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NEUROCIÊNCIAS NA ATUALIDADE Me. Ana Carolina Caetano Senger GUIA DA DISCIPLINA 1 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA Objetivo Conhecer os fundamentos da neurociência e da neuroanatomia, além de algumas discussões sobre a neuroplasticidade. Introdução Desde os primórdios, o homem vem querendo saber mais e mais sobre o funcionamento cerebral. Até pouco tempo atrás, existiam apenas especulações sobre o tema, mas com o passar dos anos, o cérebro passou a ser cada vez mais estudado, e muitas teorias surgiram, com a intenção de desvelar seus mistérios. A neurociência vem desenvolvendo diversos estudos sobre o assunto, com a intenção de contribuir com o entendimento sobre o cérebro e o comportamento das pessoas. Vamos agora entender um pouco sobre os fundamentos da neurociência e da neuroanatomia, além de fazer algumas discussões sobre a neuroplasticidade. 1.1. Neurociência: conceito e evolução Vamos estudar o conceito de neurociência. Este é um termo novo, utilizado a partir de 1970. Segundo Moreira (2012), A Neurociência é a parte da ciência que descreve o estudo do sistema nervoso central tais como suas estruturas, funções, mecanismos moleculares, aspectos fisiológicos e compreender doenças do sistema nervoso. Essa, normalmente é confundida com a Neurologia que, por sua vez, é uma área especializada da medicina que se refere aos estudos das desordens e a doenças do sistema nervoso, esta envolve o diagnóstico e tratamento dessas condições patológicas dos sistemas nervoso central, periférico e autonômico. A neurociência, normalmente é estudada por diversos profissionais de diversas áreas e não somente por médicos neurologistas. Dentre os profissionais que se interessam pela neurociência temos, farmacêuticos, fisioterapeutas, enfermeiros, médicos, nutricionistas, biólogos, biomédicos e até mesmo engenheiros, pois a capacitação nesta área pode elucidar as novas técnicas te arquitetura robótica baseadas na neurociência. Essa ciência pode ser dividida em cinco grandes grupos: a neurociência molecular, celular, sistêmica, comportamental e cognitiva. Neurociência molecular, neuroquímica ou neurobiologia molecular - ramo da neurociência responsável pelo estudo de moléculas que têm importância funcional e suas possíveis interações no sistema nervoso; Neurociência celular, neurocitologia ou neurobiologia celular - esta área estuda as células que compõem o sistema nervoso, suas estruturas e funções; Neurociência sistêmica, neurofisiologia, neuro-histologia ou neuroanatomia - Estuda as possíveis ligações entre os nervos do cérebro (chamadas de vias) e diferentes regiões periféricas. São também considerados os grupos celulares situados nestas vias; 2 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Neurociência comportamental, psicobiologia ou psicofisiologia - estuda as estruturas que estão relacionadas ao comportamento ou a fenômenos como ansiedade, depressão, sono entre outros comportamentos; Neurociência cognitiva ou neuropsicologia - trata de todas as capacidades mentais relacionadas a inteligência como a linguagem, memória, autoconsciência, percepção, atenção, aprendizado entre outras. Como vimos, a neurociência é uma área de pesquisa muito complexa que está em constante evolução, justamente por estudar o sistema nervoso e suas implicações na vida dos seres humanos. O homem da pré-história percebeu que ter conhecimento sobre o cérebro era essencial para a manutenção da vida. Na Europa, África e Américas foram encontrados, há 7 mil anos, crânios pré-históricos com trepanações (abertura de um ou mais buracos no crânio), com a intenção de “libertar os maus espíritos”. Um crânio do neolítico que passou por uma trepanação (foto: natural history museum, lausanne/rama) Disponível em: http://s2.glbimg.com/sUbXH8AT6NosSNoMmaAjiqmK4vU=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2015/06/09/trepanacao2.jpg Acesso em: 21 ago. 2018. No Egito, papiros com mais de 5 mil anos descreviam sintomas de lesão cerebral. Na Antiga Grécia, o tratado de Hipócrates já relatava estudos de casos com pacientes epiléticos. Nos séculos XVII e XVIII foi descoberto o tecido cerebral, a substância cinzenta, a substância branca e o sistema nervoso foi dissecado. Dissecção (ou dissecação) significa o ato de dissecar, de separar as partes de um corpo ou de um órgão. Emprega-se tanto em anatomia (dissecção de um cadáver ou parte deste). Disponível em: http://s2.glbimg.com/sUbXH8AT6NosSNoMmaAjiqmK4vU=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2015/06/09/trepanacao2.jpg 3 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância https://www.dicionarioinformal.com.br/disseca%C3%A7%C3%A3o/ Acesso em: 21 ago. 2018. No século XIX, Pierre Flourens criou a “teoria holística da função cerebral” e no século XX, chegamos a concepção de que o cérebro é formado por várias áreas cerebrais, que desempenham funções especializadas. Foi em 1970 que surgiu o termo “neurociência”, como área de estudo do sistema nervoso, com a intenção de descrever como o cérebro físico possibilita a formação de pensamentos e ideias. Assim, quando entendemos que todos os comportamentos, pensamentos e sentimentos que experienciamos são fundamentados pelo cérebro, começamos a refletir sobre os meios de aprender melhor. Flor e Carvalho (2011, p. 221) afirmam que a neurociência “[...] pode oferecer mudanças de paradigmas no sistema educacional. ” Ela demostra que podemos inovar, intensificar e facilitar a aprendizagem. 1.2. Neuroanatomia Segundo Moreira (2012), neuroanatomia é o ramo da ciência responsável pelo estudo de estruturas anatômicas complexas do sistema nervoso central e periférico. Esta grande área está responsável pelas delineações das regiões cerebrais bem como a diferenciação destas estruturas relacionando todo o conhecimento estrutural ao seu funcionamento. Vamos ver agora algumas das principais estruturas do sistema nervoso. • Neurônio Os neurônios são as principais células do tecido nervoso e são capazes de transmitir o impulso nervoso para outras células. A forma como os neurônios se comunica entre si chama-se sinapse. • Sistema nervoso central (SNC) É formado pelo encéfalo (é dividido em várias partes, sendo o cérebro uma delas) e pela medula, que estão protegidos pelo crânio e coluna vertebral, respectivamente. O SNC está relacionado com o recebimento e interpretação de mensagens vindas de várias partes do corpo. https://www.dicionarioinformal.com.br/disseca%C3%A7%C3%A3o/ 4 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância • Sistema nervoso periférico (SNP) É formado por nervos cranianos e espinhais, os quais ligam, com suas ramificações e gânglios, os receptores periféricos ao SNC e conectam o SNC a órgãos efetores (músculos e glândulas). O SNP é dividido em somático e autônomo. • Cérebro O cérebro humano, localizado no interior da caixa craniana, é considerado o núcleo de inteligência e aprendizagem do organismo. Ele pode ser dividido em três partes: os hemisférios cerebrais (o esquerdo e o direito, que estão conectados pelo corpo caloso, uma estrutura formada por um espesso feixe de fibras nervosas), o tronco cerebral (que é o centro de controle das funções vitais) e o cerebelo (relacionado à coordenação motora e ao equilíbrio). Disponível em: https://static.todamateria.com.br/upload/sn/c1/snc1.jpg Acesso em: 21 ago. 2018. • Medula espinhal A medula é protegida pelos ossos da coluna vertebral. Ela controla o tronco e os membros (movimentos motores) e deles recebe informação sensorial. • Meninges São membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal. São classificadas em dura-máter (mais externa e resistente), aracnoide-máter (mais finae delicada, interna à dura-máter) e pia-máter (a mais interna, aderida ao parênquima cerebral). 5 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância • Hemisférios cerebrais Temos dois hemisférios cerebrais, o direito (que processa as informações de reconhecimento de rostos e as relações espaciais tridimensionais) e o esquerdo (é dominante para a linguagem, proposições matemáticas e programação de sequências motora rápidas). São eles que ocupam a maior parte do encéfalo, e são divididos em cinco lobos: frontal, parietal, temporal, occipital e límbico. • http://www.neuroanatomia.uff.br/index.php/16-atlas-de-neuroanatomia • http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=3340 1.3. Neuroplasticidade De acordo com estudos mais recentes, sabemos que o cérebro tem potencial para mudar e melhorar suas funções ao longo de toda a vida. Assim como fazemos quando exercitamos nosso corpo para ter um bom condicionamento, também podemos treinar nosso cérebro a pensar, agir e refletir. Disponível em: https://i.ytimg.com/vi/D-SCAXXAje8/hqdefault.jpg Acesso em: 21 ago. 2018. A neuroplasticidade, também chamada de plasticidade neuronal ou maleabilidade cerebral, é a capacidade do cérebro humano de se reorganizar mediante mudanças ambientais, experienciais, sociais, físicas e lesões mais graves. http://www.neuroanatomia.uff.br/index.php/16-atlas-de-neuroanatomia http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=3340 https://i.ytimg.com/vi/D-SCAXXAje8/hqdefault.jpg 6 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A plasticidade está relacionada ao desenvolvimento humano e à aprendizagem. O processo de aprendizagem consiste em informar o cérebro que determinada informação é importante e precisa ser devidamente armazenada para cumprir uma função em determinado momento de sua vida. Para que esse aprendizado ocorra com qualidade e eficiência, é preciso que o cérebro seja devidamente estimulado de maneira principalmente criativa. (MARQUES, 2018) Quando realizamos mudanças em nossos hábitos, estimulamos nosso cérebro a trabalhar e a se transformar. O que realmente muda no cérebro é a força das conexões entre os neurônios em conjunto: quanto mais praticamos uma ação, mais fortes as sinapses vão se tornando. Quando as células neuronais trabalham em conjunto, mais forte é a possibilidade de mudança, evitando recaídas aos velhos hábitos. Vemos, então, que a neuroplasticidade auxilia no acúmulo de experiências e de conhecimentos, ou melhor, ajuda o ser humano a aprender. A aprendizagem auxilia no aumento de nossa reserva cognitiva, fazendo com que o cérebro consiga estar mais preparado para combater contra o declínio relacionado à idade e contra a demência. 