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AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DIFICULDADES E 
TRANSTORNOS DE 
APRENDIZAGEM 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Adjuto de Eudes Fabri 
 
 
2 
INTRODUÇÃO 
A relação com o conhecimento se produz em interação constante entre 
indivíduos, e essas interações afetam diretamente a estrutura neurológica e, por 
conseguinte, o processo de aprendizagem e o processo de desenvolvimento. 
Dessa forma, o meio social desempenha um papel fundamental na organização e 
reorganização da estrutura neurológica, inclusive em casos de lesões do sistema 
nervoso central. 
A plasticidade neural acontece com qualidade quando estimulações 
regulares orientam o indivíduo para um bom domínio de conhecimentos. Caso 
isso não ocorra, o aprendiz pode vir a apresentar limites em relação à sua 
formação social e acadêmica, pois a plasticidade neural depende de três aspectos 
fundamentais: deve ser considerada como um processo dinâmico; deve valorizar 
a adaptação em busca de estratégias diferentes para enfrentar novos problemas 
suscitados ao indivíduo; e deve ocorrer de modo organizado, sistemático e em 
constante interação. 
Ou seja, quando maior o vínculo qualitativo vivido pela criança em interação 
com seu ambiente (aprendizagem), melhor será o seu nível de desenvolvimento 
cognitivo e neurológico, o que possibilitará uma abertura regular e constante para 
novos aprendizados ao longo da vida. 
TEMA 1 – SISTEMA NERVOSO CENTRAL 
O sistema nervoso central tem como função estabelecer o pleno 
desenvolvimento dos processos intelectuais, o domínio das habilidades motoras 
adquiridas e a estruturação da consciência, permitindo uma leitura adequada da 
realidade. 
De acordo com Machado (2006), o sistema nervoso central atua em busca 
de equilíbrio entre o organismo e o ambiente, tendo como objetivo reconhecer o 
ambiente externo e o ambiente interno em busca de respostas consistentes para 
a resolução dos problemas que a pessoa venha a enfrentar. 
Graaff (2003) destaca que o sistema nervoso central também auxilia nos 
processos de orientação, coordenação motora, domínio mnemônico, 
aprendizagem, cognição e planejamento. 
Ou seja, é salutar que o indivíduo esteja desde o início de sua vida em um 
ambiente que o estimule para o domínio de habilidades que possam repercutir em 
 
 
3 
um pleno desenvolvimento social, linguístico e cognitivo. Costa (2018) considera 
que: 
A estruturação e a organização das diferentes áreas do cérebro no 
período pós-natal ocorrem em paralelo, de modo não-
compartimentalizado e em ondas correspondentes a diferentes idades 
ou faixa etárias que caracterizam a janela temporal de cada etapa do 
neurodesenvolvimento; estas ondas estabelecem curvas de 
desenvolvimento cuja extensão e pico se expressam distintamente 
conforme a idade da criança. (Costa, 2018, p. 52) 
Dessa forma, o sistema nervoso central atua com base nos estímulos 
internos e externos que recebe, desencadeando respostas que possam se 
constituir em aprendizagens significativas para uma melhor qualidade de vida da 
pessoa. 
1.1 Cérebro humano 
O cérebro humano é uma estrutura complexa formada por agrupamentos 
de neurônios que auxiliam no reconhecimento do mundo, contudo ele precisa de 
estímulos adequados para o seu bom desenvolvimento. Ou seja, o cérebro é o 
local onde a aprendizagem acontece, e é nele que se desenvolvem a coordenação 
motora, a linguagem, o pensamento, a consciência, a memória, a atenção, a 
percepção, a cognição, entre outras funções psicológicas superiores. 
O cérebro é formado por aproximadamente 100 bilhões de neurônios, todos 
eles com potenciais para desenvolver uma série de ações e comportamentos que 
permitem a adaptação do indivíduo ao seu meio e – ao mesmo tempo – geram 
possibilidades de transformações da realidade. 
Contudo, o cérebro pode trazer ganhos ou prejuízos para a vida do 
indivíduo, a depender do grau e do tipo de estimulação que a pessoa recebe. O 
cérebro humano produz conhecimentos, sonhos, prazeres, planejamentos; ao 
mesmo tempo também pode ser fonte de delírios, mentiras, alucinações, déficits. 
Silveira (2004, p. 2) destaca que: 
Educar as crianças desde a mais tenra idade em um ambiente 
enriquecedor, estimulando a linguagem falada, cantada e escrita, 
criando um clima estruturado com afetividade diversificando 
positivamente as sensações, com a presença de cor, de música, de 
interações sociais e de jogos, visando o desenvolvimento de suas 
capacidades cognitivas e memórias futuras, favorecendo assim o seu 
processo de aprendizagem. 
Vanderah (2019) destaca que o cérebro é dividido em hemisfério direito e 
esquerdo. O hemisfério direito tem como característica auxiliar no domínio 
 
