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Lyzandra Linhares Introdução: O termo dermatite (eczema) refere-se a um grupo heterogêneo de distúrbios que compartilham semelhanças na apresentac ̧ão clínica e nos achados histopatológicos, mas que podem ter etiologias muito diferentes. A dermatite aguda frequentemente tem aspecto vesiculoso (como água fervente na pele), enquanto a dermatite crônica pode ser vermelha, escamosa e liquenificada. O prurido é um sintoma comum a todos os tipos de dermatite. A dermatite atópica é uma doenc ̧a de pele muito comum que afeta cerca de 20% das crianc ̧as nos países desenvolvidos. Em 90% dos pacientes, a instalação ocorre antes dos 5 anos e, em 65% dos casos, observam-se sintomas aos 18 meses. Asma e rinite alérgica são encontradas em muitos pacientes com dermatite atópica; entretanto, as crises de asma não necessariamente ocorrem junto às crises cutâneas. Aproximadamente 30% das crianças com dermatite atópica desenvolvem asma e 35% rinite alérgica. A dermatite é, geralmente, a primeira manifestação de atopia em muitos pacientes que, posteriormente, apresentam rinite, asma ou ambos; sendo um padrão epidemiológico denominado de marcha atópica. A dermatite atópica (DA) é a dermatose inflamatória, pruriginosa, crônica, com etiologia multifatorial. Tem predileção pelas áreas flexurais e caracteriza-se na fase aguda por eritema, edema, vesículas e secreções; e na fase crônica por liquenificação. Essa dermatose tem muitos efeitos psicológicos, sendo identificado domínios de sofrimento: saúde física (interrupção do sono, prurido e coçadura relacionada); saúde emocional (irritabilidade em crianças, diversos transtornos emocionais nos pais); funcionamento físico (restrição de atividades, ausência no trabalho); funcionamento social (sensação de isolamento, reações negativas de familiares). Vale ressaltar que embora os termos dermatite e eczema venham sendo utilizados como sinônimos, a maioria dos autores prefere o primeiro, visto que algumas das manifestações dessa doença não são eczematosas. Mais de 50% das crianças afetadas nos dois primeiros anos de vida não apresentam nenhum sinal de sensibilização mediada por IgE, mas podem se tornar sensibilizadas durante o curso da DA. A baixa prevalência de dermatite atópica nas áreas rurais, quando comparada às áreas urbanas, sugere ligação com uma hipótese denominada “hipótese da higiene”, em que a ausência de exposição a agentes infecciosos na infância precoce, aumenta a suscetibilidade a doenças alérgicas. Etiologia e Fisiopatologia: A etiologia da dermatite atópica é multifatorial e inclui uma combinação de suscetibilidade genética e desencadeantes e/ou exposições ambientais. Muitos loci de genes foram associados a dermatite atópica, incluindo genes relacionados com o aumento nos níveis de imunoglobulina E (IgE) ou com ativação de linfócitos T. A filagrina, uma proteína importante para a função de barreira da epiderme, também é um fator importante na patogênese da doença. Estudos tem identificado inúmeros fatores desencadeantes na DA, incluindo sudorese, stress, poeira, alguns tipos de água, alergia alimentar e sazonalidade. Enquanto alérgenos como ácaros da poeira doméstica e alimentos podem ser importantes em alguns casos, fatores não alérgicos como a textura das roupas, infecção pelo Staphylococcus aureus, exposição a substâncias irritantes que alteram a função da barreira da pele são geralmente importantes em todos os casos. Alergia alimentar é um assunto controverso, uma vez que muitos acreditam que que essas alergias seriam responsáveis pelas crises cutâneas. Nesse sentido, as alergias alimentares são mais frequentes no primeiro ano de vida, com pico de ocorrência aos 18 meses de idade. Os alérgenos mais comuns são leite e ovo, mas trigo, soja e amendoim também são alérgenos