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IANI SOARES LUZ XIII – MED APG 10 – Hiper e hipoparatireoidismo Morfofisiologia paratireoide Parcialmente incrustadas na face posterior dos lobos direito e esquerdo da glândula tireoide, encontramos várias pequenas massas de tecido arredondadas chamadas de glândulas paratireoides. Cada uma pesa cerca de 40 mg (0,04 g). Em geral, uma glândula paratireoide inferior e uma superior estão fixadas em cada lobo da tireoide, em um total de quatro. Histologia - Microscopicamente, as glândulas paratireoides contêm dois tipos de células epiteliais. - As células mais numerosas, chamadas de células principais, produzem o paratormônio (PTH). - A função do outro tipo de célula, chamado de célula oxifílica, não é conhecida na glândula paratireoide normal. No entanto, sua presença ajuda a identificar com clareza a glândula paratireoide do ponto de vista histológico devido às suas características únicas de coloração. - Além disso, no câncer de glândulas paratireoides, as células oxifílicas secretam PTH em excesso. IANI SOARES LUZ XIII – MED Fisiologia - Paratormônio: O paratormônio é o principal regulador dos níveis de cálcio (Ca 2+ ), magnésio (Mg 2+ ) e fosfato (HPO4 2– ) no sangue. A ação específica do PTH é aumentar a quantidade e a atividade dos osteoclastos. - O resultado é reabsorção óssea acentuada, o que libera cálcio (Ca 2+ ) e fosfatos (HPO4 2– ) no sangue. - O PTH também atua nos rins. Primeiro, retarda a perda de Ca 2+ e Mg 2+ do sangue para a urina. - Em segundo lugar, acentua a perda de HPO4 -2 do sangue para a urina. Uma vez que mais HPO4 -2 é perdido na urina do que ganho dos ossos, o PTH diminui o nível sanguíneo de HPO4 -2 e eleva os níveis sanguíneos de Ca 2+ e Mg 2+ . - Um terceiro efeito do PTH sobre os rins é a promoção da formação do hormônio calcitriol, que consiste na forma ativa da vitamina D. - O calcitriol, também conhecido como 1,25di- hidroxivitamina D3 , aumenta a taxa de absorção sanguínea de Ca 2+ , HPO4 2– e Mg 2+ no sistema digestório. Controle da secreção da calcitonina e do paratormônio - O nível sanguíneo de cálcio controla diretamente a secreção de calcitonina e paratormônio por meio de alças de feedback negativo que não envolvem a glândula hipófise - O nível sanguíneo de íons cálcio (Ca 2+ ) acima do normal estimula as células parafoliculares da glândula tireoide a liberarem mais calcitonina. - A calcitonina inibe a atividade dos osteoclastos, diminuindo, dessa forma, o nível sanguíneo de Ca 2+ - O nível sanguíneo de íons cálcio (Ca 2+ ) abaixo do normal estimula as células IANI SOARES LUZ XIII – MED principais da glândula paratireoide a liberarem mais PTH. - O PTH promove a reabsorção de matriz óssea extracelular, o que libera Ca 2+ no sangue e retarda a perda de Ca 2+ na urina, elevando o nível de Ca 2+ no sangue. IANI SOARES LUZ XIII – MED Hiperparatireoidismo primário - O hiperparatireoidismo primário (HPTP),distúrbio que resulta da hipersecreção do hormônio da paratireoide ou paratormônio (PTH). Epidemiologia - É a causa mais comum de hipercalcemia diagnosticada ambulatorialmente. - Pode ocorrer a qualquer tempo, porém é mais frequente entre os 40 e 65 anos de idade. - Mostra-se pouco comum na adolescência e, menos ainda, na infância. - Predomina no sexo feminino, em uma proporção de aproximadamente 3:1. Etiologia e fisiopatologia - Principais etiologias: - Adenomas solitários das paratireoides (85 a 90% dos casos de HPTP); • O oncogene ciclina D1 (PRAD1) está exageradamente expresso em 20 a 40% dos casos de adenomas paratireóideos esporádicos e em uma proporção ainda maior de carcinomas. • A expressão aumentada da ciclina D1 (e outras isoformas da ciclina D) aumenta a transcrição de múltiplos genes necessários para a síntese do DNA e a progressão do ciclo celular. - Hiperplasia; - Adenoma duplo; - Carcinoma (menos de 1% dos casos de HPTP). • A etiologia do carcinoma de paratireoide é desconhecida; entretanto, o recém descoberto gene HRPT2 tem sido implicado em sua patogênese. • Esse gene é um supressor tumoral, está localizado no cromossomo 1q21- q31 e codifica uma proteína denominada parafibromina. Síndromes de hiperparatireoidismo familiar - Cerca de 10% dos casos de HPTP correspondem a tipos de hiperparatireoidismo familiar que podem surgir isoladamente ou associar-se a doenças endócrinas hereditárias autossômicas dominantes, como: • Neoplasias endócrinas múltiplas tipo 1 (MEN-1): Consiste primariamente em tumores ou hiperplasia de paratireoide, adenomas hipofisários e neoplasias pancreáticas. Ela relaciona-se a apenas 2 a 4% dos casos de HPTP; • Neoplasias endócrinas múltiplas tipo 2A (MEN-2A): Caracteriza-se por carcinoma medular da tireoide, feocromocitoma e HPTP; • Neoplasias endócrinas múltiplas do tipo 4 (MEN-4): Causada por mutações germinativas no gene CDKN1B e tem como manifestações mais frequentes os adenomas paratireóideos e hipofisários. • Síndrome do hiperparatireoidismo– tumor de mandíbula (HTM): Resulta de mutações no gene HRPT2, que codifica a parafibromina, e caracteriza- se por tumores