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AULA 4 DIFICULDADES E TRANSTORNOS DE APRENDIZAGEM Prof. Adjuto de Eudes Fabri 2 INTRODUÇÃO A relação com o conhecimento se produz em interação constante entre indivíduos, e essas interações afetam diretamente a estrutura neurológica e, por conseguinte, o processo de aprendizagem e o processo de desenvolvimento. Dessa forma, o meio social desempenha um papel fundamental na organização e reorganização da estrutura neurológica, inclusive em casos de lesões do sistema nervoso central. A plasticidade neural acontece com qualidade quando estimulações regulares orientam o indivíduo para um bom domínio de conhecimentos. Caso isso não ocorra, o aprendiz pode vir a apresentar limites em relação à sua formação social e acadêmica, pois a plasticidade neural depende de três aspectos fundamentais: deve ser considerada como um processo dinâmico; deve valorizar a adaptação em busca de estratégias diferentes para enfrentar novos problemas suscitados ao indivíduo; e deve ocorrer de modo organizado, sistemático e em constante interação. Ou seja, quando maior o vínculo qualitativo vivido pela criança em interação com seu ambiente (aprendizagem), melhor será o seu nível de desenvolvimento cognitivo e neurológico, o que possibilitará uma abertura regular e constante para novos aprendizados ao longo da vida. TEMA 1 – SISTEMA NERVOSO CENTRAL O sistema nervoso central tem como função estabelecer o pleno desenvolvimento dos processos intelectuais, o domínio das habilidades motoras adquiridas e a estruturação da consciência, permitindo uma leitura adequada da realidade. De acordo com Machado (2006), o sistema nervoso central atua em busca de equilíbrio entre o organismo e o ambiente, tendo como objetivo reconhecer o ambiente externo e o ambiente interno em busca de respostas consistentes para a resolução dos problemas que a pessoa venha a enfrentar. Graaff (2003) destaca que o sistema nervoso central também auxilia nos processos de orientação, coordenação motora, domínio mnemônico, aprendizagem, cognição e planejamento. Ou seja, é salutar que o indivíduo esteja desde o início de sua vida em um ambiente que o estimule para o domínio de habilidades que possam repercutir em 3 um pleno desenvolvimento social, linguístico e cognitivo. Costa (2018) considera que: A estruturação e a organização das diferentes áreas do cérebro no período pós-natal ocorrem em paralelo, de modo não- compartimentalizado e em ondas correspondentes a diferentes idades ou faixa etárias que caracterizam a janela temporal de cada etapa do neurodesenvolvimento; estas ondas estabelecem curvas de desenvolvimento cuja extensão e pico se expressam distintamente conforme a idade da criança. (Costa, 2018, p. 52) Dessa forma, o sistema nervoso central atua com base nos estímulos internos e externos que recebe, desencadeando respostas que possam se constituir em aprendizagens significativas para uma melhor qualidade de vida da pessoa. 1.1 Cérebro humano O cérebro humano é uma estrutura complexa formada por agrupamentos de neurônios que auxiliam no reconhecimento do mundo, contudo ele precisa de estímulos adequados para o seu bom desenvolvimento. Ou seja, o cérebro é o local onde a aprendizagem acontece, e é nele que se desenvolvem a coordenação motora, a linguagem, o pensamento, a consciência, a memória, a atenção, a percepção, a cognição, entre outras funções psicológicas superiores. O cérebro é formado por aproximadamente 100 bilhões de neurônios, todos eles com potenciais para desenvolver uma série de ações e comportamentos que permitem a adaptação do indivíduo ao seu meio e – ao mesmo tempo – geram possibilidades de transformações da realidade. Contudo, o cérebro pode trazer ganhos ou prejuízos para a vida do indivíduo, a depender do grau e do tipo de estimulação que a pessoa recebe. O cérebro humano produz conhecimentos, sonhos, prazeres, planejamentos; ao mesmo tempo também pode ser fonte de delírios, mentiras, alucinações, déficits. Silveira (2004, p. 2) destaca que: Educar as crianças desde a mais tenra idade em um ambiente enriquecedor, estimulando a linguagem falada, cantada e escrita, criando um clima estruturado com afetividade diversificando positivamente as sensações, com a presença de cor, de música, de interações sociais e de jogos, visando o desenvolvimento de suas capacidades cognitivas