arquetípica. São Paulo: Cultrix, 1992.
JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1978.
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.
JUNG, C. G. Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.
KAHTUNI, H. C.; SANCHES, G. P. Dicionário do pensamento de Sandór Ferenczi. São Paulo: FAPESP,
2009.
LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LACAN, J. O Seminário - Livro 1: Os Escritos Técnicos de Freud. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1983.
LACAN, J. Seminário 11 - Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 2008.
WINNICOTT, D. W. A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WINNICOTT, D. W. Preocupação materna primária. In: Da pediatria à Psicanálise. Obras escolhidas. Rio
de Janeiro: Imago, 2000.
EXPLORE+
Para saber mais sobre os assuntos explorados neste tema, leia:Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 222
Freud, Jung e o Homem dos Lobos: percalços da psicanálise aplicada, publicado por Paulo Endo, na
Revista Ágora em 2001, e saiba mais sobre as concepções de Jung e Freud.
O lugar do analista e do analisando em Ferenczi, publicado em 2015, no Jornal da Psicanálise, e
entenda os papéis, funções, fraquezas e potências do analisando e do analista sob a perspectiva da
obra ferencziana.
De Freud a Winnicott: aspectos de uma mudança paradigmática, de Zeljko Loparic, publicado pela
Revista Winnicott e-prints, e conheça mais sobre os resultados das pesquisas de Winnicott e como
elas contribuíram para o desenvolvimento do conhecimento psicanalítico.
CONTEUDISTA
Teresinha Maria Nicolini da Fonseca Anciães
 CURRÍCULO LATTES
Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud 223
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Plano de Ensino
1 Código e nome da disciplina
ARA1532 AS TEORIAS PSICANALÍTICAS
2 Carga horária semestral
80
3 Carga horária semanal
4h
4 Perfil docente
O docente deve ser graduado em Psicologia ou áreas afins e possuir Pós­Graduação Lato Sensu
(especialização) em Teoria Psicanalítica, embora seja desejável a Pós­Graduação Stricto Sensu
(Mestrado e/ou Doutorado) na área do curso ou áreas afins. 
Recomenda­se que o docente possua experiência na área de Psicanálise além de conhecimentos
teóricos e práticos, habilidades de comunicação em ambiente acadêmico, capacidade de interação e
fluência digital para utilizar ferramentas necessárias ao desenvolvimento do processo de ensino­
aprendizagem (SGC, SAVA, BdQ e SIA). Importante, também, o conhecimento do Projeto Pedagógico
dos Cursos que a disciplina faz parte na Matriz Curricular.
É necessário que o docente domine as metodologias ativas inerentes à educação por competências e
ferramentas digitais que tornam a sala de aula mais interativa. A articulação entre teoria e prática deve
ser o eixo direcionador das estratégias em sala de aula. Além disto, é imprescindível que o docente
estimule o autoconhecimento e autoaprendizagem entre seus alunos.
5 Ementa
FREUD E A ORIGEM DA PSICANÁLISE. A TEORIA DA SEXUALIDADE. O APARELHO
PSÍQUICO E A PRIMEIRA TÓPICA. A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO. OS
MECANISMOS DE DEFESA. SEGUIDORES E DISSIDENTES DE FREUD.
6 Objetivos
1 ­ Analisar os fundamentos epistemológicos e históricos da psicanálise, com base na metapsicologia
freudiana, a fim de articular a prática professional com o método clínico da psicanálise.
2 ­ Avaliar as temáticas freudianas, baseando­se na ética da psicanálise, para formular aspectos atuais
da clínica psicanalítica.
3 ­ Aplicar os conceitos fundamentas da psicanálise, com base em suas manifestações práticas, a fim
de contribuir com as intervenções no tratamento analítico. 
4 ­ Esboçar as dissidências internas ao campo psicanalítico e seus desdobramentos teóricos, a partir do
trabalho teórico/clínico concebido por Freud e seus principais colaboradores, para analisar as
principais escolas pós­freudianas, seus fundamentos e contraposições.
