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LABORATÓRIOS ESCOLARES, BIBLIOTECAS E AMBIENTES DE CONVIVÊNCIA Geandro Rocha Princípios democráticos de convivência escolar Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Relacionar as assembleias escolares com a resolução de conflitos. � Discutir a importância do princípio da mediação no espaço de con- vivência escolar. � Descrever ações voltadas à educação democrática e de convivência saudável na escola. Introdução A escola não é apenas um espaço de convivência onde alunos, famílias, professores e funcionários constroem relações. Ela também é um espaço onde se aprende a conviver com o outro, com o diferente, de modo har- mônico. Na escola, pode-se desenvolver habilidades de relacionamento que capacitam os alunos a conviver de modo harmônico no grupo e na sociedade. Considerar o desenvolvimento de habilidades de relacionamento pelos alunos envolve pensar nos princípios da educação integral, que propõe o desenvolvimento humano de modo global, em suas dimen- sões intelectual e afetiva. Entre os princípios da educação integral, está o reconhecimento da escola como espaço de democracia, pautada em igualdade, liberdade, reciprocidade, autonomia, espírito crítico, res- ponsabilidade, iniciativa, cooperação, solidariedade, tolerância, diálogo, autorregulação, adaptabilidade e respeito às diferenças e diversidades (BRASIL, 2014). Dessa forma, ao pensar na convivência desenvolvida no ambiente escolar, tenha em mente que ela deve estar baseada em prin- cípios democráticos. Neste capítulo, você vai verificar como a convivência baseada em princípios democráticos pode ser desenvolvida nos espaços escolares. Você também vai ver como a mediação se insere nesse processo, bem como conhecer o papel do professor na construção de um ambiente de convivência harmônica. Por fim, você vai ler sobre o papel do diálogo na resolução de conflitos, conhecendo ferramentas que podem ser utilizadas para o desenvolvimento de uma educação democrática na escola. 1 Assembleia escolar: caminhos para a resolução de conflitos De acordo com pesquisadores interacionistas, o ser humano se constitui como indivíduo, como pessoa, a partir das suas interações com o outro, com o grupo, com a sociedade. Ao conviver, o ser humano se transforma; ao interagir, o indivíduo consegue perceber as semelhanças e diferenças existentes ele entre e o outro. Essa percepção desencadeia um processo no qual o indivíduo se compara com o outro, descobre novas formas de ser e de viver, atribui novos significados ao que descobre e ao que já sabia, compreende, age, busca novas alternativas e reflete a respeito das semelhanças e diferenças percebidas entre ele e os demais (ARAÚJO, 2008). A percepção das semelhanças geradas pela convivência cria pontos de interesse comum, originando um sentimento de pertencimento, de identificação. Mas é preciso lembrar também que a percep- ção das diferenças pode causar divergências, posições diferentes, conflitos. O interacionismo é uma abordagem epistemológica (do conhecimento) que busca compreender os indivíduos a partir de suas interações com a sociedade. No campo da educação, os principais expoentes dessa abordagem são Jean Piaget e Lev Vygotsky. Princípios democráticos de convivência escolar2 O conflito, de acordo com Chrispino (2007, p. 17), “é toda opinião divergente ou maneira diferente de ver ou interpretar algum acontecimento”. Leme (2009, p. 360), por sua vez, define o conflito como “uma situação de oposição entre pessoas envolvidas em uma interação social”. Muitos conflitos podem surgir a partir dos diferentes modos de as pessoas verem e interpretarem as situações, ou de opiniões e ideias diferentes. Por exemplo: um pedido negado demonstra diferenças nos objetivos de cada um dos envolvidos no conflito, o que causa frustração; uma crítica pode iniciar um conflito porque ameaça a boa imagem que a pessoa tem de si; e um esbarrão pode ser interpretado como proposital mesmo sendo acidental (LEME, 2009). Em geral, na raiz do conflito existe a diferença no modo de pensar, de sentir, de se posicionar, de interpretar. Então, como a convivência baseada em princípios democráticos pode auxi- liar na resolução de conflitos, de modo que eles resultem no desenvolvimento de todos os envolvidos? Para responder a essa questão, vamos considerar os estudos desenvolvidos por Puig et al. (2003) e Araújo (2000, 2004, 2008, 2012). Em primeiro lugar, reflita sobre como a democracia