potenciais. Entretanto, dietas restritivas geralmente não resultam em melhora significativa da pele. Os pacientes com DA tem maiores chances de infecções como as por Staphylococcus aureus, molusco, herpes-vírus humano (HVH), papilomavírus humano (HPV) e Trichophyton rubrum e por espécies de Malassezia. Dermatite Atópica Extrínseca e Intrínseca: Uma das hipóteses sobre o mecanismo da dermatite atópica defende que a alteração reside num distúrbio imunológico que causa sensibilização mediada por IGE e a disfunção da barreira epitelial é vista como uma consequência da inflamação local (dermatite atópica intrínseca). A outra hipótese propõe que um defeito nas células epidérmicas leva a uma disfunção da barreira e os aspectos imunológicos são considerados epifenômenos/não produz efeito sobre o outro (dermatite atópica extrínseca). Algumas classificações distinguem a forma de dermatite atópica associada a IgE (dermatite atópica extrínseca), a qual denominam de dermatite atópica verdadeira; de outra forma não associada à IgE (dermatite atópica intrínseca), que chamam de dermatite não atópica. Logo, dermatite atópica e não atópica são doenças diferentes. Entretanto, como a pele seca é um sinal importante das duas condições, e a ausência de sensibilização mediada por IgE pode ser um fator transitório, há que se conciliar essas hipóteses divergentes. A DA é classificada em intrínseca ou extrínseca com base na presença ou ausência de anticorpos IgE específicos para alérgenos ambientais ou alimentares. A DA intrínseca caracteriza-se por níveis de IgE normais, ausência de antígenos IgE específicos, ausência de associação com doenças com doenças respiratórias e princk-testes cutâneos negativos para aeroalérgenos comuns e alimentares. Na DA extrínseca os níveis de IgE estão aumentados e os antígenos IgE específicos ambientais e alimentares são positivos. Vale ressaltar que eosinofilia e anticorpos IgE contra Malassezia sympdialis são encontrados nos dois tipos de DA. Além disso, a DA extrínseca ocorre com mais frequência (aproximadamente 75% dos casos), e a DA intrínseca é mais prevalente nas mulheres. Embora as manifestações cutâneas sejam indistinguíveis, a prega de Dennie-Morgan (prega edematosa na pálpebra inferior) é significativamente mais presente na DA intrínseca. Já a história pessoal de atopia, conjuntivite recorrente, hiperlinearidade palmar, ceratose pilar (pele áspera com inchados semelhantes a acne), pitiriase alba (eczemátide/manchas esbranquiçadas), eczema nas mãos e influencia de fatores ambientais ou emocionais estão mais relacionados com a DA extrínseca. Genética da Dermatite Atópica: A maioria dos pacientes com DA atópica tem história familiar de atopia, demonstrando forte ligação entre DA e fatores genéticos. Escaneamentos de genomas têm demonstrado várias possibilidades de lócus relacionados a dermatite atópica nos cromossomos 3q21, 1q21, 16q, 17q25, 20p e 3p26. A maior parte das regiões geneticamente associadas com DA corresponde a lócus associados a psoríase, embora raramente as duas doenças estejam associadas. Vários genes candidatos (gene suscetível a causar uma doença) tem sido identificado na DA, sendo eles envolvidos na codificação de citocinas responsáveis pela regulação da síntese de IgE: IL- 4, IL5, IL-12, IL-13 e GM-CSF (fator estimulador de colônia – macrófagos e granulócitos). Essas e outras citocinas são produzidas por dois tipos principais de linfócitos T. Os linfócitos tipo helper 2 (Th2) produzem IL-4, IL-5 e IL-13, as quais estimulam a produção de IgE. Os linfócitos tipo helper 1 (Th1) produzem principalmente IL-12 e interferon-gama, que tem efeito supressor na produção de IgE e estimulam a produção de IgG. Nos pacientes com DA tem sido identificado mutações nos genes que afetam a região promotora de linfócitos e ganhode polimorfismos de função na