 
4 
perceptivo das diferentes formas dos objetos, na direção (orientação espacial e 
temporal), na compreensão artística e na escrita (ortografia, desenho). Já o 
hemisfério esquerdo (predominante na maioria das pessoas) auxilia no domínio 
linguístico, afetivo e intelectual. 
Entretanto, embora os hemisférios tenham características específicas, 
ambos atuam em sintonia para que o indivíduo possa compreender o ambiente 
em que vive, desenvolvendo novas habilidades e todo o seu potencial de 
aprendizagem. 
1.2 Neurodesenvolvimento e aprendizagem 
O neurodesenvolvimento e a aprendizagem envolvem em dois processos 
essenciais na formação humana: o primeiro relacionado à cultura e ao dinamismo 
social; e o segundo vinculado aos aspectos biológicos e genéticos. Além disso, o 
neurodesenvolvimento se caracteriza pelo avanço que a criança apresenta em 
relação ao domínio de habilidades motoras, intelectuais e psíquicas; todas 
vinculadas a uma orientação de aprendizagem que estimule a criança em direção 
ao refinamento de suas ações. 
A cultura e os aspectos biológicos envolvem os modos como o indivíduo se 
organiza em suas atividades de vida diária (alimentação, higiene, vigília), seu 
relacionamento social (vida afetiva) e o cuidado com sua saúde de modo geral. 
Essa organização, quando ocorre de modo qualitativo, auxilia diretamente nos 
processos de aprendizagem e proporciona o domínio adequado das informações 
que orientam o indivíduo. 
A aprendizagem atrelada ao neurodesenvolvimento gera um entendimento 
sobre o funcionamento do sistema nervoso central e do cérebro em seus 
mecanismos de organização das emoções (sentimentos e afetos), formação da 
memória, desenvolvimento da linguagem e organização cognitiva. 
Por outro lado, de acordo com a American Psychiatric Association (2014), 
desajustes podem vir a surgir no funcionamento adequado do sistema nervoso 
central, provocando prejuízos no neurodesenvolvimento do indivíduo. 
Os desajustes geram impactos no modo como a pessoa se relaciona em 
seu cotidiano, incluindo aspectos educacionais e ocupacionais. O indivíduo pode 
apresentar limitações na linguagem, na motricidade e na aprendizagem. Além 
disso, podem estar associadas ao transtorno do espectro autista, ao transtorno do 
 
 
5 
déficit de atenção (com ou sem hiperatividade), à perturbação específica da 
aprendizagem e à perturbação motora. 
1.3 Neurociência: afasia de Wernicke e afasia de Broca 
As áreas de Wernicke e de Broca, localizadas no hemisfério esquerdo do 
cérebro, possibilitam o desenvolvimento linguístico dos indivíduos, o que engloba 
o domínio da fala, da compreensão, da leitura, da escrita e de atos motores 
condizentes com os processos cognitivos. 
Déficits nessas áreas, especialmente as afasias (perda de qualidade na 
expressão linguística) podem implicar perdas que limitam o processo de 
comunicação e o processo mnemônico, levando a uma série de imprecisões 
comportamentais. A afasia, com maior frequência, é decorrente de acidente 
vascular encefálico (AVE), embora também possa ocorrer em situações de 
tumores ou traumas que afetam a estrutura do cérebro. 
Murdoch (1997) salienta que a área de Wernicke é responsável pelo 
domínioda compreensão, pela qualidade interpretativa da realidade, pela 
associação de informações já aprendidas e memorizadas. A afasia de Wernicke 
leva à perda da qualidade compreensiva, mesmo que o indivíduo não tenha 
limitações em suas funções auditivas e visuais, bem como na linguagem falada e 
escrita. Por exemplo, quando o indivíduo é perguntado sobre um fato que fez parte 
de sua experiência de vida, sua resposta demonstra um pensamento incoerente: 
“Em qual cidade você nasceu?”, a resposta pode ser: “Meu pé é grama, que chove 
em minha futebol é bom”. O ato motor de falar está preservado, porém a fala se 
perde em seu domínio lógico e linguístico. Com o passar do tempo, a expressão 
verbal vai se reduzindo por não estabelecer lógica com a estrutura cognitiva, 
desagregando os processos de pensamento. 
A área de Broca, conforme expõe Ortiz (2010), é responsável pelo 
movimento da fala, em todo o seu processo fonoarticulatório. Quando o indivíduo 
apresenta déficits nessa área, sua compreensão está preservada com bom 
entendimento do que lhe é perguntado, entretanto sua habilidade motora para 
expressar os fonemas está fragilizada. O indivíduo com afasia de Broca apresenta 
dificuldades na construção de palavras e na elaboração de frases. Por exemplo, 
ao tentar expressar uma palavra, o indivíduo não consegue executá-la de modo 
adequado e tenta substituir por outra e, muitas vezes, não consegue elaborar a 
frase de modo completo. Outra característica é a fala pausada e lenta, sem o uso 
 
