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EPISTEMOLOGIA DO FENÔMENO RELIGIOSO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever o papel da transcendência e da imanência na experiência religiosa. > Diferenciar experiência religiosa de experiência mística na história das religiões. > Conceituar o sagrado a partir da cosmovisão de uma experiência religiosa, inter-religiosa e não religiosa. Introdução Todo ser humano é um ser de e para a experiência que o conecta diretamente com a vida vivida. A experiência religiosa é parte dessa conexão e tende a compor a cosmovisão pela qual as pessoas orientam suas vidas, seja ela orientada para a transcendência ou para a imanência. Porque as pessoas vivem realidades dife- rentes, também suas experiências são distintas, inclusive a religiosa, por isso o esforço para entendê-las em seu contexto vital e longe de uma uniformização que é enganosa. A experiência que pode ser aproximada em sua realização é a mística, mas ainda assim ela precisa ser reconhecida conforme os objetos e cosmovisões que a circundam, promovem e explicam. A complexidade da experiência religiosa é mais percebida quando observamos que diferentes cosmovisões podem promovê- -la, sejam elas inter-religiosas e não religiosas. Neste capítulo, você estudará sobre a experiência religiosa, o que ela é e de que modo pode se falar de experiência religiosa transcendente e imanente. Usando os recursos do estudo metodológico comparado, você perceberá que a experiência religiosa é representada de várias maneiras, sendo fundante de A experiência religiosa Sidney de Moraes Sanches qualquer cosmovisão religiosa. Diferenciar a experiência mística nesse ambiente é importante para entendermos o que ela propõe ao ser humano. Além disso, você estudará o sagrado conforme percebido em uma tipologia das cosmovisões religiosa, inter-religiosa e não religiosa. Transcendência e imanência na experiência religiosa Experimentar é o que nós, seres humanos, fazemos por meio do corpo no mundo onde vivemos. É o resultado de nossa ação, livre e voluntária. Por isso, dizemos que cada ser humano é um ser de e para a experiência. Portanto, é importante, para isso, a consciência do corpo existindo em um lugar e em um tempo e de como a percepção dessa existência no corpo permite conhecer o que quer que seja. Experimentamos as coisas como parte de nossa condição humana marcada pela provisoriedade e mudança. Longe de ser acabado, pronto e definitivo, o ser humano é um ser de tentativa. Nas condições de tentativa, todo autoco- nhecimento é, de fato e por experimentação, provisório, relativo ao processo mesmo da experimentação e passível de revisão e de correção em qualquer tempo. E as alternâncias de experiências mostram que o ser humano não se compreende como o mesmo e nem a experiência como mesma durante a sua existência inteira. A experimentação das coisas e de si mesmo mostra que o ser humano está aberto e à procura de um encontro no qual ele se reconheça, seja capaz de se identificar, de dizer a si mesmo e para os demais quem ele é. Ele deseja se reconhecer como o sujeito que vê e sente as coisas que experimenta. A expressão do sujeito se dá por meio das coisas que lhe são próprias, seus interesses, metas, planos e gostos. A experiência do mundo diz respeito ao que o sujeito percebe, diz e se comporta, como exclusivamente sua. Na experiência do sujeito não importa o mundo em sua forma objetiva e factual, onde contam forma, volume, peso, as coisas. Importa, sim, a relação do sujeito com ele, e o meio para isso é a mente. Por meio dela, o mundo que está lá fora torna-se o mundo aqui dentro, e podem ser feitas várias coisas que são totalmente e exclusivamente do sujeito. Assim é a experiência religiosa. A religião pode ser definida como uma entidade concreta, objetiva e claramente delimitada, como se fosse um objeto de estudo. Você pode apontar seu credo comunicado em uma infinidade de textos e manuais, ou oralmente, em uma longa tradição; sua liturgia, desde A experiência religiosa2 rituais simples aos mais complexos; sua história desde o fundador ou funda- dora até sua disseminação para muitos lugares e suas transformações. Você pode comparar essa religião com outra religião estabelecendo as semelhanças e diferenças. No entanto, isso não significa que você conhece a religião, uma vez que essa é uma propriedade do sujeito enquanto faz a experiência religiosa. Em geral, uma experiência religiosa é apresentada em termos de uma salva- ção ou cura, apontando para alguma profunda necessidade humana, não importa como ela se manifeste. Cognitivamente, pode ser reportada como iluminação, entendimento, compreensão. Um mundo novo se abre ao sujeito dessa experiência (YANDELL, 2010). Mas também pode ser relatada como uma experiência visual e auditiva mental, não mediada pelos órgãos físicos: o olho e o ouvido. Em outros momentos, ela é introduzida por objetos físicos, mas com uma informação anexada considerada uma revelação ou comunicação espiritual fora ou contida no objeto. Outro modo de representar a experiência religiosa é quando ela é men- talmente significada pelo sujeito como uma crença ou fé religiosa. Uma representação mental intencional é a expressão do modo como pensamos sobre algo a partir de um pano de fundo previamente estabelecido em nossa mente. Nesse caso, o sujeito se orienta intencionalmente para e por deter- minada experiência religiosa, de modo que quando ele fala religiosamente está falando de sua fé, isto é, a partir de sua fé. Nesse sentido, a fé é: A relação de um indivíduo, ou de muitos indivíduos, com o transcendente divino, seja este conhecido como pessoal ou não-pessoal, como um ou como muitos, como moral ou não-moral, como benevolente ou exigente. A fé, neste sentido, inclui a experiência religiosa, o senso do numinoso, emoções religiosas de amor e reverência de esperança e temor, a disposição de adorar e o comprometimento por parte da vontade de servir uma realidade e um valor mais altos. Tudo isso é uma participação imediata, interior, pessoal, viva e existencial em um relacionamento experimentado com uma realidade maior, talvez infinitamente maior, e misteriosa que chamamos de Deus (SMITH, 2006, p. 11). A experiência religiosa é orientada para a transcendência ou para a ima- nência. Veja como pode ser isso a seguir. A experiência religiosa orientada para a transcendência Comumente, a experiência religiosa é considerada um ato humano de trans- cendência. Transcender trata da elevação a algo superior em relação à posição A experiência religiosa 3 na qual se encontra quem usa a palavra. Trata-se de uma metáfora espacial com o sentido de: elevar-se, ultrapassar, colocar-se acima. Mas, o que é transcendido? Quando as pessoas usam essa palavra o fazem para falar de algo que vai além delas mesmas, seja para fora delas, seja para dentro delas. E, também, usam essa palavra para dizer de algo que está acima de sua experiência comum, cotidiana. Portanto, transcender diz da experiência humana de elevação um deslocamento de baixo para cima; de ir além, de ultrapassar certos limites condicionados pela própria experiência humana. Transcendência é empregada com duas outras palavras: êxtase e su- blime. O êxtase refere-se a algo incomum, extraordinário e sobrenatural. Tipicamente sensorial, ele produz arrebatamento, enlevo, encanto, como se à mente fossem oferecidas pelos sentidos as mais profundas impressões, percebidas a partir de experiências, conhecimentos e contatos impossíveis de se ter acesso em condições normais. O sublime identifica o sagrado ou o santo e sugere algo perfeito, o degrau mais alto em uma escada ascendente, por isso mesmo o objetivo, a meta da experiência religiosa. O sublime produz a sensação humana da incomunicabilidade por estar perante algo impossível de descrever, de imaginar e, ainda mais, de falar. Em geral, a experiência religiosa sempre foi profundamente orientada para a transcendência, buscando a linguagem do sublime e do êxtase,toda- via não exatamente como um salto ou fuga para algum lugar ou tempo, em busca de uma origem ou de um fundamento último e final. Nela, e por ela, se busca um encontro substancial e permanente para além da experiência humana cotidiana e transitória que a eleva, que a arrebata, que a esvazia e a preenche com novos sentimentos e sentidos, implicando um novo olhar sobre a própria experiência. Nela, e por ela, o sagrado ou santo ou sublime se apresenta entre a posse e o desapego, sem se dar ao domínio do ser humano e nem à sua representação em linguagem humana. Ele se dá e é recebido, exigindo apenas abertura e acolhimento. Isso é representado por uma visão essencialista do ser humano no qual, conforme Tillich: “[...] a existência é, por assim dizer, tragada pela essência. As coisas existentes e os eventos são a atualização do ser essencial em um desenvolvimento progressivo” (1987, p. 261). A experiência religiosa orientada para a imanência Sendo assim, a imanência passou a ser o lugar da transcendência. Agora, pre- cisamos entender o uso da palavra imanência. Em seu uso clássico, imanência é aquilo que permanece no sujeito enquanto ele está fazendo alguma coisa. A experiência religiosa4 Temos o uso de imanente como a experiência e atividade humanas feitas nos limites da experiência possível, nesse caso, em oposição à transcendente, que ultrapassa esses limites. E, ainda, temos o uso de imanente como a experiência e atividade humanas limitadas ao eu consciente. Em resumo, como diz Abbagnano (2007, p. 540), “[...] comum a esses três significados do termo é o conceito de imanente como tudo que, fazendo parte da substância de uma coisa, não subsiste fora dessa coisa”. A experiência religiosa orientada para a imanência surge a partir da con- cepção do ser humano como existindo ou sendo dotado de ser; participa da realidade percebida e pode ser encontrada nela. Por outro lado, diante do ser humano está a possibilidade de “não ser”, pois é dele que o ser emerge; ele tanto pode realizar sua plena existência quanto pode mergulhar no vazio de sua não existência. Por exemplo, existe a branquitude, mas ela somente se realiza na cor branca. Outro exemplo: existe a humanidade, mas ela somente se efetiva no ser humano. Superar as dificuldades, empecilhos e estruturas limitadoras que impedem o potencial humano de existir é a tarefa que o ser humano se propõe no mundo, e isso acontece quando a existência se une à essência. Isso é representado por uma visão existencialista do ser humano que o considera alienado de seu verdadeiro potencial e, por isso, angustiado sob o peso de estruturas que impedem sua plena realização, precisando que sua vida seja reorientada para que encontre o pleno sentido (TILLICH, 1987). Imanência diz respeito às coisas, pessoas e acontecimentos naquilo que tem começo, meio e fim neles mesmos. Por exemplo: é imanente à flor o fato dela nascer, desenvolver e morrer, esgotando a própria existência nesse processo. Pode-se dizer, assim, que a cosmovisão moderna se orienta para o imanente. A transcendência na experiência religiosa: de Agostinho de volta a Platão Em sua fase madura, há muito tempo bispo e pensador profundo, Agosti- nho reflete sobre o conhecimento de Deus adquirido desde a sua primeira experiência religiosa. Ele diz estar certo de que ama a Deus, no entanto, de que maneira ele ama a Deus? Ele responde a partir de uma analogia entre os sentidos externos e os sentidos internos, dizendo: A experiência religiosa 5 Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo o gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo o meu Deus. E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo o meu Deus (AGOSTINHO, 1999, p. 264). Agostinho constrói dois mundos que se correspondem sensorialmente. Com as percepções obtidas dos órgãos físicos ele tem acesso a luz, sabores, cheiros, gostos e contatos. Mas, amar a Deus, para ele, é uma entrega da vontade, e ele não vê como entregar-se a esses belos prazeres trazidos pelos sentidos simplesmente porque está convencido de que a aparência externa do mundo não contém Deus. Mas, existe um outro mundo, correspondente ao externo, por ele chamado de homem interior, cuja verdade é maior que aquele. Tal como o homem exterior recebe as impressões do mundo externo por seus sentidos, assim o homem interior recebe as impressões de Deus em si mesmo. Introspectivamente, Agostinho pode relembrar o que aconteceu com ele quando encontrou a Deus: uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço. Todavia, diferentemente das impressões do homem exterior, cujas impressões se desvanecem e se esvaem, estas do homem interior permanecem para sempre: uma luz que o espaço não contém, uma voz que o tempo não arrebata, um perfume que o vento não espalha, um sabor que não se acaba. Tudo aponta para a perpetuidade de uma experiência inesgotável naquilo que ela oferece a Agostinho. Mas, se Agostinho ama a Deus, a qual Deus ele ama? Ele passa a procurá-lo até onde seus órgãos físicos podem alcançar: a terra, o mar e o ar. Apesar de tudo ser belo, ainda não eram Deus. Então, ele se voltou para seu mundo interior investigando a si mesmo e descobriu que era composto de duas substâncias: corpo e alma, sendo a alma a mais importante, pois os sentidos do corpo remetiam a ela suas impressões para que ela julgasse o que era verdadeiro. Todavia, a alma também não era Deus. Contudo, se do corpo vai-se até a alma, da alma vai-se até Deus que está acima da alma. Assim, diz Agostinho (1999, p. 266): “[...] pela minha própria alma hei de subir até Ele. Ultrapassarei a força com que me prende ao corpo e com que encho de vida o meu organismo”. Subindo até Deus, de degrau em degrau, Agostinho A experiência religiosa6 vai conhecendo a Deus, pois na memória estão as imagens verdadeiras que sendo contempladas lhe trarão a verdade eterna que ele buscou a vida inteira. O modo como Agostinho compreendeu e apresentou sua experiência religiosa ocorrida na pequena Cassicíaco impressiona pela semelhança com a compreensão e apresentação platônica da realidade e do modo de conhecê- -la. Platão as elaborou em sua conhecida Teoria das Ideias ou das Formas. Conforme ela, há uma distinção entre a aparência do mundo, percebida pelos órgãos sensíveis humanos, e a sua forma verdadeira, percebida somente pela alma. O acesso a esse mundo de formas verdadeiras é feito na medida em que, por um exercício racional da alma, elas vão sendo discriminadas e superadas, das inferiores até as superiores, subindo degrau por degrau, até chegar à forma perfeita. É um exercício perfeitamente intelectual que leva à verdade eterna, por Platão apresentada como: o bem, o belo e o justo. Contudo, em Agostinho não é o intelecto humano quem ilumina e permite o conhecimento, mas a luz divina que bondosamente lança seus raios sobre esse intelecto, como ele disse: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei!... Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira!” (AGOSTINHO, 1999, p. 285). A imanência na experiência religiosa: de Aquino de volta a Aristóteles A filosofia aristotélica tratou de universalizar os raciocínios silogísticos em uma escala que ia da existência em categorias até o conceito mais universal possível sobre o ser: o ser enquanto ser, cujo conhecimento Aristóteles chamou metafísico. O ser é:essência e existência, necessidade e contingência, ato e potência. Além disso, ele possui forma, matéria, movimento e finalidade. Essa filosofia forneceu uma teologia natural para explicar as contínuas e sucessivas mudanças que ocorriam nos atributos do ser como causadas por outro até chegar à causa primeira, não causada, chamada Deus. A metafísica aristotélica foi usada por Tomás de Aquino tanto para construir a noção de um mundo que partia de Deus até a menor das criaturas inanimadas, como para guiar a mente humana para Deus até encontrá-lo como o único Deus na escala para além de todo ser. Assim, vai-se do mais sensível e particular ao mais abstrato e universal. Santo Tomás não hesitou em assimilar a metafísica aristotélica ao afirmar que ainda que possamos pensar universalmente sobre as coisas, é somente na existência individual dessas coisas que é possível conhecer como elas são. Como ele disse: “[...] é necessário que a essência signifique alguma coisa de A experiência religiosa 7 comum a todas as naturezas pelas quais os diversos entes são classificados nos diversos gêneros e espécies” (TOMÁS DE AQUINO, 2008, p. 4-5). Entretanto, ainda que os entes sejam muitos entre gêneros e espécies segundo suas naturezas, isso não significa que eles existam por si mesmos, mas que eles se vinculam a partir de uma hierarquia de causas até chegar a uma causa para todas as causas, ao primeiro ente que é a causa de todo ser, que é Deus. E, Deus, sendo causa de si mesmo, nele essência e existência o tornam tão-somente ser. Desse modo, em Deus estão todas as perfeições dos demais seres, e Ele as atribui a cada um conforme a bondade de sua vontade (TOMÁS DE AQUINO, 2008). A experiência religiosa, nesse caso, a experiência de Deus, acontece na interação com as coisas em sua natureza comum de existência. E, de novo, Aquino usa a doutrina aristotélica, na qual a experiência surge da repetição das mesmas vivências percebidas pelos sentidos até que elas são definitivamente armazenadas na memória, e utilizadas pela Razão vez após vez sempre que necessário (ABBAGNANO, 2007). O ponto de partida se dá por aquilo que está mais próximo do ser humano que são as coisas existentes em seu mundo, por meio da identificação da sua essência, do que cada coisa é. Assim se inicia o processo linear de conhecimento que se eleva até o conhecimento da essência do ser universal, que é Deus, onde essência e existência estão unidas. Mas, esse modo de explicar a experiência religiosa é ainda insuficiente, pelo simples fato de que não é possível a experiência direta de Deus visto ser ele inacessível à experiência humana comum e, então, à sua razão. Desse modo, Aquino retira a experiência religiosa do campo da experiência da dou- trinação, dos afetos e mesmo da reflexão intelectual, para concentrá-la na fé como plena certeza resultante do que Deus revela sobre si mesmo. Desse modo, a experiência religiosa é a apreensão de algo fora da realidade comum humana, mas possível de ser vivenciada porque há na natureza humana algo que predispõe não somente para a busca, mas para a apreensão desse objeto. Outra vez, no caso especificamente de Aquino, esse objeto é Deus enquanto uma pessoa que manifesta seu desígnio no mundo e, por isso mesmo, pode ser apreendido nele. A experiência religiosa8 Experiência religiosa e experiência mística na história das religiões Cosmovisões religiosas Antes de penetrar no entendimento da experiência religiosa, é importante entender como se constrói e como funciona uma visão de mundo, uma mun- divisão ou uma cosmovisão religiosa, e, para isso, usaremos da contribuição fundante do filósofo alemão Wilhelm Dilthey. Segundo Dilthey (1992), uma visão de mundo, ou cosmovisão, brota da vida como sua raiz. Da reflexão sobre a vida nasce a experiência de vida. A vida vivida é aquela onde experiências comuns a todos se repete diariamente formando tradições que, com o passar do tempo, se tornam experiências gerais da vida. Estas dão ao ser humano uma sólida identidade que na mesmidade do seu eu permite que ele se reconheça e aos outros também. Conforme Dilthey (1992), uma visão de mundo é regida por certos princípios. O primeiro deles são as disposições vitais, que são os ânimos reunidos pelos seres humanos perante os vários acontecimentos da vida. O segundo deles são as tentativas de solução do enigma da vida, onde a religião tem papel fundamental junto com a poesia e a metafísica. Trata-se de uma interpretação de mundo que visa dar-lhe significado e sentido. Quando uma compreensão da vida se torna ampla o suficiente para resolver o enigma da vida temos, então, uma visão de mundo ou cosmovisão. Via de regra, a estrutura de uma mundividência é sempre a mesma e consiste em: [...] uma conexão em que, sobre a base de uma imagem cósmica, se decidem as questões acerca do significado e do sentido da vida e daí se deduzem o ideal, o sumo bem, os princípios supremos da conduta de vida (DILTHEY, 1992, p. 15). A primeira camada dessa estrutura, segundo Dilthey (1992), é a imagem de mundo, que dá origem à segunda camada quando a imagem de mundo se torna modeladora da valoração da vida e da compreensão do mundo. A partir de então a cosmovisão plasma, transforma e reforma o mundo. São muitas e variadas as visões de mundo, tantas quantas são as condições de vida humana: clima, raça, a formação dos povos, épocas e tempos: Dilthey (1992, p. 17) afirma que: A experiência religiosa 9 [...] a vida que brota em condições tão especializadas é muito diversificada, e assim é também o próprio homem, que apreende a vida. E a estas diversidades típicas acrescentam-se as dos indivíduos singulares, do seu meio e da sua experiência vital. As visões de mundo se encontram umas com as outras levadas pelos seres humanos, seus possuidores, e tendem a se chocar, se reconciliar, se superar e se impor uma à outra, quando não mesclando-se e gerando novas concepções de mundo. Uma visão de mundo não nasce nem da ciência nem da filosofia, áreas da cultura destinadas ao trabalho disciplinado e orientado, mas da religião, da arte e da metafísica, regiões da cultura desinteressadas e livres para criar novos caminhos. No caso próprio da religião, uma cosmovisão religiosa nasce da conexão do ser humano com a vida. Essa conexão vital reside na distinção entre um mundo familiar ao ser humano, onde ele domina a natureza, e um outro mundo não tão familiar, desconhecido para ele, sobre o qual ele deve submeter-se, seja admitindo a existência de seres superiores aos quais deve submissão, seja aceitando a orientação de mediadores que o conduzam em meio a esse mundo desconhecido. Dessas relações nasce a magia, de onde procede o culto, sendo sua forma acabada a religião, que se desdobra em: [...] lugares sagrados, pessoas santas, imagens de deuses, símbolos, sacramentos, constituem casos singulares dessa relação. significam na religião o que o simbólico significa na arte e o conceptual na metafísica. E a tradição, justamente graças à obscuridade da sua origem, transforma-se num poder de força excepcional, no seio da relação religiosa (DILTHEY, 1992, p. 23). Essas ideias religiosas elementares, assim reunidas sob uma religião, constituem as mundividências religiosas, cuja essência se encontra na relação entre o visível e o invisível, um mundo inferior ou terreno e outro superior ou celestial, para a interpretação da realidade, às vezes em constante luta entre um e outro; na valoração da vida formando um ideal prático; no discurso simbólico para enunciação das ideias; nas doutrinas da fé para formalizar a tradição; nas práticas religiosas da oração e da meditação para possibilitar a comunicação com um ser superior. Veja a apresentação da cosmovisão religiosa indígena apresentada pelo pajé Kizibi do povo Desana assistindo ao vídeo “Olhar indígena”, disponível na plataforma YouTube. A experiência religiosa10 Cosmovisões religiosas brasileiras O que dizer dasmundivisões religiosas dos povos originários e estabelecidos neste país que chamamos de Brasil? O que há de peculiar na conexão vital com a realidade local que forma e é comunicada nas cosmovisões religiosas brasileiras? Temos, de início, duas características básicas ou ideias religiosas elemen- tares fundantes: a crença em uma providência superior, isto é, a certeza de que o mundo e a vida são cuidados por Deus, para os católicos e protestantes, ou por deuses e espíritos, para os indígenas e africanos. E a crença de que o mundo e os fatos da vida podem ser alterados pela intervenção superior, considerada uma resposta direta e imediata a um pedido ou apelo dirigido a algum ou a alguns desses cuidadores. Na base comum a essas crenças está outra que afirma a existência de multidões de espíritos, seres invisíveis subordinados e instrumentos dos seres cuidadores, que povoam o mundo junto com os seres humanos. Esse modo de pensar organiza o mundo e a vida sob o governo de seres pessoais e forças atuantes. Seres pessoais são os espíritos separados em superiores, os quais existem para além da realidade material das pessoas, e inferiores, aqueles que estão mais próximos das pessoas e intervêm na sua realidade material. Fala-se de Deus, mas admite-se o contato com deuses e deusas regionais, fantasmas, mortos, demônios, espíritos maus, santos, etc. Forças atuantes são impessoais e são relacionadas com o cotidiano das pessoas, como a sorte, o destino e poderes que podem decidir o que vai acontecer com alguém. Outras forças podem entrar em contato com as pessoas durante a sua existência e podem ser manipuladas em favor ou contra elas, como astros, amuletos, talismãs, magia, feitiços, etc. A existência das pessoas está ligada a esses “seres” e “forças”, onde pro- curam soluções para as doenças, fome, futuro incerto, direção em decisões, sorte no amor, como lidar com os espíritos. As pessoas tentam conquistar o favor de seres pessoais ou de forças atuantes, a fim de conseguir algum benefício próprio, imediato e particular, para si mesmas e para outras pessoas. Todavia, o Cristianismo estabelecido via evangelização católica e protes- tante fornece o ideal doutrinário, conceitual e moral dessas cosmovisões, em uma síntese não tão tranquila. Determinada pelo batismo cristão após a catequese, as cosmovisões religiosas vão mais além do estabelecido pela doutrina e organização religiosa cristã, distanciando-se pouco a pouco na medida em que inclui as ideias religiosas fundantes. Assim, crenças e prá- A experiência religiosa 11 ticas religiosas cristãs são misturadas facilmente às formas não cristãs de religiosidade, como a indígena e a africana, resultando outras cosmovisões com traços indígenas-africanos-cristãos. Tipologias da experiência religiosa Cosmovisões religiosas surgem de experiências religiosas como seu elemento fundante. Contudo, uma experiência religiosa não é única nem unificada. Para descrevê-la, precisamos de uma tipologia da experiência religiosa, isto é, uma investigação comparativa quanto ao modo como as diversas cosmovisões religiosas propõem a vivência da fé religiosa a seus praticantes. O método comparativo nos ajuda a entender quão variados são os tipos e subtipos de experiência religiosa, conforme pode-se verificar segundo Yandell (2010), a seguir. Experiências de iluminação As experiências de iluminação são típicas de religiões como o Budismo, o Jainismo e o Hinduísmo vedanta. No Budismo, é chamada de Nirvana e des- creve estados fugazes da consciência, até mesmo de sua suspensão total, e a quietude como consequência. No Jainismo, é chamada de Kevala, concen- trada na perenidade do eu em meio às percepções breves da consciência. No Hinduísmo, vedanta é chamada Moksha a experiência que envolve a identifi- cação do eu com Brama. Veja que todas sugerem a mesma experiência: uma autoconsciência a partir do despertamento do eu, mas cada uma difere no que diz respeito ao objeto e ao fim dessa iluminação. Experiências do numinoso As experiências do numinoso são particulares das religiões monoteístas como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, comumente vinculadas à percepção de um Deus pessoal e autocomunicante. O sujeito experimenta o grandioso, espetacular, majestade e santidade de um ser vivo que desperta nele um sentimento de criaturidade e dependência, acompanhada de uma sensação de pecaminosidade, que gera arrependimento e adoração. Diferentemente das experiências anteriores, a experiência é feita fora do eu, não havendo nenhum grau de identificação o eu e a experiência. A experiência religiosa12 Experiências da natureza Também existem experiências da natureza na qual o sujeito se envolve percep- tivelmente com algum elemento natural, normalmente de caráter autônomo e individual, desvinculada de tradições e práticas religiosas. Tipologias dos objetos da experiência religiosa Toda experiência religiosa possui ou é dirigida para um objeto, um algo com o qual ela se relaciona, e que se torna o centro de seu discurso também. O método comparativo nos ajuda a conhecer e identificar os muitos e variados objetos das diversas experiências religiosas. Veja, a seguir, a classificação apresentada por Webb (2017). Experiências da iluminação Nas experiências de iluminação típicas do Budismo, Jainismo e Hinduísmo, não há um ser distinto e separado como objeto da experiência religiosa, e sim um fato ou aspecto básico da realidade: brama, o eu, ou o vazio. Característica da tradição religiosa budista é a meditação a partir da concentração em algum objeto da realidade que está na mente em busca da sua superação até ver a verdadeira natureza da realidade. Experiências do numinoso Nas experiências do numinoso o objeto é o próprio Deus, entendido como um ser espiritual onipotente, onisciente, e onipresente, eterno e perfeitamente bom. A iniciativa da revelação é de Deus a pessoas por ele escolhidas para alguma tarefa, como Moisés, Jesus ou Maomé, os profetas, ou a pessoas que se esforçam por conhecê-lo, como os místicos e místicas. Experiências da natureza Nas experiências da natureza é difícil especificar um objeto, visto que, de modo geral, ele se encontra difuso e fluido ou concentrado em alguma parte ou aspecto natural, sem que seja caracterizado por algum traço identitário. Experiência mística Uma experiência religiosa peculiarmente incomum é a experiência mística. Por isso mesmo é bastante complicada uma definição, visto que ela comporta “[...] uma constelação de práticas distintas, discursos, textos, instituições, A experiência religiosa 13 tradições, e experiências objetivando a transformação humana” (GELLMAN, 2019, documento on-line). De todo modo, é possível oferecer uma definição ampla e outra restrita de experiência mística. Gellman (2019) explica a experiência mística como uma experiência per- ceptiva que vai além dos sentidos e da introspecção comum, com ou sem a presença de reações físicas ou mentais, cujo resultado é a aquisição de um conhecimento de alguma realidade, seja Deus, seja o próprio eu, seja outro lugar. Dessa forma, toda experiência religiosa é uma experiência mística. Por outro lado, uma definição restrita acrescenta um aspecto unitivo à experiência perceptiva, onde acontece a dissolução dos limites entre quem tem a experiência e o objeto experimentado, acontecendo uma união total com a erradicação de qualquer duplicidade ou multiplicidade. Essa é considerada a experiência mística exemplar, pois ela vai além do conceito de experiência religiosa enquanto relacionada a algum conteúdo ou contexto religioso. A experiência mística na história das religiões A partir da observação empírica comparativa da experiência mística, conforme compreendida e vivenciada nas diversas religiões, Gellman (2019) constrói a seguinte tipologia de suas características fundamentais: Extrovertida e introvertida A experiência mística extrovertida é externa ao sujeito quando se dá a uni- dadecom o mundo ao seu redor; enquanto a introvertida é interna ao sujeito quando a unidade é dirigida para a sua interioridade, gerando uma percepção de nulidade, vazio ou falta de percepção sensorial do mundo externo. Dualista e monista A experiência mística dualista preserva a distinção, ainda que tênue, entre o sujeito e o que é desvelado a ele; enquanto a monista é unitiva dissolvendo a dualidade em uma só dimensão ou realidade. Nesse último caso, pode-se falar da união entendida como mútua participação na mesma realidade, e da união entendida como identificação quando acontece o desaparecimento do sujeito na realidade desvelada. Ambas as experiências são tipicamente encontradas no Cristianismo, sobretudo os chamados místicos e místicas medievais. No primeiro modelo, temos Bernardo de Claraval que descrevia a união com Deus como uma participação mútua em amor; e Jan van Ruysbroeck, para quem a união com Deus era semelhante à união do ferro com o fogo. A experiência religiosa14 No segundo modelo, temos o místico Sufi al-Husayn al-Hallaj (858–922), que chegou a proclamar “eu sou deus”; e o cabalista judeu Isaac de Acre, que escreveu sobre sua alma ser absorvida por Deus semelhante a um jarro de água em uma fonte corrente. No segundo modelo, temos o caminho místico de Teresa de Ávila, composto por: � oração mental; � oração de silêncio; � devoção de união onde a razão é absorvida em Deus; � devoção de arrebatamento onde tudo desaparece restando apenas a presença de Deus. Teúrgico e não teúrgico A experiência mística teúrgica procura ativa e deliberadamente, por meio de ritos e práticas, a comunhão com o divino movendo-o para alguma finalidade ou propósito do sujeito. Enquanto a não teúrgica envolve os mesmos atos, porém sem essa pretensão. No primeiro modelo, temos a mística cristã que, de certo modo, elabora caminhos para o encontro com Deus e busca dispor a graça divina em favor do sujeito; a Cabala judaica onde o sujeito objetiva fazer mudanças na vida interior da divindade; e a magia ritual que busca incorporar o divino. No segundo modelo, temos escolas filosóficas chamadas esotéricas que estudam as bases da magia e dos rituais sem, todavia, incorporá-los em alguma atividade mística. Apofático e catafático A experiência mística apofática afirma que nada pode ser dito acerca do modo como ela acontece, muito menos daquilo que é conhecido como resultado dela. Ela é totalmente incomunicável. O oposto acontece na experiência mística catafática, onde ela pode ser descrita como também o seu conteúdo é comunicável. Como exemplo de uma experiência mística apofática está no Tao, onde nomear as coisas é o princípio de toda multiplicidade, enquanto não nomear é o princípio criador do céu e da terra. Como exemplo de uma experiência mística catafática temos presente na descrição de cada etapa da elevação até o divino recheado de afirmações positivas acerca de quem o divino é. A experiência mística, por sua própria natureza, é descrita como inefável e paradoxal. Inefável é usada quando o sujeito afirma tal beleza, verdade e perfeição que não cabe uma linguagem ordinária para comunicá-la. Paradoxal A experiência religiosa 15 qualifica a experiência mística oposta àquilo que é esperado pelo sujeito, ou por atitudes que sugerem o contrário, como esvaziar-se para ser cheio, ou procurar um estado entre o pensamento e o não-pensamento. Assim qualificada e apresentada no campo do método comparativo das religiões, podemos conhecer a experiência mística em sua relação com a experiência religiosa, sem perder de vista que o que pode ser aprendido de ambas é estreitamente associado à mundividência própria de cada sujeito que faz a experiência. Sagrado a partir da cosmovisão de uma experiência religiosa, inter-religiosa e não religiosa Quando a pessoa diz ter experiências de uma religião, mais de uma religião ou nenhuma religião, sua compreensão se enquadra em um conjunto de experiências religiosas ou piedosas originais do mundo no qual vive. E o que impressiona as pessoas seja em qualquer situação na qual acontece a experiência religiosa ou não religiosa é o que lhe vêm gratuitamente, como um dom, cujas características são bondade, verdade e beleza, que despertam no ser humano outra ordem das coisas, e constitui, para ele, outro modo de ver sua própria existência no mundo. Essas características se apresentam em toda experiência religiosa e inter-religiosa, mas também se fazem perceber onde a religião sequer é mencionada, e onde nenhuma cosmovisão religiosa é indicada, mas cuja presença é percebida na interpretação das vivências do mundo. Sagrado e cosmovisão de uma experiência religiosa Uma cosmovisão religiosa reconhece o sagrado em tudo aquilo ao qual se atribui a capacidade de encarnar, exteriorizar ou institucionalizar, no sentido de ritualizar, o sentimento humano perante o que há de mais fundamental, no sentido de mais real, da sua experiência de viver no mundo. Por isso, sagrado é tudo aquilo que é dado como “separado” ou “santo”, isto é, ele tende a constituir um espaço da experiência humana no mundo distinto das coisas ordinárias. Uma experiência religiosa assim orientada sacraliza ou santifica lugares (templo), tempos determinados (dia, festa), ações (ritos), pessoas (profetas e sacerdotes), textos (escrituras, narrativas, fórmulas), imagens (pinturas, A experiência religiosa16 esculturas), espetáculos (representações), etc. Ela exige uma atitude especial do ser humano, como certo temor ou reverência profunda, que modifica o comportamento, os gestos, as roupas, a fala, as ações, os relacionamentos. Mais do que isso, porém, a experiência religiosa do sagrado identifica-o com um outro para o qual todo ser humano tende, como descreveu Eliade (1992, p. 13): A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, urna pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe solução de continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo “de ordem diferente” – de uma realidade que não pertence ao nosso mun- do – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo “natural”, “profano. Eliade (1992) segue dizendo que sagrado e profano constituem um modo de se posicionar frente ao Cosmos, pois quando o sagrado se manifesta, o faz a partir do cosmos, isto é, da ordem natural. Árvores, rios, matas, ob- jetos, pessoas, vivas ou mortas, servem para mostrar que há algo mais na existência humana, um mistério oculto que chama e atrai para a descoberta, proporcionando outra dimensão da vida. O ser humano, então, percebe em si um temor, uma reverência, uma admiração que o chama para um encontro interior que ele sente almejar e necessitar dentro dele mesmo. Eliade (1992) distinguiu entre o sagrado e o profano como duas modalidades de existir do ser humano no mundo. Paralelamente ao espaço e tempo em que vivemos nossas vidas comuns, existe outro espaço e tempo para onde nos lançamos em busca de sentido e experiência transempírica. Isso não significa que saímos de nossa existência cotidiana, mas que criamos nela espaços e tempos no qual vivenciamos outra realidade em nossas vidas. São variadas as linguagens pelas quais se apresenta o sagrado na expe- riência religiosa. Ela pode ser mitológica, onde se fala do sagrado em termos de imagens, narrativas e símbolos, normalmente fantásticos, de modo a apelar à imaginação e aos sentimentos, antes que à razão ou à fé, criando certos universais que explicam a existência humana no mundo. Pode ser filosófica, na qual se faz a associação entre a experiência religiosa e uma manifestação racional como formação e comunicação de conceitos que ajudem a explicá-la e a entendê-la. Pode ser ética-teológica, de modo que o sagrado é ligado a um deus e as instituições, leis, costumes e demais vivências humanas. E, ainda, pode ser fenomenológica,onde a apresentação da experiência religiosa é percebida, recebida e representada na subjetividade de um sujeito que pode falar sobre ela. A experiência religiosa 17 A experiência que o ser humano faz com o sagrado, todavia, é maior do que aquilo que lhe é apresentado. Nele, o sagrado se faz representar como relação e encontro com o sublime e santo, inserindo-o em outra dimensão da realidade. E, também, como salvação, gozo perene, e transformação que reo- rienta sua existência para o que a transcende, como uma união indestrutível. “Sagrado” é uma palavra comum em nosso vocabulário e geralmente usada em oposição a profano ou a mundano. A ênfase excessiva nessa distinção tende a dividir a vida em duas esferas e a desvalorizar o profano ou mundano como de menor valor, e até pecaminoso e prejudicial. Sagrado e cosmovisão de uma experiência inter- religiosa Uma cosmovisão inter-religiosa preserva o que há de religioso no sagrado, entretanto partilhando-o com mais de uma cosmovisão religiosa. É possível refletir sobre isso a partir de três temas: a experiência do sagrado é comum a toda e qualquer experiência religiosa; a experiência religiosa se dá e se faz a partir de contextos diferentes dando lugar a diversas cosmovisões religiosas; o fenômeno contemporâneo da globalização religiosa coloca, necessariamente, a pluralidade religiosa e como as religiões interagem umas com as outras. Começando por esse último tópico, vivemos um tempo no qual as religiões estão disseminadas por toda a parte, tornando-se globais. As pessoas podem experimentar um culto amazônico do Santo Daime em uma sala de reuniões de uma grande capital em quase qualquer lugar do mundo. São muitas as possibilidades de experimentações religiosas, o que não implica um vínculo institucional com nenhuma delas, como diz Jungblut (2014, documento on-line): Uma das coisas que mais fica evidente nesse processo de horizontalização da globalização da religião é o ganho de autonomia identitária dos indivíduos frente às “tradições” que sustentam muitas das modalidades religiosas existentes na atualidade. As religiões –e mesmo as religiosidades mais difusas e desinstitu- cionalizadas do mundo moderno– necessitam, em maior ou menor escala, algum ancoramento em tradições com alguma profundidade histórica. É preciso ter em mente, portanto, o processo de destradicionalização que é desencadeado pela globalização e que afeta o campo religioso mundial. O inverso também deve ser refletido. De que modo e em que medida a globalização religiosa entendida como um processo social diversamente A experiência religiosa18 experimentado, que atravessa as nações, modificando a experiência do tempo e do espaço, afeta as religiões? Conforme Ortiz (2001), não há o predomínio de uma religião global, pois todas as religiões e crenças estão presentes de modo diferenciado, e mesmo a experiência religiosa é diversa em cada uma delas. Para Ortiz (2001), as religiões estão presentes para além dos limites terri- toriais e políticos de um Estado-nação, e tem mais potencial aglutinador de ações e estratégias globais, demandando a lealdade dos seus participantes independentemente de onde estão localizados e da sua lealdade a uma nação onde nasceram ou vivem. Toda religião se tornou um lugar de memória e de identidade, onde as pessoas se vinculam umas às outras, como parte de uma comunidade religiosa global. A falência do projeto modernizador de articular as necessidades das sociedades, abriu espaço para que as religiões provessem meios a partir de suas próprias sabedorias para orientar os indivíduos em uma escala transnacional, propondo, inclusive, uma ética global apoiada em uma concepção religiosa da dignidade humana, da duplicidade humano-natureza, em franca oposição à ideologia do mercado global, considerada promotora do que há de mais perverso por estimular a ação egoísta humana: o consumo. Dilthey (1992) nos ensina que diversos contextos mudam as conexões vitais das pessoas, provocando, também, experiências de vida diferentes, que, por sua vez, rearranjam as mundividências religiosas, e é o que acontece no mundo atual. Quaisquer que sejam, contudo, elas retêm o mesmo propósito de oferecer uma solução para os enigmas da vida sob a base de uma imagem cósmica. Desde a qual são decididas as questões do sentido e do significado da vida, o bem para o qual as pessoas são orientadas, os princípios e valores que as guiam em seu cotidiano, nas pequenas e grandes decisões. Sobre ela é edificada a vida psíquica das pessoas, determinando seus prazeres e desprazeres, gostos e atitudes, a sua vida pessoal e coletiva. As pessoas vivenciam experiências religiosas diferentes constituindo mundividências religiosas variadas, justificando que o conjunto delas seja chamado de pluralidade. Isso implica uma reconsideração do lugar hege- mônico dado a uma ou outra mundividência religiosa, tal como descreve Dilthey (1992, p. 18): [...] As mundividências que fomentam a compreensão da vida e induzem a objetivos vitais e proveitosos conservam-se e suplantam as mais insignificantes. Assim se opera entre elas uma selecção. E, na sucessão das gerações, as mundividências mais viáveis desenvolvem-se até obter uma forma mais perfeita. A ideia de que uma cosmovisão religiosa deve superar as demais como por um processo evolucionista, seja derrotando-as, seja apresentando-se mais A experiência religiosa 19 perfeita, é superada pela compreensão de que qualquer uma delas se organiza sob a mesma estrutura orientada para o mesmo fim: responder e confortar o indivíduo em sua indagação pela vida. Somente que cada cosmovisão reli- giosa é determinada pelo lugar, pela coletividade, pela individualidade, pelo tempo, pela genialidade e engenhosidade de um e outro, uma e outra; enfim, pela experiência vital que conduz uma mundividência religiosa a ser de tal modo, enquanto outra se desenvolve de modo diferente. Sendo assim, cada uma também é uma resposta específica ao contexto vital de onde ela mesma brotou, em solo fértil, para o qual também é destinada a nutrir e sustentar. Em que medida e sob quais condições se dá a apreensão do sagrado em uma cosmovisão inter-religiosa? A experiência religiosa se origina na percep- ção e apreensão do sagrado considerado um mistério a ser nomeado conforme a cosmovisão religiosa que a sustenta. Várias são as formas disso acontecer e desse sagrado ser nomeado via objetificação da experiência religiosa. Nas religiões monoteístas, o sagrado é nomeado Deus em um sentido pessoal, trata-se de um nome próprio. No Hinduísmo, Brahman é fundamento da realidade, não sendo ligado a alguma pessoalidade ou personificação, sendo a forma do Absoluto. Mas, há deuses que são nomeados como: Shiva, Agni e outros. No Budismo, não há deuses a ser nomeados, apenas transcendência e a iluminação quando ela é alcançada. Nas religiões afro-indígenas brasileiras os deuses são nomeados, mas interagem continuamente com o ambiente natural aos quais são vinculados. Portanto, uma cosmovisão inter-religiosa corresponde uma respectiva cosmovisão intercultural, e somente uma perspectiva intercultural contribui para a superação das muitas formas de tendências etnocêntricas e mono- culturais que reduzem a experiência religiosa do sagrado, desconsiderando a alteridade e o diálogo como valores a serem preservados continuamente. Leia sobre a relação atual entre diálogo inter-religioso e liberdade religiosa no artigo de Ivanir dos Santos, “A caminhada em defesa da liberdade religiosa e seus desafios para a construção do diálogo inter-religioso”, publicado na Revista Numen, v. 22, n. 1, p. 26-42, jan./jun. 2019, disponível na internet. A experiência religiosa20 Sagrado e cosmovisão de uma experiência não religiosa Uma das características do nosso tempo é a transferência do sagrado de cosmovisões religiosas e inter-religiosas para outras não religiosas. Houve tempo em que a experiência não religiosa era chamada deidolatria quando se atribuía o sagrado a coisas que em si mesmas não possuíam a qualidade atribuída. Ou de secularização quando se retirava o sagrado das coisas que possuíam essa qualidade. Ou, ainda, de humanismo quando o ser humano negava ao sagrado o domínio e gestão de sua própria vida, a maneira como desejaria e queria modelar a sua experiência no mundo no qual vive, por limi- tações resultantes de obrigações e deveres que o sagrado viesse a lhe impor. Como conceito não religioso é possível intuir o sagrado a partir da cone- xão vital entre o espírito humano e o lugar no qual ele mora, vive e constrói sua cosmovisão. Lugar que é solo, chão, que nutre, alimenta, dá e mantém a vida, mas que também o recebe de volta, libertando-o para que sua jornada siga adiante. Esse retorno ao sagrado não significa, entretanto, que se trate de um retorno à cosmovisão religiosa. A identidade construída pelo ser humano na sua relação com esses dias é de tal modo fragmentada, multifacetada, individualizada, que não se pode apontar uma só experiência não religiosa do sagrado. Sua condição de existência no mundo lhe é imposta pela ordem do presente. É ela que orienta o espírito humano e, assim, a sua espirituali- dade, carregada de um presente intenso e urgente. E esse presente oferece um mundo de sensações difusas, desconexas e pouco significativas quanto ao seu sentido. Por outro lado, não implica em que não haja interesse reavivado pela experiência do sagrado, ainda que não religiosa. Isso é perceptível no recente interesse das gerações mais jovens em se assumirem publicamente interes- sadas no espiritual não religioso, e não mais restrita à identidade privada das pessoas. Enquanto as pessoas mais velhas, cuja experiência religiosa foi modelada pela modernidade, tinham e ainda têm alguma vergonha em admitir publicamente uma experiência religiosa. Isso não ocorre com os mais jovens, que não demonstram o mesmo constrangimento e, inclusive, buscam claramente essa experiência. Boa parte dessa busca tem a ver com o fortalecimento de atitudes, prá- ticas e valores que proporcionam o bem-estar e convívio públicos, típico de uma atitude samaritana. Nela, a prática da conduta confirma a veracidade da experiência não religiosa, redefinindo um novo campo semântico para a A experiência religiosa 21 palavra “justiça”. Ela não é mais empregada juntamente com “reparação” e “vingança”, mas com “perdão”, “amor” e “solidariedade”. Separa-se a doutrina cristã da experiência das atitudes, valores e sentimentos que ela inspira. Isso é bem específico com relação a Jesus, em que o interesse está nos relatos dos evangelhos e não na doutrina cristológica. Jesus se torna um exemplo de imitação, onde não importa o que houve de historicamente verda- deira nele, mas até onde se busca inspiração na narrativa de um ser humano que, em sua busca de Deus, ensinou os seres humanos como deveriam viver. Nesse sentido, a própria salvação ganha contornos diferentes. Não se trata de definir o destino final dos seres humanos e nem de dividi-los entre os que seguem a doutrina cristã e frequentam a igreja e aqueles que não o fazem. A salvação é vinculada ao seguimento de Jesus. Salvo é aquele que faz o que ele fez e quanto de sua conduta responde aos apelos do Nazareno. Outro modo de compreender a experiência não religiosa do sagrado à luz de uma cosmovisão moderna e pós-moderna é observando como são sacralizados a vida e o meio ambiente, de modo que corresponder à sua sacralidade é vivenciar a experiência não religiosa do sagrado. Defender a vida, em todos os seus níveis têm valor equivalente ao sagrado hoje em dia, se tornando um princípio ético irrecusável. O que aproxima um vegetal, um animal e um ser humano? Obviamente que a vida, pois todos são constituídos de organismos que vivem. Isto equivale a dizer que todos eles são capazes de realizar determinadas ações que os mantém vivos: nutrir- -se, crescer e se reproduzir. Portanto, é legítimo afirmar o valor sagrado da vida, para além da mera observação e constatação mecânica de como ela se manifesta. Contudo, observar a sacralidade da vida deve inserir o meio ambiente com os ecossistemas e biodiversidades que o compõem. Os seres humanos os usam para edificar o seu modo de viver sem, todavia, prestar a devida atenção ao modo de vida desses seres, esgotando-os, senão destruindo-os, inviabilizando a vida que está ali. Uma experiência não religiosa do sagrado exige uma cosmovisão não religiosa desses ecossistemas e biodiversidades, e dos seres que neles coabitam juntamente conosco o mesmo planeta. Escolher preservá-los, dando-lhes o mesmo direito à vida que reivindicamos para nós é o que há de mais sagrado a ser feito. E isso é realizado por meio de uma cosmovisão que veja os seres humanos enquanto seres sociais, culturais, políticos e individuais, assegurando o conhecimento e conscientização, como também os meios para realizar as transformações necessárias. Referências A experiência religiosa22 ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007. AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1999. DILTHEY, W. Os tipos de concepção de mundo. Covilhã: Lusosofia, 1992. ELIADE, M. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. GELLMAN, J. Mysticism. In: STANFORD Encyclopedia of Philosophy. [S. l.: s. n.], 2019. 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Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. A experiência religiosa 23 EPISTEMOLOGIA DO FENÔMENO RELIGIOSO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Diferenciar sagrado e profano. > Descrever elementos de leitura do religioso. > Relacionar as linguagens sagradas com as linguagens religiosas a partir da oralidade e da escrita. Introdução A religião é um sistema bastante complexo e muitos teóricos citados a seguir, entendem-na comoum sistema simbólico, uma verdadeira linguagem que deve ser decifrada por aquele que a deseja compreender. Ao estudar o fenômeno religioso, certamente pesquisador se depara com dois termos estruturantes: o sagrado e o profano. Eles representam uma importante chave de leitura para o estudo desse fenômeno. Neste capítulo, você vai receber importantes chaves de compreensão deste fenô- meno, especialmente os elementos constituintes desta linguagem: o símbolo, o mito e o rito. Além disso, será introduzido aos termos sagrado e profano a partir da perspectiva de dois importantes teóricos para o estudo da religião: Rudolf Otto e Mircea Eliade. O sagrado e o profano: chaves de interpretação do fenômeno religioso Por ser complexo, o fenômeno religioso pode ser compreendido a partir de diversas chaves interpretativas. Uma delas diz respeito ao binômio sagrado/ Linguagens religiosas: lendo o sagrado Robert Rautmann profano. São conceitos relativamente simples, mas que não são unânimes nos estudos da religião. Neste capítulo, nos ateremos especialmente às perspectivas de dois autores, Rudolf Otto e Mircea Eliade, ambos ligados à fenomenologia da religião. Em síntese, pode-se dizer são estudos que se interessam pelo sentido ou a essência do fenômeno religioso. Rudolf Otto Rudolf Otto nasceu em 25 de setembro de 1869, em Peine, na Alemanha. Foi pastor protestante, filósofo e teólogo. No ano de 1898, doutorou-se com a tese intitulada “As concepções do Espírito Santo em Lutero”. Em 1904, tornou-se professor de teologia em Göttingen; mais tarde, em 1917, passou a lecionar na Universidade de Marburg. É desse mesmo ano a sua mais famosa obra: O sagrado: aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. No ano de 1937, após uma combinação de dependência de morfina e crises depressivas, Otto foi internado numa clínica psiquiátrica, onde viria a falecer logo em seguida. Essas informações são relevantes aos estudos de religião, pois sua compreensão de sagrado deriva diretamente de sua cosmovisão luterana e de seus estudos como teólogo. A obra O sagrado: aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional, elaborada em 23 capítulos, procura analisar a reação dos indivíduos diante do que o autor chama de “numinoso”. Em sua análise, é o sagrado a origem de toda a religião, expresso das mais variadas formas. Nesse sentido, Otto procura analisar as modalidades da experiência reli- giosa, voltando-se para o lado irracional da religião. Segundo ele, os elementos racionais de uma religião são necessários para se ter acesso a ela; contudo, representam apenas a parte periférica da experiência religiosa. A religião teria como tarefa possibilitar que o indivíduo experiencie o sobrenatural. Ao pensar dessa forma, Otto apresenta uma postura crítica em relação ao racionalismo advindo do Iluminismo e do pensamento posterior. Sua com- preensão é que a linguagem tenta apresentar a divindade de forma racional. Porém, os conceitos nunca esgotam a ideia da divindade. A partir do segundo capítulo de sua obra, Otto categoriza essas experiências religiosas como numinosas, ou seja, divinas. Essa categoria, segundo Otto, não poderia ser definida, apenas debatida. O numinoso seria algo totalmente diferente, totalmente outro (ganz andere, em alemão), o lado irracional da reli- gião que havia sido esquecido pela ênfase na racionalização dos seus estudos. Essa categoria numinosa seria algo que os místicos das várias religiões teriam vivenciado. Um deus compreendido não seria um Deus, segundo Otto (2007). Linguagens religiosas: lendo o sagrado2 O adjetivo numinoso utilizado por Rudolf Otto é um neologismo do autor. É derivado de numen, palavra latina que pode significar “divindade”, “poder celestial”, “inspiração”. Com o termo, Otto queria se referir ao sentimento da criatura diante do transcendente, ou seja, um sentimento de reverência, temor e fascínio. Vejamos caso a caso alguns aspectos dessa ideia de sagrado que ficam evidenciados na obra de Otto. Aspecto do tremendum É estabelecida uma comparação entre o temor que o ser humano sente diante de uma situação de destruição ou violência e o temor diante do sagrado. Trata-se de uma comparação com semelhanças, mas também dessemelhanças: [...] é uma designação bastante próxima daquilo a que queremos nos referir, mas que não passa de uma analogia para uma reação emocional muito específica que se assemelha ao temor e permite que este dê uma pista dele, mas a reação em si é algo bem diferente de temer (OTTO, 2007, p. 45). Deve-se recordar que Otto tinha diante de si os textos bíblicos do Antigo Testamento e as experiências místicas que ali estavam descritas, muitas delas permeadas deste temor diante do sagrado. Aspecto avassalador Outra característica do divino/sagrado, para Otto, tem relação com o termo majestas, que procura expressar uma superioridade esmagadora de poder. Diante da realidade do sagrado, o ser humano se sentiria totalmente nulo, insignificante. É o sentimento da criatura diante da divindade criadora, que “[...] afunda e desvanece em sua nulidade perante o que está acima” (OTTO, 2007, p. 41). Aspecto fascinante O divino comporta, segundo Otto, um duplo caráter: ser terrível, repulsivo, tremendo e, ao mesmo tempo, atraente e fascinante. Na compreensão do sagrado para Otto, “[...] o que me apavora me atrai” (OTTO, 2007, p. 68). O in- divíduo permanece em um estado de repulsa e, ao mesmo tempo, de atração; o temor o distancia, mas o fascinante lhe atrai. Linguagens religiosas: lendo o sagrado 3 Aspecto enérgico Segundo Otto, este aspecto seria a energia do numen. Diante do sagrado, o indivíduo tem suas paixões, sua vontade e seu zelo sagrado despertados. Ele é tomado por um tipo de ira santa ou um impulso irresistível, um amor ardoroso, enfim, uma paixão arrebatadora em relação à divindade. Otto compreende, portanto, que o sagrado seria a própria manifestação divina (que, para ele, se trata da divindade judaico-cristã). Deus seria um poder terrível, não uma alegoria moral ou uma ideia filosófica (não o deus dos filósofos). Ele descobre o pavor terrível diante do sagrado, o mysterium tremendum, mysterium entendido como o que está escondido, o que não se revela, o que não é intuído, o que não é compreendido. Para ele, o temor religioso seria mysterium fascinans. Não sendo racionalizado, pode ser apenas vivenciado na dimensão do sentimento. A vivência religiosa diante do sagrado, segundo Otto, envolveria as sensações do corpo: “É notável que semelhante terror característico diante da presença do inquietante provoque uma reação física, tão singular, nunca juntamente com o medo e o terror natural: ‘congela- -se o sangue nas veias’, ‘a pele arrepia’” (OTTO apud GASBARRO, 2013, p. 82). Mircea Eliade Mircea Eliade foi um intelectual nascido em 1907 em Bucareste, na Romênia. Estudou na Romênia e na Índia (na Universidade de Calcutá) e doutorou-se em 1933, com uma tese acerca das técnicas iogues. Retornou a Bucareste, passou por Portugal, França e Estados Unidos, onde faleceria, aos 79 anos. Foi bastante marcado pela obra O sagrado: aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional, de Rudolf Otto. Utilizou métodos descritivos em suas abordagens, valendo-se de seu amplo conhecimento de diversas culturas e religiões, não somente daquelas ocidentais. Sua obra central é O sagrado e o profano: a essência das religiões, publicada originalmente no ano de 1954. Há, contudo, diversas obras suas importantíssimas para o estudo da religião: História das crenças e das ideias religiosas (elaborada em três volumes), Mito e realidade, Dicionário das religiões, Tratado de história das religiões, O conhe- cimento sagrado de todas as eras, Yoga: imortalidade e liberdade, Ferreiros e alquimistas, O Mito do Eterno Retorno, Mefistófeles e o Andrógino, Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso, entre muitas outras. Mircea Eliadeescreveu sua obra O sagrado e o profano: a essência das religiões quase 40 anos após o texto fundamental de Otto (O sagrado: aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional). Talvez por não ser não teólogo, conseguiu perceber certas limitações no pensamento de Linguagens religiosas: lendo o sagrado4 Rudolf Otto. Eliade entendeu que a abordagem de Otto tinha seu valor para o leitor, mas ele próprio pretendia uma abordagem diferente, analisando o sagrado de uma forma mais completa e complexa: Passados 40 anos, as análises de R. Otto guardam ainda seu valor, o leitor tirará proveito da leitura e da meditação delas. Mas nas páginas que seguem, situamo- -nos numa outra perspectiva. Propomo-nos apresentar o fenômeno do sagrado em toda a sua complexidade, e não apenas no que ele comporta de irracional. Não é a relação entre os elementos não racional e racional da religião que nos interessa, mas sim o sagrado na sua totalidade (ELIADE, 2018, p. 16–17). Sua definição inicial de sagrado é de algo que “está em contraposição ao profano” (ELIADE, 2018, p. 17). Toda a realidade sociocultural está, segundo Eliade, numa dialética “sagrado/profano”. Em sua obra O sagrado e o profano: a essência das religiões, ele proporia então o termo hierofania para designar a manifestação do sagrado. Hierofania é uma palavra formada por dois termos gregos (hiero = sagrado; faneia = manifesto). Bastante utilizada na fenomenologia da religião, especialmente por Eliade, significa a manifestação de uma realidade sagrada. De acordo com várias tradições religiosas, essa manifestação do sagrado pode se dar em um objeto (uma espada, um colar, uma pedra, etc.), um ser vivo (árvore, animal) ou até mesmo na encarnação humana de uma divindade. Para Eliade, o termo era útil, pois teria apenas a função de apresentar que o sagrado se revela. Segundo o autor, a história das religiões apresenta uma série de hierofanias indiscutíveis, pois alguma coisa de ordem diferente teria se manifestado no plano das coisas ordinárias, comuns, profanas. Assim, as coisas ditas sagradas são reverenciadas pelas pessoas não pela coisa em si, mas porque são hierofânicas. Dessa forma, os indivíduos das primeiras sociedades humanas buscavam estar próximos desses objetos sagrados, pois equivaleriam ao poder. Esses indivíduos, na reflexão de Eliade, compreen- diam suas ações sempre em relação ao sagrado, ao contrário do indivíduo moderno, que dessacralizou suas ações e o cosmo que o rodeia. O indivíduo “primitivo” (utilizando-se a terminologia de Eliade) seria o Homo religiosus. [...] o homem religioso assume um modo de existência específica no mundo, e, apesar do grande número de formas histórico-religiosas, este modo específico é sempre reconhecível. Seja qual for o contexto histórico em que se encontra, o Homo religiosus acredita sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado, que transcende este mundo, que aqui se manifesta, santificando-o e tornando- Linguagens religiosas: lendo o sagrado 5 -o real. Crê, além disso, que a vida tem uma origem sagrada e que a existência humana atualiza todas as suas potencialidades na medida em que é religiosa, ou seja, participa da realidade. Os deuses criaram o homem e o Mundo, os Heróis civi- lizadores acabaram a Criação, e a história de todas as obras divinas e semidivinas está conservada nos mitos (ELIADE, 2018, p. 164). Para ambos, Rudolf Otto e Mircea Eliade, como representantes clássicos da fenomenologia da religião, a questão principal está na reação do ser humano diante da manifestação do assim chamado sagrado. Não está em questão o numinoso em si, e sim a experiência religiosa humana que se dá com o numinoso. Nesta perspectiva da fenomenologia da religião, haveria em todo ser humano uma faculdade especial que o colocaria predisposto a sentir (ter sensações) diante do sagrado. Algumas críticas acerca do tema A utilização do termo “sagrado” como categoria universal é bastante dis- cutida nos círculos acadêmicos. A palavra empregada originalmente por Otto é heilig (sagrado, em alemão). Contudo, há pesquisas que apontam que o adjetivo heilig nos textos bíblicos (fonte de pesquisa essencial para Otto) corresponde, muitas vezes, a outros termos que poderiam ser utili- zados, como devoto, piedoso, honesto, sério, respeitável, venerável, etc. (USARSKI, 2006). A teoria elaborada por Rudolf Otto pode ser considerada uma reação da teologia (nesse caso, protestante) numa época em que os estudos compa- rativos das religiões e as histórias das religiões ganhavam força em terras europeias. Segundo Gasbarro (2013, p. 81), a “[...] teoria de R. Otto é de derivação teológica, ou melhor, é uma espécie de generalização perceptiva e transcendental, inteiramente protestante, da subjetividade cristã, através da experiência da criatura.” Esta segunda crítica está alinhada ao contexto, muitas vezes negligen- ciado pelos estudiosos, no qual Otto está inserido, bem como ao esquema que ele utiliza: a relação do indivíduo diante do Deus especificamente judaico-cristão. As críticas — acadêmicas, deve-se ressaltar — têm em vista uma preocupação de que o pesquisador do fenômeno religioso procure assumir um distanciamento metodológico em relação ao seu objeto de estudo. Ou seja, sua aproximação ao fenômeno religioso se dá de forma diferente do que o faria um teólogo ou um adepto desta ou daquela religião. Linguagens religiosas: lendo o sagrado6 Outro autor clássico nos estudos da religião é o francês Émile Durkheim. Sua obra mais conhecida é Formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália, escrita em 1912. Durkheim compre- ende a religião como uma forma por meio da qual o indivíduo e a sociedade estruturam o mundo. A religião, segundo ele, é um sistema de representação construído socialmente. Durkheim se utiliza igualmente do binômio sagrado/ profano. Para ele, coisas sagradas eram aquelas que protegidas e isoladas por meio de proibições. O que é profano deve estar à distância do que é sagrado. Elementos da linguagem religiosa A religião é um fenômeno ao mesmo tempo rico e complexo. Ela produz im- pactos profundos e duradouros nos indivíduos e nas coletividades. Ademais, a religião tem uma relação estreita com a linguagem. Sabemos que a experiência religiosa é vivenciada pelo indivíduo que tem, contudo, dificuldade de exprimi- -la a outrem. Eventualmente, essa dificuldade torna-se, inclusive, uma impos- sibilidade. Os relatos de pessoas que passaram por experiências de êxtase são recorrentes na literatura religiosa. Ainda assim, essa experiência tende a ser representada de alguma forma por estes indivíduos. Tais representações adquirem, portanto, um caráter simbólico, uma vez que apontam para uma realidade que ultrapassa tanto o indivíduo quanto a signo, o sinal, o símbolo utilizado para se expressar. Entendemos, portanto, que a experiência religiosa é uma experiência do tipo simbólica. Nesse âmbito, José Severino Croatto (2010, p. 81) afirma que: “Assim como a experiência da Realidade transcendente (o Mistério ou qualquer que seja seu nome) é o núcleo do fato religioso, o símbolo é, na ordem da expressão, a linguagem originária e fundante da experiência religiosa, a primeira e a que alimenta todas as demais.” Assim, o ser humano que vive a experiência religiosa dentro (ou fora) de uma tradição religiosa deseja comunicar essa experiência. Essa comunicação realiza, novamente, a vivência do sagrado, do transcendente. Os elementos dessa linguagem — o símbolo, o mito e o rito — serão examinados a seguir. O símbolo A etimologia da palavra “símbolo” apresenta sua raiz no termo latino symbolus, que, por sua vez, deriva de dois termos: syn, do grego, indicando encontro ou união, e o verbo ballein, que está relacionado a lançar ou arremeter. Assim, a Linguagens religiosas: lendo o sagrado 7 palavra “símbolo” tem como significado etimológico aproximado a noção de “lançar junto”. Esse significado implicauma dualidade que se unifica, duas realidades que se tornam apenas uma (GIRARD, 2005). Um exemplo próximo é o do matrimônio, no qual duas pessoas se tornam uma só realidade, ainda que permaneçam com suas individualidades. Na Antiguidade, há registros do uso do termo symbolon para designar um objeto, como um amuleto, partido em dois pedaços, com finalidades preci- sas: um empréstimo ou contrato de outra natureza. Entregues aos parceiros desse contrato, cada um dos pedaços permitiria aos seus proprietários (ou seus portadores) o eventual reconhecimento mútuo e a possibilidade de reclamar seus direitos ou haveres. Nessa perspectiva, o “símbolo” é com- preendido pelos envolvidos na transação. Pode-se dizer, então, que há um vínculo unindo aqueles que detêm o símbolo, ou, dito de outra forma, que apreendem seu significado. Para o senso comum, chama-se de símbolo uma infinidade de ele- mentos, como: sinais gráficos de matemática, f ísica e química, brasões, escudos, bandeiras, logomarcas, distintivos, emblemas, insígnias, etc. Para os teóricos, um signo, um emblema ou um sinal não pode ser confun- dido com um símbolo, pois aqueles foram estabelecidos por convenção e significam coisa bem concretas, enquanto o símbolo, ao contrário, transignifica, ou seja, possui um significado além dele mesmo. E o que isto quer dizer? O símbolo é um reflexo de algo que o ultrapassa. Diante da realidade que ele simboliza, o próprio símbolo se torna insignificante. De uma forma antitética, um símbolo é igual ao que representa e, ao mesmo tempo, diferente. Um exemplo bastante didático é a “água” enquanto símbolo. O indivíduo, diante dela, será tomado por inúmeras impressões simbólicas. Consideremos a função purificadora da água. Como elemento em si, a água realiza a limpeza do que está sujo. Diante da pureza da água, as coisas ficam purificadas. Desta constatação, deriva a intuição simbólica de uma purificação interior, mais profunda — de pensamentos, intenções, emoções, impurezas morais, pecados, energias negativas, etc. Trata-se, na verdade, da experiência humana diante deste elemento. Ela não é simbólica em si, mas é assim constituída a partir da vivência humana. Essa é apenas uma das aplicações simbólicas do elemento água. O mesmo elemento poderia ser considerado destrutivo (como numa inundação ou temporal), regenerador (para aquele que está sedento) ou fecundo (para as plantas). Eis o caráter polissêmico do símbolo — uma vez que está relacionado a uma realidade histórica e geográfica própria. Linguagens religiosas: lendo o sagrado8 Em relação aos critérios de determinação de um símbolo, devemos dizer, ainda, que ele deve ser observável (de conhecimento imediato), mostrar-se facilmente exprimível (simples e evidente), ter máxima expressividade, ser reconhecível por uma coletividade e ser ligado à vivência (objeto de uma experiência profunda). Portanto, o símbolo, como aponta Croatto (2010), é o elemento básico da linguagem da religião e aponta sempre para uma realidade além. O mito No entendimento do senso comum, “mito” refere-se a uma história, uma narrativa inverossímil, sem fundamentos, desprovida de verdade. Há ainda outro sentido, mais recente (que chega por meio de uma linguagem mais midiática), que significaria uma sumidade, uma personalidade destacada em determinado meio — esportivo, político, entretenimento etc. No estudo das religiões, o significado de mito está distante destes apre- sentados. A palavra tem sua origem na palavra latina mythus, e esta no grego antigo muthos, cujo significado aproximado seria fala, palavra falada, pensamento, história, lembrança. Um conceito de mito largamente aceito na comunidade acadêmica é aquele elaborado por Mircea Eliade, que, reconhecendo a limitação de se conceituar algo tão amplo, acreditava que seria o conceito “menos imperfeito”. Eis o conceito: O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido em tempo primordial, o tempo fabuloso do ‘princípio’. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma ‘criação’: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. [...] Em suma, os mitos descrevem as diversas, e algumas vezes, dramáticas, irrupções do sagrado (ou do ‘sobrenatural’) do Mundo. É essa irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje (ELIADE, 1998, p. 11). O mito, antes de tudo, é uma narrativa realizada com a intenção de responder algumas inquietações — sobre a existência, as origens, seres sobrenaturais, etc. O mito é ainda atemporal. Sua narrativa aponta para os primórdios — a gênese do cosmos, do ser humano, da sociedade, etc. — mas atinge todo e qualquer ser humano no local e tempo em que entra em contato com o mito. Linguagens religiosas: lendo o sagrado 9 Outro conceito interessante para a noção de mitos é: [...] são relatos fundadores, histórias de deuses ou de coisas, que fornecem um conjunto de representações das relações do mundo e da humanidade com os seres invisíveis. Oscilando entre a lenda e a ciência, o mito já é uma ordenação racional. Ele situa o homem em seu lugar no universo graças a um sistema de referências no interior de um todo cuja organização (cosmos) é afirmada e não apenas constatada (LABURTHE-TOLRA; WARNIER, 2003, p. 204). O mito, por ser uma narrativa, pertence à ordem literária e, portanto, im- plica uma sequência narrativa. Os deuses (ou seres espirituais ou superiores) são os protagonistas do mito. É por meio de suas ações ou palavras que as coisas e seres se originam. Os mitos, além disso, narram acontecimentos sig- nificativos, ou seja, não são histórias banais. Por meio dos mitos, o indivíduo entra em contato com a origem divina da sociedade a qual pertence, bem como das suas instituições, costumes, leis, comportamentos, etc. Na obra de Eliade citada anteriormente, são elencados quatro caracterís- ticas principais do mito: caráter narrativo, sagrado, verdadeiro e exemplar. Já segundo Widengren (apud JORGE, 1998), pode-se classificar os mitos em dois grandes grupos: mitos de vida e mitos sobre a outra vida. Entre os mitos de vida, o autor apresenta a seguinte classificação: � Mitos de criação — são aqueles que narram o nascimento dos deuses (teogonias) e a formação do mundo. Um poema bastante conhecido é o Enuma Elish, pertencente à mitologia babilônica, que apresenta de forma exemplar esta categoria de mito. Ainda que no Ocidente o mito de criação mais conhecido seja aquele contido nos textos sagrados judaico-cristãos, há diversos outros mitos de criação, como o asteca, o iorubá, o nórdico, o egípcio, o grego, o persa, o babilônico, entre tantos outros. � Mitos da origem da espécie humana — associa-se normalmente À gênese do ser humano a um objeto da natureza. Esse é o caso, por exemplo, na mitologia nórdica ou iraniana, bem como do texto do livro bíblico de Gênesis, no qual o homem foi formado a partir do barro. � Mitos tribais — trata-se das narrativas relacionadas aos heróis epô- nimos, ou seja, aqueles que dão seu nome a uma tribo, um local, uma época, uma dinastia, etc. Linguagens religiosas: lendo o sagrado10 � Mitos de fundação do culto — relaciona-se às narrativas mitológicas que estabelecem as origens dos cultos e cerimônias sagradas. � Mitos sociais — aqueles que descrevem as origens das instituições religiosas ou sociais. Por sua vez, os chamados mitos de morte estão relacionados à descrição de outros mundos. Podem descrever o paraíso original (muitas vezes uma era de ouro). Há também os mitos do ocaso do mundo, que descrevem o fim dos tempos e das coisas, em oposição aos mitos de criação do mundo e da humanidade. O rito Da mesma forma que o termo “mito”, “rito” é um termo polissêmico. É uma palavra usada em diversos ambientes — jurídico,político, cotidiano, etc. O contexto no qual o termo será apresentado aqui é o do estudo das religiões. Os ritos são práticas realizadas de forma individual ou coletiva, repetitiva ou cíclica, para os quais se confere algum tipo de eficácia e cuja realização é considerada fundamental para seus grupos praticantes. Vilhena (2013, p. 514) apresenta um conceito bastante abrangente dos ritos religiosos: [...] ações simbólicas, coletivas ou individuais, embasadas em sistemas de crenças que postulam a existência de modo único, alternado ou combinado, de forças ou energias que podem ser tanto internas ou externas aos sujeitos, de seres trans- cendentais como entidades, deus, deuses, espíritos da natureza ou de ancestrais, encantados, orixás, caboclos, almas, divindades, gênios, demônios, santos. [...] A eles são atribuídas regências sobre aspectos, fases ou a totalidade da vida. Os ritos religiosos intentam estabelecer contatos entre os humanos com algumas destas dimensões mais amplas da existência que transcendem ao empírico, mas que para os sujeitos que assim o creem são reais. O rito, no contexto dos estudos de religião, significa a práxis, a prática do mito. Anteriormente, quando apresentamos o conceito de mito, foi ressaltado que se trata de narrativas fundacionais (do cosmos, do ser humano, da coleti- vidade, etc.). O rito, por conseguinte, é a celebração de uma coletividade, que transcende aquele espaço e tempo delimitado e rememora, revive, concretiza novamente aquele acontecimento primordial. Por meio da ação ritual, o ser humano tem a possibilidade de voltar às origens. Mircea Eliade entendia que este retorno às origens possibilitado pelos ritos concede as mesmas forças que emanaram destas origens. Ao reatualizar os mitos por meio dos ritos, o ser humano se capacita a repetir os feitos dos deuses, dos espíritos e/ou dos heróis cultuados. Linguagens religiosas: lendo o sagrado 11 As mútuas relações entre símbolo, mito e rito podem ser entendidas da seguinte forma: [...] os mitos e dogmas são objeto de fé. Os cultos e ritos se encontram, porém, em outro nível: o do agir, do fazer. Constituem-se, essencialmente, num conjunto de gestos e palavras que exprimem, de maneira sensível, diversas atitudes religiosas interiores; por conseguinte, estão como que impregnados por elas — sem essas atitudes ficariam vazios, desprovidos de significado. Nesse sentido, os ritos são ações simbólicas e seu próprio simbolismo as torna religiosas (LAGENEST apud JORGE, 1998, p. 49). Há diversas formas de se classificar os ritos. Uma das mais correntes é classificá-los nas seguintes categorias. Ritos de passagem Como o próprio nome evidencia, trata-se daqueles ritos que marcam algum tipo de passagem para um indivíduo — nascimento, puberdade, matrimônio, morte, início de alguma função na coletividade, etc. Neste caso, os rituais utilizados estão ligados à purificação da etapa pregressa, com algum sim- bolismo de morte da vida anterior. O sentido profundo é de transformação, de iniciação a um estágio mais elevado de existência. Exemplo disso são os rituais adotados para o trote de um calouro de uma faculdade. Assim, percebe-se como a ideia de rito religioso de passagem foi incorporado (em sua essência e, às vezes, em sua ritualidade) na sociedade. As formas ritualísticas nos ritos de passagem são tão diversas quanto as tradições religiosas. Pode-se citar o batismo, a circuncisão, os sacrifícios inici- áticos, a audição do Azan, a raspagem do cabelo, uma visita a um templo, etc. Ritos de participação Por meio destes ritos, um indivíduo ou a coletividade comunicam-se com a(s) divindade(s) e tomam parte em sua força, seu espírito, sua existência, sua energia. As formas mais comuns são a oração, a consagração e o sacrifício. Os ritos de sacrifício têm em vista separar alguém ou alguma coisa para ser sagrada (etimologicamente, sacra + facere = fazer sagrado). Ao longo da história, há registros de sacrifício de alimentos, animais e até mesmo de pessoas. Há certo consenso de que tais sacrifícios tinham em vista a obtenção de algum favor por parte da(s) divindade(s) ao se ofertar algo. Um rito de consagração diz respeito à dedicação que se faz de um objeto, um lugar, uma pessoa à(s) divindade(s). Este tipo de rito sai do domínio do profano para existir no domínio do sagrado. Linguagens religiosas: lendo o sagrado12 Ritos de propiciação Inclui aqueles que visam o restabelecimento da relação com a(s) divindade(s) por meio de expiação da culpa do indivíduo ou da coletividade. São também aqueles utilizados para afastar o mal. Nesse âmbito, um dos ritos mais co- nhecidos é do bode expiatório, descrito no texto sagrado judaico-cristão. O povo hebreu escolhia um bode para o dia da expiação. O sacerdote colocava as mãos sobre ele, transferindo ao animal os pecados da comunidade. O bode era expulso para o deserto, encontrando a morte e, desta forma, purificava a comunidade de seu pecado. Outros elementos bastante usados em ritos de purificação ou expiação são água, fogo, cinzas, etc. Desse modo, é por meio dos ritos e dos rituais que as religiões se ex- pressam. Eles relacionam símbolos, mitos, crenças, sentimentos, emoções e ética e organizam as religiões em relação ao espaço e ao tempo em que estão inseridas. Textos e narrativas sagrados Um dos livros bastante conhecidos ao se adentrar no estudo da religião é O que é religião?, de Rubem Alves (2008). Neste livro, o autor se pergunta do que fala a linguagem religiosa, e ele mesmo dá a resposta: Dentro dos limites do mundo profano tratamos de coisas concretas e visíveis. Assim, discutimos pessoas, contas, custo de vida, atos dos políticos, golpes de Estado e nossa última crise de reumatismo. Quando entramos no mundo sagrado, entretanto, descobrimos que uma transformação se processou: agora a linguagem se refere a coisas invisíveis, coisas para além de nossos sentidos comuns, as quais, segundo a explicação, somente os olhos da fé podem contemplar. O zen-budismo chega mesmo a dizer que a experiência da iluminação religiosa, satori, é um terceiro olho que se abre para ver coisas que os outros dois não podiam ver (ALVES, 2008, p. 27). É importante ressaltarmos que, ao falarmos de linguagem religiosa, es- tamos indicando a forma como a religião se expressa. Em outras palavras, a experiência religiosa é um tipo de experiência que, segundo os autores apresentados ao longo deste texto, se dá em relação ao transcendente, ao sagrado. Como qualquer experiência humana, também a experiência reli- giosa tende a ser socializada e comunicada. Chamamos as várias formas de expressão dessa experiência de linguagem religiosa. A linguagem religiosa é constituída por determinados elementos já apresentados: o símbolo, o mito e o rito. Ela pode se dar, ainda, por meio dos textos e narrativas sagrados, como veremos a seguir. Linguagens religiosas: lendo o sagrado 13 Textos sagrados Um texto é um conjunto organizado de elementos da língua (palavras, frases, unidades literárias, figuras de linguagem, etc.) capazes de transmitir algum tipo de mensagem ao leitor. Diferentemente da fala, o texto apresenta algumas características próprias: � O narrador é o próprio texto, o que significa que o autor não será capaz de explicar seu sentido no momento da leitura, e cada leitor, a partir de seu próprio lugar de compreensão, poderá lhe dar um novo sentido. � O primeiro destinatário da mensagem original não está presente. Na redação do texto, houve um primeiro interlocutor pensado pelo autor. Seu texto, ao se distanciar no tempo e no espaço geográfico original, também se distanciará deste leitor para quem o texto foi elaborado. � O próprio contexto no qual o texto foi escrito está deslocado do con- texto no qual ele é lido (e interpretado). A partir dessa breve explicação, fica evidente que todo texto poderá apresentar diversos significados (inclusive distintos da intenção original do autor). O próprio leitoratribuirá ao texto novas compreensões, que poderão ser reelaboradas por outros leitores, em uma espiral hermenêutica crescente. Essas compreensões — originais e posteriores — vão produzindo sentido ao texto, transformando-o, ao longo do tempo, em significativo (ou não). Feitos esses breves apontamentos acerca de um texto em geral, voltemos a atenção aos para as peculiaridades dos textos sagrados. Em síntese, pode-se admitir que um texto é considerado sagrado para determinado grupo quando este mesmo grupo o considera de origem divina. Essa distinção inicial é fundamental, pois, o mesmo texto pode ser considerado sagrado para deter- minadas pessoas, mas não sagrado para outras. Afinal, o adjetivo “sagrado” é atribuído a um determinado texto por uma coletividade, passando a ser visto como transmitido em dado momento histórico por uma ou mais divindades. É a partir dessa compreensão do texto como de origem divina que ele será considerado sagrado e, então, acabará se tornando fundamento cons- tituinte dessa tradição religiosa. Diante dele, a comunidade exercerá a tarefa hermenêutica, ou seja, a sua interpretação ortodoxa (correta). Será com base nessas interpretações que a comunidade religiosa instituirá suas normas morais, seus rituais e seus princípios dogmáticos e teológicos. Uma vez considerado de origem divina, o texto ficará circunscrito ao original recebido. É isso que o concebe como cânon fechado, ou seja, não Linguagens religiosas: lendo o sagrado14 é possível que se acrescente ou retire algo ao texto. Uma vez fechado, ele permanecerá radicalmente distinto, para o povo que o cultua, da literatura dita profana. Sob o conceito de ‘textos sagrados’, resumo aquelas manifestações linguísticas às quais se une a ideia de presença do sagrado. Assim, eles incluem hinos, juramentos, conjuros e fórmulas mágicas, recitações breves, inclusive certas rezas e muitas coisas mais, a cuja recitação se associa a ideia de efeitos mágicos e presença divina (ASSMAN apud VASCONCELLOS, 2013, p. 470). Em resumo, pode-se apontar ao menos três características do texto sagrado: � sua origem divina; � sua sacralidade e imutabilidade; � sua distinção como autoridade religiosa. Além disso, é importante notar que a noção de texto sagrado inclui também aqueles que são transmitidos por gerações de forma oral. Narrativas sagradas Pode-se dizer que narrativas são experiências existenciais de um indivíduo ou de um povo transmitidas de forma oral ou escrita. Essa forma narrativa leva em consideração que as ações apresentadas possuem uma relação de causa e efeito entre si. As narrativas ditas sagradas surgem a partir de narrativas orais antigas que, em muitas civilizações, foram se constituindo aos poucos em textos escritos. Essas narrativas sagradas tinham a intenção de expressar uma determinada experiência vivenciada em relação ao sagrado, que, em mui- tos povos, poderia ser um elemento da natureza (uma árvore, uma pedra, uma montanha etc.), uma palavra ou um gesto de determinado personagem sagrado, um acontecimento inusitado, extraordinário ou ordinário. Essa ex- periência vivida é carregada de sentido na narrativa sagrada, e a experiência primeira deveria ser rememorada, celebrada, recriada pelos descendentes. Izidoro (2015) recorda que as narrativas sagradas, ao estabelecerem um conjunto de sentido para as várias comunidades, tornavam-se, portanto, padrão ético e normas de conduta. Era (e é) por meio das narrativas sagradas que os grupos religiosos elaboram suas cosmovisões e ocupam um lugar próprio na sociedade ao seu redor. Linguagens religiosas: lendo o sagrado 15 Assim, a linguagem e a literatura sagrada enquanto narrativas e exercício da memória, nos diferentes gêneros literários e formas de narrativas, estabeleciam o sentido e o significado para os grupos religiosos na antiguidade, e de modo peculiar, para as comunidades cristãs primitivas em seu estágio de formação e de criação das identidades, sugerindo, portanto, um posicionamento de cunho social, de ordenamento ético que as remetem às tradições cristãs originárias, mas em uma perspectiva hermenêutica (IZIDORO, 2015, p. 172). As narrativas sagradas podem se apresentar de diversas formas, enquanto os mitos, como visto anteriormente, representam a narrativa sagrada por excelência. Referências ALVES, R. O que é religião? 9. ed. São Paulo: Loyola, 2008. CROATTO, J. S. As linguagens da experiência religiosa. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2010. ELIADE, M. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 4. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2018. ELIADE, M. Mito e realidade. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998. GASBARRO, N. M. Fenomenologia da religião. In: PASSOS, J. D.; USARSKI, F. (org.). Com- pêndio de ciência da religião. São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013. p. 75–99 GIRARD, M. Os símbolos na Bíblia: ensaios de teologia bíblica enraizada na experiência humana universal. São Paulo: Paulus, 2005. IZIDORO, J. L. Linguagem e narrativas sagradas e as novas abordagens epistemológicas para as identidades religiosas. Voices, v. 38, n. 3-4, p. 165–184, 2015. JORGE, J. S. Cultura religiosa: o homem e o fenômeno religioso. São Paulo: Loyola, 1998. LABURTHE-TOLRA, P.; WARNIER, J. P. Etnologia: antropologia. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. OTTO, R. O sagrado. São Leopoldo, RS: Sinodal/EST; Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. USARSKI, F. Constituintes da ciência da religião: cinco ensaios em prol de uma disciplina autônoma. São Paulo: Paulinas, 2006. VASCONCELLOS, P. L. Metodologia de estudos das “escrituras” no campo da ciência da religião. In: PASSOS, J. D.; USARSKI, F. (org.). Compêndio de ciência da religião. São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013. p. 469–484. VILHENA, M. A. Ritos religiosos. In: PASSOS, J. D.; USARSKI, F. (org.). Compêndio de ciência da religião. São Paulo: Paulina; Paulus, 2013. p. 513–524. Leituras recomendadas DURKHEIM, E. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 1996. LEEUW, G. Fenomenologia de la religión. México: FCE, 1964. PRANDI, C.; FILORANO, G. As ciências das religiões. São Paulo: Paulus, 1999. Linguagens religiosas: lendo o sagrado16 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Linguagens religiosas: lendo o sagrado 17 CIÊNCIAS DA RELIGIÃO E TEOLOGIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Reconhecer a religião como forma de conhecimento. > Descrever as especificidades do conhecimento religioso. > Identificar o sentido fundamental do conhecimento religioso. Introdução Devido à hegemonia do conhecimento científico, outros tipos de conhecimento perderam prestígio e, para muitos, tornaram-se ultrapassados e obsoletos. En- tretanto, os conhecimentos popular, filosófico e religioso são pertinentes, atuais e necessários na contemporaneidade; afinal, eles dão sentido à vida de muitas pessoas. O conhecimento religioso, foco deste capítulo, proporciona uma vivência para além de compêndios filosófico-metafísicos e tratados teológicos. No campo do sagrado, a manifestação numinosa encontra o ser humano numa experiência reli- giosa que ultrapassa as capacidades racionais. O conhecimento religioso é primeiro vivido e depois apreendido racionalmente, mesmo que de modo insuficiente. Neste capítulo, você vai estudar a associação entre religião e saber. Inicialmente, você vai ver como a religião se relaciona à teoria do conhecimento. Em seguida, vai conhecer as especificidades do conhecimento religioso. Por fim, vai verificar qual é o sentido fundamental desse tipo de conhecimento. A religião como forma de conhecimento Valter Borges dos SantosReligião e teoria do conhecimento A religião é uma forma de conhecimento. O conhecimento implica procedi- mentos indutivos e dedutivos. O conhecimento da religião está vinculado ao procedimento dedutivo. A religião, assim como a arte e a filosofia, tem como objetos o mundo e a vida, buscando soluções e interpretações da realidade, porém com distinções de origem. A origem da perspectiva religiosa se situa no campo da fé. A visão religiosa principia por meio da vivência religiosa, ou seja, da experiência humana com Deus, que envolve fatores subjetivos. Assim, o acesso ao conhecimento religioso ultrapassa o âmbito racional e se insere no campo da experiência religiosa. A religião foca a totalidade do ser e busca interpretar essa totalidade. No que diz respeito à relação entre o sujeito e o objeto como ponto central do conhecimento, ao contrário do que ocorre nas concepções fenomenológicas (determinação do sujeito pelo objeto), na teoria do conhecimento, o sujeito é quem determina o objeto. Nesse sentido, a consciência que conhece se comporta ativa e espontaneamente ante o objeto. E, na religião, o encon- tro é o fator preponderante do conhecimento. Conhece-se, portanto, pela experiência, e não pela via racional-discursiva. Desse modo, é preciso lidar com o problema da essência do conhecimento. Para isso, coloca-se em questão outras possibilidades de conhecimento, que, para além da apreensão racional do objeto e para além do conhecimento racional, são intuitivas. Há, portanto, outros tipos de conhecimento humano além do conhecimento racional-discursivo; é validado também o conhecimento religioso, isto é, intuitivo. Outro problema é relativo à origem do conhecimento humano. Como ocorre o conhecimento no sujeito pensante? Qual é a base para a validade do conhecimento? A resposta pressupõe uma perspectiva psicológica que se desdobra no racionalismo, no empirismo e no intelectualismo. Porém, com o apriorismo, há a tentativa de mediar o racionalismo e o empirismo. O apriorismo considera tanto a experiência quanto o pensamento e a reflexão como fontes de conhecimento. Na essência do conhecimento, está a relação entre sujeito e objeto. Aqui, a questão fundamental é se o objeto determina o sujeito, ou se o sujeito é que determina o objeto. Existem soluções pré-metafísicas, metafísicas e teológicas. A solução para a problemática sujeito–objeto pode ser obtida por meio de um retorno ao absoluto, isto é, aos princípios últimos das coisas; a partir daí, determina-se as relações entre ser e pensamento. Essa é uma A religião como forma de conhecimento2 solução teológica do problema com duas possibilidades: o sentido monista- -panteísta ou o sentido dualista-teísta. Na busca da solução do problema sujeito–objeto, ao se retroceder ao absoluto, chega-se ao monismo. Esse conceito denota uma mesma unidade (e não dualidade), ou seja, estão em jogo os dois lados de uma mesma e única realidade. Espinosa desenvolve essa reflexão de maneira mais clara com base na ideia de substância como centro de seu sistema, com dois atributos: 1. o pensamento (cogitatio) – mundo ideal ou da consciência; 2. a extensão (extensio) – mundo material. Há uma concordância em Espinosa. Para ele, há semelhança entre a ordem e a conexão das ideias e das coisas. Assim, com objeto e sujeito totalmente idênticos, o problema sujeito–objeto estaria resolvido. Já na visão dualista-teísta da solução teológica, o dualismo empírico entre sujeito e objeto tem seu fundamento no dualismo metafísico, sustentando-se na diferença metafísica essencial entre sujeito e objeto, isto é, pensamento e ser, cujo princípio comum é a divindade. A fonte comum é Deus como causa criadora do universo. Deus, portanto, coordena o ideal e o real de tal forma que eles concordam entre si, possibilitando uma harmonia entre o pensamento e o ser. Esse é o ponto de vista do teísmo cristão. Há noções precursoras desse pensamento em Platão, Aristóteles e Plotino, mas somente na Idade Média ele emerge de forma fundamentada e organi- zada. Agostinho e Tomás de Aquino são seus principais representantes. Na Idade Moderna, Descartes filosofava no terreno do teísmo cristão. A ideia de harmonia preestabelecida fora dada por Leibniz. Para ele, o mundo “[...] é composto por infinitas mônadas que se apresentam como mundos totalmente fechados em si mesmos” (HESSEN, 1999, p. 68), nos quais ordem e harmonia se estabelecem a partir de Deus. Há um fio condutor da questão da intuição que é delineado desde Agos- tinho até Scheler, em sua obra Do eterno no homem. Nessa obra, Scheler (2015) afirma que seus esforços foram dirigidos a demonstrar o contato da alma com Deus, iniciando com Agostinho, que experienciou Deus no coração e o apreendeu em palavras. O intelectualismo religioso de Geyser e Messer é equivocado, por confundir religião com metafísica; nesta última, só há conhecimento racional. Entretanto, Deus não é objeto de estudo da metafísica. O Deus da religião não é um ser, e sim um valor. Ele é dado exclusivamente na experiência interna, e não na atitude racional-metafísica. É por meio da experiência religiosa A religião como forma de conhecimento 3 que a divindade chega à condição de algo dado. A crença em Deus não está fundamentada nas inferências metafísicas, senão não haveria a absoluta inquebrantabilidade do homem religioso. O conhecimento humano não se restringe ao mundo fenomênico, mas avança para a metafísica. Desse modo, a religião, a fé religiosa, fornece também interpretação do sentido do mundo, do universo. As relações que se estabelecem, portanto, são entre religião e filosofia, crença religiosa e conhecimento filosófico, fé e saber. Essas relações foram concebidas, diferentemente, em quatro tipos, que se dividem em identidade essencial e diferença essencial. Na identidade essencial total, “[...] a fórmula dirá, então, ou que religião é filosofia, ou que filosofia é religião, isto é, ou se dissolve a religião na filosofia, ou a filosofia na religião” (HESSEN, 1999, p. 108). O sistema gnóstico, como identidade na qual se considera a filosofia e a religião como uma única coisa, compartilha a mesma busca pelo conhecer. Aqui, a religião é considerada um conhecimento inferior, pois não trata de conceitos abstratos, mas se dedica às representações concretas. Os filósofos Espinosa, Fichte, Schelling, Hegel e von Hartmann defendem essa concepção. Já no sistema tradicionalista de identidade, há um reducionismo da filosofia em relação à religião. Nesse caso, a tradição religiosa é fonte para os filósofos, e a filosofia e a religião coincidem, não sendo a primeira autônoma diante da segunda. Na identidade essencial parcial, a filosofia e a religião possuem um campo comum: a teologia natural (escolástica) ou teologia racional (filosofia do Iluminismo). O foco dessa vertente está em provar a existência de Deus e definir sua essência por meio da razão, fundamentando as bases para a fé sobrenatural. Desse modo, a religião baseia-se na filosofia, e a fé baseia-se no saber. Esse foi o modo como Tomás de Aquino definiu as relações entre fé e saber. Os sistemas dualistas, contrários aos de identidade, desdobram-se nos sentidos estrito e moderado. No sistema dualista estrito, o saber é fenomê- nico, e a fé é suprassensível. Essa é uma concepção de Kant, que foi o grande influenciador da teologia protestante do século XIX. No sistema dualista moderado, religião e filosofia são campos distintos que se aproximam da ideia de absoluto a partir de diferentes prismas: o racional e cosmológico (na filosofia), que resulta na ideia espiritual do mundo; e o ético e religioso (na religião), que resulta na ideia de um Deus pessoal. Essa ideia foi defendida por Scheler (2015). A religião como forma de conhecimento4 Scheler se opõe ao sistema de identidade quando analisa o seguinte: Hoje, quando as posições religiosas divergem entre si mais profundamente do que nunca, não há nada admitido mais uniformee seguramente por todos que tratam da religião de modo inteligível do que isto: que a religião tem, no espírito humano, uma fonte que é fundamental e essencialmente diversa da fonte da filosofia e da metafísica; que os fundadores da religião — os grandes homines religiosi — são tipos espirituais humanos completamente distintos do filósofo e do metafísico; e que, além disso, suas grandes transformações históricas jamais nem em parte alguma resultaram da força de uma nova metafísica, mas de um modo fundamen- talmente diferente (SCHELER apud HESSEN, 1999, p. 109). A inadequação do sistema de identidade total ou parcial está na sua impossibilidade de se aproximar do objeto de estudo da religião (o divino) pelas vias racionais e metafísicas, uma vez que são campos distintos, e a passagem de um para o outro é impossível. Como pontua Hessen (1999, p. 110), “[...] as supostas conclusões metafísicas puramente racionais nascem, na verdade, de uma atitude religiosa, de tal forma que poderíamos dizer com Scheler, que aquelas provas e conclusões não fundamentam a religião, mas ao contrário, fundamentam-se elas mesmas na religião”. Disso emerge a explicação psicológica de que a prova de Deus satisfaz apenas àqueles que têm fé, por conta de sua atitude religiosa. Assim, ela se torna inútil para os que assumem uma postura racional e crítica. Para além da razão, há a vida vivida, independente de programas filo- sóficos; a razão não capta totalmente a essência das coisas. Emotividade e volatilidade devem ser consideradas no sentido essencial do ser e do agir, de modo que o pensamento ajuda na experimentação intensa e coesa. Portanto, o conhecimento religioso é um conhecimento verdadeiro, que se alicerça em si mesmo. Formas mitológicas e religiosas de conhecimento O mito e as religiões procuram fornecer explicações sobrenaturais do mundo. A fé incondicional em uma religião implica a aceitação dessas explicações de forma dogmática. Isso garante inclusive a salvação, fundamentada também em explicações sobrenaturais. Há maneiras e técnicas de se obter e conservar a salvação, que são os ritos, os sacramentos e as orações. A religião como forma de conhecimento 5 Evidentemente, a validade do conhecimento religioso é dada pela própria religião, sem se alicerçar em nenhuma outra forma de co- nhecimento. Todavia, outras formas de conhecimento auxiliam na compreensão do conhecimento religioso. Por exemplo, embora a religião não comprove a existência de Deus, nem a ciência, nem a filosofia provam a sua inexistência. Alguns especialistas, como Mircea Eliade (1992), estudioso de história comparada das religiões, atribuem importância especial ao contexto religioso do mito. Com efeito, são muito frequentes os mitos que versam sobre a origem dos deuses e do mundo (chamados, respectivamente, “mitos teogônicos” e “mitos cosmogônicos”), dos homens, de determinados ritos religiosos, de preceitos morais, tabus, pecados e redenção. Em certas religiões, os mitos formam um corpo doutrinal e estão estreitamente relacionados aos rituais religiosos, o que levou alguns autores a considerar que os mitos surgiram para explicar os rituais religiosos. Mas tal hipótese não foi universalmente aceita, por não esclarecer a formação dos rituais e porque existem mitos que não correspondem a um ritual. Nas religiões monoteístas, as mitologias, sobretudo as teogonias, são geralmente repudiadas como exemplos de ateísmo ou politeísmo, pois re- presentariam uma desvirtuação do Deus único e transcendente, à medida que o relacionam a manifestações ou representações de outras criaturas. Entretanto, essas mesmas religiões também recorrem a descrições fantás- ticas, de caráter simbólico, para explicar a origem do mundo e do pecado, o fim do mundo e a vida ultraterrena, e não deixam de atribuir a Deus reações e sentimentos humanos. O mito, portanto, é uma linguagem apropriada para a religião. Isso não significa que a religião e o mito contam uma história falsa; ambos traduzem numa linguagem plástica (isto é, em descrições e narrações) uma realidade que transcende o senso comum e a racionalidade humana, e que, portanto, não cabe em meros conceitos analíticos. Não importa, do ponto de vista do estudo da mitologia e da religião, que Prometeu não tenha sido realmente acorrentado a um rochedo com um abutre a comer-lhe as entranhas, nem que Deus não tenha criado o ser humano a partir do barro. Religião e mito diferem não quanto à verdade ou falsidade daquilo que narram, mas quanto ao tipo de mensagem que transmitem. A mensagem religiosa geralmente exige determinado comportamento perante Deus, o sagrado e os homens, e é muitas vezes formulada de forma compatível com conceitos racionais, em doutrinas sistematizadas. O mito A religião como forma de conhecimento6 abrange mais mensagens, desde atitudes antropológicas muito imprecisas até conteúdos religiosos, pré-científicos, tribais, folclóricos ou simplesmente anedóticos, que são aceitos e formulados de modo menos consciente e de- liberado, mais espontâneo, sem considerações críticas. A crença em poderes sobrenaturais é um aspecto intrínseco à humanidade. Os seres humanos são seres religiosos e, independentemente das causas, buscam algo além de si mesmos. Tal busca se manifesta nas inúmeras ex- pressões religiosas existentes no mundo todo. Existem evidências — tanto no passado remoto quanto no presente — que demonstram o caráter da busca transcendental (ou imanente) e suas complexas manifestações religiosas. Essa complexidade se vê tanto nos rituais antropofágicos e nos sacri- fícios de animais como nas cerimônias religiosas simbólicas. As múltiplas manifestações religiosas são fenômenos permanentes e constantes que se interligam no tempo e no espaço. E, independentemente da forma e da evolução de suas manifestações, elas revelam a atualidade das lendas e mitos antigos e a brutalidade atual de rituais arcaicos, sugerindo que religião e magia acompanham a humanidade desde suas origens, quando os homens se distanciaram dos animais a partir da consciência de si mesmos. O reconhecimento da religião como forma de conhecimento deve consi- derar a experiência religiosa, alicerçada em si mesma. Ele está no campo do sentimento (ou seja, da emotividade) e da vontade (isto é, da volatilidade). Veja como Eliade (1992, p. 60) descreve a experiência religiosa: A simples contemplação da abóbada celeste é suficiente para desencadear uma experiência religiosa. O Céu revela-se infinito, transcendente. É por excelência o ganz andere diante do qual o homem e seu meio ambiente pouco representam. A transcendência revela-se pela simples tomada de consciência da altura infinita. O “muito alto” torna-se espontaneamente um atributo da divindade. As regiões superiores inacessíveis ao homem, as zonas siderais, adquirem o prestígio do transcendente, da realidade absoluta, da eternidade. O conhecimento religioso é intuitivo. Ele é capaz de dar respostas de alcance universal aos enigmas do mundo e da vida. Mesmo que as múltiplas religiões apareçam diversamente, é preciso reconhecer a especificidade do conhecimento advindo dos inúmeros e diversos fenômenos religiosos, igualmente importantes e com sentido determinado para seus praticantes e fiéis. Como pontua Hessen (1999, p. 83), embora ninguém tenha se deixado torturar por uma hipótese metafísica, muitos homens já sofreram fisicamente por sua fé em Deus; “Para qualquer pessoa imparcial, esse fato fala uma linguagem bastante clara”. A religião como forma de conhecimento 7 A especificidade do conhecimento religioso Existem muitas formas de conhecer o mundo. Lakatos e Marconi apresentam quatro tipos de conhecimento. Eles afirmam que a diferença entre o conheci- mento do senso comum e o conhecimento científico está mais no “[...] que se refere a seu contexto metodológico do que propriamente por seu conteúdo” (LAKATOS; MARCONI, 2017, p. 4). Essa mesma lógica se observa também no que tange aos conhecimentosfilosófico e religioso (teológico). A seguir, veja como Trujillo Ferrari (1974) caracteriza os quatro tipos de conhecimento. � Conhecimento popular: valorativo, reflexivo, assistemático, verificável, falível e inexato. � Conhecimento científico: real/factual, contingente, sistemático, veri- ficável, falível e aproximadamente exato. � Conhecimento filosófico: valorativo, racional, sistemático, não verifi- cável, infalível e exato. � Conhecimento religioso: valorativo, inspiracional, sistemático, não verificável, infalível e exato. O conhecimento religioso é um conhecimento que se apoia, segundo Lakatos e Marconi (2017, p. 6), em “[...] doutrinas que contêm proposições sagradas (valorativas), por terem sido reveladas pelo sobrenatural (inspira- cional) e, por esse motivo, tais verdades são consideradas infalíveis e indis- cutíveis (exatas)”. Por conta dessas características, “[...] é um conhecimento sistemático do mundo [...] como obra de um criador divino; suas evidências não são verificáveis: está sempre implícita uma atitude de fé perante um conhecimento revelado” (LAKATOS; MARCONI, 2017, p. 6). Esse tipo de conhecimento pressupõe fé na crença incondicional de que a realidade consiste em atos criadores de Deus, dispensando evidências e verificabilidades. Temas atuais como aborto, teoria da evolução, eutanásia, reprodução e clonagem são tratados de formas diferentes por teólogos e cientistas, população e filósofos. Para Lakatos e Marconi (2017), de um lado, as posições dos teólogos fundamentam-se nos ensinamentos de textos sagrados; de outro os cientistas buscam, em suas pesquisas, fatos concretos capazes de comprovar (ou refutar) suas hipóteses. No conhecimento teológico, não há procura por evidências, uma vez que estas são tomadas “[...] da causa primeira, ou seja, da revelação divina” (LAKATOS; MARCONI, 2017, p. 6). A religião como forma de conhecimento8 Uma mesma pessoa pode ter conhecimentos populares, científicos, filosóficos e religiosos. É muito comum, por exemplo, um cientista declarar sua fé religiosa, ou um religioso se filiar a um tipo de sistema filosó- fico. Mesmo um filósofo pode agir em conformidade com o senso comum, e o contrário também pode acontecer. Ou seja, não há uma separação cartesiana, nas pessoas, que determine a manifestação de apenas uma forma de conhecer. Há uma mescla entre os tipos de conhecimento em cada ser humano, conforme suas condições de formação. Conhecimento dogmático religioso Explicar a natureza é um empreendimento humano antigo, principalmente no que tange às forças naturais e à morte, à qual os homens estão expostos e sub- metidos. Por meio do conhecimento obtido a partir dos mitos, as explicações dos fenômenos da natureza foram atribuídas a entidades míticas. A compreensão da realidade era impregnada de noções sobrenaturais, cuja explicação se baseava em motivações humanas atribuídas a potências sobrenaturais. O conhecimento religioso, ao tentar explicar os fenômenos da natureza e da morte, o fez de forma dogmática, com base em revelações divinas. Essas explicações se fundamentam nas causas primeiras; deuses inspiram o ser humano para o conhecimento de fundamentação religiosa. É por meio da sacralização de leis, verdades e conhecimentos que as explicações são aceitas, sem nenhum tipo de criticidade ou filtro teórico. O conhecimento religioso ou teológico baseia-se em doutrinas com pro- posições sagradas. Esse conhecimento é valorativo e inspiracional, pois suas verdades são reveladas pelo sobrenatural; ele também é infalível e indiscutível (as verdades são exatas). Ademais, é sistemático, por ser obra de um criador. Portanto, suas evidências não são verificadas. No conhecimento teológico, o fiel não se detém à procura de evidências. Para Hessen (1999, p. 23), o conhecimento religioso é dogmático, tem um doutrina estabelecida; assim, “[...] a possibilidade e a realidade do contato entre sujeito e objeto são pura e simplesmente pressupostas”. No dogma- tismo, o problema da possibilidade do conhecimento não é discutido, pois não se reconhece que o conhecimento se dá na relação sujeito–objeto. O dogmático pressupõe que não há a mediação do conhecimento; ele acredita que o objeto é dado diretamente, tanto na percepção como no pensamento. Aqui, a função pensante é desconsiderada (inclusive com relação aos valores, pois são dados). A religião como forma de conhecimento 9 No dogmático, há uma desconsideração do sujeito e de sua função. O dogmatismo religioso diz respeito ao conhecimento religioso. Não é demais observar que ele se opõe ao subjetivismo, ao relativismo e ao pragmatismo. O criticismo se coloca como via intermediária: ao mesmo tempo, com o dog- matismo, há confiança na razão humana, e com o ceticismo, há desconfiança em relação a qualquer conhecimento determinado. Dessa forma, está em jogo uma posição questionadora, e o conhecimento se torna possível. No apriorismo, o conhecimento consiste em elementos a priori, isto é, o conhecimento é dado e não depende da experiência. Nesse caso, o apriorismo é uma forma de conhecimento sem conteúdo; portanto, é diferente do racio- nalismo, que pressupõe o a priori como conteúdo. O apriorismo, sendo forma de conhecimento, recebe os conteúdos do conhecimento pela experiência. Assim, conceitos precisam de intuições, e intuições necessitam de conceitos. No apriorismo, a forma de conhecimento advém do pensamento, e o material do conhecimento advém da experiência. O pensamento, ao rece- ber da experiência as informações, que se apresentam em forma de caos, organiza-as, conectando conteúdos sensíveis entre si, produzindo relações entre eles. Tudo isso se dá pela intuição e pelo pensamento; a consciência estabelece ordem na desordem das sensações recebidas à medida em que as organiza espacial e temporalmente, de forma simultânea ou sucessiva. O conhecimento religioso está no campo da intuição. Teologia: o irracional no racional A tentativa de capturar o irracional e colocá-lo no nível racional faz da teologia um conhecimento próprio. Os termos gregos “theós” e “logia” significam, respectivamente, Deus e ciência ou saber. Portanto, etimologicamente, a teologia é um saber de (ou sobre) Deus. Teologizar, por sua vez, é a tentativa de acessar o sagrado, misterium tremendum, por meio da compreensão humana. Para compreender melhor o termo “teologia”, também é preciso analisar a questão semântica. No Ocidente, esse termo está ligado às tradições judaico- -cristãs. A experiência humana com os textos relaciona a teologia à palavra de Deus, o que resulta na reflexão teórica sobre a própria fé. As origens do termo “teologia” estão na cultura helênica, e não na cultura judaico-cristã. Theologeion é o lugar no qual os deuses apareciam, um lugar especial. Já theologeo é o discurso sobre deuses e cosmologias. “Theologia” era o termo usado para designar as ciências do divino e as orações em louvor ou invocação aos deuses. Theologos, por sua vez, era a pessoa que fazia discursos sobre as divindades. A religião como forma de conhecimento10 Platão, Aristóteles e Agostinho já definiam o termo “teologia” como dis- curso sobre a divindade. Além disso, utilizavam esse termo para categorizar os campos do conhecimento e citar as fábulas mitológicas. Assim, referiam-se à teologia no sentido mitológico, filosófico e civil, respectivamente. A teologia foi definida como o conhecimento do mistério mesmo de Deus. Orígenes assume essa acepção. Em Eusébio, há a sacralização do termo pagão. A patrística assumiu a teologia como o discurso sobre o verdadeiro Deus — trindade. Abelardo utiliza o termo “beneficia”. A escolástica usava as expressões “doctrina christiana”, “doctrina divina” e “sacra doctrina”. Na escolástica, o termo “teologia” era desprezado. Mas Tomás de Aquino e Es- coto associaram a teologia com a sacra doctrina. Então, a teologia tornou-se especulativa, perdendo o sentido de sacra doctrina. Daí em diante, o termo “teologia”passou a ser adjetivado (por exemplo, “teologia mística”, “teologia natural” e “teologia escolástica”). É no plano intelectual que o conceito de teologia permite a compreensão de Deus, bem como o esclarecimento do ato de fé em Deus. A teologia trata de Deus, mediado pela fé. No cristianismo, a teologia, partindo de Deus ou do teólogo, é realizada na comunidade eclesial. Essa comunidade, que transmite a fé, é o espaço próprio do fazer teológico, sem o qual a fé é excluída. Nesse sentido, a teologia leva em conta sua sintonia com a comunidade. O diálogo entre Deus e o homem é feito no âmbito da comunidade, e esta é fortalecida e criticada a ponto de ser aperfeiçoada. A teologia é iniciativa do teólogo como obra humana, fruto de sua inteligên- cia, que somente é possível se iluminada pela divindade. Em suma, a divindade se revela, e o homem procura compreender essa revelação, traduzindo-a, na medida do possível, ao discurso humano. A teologia é a ciência da fé. Para o conhecimento religioso, o exercício da fé é fundamental, pois fora do âmbito da fé não há teologia. Entretanto, a teologia também é ciência, porque essa atividade atende às exigências da racionalidade de um discurso estruturado e segue regras bem definidas. E isso é mais do que enunciar um simples discurso religioso: é produzir uma reflexão disciplinadora, elaborada e articulada ao responder questões relativas à compreensão da fé. Assim, sem o caráter científico, também não se faz teologia. Tanto a atividade de fé como o exercício científico se fazem dentro da comunidade eclesial e para ela. Não está em jogo nenhuma aventura individual e arbitrária. Assim, sem eclesialidade, não se constrói teologia. Para se fazer teologia, em seu sentido mais amplo e específico, deve-se refletir sobre Deus no âmbito da fé, do caráter científico e da eclesialidade. A religião como forma de conhecimento 11 Todas as religiões têm as suas teologias. O exemplo da teologia cristã foi dado aqui para facilitar o entendimento da captura do irracional pelo racional na relação entre fé e saber. Intuição como experiência religiosa com o sagrado Se você considerar a ideia de que conhecer é apreender um objeto, vai perce- ber que apreender por meio da intuição não é simples. Seja na ciência ou na metafísica, o objeto é analisado por vários prismas. As mais variadas opera- ções mentais estão envolvidas na apreensão. Desse modo, está em jogo um conhecimento mediato e discursivo, mas também um conhecimento imediato e intuitivo. Tudo o que é dado externa ou internamente pela experiência é apreendido. “Um conhecimento intuitivo é um conhecimento, como o nome já diz, pelo olhar. Sua característica consiste em que, nele, o objeto é imediata- mente apreendido, como ocorre principalmente na visão” (HESSEN, 1999, p. 70). Portanto, há a possibilidade de apreender pela intuição, ou seja, existe a apreensão intuitiva. Essa apreensão também pode ser material, formal. Ela está fundada na estrutura psíquica do ser humano com três potências (pen- sar, sentir e querer). Consequentemente, urge distinguir a intuição racional (entendimento) da emocional (sentimento) e da volitiva (vontade). O termo “visão” expressa a apreensão nesses três casos. Quando se trata do objeto, a mesma situação ocorre: “Todo objeto possui três aspectos ou elementos: o ser-assim (essentia), o ser-aí (existentia) e o ter-valor” (HESSEN, 1999, p. 70), isto é, a intuição racional, a volitiva e a emocional, respectivamente. A intuição material de Platão, racional, foi renovada no tratado Da contem- plação de Plotino como uma intuição com elementos emocionais. Agostinho, influenciado por Plotino, reconhece na experiência religiosa uma forma superior da visão da divindade, e isso de modo imediato. Essa ideia mística de Deus se desenvolve em direção à mística medieval, totalmente oposta à escolástica, de cunho racional-discursivo, deflagrando conflitos entre o agostinismo (Boaventura) e o aristotelismo (Tomás de Aquino). Daí, passa-se a Descartes, com “penso, logo existo”. Ou seja, defende- -se uma intuição material autônoma, que se encontra também em Pascoal. Nesse contexto, a intuição é tida como fonte autônoma do conhecimento, que coloca lado a lado o conhecimento racional e o emocional. A intuição não é considerada especial por Espinosa, Leibniz e Kant. Porém, antes de Kant, há Hume, para quem existem conteúdos que excedem a consciência humana e A religião como forma de conhecimento12 escapam ao conhecimento racional. Hume coloca lado a lado o teórico e o prático, o racional e o irracional, e chama de “crença” (belief) uma apreensão e um assentimento intuitivos e emocionais. Outros pensadores ingleses reconhecem o conhecimento intuitivo no campo dos valores, que são apreendidos de modo imediato e emocional (sentido moral e estético). Para Fichte, ao contrário de Kant, e também para Schelling, há uma intuição espiritual. Schopenhauer concorda com Kant no que tange ao discurso-racional, que tem limites na fronteira com o mundo fenomênico, porém se distancia dele quando entende que há uma ocultação eterna da essência das coisas. É a visão espiritual, a intuição. Schleiermacher e Fries tratam do conhecimento intuitivo na religião. Fries distingue três fontes do conhecimento, o saber, a crença e o pressentimento; pelo sentimento puro, apreende-se o eterno no temporal, o divino no terreno. Para Schleiermacher, a religião é sentimento e intuição do universo. Os pensadores contemporâneos rejeitam o problema da intuição como forma de conhecimento, voltando-se para um único método de conhecimento, o racional-discursivo. Porém, há considerações fundamentais sobre a intuição em Bergson, em Dilthey e na fenomenologia. Para Bergson, só a intuição é capaz de penetrar na essência das coisas; o intelecto, não. Para Dilthey, a intuição é algo totalmente irracional. A realidade é aberta para um contato emocional e volitivo. Husserl reconhece uma intuição racional, já Scheler reconhece uma intuição emocional. Segundo Scheler, também Deus é intuitivamente conhecido. Pela via metafísica racional, chega a um fundamento absoluto do mundo; jamais, porém, a um Deus no sentido da religião. A nota característica da personalidade tem um valor constitutivo para a ideia religiosa de Deus. Só posso conhecer uma pessoa na medida em que ela se manifesta para mim. A essa automanifestação de Deus corresponde, no lado do sujeito humano, a experiência religiosa. E assim, segundo Scheler, o Deus da religião só se eleva à condição de algo dado no contexto de uma experiência religiosa, de uma vivência e intuição imediatas (HESSEN, 1999, p. 77). A compreensão do ser humano não deve ser exclusivamente racional, mas também emocional e volitiva. Dilthey coloca o conhecimento irracional- -intuitivo ao lado do racional-discursivo. Embora alguns advoguem que as intuições devam passar pelo crivo da razão, é preciso lembrar que existe o caráter autônomo da intuição, sendo esta uma entidade do conhecimento, uma vez que os seres humanos são seres que sentem e desejam. A intuição é um ser-aí prático. As forças irracionais da experiência e da intuição interna, não só da sensa- ção e da razão, participaram ativamente da história da civilização em formas A religião como forma de conhecimento 13 religiosas, filosóficas e artísticas. Inclusive, contrariando a noção equivocada de que só é possível conhecer o comportamento religioso pela via racional e discursiva, a vivência e a intuição desempenham papel relevante no campo religioso, como demonstram a história e a psicologia da religião. Na vida religiosa intensa, há sempre o contato da consciência com Deus. O divino transcendental penetra o imanente e é experimentado imediatamente, ou seja, vivenciado. A vida religiosa é a tomada consciente e imediata do inex- plicável. Existem inúmeras formas de atestar a certeza peculiar e intuitiva de perceber a união eterna do ser humano com o infinito. O critério de verdadeinicialmente é evidenciado pela ausência de contra- dição, porém tal ausência não é universal, servindo apenas para o campo das ciências formais e ideais. Para os objetos reais, esse critério perde seu sentido, o que leva à procura de outros critérios de verdade. A presença imediata do objeto é um critério de verdade, desse modo os juízos são verdadeiros quando da imediatidade do objeto. Essa é uma certeza pré-lógica, anterior à articulação do pensamento. Há também a evidência do pensamento, tanto no sentido irracional quanto no racional. No sentido irracional, a evidência é o sentimento, portanto de caráter emocional. Ela é subjetiva, de conhecimento intuitivo, não capturável de modo lógico, mas pessoalmente vivenciada. A religião se encontra no domínio dos valores autônomos, não se fun- damentando em nenhum outro domínio. Ela é firmada em si mesma, não se validando nem pela filosofia, nem pela metafísica. A religião se firma em si mesma na imediatez do pensamento religioso. Hessen (1999) apresenta as bases epistemológicas da autonomia da religião quando destaca o tipo de conhecimento caracterizado como imediato e intuitivo (ao tratar do problema da intuição, que por sua vez reconhece o conhecimento religioso como co- nhecimento especial). Surgiram resistências a esse pensamento, mas Scheler pontuou o seguinte: Será que a religião, que de todas as disposições e potências do espírito humano é, subjetivamente, a mais profunda, pode estar assentada sobre uma base mais sólida do que sobre si mesma, sobre sua própria essência? [...] Que estranha é, por- tanto, essa desconfiança no poder e na evidência própria da consciência religiosa, desconfiança que se revela no fato de se querer “assentar” suas primeiras e mais importantes afirmações sobre algo diferente do próprio conteúdo essencial dos objetos dessa consciência (SCHELER apud HESSEN, 1999, p. 110). A confusão entre objetividade e validade universal está na base dessa des- confiança, conduzindo à invalidação do conhecimento e da certeza religiosa especial (logo, sem pretensão à objetividade), reduzindo-a ao subjetivismo. A religião como forma de conhecimento14 Mas um juízo pode ser objetivo sem ser universalmente válido. A resistência tem base em fundamentos racionais; o argumento dos intelectualistas é de que a filosofia fornece verdades metafísicas para a religião. Entretanto, a religião definida por eles é aquela que se adequa aos sistemas filosóficos. Assim, a pedra de definição da religião não deve ser abalizada na filosofia, pois qualquer abalo nos fundamentos tradicionais filosóficos criaria proble- mas para a religião. Não é pela atividade intelectual ou pela reflexão filosófica que alguém se torna religioso. Nem mesmo por estudos teológicos, mas pela experiência religiosa. Isso caracteriza a existência de um conhecimento religioso específico, no campo dos valores. É assim que ocorre a penetração viva e poderosa dos valores religiosos na consciência. Considerações sobre o sagrado e a estruturação religiosa A experiência religiosa, tema tratado por Rudolf Otto em sua obra Das Heilige (1917), é o escopo da análise de Mircea Eliade que embasa esta seção. Eliade (1992) discorre sobre a presença e a ausência da noção de transcendência no pensamento religioso e no pensamento científico. Ele esclarece que o sagrado “[...] não era o Deus dos filósofos, o Deus de Erasmo, por exemplo; não era uma ideia, uma noção abstrata, uma simples alegoria moral. Era, pelo contrário, um poder terrível, manifestado na ‘cólera’ divina” (ELIADE, 1992, p. 12). O mysterium tremendum gera sentimentos de pavor e temor diante do mysterium fascinans. Essas experiências são consideradas numinosas, “[...] porque elas são provocadas pela revelação de um aspecto do poder divino” (ELIADE, 1992, p. 12). Diante do totalmente outro, o ser humano vê sua limitação, que atinge a nulidade, ante a grandiosidade da experiência da relação com o sagrado. Eliade (1992, p. 13) afirma que a “[...] primeira definição que se pode dar ao sagrado é que ele se opõe ao profano”. Dessa forma, a ideia de sagrado será sempre apresentada em oposição à ideia de profano. Para ilustrar a ideia de que o sagrado se mostra, se manifesta, Eliade (1992, p. 13) propõe o termo “hierofania”, que indica “[...] que algo de sagrado se nos revela”. Os múltiplos fenômenos religiosos, portanto, revelam as múltiplas hierofanias que ocorreram e ocorrem na história humana. Essas hierofanias, segundo Eliade (1992), podem ser interpretadas de modo diferente pelos seres A religião como forma de conhecimento 15 humanos primitivos e pelos modernos, bem como por primitivos e modernos de uma mesma época que vivem em regiões distintas. Dessa forma, “A partir da mais elementar hierofania — por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, urna pedra ou uma árvore — e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe solução de continuidade” (ELIADE, 1992, p. 13). Quando os primitivos percebem a manifestação do sagrado em pedras, por exemplo, não dirigem uma adoração/veneração a elas. Nesse sentido, os objetos “[...] são hierofanias, porque ‘revelam’ algo que já não é nem pedra, nem árvore, mas o sagrado, o ganz andere” (ELIADE, 1992, p. 13). Eliade es- clarece que a manifestação do sagrado em um objeto sacraliza esse objeto, de forma que ele se torna um meio de contato com o sagrado (não o próprio sagrado), sem, contudo, mudar sua substância. Assim, “[...] para aqueles que têm uma experiência religiosa, toda a Natureza é suscetível de revelar-se como sacralidade cósmica” (ELIADE, 1992, p. 13). Nesse sentido, diante do desejo de estar no cosmos em oposição ao caos, os primitivos buscavam viver o mais próximo possível do sagrado e/ou dos objetos sagrados, pois compreendiam o sagrado como a própria realidade. Assim, sagrado e profano podem ser identificados como real e irreal para o primitivo, respectivamente. A busca, portanto, do primitivo está em “[...] participar da realidade, saturar-se de poder” (ELIADE, 1992, p. 14). Para ele, a realidade é transcendental. Ao iniciar sua obra Magia, Ciência e Religião, Bronislaw Malinowski (1984, p. 19) defende que “[...] não existem povos, por mais primitivos que sejam, sem religião nem magia”. Henri Bergson (1978, p. 85), por sua vez, afirma que “[...] nunca existiu sociedade sem religião”. Nas sociedades primitivas, existiam dois componentes inseparáveis: “[...] dois domínios perfeitamente distintos, o Sagrado e o Profano; por outras palavras, o domínio da Magia e da Religião, e o da Ciência” (MALINOWSKI, 1984, p. 19). É no domínio do sagrado que se encontra o fenômeno religioso. “De um lado, encontram-se os atos e as práticas tradicionais, que os nativos consideram sagrados [...] associados a crenças em formas sobrenaturais” (MALINOWSKI, 1984, p. 19). De outro lado, está a ciência rudimentar ou o profano. No domínio do sagrado, portanto, encontra-se o fenômeno religioso. Marconi e Presotto (2001, p. 151) ressaltam que “[...] são dois os elementos constitutivos da religião: crença e ritual [...] [e enfatizam que] somente a crença não basta para formar uma religião, deve estar associada à prática”. O entendimento de crença ou fé “[...] consiste em um sentimento de respeito, submissão, reverência, confiança e até de medo em relação ao sobrenatu- A religião como forma de conhecimento16 ral, ao desconhecido” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 151). Sobre o ritual e a prática, tratam-se “[...] da manifestação dos sentimentos por um ou vários indivíduos, em qualquer meio, através da ação [...] de caráter religioso ou mágico” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 151). O que move as manifestações religiosas é o sobrenatural. Para Marconi e Presotto (2001, p. 152), ele é o princípio ativo que mobiliza os seres humanos como reação a “[...] tudo aquilo que escapa aos sentidos do homem, que foge à compreensão humana, à observação e ao entendimento”.O sobrenatural está além da dimensão humana e é “[...] considerado o cerne da religião, a base dos sistemas religiosos” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 152). O homem pode imaginar seres, entidades, forças e almas dos mortos na forma de anjos, santos, demônios, fadas, espíritos, almas, mana ou espectros (MARCONI; PRE- SOTTO, 2001). Os seres residem em lugares diferentes; as forças, no universo; e as almas dos mortos ou espectros continuam membros da sociedade. Em todas as expressões religiosas, em todas as épocas e lugares, há cultos, com variações estruturais, organizacionais e de realização. Os objetos sagrados que compõem o culto são “[...] adorados, venerados ou utilizados nos rituais”; é o caso de “[...] imagens, objetos rituais, máscaras etc.” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 153). As representações dos deuses egípcios ou dos orixás do candomblé são exemplos de imagens usadas no culto. Já os atabaques e colares das religiões africanas são exemplos de objetos rituais. As máscaras “[...] simbolizam autoridade, prestígio ou têm efeitos medicinais”; elas são “[...] usadas como disfarce nos mais diversos rituais” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 153); é o caso da diablada no Peru e das máscaras tradicionais de algumas religiões africanas. No geral, as formas do ritual variam conforme a organização e o tipo de culto. De acordo com Marconi e Presotto (2001, p. 154), os rituais “[...] consistem em atos religiosos como rezar, cantar, dançar aos deuses, ofertar coisas, fazer sacrifícios”. Os autores realçam três formas principais de ritual: as orações, as oferendas e as manifestações. Há rituais com cânticos e dan- ças, como rituais para chuva, para plantio, para colheita, contra epidemias, etc. Nos rituais, há também pantomimas, rogações e atos de magia. Outro tipo de rito comum em muitas manifestações do fenômeno religioso são os ritos de passagem (ou transição). Esses ritos aparecem “[...] quando ocorrem importantes modificações no status social” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 155). Esses ritos são realizados por ocasião do nascimento, da puberdade, do matrimônio e da morte. Os locais de realização das celebrações cúlticas, ritualísticas e cerimoniais são chamados de “santuários”. Consideradas sagradas, essas construções A religião como forma de conhecimento 17 são os lugares onde se queimam incensos, se acendem velas e se realizam orações. Os santuários “[...] podem estar vazios, abrigar objetos de culto ou se constituir na morada fixa ou temporária de deuses e espíritos. Templos, casas, cidades, sepulturas, estábulos, árvores, objetos, pedras, animais e até cacos de cerâmica podem ser considerados santuários” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 158). Além dos santuários, existem “[...] locais e acidentes geográficos que constituem a morada definitiva ou temporária de espíritos ou deuses” (MAR- CONI; PRESOTTO, 2001, p. 158). São os lugares sagrados. “Montes, picos de montanhas, rochas, bosques, árvores, rios, lagos podem ser considerados sagrados, e, às vezes, até o caminho por onde passou um rei divino (Tibete)” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 158). Nas religiões, nenhum ritual, culto, rito ou cerimônia pode ser reali- zado sem os oficiantes. Eles são pessoas preparadas e consagradas, muitas vezes desde tenra idade, para ocupar determinado cargo. Podem ser sacerdotes, como os sacerdotes brâmanes, na Índia; reis divinos, como o Dalai Lama, que é rei-sacerdote do Tibete; chefes ou ministros religiosos, como o pajé e o pai de santo no candomblé; especialistas, como os xamãs entre os trobriandeses; e oráculos, como o Oráculo de Delfos. Referências BERGSON, H. As duas fontes da moral e da religião. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. ELIADE, M. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992. HESSEN, J. Teoria do conhecimento. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Metodologia científica. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2017. E-book. MALINOWSKI, B. Magia, ciência e religião. Lisboa: Edições 70, 1984. MARCONI, M. de A.; PRESOTTO, Z. M. N. Antropologia: uma introdução. São Paulo: Atlas, 2001. SCHELER, M. Do eterno no homem. Petrópolis: Vozes, 2015. TRUJILLO FERRARI, A. Metodologia da ciência. 