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PSICOLOGIA E COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL AULA 5 Profª Lucimara do Nascimento Numata 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, vamos demonstrar a importância do estudo sobre o comportamento organizacional para a compreensão de como o comportamento das pessoas influencia o desempenho da organização. Vamos estudar os principais conceitos relacionados ao comportamento organizacional, evidenciando as ciências que contribuíram para a constituição desse tema. Em seguida, apresentaremos os campos de estudo, enfatizando o indivíduo em relação à tarefa, sua interação com o grupo, a distribuição do poder e a determinação de políticas na organização. Por fim, veremos a cultura e o clima organizacional e como eles influenciam o comportamento dos indivíduos no grupo de trabalho, podendo ter um resultado positivo ou negativo. CONTEXTUALIZANDO Você já parou para pensar o quão importante é estudar o comportamento das pessoas como indivíduos e como membros de grupos e de organizações? Considerando que o objetivo do comportamento organizacional é prever, controlar e explicar o comportamento das pessoas, qual a importância para a liderança identificar esses comportamentos nos colaboradores? Vamos explorar essas questões a seguir. TEMA 1 – O QUE É COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL? A psicologia organizacional colaborou para o surgimento do campo de estudo denominado comportamento organizacional (CO), cujo foco é compreender como o comportamento das pessoas afeta o desempenho organizacional nos seguintes aspectos: [...] processo de aprendizagem; motivação e satisfação com o trabalho; personalidade; emoções; percepção; treinamento; liderança; tomada de decisão; avaliação de desempenho; mensuração de atitudes; seleção de pessoal; desenho de cargo e estresse ocupacional. (Robbins; Judge; Sobral, 2010, p. 8) Além da psicologia, o campo de estudo do CO contou com a contribuição da sociologia, que estuda as pessoas em relação aos ambientes sociais e culturais, e da antropologia, que estuda as sociedades. Na figura a seguir, demonstramos de que forma essas ciências contribuíram para o estudo do comportamento organizacional. 3 Figura 1 – Ciências que contribuíram para o estudo do comportamento organizacional Ciência social Contribuição Unidade de análise Resultado Psicologia Aprendizagem Motivação e satisfação Personalidade Emoções Percepção Treinamento Liderança Tomada de decisão Avaliação de desempenho Mensuração de atitudes Seleção de pessoal Desenho de cargo Estresse ocupacional Indivíduo Psicologia Social Mudança de comportamento Mudança de atitude Comunicação Processos grupais Tomada e decisão em grupo Comunicação Poder e conflitos Comportamento Intergrupal Grupo Comportamento Organizacional Sociologia Teoria da organização formal Tecnologia Organizacional Mudança organizacional Cultura organizacional Valores comparativos Atitudes comparativas Análise de cruzamentos das culturas Sistema organizacional Antropologia Cultura organizacional Ambiente organizacional Poder Fonte: elaborado com base em Robbins; Judge; Sobral, 2010. Robbins, Judge e Cabral (2010, p. 9) questionam como seria possível compreender os sentimentos e as motivações de indivíduos e grupos para tentar 4 prever seus comportamentos. Embora existam conclusões baseadas no senso comum – as quais têm a sua relevância –, os autores defendem que as explicações a respeito do comportamento e das atitudes das pessoas no cotidiano do trabalho devem ter como base evidências científicas, se afastando cada vez mais do chamado conhecimento popular. Para os autores, um dos objetivos de uma disciplina de comportamento organizacional é substituir as noções populares, que costumam ser aceitas sem muito questionamento, por conclusões com embasamento científico: [...] livros populares sobre comportamento organizacional costumam ter títulos engraçadinhos e são divertidos de ler, mas passam a impressão de que o trabalho de gerir pessoas é muito mais simples do que na realidade