é vivenciada dentro de uma escola. Puig et al. (2003) consideram que, na escola, a democracia não está relacionada ao governo da maioria nem ao princípio de que todos são iguais. Para o autor, em instituições como escola, família e hospital, existem diferenças nos papéis sociais exercidos por cada um dos indivíduos. Dessa forma, pais e filhos, professores e alunos e médicos e pacientes não são iguais, pois têm responsabilidades e funções diferentes perante a sociedade. O autor chama essas diferenças de “assimetria funcional”. Exatamente por esse motivo não são os alunos (a maioria) que decidem o que deve ser feito na sala de aula, como o tempo de duração das aulas. Por outro lado, da mesma maneira que os indivíduos são diferentes em relação às funções e às responsabilidades que possuem, eles são simétricos, iguais, perante a sociedade no que diz respeito aos seus direitos e deveres — segundo os princípios democráticos de igualdade, liberdade e justiça. Essa é a simetria democrática. Araújo (2012) aborda as ideias desenvolvidas por Puig et al. (2003) con- siderando o que chama de “princípio da equidade”. A equidade reconhece a diferença dentro da igualdade, aproximando-se, portanto, do conceito de justiça. Araújo (2000, p. 95) explica a relação entre esses dois princípios ao mencionar que, “ao mesmo tempo que a igualdade de direitos e deveres deve ser objetivada nas instituições sociais, não se deve perder de vista o direito e o respeito à diversidade, ao pensamento divergente”. Dessa forma, professores e alunos não são iguais perante a sociedade em determinados aspectos, mas são iguais por terem os mesmos direitos e deveres. Assim, o princípio da equidade deve ser considerado complementar ao princípio da igualdade. Araújo (2000, 3Princípios democráticos de convivência escolar p. 96) menciona que na escola todos os membros têm direito “ao diálogo, à livre expressão de sentimentos e ideias, ao tratamento respeitoso e à dignidade”. Resolver conflitos considerando que os indivíduos são iguais em direitos e deveres, porém diferentes em relação à sua constituição, às suas opiniões e às suas formas de compreender um acontecimento, implica abandonar a noção de que em um conflito existe um lado certo e um lado errado, ou de que há um vencedor e um perdedor. Resolver conflitos de acordo com princípios democráticos envolve considerar a autonomia do indivíduo, o desenvolvi- mento de seu espírito crítico e de sua iniciativa, bem como a responsabilidade, a cooperação, a solidariedade e a tolerância. Que ferramenta seria adequada para resolver conflitos dessa forma? Puig et al. (2003) e Araújo (2012) apontam a assembleia escolar como ferramenta a ser utilizada na resolução de conflitos a partir de princípios democráticos. Puig et al. (2003, p. 86) consideram a assembleia escolar “o momento institucional da palavra e do diálogo. Momento em que o coletivo se reúne para refletir, tomar consciência de si mesmo e transformar o que seus membros consideram oportuno, de forma a melhorar os trabalhos e a convivência”. Como demonstra o autor, a assembleia escolar é um momento organizado para que alunos e alunas, professores e professoras possam falar das questões que lhes pareçam pertinentes para melhorar o trabalho e a convivência escolar. Ela tem como objetivos promover a participação das pessoas nos espaços de decisão e democratizar a convivência coletiva e as relações interpessoais. A promoção do diálogo é peçacentral na assembleia escolar, e é garantido a todos os participantes o direito de expressar seus pensamentos e opiniões em um ambiente respeitoso. Araújo (2008) menciona que muitas vezes, em uma assembleia escolar, o que se busca não é o consenso, e sim oportunizar aos participantes a defesa de posturas e ideias, que frequentemente são opostas, explicitando assim as diferenças existentes no grupo. Dessa forma os princí- pios democráticos vão sendo construídos e exercitados pelos participantes da assembleia escolar. Na assembleia escolar, não existe uma figura de autoridade que é responsável pelas decisões tomadas. Nela é exercida a democracia participativa: todos do grupo participam na busca de encaminhamento para os temas abordados. Todos os participantes participam de forma coletiva da reflexão sobre os fatos cotidianos, e é incentivado o protagonismo das pessoas na busca de soluções para as questões colocadas. Tanto Puig et al. (2003) quanto Araújo (2000, 2004, 2008, 2012) consideram a assembleia