 
6 
correto de preposições e artigos. Uma consequência da afasia de Broca está 
relacionada à dificuldade de se estabelecer uma interlocução adequada com o 
afásico, que pode fazer com que o indivíduo se sinta frustrado por não se fazer 
entender em ações básicas de seu cotidiano. 
O apoio familiar e profissional ao indivíduo afásico melhora a linguagem e 
a autoestima, além de possibilitar uma melhor qualidade de vida para o 
enfrentamento da afasia. 
TEMA 2 – PLASTICIDADE NEURAL E O PROCESSO DE APRENDIZAGEM 
A plasticidade neural está relacionada à formação de novas conexões 
nervosas, que alteram funções do cérebro durante toda a vida do indivíduo. À 
medida que o indivíduo interage com seu meio, novos elementos de 
aprendizagem vão ocorrendo e modificando sua estrutura neurológica. A 
plasticidade neural atua também em casos de lesões no sistema nervoso central 
(SNC), buscando uma adaptação do indivíduo ao seu ambiente. Existem outros 
termos correlatos usados na literatura para a plasticidade neural: plasticidade 
neuronal e plasticidade cerebral. 
Para Gazzaniga, Ivry e Mangun (2006, p. 739), plasticidade é a “habilidade 
para mudar, como na maleabilidade dos materiais plásticos. No sistema nervoso, 
a plasticidade está envolvida, durante o desenvolvimento, na recuperação de 
lesões e no aprendizado diário”. 
É fundamental afirmar que esse processo não se dá ao acaso ou como 
fruto do desenvolvimento biológico do indivíduo; é necessário todo um processo 
de estimulação e mediação com outras pessoas para que o indivíduo possa 
aprender ou reaprender em casos de lesão neurológica. Oliveira (2000, p. 173) 
explica esse processo, argumentando que: 
O aprendizado de qualquer coisa amplia a capacidade de continuar 
aprendendo outras coisas através da “plasticidade” neuronal formada 
pela multiplicação de novas ramificações e brotamentos sinápticos a 
partir da estrutura neuro-anátomo-histo-citológica original que se 
aperfeiçoa pelos sistemas neuroquímicos, característicos do SNC 
humano. O cérebro humano aprende a aprender. Entretanto, se não for 
estimulado por coisas novas limita-se a repetir funções antigas e vai 
desaprendendo pela desconfiguração dos circuitos em desuso. 
A plasticidade age positivamente no indivíduo quando os conteúdos 
aprendidos são intercalados com novos desafios, ampliando o potencial de 
aquisição para os conhecimentos. Entretanto, esse processo pode ocorrer de 
 
 
7 
modo inverso quando o indivíduo não tem acesso ao seu pleno potencial de 
desenvolvimento, ficando limitado a uma estimulação insuficiente. 
2.1 Desenvolvimento da plasticidade neural 
O desenvolvimento da plasticidade neural deve levar em consideração 
mudanças que têm por base experiências anteriores de aprendizagens vividas 
pelo indivíduo nos processos de mediação, de tal modo que ele possa armazenar 
novas informações, relacionando dialeticamente a experiência passada à 
experiência presente. Esse processo deve ser dinâmico para que ocorra a 
apropriação de conhecimentos. Fonseca (1995) destaca esse processo 
vinculando-o aos aspectos cognitivos e argumenta que: 
Em outras palavras, o desenvolvimento cognitivo humano de uma 
criança é inseparável do desenvolvimento cognitivo dos seus 
mediadores, sejam eles os pais, os médicos, os psicólogos ou os 
professores. A aprendizagem humana ocorre, consequentemente, num 
contexto social, na base de multimediatizações humanas (Fonseca, 
1995, p. 90). 
Em relação ao termo plasticidade, cabe destacar, conforme Pia (1985), 
que: 
Albrecht Bethe, fisiologista de Frankfurt, descreveu em 1925 e 1931 a 
plasticidade como uma capacidade do organismo de se adaptar a 
mudanças externas e internas por meio da mediação do sistema nervoso 
central, a fim de alcançar uma cooperação significativa e harmônica de 
órgãos individuais com o objetivo de continuar a vida do indivíduo. A 
plasticidade do sistema nervoso central com adaptação funcional a 
alterações constantes e mesmo a danos extensos requer uma estreita 
interação entre os órgãos receptivos, efetivos e centrais. Essa ideia 
estava em desacordo com os conceitos correntes de localização que 
postulavam centros específicos e funcionalmente determinados (Pia, 
1985, p. 81) 
A plasticidade gera desenvolvimento qualitativo no indivíduo, mesmo que 
ele apresente algum limite funcional em seu sistema nervoso central, porém para 
que isso aconteça, é necessário que haja um processo também qualitativo de 
estimulação que considere o ambiente interno e externo, com base em um bom 
processo de aprendizagem. 
2.2 Processo, adaptação e organização na plasticidade neuronal 
A plasticidade neural pode ser definida em termos de processo, adaptação 
e organização. Em relação ao processo, a plasticidade neural é vista como 
dinâmica, gerando mudanças estruturais e funcionais no sistema nervoso central. 
 