é. Geralmente, baseiam-se nas opiniões pessoais dos autores, e não em pesquisa rigorosa. O comportamento organizacional é um assunto complexo. Existem pouquíssimas afirmações sobre o comportamento humano que podem ser generalizadas para todas as pessoas, em todas as situações. (Robbins, Judge, Sobral, 2010, p. 29) Os autores evidenciam os esforços para posicionarem o CO como uma disciplina científica, cujas explicações se baseiam em evidências coletadas com a utilização de métodos científicos. Dessa forma, busca-se a sistematização das descobertas deste campo de estudo, possibilitando ao profissional que atua nesta área ter segurança para as aplicações práticas sobre o comportamento humano no trabalho. Em um mundo marcado pelas constantes mudanças geradas pelas novas tecnologias, o entendimento sobre as definições do comportamento organizacional é fundamental para que as organizações sejam capazes de enfrentar os desafios contemporâneos. A seguir, veremos como alguns autores definem o CO. Para Wagner e Hollenbeck (2012, p. 5), o CO é um campo de estudo que busca “prever, explicar, entender e modificar o comportamento humano no contexto das empresas”. Para McShane e Von Glinow (2014), o CO é o estudo do que as pessoas pensam, sentem e fazem dentro e ao redor das organizações. Robbins, Judge e Sobral (2010, p. 8), por sua vez, afirmam que o CO tem como objetivo prever e controlar o comportamento das pessoas, a fim de aumentar a eficácia organizacional e aplicar o conhecimento obtido sobre as pessoas, os grupos e o efeito da estrutura sobre o comportamento, para tornar as organizações mais eficazes. Para os autores, 5 [...] o comportamento organizacional investiga os impactos que os indivíduos, os grupos e a estrutura têm sobre o comportamento dentro de uma organização e, em seguida, utiliza esse conhecimento para ajudar as empresas a trabalhar com maior eficácia. Mais especificamente, o estudo do comportamento organizacional enfoca como melhorar a produtividade, reduzir o absenteísmo e a rotatividade, e aumentar a cidadania organizacional e a satisfação no trabalho. (Robbins, Judge, Sobral, 2010, p. 28) Com base nessas definições, é possível concluir que o foco do CO é compreender a ação das pessoas no trabalho e como seus comportamentos afetam o desempenho organizacional – o conhecimento propiciado pelo CO geraria benefícios para as pessoas e as empresas. 1.1 A importância do conhecimento do CO para os gestores Sobre a importância do conhecimento gerado pelo comportamento organizacional para profissionais e empresas, McShane e Von Glinow (2014) afirmam que o CO permite uma atuação mais eficaz com as pessoas, gerando qualidade de produtos e serviços e um desempenho financeiro satisfatório. Ainda com relação à importância do CO para gestores, Robbins, Judge e Sobral (2010) afirmam que: [...] o estudo do comportamento organizacional oferece contribuições específicas para que os gestores aperfeiçoem suas habilidades interpessoais. Ele ajuda os administradores a perceber o valor da diversidade da mão de obra e quais práticas precisam ser modificadas quando se opera em diferentes países. Este estudo pode melhorar a qualidade e a produtividade dos funcionários, mostrando aos administradores como dar autonomia ao seu pessoal e como elaborar e implementar programas de mudanças, melhorar o atendimento ao cliente e ajudar os funcionários a equilibrar vida pessoal e profissional. O comportamento organizacional fornece sugestões para ajudar os gestores a enfrentar a escassez crônica de trabalho. Pode ajudá-los a lidar com um mundo de temporariedades e aprender formasde estimular a inovação. Por fim, o comportamento organizacional pode oferecer a eles orientação para criar um ambiente de trabalho eticamente. (Robbins, Judge, Sobral, 2010, p. 28) Os ganhos conjugados em produtividade para a organização e ganhos em qualidade de vida para os funcionários revelam o quanto o conhecimento, entendimento e aplicação dos estudos do comportamento organizacional é imprescindível para os gestores. 