e memórias futuras, favorecendo assim o seu processo de aprendizagem. Vanderah (2019) destaca que o cérebro é dividido em hemisfério direito e esquerdo. O hemisfério direito tem como característica auxiliar no domínio 4 perceptivo das diferentes formas dos objetos, na direção (orientação espacial e temporal), na compreensão artística e na escrita (ortografia, desenho). Já o hemisfério esquerdo (predominante na maioria das pessoas) auxilia no domínio linguístico, afetivo e intelectual. Entretanto, embora os hemisférios tenham características específicas, ambos atuam em sintonia para que o indivíduo possa compreender o ambiente em que vive, desenvolvendo novas habilidades e todo o seu potencial de aprendizagem. 1.2 Neurodesenvolvimento e aprendizagem O neurodesenvolvimento e a aprendizagem envolvem em dois processos essenciais na formação humana: o primeiro relacionado à cultura e ao dinamismo social; e o segundo vinculado aos aspectos biológicos e genéticos. Além disso, o neurodesenvolvimento se caracteriza pelo avanço que a criança apresenta em relação ao domínio de habilidades motoras, intelectuais e psíquicas; todas vinculadas a uma orientação de aprendizagem que estimule a criança em direção ao refinamento de suas ações. A cultura e os aspectos biológicos envolvem os modos como o indivíduo se organiza em suas atividades de vida diária (alimentação, higiene, vigília), seu relacionamento social (vida afetiva) e o cuidado com sua saúde de modo geral. Essa organização, quando ocorre de modo qualitativo, auxilia diretamente nos processos de aprendizagem e proporciona o domínio adequado das informações que orientam o indivíduo. A aprendizagem atrelada ao neurodesenvolvimento gera um entendimento sobre o funcionamento do sistema nervoso central e do cérebro em seus mecanismos de organização das emoções (sentimentos e afetos), formação da memória, desenvolvimento da linguagem e organização cognitiva. Por outro lado, de acordo com a American Psychiatric Association (2014), desajustes podem vir a surgir no funcionamento adequado do sistema nervoso central, provocando prejuízos no neurodesenvolvimento do indivíduo. Os desajustes geram impactos no modo como a pessoa se relaciona em seu cotidiano, incluindo aspectos educacionais e ocupacionais. O indivíduo pode apresentar limitações na linguagem, na motricidade e na aprendizagem. Além disso, podem estar associadas ao transtorno do espectro autista, ao transtorno do 5 déficit de atenção (com ou sem hiperatividade), à perturbação específica da aprendizagem e à perturbação motora. 1.3 Neurociência: afasia de Wernicke e afasia de Broca As áreas de Wernicke e de Broca, localizadas no hemisfério esquerdo do cérebro, possibilitam o desenvolvimento linguístico dos indivíduos, o que engloba o domínio da fala, da compreensão, da leitura, da escrita e de atos motores condizentes com os processos cognitivos. Déficits nessas áreas, especialmente as afasias (perda de qualidade na expressão linguística) podem implicar perdas que limitam o processo de comunicação e o processo mnemônico, levando a uma série de imprecisões comportamentais. A afasia, com maior frequência, é decorrente de acidente vascular encefálico (AVE), embora também possa ocorrer em situações de tumores ou traumas que afetam a estrutura do cérebro. Murdoch (1997) salienta que a área de Wernicke é responsável pelo domínioda compreensão, pela qualidade interpretativa da realidade, pela associação de informações já aprendidas e memorizadas. A afasia de Wernicke leva à perda da qualidade compreensiva, mesmo que o indivíduo não tenha limitações em suas funções auditivas e visuais, bem como na linguagem falada e escrita. Por exemplo, quando o indivíduo é perguntado sobre um fato que fez parte de sua experiência de vida, sua resposta demonstra um pensamento incoerente: “Em qual cidade você nasceu?”, a resposta pode ser: “Meu pé é grama, que chove em minha futebol é bom”. O ato motor de falar está preservado, porém a fala se perde em seu domínio lógico e linguístico. Com o passar do tempo, a expressão verbal vai se reduzindo por não estabelecer lógica com a estrutura cognitiva, desagregando os processos de pensamento. A área de Broca, conforme expõe Ortiz (2010), é responsável pelo movimento da fala, em todo o seu processo fonoarticulatório. Quando o indivíduo apresenta déficits nessa área, sua compreensão