 
8 
Na adaptação, a plasticidade neural busca estratégias diferentes para enfrentar 
novos problemas suscitados ao indivíduo no vínculo com o ambiente externo. Já 
a organização caracteriza a plasticidade neural como sistemática e em constante 
interação entre aspectos inter e intrapsicológicos vividos pelo indivíduo. 
Essa relação entre processo, adaptação e organização na formação da 
plasticidade neural deve levar em conta as características e o funcionamento do 
sistema nervoso central. Luria (1991, p. 95, grifos do autor) relata que: 
No cérebro humano podemos distinguir ao menos três “blocos” 
principais, cada um desempenhando papel especial na atividade 
psíquica. 
O primeiro mantém o necessário tônus do córtex, indispensável para o 
bom andamento dos processos de recebimento e elaboração da 
informação, bem como dos processos de formação de programas e 
controle da execução destes. O segundo bloco assegura o próprio 
processo de recebimento, elaboração e conservação da informação que 
chega ao homem do mundo exterior (dos aparelhos do seu próprio 
corpo). O terceiro bloco elabora programas de comportamento, assegura 
e regula sua realização e participa do controle do seu cumprimento. 
Luria (1991) estudou os três blocos que auxiliam no processo, na 
adaptação e na organização na plasticidade neuronal, acrescentando que eles 
são responsáveis pela recepção/integração de estímulos internos e externos; pelo 
armazenamento de informações; e pela regulação e pela verificação da ação no 
plano da consciência, sendo responsável peloprocesso de cognição, pela 
motricidade fina, pela linguagem expressiva e pelo planejamento. Esses blocos 
geram a potencialidade que o cérebro humano possui para a plasticidade, 
construindo caminhos para o enfrentamento de novos processos complexos de 
aprendizagem, novas adaptações diante de dificuldades e organizando-se de 
modo adequado para o planejamento de ações futuras. 
Se houver um trabalho adequado de estimulação, todas as crianças, 
inclusive as que apresentam dificuldades de aprendizagem, terão grandes 
possibilidades de minimizar efeitos negativos relacionados ao ensino e ao 
convívio social, desde que adultos (pais e professores) sigam um programa 
orientado por profissionais habilitados em relação aos problemas apresentados e 
entendam que o trabalho é de médio e, muitas vezes, de longo prazo. As crianças 
também devem ser estimuladas a participar do processo, com alegria e 
motivação, de tal modo que percebam seu avanço no domínio do conhecimento. 
Assim, novas conexões nervosas surgem e a plasticidade vai acontecendo e 
produzindo uma melhor qualidade de vida para as crianças e para o seu entorno 
também. 
 
 
9 
 
2.3 Blocos da atividade psíquica 
De um modo mais detalhado, os três blocos da atividade psíquica podem 
ser descritos com suas contribuições para a formação da plasticidade neural, 
conforme foi exposto por Luria (1991). 
O primeiro bloco regula o estado de vigília (sono e consciência), os 
processos metabólicos (digestão, circulação, produção de hormônios, pressão 
arterial, respiração, etc.), a atenção e a recepção/integração de estímulos internos 
e externos. As áreas cerebrais desse bloco são: o tronco encefálico e o sistema 
límbico (Figura 2). 
Figura 2 – Tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo) e sistema límbico 
 
Crédito: Wasteresley Lima. 
O funcionamento desse bloco caracteriza o processo biológico humano 
para aprendizagem e é necessário que todo o sistema funcione de modo 
adequado. Esse sistema é predominante nos primeiros meses de vida da criança 
e vai cedendo espaço para o meio social, fazendo com que outras áreas do 
cérebro venham a se desenvolver. Isso não quer dizer que o primeiro bloco deixe 
de funcionar; ao contrário, ele está sempre ativo e mantém todo o processo 
biológico em condições para as aprendizagens futuras. 
 
