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<p>DESCRIÇÃO</p><p>O surgimento do pensamento psicanalítico a partir das descobertas de Freud sobre o inconsciente.</p><p>PROPÓSITO</p><p>A teoria e a clínica psicanalíticas são essenciais para a compreensão do funcionamento do sujeito a partir das</p><p>motivações inconscientes, sendo este um grande modelo interpretativo para campos importantes da</p><p>Psicologia, como as teorizações sobre o desenvolvimento humano e da personalidade, fundamentais para a</p><p>sua atuação como psicólogo.</p><p>PREPARAÇÃO</p><p>Para auxiliar nos estudos, você pode recorrer a dicionários de psicanálise que contêm explicações conceituais</p><p>da psicanálise dispostas de maneira estruturada e organizada.</p><p>OBJETIVOS</p><p>MÓDULO 1</p><p>Identificar a histeria como fenômeno essencial para a clínica e teoria psicanalítica</p><p>MÓDULO 2</p><p>Analisar historicamente a importância da hipnose e do método catártico</p><p>MÓDULO 3</p><p>Reconhecer as várias dimensões do conceito fundamental do inconsciente</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Ao falarmos sobre a teoria psicanalítica e o trabalho desenvolvido por Freud, precisamos pensar no</p><p>inconsciente, no psiquismo e nas transformações que esses conceitos provocaram.</p><p>A partir de Freud, passamos a entender a forma como agimos e somos de maneira diferente. Mas para</p><p>compreendermos melhor todas essas transformações, temos que lembrar as características da sociedade que</p><p>predominava na Europa nos últimos 20 anos do século XIX.</p><p>DE FORMA REVOLUCIONÁRIA, A TEORIA DE FREUD SE</p><p>DEPARA COM TABUS E PRECONCEITOS TANTO NO MEIO</p><p>SOCIAL COMO NO MEIO CIENTÍFICO DA ÉPOCA, EM UMA</p><p>SOCIEDADE BURGUESA, CAPITALISTA E PATRIARCAL, EM</p><p>QUE A SEXUALIDADE E, ESPECIALMENTE A SEXUALIDADE</p><p>FEMININA, ERA MUITO OPRIMIDA.</p><p>Imagem: Natata / Shutterstock.com</p><p>Vamos estudar, então, a origem de todas essas ideias e a forma como elas foram transformando a nossa visão</p><p>do comportamento humano.</p><p>MÓDULO 1</p><p> Identificar a histeria como fenômeno essencial para a clínica e teoria psicanalítica</p><p>HISTÓRIA: HISTERIA E HIPNOSE</p><p>A psicanálise é um campo importante na compreensão do funcionamento psíquico, que diz respeito aos</p><p>aspectos inconscientes do indivíduo. Freud foi o grande inventor da psicanálise a partir do fenômeno da</p><p>histeria.</p><p>VOCÊ JÁ DEVE TER OUVIDO A EXPRESSÃO: “FREUD</p><p>EXPLICA!”. MAS O QUE SIGNIFICA QUE FREUD EXPLICA E O</p><p>QUE ELE EXPLICA? PARA RESPONDER INTRODUTORIAMENTE</p><p>A ESSA QUESTÃO, FAREMOS UMA IMERSÃO NO UNIVERSO</p><p>DOS PRIMÓRDIOS DA PSICANÁLISE.</p><p>O Inconsciente é, talvez, o conceito mais importante da formulação psicanalítica. Esse é um conceito que</p><p>aponta para uma região do psiquismo que é acessível por meio das chamadas formações do inconsciente,</p><p>como os sonhos, os atos falhos, os lapsos, os sintomas e os chistes. Por meio da descoberta do Inconsciente,</p><p>Freud impõe uma terceira ferida narcísica na humanidade, como ele próprio afirmou, tendo sido a primeira</p><p>realizada pela teoria heliocêntrica, com Copérnico, e a segunda com a teoria evolucionista de Darwin.</p><p>Foto: Everett Collection / Shutterstock.com</p><p>Sigmund Freud.</p><p> VOCÊ SABIA</p><p>Um psicanalista francês da metade do século, Jacques Lacan, chegou a reformular jocosamente a formulação</p><p>do cogito cartesiano, o “Penso, logo sou”. Se em Descartes o lugar da verdade está no pensamento e no eu,</p><p>por outro lado, com o inconsciente, teríamos a frase reformulada em “Sou onde não me penso”, ou seja, o</p><p>lugar mais verdadeiro de mim mesmo é o inconsciente.</p><p>De uma forma ilustrativa, podemos pensar na imagem de um iceberg. A parte visível é sua menor parte. A</p><p>maior parte de um iceberg está submersa, mas está lá. Assim seríamos nós: temos acesso consciente a uma</p><p>pequena parte de nós mesmos. O inconsciente é a grande parte de nós e, no entanto, não é visível à</p><p>consciência.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>A origem da psicanálise remonta ao século XIX, quando o fenômeno da histeria causava grande inquietação</p><p>no campo médico e científico e o grande paradigma nesse momento era o modelo da anatomia e da patologia.</p><p>Significa que, para o aparecimento de alguma doença, deveria haver necessariamente uma explicação dentro</p><p>de um referente anatomopatológico. Isso não era encontrado na histeria. Não havia algum dano neurológico</p><p>ou corporal qualquer.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>A histeria, palavra que vem do grego ὑστέρα, remonta à ideia de “útero”. Acreditava-se que seria um</p><p>acometimento feminino apenas. Hoje sabemos que não existem apenas mulheres histéricas. Para</p><p>compreender um pouco mais sobre a origem da psicanálise, investigaremos a problemática histérica no século</p><p>XIX e como ela contribuiu fundamentalmente para a criação da psicanálise.</p><p>A SEGUIR, APRESENTAREMOS ALGUNS ASPECTOS</p><p>HISTÓRICOS FUNDAMENTAIS SOBRE O SURGIMENTO DA</p><p>PSICANÁLISE A PARTIR DA QUESTÃO DA HISTERIA. PARA</p><p>FALAR DA ORIGEM DA PSICANÁLISE E, PORTANTO, DE FREUD</p><p>COMO GRANDE CLÍNICO E PENSADOR, REMONTAMOS ÀS</p><p>CONCEPÇÕES SOBRE O FENÔMENO DA HISTERIA NO</p><p>SÉCULO XIX.</p><p>Até então, aquilo que podemos chamar de manifestação histérica era interpretado como possessão</p><p>demoníaca. A mulher histérica era vista como um ser possuído por algum demônio, que a fazia agir</p><p>involuntariamente, simulando doenças.</p><p></p><p>SÉCULO XV</p><p>Por volta do século XV até o século XVIII, a Igreja Católica Romana, por meio da Inquisição, conduzia um</p><p>processo que identificava e investigava os casos de protesto e de subversão em relação aos dogmas</p><p>religiosos. Esse processo coincide com o período da “caça às bruxas”, que privilegiava, sobretudo, uma</p><p>vigilância constante com relação às mulheres que supostamente agiam em favor da feitiçaria. Durante esse</p><p>período, muitas mulheres histéricas foram condenadas à fogueira, pois os seus sintomas e manifestações</p><p>comportamentais não eram factíveis de explicação.</p><p>SÉCULO XVIII</p><p>Isso começa a se modificar em meados do século XVIII com o fenômeno do mesmerismo. As concepções de</p><p>histeria centradas em uma perspectiva demoníaca cedem espaço para uma interpretação científica, passando,</p><p>paulatinamente, a ser efetivamente entendida como uma doença dos nervos, algo que teria sua etiologia</p><p>centrada nas estruturas do sistema nervoso.</p><p></p><p>MESMERISMO</p><p>Técnica de cura criada pelo médico alemão Franz Anton Mesmer (1766, ano de defesa de sua tese), que</p><p>acreditava em uma energia relativa a um sexto sentido ou reciprocidade entre os seres vivos, por causa</p><p>javascript:void(0)</p><p>do fluido magnético que emana dos indivíduos. Quando essa energia era liberada, poderiam acontecer</p><p>curas maravilhosas.