está preservada com bom entendimento do que lhe é perguntado, entretanto sua habilidade motora para expressar os fonemas está fragilizada. O indivíduo com afasia de Broca apresenta dificuldades na construção de palavras e na elaboração de frases. Por exemplo, ao tentar expressar uma palavra, o indivíduo não consegue executá-la de modo adequado e tenta substituir por outra e, muitas vezes, não consegue elaborar a frase de modo completo. Outra característica é a fala pausada e lenta, sem o uso 6 correto de preposições e artigos. Uma consequência da afasia de Broca está relacionada à dificuldade de se estabelecer uma interlocução adequada com o afásico, que pode fazer com que o indivíduo se sinta frustrado por não se fazer entender em ações básicas de seu cotidiano. O apoio familiar e profissional ao indivíduo afásico melhora a linguagem e a autoestima, além de possibilitar uma melhor qualidade de vida para o enfrentamento da afasia. TEMA 2 – PLASTICIDADE NEURAL E O PROCESSO DE APRENDIZAGEM A plasticidade neural está relacionada à formação de novas conexões nervosas, que alteram funções do cérebro durante toda a vida do indivíduo. À medida que o indivíduo interage com seu meio, novos elementos de aprendizagem vão ocorrendo e modificando sua estrutura neurológica. A plasticidade neural atua também em casos de lesões no sistema nervoso central (SNC), buscando uma adaptação do indivíduo ao seu ambiente. Existem outros termos correlatos usados na literatura para a plasticidade neural: plasticidade neuronal e plasticidade cerebral. Para Gazzaniga, Ivry e Mangun (2006, p. 739), plasticidade é a “habilidade para mudar, como na maleabilidade dos materiais plásticos. No sistema nervoso, a plasticidade está envolvida, durante o desenvolvimento, na recuperação de lesões e no aprendizado diário”. É fundamental afirmar que esse processo não se dá ao acaso ou como fruto do desenvolvimento biológico do indivíduo; é necessário todo um processo de estimulação e mediação com outras pessoas para que o indivíduo possa aprender ou reaprender em casos de lesão neurológica. Oliveira (2000, p. 173) explica esse processo, argumentando que: O aprendizado de qualquer coisa amplia a capacidade de continuar aprendendo outras coisas através da “plasticidade” neuronal formada pela multiplicação de novas ramificações e brotamentos sinápticos a partir da estrutura neuro-anátomo-histo-citológica original que se aperfeiçoa pelos sistemas neuroquímicos, característicos do SNC humano. O cérebro humano aprende a aprender. Entretanto, se não for estimulado por coisas novas limita-se a repetir funções antigas e vai desaprendendo pela desconfiguração dos circuitos em desuso. A plasticidade age positivamente no indivíduo quando os conteúdos aprendidos são intercalados com novos desafios, ampliando o potencial de aquisição para os conhecimentos. Entretanto, esse processo pode ocorrer de 7 modo inverso quando o indivíduo não tem acesso ao seu pleno potencial de desenvolvimento, ficando limitado a uma estimulação insuficiente. 2.1 Desenvolvimento da plasticidade neural O desenvolvimento da plasticidade neural deve levar em consideração mudanças que têm por base experiências anteriores de aprendizagens vividas pelo indivíduo nos processos de mediação, de tal modo que ele possa armazenar novas informações, relacionando dialeticamente a experiência passada à experiência presente. Esse processo deve ser dinâmico para que ocorra a apropriação de conhecimentos. Fonseca (1995) destaca esse processo vinculando-o aos aspectos cognitivos e argumenta que: Em outras palavras, o desenvolvimento cognitivo humano de uma criança é inseparável do desenvolvimento cognitivo dos seus mediadores, sejam eles os pais, os médicos, os psicólogos ou os professores. A aprendizagem humana ocorre, consequentemente, num contexto social, na base de multimediatizações humanas (Fonseca, 1995, p. 90). Em relação ao termo plasticidade, cabe destacar, conforme Pia (1985), que: Albrecht Bethe, fisiologista de Frankfurt, descreveu em 1925 e 1931 a plasticidade como uma capacidade do organismo de se adaptar a mudanças externas e internas por meio da mediação do sistema nervoso central, a fim de alcançar uma cooperação significativa e harmônica de órgãos individuais com o objetivo de continuar a vida do indivíduo. A plasticidade do sistema nervoso central com adaptação funcional a alterações constantes e mesmo a danos extensos requer uma estreita interação entre os órgãos receptivos, efetivos e centrais. Essa ideia estava em desacordo com os conceitos correntes de localização que postulavam centros específicos e funcionalmente determinados (Pia, 1985, p. 81) A plasticidade gera desenvolvimento qualitativo no indivíduo, mesmo que ele apresente algum limite funcional em seu sistema nervoso central, porém para que isso aconteça, é necessário que haja um processo também qualitativo de estimulação que considere o ambiente interno e externo, com base em um bom processo de aprendizagem. 