de paratireoides e fibromas ossificantes da mandíbula. IANI SOARES LUZ XIII – MED • Hipercalcemia hipocalciúrica familiar (FHH)/Hipercalcemia benigna familiar: Responde por cerca de 2% dos casos assintomáticos de hipercalcemia. - Trata-se de uma síndrome geneticamente heterogênea, de transmissão autossômica dominante, que resulta de mutações de perda de função em 3 genes distintos (CASR, GNA11 e AP2S1). Manifestações clínicas - HPTP clássico: Associava-se à nefrolitíase e à doença óssea (osteíte fibrosa cística). - Forma assintomática do HPTP: Caracteriza-se pela ausência de envolvimento ósseo e renal, porém muitos pacientes podem apresentar sintomas vagos ou inespecíficos, como astenia, cansaço fácil, depressão, transtornos da memória, etc. Manifestações renais: • Nefrolitíase recorrente é a manifestação renal mais característica do HPTP; • Perda gradativa da função renal e, mais raramente, nefrocalcinose podem também ocorrer. Manifestações ósseas: • Maior perda de osso cortical do que trabecular; ◦ Isso ocorre em função de o PTH ter ação catabólica no esqueleto apendicular (sobretudo nos terços médio e distal do rádio) e ação anabólica no esqueleto axial (vértebras). • Dores ósseas (de intensidade e localização variáveis), fraturas patológicas e fraqueza muscular (geralmente proximal) são as queixas mais frequentes relacionadas à doença óssea; • Deformidades e comprometimento progressivo da deambulação também podem ocorrer; • Osteíte fibrosa cística; ◦ O achado radiológico mais sensível e específico é a reabsorção óssea subperiosteal, mais bem evidenciada nas falanges e porções distais das clavículas. • Osteopenia generalizada (nos casos mais graves), desmineralização “em sal e pimenta” do crânio e os tumores marrons ou osteoclastomas. ◦ Estes tumores representam um processo reativo não neoplásico, devido a reabsorção óssea e lesão óssea localizada, induzido pelo PTH; ◦ Seu nome deriva de seu aspecto marrom-avermelhado decorrente de micro-hemorragias e deposição de hemossiderina; ◦ Esses tumores ocorrem mais frequentemente na pelve, em ossos longos e na clavícula, mas podem também acometer a maxila, a mandíbula, as costelas e o crânio.Manifestações cardiovasculares: • HAS, hipertrofia ventricular esquerda, doença arterial coronariana, calcificações valvulares e miocárdicas, além de anormalidades nas funções cardíaca e vascular; • Dislipidemia, caracterizada por diminuição da fração de colesterol IANI SOARES LUZ XIII – MED ligada à lipoproteína de alta densidade (HDL-c) e aumento dos triglicerídeos, também foi relatada. - Manifestações psiquiátricas: • Depressão e ansiedade; • Fadiga, perda de memória, dificuldade de concentração, irritabilidade, somatização, bem como transtornos do humor e do sono. Outras manifestações clínicas: • Doença ulcerosa péptica e pancreatite; • Devido à hipercalcemia, podem também ocorrer poliúria, polidipsia, prurido e alterações gastrintestinais (anorexia, constipação intestinal e, nos casos graves, náuseas/vômitos); • Calcificações ectópicas (pulmões, rins, artérias e pele) e ceratopatia em banda são raras, e neuropatia periférica é mencionada ocasionalmente; • Manifestações articulares incluem condrocalcinose (com ou sem ataques agudos de pseudogota), erosões justarticulares, fraturas subcondrais, sinovites traumáticas e gota úrica. Baqueteamento digital pode estar presente nos casos mais graves. Crise hipercalcêmica/Crise paratireoidea: - Emergência médica e se caracteriza por hipercalcemia muito grave (cálcio sérico > 14 mg/dL. Esta situação é mais frequente em pacientes com carcinoma paratireóideo do que com adenomas. • Os sinais e sintomas mais usuais incluem desidratação (decorrente de poliúria e vômitos), arritmias cardíacas e sintomas neurológicos variando de sonolência e confusão mental a estupor e coma. • Níveis de cálcio sérico > 15 a 16 mg/dL implicam risco aumentado de coma, fibrilação ventricular e parada cardíaca. Hiperparatireoidismo primário normocalcêmico (HPTPN): - Elevação dos níveis séricos do PTH, pelo menos em 2 ocasiões, associada a valores do cálcio sérico persistentemente normais, na ausência de causas secundárias de elevação do PTH. • Por definição, cálcio ionizado, 25(OH) vitamina D (25-OHD), excreção urinária de cálcio e função renal precisam estar normais, para diferenciar o HPTPN do hiperparatireoidismo secundário. Diagnóstico - Dosagem sérica de cálcio (urina de 24 h), fósforo, albumina, fosfatase alcalina, PTH intacto, 25-OHD e creatinina: • PTH elevado (± 90% dos casos); • Cálcio sérico elevado (± 90% dos casos) ou normal; • Hipercalciúria; • Fósforo sérico baixo (25 a 50%) ou normal; • Fosfatase alcalina, osteocalcina e cAMP urinário elevados; • Acidose metabólica hiperclorêmica (eventualmente); ◦ Hipercloremia e diminuição do bicarbonato sérico são achados úteis na diferenciação entre HPTP e outras causas de hipercalcemia. • Hipomagnesemia (eventualmente); IANI SOARES LUZ XIII – MED ◦ Reabsorção tubular de magnésio, ainda que estimulada pelo PTH, é inibida pela hipercalcemia. • Anemia (± 50%) e VHS aumentada. Investigação