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Literatura na Escola e Literatura Brasileira 02 1. A Literatura e a História Infantil 4 As Histórias em Todos os Tempos 8 Relação Entre Literatura e Leitura de Histórias 11 O Folclore Presente nas Histórias 11 A Importância das Histórias: Objeto da Literatura 12 2. As Variedades Textuais: A Estrutura Narrativa 16 A tensão e os Conflitos Presentes nas Histórias 17 3. A Arte de Contar Histórias no Espaço Escolar 20 A Prática Docente e a Arte de Contar Histórias 21 As Estratégias e os Recursos para Contar Histórias 25 O Contar Histórias como Recurso Pedagógico 31 4. A Educação Infantil, a Literatura e o Referencial Curricular 34 5. Referências Bibliográficas 44 03 4 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA 1. A Literatura e a História Infantil Fonte: Base Nacional Comum1 origem da literatura infantil en- contra-se na Novelística Popu- lar Medieval. Descobriu-se que des- de essa época a palavra impôs-se ao homem como algo mágico, como um poder misterioso que tanto poderia construir como destruir. São de ca- ráter mágico e fantasioso, as narra- tivas conhecidas como literatura pri- mordial. Essas narrativas se difundi- ram por todo o mundo através da tradição oral (BETTELHEIM, 1985). Nesse tipo de literatura, destacam- se os contos que, na sua origem, fa- 1 Retirado em http://basenacionalcomum.mec.gov.br/implementacao/praticas/caderno-de-praticas/ensino- medio/203-literatura-infantil-reflexoes-e-praticas ziam parte desse vasto conjunto de literatura oral, sendo depois, regis- trados por autores como Charles Perrault dentre outros. Uma das primeiras atividades socioculturais do ser humano foi a de contar histórias. Esta atividade cumpria funções ex- tremamente importantes junto ao grupo social da qual ema- nava. A história esteve, desde o seu nascimento e durante mui- to tempo, bastante próxima desta arte de contar histórias já que constituía, essencialmente, na narrativa encadeada de A 5 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA acontecimentos considerados relevantes pelo grupo social (JUNIOR, 1999, p. 117). Em tempos remotos, era tida como maravilhosa a literatura infan- til. Como nos primórdios da huma- nidade, o acesso ao conhecimento científico de fenômenos humanos e das ciências era inacessível para a maioria dos homens, a magia do pensamento tomou lugar e ocupou o espaço da logicidade. Nessa fase fan- tástica da magia, o ser humano já apontava preocupações com o rela- cionamento dos homens num con- texto social e emocional (PIETRO, 1999). Nesse período, é fortíssimo o nascimento, ou melhor, o surgimen- to das fábulas que são tipos de nar- rativas que possuem um estilo sim- bólico, geralmente as situações con- flituosas são vivenciadas por ani- mais que fazem alusões à mesma si- tuação que os homens passam. Tem como eixo o objetivo da moralidade que por muitas vezes estão explícitas nas narrativas. As pessoas que inventavam es- sas narrativas acreditavam ser como brincadeiras que necessitam de mui- to raciocínio, agilidade e conheci- mento prévio, cujo final é sempre um ensinamento, um aconselha- mento. Esse tipo de literatura tor- nou-se com o tempo, denominada de literatura infantil, pois possui uma magia em sua natureza, é es- pontânea e convidativa para as cri- anças (BETTELHEIM, 1985). As fábulas foram gêneros lite- rários exclusivos até o século XVII, quando surge os contos de fadas que incorporam-se ao grande acervo da literatura infantil. Para atender a to- das as necessidades das crianças da- quela época os gêneros poéticos bas- tante ricos se misturavam ao ponto de se confundirem ao folclore e ou- tros gêneros (PIETRO, 1999). No final do século XVII pare- cem as primeiras obras literárias produzidas para as crianças. Naque- la época, as sociedades viviam mui- tas mudanças que causaram grandes repercussões em quase todo o mun- do, nos contextos artístico e fami- liar, pois antes desses acontecimen- tos, as crianças eram uma forma de miniaturas do adulto e participavam desde muito cedo a vivenciar não a vida infantil, mas como era a vida dos grandes (BETTELHEIM, 1985). Não existiam livros e nem na- da escrito especialmente para as cri- anças; não havia nada que pudesse ser considerado literatura infantil. Portanto, a origem da literatura in- fantil estaria nas publicações a partir daquela época, mas com a intencio- nalidade pedagógica. Em conse- quência, surgiram a preservação di- dática e o conservadorismo como as- pectos estruturais para a literatura 6 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA das crianças. Eram educadores que escreviam os livros literários infan- tis com o intuito de educar e ao mes- mo tempo de manipular a sociedade, começando desde cedo, através das crianças. Na escola e na literatura, a cri- ança era vista como se fosse um ser inferior que só obedecia a regras, normas e valores que os adultos im- punham. No Brasil, Monteiro Loba- to destacou-se como escritor da lite- ratura infanto-juvenil na década de 1930. Com ele ocorreu uma verda- deira revolução no gênero, criando personagens inesquecíveis como a Emília e outros personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Na época pós-moderna, surgi- ram outros escritores e poetas que se dedicaram à Literatura Infantil, poe- tas e escritores como Manoel Ban- deira, Mário Quintana, Ana Maria Machado, Roseana Murray e muitos outros que criaram obras interes- santes, cheias de imaginação, emo- ção, suspense e muito mais. As fa- das, nem sempre aparecem, mas fi- cam marcadas nas narrativas dando um ar de fantástico e prazer de ler (BETTELHEIM, 1985). A partir da década de 1970 o conceito de literatura infantil vem sendo revisto, assim como a arte de contar histórias. Alguns estudiosos criticam a postura de pesquisadores que concebem a literatura infantil como uma arte menor por ser desti- nada às crianças, mesmo porque, o termo infantil associado à literatura não significa necessariamente que ela tenha sido feita para crianças (PIETRO, 1999). A literatura infantil acaba sen- do àquela que corresponde, de algu- ma forma, aos anseios do leitor e que com ele se identifica, independente- mente da sua idade. Outros autores afirmam que a literatura infantil é, antes de tudo, literatura, isto é, men- sagem de arte, beleza e emoção. Des- tina-se à criança, porém nada impe- de que possa agradar ao adulto. E nada modifica a sua característica li- terária, se destinada ao adulto, agra- dar e emocionar a criança. (PIETRO, 1999). São vários os conceitos que se têm de literatura infantil, como os li- vros que têm a capacidade de provo- car a emoção, o prazer, o entreteni- mento, a fantasia, a identificação e o interesse da criança. De acordo com Ana Maria Ma- chado Toda literatura é um diálogo com outros textos. As crianças são capazes de se deliciar com referên- cias culturais ao seu alcance (Jornal O Globo, 2003, p. 25). A autêntica literatura infantil e a arte de contar histórias devem ser compreendidas não apenas como um diálogo entre criança e o adulto, mas como uma ponte entre dois 7 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA mundos, o real e o imaginário. A boa literatura contada encanta e enri- quece o espírito das crianças, que se emocionam com as narrativas, en- volvem-se e participam, como conta Queirós (1996, p. 23): Em suas narrativas afetuosas eu descobria o contraditório, o medo, o desejo, o ódio, a inse- gurança, sentimentos comuns a todos nós, passageiros. Reve- lou-se para mim que contar his- tórias era, também para eles, colocar as dúvidas, temporaria- mente, em seus lugares. Isso nos aproximava. O contador se fazia ouvinte de si mesmo. E to- dos, com diferenteslápis e vá- rios tons, legendavam as pági- nas do livro. A palavra era mi- nha poção, meu fortificante. Esse autor evidencia a impor- tância da troca entre locutor e inter- locutor, entre contador e ouvinte, entre a fala e a escrita. A literatura presente nas his- tórias aborda também a realidade social, exibindo em seus valiosos es- critos, os anseios e desejos momen- tâneos, variando de contexto para contexto, possibilitando um alarga- mento de horizonte, já que oportu- niza ao leitor, sendo eles criança ou adulto, uma postura crítica diante os problemas que percebem a sua vol- ta. A literatura infantil é arte, é fe- nômeno da criatividade que repre- senta o mundo, o homem, a natureza e a vida através de palavras. Mistu- ram os sonhos e a realidade, o ima- ginário e o real, os ideais e a sua pos- sibilidade de realização. A literatura infantil é fonte inesgotável de assun- tos para melhor compreender a si mesmo e ao mundo. Quanto à questão verdade na Literatura, é preciso levar em conta que a obra cria sua pró- pria realidade. A verdade da obra vai sendo tecida na cons- trução de sua realidade. A qua- lidade da beleza da arte - a sua verdade - é atingida objetiva- mente na obra. A verdade da obra de arte vai sendo tecida na construção da sua realidade e habitará a obra concretamente. (PRIETO, 1999, p. 57). Como se percebe nas palavras de Pietro (1999) a obra de arte revela a natureza entre verdade e ficção, entre a realidade da própria Litera- tura como expressão da arte. Sendo assim, percebe-se uma mistura entre a realidade e a ilusão contidas no ato e o impulso de con- tar histórias, uma vez que parecem que nasceram no homem no instan- te em que ele sentiu como era pre- ciso e uma necessidade de contar às pessoas alguma coisa, algum feito, fato ou uma experiência de sua vida que provocaria ou poderia significar alguma coisa para alguém em algum lugar no mundo (PIETRO, 1999). 