 
10 
O segundo bloco trabalha com a recepção, a análise e com o 
armazenamento de informações, estabelecendo vínculo com a visão (lobo 
occipital), com a audição (lobo temporal) e com a sensação/percepção (lobo 
parietal). Além da visão, sensação/percepção e audição, este bloco envolve a 
área de Wernicke (linguagem impressiva), a organização espacial e temporal do 
indivíduo, auxiliando na formação do esquema corporal e da lateralidade (Figura 
3). 
Figura 3 – Lobos parietal, temporal, occipital e área de Wernicke 
 
Crédito: Wasteresley Lima. 
Esse bloco se destaca especialmente nos primeiros anos de vida da 
criança, em que ela passa a compreender-se no mundo e em relação com outras 
pessoas. A criança passa a dominar a linguagem impressiva, pois embora ela 
ainda não consiga falar, já é capaz de compreender contextos em que está 
inserida. Também aprende os nomes das partes de seu corpo, de objetos à sua 
volta e domina a motricidade ampla, sendo capaz de envolver-se com toda a 
novidade que lhe é apresentada em seu ambiente social. 
O terceiro bloco (Figura 4) se caracteriza pela programação, regulação e 
verificação da ação no plano da consciência, sendo responsável pelo processo de 
cognição. Este bloco (lobo frontal) também tem como característica o trabalho 
com a motricidade (especialmente fina), com a linguagem expressiva (área de 
Broca) e com o planejamento (ações humanas complexas). 
 
 
11 
Figura 4 – Lobo frontal e área de Broca 
 
Crédito: Jefferson Schnaider. 
 Esse bloco dá à criança e ao adulto a liberdade que envolve a volição e o 
planejamento, ou seja, o indivíduo passa a envolver-se afetivamente com o que 
aprende. Quando melhor o acolhimento do ambiente social em relação ao 
indivíduo, melhor será seu interesse e motivação para aprender e a aprendizagem 
se torna algo prazeroso. A criança e o adulto passam a planejar o que querem 
aprender, pois a motricidade fina está em amplo desenvolvimento e a linguagem 
expressa auxilia na sistematização do pensamento. Quanto mais bem estruturado 
esse bloco, mais domínio o indivíduo tem sobre a ação impulsiva, que passa a ser 
frequentemente mediada. 
Já o cerebelo, por sua vez, tem como função coordenar o equilíbrio, o 
movimento automático e o movimento voluntário, auxiliando para que 
aprendizagens já realizadas não disputem espaço com os novos conhecimentos 
que o indivíduo venha a adquirir, especialmente em relação à motricidade. 
TEMA 3 – NEUROTRANSMISSORES 
Além dessa estrutura em blocos do cérebro, também merece atenção o 
estudo dos neurotransmissores, responsáveis por diferentes tipos de 
comportamentos produzidos pelos indivíduos. 
 
 
12 
Os neurotransmissores são produtos biológicos e se caracterizam pelo 
envio de mensagens bioquímicas de um neurônio para o outro, produzindo um 
efeito inibitório ou excitatório. 
Vale ressaltar que, embora os neurotransmissores sejam produtos 
biológicos, é a influência do ambiente social que produz alterações no sistema 
nervoso central, gerando-os. Esse processo implica o modo como os indivíduos 
sentem, pensam e comportam-se. A seguir, são apresentados os 
neurotransmissores mais importantes e suas respectivas funções no sistema 
nervoso central humano. 
3.1 Acetilcolina 
A acetilcolina trabalha nos processos que envolvem atenção e memória, 
interferindo na qualidade de aprendizagem do indivíduo. Em termos de hipótese 
investigativa, sua baixa produção pode associar-se ao mal de Alzheimer e uma 
produção excessiva pode relacionar-se com o mal de Parkinson. Segundo Gerrig 
e Zimbardo (2005, p. 112), “acredita-se que a perda de memória entre pacientes 
que sofrem do mal de Alzheimer, uma doença degenerativa cada vez mais comum 
entre pessoas mais velhas, seja causada pela deterioração de neurônios que 
secretam acetilcolina”. 
3.2 Gaba (ácido gama-aminobutírico) 
O gaba tem como função ser inibidor do sistema nervoso central. Também 
age como um mensageiro químico que transmite as informações de um neurônio 
para outro, equilibrando e regulando o sistema nervoso central. Gerrig e Zimbardo 
(2005, p. 112) argumentam que o gaba “parece desempenhar um papel 
fundamental em certas formas de psicopatologia, ao inibir a atividade neural; 
quando os níveis desse neurotransmissor no cérebro ficam baixos, as pessoas 
podem experimentar atividade neural extra, como sentimentos de ansiedade”. 
3.3 Dopamina 
A dopamina, de acordo com Silva (2015), é um neurotransmissor que atua 
no controle da impulsividade motora, em processos cognitivos e em 
comportamentos emocionais. Ela é associada, quando em baixa produção 
neuroquímica, a casos que envolvem transtornos do déficit de atenção com ou 
 