óssea radiológica: Pode-se encontrar: reabsorção óssea subperiosteal (falanges, clavículas, etc.); aspecto em “sal e pimenta” do crânio; lesões osteolíticas (tumores marrons); perda da lâmina dura dos dentes; osteopenia/fraturas vertebrais, etc.; nefrolitíase, nefrocalcinose; e condrocalcinose (em até 10%). – Densitometria óssea em coluna, fêmur proximal e rádio (terço distal): Pode-se encontrar osteopenia ou osteoporose (predominantemente, em osso cortical). - Cintilografia óssea: Pode-se encontrar áreas de hipercaptação focal ou difusa. - Pesquisa de litíase renal: Preferencialmente por meio de US, mesmo em pacientes assintomáticos ou com HPTPN. - Exames para identificação das lesões paratireoideas em casos de HPTP: • Ultrassonografia cervical: Deve ser realizada em todo paciente com diagnóstico laboratorial de HPTP. Ela é eficaz, barata e não invasiva; ◦ Desvantagens: Operador- dependente e dificuldade na distinção entre adenomas paratireóideos intratireoidianos e nódulos tireoidianos. • Cintilografia com 99Tc-sestamibi: É classicamente considerada o exame padrão ouro; • Dosagem do PTH no aspirado de PAAF: Em adenoma paratireóideo, os valores de PTH não raramente excedem 4.000 a 5.000 pg/mL; • Tomografia computadorizada e ressonância magnética: Podem ocasionalmente também ser úteis na localização das paratireoides, quando os procedimentos já mencionados não forem conclusivos; ◦ RM com contraste pode ser particularmente apropriada em casos de lesões no mediastino. • Tomografia computadorizada em 4D: Os inconvenientes da 4D-TC são a necessidade da injeção intravenosa do contraste iodado e do uso profilático de glicocorticoides, bem como a dose de irradiação relativamente alta; • PET/CT scan com 18F-fluorocolina: Sua indicação maior, quando disponível, seria, entretanto, nos casos sem visualização da lesão paratireóidea pelos outros exames. IANI SOARES LUZ XIII – MED Tratamento - Cirurgia (paratireoidectomia): Indicada para todos os pacientes com nefrolitíase ou osteíte fibrosa cística e para pacientes com HPTP assintomático nas seguintes situações: • Cálcio sérico > 1 mg/dL acima do limite superior da normalidade; • T-escore do terço distal de rádio, coluna, fêmur total e/ou colo femoral ≤ –2,5 ou fratura de fragilidade, incluindo fraturas vertebrais morfométricas; • Redução no clearance de creatinina (ClCr) para menos de 60 mL/min/1,73 m2; • Hipercalciúria (> 400 mg/24 h) associada a outras alterações bioquímicas urinárias que aumentem o risco para cálculo renal; • Idade < 50 anos; • Pacientes cujo acompanhamento médico não seja possível ou desejado. Medidas gerais: • Os pacientes devem ser orientados a manter uma boa hidratação e evitar diuréticos tiazídicos e terapia com lítio, devido ao conhecido efeito hipercalcêmico desses medicamentos; • Ingestão de cálcio em parâmetro recomendado como ideal para adultos nos EUA, ou seja, 1.000 a 1.200 mg/dia. ◦ Dieta com altos níveis de cálcio, especialmente, em pacientes com níveis séricos elevados de 1,25(OH)2D, pode provocar hiperabsorção de cálcio e agravamento da hipercalciúria. ◦ Dieta com restrição de cálcio não seria desejável, já que poderia funcionar como combustível para os processos fisiopatológicos associados à secreção excessiva de PTH. Fármacos: • Vitamina D: Deficiência de vitamina D pode estimular os mecanismos associados ao excesso de secreção do PTH. Desse modo, para pacientes com níveis baixos (< 20 ng/mL) de 25-OHD, deve-se administrar vitamina D3 em doses suficientes para obtenção de níveis de 25-OHD ≥ 20 ng/mL, mas a meta ≥ 30 ng/mL também é razoável. • Bisfosfonatos: Na maioria dos estudos, o uso prolongado de alendronato (10 mg/dia ou 70 mg/semana) resultou em significativo aumento de massa óssea na coluna lombar e no colo do fêmur, bem como em marcante redução nos marcadores da remodelação óssea, sem, contudo, modificar os níveis de cálcio ou PTH. • Estrogênio: Discreta redução na calcemia com a terapia de reposição estrogênica (TRE) foi demonstrada em mulheres pósmenopausadas com HPTP. Contudo, um estudo controlado e randomizado posterior não confirmou esse achado, mas evidenciou aumento significativo da DMO na coluna lombar e no colo do fêmur, sem modificação nos valores do cálcio ionizado e do PTH. • Moduladores seletivos do receptor estrogênico (SERM): O uso do raloxifeno (60 a 120 mg/dia) pode IANI SOARES LUZ XIII – MED também ser útil, proporcionando aumento da DMO, redução da calcemia e dosmarcadores da remodelação óssea, sem modificar o PTH. • Cinacalcete (Mimpara®): Agente calcimimético e atua aumentando a sensibilidade do CaSR aos níveis circulantes de cálcio, reduzindo, assim, a secreção de PTH e a calcemia. ◦ Ele foi aprovado nos EUA e na Europa para tratamento do HPTS e para os casos de HPTP não curados pela cirurgia ou em que haja contraindicações ou recusa do paciente para a cirurgia. Carcinoma de tireoide: • Paratireoidectomia: Tratamento de escolha para carcinoma de paratireoide, mas a ressecção completa do tumor nem sempre é possível, e a cura é raramente alcançada. Recidiva do HPTP ocorre