6 TEMA 2 – COMPORTAMENTOS VISÍVEIS E NÃO VISÍVEIS NAS ORGANIZAÇÕES Após o aprofundamento sobre o que é o comportamento organizacional, vamos estudar os comportamentos organizacionais visíveis e invisíveis. Em uma mesma organização, existe uma parte visível e outra não visível em sua constituição e funcionamento. Veremos a importância desse fato para o trabalho do gestor no alcance de resultados por meio das pessoas. A atenção prioritária é o entendimento de como as emoções podem influenciar os resultados organizacionais. Antes, porém, é necessário contextualizar a organização. Kanaane afirma que “a organização é um sistema socialmente estabelecido pelo conjunto de valores expressos pelos indivíduos que dela fazem parte, sendo assimilados e transmitidos sucessivamente pelos membros” (Kanaane, 1999 citado por Mesadri; Pasetto 2012, p. 35). Em outras palavras, se caracteriza como um instrumento social de realização de tarefas em que existe uma rede de significados subjetivos compartilhados pelos membros organizacionais devido à necessidade da relação interpessoal. Bagatini e Persico (2012) revelam que, além dos aspectos aparentes – que se revelam de forma física –, existem aspectos não visíveis ou conscientes para os indivíduos, os quais influenciam diretamente no cotidiano organizacional: O cumprimento de metas e objetivos, o atingimento de resultados, as tarefas, os serviços, a tecnologia, a hierarquia e o controle, a produtividade, a equipe, enfim, todo o funcionamento de uma organização recebe influência permanente daquilo que podemos ver e daquilo que não podemos ver em nosso ambiente. (Bagatini; Persico, 2012, p. 32) Segundo Mesadri e Pasetto (2012), um antigo debate ainda existe dentro das empresas: “o que é mais importante: a organização ou o pessoal?”. Para os autores, a resposta é simples: Nem a mais perfeita organização obterá resultados caso seja conduzida por pessoas incompetentes, nem o mais competente pessoal obterá bons resultados com uma organização defeituosa. A história da administração está repleta de exemplos de quadros de pessoal errados que arruinaram planos organizacionais e de como maus planos organizacionais frustraram quadros excelentes de pessoal. (Mesadri; Passeto, 2012, p. 37) Ao abordar os componentes visíveis e não visíveis presentes nas organizações, que aqui denominamos comportamentos, os autores utilizam a analogia do iceberg organizacional. Icerbeg é uma massa de gelo flutuante que 7 se desprendeu de uma geleira e é levada pelo mar. Eles têm apenas 10% de sua massa visível, boiando acima da linha d’água, e sua maior parte, cerca de 90%, permanece submersa. Dessa forma, somente uma pequena parte do icerberg é visível, sendo a maior parte invisível para quem está fora d’água. As pessoas e as organizações podem ser comparadas aos icebergs no sentido que elas apresentam comportamentos visíveis e invisíveis. A analogia do iceberg é demonstrada na figura 2. Figura 2 – O iceberg organizacional: comportamentos visíveis e invisíveis da organização Crédito: Beatriz Gascon J/Shutterstock. A representação do iceberg revela, para Mesadri e Pasetto (2012, p. 38), a existência, na organização, de uma parte menor, visível e acima da linha d’água, que representa a estrutura física e monetária. A outra parte – maior, não visível e abaixo da linha d’água – representa as relações e inter-relações. Ambas são igualmente importantes, mas não têm o mesmo grau de visibilidade, por isso, se faz necessário o aprofundamento de uma visão sistêmica. Comportamentos visíveis Comportamentos não visíveis 8 Os comportamentos visíveis e não visíveis que se configuram em uma organização em decorrência das relações que se estabelecem são apresentados no quadro a seguir: Quadro 1 – Comportamento visíveis e não visíveis na organização Fonte: Mesadri; Pasetto, 2012. Para Bagatini e Persico (2012, p. 35), o iceberg organizacional demonstra que a parte visível se refere àquilo que é aceito na organização, enquanto a parte submersa seria o não visível ou não aparente – o escuro, a sombra da organização. A parte visível é mais clara e mensurável, pois tem como base o Visíveis: racionais e provenientes