8 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA No atual mundo sem frontei- ras, monitorado pela imagem, som, velocidade, visualidade e virtualida- de das novas tecnologias, a literatura infantil e o contar histórias são en- tendidas como arte, pois fazem uso da criatividade que permeiam o mundo e fundem os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real na arte de contar histórias. As Histórias em Todos os Tempos Mudam os tempos, mas não muda a criança na sua psicologia. A criança continua fantasiosa e ani- mista. Ela ainda vê estrelas dançan- do, bichos falando, botas caminhan- do sozinhas, e toda uma série de fan- tasias que fazem parte do seu mundo e a tudo dá vida. Hoje não há mais fogueira e o ritmo da noite aconchegando ouvintes em torno dos aconteci- mentos guardados na memória do narrador tradicional. Hoje não há mais a música do tear entrelaçando as histórias que se contavam como cânticos de tra- balho. Também há a distância e o tempo empurrando os olhos para as imagens prontas e as palavras frouxas que não acen- dem a imaginação. Com tudo isso, poder-se-ia dizer: contar histórias é uma arte sem lugar às portas do século XXI (SISTO, 1999, p. 133). Conforme abordado por Sisto (1999) muitas das tradições foram deixadas de lado, a ponto de isso al- terar a marcha contínua das coisas, das histórias, da vida. Nessa perspectiva, o que seria do homem mais sábio da terra se lhe tirassem, de repente, de sua alma to- dos os mitos e toda a magia das his- tórias? Para alguns estudiosos, [...] o mito, a imagem fantástica é uma função interna sem a qual a vida psí- quica ficaria mutilada. O mito não encontra, naturalmente, no mundo externo o seu objeto adequado, mas em troca, suscita em nós as corren- tes indiretas dos sentimentos que nutrem o pulso vital, mantém a von- tade de viver. Ele chega ao ponto de dizer que o mito é a harmonia psí- quica (GIGLIO, 1993). O homem primitivo é um ima- ginativo puro e como sua imagina- ção é espontânea e livre, e também porque não tem nenhum conheci- mento da natureza e das leis que a governam, não vacila em acreditar metade em observações, metade em suposições e nas mais estranhas teo- rias para explicar o cosmos e seus fe- nômenos. O mito nasce, assim, desse tra- balho de imaginação pura, entregue a si mesma e não adulterada pela in- tromissão e pela tirania dos elemen- tos racionais. 9 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA Narrar é uma forma de pensar o mundo. O homem faz pergun- tas ao mundo. Deseja compre- ender o universo como um to- do, mas também quer conhecer os pormenores da vida. O ho- mem coloca-se diante do mun- do e o interroga, pedindo que lhe revele seus fenômenos. Re- cebe então uma resposta: pala- vras que vêm ao encontro das suas. Quando o universo se cria assim para o homem, por per- gunta e resposta, tem lugar a forma narrativa a que chama- mos de mito (PIETRO, 1999, p. 43). O mito, como se sabe, delineou os modos de vida, os relacionamen- tos entre as pessoas, de modo que as histórias contadas e narradas pelos aedos (poetas-cantores que percor- riam a Grécia) populares deixaram marcas nas formas e nos modos de passá-las de geração em geração, transformando e moldando o mun- do e as pessoas. Algo parecido se passa com a criança porque antes de saber, o me- nino é como o primitivo: um imagi- nativo puro. O conhecimento e ex- plicação que possuem das coisas e fenômenos que o rodeiam não estão sujeitos a leis físicas ou biológicas. Suas imagens superam a realidade que o cerca e, naturalmente, a toda a concepção racional. Depreende-se, então, que os mitos são um material de alta qualidade na literatura infan- til e não se deve prescindir deles nesse gênero de literatura (GIGLIO, 1993). Não adianta, portanto, abolir o mito ou o maravilhoso da alma das crianças. Ele se fará presente porque assim o exige o processo evolutivo de sua psique. O mito é uma espécie de combustível para a imaginação infantil. Seria uma verdadeira muti- lação destruir na criança esta capa- cidade mítica. Os contos correspondem a uma caracterização do psiquismo in- fantil e que, portanto, cumprem uma função de desenvolvimento de sua imaginação e dos demais pode- res mentais. Portanto, o conto de fa- das não oferece perigo algum. Ainda mais porque ocorrem numa etapa muito curta de sua vida. E possuem um sedimento realista e poesia po- pular, são um estimulante para a imaginação infantil Os que acham, porém, que as fadas e os contos devem ser riscados da literatura infantil, afirmam que estes contos criam confusões no es- pírito da criança que desnaturalizam o verdadeiro objeto do conhecimen- to na função emuladora de seu psi- quismo. Colocam o menino em um ambiente tão diferente do que en- contrará depois, quando crescer, que é sumamente prejudicial. Não há de ser contra a história de fadas, propriamente, porque se é favorável a que se use o fantástico, já 10 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA que a criança requer excitantes para cada uma de suas etapas e que cor- respondam às suas exigências fun- cionais e atuem, como disse Bette- lheim (1985), como harmonias psí- quicas, o que só é conseguido atra- vés dos mitos, das lendas e das pró- prias fadas que cumprem essa mis- são na imaginação infantil. Acredita-se, porém, que a épo- ca da televisão, do cinema e de ou- tros instrumentos modernos de co- municação, a fada já se está tornan- do um elemento superado, obsoleto, não aceitável para um grande nú- mero de crianças. Não se pode negar que exis- tem, ainda, crianças que se deleitam com histórias de fadas, mas numa época em que a realidade está se tor- nando mais maravilhosa do que a fantasia, como é o caso do homem conseguir pisar na Lua, a criança não se interessa, de um modo geral, pela fada. Dar à criançaa realidade unida à fantasia é que será o ideal. As crianças da era espacial devem ter o fantástico através do cotidiano. Há livros escritos no século XIX, em que é usado o processo de que se fala: o maravilhoso no coti- diano. E corresponde ao que deseja uma criança nas obras que lhe são destinadas. É preciso dar à criança o elemento fantástico, mas moderni- zando-o e se pode dizer que: Demos- lhe o maravilhoso através do raio la- ser, dos selenitas e marcianos, de to- da uma gama de elementos espaciais ou das recentes conquistas do ho- mem e que constituem o maravilho- so dentro da própria realidade, sem fugir do poético e do lírico (ROSA- MILHA, 1944, p. 35). Serão elementos muito mais excitantes e estimulantes para a imaginação infantil que a fada poéti- ca, é verdade, mas já sem força para interessar os meninos de hoje, habi- tuados a coisas muito mais fantásti- cas e eficazes do que uma varinha de condão que transforma melancias em carruagens ou uma Gata Borra- lheira numa princesa linda e boa. Um raio laser poderá fazer coi- sas mais maravilhosas e uma opera- ção plástica poderá transformar Borralheiras nas princesas mais lin- das e graciosas. Até meninos de co- ração ruim poderão tornar-se bons mediante um simples transplante. Tudo isso pode ser posto em prática para uma literatura renovada, de acordo com crianças que ouvem fa- lar continuamente em lua, opera- ções plásticas e transplantes. Nada mais fantástico do que o simples co- tidiano que parece, cada dia, mais ir- real, como ensina Rosamilha (1944), evidenciando a importância da con- textualização da linguagem literária ao universo da criança. 11 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA Relação Entre Literatura e Lei- tura de Histórias É urgente que a Escola redefi- na o conceito de leitura. O passo ini- cial, talvez, seja o de retirar as carti- lhas pré-fabricadas das salas de aula e colocar a criança em contato com bons livros de literatura infantil, mesmo ainda não sabendo ler. A cri- ança deve descobrir o prazer pela leitura antes de aprender a ler. Ela precisa querer e sentir a necessidade de decifrar o meio através da leitura. Só então é que se pode iniciar o pro- cesso da sua aprendizagem através do fantástico mundo dos livros (QUEIRÓS, 1996). O mundo é um livro sem texto, criado a partir da palavra. Livro sem texto onde me vejo elaborando ora- ções, apaziguando as imensas emo- ções percebidas nesse mar de linhas e horizontes de eternas leituras‖ (QUEIRÓS, 1996, p. 13). A leitura deve ser encarada como uma segunda etapa da aquisi- ção da linguagem e deve dar oportu- nidade à criança de manifestar a ne- cessidade de mais uma via de com- preensão e expressão de suas ideias, pelo desenvolvimento do pensa- mento, do vocabulário e da sociabi- lidade, tudo isso vem naturalmente através da presença constante dos contos no cotidiano infantil (MAR- TINCOWSKI, 1995). Muitos educadores e, princi- palmente, Piaget (1976), alertam so- bre a importância da observação na evolução do pensamento infantil. A criança passa por etapas bastante definidas, fazendo-se refletir sobre todas suas atitudes e atividades rela- cionando-as com a dos personagens dos contos (QUEIRÓS, 1996). A leitura também, como não poderia ser diferente, passa por fa- ses que devem ser observadas antes de pretender exigir da criança uma leitura que esteja além ou aquém de suas capacidades, portanto é neces- sário respeitar o tempo de cada cri- ança e planejar estratégias que pro- voquem a vontade e a criatividade dela, a criatividade de criar a leitura e releitura das histórias ouvidas pe- los professores e pelas pessoas que estão ao seu redor. O Folclore Presente nas Histó- rias Na formação brasileira agem, no plano histórico, três correntes culturais: a europeia (o português), a indígena e a africana. Como não podia deixar de acontecer, as histó- rias brasileiras sentiram esta in- fluência e foi com a leitura que ela penetrou mais profundamente, enri- quecendo sobremodo o folclore. Segundo Rosamilha (1984), não se podem negar as correntes 12 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA culturais negras que foram trazidas para o Brasil durante o ciclo da es- cravidão. Estas culturas fizeram flo- rescer alguns institutos de velhos narradores e contadores de histó- rias. As negras velhas eram, então, as maiores contadeiras de histórias. A Importância das Histórias: Objeto da Literatura