7 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2. NEUROCIÊNCIA E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL Objetivo Conhecer as principais teorias do desenvolvimento infantil. Introdução Conhecer o desenvolvimento infantil e compreender como acontece o processo de aprendizagem é algo imprescindível ao educador, não apenas para atuar diante dos problemas, mas também para potencializar o aproveitamento pedagógico. John Locke (1632 – 1704) já afirmava que um recém-nascido não pode ser comparado a uma folha em branco: é a experiência que molda o bebê, a criança, o adolescente e o adulto como um indivíduo único. Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778) dizia que as crianças tinham características próprias e que necessitavam de uma educação que respeitasse suas fases de desenvolvimento, com professores capacitados para tal entendimento. O avanço das ciências demostrou uma preocupação crescente em relação ao bem- estar da criança, o que acabou originando as primeiras teorias científicas do desenvolvimento infantil. Assim, cinco grandes perspectivas teóricas orientam a maioria das pesquisas sobre as crianças e seu desenvolvimento. Vejamos cada uma delas: 2.1. A perspectiva biológica De acordo com a perspectiva biológica, “[...] o desenvolvimento intelectual e o da personalidade, assim como o físico e o motor, ocorrem de acordo com um plano biológico. ” (KAIL, 2004, p. 8) Arnold Gesell (1880 – 1961) foi o criador de umas das primeiras teorias biológicas. Ele a chamou de “teoria da maturação”. Segundo a teoria da maturação, “[...] o desenvolvimento infantil reflete um esquema ou um plano específico e pré-arranjado dentro do corpo. ” (KAIL, 2004, p. 8) De acordo com Gesell, o desenvolvimento é um desdobramento do plano biológico. Para ele, as crianças se desenvolvem naturalmente e elas aprendem a falar, brincar e raciocinar de forma espontânea. 8 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Uma outra teoria biológica também foi muito relevante, a “teoria etológica”. Etologia, é um termo que provêm do grego êthos (conduta, costumes, comportamento) e lógos (estudo, tratado). Ela encara o desenvolvimento de uma perspectiva evolucionista. Nessa teoria muitos comportamentos são adaptativos, pois possuem valor de sobrevivência. São exemplos desses comportamentos abraçar, chorar e agarrar, que têm como objetivo aliciarem os cuidados dos adultos. John Bowlby (1849-1936) falou sobre a importância do vínculo mãe-bebê. Ele advertia contra a separação entre mãe e filho. Sem um bom cuidador substituto, o bebê e a genitora têm uma predisposição biológica para tornarem-se apegados um ao outro, e este apego é importante para a sobrevivência do bebê. 2.2. A perspectiva psicodinâmica Essa perspectiva remete-se às pesquisas de Sigmund Freud (1856 – 1939), médico especialista em patologias do sistema nervoso. “Utilizando as histórias de seus pacientes, Freud criou a primeira teoria psicodinâmica, que sustenta que o desenvolvimento é, em grande parte, determinado pela forma como as pessoas resolvem os conflitos com que se deparam nas idades diferentes. ” (KAIL, 2004, p. 9) Duas teorias de Freud tiveram repercussão nas pesquisas sobre o desenvolvimento infantil: a teoria da personalidade e a do desenvolvimento psicossexual. A “teoria da personalidade” foi variando à medida que seu desenvolvimento teórico foi avançando. Para Freud, a personalidade humana é produto da luta entre nossos impulsos destrutivos e a busca pelo prazer, sem deixar de lado os limites sociais como entidades reguladoras. Sua teoria destaca-se pela separação da mente em três instâncias: id, ego e superego. De acordo com a “teoria do desenvolvimento psicossexual”, os seres humanos desejam experimentar o prazer físico desde o nascimento. “Este modelo segue as cinco etapas do desenvolvimento psicossexual. Caracterizado pela busca de gratificação nas zonas erógenas do corpo, cuja importância depende da idade. Freud descobriu que não apenas o adulto encontra satisfação nas zonas erógenas, mas a criança também. ” (PSICOLOGIA, 2018) 9 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância • Etapa oral: de 0 a 18 meses. O foco de prazer é a boca – chupar, beijar, morder. Nesta fase, a fixação se relaciona com uma personalidade oral receptiva e contínua buscando o prazer por meio da boca (fumar, comer demais, etc.). Do contrário, a frustração repentina se relaciona com uma personalidade oral agressiva: procura o prazer sendo verbalmente agressivo e hostil com os demais. • Etapa anal: de 18 meses a 4 anos de idade. O foco de prazer é o ânus – reter e expulsar. Um controle muito estrito da mesma se relaciona com a personalidade egoísta, mesquinha. Ou, pelo contrário, uma personalidade relaxada, frouxa. • Etapa fálica: de 4 a 7 anos de idade. O centro do prazer está concentrado nos genitais. A masturbação é bastante comum nestas idades. Acontece a identificação com o pai ou com a mãe. Nessaetapa resolve-se o complexo de Édipo. Esse complexo estrutura a personalidade e serve para aceitar as normas sociais por parte do indivíduo. • Etapa de latência: de 7 a 12 anos. Durante este período, Freud supôs que a pulsão sexual era suprimida a serviço da aprendizagem para facilitar uma integração cultural do sujeito com o seu entorno. • Etapa genital: De 12 anos em diante. Representa a aparição da pulsão sexual na adolescência, dirigida mais especificamente para as relações sexuais. A identidade sexual de homem ou mulher é reafirmada. Freud afirmava que a medida que o indivíduo cresce, o foco do prazer se desloca para diferentes partes do corpo. Ele “[...]acreditava que o desenvolvimento é melhor quando as necessidades das crianças em cada estágio são satisfeitas, mas não em excesso. ” (KAIL, 2004, p. 10) segundo ele, os pais têm a difícil tarefa de satisfazer as necessidades de seus filhos sem mimá-los. 2.3. A perspectiva da aprendizagem O pressuposto-chave da perspectiva da aprendizagem é que o desenvolvimento é determinado principalmente pelo meio ambiente da criança. John Watson (1878 – 1958) foi o teórico pioneiro nesta abordagem. Watson afirmou que a experiência era quase tudo o que importava para determinar o curso do desenvolvimento. Ele baseou sua pesquisa na teoria de S. F. Skinner, que estudou o condicionamento operante, “[...] em que as consequências de um comportamento determinam se este será repetido no futuro. ” (KAIL, 2004, p. 11) Skinner afirmou que o reforço era uma consequência que aumentava a probabilidade futura de ocorrer o comportamento que a gerou. O “reforço positivo” consistia em dar uma recompensa quando o comportamento prévio se repetia. O “reforço negativo” era baseado em recompensar alguém retirando coisas desagradáveis. A “punição” seria uma consequência que diminuiria a futura probabilidade do comportamento que a gerou ocorrer. Skinner afirmava também que as crianças aprendem apenas observando os que a cercam, o que é conhecido como imitação ou aprendizagem observacional. 10 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Albert Bandura (1925) baseou sua teoria “social-cognitiva” numa noção mais complexa de recompensa, punição e imitação. “Bandura afirma também que a experiência dá às crianças uma sensação de auto-eficácia, crenças sobre suas próprias habilidades e talentos. ” (KAIL, 2004, p. 12) 2.4. A perspectiva cognitivo-desenvolvimental Esta perspectiva afirma que o foco de interesse é no desenvolvimento cognitivo e não no desenvolvimento afetivo. Interessa-se nas mudanças qualitativas nos processos de pensamento, que se refletem no comportamento. Esta perspectiva considera as pessoas como seres ativos, que são agentes do seu desenvolvimento. Jean Piaget (1896-1980) fez muitas observações detalhadas sobre as mudanças e regularidades no desenvolvimento do pensamento das crianças. Ele desenvolveu o Método Clínico de Estudo, que era baseado na observação e no questionamento flexível. Piaget enfatiza em sua teoria os diferentes estágios do pensamento, que são o resultado das mudanças nas teorias das crianças sobre o mundo. Os quatro estágios de desenvolvimento cognitivo são: sensório-motor, pensamento pré-operatório, pensamento operatório-concreto e pensamento operatório-formal. 2.5. A perspectiva contextual Segundo esta perspectiva, o ambiente é um fator importante no desenvolvimento. Ela afirma que as pessoas e instituições se combinam para formar a cultura de uma pessoa – o conhecimento, as atitudes e o comportamento associados a um grupo de pessoas. Um dos primeiros teóricos a destacar o contexto cultural no desenvolvimento foi Lev Vygotsky (1896 – 1934). Sua teoria afirmava que formas complexas de pensamento têm origem nas interações sociais, mais do que a exploração individual do meio ambiente por parte da criança. As principais contribuições de Vygotsky foram: a aprendizagem da criança é orientada por uma pessoa mais capaz, a qual modela e estrutura a aprendizagem; a chave deste processo interativo está na linguagem (função de comunicação e de pensamento). 11 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. NEUROCIÊNCIA E FUNÇÕES COGNITIVAS Objetivo Conhecer as principais funções cognitivas do ser humano. Introdução Todos nós somos capazes de pensar, memorizar, aprender, falar, entre outras capacidades da atividade mental – cognição. Somos habilitados para captar informações através dos sentidos e armazená-las na memória, envolvendo processos de percepção, atenção, memória, linguagem, comportamentos físicos e emocionais. Assim, as funções cognitivas podem ser entendidas como habilidades que o nosso cérebro possui. Elas são divididas em: memória, percepção, linguagem, funções executivas e atenção. “As funções cognitivas compreendem as operações de registro e armazenamento (input), bem como de processamento e produção (output). ” (FERREIRA, 2014, p. 88). 3.1. O trabalho das funções cognitivas Você deve entender que as funções cognitivas trabalham em conjunto, como uma orquestra, em que cada uma delas são interdependentes umas das outras. Cada uma deve ser entendida separadamente, mas não podem funcionar sem estarem trabalhando de forma integrada. Juntas elas dão corpo aos nossos pensamentos, sentimentos e ações, das mais simples às mais abstratas. No entanto, podemos diferenciar as classes de função cognitiva entre as que lidam com a informação verbal e/ou simbólica e aquelas que mediam as informações visuais complexas ou os padrões sonoros. Cada função cognitiva tem padrões neuroanatômicos e expressão comportamental peculiares. ” (FERREIRA, 2014, p. 89) Vemos que as habilidades cognitivas são de extrema importância para o controle metacognitivo e para o direcionamento da experiência mental. A cognição é sistêmica, isto é, ela emerge do cérebro como o resultado da contribuição, interação e coesão do conjunto de funções mentais. 