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Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) é uma doença causada por protozoários do gênero Leishmania, transmitida ao homem pela picada de mosquitos flebotomíneos (Ordem Diptera; Família Psychodidae; Subfamília Phlebotominae). No Brasil existem atualmente seis espécies de Leishmania responsáveis pela doença humana, e mais de 200 espécies de flebotomíneos implicados em sua transmissão. Possui duas formas evolutivas: (1) forma promastigota, com flagelo, núcleo, cinetoplasto e blefaroplasto, que se desenvolve no tubo digestivo do mosquito vetor; (2) forma amastigota, sem flagelo, com núcleo e cinetoplasto, que se desenvolve no interior dos leucócitos mononucleares (monócitos e macrófagos). A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA), conhecida popularmente como “úlcera de Bauru” ou “ferida brava”, é uma doença endêmica em diversos países latino-americanos. Do México à Argentina, a doença poupa apenas o Chile e o Uruguai. Cerca de 90% dos casos das Américas estão no Brasil, Peru e Bolívia. Estima-se que, entre 1985 e 2003, ocorreram 523.975 casos autóctones, a sua maior parte nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. Só no Brasil foram registrados 31.263 casos em 2003, sendo 45% na região Norte (Amazônia) e 25% na região Nordeste, os locais de maior incidência. Quase todos os estados possuem casos autóctones registrados (incluindo a região Sudeste), porém com poucos registros na região Sul. Como grande parte dos casos encontra-se na Amazônia, associados ao ciclo silvestre do parasito, podemos dizer que a LTA é uma doença tropical. O parasita é transmitido por um vetor: um inseto flebotomíneo, conhecido como mosquito-palha, birigui ou tatuquira. No Brasil, as principais espécies envolvidas com a transmissão da LTA pertencem ao gênero Lutzomyia. Na Amazônia (floresta), a principal espécie transmissora é Lutzomyia umbratilis. O flebotomíneo silvestre faz seus ninhos em folhas mortas e úmidas, raízes do solo, tocas de animais, fendas de rocha e cavernas. Em outras regiões, o vetor geralmente pertence às espécies Lutzomyia whitmani (que habita matas e proximidades das habitações) e Lutzomyia intermedia (encontrado em torno das habitações). A LTA possui diversos reservatórios animais, servindo como hospedeiros da Leishmania, adoecendo ou não. Enquanto o cão é o principal reservatório da Leishmania donovani (agente do calazar), os animais selvagens do tipo roedores, marsupiais, preguiça e tamanduá o são para a LTA silvestre e o cavalo, a mula e o cão e o próprio homem, da LTA urbana. O flebotomíneo adquire a forma amastigota destes seres que, então, se transforma na forma promastigota em seu sistema digestivo, armazenando-se nas glândulas salivares. Quando a fêmea do flebotomíneo (de hábitos vespertinos e crepusculares) se alimenta do sangue humano, inocula as formas promastigotas na pele. Os protozoários flagelados então penetram nos macrófagos e monócitos da derme e hipoderme, perdendo em seguida seu flagelo e convertendo-se na forma amastigota (intracelular). Por divisão binária os amastigotos da Leishmania se proliferam dentro das células que, ao se romperem, liberam um grande número de parasitos para infectar outras células. Os monócitos carreiam a Leishmania pela corrente sanguínea, disseminando a infecção para outros tecidos (como as mucosas). O período de incubação é de 1-3 meses. A lesão, inicialmente, aparece apenas no ponto de inoculação, geralmente em áreas expostas da pele (face, membros, mãos, pés). A lesão então passa por fases evolutivas. Lesão inicial: forma-se uma pápula eritematosa que logo vira uma lesão papulocrostosa, papulovesiculosa ou papulopustulosa. Lesão ulcerada: dias ou semanas depois, a lesão adquire aspecto ulceroso. A úlcera da LTA possui bordos elevados e bem definidos (“úlcera em moldura de quadro”), com centro granulado, de cor vermelho- viva e com secreção serosa. Lesão vegetante: as lesões podem evoluir para cicatrização espontânea ou para a formação de placas vegetantes, verrucosas que cronificam e crescem lentamente. Lesões mucosas: as lesões mucosas aparecem precocemente, embora seja mais comum ocorrerem 1-2 anos depois do surgimento da pápula de inoculação. Acometem especialmente o nariz, começando com eritema, edema