escolar um espaço propício para a resolução de conflitos, pois nela se pressupõe que o diálogo, a participação, a reflexão, a crítica, a negociação, a compreensão e a descoberta sejam incentivadas e exercitadas. A seguir, veja como Araújo (2004) Princípios democráticos de convivência escolar4 resume a importância da assembleia escolar para o processo de resolução de conflitos na escola: [A assembleia escolar] permite, em sua prática, partindo do conhecimento psicológico de si mesmo e das outras pessoas sobre o que é preciso para resol- ver os conflitos, chegar ao conhecimento dos valores e princípios éticos que devem fundamentar o coletivo da classe. Ao mesmo tempo, evidentemente, permite a construção psicológica, social, cultural e moral do próprio sujeito, em um movimento dialético em que o coletivo transforma e constitui cada um de nós, que transformamos e ajudamos na constituição dos espaços e das relações coletivas (ARAÚJO, 2004 apud ARANTES, 2006, p. 37). Puig et al. (2003) e Araújo (2000, 2004, 2008, 2012) apresentam três tipos de assembleia escolar: a assembleia de classe, a assembleia de escola e a assembleia docente. A assembleia de classe acontece semanalmente com a participação de um docente e de todos os alunos de uma turma. A assembleia de escola acontece mensalmente e conta com a participação de todos os segmentos da comunidade escolar; a ela são enviados representantes de cada turma, dos professores e dos funcionários, e são considerados basicamente assuntos selecionados entre os abordados nas assembleias de classe. Já a assembleia docente é voltada para questões próprias das relações entre professores e gestores educacionais. Alguns procedimentos são fundamentais para que a assembleia escolar atinja o seu propósito de auxiliar na resolução de conflitos de modo democrá- tico. O primeiro deles está relacionado à preparação da assembleia e à definição da pauta com os assuntos que serão abordados. A pauta é construída coleti- vamente durante os dias que antecedem a assembleia, e alunos e professores vão registrando de forma anônima, em um local previamente definido, como uma cartolina ou um quadro, seus apontamentos a respeito de duas situações: críticas e felicitações. Esses temas são relacionados ao convívio escolar e às relações entre os membros do grupo. Veja alguns exemplos: um aluno pode anotar na pauta que deseja abordar a situação das carteiras escolares sujas no início do dia escolar; já outro aluno pode desejar falar sobre o sumiço de lápis que tem acontecido na sala de aula. Essa pauta é considerada durante a assembleia escolar por um professor ou por um aluno, e o grupo dialoga a respeito, expressando suas considerações e percepções sobre os temas abordados. No espaço da assembleia escolar, ao se dialogar a respeito de um conflito, “é garantido a todos os membros que dela participam a igualdade de direitos de expressar seus pensamentos, desejos e formas de ação, ao mesmo tempo que é garantido a cada um de seus membros 5Princípios democráticos de convivência escolar o direito à diferença de pensamento, desejos e formas de ação” (ARAÚJO, 2008, p. 119). Durante o diálogo, o grupo que participa da assembleia conversa a res- peito do conflito elaborando alternativas de solução ou de enfrentamento, compartilhando a responsabilidade pela decisão que for tomada em conjunto. O foco está no problema ocorrido, e não em possíveis culpados. Assim, não será discutida uma briga específica entre dois amigos, por exemplo, mas as brigas entre colegas, os sentimentos de raiva, o desrespeito e as ações decorrentes. A própria disposição sugerida para os participantes da assem- bleia escolar, um círculo ou semicírculo, proporciona que todos possam ver e ouvir uns aos outros enquanto dialogam. Não há imposição de regras, e sim construção coletiva de modos de lidar com o conflito, e todos participam, ou por expressar seu ponto de vista, ou por votar a respeito do que é proposto. Assim, o diálogo é desenvolvido e os princípios democráticos são aplicados à resolução de conflitos — não de maneira teórica, e sim na prática cotidiana. Para conhecer melhor o trabalho com assembleias de classe, confira os estudos do professor francês Célestin Freinet, que participou do movimento Escola Nova. Na década de 1920, ele propunha o trabalho em sala de aula com as assembleias de classe como forma de educar promovendo o protagonismo dos estudantes. 