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As diferentes formas de regionalização brasileira Região: as regiões são partes do espaço geográfico, em diferentes escalas, definidas a partir de um determinado critério, ou seja, regionalizar e delimitar conjuntos ou parcelas do território (ou do espaço, no sentido de “território usado”, de acordo com Milton Santos) que possuem alguma identidade (física, política, cultural, econômica). “O símbolo da geografia unitária – aquela que não separa o físico do social, o natural do humano, o ecológico do cultural – é a região. Ora, o conceito de região foi vendido como sendo um edifício estável. Só que não é. […] Agora, neste mundo globalizado, com a ampliação da divisão internacional do trabalho e o aumento exponencial do intercâmbio, dão-se, paralelamente, uma aceleração do movimento e mudanças mais repentinas, na forma e no conteúdo das regiões. Mas o que faz a região não é a longevidade do edifício, mas a coerência funcional, que a distingue das outras entidades, vizinhas ou não. […] As condições atuais fazem com que as regiões se transformem continuamente, legando, portanto, uma menor duração ao edifício regional. Mas isso não suprime a região, apenas ela muda de conteúdo.” (Milton Santos) O IBGE, além da divisão oficial em cinco macrorregiões, divide o Brasil em outras escalas: regiões geográficas imediatas (sub-regiões dentro dos Estados), regiões geográficas intermediárias (novamente sub-regiões dentro dos Estados), zonas fisiográficas, etc. O IBGE foi criado em 1938, a partir da junção do Instituto Brasileiro de Estatística (1934) e do Instituto de Geografia (1936), e um de seus primeiros desafios foi a criação de uma divisão regional oficial para o Brasil. O IBGE não é criado no Estado Novo por acaso – há um grande esforço de centralização administrativa durante o governo Vargas. Não há uma regionalização oficial anterior à 1942, e isso se deve a falta de integração das regiões brasileiras. Ainda que independente em 1822, o Brasil era um país que não possuía um espaço integrado, um diálogo entre suas regiões; a regionalização em critérios mais complexos, que envolvem sociedade e natureza, faziam menos sentido do que uma regionalização baseada na geografia física dessas regiões. A integração brasileira será mais intensa a partir de 1930, sobretudo por meio de rodovias, observando-se recortes regionais mais claros (o Brasil abandona o modelo de “arquipélagos econômicos”). As divisões regionais do Brasil 1. A primeira divisão regional do Brasil: os cinco “Brasis” (1913) O professor Carlos Delgado de Carvalho propôs uma divisão (não-oficial) do Brasil, em cinco “Brasis”: o Brasil setentrional, com dois Estados (Amazonas e Pará) e um território federal; o Brasil central, basicamente como é hoje; um Brasil Norte-Oriental, com a região Nordeste menos a Bahia; um Brasil Oriental, acrescido da Bahia; e o Brasil Meridional, o que hoje é a região Sul acrescido de São Paulo. Essa divisão faz muito sentido do ponto de vista da geografia física; se pensarmos no relevo de São Paulo e do Paraná, faz sentido que as duas regiões sejam agrupadas juntas (terra roxa, rio Tietê, etc). Além disso, Delgado de Carvalho agrupa Minas Gerais e Bahia tendo o rio São Francisco como o elemento de unidade entre eles. 2. A primeira regionalização oficial do Brasil (1942) É basicamente a mesma divisão de Carlos Delgado de Carvalho; a região Norte (que corresponde ao Brasil setentrional); uma região Centro-Oeste (que corresponde ao Brasil central); uma região Nordeste (que corresponde ao Brasil Norte-Oriental e novamente não engloba Bahia e Sergipe); a região Sul (que corresponde ao Brasil Meridional – incluindo São Paulo) e a região Leste (que corresponde ao Brasil Oriental). É uma divisão baseada na geografia natural, física – o critério natural era percebido como mais perene. Em 1943, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o governo de Getúlio Vargas decide desmembrar seis áreas estratégicas de fronteira do país para administrá-las diretamente, transformando-as em territórios federais: Ponta Porã, Iguaçu, Amapá, Rio Branco (que mais tarde virou o Estado de Roraima), Guaporé (que mais tarde virou o Estado de Rondônia) e o arquipélago de Fernando de Noronha. Ponta Porã e Iguaçu retomam à condição original após a guerra, enquanto os quatro restantes são mantidos. 3. Divisão em macrorregiões (1969) A partir de 1969, cria-se oficialmente a região Sudeste; o Nordeste aumenta, com Bahia e Sergipe, e o Sul diminui, perdendo São Paulo. Essa divisão adota novo critério – esse novo critério valoriza a geografia econômica, a partir do olhar sobre um Brasil urbanizado, nascendo uma região que concentra a maior parte da população do país. O Sudeste não é uma região do ponto de vista natural – e sim da geografia econômica. O Sudeste foi criado como uma core- área. A região Sudeste ratifica a ideia de um Brasil bastante desequilibrado em termos econômicos e sociais. A nova divisão traz cinco “pedaços” de Brasil: o Norte, o Nordeste, o Centro-Oeste, o Sul e o Sudeste. É interessante notar que as áreas limítrofes dessas regiões, sobretudo o oeste do Maranhão, o norte de Mato Grosso e de Minas Gerais, e o sul de São Paulo, embora estejam em uma macrorregião, possuem mais características das macrorregiões limítrofes. A regionalização