subunidade alfa dos receptores de IL-4. Na DA há um desequilíbrio nas respostas imunes Th1 e Th2, havendo um domínio geneticamente determinado por citocinas Th2, o que afeta a maturação de células B e uma restruturação genômica nessas células, que favorece a comutação de IgM para IgE. Muitos fatores genéticos complexos parecem estar envolvidos na DA, entre eles a mutação da filagrina (FLG) e o polimorfismo do gene Spink5. A filagrina é uma proteína fundamental na diferenciação epidérmica, e mutações nela são mais frequentes na dermatite atópica de inicio precoce, especialmente na forma extrínseca, e indica uma propensão para asma alérgica. No entanto, não existe associação entre mutação de FLG e doença respiratória sem dermatite atópica. Variantes genéticas de outras estruturas epidérmicas, como enzimas do estrato córneo e um novo colágeno epidérmico, também tem sido descrita na fisiopatologia da DA. A dermatite atópica é uma complexa doença genética que surge de interações gene-gene e gene-ambiente. A doença emerge no contexto de grupos de genes importantes: genes que codificam proteína da epiderme ou outra proteína epidérmica estrutural, e genes que codificam importantes elementos do sistema imune. Alterações da Barreira Cutânea: A epiderme é composta por quatro camadas: camada córnea, camada granulosa, camada espinhosa e camada basal. Sabe-se que o estrato córneo constitui a barreira cutânea (“tijolo cimento”) e é uma estrutura metabolicamente ativa que está em constante interação com as camadas epidérmicas abaixo dele. Ele é formado a partir de uma sequencia de eventos que envolve captação de íons pelos queratinócitos e peptidases ativadas pelo mecanismo de transporte ativo para converter profilagrina em filagrina. A pele possui vários aminoácidos e íons que mantem a hidratação do estrato córneo e são conhecidos como NMF (fator de hidratação natural), o qual defende a pele impedindo a entrada de substâncias estranhas. A filagrina recruta queratinócitos e outras proteínas para formar o estrato córneo nas camadas superficiais da epiderme. Posteriormente os núcleos dos queratinócitos se degeneram e as células se tornam planas, de modo que as moléculas de queratina podem se alinhar em paralelo ligadas aos lipídeos extracelulares e criar um envelope corneificado. A xerose, ressecamento anormal da pele e/ou membranas mucosas, é devida ao defeito da barreira epidérmica, sendo um marcador de diagnostico para DA. Redução significativa nos níveis de ceramidas 1 e 3 (lipídeos naturais da pele) do estrato córneo também é detectada em pacientes com DA, e pode ser consequência do aumento da enzima glicosilceramida/esfingomielina desacilase que quebra as ceramidas. Os danos na barreira da pele na DA aumentam a irritação levando à liberação de citocinas proinflamatórias pelo queratinócitos e redução do limiar do prurido (coceira).. Outros fatores incluindo histaminas, prostaglandinas, taquicininas e substancia P também tem sido demonstrado agravando o prurido da pele. Uma importante consequência do aumento do prurido é um aumento concomitando na perda de água transepidérmica, a qual é significativamente maior nas lesões de DA do que na pele não lesada e na pele saudável, e correlacionada com o nível aumentado de IgE e a intensidade do prurido. Vale ressaltar que alterações nas ceramidas secundarias a variações do pH do estrato córneo pode prejudicar a maturação dos corpos lamelares (são produzidos por exocitose pelos queratinócitos e produzem os lipídeos intercelulares), prejudicando a barreira da pele. Logo, essas alterações na barreira epidérmica permitem a penetração transepidérmica de alérgenos ambientais e, juntamente com o prurido aumentam a inflamação e sensibilização. Mecanismo Imunopatológico da Dermatite Atópica: Disfunção na barreira epidérmica é pré-requisito para