12 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância De acordo com Lezak (1995) o comportamento humano é composto pelos seguintes aspectos: • Cognição - manipulação de informações do comportamento • Emocionalidade - sentimentos e motivação • Funcionamento executivo - forma como o comportamento se expressa A relação do nosso cérebro com as funções cognitivas funciona, por exemplo, como o hardware e o software: precisamos de um computador para processar uma informação, e isso envolve estágios de entrada, codificação, armazenamento, decodificação e saída da informação. Vamos agora conhecer cada uma das funções cognitivas: 3.2. Memória Esta é uma das funções que mais utilizamos ao longo de nossa vida. A memória pode ser entendida como um mecanismo que criamos para registrar informações, lembrar- se delas e posteriormente termos condições de tirar proveito desses registros. “É um processo complexo através do qual um indivíduo codifica, armazena (consolida) e recupera informações. ” (STRAUSS et al., 2006) Disponível em: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRTPXiJ-lpp55- ddfKDIBoSyPzpiDgXTW6DEgeglL4GhULPywbkqw Acesso em: 17 set. 2018. São várias as etapas na memória, como por exemplo a memória de curto prazo, que faz uso dos nossos sentidos e a memória de longo prazo, que são os conhecimentos que classificamos como os mais importantes e que ficam presentes no nosso cérebro por mais tempo. https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRTPXiJ-lpp55-ddfKDIBoSyPzpiDgXTW6DEgeglL4GhULPywbkqw https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRTPXiJ-lpp55-ddfKDIBoSyPzpiDgXTW6DEgeglL4GhULPywbkqw 13 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3.3. Atenção A atenção é uma das funções cognitivasmais complexas, pois depende que seja mantido o foco. Deve ser entendida como a “capacidade de filtrar informações relevantes e irrelevantes em função das demandas internas e intenções, sustentar e manipular representações mentais e monitorar/ modular respostas aos estímulos”. (STRAUSS et al., 2006). A atenção é um sistema de difícil pesquisa, além de envolver o sistema sensorial, envolve também variáveis intrínsecas do sujeito. 3.4. Percepção A percepção é uma função cognitiva em que o ser humano é capaz de formar e distinguir os estímulos vindos de um ambiente através dos órgãos sensoriais e poder dar um significado para eles. A percepção não resulta somente dos estímulos e sensações, é o produto de experiências que partem de estímulos sensoriais, e são recriados na mente de quem percebe algo. (DALGALARRONDO, 2008) A percepção trabalha em conjunto com a sensação, pois é através destes dois processos que sentimos e interpretamos o mundo. A percepção é o ato de interpretar um estímulo registrado através de nossos mecanismos sensoriais. As sensações são percebidas e associamos um significado a elas. Assim, tudo com o qual temos contato é por nós apreendido e passa a fazer parte de nosso mundo interno. 3.5. Linguagem A linguagem pode ser definida como um sistema convencional de símbolos arbitrários que são combinados de modo sistemático e orientando para armazenar e trocar informações. Esta é uma função que também utilizamos ao longo de todos os dias de nossa vida, como também durante a maior parte do nosso tempo. Utilizamos a linguagem de várias maneiras, por exemplo, a linguagem oral (conversando), a linguagem escrita (lendo ou escrevendo um texto), a linguagem gestual (acenando, gesticulando). 14 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O uso da linguagem tem uma importância muito grande no desenvolvimento do indivíduo, pois por meio dela conseguimos combinar diversos elementos (palavras, gestos, desenhos) a fim de nos comunicarmos. Disponível em: https://steemitimages.com/DQmdAzcV3WzxGStCZrniM9TANQy8kUgvMSPvUwawWBz17sJ/emotionheader7242466875_1.jpg Acesso em: 17 set. 2018. 3.6. Funções Executivas As funções executivas utilizam as atividades cognitivas para a execução e o planejamento de tarefas. Abrangem as tomadas de decisões, a lógica, o raciocínio, as estratégias e as soluções de problemas. Estes processos cognitivos também são produzidos diariamente, quando entendemos as alternativas e escolhas, para assim decidir os passos a serem tomados. As funções executivas são os comportamentos que permitem que uma pessoa consiga agir de modo independente e produtivo no mundo. Compreendem a volição (motivação e autoconsciência), o planejamento, a ação com propósito (relativa aos objetivos) e o desempenho em si. (FERREIRA, 2014, p. 90). O treino de funções cognitivas é uma das chaves do sucesso escolar e do sucesso na vida, quanto mais precocemente for implementado, mais facilidade tende a emergir nas aprendizagens subsequentes. Quando integramos harmoniosamente as capacidades cognitivas, que são pouco estimuladas escolar e culturalmente, diariamente na sala de aula, oferecemos a nossos alunos a chance de terem mais rendimento e aproveitamento na aprendizagem. https://steemitimages.com/DQmdAzcV3WzxGStCZrniM9TANQy8kUgvMSPvUwawWBz17sJ/emotionheader7242466875_1.jpg 15 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4. NEUROCIÊNCIA E APRENDIZAGEM Objetivo Entender de que forma as neurociências podem contribuir com a aprendizagem escolar. Introdução De acordo com José e Coelho (2004, p. 11) a aprendizagem “é o resultado da estimulação do ambiente sobre o indivíduo já maturado, que se expressa, diante de uma situação-problema, sob a forma de uma mudança de comportamento em função da experiência.” Assim, vemos que a aprendizagem é influenciada por muitos fatores, tais como o aspecto intelectual, o psicomotor, o físico, o emocional e o social. Precisamos entender também que aprender resulta da inter-relação entre as estruturas mentais e o meio ambiente. Nesse processo, o professor atua como um coautor da aprendizagem dos alunos, em que o conhecimento é construído e reconstruído continuamente. De acordo com Alfred Sholl Franco, professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do projeto Ciências e Cognição – Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências (CeC-NuDCEN), a neurociência ajuda a conhecer melhor as pessoas e, a partir dessas informações, torna-se possível produzir processos de ensino e aprendizagem mais eficazes. “A neurociência busca estudar temas sobre o sistema nervoso que contribuem para entender como aprendemos e como podemos potencializar o ensino. Por exemplo: para compreender como funciona o sono nas crianças e como ele pode impactar na sua aprendizagem”, explica o professor. 4.1. Os objetivos da aprendizagem Os objetivos da aprendizagem escolar são divididos em domínio cognitivo, afetivo, psicomotor. No que diz respeito ao domínio cognitivo, que são ligados a conhecimentos, 16 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância informações ou capacidades intelectuais, devemos estimular em nossos alunos o desenvolvimento de habilidades de memorização, compreensão, aplicação, análise, síntese e a avaliação. Já no domínio afetivo, que está relacionado a sentimentos, emoções, gostos ou atitudes, o aluno deve exercitar suas habilidades de receptividade, resposta, valorização, organização e caracterização. E por fim, no domínio psicomotor, que engloba o uso e a coordenação dos músculos, devem ser estimuladas as habilidades relacionadas a movimentos básicos fundamentais, movimentos reflexos, habilidades perceptivas e físicas, além da comunicação não discursiva. Assim, vemos que para conseguir atingir a todos esses objetivos da aprendizagem, podemos utilizar os conhecimentos da neurociência como potencializador desse processo. 4.2. Aprendizagem significativa Para que o ato de aprender gere alterações efetivas no comportamento e nas atitudes de nossos alunos, nós, educadores, precisamos ampliar o seu potencial, demonstrando claramente a relação existente entre o que eles estão aprendendo e suas vidas. O educando tem uma aprendizagem real quando consegue aplicar o conhecimento ou habilidade adquirida em uma situação vivenciada por ele. Isso é uma aprendizagem significativa! Salienta-se que a aprendizagem para Ausubel (2003) significa organização e integração do material na estrutura cognitiva. Para ele a aprendizagem significativa é um processo por meio do qual uma nova informação relaciona-se com um aspecto especificamente relevante da estrutura de conhecimento do indivíduo. Assim a aprendizagem significativa ocorre quando a nova informação se ancora em conceitos ou proposições relevantes, preexistentes na estrutura cognitiva do aprendiz. José e Coelho (2004, p. 11) afirmam que “uma aprendizagem mecânica, que não vai além da simples retenção, não tem significado para o aluno. ” Assim, devemos estimular o raciocínio, a análise e a imaginação no ato de aprender. 17 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Entender o que se aprende é fundamental para a compreensão do processo de aquisição e organização de significados na estrutura cognitiva. Por isso que o educador deve buscar o conhecimento prévio do aluno para provocar nele uma aprendizagem significativa. Quando, por exemplo, mostramos às crianças que ao medirem os ingredientes para fazer um bolo, estão utilizando os conceitos de cálculos, grandezas e medidas da matemática. Ao fazer uso de linguagens diferenciadas, significativas, com a finalidadede permitir que os alunos compreendam e relacionem os fenômenos estudados, estamos evitando os modos de ensinar desconectados da realidade deles. Para que o docente elabore uma aula significativa ele deve seguir alguns passos, que o ajudarão a promover a aprendizagem. Inicialmente, precisamos ajudar o aluno a construir sentido, por meio de processos que exploraram as aprendizagens anteriores; que possibilitem a inclusão conceitual e que aumentem a “segurança para aprender”. O segundo passo consiste em apresentar o novo conteúdo, utilizando processos diferenciados: apresentação da nova informação (sempre seguindo uma ordem lógica); construção subjetiva do conceito; construção subjetiva da definição e promover a reconciliação integradora. Após essa etapa, chegou o momento de verificar se houve aprendizagem. Isso pode ser realizado por meio da construção de argumentos; da reconciliação integradora em níveis mais profundos; do retorno à fase da organização prévia e da ampliação e aplicação do conceito. 