2 A mediação e a convivência escolar Aprender a conviver com o outro, com o diferente, respeitando sua opinião e atuando de modo cooperativo, é um objetivo que deve fazer parte do tra- balho escolar. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ao apontar as 10 competências gerais que devem ser desenvolvidas pelos currículos escolares no Brasil, abre espaço para o desenvolvimento das competências socioemo- cionais. Essas competências envolvem, entre outros aspectos, as habilidades de relacionamento, como construir relacionamentos positivos, aprender a trabalhar em equipe e resolver conflitos de modo efetivo. Entretanto, dialogar pode ser bastante difícil, principalmente para pessoas muito diferentes entre Princípios democráticos de convivência escolar6 si. Em situações em que o conflito está instaurado, dialogar para resolver a questão se torna especialmente complicado. A escola pode proporcionar aos seus alunos a aprendizagem do diálogo e o desenvolvimento das habilidades de resolução de conflitos por meio da adoção de algumas estratégias, por exemplo, a assembleia escolar. A seguir, você vai conhecer outra estratégia que possibilita o desenvolvi- mento de uma convivência harmoniosa nos espaços escolares: a mediação. Serão consideradas duas abordagens: a mediação enquanto mecanismo espe- cífico de atuação em situações de conflito e a mediação enquanto perspectiva adotada pelo professor ao atuar sobre situações de conflito em sala de aula. Enquanto metodologia a ser aplicada em situações de conflito, a mediação pode ser definida como um procedimento consensual de solução de conflitos por meio do qual uma terceira pessoa imparcial — escolhida ou aceita pelas partes — age no sentido de encorajar e facilitar a resolução de uma divergência. As pessoas envolvi- das nesse conflito são as responsáveis pela decisão que melhor as satisfaça. A mediação representa um mecanismo de solução de conflitos utilizado pelas próprias partes que, movidas pelo diálogo, encontram uma alternativa ponderada, eficaz e satisfatória (SALES, 2007, p. 23). Perceba que a mediação, assim como a assembleia escolar, é pautada no diálogo. Assim, a mediação representa um mecanismo de solução de conflitos pelas próprias partes envolvidas, que, movidas pelo diálogo, encontram uma alternativa para resolver algum problema de modo eficaz e satisfatório para ambas, sendo que o mediador é a figura que auxilia na condução desse pro- cesso. Sales (2007) afirma que o processo de mediação é baseado em algunsprincípios: liberdade das partes, não competitividade, poder de decisão das partes, participação de um mediador imparcial, competência do mediador, informalidade e confidencialidade do processo. O papel do mediador, que pode ser um professor, um funcionário da escola e até mesmo outro aluno, é atuar para facilitar o diálogo entre as partes envolvidas no conflito, proporcionando condições favoráveis para que elas possam chegar a um consenso. Não se busca identificar um ganhador ou um perdedor, mas prevalece a atitude do “ganha–ganha”; o que se procura é chegar a um acordo benéfico para todos os envolvidos e que seja capaz de atender a mútuos interesses. Enquanto método a ser aplicado na resolução de conflitos, a mediação se mostra fundamental por proporcionar a retomada do diálogo franco entre as 7Princípios democráticos de convivência escolar partes envolvidas, treinando a escuta ativa, o que por sua vez possibilita o estabelecimento de conexões e de soluções possíveis e satisfatórias. Enquanto a assembleia escolar propõe o diálogo entre o grupo, a fim de construir con- dições de convívio comunitário, a mediação encontra o seu espaço como promotora de soluções para situações particulares de conflito, como brigas de namorados e fofocas. Nessas mediações privadas, a dignidade dos envol- vidos é resguardada e as partes se reúnem com um mediador para falar e ouvir uma à outra, considerando as necessidades e os sentimentos recíprocos. O mediador, enquanto facilitador, conduz a conversa, buscando construir uma visão positiva do conflito sem colocar os envolvidos uns contra os outros. O princípio de perceber o conflito como uma oportunidade de aprendizagem é o ponto que você vai explorar agora, ao considerar a atuação do professor enquanto mediador. Para que a mediação do professor ao lidar com conflitos contribua para o desenvolvimento de uma convivência harmônica, é necessária uma perspectiva construtiva a respeito do conflito. Isso envolve encarar o momento do conflito como uma oportunidade