</p><p>Franz Anton Mesmer supunha que as doenças nervosas tinham origem em um certo desequilíbrio do fluido</p><p>energético universal. Isso significa que os corpos possuiriam uma certa quantidade de energia vital que, aliás,</p><p>perpassa todos os seres.</p><p> EXEMPLO</p><p>Uma doença, por exemplo, nessa leitura, seria o resultado de um desequilíbrio nessa energia. Quando alguém</p><p>está triste e ganha um abraço de uma pessoa querida, isso pode revigorar uma quantidade de energia, ou</p><p>uma palavra que conforte e ampare ajuda a restaurar essa vitalização.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>Antiga ilustração de Mesmer.</p><p>É nesse sentido que se entende o magnetismo como uma técnica em que pela utilização de um objeto como</p><p>um imã, portador de polos magnéticos, seria possível reorganizar o fluido energético. Assim, o médico, nesses</p><p>casos, atuaria como um magnetizador, que trataria de reorganizar um equilíbrio homeostático do fluido.</p><p>Mais tarde, já no século XIX, James Braid, com a hipnose, permitiu o início da transformação da teoria do</p><p>fluido energético por uma concepção físico-química da histeria, como veremos com Charcot. A ideia era que, a</p><p>partir da indução do estado hipnótico, alterações orgânicas fossem verificadas.</p><p> RESUMINDO</p><p>Portanto, no século XIX e com o paradigma médico em cena, a intenção, no caso da histeria, era investigar no</p><p>corpo o que se passava, e não mais se fazer uma leitura de algo como uma possessão.</p><p>HISTERIA E HIPNOSE NA ORIGEM DA</p><p>PSICANÁLISE</p><p>O doutor Maicon Pereira da Cunha aborda a origem da psicanálise investigando a problemática histérica no</p><p>século XIX e como ela contribuiu para a criação da psicanálise.</p><p>A HISTERIA</p><p>A histeria</p><p>é uma manifestação de quadros clínicos bastante variados, que, em geral, expressam classicamente</p><p>no corpo o resultado manifesto de um conflito psíquico. Desde as origens da humanidade, são conhecidas</p><p>histórias de histeria. O tratamento prescrito na época de Hipócrates era a inalação de vapores que emanavam</p><p>de produtos excêntricos e atividades físicas que teriam como função recolocar o útero no seu lugar certo.</p><p>Curiosamente, indicava-se preventivamente a prática de atos sexuais.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>A histeria, na atualidade, encontra-se um pouco dispersa dentro dos manuais psiquiátricos. Hoje, vemos algo</p><p>da histeria figurando entre os chamados transtornos somatoformes ou transtorno de personalidade</p><p>histriônica. Os transtornos somatoformes representam uma categoria psicodiagnóstica que nos manuais de</p><p>diagnóstico específicos, como o DSM e CID, aparecem descritos pelos transtornos com sintomas somáticos,</p><p>conversivos e dissociativos e outros, apresentando como característica comum a presença de sintomas</p><p>somáticos (Default tooltip) associados a pensamentos, sentimentos e sofrimento psíquico.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>Uma série de sintomas, como paralisias de membros (pernas, braços ou músculo da face, por exemplo),</p><p>dispneia, convulsões, cegueira ou estrabismo, tosses, falas confusas, enfim, uma ampla variedade pode se</p><p>enquadrar na noção de histeria. Portanto, o que diz respeito à etiologia da histeria não são exatamente os</p><p>sintomas, pois esses podem ser múltiplos e variados. A questão é que esses sintomas aparecem sem um</p><p>referente anatomopatológico. Em outras palavras, não é uma causa orgânica que provoca o(s) sintoma(s)</p><p>histérico(s).</p><p>Vamos compreender a histeria como algo determinado por certas experiências do paciente que atuaram de</p><p>modo traumático e que são reproduzidas em sua vida psíquica, fazendo parte do grupo das neuroses.</p><p>Então, começando-se a observar o problema dessa neurose, ou assim chamada “doença dos nervos”,</p><p>ressaltamos que não havia indícios de qualquer lesão orgânica que justificasse o aparecimento dos sintomas</p><p>histéricos, de forma que a solução procurada pelo campo hegemônico da medicina seguia na direção de</p><p>afirmar que se tratava de uma teatralização ou simulação.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>A HIPNOSE COMO TÉCNICA</p><p>De forma sintética, podemos apontar a hipnose como método que produz um rebaixamento de consciência</p><p>sob indução da sugestão hipnótica, ou seja, por meio da fala e do poder simbólico do hipnotizador.</p><p>Certamente, você se lembrará da imagem de um relógio de bolso sendo movimentado de um lado para o outro</p><p>em uma cena em que alguém é induzido ao estado hipnótico, não é verdade?</p><p>Uma vez hipnotizada, a pessoa entrava em um transe que permitia que o médico tivesse acesso ao conjunto</p><p>de sintomas histéricos bem definidos observado dentro de um contexto narrativo. Assim, os sintomas</p><p>começaram a ser vistos dentro de uma história do que tinha acontecido à pessoa e que permitia compreender</p><p>a origem dos mesmos.</p><p>Começou-se a perceber alguns elementos a partir daí:</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>Os sintomas histéricos não eram produções de pactos diabólicos ou de simulação.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>O conjunto bem definido de sintomas dessa neurose era passível de ser observado e recolocado dentro de</p><p>uma trama de sentidos, em uma narrativa histórica, e não dentro de uma perspectiva orgânica meramente.</p><p>Ao observar que os sintomas histéricos podiam ser investigados e alterados a partir de um estado hipnótico,</p><p>Charcot introduziu a histeria no meio científico. Posteriormente, ele começa a observar que os conteúdos, em</p><p>geral, apresentavam uma relação com algo sexual, apesar de ele não entrar muito nessa seara.</p><p>NO SÉCULO XIX, HAVIA MUITO MORALISMO EM TORNO DA</p><p>SEXUALIDADE, COM MUITOS TABUS ENVOLVENDO A</p><p>QUESTÃO DO SEXO.</p><p>Nessa contemporaneidade, Sigmund Freud era um jovem médico austríaco, ambicioso, que almejava realizar</p><p>algo grande em sua vida. Freud sabia das investigações de Charcot com as histéricas no Hospital Salpêtrière,</p><p>em Paris, na França. Conseguiu uma bolsa de estudos e partiu rumo a Paris para entender melhor a relação</p><p>da histeria com a hipnose.</p><p>Uma vez hipnotizada a paciente histérica, a crise dela passou a ser reconstruída nas investigações de</p><p>Charcot. Acontece que as pacientes, que maioritariamente eram mulheres, passaram a oferecer muito mais</p><p>informação do que lhes era solicitado, e constantemente conteúdos sexuais apareciam nas narrativas.</p><p> RESUMINDO</p><p>Foi assim que a hipnose, técnica inicialmente utilizada pelo médico James Braid, surgiu como a ferramenta de</p><p>acesso à histeria. Dessa forma, progressivamente, aprofundada por Charcot, a histeria começou a poder estar</p><p>dentro de um registro institucional no Hospital.</p><p>A SEXUALIDADE NA CENA</p><p>Freud começa a se interessar pelo fenômeno da histeria, e não hesita em desbravar os enigmas da</p><p>sexualidade nessa condição.