2. ed. Rio de Janeiro: Kennedy, 1974. A religião como forma de conhecimento18 CIÊNCIAS DA RELIGIÃO E TEOLOGIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Relacionar as ciências da religião com a história da religião. > Descrever o papel das ciências no estudo da religião. > Identificar a história das religiões como uma das ciências das religiões. Introdução A história e a religião estão conectadas tanto no exercício de escrita de si mesmas quanto na necessidade metodológica de documentar, traduzir, compreender e organizar a religião. Assim, desde a Antiguidade grega, a história ocupou um lugar central, a partir do qual o passado só poderia ser conhecido por meio de uma historiografia. Contudo, com a modernidade, a reflexão histórica acerca da religião se mostrou carente de uma epistemologia que assegurasse uma análise neutra das religiões. Isto é, dada a necessidade moderna de um discurso racional fundante das ciências e os conhecimentos de outras religiões que não as abraâ- micas, fez-se necessária outra forma de pensar as religiões, já que a história das religiões se concentrava em grande medida no cristianismo — é assim que nascem as ciências da religião. Neste capítulo, você vai conhecer como as ciências da religião se relacionam histórica e conceitualmente com a história da religião. Além disso, vai ver qual é o papel que as ciências desempenharam nos estudos da religião e vai identificar a história das religiões como uma das ciências das religiões. Ciência da religião e história da religião Mayara Joice Dionizio A relação entre as ciências da religião e a história da religião Podemos dizer que a relação entre a religião e a história, além de antiga, é também indissociável. Em primeiro, destaca-se a intersecção de cada insti- tuição com a sua própria história, o ato de inscrever-se no tempo e constituir sua própria tradição — com a instituição religiosa não é diferente. Outro ponto é a relação entre a instituição religiosa com as outras instituições que compõem a sociedade e, além disso, o próprio papel que a religião teve na realização de uma historiografia da humanidade, o que levou em especial o cristianismo a ser chamado de uma religião de historiadores. Segundo Bloch (2010), a herança cristã é oriunda do que os religiosos aprenderam com os gregos e romanos. Uma vez que o cristianismo nasce no seio da cultura greco-romana, o ofício de descrever o seu tempo se torna importante para a nova religião. Isso é algo que podemos observar na própria Bíblia; de acordo com Bloch (2010, p. 76), “[...] os cristãos tiveram por Livros Sagrados livros de história, e suas liturgias comemoram, com os episódios da vida terrestre de um Deus, os fatos da Igreja e dos Santos”, o que traz à luz a necessidade de uma legitimação histórica das crenças cristãs. Contudo, olhando para a Antiguidade grega, já é possível encontrar a relação entre a história e a religião. Os filósofos pré-socráticos, por exemplo, teceram reflexões sobre a mito- logia grega, sobre as religiões babilônicas. Os filósofos clássicos — Platão e Aristóteles — se debruçaram tanto sobre as religiões bárbaras quanto sobre uma crítica da religião, sem contar o trabalho de Heródoto, considerado o pai da história, que apresenta, em seus textos, uma descrição das religiões de seu tempo. Porém, a relação entre religião e história se aprofundou totalmente durante o governo de Alexandre, “o Grande” (336–323 a.C.). Foi nesse período que, do contato com outros povos, em especial os orientais, os helênicos passaram a descrever e refletir sobre as religiões consideradas “bárbaras” e “exóticas”. Já durante a vigência do Império Romano, destaca-se o sincretismo religioso que ocorre entre as mitologias grega e romana. Nesse sentido, mui-tos deuses são ressignificados ou apenas renomeados com nomes latinos. Vale ressaltar também que é nesse contexto que o cristianismo surge como religião: após a morte de Alexandre, com a divisão do território helênico, o governo se fragmenta e o cristianismo começa a ascender como religião que dignificava a todos perante os olhos de Deus, inclusive os escravos. Depois de muitas revoltas e da queima da biblioteca de Alexandria, o cristianismo se torna religião oficial. No primeiro período, surgem os pri- Ciência da religião e história da religião2 meiros apologistas da Igreja, dentre os quais o mais conhecido foi o filósofo Santo Agostinho, responsável por lançar os fundamentos filosóficos para a fé cristã; assim, a filosofia se torna, na Era Cristã, a responsável por iluminar as revelações cristãs, pois, até então, a filosofia era pensada como um exercício pagão. Com Agostinho, a religião cristã aprofunda a cisão com o paganismo grego. Posteriormente, na Idade Média, inicia-se o conflito entre o cristianismo e o islamismo e ocorrem, então, as Cruzadas (nos séculos XI e XII). A região do Mediterrâneo se torna motivo de disputa entre cristãos e árabes, o que, por sua vez, traz a necessidade de uma maior defesa argumentativa da fé cristã. A produção intelectual desse período ficou conhecida como escolástica, e o maior nome desse movimento foi São Tomás de Aquino (1225–1274). A partir do século XVI, o movimento reformista de Martin Lutero e Calvino empreendeu um trabalho de exegese sobre as Escrituras Sagradas. Assim, os estudos bíblicos tiveram que se fundamentar na filologia e na metodologia histórica por meio do trabalho de tradução, análise temporal e validação dos textos. Trata-se do início do Renascimento, período que foi marcado pelas grandes navegações, pelo conhecimento de outros territórios e pelo antropocentrismo, ou seja, as ciências voltam-se para o desenvolvimento das capacidades humanas, e a fundamentação nos argumentos religiosos torna-se secundária. Dadas essas mudanças, as religiões de outros povos entram em discussão. Vale ressaltar que, nesse período, também começa a colonização das Américas, que se dá de diferentes modos — enquanto na América do Sul empreende-se a exploração tanto das riquezas naturais quanto dos povos originários e sua mão de obra, na América do norte, após o genocídio dos povos originários, cidadãos ingleses vão sendo enviados aos poucos para povoar o país. De acordo com Albuquerque (2007, p. 21) “[...] a conquista além-mar estabelece o sistema colonialista e, também, gera interfaces das culturas da África, Ásia e América com a Europa — e vice-versa”. Esse processo deixa mais evidentes as limitações históricas da teologia até aquele momento, pois todos os instrumentos investigativos tinham como base o cristianismo, informações restritas sobre o judaísmo e aversão ao islamismo. Desse modo, a história se fez essencial à religião, tornando-se um instrumento necessário ao registro e à validação das tradições religiosas, bem como à marcação temporal dessas religiões. Após esse período, já no século XIII, ocorrem acontecimentos que viriam a marcar e aprofundar ainda mais essa relação. Com o conhecimento da existência de outros continentes e outros povos, as ciências biológicas e naturais se voltam para essas regiões. Charles Darwin publica sua obra A Ciência da religião e história da religião 3 origem das espécies (1859), que refuta rigorosamente a tese bíblica da criação divina, pois sugere que as espécies teriam surgido de processos naturais evolutivos (DARWIN, 2019). À mesma época, encontramos um movimento centralizado na razão, inaugurado pelo pensamento cartesiano que defende que a existência se fundamenta no exercício racional, tal como fica conhecido por sua máxima “cogito, ergo sum” (penso, logo existo), e intensificado na modernidade mais tardia por Immanuel Kant, que reconhece na atividade racional o poder emancipatório da humanidade. Assim, por meio do esclarecimento racional, as massas poderiam ascender à maioridade intelectual. Todos esses pensa- mentos marcam a modernidade por uma necessidade de autonomia individual; outrossim, a religião deixa de ser a fundamentação da existência humana e da moral. No mesmo período, essa relação com o outro como outrem possibilita o surgimento da antropologia, um aprofundamento das problematizações sociológicas causadas pela Revolução Industrial — assim, a modernidade assume totalmente o caráter evolucionista e positivista. De acordo com Hermann (1997), foi pelo contato estabelecido com outros povos que se estabeleceu uma hierarquia tanto social quanto cultural entre as diferentes sociedades. Ou seja, as teses evolucionistas e positivistas, que tratam de estabelecer uma “evolução” como critério avaliativo das sociedades e povos, passam a se ocupar, dentro desse amplo aspecto, das religiões. A história, nesse contexto, encontra uma necessidade de mudança epistemo- lógica. Isto é, a história tem a singular capacidade de estar associada a toda e qualquer área do saber e instituição; é ela que nos possibilita compreender os fatos ocorridos, pensar a humanidade em sua temporalidade. Segundo Prado e Silva Júnior (2014, p. 8), “[...] a exegese das escrituras sagradas, o saber contido nos documentos, diz das instituições, dos costumes, do que pensam e sentem os homens religiosos em seu contexto social”. Contudo, no século XIX, essa autoridade é mais uma vez questionada — na verdade, desde o tempo de Heródoto questiona-se a capacidade de apreensão dos fatos da história. O movimento positivista, especificamente, passa a questionar a possibili- dade da história de se fazer científica — o que se tornou a maior preocupação de todas as áreas do conhecimento durante a modernidade. Assim, como pode a história ser plena sobre um objeto? É possível existir uma verdade histórica? Ou seriam apenas de versões sobre um objeto? Essas e outras questões tematizaram o debate instaurado pela escola positivista e surge, assim, a noção epistemológica de oficialidade da fonte: para ser considerada histórica, a narrativa deve estar amparada em documentos legítimos e oficiais Ciência da religião e história da religião4 que dão legitimidade à informação. Essa lacuna levantada pelos positivistas abre espaço também para uma imposição sobre a função que a história deve ter. Para tanto, os positivistas defendiam que a história deve ocupar-se tão somente de temas relevantes: questões políticas que determinaram um tempo, dos atores desses acontecimentos, bem como dos considerados he- róis nacionais. Tais pensadores acreditavam que a memória nacional deveria amparar-se nos grandes feitos, nos grandes acontecimentos, pois assim se caminharia para uma evolução cada vez maior da sociedade. Por fim, nos anos 1970, apesar da grande influência e da disputa positi- vista em torno da história, o que excluía sem grandes delongas a história religiosa do centro das questões, muito por se tratar de uma história menor, de acordo com a produção moderna, Dominique Julia (1995) traz à luz uma nova abordagem da história religiosa. Da publicação de “História Religiosa” (JULIA, 1995), artigo que versa sobre os novos problemas, os novos objetos e abordagens da historiografia, decorre uma nova ascensão do interesse pela história da religião em relação às problematizações sobre a mentalidade. Isto é, o historiador deve, então, voltar, de certo modo, às reflexões iniciadas por Émile Durkheim: a religião como fonte da explicação dos acontecimentos sociais (DURKHEIM, 1996); portanto, a pensar a religião à luz daquilo que acontece socialmente é tratar da religião como agente social. Ocorre, assim, a redignificação da história da religião como um campo de estudo. O papel das ciências no estudo da religião Mesmo com a ruptura entre a ciência e a religião durante a Idade Média, em especial no período da Santa Inquisição, o desenvolvimento de diversos ramos das ciênciasse deu no seio da religião — e vice-versa. O que seria, por exem- plo, da contribuição dada por Aristóteles com suas teorias epistemológicas e observações biológicas se a Igreja não tivesse guardado os seus manuscritos, além de todos os estudos desenvolvidos a partir das leituras que fez São Tomás de Aquino sobre o filósofo? Igualmente, o mesmo podemos afirmar sobre a contribuição da Igreja, de certo que com interesses financeiros e colo- nizadores, à expansão marítima. A ciência, por outro lado, também contribuiu para a pesquisa sobre os estudos religiosos: a sistematização metodológica, epistemológica e filológica que fez com que o estudo da teologia se desen- volvesse é fruto da ciência. A relação entre sociedade e religião do ponto de vista constitutivo, comparativo, antropológico e sociológico só foi possível por meio da ciência. Contudo, de acordo com Albuquerque (2003), o campo Ciência da religião e história da religião 5 de estudo religioso como campo científico só foi dignificado academicamente a partir de 1867, quando Max Muller utilizou o termo “ciência da religião”. O culturalista alemão cunhou esse termo para nomear os estudos no campo da religião do ponto de vista metodológico, distinto daquele empreendido pelos historiadores, a saber, o método classificativo e comparativo. Porém, a ciência da religião não só se fundamentava no método comparativo, mas também se ocupava da pesquisa sobre os mitos, a magia, crenças e religiões. Nesse contexto, antes de trazermos os autores clássicos que fundaram e trataram sobre a ciência da religião, é essencial que compreendamos um pouco mais sobre esse termo. A ciência da religião é um campo de estudos que se dedica ao estudo das religiões de modo não histórico, não normativo, e que explora todas as dimensões do fenômeno religioso, principalmente no que compete ao caráter sociocultural. Contudo, apesar de aspecto mais amplo, a ciência da religião se ocupa somente daquelas que são chamadas de religiões concretas, aquelas que se dão em um contexto simbólico em que a realidade não é passível de ser falsificada, ou seja, religiões inseridas em uma tradição e em uma cultura que são constituídas de elementos religiosos que podem ser acessados empiricamente. De acordo com Usarski (2014, p. 139): [...] a ciência da religião não instrumentaliza seus objetos em prol de uma apologia a uma determinada crença privilegiada pelo pesquisador [...] a ciência da religião defende uma postura epistemológica específica baseada no compromisso com o ideal da “indiferença” diante do seu objeto de estudo. Portanto, trata-se de uma contribuição científica, uma vez que o método utilizado é o de observação e descrição fundamentada no que os cientistas da religião intitulam de “ateísmo metodológico”. O cientista, então, é aquele que deve se isentar de seus valores morais ao avaliar os aspectos religiosos e ideológicos de outros grupos religiosos. Ou seja, a sua avaliação não pode estar comprometida por sua ideologia ou valores. Destacam-se duas abor- dagens pragmáticas que foram possíveis a partir da institucionalização dos estudos da ciência da religião: � a tendência interrelacional, segundo a qual o conhecimento sobre outras culturas religiosas não é hierarquizante epistemologicamente; � a submissão ao pensamento científico e racional, o que acaba por excluir desse campo de estudos os dogmatismos. Ciência da religião e história da religião6 Historicamente, podemos afirmar que a ciência surge com um caráter investigativo do mundo, em seu mais amplo aspecto, de caráter restritamente analítico — ou seja, visa excluir o caráter das ciências. Nesse sentido, no que compete à ciência da religião, instaura-se a necessidade de olhar a religião a despeito do caráter apologético, isto é, desde o surgimento das religiões monoteístas, em especial as abraâmicas, a relação com as crenças conside- radas pagãs é permeada pela presença do julgamento subjetivo. Assim, com o passar dos séculos, com o avanço industrial e, posterior- mente, tecnológico, o conhecimento sobre outras religiões também avan- çou. Contudo, isso não favoreceu muito a relação amistosa entre os grupos religiosos. Na verdade, o que ocorreu foi um aprofundamento das rupturas culturais. O fato de atualmente se conhecer com maior facilidade outras formas de manifestação religiosa e cultural contribuiu para aumentar tam- bém a não comunicação entre esses grupos e a discriminação. No entanto, se voltarmos ao século XI, encontraremos a obra de Adam von Bremen, Gesta Hammaburgensis ecclesiae pontificum, que traz a primeira tentativa, por parte de um teólogo, de tratar de religiões ditas pagãs. Nessa obra, Bremen se atém a descrever fatos históricos que ilustram as práticas religiosas de tribos saxônicas que resistiram ao cristianismo durante o século IX. Já no século XIII, encontramos a obra de Roger Bacon, que era franciscano, Opus Majus, que apresenta um caráter mais apologético das religiões outras, classificadas como incrédulas, mas que, contudo, traz uma classificação das religiões não cristãs daquele período (BACON, 1964). Apesar desses empreendimentos, o estudo da religião como ciência se consolida somente após a modernidade, mais precisamente no século XIX. Após Muller utilizar o termo “ciência” para se referir a um campo de estudo epistemológico estritamente analítico da religião, foi fundado, em 1873, na Universidade de Genebra, o primeiro curso voltado à História Geral da Religião, o que acabou por motivar a abertura de mais quatro cursos em universidades europeias, principalmente na França, na Bélgica, em Roma e nas universidades holandesas (em Amsterdã, Leiden, Utrecht e Groningen). Porém, essa linha de pesquisa teológica não perdurou muito sem que se transformasse em um estudo sobre o cristianismo. Somente em 1924, nas universidades italianas, os estudos da religião passaram a ser realizados de forma autônoma; já na Alemanha, a ciência da religião ganha autonomia acadêmica em Berlim, em 1914, o que demonstra que o trabalho acadêmico iniciado por Muller e outros teóricos abriu espaço para a consolidação dessa área de pesquisa. Chamadas de décadas formativas, ocorreram durante a segunda metade do século XIX diversas palestras sobre as experiências religiosas mais diversas. Ciência da religião e história da religião 7 Nesse contexto, exaltou-se o trabalho filológico como o principal instrumento cientifico para a investigação religiosa. De acordo com Usarski (2014), os estudos que se destacaram e serviram de base para a fundamentação da nova disciplina foram James Legge, no campo da sinologia, que trazia consigo a necessidade da tradução dos escritos religiosos chineses; Edward Willian West, que era especialista em zoroastrismo; Edward Henry Palmer, um grande tradutor da língua árabe; James Darmesteter, famoso orientalista francês; e o indólogo Gergor Frederick William Thibaut. Esses autores contribuíram para o desenvolvimento das ciências da religião por meio da organização de periódicos que deram visibilidade a essa área teórica do saber, tais como: Revue de l’historie des religions (1880); Archiv für Religionswissenchat (1898); Antropos (1904). Tais periódicos possibilitaram o primeiro congresso sobre a disciplina em Estocolmo, em 1897, o que abriu espaço para outros — a Exposi- ção Mundial em Paris, em 1900, e assim seguiu até a Primeira Guerra Mundial. Contemporaneamente, a ciência da religião desempenha um importante papel nos estudos sobre as diferentes culturas, pois é a partir dela e de seu caráter mais antropológico que as religiões podem ser analisadas sem um comprometimento subjetivo. Contudo, as pesquisas na área são determi- nadas por diversos fatores. No Japão, a título de exemplificação, esse olhar mais científico sobre a religião só se consolidou em 1930, com a fundação da Japanese Association for Religious Studies, que ocorreu apenas após a abertura para o Ocidente. No Leste Europeu,os estudos da religião se con- solidaram somente após a queda do muro de Berlim. Conclui-se que, como aponta Usarski (2014, p. 149), “[...] todos os exemplos mencionados não apenas comprovam a dinâmica contínua da história da ciência da religião em geral, mas sensibilizam também para a heterogeneidade cultural dos contextos em que a disciplina se articula e busca manter sua identidade”. Você sabia que a religião judaico-cristã sofreu grande influência do zoroastrismo? Sim, a antiga religião persa que também leva o nome de madaísmo e parsismo foi uma das primeiras religiões monoteístas. Surgida durante o século VI a.C., a religião teve seu início na Pérsia e o seu principal profeta foi Zaratrusta — por isso o nome zoroastrismo. A doutrina que mais influenciou as religiões monoteístas cristãs foi a do “Bem e Mal”. Essa doutrina se baseava na revelação recebida pelo profeta, em que o Deus mau estava em guerra com o Deus bom e dependia também da conduta dos humanos o merecimento do Reino dos Céus. Essa visão maniqueísta deu as bases para a moral judaico-cristã. Ciência da religião e história da religião8 A história das religiões como uma das ciências das religiões Após o primeiro congresso de ciências da religião em Estocolmo, em 1897, acontece o primeiro congresso de história das religiões, em Paris, em 1900. Ambos os congressos simbolizam a ruptura entre essas disciplinas das dis- ciplinas de filosofia e teologia, que até aquele período eram associadas ao estudo das religiões. Nesse contexto, agora as religiões como objetos de pesquisa tinham as suas próprias áreas de pesquisa, que se encontravam na história e na ciência — com isso, os congressos, eventos e publicações começaram a aumentar por toda a Europa. Contudo, foi com o trabalho de Muller que a história das religiões se compreendeu como uma das ciências da religião, pois, na história, encontramos ferramentas necessárias ao estudo científico. Por mais que a ciência tenha métodos próprios de análise, é com a história que a ciência da religião se faz possível: métodos antes próprios somente à historiografia, tais como a tradução e a filologia, migram para a nova disciplina. Assim, a principal distinção entre ambas está no método comparativo, o que é próprio da nova ciência. Desse modo, começaram a surgir trabalhos como os de W. Mannhardt, sobre a mitologia camponesa báltica, e de B. Tylor, que se dedicou a estudar as culturas primitivas. Isto é, a disciplina assume um caráter antropológico, com enfoque evolucionista como foi comum nos primeiros estudos antropológicos e etnólogos. Vale ressaltar que a antropologia, nesse contexto, é uma área desmembrada da sociologia, contudo, à mesma época, sociólogos da religião, como Durkheim e Max Weber, publicam trabalhos que trazem uma abordagem sociológica ao entendimento das religiões. Em As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), Durkheim (1996) apresenta a tese de que a religião é a primeira forma de organização social e fundamenta-se nas formas mais elementares de vida religiosa, tal qual a totêmica dos aborígenes australianos. Por outro lado, a ascensão da psicanálise, que tinha como principal estudioso Sigmund Freud, apresenta criticas à religião. Para o psicanalista, a religião é fruto de uma ilusão, pois projetamos a figura paterna na natureza — trata-se da necessidade de um pai transfigurada à imagem de um Deus (FREUD, 1996). Os estudos sobre a fenomenologia da religião também se aprofundam e buscam consolidar a compreensão da manifestação religiosa como uma experiência fundamental à existência. Ou seja, a produção intelectual em torno dos estudos da religião desse período foi grande e muito ampla, o que acabou por decorrer em certa confusão metodológica sobre o que era história da religião e no que consistia a ciência da religião. Ciência da religião e história da religião 9 Ao longo do século XX, apesar da interseccionalidade metodológica entre pesquisadores de distintos campos, as diferenças entre uma historiografia e uma ciência foram se tornando mais evidentes. De um lado, muito se deve ao trabalho desenvolvido pela Escola Italiana de História das Religiões, fundada por Marcello Massenzio e Adone Agnolin. Para esses teóricos, a dis- tinção se dá pelas duas vertentes de abordagem dos estudos, o que os leva a questionar o termo “ciência” para se tratar de religião. Segundo Massenzio (2005), os estudos da religião se enquadram ou na vertente sistemática, de caráter estrutural-comparativo, ou na vertente fenomenológica, que é eminentemente essencialista. Cada vertente decorre do trabalho de certo grupo de pensadores. Em relação à linha sistemática, Muller, Durkheim e Edward Tyler orientaram os estudos sobre a religião; já em relação à linha fenomenológica, encontramos os trabalhos de Rudolf Otto, Gerhardus Van Der Leuuw e Mircea Eliade. A vertente estrutural se ampara nos estudos sobre a linguagem, inaugurado em especial por Ferdinand de Saussure, que entende que se faz necessário entender a estrutura linguística de uma cultura para depois compreender os mitos. Assim se dariam os estudos da linguagem relacionados aos estudos da religião, ou seja, a mitologia das religiões assume um caráter essencialista na medida em que é considerada verdade, ao menos uma linguagem verdadeira. Segundo Massenzio (2005), isso deixaria intacta a mitologia originária das religiões e, ao mesmo tempo, abriria espaço para o desenvolvimento singular de cada religião a posteriori. Contudo, mesmo dentro dessa vertente, encontram-se distinções: há a linha positivista, que, seguindo os fundamentos básicos da corrente, é fundamentalmente evolu- cionista, e a linha considerada romântica, que foi desenvolvida também a partir dos estudos de Muller. Enquanto a linha positivista pensa as religiões por meio de uma evolução histórica constante e comparativa entre o que é considerado evoluído e retrocedido, a linha romântica pensa as religiões por meio de uma linguagem em que se encontram rastros dessa “essência” singular presente na mitologia. Desse modo, a linha sistemática positivista sofria críticas, pois, pelo caráter estrutural, instrumentalizado e com vistas ao aspecto meramente positivista, a religião era classificada de modo homogêneo, ignorando a composição histórica e singular de cada uma. Além disso, tratava-se do reducionismo tam- bém das manifestações religiosas a somente questões sociológicas; ou seja, a linha sistemática estrutural de caráter positivista negava a singularidade histórica constitutiva de cada religião em sua formação, diferente da corrente romântica fenomenológica, que compreendia que o estudo das religiões deveria considerar o passado originário e a transcendentalidade religiosa. Ciência da religião e história da religião10 Isto é, compreender o sagrado é considerar a alteridade instransponível de cada religião, o sagrado essencial de cada religião. De acordo com Prado e Silva Júnior (2014, p. 14), “[...] a fenomenologia da religião [...] parte dos textos e das experiências espirituais milenares, colocando-as sob óticas naturalistas, sociológicas e históricas, para com isso encontrar uma essencialidade, uma especificidade e uma unicidade das religiões”. A fenomenologia essencialista se consolida, então, valorizando a dimensão histórica e filosófica das religiões, de modo que aquilo que é compreendido como sagrado temporalmente é constitutivo no sujeito religioso. Nesse contexto, até os anos 1970, foi essa escola italiana que aprimorou os estudos de viés histórico-religioso em constante dialogo com a escola francesa. Em 1973, a escola italiana é renomeada como Escola Romana de História das Religiões e, nessa fase, denota-se o amadurecimento do pensa- mento italiano no sentido de compreender a história das religiões por meio dos fatos como produtos culturais. Com isso, o estudo histórico-religioso passa a receber constante respaldo da antropologia e, assim, torna-se cada vez mais criticoà etnofobia e ao preconceito fundamentado no eurocentrismo: “[...] a Escola Italiana de História das Religiões instalou-se, epistemológica e historicamente, no entrelaçamento das disciplinas da Antropologia e da História” (AGNOLIN, 2005, p. 21). Conclui-se que ambas as disciplinas, tanto a história da religião quanto a ciência da religião, inauguram a autonomia no campo de estudos das religiões, pois dignificam o estudo independente das religiões e, por outro lado, liber- tam a filosofia e a sociologia de certa “submissão” aos estudos religiosos. Igualmente, a teologia passa a ser destinada ao estudo das religiões mono- teístas abrâamicas. Independentemente da escolha adotada, o historiador e o cientista da religião puderam se dedicar aos estudos característicos das manifestações religiosas, das culturas em que elas estão inseridas e de sua relação com as sociedades. Por fim, o percurso dessas disciplinas demonstra que o que se faz essencial é a dignificação temporal, contextual e singular de cada religião. Referências AGNOLIN, A. A vertente italiana da história das religiões. In: MASSENZIO, M. A história das religiões na cultura moderna. São Paulo: Hedra, 2005. ALBUQUERQUE, E. B. A história das religiões. In: USARSKI, F. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Ciência da religião e história da religião12 HISTÓRIA ANTIGA Caroline Silveira Bauer Os hebreus e o reino de Israel Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as características geográficas do local onde viviam os povos hebreus e a relação desse território com a religião judaica. Descrever as características do judaísmo e as raízes do cristianismo. Explicar o processo de formação do reino de Israel e as suas características. Introdução Diferentemente de sociedades da Antiguidade que se caracterizam por suas cidades-estados ou por seus Estados, os hebreus constituem mais um povo do que uma organização política. Na Antiguidade, eles formaram pequenos reinos e, por inúmeros motivos, foram obrigados a migrar para diferentes regiões do Oriente Médio. O seu legado, portanto, não se relaciona às suas estruturas econômicas, políticas e sociais, mas ao aspecto religioso: os hebreus foram os criadores de uma religião monoteísta, o judaísmo. Neste capítulo, você vai estudar as características geográficas do território ocupado pelos hebreus e ver qual é a sua relação com o surgi- mento do judaísmo. Você também vai conhecer a religião judaica e as suas características, verificando de que forma o cristianismo derivou de suas práticas. Por fim, você vai ver como se formou o reino de Israel e quais são as suas principais características. Aspectos geográficos e cultura hebraica A Palestina, região ocupada pelos hebreus, era um território banhado pelo rio Jordão, que se localiza ao sudoeste do atual Líbano. Nessa região pro- pícia à agricultura, estabeleceram-se grupos nômades que se dedicavam a atividades pastoris. Esses grupos, de origem semita, organizavam-se em clãs patriarcais e seriam originários de povos criadores de gado que viviam nos desertos da Arábia. Entre as fontes utilizadas para o estudo e a escrita da história dos hebreus na Antiguidade estão a Bíblia e relatos sobre a dispersão dos judeus pelo Império Romano, como o de Flávio Josefo. Além disso, há a cultura material, ou seja, os achados arqueológicos encontrados em escavações. Existem as origens históricas — aquelas que podem ser atestadas por meio de evidências — e as narrativas mitológicas sobre a origem dos hebreus. Uma das principais narrativas sobre a origem do povo hebreu é a Torá, que corresponde ao Pen- tateuco, ou seja, aos primeiros cinco livros do Antigo Testamento da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Além da Torá, os outros 41 livros do Antigo Testamento também fornecem dados sobre a história, os costumes, os mitos, as ciências, as leis, a moral, as práticas sociais e o padrão de comportamento do povo judeu. De acordo com a Bíblia, mais especificamente com o Gênesis, Abraão nasceu em Ur, uma cidade dos caldeus na Mesopotâmia, e teria recebido de Deus a incumbência de se estabelecer na terra de Canaã, a terra prometida. Isso teria ocorrido por volta de 2000 a.C. Os descendentes de Abraão teriam dado origem aos hebreus. Você deve ter em mente que o compromisso da Bíblia é com a unidade do povo hebreu, não com a fidelidade aos acontecimentos históricos. Atualmente, muitos autores, inclusive religiosos, questionam a existência dos três patriarcas (Abraão, Isaac e Jacó). Contudo, esse tipo de questionamento não significa que não seja possível apreender elementos interessantes da história narrada. Afinal, a Bíblia refere-se a costumes e comportamentos que caracterizam uma época, bem como a mitos de determinada região. Dessa forma, como pontua Pinsky (1987, p. 83), “[...] não há contradição entre questionar a historicidade de personagens bíblicos, colocar em dúvida alguns dos fatos milagrosos ali narrados e utilizar o material como fonte para o trabalho do historiador [...]”. Quanto às origens históricas, existem teorias que afirmam serem os hebreus um povo mesopotâmico, em função das semelhanças linguísticas e narrativas (como o mito do dilúvio). Veja o que afirma Pinsky (1987, p. 83): Os hebreus e o reino de Israel2 As origens dos hebreus localizam-se na Mesopotâmia. Isso é contado na Bíblia e comprovado por diversas evidências. O hebraico é uma língua semita, per- tencente ao mesmo grupo do aramaico e de outras faladas na Mesopotâmia, baseada em estrutura de raízes triconsonantais, uma particularidade delas. No- tável mesmo é verificar a utilização de mitos mesopotâmicos entre os hebreus. Essa informação é corroborada por Dresc (2018, p. 101), que afirma o seguinte: Os hebreus descendem de grupos nômades de origem semita que habitavam onoroeste da Mesopotâmia e que migraram para a região da Palestina por volta do século XX AEC, buscando terras mais favoráveis à agricultura. Diferente de sua origem descrita na Bíblia hebraica, estudos arqueológicos demonstraram haver bases culturais semelhantes com os Cananeus, merecendo destaque para concluirmos que se trata, provavelmente, do mesmo grupo que se originou daqueles semitas nômades. A sociedade hebraica era patriarcal, formada por famílias numerosas. Era uma sociedade escravista, e os escravizados se dividiam em dois grupos: os escravos hebreus e os escravos estrangeiros, prisioneiros de guerras. Mesmo na condição de escravizados, eles possuíam direitos assegurados pela religião (PINSKY, 1987). O primeiro período da história hebraica, que corresponde à fase inicial de organização econômica e política dos hebreus, é chamado de “período dos patriarcas”. Além de exercerem funções jurídicas, militares e sacerdotais, eles eram as autoridades morais e políticas do clã. Por muitas gerações, os hebreus foram “governados” pelos patriarcas e se dedicaram à agricultura e ao pastoreio. Sobre esse período, Pinsky (1987, p. 85) afirma: embora reconhecendo as origens dos hebreus nos descendentes de Jacó (José e seus irmãos, na narrativa bíblica), só podemos aceitar o início do povo hebreu a partir do momento em que se instalam na região de Jericó algumas tribos que lutam juntas, sob a chefia de Jesus, para conquistar um espaço onde possam viver. Com isso, inaugura-se o ciclo de mais ou menos duzentos anos que vai até o início da monarquia, com Saul, em 1030. Segundo a tradição judaica, foi durante o retorno à Palestina que Moisés recebeu de Deus, no monte Sinai, as tábuas da lei ou os dez mandamentos. Os dez mandamentos explicitavam as regras civis, morais e religiosas dos hebreus. A partir dessa crença em um único Deus, e das leis por ele ditadas, surgiu a primeira grande religião monoteísta, o judaísmo, do qual se originaram, posteriormente, o cristianismo e o islamismo. 3Os hebreus e o reino de Israel O judaísmo e o cristianismo O judaísmo, assim como o cristianismo e o islamismo, é uma religião mo- noteísta. Em uma região em que predominavam cultos politeístas, os judeus defi niram a sua identidade cultural por meio da crença em um único deus, Javé (ou Yahweh, em hebraico). De acordo com a narrativa bíblica, Abraão era chefe de um clã semita, estabelecido na cidade de Ur, na Mesopotâmia. Os hebreus que viviam nessa região se organizavam em 12 tribos, lideradas pelos patriarcas. Abraão iniciou o processo de unificação dessas tribos e pre- gava a existência de um único deus. Segundo as revelações divinas recebidas por Abraão, ele deveria retirar os hebreus da Mesopotâmia e conduzi-los à “terra prometida”, Canaã, na Palestina. Abraão teve vários filhos, um deles chamado Jacó ou Israel, que, por sua vez, teve 12 filhos, que deram origem às 12 tribos de Israel. Conforme Silva e Silva (2009, p. 247), os judeus declaram-se semitas porque seriam descendentes de Sem, um dos filhos de Noé, o patriarca do Dilúvio, de acordo com o relato bíblico: “Consideravam-se o povo eleito e adquiriam forças para manter sua unidade cultural e suportar o peso dos poderosos impérios que lutavam então pelo domínio da Mesopotâmia [...]”. Veja: Os praticantes do Judaísmo se definem como o povo dos livros, uma vez que sua fé se assenta em três grupos de textos canônicos básicos: a Bíblia judaica, ou lei escrita, cujo nome é Torá, também conhecida entre os católicos pelo nome grego Pentateuco; a chamada lei oral, os Midrashim, e, por fim, o Talmude, escritos de interpretação do texto bíblico. O Judaísmo desconsidera a parte da Bíblia nomeada Novo Testamento, tal como não considera Cristo o Messias anunciado pelos seus profetas. Apenas o Antigo Testamento é o cerne da religião judaica, originalmente escrito em hebraico e aramaico (SILVA; SILVA, 2009, p. 247). A Bíblia dos hebreus foi reunida em 90 d.C. por rabinos que selecionaram 24 livros e os organizaram em três grupos: a Torá (ou Lei), os Profetas e os Escritos. O primeiro narra a fundação do judaísmo, quando Deus se alia ao povo escolhido. O segundo conta a história dos judeus da conquista de Canaã até o exílio na Babilônia. Já o terceiro reúne textos de oração e sabedoria. Além disso, outros textos foram escritos com base na Bíblia. Tais textos originaram o Talmude. Há duas principais escolas de interpretação da lei bíblica: a escola talmúdica de Jerusalém e a da Babilônia. Existem ainda os midrashim, que, por meio de sermões e paráfrases, buscam interpretar a lei bíblica. Torá, Talmude e Midrash constituem o código judaico principal (SILVA; SILVA, 2009). Os hebreus e o reino de Israel4 Conforme as análises de Dresc (2018), o povo hebreu estabeleceu contato com mitos e lendas sumério-acadianos. Por vezes, tais narrativas eram tomadas de empréstimo e reunidas às lendas e mitos hebreus. Em outros casos, novas narrativas surgiam. Foi assim que esse povo escreveu a sua própria história, reunindo fatos próprios em lendas grandiosas e adaptando mitos antigos aos seus intuitos. O judaísmo, no entanto, extrapola as dimensões religiosas e se configura como um conjunto de práticas e valores que influenciam diretamente o co- tidiano de seus seguidores. Por exemplo: cerimônias (como a circuncisão masculina), rituais (como o bar mitzvá, o início da leitura da Torá), uso de símbolos de distinção, como o kippá, ou ainda uma série de regras alimentares que impedem os judeus de consumir certas comidas. De acordo com Goucher e Walton (2011, p. 108), [...] além do ritual religioso centrado no templo de Jerusalém ou em uma sinagoga em outro local, uma questão central da crença hebraica tornou-se o comportamento justo e moral entre os seres humanos. Tal comportamento era o resultado de obedecer às leis de Jeová, enquanto a transgressão dessas leis resultava em punição. No quinto século a.C., o templo foi reconstruído e um código de leis foi introduzido para guiar o provo hebreu, de forma que eles não errassem novamente. Nessa época, o judaísmo era uma cosmologia baseada em um deus, que era o criador e quem fez as leis, e em humanos, que governavam, idealmente, a terra de forma justa, guiados pelas leis de Deus. Os judeus também celebram datas importantes da história dos hebreus e da constituição da religião judaica por meio de festas e rituais, relevantes para a memória cultural e a manutenção de tradições. Antes de conhecer algumas dessas festas, lembre-se de que os judeus possuem um calendário distinto do gregoriano: eles contam o tempo em relação à criação do mundo, ou seja, em 2019 (calendário cristão), eles estariam no ano de 5779. As principais festas são o ano novo judaico (que ocorre em setembro ou outubro) e a Páscoa, que coincide com a Páscoa católica, mas que lembra a saída dos judeus do Egito. Essas práticas são importantes para assentar o relato de uma origem comum dos judeus e a sua identidade marcada pelo exílio e pela diáspora. Considere o que pontuam Silva e Silva (2009, p. 248): Historicamente, o exílio dos hebreus na Babilônia, depois de conquistados por Nabucodonosor e desterrados da Judeia, influenciou muito o modo de vida judaico. A convivência com os babilônicos trouxe frutos para os ju- 5Os hebreus e o reino de Israel deus, e muitos deles preferiram não voltar para a Palestina, mantendo casas comerciais abertas em Babilônia. Já a diáspora hebraica se deu em 70 d.C., após a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos. Tal acontecimento esteve relacionado à resistência cultural dos judeus, que dificultava o domínio romano e promovia rebeliões. A seguir, você vai ver outros aspectos da história judaica para compreender melhor o funcionamento da religião desse povo. O reino de Israel e as suas características Coube a Josué, um chefe militar, iniciar a luta pelo controle de Canaã, ou Pa- lestina, onde já viviam outros povos. Ao se estabelecerem na região,os “fi lhos de Israel” dividiram-se em 12 tribos, lideradas pelos juízes. As tribos eram autônomas e somente se uniam diante de ameaças comuns, principalmente nos enfrentamentos contra os cananeus e fi listeus. Além disso, como você viu, essas tribos possuíam algumas característi- cas culturais em comum. Por serem povos de origem semita, provenientes do Oriente, compartilhavam características filosóficas, jurídicas e morais. A exceção era a questão religiosa, pois os hebreus desenvolveram a crença em um deus único, diferentemente dos outros povos, que eram politeístas. Em relação à composição dessas tribos, você já sabe que a sua organização era patriarcal. Agora, atente ao que afirma Mazzinghi (2017, e-book): De um ponto de vista social, a base da sociedade daquele tempo parece ser a famí- lia a bet-‘ab, em hebraico a “casa do pai”, compreendida como família patriarcal, composta pelo avô, os filhos e os netos, todos por sua vez com as respectivas famílias, à qual se deve acrescentar ainda outros parentes próximos e os servos. Esta família ampliada, unida a outras famílias, com frequência vinculadas por parentesco entre si, forma um clã que poderia corresponder aproximativamente a uma vila inteira. Os clãs que viviam em um determinado território, ligados entre si por tradições comuns, se consideram uma “tribo”, isto é, uma entidade independente, ligada apenas ocasionalmente a outras tribos [...] em geral por motivos religiosos (peregrinações a um único santuário) ou militares (defesa contra um inimigo comum). As tribos que se encontravam reunidas pela fé em um único Deus, YHWH (Javé), além dos laços étnicos, econômicos e políticos, formarão aquilo que em seguida se tornará o povo de Israel. Os hebreus e o reino de Israel6 De acordo com Sorj (2014, p. 59), Inicialmente, as tribos que povoaram Canaã eram dirigidas por conselhos de anciãos, sem um comando central, coligando-se, em caso de perigo externo, em torno de um líder que a Bíblia denomina Juiz, embora em certos casos tratar-se [sic] de guerreiros por excelência, como foi o caso de Sansão. A aliança do povo de Israel com Deus, pela qual os judeus cumprem os mandamentos divinos e Deus os protegeria, se mostra insuficiente frente aos ataques dos povos vizinhos. As guerras constantes com os povos do entorno, enfrentadas com o apoio de Deus (antes da construção do Templo, o Tabernáculo contendo as Tábuas da Lei acompanhava os exércitos), teriam levado as tribos a apoiar a consagração de um rei. Certamente algo estranho à tradição, e, de acordo com a Bíblia, quando o povo pede a Samuel, último juiz e primeiro profeta, que nomeie um rei, tanto Samuel como Deus se opõem. Em função desses enfrentamentos com outros povos, surgiu a necessidade de reforçar a unidade por meio da organização política, mediante um reino e uma monarquia. Saul, o primeiro rei de Israel, realizou conquistas militares, mas depois de sofrer algumas derrotas começou a enfrentar movimentos de oposição de seu povo. Em uma batalha contra os filisteus, frente à iminente derrota, suicidou-se, sendo sucedido por Davi. Davi foi proclamado, inicialmente, rei de Judá, ao sul do território, e, mais tarde, de todo o reino. Ele foi o responsável pela organização do reino e pela conquista de Jerusalém, escolhendo-a como capital política e religiosa. Veja o que Rodrigues (2017, p. 1031) afirma sobre Jerusalém: A cidade é considerada sagrada por três das principais religiões monoteístas do mundo contemporâneo: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Já con- siderada o centro do mundo, Jerusalém é há séculos cenário de peregrinação e disputas em nome da fé. A narrativa bíblica apresenta Jerusalém como a capital da Monarquia de Davi e Salomão, o centro do poder político e religioso de um reino rico e poderoso. No governo do filho de Davi, Salomão, houve o apogeu da monarquia. Salomão fortaleceu o poder político, criou uma administração organizada, promoveu a expansão comercial e militar e construiu palácios e templos. Em seu reinado, a organização do Estado se tornou mais complexa. Além disso, se formou uma aristocracia composta pelos antigos chefes de clãs e militares, 7Os hebreus e o reino de Israel que enriqueceram com o comércio e a apropriação de terras. Contudo, os altos impostos cobrados e o recrutamento forçado para o trabalho nas obras públicas levaram ao descontentamento da população, acarretando diversas revoltas sociais. De acordo com Pinsky (1987, p. 88), A mitificação de Salomão decorre do fato de ter sido ele o construtor do famoso templo de Jerusalém, ponto de referência espiritual e material do povo, tanto na época em que foi construído, como depois. O templo passou a funcionar como referência nacional; da mesma forma como Jerusalém, metaforicamente, tinha o significado de Israel toda, o templo significava Jerusalém. Até hoje, judeus religiosos pedem a deus a honra de estarem “o ano que vem em Jeru- salém” para poderem rezar junto ao que se imagina sejam os restos do templo. Com a morte de Salomão, em 935 a.C., instalou-se uma crise política sucessória que levou à ruptura entre as tribos, formando dois Estados: o reino de Israel, constituído pelas 10 tribos do norte, lideradas por Jeroboão, com capital em Samaria; e o Reino de Judá, governado por Roboão, filho de Salomão, com capital em Jerusalém. Os habitantes do norte passaram a ser chamados israelitas, e os do reino do sul, judeus. Conforme Sorj (2014, p. 60), O Pentateuco constrói o judaísmo como sendo a expressão da aliança entre o povo judeu e Deus, pela qual cabe ao povo cumprir com os mandamentos estabelecidos por Moisés, e a Deus, proteger o povo eleito de Israel. Mas a história dos judeus na terra de Israel parece desmentir esta aliança. Os judeus são derrotados em várias guerras, seus reinos, destruídos, e parte do povo enviado para o exílio. A duração do reino de Israel será em torno de dois séculos, e o de Judá, quatro. O primeiro, destruído pelo império Assírio, e o segundo, pelo babilônico, que desterra a elite para a capital, onde passam a formar parte da corte do imperador. Essa interpretação é corroborada por Rodrigues (2017, p. 1040), que pro- blematiza as narrativas heroicas e mitológicas sobre o reino de Israel: Anos de pesquisa arqueológica no território de Judá mostram, no entanto, que sua história foi sempre determinada por sua condição geográfica, como uma porção espremida de terra, dentro da grande região que separava os principais Os hebreus e o reino de Israel8 poderes do Crescente Fértil: Egito ao sul, os impérios mesopotâmios, ao leste, e os do norte. Do ponto de vista demográfico, a população estimada de Judá e sua urbanização eram bastante inferiores aos de Israel, assim como os projetos públicos de construção desenvolveram-se muito antes no norte que em Judá [...] Deve-se descrever Judá do século X e início do IX AEC., portanto, como um reino pequeno, com uma atividade econômica bastante modesta e isolada pelos seus vizinhos: o reino de Israel ao norte, as cidades filisteias a oeste, o governo do deserto, centrado em Tel Massos, ao sul, e o deserto ao leste. Jerusalém, sua capital, é descrita pelos estudiosos como uma pequena fortificação, habitada por um grupo reduzido de pessoas que se concentravam majoritariamente na parte da cidade conhecida como Cidade de Davi, situada a sul das muralhas da Cidade Velha atual. O reino de Israel, enfraquecido pelas revoltas internas e pelos constantes conflitos contra Judá, foi dominado em 723 a.C. pelos assírios. O reino de Judá foi conquistado pelos caldeus, liderados por Nabucodonosor, em 586 a.C., sendo que os judeus foram escravizados e levados para a Babilônia. Os assírios destruíram Israel em 721 a.C. e deportaram muitos israelitas para o leste. Foi durante esse tempo de tribulação que os ensinamentos de grandes críticos e reformistas sociais e morais — os profetas Ezequiel, Amos e Isaías, entre outros — confirmaram que o deus tribalde Abraão, Jeová, não era apenas o deus mais poderoso, mas também o único deus. Em 587 a.C., os babilônicos invadiram Jerusalém, destruíram o templo e deportaram muitas das principais famílias judias para a Babilônia, junto com trabalhadores ha- bilidosos como ferreiros e escribas. Essa era a origem da diáspora (palavra grega para “dispersão” ou “difusão”), na qual os judeus foram deportados à força ou fugiram de sua terra natal para se estabelecer em outros lugares (GOUCHER; WALTON, 2011, p. 108). Quando os persas, comandados por Ciro, conquistaram a Babilônia, os judeus recobraram certa independência, o que se consolidou com as conquistas de Alexandre, o Grande, na região. Com a expansão do Império Romano, os judeus permaneceram com certa autonomia até 70 d.C. Nessa data, os romanos tentaram construir um templo para Júpiter em Jerusalém, levando o povo a se rebelar. O Império destruiu a cidade e expulsou os judeus da Palestina, proibindo-os de retornar à região e os dispersando. 9Os hebreus e o reino de Israel DRESC, P. C. A influência das primeiras civilizações do Oriente próximo na construção da religião do povo hebreu. Revista Unitas, Vitória, v. 6, n. 2, p. 95–109, 2018. GOUCHER, C.; WALTON, L. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. MAZZINGHI, L. História de Israel das origens ao período romano. Petrópolis: Vozes, 2017. PINSKY, J. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 1987. RODRIGUES, G. 