De acordo com Tahan (1966), em relação à importância da história cabe ao educador, inicialmente, transcrever as histórias de formas animosas e acertadas, pois quem ouve com prazer as histórias, certa- mente, irá compreendê-la com aten- ção e despertar-se pelo imaginário. A história deve ser narrada, lida, filmada, ou dramatizada, e cir- cular em todos os meridianos, e deve viver em todos os climas. Não existe povo algum que não se orgulhe de suas histórias, de suas lendas e de seus contos característicos (TAHAN, 1966). A importância da história de- corre: De sua universalidade; De sua influência; Dos recursos que oferece aos educadores; Dos benefícios que poderá proporcionar à humanidade. A história, bem escolhida e bem orientada, pode servir como mola-mestra na grande obra educa- cional. A história grava-se, indelevel- mente, em nossas mentes e seus ensinamentos passam ao patri- mônio moral de nossa vida. Ao depararmos com situações idênticas, somos levados a agir de acordo a experiência que, in- conscientemente, já vivemos na história. Por isso, em nossos dias, pais e professores bem ori- entados e inteligentes empre- gam a história como meio eficaz de corrigir faltas, ensinar bons costumes, inspirar atitudes no- bres e justas, enfim. Recorrem ao conto como o mais fácil, o mais racional e o mais eficaz processo de formar caracteres. E a experiência tem provado, de sobejo, o acerto do caminho se- guido (TAHAN, 1966, p. 16). Segundo Tahan (1966) a histó- ria deve ser contada com simpatia, com acentuada demonstração de sentidos e sentimentos, trazer para a educação a sua experiência pessoal de infância, quando ouvia histórias. Nesse ponto, é importante que o educador, contador de histórias, li- berte-se para caminhar rumo ao imaginário para atingir o foco que são os ouvintes. O cultivo das histórias remon- ta a época muito afastada, pois o contar história vem de tempos re- motos, pois o homem percebeu que deveria cultivar os talentos existen- tes, e compreendeu que contar his- 13 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA tórias é uma arte que pode e deve ser preservada. A importância também de se contar histórias para as crianças está na questão de tratar-se de uma nar- rativa que se baseia num tipo de dis- curso calcado no imaginário de uma cultura. As fábulas, os contos, as len- das são organizados de acordo com o repertório de mitos que a socie- dade produz e reproduz. Quando es- tas narrativas são lidas ou contadas por um adulto para uma criança, abre-se uma oportunidade para que estes mitos, tão importantes para a construção de sua identidade social e cultural, possam ser apresentados a ela (TAHAN, 1966). Existe, porém, uma diferença entre contar e ler uma história, po- rém, ambas são muito importantes. Um texto escrito segue as normas da língua escrita, que são completa- mente diferentes daquelas da lin- guagem falada. Quando uma criança ouve a leitura de uma história ela projeta funções sintáticas da língua, além de aumentar seu vocabulário e seu campo semântico. Porém, aque- le que lê a história deve dominar a arte de contá-la, deve estar prepara- do suficientemente para fazê-lo com apoio no texto, sabendo utilizar o li- vro como acessório integrado à téc- nicada voz e do gesto. Além disso, quem lê para uma criança não lhe transmite apenas o conteúdo da história; promovendo seu encontro com a leitura, possibi- lita-lhe adquirir um modelo de leitor e desenvolve nela o prazer de ler e o sentido de valor pelo livro (TAHAN, 1966). Há opiniões divergentes neste campo, pois alguns autores conside- ram que o contador sem o livro tem mais liberdade de acentuar emo- ções, modificar o enredo segundo as reações da criança e, portanto, me- lhor comunicação com o público in- fantil. Teria ainda mais disponibili- dade para trabalhar sua voz e seu gesto. Neste aspecto o importante é como ler e como contar, porque é preciso que se tenha técnica e pre- paro para despertar o desejo e o pra- zer das crianças para ouvir histórias. Para que contar histórias? Um dos principais objetivos de se contar histórias é o da recreação. Mas a im- portância de contar histórias vai muito além disso. Por meio delas po- dem-se enriquecer as experiências infantis, desenvolvendo diversas formas de linguagem, ampliando o vocabulário, formando o caráter, de- senvolvendo a confiança na força do bem, proporcionando a ela viver o imaginário, contribui com a sua so- cialização, e também contribui com seus aspectos cognitivos, emocio- nais e sociais. As histórias estimulam o de- senvolvimento de funções cognitivas 14 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA importantes para o pensamento, tais como a comparação entre as figuras e o texto lido ou narrado; o pensa- mento hipotético, o raciocínio lógi- co, pensamento divergente ou con- vergente, as relações espaciais e temporais, pois toda história tem princípio, meio e fim. Os enredos das histórias, geralmente, são orga- nizados de forma que um conteúdo moral possa ser inferido das ações dos personagens e isso colabora pa- ra a construção da ética e da cidada- nia das crianças. Um outro passo importante é o de saber selecionar as histórias para ler ou contar. Existem dois ti- pos de histórias: aquelas que servem de alimento para a alma, permitindo a transmissão de valores e de ima- gens arquetípicas fundamentais pa- ra a construção da subjetividade; e aquelas que servem para despertar o raciocínio e o interesse da criança para formas de agir e estar no mun- do que são chamadas histórias ma- téria - importantes para a estrutura- ção dos aspectos objetivos da perso- nalidade. Essas últimas devem ser selecionadas de acordo com o desen- volvimento cognitivo do ouvinte porque exigem maior compreensão racional e analítica, assim, deve ser escolhida criteriosamente, pois tra- ta-se, neste caso, de crianças que es- tão na Educação Infantil (TAHAN, 1966). 16 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA 2. As Variedades Textuais: A Estrutura Narrativa Fonte: Estudo Prático2 estrutura narrativa dos contos auxilia na construção da produ- ção oral ou escrita das crianças no início do processo de alfabetização. Existem alguns tipos de textos que os professores precisam ter domínio para desenvolverem sua prática em sala de aula, como pontua Silva (1995): Textos narrativos: histórias, casos, acontecimentos, contos de fadas e modernos, histórias em quadrinhos; Textos poéticos: poemas, le- tras de música, quadrinhas; Textos folclóricos: lendas, par- lendas, cantigas de roda, adivi- nhas; Textos informativos: notícias e anúncios de jornais e revistas, textos sobre animais; 2 Retirado em https://www.estudopratico.com.br/narrativa/ Textos normativos: bula de re- médios, receitas, placas, carta- zes, regras de jogos ou brinca- deiras; Textos interativos: cartas, bi- lhetes, convites, cartões, etc.; Textos coletivos: registros de discussões realizadas no grupo e/ ou com a participação da turma como um todo, de te- mas de conteúdos estudados, passeios e visitas realizadas, etc. (SILVA, 1995, p. 58). Acredita-se que o texto narra- tivo seja acessível às crianças da Educação Infantil porque encontra- se, por um lado, a narrativa como um dos aspectos mais importantes do processo linguístico do homem. Por outro, esse tipo de texto permite A 17 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA uma relação menos complexa entre os enunciados, ou seja, sua estrutura é constituída de sequências lineares e sucessivos eventos o que possibi- lita às crianças a construção de um plano de ideias para suas produções orais (SILVA, 1995). A narrativa tem como fonte a experiência que passa de pai para filho e sua natureza guarda uma dimensão utilitária, essen- cial, já que o narrador é sempre o homem que sabe dar conse- lhos ligados ao dia-a-dia das pessoas. Apesar desta não ser a única função das narrativas, sem dúvida tal dimensão utili- tária é fundamental. (JUNIOR, 1999, p. 118). O ato de narrar um fato ou acontecimento é conhecido desde as mais primitivas civilizações. Para a manutenção de seus conhecimentos e transmissão desses, o homem lan- çou mão da narrativa. A transmissão dos antigos ensinamentos, estabele- cida pelo processo de contar de pai para filho ou de mãe para filha, foi se cristalizando ao longo do desenvol- vimento das sociedades e consti- tuindo-se em um meio comunicati- vo, eficiente e efetivo. A forma de histórias é vista, por alguns autores, Egan (1987), por exemplo, como um dos mais podero- sos e efetivos sustentadores da cul- tura. Nesse sentido, a criança desde cedo interage com a narrativa, ou- vindo histórias reais ou ficcionais – contadas pelos adultos. Esse ouvir histórias permite adicionalmente experiênciar e vivenciar determina- das características da linguagem. Martincowski (1995) afirma que as histórias contadas e/ou lidas de forma contextualizada e, sobretu- do, discutidas com as crianças pode- rão desenvolver nelas o hábito de analisar questões, reelaborar formas de pensar, orientar a coerência na sequência dos ventos. A própria história contém pis- tas sobre partes importantes que orientam o ouvinte/leitor para de- terminados fatos que deverão ser re- petidos na memória. A tensão e os Conflitos Pre- sentes nas Histórias Outro aspecto substancial que vemos nos contos de fadas está liga- do ao movimento e tensão dos ele- mentos que estruturam a narrativa, ou seja, o arcabouço narrativo. Auto- res como Muth (1989) estudaram o texto narrativo, especialmente os contos, e concluíram que esses têm uma organização estável e recorren- te, como também, elementos meta- textuais que auxiliam as crianças na elaboração de textos orais e/ou es- critos. Verifica-se que a estrutura dos contos de fadas é dinâmica, pois a trama é tecida e destecida, suscitan- 18 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA do ora equilíbrio, ora desequilíbrio e, esse circuito da trama é marcado, linguisticamente, por frases e/ou ex- pressões que articulam o enredo. Os mecanismos linguísticos favorecem, por um lado, o encadeamento de ideias entre as partes do texto, ofere- cendo referencias ou pistas para a compreensão da organização tex- tual. Por outro lado, os contos de fa- das oferecem condições para a am- pliação do vocabulário, estruturas sintáticas, formas discursivas, pon- tuação, etc., os mecanismos linguís- ticos funcionam como um fio condu- tor da intenção ao que o texto se pro- põe. Contar de reis e rainhas, prín- cipes e princesas, gnomos e duen- des, meninos e meninas, animais fa- lantes e coisas de outro mundo e coi- sas desse mesmo mundo, só que contadas com jeito de quem viu ou viveu o que fala e repete a história com emoção renovada, a cada vez. Sim, porque contar histórias depen- de também de quem ouve (SISTO, 1999, p. 133). Dessa forma, o recontar das histórias favorecem o trançar e tecerhistórias, contribuindo substancial- mente para uma produção oral e/ou escrita mais efetiva, no sentido de promover a autonomia e a criativi- dade da criança. 