</p><p>Retornando a Viena, Freud consegue continuar suas investigações com Josef Breuer, um médico mais</p><p>experimentado, também curioso sobre os efeitos da hipnose na histeria e que ajudara bastante Freud, seja</p><p>com incentivos morais seja financeiramente.</p><p>Imagem: WolfgangRieger / Wikimedia Commons / Public domain.</p><p>Nas Obras Completas de Freud, especificamente nos textos dos Estudos sobre a Histeria, vemos o passo a</p><p>passo das investigações desse momento mais inicial da formulação do edifício teórico-clínico da psicanálise.</p><p>A relação da histeria com a hipnose vai ser conectada pela ideia de sexualidade, eixo básico para a</p><p>compreensão da origem da psicanálise. Essa relação começa a ser aprofundada a partir do encontro de Freud</p><p>com Breuer.</p><p>É por meio de Breuer que Anna O., sua paciente, surge na cena. É o caso princeps, o caso pioneiro a respeito</p><p>das investigações psicanalíticas sobre o inconsciente, apesar de esse conceito fundamental da psicanálise</p><p>ainda estar sendo gestado nesse momento.</p><p>TAL QUAL UM BEBÊ QUE NASCE, SUA HISTÓRIA NÃO SE</p><p>INICIA QUANDO HÁ O NASCIMENTO. HÁ TODA UMA</p><p>PREPARAÇÃO DESDE A CONCEPÇÃO, PASSANDO PELA</p><p>FORMAÇÃO DO FETO ATÉ QUE VEM O NASCIMENTO. VEJA</p><p>COMO MUITOS PROCESSOS ACONTECEM ATÉ O</p><p>NASCIMENTO. ASSIM É A GÊNESE DE UMA TEORIA.</p><p>ESTAMOS ACOMPANHANDO AQUI O PROCESSO DE</p><p>GESTAÇÃO DA PSICANÁLISE. NESSE MOMENTO, INCLUSIVE,</p><p>PODEMOS ACOMPANHAR PARTICULARMENTE UM CONCEITO</p><p>QUE VEREMOS MAIS ADIANTE, O INCONSCIENTE.</p><p>A partir dos relatos de Breuer sobre Anna O., Freud começou a se interessar cada vez mais pelos enigmas da</p><p>histeria:</p><p></p><p>Nos Estudos sobre a Histeria, que compõem textos entre 1893 e 1895, Breuer e Freud acompanharam as</p><p>evoluções sobre a histeria a partir da hipnose.</p><p>O famoso texto da Comunicação Preliminar (1893) é escrito pelos dois médicos. Logo após o texto, segue-se</p><p>a descrição de outros casos clínicos desse primeiro momento da psicanálise. Se observarmos juntos os cinco</p><p>casos clínicos descritos no texto da Comunicação Preliminar, veremos alguns elementos básicos do germe</p><p>inicial da psicanálise.</p><p></p><p>As correspondências de Freud com Wilhelm Fliess também são interessantes para acompanhar esse período</p><p>inicial. Do ponto de vista teórico, observamos a concepção da primeira ideia da relação entre representação e</p><p>afeto, que está na origem de uma primeira noção de trauma.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p> RELEMBRANDO</p><p>Lembrando que o conceito de trauma na teoria de Freud acaba tendo uma conotação diferente do conceito de</p><p>trauma em outros contextos, pois aqui estamos falando de trauma psíquico. De qualquer forma, estamos</p><p>fazendo referência ao fato de que um trauma é uma intensidade excessiva que se torna insuportável para</p><p>uma determinada estrutura comportar, ou seja, é um excesso que transborda.</p><p>Mesmo dentro da psicanálise, a concepção de trauma ganhará diversas possibilidades interpretativas. Mas</p><p>queremos sublinhar, nesse primeiro momento da formulação freudiana, a dimensão de um excesso de</p><p>intensidade com o qual o psiquismo não conseguiu lidar.</p><p> EXEMPLO</p><p>Quando alguém leva um susto tão grande que fica paralisado, essa paralisia diz respeito</p><p>a esse excesso de</p><p>intensidade.</p><p>AB-REAÇÃO E A DIVISÃO DA CONSCIÊNCIA</p><p>Por meio da hipnose, começa-se a provocar as lembranças do trauma, e a ideia inicial da origem está</p><p>constantemente em um acidente, insulto, enfim, algum susto que o psiquismo não conseguiu descarregar, ou</p><p>seja, houve alguma emoção, afeto ou energia psíquica que ficou represada, gerando efeitos tóxicos no</p><p>psiquismo.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>A representação do trauma age como um corpo estranho alojado na mente e a hipnose foi um primeiro modo</p><p>de se ter acesso a essa trama, de forma que o sintoma histérico desaparecia quando se conseguia trazer à luz</p><p>a lembrança do fato provocador. Falamos, então, que é a lembrança do acontecimento que evoca o afeto a ele</p><p>acoplado, de forma que “os histéricos sofrem principalmente de reminiscências”.</p><p>(BREUER; FREUD, 1893, p. 43)</p><p>Então, a ab-reação é a forma pela qual um afeto represado consegue ser liberado por meio do acesso à</p><p>lembrança do evento a ele ligado. É necessária a expurgação do afeto para não continuar gerando efeitos</p><p>tóxicos:</p><p>EM OUTRAS PALAVRAS: PARECE QUE ESSAS LEMBRANÇAS</p><p>CORRESPONDEM A TRAUMAS QUE NÃO FORAM</p><p>SUFICIENTEMENTE AB-REAGIDOS.</p><p>(BREUER; FREUD, 1893, p. 45)</p><p>ESSE PROCESSO DA AB-REAÇÃO SERÁ DEFINIDO EM SEU</p><p>MECANISMO AO LONGO DO TEXTO, MAS PODEMOS</p><p>ENTENDÊ-LO COMO UMA ESPÉCIE DE DESCARGA</p><p>EMOCIONAL QUE PERMITE LIBERAR O AFETO ASSOCIADO A</p><p>UM EVENTO TRAUMÁTICO.</p><p>Freud, então, constata o que vai ser essencial na formulação do aparelho psíquico, ou seja, o seu caráter</p><p>dividido. A consciência se encontra dividida e é isso que aparece de forma emblemática na histeria. Os</p><p>sintomas histéricos aludem ao fato de que um episódio traumático força a divisão da consciência na medida</p><p>em que uma ideia, uma representação conflituosa, instaura a necessidade de que essa representação fique</p><p>isolada da comunicação associativa com o restante do conteúdo da consciência. Dessa forma, essa ideia</p><p>conflituosa fica separada do resto, impedindo que ela gere mais incômodo ao sujeito.</p><p> ATENÇÃO</p><p>Aqui encontramos o pressuposto básico trabalhado pela psicanálise da divisão do aparelho psíquico entre</p><p>consciente e inconsciente. Preste atenção: inconsciente! E não subconsciente! O termo subconsciente é</p><p>utilizado em outros campos que não a psicanálise. Em psicanálise, algo mais próximo da ideia de</p><p>subconsciente seria o que chamaremos de pré-consciente. Falaremos mais sobre isso posteriormente.</p><p>Bem, falamos de teoria. E como presenciamos na prática isso tudo? Com os casos clínicos, vemos a hipnose</p><p>sendo primariamente utilizada na investigação dos fatos relativos à histeria, bem como o seu abandono e</p><p>sistematicamente o processamento das transformações técnicas que levarão até a ideia de associação livre, a</p><p>chamada regra de ouro da psicanálise. É a história desses processos que estamos vendo.</p><p>“FALE LIVREMENTE O QUE LHE VEM À CABEÇA!”.</p><p>Essa é a frase inicial do tratamento psicanalítico, e que deriva das descobertas sobre o inconsciente desde o</p><p>início da histeria investigada sob hipnose.</p><p>Mas Freud não se achava um bom hipnotizador, além disso os sintomas voltavam de outras formas. Havia</p><p>uma série de limitações que fizeram com que Freud abandonasse a hipnose e adotasse a “associação livre”</p><p>em seu lugar.</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. QUAL FOI A IMPORTÂNCIA DA HIPNOSE PARA A FORMULAÇÃO INICIAL DA</p><p>PSICANÁLISE?</p><p>A) Descobrir que a histeria se tratava de uma teatralização.