em 40 a 60% dos pacientes, geralmente em 2 a 5 anos da cirurgia. • Químio e radioterapia: Papel limitado no tratamento de pacientes com carcinoma de paratireoide, já que resultados são decepcionantes. No entanto, podem ser eventualmente utilizadas em pacientes com doença metastática e hipercalcemia refratária a outras terapias. Tratamento medicamentoso da hipercalcemia: Pacientes com carcinoma da paratireoide podem apresentar crise hipercalcêmica, tanto como manifestação inicial como em decorrência de metástases generalizadas. ◦ Há 4 objetivos básicos do tratamento desses pacientes: corrigir a desidratação; aumentar a excreção renal de cálcio; inibir a reabsorção óssea acelerada; e tratar o distúrbio subjacente. IANI SOARES LUZ XIII – MED Hiperparatireoidismo secundário - O hiperparatireoidismo secundário (HPTS) é uma frequente complicação da doença renal crônica (DRC), presente já no início da doença, porém mais prevalente nas fases avançadas, especialmente nos pacientes em diálise. - Caracteriza-se pela excessiva secreção do PTH e pela hiperplasia das glândulas paratireoides, acarretando não apenas doença óssea, mas repercutindo na qualidade de vida e na mortalidade dos pacientes. Fisiopatologia - Hipótese do trade-off (Bricker, 1972): Retenção de fósforo e a hiperfosfatemia, decorrentes da progressiva perda da função renal, acarretariam uma diminuição transitória nos níveis séricos de cálcio iônico, a qual por sua vez estimularia uma resposta fisiológica de secreção de PTH. • Com a progressão da DRC, ocorre aumento do FGF-23, que tem ação fosfatúrica. Os níveis elevados de FGF- 23 mantêm o fósforo normal até fases avançadas da DRC, porém diminuem o calcitriol, aumentando o PTH. • O HPTS decorre, então, dos baixos níveis séricos de cálcio e calcitriol, da hiperfosfatemia e dos altos níveis de FGF- 23, todos interagindo entre si para aumentar o PTH. Cálcio e seu receptor A concentração de cálcio extracelular é o principal fator regulador do PTH, sendo a hipocalcemia importante estímulo para a secreção desse hormônio. - A relação cálcio–PTH é representada por uma curva sigmoidal, na qual há um ponto onde o nível sérico de cálcio reduz em 50% a concentração máxima do PTH, denominado set point. • Na DRC, existe um evidente desvio desse set point para direita, devido à alterada sensibilidade das glândulas paratireoides ao cálcio. • Anormalidades no receptor sensor de cálcio (CaSR) das paratireoides, cuja expressão encontra-se diminuída na DRC, justificam essa alteração da curva cálcio– PTH e associam-se com a progressão do HPTS. Calcitriol e receptor da vitamina D O calcitriol (1,25-di-hidroxivitamina D) é a forma ativa da vitamina D e origina-se da conversão renal da 25hidroxivitamina D (calcidiol), mediada pela enzima 1a- hidroxilase, sob o estímulo do PTH. Acompanhando a perda da função renal, a ação da enzima 1a-hidroxilase diminui, o que leva à produção de calcitriol em poucas quantidades. • O calcitriol tem suas ações mediadas pela ligação ao receptor da vitamina D (VDR), sendo o seu baixo nível sérico promotor de HPTS, por diversos mecanismos. • Adicionalmente, o baixo nível de calcitriol e a reduzida expressão de VDR IANI SOARES LUZ XIII – MED estimulam a proliferação da célula paratireóidea, mediante a fraca atuação de inibidores do ciclo e da proliferação celulares. Fósforo, fibroblasto 23 (FGF-23) e klotho • A retenção de fósforo e a hiperfosfatemia são muito frequentes em indivíduos com DRC, principalmente nas fases mais avançadas. • Há também uma ação direta do fósforo na paratireoide, estimulando a secreção de PTH, independentemente das concentrações de cálcio e calcitriol. ◦ O fósforo promove não só a secreção do PTH, mas também a proliferação celular paratiroidea. • O FGF-23 é um importante regulador da homeostase do fósforo. Possui ação fosfatúrica e supressora da atividade da 1ahidroxilase renal. ◦ Os níveis de FGF-23 aumentam progressivamente com a perda da função renal, sugerindo uma atuação em conjunto com o PTH na tentativa de aumentar a fosfatúria e manter os níveis séricos de fósforo normais. • A ação do FGF-23 nos órgãos-alvo ocorre por intermédio do seu receptor (FGF-23R), sendo indispensável a coexpressão de uma proteína transmembrana denominada klotho. • No entanto, na DRC, pela reduzida expressão de FGF-23R e pela deficiência de klotho, a ação supressora desse hormônio na paratireoide encontra-se deprimida.38,39 Por outro lado, ao inibir a 1α-hidroxilase, o FGF- 23 diminui os níveis séricos de calcitriol, contribuindo para o HPTS. Resistência óssea ao PTH Representa um fator envolvido na proliferação celular paratireoidea e na progressão do HPTS, uma vez que níveis mais elevados de PTH são necessários para manter a calcemia. • Na DRC, vários fatores estão envolvidos nessa resistência, tais como: estresse oxidativo, déficit de calcitriol, aumento nos níveis séricos de osteoprotegerina e esclerostina, além de alterações na expressão do receptor de PTH no osso. Hiperplasia da paratireoide A manutenção de todos os fatores descritos acarreta um prolongado estímulo