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Rio de Janeiro: Record, 2009. Os hebreus e o reino de Israel10 HISTÓRIA ANTIGA Ana Cristina Zecchinelli Alves Hebreus e babilônicos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Analisar as origens dos conflitos entre hebreus e babilônicos. Discutir sobre a história e as condições de sobrevivência dos hebreus no exílio babilônico. Reconhecer as consequências demográficas da conquista babilônica dos hebreus. Introdução Neste capítulo, você vai estudar o exílio babilônico e os seus efeitos sobre o povo hebreu. Para tanto, vai conhecer as origens desse povo como clã patriarcal, seu caminho até o Egito faraônico e o êxodo promovido por Moisés à “terra prometida”. Você também vai conhecer os sistemas de administração e governo dos hebreus. Além disso, vai estudar a sua unificação no reinado de Saul e o cisma ocorrido após a morte de Salomão. A seguir, vai ver como ocorriam as relações entre os dois reinos hebreus: Israel, composto por 10 tribos, e Judá, por duas. Como você vai ver, o primeiro resultado do cisma foi o enfraquecimento dos reinos e a queda de Israel, bem como a deportação de seu povo sob o domínio do império assírio. Hebreus e babilônicos: a origem dos conflitos Antes de você se debruçar sobre o tema deste capítulo, precisa levar em conta algumas considerações a respeito das fontes de estudo da História Antiga. Monumentos, textos de anais, elementos da cultura material, levantamentos arqueológicos de diversos tipos e livros de historiadores da Antiguidade são alguns dos recursos utilizados como fontes. A Bíblia é um desses livros. Ela tanto é considerada o livro que conta a história do povo judeu e de suas relações com outros povos na Antiguidade quanto é um guia para entender o pensamento, as leis, o ethos dos hebreus, ou seja, suas crenças e sua forma de ver a si mesmos e o mundo. Para além disso, você deve refl etir sobre o fato de a Bíblia ser o livro fundador de uma religião, a judaica, além de um livro que oferece a base para a constituição de outras duas: o cristianismo e o islamismo. Sabe-se que os textos reunidos na Bíblia são, em sua maioria, posteriores aos acontecimentos, que foram manipulados, transcritos, reescritos e sofreram, como tantos, influências da intencionalidade de escribas e/ou tradutores. No entanto, apesar disso, a arqueologia vem confirmando muitas das in- formações contidas na Bíblia, ao menos no que tange à cultura material e aos acontecimentos em si. Obviamente, toda documentação precisa sofrer crítica rigorosa, ser comparada com outras fontes e passar por autenticações técnicas multidisciplinares. Além disso, é necessário conhecimento profundo de linguística para a tradução e a interpretação corretas dos textos antigos. Agora, você vai ver uma ligeira contextualização. O povo hebreu tem sua origem atribuída ao patriarca Abraão, proveniente da Caldeia. Segundo a Bíblia, por ordem de Yavé, Abraão dirige-se à Canaã, a “terra prometida”, saindo de lá com seu povo em direção ao Egito por conta de um período de escassez. Os hebreus, escravizados no Egito, são libertados por Moisés e retornam a Canaã, tomando o território e dividindo-o entre as 12 tribos. Sua história, ou a parte dela que interessa aqui, pode ser dividida em quatro fases: dos patriarcas, dos juízes, dos reis e da dominação estrangeira (deportação assíria, exílio babilônico e, posteriormente, sob os romanos, diáspora). Em 1948, no pós-Segunda Guerra, os hebreus conseguiram, com o auxílio da Organização das Nações Unidas – ONU (1948), a reconstituição do Estado de Israel, contra a qual houve e ainda há resistências; conflitos bélicos, políticos e diplomáticos estão longe de chegar ao fim. Para além disso, Jerusalém ini- cialmente era uma cidade sagrada dedicada ao Deus dos hebreus. Lá, Salomão construiu o primeiro templo, destruído por Nabucodonosor e reconstruído depois pelos exilados que retornaram da Babilônia com o auxílio de Ciro. Esse segundo templo foi destruído pelos romanos em 70 d.C., restando dele apenas uma parede, o Muro da Lamentações. Jerusalém é considerada uma cidade sagrada para três religiões, judaísmo, cristianismo e islamismo, o que a tornou um objeto de disputa de vários povos durante toda a história. Neste capítulo, você vai estudar o exílio dos judaítas na Babilônia (598– 585 a.C.) e as relações históricas, culturais e institucionais resultantes desse processo. Mas para compreender o exílio judaita, tema central do capítulo, você precisa conhecer a situação dos hebreus e a sua divisão em dois reinos Hebreus e babilônicos2 após a morte de Salomão e a deportação dos israelitas pelos assírios em 722–721 a.C. Como você viu, a Bíblia (2001) conta — e nela os hebreus/judeus creem encontrar a sua origem e a sua história — que Abraão saiu de Ur, na Caldeia, em direção a Canaã, na Síria Palesttina, tendo passado algum tempo em Harã e erguido um altar em homenagem a Yavé. Posteriormente, devido à escassez de víveres, ele e seus descendentes dirigiram-se ao Egito, onde viveram e foram escravizados por cerca de 400 anos, até que Moisés os libertou do cativeiro egípcio, levando-os de volta para Canaã. Após o êxodo do Egito, o povo hebreu chega à “terra prometida”, situada em Canaã. Encontrando a terra ocupada por outros povos, guerreia contra eles, tomando o local dos que nela viviam e dividindo-o entre as 12 tribos hebraicas, que foram primeiramente governadas por patriarcas, depois por juízes. Sob o governode Saul, o primeiro rei, as tribos são unificadas, dando origem ao reino de Israel em meados do séc XI a.C. Depois de Saul, reinam David e Salomão, que constrói o Templo de Jerusalém impondo pesados impostos às tribos. Falecendo Salomão, Roboão, seu filho, reúne as tribos para a sua coroação. Inquirido quanto à redução dos tributos, que nega ao povo, descontenta parte das tribos, provocando a divisão do povo hebreu: 10 das tribos formam o reino de Israel, ao norte da Palestina, enquanto as duas outras tribos dão origem ao reino de Judá, situado ao sul. Nessa ocasião, segundo Josefo (2004, p. 372–373), vendo a alteração do povo ante a sua negativa em reduzir impostos: Roboão, percebendo que não estava em segurança no meio daquela multidão tão exaltada, subiu ao seu carro e fugiu para Jerusalém, onde as tribos de Judá e de Benjamim o reconheceram como rei. As outras dez tribos separaram-se para sempre da obediência aos sucessores de Davi e escolheram Jeroboão para seu governador. Assim, após a morte de Salomão, o reino de Israel se divide (931 a.C.) entre israelitas — pertencentes às 10 tribos que não reconhecem Roboão como rei nem a descendência de Davi, fazendo de Jeroboão seu governador — e juda- ítas — pertencentes às tribos de Judá e Benjamim, que reconhecem Roboão como rei. Esses dois reinos hebreus seguem separados, ora guerreando entre si, ora se unindo contra outros povos. Alianças, traições, assassinatos, cercos, invasões, roubos ou entrega de bens do templo, destruição e guerras fazem parte da história dos dois reinos e de seus vizinhos. 3Hebreus e babilônicos Aqui, o termo “israelita” designa os membros das 10 tribos que formam o reino de Israel. Já o termo “judaíta” designa aqueles pertencentes às duas tribos que formam Judá. Por sua vez, o termo “judeu” diz respeito àqueles que, no exílio e no pós-exílio, dão conformação ao judaísmo como religião monoteísta e universal. Em 722 a.C., os israelitas são conquistados pelo rei assírio Salmaneser, que “[...] aprisionou Oseias, destruiu inteiramente o reino de Israel e levou todo o povo como escravo para a Média e para a Pérsia” (JOSEFO, 2004, p. 438). Salmaneser deporta os israelitas para a Assíria e coloca nas terras do antigo reino de Israel povos de cinco nações provenientes de uma província da Pérsia, denominados chuteenses por habitarem ao longo do rio Chute. Esses povos são chamados pelos gregos de samaritanos, por ocuparem a região da Samaria. Talvez isso explique a parábola do bom samaritano e as discriminações nem sempre sutis desse grupo pela escritores do Novo Testamento. Segundo Josefo (2004), apesar de originariamente terem seus próprios deuses, por conta de uma peste, os chuteenses acabam por se converter ao deus Yavé. Por isso, fazem retornar, com a autorização do rei assírio, alguns sacerdotes hebreus israelitas para orientá-los quanto ao cumprimento das leis de Yavé e quanto ao modo de adorá-lo (JOSEFO, 2004). Flávio Josefo (37/38–100 d.C) foi um historiador que viveu entre os romanos e escreveu sobre a história dos judeus, seu povo. Ele foi um judeu de alta estirpe e educação que lutou contra os romanos. Foi preso e depois posto em liberdade por Vespasiano. Mais tarde, testemunhou a destruição de Jerusalém pelos romanos. Em 612 a.C., a queda de Nínive, destruída pelos medos que apoiavam Ciro, marca o início da hegemonia da Caldeia sobre a Mesopotâmia, dando origem ao império neobabilônico, governado inicialmente por Nabopolassar (632–605 a.C.), que derrota o dividido e desgastado império assírio. Seu filho, o rei Nabucodonosor II (605–562 a.C.), guerreia contra os sírios, conquistando da Síria até a Pelusa e exigindo tributos aos judaítas. O rei Jeoaquim inicialmente aceita pagá-los em troca Hebreus e babilônicos4 da paz, então os tributos são pagos por três anos. Os judaítas, pensando que o faraó egípcio Necao II enfrentaria e venceria o rei babilônico, recusam-se a continuar pagando os tributos. No entanto, Necao II é vencido na batalha decisiva que ocorre em Carquemis, no norte da Síria, em 605 a.C. Na sequência, Nabucodonosor II e seu exército vão ao reino de Judá. Recebido pelo rei Jeoaquim em Jerusalém, Nabucodonosor o mata. Segundo Josefo (2004), o rei de Judá, Jeoaquim, acreditou na palavra de Nabucodonosor de que este nada lhe faria: “Mas ele faltou à palavra: mandou matá-lo, juntamente com a fina flor da juventude da cidade” (JOSEFO, 2004, p. 454–455). O rei babilônico colocou o filho de Jeoaquim, Joaquim, no trono. Arrependendo-se em seguida e temendo a revolta de Joaquim pela morte do pai, mandou seus generais cercarem Jerusalém e buscá-lo juntamente a sua mãe, seus parentes e amigos, levando-os para o exílio com moços e artífices de Jerusalém (Josefo fala em 10.832 pessoas). Então, Nabucodonosor II coloca Sedecias (ou Zedequias, que antes se chamava Matanias), tio de Joaquim, no trono, mas este, contando com o auxílio do faraó egípcio, também se rebela anos depois. Em resposta, Nabucodonosor faz um cerco a Jerusalém a fim de combater e vencer o faraó (cujo nome Josefo não cita), expulsando-o da Síria. Retomando o cerco a Jerusalém, tomando-a e incendiando o templo, Nabucodonosor ainda cega Sedecias, mata vários sacerdotes e leva à Babilônia o rei e grande número de judaítas (587–586 a.C.). Completam-se assim os grupos de enviados para o exílio. Na Figura 1, a seguir, você pode ver um panorama da história contada no Antigo Testamento. Figura 1. Linha do tempo do Antigo Testamento. Fonte: Diocese de São José do Rio Preto (2014). 5Hebreus e babilônicos Os conflitos A queda de Israel Ao abordar a conquista do norte do território sírio-palestino pelos assírios, Liverani (2005) afi rma que as intervenções iniciais ocorreram no governo de Assurbanípal II (883–859) e continuaram nos governos seguintes, fazendo tributários os vencidos, sem, no entanto, tomar posse ou indexar diretamente nenhum país. Foi durante o governo de Tiglat-Pileser III (744–727) — que primou por sua política de coesão interna e expansão exterior — que, co- mandando uma efi caz máquinaria bélica, os assírios anexaram os reinos de Alepo, Patina, Hadrak e Damasco, então o mais poderoso deles. Chegando às portas de Israel, que inicialmente paga tributos, reconhecendo-se como povo “vassalo” do rei assírio, Assurbanípal II conquista ainda outros reinos, tornando-os províncias assírias. Nessa época, o rei de Israel, Pecaj (733–732), unindo-se a Resin, o último rei de Damasco, sitia Jerusalém, no reino de Judá, governado por Ajaz (736–716), que recorre ao imperador Tiglat-Pileser III, solicitando ajuda e declarando- -se seu servo. Aproveitando-se da oportunidade, o rei assírio toma Samaria, elimina Pecaj, coloca Oseias em seu lugar, como rei “vassalo” assírio que governaria os territórios de Efraim e Manases, e divide o território restante em três províncias assírias: Dor, Megiddó e Galaad. Na ocasião, segundo Liverani (2005), que se baseia nos anais de Tiglat-Pileser (ITP, pp. 82-83 apud Livarano), foram deportados 13.520 israelitas. Oseias pagou tributos por alguns anos, mas conspirou com o rei egípcio contra os assírios, o que resultou na invasão de Israel por Salmanasar V, que o fez prisioneiro e sitiou Samaria, capitulando-a em 721 a.C. e morrendo em seguida. Salmanasar V foi substituído por Sargon II, que combateu e venceu os israelitas, adquirindo a fama de conquistador. Segundo os anais assírios, na ocasião, foram deportados 27.290 habitantes de Israel, sendo a terra samaritana entregue a povos deportados de outras procedências e governada por eunucos fiéis a Sargão II (ISK apud LIVERANI, 2005). Liverani (2005) supõe que parte dos israelitas tenha fugido para Judá. Em paralelo à queda do reino de Israel, o reino de Judá, então tributário de Sargão II, precisou fazer ajustes para adequar-se à sua nova situação política de subordinação. Sob o governo de Ezequias (716–687), os judaítas pensaram em suspender o pagamento de tributos.Para isso, reforçaram as fortifica- ções de Jerusalém e criaram um sistema hidráulico que permitisse resistir ao assédio de um cerco, entre outras providências para o caso de guerra. Tam- Hebreus e babilônicos6 bém estreitaram relações com egípcios e com o caldeu Marduk-Apla-Iddina. Os vizinhos do reino de Judá, sentindo-se ameaçados pela situação, solicitaram auxílio ao imperador Assírio que interviu com todas as forças de Senaqueribe (704–681) em 701 a.C. (LIVERANI, 2005). Então, Senaqueribe e seus exércitos vencem o rei egípcio na batalha de Elteque (cerca de Timna) e conquistam territórios, entregando aos reis filo- -assírios as cidades filisteias. Eles conquistam Laquis, deportando 200 mil pessoas das áreas conquistadas, e cercam Jerusalém, que não capitula, por isso é feito um acordo de pagamento de pesados tributos aos assírios (AS apud LIVERANI, 2005). Assim, Jerusalém, reforçada anteriormente pelo rei Ezequias, resiste ao cerco. A isso, soma-se uma epidemia entre os sitiadores, que se veem obrigados a levantar o cerco. Para os judaítas, tal livramento é obra de Deus (JOSEFO, 2004; LIVERANI, 2005). Os judaítas seguem pagando tributos à Assíria nos anos seguintes. Com o passar do tempo, os assírios abandonam a ideia de expansão, contentando-se com a fidelidade de seus “vassalos” e os pagamentos de tributos, até que são suplantados pelos caldeus do império neobabilônico. O império assírio tem o seu ápice durante o reinado de Assurbanípal (668–631), após o qual começa a sua decadência. Em 625 a.C., Nabopolassar, um caldeu, se fez rei da cidade da Babilônia e, após expulsar os assírios e dominar a Baixa Mesopotâmia, seguiu rumo ao coração do império assírio, Nínive. No percurso, fez uma aliança com os medos, que tinham suas diferen- ças em relação aos assírios, apesar de negociarem com eles. Liverani (2005) acredita que a religiosidade zoroastriana e a sua ideologia baseada no dualismo da luta do bem contra o mal tenha tido certa influência sobre os medos, por meio de uma provável identificação do império assírio com o mal. Segundo ele, a violência destrutiva foi característica da intervenção dos medos que conquistaram e saquearam Assur em 614 a.C. e Nínive em 612 a.C. Embora os medos tenham sido decisivos na destruição dos assírios, foram os caldeus que se aproveitaram do resultado da Guerra, explorando e controlando política e territorialmente grande parte do império. Os medos retornaram às suas terras e os caldeus se incumbiram da continuidade imperial, fundando o império caldeu, chamado “neobabilônico” porque a cidade da Babilônia era a sua capital. Nabopolassar atribuiu sua vitória ao deus Marduk, que o fez adquirir aliados e tornar-se rei, destruindo templos de deuses assírios. Enquanto o império assírio mergulhava no caos, sendo tomado pelos caldeus e medos, no mesmo período da queda de Nínive (612 a.C.), o faraó Necao, a fim de cortar o passo dos caldeus, sobe o corredor sírio-palestino até o extremo norte, pretendendo tomar o controle da região, mas não obtendo êxito. 7Hebreus e babilônicos As zonas sírio-palestinas convertidas em províncias assírias deculturadas não aproveitaram os anos de confusão e afundamento do império assírio (640–610 a.C.) para beneficiar-se. Já autônomos como Judá e Tiro aproveitaram para pôr em prática projetos de crescimento. Em Judá, Josias aproveitou-se da situação favorável para impulsionar o reino, principalmente no que tange aos aspectos religiosos e ideológicos, sem deixar de lado as bases políticas e materiais (LIVERANI, 2005). Ele expandiu o reino ao norte em direção às províncias do antigo reino de Israel (com o qual acreditava ter laços étnicos e religiosos). Os povos deportados para o antigo reino de Israel tinham outros deuses, mas acabaram solicitando sacerdotes hebreus aos reis assírios, no que foram atendidos. Josias pretendia fazer o seu reino coincidir com os territórios anteriormente habitados por hebreus. Nesse período, um manuscrito com a “lei” é descoberto no templo. Tomando conhecimento disso pelo sumo sacerdote, Josias atribui ao não cumprimento da lei os problemas e a falha no apoio divino. Ele pretende, então, fazer cumprir a lei fielmente (JOSEFO, 2004; LIVERANI, 2005). A respeito disso, Josefo (2004, p. 450) fala em “Livros santos deixados por Moisés”. Segundo Liverani (2005, p. 208–209, tradução nossa): O texto bíblico não diz qual (ou quanto tempo) o texto encontrado no templo era, apenas que ele poderia ser definido como "o livro da Lei" (sefer hattorah). Mas por um longo tempo (de W. Wette, 1805), os especialistas têm pensado que deve ter alguma relação com o livro do Deuteronômio e com o núcleo original do estrato editorial chamado "deuteronomista", que pode ser atribuído a este tempo devido a uma série de indicações perceptíveis em seu conteúdo. A queda de Judá Após derrotar os egípcios, ano a ano Nabucodonosor submeteu os antigos territórios sírio-palestinos, anteriormente tributários dos assírios (fossem subordinados ou independentes). Jerusalém e Tiro resistiram o quanto puderam ao assédio do caldeu. Tiro, por sua posição insular, resistiu a um assédio de 13 anos (598–585 a.C.), durante os quais cresceu política e economicamente. Quando fi nalmente caiu, seu rei, Itto-Baal III, foi substituído pelo vasalo Baal (LIVERANI, 2005). Como você já viu, o sítio de Jerusalém durou pouco tempo. Após três anos como tributário, o rei Jeoaquim rebelou-se, mas foi vencido e morreu no mesmo ano (598 a.C.). Quem assumiu foi seu filho Joaquim, que reinou por três meses e, assediado pelos babilônios, rendeu-se rapidamente, sendo exilado juntamente a sua mãe e seus parentes, aos membros da classe dirigente e aos Hebreus e babilônicos8 artesãos (que iriam trabalhar nas benfeitorias e embelezamentos da cidade da Babilônia). Os tesouros do palácio real e do templo foram saqueados. No lugar de Joaquim, assumiu seu tio Sedecias, como rei “vassalo”. No 8º ano de seu reinado, Sedecias faz uma aliança com o rei do Egito para enfrentar Nabucodosor, que, em resposta, arrasa a Judeia e sitia Jerusalém. O rei egípcio parte então em auxílio aos judaítas, mas os babilônios, sob o comando de Nabucodonosor, levantando o cerco a Jerusalém, o enfrentam e, vencendo a batalha, expulsam-no da Síria. Retornando o cerco a Jerusalém no ano seguinte, o exército babilônico toma a cidade, saqueia e queima o templo, destruindo-o completamente. O rei da Babilônia faz matar o sumo sacerdote e outros. Ele também ordena vazar os olhos de Sedecias e o leva juntamente a um grande número de judeus como escravo para a Babilônia. O período compreendido entre o assédio inicial (598 a.C.) e a queda e a destruição de Jerusalém (587–586 a.C.) envolve — como quase tudo no Antigo Testamento — a presença de profetas; nesse caso, Jeremias e Ezequiel, que de certa forma “[...] reduzem as opções políticas aos princípios teológicos” (LIVERANI, 2005, p. 227, tradução nossa). O texto de Josefo (2004) apresenta a mesma situação de ingerência. Liverani (2005) observa que não é uma questão de ser pró ou anticaldeu, mas de uma corrente acreditar que Yavé não teria consentido na chegada do caldeus — para a qual parecia tender o rei — e outra corrente acreditar que o apoio egípcio era suficiente para vencer. Ambas eram desaconselhadas pelo profeta Jeremias, que, embora muito considerado, foi ouvido, mas não atendido. Outros pensavam que, por conta de questões teológicas e jurídicas, o pacto de vassalagem com os caldeus neobabilônicos deveria ser mantido. Ezequiel, outro profeta do mesmo período, concordava com Jeremias, afirmando que os babilônios agiam por vontade de Yavé; havia, no entanto, diferentes visões políticas entre eles. Quando ocorre a queda de Jerusalém (JEREMIAS, 2001, 39:8-10), Ezequiel é deportado e Jeremias fica livre, sendo a sua protenção ordenada por Nabuco- donosor. Enquanto Jeremias promove a ideia de fidelidade ao pacto, Ezequiel crê que somente Yavé pode mudara situação, sendo ele a única salvação. Sedecias foi substituído por Godolías, “governador” da Judeia. A ele se juntaram os que não haviam sido deportados ou que se refugiaram na Transjor- dânia. O governador foi assassinado por conjurados de sangue real (2 REIS, 25:25 apud LIVERANI, 2005). Tal assassinato provocou terror e iniciou uma sublevação popular, levando os conjurados a se refugiarem junto aos amonitas e os demais judeus a se refugiarem no Egito. Dessa forma, a Judeia teve sua população dizimada pela guerra, pela fome, pela peste, pela imigração e pela total ausência de uma classe dirigente que pudesse colocar ordem ao caos. 9Hebreus e babilônicos As datações referentes a períodos da história, principalmente da História Antiga, costumam ser problemáticas em razão dos diversos calendários e da própria forma de escrita dos textos e relatos, muitos dos quais bem posteriores aos fatos. Por outro lado, quando se trata de anais, grande parte deles faz datação a partir de determinado evento ou da coroação ou ascensão deste ou daquele rei ao trono. Os ocidentais datam os fatos por uma convenção. Por exemplo: a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo). O calendário judeu considera mais de cinco mil anos. No Ocidente cristão, muitos documentos começam com “No ano de nosso senhor Jesus Cristo”, etc. Importa saber que há dificuldades reais e que muita pesquisa é necessária para se chegar a datas exatas ou mesmo aproximadas. Para além disso, as contagens de meses, dias e anos variam conforme o povo e a época. Considere, por exemplo, a Revolução Francesa, que trouxe mudanças não só nos nomes dos meses como na sua divisão e na duração das semanas, que passaram a ter 10 dias. Deportações assírias e exílio babilônico No que tange às deportações cruzadas e provincializações realizadas pelos assírios, segundo Liverani (2005), as inscrições de reis assírios apontam para o reconhecimento de uma série de danos resultantes da conquista de regiões. Tais danos eram decorrentes da guerra. Eles incluíam, por exemplo: saques de colheitas e gado, incêndio de aldeias, destruição de cidades, vinhas e árvores frutíferas arrancadas, mortes, assassinatos e deportação dos demais habitantes. A deportação cruzada e a provincialização das populações serviria como forma de manter produtiva a economia dos locais conquistados e afastar dos vencidos ideias políticas ou de rebeldia. O objetivo era que os povos assimilassem a cultura assíria e a língua do império (assírio e, posterior- mente, aramaico). Liverani (2005) afirma que, para além da realidade de danos causados à população e às economias locais pela guerra, os relatos nas inscrições reais gravadas pelos assírios, que repetidamente contavam os danos e horrores resultantes dos processos das conquistas, tinham também a função de “propaganda de terror”. Liverani (2005) e Kriwaczek (2018) comentam a cruenta violência das guerras da época antiga e das práticas de guerra mesopotâmicas. No caso assírio, merece atenção o que Liverani (2005) chama de “propaganda de terror”, presente nas escrituras dos anais do império assírio ou em esculturas mandadas construir por seus reis (KRIWACZEK, 2018). No entanto, após comparar diversos povos e suas práticas de guerra, Kriwaczek (2018) conclui Hebreus e babilônicos10 que os assírios não foram mais ferozes ou cruéis do que outros povos da Antiguidade ou do que alguns povos atuais. Nos anais assírios, constam as seguintes cifras: “[...] mais de 40 mil depor- tados de Israel e quase 20 mil de Judá” (LIVERANI, 2005, p. 178, tradução nossa), havendo deportações com cifras bem maiores em zonas mais populo- sas. As deportações não afetam apenas a corte e a família real, embora estas sejam tratadas à parte. Igualmente, elas afetam a população agropastoril, as pequenas aldeias e cidades, incluindo entre os deportados “[...] homens e mulheres, grandes e pequenos” (LIVERANI, 2005, p. 178, tradução nossa). Em especial, registram-se competências laborais de caráter especializado. A ideologia assíria das deportações inclui, por um lado, um castigo por trai- ções pretéritas ou resistência ao deus Assur e ao rei (considerado o seu braço armado). Por outro lado, tal ideologia inclui a reconstrução, o que é consonante com a ideia de que a conquista significa ampliação da ordem e afirmação da justiça, além de redução da sedição e da iniquidade. Liverani (2005) defende que uma das finalidades da deportação cruzada é uma total assimilação linguística, cultural e política dos povos. A ideia era transformar os vencidos em assírios, convertendo, com as deportações, um rei rebelde em um estranho vivendo em uma nova província, na dependência direta do rei assírio e do deus Assur. Para isso, o rei destinava às províncias e aos grupos deportados “[...] escribas e vigilantes assírios, capazes de ensiná- -los o temor do Deus e do Rei” (ISK apud LIVERANI, 2005, p. 179–180, tradução nossa). Sob o ponto de vista do vencedor assírio, a assimilação dos deportados é uma ampliação não só do território do império como do próprio povo assírio. Porém, para os deportados, que sofrem com o processo de aculturação, a situa- ção parece outra. Segundo Liverani (2005), essa reestruturação é levada a cabo na tentativa de aniquilar a individualidade cultural sem provocar um colapso econômico e demográfico. Tais deportações são citadas nos anais assírios, no Livro dos Reis (2 REIS, 17:6 apud BÍBLIA, 2001). Esse processo promoveu a erradicação da resistência política e manteve a economia salvaguardada, ainda que débil. Além disso, sustentou demografias razoavelmente capazes de manter os territórios ocupados produtivos e, se possível, populosos. A assimilação linguística se deu pelo aramaico, que os próprios assírios também utilizavam nos séculos VIII e VII a.C., restando o uso do idioma assírio para a escrita oficial administrativa e a língua falada. Exceto por algumas cerimônias estatais e declarações de princípios (exigi- das), a assimilação religiosa não foi total, dando origem a um sincretismo difuso e variado, que reuniu os múltiplos cultos dos grupos deportados. A religião (e 11Hebreus e babilônicos uma revisão o yaverismo) foi considerada um elemento forte de identificação entre deportados de origem hebraica, produzindo também um sentimento de união para com os que permaneceram no reino de Judá (LIVERANI, 2005). No entanto, os israelitas, sob Jeroboão, haviam cultuado fora de Jerusalém, e o rei havia criado dois templos, feito a si mesmo sacerdote e mandado “[...] fazer e consagrar a Deus dois bezerros de ouro, um dos quais foi colocado na cidade de Betei e outro na de Dã” (JOSEFO, 2004, p. 374), o que contraria a ideia de um único templo, o de Jerusalém, bem como o preceito de não cultuar ídolos. Na Figura 2, a seguir, você pode ver os deslocamentos causados pelas deportações assírias. Figura 2. Deportações assírias. Fonte: Adaptada de Geacron (2019, documento on-line). Exílio babilônico: outras condições As deportações dos hebreus (judaítas e israelitas restantes no reino de Judá) para a Babilônia foram executadas sob condições diferentes. Os caldeus, ao Hebreus e babilônicos12 contrário dos assírios, não pretendiam a assimilação, mas o cessar da rebeldia e da desobediência. Eles não se importavam com a terra cananeia, tanto que a deixaram despovoada. Assim, os exilados foram tratados conforme a sua condição: alguns viviam na corte, enquanto outros retomaram a vida normal, os negócios e o trabalho. As crianças receberam educação por ordem de Na- bucodonosor (a Mesopotâmia, desde o tempo dos sumérios, era considerada um local de civilização). Na Babilônia, artesãos e membros deportados não pertencentes à elite foram utilizados como trabalhadores em obras públicas e de embelezamento da cidade. Não havia interesse dos caldeus na assimilação dos exilados. Assim, estes puderam preservar a sua cultura, os seus costumes e a sua religião. Isso preservou a identidade dogrupo durante os anos do exílio, auxiliando na reestruturação do conceito de nação e religião judaica. Esses grupos hebreus receberam liberdade para se reunir, criaram locais de culto, as sinagogas (primeiro lugar de culto a Yavé fora do Templo de Jerusa- lém), tocaram o projeto de Josias referente à obediência ao estabelecido na lei (suspenso pelos fatos ocorridos nas guerras), conformaram os livros da lei e normatizaram a religião de Yavé, dando origem ao judaísmo como se conhece hoje. É por isso que o termo “judeu” se aplica aqui, pois foi a partir do exílio e no pós-exílio que o povo hebreu se fez judeu para além do sentido étnico, territorial ou clânico, no sentido de pertencimento a uma mesma religião e a um mesmo e único Deus. Liverani (2005) analisa as deportações assírias e os seus resultados para todos os povos submetidos, muitos dos quais não tiveram suas “bíblias” pre- servadas até o presente. O autor constata as diferenças entre as deportações assírias e babilônicas dos e para os hebreus. Ele comenta, demonstrando com isso as possibilidades e liberdades permitidas aos hebreus, a reconstrução de si realizada por esse povo durante o exílio na Babilônia. Veja as conclusões de Liverani (2005, p. 11, tradução nossa): 13Hebreus e babilônicos [...] houve um evento especial, preparado pelo projeto de um rei de Judá (Jo- sias) para dar vida a um reino unido de Judá-Israel nas décadas do colapso da Assíria e a reafirmação de Babilônia, e para substanciar esta tentativa a nível religioso (yaveísta monoteísmo, "mosaico" da lei) e historiográfico. [...] O rápido retorno à Palestina dos exilados judeus que eles ainda não tinham assimilado ao mundo imperial, sua tentativa de dar vida a uma cidade-templo (Jerusalém) de acordo com o modelo babilônico, de reunir em torno dela uma nação (Israel, agora em sentido amplo),supõe que se pôs em marcha uma enorme e variada reelaboração da história anterior (que tinha sido completa- mente "normal") que colocou em seu lugar os arquétipos fundamentais que naquele momento pretendia-se revitalizar (o reino unido, monoteísmo e o único templo, a lei, a posse do território, guerra santa, etc.) sob o signo de uma predestinação absolutamente excepcional. Da mesma forma que à verdadeira, mas ordinária história, faltava qualquer interesse que não fosse puramente local, também a história inventada e excepcional se converteu na base para a fundação de uma nação (Israel) e religião (o judaísmo), que influenciariam todo o curso da história posterior em escala mundial. Quanto aos retornados, no entanto, Kriwaczek (2018, p. 333–334) afirma o seguinte: Quando o Império Neobabilônico sucumbiu diante dos persas, menos de cinquenta anos depois, e a nobreza de Judá teve permissão para regressar a Jerusalém e começar a reconstruir o templo, somente os que tinham ficado exilados na Babilônia passaram desde então a figurar como judeus. Embora a gente do povo que fora deixada na Judeia, “os pobres da terra”, se aproxi- masse dos que haviam retornado e implorasse para participar do trabalho de restauração, foi lhes dito, em termos vigorosos, que caíssem fora: Nada tendes a fazer conosco na edificação de uma casa a nosso Deus; nós mesmos, sozinhos, a edificaremos ao Senhor Deus de Israel, como nos ordenou Ciro, o rei da Pérsia. (Esdras 4:3) Como quer que fosse, apenas uma minoria dos judeus quis restabelecer-se em sua antiga terra provincial e empobrecida. A maioria optou por permanecer na Mesopotâmia, para continuar a usufruir dos benefícios de viver no coração da civilização. Durante séculos, a Babilônia, e não Jerusalém, abrigou as maio- res comunidades judaicas de qualquer parte do mundo. E foi nas academias babilônicas que se criou o Talmude babilônico, o texto que até hoje molda o judaísmo. Sem a conquista e a deportação de Nabucodonosor, o judaísmo tal como o conhecemos, e portanto o cristianismo e o islamismo, por sua vez, nunca poderiam ter existido. Hebreus e babilônicos14 Conquista babilônica dos hebreus: consequências demográficas Os números referentes às deportações de Nabucodonosor podem ser consul- tados no Livro de Reis e no de Jeremias. No entanto, mais importante do que verifi car os números em si é dar-se conta de que essa deportação realizada por Nabucodonosor foi unidirecional, ou seja, não foram levadas populações de outros locais para ocupar a Judeia. Os elementos deportados foram membros da realeza, da elite, sacerdotes, chefes e homens de importância, além de artesãos e suas respectivas famílias. A classe dirigente foi deportada, mas a população campesina permaneceu na terra cananeia sem um governo. Sob os neobabilônicos, por um lado, as estruturas sociopolíticas e culturais da Judeia (e dos que lá ficaram) sofreram grande degradação; por outro, aqueles que foram deportados puderam conservar a sua individualidade. Assim, as deportações levadas a cabo pelos neobabilônicos diferem das deportações assírias, que visavam à assimilação e à integração. Sobre isso, Liverani (2005, p. 233–234, tradução nossa) afirma o seguinte: Em suma, as deportações assírias foram tremendamente eficazes em sua tarefa de apagar a identidade nacional, a tal ponto que o destino dos deporta- dos assírios não é mais conhecido, e as "dez tribos" do norte desapareceram, absorvidas pelo mundo circundante. Por outro lado, as deportações babilô- nicas não puderam pôr fim ao senso de autoidentificação dos deportados, que, estando dispostos, podem reconstituir sua individualidade etnopolítico- -religiosa-comportamental. A situação em que a Judeia foi mergulhada após o saque de Jerusalém, a deportação da classe dominante e os eventos que se seguiram deram origem a uma grave crise demográfica e cultural. Comparando-se as deportações cruzadas realizadas pelos assírios com as deportações unilaterais demandadas pelos caldeus neobabilônicos, percebe-se a diferença no impacto causado sobre a demografia das regiões afetadas. No caso do exílio babilônico, a terra foi arrasada, sem líderes, tendo sobrado na região apenas alguns camponeses cuja prioridade era a sobrevivência. Além disso, a região não recebeu novos habitantes até o retorno dos exilados, após a vitória de Ciro sobre os caldeus. 15Hebreus e babilônicos A baixíssima demografia restante na região também teve efeitos sobre as questões culturais, econômicas e administrativas. Os sobreviventes chegaram muito próximo de um cataclisma, conforme indicam estudos arqueológicos levantados por Liverani (2005): os cálculos apontam a redução populacional a 10% da anterior; a superfície média dos povoados também foi reduzida em 2/3; não havia produção artesanal de valor; e o uso da escrita foi reduzido. Para além disso, um povo cujas administração política, religião e decisões giravam em torno do templo e de leis rígidas se viu, de repente, sem reis, sacerdotes, políticos ou sábios para orientá-lo. Alguns membros das populações vizinhas mais preparados para administrar uma recuperação ocuparam espaços vazios, porém não tiveram sucesso no que tange a uma reestruturação administrativa (LIVERANI, 2005). Liverani (2005) observa que o esvaziamento das terras sírio-palestinas, e não apenas das do extinto reino de Judá, pode se considerado o indicativo do fim de uma época, um momento histórico crucial e o prenúncio de uma nova era histórica e civilizacional: Em poucas décadas (de maneira escalonada e sucessiva no tempo, de norte a sul) todos os reinos e pessoas que haviam dado vida ao vigoroso mundo levantino [sírio-palestino] da Segunda Era do Ferro estavam imersos em níveis demográficos e culturais muito baixos: é o fim de uma era, o fim de um mundo, algo que os livros de história do tipo tradicional não são capa- zes de visualizar adequadamente, mas que, no entanto, constitui um evento histórico crucial, a partir do momento em que a crise de identidade torna-se, por sua vez, o ponto de partida para uma nova trajetória (LIVERANI, 2005, p. 238, traduçãonossa). Essa nova trajetória se dá com o retorno à “terra prometida”, a reconstru- ção do reino, do templo e da aliança com Yavé, esta última refeita durante o período do exílio e escrita nos livros da Torá pelos deuteronomistas. Para o povo hebreu, judaíta que viveu no exílio, este ocorreu por conta da quebra da aliança entre o povo e Yavé. Nesse sentido, o exílio foi um castigo e um aprendizado que os fizeram refletir sobre diversas posições, repensar e “rees- crever” a própria história e as próprias leis — não só mosaicas, mas também reguladoras da vida cotidiana — por meio dos livros, bem como desenvolver um nacionalismo aguerrido (TRIGO, 2007). O problema da baixa demografia não cessou imediatamente com a autori- zação para o retorno dos exilados, que foi realizado aos poucos e em pequenos grupos, durando cerca de um século. Os exilados retornados eram provenientes não somente da Babilônia, mas também do Egito e de reinos vizinhos onde Hebreus e babilônicos16 haviam se refugiado. Embora pudessem retornar de maneira oficial, com direito à posse da terra e ajuda financeira concedidos pelo imperador persa Ciro (LIVERANI, 2005), muitos hebreus já assimilados ou acomodados nas condições do exílio preferiram não retornar, o que não impediu que auxiliassem os que o fizeram. Os que permaneceram na terra durante o exílio foram chamados pelos que retornaram de “pobres da terra”. Mesmo tentando ajudar na reconstrução do templo, eles foram rechaçados e tiveram a sua oferta de auxílio negada, como você viu na citação do texto de Kriwaczek (2018) mencionada anteriormente. As questões demográficas e as suas consequências só seriam resolvidas a longo prazo. Nesse sentido, as áreas litorâneas da Síria Palestina se recuperariam mais rapidamente do que o interior — tanto no quesito populacional quanto no econômico. BÍBLIA. Português. Nova versão internacional: antigo e novo testamento. São Paulo: Vida, 2001. DIOCESE DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO. Home. São José do Rio Preto: [S. n.], 2014. Dis- ponível em: http://bispado.org.br/. Acesso em: 8 jul. 2019. GEACRON. Middle East. [1800 B. C.]. Disponível em: https://www.apaixonadosporhis- toria.com.br/artigo/42/o-militarismo-assirio-e-as-reformas-de-tiglath-pileser. Acesso em: 12 jul. 2019. JEREMIAS. In: BÍBLIA. Português. Nova versão internacional: antigo e novo testamento. São Paulo: Vida, 2001. JOSEFO, F. História dos hebreus de Abraão à queda de Jerusalém. 8. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2004. KRIWACZEK, P. Babilônia a Mesopotâmia e o nascimento da civilização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2018. LIVERANI, M. Mas allá de la Bíblia: historia antigua de Israel. Barcelona: Editorial Crítica, 2005. TRIGO, A. C. M. C. O exílio na Babilônia: um novo olhar sobre antigas tradições. 140 f. 2007. Dissertação (Mestrado) - Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. 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Introdução Com aproximadamente três mil anos existência, o judaísmo é umas das religiões do Oriente que alicerçou as bases do cristianismo e do islamismo. Sua estrutura teológica foi desenhada pelo povo hebreu, que passou por diferentes processos, como escravização, libertação, formação de um reino, cativeiro, chegando à constituição de uma nação. Os judeus se baseiam na crença de que foram escolhidos por Deus para selar uma aliança e receber, em troca, “a terra prometida”. Sendo uma religião monoteísta, seus adeptos acreditam que Deus é onipresente, onisciente e onipotente. Assim, está presente em tudo e em todos os lugares, além de vigiar e guardar os humanos. Além disso, seus dogmas são transmitidos de geração a geração por meio do livro sagrado chamado Torá. Neste capítulo, você vai conhecer a trajetória histórica dos hebreus, bem como se alicerçaram as bases do judaísmo, a Torá e sua funda- mentação histórica-teológica, tendo, ao final, um panorama histórico da cultura hebraica. 1 A origem do judaísmo O judaísmo tem sua origem teológica nas escrituras hebraicas, as quais também formam a história de outras manifestações religiosas, como o cristianismo e o islamismo, que compartilham da mesma gênese histórica e possuem bases na tradição histórica judaica. A dimensão histórica é, portanto, um ponto comum entre elas, mas o desenrolar dos dogmas e das doutrinas é marcado pelas diferenças estabelecidas pelo sincretismo religioso, que ressaltou suas particularidades no âmbito do sagrado. Então, ao fi xarmos nossa atenção na representação religiosa judaica, também estamos observando as raízes de outras estruturas religiosas. A história do judaísmo se relaciona diretamente à história dos hebreus, que tiveram seus primórdios na Mesopotâmia e percorreram territórios da Babilônia e Síria, fixando-se no Oriente Médio por volta do segundo milênio a.C., o que mais tarde originou os povos semitas, como os judeus e os árabes — posteriormente, o termo hebreu foi associado somente ao povo judeu. Sobre esse contexto, de acordo com Burns (1968, p. 139): Nenhum dos povos do antigo Oriente, com exceção, talvez, dos egípcios, teve maior importância para o mundo moderno do que os hebreus. Foram eles, já se sabe, que nos deram grande parte do substrato da religião cristã, como os mandamentos, as histórias da criação e do dilúvio, o conceito de Deus como legislador e juiz, e ainda mais de dois terços de sua Bíblia. As concepções hebraicas da moral e da teoria política influenciaram também profundamente as nações modernas, em especial aquelas em que a fé calvinista foi particular- mente vigorosa. Por outro lado, é necessário lembrar que os próprios hebreus não desenvolveram sua cultura no vácuo. Considerando sua trajetória histórica e seu contato com diferentes cultu- ras, a estrutura hebraica e a religião judaica receberam forte influência dos babilônios, egípcios e gregos. Segundo Burns (1968), a origem da estrutura cultural e teológica judaica está interligada à história de Abraão, que, em 1800 a.C., ocupava o noroeste da Mesopotâmia e comandavaum grupo de hebreus. Seguindo uma linha de sucessão, Jacó, filho de Isaac e neto de Abraão, conduziu uma migração para o poente e iniciou a ocupação da Palestina. Durante esse período migratório, de acordo com o livro de Gênesis, Deus prometeu a terra de Canaã aos descendentes de Abraão, Isaac e Jacó — essa região recebeu, nos textos religiosos dos judeus, a denominação “terra prometida”. Nesse período, descrito no livro de Gênesis, Jacó tinha um irmão gêmeo chamado Esaú, e eles eram filhos de Isaac e netos de Abraão. Esaú era o primogênito e, portanto, aquele que tinha direito à sucessão de comando de seu povo. De acordo com a narrativa de Gênesis, um dia Esaú entrou em casa faminto, e Jacó lhe preparou uma boa refeição — no entanto, quando Esaú lhe pediu um prato de comida, Jacó condicionou a cedência desse prato à troca do posto de primogênito, que lhe daria vez na linha de sucessão familiar. Diante da fome, Esaú aceitou a proposta, mas se arrependeu e decidiu matar Jacó. Por O judaísmo2 conselho de sua mãe, então, refugiou-se em Harã (na atual Turquia). Durante sua fuga, Jacó teve um sonho em que Deus (ou Javé, assim denominado pelo povo hebreu) dizia que a terra onde dormia pertenceria a seus descendentes. Ao acordar, Jacó designou aquele lugar como sagrado, erguendo ali uma pedra e batizando o local de Betel, que quer dizer “casa de Deus”. Em relação à mudança de nome de Jacó, também de acordo com o livro de Gênesis, foi por meio de uma luta com um anjo que Jacó recebeu o nome de Israel, que significa “o que luta com Deus” — essa foi a mudança que deu origem ao nome do povo de Israel. A história de Jacó foi um marco na consolidação do povo israelita e base para a compreensão da sua história, pois o fato de ele ter tido 12 filhos deu origem às chamadas 12 tribos de Israel, o que multiplicou o povo israelita. De acordo com Burns (1968) após 1.700 a.C., algumas tribos israelitas, em companhia de outros hebreus que estavam sofrendo com a escassez do território, decidiram migrar para o Egito. Segundo parece, instalaram-se nas vizinhanças do Delta e foram escravizados pelo governo do Faraó. Por volta de 1300–1250 a.C., os seus descendentes encontraram um novo líder no indômito Moisés, que os libertou da servidão, conduziu-os à Península do Sinai e converteu-os ao culto de Iavé. Até então Iavé tinha sido a divindade dos povos pastores hebreus que habitavam o Sinai. Utilizando como núcleo o culto iavista, Moisés uniu as várias tribos de seus seguidores numa confederação por vezes chamada Anfictionia de Iavé. Foi essa confederação que desempenhou o papel dominante na conquista da Pa- lestina ou Terra de Canaã. Como refúgio para os filhos de Israel, a Palestina deixava muito a desejar com suas chuvas escassas e sua topografia escabrosa. Era, em grande parte, uma região estéril e inóspita. Comparada, porém, com os desertos da Arábia, representava um verdadeiro paraíso e não surpreende que os condutores do povo de Israel a tenham descrito como uma "terra que emana leite e mel". Grande parte dela já estava ocupada pelos cananeus, outro povo de língua semita, que lá viveu durante séculos. Graças ao contato com babilônios, hititas e egípcios, os hebreus haviam desenvolvido uma cultura que nada tinha de primitiva. Praticavam a agricultura e o comércio. Conheciam o uso do ferro e a arte de escrever, e tinham adaptado as leis do código de Ha- murabi às necessidades de sua existência mais simples (BURNS, 1968, p. 141). Após apresentação desse contexto histórico, destaca-se que o monoteísmo judaico pregado pelo patriarca Abraão é a particularidade mais marcante do judaísmo considerando sua convivência com povos de fé politeístas. Moisés, após o firmamento de um pacto com Deus, torna-se o grande líder hebreu e mediador entre Deus e Israel: 3O judaísmo Moisés é hebreu, com costumes egípcios, cortesão educado, em um meio de alto nível de vida. Sente-se atraído pelo seu povo, o qual ele descobre; abandona o luxo da corte, em que fora educado, voltando-se para o velho ideal hebreu de pastor. Vai à estepe, onde recebe as decisivas experiências religiosas. Inicialmente hesita diante do vulto da tarefa que Deus lhe incumbe; enfim, o antigo homem da corte, o pastor, transforma-se em líder e chefia o seu povo no êxodo do Egito e nos quarenta anos de travessia do deserto, tendo o ápice de sua vida na revelação do monte Sinai. Sua vida é trágica; ele ama seu povo, mas este — ainda há pouco escravo, com o horizonte, de escravos — não pode acompanhá-lo nas suas grandes ideias; recai no paganismo, vacilante, indeci- so. Moisés tem de lutar com seu povo (PINKUSS,1965, documento on-line). A história de Moisés é a base para a construção do dogma do judaísmo: por meio dela, legitimam-se as condutas tidas como morais e espirituais. Além disso, a conexão entre os humanos e Deus deve ser atravessada por provações, negação de impulsos e desejos, para que assim ocorra a restauração da ordem a partir da tradição e dos costumes, que são pertinentes ao culto monoteísta reafirmado por Moisés: Moisés, que este era um egípcio, não hebreu, que introduziu o culto monoteísta solar de Heliópolis, desenvolvido por Amenofes IV, no meio dos hebreus, depois de ter a reação eliminado esse monoteísmo do culto egípcio. Mas não há indício algum para afirmar que Moisés não era hebreu; e a doutrina de He- liópolis, com os seus clássicos hinos solares foi um monoteísmo astral e não o monoteísmo da personalidade do Deus único, o monoteísmo ético dos profetas, dos dez mandamentos e do amor ao próximo. Em geral é de presumir-se que os hebreus sabiam manter-se incólumes à influência do ambiente agressivo que para eles significou o Egito (PINKUSS, 1965, documento on-line). É importante ressaltar que não é apenas o monoteísmo que delega ao judaísmo uma estrutura com preceitos e dogmas rígidos que traduzam sua essência, mas, sim, a forma como os judeus se adaptaram às transformações históricas tanto de sua cultura quanto de sua construção identitária. Com isso, mesmo que muitos não sigam ou não integrem a religião judaica, descendem dessas raízes históricas e se denominam judeus. Segundo Schama (2015), os profetas têm uma grande contribuição na representação sobre a palavra de Deus. Os mais influentes foram Isaías, Jeremias e Ezequiel, que afirmavam que a idolatria a imagens causaria a ira de Deus — dessa maneira, os iconoclastas (adoradores de imagens) seriam os causadores do castigo de Deus. Esse aspecto mostra como o judaísmo se edificou durante séculos, sempre buscando uma identidade histórica — assim como a formação de uma nação — e propondo-se como o elo entre Deus e os homens que permanece intacto, sobrevivendo ao tempo histórico. O judaísmo4 Outro aspecto histórico importante a ser destacado é a linhagem do rei Davi, que pronunciava a vinda de um messias que salvaria e reinaria na terra sob o mando de Deus. Sua espera ainda se faz, o que caracteriza a religião como messiânica, ou seja, os judeus esperam a vinda de um messias. A pre- servação de sua história e sua adaptação ao contexto, que se transformou ao longo dos milênios, gerou três vertentes distintas de ação e de culto de suas tradições nessa religião: o judaísmo ortodoxo, o judaísmo reformista e o judaísmo conservador. Judaísmo ortodoxo Uma das vertentes que busca não perder sua