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Farmacologia Aplicada Turma 106 Letícia Iglesias Jejesky 1 Cefalosporinas Cephalosporium acremonium – isolado em 1948, por Giuseppe Brotzu No mar próximo a uma saída de esgoto na costa da Sardenha Os filtrados não purificados das culturas desse fungo inibiam o crescimento in vitro do S. aureus. Curavam infecções estafilocóccicas e Febre Tifóide Cefalosporinas P, N e C no líquido. Como tinha na penicilina, as cefalosporinas também tinham as naturais – que também eram determinadas por letra. Atualmente não se justifica manter o uso de nenhuma cefalosporina natural pois já não tem atividade. Ou seja, todas as cefalosporinas usadas hoje em dia são compostos semissintéticos. Isolamento do núcleo ativo – ácido 7- aminocefalosporânico + Acréscimo de cadeias laterais = compostos semissintéticos muito mais ativos que a substância original. Cefamicinas são semelhantes só muda um grupo químico (metoxi). O início do uso das penicilinas era somente para as bactérias gram+, tratando infecções por estafilos e estreptos. A cefalosporina tem uma diferença, pois desde o início do seu uso ela tem capacidade de atuar contra bactérias gram-. Um antibiótico que é relativamente estável em ácidos tem como vantagem permitir a administração por via oral (ele não é inativado no estômago por conta do baixo pH estomacal). As cefalosporinas de primeira e segunda geração tem compostos que permitem a administração por via oral. Um antibiótico hidrossolúvel tem a capacidade de atravessas os canais de porina – relembrando a aula passada o gram negativo tem na sua membrana externa com canais de porina. A membrana externa dos gram negativos só permite a entrada do antibiótico se ele for uma molécula hidrossolúvel que atravessa os canais de porina – isso explica porque desde o início a cefalosporina tem atividade contra bactérias gram-. De modo geral as cefalosporinas são naturalmente mais resistentes às beta-lactamases do que as penicilinas. Tanto que quase não vemos cefalosporinas associadas a inibidor de beta- lactamase. Classificação – Gerações Quanto maior a geração, maior a quantidade de bactérias que o antibiótico é capaz de cobrir. Ampliar a geração = ampliar o espectro Ceftazidima é a única cefalosporina pode vir com inibidor de beta-lactamase (ceftazidima+ avibactam). Apesar de estar na terceira geração, a Ceftazidima tem espectro de quarta geração. As cefalosporinas de primeira geração cobrem basicamente estafilos (desde que sejam sensíveis a meticilina) e espreptos. As cefalosporinas de segunda geração se mantem a cobertura para estafilos (desde que sejam sensíveis a meticilina) e estreptos. Acrescenta-se a cobertura para gram negativos comunitários. As cefalosporinas da terceira geração tem algumas peculiaridades: Perde a cobertura para estafilos, mesmo os que são sensíveis a meticilina Uma das cefalosporinas de terceira geração é capaz de cobrir gram negativos de origem hospitalar = CEFTAZIDIMA! Principalmente quando está associada ao inibidor de beta- lactamase – apesar de estar na terceira geração, a Ceftazidima tem capacidade de cobertura contra agentes gram- hospitalares Melhora muito a cobertura para o Pneumococo (estrepto). Farmacologia Aplicada Turma 106 Letícia Iglesias Jejesky 2 Cefalosporina de quarta geração volta a cobrir estafilos (desde que sejam sensíveis a meticilina). Cobre também estreptos e gram negativos de origem comunitária. O diferencial é que possui cobertura para gram negativos de origem hospitalar. A quinta geração cobre os MRSA e também o VRSA – a intenção é criar antibiótico capaz de pegar estafilococos resistentes. Na realidade, a quinta geração cobre todas as bactérias gram positivas (mas a intenção de tratar infecções por bactérias estafilos resistentes é o seu diferencial). A quinta geração não é usada de forma empírica – é uma alternativa que fica armazenada por ser um dos poucos antibióticos com capacidade de tratar infecções causas por VRSA. Obs.: quando o estafilo é um MRSA, utilizamos vancomicina como alternativa de tratamento. Porém alguns estafilos são resistentes também vancomicina – são os VRSA. Primeira geração: Normalmente indicada para infecções de pele, tecidos moles e anexos da pele. Também é muito indicada em situações de profilaxia da infecção do sítio cirúrgico pelo germe proveniente da pele. Segunda geração: Continua servindo para