à proliferação da paratireoide. Inicialmente, o crescimento é do tipo policlonal, caracterizando a hiperplasia difusa, e depois assume um aspecto monoclonal, representando a hiperplasia nodular. • Assim, com a evolução do HPTS, a transformação nodular é acompanhada pela crítica redução dos receptores de CaSR e VDR., acarretando uma quase ausência de resposta ao efeito inibitório do cálcio e do calcitriol na secreção do PTH. • Como resultado dessa situação de autonomia, a contínua ação osteoclástica do PTH promove o efluxo de cálcio e de fósforo do osso para o sangue, causando hipercalcemia e hiperfosfatemia. IANI SOARES LUZ XIII – MED Manifestações clínicas Manifestações musculoesqueléticas - Dor óssea (muitas vezes, incapacitante), fraqueza muscular, deformidades e tumores ósseos (tumor marrom), diminuição da densidade mineral óssea, fraturas, lesões líticas, além de rupturas de tendões. • Resultam do aumento da reabsorção óssea decorrente da intensa atividade osteoclástica que afeta todas as camadas do osso, nos mais diversos sítios. • A reabsorção subperióstea é um achado radiográfico bem característico e pode ser observada facilmente nas falanges distais e clavículas. Na calota craniana, uma reabsorção com aspecto granular confere o clássico aspecto “sal e pimenta”. Reabsorção óssea subligamentar e subtendínea pode ocorrer, além de reabsorção da lâmina dura dos dentes. Manifestações extraesqueléticas: Calcificações extraósseas, principalmente, as calcificações vasculares e em outras estruturas cardíacas, são frequentes e associadas a desfechos cardiovasculares. • A calcifilaxia decorre de calcificaçãoda camada média de pequenas artérias e representa uma complicação com alto índice de letalidade. • São lesões isquêmicas de pele bastante dolorosas que, inicialmente, se apresentam como placas purpúricas, mas depois evoluem para úlceras não cicatrizantes. • Embora ocorra preferencialmente na pele, é considerada uma doença sistêmica, sendo relatados casos em músculos, intestinos, pulmões, entre outros sítios. - O excesso de PTH também causa anemia (devido à fibrose da medula óssea e à baixa responsividade à eritropoetina), altera a função imune e estimula mediadores inflamatórios associados à má nutrição, entre outras complicações. Diagnóstico Alterações laboratoriais Dosagem sérica do PTH: Na maioria das vezes de sua molécula intacta (PTHi). Na DRC, os níveis de PTHi variam conforme o estágio da doença e sua gravidade. • Dosagem de fosfatase alcalina: Principalmente, sua fração óssea, por ser uma enzima que demonstra atividade osteoblástica, pode colaborar no diagnóstico, uma vez que, quando acima do limite superior da normalidade, indica que a remodelação óssea está aumentada. • Níveis de cálcio e fósforo: não existe um perfil uniforme, podendo os mesmos estarem normais, elevados ou baixos, muito embora, dificilmente seja observada hipofosfatemia. ◦ Como já mencionado, em situações de HPTS grave, geralmente na presença hiperplasia nodular, hipercalcemia e hiperfosfatemia podem ser observadas. IANI SOARES LUZ XIII – MED Biopsia óssea: Após marcação com a tetraciclina, é o padrão-ouro para demonstrar as alterações histológicas decorrentes do excesso de PTH. • A osteíte fibrosa cística representa a clássica lesão, caracterizada por aumentos da celularidade (osteoblastos e osteoclastos), da superfície osteoide, das lacunas de reabsorção e ocorrência de fibrose medular peritrabecular. • Por seu caráter invasivo e sua dificuldade de ser realizada na maioria dos centros, a biopsia é realizada em situações de exceção. Exames de imagem Os principais métodos de imagem utilizados na localização das paratireoides são a US de região cervical, a cintilografia de paratireoide com 99mTc-sestamibi, de preferência com TC acoplada, e a RM. • A localização das glândulas é importante não apenas para o diagnóstico, mas também no preparo pré-operatório, a fim de facilitar o procedimento. Tratamento Controle do fósforo Realizado mediante orientação nutricional, uso de quelantes e melhora na qualidade e frequência da diálise, com o objetivo de mantê- lo na faixa de normalidade do método. • A principal fonte alimentar de fósforo são as proteínas de origem animal, presentes em alimentos como carnes, derivados do leite e processados. • Os pacientes devem ser orientados por nutricionistas, respeitando os estágios da DRC. • Em decorrência do risco da sobrecarga de cálcio, principalmente no que se refere ao desenvolvimento de calcificações extraósseas, o consumo de sais de cálcio vem se tornando infrequente, dando lugar aos quelantes livres de cálcio, como o sevelâmer e o carbonato de lantânio. Ativadores do VDR O calcitriol é o fármaco pioneiro e, ao longo de décadas, mostrou-se eficaz em diminuir os níveis séricos de PTH, atuando também na expressão do VDR e do CaSR. - Contudo, sua janela terapêutica é limitada, em função de sua ampla ação no VDR intestinal, o que acarreta hipercalcemia e hiperfosfatemia. Assim, em situações de HPTS mais graves, nas quais doses mais elevadas são necessárias, o seu uso é