penetração de alérgenos de alto peso molecular, os quais desencadeiam uma ação das células dendríticas e aumentam a polarização de Th2. Além disso, queratinócitos também produzem citocinas capazes de sinalizarem para as células dendríticas dirigir a polarização de Th2. É através da indução de citocinas que a inflamação difusa da pele pode afetar o sistema imune adaptativo, alterar o fenótipo dos monócitos circulantes e aumentar a produção de prostaglandina E na DA. IgE antígeno-especifica é a principal estrutura de reconhecimento de alérgenos nos mastócitos e basófilos e pode também ser instrumento de indução de tolerância alérgeno-específica ou de mecanismo anti-inflamatório. Na dermatite atópica, há uma reação de hipersensibilidade do tipo 1. Nesse sentido, as células dendríticas epidérmicas apresentadoras de antígenos captam e apresentam os alérgenos para as células Th2, as quais produzem IL-4, IL-5 e IL- 13. Essas citocinas aumentam a produção de IgE pelo linfócito B, e proliferação e maturação de eosinófilos. Sabe-se que os granulócitos (eosinófilos, mastócitos e basófilos) possuem receptor para a porção Fc do IgE. Quando esse IgE sensibilizado pelo alérgeno, liga- se nessas células, ocorre a degranulação, liberando mediadores inflamatórios, o que aumenta o processo inflamatório a partir do aumento do recrutamento de células de defesa; além da produção de histamina que intensifica o prurido. Esse recrutamento ocorre a partir de alterações vasculares, como o aumento das moléculas de adesão, aumento da permeabilidade vascular e vasodilatação. Vale ressaltar que as células de Langerhans (CLs) – localizadas na epiderme – são as primeiras células a encontrar qualquer agente patogênico que viole a barreira da pele. Elas apresentam receptores para IgE, e quando ativados, estimulam as células T e a produzem citocinas que favorecem o ambiente Th2, criando um circuito de amplificação continuada para posterior produção de IgE e inflamação, caracterizando a fase crônica. Na fase crônica as CLs capturam e processam os alérgenos e autoantígenos e os apresentam aos linfócitos T. Os eosinófilos estão elevados no sangue periférico do paciente com DA, e migram para a derme juntamente com monócitos (MO) e LT. Os eosinófilos são fontes de IL-12, a qual permite a indução de Th1 via INF-gama. Outras substâncias inflamatórias (TNF-a, quimiocinas...) são liberadas, fazendo com que haja mais recrutamento de células inflamatórias. Infecções Secundárias na Pele com DA: Mais de 90% dos pacientes com DA possuem colonização por Staphylococcus aureus na pele, que é fator de gravidade. A toxina alfa do S. aureus está associada à DA especialmente nos pacientes com a forma extrínseca da doença. Essa toxina induz aumento da apoptose dos linfócitos bem como a citotoxicidade dos queratinócitos. Ela também ativa as células T a produzir INF levando assim ao desenvolvimento de DA crônica. Além disso, as enterotoxinas (superantígenos) do S. aureus também tem papel importante na patogênese da DA, uma vez que elas desencadeiam a lesão cutânea quando aplicadas diretamente sobre a pele. Essas enterotoxinas também estimulam a produção de quimiocinas derivadas de queratinócitos que recrutam células T. Já no que se refere a infecções virais, sabe-se que viroses como o vírus do herpes simples podem interferir na patogênese da doença e ocasionar complicações com potencial risco de morte, o eczema herpético. Pacientes com DA também são suscetíveis a eczema vacinal causado pelo vírus da vacina. Em relação as infecções fúngicas, tem-se alta incidência de colonização por Malassezia, que é significativamente mais elevada na cabeça e no pescoço em comparação o tronco e membros; e os adultos com DA são maispropensos a desenvolver IgE especifica para Malassezia. Manifestações Clínicas: O quadro clínico da DA caracteriza-se