essência a ponto de resistir a muitas das adaptações culturais da modernidade é a linha ortodoxa do judaísmo. Os chamados judeus ortodoxos são os que cumprem rigorosamente os 613 preceitos defi nidos pela lei judaica, chamada de Halachá. Seus fundamentos estão calcados em seguir a chamada dieta, kosher — que determina quais alimentos devem ser consumidos —, o descanso aos sábados e as leis de per- petuação da pureza familiar. De acordo com Topel (2003, documento on-line): A longa caminhada desses homens e mulheres para se transformarem em judeus pios implica o aprendizado do complexo sistema ritualísticojudaico ortodoxo, no qual as leis dietéticas detêm um papel central. Assim, é importante lembrar que para a ortodoxia judaica é considerado membro do grupo aquele judeu que cumpre estritamente os preceitos ligados ao descanso sabático, às leis de pureza familiar e às leis que regem o princípio da kashrut,ou leis dietéticas. Em síntese: ser judeu ortodoxo não está relacionado com um ato de fé, e sim com seguir à risca os 613 preceitos ditados pelo código de leis conhecido como Halachá (em hebraico: caminho). Além da condição alimentar, aspectos de conduta social e de prática da fé são determinados pelas comunidades judaicas que seguem a linha ortodoxa. Com isso, por exemplo, suas roupas possuem características simples, que não remetam a vaidade. Há, também, clara distinção entre as funções de gênero, de maneira que as mulheres são restringidas em suas ações religiosas — não podem, por exemplo, conduzir, de forma pública, as rezas, estudar o Talmude (que complementa a Torá) ou ser ordenadas como rabinas (TOPEL, 2003). Esse grupo segue a Torá de forma literal, já que a consideram o livro que foi revelado por Deus, o que justifica sua necessidade de manter sua plenitude e produz uma perpetuação inflexível das tradições. Devido a essas condições, é comum que seus adeptos se isolem em locais distintos, espécies de comu- 5O judaísmo nidades fechadas, para que suas convicções não sejam invadidas pelo mundo exterior. A falta de uma flexibilização em relação ao contexto contemporâneo provocou a ruptura reformista com os ortodoxos. Judaísmo reformista Questionando a linha ortodoxa, o movimento reformista teve sua origem na Alemanha, no século XIX. Os adeptos desse movimento acreditam na fl exibilidade da Torá diante das modifi cações globais e culturais. A questão teológica na gênese dos mandamentos, quando ocorreu o pacto de Deus com Moisés e sua materialização na Torá, por exemplo, é uma questão indagada pelos reformistas. Os judeus dessa linha aceitam alguns mandamentos, mas não são rigorosos em sua dieta alimentar, como os ortodoxos. É possível perceber consideráveis adaptações em seus rituais, bem como a adoção de línguas dos países onde estão instalados e a tentativa de equilibrar as atribuições de gênero. Além disso, no campo político, deixaram de lado a necessidade da volta à Terra Santa e a criação do Estado judeu. Esse é o ponto crítico na discordância entre a ala reformista e a ortodoxa, pois, desde o princípio, o judaísmo é uma religião que busca um território para assentar seu povo. Com isso, a perpetuação da Terra Santa sob o controle dos judeus seria para o grupo ortodoxo a realização da ordenação divina, que estabeleceria o ele entre um o povo e a religião a um espaço territorial. Essa divergência de interpretação teológica leva ao distanciamento desses grupos, pois a ala reformista defende que não se deveria interferir em questões territoriais e políticas, mas, sim, restringir-se apenas aos aspectos de cunho religioso. Judaísmo conservador A linha do judaísmo conservador nasceu com um grupo de rabinos que estavam recebendo sua ordenação nos Estados Unidos e, com o intuito de apresentar uma terceira via entre a ortodoxia e o reformismo, criaram o Seminário Te- ológico Judeu em Nova Iorque. Suas diretrizes estão em uma linha mediadora entre o antigo e o moderno, mas sem perder sua essência no que tange à questão de retorno da Terra Santa. Também buscam preservar a lei judaica, a esperança de libertação nacional e utilizar o hebraico como idioma de seu povo. No judaísmo conservador, seus integrantes podem viver fora dos núcleos estritamente judeus e percebem a importância da equidade entre homens e mulheres (ASSOCIAÇÃO ISRAE- LITA DE BENEFICÊNCIA BEIT CHABAD DO BRASIL, [2020]). O judaísmo6 A estrela de Davi (Figura 1) é um dos símbolos mais conhecidos do judaísmo e repre- senta proteção e a união dos opostos. Segundo o Dicionário de Símbolos (SÍMBOLOS JUDAICOS, [201-?], documento on-line): Apesar de ser um hexagrama (estrela de seis pontas), que é representada por dois triângulos equiláteros sobrepostos, esse símbolo representa o número 7. Isso porque a soma da sua estrutura (pontas dos triângulos, 6, mais seu centro) resulta nesse número, que é perfeito para o judaísmo. Também conhecido como Escudo de Davi, teria esse nome pelo fato de o rei Davi ter usado um escudo nesse formato. O objetivo era poupar no metal na criação dessa arma. Depois de o rei Davi ter usado esse escudo, seu exército passou a utilizar a sua imagem nos escudos acreditando que o símbolo lhes trouxesse proteção. Figura 1. Estrela de Davi. Fonte: Símbolos judaicos ([201-?], documento on-line). O judaísmo é uma religião messiânica, assim como o cristianismo, mas, na concepção judaica, Jesus não é o seu messias. O calendário que o mundo ocidental utiliza se baseia no nascimento de Jesus, ocorrido há 2020 anos segundo os cristãos. Os judeus, por sua vez, ainda estão à espera do messias e baseiam seu calendário nos ciclos da lua — sua contagem já chegou a 3000 anos. 7O judaísmo 2 O livro sagrado do judaísmo Possuir um guia de orientações e de acalento para as dúvidas mundanas foi uma das formas que as religiões encontraram para melhor orientar seus adeptos e colocá-los em contato com o sagrado de forma didática e dogmá- tica. As chamadas Escrituras Sagradas fazem parte de inúmeras religiões, e o judaísmo também possui as suas, mais conhecidas como Torá, palavra de origem hebraica — tohráh — que deriva da palavra hebraica yará e signifi ca conhecimento, ensinar, orientação, instrução, apontar para o alvo. A Torá é composta pelos cinco primeiros livros da história do judaísmo, também conhecidos como “Pentateuco” ou “Os cinco livros de Moisés”: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. A autoria desse livro é atribuída ao próprio Deus de Israel, e sua revelação foi feita no Monte Sinai a Moisés e transmitida o povo de Israel durante 40 anos de peregrinação pelo deserto. Segundo a tradição hebraica, existe a Torá oral e a Torá escrita. A Torá oral é a explicação ou um conjunto de ensinamentos para cumprir os mandamentos da Torá escrita, que, ao logo dos anos, sábios foram transmitindo de geração a geração. Segundo Kilpp (1993, documento on-line): A torá é de origem divina. Moisés foi o profeta privilegiado que recebeu a torá no monte Sinai. A transmissão se deu através de homens capazes, íntegros e inspirados. A lei de Moisés é a parte mais importante na Bíblia Hebraica, pois ela expressa a vontade de Deus. Os profetas são entendidos como transmissores e intérpretes da torá. Eles não formam um fenômeno com luz própria; são importantes por terem apontado para a lei e preservado a autoridade da lei. Os homens da Grande Assembleia são identificados com os sábios e escribas da época pós-exílica. A função desses sábios é a de preservar, transmitir e proteger a lei. “Fazer uma cerca” pode ser entendido como a tentativa de definir um cânone de escritos sagrados a partir do centro do judaísmo, a lei. Pode, no entanto, também significar o processo de interpretação e atualização da lei escrita que pretende mostrar em casos concretos como se pode cumprir a lei e como se a transgride. As “cercas” protegeriam a lei de ser violada, mas também as pessoas de sofrerem as consequências de uma eventual transgressão. Dessa maneira, a Torá registra os ensinamentos escritos por Deus e entregues ao profeta Moisés, assim como as leis e orientações orais que também foram elaboradas de formas divinas. Dessa relação de leis escritas e orais, surgem mandamentos de ordem prática e moral, os quais foram organizados para criar um código de conduta ética que definiria a predileção de Deus pelos Hebreus. Segundo Pinkuss (1965), o estatuto jurídico da Torá pode ser comparado com o Código de Hamurabi se instituído o princípio de igualdade entre os O judaísmo8 judeus. As partes jurídicas da Torá, na sua terminologia, são parecidas como código do rei babilônico Hamurabi, dois séculos mais velho do que a Torá. Essa semelhança se justifica pelo fato do povo hebreu ter circulado pelo território babilônico e entrado em contato com a cultura local, a ponto de absorver algumas características jurídicas. A Torá é um livro que conta a história dos hebreus, mas por uma perspectiva moral e ética. Trata-se de um livro de sabedoria, pois vem de histórias, profecias e reflexões e também revela o plano de Deus para a redenção da humanidade. O alicerce de toda a Bíblia se baseia nos fundamentos da Torá; portanto, ela não é apenas considerada um rolo ou o livro da lei, mas, sim, a própria palavra de Deus revelada aos homens — todas as profecias são baseadas nas promessas da Torá, assim como os alvos e cânticos e até mesmo o novo testamento da Bíblia cristã, livro que fundamenta a religião cristã e possui forte ligação com as bases do cristianismo. Sua ênfase está nos ensinamentos de Jesus Cristo, que difunde muito dos princípios já estabelecidos na cultura judaica. Assim como o judaísmo, o cristianismo também teve suas vertentes e rupturas resultantes em novas congregações, que seguem a Bíblia, mas a interpretam e adotam uma conduta social de forma distinta. As religiões que se baseiam no cristianismo são unificadas pelas revelações de Jesus, da fé em um único Deus e do caminho para alcançar o reino de Deus. Na composição da Bíblia, temos o Antigo Testamento, que contém os Evangelhos e, que, por sua vez, correspondem aos escritos da Torá (Figura 2). Figura 2. A Torá. Fonte: Torá (2020, documento on-line). 9O judaísmo A Torá e a Bíblia Sagrada compartilham da mesma origem histórica en- quanto fontes do povo hebreu no mundo; dessa maneira, ambas as represen- tações religiosas, judaísmo e cristianismo, têm grande valor social, cultural e histórico, pois transmitem o vigor e a essência da fé humana em acreditar no sagrado como razão existencial da vida no universo. Segundo Silva (2010), o sincretismo religioso entre o judaísmo e o cristianismo tem suas bases na cultura, inicialmente pela origem das escrituras sagradas, que partem de uma gênese comum, e edificam as diversas religiosidades que compartilham os mesmos princípios. Confira, a seguir, algumas festividades judaicas de acordo com a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 2019. Sabath: considera-se que o sétimo dia da semana judaica, que compreende do pôr do sol da sexta-feira ao pôr do sol do sábado, santifica a semana . O cuidado com esse dia é especial para a adoração, de modo que, para celebrá-lo, os judeus vão às sinagogas para leituras da Torá e orações. Iom Kipur: dia de expiação, festividade solene caracterizada por jejum e autoexame. Dá fim aos dez dias de penitência, que começam com Rosh Hashanah, o ano novo judaico, que cai em setembro, segundo o calendário judaico secular. Sucot: festividade das tendas/tabernáculos ou recolhimento. Comemora a colheita, o fim da maior parte do ano agrícola, e é celebrado em outubro. Pesach: festividade da Páscoa instituída para comemorar a libertação de Israel do cativeiro no Egito, é a maior e mais antiga das festividades judaicas. Cai entre o fim de março e o começo de abril. 3 A história dos hebreus A história do povo hebreu foi construída por meio de movimentos migratórios, lutas, guerras, escravização, fugas e cativeiros — apesar de tudo isso, os he- breus conseguiram preservar sua identidade cultural. A civilização hebraica, formada por pastores nômades, vivia na cidade de Ur, na Mesopotâmia, e chegou a essa região conduzida pelo patriarca Abraão, que foi designado a levar seu povo à “terra prometida” (Palestina). Nesse território, encontrava-se o rio Jordão, que fazia da região a área mais fértil e favorável para a agricultura — os hebreus chegaram a essa região por volta de 2000 a.C. Silva (2010) afi rma O judaísmo10 que os hebreus têm grande infl uência na civilização atual, já que o judaísmo contribuiu tanto para formação do cristianismo quanto para a do islamismo. Podemos dividir o início da história hebraica em três grandes momentos, a era dos patriarcas, a era dos juízes a era dos reis, como você confere a seguir. A era dos patriarcas Inicialmente, os hebreus eram pastores nômades, comandados por patriarcas, que eram líderes políticos e interpretados como o “pai” de toda comunidade, ou seja, cuidavam da vida comum de todos. Abraão foi o primeiro grande líder e patriarca. Era da Mesopotâmia, originário da cidade de Ur, da Caldeia, e conduziu o povo hebreu rumo a uma jornada a terras distantes, mas con- sideradas férteis, prósperas, a “terra prometida” por Deus, que seria Canaã. Após Abraão, a liderança, que era passada sempre para o primogênito, foi aferida inicialmente para Isaac e, depois, como já explicado, a seu fi lho Jacó, que teve seu nome mudado de Israel para Judá e teve 12 fi lhos, dando origem a 12 tribos: Rubén, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Asser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim (BURNS, 1968). Outro patriarca importante foi Moisés, cuja história foi épica. Após a terra prometida tornar-se infértil, o povo hebreu foi assolado por uma grande seca e se tornou escravo do povo egípcio. Esse período durou cerca de 400 anos, mas foi Moisés que libertou seu povo da morte e da escravidão. Com a promessa de retornar à terra prometida, Moisés conduziria seu povo a uma nova jornada — que levaria 40 anos — de libertação e peregrinação e que fi cou conhecida como “êxodo”. A era dos juízes Este período foi marcado pela regência de líderes escolhidos por Deus, que eram denominados juízes. O primeiro juiz foi Moisés, que libertou os israelitas do Egito; depois de sua regência, Josué assume e lidera a conquista de Canaã. Depois de Josué, houve 14 juízes: Otoniel, Eúde, Sangar, Débora, Gideão, Tolá, Jair, Jefté, Ibsã, Elom, Abdom, Sansão, Eli e, por fi m, Samuel. A era dos Juízes teve início em 1390 a.C., quando os hebreus chegaram à Palestina, e se encerrou em 1030 a.C., quando o reino foi fundado por Saul e pelo profeta Samuel. Entre todos os juízes do período, destacaram-se Débora e Sansão. Para repousar na Palestina, os hebreus tiveram que travar intensas lutas com os cananeus e, posteriormente, com os filisteus, povos que ocuparam a região. Foram quase dois séculos de lutas e, nesse período, os hebreus foram governados pelos juízes. 11O judaísmo Durante cerca de 200 anos, os hebreus viveram um período de lutas pela conquista da Palestina e sob o governo de juízes, que eram chefes políticos, militares e religiosos. Antes, quem julgava os hebreus era o patriarca e, então, passou a haver líderes militares, escolhidos das 12 tribos. Entre esses chefes, estavam Gideão, Jefté, Samuel e Sansão, conhecido por sua força e por sua história de amor com Dalila (BURNS, 1968). A era dos reis Os hebreus, por sofrerem constantes ameaças dos fi listeus em disputa pelas terras da Palestina, estabelecem um governo monárquico, pois tinham interesse na centralização do poder para combater adversários. O rei Saul, o primeiro monarca, era da tribo de Benjamim, mas não teve sucesso em sua campanha militar — temendo a derrota em batalha, suicida-se. No século XI a.C., herdeiro de Saul, o rei Davi, consegue apresentar um grande sucesso nas campanhas militares, vencendo inimigos e tornando a nação hebraica estabilizada e forte. Seu exército era muito hábil e atuante; assim, institui Jerusalém como capital de seu reino e consegue ampliar o domínio territorial do povo hebreu (BURNS, 1968). O sucessor ao trono foi o rei Salomão, que, historicamente, ficou conhe- cido pela sua vasta sabedoria e por seu senso de justiça. Durante seu reinado, buscou valorizar o conhecimento e a cultura, criou grandes reformas sociais e comerciais e construiu diversas obras públicas, como o templo de Jerusalém em homenagem a Jeová. A cobrança de elevados impostos aos camponeses para cobrir os gastos de suas obras arquitetônicas e tambémo imenso número de trabalhadores trabalhando exaustivamente nas construções causaria um grande descontentamento do povo e a crise se agravaria com a morte do rei. Com o falecimento de Salomão, ocorreu a divisão religiosa e política das tribos e o fim da monarquia unificada. Formaram-se, então, dois reinos: ao norte, reino de Israel, cuja capital era Samaria, e, ao sul, o reino de Judá, com capital em Jerusalém, ambos conquistados por povos da Mesopotâmia, assírios e babilônios — os hebreus são escravizados por esses últimos em um momento da história hebraica que fica conhecido como “cativeiro da babilônia”. Esse período, também conhecido como exílio na Babilônia, ocorreu no reinado de Nabucodonosor II e no auge e esplendor do império babilônico como imponente na região do Oriente Médio. Na região que os hebreus ocupavam, conhecida como Palestina, foi estabelecido o reino de Israel, e províncias como Judá e Samaria eram prósperas e ricas. A migração forçada dos hebreus de sua terra natal ocorre no ano de 598 a.C., período em que o templo de Jerusalém O judaísmo12 foi saqueado e destruído a mando de Nabudonosor II. A partir do ano de 538 a.C., o poderoso império persa de Ciro, o Grande, tenta conquistar o império babilônico, obtém sucesso em sua investida militar e domina todo o Oriente Médio. Esse imperador tinha uma postura de valorizar e respeitar as culturas e tradições dos impérios conquistados; assim, permite aos hebreus o retorno às suas terras, assim como a prática de seus ritos religiosos, de modo que reconstroem os muros da cidade de Jerusalém e seu templo. Posterior a esse evento histórico de cativeiro pela mão dos babilônicos e da libertação pelos persas, os hebreus são dominados por povos greco- -macedônicos e pelos romanos. No ano 70 d.C., o general romano Tito destrói a cidade de Jerusalém e os hebreus abandonam novamente suas terras, fato conhecido como diáspora. Os persas novamente conquistam a região e os hebreus retornam à Palestina, mas não conseguem sua independência, ficando sob o domínio dos romanos, macedônicos e persas. Já no contexto contemporâneo, em 1947, foram encontrados nas regiões mon- tanhosas do Mar Morto pergaminhos que datam do século I a.C., fontes históricas que se referem aos hebreus e que ficaram conhecidas como “Os manuscritos do Mar Morto”. O conhecimento histórico fornecido por eles nos ajudam a saber um pouco mais sobre a história hebraica: são cerca de 900 manuscritos que remontam a uma antiga ordem religiosa de origem hebraica, a fonte histórica mais antiga da bíblia hebraica. Segundo o livro O homem em busca de Deus (SOCIEDADE TORRE DE VIGIA DE BÍBLIAS E TRATADOS, 2019), apenas no ano de 1948 os judeus puderam se reunir em um Estado independente, com a determinação da Organização das Nações Unidas (ONU), que criou o Estado de Israel, decisão que criou sérios problemas na região do Oriente Médio, pois, com a saída dos judeus da Palestina, no século I, outros povos, principalmente de origem árabe, ocuparam e fixaram-se na região. A oposição dos árabes à existência do Estado de Israel tem resultado em relações conturbadas e de forte debate político, cultural e religioso. Para Burns (1968, p. 161), foi considerável a influência ética e política dos hebreus para além do campo religioso: Suas concepções morais tornaram-se um fator dominante do desenvolvimento da atitude negativa em face da ética, que prevaleceu por tanto tempo nos países do Ocidente. Para os antigos hebreus, a “retidão” consistia principalmente na observância de tabus. Se bem que uma moral positiva de caridade e justiça social tivesse feito rápidos progressos na época dos profetas, essa moral foi, por sua vez, em parte obscurecida pelo reflorescimento da influência dos 13O judaísmo sacerdotes durante o período que se seguiu. Em resultado disso, a Torá ou Pentateuco, que continha o código de conduta pessoal do judeu, chegou a ficar saturada de proibições ritualísticas. Com respeito à influência política o quadro é mais imponente. Os ideais hebreus do governo limitado, da soberania da lei e da consideração pela dignidade e pelo valor do indivíduo contam-se entre as grandes influências formadoras que plasmaram o desenvolvimento da moderna democracia. É universalmente admitido, hoje, que as tradições do judaísmo não contribuíram menos que a influência do cristianismo e da filosofia estoica para promover o reconhecimento dos direitos do homem e o desenvolvimento da sociedade livre. Conhecer a história dos hebreus e sua relação com o desenvolvimento do judaísmo e suas diferentes vertentes é uma excelente maneira de compreender as bases das religiões que conhecemos e dos sistemas políticos e jurídicos que até hoje integram nossas ações e normas cíveis. ASSOCIAÇÃO ISRAELITA DE BENEFICÊNCIA BEIT CHABAD DO BRASIL. São Paulo: Cha- bad, [2020]. Disponível em: https://www.beitchabad.org.br/. Acesso em: 8 ago. 2020. BURNS, E. M. História da civilização ocidental. Rio de Janeiro: Globo, 1968. v. 1 - 2. KILPP, N. A Torá e os judeus: em busca de um diálogo hermenêutico. Estudos Teológicos, v. 33, n. 1, 1993. Disponível em: http://est.com.br/periodicos/index.php/estudos_teo- logicos/article/view/925/897. Acesso em: 8 ago. 2020. PINKUSS, F. Quatro milênios de existência judaica: uma resumida história geral israelita, dos primórdios aos nossos dias (I). Revista de História, v. 30, n. 61, 1965. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/123303. Acesso em: 8 ago. 2020. SCHAMA, S. A história dos judeus: à procura das palavras de 1000 a.C. a 1492 d.C. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. SILVA, G. V. da. As relações entre o judaísmo e o cristianismo no Império Romano: uma nova interpretação a partir do paradigma culturalista. História da Historiografia, v. 3, n. 5, 2010. Disponível em: https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/ view/175. Acesso em: 8 ago. 2020. SÍMBOLOS JUDAICOS. In: DICIONÁRIO de símbolos. [S. l.: s. n., 201-?]). Disponível em: https://www.dicionariodesimbolos.com.br/simbolos-judaicos/. Acesso em: 8 ago. 2020. SOCIDADE TORRE DE VIGIA BIBLICA E TRATADOS. O homem em busca de Deus. In: WIKIPÉDIA. [S. l.: s. n.], 2019. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_ em_Busca_de_Deus. Acesso em: 8 ago. 2020. O judaísmo14 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. TOPEL, M. F. As leis dietéticas judaicas: um prato cheio para a antropologia. Hori- zontes Antropológicos, v. 9, n. 19, 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832003000100009. Acesso em: 8 ago. 2020. TORÁ. In: BRITANNICA Escola. [S. l.: s. n.], 2020. Disponível em: https://escola.britannica. com.br/artigo/Torá/482696. Acesso em: 10 ago. 2020. Leituras recomendadas AZEVEDO, A. C. do A. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. SORJ, B. Diáspora, judaísmo e teoria social. In: GRIN, M.; VIEIRA, N. H. (org.). Experiência cultural judaica no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004. SORJ, B.; GRIN, M. (org.). Judaísmo e modernidade: metamorfoses da tradição messiânica. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2008. 15O judaísmo HISTÓRIA DAS RELIGIÕES Luciane Marina Zimerman Affonso O cristianismo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Resumir o surgimento do cristianismo. Descrever as vertentes cristãs e como se deu seu desenvolvimento. Caracterizar as vertentes cristãs na modernidade. Introdução Desde o início da história, o cristianismo émarcado por perseguições religiosas e, em especial, políticas. Em um clima de tensões políticos, Jesus dedicou-se a pregar mensagens que tinham como base ideias como amor ao próximo, perdão, desapego aos bens materiais, entre outras. Essas mensagens não ameaçavam em nada o domínio romano, até porque, segundo o Evangelho, Jesus sempre enfatizou que não tinha intuitos políticos, que o reino a que se referia era um reino vindouro, mas, ainda assim, o resultado trágico de sua condenação e crucificação teve como base a ideia de traição contra o Império. Neste capítulo, você vai conhecer o surgimento do cristianismo como movimento social e religioso, que se firma, primeiro, como seita, questio- nando e não se submetendo ao governo instaurado na sociedade, e, em seguida, como religião oficial do Império, fortalecendo-se e mantendo-se em uma organização rígida e estruturada até os dias de hoje. É visível a importância de reconstruir e ressignificar a identidade cristã no mundo atual, de modo que esse tema também será abordado e discutido com uma visão geral de possibilidades aos desafios encarados pelo cristia- nismo e suas vertentes na modernidade. 1 Cristianismo: bases de uma religião milenar Conforme o Dicionário virtual, Cristianismo ([2020]), “Cristianismo, do grego Xριστός, ‘Christós’, messias, ungido, do hebraico חישמ ‘Mashiach’, é uma religião ou doutrina cristã monoteísta que propaga a fé em Jesus Cristo, na sua vida e nos seus ensinamentos, como fi lho de Deus”. O cristianismo surgiu na Palestina, região sob domínio romano desde 64 a.C. Sua origem é a tradição judaica, que propagava a crença na vinda de um Messias que traria a salvação para todos aqueles que acreditassem nele. De acordo com Pereira (2019, p. 5): Ele é o Messias (Ungido) de Deus que fora prometido, e o qual o Seu povo esperava; Ele é o Salvador esperado pelos judeus, mas que foi rejeitado por eles (cf. Jo 1.11). [...] ao verem o Senhor Jesus servindo aos homens e dando Sua vida por eles, os judeus não aceitaram, pois lhes era inconcebível que aquele que se declarava o “Messias” se rebaixasse tanto assim. Contudo, este é um dos pontos principais do Evangelho de Cristo e da Vida Cristã: humildade para servir a Deus e ao próximo, mansidão para não reivindicarmos nossa honra e direitos em face de outras pessoas. Questões ligadas à interpretação e à ação diante das leis sagradas foram os pontos de discórdia entre os Rabinos e Jesus. De acordo com Pereira (2019, p. 61): Os rabinos tomaram a Lei e a transformaram num código legal de 613 man- damentos. Ataram fardos pesados sobre os ombros das pessoas, fardos estes que nem mesmo os próprios rabinos ousavam encostar um dedo, mas, exigiam das pessoas obediência (Mt 23.4). Viviam debatendo sobre qual seria o “mais pesado” e o “mais leve” dos mandamentos. Então o Senhor Jesus lhes diz que se alguém violasse um dos mandamentos, ainda que fosse considerado o mais leve (conforme a concepção deles), seria “considerado mínimo no reino dos céus”. O Senhor Jesus não está aqui concordando com essa inter- pretação dos rabinos, mas, sim, mostrando que todos os mandamentos têm igual importância, e violar qualquer um deles é coisa muito séria! Quando Ele diz em Mt 23.23 sobre “os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé”, não está dizendo que existem mandamentos mais im- portantes que outros, mas, sim, que estes preceitos estão no âmago da Lei, e, cumprir qualquer mandamento sem observar esses três preceitos não tem valor algum aos olhos de Deus. Dessa forma, a figura de Jesus se torna protagonista e guia as bases do que conhecemos como cristianismo. O cristianismo2 Para conhecer plenamente a trajetória de Cristo e de seus ensinamentos, é preciso ler a Bíblia, o conjunto de livros que conta a origem, os ensinamentos e as profecias que marcam a base teológica das religiões de base cristã. A vida de Jesus foi um marco histórico tão importante para as civilizações ocidentais que a contagem do tempo está dividida em antes e depois Dele. Narra a história que Jesus Cristo, após seu nascimento, foi levado para o Egito e, posteriormente, mudou-se com a família para Nazaré, na Galileia. Na Bíblia, no livro de Mateus, a mudança para o Egito se justifica para escapar da ordem dada por Herodes, que, ao saber do nascimento do “Filho de Deus”, ordenou a morte de crianças com até 2 anos que tivessem nascido em Belém. Sua infância e adolescência, portanto, foram em Nazaré. Na vida adulta, Jesus teve forte influência das pregações de João Batista, a ponto de lhe pedir para ser batizado. Após esse momento, nas águas do Rio Jordão, ele dedica sua vida a pregações e milagres e, assim como João Batista, percebia o mundo de forma dicotômica por meio da existência do bem e do mal. Analisando o contexto em que Jesus estava inserido, na sua fase adulta, destaca-se que a Palestina não se submeteu totalmente ao domínio romano, o que, consequentemente, levou o Império a uma postura repressiva em relação à população local, que, por sua vez, reagia por meio de movimentos armados contra a presença romana. Em meio a esse clima politicamente tenso, a mensagem que Jesus pregava não era política e nem ameaçava o domínio romano: baseava-se no amor ao próximo, no perdão às ofensas e no desapego aos bens materiais. No entanto, Jesus se tornou um inimigo em potencial para Roma em função da união entre o caráter explosivo da região e a postura romana de combater o surgimento de lideranças que pudessem prejudicar o Império de alguma forma. O Estado romano sempre procurou aliar-se às elites das áreas que dominava, utilizando-as como um elemento de controle sobre os setores populares; desse modo, a condenação de Jesus imposta pelos romanos seria um ato de simpatia com as autoridades religiosas judaicas, que já o haviam determinado traidor e blasfemo (COSTA, 2016). De acordo com Costa (2016), segundo os Evangelhos, no Novo Testamento, Jesus foi preso pelos romanos, acusado de conspirar contra o Império, con- denado à morte e crucificado no ano de 33 após ser torturado, a mando do procurador romano Pôncio Pilatos. 3O cristianismo A partir da morte de Jesus, a tradição que gerou o cristianismo foi criada e foi responsabilidade, em primeira mão, dos seus apóstolos e seguidores, que se encarregaram de disseminar a nova doutrina. Pedro, um de seus discípulos, foi o primeiro a propagar a mensagem ensinada por Jesus, afinal, havia sido incumbido pelo próprio Cristo de ser o responsável pela fundação de sua igreja. Paulo, também discípulo de Jesus, foi o disseminador da mensagem com um sentido mais universal, tornando o cristianismo acessível a todos os povos. Paulo foi responsável por escrever cartas às comunidades cristãs e não cristãs, descarac- terizando o cristianismo como privilégio de um povo que teria sido eleito por Deus. Historicamente, existe uma discussão, entre pensadores e religiosos, sobre as cartas de Paulo, se realmente ele teria espalhado ou deturpado a mensagem central do Evangelho de Jesus. O ideal da cristandade que conhecemos se dá graças à propagação das mensagens de Paulo ao Império Romano. O grande e maior “problema” que divide opiniões é o fato de Paulo ter feito concessões para conquistar fiéis, o que desagradou os discípulos de Jesus porque deturparia a sua mensagem central. Paulo era antes conhecido como Saulo, jovem judeu, perseguidor dos discípu- los e seguidores de Jesus que, no período de 34 d.C., cometia atrocidades com os cristãos: com outros homens e sob autorização do Sinédrio, assembleia de anciãos na Palestina, entrava de forma invasiva em casas, torturava seus habitantes e os prendia sob a acusação de heresia e traição à lei de Moisés. Nesse período, a mensagem de Jesus havia se espalhado rapidamente por toda a Palestina, e os seguidores de Jesus eram brutalmente perseguidos, em especial pelos judeus. De acordo com as Escrituras Sagradas, um acontecimento na cidade deDa- masco em que Saulo/Paulo relata ter ouvido a voz de Deus mudou radicalmente sua postura; assim, Saulo, de perseguidor, passa a ser Paulo, o mensageiro de Deus, o que explica a sua postura com os judeus e suas possíveis concessões e deturpação da palavra e mensagem central do cristianismo. No entanto, essa é uma discussão não resolvida, e cabe salientar que as cartas de Paulo auxiliaram enormemente que o cristianismo se tornasse acessível e conhecido para além dos muros da Palestina. Assim, os atos de perseguição aos cristãos foram reduzindo à medida que o comportamento de Paulo mudava, mas não foram banidos. Imperadores usavam as perseguições aos cristãos com um caráter mais político do que propriamente religioso, já que os cristãos se recusavam a cultuar Roma, símbolo da unidade imperial, e a aceitar os imperadores como divinos. A mensagem de redenção do cristianismo atingiu em primeira mão os que viviam à margem da sociedade romana: mulheres, pobres e escravos. Essa abrangência do cristianismo como religião lhe deu um caráter perigoso e alertou O cristianismo4 os romanos sobre os riscos que essa nova crença causava — as perseguições, como consequência, acabaram por fortalecer o cristianismo. Em um contexto de falência dos poderes públicos e crise, seus seguidores passaram a unir-se e a aceitar o martírio, acreditando na salvação, de modo que o cristianismo passou a ganhar novos e numerosos adeptos. Assim, passou a ser uma opção de consolo espiritual para a população desamparada pelo Império, que viu seu caráter divino negado, questionado. Dessa forma, as perseguições acabaram ficando cada vez mais difíceis, já que o número de fiéis crescia, assim como se estabelecia uma rigidez na organização cristã. A crise do Império aumentou assim como o número de pessoas “pobres”, classe que buscava e encontrava no cristianismo consolo espiritual. Esse era um momento difícil para o Império, e tentar manter a postura repressiva sobre um grupo cada vez maior se tornou impossível, de modo que no início do século IV foi concedida a liberdade de culto aos cristãos a partir da publicação do Edito de Milão (CARLAN, 2009). Em 390, o cristianismo foi tomado como religião oficial do Império, já que as estruturas administrativas do Império se deterioravam. Essa foi a forma de utilizar a organização da Igreja como um modo de exercer um controle sobre a crença cristã e adequar o poder do Império a essa estrutura teocrática. Em 476, ano da deposição do último imperador romano, cai o lado oci- dental do Império e o cristianismo permanece triunfante em grande parte da Europa. Alguns bárbaros já estavam convertidos ao cristianismo ou viriam a converter-se nas décadas seguintes. O Império Romano teve, dessa forma, um papel instrumental na expansão do cristianismo (CARLAN 2009). Após a queda do Império Romano, os povos considerados bárbaros for- maram vários reinos no território que era até então controlado por romanos, o que deu início ao processo de constituição política que posteriormente carac- terizou a sociedade medieval. Diante do grande crescimento do feudalismo, que foi uma grande característica da sociedade medieval, cresceu também o cristianismo e a Igreja Católica, que demonstrava sua predominância a partir da construção e divisão da sociedade em clero, nobreza e servos, assim como da crença do catolicismo na Santíssima Trindade. Posteriormente, o período da Grande Divergência (Iluminismo e Revolução Científica) trouxe grandes mudanças sociais. O cristianismo foi confrontado com várias formas céticas e ideologias políticas modernas, como as versões do socialismo e do liberalismo. A Revolução Francesa, a Guerra Civil Espanhola e a hostilidade dos movimentos marxistas, como a Revolução Russa de 1917, desencadearam novas perseguições aos cristãos. 5O cristianismo Em todos os países europeus, diferentes denominações cristãs travaram competições entre si e com o Estado, algumas em maior, outras em menor escala — os tamanhos relativos das denominações e da orientação religiosa, política e ideológica do Estado foram variáveis (CARLAN, 2007). As novas perseguições, algumas disputas dentro da própria Igreja e diferentes ideias para os rituais, as concepções de santidade, e a própria compreensão do Sagrado causou uma divisão no cristianismo, dando origem a diferentes vertentes. No Brasil, por exemplo, existem atualmente mais de 30 subdivisões do cristianismo, a maioria delas dentro da denominação evangélico pentecostal. 2 Vertentes cristãs Os cristianismos de Paulo e a Igreja não conseguiram crescer de forma hege- mônica, mas foram base para desdobramentos que percorreram o passar do tempo histórico e se adequaram ao contexto em que se inseriram. De acordo com Silva (2004, p. 142): A religião cristã tem três vertentes principais: o catolicismo romano (subor- dinado ao bispo romano), a ortodoxia oriental (se dividiu da Igreja Católica em 1054 após o Grande Cisma) e o protestantismo (que surgiu durante a Reforma do século XVI). O protestantismo é dividido em grupos menores chamados de denominações. O Império, em sua parte ocidental, passou por um longo período de disso- lução, e a Igreja foi a única organização que permaneceu sem se desintegrar, passando a tomar o lugar das instituições romanas ocidentais. A Igreja também foi a responsável por manter intacto o que restou de força intelectual a partir de seus monges e sua vida monástica. A divisão do cristianismo em ramo ocidental, católicos romanos e católicos ortodoxos foi resultado de uma alienação gradual pela qual passou a igreja cristã no período dos séculos VII ao XII. Aconteceram muitos movimentos e tentativas para reunir as igrejas, mas que foram falhos e as mantiveram em um rompimento que segue até hoje. O cristianismo6 Em 1517, outro grande cisma foi a Reforma Protestante, que resultou na divisão do cristianismo ocidental em várias denominações. O então monge Martinho Lutero negou vários pontos-chave da doutrina católica romana estabelecida; uma delas foi a venda de indulgências, que consistia em “vender/comprar” a absolvição dos pecados por um preço determinado pela própria igreja. Zwingli e Calvino (outros dois nomes importantes da Reforma) também criticaram o ensino católico romano e a adoração (SILVA, 2004). De acordo com Castro (2014, p. 45): Esses desafios desenvolveram o movimento chamado de protestantismo, que questionou e repudiou o primado do papa, o papel da tradição, os sete sacramen- tos e outras doutrinas e práticas. Na Inglaterra, a Reforma começou em 1534, quando o Rei Henrique VIII tinha se declarado chefe da Igreja da Inglaterra. Em resposta à Reforma Protestante, um processo de renovação e reforma, a Contrarreforma ou Reforma Católica, foi iniciado pela Igreja Católica Romana. A Contrarreforma significou um período de reflexão e novas buscas de compreensão do catolicismo para a própria Igreja Católica, que, além de reagir duramente à Reforma, fechou-se dentro de posições contra as liber- dades expostas através do mundo moderno, o que, em grande parte retraiu a possibilidade de um diálogo crítico e construtivo. A Reforma Protestante foi a maior, se não a principal incentivadora de uma redescoberta do mundo do classicismo e da presença de um cristianismo que ia se recuperando, favorecendo a abertura de um caminho de renovação. Assistiu-se, assim, a um esforço de integração das duas tradições, em outros termos, à abertura de caminho de um “humanismo integral” com “[...] a valorização da pessoa em toda a riqueza das suas expressões e a abertura à transcendência como resposta última à demanda de sentido” (PIANA, 2019, documento on-line). Segundo Piana (2019), o maior representante dessa tentativa de diálogo foi certamente Erasmo de Roterdã, representante e fiel seguidor do mundo católico que soube dialogar com Lutero sem deixar de ter uma estreita relação com o humanismo laico, assumindo as suas reivindicações mais profundas.7O cristianismo No século XX, então, teria início um grande movimento, conhecido como ecumênico, que estreitou laços entre as igrejas protestantes e também entre igrejas ortodoxas e católica, segundo Silva (2004), e foi extremamente impor- tante para o desenvolvimento da religião no desenrolar da história humana. O movimento ecumênico é intimamente relacionado com o cristianismo e, com o intuito de aproximar as diferenças existentes entre os iguais, constitui-se em uma tentativa de aproximação e de compreensão entre o que diferencia as denominações dentro de uma religião. Sob o ponto de vista da teologia, o movimento ecumênico não vai além do diálogo entre iguais ou semelhantes e tem como premissa a confissão e o testemunho da mensagem religiosa de Jesus Cristo. A história do movimento ecumênico é uma história de reações contra desafios filosóficos, científicos, econômico-políticos e mesmo religiosos, diante dos quais a desunião do cristianismo protestante, em certos momentos, se apre- sentou com preocupante fraqueza (MENDONÇA, 2008, documento on-line). O ecumenismo, então, é, sim, a cooperação em tarefas comuns que não colidam com os postulados da fé cristã — o sincretismo religioso não está na base do movimento ecumênico, conforme Mendonça (2008). “É por essa razão que, em certos casos, a expressão do movimento ecumênico se torna possível entre segmentos historicamente conflitantes do cristianismo” (MENDONÇA, 2008, documento on-line). Por exemplo, na chegada do cristianismo ao Brasil, mesmo que se tratasse de um território originalmente de teologia indígena e politeísta, a ocupação territorial teve fortes reflexos na ocupação cristã dos portugueses a partir de 1500. Nesse sentido, por exemplo, uma das primeiras ações de Pedro Álvares Cabral foi organizar uma missa em nosso território, iniciando o implante de profundas raízes cristãs em nossa sociedade que perduram até hoje. O Brasil é, desde então, um dos países com maior contingente cristão, mas também vem passando por alguma diversificação religiosa nas últimas décadas; somos um país de pluralismo religioso, em que se destaca uma crescente diversidade cristã. Nesse contexto, além disso, o catolicismo cede grande espaço aos segmentos dos sem religião e do protestantismo pentecostal, mas o pluralismo religioso é um fenômeno bem maior do que a heterogeneidade cristã, envolvendo um grau de desenvolvimento social, e não apenas formal e legal de liberdade de O cristianismo8 culto — o que não ocorre, na prática, no Brasil, se observamos, por exemplo, que as religiões de matriz africana ainda não são legalmente reconhecidas no Brasil, apesar de lhes ser dada liberdade de culto. Os ideais de pluralismo cultural, tolerância religiosa e democracia são, de certo modo, confrontados pela limitada diversificação religiosa, dada a grande predominância cristã na sociedade brasileira. Nesse sentido, o diálogo inter-religioso exige uma cultura de respeito e tolerância recíproca que se contraponha ao constante ataque a religiões, como as menciona- das afro-brasileiras, o que tem contribuído muito com o seu acentuado encolhimento. Nesse contexto, em 2000, surgiu, no Brasil, uma categoria que passou a ser denominada “neocristianismo”, grupo composto por instituições religio- sas próximas do protestantismo, mas com referências doutrinárias próprias, diferentes da Bíblia. Anteriormente, esses grupos eram classificados apenas como “outras religiões”, como Testemunhas de Jeová, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecida como Mórmons, e Legião da Boa Vontade (LBV). No final do século XIX, também passou a integrar esse grupo o espiritismo, mas é preciso observar que essa inclusão ao grupo de novas religiões foi uma iniciativa muito mais sociológica que teológica em função do fato de que os espíritas promovem a materialização do princípio cristão da caridade em obras de assistência social e de que tem centralidade o culto a Jesus Cristo, expresso no livro O Evangelho segundo o Espiritismo (KARDEC, 1864). Por tais motivos, o espiritismo é também caracterizado como uma vertente cristã (SOUZA, 2012). Em resumo, percebe-se que o cristianismo no Brasil abrange a maior parte da população, o que resulta em uma abrangência ampla e heterogênea, em especial, quando o espiritismo passa a ser considerado parte do pequeno, mas notório, grupo neocristão. Em decorrência desse universo cristão brasileiro, a presença de outras religiões é pequena em comparação, em especial no que diz respeito a termos culturais e políticos. O cenário religioso brasileiro apresenta uma grande expressão de instituições cristãs, e o que é popularmente chamado de diversidade religiosa nada mais é do que um pluralismo do mundo cristão. Veja, a seguir, o Quadro 1, que, com dados do IBGE, confirma essa questão. 9O cristianismo Fonte: Adaptado de Souza (2012). Ano Cristãos (católicos e protestantes) Sem religião Adeptos de outras confissões religiosas 1940 % 97,08 % 0,2 % 1,9 1950 % 97,1 % 0,3 % 2,4 1960 % 97,4 % 0,5 % 2,4 1970 % 97,0 % 0,8 % 2,3 1980 % 95,6 % 1,6 % 2,5 1991 % 92,3 % 4,7 % 2,9 2000 % 89,5 % 7,4 % 3,5 Quadro 1. Dados do universo religioso brasileiro 3 O cristianismo e os desafios de uma religião milenar na modernidade Quando se fala de modernidade, é preciso considerar o fenômeno da secula- rização, que “[...] introduziu uma visão autônoma do mundo com respeito ao horizonte sagrado da era medieval”, de acordo com Piana (2019, documento on-line). Assim, a modernidade parece constituir um retrocesso no processo de desenvolvimento dos valores morais e culturais das tradições religiosas, em especial, do cristianismo. O mundo contemporâneo é percorrido por vagas persistentes de intolerância, de fanatismo, de nova religiosidade sectária e de nacionalismo agressivo em pleno contraste com as exigências de secularização, de liberdade, de crítica, de tolerância da razão moderna. Ao nascer de uma crítica ao mito e à sacralização do mundo, a filosofia iniciou no Ocidente o processo lento de secularização , que a ideia bíblica de criação e a confissão da humanidade plena, sem mistura , de Cristo sobremaneira consolidaram e a Época Moderna culminou (PEREIRA, 1992, p. 206). É preciso considerar que essa emancipação trouxe efeitos positivos: a natureza, a sociedade, a ciência e a cultura adquiriram em estatuto próprio com fins próprios. Nesse processo, mas de forma um pouco mais lenta, a O cristianismo10 ética também sofreu mudanças, distanciando-se da religião para apelar a argumentações mais racionais e para motivações de ordem natural. Isso não significa, no entanto, abdicação dos valores da tradição cristã e do humanismo clássico, que ressurgiram em uma ótica laica, conservando o conteúdo original. A modernidade caracteriza, assim, um salto histórico para a razão e sua experiência de tempo, dando ao homem direitos e eliminando a ideia de ser- vidão religiosa, trazendo à tona o sonho de liberdade e libertação religiosa, política, social, econômica, estética e cultural, induzindo os indivíduos a análises históricas e a pensar responsavelmente sobre si mesmo, o mundo, a humanidade e Deus, ou sua negação, e, consequentemente, sobre o próprio cristianismo. A humanidade com suas diversas culturas vive uma profunda crise ética. Qual ética deve ser implantada a fim de superar a miséria, a fome, o desem- prego em massa, a falta de moradia, de água potável, de educação e saúde e, principalmente, de inclusão social dos milhões que não possuem o poder de compra, logo, não participam da lógica do mercado se tornando seres humanos descartáveis? (PEREIRA, 1992, p. 207) Afirma-se que se vive, hoje, tempos de extinção em massa devido ao crescente índice de depredação de todos os ecossistemas, da natureza, da ecologia, da economia, etc. Alguns enxergam um cenário apocalíptico, em que, em breve, a humanidade terá de escolher entre cuidar ou desaparecer, masé preciso destacar que se vive, ao mesmo tempo, uma época em que é possível, e se permite, refletir sobre isso. Religião e ciência, por exemplo, podem coexistir e as bases do conhecimento teológico podem nos levar à reflexão daquilo que desejamos para nós, para o próximo e para sociedade em que vivemos e que deixaremos aos nossos descendentes. O desaparecimento da humanidade e do mundo como o conhecemos sig- nifica que o indivíduo assumiu ou ainda assumirá, com o tempo, alguns sonhos de poder e dominação, incentivado pelas revoluções históricas, assim como pelo cristianismo, o que tem determinado a quebra das relações do ser humano com o outro, com Deus e consigo mesmo (NASCIMENTO, 2005). Alguns determinados momentos da história realizaram a ruptura entre a autoafirmação do homem e sua integração. A intenção humana de se sobrepor aos outros e à natureza consolidou o uso da força, e essa, quando utilizada, evidencia o fenômeno da ruptura entre o divino e o humano, trazendo à tona o pecado original bíblico e determinando, em nossos tempos, as consequências drásticas dessa ruptura como o princípio avassalador de autodestruição da espécie humana e de seu hábitat comum, o Planeta Terra. 