2.2 Processo, adaptação e organização na plasticidade neuronal A plasticidade neural pode ser definida em termos de processo, adaptação e organização. Em relação ao processo, a plasticidade neural é vista como dinâmica, gerando mudanças estruturais e funcionais no sistema nervoso central. 8 Na adaptação, a plasticidade neural busca estratégias diferentes para enfrentar novos problemas suscitados ao indivíduo no vínculo com o ambiente externo. Já a organização caracteriza a plasticidade neural como sistemática e em constante interação entre aspectos inter e intrapsicológicos vividos pelo indivíduo. Essa relação entre processo, adaptação e organização na formação da plasticidade neural deve levar em conta as características e o funcionamento do sistema nervoso central. Luria (1991, p. 95, grifos do autor) relata que: No cérebro humano podemos distinguir ao menos três “blocos” principais, cada um desempenhando papel especial na atividade psíquica. O primeiro mantém o necessário tônus do córtex, indispensável para o bom andamento dos processos de recebimento e elaboração da informação, bem como dos processos de formação de programas e controle da execução destes. O segundo bloco assegura o próprio processo de recebimento, elaboração e conservação da informação que chega ao homem do mundo exterior (dos aparelhos do seu próprio corpo). O terceiro bloco elabora programas de comportamento, assegura e regula sua realização e participa do controle do seu cumprimento. Luria (1991) estudou os três blocos que auxiliam no processo, na adaptação e na organização na plasticidade neuronal, acrescentando que eles são responsáveis pela recepção/integração de estímulos internos e externos; pelo armazenamento de informações; e pela regulação e pela verificação da ação no plano da consciência, sendo responsável peloprocesso de cognição, pela motricidade fina, pela linguagem expressiva e pelo planejamento. Esses blocos geram a potencialidade que o cérebro humano possui para a plasticidade, construindo caminhos para o enfrentamento de novos processos complexos de aprendizagem, novas adaptações diante de dificuldades e organizando-se de modo adequado para o planejamento de ações futuras. Se houver um trabalho adequado de estimulação, todas as crianças, inclusive as que apresentam dificuldades de aprendizagem, terão grandes possibilidades de minimizar efeitos negativos relacionados ao ensino e ao convívio social, desde que adultos (pais e professores) sigam um programa orientado por profissionais habilitados em relação aos problemas apresentados e entendam que o trabalho é de médio e, muitas vezes, de longo prazo. As crianças também devem ser estimuladas a participar do processo, com alegria e motivação, de tal modo que percebam seu avanço no domínio do conhecimento. Assim, novas conexões nervosas surgem e a plasticidade vai acontecendo e produzindo uma melhor qualidade de vida para as crianças e para o seu entorno também. 9 2.3 Blocos da atividade psíquica De um modo mais detalhado, os três blocos da atividade psíquica podem ser descritos com suas contribuições para a formação da plasticidade neural, conforme foi exposto por Luria (1991). O primeiro bloco regula o estado de vigília (sono e consciência), os processos metabólicos (digestão, circulação, produção de hormônios, pressão arterial, respiração, etc.), a atenção e a recepção/integração de estímulos internos e externos. As áreas cerebrais desse bloco são: o tronco encefálico e o sistema límbico (Figura 2). Figura 2 – Tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo) e sistema límbico Crédito: Wasteresley Lima. O funcionamento desse bloco caracteriza o processo biológico humano para aprendizagem e é necessário que todo o sistema funcione de modo adequado. Esse sistema é predominante nos primeiros meses de vida da criança e vai cedendo espaço para o meio social, fazendo com que outras áreas do cérebro venham a se desenvolver. Isso não quer dizer que o primeiro bloco deixe de funcionar; ao contrário, ele está sempre ativo e mantém todo o processo biológico em condições para as aprendizagens futuras. 