de crescimento, com a intenção de promover uma mudança de comportamento positiva. Nesse processo, há o desenvolvimento das habilidades de comunicação dos alunos, que aprendem a trabalhar de modo cooperativo em uma perspectiva de “ganha–ganha”, ou seja, na resolução do conflito, não há perdedores. Vinha e Tognetta (2009, p. 532) mencionam que o impacto da mediação do professor no desenvolvimento de uma convivência escolar pautada em princípios democráticos depende da concepção que ele construiu a respeito dos conflitos interpessoais que podem ocorrer entre os estudantes. De acordo com as autoras, tradicionalmente, os conflitos “são vistos como sendo negativos e danosos ao bom andamento das relações entre os alunos”. Nessa perspectiva, são elaboradas regras e normas e é aplicada a vigilância para evitar que os conflitos ocorram; caso eles ocorram, cabe ao professor resolvê-los, tomando todas as decisões. Assim, quando ocorre um conflito, os professores que pos- suem a visão tradicional buscam resolvê-lo rapidamente aplicando punições e sermões. Essa mediação não proporciona aos estudantes o desenvolvimento de habilidades de relacionamento que os levem a resolver conflitos de acordo com princípios democráticos. O que ocorre é o contrário: quando em uma situação de conflito, eles passam a reagir de modo impulsivo, submisso ou agressivo, buscando soluções unilaterais para o problema. Princípios democráticos de convivência escolar8 A segunda concepção de conflito apontada pelas autoras é o que elas chamam de “visão construtivista”. Nessa concepção, os conflitos são enca- rados pelos professores como naturais e como um elemento necessário ao desenvolvimento da formação moral dos alunos. A mediação do professor não enfatiza a resolução do conflito em si, o modo de resolvê-lo, e sim a forma como o conflito será enfrentado, pensando nas oportunidades de aprendizado que podem ser proporcionadas aos alunos. Veja o que as autoras afirmam: Os educadores que possuem esta concepção compreendem o conflito e sua resolução como partes importantes do “currículo” tanto quanto os outros conteúdos que devem ser trabalhados e não apenas o vendo como um pro- blema a ser resolvido. De acordo com essa perspectiva, ao invés de o pro- fessor gastar seu tempo e energia tentando preveni-los, deve aproveitá-los como oportunidades para auxiliar os alunos a reconhecerem as perspectivas próprias e as dos outros e aprenderem, aos poucos, como buscar soluções aceitáveis e respeitosas para todas as partes envolvidas. Ao agir assim, o educador demonstra reconhecer a importância de desenvolver nas crianças e jovens habilidades que os auxiliem na resolução de conflitos interpessoais e, consequentemente, favorecer a formação de pessoas autônomas (VINHA; TOGNETTA, 2009, p. 534). Quando dois alunos brigam em sala, trocando socos, chutes e empurrões, geralmente eles são encaminhados para a direção da escola e talvez seus pais sejam convocados, ou então recebam um comunicado da escola. Esse tipo de solução, de acordo com Vinha e Tognetta (2009), encara o conflito de modo tradicional e geralmente não auxilia os envolvidos a aprender a resolver suas diferenças por meio do diálogo, sem agressão. Pode ser que no futuro eles não briguem novamente na escola ou perto de um adulto na escola, mas não porque estão optando pelo diálogo para resolver os problemas, e sim por medo da punição. A partir de uma perspectiva construtivista, a briga entre os alunos, o conflito existente, é encarada como uma oportunidade para eles exercitarem a aprendizagem de princípios democráticos de convivência. Isso acontece porque o desequilíbrio causado pelo conflito é percebido como um motivo que pode levar o aluno a refletir sobre o que fazer para restabelecer a relação, e a mediação proporcionada pelo professor atuará nessa direção. Assim, serão incentivadas a argumentação, a cooperação e a prática de ações que levem o outro em conta. 9Princípios democráticos de convivência escolar Como você pode perceber, no processo de construção de uma convivência escolar pautada em princípios democráticos, a mediação é um mecanismo útil. Ela pode ser aplicada na resolução de conflitos surgidos entre alunos, alunos e professores, professores e escola, alunos e escola, pais e escola e até mesmo alunos e famílias. Isso acontece porque a mediação, como técnica ou como perspectiva a ser adotada, procura perceber o conflito como algo natural e necessário para o desenvolvimento dos seres humanos, como uma oportunidade de aprendizagem e crescimento. Assim, a mediação proporciona aos envolvidos no conflito a construção de novas formas de diálogo e uma mudança de postura frente às controvérsias e desavenças. Além disso, ela traz ferramentas pedagógicas para que se possa lidar com o conflito, promovendo o respeito ao próximo e às diversidades, além da paz e da não violência. 