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FUNDAMENTOS HISTÓRICO E TEÓRICO METODOLÓGICOS Viviane Maria Rodrigues Surgimento e institucionalização do Serviço Social na América Latina Objetivos de aprendizagem Ao final deste capítulo, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Examinar a origem do Serviço Social na América Latina. Perceber de que forma foi institucionalizado o Serviço Social na América Latina. Identi� car as bases latinas que interferiram na constituição do Serviço Social brasileiro. Introdução Serão descobertas informações referentes ao processo de institucionali- zação do Serviço Social na América Latina, as influências sofridas, as bases teóricas e seu processo histórico. A origem do Serviço Social na América Latina As profundas transformações sociais e culturais em decorrência da indus- trialização, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, repercutiram no restante do mundo. É nesse contexto que se investigam as diversas expressões da Questão Social. Assim, mediante estas transformações que o Serviço Social se origina na América Latina. Teve como fatores determinantes as mazelas oriundas das desigualdades sociais expostas pelo sistema capitalista, que fortaleceram a hegemonia do capital financeiro e industrial. A primeira escola de Serviço Social na América Latina foi criada no Chile, dentro dos princípios da caridade, da ajuda aos pobres e menos favorecidos. Inicialmente para prestar cuidados dentro de hospitais e com vínculo à pro- fissão do médico. Ainda no Chile, surgiram duas escolas com vertentes distintas, uma de posicionamento vinculado à Igreja Católica e outra à Igreja Protestante. Res- salta-se que o pensamento conservador do Serviço Social europeu, pautado na doutrina da Igreja Católica, foi o embasamento para o Serviço Social na América Latina. Desta maneira, a primeira escola chilena, fundada pelo médico Alejandro Del Río, tem como característica atender às demandas das classes operárias e da expansão industrial. A segunda escola, Elvira Matte de Cruchaga, fundada por Miguel Cruchaga, teve a sua origem nos preceitos da Igreja Católica, com o objetivo de formar agentes sociais para intervir nas mazelas da sociedade chilena. Essa segunda escola citada teve significativa influência no Serviço Social da América Latina, pois veio atender às diversas expressões da Questão Social emergente, em decorrência do processo de industrialização. Com a industrialização em desenvolvimento e a Questão Social eferves- cente, a Igreja Católica viu neste contexto uma brecha para expandir a sua atuação, que estava vinculada a um pensamento conservador que perdia espaço. Outro fator a ser abordado, é referente a importância da escola Elvira Matte como um espaço de discussão e estudo, embora não muito aprofundado na Questão Social, mas, uma aproximação entre ciência e técnica. Essa aproxima- ção favoreceu a intervenção nas desigualdades de classes existentes no Chile. A atuação frente às diversas expressões da Questão Social expandiu a área de atuação desta escola, diferentemente da escola de Del Río, que pautava sua atuação vinculada à atuação médica, juntamente com pacientes carentes, na sua maioria em hospitais. A escola Elvira Matte de Cruchaga foi destinada aos leigos dentro dos ditames da Igreja Católica, sendo que esta tinha como princípio difundir o Serviço Social nos países restantes da América Latina. Do mesmo modo que a escola de Del Río surgiu vinculada à área médica, a escola de Cruchaga também segue o caráter higienista, baseada no Serviço Social europeu e ligada à enfermagem. Assim, dentro desses preceitos, foram se institucionalizando diversas escolas de Serviço Social na América Latina, tais como no Peru, Venezuela, Uruguai, Argentina, Colômbia, entre outras. Surgimento e institucionalização do Serviço Social na América Latina 2 Além de contribuir para a criação de diversas escolas no continente americano, a escola chilena promoveu outras atividades consideradas de suma importância, como: conferências, congressos, publicações etc. Com isso, contribuindo para o modelo de escolas instituídas nos países latinos americanos. Institucionalização do Serviço Social na América Latina O Serviço Social é uma profi ssão que surgiu para atender e intervir na Questão Social e nas múltiplas expressões inerentes a ela, além de estar inserida na divisão sóciotécnica do trabalho. Essa atividade, inicialmente, era para servir ao capital, reproduzindo a hegemonia das classes dominantes, mudando a sua postura no decorrer do seu processo de formação e atuação, assumindo uma postura crítica referente às mazelas oriundas da relação capital x trabalho. A institucionalização do Serviço Social como profissão na América Latina, estava ligada fortemente à Igreja Católica, pois reproduzia o postulado da doutrina católica sem qualquer questionamento: O projeto teórico – e as práticas incipientes desenvolvidas – dos Assistentes Sociais orienta-se para a intervenção na reprodução material do proletariado e para a sua reprodução enquanto classe. O centro de suas preocupações é a família, base da reprodução material e ideológica da Força de Trabalho. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2003, p. 212). A reprodução das relações da força de trabalho, da ordem capitalista e sua relação entre classes junto com a alienação, está fortemente vinculada à atuação do profissional de Serviço Social. Segundo Iamamoto e Carvalho: A representação que fazem do proletariado e dos problemas sociais e que legitima para si mesmos sua intervenção são aquelas produzidas pelas classes e frações de classe dominantes, necessárias à reprodução das relações sociais de produção capitalistas (IAMAMOTO; CARVALHO, 2003, p. 213). 