10 O segundo bloco trabalha com a recepção, a análise e com o armazenamento de informações, estabelecendo vínculo com a visão (lobo occipital), com a audição (lobo temporal) e com a sensação/percepção (lobo parietal). Além da visão, sensação/percepção e audição, este bloco envolve a área de Wernicke (linguagem impressiva), a organização espacial e temporal do indivíduo, auxiliando na formação do esquema corporal e da lateralidade (Figura 3). Figura 3 – Lobos parietal, temporal, occipital e área de Wernicke Crédito: Wasteresley Lima. Esse bloco se destaca especialmente nos primeiros anos de vida da criança, em que ela passa a compreender-se no mundo e em relação com outras pessoas. A criança passa a dominar a linguagem impressiva, pois embora ela ainda não consiga falar, já é capaz de compreender contextos em que está inserida. Também aprende os nomes das partes de seu corpo, de objetos à sua volta e domina a motricidade ampla, sendo capaz de envolver-se com toda a novidade que lhe é apresentada em seu ambiente social. O terceiro bloco (Figura 4) se caracteriza pela programação, regulação e verificação da ação no plano da consciência, sendo responsável pelo processo de cognição. Este bloco (lobo frontal) também tem como característica o trabalho com a motricidade (especialmente fina), com a linguagem expressiva (área de Broca) e com o planejamento (ações humanas complexas). 11 Figura 4 – Lobo frontal e área de Broca Crédito: Jefferson Schnaider. Esse bloco dá à criança e ao adulto a liberdade que envolve a volição e o planejamento, ou seja, o indivíduo passa a envolver-se afetivamente com o que aprende. Quando melhor o acolhimento do ambiente social em relação ao indivíduo, melhor será seu interesse e motivação para aprender e a aprendizagem se torna algo prazeroso. A criança e o adulto passam a planejar o que querem aprender, pois a motricidade fina está em amplo desenvolvimento e a linguagem expressa auxilia na sistematização do pensamento. Quanto mais bem estruturado esse bloco, mais domínio o indivíduo tem sobre a ação impulsiva, que passa a ser frequentemente mediada. Já o cerebelo, por sua vez, tem como função coordenar o equilíbrio, o movimento automático e o movimento voluntário, auxiliando para que aprendizagens já realizadas não disputem espaço com os novos conhecimentos que o indivíduo venha a adquirir, especialmente em relação à motricidade. TEMA 3 – NEUROTRANSMISSORES Além dessa estrutura em blocos do cérebro, também merece atenção o estudo dos neurotransmissores, responsáveis por diferentes tipos de comportamentos produzidos pelos indivíduos. 12 Os neurotransmissores são produtos biológicos e se caracterizam pelo envio de mensagens bioquímicas de um neurônio para o outro, produzindo um efeito inibitório ou excitatório. Vale ressaltar que, embora os neurotransmissores sejam produtos biológicos, é a influência do ambiente social que produz alterações no sistema nervoso central, gerando-os. Esse processo implica o modo como os indivíduos sentem, pensam e comportam-se. A seguir, são apresentados os neurotransmissores mais importantes e suas respectivas funções no sistema nervoso central humano. 3.1 Acetilcolina A acetilcolina trabalha nos processos que envolvem atenção e memória, interferindo na qualidade de aprendizagem do indivíduo. Em termos de hipótese investigativa, sua baixa produção pode associar-se ao mal de Alzheimer e uma produção excessiva pode relacionar-se com o mal de Parkinson. Segundo Gerrig e Zimbardo (2005, p. 112), “acredita-se que a perda de memória entre pacientes que sofrem do mal de Alzheimer, uma doença degenerativa cada vez mais comum entre pessoas mais velhas, seja causada pela deterioração de neurônios que secretam acetilcolina”. 