pela tríade: xerose, prurido e eczema (inflamação cutânea). A morfologia das lesões cutâneas da dermatite atópica é semelhante em todas as faixas etárias. A xerose (pele seca) com descamação fina e áspera ao tato, tanto nas áreas com eczema como nas áreas acometidas é presente nos pacientes com dermatite atópica, podendo ser localizada ou generalizada. O prurido é sintoma constante e acompanha a demartite atópica em todas as suas fases. Essa manifestação quando intensa, interfere nas atividades diurnas e no sono. Caracteristicamente há piora do prurido concomitantemente à sudorese. Com o atrito da pele pelo ato de coçar aumenta a quantidade de neuropeptídeos e outros mediadores inflamatórios liberados pelos queratinócitos e o ciclo prurido-coceira-prurido é gerado e perpetuado. O ato de coçar prejudica a barreira da pele e ocasiona piora nas lesões, facilitando infecções secundarias e produz liquenificação. Em todas as fases da doença, as lesões podem se apresentar eczematosas agudas, subagudas ou crônicas. Esses estágios podem ocorrer de maneira sequencial, mas, na maioria dos casos, coexistem em diferentes regiões corpóreas ou até na mesma região, o que denota evolução por surtos da afecção. Há tre ̂s distribuic ̧ões clássicas para a dermatite atópica: do lactente, do infante e de adultos. Lactentes: geralmente, apresentam-se com dermatite envolvendo bochechas, tronco e superfície extensora dos membros. O couro cabeludo também pode estar envolvido, mas a região da fralda é poupada. Infantes: tendem a ter envolvimento da região posterior do pescoço, superfícies flexoras dos membros (fossa antecubital e fossa poplítea), punhos, mãos, tornozelos e pés. A ceratose pilar pode estar presente nas superfícies extensoras dos brac ̧os e coxas. Queratose pilar Crianças mais velhas e adultos: envolvimento de região posterior do pescoço, superfícies flexoras dos membros e das mãos. Também podem estar presentes alterações típicas da dermatite atópica crônica, incluindo placas hiperceratóticas espessadas com liquenificação e prurigo nodular. Hipopigmentac ̧ão ou hiperpigmentação pós-in- flamatória é outro achado associado. A xerose é uma característica comum. Complicações: Infecções Bacterianas: É uma complicação mais frequente, embora dificilmente seja uma infecção grave. São causadas pelo Staphylococcus aureus e menos frequente pelo Streptococcus pyogenes. Infecção evidente ou supercolonização da pele po S. aureus são importantes fatores de exacerbação e/ou manutenção da dermatite com concomitante piora do prurido. Essas infecções muitas vezes provocam um surto inicial de um ciclo de DA e induzem a resistência a corticoesteroides. Deve-se suspeitar de colonização por esses patógenos todas as vezes que houver aumento do eritema, secreção ou pustulização, principalmente se houver resistência ao tratamento. Infecções Virais: Verrugas, molusco contagioso e herpes simples são de ocorrência mais frequente nos atópicos. A complicação mais importante é a erupição variceliforme de Kaposi, geralmente desencadeada pelo contato com o vírus do herpes simples. A infecção cutânea curso com um quadro de febre e toxemia, ao mesmo tempo em que surgem lesões vesiculopustulosas (semelhantes a varicela) disseminadas, particularmente nas áreas eczematosas. As lesões são geralmente umbilicadas, o que é bastante característico e ajuda a diferenciar da fase aguda da dermatite. O exame citológico em que se observa as células gigantes virais, auxilia no diagnóstico diferencial. Reações Anafiláticas: Ocorrem com mais frequência nos indivíduos atópicos, por causa da hiper-reatividade a alérgenos. Podem ocorrer com uso de vacinas ou medicamentos. Retardo do Crescimento: Ocorre geralmente nos casos graves, extensos ou eritrodérmicos. Não está bem esclarecido se é decorrente da doença propriamente dita ou do