pele, anexos, tecidos moles e profilaxia cirúrgica – a limitação é o valor ser mais alto. ITU, infecções do TGI e infecções de via aérea superior Em casos de ITU e no TGI a primeira opção costuma ser a quinolona. Contudo, em gestantes e crianças até 10 anos não podemos utilizar quinolona e as cefalosporinas de segunda geração são uma opção. Terceira geração: Passa a cobrir vias aéreas inferiores e SNC Principais agentes etiológicos do SNC – meningococo, pneumococo, H. influenzae. A ceftazidima tem as mesmas indicações da cefepime – porque mesmo que ela seja de terceira geração o seu espectro é o mesmo das cefalosporinas de quarta geração. Perde espectro para Stafilos e ganha para Pneumococo Quarta geração: Infecções com origem hospitalar – para determinar se a infecção é ou não de origem hospitalar utilizamos o tempo (quando começam após 48hrs de internação – consideração infecção de origem hospitalar). Infecções, que mesmo que venha da comunidade, estão presentes em pacientes imunossuprimidos. Quinta geração: Antibiótico resguardados para infecções causadas por gram positivos multirresistentes Principalmente para VRSA Cobertura para Pneumococo multirresistente Mecanismo de Ação Mecanismo semelhante às Penicilinas Inibem a síntese da parede celular bacteriana Ligam-se à PLPs ou PBPs – todos os beta- lactâmicos se ligam nessa proteína que está na membrana interna da bactéria. Interferem na síntese da parede celular de peptidoglicano via inibição de enzimas envolvidas no processo de transpeptidação. Relembrando: a bactéria gram + tem parede celular composta em grande parte por peptidoglicano e uma membrana interna de lipopolissacarídeos, que é onde está localizado o sítio de ação. O gram – é diferente, pois ele tem uma membrana externa de lipopolissacarídeos, em seguida a camada fina de peptidoglicano e depois uma membrana interna de lipopolissacarídeos. Então, um gram negativo possui uma barreira natural contra a maioria dos antibióticos – que é a membrana externa. Para um antibiótico atravessar a membrana externa de uma bactéria gram negativa, ele precisa ser hidrofílico e pequeno – para que assim ele adentre a membrana externa através dos canais de porinas/aquaporinas. Todos os beta-lactâmicos levam a morte da bactéria por rompimento da parede celular. Portanto, são bactericidas – eles fazem isso de maneira INDIRETA! O primeiro passo é se ligar a PBP/PLP. Após fazer essa ligação, ele inibe as transpetidases – com a inibição dessas enzimas, impede a transpeptização ou ancoramento das moléculas de peptidoglicano. Se o peptidoglicano não faz o ancoramento, acontece a morte da bactéria por ruptura da parede celular. https://pt.wikipedia.org/wiki/Peptidoglicano https://pt.wikipedia.org/wiki/Enzima Farmacologia Aplicada Turma 106 Letícia Iglesias Jejesky 3 Mecanismos de Resistência às Cefalosporinas O principal é a produção de betalactamases – a bactéria produz enzimas que hidrolisam o anel beta-lactâmico As cefalosporinas são indutoras de Betalactamases, particularmente em infecções por Gram – (incluindo Enterobacter e Pseudomonas) Mais indutoras são as de 2ª e 3ª geração As de 4ª geração são indutores Fracos Mecanismos de resistência 1. Beta-lactamases 2. Modificação na bactéria do lugar onde o antibiótico se liga – ou seja, modificaçãodas PBP/PLP – o mais comum é quando a bactéria aumenta o peso molecular dessa proteína de ligação, o que impede que o antibiótico se ligue. 3. Impermeabilidade – esse mecanismo é exclusivo de gram-negativa! A bactéria torna- se incapaz de se ligar nos canais de porinas (há modificação ou não expressão desses canais) – esse mecanismo é muito grave e a bactéria torna-se muito patogênica. Quando temos infecções por bactérias com esse mecanismo de resistência, só conseguimos utilizar uma classe de antibióticos – as polimixinas, pois essa classe atua diretamente da membrana (dissolve lipídeo de membrana, atuando como um detergente) e não precisa se ligar nos canais de porina. 