3 Funcionamento da assembleia escolar e do processo de mediação escolar Agora, você vai conhecer as etapas de implementação e funcionamento da assembleia escolar e da mediação escolar. Como você já sabe, esses mecanis- mos podem ser utilizados no espaço escolar para promover uma convivência baseada em princípios democráticos. Para iniciar, lembre-se de que, de acordo com Araújo (2004), existem diferentes modalidades de assembleia escolar, com periodicidades e temas diferentes, bem como com formas distintas de vivência da democracia. A seguir, veja uma descrição dessas modalidades. � Assembleia de classe: ocorre uma vez por semana ou a cada 15 dias. O modelo de democracia vivenciado nela é o da democracia participa- tiva. Ela ocorre na sala de aula, entre professores e alunos, e trata de conflitos e relações interpessoais. A duração sugerida é de uma hora. � Assembleia de escola: ocorre mensal ou bimestralmente. O modelo de democracia vivenciado nela é o da democracia representativa. Participam representantes dos professores,dos funcionários, da gestão escolar e dos alunos (cada turma envia dois representantes). Nessa assembleia, são discutidas questões relacionadas ao espaço coletivo da escola; inclusive, questões debatidas na assembleia de classe podem ser levadas para essa assembleia. Princípios democráticos de convivência escolar10 � Assembleia docente: ocorre mensal ou bimestralmente. O modelo de democracia vivenciado nela é o da democracia participativa. Participam os professores e a gestão escolar. Nessa assembleia, são consideradas situações que envolvem os professores, os funcionários e a gestão da escola. Esses três tipos de assembleia escolar não têm de acontecer obrigatoriamente em uma escola. O ideal seria que houvesse a implementação das três moda- lidades, para que a convivência democrática fosse vivenciada em diferentes instâncias escolares. Mas, mesmo que isso não aconteça, um professor pode utilizar a assembleia de classe para conduzir a resolução de conflitos em sua sala de aula. A seguir, veja quais são os passos para a implementação da assembleia escolar de acordo com Puig et al. (2003) e Araújo (2004). 1. Mobilização do grupo: é importante que o professor planeje e execute atividades didáticas que proporcionem aos alunos conhecimento a respeito da assembleia escolar e da importância da construção de um espaço de diálogo para a resolução de conflitos. 2. Composição da pauta: em uma assembleia escolar, são abordados temas relacionados à convivência escolar, às relações interpessoais e aos conflitos entre os membros do grupo. A pauta deve ser construída coletivamente e ser pública, devendo ficar exposta em um local ao qual todos têm acesso. O processo é iniciado pela disponibilização de uma cartolina ou de um quadro com uma divisão que separe os temas em dois blocos: críticas e felicitações (ou êxitos, ou parabéns). Como a pauta fica em um lugar público e visível, os membros do grupo vão escre- vendo as críticas e sugestões relativas ao que desejam debater durante a assembleia. Não se deve colocar nomes (nem de quem está sugerindo o tema, nem de quem está sendo criticado). O que será considerado não é o comportamento de um indivíduo, mas a atitude envolvida na crítica. O professor não deve permitir que a pauta se torne um painel de recados no qual os alunos escrevem indiretas para os seus colegas. Observe no Quadro 1, a seguir, um modelo de quadro no qual os alunos podem sugerir a pauta a ser considerada na assembleia escolar. Momentos antes da assembleia escolar, é importante que dois representantes dos alunos e um professor se reúnam para organizar a pauta, definindo os assuntos que serão considerados primeiro e agrupando temas repetidos ou semelhantes. Geralmente, temas relacionados à violência e outros 11Princípios democráticos de convivência escolar assuntos mais complexos e delicados são abordados primeiro. Mas é importante que todos os assuntos sugeridos sejam abordados. Deixar algum assunto de fora, mesmo que ele seja aparentemente insignifi- cante, pode desmotivar os alunos