de conhecimentos e orientados para tarefas. Estrutura organizacional. Denominação e descrição de cargos. Rede de autoridade formal. Alcance do controle e níveis organizacionais. Objetivos organizacionais estratégicos. Políticas e procedimentos operacionais. Planejamento/sistema de informação. Políticas e procedimentos referentes ao pessoal. Unidades de mensuração referentes à produtividade física e monetária. Não visíveis: emocionalmente criados e orientados, tendo em vista o clima geral e o processo social, psicológico e comportamental da organização. Padrões de poder crescente e de influência. Visão pessoal das competências organizacionais e individuais. Padrões de grupos interpessoais e de relações divisionais. Sentimentos e normas dos grupos de trabalho. Percepção da existência de relacionamentos de confiança. Percepção de abertura e de comportamentos relativos à aceitação de riscos. Percepção do papel individual e dos sistemas de valores. Sentimentos, emoções, necessidades e desejos Unidades de medida para contabilização dos recursos humanos. Relacionamento afetivo entre dirigentes e auxiliares. Comportamentos visíveis e não visíveis da organização 9 desempenho, já a parte não visível tem como base as emoções e o empenho das pessoas. Teóricos alertam para o fato de que os gestores tendem a dar mais atenção ao que é visível, relegando para segundo plano o não visível. Isso é considerado um equívoco, pois esses dois componentes influenciam sobremaneira os resultados obtidos pelas pessoas na execução de seus trabalhos, o que, por consequência, também impacta o desempenho geral das organizações (Mesadri; Pasetto, 2012). Quando a totalidade do iceberg é considerada, ou seja, quando existe um olhar sistêmico para as pessoas e as organizações, é possível consolidar um relacionamento positivo e sustentável entre as partes. TEMA 3 – CAMPOS DE ESTUDO DO COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL A partir de agora, vamos enfatizar o indivíduo em relação à tarefa e sua interação com o grupo, a distribuição do poder e a determinação de políticas na organização, que são denominados respectivamente comportamento micro- organizacional, meso-organizacional e macro-organizacional. Com base em Wagner e Hollenbeck (2012, citado por Mesadri; Pasetto, 2012), estudaremos as três áreas em que o CO vem evidenciando seus estudos. Figura 3 – Campos de estudo do comportamento organizacional Fonte: elaborado com base em Mesadri; Pasetto, 2012. Em uma visão mais ampliada da figura 3, os campos de estudo do comportamento organizacional são assim explicados no quadro a seguir: Organização macro- organizacional Grupo meso- organizacional Indivíduo micro- organizacional Produtividade, motivação, percepção e diferenças individuais. Socialização, liderança e dinâmica dos grupos. Status sociais, poder, conflito, negociação, influência cultural, competição e eficiência. 10 Quadro 2 – Campos de estudo do comportamento organizacional Micro- organizacional – indivíduo Se ocupa em perceber como o homem se comporta enquanto trabalha sozinho nas seguintes questões: Qual a importância das aptidões para o desenvolvimentodas capacidades? O que leva as pessoas a gostarem do que fazem? Por que alguns acham determinada tarefa desafiante e outros a veem como rotineira e insatisfatória? As habilidades apropriadas asseguram que o indivíduo desempenhará satisfatoriamente uma tarefa? Os traços de personalidade são determinantes para o sucesso de um indivíduo em um cargo? A atitude do indivíduo pode interferir na eficiência de sua tarefa? O pensamento é determinante para a tomada de decisão? A forma de decisão pode ser um componente presente na cultura organizacional ? Meso- organizacional – grupo Estuda o comportamento das pessoas que trabalham em equipes e grupos. Procura responder as seguintes questões: Qual a melhor técnica ou ferramenta de sociabilização para incentivar os indivíduos a cooperarem entre si? Como podemos melhorar os índices de produtividade em um grupo de trabalho? Como qualificar um grupo para que ele se torne uma equipe? Quais ferramentas aplicar para a combinação das aptidões dos membros de um grupo? Existe um estilo de liderança que, aplicado a determinado grupo, eleva seu desempenho? Como escolher o melhor estilo de liderança para determinado grupo? Como trabalhar com as forças antagônicas de um grupo? As pessoas participam de um grupo pelos mesmos motivos? 