4. Bomba de efluxo – esse mecanismo não tem tanta importância em beta-lactâmicos, porque esses antibióticos não precisam adentrar a célula bacteriana para ter efetividade no mecanismo de ação. A Klebsiella hoje em dia entra na classificação como uma bactéria de perfil gram negativo hospitalar por conta da sua resistência – por isso usa-se cefalosporinas de quarta geração. Características Gerais São estáveis em meio ácido – permite administração e fácil absorção por via oral. As cefalosporinas de 1ª e 2ª geração tem drogas em comprimido e em suspensão oral. A partir da 3ª geração já não tem mais drogas orais. O Ceftriaxona tem venoso e IM – a grande indicação para IM é a gonorreia. Têm rápida absorção VO Podem ser administradas VO, IV e IM São excretadas pelo rim sem processo de metabolização (Exceto Cefpiramida e Cefoperazona) – não sofre processo de biotransformação. Os fármacos que não tem processo metabólico são seguros e tem pouca interação medicamentosa. Boas concentrações liquórica e intraocular – essa é uma diferença importante entre penicilinas e cefalosporinas. Por ter uma boa concentração liquórica, uma cefalosporina de 3ª geração é usada para tratamento de meningoencefalites (para concentração liquórica tem que aumentar a dose). As cefalosporinas deixam de ter como opção a VO (via oral). O Ceftriaxona tem IM e IV. A partir da Ceftazidima só passa a ter drogas IV. Farmacologia Aplicada Turma 106 Letícia Iglesias Jejesky 4 Lembrando: Cefalosporinas de 1ª geração: ativos contra estafilos desde que sejam sensíveis a meticilina (oxacilina) e contra estreptos. Cefalosporinas de 2ª geração: boa atividade para gram + e cobre gram- de origem comunitária. Cefalosporinas de 3ª geração: perde atividade antiestafilocócica, mas ganha atividade antiestreptocócica (principalmente contra o pneumococo) – por isso que na terceira geração, ao ter atividade contra pneumococo, ganha cobertura para o SNC e o trato respiratório inferior. Não podemos esquecer que a Ceftazidima é uma cefalosporina de 3ª geração com espectro contra Pseudomonas e gram- hospitalares. Cefalosporinas de 4ª geração: volta a cobertura para cocos gram+ incluindo os estafilos sensíveis a meticilina. Amplia espectro contra germes resistentes gram- (como a Pseudomonas) e outros gram- de origem hospitalar. Cefalosporinas de 5ª geração: o objetivo é cobrir germes multirresistentes – MRSA, VRSA e pneumoco resistente as cefalosporinas. Não precisamos gravar posologia e dose. A cefalexina é a cefalosporina mais utilizada por conta da sua fácil distribuição para os pacientes. Ela tem como ponto negativo a sua posologia, que é de 1 comprimido de 6 em 6 horas. O Cefaclor tem formulação BD. Quando o fármaco vem escrito BD, significa que é permitida a administração duas vezes ao dia. As cefalosporinas de 2ª geração têm uma posologia melhor do que as de 1ª, mas possuem valor elevado, o que limita seu uso. O TGI baixo é colonizado por gram negativos, por isso não adianta fazer somente profilaxia cirúrgica de primeira geração. Se tem que cobrir gram negativo que envolve colon e reto por exemplo, a profilaxia deve ser feita com cefalosporina de 2ª geração. Exemplo: colectomia para tratar câncer de sigmoide – uso de cefalosporina de 2ª geração para profilaxia. Otite* – as cefalosporinas de segunda geração são usadas para infecções de vias aéreas superiores. Otite, faringite, laringite, mastoidite – para todas essas infecções as de segunda geração são uma opção, principalmente em pacientes com alergia a penicilina. A pneumonia para ser tratada com segunda geração precisa ser leve. Uma pneumonia mais grave requer internação e uso de antibiótico venoso – nesses casos a cefalosporina de escolha é a de terceira geração. Reações Adversas: Hipersensibilidade – é o mais comum. A alergia verdadeira aos fármacos precisa necessariamente passar pela liberação de histamina e IgE! Anafilaxia, broncoespasmo e urticária Exantema, Febre e Eosinofilia (uso prolongado) Reação Cruzada 1 a 20% - em pacientes que tem alergia a penicilina, 1 a 20% terão alergia a cefalosporina. Não há teste cutâneo Hemólise, Coombs + (quer dizer que produz anticorpo contra as próprias hemácias) Nefrotoxicidade – nefropata temos que ajustar dose, porque é pelo rim que sai a droga Diarreia Trombocitopenia Se a reação a penilicina for leve (exantema, prurido, etc), podemos usar como opção cefalosporinas. Mas se a reação a penicilina for grave (broncoespasmo, insuficiência respiratória, choque), não podemos mais expor esse paciente a nenhum tipo de antibiótico da classe dos beta-lactâmicos. Cefalosporina é um antibiótico que na segunda semana costuma dar febre com eosinofilia – o paciente deve estar acompanhado de sinais clínicos e laboratoriais de melhora para suspeitarmos que essa febre é causada pela cefalosporina.