uso de corticoterapia sistêmica. Alterações Oculares: Ceratoconjutivite, uveíte, alterações na retina, fotofobia, catarata subcapsular, ceratocone, são alterações oculares associadas a DA, sendo a catarata a mais comum dentre elas. Na infância é de ocorrência ocasional, sendo mais comum em adolescentes e adultos, principalmente na DA grave. Nos casos de DA grave, de longa evolução e com lesões na face, deve ser realizado exames oftalmológicos periodicamente, objetivando a detecção precoce de afecção ocular. Diagnóstico: Não existem marcadores clínicos e laboratoriais para a dermatite atópica. O diagnóstico depende da combinação da história e das características clínicas, sendo estabelecido principalmente pelo prurido intenso, xerose cutânea e manifestações clinicas características. A pele pode estar normal durante as remissões, mas a história de eczema infantil ou erupção flexural são altamente sugestivas. Critérios Diagnósticos: Os critérios de Hanifin e Rajka são os mais conhecidos e utilizados no mundo todo. Esses critérios não são utilizados na pratica de diagnóstico, apenas para estudos ou como discriminadores confiáveis e importante para o diagnóstico de DA no caso dos critérios maiores. A gravidade da DA pode ser quantificada pelo uso dos índices Scorad (mais utilizado), índice de área de eczema e gravidade (Easi). O Scorad utiliza os parâmetros de extensão e intensidade das lesões e sintomas subjetivos (sono e prurido) para avaliação da gravidade. Com o uso do Score global, notas abaixo de 25 sugerem casos leves; de 25 a 50, casos moderados; e acima de 50, casos graves. O Easi se baseia nos sinais agudos e crônicos da inflamação (eritema, induração/pápulas, escoriação e liquenificação), utilizando os sinais chaves de eczema em quatro divisões anatômicas naturais do corpo: a cabeça e o pescoço, o tronco e os membros inferiores e superiores. O score de ate 5 corresponde a quadros leves; até 12 a quadros moderados; de 12 a 20, quadros graves; e maior que 20 são casos muito graves. Na prática clinica os indicadores de gravidade que oferecem as melhores bases para a tomada de decisão no tratamento são: presença ou ausência de distúrbio do sono, extensão e localização das lesões, e evolução clínica. Diagnóstico Laboratorial: Não há achados laboratoriais nem características histopatológicas especificas para DA, mas alguns exames complementares podem ser de utilidade no diagnóstico. Os testes cutâneos de sensibilidade imediata (Princk Teste): é indicado em todas as doenças com reação de hipersensibilidade do tipo 1 mediada por IgE, sendo um valioso auxiliar no diagnóstico na asma e na rinite alérgica; porém não tem o mesmo valor diagnóstico na DA. Os principais alérgenos testados são os aeroalérgenos e alérgenos alimentares. Os aeroalérgicos mais importantes no nosso meio são: ácaros da poeira domiciliar, fungos do ar, pelos de animais domésticos, barata. A sensibilização a alérgenos inalantes é frequentemente observada em pacientes com DA. A região preconizada para a realização do este é a parte volar do antebraço, evitando a dobra antecubital e o punho. A reação é considerada positiva quando a pápula for maior ou igual a 3mm. Já a dosagem de anticorpos IgE: auxilia com a determinação da dosagem sérica total de IgE, que se correlaciona com a gravidade da DA e pode ter valor prognóstico. A dosagem de IgE especifica (rast) pode ser solicitada em casos selecionados, e é realizada com o soro do paciente, utilizando um antissoro radiomarcado frente a IgE humana para identificar anticorpos IgE contra alérgenosespecíficos. No que se refere a alergia alimentar associada a DA, tem-se o exame padrão ouro duplo-cego, placebo-controlado. Esse teste depende de dietas de exclusão e posterior reintrodução dos alimentos, consumindo muito tempo e, em alguns casos, podendo comprometer