bastante limitado. • Novos medicamentos, os análogos do calcitriol, surgiram na tentativa de amenizar esses efeitos colaterais. Dentre esses análogos, o paricalcitol vem sendo amplamente utilizado por ter ação mais seletiva no VDR da paratireoide, causando menos hipercalcemia e hiperfosfatemia, uma vez que possui menor ação nos receptores intestinais. IANI SOARES LUZ XIII – MED Calcimiméticos: - Medicações mais novas e agem no CaSR. O cinacalcete atua sensibilizando o CaSR ao cálcio sérico, consequentemente diminuindo a secreção do PTH. Representa o primeiro calcimimético comercializado e o mais amplamente utilizado em pacientes dialíticos. • Os principais efeitos colaterais associados ao uso de cinacalcete são hipocalcemia e as manifestações gastrintestinais, como náuseas, vômitos e diarreia. Paratireoidectomia: A cirurgia deve ser considerada nas seguintes situações: • Persistente e progressivo aumento do PTH a despeito do uso de ativadores do VDR e/ou calcimiméticos; • Na presença de hipercalcemia e/ou hiperfosfatemia refratárias; • Manifestações clínicas graves e ameaçadoras à vida. • Após a cirurgia, ocorre a “fome óssea”, caracterizada por atividade osteoblástica intensa, acompanhada do processo de mineralização, o que faz com que os níveis séricos de cálcio e fósforo sofram queda significativa, sendo necessário monitoramento rigoroso e reposição destes minerais. Nesse período, o paciente necessitará de altas doses de sais de cálcio, por via intravenosa ou oral, além de alimentação rica em cálcio e fósforo. Outros tratamentos A ablação da glândula paratireoide por meio da injeção percutânea de álcool ou calcitriol guiada por US é uma prática pouco frequente, muitas vezes reservada a pacientes sem condições clínicas para cirurgia, sendo melhores os resultados procedentes da prática japonesa. IANI SOARES LUZ XIII – MED Hipoparatireoidismo - O hipoparatireoidismo (HPT) é um distúrbio endócrino decorrente de secreção e/ou ação deficientes do PTH. Como consequência, ocorre redução das concentrações de cálcio no líquido extracelular, a qual é responsável pelo surgimento das manifestações clínicas da doença. - Laboratorialmente, o HPT caracteriza-se por baixos níveis de cálcio sérico e elevação da concentração sérica de fósforo, ao passo que o PTH está ausente ou inadequadamente baixo na circulação. Epidemiologia - O hipoparatireoidismo é uma doença relativamente rara. - A causa mais frequente é o hipoparatireoidismo pós-cirúrgico, que pode ocorrer após cirurgia de paratireoide, tireoide ou cirurgia radical para neoplasia de cabeça e pescoço. - A incidência da doença é mais comum após tireoidectomia quase total ou total por carcinoma de tireoide, ocorrendo em 1 a 2% dos pacientes. - O hipoparatireoidismo autoimune é um achado comum da síndrome poliglandular autoimune tipo 1 e é a causa mais comum de hipoparatireoidismo idiopático Etiologia e fisiopatologia Produção insuficiente de PTH: • Distúrbios genéticos (causas congênitas): ◦ Mutações no gene do pré-pró-PTH; ◦ Mutações ativadoras do gene do receptor sensor do cálcio; ◦ Síndrome HDR; Síndrome hipoparatireoidismoretardo mental-dismorfismo (HRD): Descrita em indivíduos de origem árabe, a qual se caracteriza por HPT congênito (por aplasia ou agenesia paratireóidea), retardo mental e manifestações dismórficas (p. ex., microcefalia, microftalmia, anormalidades auriculares, ponte nasal deprimida, lábio superior fino, mãos e pés pequenos etc.). ▪ Inclui a síndrome de Sanjad-Sakati e a síndrome de Kenny-Caffey. Hipoparatireoidismo familiar ligado ao X: Resulta de agenesia paratireóidea, supostamente devido à deleção/inserção de DNA próximo ao gene SOX3 no cromossomo Xq26-q27.4; Hipoparatireoidismo familiar autossômico recessivo ou dominante; ◦ Hipoparatireoidismo por distúrbios mitocondriais: Estão a síndrome de Kearns-Sayre (HPT, oftalmoplegia externa progressiva, retinopatiapigmentar, bloqueio cardíaco ou cardiomiopatia e diabetes), MELAS (encefalomiopatia mitocondrial, acidose láctica e episódios semelhantes ao acidente vascular cerebral) e MTDPS (síndrome da depleção do DNA mitocondrial), um distúrbio da oxidação dos ácidos graxos, associado à neuropatia periférica, fígado agudo gorduroso na gravidez e HPT. IANI SOARES LUZ XIII – MED • Iatrogênico: ◦ Cirurgia HPT pós-operatório, em geral, ocorre devido à remoção acidental ou inevitável das paratireoides e/ou em função de dano ao suprimento sanguíneo dessas glândulas. ▪ A etiologia mais comum de HPT em adultos são cirurgias na região cervical, em especial tireoidectomia, paratireoidectomia e ressecção radical do pescoço. ◦ Radioterapia; ◦ Terapia com 131I É raro o surgimento da hipofunção paratireoidiana após a terapia com iodo radioativo. • Idiopático; • Autoimune: ◦ Isolado; ◦ Síndrome poliglandular autoimune: A associação mais comum inclui HPT, insuficiência adrenal e candidíase mucocutânea, caracterizando a síndrome poliglandular autoimune (SPA) tipo I ou síndrome APECED. • Doenças infiltrativas/destrutivas: ◦ Hemocromatosee talassemia: HPT consequente ao acúmulo, nas paratireoides, de