</p><p>B) Permitir que o médico encontrasse no cérebro o que estava disfuncional.</p><p>C) Interpretar os sintomas histéricos à luz de uma trama de sentidos.</p><p>D) Fazer com que a pessoa não se lembre de seus traumas e assim não sofra.</p><p>E) Fazer a pessoa sentir o afeto e encobrir a lembrança do trauma.</p><p>2. (CCV-UFC ‒ 2019 ‒ UFC ‒ PSICÓLOGO ‒ CLÍNICA) SOBRE O MÉTODO CATÁRTICO</p><p>EMPREGADO POR FREUD E BREUER, É CORRETO AFIRMAR QUE:</p><p>A) Foi empregado por Freud logo após abandonar o método da hipnose utilizado por Charcot.</p><p>javascript:void(0)</p><p>B) Freud utilizava a hipnose para atingir a vivência traumática que supostamente gerava o sintoma. Sob efeito</p><p>da hipnose, quando o paciente chegava ao fato traumático, acontecia a ab-reação e a descarga do afeto</p><p>ligado ao fato traumático.</p><p>C) Foi criado por Breuer que o aplicou com sucesso na paciente frau Emmy von N. Posteriormente, Freud</p><p>utiliza o método com uma pequena variação e o aplica no famoso caso Anna O., caso clínico que marca o</p><p>início da psicanálise como a conhecemos.</p><p>D) Foi criado por Charcot nas suas apresentações de hipnose com histéricas, posteriormente desenvolvido por</p><p>Freud como método terapêutico e empregado pela primeira vez na famosa paciente frau Emmy Von N., caso</p><p>clínico que marca o início da psicanálise como a conhecemos.</p><p>E) Consistia em solicitar para o paciente falar livremente (associação livre) sobre seus sintomas. Essa fala era</p><p>conduzida por Freud até que o paciente chegasse aos eventos desencadeadores do sintoma. Por essa razão,</p><p>o método também é conhecido por “associação livre”, nome derivado da fala livre do paciente.</p><p>GABARITO</p><p>1. Qual foi a importância da hipnose para a formulação inicial da psicanálise?</p><p>A alternativa "C " está correta.</p><p>A importância da hipnose foi de permitir encontrar uma trama de sentidos na questão histérica, de forma a</p><p>identificar que a neurose não era algo inscrito no registro anatomopatológico. Por meio da hipnose, era</p><p>possível acessar o conteúdo narrativo e identificar o represamento do afeto ligado a um evento ao qual houve</p><p>reação adequada, gerando efeitos tóxicos no psiquismo.</p><p>2. (CCV-UFC ‒ 2019 ‒ UFC ‒ Psicólogo ‒ Clínica) Sobre o método catártico empregado por Freud e</p><p>Breuer, é correto afirmar que:</p><p>A alternativa "B " está correta.</p><p>O método catártico era empregado já na hipnose e permaneceu mesmo após o abandono da hipnose como</p><p>técnica por Freud. Isso ocorre porque a catarse é uma forma de expurgação de um afeto ligado a um evento</p><p>traumático. A hipnose foi abandonada devido a diversos fatores, dentre eles, o fato de os sintomas se</p><p>deslocarem e Freud não se achar um bom hipnotizador. No entanto, o fato de existir o processo de</p><p>expurgação do afeto restou como princípio fundamental para a estruturação da concepção de cura</p><p>psicanalítica posteriormente.</p><p>MÓDULO 2</p><p> Analisar historicamente a importância da hipnose e do método catártico</p><p>A HIPNOSE E O MÉTODO CATÁRTICO</p><p>A histeria foi se apresentando como um enigma que intrigava a comunidade médico-científica no século XIX.</p><p>Como era possível a apresentação de um quadro bem delineado de sintomas na histeria sem a existência de</p><p>lesão anatômica, diferentemente de outras doenças?</p><p>CHARCOT</p><p>BERNHEIM</p><p>CHARCOT</p><p>Com Charcot, a histeria passou a ser acompanhada dentro dos cânones científicos. Ao hipnotizar alguém com</p><p>um quadro histérico, o médico parisiense constatava modificações fisiológicas, como deslocamento da</p><p>excitabilidade no sistema nervoso e contraturas sonambúlicas (tipo de contratura que as pacientes</p><p>experimentavam durante o quadro histérico, sem explicação anatomofisiológica).</p><p>BERNHEIM</p><p>Hippolyte Bernheim, outro médico neurologista francês, no final do século XIX, contribuiu no aprofundamento</p><p>dos mecanismos presentes na hipnose, preservando o que julgava ser o essencial do processo, que era a</p><p>sugestão, ou seja, a importância de se ater ao aspecto do poder do médico exercido sobre o paciente.</p><p>Charcot viu que era possível criar sintomas histéricos, assim como removê-los, pela sugestão hipnótica. Ao</p><p>submeter uma paciente histérica à hipnose, ele demonstrava que era possível produzir uma paralisia de algum</p><p>membro pelo poder do hipnotizador. Um comando era proferido no estado da hipnose, como dizer que algum</p><p>membro do corpo estaria paralisado e, ao despertá-la, o membro realmente estava paralisado.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>A sugestão, portanto, produzia um estado de equivalência à formação do processo sintomático. Chamava a</p><p>atenção que não houvesse nenhuma causa fisiológica determinada, do mesmo modo era possível ordenar que</p><p>um sintoma histérico se extinguisse</p><p>durante a hipnose, o que permanecia extinto ao acordar a paciente.</p><p>A EXPURGAÇÃO DO AFETO</p><p>Inicialmente, a histeria fora investigada a partir da hipnose. O método utilizado era o método catártico. A</p><p>catarse é um termo antigo, que remonta à Grécia Antiga e que significa purificação, purgação.</p><p> EXEMPLO</p><p>Podemos vivenciar a catarse quando estamos assistindo a um jogo de futebol ou acompanhamos uma novela</p><p>ou algum programa de entretenimento e ficamos “vidrados” naquela ação ou cena. Parece que vivemos algo</p><p>experienciado por uma personagem, sentimos junto com alguém com quem nos identificamos, ou quando</p><p>repugnamos uma personagem de quem não gostamos, e vivenciamos fortes sentimentos de repulsa. Uma</p><p>série de emoções pode ser vivida nessa trama.</p><p>Catharsis fora utilizada por Aristóteles para designar o que era produzido no espectador na encenação de</p><p>uma tragédia. Tempos depois, mais precisamente no século XIX, Breuer e Freud utilizaram o termo “ab-</p><p>reação” para expressar a necessidade da liberação afetiva adequada a um evento traumático.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>A ideia de trauma é complexa e com diversos significados e contextos, mas nesse momento podemos</p><p>sintetizar como um excesso diante do qual o psiquismo não consegue reagir adequadamente; pode ser</p><p>um insulto, um susto, enfim, qualquer evento que desencadeie um excesso de energia no psiquismo e que</p><p>não consegue liberação.</p><p>Os afetos que não conseguiram acesso à descarga ficavam represados e gerando efeitos tóxicos. Portanto,</p><p>nesse contexto, a ideia de cura seria obtida pela liberação do afeto. Freud estava descobrindo a importância</p><p>do dito popular de que é importante “pôr as emoções para fora!”</p><p>CADA SINTOMA HISTÉRICO DESAPARECIA, DE FORMA</p><p>IMEDIATA E PERMANENTE, QUANDO CONSEGUÍAMOS</p><p>TRAZER À LUZ COM CLAREZA A LEMBRANÇA DO FATO QUE O</p><p>HAVIA PROVOCADO E DESPERTAR O AFETO QUE O</p><p>PROVOCAVA, E QUANDO O PACIENTE HAVIA DESCRITO ESSE</p><p>FATO COM O MAIOR NÚMERO DE DETALHES POSSÍVEL E</p><p>TRADUZINDO O AFETO EM PALAVRAS.