3.2 Gaba (ácido gama-aminobutírico) O gaba tem como função ser inibidor do sistema nervoso central. Também age como um mensageiro químico que transmite as informações de um neurônio para outro, equilibrando e regulando o sistema nervoso central. Gerrig e Zimbardo (2005, p. 112) argumentam que o gaba “parece desempenhar um papel fundamental em certas formas de psicopatologia, ao inibir a atividade neural; quando os níveis desse neurotransmissor no cérebro ficam baixos, as pessoas podem experimentar atividade neural extra, como sentimentos de ansiedade”. 3.3 Dopamina A dopamina, de acordo com Silva (2015), é um neurotransmissor que atua no controle da impulsividade motora, em processos cognitivos e em comportamentos emocionais. Ela é associada, quando em baixa produção neuroquímica, a casos que envolvem transtornos do déficit de atenção com ou 13 sem hiperatividade. Em outras situações, sua redução também pode induzir a casos de esquizofrenia e seu aumento ao de mal de Parkinson. 3.4 Serotonina Sousa Júnior, Verde e Landim (2021) destacam que a serotonina produz no indivíduo uma sensação de equilíbrio em relação ao seu humor, controlando a ansiedade. Alterações nos níveis de serotonina podem levar o indivíduo à depressão (baixa produção) ou a comportamentos agressivos (aumento da produção). Medicamentos à base de fluoxetina auxiliam o sistema nervoso na recaptação da serotonina, induzindo o indivíduo ao controle de seu humor. 3.5 Glutamato Para Boff et al. (2021), o glutamato é um neurotransmissor responsável pela qualidade da relação entre neurônios que venham a potencializar a aprendizagem e os processos mnemônicos de longo prazo. Ele é um aminoácido abundante no sistema nervoso central e age no desenvolvimentoneural. Alterações em seu nível de produção neuroquímica podem implicar doenças neurodegenerativas. 3.6 Endorfinas e encefalinas Endorfinas e encefalinas são neurotransmissores que atuam reduzindo a dor e o medo no indivíduo, mas, por outro lado, atuam na vivência do prazer ao máximo. Gerrig e Zimbardo (2005, p. 113-114) destacam que “as endorfinas já foram chamadas de ‘chaves do paraíso’ por causa de suas propriedades de controlar a dor e o prazer”. Elas agem como analgésicos naturais, pois em situações em que o indivíduo sofre uma lesão grave, a dor vai da medula espinhal ao cérebro, que imediatamente libera tanto as endorfinas quanto as encefalinas para bloquearem dor. TEMA 4 – PROCESSOS NEUROLÓGICOS DA APRENDIZAGEM Em relação ao processo neurológico da aprendizagem, convém ressaltar a elaboração desenvolvida por Cruz (2016), que procurou compreender a aprendizagem a partir da formação de redes neurais: 14 As sinapses, ou seja, as conexões entre as células nervosas que compõe as diversas redes neurais vão se tornando mais bem estabelecidas e mais complexas, à medida que o aprendiz interage com o meio ambiente interno e externo. Desta forma, é verdadeiro que crianças pouco ou não estimuladas durante a infância podem apresentar dificuldade de aprendizagem. Nestes casos ao encéfalo delas não foi dada a oportunidade de se desenvolver plenamente, alcançando toda a sua potencialidade. Estas crianças, para alcançar os objetivos de desenvolvimento e competência, precisarão de estímulos bem direcionados e de estratégias alternativas de aprendizagem para poderem ter chances de desenvolver as habilidades não desenvolvidas. (Cruz, 2016, p. 5-6) Ou seja, o ambiente social e a qualidade da aprendizagem interferem diretamente na estrutura do sistema nervoso central gerando os processos de plasticidade neural e a formação de redes neurais, bem como a produção de neurotransmissores. Não é o cérebro, per se, que produz a plasticidade ou os neurotransmissores, mas o vínculo do indivíduo com outros indivíduos, que, por meio da mediação, cria novas possibilidades de aprendizagem na estrutura neurológica de cada um. 4.1 Processo neurológico infantil O cérebro infantil vai se constituindo a partir de sua estrutura biológica e das influências do ambiente social, que o torna um centro de processamento de informações que se iniciam nas primeiras interações do bebê. Durante o período gestacional, as redes neurais vão se formando e dão base para que conexões nervosas comecem a se estabelecer de modo regular e constante após o nascimento da criança. Rotta, Ohlweiler e Riesgo (2006) salientam que a estrutura cortical vai se formando pela ação dos neurônios que surgem em áreas mais profundas do cérebro em constituição e, aos poucos, vão em direção à superfície, formando o córtex em sua totalidade. Esse processo se mantém ao longo da vida e gera a produção de sinapses, fundamentais para