11 O detalhamento do comportamento nos níveis micro, meso e macro- organizacional esclarecem e norteiam sobre as dimensões em que as pessoas demonstram seu comportamento no cotidiano do trabalho. TEMA 4 – PODER E POLÍTICA NAS ORGANIZAÇÕES Quando as pessoas se reúnem em grupos é inevitável que o poder seja exercido em busca do atendimento das necessidades individuais e, para que este objetivo seja atingido, a ação por meio do comportamento político se faz necessária. Trata-se então de uma condição natural da realidade da vida organizacional. Segundo Robbins, Judge, Sobral, (2010, p. 402) o poder é “e a capacidade que A tem de influenciar o comportamento de B, de maneira que B aja de acordo com a vontade de A”. Já para Mesadri e Pasetto (2012, p. 74), o poder é considerado “a capacidade que uma pessoa tem de influenciar o comportamento de outros, o que acaba gerando uma relação de dependência”. Para estes autores, isso acontece pelo fato de que, quando alguém exerce influência sobre o outro, é porque possui algo que este outro deseja ou necessita. Com base nessas definições, as seguintes questões são colocadas: o que determina a influência de um indivíduo sobre o outro ou sobre um grupo? O que está na base de um poder? Macro- organizacional – organização Faz com que entendamos como as organizações distribuem o poder e a política organizacional e quais as consequências dessa distribuição. Os pontos a serem respondidos aqui são: De que forma o poder é adquirido e retido? Como os conflitos podem ser solucionados? Que mecanismos podem ser utilizados para coordenar as atividades de trabalho? Por que existem diferentes formas de estrutura organizacional? O poder se reflete na política organizacional? Uma política pode ser ilegítima? Existe um tipo de poder melhor que outro? A forma de lidar com o poder se reflete na cultura organizacional? 12 French e Raven (1959 citado por Mesadri; Pasetto, 2012, p. 74) distinguem cinco fontes de poder: 1. Poder coercitivo: baseado em sanções físicas e/ou psicológicas. É aquele mais aplicado e conhecido por todos. Depende do medo, pois o indivíduo aceita a influência do outro por medo da punição ou da privação. Se revela na prática de punição dos subordinados com ações disciplinares, demissões ou reduções de salário. São exemplos dois abusos que resultam da prática deste tipo de poder: o assédio moral e assédio sexual. 2. Poder da recompensa: baseado na influência percebida pelo indivíduo em relação ao seu superior da concessão de recompensas, promoções, aumento de salário, bônus e elogios. O indivíduo aceita a influência do outro porque este possui algo que ele deseja. Quanto mais o indivíduo deseja o que o outro possui, maior será o poder de influência que o outro poderá exercer sobre ele. 3. Poder legítimo: baseado no cargo ocupado conforme a hierarquia da empresa. A influência é exercida pela nomenclatura do cargo ocupado, por exemplo, gerente, supervisor, encarregado, líder, enfim, todos os cargos que possuem um grau de autoridade sobre o outro. 4. Poder de competência/ experiência: baseado no conhecimento e na especialidade técnica. A influência se dá pelo reconhecimento dos subordinados do talento, competência e conhecimento técnico do líder. 5. Poder de referência: baseado na identificação, admiração e sentimento positivo que os subordinados demonstram pelo líder. A influência está no carisma que o líder detém e que é reconhecido pelos subordinados. As pessoas desejam ser como o líder. As organizações das mais diversas naturezas diferem no tipo de poder concedido aos indivíduos em cargos de liderança, assim, qualquer um dos cinco tipos de poder pode ser eficaz se exercido de maneira coerente pela liderança. Voltamo-nos agora para o entendimento das políticas que fazem parte das organizações, pautado no conhecimento sobre a influência como fato concreto no exercício dos tipos de poder. Como vimos, o uso do poder é um meio para influenciar as decisões organizacionais por parte dos indivíduos que buscam satisfazer suas necessidades. 