e discreta infiltração no septo nasal, asas do nariz e mucosa, evoluindo com maior infiltração e lesão ulcerovegetante, que pode se estender para as Lesões Ulcerativas Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. regiões laterais, lábios superiores e inferiores (FIGURA 6). A orofaringe pode ser acometida com lesões no palato, gengiva, laringe e faringe. Raramente, o pavilhão auricular também é acometido de forma assimétrica. As lesões mucosas da LTA geralmente são por disseminação hematogênica do parasito. Com o tempo, a doença vai destruindo a cartilagem nasal, provocando o desabamento do nariz (nariz de anta ou nariz de tapir). O mesmo paciente pode apresentar apenas uma ou múltiplas lesões cutâneas em estágios evolutivos diferentes. Exame direto: o raspado da lesão é colocado em uma lâmina e corado pelo Giemsa ou Leishman, para que possam ser observadas as formas amastigotas no interior dos mononucleares. Histopatologia: irá demonstrar um granuloma linfo-histiocitário. Nas lesões recentes, é comum se observar o parasito intracelular (FIGURA 8); o mesmo não podemos afirmar para as lesões antigas. Quanto menos recente, mais difícil se torna observar o agente. Cultura: feita no meio NNN (Novy-McNeal- - Nicolle), sendo positiva em apenas 40% dos casos. É liberada em algumas semanas. Sorologia: os métodos mais usados são a imunofluorescência indireta e o ELISA. A sensibilidade oscila em torno de 75% e o teste pode ter reação cruzada com outras leishmanioses e com a doença de Chagas. Teste intradérmico de Montenegro: ao contrário do que dissemos para o calazar, a reação de Montenegro possui um importante valor no diagnóstico da LTA. É feito pela inoculação de 0,1-0,3 ml de uma solução de promastigotas mortas no antebraço. O surgimento de uma pápula > 5 mm de diâmetro indica teste positivo. A sensibilidade é de quase 100% nos imunocompetentes e a especificidade também é alta, considerando-se que pacientes curados de LTA mantêm-se Montenegro positivos por tempo indeterminado. Indivíduos imunodeprimidos com LTA podem ter a reação negativa. É causada pela Leishmania (mexicana) amazonensis, ou simplesmente Leishmania amazonensis. Predomina nos estados do Amazonas, Maranhão, Pernambuco e Bahia. É uma forma diferente de leishmaniose cutânea, na qual se observam lesões elevadas queloideanas múltiplas e infiltração e ulceração na mucosa nasal, sem rotura do septo. O diagnóstico é fácil, pela riqueza de parasitas. O tratamento é difícil, não havendo eficácia absoluta com os antimoniais, anfotericina B ou pentamidina. As lesões tendem a recidivar após o término da terapia (normalmente refratária ao tratamento). Carcinoma Basocelular (CBC) (carcinoma tricoblástico, basalioma ou epitelioma basocelular) Trata-se de um tumor constituído de células morfologicamente semelhantes às células basais da epiderme, de crescimento muito lento, com capacidade invasiva localizada, embora destrutiva, sem, no entanto, provocar metástases; é, portanto, a neoplasia maligna de melhor prognóstico. Deriva das células não queratinizadas que originam a camada basal da epiderme. A invasão local é o maior perigo, pela capacidade de invadir e destruir tecidos adjacentes, inclusive ossos. É importante notar que o risco para desenvolver um novo CBC varia de 35-50%. Epidemiologia É o câncer mais comum em humanos, corresponde a 75% de todos os tiposde câncer de pele e 25% de todos os tipos de câncer diagnosticados nos EUA. É mais comum em idosos e no sexo masculino. É raro no indivíduo negro. Os principais fatores de risco são: pele clara, olhos claros, cabelo ruivo, efélides, exposição solar (atualmente muito discutido), especialmente durante a infância e do tipo intermitente causando queimadura; outros fatores: radiação terapêutica, exposição ao arsênico, imunossupressão (transplantados), tabagismo (pequeno risco), nevo sebáceo de Jadasohn. Histopatologia Trata-se de proliferação celular com as características basocelular, que se dispõem em paliçada na periferia das massas tumorais. Em geral, os núcleos são grandes, uniformes, pouco anaplásicos e com raras mitoses; as células não apresentam pontes intercelulares. São características e frequentes as lacunas contíguas às massas tumorais (retração justatumoral). Tal fato era explicado pela ausência do antígeno