7 Procedimentos de ensino­aprendizagem 
Aulas interativas em ambiente virtual de aprendizagem, didaticamente planejadas para o
desenvolvimento de competências, tornando o processo de aprendizado mais significativo para os
alunos. Na sala de aula virtual, a metodologia de ensino contempla diversas estratégias capazes de
alcançar os objetivos da disciplina.
Os temas das aulas são discutidos e apresentados em diversos formatos como leitura de textos, vídeos,
hipertextos, links orientados para pesquisa, estudos de caso, podcasts, atividades animadas de
aplicação do conhecimento, simuladores virtuais, quiz interativo, simulados, biblioteca virtual e
Explore + para que o aluno possa explorar conteúdos complementares e aprofundar seu conhecimento
sobre as temáticas propostas.
8 Temas de aprendizagem
1.   FREUD E A ORIGEM DA PSICANÁLISE
1.1 HISTÓRIA: HISTERIA E HIPNOSE
1.2 A HIPNOSE E O MÉTODO CATÁRTICO
1.3 A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE
2.   A TEORIA DA SEXUALIDADE
2.1 SEXUALIDADE INFANTIL
2.2 AS PULSÕES
2.3 DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL
2.4 COMPLEXO EDIPIANO E CASTRAÇÃO
3.   O APARELHO PSÍQUICO E A PRIMEIRA TÓPICA
3.1 PRÉ CONSCIENTE, INCONSCIENTE E CONSCIENTE
3.2 AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE: CHISTES, ATOS FALHOS E SONHOS
3.3 A TEORIA DOS SONHOS
4.   A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO
4.1 ID
4.2 EGO
4.3 SUPEREGO
4.4 O MAL­ESTAR NA CIVILIZAÇÃO
5.   OS MECANISMOS DE DEFESA
5.1 OS PRINCIPAIS MECANISMOS DE DEFESA
5.2 OS MECANISMOS DE DEFESA E A FORMAÇÃO DO SINTOMA
6.   SEGUIDORES E DISSIDENTES DE FREUD (ATIVIDADE PRÁTICA SUPERVISIONADA)
6.1 CARL GUSTAV JUNG
6.2 SÁNDOR FERENCZI
6.3 DONALD WOODS WINNICOTT
6.4 JACQUES LACAN
9 Procedimentos de avaliação
Nesta disciplina, o aluno será avaliado pelo seu desempenho nas avaliações presenciais (AV e AVS),
sendo a cada uma delas atribuído o grau de 0,0 (zero) a 10,0 (dez). A avaliação do discente deverá
ainda contemplar uma avaliação parcial (AP), que será realizada online após a 5a aula, na qual o aluno
poderá alcançar grau de 0,0 (zero) a 2,0 (dois). Esta nota da AP poderá ser somada à nota de AV e/ou
AVS, caso o aluno obtenha nestas avaliações nota mínima igual ou maior do que 4,0 (quatro). 
Os instrumentos para avaliação da aprendizagem constituem­se em diferentes níveis de complexidade
e cognitivos, efetuando­se a partir de questões objetivas e discursivas que compõem o banco de
questões da disciplina. O alunos realiza uma prova (AV), com todo o conteúdo estudado e discutido
nas aulas transmitidas via web, aulas online e nas demais atividades de ensino aprendizagem
realizadas. Será considerado aprovado na disciplina o aluno que obtiver nota igual ou superior a 6,0
(seis). Caso o aluno não alcance o grau 6,0 na AV, ele poderá fazer uma nova avaliação (AVS), que
abrangerá todo o conteúdo e cuja nota mínima necessária deverá ser 6,0 (seis). As avaliações
presenciais serão realizadas no campus do aluno, de acordo com o calendário acadêmico institucional
10 Bibliografia básica
NASIO, J. D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto,
Lacan.. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537804155/cfi/6/12!/4/138/4@0:100
R. Horacio Etchegoyen. Fundamentos da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536312262/cfi/1!/4/4@0.00:53.4
Sigmund Freud. Compêndio de Psicanálise e outros escritos inacabados. Rio de Janeiro: Autêntica,
2014.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788582175163/cfi/2!/4/2@100:0.0011 Bibliografia complementar
David E. Zimerman. Manual da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536315317/cfi/0!/4/4@0.00:63.0
Denise Maurano. Pra que serve a Psicanálise?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537804766/cfi/6/2!/4/2/2@0:0.133
JORGE, M. A. C. & FERREIRA, N. P. Freud: o criador da Psicanálise. Col. Psicanálise passo a
passo.. Rio de Janeiro: Zahar
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537803660/cfi/6/16!/4/2/8@0:99.3
JORGE, M. A. C. & FERREIRA, N. P. Lacan: o grande freudiano. Col. Psicanálise passo a passo.
Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537803776/recent
Sigmund Freud. Fundamentos da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Autêntica
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788551301999/cfi/0!/4/4@0.00:60.3
ARA1532_Plano_de_ensino 224
Plano de Ensino
1 Código e nome da disciplina
ARA1532 AS TEORIAS PSICANALÍTICAS
2 Carga horária semestral
80
3 Carga horária semanal
4h
4 Perfil docente
O docente deve ser graduado em Psicologia ou áreas afins e possuir Pós­Graduação Lato Sensu
(especialização) em Teoria Psicanalítica, embora seja desejável a Pós­Graduação Stricto Sensu
(Mestrado e/ou Doutorado) na área do curso ou áreas afins. 
Recomenda­se que o docente possua experiência na área de Psicanálise além de conhecimentos
teóricos e práticos, habilidades de comunicação em ambiente acadêmico, capacidade de interação e
fluência digital para utilizar ferramentas necessárias ao desenvolvimento do processo de ensino­
aprendizagem (SGC, SAVA, BdQ e SIA). Importante, também, o conhecimento do Projeto Pedagógico
dos Cursos que a disciplina faz parte na Matriz Curricular.
É necessário que o docente domine as metodologias ativas inerentes à educação por competências e
ferramentas digitais que tornam a sala de aula mais interativa. A articulação entre teoria e prática deve
ser o eixo direcionador das estratégias em sala de aula. Além disto, é imprescindível que o docente
estimule o autoconhecimento e autoaprendizagem entre seus alunos.
5 Ementa
FREUD E A ORIGEM DA PSICANÁLISE. A TEORIA DA SEXUALIDADE. O APARELHO
PSÍQUICO E A PRIMEIRA TÓPICA. A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO. OS
MECANISMOS DE DEFESA. SEGUIDORES E DISSIDENTES DE FREUD.
6 Objetivos
1 ­ Analisar os fundamentos epistemológicos e históricos da psicanálise, com base na metapsicologia
freudiana, a fim de articular a prática professional com o método clínico da psicanálise.
2 ­ Avaliar as temáticas freudianas, baseando­se na ética da psicanálise, para formular aspectos atuais
da clínica psicanalítica.
3 ­ Aplicar os conceitos fundamentas da psicanálise, com base em suas manifestações práticas, a fim
de contribuir com as intervenções no tratamento analítico. 
4 ­ Esboçar as dissidências internas ao campo psicanalítico e seus desdobramentos teóricos, a partir do
trabalho teórico/clínico concebido por Freud e seus principais colaboradores, para analisar as
principais escolas pós­freudianas, seus fundamentos e contraposições.
7 Procedimentos de ensino­aprendizagem 
Aulas interativas em ambiente virtual de aprendizagem, didaticamente planejadas para o
desenvolvimento de competências, tornando o processo de aprendizado mais significativo para os
alunos. Na sala de aula virtual, a metodologia de ensino contempla diversas estratégias capazes de
alcançar os objetivos da disciplina.