4.3. Princípios da aprendizagem De acordo com Poppovic (1980, p. 116-117), existem alguns princípios que podem auxiliar na aprendizagem: 1. A motivação é um fator de grande importância para a aprendizagem. 2. O aluno tem mais motivação para aprender quando as coisas têm um significado para ele. 3. A história pessoal do aluno precisa ser levada em conta. 4. O aluno aprende melhor quando participa ativamente do processo de ensino. 18 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5. Elogios e recompensas ajudam mais a motivar o aluno do que críticas e punições. 6. Para algumas aprendizagens, a repetição é indispensável; mas precisa ser feita de forma interessante. 7. O aluno aprende melhor quando fica sabendo se foi bem-sucedido, ou quais os erros que cometeu. 8. O aluno aprende melhor uma coisa nova quando já domina as aprendizagens anteriores. 9. As experiências de aprendizagem devem caminhar do simples para o complexo. 10. As experiências de aprendizagem devem caminhar do concreto para o abstrato. Além disso, a neurociência prova que quando criamos associações, relacionando novos conceitos com outros já conhecidos, os assuntos serão fáceis de serem lembrados. Vale destacar que aprender a perguntar também faz parte do aprendizado e é tão importante quanto saber responder. Isso estimula o estudante a pensar sobre o assunto e incentiva o desenvolvimento de novas ideias, pois ele terá que se esforçar para encontrar a resposta desejada. Desenvolver pequenos projetos é também um princípio da aprendizagem. Isso despertar a curiosidade dos alunos por algum tema, ou assunto. Você pode solicitar que os alunos pesquisem sobre ele e elaborarem algum produto com as pesquisas, como painel, exposição ou dramatização (exemplo: dramatizar um telejornal e cada aluno apresenta uma notícia). Diversificar é um outro aspecto importante. Apresentar o mesmo conteúdo de formas diferentes favorece que alunos possam compreender melhor o conteúdo. Fazer algumas pequenas modificações no material didático podem tornar os textos mais atraentes e mais fáceis de serem compreendidos. 4.4. As inteligências múltiplas e a aprendizagem Um exemplo dos benefícios proporcionados pela neurociência à aprendizagem pode ser visualizado tomando como base as chamadas múltiplas inteligências. Esse conceito, desenvolvido na década de 1980 por uma equipe da Universidade Harvard liderada pelo 19 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância psicólogo Howard Gardner (1983, 1993) classifica as habilidades como intrapessoal, interpessoal, corporal-sinestésica, espacial, linguística, musical, naturalista e lógico- matemática. Segundo a teoria de Gardner, os professores devem apelar às inteligências mais fortes das crianças. “Alguns alunos podem entender melhor culturas diferentes estudando, por exemplo, sua dança, enquanto outros podem entender essas culturas estudando sua música. ” (KAIL, 2004, p. 335) 4.5. Tecnologia, jogos, atividades lúdicas e aprendizagem A neurociência traz uma importante contribuição a educação no que diz respeito ao uso de tecnologias, pois ela oferece a possibilidade de se conhecer melhor o funcionamento da relação entre inovações tecnológicas e aprendizagem. De acordo com Alfred Sholl Franco “A tecnologia possui um fator atrativo muito forte, principalmente para os jovens. Mídias ou sistemas que são lidos originalmente como entretenimento ou redes sociais têm papel fundamental para a educação, desde que bem usados”. É preciso haver uma maior articulação entre as disciplinas escolares com o saber cotidiano. O uso das tecnologias deve ser feito de modo integrado com o projeto curricular e com o desenvolvimento de competências. Utilizar jogos ou atividades lúdicas também são estratégias relevantes para a aprendizagem. “O saber se constrói fazendo próprio o conhecimento do outro, e a operação de fazer próprio o conhecimento do outro só se pode fazer jogando.” (FERNÁNDEZ, 1991, p. 165). Por meio do jogo é possível, ao mesmo tempo despertar o interesse do aluno e favorecer que ele construa conhecimentos. As atividades lúdicas promovem a criatividade e favorecem o estabelecimento de vínculos positivos com o ambiente e os conteúdos escolares. É possível desenvolver jogos que envolvam conhecimentos de diversas áreas, como matemática, português, artes entre outras. 20 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5. ATENÇÃO, MEMÓRIA E NEUROCIÊNCIA Objetivo Entender como a atenção e a memória influenciam na aprendizagem. Introdução A aprendizagem depende da intensidade da atenção; isto é, para aprender, precisamos prestar atenção ao objeto de conhecimento. Assim, precisamos entender que a atenção e a aprendizagem estão ligadas a um conceito estudado na psicologia cognitiva que se refere à forma como processamos informações presentes em nosso ambiente. O psicólogo e filósofo William James, descreve a atenção como [...] à tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um entre diversos objetos ou esquemas de pensamento simultaneamente possíveis. Para termos atenção devemos retirar algumas coisas da mente com a finalidade de lidar efetivamente com outras. Neste sentido, o que ocorre é uma seleção de muitos estímulos, com registro de curto e longo prazo. Mostrando que nossa atenção tem limites, e com capacidade de duração, sendo seletiva e respondendo bem a estímulos. Implica-se afastar-se de algumas situações para lidar efetivamente com outras. Isso acontece pela experiência. E a experiência do sujeito é aquilo que ele concorda em prestar atenção. (JAMES, 1980). Assim, como educadores, devemos reunir as informações que são essenciais para a aprendizagem. Infelizmente, em muitos casos, a escola aparenta não estar muito preocupada para que a atenção seja gerada, quando oferecemos aulas desinteressantes, fora de contexto. Por isso, devemos rever nossas propostas e passar a observar e a avaliar o interesse dos nossos alunos. As informações chegam para nós através de vários órgãos dos sentidos, logo devemos usar um tema que seja proveitoso, relevante e que estimule o planejamento e a autonomia. Assim como a atenção, a memória e a aprendizagem trabalham juntas. A capacidade para adquirir e armazenar novas informações influencia a forma como aprendemos. Os educadores precisam ver cada aluno como um indivíduo com grandes capacidades a serem exploradas, capaz de consolidar memórias alicerçadas por práticas que solidifiquem os novos conhecimentos, comprometendo-se assim com um ensino de qualidade. 21 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5.1. Atenção Durante uma aula, diversascoisas estão ocorrendo: pessoas entram e saem da sala; alunos conversam entre si; sons de papéis sendo amassados; a temperatura da sala pode estar alta ou baixa; o professor falando. Todas essas informações são processadas ao mesmo tempo por um aluno, e como vemos, são muitos os itens que podem tirar o foco da atenção da aula. Quando perdemos o foco no aprendizado, acabamos criando informações segmentadas, por isso que é tão necessário reunirmos todas as informações importantes para a aprendizagem. Segundo Ladewig (2000, p. 63) quando ensinamos algo, o que desejamos é que o indivíduo assimile a informação, retendo-a para uso posterior. Aprendizagem neste caso, é conseguirmos realizar uma atividade, mesmo após muitos anos sem a termos praticado, como por exemplo, andar de bicicleta ou nadar. A atenção exerce uma função muito importante na capacidade de retenção de informações relevantes, pois é através dela, associada aos processos de controle, que guardamos informações na memória de longa duração. 5.1.1. O cérebro e a atenção Por meio da atenção conseguimos escolher os estímulos que são importantes, que nos despertam interesse e inibir aqueles que são classificados como irrelevantes. Precisamos nos concentrar em algumas características do ambiente e excluir (relativamente) outras pois, se isso não fosse possível, a quantidade de informações que estariam em nossa mente seria tão grande e desorganizada que nos impediria de realizar qualquer atividade. (FERREIRA, 2014, p. 106) Para William James (1980), a atenção é o processo pelo qual a mente se ocupa dos objetos (como algo que vemos e ouvimos) ou das correntes do pensamento, o que implica em se afastar de algumas coisas para poder lidar efetivamente com outras. Devemos lembrar que a atenção está relacionada com a consciência, o estado de alerta, os afetos, a motivação, a memória e a percepção. Só quando a atenção efetivamente existe é que nossos processos cognitivos acontecem. 22 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Para Ferreira, (2014, p. 107) a atenção pode ser distribuída de forma ampla ou específica no cérebro; ela funciona de vários modos e está relacionada a vários processos: • Alerta: controla o nível geral de responsividade; • Orientação: alinha os órgãos sensoriais para determinado estímulo; • Atenção seletiva: dá preferência a determinado estímulo entre outros conteúdos definidos que estão em nossa consciência; • Atenção sustentada: mantem a vigilância; • Atenção dividida: possibilita que o foco atencional seja dividido em vários estímulos ao mesmo tempo. Existem também os prejuízos atencionais (distratibilidade, dificuldade em prestar atenção, dificuldade para prestar atenção em dois ou mais estímulos simultaneamente, falta de persistência em manter a atenção em um alvo). Todos eles podem acontecer com pessoas alertas, quando, por exemplo, a pessoa sente medo ou dor. Nestes casos a atenção pode ser prejudicada. 