penfigoide nos locais em que ocorre. Uma teoria mais recente relaciona a existência de actina no estroma tumoral, que é um marcador de miofibroblastos. Estes, por sua vez, secretam estromalisina-3, uma metaloproteinase capaz de degradar a matriz tumoral.O tumor pode apresentar diferenciação ou não. • Quando indiferenciado, é dito sólido e é a apresentação mais frequente; neste caso, ser denominado indiferenciado não guarda Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. nenhuma relação com agressividade, ao contrário de todas as demais neoplasias, sendo, portanto, motivo de confusão para estudantes. • A diferenciação ocorre no sentido dos anexos: pelo (ceratótico), glândulas sudoríparas (adenoide) e glândula sebácea (cístico). É interessante notar que a neoplasia é estroma- dependente, ou seja, necessita de tecido conjuntivo para seu crescimento. A cultura de células tumorais, na ausência do tecido conjuntivo, mostra a conversão dessas células em células basais normais, inclusive com capacidade de ceratinização. Tal fato talvez explique a raridade de metástase; quando esta ocorre, é provável que o estroma tenha migrado com as células tumorais. A velocidade de crescimento do tumor é lenta; no entanto, a multiplicação das células neoplásicas é rápida, bem como é elevada a velocidade de morte dessas células, o que explicaria o achado frequente de amiloide intratumoral e/ou no estroma. As apresentações histopatológicas esclerodermiforme, micronodular e metatípica conferem agressividades ao CBC. Clínica A lesão mais característica do CBC é a lesão “perolada”, ou seja, lesão papulosa translúcida e brilhante de coloração amarelo- palha, que é frequente em quase todas as suas manifestações clínicas. Às vezes, a lesão papulosa perolada de dimensões pequenas (alguns milímetros) é a única manifestação do CBC; outras vezes, a pérola ocorre na borda da lesão, que cresce centrifugamente; em outras, ainda, a pérola cresce como tal, tornando-se uma lesão globosa, em cuja superfície há discretas telangiectasias – essa lesão globosa acaba, mais cedo ou mais tarde, por ulcerar-se; de outras vezes, a lesão é vegetante ou ulcerovegetante. Em torno das lesões, não há inflamação, ou seja, as lesões estão encastoadas em pele sã; não há comprometimento ganglionar ou sistêmico. A localização preferencial é na região cefálica (cerca de 90%), seguida do tronco e, finalmente, dos membros. Em nossa estatística, encontramos 83% na cabeça e pescoço, e a região nasal foi a mais acometida (27% do total dos casos); em outras estatísticas, a localização mais frequente é a orbitopalpebral. Quando a localização é nas orelhas, tende a ser mais agressivo, o que pode ser explicado por meio da patologia, pois comumente é do tipo esclerodermiforme, infiltrativo, basoescamoso ou micronodular. O acometimento de mucosas ocorre exclusivamente por contiguidade. O crescimento é progressivo, eventualmente podendo ulcerar. Localiza- se preferencialmente nos dois terços superiores da face com 30% das lesões localizando-se no nariz. Quando atinge pálpebra, acomete mais o canto medial da pálpebra inferior. Não ocorre nas palmas, plantas e mucosas. A seguir, são apresentadas as manifestações clínicas do CBC: • Papulonodular, globosa ou nodulocística: na realidade, a pápula é a lesão inicial (alguns milímetros, com aspecto perolado); seu crescimento, após anos, leva à forma globosa ou nodular, que pode medir vários centímetros e que, se não for tratada, certamente ulcerará. É a apresentação mais comum; • Ulcerada (FIGURA 12): pode iniciar-se já como pequena úlcera ou em consequência do crescimento da forma globosa; a inflamação é mínima, e a secreção serosa é praticamente inexistente; a borda, no entanto, é sempre perolada. • Terebrante (ulcusrodens): é uma forma ulcerada com invasão rápida, provocando grande destruição do maciço central da face, reunindo em um só orifício boca e fossas nasais; instala-se, assim, a síndrome da gangosa. Outras vezes, a forma terebrante destrói o globo ocular, podendo invadir até mesmo a calota craniana. • Plano cicatricial: é relativamente superficial e cresce centrifugamente, de modo que a parte central apresenta um aspecto cicatricial e a periferia é sempre perolada. Na lesão, podem ocorrer microulcerações com cicatrização posterior e, assim, ir