 
13 
sem hiperatividade. Em outras situações, sua redução também pode induzir a 
casos de esquizofrenia e seu aumento ao de mal de Parkinson. 
3.4 Serotonina 
Sousa Júnior, Verde e Landim (2021) destacam que a serotonina produz 
no indivíduo uma sensação de equilíbrio em relação ao seu humor, controlando a 
ansiedade. Alterações nos níveis de serotonina podem levar o indivíduo à 
depressão (baixa produção) ou a comportamentos agressivos (aumento da 
produção). Medicamentos à base de fluoxetina auxiliam o sistema nervoso na 
recaptação da serotonina, induzindo o indivíduo ao controle de seu humor. 
3.5 Glutamato 
Para Boff et al. (2021), o glutamato é um neurotransmissor responsável 
pela qualidade da relação entre neurônios que venham a potencializar a 
aprendizagem e os processos mnemônicos de longo prazo. Ele é um aminoácido 
abundante no sistema nervoso central e age no desenvolvimentoneural. 
Alterações em seu nível de produção neuroquímica podem implicar doenças 
neurodegenerativas. 
3.6 Endorfinas e encefalinas 
Endorfinas e encefalinas são neurotransmissores que atuam reduzindo a 
dor e o medo no indivíduo, mas, por outro lado, atuam na vivência do prazer ao 
máximo. Gerrig e Zimbardo (2005, p. 113-114) destacam que “as endorfinas já 
foram chamadas de ‘chaves do paraíso’ por causa de suas propriedades de 
controlar a dor e o prazer”. Elas agem como analgésicos naturais, pois em 
situações em que o indivíduo sofre uma lesão grave, a dor vai da medula espinhal 
ao cérebro, que imediatamente libera tanto as endorfinas quanto as encefalinas 
para bloquearem dor. 
TEMA 4 – PROCESSOS NEUROLÓGICOS DA APRENDIZAGEM 
Em relação ao processo neurológico da aprendizagem, convém ressaltar a 
elaboração desenvolvida por Cruz (2016), que procurou compreender a 
aprendizagem a partir da formação de redes neurais: 
 
 
14 
As sinapses, ou seja, as conexões entre as células nervosas que 
compõe as diversas redes neurais vão se tornando mais bem 
estabelecidas e mais complexas, à medida que o aprendiz interage com 
o meio ambiente interno e externo. Desta forma, é verdadeiro que 
crianças pouco ou não estimuladas durante a infância podem apresentar 
dificuldade de aprendizagem. Nestes casos ao encéfalo delas não foi 
dada a oportunidade de se desenvolver plenamente, alcançando toda a 
sua potencialidade. Estas crianças, para alcançar os objetivos de 
desenvolvimento e competência, precisarão de estímulos bem 
direcionados e de estratégias alternativas de aprendizagem para 
poderem ter chances de desenvolver as habilidades não desenvolvidas. 
(Cruz, 2016, p. 5-6) 
Ou seja, o ambiente social e a qualidade da aprendizagem interferem 
diretamente na estrutura do sistema nervoso central gerando os processos de 
plasticidade neural e a formação de redes neurais, bem como a produção de 
neurotransmissores. Não é o cérebro, per se, que produz a plasticidade ou os 
neurotransmissores, mas o vínculo do indivíduo com outros indivíduos, que, por 
meio da mediação, cria novas possibilidades de aprendizagem na estrutura 
neurológica de cada um. 
4.1 Processo neurológico infantil 
 O cérebro infantil vai se constituindo a partir de sua estrutura biológica e 
das influências do ambiente social, que o torna um centro de processamento de 
informações que se iniciam nas primeiras interações do bebê. Durante o período 
gestacional, as redes neurais vão se formando e dão base para que conexões 
nervosas comecem a se estabelecer de modo regular e constante após o 
nascimento da criança. 
Rotta, Ohlweiler e Riesgo (2006) salientam que a estrutura cortical vai se 
formando pela ação dos neurônios que surgem em áreas mais profundas do 
cérebro em constituição e, aos poucos, vão em direção à superfície, formando o 
córtex em sua totalidade. Esse processo se mantém ao longo da vida e gera a 
produção de sinapses, fundamentais para a organização das conexões nervosas 
e das redes neurais. 
A estimulação de boa qualidade no início da vida do bebê faz com que o 
potencial neurológico se amplie, produzindo a necessidade de envolvimento da 
criança em situações-problemas elaboradas pelos adultos e cuidadores. 
A criança, mesmo tendo uma estrutura biológica neural em plenas 
condições, é dependente do modo como os processos de estimulação e de 
aprendizagem venham a ocorrer, para que sua estrutura neural possa se 
desenvolver com qualidade ao longo da vida. 
 