</p><p>(BREUER; FREUD, 1893, p. 42)</p><p>De início, o método catártico estava ligado e acessível estritamente por meio da hipnose, mas a concepção de</p><p>descarga emocional, a ab-reação, permanece posteriormente, mesmo depois do abandono de Freud com</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>relação à hipnose. Com os casos clínicos relatados nos Estudos sobre a Histeria, percebemos do ponto de</p><p>vista clínico os impasses colocados por Freud com relação à hipnose:</p><p></p><p>Ele percebia que os sintomas desapareciam com a ab-reação, entretanto não era raro reaparecerem de outro</p><p>modo.</p><p>Alguns pacientes simplesmente não eram hipnotizáveis.</p><p></p><p></p><p>Freud não se julgava um bom hipnotizador.</p><p>HIPNOSE, CATARSE E A ASSOCIAÇÃO LIVRE NA</p><p>EXPURGAÇÃO DO AFETO</p><p>O doutor Maicon Pereira da Cunha debate a importância e as limitações da hipnose para Freud, e sua</p><p>substituição pela associação livre com método catártico.</p><p>MÉTODO CATÁRTICO: DA HIPNOSE À ASSOCIAÇÃO</p><p>LIVRE</p><p>Talvez o mais importante de enunciar seja que Freud percebeu que, com a hipnose, havia o acesso a uma</p><p>produção narrativa que envolvia o sintoma histérico, mas que o sintoma facilmente se deslocava, o que</p><p>provocava empecilhos em sua ideia de cura da histeria. Algo permanecia oculto nessa trama de sentidos.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>Apesar das limitações da hipnose, estava nítido que a cura pela palavra era uma grande sacada nesse</p><p>contexto. Anna O. dizia que havia a “limpeza de chaminé”. Ou seja, a ideia do psicólogo ouvindo o paciente</p><p>vem daí. Era o início da Talking cure.</p><p>NESSE SENTIDO, A LINGUAGEM SERVE DE</p><p>SUBSTITUTA PARA A AÇÃO, MAS QUAL O MECANISMO</p><p>QUE ESTÁ EM CENA E QUE FICOU REVELADO PELO</p><p>MÉTODO CATÁRTICO?</p><p>RESPONDER</p><p>Quando uma representação entra em conflito com a cadeia de representações consciente, uma segunda</p><p>consciência é inaugurada para reter essa representação conflitiva. Vislumbramos, desse modo, o início do</p><p>surgimento daquilo que será chamado de inconsciente.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Então, seguimos a pista da importância da cura por meio da palavra, mas precisamos pontuar o quanto é</p><p>fundamental observar as transformações técnicas que permitiram o caminhar desde as primeiras conduções</p><p>das manifestações histéricas até a ideia da formação do conceito de inconsciente.</p><p>Do ponto de vista técnico, a hipnose cede lugar à técnica da pressão. Esta não precisava da indução do</p><p>estado hipnótico. Em vez da hipnose, a ênfase na técnica da pressão está centrada no domínio da sugestão,</p><p>de forma consciente, fora da hipnose.</p><p>Nesse contexto, Freud solicitava à paciente que deitasse e fechasse os olhos, de modo semelhante ao</p><p>método hipnótico. Ocorre que à medida que o processo de questionamento sobre os fatos que levavam a</p><p>determinado(s) sintoma(s) aumentava, não obstante, persistiam as resistências que faziam a defesa dificultar</p><p>o caminho em direção à origem da neurose.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>POUPEI-ME DESSE NOVO EMBARAÇO AO ME LEMBRAR DE</p><p>QUE EU PRÓPRIO VIRA BERNHEIM DAR PROVAS DE QUE AS</p><p>LEMBRANÇAS DOS ACONTECIMENTOS OCORRIDOS</p><p>DURANTE O SONAMBULISMO SÃO APENAS APARENTEMENTE</p><p>ESQUECIDAS NO ESTADO DE VIGÍLIA, E PODEM SER</p><p>REVIVIDAS POR MEIO DE UMA ORDEM DELICADA E DE UMA</p><p>PRESSÃO COM A MÃO, DESTINADA A INDICAR UM ESTADO</p><p>DIFERENTE DE CONSCIÊNCIA (...). ASSIM, QUANDO</p><p>ALCANÇAVA UM PONTO EM QUE, DEPOIS DE FORMULAR AO</p><p>PACIENTE UMA PERGUNTA COMO “HÁ QUANTO TEMPO TEM</p><p>ESTE SINTOMA?” OU “QUAL FOI SUA ORIGEM?”, RECEBIA</p><p>COMO RESPOSTA “REALMENTE NÃO SEI”, EU PROSSEGUIA</p><p>DA SEGUINTE MANEIRA. COLOCAVA A MÃO NA TESTA DO</p><p>PACIENTE OU LHE TOMAVA A CABEÇA ENTRE A MÃOS E</p><p>DIZIA: “VOCÊ PENSARÁ NISSO SOB A PRESSÃO DA MINHA</p><p>MÃO. NO MOMENTO EM QUE EU RELAXAR A PRESSÃO, VERÁ</p><p>ALGO À SUA FRENTE, OU ALGO APARECERÁ EM SUA</p><p>CABEÇA. AGARRE-O. SERÁ O QUE ESTAMOS PROCURANDO.</p><p>‒ E ENTÃO, O QUE FOI QUE VIU OU O QUE LHE OCORREU?”</p><p>( FREUD, 2006, p. 137)</p><p>Freud usou esse método por um tempo. No entanto, o caráter sugestivo era um problema da técnica da</p><p>pressão, pois esbarrava-se com resistências, de modo que algo esquecido simplesmente não pode ser</p><p>facilmente lembrado. Aí precisamos falar em defesa e mencionar o embrionário conceito do recalque, pedra</p><p>angular da psicanálise.</p><p>DEFESA</p><p>A concepção de defesa é publicamente expressa no artigo Psiconeurose de Defesa (1894). Nesse momento,</p><p>Freud articula a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise, que é a teoria do</p><p>recalcamento.</p><p>De acordo com Laplanche e Pontalis (2004): “a defesa incide sobre a excitação interna (pulsão) e,</p><p>preferencialmente, sobre uma das representações (recordações, fantasias) a qual está ligada, sobre uma</p><p>situação capaz de desencadear essa excitação na medida em que é incompatível com este equilíbrio e, por</p><p>isso, desagradável para o ego.” (p. 107).</p><p> ATENÇÃO</p><p>Como o ego deve ser o espaço de tentativa de preservação de uma certa coerência consciente, sendo assim</p><p>a forma para lidar com o conflito psíquico, a defesa age sobre o que vem a ser perturbador para o sistema</p><p>consciente. As variadas formas de defesa consistem nesse jogo de separação entre a representação e o afeto.</p><p>Por exemplo, podemos notar isso em um mecanismo histérico: uma representação conflitante é separada das</p><p>demais e sofre o processo do recalque, e o afeto fica investido no corpo, em um processo de conversão</p><p>somática. Dessa forma, a paciente investe a energia do afeto inaceitável (amor proibido, por exemplo) no seu</p><p>corpo, por meio do sintoma (por exemplo, apresentando uma cegueira sem causa anatomofisiológica</p><p>existente) e, assim, consegue dar conta do conflito psíquico que a atormenta.</p><p>Freud estava bastante atento aos relatos de suas pacientes histéricas, e pelo viés do corpo, de um corpo que</p><p>fala, que expressa uma equivalência ao psíquico, ele vai descobrindo cada vez mais a importância da</p><p>articulação do indivíduo na linguagem.</p><p>OS ABUSOS, OS TRAUMAS, AS VIOLÊNCIAS, MAS TAMBÉM O</p><p>QUE SE VIVE DE BOM, ENFIM, TODAS AS EXPERIÊNCIAS</p><p>PROVOCAM UMA MARCA NO PSÍQUICO, E O PSICANALISTA</p><p>TRABALHA COM ESSES EFEITOS QUE SURGEM NA CLÍNICA.</p><p>À medida que Freud escuta</p><p>suas pacientes, se intriga com a constância dos relatos de abusos sexuais, em</p><p>geral exercidos por uma figura masculina mais velha. A frequência dos relatos fazia Freud se questionar se</p><p>praticamente a totalidade de Viena era composta de abusadores.