o estado nutricional do paciente. O rast é o correspondente in vitro do prick test, com as mesmas indicações e basicamente os mesmos antígenos. Em crianças muito pequenas prefere-se o Rash pela dificuldade de realizar o teste cutâneo. O patch test: é o teste de contato para atopia é mais uma ferramenta na investigação dos mecanismos do eczema da pele. Porém a utilidade clinica desse exame com aeroalérgenos para diagnóstico de DA ainda não estão tão claros. O patch teste é útil para excluir o diagnóstico suspeito de dermatite de contato alérgica sobreposta à DA. Outros Exames: Hematológico: A maioria dos pacientes com DA apresentam eosinofilia periférica. Testes Farmacológicos: testes que denotam a vasculorreatividade anômala (acetilcolina, ácido nicotínico, histamina) podem ser úteis, mas são poucos utilizados. Cultura e antibiograma de lesões cutâneas infectadas: frequentemente revela a presença de Staphilococcus aureus. Citodiagnóstico de Tzanck: pesquisa de vírus para diagnosticar variceliforme de Kaposi, uma complicação comum da DA. Micológico direto e cultura de lesões cutâneas: em pacientes com predomínio de lesões na cabeça e no pescoço pode podem ser identificadas espécies de Malassezia, que pode ser responsável pela manutenção das lesões nesse local. Exame histopatológico: biopsia de pele tem pouco valor no diagnóstico de dermatite atópica, não sendo realizada de rotina. Sinais Clínicos que Auxiliam no Diagnóstico: Embora não sejam patognomônicos, ocorrem com maior frequência nos portadores de dermatite atópica. Prega infraorbital de Dennie-Morgan: dupla prega na pálpebra inferior irradiando para baixo. É mais frequente em lactentes, tendendo a desaparecer com a idade, e pode ocorrer em outras dermatoses inflamatórias. Sinal de Hertoghe: rarefação ou ausência do terço lateral dos supercílios, provavelmente relacionado ao atrito pelo ato de coçar. Pigmentação Periorbital: mais frequente em jovens com manifestações respiratórias (asma, rinite). Palidez Cutânea: presente desde os primeiros anos de vida, de origem desconhecida, sendo mais frequente nos pacientes portadores de manifestações respiratórias. Diagnóstico Diferencial: Dermatite seborreica: descamação amarela untuosa (oleosa/gordurosa), principalmente na cabeça, face e região do pescoc ̧o. Pode ser encontrada em grandes dobras, como axilas, e são disseminadas na infância (mais precoce). São lesões eritematoescamosas e não tão pruriginosa quanto a dermatite atópica. Psoríase: placas bem-delimitadas, persistentes, com descamac ̧ão sobrejacente. Nos lactentes, a região da fralda é comumente afetada. São lesões eritematoescamosas, o prurido quando houver não é intenso e não há antecedentes de manifestações de atopia. Dermatite de contato (irritativa ou alérgica): placas eczematosas bem-delimitadas, em geral, localizadas nas áreas de contato, e é mais frequente no adulto. Eczema numular: erupções cutâneas em forma de moeda, de etiologia desconhecida (em geral, componente bacteriano), mais comum em adultos e idosos e localizados nas extremidades. Eczema disidrótico: vesículas profundas (bolhas), não inflamatórias, com 1 a 3 mm, sobre palmas das mãos e plantas dos pés. Dermatose palmoplantar juvenil: descamac ̧ão superficial dos pés agravada pela transpiração. Tinha do corpo: placas anelares bem-demarcadas descamativas, frequentemente com bordas elevadas e área central clarificada. Ptiríase Rósea: quando ocorre eczematização secundária pelo uso de medicamentos tópicos. As lesões são eritematodescamativas e geralmente precedidas pela placa mãe (lesão inicial). Referências: Tratado de dermatologia/editores Walter Belda Junior, Nilton di Chiacchio, Paulo Ricardo Criado. – 2. Ed. – São Paulo: Editora Atheuneu, 2014. OUTOR, Carol; HORDINSKY, Maria. Dermatologia clínica. São Paulo: Grupo A, 2014. Lyzandra Linhares