e levá-los a duvidar dos objetivos da assembleia escolar. Fonte: Adaptado de Pátaro e Pátaro (2007). Eu critico Eu dou parabéns As pessoas que xingam os amigos Para quem pega a borracha emprestada e devolve Quem não passa a bola no futebol Para quem não bate nos colegas Que suja a carteira Para a aula de ciências, que foi muito divertida Quem fica conversando durante a aula Para a merenda de sexta-feira, que foi macarrão com carne moída Quem pega a merenda dos colegas no recreio Para o novo bebedouro, que tem água gelada Quadro 1. Exemplo de pauta de assembleia de classe 3. Discussão dos temas: a discussão pode se iniciar com o coordenador da assembleia escolar perguntando se a pessoa que sugeriu o tema deseja se manifestar, garantindo-lhe assim o direito à palavra. Em um se- gundo momento, outros alunos podem se manifestar a respeito do tema. Em situações de elaboração coletiva de uma regra para regular o conflito abordado, o coordenador da assembleia escolar precisa abrir espaço para que os participantes façam sugestões, e as sugestões apresenta- das devem ser submetidas a votação, da qual todos devem participar. O professor deve estar atento para não permitir que alunos extrovertidos concentrem as falas, impedindo a fala de alunos que têm dificuldade de se expressar. 4. Registro da ata: durante a realização da assembleia escolar, é impor- tante fazer o registro das decisões do grupo e dos encaminhamentos sugeridos. Todos os participantes devem assinar essa ata. Princípios democráticos de convivência escolar12 Como proceder se os alunos demonstrarem dificuldades para participar e cumprir os acordos combinados? Esse tipo de situação pode ser desafiadora para os professores envolvidos na realização da assembleia escolar. É preciso considerar que aprender a conviver de acordo com princípios democráticos envolve tempo e energia. Pode ser que, em um primeiro momento, os resultados não sejam aparentes, mas, como Puig et al. (2003, p. 168) pontuam, “o simples fato de reunir a todos para dialogar sobre o funcionamento do grupo/classe já é um meio de formação”. Assim, é necessário que o trabalho com a assembleia escolar não seja abandonado de início, pois a persistência possibilitará aos alunos a vivência de valores e princípios pautados na democracia. Às vezes, ajustes simples, como uma maior clareza nos encaminhamentos e acordos propostos, podem facilitar a aplicação das decisões pela classe. Por exemplo, se o grupo acorda que todos devem “comportar-se bem na sala de aula”, há a necessidade de explicitar de forma concreta quais são as ações que fazem parte disso, para que os alunos possam saber com clareza o que deve ser cumprido (PUIG et al., 2003). Além do mais, a falta de conhecimento a respeito do que foi acordado pode levar ao seu não cumprimento. Por isso é importante decidir como grupo de que forma os acordos serão divulgados (por meio de cartazes, por meio digital ou outro), designando os estudantes que ficarão responsáveis por essa divulgação. Também é importante que o professor perceba que a assembleia escolar não é um remédio que vai eliminar os conflitos existentes no ambiente escolar. A redução de situações de conflito, de indisciplina e até mesmo de violência é uma consequência da construção de uma convivência democrática. O objetivo da assembleia escolar é proporcionar aos alunos um momento e um espaço para a promoção do diálogo e para a vivência de princípios democráticos em grupo. Por essa razão, o professor não deve realizar a assembleia escolar apenas quando lhe for conveniente, ou para induzir o grupo a tomar decisões que ele considera adequadas. A partir daqui, você vai ver como ocorrem a implementação e o funcio- namento da mediação escolar. Como você já sabe, na assembleia escolar, o grupo atua na resolução de conflitos. Todavia, na mediação escolar, apenas os envolvidos, com o auxílio de um mediador, participam da proposição de soluções para o problema. Nesse contexto, o mediador atua como um facilitador do diálogo entre os envolvidos no conflito, buscando condições favoráveis para que seja construída uma solução para ele. A mediação deve considerar os seguintes princípios: liberdade das partes, não competitividade, poder de decisão das partes, participação de um mediador imparcial, competência do mediador, informalidade e confidencialidade do processo (SALES, 2007). 