 
15 
4.2 Processo neurológico da organização mental 
 O cérebro humano e composto por áreas que possuem funções diferentes, 
mas que se organizam em um concerto que integra essas diferentes áreas e 
possibilitam um comportamento adequado a situação vivida pelo indivíduo 
(Cosenza; Guerra, 2011). 
 O processo neurológico envolve a manutenção e a coordenação da 
atividade cortical para o gerenciamento e o processamento de informações 
coletadas nas interações sociais que possibilitam ao indivíduo o domínio das 
funções visuais, auditivas, gustativas e olfativas, bem como a aprendizagem da 
leitura, da escrita, da percepção e da cognição. 
 A organização mental se caracteriza pelos lobos occipital (visão), temporal 
(audição), parietal (sensação, percepção, tato) e frontal (motricidade, linguagem 
falada e cognição). 
 O lobo occipital possibilita o domínio da habilidade de observação, que 
envolve a visão, a leitura, a escrita, as cores e a profundidade para que a pessoa 
possa realizar adequadamente suas atividades (Corso, 2009). O lobo temporal 
envolve o processamento auditivo, base fundamental para a compreensão da 
linguagem e a articulação da estrutura fonológica que possibilita o reconhecimento 
dos sons e seu emprego na leitura e na escrita (Sternberg, 2010). O lobo parietal 
é responsável pela sensação e pela percepção, que vão compor o tato e todo o 
processamento somatossensorial do indivíduo, o que envolve a orientação 
espacial e temporal, a dor, a atenção, o toque e a temperatura do corpo e do 
ambiente (Pereira; Reis; Magalhães, 2003). Já o lobo frontal envolve as ações 
motoras voluntárias e coordenadas, bem como as ações mentais que possibilitam 
o pensamento reflexivo (raciocínio), a busca pela solução de problemas, a decisão 
(análise e síntese), o julgamento e o planejamento (Goldberg, 2002). 
TEMA 5 – ARQUITETURA NEURONAL NA INFÂNCIA 
Estudos realizados por Uebel (2022) sobre o desenvolvimento da infância 
e sobre a formação da estrutura cortical orientam como a relação entre biologia e 
ambiente social são fundamentais para os processos que envolvem a sensação, 
a percepção, o comportamento motor, a visão, a audição, a linguagem e a 
aprendizagem. 
 
 
16 
A criança que vive em um ambiente propício para o seu desenvolvimento 
encontra, além de cuidados físicos e nutricionais, um bom vínculo afetivo que 
permite uma ampla organização da arquitetura neuronal, que, embora frágil, torna-
se complexa e fundamental para o desenvolvimento e a aprendizagem do 
indivíduo ao longo da vida. 
Bear, Connors e Paradiso (2017) consideram que uma melhor 
compreensão sobre o desenvolvimento neurocortical da criança permite valorizar 
e caracterizar o papel do ambiente como essencial para a estimulação e para a 
formação de conexões nervosas, que podem propiciar à criança o domínio e a 
compreensão de suas ações, ampliando assim o seu potencial de aprendizagem. 
Price et al. (2018) também abordam como o cérebro vai se constituindo, do 
seu início embrionário até a formação de estruturas complexas, e explicam o modo 
como os neurônios refinam suas ações para a construção das redes neurais. Para 
Price et al. (2018), o processo que envolve a maturação neuronal do bebê deve 
levar em consideração que a estrutura nervosa vai se constituindo em acordo com 
a saúde equilibrada da mãe durante a gestação, além disso orientam que 
possíveis problemas que ocorram nesse período podem afetar as funções 
relacionadas ao desenvolvimento cognitivo e motor da criança, sendo necessário 
uma constante observação em relação aos cuidados com a saúde da mulher. 
5.1 Estrutura cortical na infância 
O bebê possui todo um potencial neurocortical para seu pleno 
desenvolvimento, porém necessita de um ambiente que lhe possibilite aprender 
sobre o que ocorre a sua volta. Ele vai interagindo com seus cuidadores e passa 
a reconhecer características comportamentais das pessoas e diferenciar suas 
ações em relação à mãe, ao pai e aos irmãos. 
Por volta dos dois anos de idade, a criança já possui condições de trabalhar 
no mundo imaginário, pois com o domínio inicial da linguagem, ela passa a agir 
de modo distinto no mundo da fantasia e no mundo real (Biaggio, 2009). 
Especialmente aos três anos, a criança tem uma ampliação da sua 
estrutura linguística, que lhe possibilita entender melhor a realidade e a diferenciar 
suas ideias em relação a como as outras pessoas pensamo mundo. 
Aos seis anos de idade, a criança apresenta uma compreensão adequada 
de seus comportamentos e das regras aplicadas ao seu cotidiano, o que possibilita 
 