5.2. Memória A memória é a capacidade que temos de lembrar o que vivemos, de conectar o passado ao presente. Ela “[...] agrega nossos pensamentos, impressões e experiências pela sua capacidade de arquivar informações e utilizá-las para propósitos adaptativos.” (FERREIRA, 2014, p. 127) A memória pode ser dividida em memória de curto e de longo prazo. A de curto prazo faz a retenção temporária de pequenas quantidades de material sobre breves períodos. E a memória de longo prazo, que faz codificações profundas. A memória de longo prazo pode ser dividida em declarativa (explícita) e não declarativa (implícita). “[...] a memória declarativa, isto é, nossas recordações ou lembranças, informações que trazemos a consciência, como o nome de uma pessoa, o que aconteceu na festa de sábado, o que comemos no almoço de ontem etc.” (FERREIRA, 2014, p. 132) Já a memória não declarativa “[...] é resultante da experiência, decorrente de uma mudança no comportamento, e é inconsciente. [...] por exemplo, podemos nos lembrar das 23 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância primeiras vezes que nos ensinaram a andar de bicicleta, mas não precisamos evocar essas informações todas as vezes que formos pedalar.” (FERREIRA, 2014, p. 132) 5.2.1. Neurociências e técnicas para memorizar Atualmente utilizamos em demasia smartphones, tablets e outros equipamentos eletrônicos. No entanto, é justamente a memória uma das funções cognitivas mais prejudicadas pela sobrecarga de informações trazida pela tecnologia. Devido ao grande número de estímulos, acabamos esquecendo cada vez mais facilmente nomes, datas, prazos e informações. Conforme afirma Gasparini (2017), o esquecimento prejudica o sucesso de qualquer aluno, principalmente quando precisa memorizar conteúdos específicos. Por isso que podemos utilizar os recursos e técnicas desenvolvidos pela neurociência para recuperar a capacidade de se lembrar. O professor Peter Doolittle, da universidade Virginia Tech, afirma que só memorizamos uma informação se fizermos algo prático com ela, por isso devemos “brincar de dar aula”. Segundo ele, uma das melhores maneiras de fazer isso é explicar o conteúdo para uma outra pessoa, como um amigo que está estudando com você, por exemplo. Para dar sua “aula”, você precisará organizar, filtrar e reproduzir a informação, o que facilita a memorização. Quando não há nenhuma pessoa disponível para ouvir a “aula” sobre o conteúdo que precisamos memorizar, podemos fazer isso sozinhos. Para tornar esse exercício solitário mais estimulante, podemos fazer perguntas a nós mesmos sobre o material. De acordo com especialistas em educação da Universidade de Michigan, falar em voz alta, seja para fazer perguntas, seja para respondê-las a si mesmo, ajuda muito. Uma outra técnica útil é escrever o que precisamos lembrar. Em tempos dominados por computadores e smartphones, cada vez menos pessoas cultivam o hábito de registrar informações à mão. O antigo método, contudo, é excelente para a memorização. Estudiosos das universidades de Princeton e da Califórnia afirmam que ao usar o teclado ou a tela touch de um celular, processamos a escrita de forma mais superficial do que quando desenhamos as palavras com um lápis. 24 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Uma outra sugestão apontada pelo especialista em memória Chris Moulin é visualizar a informação em um contexto inusitado, engraçado ou até surreal. Pensar como um pintor surrealista, na verdade, pode ser bastante útil. Segundo Carla Tieppo, neurocientista e professora da Santa Casa de São Paulo, quanto mais nos espantarmos com uma imagem mental, mais chances ela terá de ser absorvida pelo cérebro de forma duradoura. E uma última técnica para memorizar é transformar tudo em música. Quando envolta em melodia, qualquer informação pode ser gravada mais facilmente. Um estudo de pesquisadores norte-americanos e alemães mostrou que a criação de um padrão rítmico e melódico é um excelente auxiliar das funções cognitivas. 5.1.2.1. Memória e aprendizagem Como vimos, atenção e memória estão relacionadas. A forma como aprendemos e avaliamos impacta de maneira essencial o tipo de memória na qual o que foi ensinado será armazenado. Alguns conteúdos não ficam armazenados na memória de longa duração porque os alunos sabem que só serão cobrados na prova e não entendem que essa informação será útil no futuro. Depois da prova, a impressão é que nunca mais esses conteúdos serão utilizados. (CHEDID, 2016) Estudos demonstram que os testes (provas) têm eficiência na aprendizagem se o feedback acontecer para evitar a repetição de erros. Precisamos criar tempo para rever o que não foi aprendido, pois outros conteúdos precisam ser vistos. O professordeve trabalhar os erros e revê-los, para não prejudicar a memória e a aprendizagem dos alunos. Chedid (2016) cita Marilee Sprenger, que apresenta sete aspectos que unem a memória e a aprendizagem: • Atingir: envolver os alunos no processo de aprendizagem, tornando-os protagonistas. Basear a aprendizagem em problemas e usar estratégias colaborativas e cooperativas. Lembrar de considerar a atenção, os estilos de aprendizagem, a motivação e o significado, além de utilizar estratégias que envolvam diversos estímulos sensoriais. • Refletir: dar tempo aos alunos para relacionar o novo aprendizado com o que já sabem. Deixar o aluno participar, dar exemplos, contar suas histórias. Existem estratégias para garantir que todos relacionem o novo conceito com seu 25 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância conhecimento prévio, como, por exemplo, colocá-los em duplas ou em grupos para que discutam o que foi aprendido. • Recodificar: a recodificação é um passo imperativo para que os alunos se apropriem das informações recebidas. Fazer resenhas, resumos, anotações, mapas conceituais, desenhos, esquemas sobre o que foi visto é essencial, pois o material autogerado é bem melhor lembrado. O registro personalizado desencadeia um melhor entendimento conceitual. • Reforçar: a partir do processo de recodificar o professor observa se os conceitos aprendidos pelos alunos correspondem ao que foi ensinado e, a partir daí, pode dar feedbacks, momento em que esses conceitos serão aperfeiçoados. Essa fase dá a chance ao professor de ajustar concepções antes de elas serem armazenadas na memória de longo prazo. • Treinar: treinar de diferentes maneiras, utilizando a aplicação, análise, a prática mental, os pares educativos, a música, a personalização, a dança, os poemas e a criação, entre outras estratégias. A lição de casa pode ser utilizada como treinamento, assim como projetos “mão na massa”. O treinamento é a oportunidade de utilizar o conhecimento e entendimento confrontando os alunos com situações- problema imprevistas ou incomuns. O treinamento consolida a retenção do conceito na memória de longa duração. • Rever: a revisão torna possível resgatar a informação da memória de longa duração e manipulá-la na memória de trabalho. A revisão consiste em preparar nossos alunos para avaliar a aprendizagem. As revisões podem ser realizadas individualmente e em grupos – e existem formas criativas de realizá-las. • Recuperar: o tipo de avaliação pode afetar a facilidade ou dificuldade de recuperar algumas informações armazenadas. O processo de recuperação pode ser desencadeado por técnicas específicas. O estresse pode inibir a capacidade de acessar essa memória. Existem formas variadas de testar seus alunos, avaliá-los em dupla ou individualmente, deixar que preparem tábuas de consulta, proporcionar formas diversas de resgatar a informação através de trabalhos, provas e projetos. 26 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6. EMOÇÕES, MOTIVAÇÃO E NEUROCIÊNCIA Objetivo Entender como as emoções e a motivação influenciam na aprendizagem. Introdução Cada uma de nossas ações e pensamentos são sempre acompanhadas de reações emocionais, envolvendo também reações corporais, psicológicas ou cognitivas. “As emoções são uma fonte de motivação que nos induz a determinados comportamentos ou que sucede determinada ação. [...] Ao expressarem sentimentos, as pessoas comunicam significados aos outros e orientam-se cognitivamente.” (FERREIRA, 2014, p. 156) 6.1. Emoções De acordo com Fonseca (2016) As emoções no seu aspecto mais abrangente encerram, em paralelo, aspectos comportamentais positivos e negativos, conscientes e inconscientes, e podem equivaler semanticamente a outras expressões, como a afetividade, a inteligência interpessoal, a inteligência emocional; a cognição social; a motivação, a conação, o temperamento e a personalidade do indivíduo, cuja importância na aprendizagem e nas interações sociais é de crucial importância e relevância. Vemos, então, que são as emoções que nos orientam a investigar fatos, habilitando- nos a ter uma ágil tomada de decisão. Entretanto, existem situações em que não conseguimos associar a emoção com a cognição: nossos julgamentos acabam interferindo em nossos sentimentos, gerando assim conflitos internos. Ferreira (2014, p. 157) afirma que “as emoções prendem nossa atenção e ajudam a memória. É muito mais difícil desviar a atenção de algo que nos inflige uma alta carga emocional. Da mesma maneira, é muito mais fácil recordar aquilo que evoca uma emoção.” 6.1.1. As funções das emoções As emoções são muito importantes para nossa sobrevivência: elas nos alertam do perigo e permitem que criemos vínculos com as outras pessoas. Podem ter diferentes 27 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância intensidades e frequência, o que mostra que são adaptativas. São elas que nos preparam e orientam para que tenhamos comportamentos motivados. Como os seres humanos são seres sociais, as emoções nos permitem entender, reconhecer e antever as reações de outras pessoas, nos auxiliando assim, em nossas relações interpessoais. Quando olhamos para o rosto de alguém, muitas vezes conseguimos interpretar o que ele está sentindo: alegria, tristeza, dor, dúvida, espanto, entre outras emoções. As expressões faciais comunicam emoções de modo não verbal. “Mediante a aprendizagem das expressões faciais, os bebês aprendem a interagir socialmente e passam a expressar também suas emoções.” (FERREIRA, 2014, p. 158) Diferentes emoções podem nos aproximar ou afastar de uma situação. Por exemplo, quando estamos alegres e surpresos, acabamos nos aproximando de uma determinada situação, ao passo que quando estamos com medo, acabamos nos afastando. Quando falamos de emoções, lembramos também do humor. Ele é um estado mais difuso e mais duradouro que influencia o pensamento e o comportamento. É diferente do afeto (emoção) porque este é instantâneo. Como vimos em nossa aula sobre neuroanatomia, o sistema límbico é o conjunto de estruturas cerebrais que processa as emoções. As emoções são classificadas em primárias e secundárias. As emoções primárias são processadas no sistema límbico, especificamente pela amígdala e pelo giro do cíngulo. Elas são adaptativas, inatas, comuns a todas as culturas e estão associadas a estados biológicos e físicos específicos, como a raiva, o medo, a tristeza, o nojo, a felicidade e a surpresa. Já as emoções secundárias, além do sistema límbico, precisam da ativação dos córtices pré-frontal e somatossensorial. Elas são derivadas das emoções primárias, como o remorso, a culpa, a submissão e a antecipação. De acordo com Ferreira (2014, p. 171) para vivenciarmos as emoções devemos associar três componentes: o subjetivo, o fisiológico e o cognitivo. O componente subjetivo mostra que cada um de nós experimenta as emoções de uma forma particular, única, 28 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância subjetiva. Já o componente fisiológico associa a emoção `as nossas mudanças corporais. E por fim, o componente cognitivo, que é baseado na interação que existe entre o fisiológico e o cognitivo; isto é, o que pensamos afeta as nossas emoções. 