13 Para Mesadri e Pasetto (2012, p. 79), “as políticas nada mais são do que o poder colocado em prática”, ou seja, quando os funcionários traduzem o seu poder em ações concretas, eles estão fazendo política. Esta ação depende das habilidades políticas do indivíduo para exercer as bases de poder de maneira eficaz. Estas habilidades são reveladas no que Robbins, Judge e Sobral (2010, p. 414) denominam comportamento político: “atividades que não são requeridas como parte do papel formal na organização, mas que influenciam, ou tentam influenciar, a distribuição de vantagens dentro dela”. Para tais autores, este comportamento político pode ser exercido de duas formas: 1. Comportamento político legítimo: se refere à política normal do dia a dia traduzida em ações como reclamar com o chefe; ultrapassar a cadeia de comando; formar coalizões; obstruir políticas ou decisões organizacionais por meio da inação ou de apego excessivo às regras; desenvolver contatos fora da empresa por meio das atividades profissionais. 2. Comportamento político ilegítimo: se refere à ação que viola as regras estabelecidas, incluindo sabotagens; denúncias de colegas; protestos simbólicos em forma, por exemplo, do uso de roupas inadequadas ou bótons de protesto e grupos de funcionários que faltam ao trabalho todos no mesmo dia. São ações extremas que trazem risco à empresa, de modo que as pessoas que o exercem geralmente estão sujeitas a sanções e até demissão. Concluímos que tanto os fatores individuais quanto os fatores organizacionais influenciam na manutenção da política, seja a legítima (política normal do dia a dia), seja a ilegítima (aquelas que violam as regras implícitas). O poder político e os valores compartilhados e reforçados são a base da cultura organizacional, assunto que será tratado no próximo tema. TEMA 5 – CULTURA E CLIMA ORGANIZACIONAL Neste tema, discorreremos sobre a cultura organizacional e como esta influencia o comportamento dos indivíduos, em específico, no grupo de trabalho. Veremos ainda como a soma de todas as condições das satisfações e/ou insatisfações do indivíduo é o elemento gerador do clima organizacional, podendo este ser positivo ou negativo. 14 5.1 Cultura organizacional Encontramos na literatura um número bastante expressivo de definições sobre a cultura organizacional. Apresentaremos no quadro 3 as definições cientificamente reconhecidas para que você tenha um horizonte mais amplo sobre a temática: Quadro 3 – Definiçõesde cultura organizacional Para Becker (1982, citado por Mesadri; Pasetto, 2012, p. 89): “refere-se a um sistema de significados partilhados mantido por seus membros que distingue a organização de outras organizações”. Para Robbins, Judge e Sobral (2014, p. 501): “é um sistema de valores compartilhados pelos membros de uma organização que a diferencia das outras”. Para Schein (1985, citado por Mesadri; Pasetto, 2012, p. 89): “é o conjunto de pressupostos básicos que um grupo inventou, descobriu ou desenvolveu ao aprender como lidar com problemas de adaptação externa e integração interna e que funcionaram bem o suficiente para serem considerados válidos e ensinados a novos membros como a forma correta de perceber, pensar e sentir em relação a esses problemas”. A definição de Schein revela que a cultura reflete as escolhas compartilhadas ao longo do tempo pelos membros e lideranças do grupo, sendo moldada para a resolução dos problemas, alcance dos objetivos, estabelecimento de regras, normas e controle e muitos outros aspectos que compõem a estrutura organizacional. Robbins, Judge e Sobral (2014, p. 504) reforçam esta linha ao abordar as funções que a cultura desempenha na estrutura organizacional: • Define fronteiras, ao criar distinções entre uma organização e outras. • Proporciona sentido de identidade aos membros, dando o sendo de pertencimento a cada indivíduo. • Facilita o comprometimento com algo além dos interesses individuais de cada um. • Estimula a estabilidade do sistema social, fornecendo padrões adequados de comportamento para manter a organização coesa. 