a organização das conexões nervosas e das redes neurais. A estimulação de boa qualidade no início da vida do bebê faz com que o potencial neurológico se amplie, produzindo a necessidade de envolvimento da criança em situações-problemas elaboradas pelos adultos e cuidadores. A criança, mesmo tendo uma estrutura biológica neural em plenas condições, é dependente do modo como os processos de estimulação e de aprendizagem venham a ocorrer, para que sua estrutura neural possa se desenvolver com qualidade ao longo da vida. 15 4.2 Processo neurológico da organização mental O cérebro humano e composto por áreas que possuem funções diferentes, mas que se organizam em um concerto que integra essas diferentes áreas e possibilitam um comportamento adequado a situação vivida pelo indivíduo (Cosenza; Guerra, 2011). O processo neurológico envolve a manutenção e a coordenação da atividade cortical para o gerenciamento e o processamento de informações coletadas nas interações sociais que possibilitam ao indivíduo o domínio das funções visuais, auditivas, gustativas e olfativas, bem como a aprendizagem da leitura, da escrita, da percepção e da cognição. A organização mental se caracteriza pelos lobos occipital (visão), temporal (audição), parietal (sensação, percepção, tato) e frontal (motricidade, linguagem falada e cognição). O lobo occipital possibilita o domínio da habilidade de observação, que envolve a visão, a leitura, a escrita, as cores e a profundidade para que a pessoa possa realizar adequadamente suas atividades (Corso, 2009). O lobo temporal envolve o processamento auditivo, base fundamental para a compreensão da linguagem e a articulação da estrutura fonológica que possibilita o reconhecimento dos sons e seu emprego na leitura e na escrita (Sternberg, 2010). O lobo parietal é responsável pela sensação e pela percepção, que vão compor o tato e todo o processamento somatossensorial do indivíduo, o que envolve a orientação espacial e temporal, a dor, a atenção, o toque e a temperatura do corpo e do ambiente (Pereira; Reis; Magalhães, 2003). Já o lobo frontal envolve as ações motoras voluntárias e coordenadas, bem como as ações mentais que possibilitam o pensamento reflexivo (raciocínio), a busca pela solução de problemas, a decisão (análise e síntese), o julgamento e o planejamento (Goldberg, 2002). TEMA 5 – ARQUITETURA NEURONAL NA INFÂNCIA Estudos realizados por Uebel (2022) sobre o desenvolvimento da infância e sobre a formação da estrutura cortical orientam como a relação entre biologia e ambiente social são fundamentais para os processos que envolvem a sensação, a percepção, o comportamento motor, a visão, a audição, a linguagem e a aprendizagem. 16 A criança que vive em um ambiente propício para o seu desenvolvimento encontra, além de cuidados físicos e nutricionais, um bom vínculo afetivo que permite uma ampla organização da arquitetura neuronal, que, embora frágil, torna- se complexa e fundamental para o desenvolvimento e a aprendizagem do indivíduo ao longo da vida. Bear, Connors e Paradiso (2017) consideram que uma melhor compreensão sobre o desenvolvimento neurocortical da criança permite valorizar e caracterizar o papel do ambiente como essencial para a estimulação e para a formação de conexões nervosas, que podem propiciar à criança o domínio e a compreensão de suas ações, ampliando assim o seu potencial de aprendizagem. Price et al. (2018) também abordam como o cérebro vai se constituindo, do seu início embrionário até a formação de estruturas complexas, e explicam o modo como os neurônios refinam suas ações para a construção das redes neurais. Para Price et al. (2018), o processo que envolve a maturação neuronal do bebê deve levar em consideração que a estrutura nervosa vai se constituindo em acordo com a saúde equilibrada da mãe durante a gestação, além disso orientam que possíveis problemas que ocorram nesse período podem afetar as funções relacionadas ao desenvolvimento cognitivo e motor da criança, sendo necessário uma constante observação em relação aos cuidados com a saúde da mulher. 