11O cristianismo Essa mensagem bíblica que atravessou os tempos levou a sociedade a um caminhar e a um olhar-se diferente. O cristianismo desempenhou uma função importante para se chegar ao pro- cesso de mundialização que se tem hoje, pois utilizou a evangelização sem se preocupar com a inculturação. Os ideais iluministas penetraram nas sociedades baseadas na razão como princípio da verdade. Tais ideais penetraram em quase todos os países do mundo que são chamados a aderir por bem ou pela força a tais projetos (NASCIMENTO, 2005, p. 119). A partir da mundialização, a humanidade se deparou com éticas e morais dife- rentes nas diversas culturas do mundo, o que, no entanto, não impede que exista uma ética e uma moral que se tornem hegemônicas a cada dia que passa (NASCIMENTO, 2005). Nesse sentido, atualmente, o que predomina, é a ética/moral capitalista, segundo a qual “[...] bom é o que permite acumular mais com menos investimento e em menos tempo possível. A moral capitalista concreta reza: empregar menos gente possível, pagar menos salários e impostos e explorar melhor a natureza para acumular mais meios de vida e riqueza” (NASCIMENTO, 2005, p. 120). Essa ética está seguindo o mesmo destino da razão no período do Ilu- minismo, que criou uma civilização baseada na tecnologia e na ciência hoje globalizadas. Em tempos de sociedade global e técnica, esqueceu-se do ser, formando-se com o racionalismo uma realidade fragmentada com saberes e éticas compartimentalizadas, o que determinou a formação de uma sociedade que separa os opostos como se não fossem complemento um do outro. Como forma de dominação social, o saber foi colocado a serviço do poder e é usado constantemente. Com isso, perdeu-se o horizonte da transcendência, da espiritualidade ao qual a ética está intrinsicamente ligada. A ética sem espiritualidade faz com que se forme uma sociedade moralista e legalista. Dessa forma, vive-se hoje em tempos onde a ética perdeu pathos, ou seja, a capacidade de sentir o outro. A Terra se encontra em seu limite, em fase de esgotamento diante da voracidade do crescimento populacional, bem como, dos altos índices de consumismo (NASCIMENTO, 2005, p. 120). Faz-se necessário, nesse contexto, compreender essa sociedade em que o cristianismo e a divulgação da sua mensagem evangélica estão inseridos, o que podemos fazer a partir da reflexão de Bauman (1999) e sua metáfora de sociedade líquida, mediante a qual o coletivo é substituído pela unicidade e pelo desejo individual. Cada grupo, estruturado ou não, é forçado a se transformar a fim de lidar com as transformações. Na metáfora de Bauman (1999), isso O cristianismo12 envolve um processo de mudança do estado sólido para um estado líquido. As muitas e variadas reações a essa ideia de uma Igreja “líquida” abriram diversas áreas de reflexão no próprio cristianismo. Por sua vez, essa metáfora apresentou graves limites e incoerências internas no cristianismo moderno diante da autoconsciência cristã, afetando a compre- ensão da relação de Deus com a criação e, consequentemente, problematizando a visão do seu agir no mundo. Assim, tornou explícita a fragilidade da resposta cristã ao problema do mal, mostrando a incoerência da imagem de um Deus carente de serviço e louvor (GUIMARÃES, 2006). A concepção dessa ideia de liquidez também na Igreja e no cristianismo como um todo mostrou que a linguagem religiosa sofreu o embate da moder- nidade, especialmente, na interpretação literalista e objetivista da Bíblia, da tradição e dos dogmas, revelando as ingenuidades e deformações que essa compreensão favoreceu na experiência original. Além disso, trouxe à tona a necessidade de conhecer a linguagem religiosa como condição de possibilidade para que ela se torne significativa e crível no contexto cultural moderno, verificando-se a necessidade de outra configuração do cristianismo nos eixos estruturantes da experiência cristã, em especial a salvação e a revelação. É necessário frisar uma “nova objetividade religiosa” para os tempos atuais, conciliando fidelidade à tradição cristã com atualidade e uma nova sensibilidade cul- tural. Os pilares estruturantes da salvação e da revelação como forma de atualização da riqueza da tradição cristã a partir de Jesus precisam ser ressignificados e o amor salvífico de Deus deve primordialmente ocupar o centro de qualquer configuração autêntica do cristianismo. Essa mensagem do amor de Deus transmitida por Cristo é a matriz hermenêutica e o coração do cristianismo e, talvez, sua recuperação seja o maior desafio da religião hoje — o próprio cristianismo precisa resgatar a mensagem do amor que salva e liberta para a prática da justiça. A experiência cristã original, em sua essência, mostra que graça e liberdade não se subtraem. Em conclusão, é necessário que o cristianismo trilhe outros caminhos para a configuração atual da experiência cristã, formulando um cristianismo liberto de favoritismos e aberto para um verdadeiro diálogo inter-religioso com outras tradições religiosas, mas, também, com outras culturas, em busca de uma huma- nidade mais unida em prol da paz — portanto, uma religião mais companheira e comprometida com o mundo, e não apenas com seu pequeno rebanho. Esse cristianismo poderá voltar às fontes, tornando-se autêntico em sua identi- dade, mas também será interativo, assumindo uma dimensão dialógica fraterna e inclusiva, tentando sempre a universalidade em um movimento de abertura e postura aprendiz. Esse, então, será um caminhar aberto ao diálogo aprendente, prospectivo, sem perder sua identidade original, na esperança de um futuro melhor para todos. 13O cristianismo BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro. Zahar, 1999. CARLAN, C. U. Constantino e as transformações do Império Romano no Século IV. RHAA: Revista de História da Arte e Arqueologia, n. 11, p. 27-35, 2009. Disponível em: https://www.unicamp.br/chaa/rhaa/downloads/Revista%2011%20-%20artigo%202. pdf. Acesso em: 24 ago. 2020. CASTRO, G. M. A imigração no Brasil: religiões. São Paulo: Life, 2014. COSTA, J. J. Básico das religiões, seitas e crenças. [S. l.: s. n.], 2016. CRISTIANISMO. Dicio: dicionário online de português, [2020]. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 17O cristianismo HISTÓRIA MEDIEVAL Rodrigo Vieira Pinnow A Igreja e o cristianismo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Avaliar a influência do cristianismo no processo civilizador dos reinos germânicos. Demonstrar de que forma o cristianismo foi influente no desenvolvi- mento das estruturas social, política e cultural da Idade Média. Definir a organização hierárquica eclesiástica medieval. Introdução Ao longo do tempo, diferentes escolas historiográficas buscaram com- preender e construir narrativas sobre o cristianismo, religião monoteísta derivada do Judaísmo e surgida no Oriente Médio. Atualmente, o cris- tianismo é a maior religião do Planeta, com forte influência no mundo ocidental, seja na política, na cultura ou no imaginário social. A Igreja Católica, alicerçadapelo cristianismo, promoveu a difusão de dogmas contidos em seu livro sagrado, a Bíblia. Por meio dele, criou uma lógica de pensamento que foi adotada no decorrer da Idade Média. Todos esses saberes assentaram as práticas da Igreja Cristã no Ocidente e ainda estão presentes na atualidade. Neste capítulo, você vai ver como a influência da Igreja e do cristia- nismo no tecido social da Idade Média consolidou estratégias de atuação que ultrapassaram a questão religiosa. Além disso, você vai verificar como a Igreja fundamentou a sua estrutura e a sua organização por meio de uma lógica de universalismo que muito se aproximou dos ideais políticos dos reinos que estavam surgindo na época. O cristianismo como processo civilizador Alguns estudiosos relacionam a queda do Império Romano com a consoli- dação defi nitiva do cristianismo ou até mesmo com o triunfo dele. De fato, existe uma série de conexões entre os dois acontecimentos, mas será que isso faria da Igreja e, consequentemente, do cristianismo os principais agentes do processo civilizador nos reinos germânicos? Para Le Goff (2005), a principal característica da sociedade medieval era a insegurança. Tendo a Igreja per- cebido tal sentimento, seja nos aspectos materiais ou morais, não havia outra saída a não ser ofertar a solidariedade da fé cristã. Le Goff (2005) compreende que o período posterior à queda do Império Romano foi muito importante, pois simbolizava o prelúdio do novo Ocidente medieval, uma nova maneira de travar e compreender as relações sociais. A Igreja Cristã contribuiu decisivamente em termos de valores e de caráter civilizatório, principalmente na Alta Idade Média. A construção do conhecimento histórico sobre a Igreja e a difusão do cristianismo é pautada por alguns preconceitos criados a partir das decisões que essa instituição tomou em sua trajetória. Apesar disso, não se pode desconsiderar, desmerecer ou ignorar o seu papel. Como entidade humana, hierarquizada por dogmas, a Igreja também esteve em risco, batalhando por alternativas viáveis em cada momento histórico. Assim, juntamente à sociedade, sofreu mudanças no decorrer de sua jornada. Suas decisões foram consequência de suas conexões com o tecido social, mas as ideias de universalidade e expansionismo foram marcas de seu legado. Para Barros (2009, documento on-line), no novo mundo medieval, a organização se dava em torno da Igreja Cristã: Decisivamente, a ideia de universalidade que antes residia no Império vai se deslocando para a Cristandade consolidada institucionalmente na Igreja, e este confronto entre dois projetos universais — na vida política ou imaginária — em breve se estenderá pelos séculos posteriores como uma longa reminiscência do jogo de encaixes e desencaixes entre os dois sistemas. Mas o novo mundo medieval, efetivamente, tenderá a se organizar em torno da Igreja Cristã, o que já representa um novo sistema em construção. Para Sancovsky et al. (2010), no processo de migração dos povos ger- mânicos entre os séculos III e V d.C. para dentro das fronteiras do Império Romano, não havia o desejo de acabar com a cultura romana e a sua estrutura organizacional, e sim o intuito de fazer parte dela. A autora lembra que os muitos povos germânicos, de certa maneira, se aculturaram, incorporaram costumes e também crenças. Obviamente, também trouxeram consigo parte significativa de seus costumes para as regiões romanas onde se instalaram. A Europa do Ocidente, no período medieval, reunia três concepções de mundo distintas: o romanismo, o germanismo e o cristianismo. A Igreja e o cristianismo2 Como você já viu, a Igreja foi a única instituição a resistir à queda do Império Romano do Ocidente, em meio a duas formas singulares de visão de mundo, duas formas de existência e sobrevivência antagônicas. Portanto, foi necessário um esforço de evangelização para ampliar a doutrina cristã e, consequentemente, implementar um processo de conversão dos povos germânicos. Sancovsky et al. (2010) destacam que, quando se fala de povos germânicos, fala-se: dos visigodos, instalados nas Gálias e, após conflito com os francos, deslocados para a Península Ibérica; dos ostrogodos, que, entre 476 e 493, controlavam parte da Península Itálica sob o comando de Teodorico, general-rei que manteve fidedignamente as estruturas do Império Romano; e da disputa pela Europa do norte e central por francos, alamanos e burgúndios. Sancovsky et al. (2010) destacam os francos, que, sob o comando do general- -rei Clóvis, dominaram, em 481 d.C., grande parte da Europa central, na região à margem esquerda do rio Reno. Cada povo necessitava de uma estratégia de ação diferente por parte da Igreja. Segundo Franco Júnior (2001), alguns germânicos não eram pagãos, mas eram convertidos ao arianismo, crença considerada herética pelo Concílio de Niceia, relizado em 325 d.C. Muitos povos germânicos adeptos do arianismo desenvolveram uma tradução da Bíblia para o gótico. O objetivo era que os cultos pudessem ser celebrados em suas línguas nativas, reforçando a conversão de mais fiéis ao movimento religioso. Além disso, conforme lembram Sancovsky et al. (2010), outro fator muito importante foi a “simplificação” da doutrina cristã em esquemas “ingênuos”, esvaziando a normativa da teologia dog- mática, característica da Igreja. Com isso, a nova “tradução” foi voltada para uma lógica moral e militar, de poder, de energia e com excesso de moral heroica. Com a narrativa focada nesses elementos, os germânicos promoveram uma grande adesão à doutrina ariana, como explica Franco Júnior (2001, p. 116): Mais importante foi a questão religiosa, já que ostrogodos, visigodos, vândalos, burgúndios, suevos e lombardos adotaram o arianismo, heresia que os afastava da população romana católica. Talvez essa opção religiosa tenha mesmo sido outra forma de os bárbaros conservarem sua identidade, o que explicaria o fato de os godos terem colocado obstáculos jurídicos à adoção do arianismo por parte dos romanos. Igualmente funcionando como obstáculo, francos, alamanos, alanos, anglos e saxões permaneceram ligados ao paganismo. Empecilho que foi sendo removido a partir do mo- mento em que os francos, em 496, e os visigodos, em 587, se converteram ao catolicismo e acabaram em diferentes momentos sendo limitados pelos demais germânicos. 3A Igreja e o cristianismo O arianismo foi o grande risco enfrentado pelo catolicismo nos tempos medievais. Dessa forma, o foco da estratégia cristã foi a aproximação com os monarcas germânicos para a cristianização desses povos. Além disso, foram construídos monastérios em lugares mais isolados, como parte do processo de fortalecimento da doutrina católica. A ideia era evangelizar e demonstrar que o cristianismo era o grande trunfo do processo civilizatório do mundo medievo. O arianismo foi uma crença herética que surgiu na Igreja primitiva em decorrência dos ensinamentos do sacerdote alexandrino Ario (256–336). Devido à dificuldade teológica de conciliar a divindade de Cristo com a unidade de Deus, Ario propôs a seguinte noção: Cristo não era coeterno com o pai. No Concílio de Nicea, o debate envolveu saber se o filho era “da mesma substância” que o pai. Atanásio defendeu a perspectiva que se tornou ortodoxa: o pai e o filho eram efetivamente da mesma substância. Assim, o arianismo foi condendo, e Ario, banido. O pensamento de Ario, contudo, continuou muito influente. Diversas tribos germânicas que habitavam além da fronteira do Império Romano foram convertidas por missionários. Desse modo, o cristianismo ariano se tornou predominante entre alguns ostrogodos na Itália (até meados do século VI), visigodos na Espanha (até fins do século VI) e vândalos no norte da África (LOYN, 1997). Concílios: o processo civilizador da Igreja Os concílios são uma das maneiras de a Igreja debater e interpretar temas rela- cionados à constituição teológica dos preceitos da doutrina eclesiástica. Também são espaços de discussãosobre as decisões relacionadas a temas que podem, de alguma maneira, tanto enfraquecer quanto empoderar os rumos da Igreja. Segundo Franco Júnior (2001, p. 252), os concílios podem ser defi nidos como: [...] literalmente “assembleia”, especificamente assembleia de clérigos para legislar sobre doutrina religiosa e disciplina eclesiástica. Suas decisões são os cânones, fundamento do Direito Canônico. Há três tipos de concílio: o ecumênico, ao qual comparecem todos os bispos convocados pelo papa; o provincial, que dirigido pelo arcebispo congrega os bispos de sua província eclesiástica; o sínodo, pelo qual o bispo reúne todo o clero de sua diocese. Conforme o autor, há indícios de que o costume dos concílios remete aos encontros realizados no período anterior à Idade Média, ainda na Antiguidade Clássica, em meados do ano 50 d.C., por grupos supostamente orientados por A Igreja e o cristianismo4 apóstolos. A pauta estava ligada a temas relacionados ao ensinamento da então nova religião. Ou seja, tais encontros organizaram e promoveram a expansão do cristianismo. Poulat (2002) afirma que tais reuniões estavam longe de consolidar uma instituição dogmaticamente alicerçada, pois ainda possuíam um caráter bastante informal. Por isso, apenas nos séculos posteriores, na passagem da Antiguidade Clássica para a Idade Média, é que ocorrem os concílios basilares de maneira institucionalizada. A sequência histórica de concílios começa com quatro concílios inaugu- rais e norteadores da cristandade: o Concílio de Niceia (325), o Concílio de Constantinopla (381), o Concílio de Éfeso (431) e o Concílio da Calcedônia (451). Conforme Metz (1971), a importância dos concílios para a formação da Igreja Católica é tamanha que obrigou papas e inúmeros autores eclesiásticos a criarem relações entre os encontros e os Quatro Evangelhos, interpretando-os como os “quatro rios do paraíso”. Segundo Bellito (2010), existem diversas formas de estudar a história da Igreja, mas uma das mais profundas é considerar as decisões dos concílios. Com quase 2 mil anos de existência, a Igreja organizou 21 concílios gerais e considera o Concílio de Jerusalém, encontro relatado nos Atos dos Apóstolos, como parte integrante do seu cânone. O autor esclarece que existem regras específicas para a convocação de um concílio por um papa. É necessário que as decisões da Igreja estejam sendo contestadas, em crise. Também pode haver o simples desejo da autoridade eclesial de esclarecer determinados pontos de convergência ou divergência. De forma prática, os 21 concílios gerais da Igreja podem ser divididos em quatro períodos distintos. Cada concílio ficou identificado pelo nome do local onde as autoridades eclesiásticas se reuniram para debater os conteú- dos referentes à fé e à doutrina cristã. A seguir, veja a divisão dos concílios usualmente aceita (BELLITO, 2010). Concílios do primeiro milênio: Niceia I (325), Constantinopla I (381), Éfeso (431), Calcedônia (451), Constantinopla II (553), Constantinopla III (680–681), Niceia II (787) e Constantinopla IV (869–870). Concílios da Idade Média: Latrão I (1123), Latrão II (1139), Latrão III (1179), Latrão IV (1215), Lyon I (1245), Lyon II (1274) e Vienne (1311–1312). Concílios sobre a Reforma: Constança (1414–1418), Basileia-Fer- rara-Florença-Roma (1431–1445), Latrão V (1512–1517), Trento (1545–1548/1551–1552/1562–1563). Concílios da Idade Moderna e Contemporânea: Vaticano I (1869–1870) e Vaticano II (1962–1965). 5A Igreja e o cristianismo Por fim, Franco Júnior (2001) destaca que transcorreram 19 concílios ecumênicos entre os séculos IV e XVI. Com isso, se a Igreja teve papel pre- ponderante no processo civilizador da Idade Média, os concílios “civilizaram” e normatizaram os dogmas eclesiásticos durante o mesmo período para que alcançassem os seus objetivos expansionistas e de universalização da fé cristã entre a sociedade medieval. A ascensão do cristianismo na Idade Média Um processo de descentralização política marcou a Idade Média. Com a au- sência de um poder político que unifi casse o continente europeu, bem como os inúmeros povos que nele viviam, o cristianismo, sob a égide da Igreja Católica, consolidou uma série de estratégias para propagar e difundir a sua doutrina. Os dogmas criados se baseavam na crença em Cristo. Logo, a instituição constituiu uma espécie de regramento social, um modelo de conduta que condicionou os indivíduos a determinados comportamentos para que pudes- sem chegar ao paraíso celeste. Os cristãos eram instruídos a não pecarem, seguindo de maneira fiel mandamentos divinos e com foco no próximo, por meio da caridade. Segundo Perry (1985), o enaltecimento do modo de vida a partir do sa- crifício, com base na promessa das inúmeras recompensas post-mortem, foi uma das estratégias mais bem elaboradas e bem-sucedidas do cristianismo no processo de conversão desses povos. O objetivo criado para o cristão estava na vida pós-morte, especificamente no paraíso, ignorando o processo natural das coisas, desistindo do individua- lismo e dos objetivos da vida secular e investindo na esperança da existência eterna no céu. Segundo Franco Júnior (2001, p. 141), uma escola filosófica fundamentava a estratégia da Igreja, a corrente patrística: Na essência, ela procurava provar que a doutrina cristã não conflitava com a razão, demonstrando assim a falsidade do paganismo. Para tanto, ela recorreu à filosofia grega, sobretudo ao platonismo, que se adequava melhor à mensagem cristã. O aristotelismo foi se tornando pouco conhecido, a não ser por umas poucas obras daquele filósofo, traduzidas por Boécio em princípios do século V. Somente mais de 700 anos depois o pensamento de Aristóteles passaria a predominar no Ocidente medieval. O grande nome da Patrística, e uma das figuras que, sem dúvida, maior influência exerceram por toda a Idade Média, foi Santo Agostinho. Para acompanhar seu pensamento, é preciso lembrar que para ele as verdades da fé não podem ser demonstráveis pela razão, mas esta pode confirmar aquelas: “compreender para crer, crer para compreender”. A Igreja e o cristianismo6 A Igreja Católica, com o intuito de combater a filosofia greco-romana, buscou na própria filosofia antiga o antídoto para reforçar e fundamentar a conexão entre a fé e a razão. Um dos filósofos escolhidos foi Platão, jun- tamente ao neoplatonismo. Portanto, a patrística surgiu da necessidade de diálogo entre o cristão e os não crentes, do aprimoramento e do desenvolvi- mento da teologia, com foco em sua preservação. Assim, foi promovido um processo conciliatório, uma ponte entre a teologia cristã e os seus dogmas e o pensamento greco-romano, naturalizando-o e ampliando as estratégias de conversão dos pagãos. A patrística acaba se tornando, durante a Alta Idade Média, uma prática educacional, pois os padres da Igreja também agiam como educadores, re- forçando e consolidando as verdades teológicas da doutrina cristã. O desen- volvimento das estruturas sociais, políticas e culturais da Idade Média esteve diretamente ligado ao foco da Igreja no ensino dogmático de sua doutrina. Em tal ensino, se propôs a apropriação e a difusão do conhecimento, bem como a manutenção das leis de convívio social por meio da força, estabelecendo-se os conceitos de ética e moral. Todo esse processo teve apoio e fundamentação de grandes pensadores e mestres, como bem lembram Sancovsky et al. (2010). Entre tais mestres, destaca-se Santo Agostinho (354–430), certamente um dos maiores teóricos da teologia e legitimadores da doutrina cristã. Em suas obras, ele evidencia as regras de comportamento e de costumes por meio de instruções. O diálogo de Santo Agostinho (1995, p. 26) com Evódio é um bom exemplo: Ag. – Julgas a instrução ser algo de bom? Ev. – Quem se atreveria a dizer que a instrução é um mal? Ag. – E caso não for nem um bem nem um mal? Ev. – A mim parece-me que é um bem. Ag. – Por certo! Com efeito, a instrução comunica-nosou desperta em nós a ciência, e ninguém aprende se não for por meio da instrução. Acaso tens outra opinião? Ev. – Penso que por meio da instrução não se pode aprender a não ser coisas boas. No decorrer da Idade Média ocidental, pela falta de um Estado efetivamente forte, que pudesse manter o controle sobre a população, o cristianismo e a Igreja se tornaram os principais guias da sociedade. Os membros da Igreja foram os mentores das camadas que comandavam a política e, consequente- mente, colocaram em prática a fusão citada por Barros (2010) entre império e universalização da fé. 7A Igreja e o cristianismo A transformação dos padrões morais do mundo ocidental, promovida por meio da ascensão do cristianismo como forma de doutrina religiosa única na sociedade, representa um dos processos mais notáveis da história mundial. Afinal, uma religião que outrora era considerada uma seita, perseguida e condenada, tornou-se a fonte de poder, ética e moralidade no mundo medieval. O cristianismo transformou efetivamente as relações sociais, as maneiras de cultuar e o imaginário social. Além disso, promoveu a transformação de um mundo politeísta num mundo monoteísta. Para muitos historiadores do Medievo, o cristianismo somente prevaleceu no mundo ocidental porque soube dar espaço e esperança, de certa forma, para grupos desacreditados, sem chance de ascensão social, motivando-os a crer em outra vida, na entrega, no sacrifício. Dessa maneira, todo o sofrimento no mundo secular seria apenas uma transição para o paraíso. Para Veyne (2011), o cristianismo representa uma criação do coletivo sobre a compaixão de um Deus, criador de todas as coisas e com um amor imensurável pela humanidade. De acordo com o autor, a vitória do cristianismo é o reflexo de como ele foi elaborado, propondo que cada homem fosse responsável pela conversão de seus semelhantes e pela resposta ao questionamento sobre qual seria a religião verdadeira. Idade Média ou Idade das Trevas: as perspectivas historiográficas sobre a ascensão do cristianismo Segundo Almeida (2010), durante muito tempo existiu, em certa medida, um desprezo pela Idade Média, mas tal sentimento sempre foi passível de mudanças e ressignifi cações. A alcunha “Idade das Trevas” foi consolidada a partir de uma autêntica proposição que buscou simplifi car mil anos de conhecimento histórico ocidental. Isso contribuiu para que a vulgarização do conhecimento da Idade Média fosse tão pouco contestada. Há uma síntese sobre o período que é comumente propagada: a Idade Média foi um período histórico do Ocidente marcado por uma sociedade estamental, com amplo domínio da nobreza (por meio da força das armas) e controle da Igreja. Esta, na figura do clero, realizava o controle dogmático da fé religiosa, submetendo a sociedade da época a um intenso controle ideológico. Segundo Almeida (2010, documento on-line): Essa síntese sumária de todo um período histórico, absolutamente improvável de ser aplicada pelos historiadores a qualquer outra época, é reconhecida, sem remorsos, como válida e suficiente para a Idade Média. A autossuficiência A Igreja e o cristianismo8 dessa definição estrita oculta toda uma época sob algumas poucas palavras pretensamente "esclarecedoras" e "verdadeiras". Podemos dizer mesmo que neste ocultamento está encerrada a função histórica do período. Desde que respeitados os limites bem estabelecidos de suas "Trevas", a Idade Média pode prestar-se a todos os conteúdos. Toda época histórica merece um processo de reescrita, e a Idade Média talvez seja o período histórico com maior necessidade de esforços de “ressig- nificação” para um melhor entendimento sobre as suas nuances. A limitação sobre o contexto social do Medievo em fontes é uma realidade. A construção de conhecimento histórico sobre o cotidiano, a vida religiosa e até mesmo a sexualidade da sociedade da época dão indícios sobre as sistematizações ou fórmulas criadas para a contextualização dos mil anos de história do período. A dualidade de eventos considerados ora como pagãos, ora como cristãos também é legatária de uma história construída a partir de quem controlava o período, ou seja, a Igreja. Uma proposta bastante relevante para a releitura sobre a Idade Média é men- cionada por Barros (2010). Para ele, o papado e o império foram os responsáveis por projetos universalistas cujo entendimento é imprescindível para a análise das especificidades do período medieval. Fugindo das generalizações sobre o tema, a aliança do mundo da fé com os diversos reinos formados durante o Medievo traz à tona uma série de problematizações que podem dar um novo rumo aos debates historiográficos sobre o período. Dessa forma, é evidente que a interpretação sobre a influência do cristia- nismo no processo de desenvolvimento das estruturas social, política e cultural da Idade Média exige novas perspectivas de análise. Levar em conta a ideia de projetos de universalização, tanto por parte da Igreja como por parte dos novos reinos, e considerar as estratégias de construção do imaginário social dos dois projetos são perspectivas que podem redesenhar as conjecturas do período. Assim, abre-se uma miríade de possibilidades para a compreensão da cristandade e do poder. A organização hierárquica eclesiástica na Idade Média Com o objetivo de consolidar a infl uência conquistada no século IV, a Igreja, por meio dos bispos, principais representantes da instituição, estabeleceu um modelo hierárquico e uma sistematização semelhantes aos do Império Romano. A instituição, com as suas estratégias, promoveu um processo de 9A Igreja e o cristianismo conciliação e, por que não dizer, união no mundo medieval descentralizado e enfraquecido pela queda do Império Romano. Com a missão de propagar a doutrina dos apóstolos, a Igreja, por meio do cristianismo, manteve-se cada vez mais distante do mundo secular, focada em seus dogmas, difundindo suas normativas e ganhando prestígio e respeito por parte da sociedade medieval. Veja o que afi rma Franco Júnior (2001, p. 67): [...] a linha tendencial da Igreja na Idade Média revela-se com clareza. Num primeiro momento, a organização da hierarquia eclesiástica visava à conso- lidação da recente vitória do cristianismo. A seguir, a aproximação com os poderes políticos garantiu à Igreja maiores possibilidades de atuação. Em uma terceira fase, o corpo eclesiástico separou-se completamente da socie- dade laica e procurou dirigi-la, buscando desde fins do século XI erigir uma teocracia que esteve em via de se concretizar em princípios do século XIII. Segundo Silva (2014), seria impossível fazer o mapeamento específico de cada elemento constitutivo do supracitado “projeto” normativo da Igreja, focado em sua estruturação; talvez pela ausência de uma sistematização, ou então pela incerteza de que as informações estejam por completo num único documento, entre muitas outras razões. Conforme Franco Júnior (2001), o processo de formação e hierarquização eclesiástica promoveu indiretamente um elemento que ameaçava a própria existência da Igreja: as chamadas heresias, fruto da sincretização entre os muitos povos e crenças. Elas tinham um papel dúbio para o cristianismo: de fortalecimento e, ao mesmo, de risco. O autor esclarece que as suspeitas de heresia eram então encaminhadas para a análise do bispo local. O próximo passo seria o compartilhamento da referida suspeita com os pares nas assembleias episcopais, ou sínodos, que se reuniam desde meados do século II para tratar de tudo que interessasse à igreja local. Por outro lado, as questões referentes ao âmago da doutrina em si eram debatidas nos chamados concílios ecumênicos, com a participação de bispos de todas as regiões, demonstrando a total universalidade da Igreja. Segundo Le Goff (2005), paralelamente ao revigoramento e à defesa dos inte- resses eclesiásticos, ocorre a ampliação do papel político da Igreja: a negociação com os germânicos para a ampliação dajurisdição. A Igreja tinha o objetivo de atuar também fora das comunidades cristãs, participando da administração citadina, trabalhando e tendo interface no campo social, protegendo pobres (a difundida esmolagem) e militando com as armas da fé em prol do mundo secular. Nesse contexto, a implantação de uma teocracia cristã ocorreria natural- mente. Contudo, alguns fatores impediram tal processo. A Igreja passa a ser questionada, uma vez que apresenta comportamentos invasivos no mundo A Igreja e o cristianismo10 secular, fugindo de sua missão primordial, que era cuidar do espírito e das coisas sagradas. Os cristãos que viviam em mosteiros condenavam o luxo e a ostentação dos bispos. Cabe ressaltar que existiam dois tipos de clero no mundo medieval: um secular, focado nas questões políticas e administrativas, e um regular, dedicado ao trabalho social e espiritual. As contradições e supostos escândalos começaram a ser muito mencio- nados entre a sociedade estamental do Medievo. Gradativamente, a Igreja foi desgastando a sua imagem, ao mesmo tempo em que criava estratégias de fortalecimento, pautadas pelos dogmas estabelecidos. As consequências quase sempre drásticas para a resolução de questões heréticas repercutiam negativamente entre a população de fiéis e também internamente, uma vez que muitas divisões fragmentaram o poder eclesiástico. Existe um consenso entre os autores, entre eles Franco Júnior (2001), Le Goff (2005), Sancovsky et al. (2010) e Silva (2014), de que igreja desenhou estratégias para legitimar o seu poder espiritual sobre o secular. Por inúmeras vezes, houve um esforço de retomar as escrituras sagradas e as obras dos pais da Igreja, como Santo Agostinho, com o objetivo de retirar a instituição daqueles considerados leigos ou incapazes, que se aproveitavam do fator territorial com congregações particulares. Os autores também concordam que a meta dos dirigentes da Igreja era constituir uma autonomia imbatível para controlar ainda mais a sociedade medieval, conforme esclarece Franco Júnior (2001, p. 89): a figura dos concílios não eliminava uma tendência que se fazia sentir desde os primeiros tempos, a da constituição de uma monarquia eclesiástica. Havia para isso uma fundamentação religiosa (um só Deus, uma só fé, uma só Igreja) e a crescente necessidade de se preservar aquela unidade. Os conflitos provocados pela questão ariana tinham enfraquecido a autoridade moral dos sínodos, que se contradiziam, mostrando que era preciso um poder acima de todos, uma monarquia como a que Cristo exerce sobre o universo. Foi em razão disso que o bispo de Roma se sobrepôs a seus pares, podendo usar a partir de fins do século IV o título de papa, quer dizer, pai de todos os cristãos. Baseado em quê o Bispo de Roma pretendeu tal supremacia? Segundo Silva (2014), a maioria dos padres do século IV blindava a imagem do bispo, pois era de interesse da organização eclesiástica demonstrar que o ministro de Deus não era falho e que se distanciava das vicissitudes dos pagãos e dos seculares quadros da administração imperial. Por sua vez, os padres do século VII também precisavam reforçar a sua imagem e fortalecer a propagação do cristianismo, o que estava diretamente ligado à reorganização da igreja local. 11A Igreja e o cristianismo A história das formas de pensar e organizar o cristianismo estão diretamente associadas às estratégias de expansão do Império Romano. Segundo Sancovsky et al. (2010), a partir do século XVI, com a colonização europeia da Ásia e da América, a expansão da doutrina cristã relembra em muitos detalhes as ações do antigo Império Romano. A partir daí, a administração da Igreja se estruturou em localidades autônomas chamadas “dioceses”, controladas por bispos subalternos ao papa. No decorrer de sua história, a Igreja incorporou processos normativos de administração e de organização pública de diferentes culturas, tais como a grega (no que se refere a Atenas) e à romana; inclui-se aí também a sua com- preensão apurada das estruturas organizacionais dos povos germânicos. Dessa forma, a Igreja usou a seu favor, em sua organização, conceitos hierárquicos de autoridade, noções de Estado maior e núcleos de coordenação funcional. Segundo Franco Júnior (2001), nos primeiros séculos do Medievo, a organi- zação eclesiástica estava dividida de duas maneiras: a secular e a regular. O clero secular era formado por presbíteros, diáconos, bispos metropolitanos, patriarcas e papa. Conforme o autor, a denominação se referia ao contato dos componentes desse clero com indivíduos do mundo secular, ou seja, não eclesiástico. Já o clero regular era formado por diferentes ordens religiosas e tinha como características as práticas espirituais e a pregação de valores cristãos, entre os quais, conforme Franco Júnior (2001, p. 93), destacam-se a oração e o trabalho: Oração e trabalho num duplo sentido, numa dupla forma de alcançar Deus: rezar é combater as forças maléficas, contribuindo para a salvação não ape- nas da alma do próprio monge, mas também de toda a sociedade; trabalhar é afastar a alma de seus inimigos, a ociosidade e o tédio, é alcançar por meio dessa forma de ascese uma fonte de alegria. Tanto quanto o trabalho manual, o intelectual, a leitura de textos sagrados, prepara a alma para a oração. Enfim, orar é uma forma de trabalhar, trabalhar é uma forma de orar. Embora a sua organização tenha sido modelo para inúmeros estudos — por sua abrangência territorial, seu poder e sua interferência —, a Igreja teve rupturas internas oriundas de movimentos cismáticos. Exemplo disso é a chamada Cisma do Oriente, ocorrida em 1054, responsável por uma ruptura interna no mundo eclesiástico, dando origem à Igreja Bizantina. Conforme Sancovsky et al. (2010, p. 11): A separação total entre a Igreja Católica, com sede em Roma, e as Igrejas Ortodoxas de Bizâncio e da Rússia ocorreu definitivamente no ano de 1054, no famoso “Cisma do Oriente”. Essas Igrejas foram consideradas “pecadoras” A Igreja e o cristianismo12 ou “heréticas” pelos papas medievais, por apresentarem sérias diferenças na maneira como explicavam a natureza do poder e da divindade de Jesus, gerando polêmicas sobre o dogma católico da Trindade. Há diversas problematizações historiográficas referentes às práticas da Igreja no passado e no presente. Além disso, existem distintas generalizações no imaginário social e ocorre a reprodução de algumas incoerências. Por isso, refletir acerca do papel dessa instituição religiosa e da sua organização no transcorrer da Idade Média é um trabalho minucioso, mas também uma fonte de conhecimento sobre o mundo medieval e as suas implicações na atualidade. No link a seguir, acesse o site oficial do Vaticano, em que há exemplos de organização hierárquica eclesiástica. https://qrgo.page.link/z3XkV ALMEIDA, N. de B. A idade média entre o "poder público" e a "centralização política": itinerários de uma construção historiográfica. Varia Historia, v. 26, n. 43, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-87752010000100004&script=sci_ abstract&tlng=pt. Acesso em: 14 jul. 2019. BARROS, J. D'A. Cristianismo e política na idade média: as relações entre o papado e império. Horizonte, v. 7, n. 15, dez. 2010. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/in- dex.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2009v7n15p53/2477. Acesso em: 14 jul. 2019. BARROS, J. D'A. Passagens de antiguidade romana ao ocidente medieval: leituras his- toriográficas de um período limítrofe. História, v. 28, n. 1, 2009. Disponível em: http:// www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-90742009000100019&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 14 jul. 2019. BELLITO, C. M. História dos 21 concílios da igreja: de Niceia ao Vaticano II. São Paulo: Loyola, 2010. FRANCO JUNIOR, H. A idade média: nascimento do ocidente. 5. ed. São Paulo: Brasi- liense, 2001. 13A Igreja e o cristianismo LE GOFF, J. A civilização do ocidente medieval. Bauru: Edusc,2005. LOYN, H. R. (org.). Dicionário da idade média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. PERRY, M. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 1985. POULAT, É. Histoire, dogme et critique dans la crise moderniste. Paris: Casterman, 2002. SANCOVSKY, R. et al. História medieval. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2010. SANTO AGOSTINHO. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995. SILVA, L. R. da. 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São Paulo: Schwarcz, 1990. A Igreja e o cristianismo14 FILOSOFIA Renan Costa Valle Scarano A filosofia cristã Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as concepções filosóficas do pensamento cristão. Comparar as correntes de pensamento no período de influência do cristianismo. Analisar a relação entre filosofia e religião. Introdução Neste capítulo, você vai estudar a filosofia cristã. Você também vai co- nhecer as múltiplas vertentes filosóficas da Idade Média. O período da filosofia medieval corresponde aos séculos V a XV d.C. Esse período foi marcado pela influência do cristianismo, que intervém não só na filosofia, mas também na organização política e social — sobretudo a partir do ano 380, quando a religião cristã se torna a religião oficial do Império Romano. Portanto, a estrutura eclesiástica não se manteve apenas na esfera religiosa, mas invadiu a política, a economia e a cultura. Como você vai ver, a filosofia medieval foi influenciada significativa- mente pela filosofia grega, mas possuiu aspectos próprios, advindos do pensamento cristão. Outra característica que merece destaque é o fato de que muitos dos filósofos medievais, como você deve imaginar, eram também padres ou clérigos da Igreja. O pensamento cristão e as suas concepções filosóficas Vasconcellos (2014) sugere que o pensamento cristão tem início com os padres da Igreja. A fi losofi a medieval é comumente dividida em duas correntes: patrís- tica e escolástica. “A Patrística consiste no pensamento dos chamados Padres da Igreja, isto é, os pais, os fundadores do pensamento cristão” (VASCON- CELLOS, 2014, p. 11). Essa corrente situa-se entre os anos 100 d.C. — época considerada o fi m da era apostólica, isto é, após a escrita do Apocalipse de João (o último dos livros bíblicos) — e o século V. Já a escolástica se inicia por volta do século V e se estende até o início do Renascimento, ou seja, o século XIV (VASCONCELLOS, 2014). De acordo com Vasconcellos (2014), a Idade Média se inicia por volta do ano 476, com a queda do Império Romano do Ocidente, e termina em 1453, com a tomada de Constantinopla pelos povos turcos e a consequente queda do Império Romano do Oriente. No entanto, “[...] se adotássemos uma periodização mais afeita à divisão histórica, colocaríamos a Patrística no final da Antiguidade” (VASCONCELLOS, 2014, p. 11). Isso significa pensar o Medievo, do ponto de vista filosófico, como um período marcado pela relação entre a filosofia grega e o pensamento cristão, judeu ou árabe; tal período se estende por um tempo demarcado, “[...] mais ou menos do ano 100 até 1500” (VASCONCELLOS, 2014, p. 11). Dizer que há a construção de um pensamento filosófico nesse período significa apontar que houve uma reflexão que fincou raízes na Antiguidade, mas que buscou dar respostas aos problemas de seu tempo, “[...] um tempo em que as questões religiosas não são relegadas a um segundo plano” (VASCONCELLOS, 2014, p. 12). O período histórico designado como Idade Média é dividido em três mo- mentos: Alta Idade Média (séculos V a X); Idade Média Central (séculos XI a XIII) e Baixa Idade Média (século XIV). O período da Alta Idade Média corresponde à: [....] época da formação dos reinos bárbaro-romanos e do feudalismo, no Ocidente, da permanência do Império Bizantino e da formação dos Estados eslavos, no Oriente, da forte expansão e progressiva consolidação do Islã nas terras banhadas pelo Mediterrâneo e da primeira unificação da Europa: o Império Carolíngio (SANTOS; COSTA, 2015, p. 9). No período da Idade Média Central, mais precisamente no século XIII, ocorre o desenvolvimento das escolas universitárias. É nesse período que surge a escolástica, cuja origem está relacionada à criação das escolas. A esse período corresponde também a entrada dos textos de Aristóteles no Ocidente, fato responsável por mudanças na filosofia medieval (SANTOS; COSTA, 2015). O período da Baixa Idade Média corresponde aos séculos de transição; no final do século XIII, começam as primeiras investigações científicas. Nesse período, sobretudo com a filosofia de Guilherme de Ockham, já há traços da Modernidade. A filosofia cristã2 Como você já viu, do ponto de vista filosófico, há duas grandes tradições que marcam a filosofia no período medievo, que são a patrística e a escolástica. A religião cristã, desde o início, buscou transmitir uma mensagem de salvação, estabelecer certos valores e postular certas crenças. Porém, o cristianismo demorou certo tempo para conceber o seu conjunto fundamental de princípios e doutrinas. Nesse sentido, os padres da Igreja tiveram um importante papel por meio da patrística (VASCONCELLOS, 2014). Os padres da Igreja primitiva eram conhecidos como “apologetas” e foram os primeiros sistematizadores do pensamento cristão. Há uma divisão entre os padres gregos e os padres latinos. Conforme Gilson (2001), a literatura cristã latina começou em Roma no fim do século II e no início do III. Mas só em meados do século III o latim substituiu a língua grega. Entre os padres latinos, encontram-se Tertuliano, Minúcio Félix, Cipriano de Cártago, Clemente de Roma, entre outros. Entre os padres gregos, destacam-se Justino, João Crisóstomo e a escola de Alexandria, cujos principais expoentes foram Clemente de Alexandria e Orígenes. Clemente “[...] via na filosofia grega uma espécie de revelação da verdade cristã, destinada aos pagãos” (VASCONCELLOS, 2014, p. 19). O nome mais significativo da patrística foi Agostinho de Hipona, que viveu entre os anos 354 e 430. Os seus escritos abordam de forma não sistemática temas da teologia, da filosofia, da psico- logia, da antropologia e da política. Agostinho defendia a interioridade como o caminho privilegiado para o encontro com Deus. De acordo com Abbagnano (2007, p. 175): “segundo S. Agostinho, o homem pode conhecer Deus porquanto ele mesmo é a imagem de Deus. Memória, inteligência e vontade, em sua unidade e distinção recípocra, reproduzem no homem a trindade divina de Ser, Verdade e Amor” (De Trin., X, 18). Nesse sentido, o conhecimento de Deus só pode ocorrer pela fé, ou seja, a razão não atinge Deus de imediato. Já “A alma, o homem interior, no entanto, pode ser conhecida pela razão e é partindo dela que o homem poderá, no en- contro consigo mesmo, encontrar também a Deus” (VASCONCELLOS, 2014, p. 22). Portanto, o tema central de Agostinho é a busca por Deus, e essa busca se faz pela fé. O caminho que o próprio Agostinho faz emsua vida, narrada na obra Confissões, para chegar até Deus é o percurso de fora para dentro; isto é, é na alma que Deus se revela. Essa é a descoberta de Agostinho; logo, procurar Deus e a alma significa procurar a si mesmo. Nesse viés, Deus está dentro do homem, de fora para dentro e de dentro para Deus. Assim, “Fundamentado teoricamente no neoplatonismo, Agostinho enten- derá que Deus é uma luz que está acima do espírito, só podendo ser atingida pelo homem na medida em que este transcende o que há de mais elevado 3A filosofia cristã nele” (VASCONCELLOS, 2014, p. 23). Percebe-se, portanto, uma influência neoplatônica no pensamento de Agostinho. Platão afirmava que o mundo das ideias era o mundo da verdade, indicava que o suprassensível, o racional, seria o lugar da verdade. Essa influência platônica marcou também o pensamento de Agostinho acerca do mal. Ao buscar a natureza do mal, o filósofo descobriu que se tratava de uma ausência do bem. Para Agostinho, “[...] todas as coisas são boas, sendo o mal, portanto, uma privação do bem, porque não poderia originar-se de Deus” (VASCONCELLOS, 2014, p. 24). O caminho ao interior é o caminho até a verdade, o retorno a si, à interio- ridade. É o que se pode ver no livro De Vera Religione: Não saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a Verdade habita no coração do homem. E se não encontras senão a tua natureza sujeita a mudanças, vai além de ti mesmo. Em te ultrapassando, porém, não te esqueças que transcendes tua alma que raciocina. Portanto, dirige-te à fonte da própria luz da razão. Aonde pode chegar, com efeito, todo bom pensador senão até a verdade? Se a verdade não é atingida pelo próprio raciocínio, ela é, justamente, a finalidade da busca dos que raciocinam (AGOSTINHO apud VASCONCELLOS, 2013, p. 24). A procura pela verdade não é apenas uma busca intelectual, mas existencial. Exige-se do homem que se recline sobre si mesmo, submergindo na interio- ridade para obter o reconhecimento de si e de seu Deus (VASCONCELLOS, 2014). Dessa forma, Agostinho chama a atenção para as verdades eternas e absolutas que estão presentes na mente humana, mas que estão além da razão. Deus aparece como uma realidade que transcende a razão e a fé, como o prin- cípio norteador do pensamento filosófico-teológico (VASCONCELLOS, 2014). A fé em Agostinho é um fator que precisa de compreensão, ou seja, não é uma crença ingênua, tola. Ao contrário: é algo em que a razão se faz necessária na forma de um auxílio. Vasconcellos (2014) comenta que, para Agostinho, o caminho consiste em aceitar a fé pela revelação e, a partir de então, a razão exerce o seu papel. Uma discussão muito presente na época de Agostinho era a relacionada ao mal. No entanto, tal debate já existia em Clemente de Alexandria e em Orígenes; para ambos, o mal era identificado com o não ser. Mas é com Agostinho que A filosofia cristã4 tal investigação ganha proporções maiores. Explicar a questão do mal era um problema central para o pensamento cristão. O que era o mal? A conclusão a que Agostinho chega em suas Confissões é a de que o mal é a ausência de bem, ou seja, o mal não é uma substância. Mas se isso for admitido, como então explicar o mal? “A fim de explicar os motivos que tornam possível a manifestação do mal, [Agostinho] estabelece uma distinção ontológica entre o criador e a criatura” (VASCONCELLOS, 2014, p. 32). Enquanto o criador é o sumo bem, a criatura que provém do criador pode ser boa, mas não sumamente boa. Assim, a oscilação do bem ou a sua diminuição já é um mal. O tema do livre- -arbítrio entra nessa discussão quando Agostinho explica o conceito de pecado: “O pecado reside, pois, na separação estabelecida entre o que o homem é, enquanto criatura, e aquilo que ele quis ser, por vontade própria, pelo exercício do seu livre-arbítrio” (VASCONCELLOS, 2014, p. 32). O mal é nesse ponto resultado de uma escolha do homem, uma possibilidade dada por Deus por meio do livre-arbítrio: “Pelo livre-arbítrio, o homem pode permanecer no bem, mesmo podendo aderir ao mal” (VASCONSELLOS, 2014, p. 33). Como você pode notar, Agostinho foi um dos maiores filósofos de seu tempo e o principal pensador da patrística. O alcance de seu pensamento extrapolou os limites da religiosidade. Embora naque época não se tivesse acesso aos textos de Aristóteles, o neoplatonismo foi um aspecto influenciador da patrística. No período que sucede a patrística, desenvolve-se a escolástica. Nesse período, mais precisamente nos séculos XII e XIII, em Bolonha e em Paris, surgem as primeiras universidades (REALE; ANTISERI, 2003). Um dos mais influentes filósofos e inaugurador desse período foi Severino Boécio (480–527). O texto A consolação da Filosofia foi um dos mais lidos pelos filósofos medievais (VASCONCELLOS, 2014). Outro fator enquadra Boécio como o pensador que inaugura uma nova forma de filosofar: o fato de que as primeiras traduções que se conhece de Aristóteles foram realizadas por ele. Boécio conhecia latim e grego; a sua intenção era não só traduzir, mas comentar as obras de Platão e Aristóteles. Além disso, ele pretendia mostrar que os dois pontos centrais da filosofia grega possuíam mais concordâncias do que discordâncias (VASCONCELLOS, 2014). 