ferro; ◦ Doenças granulomatosas: HPT decorrente de infiltrações granulomatosas; ◦ Doença de Wilson: HPT consequente ao acúmulo, nas paratireoides, de cobre; ◦ Amiloidose, sarcoidose; ◦ Metástases: HPT decorrente de infiltrações neoplásicas. Distúrbio na secreção do PTH: ◦ Hipomagnesemia e hipermagnesemia. • Neonatal: Hipocalcemia neonatal pode resultar de prematuridade, asfixia ao nascimento, hipomagnesemia e DM maternos, aporte dietético excessivo de fosfato, hipovitaminose D ou HPT neonatal. ◦ Secundário a hiperparatireoidismo materno; ◦ Secundário a hipercalcemia hipocalciúrica familiar (HHF) materna. Resistência à ação do PTH • Pseudo-hipoparatireoidismo; • Hipomagnesemia; • Medicações (bisfosfonatos, calcitonina e plicamicina); • Condrodisplasia letal de Blomstrand. IANI SOARES LUZ XIII – MED Manifestações clínicas - Aumento da excitabilidade neuromuscular, tantoda musculatura esquelética quanto miocárdica, decorrente de hipocalcemia. - Em geral, quanto menores os níveis de cálcio,maiores a riqueza e a intensidade dos sintomas. - Os sintomas mais característicos da hipocalcemia são cãibras e parestesias (periférica e perioral). Irritabilidade neuromuscular: - Sinal de Chvostek; sinal de Trousseau; parestesias; tetania; convulsões (focais, pequeno mal, grande mal); cãibras musculares; mialgias (inclusive, dor torácica); fraqueza muscular; polimiosite; espasmos laríngeos; broncospasmo. - Sinal de Chvostek: Obtido pela rápida percussão sobre o nervo facial na região zigomática (cerca de 2 cm anterior ao lobo da orelha), o que resulta em contração involuntária dos músculos faciais ipsilaterais e do lábio superior. • Sinal de Trousseau: Mais específico e obtido inflando-se um esfigmomanômetro de pressão cerca de 20 mmHg acima da pressão sistólica, durante 3 minutos. Começa por adução do polegar, seguida da flexão das articulações metacarpofalangianas, extensão das articulações interfalangianas e flexão do punho, produzindo a postura da main d’accoucheur (mão de parteiro); • Ambos os sinais podem ser mascarados pelo uso de anticonvulsivantes, por diminuírem a excitabilidade neuromuscular. Sinais e sintomas neurológicos: Sinais extrapiramidais (parkinsonismo, coreia, disartria, etc.) devido à calcificação dos núcleos da base; calcificação do córtex cerebral ou cerebelo; distúrbios da personalidade; irritabilidade; habilidade intelectual prejudicada; alterações inespecíficas em EEG; pressão intracraniana aumentada; alterações da marcha; instabilidade postural; parkinsonismo; disartria; coreoatetose; espasmos distônicos. - Status mental: Confusão; desorientação; psicose; fadiga; ansiedade. - Mudanças ectodérmicas: Pele seca; cabelos grosseiros; unhas frágeis; queda de cabelo; alopecia; hipoplasia do esmalte; defeitos da dentina; raízes pré-molares encurtadas; lâmina dura espessada; erupção dentária retardada; cáries dentárias; perda de todos os dentes (bastante rara); eczema atópico; dermatite esfoliativa; psoríase; impetigo herpetiforme. IANI SOARES LUZ XIII – MED - Envolvimento do músculo liso: Disfagia; dor abdominal; cólica biliar; dispneia; chiado (por broncospasmo). Manifestações oftalmológicas: - Catarata subcapsular; papiledema. Cardíacas: Prolongamento do segmento ST e intervalo QT; alterações no ECG indicativas de IAM; arritmias, etc.; insuficiência cardíaca; cardiomiopatia. Diagnóstico - Avaliação laboratorial: PTH, cálcio, fósforo, magnésio, creatinina, 25OHD, AST, ALT, calciúria de 24 horas. • Deve-se também ter cuidado com o modo de coleta do sangue. A amostra deve ser prontamente analisada para evitar degradação do PTH, que tem meia-vida curta. É também necessário evitar um longo tempo de garroteamento, pois isso pode falsamente aumentar os níveis do cálcio ionizado no sangue. • O diagnóstico do hipoparatireoidismo se estabelece pela detecção, em pelo menos duas ocasiões, de valores de PTH indetectáveis ou inapropriadamente baixos (< 20 pg/mL) na presença de hipocalcemia. • Outros achados laboratoriais podem incluir baixos valores de 1,25(OH)2D e marcadores de reabsorção óssea. • O cálcio urinário pode variar de acordo com a ingestão de cálcio. ◦ No entanto, sua fração de excreção costuma ser sempre aumentada, pela falta de reabsorção tubular mediada pelo PTH. • É importante atentar-se à presença de hipomagnesemia grave, pois ela pode inibir a liberação do PTH pelas paratireoides, levando a um quadro de hipoparatireoidismo funcional. OBS: Parâmetros para diagnóstico do HPT: • Hipocalcemia (ajustada pela albumina) confirmada em, pelo menos, 2 ocasiões, separadas em pelo menos 2 semanas; • Níveis de PTH, dosados por um imunoensaio de 2ª ou 3ª geração, que sejam indetectáveis ou inapropriadamente baixos (< 20 pg/mL) na presença de hipocalcemia em pelo menos 2 ocasiões; • Níveis de fosfato no limite superior da normalidade ou francamente elevados (achado útil, mas não obrigatório); • Após cirurgia cervical, hipoparatireoidismo crônico somente estabelecido se persistir por mais de 6 meses. Investigação etiológica e exame físico: - Iniciada pela história clínica do paciente, indagando-se