crescendo. É relativamente comum na região orbitária. Lembra a recidiva em um paciente submetido a um retalho. É representada por área geralmente oval, eritematoescamosa ou superficial, lembrando o lúpus eritematoso; a borda é nítida, no entanto, delimitada por um cordão muito fino, nem sempre perceptível. É mais frequente no tronco; tem certa correlação com a ingestão de arsênico; lembra a doença de Bowen (DB). É a apresentação do CBC própria dos pacientes submetidos à radioterapia, porém sem evidências clínicas de radiodermite. • Esclerodermiforme, fibrosante ou morfeia- símile (FIGURA 13): assemelha-se a uma placa de esclerodermia, e a borda não é nítida nem perolada; a superfície é lisa e brilhante, de cor amarelada; à palpação, sente-se certo grau de dureza devido à fibrose; é uma forma rara, de limites pouco definidos e infiltrativa. Na patologia, encontram-se poucas camadas de células tumorais por entre as fibras colágenas, tornando-o mais infiltrativo. É altamente recidivante. Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. • Pigmentada: Trata-se de uma lesão papulosa, globosa ou ulcerada, com grande quantidade de melanina, o que provoca certa confusão com o melanoma. É mais comum em negros. • Superficial (FIGURA 15); • Basoescamoso ou metatípico (apresenta áreas com CBC e CEC). Diagnóstico É realizado com base na idade adulta do paciente e na morfologia da lesão, que é de crescimento lento, em geral na face e com aspecto perolado. Devemos suspeitar quando qualquer lesão passa a sangrar espontaneamente ou por mínimos traumas, crescimento súbito ou sintomatologia local. O exame histopatológico é decisivo. A dermatoscopia possibilita identificar critérios específicos para este diagnóstico. Carcinoma Espinocelular (CEC) (carcinoma epidermoide, espinalioma) Trata-se de uma neoplasia maligna, isto é, com capacidade de invasão local e de metastatizar, originária das células epiteliais do tegumento (pele e mucosa), com certo grau, maior ou menor, de diferenciação no sentido da ceratinização; são exceções a este último aspecto os carcinomas espinocelulares (CEC), altamente indiferenciados. Representa 15% das neoplasias malignas de pele. É derivado dos queratinócitos suprabasais (camada espinhosa). É também conhecido como carcinoma de células escamosas ou carcinoma epidermoide. Epidemiologia Apresenta uma incidência maior acima dos 40 anos de idade, sendoduas vezes mais comum em homens (de pele clara). Principais fatores de risco: fotoexposição (radiação ultravioleta), exposição ao arsênico ou hidrocarbonetos aromáticos, lesões precursoras (ceratose actínica, doença de Bowen, eritroplasia de Queyrat, líquen escleroatrófico genital, cicatrizes de queimaduras-úlcera de Marjolin, úlceras e fístulas crônicas), HPV 16 e 18 (mucosa genital), imunossupressão (é o mais associado aos transplantados), genodermatoses, como albinismo ou xeroderma pigmentoso, (ambas associadas com um aumento da susceptibilidade da pele a radiação UV). Doenças crônicas como lúpus discoide. O tabagismo está associado com desenvolvimento de CEC da cavidade oral. Histopatologia O aspecto histopatológico do CEC é o de uma hiperplasia, em ninhos ou cordões, de células epiteliais com certa tendência à ceratinização e com anaplasia celular, invadindo a derme; as pérolas córneas são muito expressivas. Quanto mais desdiferenciada a neoplasia, maior a sua malignidade; daí a classificação de Broders em quatro grau. • Grau I, a diferenciação é expressiva (> 75%), vendo-se inúmeros aspectos da ceratinização, • Grau IV, as células são totalmente indiferenciadas (< 25% de diferenciação) e, portanto, não há qualquer aspecto de ceratinização (é um tumor inteiramente anaplásico); • Entre esses 2 graus, colocamos o II e o III (> 50% e > 25% de diferenciação, respectivamente). Essa é uma classificação, até certo ponto, pouco precisa, pois só considera o grau de diferenciação, desprezando a profundidade da invasão e o número de mitoses. Variantes histológicas raras são adenoide acantolítica e de células claras. Uma variante clinicopatológica raríssima (0,01%) é a pigmentada, que tem localização preferencialmente, mucosa. Clínica Manifesta-se clinicamente na pele como placa eritematosa ceratósica que, segundo o grau de proliferação da camada córnea, pode evoluir para um corno