13Princípios democráticos de convivência escolar A liberdade das partes significa que os envolvidos no conflito estão ali por vontade própria e que não estão sofrendo nenhum tipo de ameaça ou coação; o mediador tampouco deve transparecer esse tipo de atitude durante a condução do diálogo. Por não competitividade, entende-se que o objetivo do diálogo não é definir um vencedor e um derrotado, e sim promover a cooperação para que ambas as partes sejam beneficiadas e se sintam, portanto, satisfeitas. O poder dedecisão do conflito cabe às partes envolvidas, não ao mediador. Somente os indivíduos envolvidos no conflito são responsáveis por um possível acordo, cabendo ao mediador apenas facilitar o diálogo. O mediador deve agir de modo imparcial, sem se posicionar a favor de algum dos envolvidos, tratando a todos igualmente; até mesmo o tom de voz utilizado pode indicar um posicionamento do mediador em relação a uma das partes envolvidas no conflito. Qualquer pessoa pode representar o papel de mediador em uma escola: um professor, um funcionário e até mesmo um aluno. Entretanto, é importante que o mediador possua características que o habilitem para tal papel: ser diligente, cuidadoso, prudente, calmo, ético e atencioso, com a habilidade de escutar bem desenvolvida. Com essas caracte- rísticas, ele vai realizar o processo de mediação com certa informalidade, sem buscar o estabelecimento de normas para sua realização; além disso, manterá o que foi discutido durante o processo em sigilo, sem revelar as discussões para outra pessoa. Sales (2007) divide o processo de mediação de conflitos em seis partes. Veja: 1. etapa em que o mediador explica o processo para os participantes; 2. etapa em que os envolvidos falam a respeito do conflito; 3. etapa em que o mediador faz um resumo do que foi explicitado, pro- curando apontar os pontos de convergência (positivos) entre os relatos; 4. etapa em que, a partir do resumo apresentado pelo mediador, os envol- vidos voltam a dialogar sobre o conflito; 5. etapa em que o mediador começa a conduzir os envolvidos no conflito rumo à a busca de soluções satisfatórias e de cumprimento possível; 6. etapa em que é redigido o acordo feito pelos envolvidos para resolver o conflito. Por fim, é importante que o local de realização da mediação seja apropriado, sem interrupções e com uma mesa redonda, pois ela evita a impressão de que existem dois lados opostos. Princípios democráticos de convivência escolar14 ARANTES. V. A. Convivência democrática e educação: a construção de relações e espaços democráticos no âmbito escolar. Ética e cidadania, Brasília, boletim 18, p. 33– 38, out. 2006. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/edh/redh/01/ salto_etica_e_cidadania.pdf. Acesso em: 14 ago. 2020. ARAÚJO, U. F. Assembleia escolar: um caminho para a resolução de conflitos. São Paulo: Moderna, 2004. 104 p. (Cotidiano escolar). ARAÚJO, U. F. Escola, democracia e a construção de personalidades morais. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 91–107, jul./dez. 2000. Disponível em: http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1517-97022000000200007&lng=pt&nr m=iso&tlng=pt. Acesso em: 14 ago. 2020. ARAÚJO, U. F. O processo de construção de escolas democráticas. Revista Educação e Linguagens, Campo Mourão, v. 1, n. 1, p. 78–86, ago./dez. 2012. Disponível em: http:// www.fecilcam.br/revista/index.php/educacaoelinguagens/article/view/611. Acesso em: 14 ago. 2020. ARAÚJO, U. F. Resolução de conflitos e assembleias escolares. Cadernos de Educação, Pelotas, n. 31, p. 115–131, jul./dez. 2008. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. SALES, L. M. M. Mediação de conflitos: família, escola e comunidade. Florianópolis: Conceito Editorial, 2007. 318 p. VINHA, T. P.; TOGNETTA, L. R. P. Construindo a autonomia moral na escola: os conflitos interpessoais e a aprendizagem dos valores. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 9, n. 28, p. 525–540, set./dez. 2009. Disponível em: https://periodicos.pucpr.br/index.php/ dialogoeducacional/article/view/3316. Acesso em: 14 ago. 2020. Leituras recomendadas FREINET, C. Para uma escola do povo: guia prático para a organização material, técnica e pedagógica da escola popular. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 134 p. MEDIAÇÃO de Conflito na Escola Fantástico editada. [S. l.: S. n.], 2017. 1 vídeo (5 min 38 s). Publicado pelo canal Mediação Online. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=yBq84aWOdAc. Acesso em: 14 ago. 2020. 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