</p><p>Se é verdade que em muitos casos há realmente abusos sexuais, por outro lado, Freud percebe</p><p>paulatinamente que em muitos relatos havia presença da narrativa de abuso, de fatos que não aconteceram</p><p>materialmente, no que conhecemos como realidade material, e ao mesmo tempo, as moças não estavam</p><p>mentindo. Os fatos ocorrem aqui em uma outra dimensão, a dimensão da vivência da fantasia de cenas de</p><p>abusos que abriram espaço para a importância da vivência interna da realidade no entendimento da história</p><p>do paciente, a realidade psíquica.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>Aliado a isso, Freud escreve a Fliess que “não acredita mais em sua neurótica”, elencando a importância da</p><p>noção de fantasia e a primazia da realidade psíquica sobre a realidade material, com a fundação da</p><p>interpretação sobre o sujeito. Assim, ficam constituídos os papéis dessas duas realidades no entendimento do</p><p>paciente.</p><p>javascript:void(0)</p><p>FLIESS</p><p>Médico alemão cirurgião que conheceu Freud em 1897, e contribuiu na fundação do movimento</p><p>psicanalista. Fliess troca com Freud, por correspondência, suas dúvidas e hipóteses dos casos que</p><p>atendia.</p><p> RESUMINDO</p><p>Articulando esses eixos, temos o germe inicial da teoria do inconsciente. O inconsciente é o conceito principal</p><p>da psicanálise, a descoberta por excelência de Freud.</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA O TERMO UTILIZADO PARA</p><p>DESIGNAR A LIBERAÇÃO AFETIVA LIGADA A UM EVENTO TRAUMÁTICO:</p><p>A) Ab-reação</p><p>B) Translocação</p><p>C) Mutação</p><p>D) Chateação</p><p>E) Absorção</p><p>2. A FAMOSA FRASE DE FREUD A SEU AMIGO FLIESS, “NÃO ACREDITO MAIS EM</p><p>MINHA NEURÓTICA”, INSERE A NECESSÁRIA DISTINÇÃO ENTRE:</p><p>A) Mentira e verdade</p><p>B) Simulação e teatralização</p><p>C) Realidade e fantasia</p><p>D) Realidade material e realidade psíquica</p><p>E) Neurose e psicose</p><p>GABARITO</p><p>1. Assinale a alternativa que apresenta o termo utilizado para designar a liberação afetiva ligada a um</p><p>evento traumático:</p><p>A alternativa "A " está correta.</p><p>A ab-reação é uma descarga emocional pela qual o sujeito se liberta do afeto ligado à recordação de um</p><p>acontecimento traumático, permitindo, assim, que ele não se torne ou não continue sendo patogênico.</p><p>2. A famosa frase de Freud a seu amigo Fliess, “Não acredito mais em minha neurótica”, insere a</p><p>necessária distinção entre:</p><p>A alternativa "D " está correta.</p><p>A partir dos variados relatos no início da clínica freudiana, ficou nítida a necessidade de se ater à fantasia</p><p>como pressuposto básico da organização subjetiva, de forma a distinguir a realidade material da realidade</p><p>psíquica.</p><p>MÓDULO 3</p><p> Reconhecer as várias dimensões do conceito fundamental do inconsciente</p><p>A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE</p><p>SOBRE O CONCEITO DE INCONSCIENTE</p><p>VOCÊ SABE O QUE É O INCONSCIENTE? DESCREVA</p><p>COM SUAS PALAVRAS.</p><p>RESPOSTA</p><p>O Inconsciente não é meramente o que não está consciente. Portanto, esta é a primeira diferença básica: ser</p><p>ou estar inconsciente não é o mesmo que afirmar o conceito do Inconsciente. E perceba que estamos</p><p>realizando uma diferença gráfica: ao falar da descoberta de Freud, utilizamos a letra maiúscula, Inconsciente,</p><p>como substantivo, para marcar a diferença em relação ao inconsciente com letra minúscula, adjetivo,</p><p>associado a ser ou estar inconsciente.</p><p>QUANDO ALGUÉM DESMAIA, DIZEMOS QUE A PESSOA ESTÁ</p><p>INCONSCIENTE. MAS NÃO ERA A RESPEITO DISSO QUE</p><p>FREUD ESTAVA SE REFERINDO. TAMPOUCO FALARA DE</p><p>SUBCONSCIENTE! SUBCONSCIENTE É UM TERMO GENÉRICO</p><p>QUE PODE SIGNIFICAR ALGO QUE NÃO ESTEJA CONSCIENTE,</p><p>APENAS.</p><p>O Inconsciente freudiano é o lugar da causa psíquica, é o Inconsciente dinâmico. Esse Inconsciente é</p><p>dinâmico, uma região lógica do psiquismo. É uma instância psíquica, com suas leis próprias e, portanto, um</p><p>sistema próprio em contraposição ao sistema Consciente.</p><p>Ainda sobre as diferenças conceituais, podemos afirmar que a oposição que fizemos entre o Inconsciente</p><p>substantivo x inconsciente adjetivo equivale à diferença entre o Inconsciente dinâmico e o inconsciente</p><p>descritivo.</p><p>inconsciente substantivo</p><p>inconsciente dinâmico</p><p>javascript:void(0)</p><p></p><p>inconsciente adjetivo</p><p>inconsciente descritivo</p><p>Já existia a ideia do inconsciente descritivo no século XIX. Os estudos em Psicologia se ocupavam dos</p><p>processos psicológicos conscientes. Mas dentro disso, evidentemente, teria que haver espaço para as</p><p>descrições lacunares desses processos: são os déficits, o não funcionamento apropriado, os desgastastes dos</p><p>processos mentais, enfim, os limites dos processos psicológicos.</p><p>TUDO ISSO APONTA PARA ALGO QUE TEM A VER COM</p><p>PROCESSOS QUE PODEMOS DIZER QUE NÃO SÃO</p><p>EXATAMENTE CONSCIENTES.</p><p>Entretanto, dizer que alguém bateu com a cabeça em algum lugar ou que desenvolveu uma anomalia que fez</p><p>perder alguma funcionalidade psíquica e que, portanto, a pessoa está inconsciente, desacordada, ou que uma</p><p>parte de si não está funcional, estando inconsciente, nada disso é o que diz respeito ao Inconsciente</p><p>freudiano. E onde percebemos esse Inconsciente? Para tanto, precisaremos fazer alusão às chamadas</p><p>formações do Inconsciente.</p><p>AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE</p><p>J. Lacan (1901 – 1981) realizou o que chamou de um retorno a Freud, e desenvolveu em seu seminário V o</p><p>que chamou de formações do Inconsciente. Para entender melhor as considerações de Lacan, precisamos</p><p>voltar ao processo de formação dos sintomas na histeria.</p><p> ATENÇÃO</p><p>O sintoma é uma formação do Inconsciente, justamente porque realiza um compromisso entre o que pode e o</p><p>que não pode ser mantido no sistema Consciente.</p><p>Uma moça poderia resolver o conflito entre uma representação conflitiva com o restante da cadeia das</p><p>representações recalcando-a. O exemplo do caso Elizabeth, um daqueles cinco casos iniciais dos Estudos</p><p>sobre Histeria, é um bom exemplo. A moça tinha um apaixonamento velado pelo cunhado, marido da irmã. No</p><p>entanto, quando a irmã morre e ela sente que tem o caminho aberto para realizar seu desejo pelo cunhado,</p><p>ela desenvolve uma paralisia da perna, como alguém que “não podia andar com aquela história”.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>Vejam como o Inconsciente realiza uma operação altamente sofisticada para resolver um conflito, pois, apesar</p><p>da perna paralisada, ela não entrava em contato com a representação conflitiva, que poderia lhe causar mal-</p><p>estar, sobretudo em uma sociedade repressora, moralista como era a do final do século XIX. Então, o sintoma</p><p>surgiu como uma formação de compromisso entre o desejo e a expressão.</p><p>Assim, o sintoma é uma satisfação substitutiva. É uma maneira de revelar o conflito ao mesmo tempo em que</p><p>o encobre. Assim como o sintoma, os sonhos, os atos falhos, os chistes, os lapsos são outras formações do</p><p>Inconsciente, pois operam segundo essa mesma lógica de revelar de maneira desviada algum conteúdo do</p><p>Inconsciente.