20 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA 3. A Arte de Contar Histórias no Espaço Escolar Fonte: Estadão Educação3 stá sob a responsabilidade da escola, possibilitar ao aluno o acesso a uma diversificada experiên- cia com a leitura e, principalmente com as aulas de literatura. A intera- ção do aluno com as diferentes lin- guagens, presentes no seu cotidiano, possibilitará o entendimento da multiplicidade e complexidade dos usos, valores e funções com que a 3 Retirado em https://educacao.estadao.com.br/blogs/blog-dos-colegios-poliedro/a-arte-da-contacao-de-his- torias/ linguagem se configura nas diversas situações de interação. Na educação infantil, no ensi- no fundamental e no ensino médio torna-se imprescindível a utilização de uma multiplicidade de textos, ex- periências, táticas e estratégias que permitam à criança a aquisição da leitura/escrita, ampliando assim, o seu universo linguístico, cultural e social (ROSAMILHA, 1984). E 21 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA Sabe-se que em alguns progra- mas curriculares existem uma hie- rarquização horizontal e vertical, no que diz respeito a uma tipologia tex- tual a ser desenvolvida. As práticas pedagógicas priorizam a narração, depois a descrição e, por último, a dissertação. Essa tipologia textual organizada para fins didáticos fun- damenta-se na relação entre desen- volvimento cognitivo da criança e aquisição do tipo de texto. Assim, o texto narrativo seria o mais acessível às crianças, no processo inicial da língua escrita. Autores como Silva (1995) cri- ticam a utilização dessa tipologia (narração, descrição e dissertação) cujos critérios de ensino baseiam-se no estabelecimento de marcas dis- tintas entre os diferentes tipos de textos, como por exemplo, o predo- mínio de certos tempos verbais, ca- racterísticas de ordem esquemática global do texto, etc. A autora afirma que a escola tem levado a criança a redigir conforme o modelo, na in- tenção de que ela se aproprie de cada configuração de texto trabalhado, de forma gradativa e sistemática na sa- la de aula. Daí, a legitimação de uma tipologia textual escolar. A crítica é válida e rica para que se reflita sobre as práticas peda- gógicas que priorizam e utilizam os textos como exemplos para que se- jam repetidos de forma mecânica. A Prática Docente e a Arte de Contar Histórias Até que ponto podem ou de- vem os professores de escolas ma- ternais e jardins de infância acelerar o programa para crianças pequenas? Devem elas esperar para ver se as crianças precisam de algo além do que lhes está sendo apresentado nas experiências proporcionadas nas sa- las de aula? Devem elas proporcionar estí- mulos extras para testar as capaci- dades e potencialidades do grupo? Devem elas basear as programações extras principalmente nos interesses das crianças? Devem elas juntar no- vos materiais e equipamentos base- ando-se nos interesses e maturidade do grupo? Devem elas conhecer as histórias que as crianças gostariam de ouvir e conhecer? (ROSAMILHA, 1984). As professoras frequentemen- te sentem a necessidade de estimu- lar ou desafiar os alunos além do co- mumente previsto no currículo. Esta necessidade se origina de uma vari- edade de causas e angústias que es- tão presentes na vida de professores preocupados e comprometidos com a educação. Alguns professores seguem um currículo prescrito, no qual o es- tímulo mental é enfatizado; outras se sentem aborrecidos por seguir o 22 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA mesmo programa ano após ano. Al- guns acham que os alunos estão pe- dindo mais do que recebem de um programa escolar. Outros sentem que é importante estimular um gru- po a aprender tanto o comum quan- to o incomum. Acreditam que certas crianças não são suficientemente desafiadas por programas baseados inteiramente nos interesses infantis. Alguns educadores pensam que os programas das escolas maternais e dos jardins de infância necessitam de uma face nova para manter a am- bas, crianças e professores, interes- sados (ROSAMILHA, 1984). Por trás de tudo isso circulam pressões dos pais, dos educadores e de leigos que pensam que os alunos são capazes de absorver muito mais do que lhes está sendo dado. Muitos programas de educação estão sendo avaliados em termos de uma ou de todas essas pressões, os provões da vida, vestibulares e agora, a avalia- ção de desempenho para medir o seu conhecimento e calcular o seu salá- rio. O mercado atual está inunda- do de mecanismos, programas, téc- nicas e invenções corretivas, a maio- ria das quais afirma ser uma ponte para as doenças da educação. Essas doenças variam em grau e tipo, de acordo com a posição do escritor. Muitas das ideias propostas vêm de pessoas que nunca ensinaram em uma sala de aula. Essas pessoas ba- seiam suas ideias no que a educação deveria ser, em contraste ou de acor- do com a educação que elas recebe- ram. Em alguns casos, o criador da nova ideia pode ter tido uma boa ou má experiência em sua situação es- colar e pede que as crianças tenham uma experiência tão boa ou melhor do que a que ele teve. Tomarão eles sempre em consideração a mudança dos tempos, que requer mudanças na educação de modo a servir a um mundo novo e diferente? Considera- rão a educação presente neste ter- ceiro milênio? Na pós-modernidade (ROSAMILHA, 1984). Provavelmente a contribuição mais importante que um professor deveria anexar, expandir ou mudar no programa de sua sala de aula é o interesse ou as necessidades de- monstradas pelos alunos em áreas ou assuntos especiais. As perguntas e explorações feitas por eles fre- quentemente alertam a professora. Talvez os alunos estejam pro- curando informação, ou tentando resolver um problema, ou estejam simplesmente curiosas. Seu inte- resse é um sinal importante para os professores, pois ele pode indicar necessidades significativas para o indivíduo ou grupo. Na hora do con- to, através das situações e conflitos vividos pelos personagens, as crian- 23 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA ças podem estar indicando sinais de que aquelas situações ocorrem na vida real também (ROSAMILHA, 1984). O professor deveria sempre perguntar a si mesmo: Exatamente para que os alunos estão prontos‖? O que sentem? Somente por testes e tentativas contínuas o professor po- derá encontrar a resposta. Às vezes ele apresenta um estímulo que não é correspondido pelos alunos. Ele de- ve, então, tentar outra coisa. O ciclo de ensaio e erro é infindável em qualquer processo de ensino e aprendizagem e os contos de fadas favorecem este processo. Apesar dos sinais de interesse por parte dos alunos serem impor- tantes, o professor, não pode sempre esperar por interesses espontâneos para estimular a aprendizagem. Ele poderia ter de esperar o ano todo pa- ra perceber que isso pouco acontece. Muitas vezes ele descobrirá uma ne- cessidade de apresentar ideias avan- çadas, aparelhamento e matéria ex- tra. Em plena virada do milênio, quando o professor se senta no meio de um círculo de alunos e narra uma história, na verdade cumpre um desígnio ancestral. Nesse momento, ocupa o lugar do xamã, do bardo celta, do ci- gano, do mestre oriental, da- quele que detém a sabedoria e o encanto, do porta-voz da ances- tralidade e da sabedoria. Nesse momento ele exerce a arte da memória (PIETRO, 1999, p. 41). Esses professores irão desen- volver um interesse ou uma curiosi- dade em algo queo aluno ainda não experimentou. O professor deve sempre lembrar-se do nível de ma- turidade de seu grupo e das diferen- ças individuais dentro desse mesmo grupo. Ele deve observar o entusias- mo com que ideias ou materiais no- vos são recebidos pelo aluno. Precisa reconhecer as implicações que as va- riações no programa terão para o grupo e para o programa total. O trabalho direto com os alu- nos mais novos exige que o professor tenha uma competência polivalente, seja crítico e reflexivo. Ser poliva- lente significa que ao professor cabe trabalhar com conteúdos de nature- zas diversas que abrangem desde cuidados básicos essenciais até co- nhecimentos específicos provenien- tes das diversas áreas do conheci- mento. De acordo com Referencial Curricular Nacional para a Educa- ção Infantil (1998, p. 41): Este caráter polivalente deman- da, por sua vez, uma formação bastante ampla do profissional que deve tornar-se, ele tam- bém, um aprendiz, refletindo constantemente sobre sua prá- tica, debatendo com seus pares, dialogando com as famílias e a 24 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA comunidade e buscando infor- mações necessárias para o tra- balho que desenvolve. São ins- trumentos essenciais para a re- flexão sobre a prática direta com as crianças a observação, o registro, o planejamento e a avaliação. Alguns educadores têm preo- cupado com a força que a