Os temas das aulas são discutidos e apresentados em diversos formatos como leitura de textos, vídeos,
hipertextos, links orientados para pesquisa, estudos de caso, podcasts, atividades animadas de
aplicação do conhecimento, simuladores virtuais, quiz interativo, simulados, biblioteca virtual e
Explore + para que o aluno possa explorar conteúdos complementares e aprofundar seu conhecimento
sobre as temáticas propostas.
8 Temas de aprendizagem
1.   FREUD E A ORIGEM DA PSICANÁLISE
1.1 HISTÓRIA: HISTERIA E HIPNOSE
1.2 A HIPNOSE E O MÉTODO CATÁRTICO
1.3 A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE
2.   A TEORIA DA SEXUALIDADE
2.1 SEXUALIDADE INFANTIL
2.2 AS PULSÕES
2.3 DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL
2.4 COMPLEXO EDIPIANO E CASTRAÇÃO
3.   O APARELHO PSÍQUICO E A PRIMEIRA TÓPICA
3.1 PRÉ CONSCIENTE, INCONSCIENTE E CONSCIENTE
3.2 AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE: CHISTES, ATOS FALHOS E SONHOS
3.3 A TEORIA DOS SONHOS
4.   A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO
4.1 ID
4.2 EGO
4.3 SUPEREGO
4.4 O MAL­ESTAR NA CIVILIZAÇÃO
5.   OS MECANISMOS DE DEFESA
5.1 OS PRINCIPAIS MECANISMOS DE DEFESA
5.2 OS MECANISMOS DE DEFESA E A FORMAÇÃO DO SINTOMA
6.   SEGUIDORES E DISSIDENTES DE FREUD (ATIVIDADE PRÁTICA SUPERVISIONADA)
6.1 CARL GUSTAV JUNG
6.2 SÁNDOR FERENCZI
6.3 DONALD WOODS WINNICOTT
6.4 JACQUES LACAN
9 Procedimentos de avaliação
Nesta disciplina, o aluno será avaliado pelo seu desempenho nas avaliações presenciais (AV e AVS),
sendo a cada uma delas atribuído o grau de 0,0 (zero) a 10,0 (dez). A avaliação do discente deverá
ainda contemplar uma avaliação parcial (AP), que será realizada online após a 5a aula, na qual o aluno
poderá alcançar grau de 0,0 (zero) a 2,0 (dois). Esta nota da AP poderá ser somada à nota de AV e/ou
AVS, caso o aluno obtenha nestas avaliações nota mínima igual ou maior do que 4,0 (quatro). 
Os instrumentos para avaliação da aprendizagem constituem­se em diferentes níveis de complexidade
e cognitivos, efetuando­se a partir de questões objetivas e discursivas que compõem o banco de
questões da disciplina. O alunos realiza uma prova (AV), com todo o conteúdo estudado e discutido
nas aulas transmitidas via web, aulas online e nas demais atividades de ensino aprendizagem
realizadas. Será considerado aprovado na disciplina o aluno que obtiver nota igual ou superior a 6,0
(seis). Caso o aluno não alcance o grau 6,0 na AV, ele poderá fazer uma nova avaliação (AVS), que
abrangerá todo o conteúdo e cuja nota mínima necessária deverá ser 6,0 (seis). As avaliações
presenciais serão realizadas no campus do aluno, de acordo com o calendário acadêmico institucional
10 Bibliografia básica
NASIO, J. D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto,
Lacan.. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537804155/cfi/6/12!/4/138/4@0:100
R. Horacio Etchegoyen. Fundamentos da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536312262/cfi/1!/4/4@0.00:53.4
Sigmund Freud. Compêndio de Psicanálise e outros escritos inacabados. Rio de Janeiro: Autêntica,
2014.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788582175163/cfi/2!/4/2@100:0.00
11 Bibliografia complementar
David E. Zimerman. Manual da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536315317/cfi/0!/4/4@0.00:63.0
Denise Maurano. Pra que serve a Psicanálise?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537804766/cfi/6/2!/4/2/2@0:0.133
JORGE, M. A. C. & FERREIRA, N. P. Freud: o criador da Psicanálise. Col. Psicanálise passo a
passo.. Rio de Janeiro: Zahar
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537803660/cfi/6/16!/4/2/8@0:99.3
JORGE, M. A. C. & FERREIRA, N. P. Lacan: o grande freudiano. Col. Psicanálise passo a passo.
Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537803776/recent
Sigmund Freud. Fundamentos da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Autêntica
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788551301999/cfi/0!/4/4@0.00:60.3
ARA1532_Plano_de_ensino 225
Plano de Ensino
1 Código e nome da disciplina
ARA1532 AS TEORIAS PSICANALÍTICAS
2 Carga horária semestral
80
3 Carga horária semanal
4h
4 Perfil docente
O docente deve ser graduado em Psicologia ou áreas afins e possuir Pós­GraduaçãoLato Sensu
(especialização) em Teoria Psicanalítica, embora seja desejável a Pós­Graduação Stricto Sensu
(Mestrado e/ou Doutorado) na área do curso ou áreas afins. 
Recomenda­se que o docente possua experiência na área de Psicanálise além de conhecimentos
teóricos e práticos, habilidades de comunicação em ambiente acadêmico, capacidade de interação e
fluência digital para utilizar ferramentas necessárias ao desenvolvimento do processo de ensino­
aprendizagem (SGC, SAVA, BdQ e SIA). Importante, também, o conhecimento do Projeto Pedagógico
dos Cursos que a disciplina faz parte na Matriz Curricular.
É necessário que o docente domine as metodologias ativas inerentes à educação por competências e
ferramentas digitais que tornam a sala de aula mais interativa. A articulação entre teoria e prática deve
ser o eixo direcionador das estratégias em sala de aula. Além disto, é imprescindível que o docente
estimule o autoconhecimento e autoaprendizagem entre seus alunos.
5 Ementa
FREUD E A ORIGEM DA PSICANÁLISE. A TEORIA DA SEXUALIDADE. O APARELHO
PSÍQUICO E A PRIMEIRA TÓPICA. A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO. OS
MECANISMOS DE DEFESA. SEGUIDORES E DISSIDENTES DE FREUD.
6 Objetivos
1 ­ Analisar os fundamentos epistemológicos e históricos da psicanálise, com base na metapsicologia
freudiana, a fim de articular a prática professional com o método clínico da psicanálise.
2 ­ Avaliar as temáticas freudianas, baseando­se na ética da psicanálise, para formular aspectos atuais
da clínica psicanalítica.
3 ­ Aplicar os conceitos fundamentas da psicanálise, com base em suas manifestações práticas, a fim
de contribuir com as intervenções no tratamento analítico. 
4 ­ Esboçar as dissidências internas ao campo psicanalítico e seus desdobramentos teóricos, a partir do
trabalho teórico/clínico concebido por Freud e seus principais colaboradores, para analisar as
principais escolas pós­freudianas, seus fundamentos e contraposições.
7 Procedimentos de ensino­aprendizagem 
Aulas interativas em ambiente virtual de aprendizagem, didaticamente planejadas para o
desenvolvimento de competências, tornando o processo de aprendizado mais significativo para os
alunos. Na sala de aula virtual, a metodologia de ensino contempla diversas estratégias capazes de
alcançar os objetivos da disciplina.
Os temas das aulas são discutidos e apresentados em diversos formatos como leitura de textos, vídeos,
hipertextos, links orientados para pesquisa, estudos de caso, podcasts, atividades animadas de
aplicação do conhecimento, simuladores virtuais, quiz interativo, simulados, biblioteca virtual e
Explore + para que o aluno possa explorar conteúdos complementares e aprofundar seu conhecimento
sobre as temáticas propostas.