sobre intervenções na região cervical anterior (principal causa de hipoparatireoidismo), antecedentes pessoais de doenças granulomatosas, infiltrativas, autoimunes ou de depósito (ferro e cobre). IANI SOARES LUZ XIII – MED - Deve-se pesquisar também outras endocrinopatias e história familiar de hipocalcemia. - Avaliação de órgãos-alvo: ECG, US do sistema urinário, TC de crânio, radiografias. - Estudos genéticos: Se uma base genética for suspeitada (idade jovem, história familiar, presença de candidíase mucocutânea crônica, etc.). Tratamento Hipocalcemia aguda - Quando a hipocalcemia é grave e/ou se instala em curto espaço de tempo, o quadro clínico costuma ser mais exuberante e é necessário intervir com maior rapidez. Indicações para o uso de medicação intravenosa: • Valores de cálcio abaixo de 7,5 mg/dL e sinais como tetania grave e convulsões; • Laringospasmo ou broncospasmo, bradicardia, prolongamento do intervalo QT e ICC. - O gliconato de cálcio (GC) a 10% (que tem 90 mg de cálcio elementar por ampola de10 mL) é preferível pelo menor risco de necrose tecidual, caso haja extravasamento durante a infusão intravenosa. • É preferível também utilizar solução glicosada (SG) para minimizar o risco de hipoglicemia. • O GC deve ser infundido em 10 a 20 minutos. • Infusões muito rápidas aumentam o risco de arritmia cardíaca (inclusive, assistolia), principalmente, se o paciente estiver em uso de digitálicos; portanto, idealmente, a reposição de cálcio deve ser feita sob monitoramento cardíaco. - Após a intervenção inicial, a manutenção deve ser realizada com uma infusão lenta da solução de cálcio (0,5 a 1,5 mg/kg/h), por 8 a 10 horas ou até que o paciente consiga receber por via oral a reposição necessária com cálcio e análogos de vitamina D. - É importante sempre identificar e tratar quadros de hipo-magnesemia, os quais podem ocorrer em casos de DM mal controlado, etilismo crônico e em indivíduos em uso de certas medicações, como diuréticos e aminoglicosídeos. • A apresentação de 50% pode ser administrada por via intramuscular profunda lenta, se necessário, na dose de 2 mL a cada 6 horas por 24 horas. • A infusão intravenosa é feita com uma solução diluída em até 20% em SG 5% ou solução fisiológica (SF) a 0,9% (p. ex., 5 g de sulfato de magnésio em 1.000 mL de SG ou SF em infusão lenta durante 3 horas). Hipocalcemia crônica Reposição de cálcio: O carbonato de cálcio é a forma mais amplamente encontrada no Brasil, fornecendo 1 g de cálcio elementar a cada 2,5 g (VO). - No entanto, ele é pouco palatável, pode trazer desconforto gastrintestinal e precisa da hidrólise ácida para ser bem absorvido IANI SOARES LUZ XIII – MED • Inicialmente, é importante ressaltar que devem ser evitados sais que contenham fósforo (como o fosfato de cálcio), uma vez que o paciente hipoparatireóideo tem excreção renal de fósforo diminuída. • O cálcio deve ser dado junto às refeições, quando pode agir como quelante do fósforo presente nos alimentos. • Quando há intolerância Ao carbonato de cálcio ou se o paciente apresentar hipocloridria, podemos optar pelo citrato de cálcio, que fornece 1 g de cálcio elementar a cada 5 g. • Outras formulações de cálcio, como o lactogliconato e o citrato malato, podem ser utilizadas, porém sua eficácia ainda tem evidências científicas limitadas. - Análogos de vitamina D: Podemos prescrever tanto o calcitriol isoladamente, quanto em conjunto com o colecalciferol. • Calcitriol: Tem meia-vida curta de cerca de 5 a 8 h. Deve ser titulado de acordo com a calcemia, em doses variando, em geral, de 0,5 a 2 μg/dia, divididas em 2 a 3 doses. O pico de absorção do calcitriol ocorre em 4 a 6 h, e mudanças na calcemia podem ser observadas 1 a 3 dias após a titulação de dose. • Colecalciferol: Tem meia-vida mais longa, durando de 2 a 3 semanas, e leva mais tempo para gerar mudanças na calcemia (aproximadamente 10 dias). - Diuréticos tiazídicos: Hipercalciúria é uma das complicações da terapia com análogos de vitamina D no hipoparatireoidismo, visto que falta o PTH para promover a reabsorção tubular do cálcio filtrado nos glomérulos. Nessa situação, diante de calciúria persistente acima de 4 mg/kg/24 h ou 300 mg/24 h, a despeito de ajustes na dose do calcitriol e/ou do sal de cálcio, pode-se usar um diurético tiazídico, como hidroclorotiazida ou clortalidona, na dose de 25 a 50 mg/dia, em 2 tomadas. • A finalidade é a prevenção de nefrolitíase ou nefrocalcinose. • Para minimizar o risco de hipocalemia, costuma-se associar um diurético poupador de potássio (p. ex., amilorida ou triantereno). PTH1-84 recombinante (NatPar®): Foi aprovado em 2016 nos EUA e na Europa para os casos de difícil controle com o tratamento convencional (sais de cálcio e análogos da vitamina D), pacientes com disabsorção importante ou aqueles que necessitam de doses muito elevadas das citadas medicações orais. - O PTH1-84 ainda não está disponível no Brasil em 2020. • Ele é administrado por via subcutânea, em doses que variam de 25 a 100 μg/dia e, devido à sua meia-vida prolongada, pode ser administrado 1 vez/dia.