</p><p> COMENTÁRIO</p><p>O material recalcado deveria permanecer inconsciente, sob a ótica do sistema Consciente, dado que o</p><p>recalcado é algo conflitivo. No entanto, o recalcado insiste em surgir na cena, e as formações do Inconsciente</p><p>são a forma de expressão do material recalcado.</p><p>O INCONSCIENTE E OS SONHOS</p><p>Freud resgata o sonho como índice de um sentido, e que revela algo do Inconsciente. Os sonhos são um</p><p>enigma que Freud resgatou da tradição pré-moderna, atribuindo-lhes um sentido. Na modernidade, os sonhos</p><p>eram tidos como um material psíquico descartável, sendo vistos como um material advindo de uma certa</p><p>reciclagem mental.</p><p>Freud inicia sua exposição sobre os sonhos expondo que:</p><p>Na época pré-científica, facilmente os homens atribuíam significações mitológicas para seus sonhos.</p><p></p><p>Com a modernidade, os sonhos eram predominantemente concebidos como resíduos da vida psíquica.</p><p>Freud distingue três linhas de pensamento sobre a significação dos sonhos:</p><p>O PENSAMENTO DOS FILÓSOFOS</p><p>Consideravam a vida onírica uma elevação</p><p>da atividade mental.</p><p>O PENSAMENTO DOS PENSADORES</p><p>Consideravam os sonhos uma manifestação de forças que não se expandiram durante o dia.</p><p>O PENSAMENTO DOS MÉDICOS</p><p>Defendem que os únicos induzidores do sonho são os estímulos sensoriais e somáticos externos ou internos</p><p>ao indivíduo.</p><p>Para Freud, o sonho é uma maneira de o Inconsciente revelar um desejo de um modo disfarçado. No sonho, é</p><p>como se tivéssemos uma licença para entrar em contato com nossa loucura privada, como se não tivesse</p><p>relação conosco. Mas Freud vai dizer que o sonho revela justamente aquilo que é mais nosso!</p><p>O SONHO É UMA REALIZAÇÃO ALUCINATÓRIA DE UM</p><p>DESEJO.</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>O sonho é como uma janela para o Inconsciente. A importância dos sonhos para a psicanálise foi central, na</p><p>medida em que foi pela interpretação dos sonhos que o aparelho psíquico freudiano foi fundado, e, como tal, a</p><p>própria psicanálise.</p><p>Apesar de o texto do Inconsciente ter sido lançado objetivamente em 1915, considera-se a fundação da</p><p>psicanálise a partir do livro A Interpretação dos Sonhos, de 1900. Foi nesse livro que ficou registrado o modelo</p><p>do item B do capítulo VII, que é o primeiro modelo do funcionamento do aparelho psíquico, sendo este modelo</p><p>esboçado para a compreensão dos sonhos:</p><p>Imagem: Freud, 2006, p. 571.</p><p>Primeiro esquema de Freud do aparelho psíquico.</p><p> COMENTÁRIO</p><p>É nesse modelo em que espacialmente o Inconsciente ganha um lugar na topografia do aparelho psíquico,</p><p>onde vemos a abreviação ICS equivalente a ‘Ucs’, Unbewusste, Inconsciente em alemão, idioma de Freud.</p><p>Além dos sintomas e dos sonhos, Freud desenvolve outras formações do Inconsciente, como no texto no qual</p><p>fala sobre a psicopatologia do ponto de vista psicanalítico, que é a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901).</p><p>Além desse momento, em outros desenvolve a temática dos lapsos, dos chistes, das parapraxias, ou os</p><p>famosos atos falhos. Todas essas manifestações são formações do Inconsciente, pois revelam aquilo que</p><p>estava oculto, mas que não podia ser lembrado, pois estava mais do que esquecido, estava recalcado.</p><p>PARAPRAXIAS</p><p>As parapraxias são ações que a pessoa realiza de forma contrária à intenção original. Em outras</p><p>palavras, em alguns casos, realizamos atividades que conscientemente consideramos de uma forma,</p><p>mas inconscientemente essas atividades assumem o desejo que as originou em primeiro lugar e que se</p><p>encontra guardado. Como exemplo, podemos citar a ação de trocar um nome por outro durante uma</p><p>conversa.</p><p>A PSICOPATOLOGIA PELA QUAL SE INTERESSA O</p><p>PSICANALISTA É AQUELA DAS FORMAÇÕES DO</p><p>INCONSCIENTE QUE SE MANIFESTA NO DIA A DIA.</p><p>É em um momento em que se tropeça na linguagem, quando se diz algo sem ser intencional ou</p><p>deliberadamente, mas que é, na verdade, o que lá no fundo se desejava dizer. Sabe a brincadeirinha que diz e</p><p>que revela a verdade manifestada de maneira sutil, pelas bordas? Então, assim funciona o Inconsciente,</p><p>revelando-se sempre de maneira disfarçada, burlando a barreira do recalque.</p><p>Dessa forma, temos que:</p><p>javascript:void(0)</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>Os sonhos não são restos psíquicos, mas são a possibilidade de um desejo realizar-se de maneira</p><p>alucinatória, ou seja, por meio de imagens.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>Os sonhos são uma formação de compromisso entre o sistema consciente e o sistema inconsciente.</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>Assim como os sonhos, os sintomas, os atos falhos, os chistes e os lapsos são formações do Inconsciente.</p><p>SISTEMAS INCONSCIENTE E CONSCIENTE/PRÉ-</p><p>CONSCIENTE</p><p>O aparelho psíquico freudiano é formado pelos sistemas inconsciente e consciente. Essa é a divisão básica do</p><p>aparelho psíquico tal qual Freud o concebe.</p><p> ATENÇÃO</p><p>O pré-consciente faz parte do sistema consciente.</p><p>O pré-consciente é como um guardião, que faz a vigilância do que pode e do que não pode aparecer no</p><p>consciente.</p><p>Vamos tentar explicar um pouco o desenho do aparelho psíquico, como vimos acima, na figura do esquema</p><p>feito por Freud. Lembrando que essa organização do aparelho psíquico é totalmente lógica. Os lugares</p><p>psíquicos não existem espacialmente, ou seja, não existem referentes anatômicos para essas instâncias. É</p><p>um erro querer reduzir o aparelho psíquico em uma tradução cerebral, por exemplo.</p><p>NÓS SOMOS MUITO MAIS QUE AS RELAÇÕES ORGÂNICAS DO</p><p>CORPO.</p><p>Dito isso, retomamos as descrições do aparelho psíquico, pois como vemos na figura anterior, na qual Freud</p><p>esboça o primeiro modelo do aparelho psíquico, temos dois polos do psiquismo, uma extremidade sensorial,</p><p>onde se encontra um sistema perceptual (Pcpt), e uma extremidade motora (M). Perto do polo M, Freud</p><p>define o Pré-consciente e o Inconsciente.</p><p>Assim, temos:</p><p>No lado esquerdo o polo perceptivo, onde incidem os estímulos sensoriais.</p><p>&</p><p>No lado direito temos o polo motor, que corresponde à resposta.</p><p>ENTRE ESSES DOIS POLOS, TEMOS O SISTEMA DA MEMÓRIA</p><p>E A FUNÇÃO DO PENSAMENTO.</p><p>Nessa esquematização, o estímulo incide sobre o polo perceptivo e a resposta diz respeito ao polo motor.</p><p>Esse par estímulo-resposta, característico do estado de vigília, obedeceria a um vetor progressivo. Assim,</p><p>podemos entender que, quando estamos acordados, os estímulos que chegam à nossa percepção são</p><p>processados pelo nosso pensamento e sistema de memória até chegarmos a uma resposta.