 
17 
uma interação regular com os familiares e com outras pessoas no seu entorno 
social (Biaggio, 2009). 
De acordo com Bridi Filho e Bridi (2016), toda a estrutura cortical da criança 
vai amadurecendo à medida que ela vai aprendendo com as experiências do dia 
a dia, sendo que o papel da educação formal se torna essencial nesse processo 
ao estimular a criança na busca de novos conhecimentos, formando novas 
conexões nervosas e redes neurais que irão atuar nos futuros processos de 
aprendizagens. 
5.2 Papel da interação 
A interação desempenha um papel importantíssimo para o 
desenvolvimento da estrutura neurológica da criança, pois a experiência que ela 
vai adquirindo orienta o modo como vai elaborar sua produção cognitiva diante da 
realidade vivida (Casella; Amaro Jr.; Costa, 2011). 
A relação intergeracional permite que a criança aprenda comportamentos 
e culturas com os adultos, ao compartilhar os mais diferentes ambientes. Assim, 
vão se constituindo como sujeitos singulares, compreendendo os valores, as 
rotinas e as orientações que recebem em suas interações. 
A socialização vivida pelas crianças não é um processo passivo; ao 
contrário, é ativo. A atividade da criança se revela na curiosidade, no interesse e 
na busca pelo conhecimento, cabendo ao adulto o papel de estimular para que 
esse interesse se mantenha e se expanda para outros domínios do saber 
produzido pela humanidade. 
A criança interage desde o seu nascimento com o mundo externo e já está 
convivendo em uma relação social e cultural, contudo é dependente da qualidade 
de intervenção do meio. A rede social em que a criança surge deve propiciar-lhe 
as boas condições de estimulação para que o desenvolvimento físico e mental 
possa ocorrer em toda a sua potencialidade (Campos, 2014). 
5.3 Papel da educação nos anos iniciais 
A criança vive em um ambiente em que a educação informal acontece 
regularmente, entretanto, para um desenvolvimento mais amplo, a criança 
necessita do acesso à educação formal dirigida para o domínio que envolve o 
conhecimento científico. O que se busca com a educação formal é a estimulação 
 
 
18 
dos processos neurocognitivos da criança, para que ela possa alcançar o 
pensamento hipotético-dedutivo. 
A educação formal deve levar em conta a ludicidade, a brincadeira e o jogo, 
como alternativas pedagógicas de aprendizagem e desenvolvimento infantil. 
Através dessas atividades, a criança vai se envolvendo com processos 
elaborados que envolvem a imaginação, a criatividade e a produção de novos 
questionamentos sobre a realidade (Cosenza; Guerra, 2011). 
O conhecimento científico vai gerando novos caminhos, novas análises e 
novas sínteses, fazendo com que a criança comece a trabalhar com o 
planejamento de suas ações e com a elaboração argumentativa em relação ao 
que pretende realizar. 
A educação escolar gera na criança a necessidade de trabalhar com 
regras, as quais vão conduzindo à compreensão de como a realidade se constitui 
e à necessidade de adaptação e superação constantes para que a aprendizagem 
se produza e reproduza ao longo da vida. A escola ensina que, diante de uma 
dificuldade de aprendizagem, é fundamental compreender onde a fragilidade se 
situa, pois a criança tem o potencial de superá-la por meio de uma boa orientação 
e de uma boa aprendizagem. 
 
 
 
 
19 
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