6.2. Motivação Podemos entender a motivação como um conjunto de fatores psicológicos, conscientes ou não, de ordem fisiológica, intelectual ou afetiva, que determinam certo tipo de conduta em alguém. (FERREIRA, 2014, p. 178) Disponível em: http://4.bp.blogspot.com/- W9E414YrdGY/Vi_3foRKUjI/AAAAAAAAMzQ/zsXm4tk1J7o/s1600/Motiva%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Be%2Beduca%25C3%25A 7%25C3%25A3o.jpg Acesso em: 07 out. 2018. Existem dois tiposde motivação: a extrínseca e a intrínseca. A motivação extrínseca, que também é conhecida como motivação externa, está relacionada ao ambiente, às situações e aos fatores externos. No ambiente educativo, o clima organizacional, as atividades diversificadas, os cursos de aperfeiçoamento e as relações interpessoais se destacam como formas eficientes de estímulo externo. A motivação extrínseca é complementar, isto é, as pessoas não podem ser dependentes dela. “A motivação extrínseca está relacionada aos objetivos externos para os quais a atividade está sendo dirigida, tal como a redução do impulso ou a recompensa. Por exemplo, trabalhamos para ganhar o salário no final do mês.” (FERREIRA, 2014, p. 178) Já a motivação intrínseca, que também é conhecida como motivação interna, está relacionada à força interior que é capaz de se manter ativa mesmo diante de adversidades. Geralmente, ela está ligada a metas, objetivos e projetos pessoais que estimulam o indivíduo a acordar todos os dias, enfrentar o trânsito e se dedicar a horas intensas de trabalho. “A motivação intrínseca se refere ao valor ou prazer que está associado a atividade, mas não tem nenhum propósito ou objetivo biológico aparente. Os http://4.bp.blogspot.com/-W9E414YrdGY/Vi_3foRKUjI/AAAAAAAAMzQ/zsXm4tk1J7o/s1600/Motiva%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Be%2Beduca%25C3%25A7%25C3%25A3o.jpg http://4.bp.blogspot.com/-W9E414YrdGY/Vi_3foRKUjI/AAAAAAAAMzQ/zsXm4tk1J7o/s1600/Motiva%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Be%2Beduca%25C3%25A7%25C3%25A3o.jpg http://4.bp.blogspot.com/-W9E414YrdGY/Vi_3foRKUjI/AAAAAAAAMzQ/zsXm4tk1J7o/s1600/Motiva%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Be%2Beduca%25C3%25A7%25C3%25A3o.jpg 29 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância comportamentos intrinsecamente motivados são inerentes ao próprio comportamento.” (FERREIRA, 2014, p. 178) 6.2.1. Motivação e aprendizagem O professor deve descobrir estratégias e recursos para fazer com que o aluno queira aprender. Em outras palavras, deve fornecer estímulos para que o aluno se sinta motivado a aprender. Segundo Medel (2018) o educador deve: • Dar tratamento igual a todos os alunos; • Aproveitar as vivências que o aluno já tem e traz para a escola no momento de montar o currículo, incluir temas que tenham relação, isto é, estejam ligados à realidade do aluno, a sua história de vida, respeitando a sua vida social, familiar; • Mostrar-se disponível para o aluno, ou seja, mostrar que ele pode contar sempre com o professor; • Ser paciente e compreensivo com o aluno; • Procurar elevar a autoestima do aluno, respeitando-o e valorizando-o; • Utilizar métodos e estratégias variadas e propostas de atividades desafiadoras; • Mostrar-se aberto e afetivo para e com o aluno; • Dar carinho e limites na medida certa e no momento adequado; • Manter sempre um bom relacionamento com o aluno, e consequentemente, um clima de harmonia; • Fazer de cada aula um momento de real reflexão; Diversos aspetos podem influenciar a motivação do aluno: “as expectativas e estilos dos professores, os desejos e aspirações dos pais e familiares, os colegas de sala, a estruturação das aulas, o espaço físico da sala de aula, o currículo escolar, a organização do sistema educacional, as políticas educacionais, e principalmente as próprias características individuais dos alunos” (SIQUEIRA; WECHSLER, 2006, p. 22). É possível constatar que a motivação do aluno é, a par de fatores como a inteligência, o contexto familiar e a condição socioeconômica, uma condicionante considerada relevante no processo ensino-aprendizagem, uma vez que influencia as aprendizagens e o desenvolvimento do aluno afetando o grau de investimento do mesmo nesse processo (LEMOS; SOARES; ALMEIDA; 2000). 30 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O aluno motivado procura novos conhecimentos e oportunidades, mostra-se entusiasmado e otimista na realização de tarefas, com disposição para novos desafios, envolvendo-se, assim, no processo de ensino-aprendizagem (ALCARÁ E GUIMARÃES, 2007). Vemos que a motivação traz o entendimento do porquê o aluno precisa estudar, que diferença fará na sua vida aprender determinado conteúdo, além de dar suporte para que muitas vezes consiga dizer não para algum compromisso com amigos e mesmo assim tenha prazer em estudar. Os mecanismos da motivação quando ativados no cérebro liberam dopamina, que é uma substância neuromoduladora capaz de modificar as atividades elétricas dos neurônios. Quanto maior a quantidade de dopamina que recebemos, maior é a sensação de bem-estar que associamos aquele comportamento, procurando repetir este estímulo como forma de ativar nosso sistema de recompensa. (JENSEN, 2011) Isso prova que se o aluno recebe um elogio do professor por determinada situação, com certeza irá querer repetir a ação para receber novos elogios. 31 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7. DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM NA FALA, LEITURA, ESCRITA E MATEMÁTICA E NEUROCIÊNCIA Objetivo Conhecer as principais dificuldades de aprendizagem na fala, leitura, escrita e matemática. Introdução De acordo com José e Coelho (2004, p. 23) existem inúmeros fatores que podem desencadear um problema ou distúrbio de aprendizagem: • Fatores orgânicos: saúde física deficiente, falta de integridade neurológica (sistema nervoso doentio), alimentação inadequada etc. • Fatores psicológicos: inibição, fantasia, ansiedade, angústia, inadequação à realidade, sentimento generalizado de rejeição etc. • Fatores ambientais: o tipo de educação familiar, o grau de estimulação que a criança recebeu desde os primeiros dias de vida, a influência dos meios de comunicação etc. Os alunos são muitas vezes classificados como portadores de problemas de aprendizagem quando não conseguem fazer o que se espera de uma programação de ensino. Isso demanda uma avaliação mais cuidadosa e abrangente, pois a criança é um ser complexo, que precisa ser avaliada em todos os seus aspectos. José e Coelho (2004, p. 24) citam as formas de distúrbios que podem ocorrer no processo de aprendizagem: • Distúrbios de aprendizagem condicionados pela escola: a) Os condicionados pelo professor; b) Os condicionados pela relação professor-aluno; c) Os condicionados pela relação entre os alunos; d) Os condicionados pelos métodos didáticos. • Distúrbios de aprendizagem condicionados pela situação familiar. • Distúrbios de aprendizagem condicionados por características da personalidade da criança. • Distúrbios de aprendizagem condicionados por dificuldades de educação. 32 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7.1. Distúrbios de fala Os problemas que acometem a área da linguagem e da fala podem decorrer de características psicológicas (ou emocionais) e orgânicas. Vejamos os principais deles, de acordo com José e Coelho (2004): • Mudez ou mutismo: é a incapacidade de articular palavras, geralmente decorrente de transtornos do sistema nervoso central, atingindo a formulação e a coordenação das ideias e impedindo a sua transmissão em forma de comunicação verbal. • Atrasos na linguagem: é esperado que crianças a partir dos 3 anos tenham sua linguagem estruturada. Caso isso não ocorra, podemos pensar em uma forma de atraso na linguagem. As características principais das crianças com atraso são: deficiência de vocabulário, deficiência na capacidade de formular ideias e desenvolvimento retardado da estruturação de sentenças. • Problemas de articulação: a partir dos 7 ou 8 anos que a criança tem maturidade suficiente para produzir todos os sons linguísticos. As maiores dificuldades estão na pronúncia correta das consoantes e suas combinações. Os distúrbiosda fala mais frequentes são: − Dislalia: é a omissão, substituição, distorção ou acréscimo de sons na palavra falada; − Disartria: é um problema articulatório que se manifesta na forma de dificuldade para realizar alguns ou muitos dos movimentos necessários à emissão verbal; − Linguagem tatibitate: é um distúrbio de articulação, e também de fonação, em que se conserva voluntariamente a linguagem infantil; − Rinolalia: caracteriza-se por uma ressonância nasal (maior ou menor) que a do padrão correto da fala. • Problemas de fonação ou disfonias: problemas no mecanismo de produção de sons que impedem que a expressão verbal se manifeste de forma adequada. • Distúrbios de ritmo ou disfluências: referem-se à fala produzida com repetição de sílabas, palavras ou conjunto de palavras, prolongamentos de sons, hesitações e bloqueios – dificuldades para prosseguir a emissão de sons, mantendo-se a contração muscular inicial. A gagueira ou tartamudez é uma das principais formas de disfluência. 33 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância • Afasia: é associada às perturbações da linguagem decorrente de distúrbios no funcionamento cerebral. O distúrbio se manifesta como uma incapacidade para relacionar o que é percebido com seu significado, ou de transformar o pensamento em forma de expressão. Alguns exercícios são úteis tanto para minimizar, quanto para prevenir deficiências de linguagem: exercícios para os lábios, para a mandíbula, de palato, para a língua e brincadeiras com sons e palavras. 