do IBGE não consegue atender todas as especificidades do país, visto que é uma regionalização político-administrativa; é por isso que existem outros recortes regionais, atendendo outras especificidades. É interessante reparar a extensão dos Estados brasileiros. É natural que as regiões mais densamente populosas e com maior dinâmica econômica e social sejam mais parceladas – para facilitar a administração. É por conta disso que as regiões na costa brasileira, sobretudo no Sudeste, são mais divididas. A Constituição Federal de 1988 cria o estado do Tocantins e o inclui na região Norte. Alguns geógrafos questionam essa regionalização, e propõe ao IBGE uma nova regionalização do Brasil, com seis macrorregiões: A Região Amazônica, dessa forma, se tornaria região Noroeste, enquanto Amapá, Pará, Tocantins e Maranhão formariam a nova região Norte. Embora essa proposta não seja do IBGE – e sim uma proposta acadêmica, o IBGE caminha para a sustentação desse tipo de proposta. Uma prova disso é a REGIC – quando o IBGE analisa a rede urbana amazônica, ele aponta que as relações entre Manaus e Belém são hoje pouco densas; Manaus polariza as relações da região da Amazônia ocidental enquanto Belém polariza as relações na Amazônia oriental. Existem diversas propostas de regionalização do Brasil: ❖ Regiões Geoeconômicas (1967) O professor Pedro Geiger faz uma proposta de divisão do Brasil em três pedaços: Amazônia, Nordeste e Centro-Sul. A região Nordeste dessa proposta incorpora um pedaço do norte de Minas Gerais, ao mesmo tempo que perde o Oeste do Maranhão. Importante ressaltar que esse é um tipo de divisão que não cabe em uma divisão politico administrativa. Duas estruturas administrativas do Brasil corroboram com essa proposta: - Amazônia Legal: inclui o Mato Grosso - SUDENE: inclui áreas do Norte de Minas Gerais Essa divisão não é exclusivamente econômica – outros elementos naturais também são levados em conta nessa divisão. ❖ Roberto Lobato Correa (2000) Nessa divisão, o professor Lobato Correa segue a proposta das regiões geoeconômicas, mas respeita a divisão político- administrativa dos territórios. ❖ Quatro Brasis de Milton Santos A proposta de Milton Santos para uma regionalização do Brasil envolve quatro regiões; para ele, o eixo da divisão é a difusão desigual (diferenciada) do meio técnico-científico-informacional, além das heranças do passado (rugosidades). O Sul e o Sudeste juntos seriam a região concentrada – a região que concentra o meio técnico-científico-informacional – a melhor infraestrutura. Vale ressaltar, entretanto, que essas regiões não são homogêneas, e tantoa região concentrada possui áreas de menor desenvolvimento (áreas mais “opacas” na terminologia de Milton Santos), como as regiões menos desenvolvidas possuem várias ilhas de modernidade e desenvolvimento. Além disso, Santos coloca o Tocantins no Centro-Oeste. Para ele, a região é uma área de “ocupação periférica” recente – o meio técnico- científico-informacional se estabelece sobre um território praticamente “natural”, ou melhor, “pré-técnico”, onde a vida de relações era rala e precária. Por fim, em termos de renda e desenvolvimento, hoje o Centro-Oeste possui uma maior infraestrutura e poderia também ser parte da região concentrada – à medida que o tempo passa e o Centro-Oeste evolui, a divisão de Santos vai ficando mais obsoleta. Quando Milton Santos propõe essa divisão, ele reconhece que já naquele momento o Centro-Oeste era uma região densa em termos de modernidade, infraestrutura, etc. Entretanto, ele argumenta que o Centro-Oeste era menos uma região de comando (de sedes de empresa, etc) do que o Sul e o Sudeste. Com o tempo, entretanto, esse argumento também fica mais questionável. Amazônia Legal Foi definida pela primeira vez em 1953 pela Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), e depois ratificada em 1966 pela SUDAM. Toda a região Norte, todo o Mato Grosso, o que hoje é o Tocantins (e na época era o norte de Goiás), e a parte do Maranhão à oeste do Meridiano 44W. Importante notar que a Amazônia Legal, por englobar todo o estado do Mato Grosso, também possui o bioma Pantanal. A região mais desmatada é chamada hoje de Arco da Ocupação Consolidada. A região menos desmatada, perto da fronteira, é a Amazônia Ocidental, e a região do meio é a Amazônia Central. O asfalto e a criação de rodovias aumenta a pressão de desmatamento, o que de certa forma explica a infraestrutura da região. Embora o mundo esteja cada vez mais globalizado, interconectado, é importante notar que as regiões não deixaram de existir, e sua importância também não foi extinta. Essas regiões, entretanto, se tornaram mais complexas – e muito dessa complexidade reside no fato de que o diálogo dessas regiões tem sido cada vez maior com locais mais distante do que com as regiões vizinhas. As regiões não podem ser pensadas sem suas complexas relações – com vizinhos e com regiões distantes. Globalizar não é homogeneizar, é conectar – e como as áreas são conectadas de forma desigual, a ideia de regionalização, fragmentação e diferenciação. Vale ressaltar também que há uma diminuição da autonomia regional – visto que boa parte do que acontece no território é comandada ou envolve uma rede complexa de decisões que podem ser tomadas de grandes distâncias. A globalização articula e desarticula espaços e regiões.