literatura e a arte de contar histórias podem exercer na transmissão de precon- ceitos, estereótipos e mitos. Portan- to, ao selecionar histórias para se- rem contadas e lidas, é preciso ana- lisar criticamente suas mensagens e as suas imagens visuais. Muitas vezes, é perigoso se de- parar com preconceitos em relação ao papel da mulher, à cor das pes- soas, a aspectos ideológicos que vi- sam à manutenção da relação de do- minação entre as classes sociais. Ou, ainda, há livros que descaracterizam a cultura do povo ou de determina- dos grupos étnicos, além de desres- peitarem a natureza e de impingi- rem valores alienígenas. Assim, o educador precisa es- tar consciente deste problema para discuti-lo com as crianças, em ter- mos compatíveis com o seu desen- volvimento. É fundamental que o educador aproveite a riqueza que o livro de histórias pode propiciar, desde que se valha de seu espírito crítico na escolha dos textos e que converse com as crianças acerca de tudo que puder ser pensado e avalia- do, levando em conta as característi- cas do grupo. Considerando que nenhuma história é neutra, nada como conhe- cer cada criança e o grupo para saber que história é adequada ou não à turma e, principalmente, quais os aspectos que necessitam ser retoma- dos e reavaliados. Há autores que valorizam o re- alismo nas histórias infantis, focali- zando a temática social. Há também aqueles que questionam essa pos- tura, destacando que [...] supõe da parte do leitor um determinado pré- conhecimento‖ do mundo real. Ro- samilha (1984, p. 58) afirma que: Auxiliar os alunos a crescerem jamais quis dizer preservá-los de qualquer choque, em pô-los ao abrigo de tal ou qual forma do real significa, ao contrário, dosar essa abordagem de certas realidades, de certos proble- mas, tentar torná-los progressi- vos, proporcional às forças, à resistência de uma criança. Destaca o educador e terapeu- ta Bruno Bettelheim (1985) que: pa- ra que uma história realmente pren- da a atenção da criança, deve en- tretê-la e despertar a sua curiosida- de. Mas, para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver o seu intelec- to e a tornar claras suas emoções; es- 25 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA tar harmonizada com suas ansieda- des e aspirações: reconhecer plena- mente suas dificuldades e, ao mes- mo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam. Resu- mindo, deve, de uma só vez, relacio- nar-se com todos os aspectos da per- sonalidade e isso sem nunca menos- prezar a criança, buscando dar intei- ro crédito a seus predicamentos e, simultaneamente, promovendo a confiança nela mesma e no seu fu- turo (BETTELHEIM, 1985, p. 88). Pode-se concluir que a ética, na prática do professor, deve ser uma constante. Ele deve estar sem- pre atento, conhecer e selecionar bem as histórias que leva para a sala de aula. Desta forma, o professor es- tará fundamentado para levar os alunos a uma discussão crítica dos acontecimentos dos contos relacio- nando-os com a vida real de cada um. As Estratégias e os Recursos para Contar Histórias Ao ouvir o professor contando, lendo ou narrando uma história, a criança ganha uma base de leitura que lhe será útil quando ela começar a aprender a ler. Quando estiver lendo um livro, o professor deve se certificar de que as crianças podem ver as figuras. Ele deve segurar o li- vro na altura da cintura, com as ilus- trações voltadas para as crianças. Is- so quer dizer que o professor deve ler olhando o livro pelo lado ou que ela pode memorizar a história. Se as ilustrações forem ser usadas com o intuito de mostrar a história para as crianças, então as ilustrações devem ficar visíveis o tempo todo não só para uma olhada rápida. Elas só têm valor se as crian- ças puderem examiná-las e observar a relação entre as palavras e as ilus- trações. O professor lê devagar e pro- nuncia cada palavra claramente de modo que a criança possa ouvir as palavras distintamente, sem nada ser omitido. O valor que isso tem pa- ra as crianças é o de construir um vo- cabulário através da articulação cor- reta e da apresentação de palavras novas. A posição das crianças é mui- to importante para o desenvolvi- mento na hora do conto. A pessoa que lê, geralmente senta-se numa cadeira baixa que lhe permite segurar o livro na altura dos olhos das crianças. Se segurar o livro muito alto, as crianças vão ficar olhando para as páginas, em vez de olhar diretamente para a ilustração. Isso poderia lhes dar uma ideia dis- torcida da ilustração e uma ideia ou conceito incorreto. Na posição certa, elas têm uma visibilidade clara e ní- 26 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA tida do que está sendo lido e podem visualizar melhor a história. O professor também pode uti- lizar quadros para contar histórias que podem ser feitos sem grande es- forço. Pode cortar uma série de ilus- trações e colá-las num grande peda- ço de cartolina. A quantidade de ilustrações depende da idade do grupo. À medida que o professor lê a história, ele aponta para os objetos sobre os quais está lendo. Isso tam- bém ensina à criança o conceito de ler de cima para baixo e da esquerda para direita, enquanto elas olham o professor apontar para a sequência. Os contos vão se construindo na imaginação das crianças. As crianças estão sempre prontas a ouvir a leitura de um livro. As palavras mágicas hora do conto geralmente unem o grupo sem que seja preciso forçar. Uma parte im- portante da leitura de livros de lite- ratura para crianças é a oportunida- de que isto oferece para discussões sobre o conto. Isso geralmente se se- gue à leitura, e é melhor não fazê-lo durante a narrativa. Segundo Rosamilha (1984), a interrupção de uma história pode impedir o grupo de reter o tema da mesma, e o professor deve ajudar as crianças a recordar o que a história estava contando quando foi inter- rompida. O professor pode parar o bastante para esclarecer uma pala- vra ou uma situação, mas isso feito ele deve continuar imediatamente. Mas simplesmente conseguir que as crianças ouçam histórias não é o bastante. O professor tem que prestar atenção na sua articulação, enunciação e expressão à medida que a narrativa vai se desenvolven- do. Sua alegria em ler, seu cuidado em segurar o livro e sua interpreta- ção da históriacriam uma atmosfera que pode ser absorvida pelas crian- ças com prazer. Ainda segundo o autor acima, os livros de literatura devem fazer parte das atividades diárias das cri- anças. Esses livros, sempre em expo- sição, encorajam a criança a se inte- ressar. Enquanto se interessam em folheá-los, elas vão descobrindo que há várias espécies de livros - histó- rias diferentes, ilustrações diferen- tes, tamanhos diferentes e com isso vão construindo seu conhecimento. Ao educador cabe dinamizar a sua forma de contar histórias. Tanto quanto possível, deverá ser tão vi- vido esse processo que fará com que a criança penetre na história e nas suas personagens, especialmente nos contos de fadas. A história pode ser contada, li- da, com ou sem a apresentação de fi- guras. Pode ser curta, de modo a ser contada num mesmo dia, principal- mente quando o seu conteúdo joga 27 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA com emoções fortes. Poderá tam- bém ser contada aos poucos, depen- dendo de seu conteúdo, do interesse das crianças e dos objetivos do edu- cador. Rosamilha (1984, p. 75) sali- enta que, no que diz respeito aos li- vros que estimulam a criança a: [...] zangar e entristecer, rir e chorar, a lembrar e projetar, sentir a suavidade e o rigor dos elementos, julgar e mostrar compaixão, imaginar e maravi- lhar- se...; levam-na adiante fa- zendo-a participar de experiên- cias além de seus horizontes imediatos e tangíveis. A literatura reveste-se de fun- damental importância para a educa- ção infantil porque o mundo da cri- ança está muito mais próximo das histórias do que do mundo científi- co. E, ainda refere-se apontando que [...] a história pode ter uma podero- sa influência na educação da crian- ça; para ele, a literatura é melhor do que qualquer disciplina do currículo para integrar o mundo material e o espiritual num todo unificado‖ (RO- SAMILHA, 1984, p. 28). Afirma o referido autor (1984, p. 75) que [...] a literatura tem sido apontada como transmissora de ale- grias, recreação, relaxamento; defi- nição social no lar e na sociedade; percepção dos diversos estilos de vida; orgulho da herança cultural; desenvolvimento da hierarquia de valores; sensibilização com a beleza e interesse pela obra de arte. A professora da educação in- fantil deve também proporcionar às crianças momentos constantes de contato prazeroso com a literatura, diante de leitura de histórias, contos de fada, gibis e livros infantis, bem como a leitura e escrita de bilhetes, cartas, exposição dos nomes, músi- cas e receitas (ROSAMILHA, 1984). Os momentos de ouvir histó- rias fazem com que as crianças de- senvolvam a cognição, a sensibili- dade e a imaginação. Deste modo, a professora da educação infantil deve ter habilidades para ser contadora de histórias e, além de qualidades pessoais, como, simplicidade, oti- mismo, graça, honestidade, equilí- brio, bom humor e calor humano, precisa ainda para cumprir bem sua missão, possuir boa dose de cultura e certa grandeza de caráter para ter uma visão ampla dos problemas da vida e da educação e interpretar cor- retamente os fatos que ocorrem no cotidiano. A professora deve explorar a sua criatividade, inteligência e ima- ginação com o intuito de dar entusi- asmo às histórias, penetrando no mundo da fantasia que as crianças possuem. Assim, ao contar histórias, a professora deve vivê-las, procurar prender a atenção das crianças para 28 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA deixá-las mais próximas de si e per- mitir que vejam as ilustrações do li- vro, e, sobretudo, ter boa linguagem (ROSAMILHA, 1984). Todos esses aspectos devem ser