15 • Sinaliza sentidos e mecanismos de controle sobre os comportamentos e atitudes dos funcionários, ou seja, “a cultura define as regras do jogo”. Os estudiosos destacam a importância do papel do(s) fundador(es) da empresa na modelagem dos padrões culturais, já que eles trazem ideologias e restrições de costumes e compartilham-nas (crenças) com aqueles que vieram depois, na condição de empregados, e que, portanto, compartilham dos sonhos iniciais da empresa (Mesadri; Pasetto, 2012). De acordo com Schein (1984 citado por Mesadri e Pasetto, 2012, p. 89), existem três níveis por meio dos quais a cultura pode ser apreendida: • Artefatos visíveis: estrutura física (layout); comportamento e vestuário das pessoas; tabus, que possuem a função de orientar comportamentos e atitudes, principalmente aquelas proibitivas ou não aceitas. • Valores compartilhados: no cerne da cultura existe um conjunto de normas e valores fundamentais compartilhados que moldam os comportamentos e as atitudes dos membros. • Pressupostos básicos: normalmente mantidos no nível do inconsciente, são valores que determinam comportamentos, como as pessoas devem perceber, sentir e pensar ante os problemas e a maneira adequada de solucioná-los. Cabe destacar que tais níveis são dinâmicos e interagem entre si, portanto, não devem ser avaliados de forma estanque. Outro aspecto fundamental acerca da cultura organizacional é a forma como ela pode ser transmitida de maneira que haja a internalização por seus membros. Focaremos nos elementos considerados poderosos para esta transmissão (Robbins; Judge; Sobral, 2010, p. 513): • Cerimônias: eventos que reúnem os membros da organização para reverenciar funcionários que se destacaram pelo desempenho. • Rituais: são ações repetidas em forma de cerimônias que reforçam os valores e as normas que são fundamentais para a organização. • Histórias: são narrativas de acontecimentos ocorridos no passado da organização, as quais estão presentes na memória dos funcionários que vivenciaram esses fatos, narrados com emoção. 16 • Mitos: são histórias imaginárias que servem para explicar acontecimentos que podem possuir um fundo de verdade. Por exemplo, o mito do estagiário que se tornou superintendente da empresa. • Símbolos: são objetos, ações ou eventos que representam significados especiais. Por exemplo: logomarcas, bandeiras, bótons, veículos, vagas destacadas no estacionamento, escritório com decoração diferenciada e, muitas vezes, ostensiva. • Linguagem: é o modo como se dá a comunicação, a forma com que os funcionários dialogam uns com os outros, como se referem aos clientes e aos gestores, como expressam seus sentimentos, entre outros, caracterizando assim símbolos verbais dos valores culturais. 5.2 Clima organizacional Quando alguém questiona sobre como é o clima na empresa em que você trabalha, certamente a sua resposta contemplará elementos relativos ao ambiente de trabalho. O clima organizacional refere-se a “percepções comuns que os funcionários de uma organização têm com relação à empresa e ao ambiente de trabalho” (Robbins; Judge; Sobral, 2010, p. 505). Em outra definição, Coda define que: o clima é o indicador do grau de satisfação dos membros de uma empresa, em relação a diferentes aspectos da cultura ou realidade aparente da organização, tais como políticas de recursos humanos, modelo de gestão, missão da empresa, processo de comunicação, valorização profissional e identificação com a empresa. (Coda, 1997 citado por Luz, 2009, p. 11) O clima organizacional é uma consequência dos fatores psicológicos individuais relacionados à percepção, satisfação no trabalho, comprometimento e motivação, além dos fatores externos, no caso, os elementos da cultura organizacional. Essas percepções que os empregados têm se tornam tangíveis por meio das ações que são tomadas nas empresas, as quais