3 Surgimento e institucionalização do Serviço Social na América Latina Para se perceber e compreender como ocorreu a institucionalização do Serviço Social na América Latina, é indispensável que se compreenda a ligação da profissão com as múltiplas expressões da Questão Social. A Questão Social e suas múltiplas expressões podem ser apreendidas como: O conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade (IAMAMOTO, 2006, p. 27). Por meio do enfrentamento da Questão Social pelo Estado, com o apoio das instituições sociais e da Igreja Católica, é que se fortaleceu a institucio- nalização do Serviço Social como profissão. Essa institucionalização se deu em um cenário social e econômico de mudanças, em que a pobreza é vista como uma ameaça à ordem social vigente, ou seja, uma ameaça à burguesia. As principais iniciativas de organização da profissão estavam ligadas ao movimento católico da ajuda, da caridade, do auxílio aos pobres, com o intuito de manter a ordem vigente da época. As bases latinas que interferiram na constituição do Serviço Social brasileiro A constituição do Serviço Social latino-americano ocorreu nos parâmetros da doutrina social da Igreja Católica. Teve como principal infl uência o Serviço Social europeu, que moldou o Serviço Social latino–americano, com as suas ações pautadas na caridade e no assistencialismo. As bases latinas que interferiram na constituição e institucionalização do Serviço Social brasileiro ocorreram dentro dos preceitos da doutrina social da Igreja Católica, assim como nas escolas chilenas, uruguaias, venezuelana, argentina, entre outras. Com a institucionalização dessas primeiras escolas de Serviço Social, no início do século XX, o referencial teórico que constitui as instituições latino- Surgimento e institucionalização do Serviço Social na América Latina 4 -americanas foram pautadas, segundo Yazbek (2009, p. 145-146): “da Doutrina Social da Igreja, no ideário franco-belga de ação social e no pensamento de São Tomás de Aquino (séc. XII): o tomismoe o neotomismo”. Esse referencial teórico foi a base não só das principais instituições lati- nas–americanas, como também da brasileira, que surgiu com as mudanças societárias decorrentes das transformações do modelo agrário para o industrial. A atuação profissional, conforme enfatiza Yazbek: na estruturação do perfil da emergente profissão no pais a Igreja Católica, responsável pelo ideário, pelos conteúdos e pelo processo de formação dos primeiros assistentes sociais brasileiros. Cabe ainda assinalar, que nesse momento, a questao social e vista a partir de forte influencia do pensamen- to social da Igreja, que a trata como questao moral, como um conjunto de problemas sob a responsabilidade individual dos sujeitos que os vivenciam, embora situados dentro de relacoes capitalistas. Trata- se de um enfoque individualista, psicologizante e moralizador da questao, que necessita para seu enfrentamento de uma pedagogia psicossocial, que encontrara no Servico Social efetivas possibilidades de desenvolvimento.” (YAZBEK, 2009, p. 92). Assim, a sequência de transformações societárias vivenciadas na América Latina provocou mudanças no processo teórico-metodológico da profissão, que buscou um procedimento mais técnico, embasado no pensamento conser- vador positivista e na proximidade do Serviço Social norte-americano com a orientação funcionalista. No caso do Serviço Social, um primeiro suporte teórico-metodológico ne- cessário à qualificação técnica de sua prática e à sua modernização vai ser buscado na matriz positivista e em sua apreensão manipuladora, instrumental e imediata do ser social. [...] O método positivista trabalha com as relações aparentes dos fatos, evolui dentro do já contido e busca a regularidade, as abstrações e as relações invariáveis (YAZBEK, 2009, p. 147). Essas duas bases citadas, positivismo e funcionalismo, são as que deram sustentação para o surgimento do Serviço Social nos países latino-america- nos. As transformações, no aporte teórico, acompanharam as transformações da sociedade industrial emergente, assim como, nas diversas expressões da Questão Social surgidas na sociedade, em que não havia uma cons- trução, ou proposta dela que pontuasse mudanças, mas sim, um ajuste do conservadorismo. 5 Surgimento e institucionalização do Serviço Social na América Latina IAMAMOTO, M. V. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho profissional e formação profissional. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2006. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. Relações sociais e o serviço social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 15. ed. São Paulo: Cortez, 2003. YAZBEK, M. C. Fundamentos Históricos e Teórico-metodológicos do Serviço Social. In: CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Serviço Social: direitos sociais e competências Profissionais. Brasília, DF: CFESS/ABEPSS, 2009. p. 143-164. YAZBEK, M. C. Classes Subalternas e Assistência Social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1996. Leituras recomendadas IAMAMOTO, M. V. Renovação e conservadorismo no serviço social: ensaios críticos. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1997. MONTAÑO, C. O Serviço Social na América Latina e o Debate no Brasil. Revista da Faculdade de Serviço Social, Rio de Janeiro, n. 22, 2009. Surgimento e institucionalização do Serviço Social na América Latina 6