observados e levados em consi- deração pela professora para conse- guir narrar bem uma história e ter um auditório atento e curioso. É ne- cessário usar materiais diversos pa- ra caracterizar um personagem, à medida que a história é contada, isto é, utilizar objetos que fazem parte do cenário da história, maquiagem, en- tre outros objetos que podem enri- quecer a postura do contador de his- tórias (HELD, 1980). Para se contar bem uma histó- ria é preciso, primeiramente, conhe- cer bem a história; fazer um planeja- mento antes de contá-la; contar com naturalidade; mostrar entusiasmo pelo enredo da história, evitar o uso de muitos e ou então; e olhar para as crianças (ROSAMILHA, 1984). O contador de histórias deve repassar segurança. Cuidar da ex- pressão corporal, contar a história com suas próprias palavras e lançar mão da imaginação. É de suma im- portância que o contador de histó- rias vá descrevendo detalhes de co- res, locais, dos personagens, tanto em relação aos aspectos físicos e as- pectos psíquicos. Essa prática pode estimular a imaginação e ajudar a memória. As crianças se encantam com o possível e o impossível. Os adultos se encantam em vis- lumbrar um caminho que lhes devolva o sonho. O que vale mais é sentir a liberdade de ser co-autor da história narrada e poder receber a experiência viva e criar na imaginação o ce- nário, as roupas, a cara dos per- sonagens, o jeito de cada um, as cores tudo que foi apenas suge- rido pelo narrador (SISTO, 1999, p. 133). O que é preciso que o professor faça ao contar histórias: É necessário o uso de pausa, olhar nos olhos das crianças; Fazer suspense; Instigar às crianças a quere- rem ouvir a história; O professor tem que criar sua audiência no grupo de alunos, cada uma com seus próprios pensamentos e focos de aten- ção, antes de começar a contar uma história para elas; Deve haver, na introdução, o indício de que coisas excitan- tes irão acontecer, incitando a curiosidade, unindo as crian- ças em antecipação; Não dar tudo na introdução; Sempre manter um certo nível de mistério, antecipação e sur- presa durante toda a história, para que as crianças sintam-se atentas e curiosas para ouvir as histórias até o fim (SISTO, 1999). Geralmente, muitos educado- res não percebem a capacidade das 29 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA crianças de imaginar e fantasiar, e assim, muitas vezes fazem muitos esforços para explicar ou justificar o cenário, ou explicar tudo com deta- lhes. Na verdade, o que atrai as cri- anças é a possibilidade de entender os aspectos implausíveis da história depois, por isso, não é necessário ex- plicar, isto é, uma história bem con- tada não se explica, se conta (SISTO, 1999). Para contar histórias, o educa- dor precisa também: De habilidade; Saber expressar sentimentos de alegria, de tristeza, de entu- siasmo, de animação utilizan- do gestos, voz e expressão fa- cial; Uma vez terminada a história, deixar as crianças recontarem a história, falar das partes que mais agradaram a elas, Instigar a curiosidade das cri- anças, desta forma elas pode- rão usar o imaginário e fazer relações da história ouvida com a realidade que as cercam (SISTO, 1999). As crianças aprendem muito mais na história, elas percebem o entusiasmo pessoal com a mensa- gem. Elas precisam ser tocadas pela palavra. Atenção: A grande dica para ser um bom narrador de contos e enri- quecer a aula de Literatura é ler muito, os livros, as placas, os gestos, as pessoas, a vida que vai em cada coisa. E não ter pressa: o contador de histórias tem que ter paixão pela palavra pronunciada e contar a his- tória pelo prazer de dizer que é mui- to diferente de ler uma história, que também é diferente de explicar uma história (SISTO, 1999, p. 134). Para o professor de Literatura enriquecer as aulas, valem as se- guintes dicas: Prepare o seu coração enquan- to prepara a história. Tenha certeza de colocar al- gum drama, suspense na his- tória. Deve haver uma situação que dirija ao clímax e ao final da história. O conflito podeser introduzi- do imediatamente ou aos pou- cos para aumentar o suspense e a intriga. Tente levar os ouvintes a se preocupar junto com os perso- nagens e se envolver com o que acontece. O professor deve estudar a li- ção muito bem, precisa saber muita coisa para poder ensinar um pouquinho. Crianças aprendem com seus sentidos. Elas adoram sentir, cheirar, tocar, escutar e ver. Descreva personagens e locais vividamente, ajudando-os a solidarizar-se com os persona- gens. 30 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA Numa audiência mista, tente colocar a história ao nível do mais novo (SISTO, 1999). O mesmo tom de voz torna-se monótono quando os alunos ouvem os adultos lendo para eles. Isso pode deixá-los irrequietos. O professor deve sempre ler com expressão, mu- dando seu tom de voz de acordo com os acontecimentos da história ler mais depressa na linha que indica um ritmo mais apressado, falar mais lentamente nas linhas que indicam uma demora ou um processo mais lento, ler com alegria ou tristeza quando a história requer esses senti- mentos de emoção. Os alunos assim comparti- lham da parte que a expressão repre- senta na leitura. O livro cria vida! E o aluno criança recria seu conheci- mento através desses contos narra- dos com expressão e sentimento (SISTO, 1999). O professor ocasionalmente pode apontar elementos da ilustra- ção para chamar a atenção dos alu- nos para o significado das palavras nos contos. Isso elucida a história ou elucida os conceitos a serem forma- dos por eles e consequentemente a produção do conhecimento (HELD, 1980). Lidando com os livros cari- nhosamente, o professor acaba en- volvendo as crianças e acima de tu- do, porque o professor gosta do li- vro, ela demonstra seu cuidado para com ele pela maneira como o manu- seia. Ele vira as páginas cuidadosa- mente; não dobra para trás nem a capa nem as páginas do livro; não molha os dedos para virar as pági- nas. Desse modo, as crianças com- preendem que o professor tem amor aos livros, e são influenciadas por esse cuidado com o seu manuseio, os alunos aprendem que os livros de- vem ser bem tratados, o professor é um modelo (HELD, 1980). Para melhor contar histórias é preciso, portanto: Saber articular a voz. É preciso também adquirir competências necessárias, aprendendo algumas técnicas básicas de voz, gesto, utiliza- ção de materiais de apoio, den- tre outras. Pode-se destacar algumas ori- entações básicas para contar histórias, escolher leituras que tenham ligação direta com o sexo, a idade, o ambiente fami- liar e o nível sócio econômico dos alunos que irão ouvir as histórias; Incentivar os alunos diaria- mente, contando pequenas histórias sem mesmo ter o li- vro nas mãos; Usar uma entonação de voz atraente, sem exageros, com suspense, drama, emoção, ex- pressar a opinião sobre o tema 31 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA e dar oportunidade para que acriança também apresente a sua opinião. Vale ressaltar que é preciso en- riquecer a narração com ruí- dos onomatopeias. Movimentar o corpo como os olhos, mãos e braços; criar a hora da história. Na escola, um bom horário po- de ser após o recreio para acalmar a turma; em casa pode ser à noite, an- tes de dormir (HELD, 1980). É ne- cessário que o docente determine um dia ou horário para cada aluno ler ou contar uma história; sempre estimular a criança a recontar a his- tória que ouviu; dê livros a elas. Sempre que possível sente-se no ní- vel dos alunos; quando necessário, explique o significado das palavras novas e preserve a atenção das cri- anças no local em que a história está sendo contada, evitando muito ba- rulho, pessoas estranhas interrom- pendo e cuidando sempre da expres- são (SISTO, 1999). O Contar Histórias como Re- curso Pedagógico A arte de contar história pode ser um valioso recurso pedagógico. O educador precisa ser o melhor e o mais empolgante narrador. A obra literária que se traduz no livro de histórias de boa qualidade pode ser trabalhada considerando os seus as- pectos formais: a ação, o enredo, o tempo, o espaço, as personagens, o foco narrativo e os recursos técnicos expressivos (GIGLIO, 1993). Os seus aspectos temáticos são igualmente valiosos: o amor, o ódio, a raiva, a vingança, vêm à tona, pos- sibilitando que a criança da educa- ção infantil trabalhe com as suas emoções. Surgem situações que per- mitem abordar temas relativos à na- tureza, à mulher, à sociedade, ao ho- mem. O conto permite: Que o aluno o recrie; Apreenda as ideias centrais e secundários; Capte o aspecto afetivo das personagens, conheça a sua própria emotividade; Perceba as reações de seus co- legas; Amplie o seu vocabulário. Além disso tudo, há inúmeras possibilidades de realizar trabalhos expressivos, tais como: Expressão corporal; Dramatizações; Desenhos; Pinturas; Colagens; Modelagens individuais e gru- pais; A composição visual, em mu- rais e painéis, poderá consti- tuir-se numa excelente manei- ra de explorar a riqueza que os contos oferecem. 32 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA A história possibilita a articu- lação entre objetividade e subjetivi- dade, espaço entre no qual se situa o trabalho pedagógico. É, portanto, um recurso que pode ser usado em instituições escolares, sobretudo, dentro da sala de aula. O conteúdo mítico, as ações praticadas pelos personagens, os valores morais im- plícitos na narrativa, permitem pro- jeções que facilitam a elaboração de questões emocionais, muitas vezes expressas como sintomas que se apresentam na aprendizagem. (GI- GLIO, 1993). Uma história é feita, na cabeça do ouvinte, pela construção de ex- pectativas, frustrações, reconheci- mentos e identidades. Uma boa his- tória sabe operar isso de maneira a adiar e prolongar o prazer para um outro tempo preciso; e tirar da sua forma, da sua própria construção (SISTO, 1999, p. 134). A compreensão dos enredos, a análise dos conteúdos, a estrutura linguística subjacente ao texto, per- mitem ao profissional investigar questões cognitivas presentes nas dificuldades do processo de aprendi- zagem. Assim, este pode ser consi- derado um recurso pedagógico. O contar a história abre espaço para a alegria e o prazer de ler, compreen- der, interpretar a si próprio e à rea- lidade de cada ser humano (GIGLIO, 1993). 