7.2. Distúrbios de leitura Os distúrbios na área da leitura e da escrita poder ter causas variadas: orgânicas, psicológicas, pedagógicas e socioculturais. Crianças com problemas de leitura podem envolver: a memória, a orientação espaço-temporal, o esquema corporal, a motricidade, o distúrbio topográfico ou a soletração. • Dificuldade na leitura oral: problemas tanto na visão quanto na audição podem comprometer a leitura oral. Isso pode se manifestar como dificuldade de discriminação visual (como confusão de letras ou palavras semelhantes); como dificuldade de discriminação auditiva (como troca de vogal oral por nasal). • Dificuldade na leitura silenciosa: o ato de ler, sem movimentar os lábios usando apenas os olhos, pode ocorrer por problemas de lentidão no ler; leitura subvocal (cochichada); necessidade de apontar as palavras com o lápis, régua ou dedo; perda da linha durante a leitura; repetição da mesma fase. • Dificuldades na compreensão da leitura: existem dificuldades em compreender o que se lê, na percepção integral do significado do que está escrito ou do que está sendo falado. Pode ocorrer por dificuldades relacionadas a velocidade da leitura, deficiência no vocabulário oral e visual, utilização inadequada dos sinais de pontuação e incapacidade de seguir instruções e tirar conclusões. A dislexia é um distúrbio específico do indivíduo em lidar com símbolos gráficos (letras e/ou números). São dificuldades relacionadas a escrita correta de letras e números; na ordenação do alfabeto, meses do ano e sílabas de palavras compridas; na distinção de direita e esquerda. Os disléxicos precisam de tratamento especializado, e o professor pode 34 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância colaborar motivando a criança, pois ao se ver compreendida e amparada, ela ganha confiança e segurança. 7.3. Distúrbios de escrita Há basicamente três tipos de distúrbios na escrita: as disgrafias, as disortografias e os erros de formulação e sintaxe. A disgrafia “é a dificuldade em passar para a escrita o estímulo visual da palavra impressa. Caracteriza-se pelo lento traçado das letras, que em geral são ilegíveis.” (JOSÉ; COELHO, 2004, p. 95) os principais erros dos digráficos são: apresentação desordenada do texto, margens malfeitas ou inexistentes, espaço irregular entre palavras, traçado de má qualidade ente outros. A disortografia é a “incapacidade de transcrever corretamente a linguagem oral, havendo trocas ortográficas e confusão de letras. Essa dificuldade na implica a diminuição na qualidade do traçado das letras.” (JOSÉ; COELHO, 2004, p. 96). Os principais erros que a criança com disortografia apresentam são: confusão de letras (trocas auditivas: f/v, p/b, ch/j); confusão de sílabas com tonicidade semelhante (cantarão/cantaram); confusão de letras (trocas visuais: b/d, p/q); confusão de palavras com configurações semelhantes (pato/pelo); uso de palavras com um mesmo som para várias letras (som do z: casa/caza, exame/ezame). Erros de formulação e sintaxe “são casos em que a criança consegue ler com fluência e apresenta linguagem oral perfeita, compreendendo e copiando palavras, mas não consegue escrever textos.” (JOSÉ; COELHO, 2004, p. 97). As crianças com desordem de formulação escrita têm dificuldade em colocar seu pensamento em símbolos gráficos (letras). Nos distúrbios de sintaxe, ocorrem erros como omissão de palavras, ordem errada de palavras, uso incorreto de verbos e pronomes, terminações incorretas das palavras e falta de pontuação. 7.4. Distúrbios de matemática Conforme afirmam José e Coelho (2004), em matemática podem haver muitas deficiências de identificação dos símbolos visuais, de cálculo, de concepção de ideias e de aspectos verbais e não-verbais. 35 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância As dificuldades em matemática podem se manifestar quando o aluno tem dificuldades em: fazer correspondência (número de alunos com número de carteiras na sala); fazer uma contagem com sentido; associar símbolos auditivos a visuais; aprender a contagem através de números cardinais e ordinais; visualizar conjunto de objetos dentro de um conjunto maior; compreender princípio de conservação de quantidade; executar operações matemáticas, bem como para compreender o significado dos sinais (+ - x ÷); compreender os princípios de medida etc. A discalculia é o distúrbio de matemática mais comum. Ela pode ter várias causas: pedagógicas, capacidade intelectual limitada e disfunções do sistema nervoso central. Outros distúrbios podem ser correlacionados com a discalculia: • Distúrbios de linguagem receptivo-auditiva e matemática: nesses casos, a criança pode se sair bem nos cálculos, mas encontrar dificuldade no raciocínio e nos testes de vocabulário matemático. • Memória auditiva matemática: a criança pode ter dificuldade de recordar números com rapidez e também pode não conseguir ouvir os enunciados apresentados oralmente, não sendo capaz de guardar informações, o que a impede de resolver os problemas matemáticos propostos. • Distúrbios de leitura e matemática: a criança pode ter dificuldade para ler os enunciados dos problemas, mas é capaz de realizar os cálculos quando são lidos em voz alta. • Distúrbios de escrita e matemática: as crianças que têm disgrafia não conseguem aprender os padrões motores para escrever letras ou números. 36 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 8. DIFICULDADES PSICOMOTORAS E NA SAÚDE FÍSICA E NEUROCIÊNCIA Objetivo Conhecer as principais dificuldades psicomotoras e na saúde física. Introdução Segundo José e Coelho (2004, p. 108) psicomotricidade é “a educação do movimento, com atuação sobre o intelecto, numa relação entre pensamento e ação, englobando funções neurofisiológicas e psíquicas.” Os distúrbios psicomotores envolvem o indivíduo em sua totalidade: pesquisando se o problema está no corpo, na área da inteligência ou na afetividade. Já os distúrbios da saúde física se apresentam quando a criança apresenta limitações como: deficiência visual ou auditiva, disfunção em qualquer parte do corpo, anemias crônicas, epilepsiae até mesmo verminoses. O reconhecimento do distúrbio físico a tempo não só contribui para correções precoces da aprendizagem escolar, como permite a profilaxia de futuros problemas de conduta. 8.1. Distúrbios psicomotores Os distúrbios psicomotores podem ser detectados precocemente. José e Coelho (2004, p. 111) afirmam que “os sintomas mais característicos são transtornos na área do ritmo, da atenção, do comportamento, esquema corporal, orientação espacial e temporal, lateralidade e maturação.” 8.1.1. Instabilidade psicomotora É o tipo mais complexo, pois predomina uma atividade muscular contínua e incessante. Conforme José e Coelho (2004), as características mais comuns são: • Instabilidade emocional e intelectual; • Falta de atenção e concentração; • Falta de coordenação geral e de coordenação motora fina; 37 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância • Falta de equilíbrio; • Hiperatividade; • Deficiências na formulação de conceitos e no processo de percepção; • Alteração na comunicação e atrasos na linguagem; • Alteração na função motora; • Alterações emocionais; • Perturbações durante o sono; • Alterações no processo do pensamento; • Dificuldades de leitura, escrita e na matemática; • Dificuldades sociais; • Problemas disciplinares graves. 8.1.2. Debilidade psicomotora Pode se apresentar de duas formas: paratonia ou sincinesia. • Paratonia: persistência de rigidez muscular que pode aparecer nas extremidades do corpo. A criança apresenta uma deselegância geral na posição estática ou em movimento. Por exemplo, quando o indivíduo caminha ou corre, os braços e pernas se movimentam mal e de forma rígida. • Sincinesia: participação de músculos em movimentos aos quais eles não são necessários. Por exemplo, quando colocamos um objeto em uma das mãos da criança e pedimos que ela o aperte com força, sua mão oposta também se fechará. Pode haver também descontinuidade dos gestos, imprecisão de movimentos nos braços e nas pernas, os movimentos finos dos dedos não são realizados. De forma geral, José e Coelho (2004) afirmam que crianças com debilidades psicomotoras apresentam: • Distúrbios de linguagem • Hábitos manipuladores • Tremores na língua, lábios ou pálpebras • Disciplina difícil • Atenção deficiente • Coordenação motora pobre • Afetividade e intelectualidade comprometidas 38 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância • Sonolência • Enurese • Isolamento social • Dificuldades de leitura, escrita e na matemática 8.1.3. Inibição psicomotora Crianças com inibição psicomotora apresentam as mesmas características das com debilidade, porém com uma diferença: existe a presença constante da ansiedade. Costumam apresentar um estado de ansiedade constante (sobrancelhas franzidas, cabeça baixa); problemas de coordenação motora; distúrbios de conduta; distúrbios glandulares, de pele e circulatórios; tiques; enurese; encoprese; dificuldades em provas orais. 8.1.4 Lateralidade cruzada Acontece quando a criança não apresenta dominância de mãos e pés do mesmo lado. Normalmente, o indivíduo apresenta dominância direita (destro) ou esquerda (canhoto) nos pés e nas mãos. Até um ano e meio de vida, é comum que o bebê apresente ambidestrismo, ou seja, o uso indiscriminado de ambos os lados, direito e esquerdo. A criança define sua lateralidade apenas a partir dos dois anos. A lateralidade cruzada pode apresentar: • Mão direita dominante versus olho esquerdo dominante; • Mão direita dominante versus pé esquerdo dominante; • Mão esquerda dominante versus olho direito dominante; • Mão esquerda dominante versus pé direito dominante; Crianças com lateralidade cruzada podem apresentar: alto índice de fadiga; coordenação motora pobre; atenção instável; problemas de linguagem; distúrbios de sono; escrita espelhada ou ilegível; leitura comprometida; intranquilidade. 8.1.5. Imperícia Crianças com imperícia não apresentam comprometimento cognitivo e suas principais características são: dificuldade na coordenação motora fina; quebra constante de objetos; letra irregular; movimentos rígidos; alto índice de fadiga. É importante destacar que crianças com problemas psicomotores devem passar por uma rigorosa avaliação, feita por profissionais especializados. Normalmente, são realizados 39 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância exercícios específicos que verificam aspectos como: qualidade tônica e gestual; agilidade; equilíbrio; coordenação; lateralidade; organização temporoespacial; grafomotricidade. 8.2. Distúrbios na saúde física Os problemas relacionados com a saúde física que podem interferir na aprendizagem escolar são inúmeros, e se apresentam nas mais diferentes formas e graus. Vamos abordar aqueles que são mais frequentes: os problemas visuais e os auditivos. 