5.1 Estrutura cortical na infância O bebê possui todo um potencial neurocortical para seu pleno desenvolvimento, porém necessita de um ambiente que lhe possibilite aprender sobre o que ocorre a sua volta. Ele vai interagindo com seus cuidadores e passa a reconhecer características comportamentais das pessoas e diferenciar suas ações em relação à mãe, ao pai e aos irmãos. Por volta dos dois anos de idade, a criança já possui condições de trabalhar no mundo imaginário, pois com o domínio inicial da linguagem, ela passa a agir de modo distinto no mundo da fantasia e no mundo real (Biaggio, 2009). Especialmente aos três anos, a criança tem uma ampliação da sua estrutura linguística, que lhe possibilita entender melhor a realidade e a diferenciar suas ideias em relação a como as outras pessoas pensamo mundo. Aos seis anos de idade, a criança apresenta uma compreensão adequada de seus comportamentos e das regras aplicadas ao seu cotidiano, o que possibilita 17 uma interação regular com os familiares e com outras pessoas no seu entorno social (Biaggio, 2009). De acordo com Bridi Filho e Bridi (2016), toda a estrutura cortical da criança vai amadurecendo à medida que ela vai aprendendo com as experiências do dia a dia, sendo que o papel da educação formal se torna essencial nesse processo ao estimular a criança na busca de novos conhecimentos, formando novas conexões nervosas e redes neurais que irão atuar nos futuros processos de aprendizagens. 5.2 Papel da interação A interação desempenha um papel importantíssimo para o desenvolvimento da estrutura neurológica da criança, pois a experiência que ela vai adquirindo orienta o modo como vai elaborar sua produção cognitiva diante da realidade vivida (Casella; Amaro Jr.; Costa, 2011). A relação intergeracional permite que a criança aprenda comportamentos e culturas com os adultos, ao compartilhar os mais diferentes ambientes. Assim, vão se constituindo como sujeitos singulares, compreendendo os valores, as rotinas e as orientações que recebem em suas interações. A socialização vivida pelas crianças não é um processo passivo; ao contrário, é ativo. A atividade da criança se revela na curiosidade, no interesse e na busca pelo conhecimento, cabendo ao adulto o papel de estimular para que esse interesse se mantenha e se expanda para outros domínios do saber produzido pela humanidade. A criança interage desde o seu nascimento com o mundo externo e já está convivendo em uma relação social e cultural, contudo é dependente da qualidade de intervenção do meio. A rede social em que a criança surge deve propiciar-lhe as boas condições de estimulação para que o desenvolvimento físico e mental possa ocorrer em toda a sua potencialidade (Campos, 2014). 5.3 Papel da educação nos anos iniciais A criança vive em um ambiente em que a educação informal acontece regularmente, entretanto, para um desenvolvimento mais amplo, a criança necessita do acesso à educação formal dirigida para o domínio que envolve o conhecimento científico. O que se busca com a educação formal é a estimulação 18 dos processos neurocognitivos da criança, para que ela possa alcançar o pensamento hipotético-dedutivo. A educação formal deve levar em conta a ludicidade, a brincadeira e o jogo, como alternativas pedagógicas de aprendizagem e desenvolvimento infantil. Através dessas atividades, a criança vai se envolvendo com processos elaborados que envolvem a imaginação, a criatividade e a produção de novos questionamentos sobre a realidade (Cosenza; Guerra, 2011). O conhecimento científico vai gerando novos caminhos, novas análises e novas sínteses, fazendo com que a criança comece a trabalhar com o planejamento de suas ações e com a elaboração argumentativa em relação ao que pretende realizar. A educação escolar gera na criança a necessidade de trabalhar com regras, as quais vão conduzindo à compreensão de como a realidade se constitui e à necessidade de adaptação e superação constantes para que a aprendizagem se produza e reproduza ao longo da vida. A escola ensina que, diante de uma dificuldade de aprendizagem, é fundamental compreender onde a fragilidade se situa, pois a criança tem o potencial de superá-la por meio de uma boa orientação e de uma boa aprendizagem. 19 REFERÊNCIAS APA – American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014. BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. Porto Alegre: Artmed, 2017. BIAGGIO, A. B. Psicologia do desenvolvimento. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. BOFF, T. C. et al. A função do glutamato nos transtornos de ansiedade e no transtorno obsessivo-compulsivo. 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