33 34 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA 4. A Educação Infantil, a Literatura e o Referencial Curricular Fonte: CPT4 tendendo às determinações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n. 9.394/ 96) que estabelece, pela primeira vez na história do país, que a educação infantil é a primeira etapa da educa- ção básica, o objetivo deste tópico, é auxiliar o professor na realização de seu trabalho educativo diário junto às crianças pequenas (BRASIL, 1989). 4 Retirado em https://www.cpt.com.br/cursos-educacao-infantil/artigos/rcn-introducao-ao-referencial-cur- ricular-nacional-completo-e-atualizado Considerando a fase transitó- ria pela qual passam creches e pré- escolas na busca por uma ação inte- grada que incorpore às atividades educativas os cuidados essenciais das crianças e suas brincadeiras, o Referencial aponta metas de quali- dade que contribuem para que as crianças tenham um desenvolvi- mento integral de suas identidades, A 35 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA capazes de crescerem como cida- dãos cujos direitos à infância são re- conhecidos. Visa, também, contri- buir para que possa realizar, nas ins- tituições,o objetivo socializador dessa etapa educacional, em ambi- entes que propiciem o acesso e a am- pliação, pelas crianças, dos conheci- mentos da realidade social e cultu- ral. O Referencial Curricular Na- cional para a Educação Infantil (RCNEI) é fruto de um debate naci- onal, no qual participaram professo- res e diversos profissionais que atuam diretamente com as crianças, contribuindo com conhecimentos diversos provenientes tanto da vasta e longa experiência prática de al- guns, como da reflexão acadêmica, científica ou administrativa de ou- tros. O RCNEI representa um avan- ço na educação infantil ao buscar so- luções educativas para a superação, de um lado, da tradição assistencia- lista das creches e, de outro, da mar- ca da antecipação da escolaridade das pré-escolas. O Referencial foi concebido de maneira a servir como um guia de reflexão de cunho educacional sobre objetivos, conteúdos e orientações didáticas para os profissionais que atuam diretamente com crianças de zero a seis anos, respeitando seus es- tilos pedagógicos e a diversidade cultural brasileira. Esse documento constitui-se em um conjunto de referências e ori- entações pedagógicas que visam a contribuir com a implantação ou im- plementação de práticas educativas de qualidade que possam promover e ampliar as condições necessárias para o exercício da cidadania das cri- anças brasileiras. Sua função é contribuir com as políticas e programas de educação infantil, socializando informações, discussões e pesquisas, subsidiando o trabalho educativo de técnicos, professores e demais profissionais da educação infantil e apoiando os sistemas de ensino estaduais e mu- nicipais (BRASIL, 1989). Considerando-se as especifi- cidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas das crianças de zero a seis anos, a qualidade das experiên- cias oferecidas que podem contri- buir para o exercício da cidadania devem estar embasadas nos seguin- tes princípios: O respeito à dignidade e aos direitos das crianças, conside- radas nas suas diferenças indi- viduais, sociais, econômicas, culturais, étnicas, religiosas etc.; O direito das crianças a brin- car, como forma particular de expressão, pensamento, inte- ração e comunicação infantil; O acesso das crianças aos bens socioculturais disponíveis, 36 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA ampliando o desenvolvimento das capacidades relativas à ex- pressão, à comunicação, à in- teração social, ao pensamento, à ética e à estética; A socialização das crianças por meio de sua participação e in- serção nas mais diversificadas práticas sociais, sem discrimi- nação de espécie alguma e so- bretudo o atendimento aos cuidados essenciais associados à sobrevivência; E ao desenvolvimento de sua identidade. As crianças possuem uma na- tureza singular, que as caracteriza como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. Nas interações que estabelecem des- de cedo com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que as cir- cunda, as crianças revelam seu es- forço para compreender o mundo em que vivem, as relações contradi- tórias que presenciam e, por meio das brincadeiras, explicitam as con- dições de vida a que estão submeti- das e seus anseios e desejos. (BRA- SIL, 1989). No processo de construção do conhecimento, as crianças se utili- zam das mais diferentes linguagens e exercem a capacidade que pos- suem de terem ideias e hipóteses originais sobre aquilo que buscam desvendar. Nessa perspectiva as cri- anças constroem o conhecimento a partir das interações que estabele- cem com as outras pessoas e com o meio. Compreender, conhecer e re- conhecer o jeito particular das crian- ças serem e estarem no mundo é o grande desafio da educação infantil e de seus profissionais. Embora os conhecimentos derivados da psico- logia, antropologia, sociologia, me- dicina etc. possam ser de grande va- lia para desvelar o universo infantil apontando algumas características comuns de ser das crianças, elas per- manecem únicas em suas individua- lidades e diferenças. (BRASIL, 1989). A instituição de educação in- fantil deve tornar acessível a todas as crianças que a frequentam, indis- criminadamente, elementos da cul- tura que enriquecem o seu desenvol- vimento e inserção social. Cumpre um papel socializador, propiciando o desenvolvimento da identidade das crianças, por meio de aprendiza- gens diversificadas, realizadas em situações de interação. O RCNEI define dois âmbitos de experiências: Formação Pessoal e Social e Conhecimento de Mundo. É preciso ressaltar que esta organiza- ção possui um caráter instrumental e didático, devendo os professores ter consciência, em sua prática edu- cativa, que a construção de conheci- mentos se processa de maneira inte- 37 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA grada e global e que há inter-rela- ções entre os diferentes âmbitos a serem trabalhados com as crianças. Atividades permanentes são aquelas que respondem às necessi- dades básicas de cuidados, aprendi- zagem e de prazer para as crianças, cujos conteúdos necessitam de uma constância. A escolha dos conteúdos que definem o tipo de atividades permanentes a serem realizadas com frequência regular, diária ou se- manal, em cada grupo de crianças, depende das prioridades elencadas a partir da proposta curricular. A criança é um ser social que nasce com capacidades afetivas, emocionais e cognitivas. Tem desejo de estar próxima às pessoas e é ca- paz de interagir e aprender com elas de forma que possa compreender e influenciar seu ambiente. Amplian- do suas relações sociais, interações e formas de comunicação, as crianças sentem-se cada vez mais seguras para se expressar, podendo apren- der, nas trocas sociais, com diferen- tes crianças e adultos cujas percep- ções e compreensões da realidade também são diversas. Para se desenvolver, portanto, as crianças precisam aprender com os outros, por meio dos vínculos que estabelece. Se as aprendizagens acontecem na interação com as ou- tras pessoas, sejam elas adultos ou crianças, elas também dependem dos recursos de cada criança. Dentre os recursos que as crianças utilizam, destacam-se a imitação, o faz de conta, a oposição, a linguagem e a apropriação da imagem corporal. Nessa faixa etária, o faz de conta utiliza-se principalmente da imitação para acontecer. O professor pode propiciar situações para que as crianças imitem ações que represen- tam diferentes pessoas, personagens ou animais, reproduzindo ambien- tes como casinha, trem, posto de ga- solina, fazenda etc. Esses ambientes devem favorecer a interação com uma ou mais crianças compartilhan- do um mesmo objeto, tal como em- purrar o berço como se fosse um meio de transporte, levar bonecas para passear ou dar de mamar, cui- dar de cachorrinhos etc. Consideram-se atividades per- manentes, entre outras: brincadei- ras no espaço interno e externo; ro- da de conversas; ateliês ou oficinas de desenho, pintura, modelagem e música; atividades diversificadas ou ambientes organizados por temas ou materiais à escolha da criança, in- cluindo momentos para que as cri- anças possam ficar sozinhas se as- sim o desejarem; cuidados com o corpo e, sobretudo, a roda de histó- ria que é o tema central deste traba- lho. Diante dessa perspectiva, po- de-se perceber a importância do 38 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA contar histórias para as crianças, pois através do ouvir, as crianças po- derão estabelecer relações das histó- rias com a própria realidade, conhe- cer com mais prazer e alegria. O desenvolvimento cognitivo, social e afetivo das crianças entre 4 e 5 anos está ligado à sua capacidade imaginativa. A criança desta idade concentra-sepor 15 a 20 minutos, motivo pelo qual o contador de his- tórias deverá inserir neste tempo de- terminado o objetivo da sua narra- ção. É nessa faixa etária que a cri- ança é capaz de contar e recontar histórias com sequência lógica, in- ventar brincadeiras, brincar de faz de conta, e memorizar pequenas his- tórias. A criança também pode se adaptar facilmente a dar soluções para problemáticas propostas pela narração, visto que, ela pensa antes de agir. Transforma o mundo através da fantasia, embora possua pensa- mento egocêntrico, difere o eu e o mundo. A criança conta histórias in- ventadas por ela mesma, tem facili- dade para dramatizar