8.2.1. Distúrbios visuais Ao identificar de sinais e sintomas característicos de problemas de visão (esfregar os olhos constantemente, queixas de não enxergar bem, dificuldades de leitura e escrita), o professor deve recomendar aos pais um encaminhamento ao oftalmologista. Os distúrbios oftalmológicos mais frequentes são: • Miopia: alongamento do globo ocular ou uma dificuldade do cristalino em acomodar-se à distância, de modo que a imagem se forma antes da retina. Crianças com miopia limitam suas atividades e interesses por objetos próximos. • Hipermetropia: é o oposto da miopia. Ocorre por uma disfunção do diâmetro reduzido do globo ocular ou da pouca refração do cristalino. Crianças com hipermetropia enxergam bem objetos que estão a distância, mas têm dificuldades com objetos mais próximos. • Astigmatismo: acontece quando a imagem fica fora de foco. Ocorre dificuldade na visão de perto e de longe. • Estrabismo: perturbação decorrente de desvios dos globos oculares. Pode gerar visão dupla. • Ambliopia: ocorre quando a visão é baixa ou insuficiente, mesmo tendo dois olhos aparentemente normais. • Daltonismo: anomalia pela qual não se distinguem as cores. 8.2.2. Distúrbios auditivos Os problemas auditivos influem não apenas no desenvolvimento do indivíduo, mas também no uso de suas habilidades de comunicação verbal. Vejamos os principais distúrbios que podem acometer a audição. 40 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A surdez ocorre quando o “sentido da audição não é funcional para os objetivos comuns da vida.” (JOSÉ; COELHO, 2004, p. 151) Ela pode ser congênita (presente ao nascimento) ou adquirida (perda devido a uma doença ou acidente). Deficientes auditivos ou hipoacústicos são aqueles que apresentam audição deficiente, mas funcional, com ou sem ajuda de prótese auditiva. A hipoacusia pode ser provocada por perda condutiva ou neuro-sensorial. As perdas auditivas podem ser leves ou moderadas. 41 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9. A OBSERVAÇÃO DO ALUNO Objetivo Reconhecer a importância da observação do aluno. Introdução Como vimos, as condições físicas, mentais, psicológicas e socioculturais interferem no desenvolvimento da criança e, consequentemente, em seu desempenho escolar. Apesar de serem os pais os responsáveis pela saúde física e mental dos filhos, bem como pelo seu bem-estar social, a escola e os educadores não devem eximir-se da responsabilidade que assumem com a família do aluno no tocante à observação, detecção de distúrbios e orientação no encaminhamento dos mesmos. (JOSÉ; COELHO, 2004, p. 206) 9.1. A importância da observação do aluno A observação da criança deve ser pontual, precisa e cumulativa. Para tanto, vemos a importância de existirem fichas, que registramas observações que compõem um relato que caminha junto com a vida da criança. Isso é uma forma de acompanhar sua evolução e os problemas que surgem na vida escolar. José e Coelho (2004) afirmam que são várias as razões pelas quais o professor deve observar seus alunos: • A identificação de problemas de saúde que possam estar influindo no desenvolvimento da criança e, consequentemente, em seu desempenho escolar; • O êxito na busca de soluções para os problemas encontrados; • Evitar a disseminação de doenças em casos de patologias transmissíveis; • Garantir o respeito ao desenvolvimento individual de cada aluno. Vemos também que a observação “é uma das técnicas de que o professor dispõe para melhor conhecer o comportamento de seus alunos, identificando suas dificuldades e avaliando seu desempenho nas várias atividades realizadas e seu progresso na aprendizagem.” (HAYDT, 2002, p. 123) Isso reforça a ideia de que por meio da observação direta, no momento em que os alunos realizam suas atividades cotidianas, de forma espontânea, sem pressão externa que 42 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância interfira em sua conduta, o professor pode colher e registrar informações preciosos sobre o rendimento escolar. Por meio dos registros observados, torna-se possível: • A consecução de alguns objetivos de ensino, como por exemplo os que descrevem a habilidade de executar tarefas motoras, os relacionados à atividade física, ou aqueles que se referem aos resultados de aprendizagem em artes; • O comportamento do aluno na área afetiva, envolvendo interesses, hábitos e mudanças de atitudes; • O comportamento social, trazidos em termos de habilidades de convívio social; • Alguns aspectos referentes ao desenvolvimento físico. 9.1. O professor, a escola e a observação Devido às grandes mudanças que ocorrem em nossa sociedade, muitas das funções educacionais da família vem sendo delegadas para a escola. Podemos dizer que hoje a instituição escolar tem dupla função social: “é transmissora de cultura e transformadora das estruturas sociais, adequando seu trabalho às necessidades da criança, da família e da comunidade.” (JOSÉ; COELHO, 2004, p. 210) Portanto, podemos dizer que cabe à escola, com toda sua equipe: • Analisar todas as situações escolares que possam agravar os problemas de saúde física e mental dos alunos; • Procurar sanar todos esses problemas, conhecendo os recursos assistenciais da comunidade e os de fora dela; • Orientar as famílias no desenvolvimento de atividades educativas ligadas a saúde do aluno (campanhas de vacinação, higiene etc.). A reunião de pais e mestres é um bom momento para que a família tenha ciência das observações feitas pela escola. Assim, providências necessárias poderão ser tomadas e isso trará benefícios ao desenvolvimento e/ou reestabelecimento da criança. Em relação específica à função do professor de observar o aluno, a Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo destaca que cabe ao docente: • Identificar os problemas de saúde e as queixas dos alunos; 43 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância • Observar a frequência e a continuidade da manifestação; • Conhecer as condições familiares; • Encaminhar para assistência médica, odontológica, psicológica, fonoaudiológica e outras; • Acompanhar cada caso, informando-se sobre as prescrições dos profissionais de saúde e dos resultados do tratamento; • Propiciar o desenvolvimento de atitudes, hábitos e habilidades favoráveis à saúde física e mental. 9.2. Registrando a observação Como vimos, são múltiplos os aspectos a serem observados pelo professor, bem como são várias as informações que devem ser registradas sobre a vida do aluno, tanto antes de sua entrada na escola como durante o tempo em que permanece nela. “Cabe a cada escola e a cada professor elaborar um tipo de registro (fichas, formulários etc.). O importante é que fique arquivado no prontuário do aluno e tenha efeito cumulativo.” (JOSÉ; COELHO, 2004, p. 211) A observação direta da atividade do aluno pode ser casual ou sistemática. Em geral, a maioria dos professores aplica a observação casual (informal e assistemática), analisando seus alunos de maneira espontânea e informal. Ela é a aquela “em que os indivíduos que participam do processo escolar observam constantemente uns aos outros; professores observam alunos, alunos observam professore etc. pelo simples fato de estarem em interação e trabalhando em conjunto.” (HAYDT, 2002, p. 125) Precisamos lembrar que a observação assistemática deve ser feita com cautela, pois devemos evitar fazer interpretações apressadas, que conduzam a julgamentos falsos, baseados em ideias preconcebidas. Já a observação sistemática ou dirigida “é aquela que se processa de forma metódica e organizada, sendo que os aspectos a serem observados são determinados com antecedência e os resultados são registrados com frequência.” (HAYDT, 2002, p. 125) Os dados obtidos através da observação podem ser usados de maneira proveitosa na apreciação do desempenho do aluno, como também para o aperfeiçoamento do trabalho 44 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância didático em sala de aula, pois, a partir das conclusões tiradas das observações, o professor pode modificar suas estratégias, adaptando os conteúdos curriculares e melhorando a dinâmica do ensino. Os dados fornecidos pela observação podem ser registrados em anedotários, fichas cumulativas ou listas de verificação. No anedotário, temos um registro escrito que “descreve a conduta do aluno observada em determinadas situações de sua vida escolar e durante um certo período de tempo.” (HAYDT, 2002, p. 126). As informações podem ser registradas de forma breve e objetiva, fazendo a distinção do fato como realmente ocorreu e os comentários ou interpretações que podem ser feitos sobre ele. Como as anotações são feitas de forma escrita, e não gravadas em áudio ou vídeo, os registros devem ser feitos logo após o fato ter ocorrido, pois nossa memória não é infalível, e podemos não recordar com exatidão dos comportamentos observados. Também é importante ressaltar que não devemos misturar opiniões pessoais com a descrição dos acontecimentos, precisamos ser objetivos e imparciais no registro. Já a ficha cumulativa é uma ficha individual que acompanha o aluno de ano em ano, onde são registrados os fatos significativos de sua vida escolar, como o aproveitamento e as dificuldades na aprendizagem, resultados de testes e provas, promoção no final de cada ano letivo, e também informações sobre o seu desenvolvimento físico e emocional, habilidades sociais e reações comportamentais mais frequentes. (HAYDT, 2002, p. 129-130) A lista de verificação é aquela que contém “uma relação de comportamentos a serem observados, com espaço reservado para anotações, ou então para indicar a presença ou ausência dos comportamentos enumerados.” (HAYDT, 2002, p. 130) Ela tem grande valia para guiar o observador, ajudando-o a direcionar sua atenção para determinados aspectos da conduta. Ela pode ser tanto individual quanto coletiva e também é prática e fácil de usar, pois já tem os comportamentos ou características escritas, facilitando o trabalho da observação. 45 Neurociências na Atualidade Universidade Santa Cecília - Educação a Distância ALCARÁ, A., GUIMARÃES, S. A instrumentalidade como uma estratégia motivacional. Psicologia Escolar e Educacional, II (1), 2007, 177-178. AUSUBEL, D. P. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Platano, 2003. CHEDID, Katia. Memória e aprendizagem: estratégias para o aluno lembrar. 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