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>Os estímulos perceptivos simplesmente não trabalham sob o ponto de vista dos registros, estes que causam a</p><p>memória. Isso vai ocorrer, pois há um sistema mnêmico (Mnem), onde ocorrem as associações entre os traços</p><p>de memória. É assim que os traços de memória chegam até a consciência de forma que podemos organizar</p><p>nossas lembranças em uma cadeia associativa coerente. E esse é o sentido das produções psíquicas durante</p><p>a vigília, sentido que vai do polo Perceptual ao polo Motor. Esse sentido é chamado por Freud de sentido</p><p>progrediente.</p><p>Durante os sonhos, o material se apresenta, normalmente, de forma diferente, como formas alucinatórias e</p><p>fragmentadas das imagens sensoriais. Isso ocorre para que os conteúdos recalcados possam burlar o pré-</p><p>consciente e fazer sua manifestação no consciente.</p><p>O que acontece é que os pensamentos oníricos (que correspondem ao material dos sonhos que durante o dia</p><p>ficam barrados pelo Pré-consciente), no polo motor, ganham força no sentido contrário, sentido regrediente</p><p>(sentido direita-esquerda na figura acima). Em outras palavras, durante os sonhos, os pensamentos que não</p><p>podem acessar a motilidade voltam ao sistema de percepção. Assim, esse material ganha força ao passar</p><p>pelo Inconsciente, usando, na teoria, pela primeira vez, o Inconsciente como substantivo, o Inconsciente</p><p>dinâmico.</p><p>Imagem: Freud, 2006, p. 571.</p><p> RESUMINDO</p><p>Portanto, podemos dizer que o sentido que vai do polo Pcpt ao polo M é o sentido progrediente e o sentido</p><p>dos sonhos é o sentido regrediente, que vai do polo M ao polo Pcpt.</p><p>Ao elaborar uma constituição teórica nessa grafia do que ocorre nos sonhos, Freud inaugurou o modelo do</p><p>psiquismo com o qual trabalha em toda sua primeira tópica, que organiza a teoria da psicanálise até o texto de</p><p>1923, O Ego e o Id, quando um outro desejo do psiquismo se faz presente.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p>Dessa vez, a organização se dará em Id, ego e superego.</p><p>SISTEMAS INCONSCIENTE E CONSCIENTE / PRÉ-</p><p>CONSCIENTE</p><p>O doutor Maicon Pereira da Cunha explica o sentido progrediente e o sentido regrediente segundo os</p><p>sistemas Inconsciente, Pré-consciente e Consciente e a importância de cada um.</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA O PRINCIPAL CONCEITO DA</p><p>PSICANÁLISE</p><p>A) Inconsciente</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>B) Subconsciente</p><p>C) Representação</p><p>D) Afeto</p><p>E) Hipnose</p><p>2. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA AS FORMAÇÕES DO</p><p>INCONSCIENTE:</p><p>A) Memória e atenção</p><p>B) Sonhos e lapsos</p><p>C) Percepção e sistema mnêmico</p><p>D) Associações inconscientes e associações perceptuais</p><p>E) Representações e afetos</p><p>GABARITO</p><p>1. Assinale a alternativa</p><p>que apresenta o principal conceito da psicanálise</p><p>A alternativa "A " está correta.</p><p>Foi a principal descoberta de Freud a partir da investigação da histeria. O Inconsciente dinâmico, com suas</p><p>leis próprias, o lugar por excelência da causa psíquica, subverte os pressupostos com os quais lidava a</p><p>Psicologia, sendo a psicanálise conhecida como uma metapsicologia.</p><p>2. Assinale a alternativa que apresenta as formações do Inconsciente:</p><p>A alternativa "B " está correta.</p><p>Lacan, no seminário 5, registra os sonhos, lapsos, chistes, sintomas e atos falhos como formações do</p><p>inconsciente, pois são formas de expressão de formação de compromisso entre os sistemas inconsciente e</p><p>consciente.</p><p>CONCLUSÃO</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>A psicanálise surgiu a partir do enigma da histeria. Freud se debruçou sobre a histeria a partir de seu encontro</p><p>com um nó epistemológico provocado na comunidade médico-científica, que não encontrava um referente</p><p>orgânico para essa neurose.</p><p>Com a hipnose, foi possível colocar a histeria dentro de um setting narrativo, de forma que a expressão em</p><p>palavras transformava a experiência. A “limpeza de chaminé” permitia a liberação do afeto por meio da</p><p>lembrança do evento traumático. Com isso, Freud pôde construir um aparelho psíquico a partir da noção de</p><p>uma consciência dividida.</p><p>AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE FORAM FORMAS DE</p><p>ACESSO AO CONTEÚDO RECALCADO E OS SONHOS FORAM</p><p>O CARRO-CHEFE NESSA INVESTIGAÇÃO.</p><p>AVALIAÇÃO DO TEMA:</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>FREUD, S. (1893). Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: Comunicação preliminar. In:</p><p>FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 2 (Estudos</p><p>sobre a histeria. Cap. 1). Rio de Janeiro: Imago, 2006.</p><p>FREUD, S. (1893-1895). Casos clínicos. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas</p><p>Completas de Sigmund Freud. v. 2 (Estudos sobre a histeria. Cap. 2). Rio de Janeiro: Imago, 2006.</p><p>FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras</p><p>Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 3. Rio de Janeiro: Imago, 2006.</p><p>FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos (parte II). In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das</p><p>Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 5. Rio de Janeiro: Imago, 2006.</p><p>FREUD, S. (1901). A psicopatologia da vida cotidiana. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras</p><p>Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.</p><p>FREUD, S. (1915). O inconsciente. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas</p><p>Completas de Sigmund Freud. v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 2006.</p><p>FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras</p><p>Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. V, parte II. Rio de Janeiro: Imago, 2006.</p><p>GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. 21. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.</p><p>LACAN, J. O seminário. Livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.</p><p>LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. Vocabulário de Psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.</p><p>EXPLORE+</p><p>Para saber mais sobre os assuntos tratados neste conteúdo, leia:</p><p>O livro Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo, de 2016, que é uma biografia de Freud,</p><p>realizada pela psicanalista e historiadora Élisabeth Roudinesco.</p><p>A biografia de Freud, por Peter Gay, Freud, uma vida para o nosso tempo, e a clássica biografia de</p><p>Ernest Jones, Vida e Obra de Sigmund Freud.</p><p>Pesquise:</p><p>O canal no YouTube do psicanalista Christian Dunker costuma ter bons vídeos introdutórios sobre</p><p>questões interessantes da psicanálise.</p><p>O site Freudonline é uma ferramenta que contém a obra completa disponibilizada de Sigmund Freud.</p><p>CONTEUDISTA</p><p>Maicon Pereira da Cunha.</p>

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