8 Temas de aprendizagem
1.   FREUD E A ORIGEM DA PSICANÁLISE
1.1 HISTÓRIA: HISTERIA E HIPNOSE
1.2 A HIPNOSE E O MÉTODO CATÁRTICO
1.3 A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE
2.   A TEORIA DA SEXUALIDADE
2.1 SEXUALIDADE INFANTIL
2.2 AS PULSÕES
2.3 DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL
2.4 COMPLEXO EDIPIANO E CASTRAÇÃO
3.   O APARELHO PSÍQUICO E A PRIMEIRA TÓPICA
3.1 PRÉ CONSCIENTE, INCONSCIENTE E CONSCIENTE
3.2 AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE: CHISTES, ATOS FALHOS E SONHOS
3.3 A TEORIA DOS SONHOS
4.   A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO
4.1 ID
4.2 EGO
4.3 SUPEREGO
4.4 O MAL­ESTAR NA CIVILIZAÇÃO
5.   OS MECANISMOS DE DEFESA
5.1 OS PRINCIPAIS MECANISMOS DE DEFESA
5.2 OS MECANISMOS DE DEFESA E A FORMAÇÃO DO SINTOMA
6.   SEGUIDORES E DISSIDENTES DE FREUD (ATIVIDADE PRÁTICA SUPERVISIONADA)
6.1 CARL GUSTAV JUNG
6.2 SÁNDOR FERENCZI
6.3 DONALD WOODS WINNICOTT
6.4 JACQUES LACAN
9 Procedimentos de avaliação
Nesta disciplina, o aluno será avaliado pelo seu desempenho nas avaliações presenciais (AV e AVS),
sendo a cada uma delas atribuído o grau de 0,0 (zero) a 10,0 (dez). A avaliação do discente deverá
ainda contemplar uma avaliação parcial (AP), que será realizada online após a 5a aula, na qual o aluno
poderá alcançar grau de 0,0 (zero) a 2,0 (dois). Esta nota da AP poderá ser somada à nota de AV e/ou
AVS, caso o aluno obtenha nestas avaliações nota mínima igual ou maior do que 4,0 (quatro). 
Os instrumentos para avaliação da aprendizagem constituem­se em diferentes níveis de complexidade
e cognitivos, efetuando­se a partir de questões objetivas e discursivas que compõem o banco de
questões da disciplina. O alunos realiza uma prova (AV), com todo o conteúdo estudado e discutido
nas aulas transmitidas via web, aulas online e nas demais atividades de ensino aprendizagem
realizadas. Será considerado aprovado na disciplina o aluno que obtiver nota igual ou superior a 6,0
(seis). Caso o aluno não alcance o grau 6,0 na AV, ele poderá fazer uma nova avaliação (AVS), que
abrangerá todo o conteúdo e cuja nota mínima necessária deverá ser 6,0 (seis). As avaliações
presenciais serão realizadas no campus do aluno, de acordo com o calendário acadêmico institucional
10 Bibliografia básica
NASIO, J. D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto,
Lacan.. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537804155/cfi/6/12!/4/138/4@0:100
R. Horacio Etchegoyen. Fundamentos da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536312262/cfi/1!/4/4@0.00:53.4
Sigmund Freud. Compêndio de Psicanálise e outros escritos inacabados. Rio de Janeiro: Autêntica,
2014.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788582175163/cfi/2!/4/2@100:0.00
11 Bibliografia complementar
David E. Zimerman. Manual da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536315317/cfi/0!/4/4@0.00:63.0
Denise Maurano. Pra que serve a Psicanálise?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537804766/cfi/6/2!/4/2/2@0:0.133
JORGE, M. A. C. & FERREIRA, N. P. Freud: o criador da Psicanálise. Col. Psicanálise passo a
passo.. Rio de Janeiro: Zahar
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537803660/cfi/6/16!/4/2/8@0:99.3
JORGE, M. A. C. & FERREIRA, N. P. Lacan: o grande freudiano. Col. Psicanálise passo a passo.
Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537803776/recent
Sigmund Freud. Fundamentos da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Autêntica
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788551301999/cfi/0!/4/4@0.00:60.3
ARA1532_Plano_de_ensino 226
Plano de Ensino
1 Código e nome da disciplina
ARA1532 AS TEORIAS PSICANALÍTICAS
2 Carga horária semestral
80
3 Carga horária semanal
4h
4 Perfil docente
O docente deve ser graduado em Psicologia ou áreas afins e possuir Pós­Graduação Lato Sensu
(especialização) em Teoria Psicanalítica, embora seja desejável a Pós­Graduação Stricto Sensu
(Mestrado e/ou Doutorado) na área do curso ou áreas afins. 
Recomenda­se que o docente possua experiência na área de Psicanálise além de conhecimentos
teóricos e práticos, habilidades de comunicação em ambiente acadêmico, capacidade de interação e
fluência digital para utilizar ferramentas necessárias ao desenvolvimento do processo de ensino­
aprendizagem (SGC, SAVA, BdQ e SIA). Importante, também, o conhecimento do Projeto Pedagógico
dos Cursos que a disciplina faz parte na Matriz Curricular.
É necessário que o docente domine as metodologias ativas inerentes à educação por competências e
ferramentas digitais que tornam a sala de aula mais interativa. A articulação entre teoria e prática deve
ser o eixo direcionador das estratégias em sala de aula. Além disto, é imprescindível que o docente
estimule o autoconhecimento e autoaprendizagem entre seus alunos.
5 Ementa
FREUD E A ORIGEM DA PSICANÁLISE. A TEORIA DA SEXUALIDADE. O APARELHO
PSÍQUICO E A PRIMEIRA TÓPICA. A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO. OS
MECANISMOS DE DEFESA. SEGUIDORES E DISSIDENTES DE FREUD.
6 Objetivos
1 ­ Analisar os fundamentos epistemológicos e históricosda psicanálise, com base na metapsicologia
freudiana, a fim de articular a prática professional com o método clínico da psicanálise.
2 ­ Avaliar as temáticas freudianas, baseando­se na ética da psicanálise, para formular aspectos atuais
da clínica psicanalítica.
3 ­ Aplicar os conceitos fundamentas da psicanálise, com base em suas manifestações práticas, a fim
de contribuir com as intervenções no tratamento analítico. 
4 ­ Esboçar as dissidências internas ao campo psicanalítico e seus desdobramentos teóricos, a partir do
trabalho teórico/clínico concebido por Freud e seus principais colaboradores, para analisar as
principais escolas pós­freudianas, seus fundamentos e contraposições.
7 Procedimentos de ensino­aprendizagem 
Aulas interativas em ambiente virtual de aprendizagem, didaticamente planejadas para o
desenvolvimento de competências, tornando o processo de aprendizado mais significativo para os
alunos. Na sala de aula virtual, a metodologia de ensino contempla diversas estratégias capazes de
alcançar os objetivos da disciplina.
Os temas das aulas são discutidos e apresentados em diversos formatos como leitura de textos, vídeos,
hipertextos, links orientados para pesquisa, estudos de caso, podcasts, atividades animadas de
aplicação do conhecimento, simuladores virtuais, quiz interativo, simulados, biblioteca virtual e
Explore + para que o aluno possa explorar conteúdos complementares e aprofundar seu conhecimento
sobre as temáticas propostas.