podem gerar satisfações e insatisfações no grupo que, quando vistas em conjunto, passam a representar o clima daquela instituição. O clima influencia o comportamento das pessoas, de maneira que pode ser percebido ou experimentado pelos membros, estando relacionado aos aspectos motivacionais oriundos do ambiente da organização. De um lado, o clima organizacional pode satisfazer necessidades pessoais, elevando, 17 consequentemente, a moral; de outro, pode ser desfavorável e causar frustações às pessoas pela não satisfação de suas necessidades (Mesadri; Pasetto, 2012). Existem vários indicadores de clima organizacional que podem ser levantados pela utilização de diversos instrumentos, especialmente pela pesquisa (Luz, 2009): rotatividade (turnover); absenteísmo (ausência no trabalho); greves; conflitos interpessoais e interdepartamentais; queixas no serviço médico etc. Na literatura atual, os indicadores podem ser as reclamações trabalhistas, a comunicação interna e a visibilidade da empresa. Considerando que o clima se refere ao estado de ânimo dos funcionários de uma organização em dado momento e que a cultura é resultado de práticas de longo prazo (Luz, 2009), concluímos que a cultura origina o clima no ambiente de trabalho. NA PRÁTICA Com base no conteúdo exposto, reflita sobre a seguinte questão: entender o comportamento organizacional é fundamental para a dinâmica de manutenção e melhoria da gestão de pessoas? Para aplicar o conhecimento na prática, propomos a leitura do seguinte artigo: • SIQUEIRA, M. M. M. Medidas do comportamento organizacional. Revista Estudos de Psicologia, Campinas, n. 7, p. 11-18, 2002. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/epsic/v7nspe/a03v7esp.pdf>. Acesso em: 13 mai. 2020. Após a leitura do artigo, escreva um texto com as principais conclusões da sua análise sobre os estudos acerca da utilização de instrumentos de medição do comportamento organizacional. A seguir, apresentamos argumentos para você embasar seu texto. A importância da produção científica acerca de instrumentos de medição do comportamento organizacional é evidenciada no artigo pela variedade de propostas apresentadas pela autora. Mesmo diante da falta de discussões acadêmicas mais consistentes sobre o tema – as normas para aferição de variáveis –, a pesquisa segue consistente nestesentido. Evidencia-se também a necessidade de integração entre as disciplinas com este novo campo de conhecimento. Os instrumentos de medida do CO devem 18 se adaptar às mudanças que ocorrem no contexto da organização de maneira que, além de válidas e precisas, sejam também detentoras de sintonia com a atualidade das atividades organizacionais. FINALIZANDO Nesta aula, discorremos sobre como o estudo do comportamento humano é essencial para a organização, pois se ela souber lidar com os fenômenos comportamentais poderá obter resultados positivos em seu mercado de atuação. Os gestores podem utilizar, de forma prática, os conhecimentos e ferramentas, entre elas os instrumentos de medida do CO, para a gestão eficaz das pessoas. Os comportamentos positivos e negativos das pessoas em grupo, que se apresentam na realidade das empresas, são atitudes que influenciam para um clima organizacional harmonioso, condição esta gerada pela cultura organizacional. 19 REFERÊNCIAS BAGATINI, B.; PERSICO, N. Comportamento humano nas organizações. Curitiba: InterSaberes, 2012. LUZ, R. Gestão do clima organizacional. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2009. MESADRI, F. E.; PASETTO, N. V. Comportamento organizacional: integrando conceitos da administração e da psicologia. Curitiba: InterSaberes, 2012. MCSHANE, S. L; GLINOW, M. A. V. Comportamento organizacional: conhecimento emergente, realidade global. 6. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. ROBBINS, S. T., JUDGE, T. A., SOBRAL, F. Comportamento organizacional: teoria e prática no contexto brasileiro. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010. WAGNER, J. A.; HOLLENBECK, J. R. Comportamento organizacional: criando vantagem competitiva. 3.ed. São Paulo: Saraiva, 2012.