contos e histó- rias, além de fazer distinção entre realidade e fantasia (BRASIL, 1989). Sua linguagem, embora muito restrita, poderá aumentar conside- ravelmente no ouvir, analisar e re- contar as histórias. Nesta fase, a cri- ança vence algumas dificuldades de pronúncia. É muito curiosa e por is- so não para de fazer perguntas, tem uma imagem positiva de si, ampli- ando sua autoconfiança, identifican- do cada vez mais suas limitações e possibilidades, e agindo de acordo com elas; a criança é capaz de iden- tificar e enfrentar situações de con- flitos, utilizando seus recursos pes- soais, respeitando as outras crianças e adultos e exigindo reciprocidade. Além disso, a criança de 4 a 5 anos tem possibilidade de valorizar ações de cooperação e solidariedade, desenvolvendo atitudes de ajuda e colaboração e compartilhando suas vivências; o brincar faz parte da sua rotina; a criança também adota há- bitos de autocuidado, valorizando as atitudes relacionadas com a higiene, alimentação, conforto, segurança, proteção do corpo e cuidados com a aparência; consegue identificar e compreender a sua pertinência aos diversos grupos dos quais partici- pam, respeitando suas regras bási- cas de convívio social e a diversidade que os compõe (BRASIL, 1989). No faz de conta, as crianças aprendem a agir em função da ima- gem de uma pessoa, de uma perso- nagem, de um objeto e de situações que não estão imediatamente pre- sentes e perceptíveis para elas no momento e que evocam emoções, sentimentos e significados vivencia- dos em outras circunstâncias. Brin- 39 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA car funciona como um cenário no qual as crianças tornam-se capazes não só de imitar a vida como tam- bém de transformá-la. Os heróis, por exemplo, lutam contra seus ini- migos, mas também podem ter fi- lhos, cozinhar e ir ao circo. Ao brincar de faz de conta, as crianças buscam imitar, imaginar, representar e comunicar de uma forma específica que uma coisa pode ser outra, que uma pessoa pode ser uma personagem, que uma criança pode ser um objeto ou um animal, que um lugar faz de conta que é ou- tro. Brincar é, assim, um espaço no qual se pode observar a coordenação das experiências prévias das crian- ças e aquilo que os objetos manipu- lados sugerem ou provocam no mo- mento presente. Pela repetição daquilo que já conhecem, utilizando a ativação da memória, atualizam seus conheci- mentos prévios, ampliando-os e transformando-os por meio da cria- ção de uma situação imaginária no- va. Brincar constitui-se, dessa for- ma, em uma atividade interna das crianças, baseada no desenvolvi- mento da imaginação e na interpre- tação da realidade, sem ser ilusão ou mentira. Também tornam-se auto- ras de seus papéis, escolhendo, ela- borando e colocando em prática suas fantasias e conhecimentos, sem a intervenção direta do adulto, po- dendo pensar e solucionar proble- mas de forma livre das pressões si- tuacionais da realidade imediata. (BRASIL, 1989). Quando as crianças utilizam a linguagem do faz de conta, elas enri- quecem sua identidade, porque po- dem experimentar outras formas de ser e pensar, ampliando suas con- cepções sobre as coisas e pessoas ao desempenhar vários papéis sociais ou personagens. Na brincadeira, vi- venciam concretamente a elabora- ção e negociação de regras de convi- vência, assim como a elaboração de um sistema de representação dos diversos sentimentos, das emoções e das construções humanas. Isso ocorre porque a motivação da brin- cadeira é sempre individual e depen- de dos recursos emocionais de cada criança que são compartilhados em situações de interação social. Por meio da repetição de de- terminadas ações imaginadas que se baseiam nas polaridades presença/ ausência, bom/mau, prazer/despra- zer, passividade/ atividade, dentro/ fora, grande/pequeno, feio/bonito etc., as crianças também podem in- ternalizar e elaborar suas emoções e sentimentos, desenvolvendo um sentido próprio de moral e de justi- ça, contribuindo, portanto com o seu desenvolvimento cognitivo, social e afetivo. 40 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA Pode-se perceber que as histó- rias são meios fundamentais na edu- cação, pois tem em sua essência, um mundo de imaginação e fantasia que encanta crianças de qualquer idade, de qualquer contexto e de qualquer condição econômica e social. Além disso, pode-se dizer que as histórias estimulam o interesse das crianças pela escola e pelo co- nhecimento. Percebe-se que a histó- ria tem em sua literatura o fantásti- co, causando encantamento em cri- anças e adultos, em pais, educadores e em toda pessoa que saiba ouvir e participar de uma boa história. Deste modo, os educadores devem dominar a arte de contar his- tórias, pois esta atividade contribui para o desenvolvimento da criança e também torna a própria prática do professor mais atraente e eficaz. Nas histórias infantis estão en- volvidos vários fatores como o emo- cional, uma vez que a criança estabe- lece relações com a realidade e o imaginário; com o social, ou seja, quando a criança troca de papéis com o personagem, tendo consciên- cia do que o outro sente, pensa e vive. As histórias ajudam na educa- ção da criança, pois podem ser utili- zadas em qualquer conteúdo dos contos de fada, pois o seu processo criativo estimula o a criança, moti- vando-a cada vez mais pela fantasia encontrada nas histórias. As histórias trazem a possibili- dade da troca de papeis, contribuem com o senso de cooperação, solidari- edade, amizade e autonomia. Deste modo, a literatura desperta o gosto pela leitura, pela arte, pela escrita e pelo conhecimento. Os educadores podem apro- veitar ao máximo os enredos das his- tórias, pois na maioria delas, po- dem-se encontrar histórias que re- tratam a importância do carinho, da afetividade, da amizade, da supera- ção de problemas da realidade e, so- bretudo, favorecem o ensino/apren- dizagem de forma prazerosa. É também, através das histó- rias que a criança tem a oportuni- dade de se colocar no lugar do outro, desta forma, é possível criar na cri- ança um espírito de cooperativismo, solidariedade e autonomia. A litera- tura desperta nas crianças um gosto pela leitura que vem ao encontro de desejos, e vontades que transcen- dem à lógica dos adultos. Assim, as histórias são uma ferramenta essencial para o educa- dor que utiliza a criatividade, busca a competência na educação e tem comprometimento para uma educa- ção de qualidade na educação infan- til. 41 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA Acredita-se, portanto, que a arte de contar histórias emana dese- jos, expectativas e sonhos das crian- ças, transportando-as para um uni- verso de liberdade, imaginação e su- peração das dificuldades encontra- das no dia-a-dia das crianças neste terceiro milênio. Não resta dúvida para os edu- cadores que a literatura, especial- mente a arte de contar histórias, au- xilia a sua prática, ao mesmo tempo em que contribui para o desenvolvi- mento integral da criança. As histó- rias têm uma essênciamágica que fascina as crianças, estimula o inte- resse delas pelo espaço escolar e ao mesmo tempo facilita o caminho ru- mo ao conhecimento. O aspecto so- brenatural e imagético dessa moda- lidade de literatura causa fascínio tanto nas crianças como nos adultos educadores que são os mediadores da educação. São vários aspectos relevantes das histórias infantis, o fator emoci- onal, em que a criança estabelece re- lações com a sua realidade e o mun- do imaginário, as questões sociais, o bem e o mal e quando a criança se coloca no lugar do personagem, sen- tindo na pele o que o outro sente, no caso, as angústias, frustrações, ale- grias e emoções. Portanto, os contos, as fábulas, os enredos contidos nas histórias instauram uma relação de carinho e afetividade entre educador e edu- cando que favorecem o ensino/ aprendizagem, pois está em seu con- teúdo um poder de sedução capaz de tornar a educação uma atividade prazerosa. Ainda há muito que refletir e estudar a respeito disso, especial- mente porque eles possuem muitos aspectos relevantes que ajudam na educação integral da criança. Os conteúdos dos contos de fada, com todo o seu processo imaginário e cri- ativo estimulam o interesse da cri- ança pela literatura. Motiva a crian- ça pelo fascínio das transformações mágicas relacionando-as com a rea- lidade. É, portanto, uma estratégia pedagógica educativa essencial para o educador que lança mão de sua cri- atividade, competência e compro- metimento para uma educação de qualidade na educação infantil. Nessa perspectiva, acredita-se que, em especial os contos de fadas, possuem características que favore- cem às crianças, em início de alfabe- tização, a construção de um conteú- do e forma para suas produções orais e/ou escritas. O conteúdo da literatura in- fantil, geralmente, é do interesse das crianças desse ciclo escolar. O fascí- nio pelas transformações mágicas, pelo sobrenatural, pelo insólito é uma necessidade que a criança tem 42 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA de, vez por outra, escapar de si mes- ma, através da literatura, colocando- se na pele de algum personagem, animal ou um objeto. Assim, a arte de contar histó- rias instaura entre os seres e as coi- sas um modo de relação que trans- cende a lógica adulta, mas que vem ao encontro dos desejos, expectati- vas e sonhos das crianças, pois é um universo de liberdade onde tudo pode acontecer, onde, para as crian- ças, tudo é possível e impossível. En- fim, é um sonho, é uma magia. Além de tudo, é uma arte milenar que pre- cisa ser preservada em todos os am- bientes onde houver uma criança. 43 43 4 4 LITERATURA NA ESCOLA E LITERATURA BRASILEIRA 44 5. Referências Bibliográficas BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Ter- ra, 1985. BRASIL. Ministério da Educação e do Des- porto. 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