8 Temas de aprendizagem
1.   FREUD E A ORIGEM DA PSICANÁLISE
1.1 HISTÓRIA: HISTERIA E HIPNOSE
1.2 A HIPNOSE E O MÉTODO CATÁRTICO
1.3 A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE
2.   A TEORIA DA SEXUALIDADE
2.1 SEXUALIDADE INFANTIL
2.2 AS PULSÕES
2.3 DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL
2.4 COMPLEXO EDIPIANO E CASTRAÇÃO
3.   O APARELHO PSÍQUICO E A PRIMEIRA TÓPICA
3.1 PRÉ CONSCIENTE, INCONSCIENTE E CONSCIENTE
3.2 AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE: CHISTES, ATOS FALHOS E SONHOS
3.3 A TEORIA DOS SONHOS
4.   A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO
4.1 ID
4.2 EGO
4.3 SUPEREGO
4.4 O MAL­ESTAR NA CIVILIZAÇÃO
5.   OS MECANISMOS DE DEFESA
5.1 OS PRINCIPAIS MECANISMOS DE DEFESA
5.2 OS MECANISMOS DE DEFESA E A FORMAÇÃO DO SINTOMA
6.   SEGUIDORES E DISSIDENTES DE FREUD (ATIVIDADE PRÁTICA SUPERVISIONADA)
6.1 CARL GUSTAV JUNG
6.2 SÁNDOR FERENCZI
6.3 DONALD WOODS WINNICOTT
6.4 JACQUES LACAN
9 Procedimentos de avaliação
Nesta disciplina, o aluno será avaliado pelo seu desempenho nas avaliações presenciais (AV e AVS),
sendo a cada uma delas atribuído o grau de 0,0 (zero) a 10,0 (dez). A avaliação do discente deverá
ainda contemplar uma avaliação parcial (AP), que será realizada online após a 5a aula, na qual o aluno
poderá alcançar grau de 0,0 (zero) a 2,0 (dois). Esta nota da AP poderá ser somada à nota de AV e/ou
AVS, caso o aluno obtenha nestas avaliações nota mínima igual ou maior do que 4,0 (quatro). 
Os instrumentos para avaliação da aprendizagem constituem­se em diferentes níveis de complexidade
e cognitivos, efetuando­se a partir de questões objetivas e discursivas que compõem o banco de
questões da disciplina. O alunos realiza uma prova (AV), com todo o conteúdo estudado e discutido
nas aulas transmitidas via web, aulas online e nas demais atividades de ensino aprendizagem
realizadas. Será considerado aprovado na disciplina o aluno que obtiver nota igual ou superior a 6,0
(seis). Caso o aluno não alcance o grau 6,0 na AV, ele poderá fazer uma nova avaliação (AVS), que
abrangerá todo o conteúdo e cuja nota mínima necessária deverá ser 6,0 (seis). As avaliações
presenciais serão realizadas no campus do aluno, de acordo com o calendário acadêmico institucional
10 Bibliografia básica
NASIO, J. D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto,
Lacan.. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537804155/cfi/6/12!/4/138/4@0:100
R. Horacio Etchegoyen. Fundamentos da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536312262/cfi/1!/4/4@0.00:53.4
Sigmund Freud. Compêndio de Psicanálise e outros escritos inacabados. Rio de Janeiro: Autêntica,
2014.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788582175163/cfi/2!/4/2@100:0.00
11 Bibliografia complementar
David E. Zimerman. Manual da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536315317/cfi/0!/4/4@0.00:63.0
Denise Maurano. Pra que serve a Psicanálise?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537804766/cfi/6/2!/4/2/2@0:0.133
JORGE, M. A. C. & FERREIRA, N. P. Freud: o criador da Psicanálise. Col. Psicanálise passo a
passo.. Rio de Janeiro: Zahar
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537803660/cfi/6/16!/4/2/8@0:99.3
JORGE, M. A. C. & FERREIRA, N. P. Lacan: o grande freudiano. Col. Psicanálise passo a passo.
Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788537803776/recent
Sigmund Freud. Fundamentos da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Autêntica
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788551301999/cfi/0!/4/4@0.00:60.3
ARA1532_Plano_de_ensino 227
	Tema 1 - Freud e a origem da psicanálise
	Tema 2 - A teoria da sexualidade
	Tema 3 - O aparelho psíquico
	Tema 4 - Os mecanismos de defesa
	Tema 5 - Seguidores e Dissidentes de Freud
	ARA1532_Plano_de_ensino

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