5A filosofia cristã O problema dos universais, questão presente em grande parte da Idade Média, interessou a Boécio. De acordo com Leite Júnior (2001), o conteúdo central do problema gira em torno do estatuto ontológico dos universais. Nesse sentido, o problema dos universais: [...] investiga sobre a possibilidade da existência ou não existência dos univer- sais. Ora, tal questão remete a uma segunda inquirição, a saber: admitindo-se que os universais existam, pergunta-se: que tipo de existência possuem? Em outras palavras: se existem, sua existência é real ou meramente mental (pensada)? (LEITE JÚNIOR, 2001, p. 15). A grosso modo, pode-se dizer que o universal é aquilo que é comum a muitos. Boécio tratou do problema dos universais sobretudo em seu comentário à obra Categorias, de Aristóteles. De acordo com Leite Júnior (2001), Boécio reconhece que o fundamento para que algo possa ser considerado universal não é encontrado fora da realidade, mas nas próprias coisas sensíveis; contudo, a noção de universal que for- mamos na mente se dá por abstração, a partir do conhecimento que temos da semelhança presente nos objetos sensíveis. Em verdade, os universais são produzidos na mente apenas pelo fato de que há algo comum a muitos, presente na realidade, junto ao que é sensível (LEITE JUNIOR, 2001, p. 38). Outro filósofo do período da escolástica que merece destaque é Anselmo de Aosta (1033–1109). Com Anselmo, há uma valorização da razão natural, sem que isso implique demérito da fé (VASCONCELLOS, 2014). A razão é entendida por Anselmo não como um impedimento da fé, nem como uma alternativa contraposta, mas “[...] como um outro meio de acesso ao conteúdo da revelação, meio este, contudo, indissociado da fé” (VASCONCELLOS, 2014, p. 58). O autor ressalta que a razão, entendida como um modo de se fazer filosofia, não deve ser confundida pela compreensão que é feita dela na filosofia moderna. A razão humana não substitui a fé, tampouco se opõe a ela, mas tem a capacidade de conduzir a fé à verdade. Anselmo dedicou a sua filosofia ao problema da prova da existência de Deus. Por meio de quatro provas, ele busca mostrar como se pode chegar até Deus. A primeira prova “[...] deriva da consideração de que cada qual tende a se apoderar das coisas que julga boas [...] a bondade em virtude da qual as coisas são boas só pode ser uma” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 149). A segunda prova diz respeito à grandeza qualitativa: “A variedade dessa grandeza, por nós A filosofia cristã6 constatada, exige a suma grandeza, da qual todas as outras são participação gradual” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 149). A terceira prova fala do ser propriamente: Tudo aquilo que existe, existe em virtude de alguma coisaou em virtude de nada. Mas nada existe em virtude de nada [...] do nada não provém o nada. Assim, ou se admite a existência do ser em virtude do qual as coisas existem ou nada existe. Mas, como existe algo, existe o ser supremo (REALE; AN- TISERI, 2003, p. 150). A quarta prova da existência de Deus deriva da constatação dos graus de perfeição, “[...] apoia-se sobre a hierarquia dos seres e exige que exista uma perfeição primeira e absoluta” (REALE; ANTISER, 2003, p. 150). Essas provas, por meio das quais Anselmo conclui que Deus é “[...] aquilo do qual nada de maior se pode pensar” (REALE; ANTISER, 2003, p. 150), estão em sua obra denominada Monologion. Tomás de Aquino (1225–1274) foi um dos maiores filósofos do Medievo. Ele estudou as obras de Aristóteles com seu mestre e catedrático Alberto Magno (1193–1280). Magno preocupou-se em distinguir filosofia e teologia. Ele considerou algumas diferenças para demonstrar que o conhecimento filosófico e o teológico não são a mesma coisa. No conhecimento filosófico, utiliza-se somente a razão; a filosofia parte de premissas que são evidentes, ou seja, que devem ser conhecidas por si mesmas; a filosofia parte da experi- ência das coisas criadas; e, por fim, a filosofia é um procedimento puramente teorético. Já sobre o conhecimento teológico, Alberto diz que, em primeiro lugar, trata-se da fé, que vai além da razão. Por meio da fé, chega-se a coisas que influenciam a razão, ou seja, que não aparecem de imediato à razão e que sem a fé seriam impensáveis. Outra diferença é que a fé parte de Deus, que revela a verdade. A quarta diferença é que por meio da razão não é possível dizer o que é Deus; somente pela fé pode-se chegar nele. Por fim, a fé comporta um processo intelectivo e afetivo “[...] pois envolve a existência do homem no amor de Deus” (REALE; ANTISER, 2003, p. 203). Tomás de Aquino foi um profundo conhecedor do debate filosófico e teológico de seu tempo. Ele concebe a filosofia de forma independente da teologia, ao contrário, por exemplo de Boaventura, filósofo e contemporâneo de Tomás. Para Tomás, filosofia e teologia são modos diferentes de se buscar a verdade e de se opor ao erro. O filósofo não coloca superioridade nem na razão, nem na fé; ambas provêm de Deus (VASCONCELLOS, 2014). Nas conhecidas cinco vias de acesso a Deus desenvolvidas por Tomás, o filósofo, 7A filosofia cristã por meio da razão, elabora uma série de argumentos para demonstrar que por meio da razão é possível chegar à existência de Deus. A seguir, veja em que consistem essas cinco vias. O primeiro argumento diz que “[...] tudo o que se move é movido por outro; por conseguinte, também o que moveu foi movido e assim ocorre sucessivamente” (VASCONCELLOS, 2014, p. 76). Esse movimento não pode se suceder infinita- mente; assim, é necessário que exista um primeiro motor que move e esse motor é Deus. A segunda via versa sobre a causalidade como ponto de partida. Tudo o que existe deve ter uma causa e assim por diante; desse modo, chega-se à causa primeira, que é Deus. Tomás estrutura a terceira via a partir de coisas possíveis e coisas necessárias: “No mundo sensível encontram-se coisas que podem ser e também podem não ser. São, pois, contingentes” (VASCONCELLOS, 2014, p. 77). Dessa forma, se algo foi gerado, significa que não existia antes da geração; a existência de uma coisa também segue o mesmo raciocínio. A conclusão de Tomás é que “[...] a existência de um ser necessário, por si mesmo, [...] é a causa da necessidade para os outros” (VASCONCELLOS, 2014, p. 77). Esse ser necessário para a existência dos outros é Deus. A quarta via versa sobre o grau de perfeição existente nas coisas. Há coisas boas e outras não tão boas, existe o mais verdadeiro e o menos verdadeiro. Dessa forma, conclui o filósofo, “[...] os diferentes graus de perfeição, existente nas coisas, supõem um máximo grau de perfeição, que é Deus” (VASCONCELLOS, 2014, p. 77). A quinta e última via de acesso que prova a existência de Deus diz que algumas coisas agem em vista de um fim, ou seja, há uma ordem perce- bida nas coisas do mundo: “Tal ordem supõe um ordenador [...] conclui Tomás que existe um ordenador inteligente que faz com que as coisas naturais sejam ordenadas a um fim. Tal ordenador é Deus” (VASCONCELLOS, 2014, p. 77). Em sua grande obra intitulada Suma Teológica, Tomás filosofa sobre diversos temas: teológicos, éticos e políticos, temas acerca da natureza do homem, a questão das virtudes, etc. Tomás discute também o problema do ser e da essência, portanto se debruça sobre a metafísica. Em uma de suas primeiras obras, O ente e a essência, o filósofo explicita os conceitos da me- tafísica. Nesse sentido, Tomás afirma que tudo o que existe é ente. Esse ente pode ser lógico ou puramente conceitual, como real ou extramental (REALE; ANTISERI, 2003). Tomás resgata a discussão acerca dos universais e se coloca como um pensador realista moderado, “[...] segundo o qual o caráter universal dos conceitos é fruto do poder de abstração do intelecto. O universal não é real, porque somente o indivíduo é real” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 216). No entanto, por meio do intelecto, é possível alcançar a universalidade das coisas, resultado da ação de abstração da inteligência. A filosofia cristã8 Sobre o ente e a essência, Tomás diz que tudo é ente, inclusive Deus, mas, em Deus, “[...] o ser se identifica com sua essência, razão pela qual também é chamado ‘ato puro’ e ‘ser subsistente’” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 216). Porém, na criatura, o ser se distingue da essência, no sentido de que, na criatura, a essência não é a sua existência, mas possui (tem) a existência. Já em Deus, a essência se identifica com o ser, ou seja, é ato puro. Nas criaturas, a essência é potência de ser, isto é, existe enquanto potência. Como você pode notar, a filosofia de Aristóteles é a grande influenciadora da filosofia de Tomás: “A filosofia tomista é uma filosofia cristã e seria singular equívoco esquecê-lo. O aristotelismo, nela, representa um caminho e um meio, sofrendo modificações tão profundas que chega a perder a sua fisionomia própria” (TRUC, 1968, p. 109). Aristóteles, em sua Metafísica, defendeu a teoria das quatro causas, que diz que tudo o que existe deriva de uma causalidade. Nessa obra, Aristóteles buscou investigar o ser enquanto ser. Ao contrário de Platão, ele levou em consideração em sua filosofia a natureza; nesse sentido, o filósofo percebeu que há movimento na natureza. Daí que o seu pensamento se direciona para o início do movimento da natureza. O primeiro motor imóvel é a ideia a que chega Aristóteles sobre o início das coisas; o motor imóvel é o responsável por colocar o movimento nas coisas. O motor imóvel é imaterial, eterno, possuidor de inteligência suprema e de suma bondade. Para Gilson (2006, p. 2), “[...] o espírito da filosofia medieval [...] é o espírito cristão, que penetra a tradição grega, trabalhando-a por dentro e fazendo-a produzir uma visão do mundo”. Nesse sentido, pode-se tomar como exemplo Agostinho e Tomás de Aquino. Inspirados nas filosofias de Platão e de Aristóteles, os filósofos cristãos produziram uma filosofia cristã à luz da filosofia grega. As correntes de pensamento filosófico que haviam no período de desenvolvimento do cristianismo Em qualquer período histórico, há uma infl uência circular, ou seja, nos dois sentidos. Se você admitir que o período medieval infl uenciou e determinou em boa parte a orientação geral da história fi losófi ca, também precisa consi- derar que tal período foi infl uenciado pela fi losofi a antiga. Coutinho (2008, p. 3) explica que o período medieval emerge na história como resultado de três fatores: “[...] o arruinamento do mundo clássico antigo, a barbarização do espaço europeu e o advento e difusão do Cristianismo”. A convergência desses três acontecimentos se dá não longe dos primeiros séculos da era cristã. 9A filosofia cristã Quando o pensamento cristãopassa a se desenvolver na cultura, já existem correntes filosóficas presentes no campo em que ele exerce força hegemônica: “A Idade Média não enjeita o legado cultural do Classicismo greco-romano. Assume-o, porém, não na sua pureza clássica, mas submetendo-o ao espírito que lhe era próprio: medievaliza-o, quer dizer, barbariza-o e cristianiza-o” (COUTINHO, 2008, p. 6). A filosofia platônica exerceu grande influência sobre o campo filosófico, e tal influência não foi interrompida durante a Idade Média. Além disso, outras correntes filosóficas, tais como o helenismo, o neopitagorismo, o gnosticismo e o cabalismo, existiram no período em que o cristianismo se desenvolveu. Três escolas fizeram parte da filosofia helenística. São elas: o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo. O estoicismo compreende a reflexão acerca da natureza, das leis e das formas de relação entre elas. O estoicismo defende que o cosmos é formado pela harmonia das forças contrárias. Assim, a justa medida contemplada na natureza é aquela que deve ser buscada pelo filósofo, seja na vida política, seja nas ações morais (CÂMARA, 2014). Ulmann (2008) explica que a palavra “estoicismo” se origina da expressão grega stoá poikílê, cujo significado é “pórtico multicolorido”. Nesse pórtico, o filósofo Zenon de Cítio (336–264 a.C.) costumava ensinar seus discípulos. A filosofia estoica divide-se em três fases: “1. Estoicismo primitivo ou antigo, com seus três representantes — Zenon, Cleantes e Crisipo; 2. Estoicismo médio, no qual se destacam Panécio e Posidônio; 3. Estoicismo romano, com Sêneca, Musônio Rufo, Epicteto e Marco Aurélio” (ULMANN, 2008, documento on- -line). Sêneca, um dos principais filósofos dessa escola, sugere que o mundo é dividido em quatro reinos ou naturezas viventes, além da matéria inerte. Existem as seguintes quatro naturezas: a das árvores, a dos animais, a do homem e a de Deus. As duas — homem e Deus — são racionais e possuem idêntica natureza; no entanto, distinguem-se, pois uma é imortal (Deus), a outra, mortal (SÊNECA apud ULMANN, 2008, documento on-line). Para os estoicos, o ser absolutamente perfeito é Deus: [...] o qual encerra toda a perfeição da natureza, integralmente. E a natureza, em sua integridade, é racional. Todo o resto caracteriza-se como relativamente perfeito, ou seja, cada ser em seu grau distingue-se por um traço de perfeição (ULMANN, 2008, documento on-line). A filosofia cristã10 A filosofia da natureza desenvolvida pelos estoicos considera que o logos é o princípio cósmico. O logos, a razão, é imanente no cosmos, assim tudo é racional (REALE; ANTISERI, 2003). Para os estoicos, todas as coisas são partes de um grande organismo: “Tal como no corpo humano toda modificação num membro é sentida em todos os outros, assim também no cosmo existe recíproca inter-relação (ULMANN, 2008, documento on-line). O epicurismo é outra corrente filosófica que exerce grande influência na cultura helênica. Epicuro de Samos fundou sua Escola em Atenas em 307/306 a.C. De acordo com Reale e Antiseri (2003), Epicuro retomou de Leucipo e Demócrito a teoria atomista, de Sócrates o conceito de filosofia como arte de viver, e dos Cirenaicos a estreita relação entre felicidade e prazer. Epicuro adotou substancialmente a tripartição de Xenocrates da filosofia em lógica, fisica e ética. De acordo com Reale e Antiseri (2003, p. 261), a lógica deve “[...] elaborar os cânones segundo os quais reconhecemos a verdade; a segunda estuda a constituição do real; a terceira, o fim do homem (a felicidade) e os meios para alcançá-la”. A lógica e a física devem ser elaboradas em função da ética. Nesse sentido: A ética, ponto de convergência de toda a doutrina de Epicuro, apresenta a forma em que os homens podem tornar-se felizes, livres das mazelas que os perturbam, sejam essas causadas pela política, sociedade ou advindas da religião (CÂMARA, 2014, documento on-line). Ao contrário de Platão, que afirma que a sensação confunde a alma e desvia o ser, Epicuro pontua que é pela sensação que se colhe o ser. Algumas correntes filosóficas se difundiram nos primeiros séculos depois de Cristo tanto no Oriente quanto no Ocidente. O gnosticismo foi a primeira tentativa de filosofia cristã, feita sem rigor sistemático, com a mistura de elementos cristãos míticos, neoplatônicos e orientais. Em geral, para os gnósticos o co- nhecimento era condição para a salvação, donde esse nome, que foi adotado pela primeira vez pelos Ofitas ou Sociedade da Serpente, que mais tarde se dividiram em numerosas seitas (ABBAGNANO, 2007, p. 485). 11A filosofia cristã De acordo com Abbagnano (2007), uma das teorias mais típicas de tal corrente filosófica é o dualismo dos princípios supremos. Nessa perspectiva, “A tentativa de união entre os dois princípios, bem e mal, tem como resultado o mundo, no qual as trevas e a luz se unem, mas com predomínio das trevas” ABBAGNANO, 2007, p. 486). O século II da era cristã é o momento em que aparecem os padres apolo- gistas ou apologetas, “[...] assim chamados porque suas obras principais são apologias da religião cristã” (GILSON, 2001, p. 2). As obras apologéticas serviam como forma de sustentação para se obter dos imperadores romanos o reconhecimento do direito legal dos cristãos a existirem num império que era oficialmente pagão (GILSON, 2001). Justino escreveu, no ano de 150, uma apologia destinada ao imperador Adriano e a Marco Aurélio (Segunda apologia). Justino era um pagão da religião grega que se converteu à religião cristã antes de 132. De acordo com Gilson (2001), ele buscava na filosofia uma religião natural. Frequentou a escola estoica, dirigiu-se aos peripatéticos, instruiu-se no pitagorismo e filiou-se aos discípulos de Platão. Em seu Diálogo com Trifão (sua terceira obra), Justino narra como encontrou na religião cristã as respostas às perguntas que lhe inquietavam. Gilson (2001) aborda a história de Justino para mostrar que a religião cristã “[...] oferecia uma nova solução para problemas que os próprios filósofos tinham levantado” (GILSON, 2001, p. 5). Filosofia e religião De acordo com Gilson (2001), a religião cristã tomou contato com a fi losofi a no século II. Já a fi losofi a medieval é marcada por uma íntima ligação com a religião, sobretudo a religião cristã, embora haja uma refl exão fi losófi ca oriunda dos árabes e judeus, de acordo com Vasconcellos (2014). Nesse sentido, é “[...] usual, no período medieval, a utilização da fi losofi a para tratar de temas que são, em si mesmos, teológicos” (VASCONCELLOS, 2014, p. 10). Portanto, há dois elementos que provocam discussões nos historiadores da fi losofi a: cristianismo e fi losofi a. Há uma fi losofi a cristã? Ou uma fi losofi a medieval? Como você sabe, a Bíblia não é um livro histórico, ou seja, ela não objetiva tratar de história, mas abordar uma mensagem de fé. Em algumas passagens do Novo Testamento, há sinais de que os primeiros cristãos se aproximaram da cultura filosófica grega com o intuito de se fazerem entender e também de conquistar povos que não pertenciam à cultura judaico-cristã, como os greco-romanos. Considere dois exemplos disso: o quarto evangelho, escrito A filosofia cristã12 provavelmente no ano 85 d.C. (SANTOS; XAVIER; ARAUJO, 2011), atribuído a são João; e algumas epístolas de Saulo de Tarso, tais como a primeira carta aos colossenses, a epístola aos romanos e a epístola aos tessalonicenses. O evangelho de João foi escrito originalmente em grego. Ele é diferente em relação aos outros três, pois traz uma linguagem simbólica, além de ele- mentos da filosofia grega, tais como a ideia de logos, como pode ser visto no capítulo 1: “No princípio [arché] era o verbo [logos]. E o verbo estava com Deus. E o verbo era Deus”. No original: “ Ἐλ ἀξχῇ ἦλ ὁ ιόγoν, kαὶ ὁ ιόγoν ἦλ πξὸο ηὸλ ζεόλ, θαὶ ζεὸο ἦλ ὁ ιόγoν” (SANTOS; XAVIER; ARAUJO, 2011, documento on-line). Note que, além de retomar a narrativa da origem do universo presenteno livro do Genesis, o autor do evangelho traz dois termos, arché e logos, que estão presentes na filosofia grega desde os pré-socráticos. Arché é o termo utilizado para discutir a origem das coisas; e logos significa “[...] a razão enquanto substância causa do mundo” (ABBAGNANO, 2007, p. 630). O termo logos foi definido primeiramente pelo filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso (540–470 a.C.). Esse termo era utilizado para tratar da razão enquanto causa do mundo, mas no pensamento cristão logos é o termo utilizado para referir-se à pessoa divina (ABBAGNANO, 2007). Portanto, aqui, já se tem a influência da filosofia grega. Como você viu, arché é o termo que designa o princípio das coisas. Os filósofos pré-socráticos, entre eles Tales de Mileto, Heráclito de Éfeso e Pitágoras de Samos, atribuíram a origem do universo a diferentes fatores. Assim, ao se perguntar sobre qual era o fundamento das coisas, os filósofos procuravam tal fundamento na natureza e utilizavam a razão para investigar a origem do mundo. Ou seja, eles não designavam a fé como um elemento da filosofia e tampouco atribuíam o criacionismo como doutrina ou fator fundante das coisas. Já o pensamento cristão afirma que Deus é o ser que criou o universo e todas as coisas: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002, Gn 1, 1). Esse pensamento que o cristianismo sustenta é herdado da cultura judaica. As cartas atribuídas a Saulo de Tarso, assim como os Atos dos Apóstolos, trazem elementos que sinalizam a aproximação do movimento cristão dos primeiros séculos com a filosofia grega. Os Atos dos Apóstolos, capítulo 17, versículos 18 a 34, narram um episódio em que Saulo de Tarso, cidadão romano, discute com alguns filósofos gregos, entre estoicos e epicureus, no Areópago. A disputa versa sobre questões como a nova doutrina e assuntos teológicos. Com isso, tem-se uma ideia da aproximação da nova religião com a filosofia grega desde Saulo, ou seja, entre os anos 40 e 50 d.C. 13A filosofia cristã Quando se fala em filosofia cristã, não se podem perder de vista as discussões filosóficas já realizadas na Grécia Antiga e que prosseguiram em momentos históricos posteriores. A filosofia destaca-se por utilizar a razão para tratar de temas que dizem respeito à vida das pessoas, como a política, a ética, o homem, o conhecimento, a estética, entre outros. A razão, o diálogo e a discussão são elementos estruturantes da filosofia no que toca ao período grego. Outra característica da filosofia é que ela se desenvolveu numa determinada cultura, a grega, que tinha uma organização social e política própria. Do ponto de vista religioso, a sociedade grega adorava e cultuava deuses e deusas; portanto, era uma sociedade politeísta. Esses pontos impactam a cultura cristã e a sua herança judaica monoteísta. O grande ponto que é trazido para o campo das discussões filosóficas pelo pensamento cristão é a fé. Nesse sentido, houve todo um esforço para conciliar fé e razão durante a época medieval. Houve também filósofos que renegaram a razão e sustentaram que a fé era o único elemento a ser levado em conta quando se pensava em fazer filosofia. Definir o significado da filosofia não é tarefa fácil. De acordo com Ab- bagnano (2007), tal significado pode ser encontrado no livro Eutidemo, de Platão, e perpassa diferentes épocas até chegar à Modernidade. A filosofia é vista como o uso do saber em proveito do homem. No livro de Platão, a filosofia refere-se a “[...] uma ciência em que coincidam fazer e saber” (AB- BAGNANO, 2007, p. 442). De acordo com esse conceito, filosofia implica: “[...] posse ou aquisição de um conhecimento que seja, ao mesmo tempo, o mais válido e o mais amplo possível; [bem como] uso desse conhecimento em benefício do homem” (ABBAGNANO, 2007, p. 442). Esses dois elementos, aponta Abbagnano (2007), estão presentes desde a Antiguidade e perpassam a Modernidade, em Descartes, Hobbes e Kant. A filosofia trata-se, portanto, de um saber acessível ao homem. Esse saber é entendido: [...] tanto como revelação ou posse quanto como aquisição ou busca, podendo-se entender que seu uso deva orientar-se para a salvação ultraterrena ou terrena do homem, para a aquisição de bens espirituais ou materiais, ou para a reali- zação de retificações ou mudanças no mundo (ABBAGNANO, 2007, p. 442). Assim, desde os gregos antigos, a filosofia transmite a ideia de um saber que é racional e que está a serviço do homem, ou seja, um conhecimento que lhe é útil; não se trata de um saber contemplativo. A filosofia, portanto, é um A filosofia cristã14 saber útil que serve para que o homem conheça o mundo, conheça a si mesmo, conheça o outro, conheça seu ambiente. Ela trata do conhecimento a serviço do homem (ABBAGNANO, 2007). Por outro lado, o cristianismo é um movimento religioso, advindo do judaísmo. Portanto, traz em si uma concepção monoteísta, adora um Deus como o criador do universo. Mas, diferentemente do judaísmo, o cristianismo defende que o messias já veio ao mundo e que seu nome é Jesus. A religião cristã é baseada nos evangelhos, que são escritos sobre a vida de Jesus e os seus ensinamentos. Os evangelhos são compostos de quatro livros, escritos por Marcos, Lucas, Matheus e João. A sua mensagem é a de que Jesus anunciou o reino de Deus, a salvação dos homens. A fé é o elemento central do cristianismo. Fé e razão são dimensões que se entrecruzam na filosofia cristã e também na filosofia medieval. O elemento da salvação também é abordado na filosofia grega e na religião cristã. No entanto, ambas abordam esse aspecto de formas diferentes. Gilson (2001) sintetiza essa diferença da seguinte maneira: “A filosofia é um saber que se dirige à inteligência e lhe diz o que são as coisas; a religião se dirige ao homem e lhe fala de seu destino” (GILSON, 2001, p. 16). Vale dizer que é a partir do encontro do cristianismo com a filosofia grega que se desenvolve a filosofia medieval. Gilson (2006) critica alguns comentadores e historiadores da filosofia que negam a existência de uma filosofia cristã. Tais autores defendem que retalhos de doutrinas gregas foram mais ou menos costurados a uma teologia; ou, ainda, salientam que os critãos retomaram o pensamento de Platão e de Aristóteles para satisfazer seus interesses. Junto a esses críticos, Gilson (2006) coloca os chamados racionalistas, que consideram que a razão não pertence à ordem da religião, mas à ordem da filosofia. Ele ainda comenta que não há um filósofo neoescolástico que considere haver uma relação entre filosofia e religião: “O que os neoescolásticos negam é que nenhum pensador cristão tenha conse- guido constituir uma filosofia porque sustentam que são Tomás de Aquino fundou uma [...] a única constituída num plano racional” (GILSON, 2006, p. 8). Enquanto os racionalistas colocam a filosofia no topo e a identificam com a sabedoria, os neoescolásticos a tornam subalterna da teologia. Gilson (2006, p. 16) comenta que o fato de não haver filosofia na Bíblia não autoriza a sustentar que “[...] a Escritura não possa ter exercido alguma influência sobre a evolução da filosofia”. Em suma, Gilson (2006, p. 17) afirma, acerca da discussão entre fé e razão, que, segundo a tradição agostiniana, a fé é diferente da razão e da filosofia da religião; já a tradição tomista ressalta que “[...] a razão é inseparável da fé em seu exercício”. Nesse sentido, o autor 15A filosofia cristã ressalta que, embora não se saiba no que consiste a filosofia cristã, não se deve renegar a filosofia do pensamento cristão, pois “[...] não há razão cristã, mas pode haver um exercício cristão da razão” (GILSON, 2006, p. 17). Como você sabe, há teórios que dizem que a Idade Média foi a idade das trevas, em que não houve filosofia, mas uma teologia que colocava a filosofia como subalterna. Essa é, por exemplo, a leitura histórica feita pelo Positivismo. Contudo, Gilson (2006) defende que, desde o Renascimento, com o retornoaos valores clássicos da cultura greco-romana, e também no Iluminismo, houve um período filosófico fértil influenciado por ideias advindas do cristianismo. Isso pode ser observado na metafísica de René Descartes, que, em oposição à metafísica grega, reflete o pensamento cristão. Descartes, na obra Meditações, aborda o problema da existência de Deus e da existência da alma, que são demonstradas por meio do método das provas. Gilson (2006, p. 18) sugere que isso lembra as provas da existência de Deus em santo Anselmo e até em Tomás de Aquino, além disso, a noção de liberdade de Descartes remonta à ideia medieval sobre a relação entre graça e livre-arbítrio, “[...] problema cristão por excelência”. Com isso, Gilson (2006) denota que há um pensamento cristão e que ele influenciou a filosofia. Um aspecto que aparece na filosofia desde os filósofos antigos é a busca pela sabedoria. Alguns pensadores definem o alcance da sabedoria como o objetivo da vida filosófica. Saulo de Tarso, o apóstolo que defendia que o cristianismo era uma religião e não uma filosofia (GILSON, 2006), afirmava que “[...] o Evangelho é uma salvação, e não uma sabedoria, seria melhor dizer que a salvação que ele prega é, a seu ver, a verdadeira sabedoria, e isso precisamente por ser uma salvação” (GILSON, 2006, p. 28). Nota-se, pois, um redimensionamento de conceitos como sabedoria e salvação, que estão presentes na filosofia grega, mas que, no pensamento cristão de Saulo de Tarso, transformam-se. Em Justino, o elemento filosófico está no centro do debate. De acordo com Gilson (2006), em Diálogo com Trifão, Justino afirma que o objetivo da filosofia é levar os fiéis até Deus e uni-los a ele. A busca pela verdade, enquanto problema filosófico, é central nos primórdios do pensamento cristão: “Um homem busca a verdade apenas pela razão, e fracassa; a verdade lhe é oferecida pela fé, ele a aceita e, tendo-a aceitado, acha-a satisfatória para a razão” (GILSON, 2006, p. 31). Justino chega a verdades filosóficas por ca- minhos não filosóficos: “Onde reina a desordem da razão, a revelação faz a ordem reinar” (GILSON, 2006, p. 31). Essa é a experiência que o pensamento cristão torna relevante. A filosofia cristã16 Desse ponto de vista, Gilson (2006) salienta que o cristianismo não é um conhecimento abstrato da verdade, mas um método de salvação. De acordo com o autor, no século II, os sistemas filosóficos, como os de Platão e de Aristóteles, visavam essencialmente à constituição de uma ciência, ou seja, não possuíam uma “[...] eficácia para a conduta da vida” (GILSON, 2006, p. 36). Por sua vez, o cristianismo prolongava a ordem natural com uma ordem sobrenatural. Apelando para a graça divina como fonte inesgotável de energia “[...] para a apreensão do verdadeiro e a realização do bem, o cristianismo se oferecia ao mesmo tempo como uma doutrina e uma prática” (GILSON, 2006, p. 36). O pensamento cristão colocava-se nesse momento como uma filosofia prática para a vida. Diferente de uma filosofia especulativa e de um conhecimento abstrato, o cristianismo defendia a verdade enquanto revelação de Deus, obtida pela ação de fé do homem. Portanto, a filosofia grega era vista nesse momento como o caminho de uma razão sem guia, enquanto o filósofo cristão possuía uma razão dirigida (GILSON, 2006). ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007. BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. CÂMARA, U. F. S. A porta e o jardim: uma introdução ao epicurismo e estoicismo da Grécia pós-socrática. Ensaios Pedagógicos, jun. 2014. Disponível em: http://www.opet. com.br/faculdade/revista-pedagogia/pdf/n7/ARTIGO-UIPIRANGI.pdf. Acesso em: 8 ago. 2019. COUTINHO, J. Elementos da história da filosofia medieval. Braga: Universidade Católica Portuguesa, 2008. GILSON, E. A filosofia na idade média. São Paulo: Martins Fontes, 2001. GILSON, E. O espírito da filosofia medieval. São Paulo: Martins Fontes, 2006. LEITE JUNIOR, P. O problema dos universais: a perspectiva de Boécio, Abelardo e Ockham. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. REALE, G.; ANTISERI, D. Historia da filosofia: patristica e escolástica. São Paulo: Paulus, 2003. v. 2. SANTOS, B. S.; COSTA, R. História da filosofia medieval. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, 2015. 17A filosofia cristã SANTOS, W.; XAVIER, L. F.; ARAUJO, T. C. Análise exegética do prólogo do evangelho de João. Revista Davar Polissêmica, v. 2, n. 1, 2011. Disponível em: http://periodicos. redebatista.edu.br/index.php/DP/article/view/78/61. Acesso em: 8 ago. 2019. TRUC, G. História da filosofia. Porto Alegre: Globo, 1968. ULMANN, R. A. Filosofia da natureza nos estóicos. Filosofia Unisinos, v. 9, n. 1, 2008. Disponível em: http://filosofianreloanda.pbworks.com/f/Filosofia+da+Natureza+no s+Est%C3%B3icos.pdf. Acesso em: 8 ago. 2019. VASCONCELLOS, M. Filosofia medieval: uma breve introdução. Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 2014. A filosofia cristã18 HISTÓRIA DAS RELIGIÕES Mayara Joice Dionizio A religião cristã na Antiguidade e na Idade Média Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a transição do politeísmo para o monoteísmo na Idade Antiga. Caracterizar as bases de identificação do sagrado e do profano. Definir os princípios da teologia de Santo Agostinho. Introdução A fundação do cristianismo, enquanto religião oficial, não ocorreu de forma rápida ou abrupta. Alguns teóricos e pensadores atribuem o surgimento do cristianismo e a sua ascensão à abertura dada pelo helenismo. Vale lembrar que tal movimento possibilitou a expansão do território grego e também a intersecção cultural entre os povos desse período. Assim, existiam várias escolas de pensamento, o que demonstra uma abertura à pluralidade e à alteridade. Devido a essa expansão, a religião foi se transmutando do helenismo para o politeísmo. Nesse sentido, faz-se necessário, ainda, que tal discussão seja de ca- ráter mais moderno, distinguindo dentro da história de religião o ponto em comum que configura o que é sagrado e o que é profano, inclusive para se entender a instituição de uma religião. Teologicamente, é rico o debate da obra tão atual de Santo Agostinho, que, apesar de ter vivido nos primórdios da Idade Média, contribui para entendermos o argumento com viés filosófico, histórico e religioso sobre o cristianismo. Neste capítulo, você vai ver como ocorreu a transição do mito ao cristianismo ou, ainda, do politeísmo greco-romano ao monoteísmo cristão. Além disso, vai conhecer a relação, do ponto de vista sociológico, entre sagrado e profano e, por fim, o pensamento teológico de Santo Agostinho, inclusive como crítica ao politeísmo. 1 A transição do politeísmo para o monoteísmo na Idade Antiga A história da religião acompanha a história da humanidade, de modo que po- demos dizer que não é possível dissociar uma da outra. Contudo, apesar das mudanças contextuais e temporais, podemos afi rmar que os rituais, as práti- cas religiosas e as condutas auxiliam psicologicamente a humanidade a lidar com as questões existenciais mais agudas. Dessa forma, momentos felizes são simbolizados e criados em torno das crenças, assim como rituais de passagem tristes, tais como a morte (DURKHEIM, 1996). Portanto, independentemente da cosmovisão, as instituições religiosas operam sobre a noção de sagrado, trazem um sentido simbólico sobre a realidade, postulam um projeto de humano, criam comunidade e estabelecem uma conduta baseada em normas. Esse conjunto de práticas, de símbolos e de corpos religiosos expressa a busca transcendental estabelecida pela necessidade religiosa. É desse modo, também, que podemos pensar a passagem do politeísmo ao monoteísmo na Idade Antiga. Ao contrário do que é mais disseminado acerca da religião na antiguidade ocidental, a crítica à religião politeísta grega ocorria mesmo durante o período clássico. Alguns teóricos, como Jaerger,em Paideia (2011), assinalam para o movimento histórico semelhante à ascensão iluminista no século XVIII; isso porque, a partir do governo de Péricles, vários pensadores atenienses se opuseram ao discurso religioso. Mais comumente, atribuem essa crítica aos filósofos da Antiguidade; porém, personagens como Hipócrates, o médico, eram críticos assíduos ao argumento religioso como explicativo da realidade. Para Hipócrates, os males e as doenças tinham que ser tratados a partir de uma causa natural, ou seja, não havia uma explicação sobrenatural. Outrossim, também contribuíram a essa oposição Tucídedes, que buscou compreender a sociedade a partir da história; Demócrito, que compreendia a religião como uma criação humana a partir dos temores e da ausência de explicação dada naturalmente; e Anaxágoras, que, a partir dos estudos de um meteoro, pesquisou os corpos celestes e chegou à conclusão de que não se tratava de deuses (JAEGER, 2011). Mais adiante, nas explicações mais conhecidas, temos Platão (2000), que atribui o conhecimento às ideias, à inteligibilidade e não aos deuses, e Protágoras, que defende que a necessidade dos deuses é secundária, uma vez que a necessidade do fogo e da sabedoria a antecede. Um dos mitos que mais ilustra a relação grega entre humano e divindades é, incontornavelmente, o “Rei Édipo”, que conta a história de uma profecia. Édipo foi condenado à morte após nascer, pois o rei Laio, que era seu pai, escutou do oráculo de Delfos que seu filho cresceria, então o mataria e desposaria a rainha A religião cristã na Antiguidade e na Idade Média2 Jocasta, sua mãe. Assim, Laio decidiu que o menino deveria morrer, convocou um pastor e o incumbiu de pendurar o bebê pelos pés, em uma árvore presente nas encostas do monte Citerão, e deixá-lo para ser comido pelos gaviões e outros animais (SÓFOCLES, 1995). O pastor ficou com pena e não conseguiu abandonar o bebê; em seguida, entregou-o para a família do rei de Corinto, Políbio, que o adotou como filho. Quando Édipo cresceu, os pais lhe contaram o segredo e o jovem se rebelou; ao sair transtornado, acabou encontrando alguns viajantes e, em meio a uma discussão, matou-os. Um dos mortos era o seu pai biológico e, sem saber disso, Édipo dá continuidade a sua viagem solitária. Chegando a Tebas, Édipo desvenda um desafio que foi proposto pela Esfinge “[...] que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, à tarde tem três?” (SÓFOCLES, 1995, p. 397). Édipo decifra o mistério: trata-se do ser humano que, quando bebê, engatinha, quando adulto, caminha com suas duas pernas, e, quando envelhece, caminha com três porque usa a bengala. Assim, quem desvendasse o desafio deveria se tornar rei, casando-se com Jocasta, a rainha. Édipo se casa com a sua mãe, têm quatro filhos e, ao consultar o oráculo, descobre que cumpriu o seu destino. Arrependido, vaza os próprios olhos e se torna um mendigo. Tal mito representa a superioridade religiosa a despeito da ordem racional (SÓFOCLES, 1995). Ou seja, Édipo, ao desvendar o mistério da esfinge, coloca em uso toda a sua capacidade racional, que, ao mesmo tempo, não lhe serve muito ao pensar os próprios acontecimentos de sua vida, ao tentar desvendá-la. O politeísmo grego, então, alude a uma experiência ulterior do ser humano, que busca no divino explicação para a qual a razão não orienta naturalmente. Por outro lado, observamos, também, que o autor, Sófocles, está expressando a crença humana na justiça divina: uma justiça incompreensível. Nesse sentido, apesar de ter sido “superada”, a religião grega mantém na humanidade que viria a se tornar cristã a função fulcral da religião. Vários motivos são associados a essa transição, e um deles é, incontestavelmente, a ascensão da filosofia como busca do conhecimento racional sobre a realidade. Contudo, no período intitulado helenismo, temos tanto o confronto entre poli- teísmo e monoteísmo quanto a mistura e a sincretizacão de ambas as doutrinas (JAEGER, 2011). Certamente, isso só foi possível graças à abertura cultural empreendida por Alexandre. Embora não tenha sido seu motivo inicial levar a cultura grega a outras, acabou por criar um acesso entre elas, o que propiciou o surgimento de uma crença diferente da politeísta. O cristianismo mais primitivo, aquele que começou a emergir após a morte de Alexandre, o Grande, foi marcado pela negação, pela repulsa à filosofia considerada pagã. Contudo, podemos observar um movimento relativo a 3A religião cristã na Antiguidade e na Idade Média algumas escolas helenísticas, tais como os epicuristas, estoicos, céticos e eclé- ticos (PEPIN, 1983). Essas escolas filosóficas dialogavam com o cristianismo em diversos aspectos: voto de pobreza, importância do perdão, do amor ao próximo, entre outros valores. Historicamente, podemos pensar a relação entre o cristianismo e o hele- nismo como uma disputa pela posse da verdade (PEPIN, 1983). Ou seja, em um primeiro momento, vemos uma reivindicação entre gregos e cristãos pela religião que mais teria afinidade intelectual com a realidade para conseguir explicá-la e, então, instaurar-se como universal. Isto é, trata-se de uma relação correlacional e opositora ao mesmo tempo, à mesma época: se, por um lado, o cristianismo consegue se consolidar fazendo uso do helenismo, de seu arcabouço intelectual, de outro lado, o helenismo também cede e se deixa utilizar pelo cristianismo. Seria, então, uma própria conversão dos gregos ou uma imposição cristã? Podemos entender esse embate por distintos ângulos, inclusive, que se complementam (PEPIN, 1983): com a expansão territorial e o sincretismo cultural, o homem grego não se sentia mais tão orientado como antes, quando havia um ideal claro de cidadão da pólis e de homem grego — isso facilitou a adesão de uma parte dos gregos ao cristianismo; foram traçados paralelos entre a cosmogonia grega e a cristã. Nesse contexto, Justino argumenta à população de Alexandria que a criação do mundo se deve a Deus, que é o mesmo que o logos, uma vez que toda a inteligência provém de Deus (PEPIN, 1983). Outros argumentos foram ressig- nificados em prol da criação divina, como o taciniano, segundo o qual o verbo era a projeção do mundo para fora de si — portanto, o verbo é Deus; e o de que Deus é e, por isso, tudo que não era só poderia ter vindo de algo existente. É nesse momento que passa a ser conhecida a figura do discípulo Paulo, que defendia que a sabedoria da filosofia consistia em uma persuasão; portanto, a verdade cristã não necessitaria fundamentar-se na inteligência, mas, sim, na experiência espiritual. Porém, cabe ressaltar que Paulo, em seus ensinamentos cristãos, vale-se em grande parte dos argumentos platônicos e estoicos, no sen- tido de que o que é divino (platonicamente a ideia) não se personifica em obras humanas, pois essas são representações imperfeitas de Deus; o que tem valor para o homem (riquezas e bens materiais) não tem valor para Deus (PEPIN, 1983). Tal forma de compreender e ensinar o cristianismo se fez presente nos anos posteriores na tradição cristã: a aproximação entre a religião e a filosofia grega e, do mesmo modo, a repulsa entre ambos os argumentos. Outrossim, A religião cristã na Antiguidade e na Idade Média4 é também com Paulo, ao estabelecer a interpretação da Santa Trindade, que se pode determinar uma antropologia da religião cristã. Isto é, o humano é entendido de três formas a partir da concepção paulina (PEPIN, 1983): aquele que tem sua fragilidade em seu corpo, sua carne; aquele que, contudo, tem vida; aquele que é dotado de força espiritual e que, por meio de tal força, consegue relacionar-se espiritualmente com Deus. Conclui-se que a transição do politeísmo ao monoteísmo não se deu de forma abrupta, o que nos permite dizer que não se trata de uma religião, a cristã, que se apoderou dos argumentos filosóficos a fim de fundamentar logicamente a existência divina, mas, antes, de