cutâneo; ou pode apresentar-se como pápula ou nódulo com diversos graus de ulceração e infiltração segundo o tempo de evolução. O CEC localizado na mucosa apresenta-se como placa de leucoplasia ou então como lesão infiltrativo-vegetante. O corno cutâneo pode representar um CEC ou simplesmente uma hiperceratose colunar benigna (mais comum). Pode surgir em pele sã, embora origine-se mais frequentemente em pele alterada por um processo anterior. Dentre as lesões que originam os CEC, destacamos ceratoses actínicas e tóxicas, radiodermites, úlceras crônicas, doenças cutâneas crônicas (lúpus vulgar, lúpus eritematoso), cicatrizes antigas, sobretudo de queimaduras (úlceras de Marjolin) e certas genodermatoses (xeroderma pigmentoso, albinismo). Quer se instale em pele sã ou em pele previamente comprometida, a lesão inicial surge como uma pequena pápula com certo grau de ceratose. Seu crescimento é mais rápido do que nos CBC, isto é, se processa em função de semestres: ocorre no sentido vertical para fora (vegetante) ou para dentro (invasão para a derme e hipoderme); o crescimento pode ser no sentido longitudinal, resultando em área de infiltração mais palpável do que visível, o que é relativamente comum no lábio inferior e em mucosas, de maneira geral. Além do crescimento, um ponto de referência importante é o sangramento discreto, embora frequente. Como Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. resultado, temos lesões ulceradas de crescimento contínuo, ulcerovegetantes, vegetações verrucosas (secas) ou condilomatosas (úmidas), infiltrações e, menos frequentemente, nódulos. As localizações mais comuns são as áreas expostas ao sol, sobretudo face e dorso das mãos; o tronco (dependendo dos hábitos e da raça)) também é um local de acometimento. Nos negros, essa localização preferencial nas áreas expostas não é válida, pelo papel protetor da melanina; no entanto, é digna de nota a elevada frequência de CEC nos membros inferiores, em negros de determinadas regiões (bantos), devido à frequência de úlceras tórpidas, traumatismo e cicatrizes nessas áreas. O CEC corresponde a 90 a 95% das neoplasias malignas da mucosa oral, com localização preferencial na borda lateral da língua e no assoalho oral. Em geral e com certo valor prático, verifica-se que os carcinomas acima da linha que vai da comissura labial ao lóbulo da orelha são CBC, enquanto os abaixo são CEC; ao contrário dos CBC, os CEC surgem, com certa frequência, nas mucosas e semimucosas (boca, lábio inferior, glande e vulva). É relevante a transformação da queilite actínica do lábio inferior (devido à incidência da radiação) em CEC; nesse caso, observa-se apenas uma superfície erosiva e sangrante, no entanto, com infiltração acima da expectativa à palpação, o que é característico. Outro ponto importante é o das leucoplasias; essas lesões brancas, sobretudo as decorrentes do fumo, quando começam a erosar, ulcerar e sangrar, já indicam transformação para CEC. O HPV está implicado na gênese do CEC da base da língua, da orofaringe e do colo uterino. O CEC apresenta maior capacidade de metastatizar quando localizado em superfície mucosa do que em semimucosa, e nesta maior do que na pele. No CEC do lábio, glande ou vulva, a ocorrência de metástase ganglionar é precoce; os gânglios crescem de volume, tornam-se duros, inicialmente móveis; contudo, depois, aderem entre si aos planos superficial e profundo, terminando em ulceração. Posteriormente, surgem metástases, por via hematogênica, em vários órgãos (pulmões, fígado, SNC, pele e ossos). A frequência de metástase do CEC também varia de acordo com a lesão que lhe deu origem; assim: ceratose actínica 0,5%; cicatriz de queimadura 17%; radiodermite crônica 20%; e fístula de osteomielite crônica 31% . As metástases acontecem em 0,5-6% (especialmente em linfonodos regionais) dos casos e são mais frequentes em lesões recorrentes e em lesões que invadem estruturas profundas ou nervos cutâneos. A orelha tem a maior chance de recidiva (18%). A possibilidade de metástase aumenta quando a lesão se localiza no lábio (12%) e sobre cicatrizes (até 40%)!! O carcinoma verrucoso é uma forma do CEC de baixo grau de malignidade que clinicamente se apresenta como uma tumoração exofítica verrucosa em várias regiões. Recebe também os seguintes nomes: • Papilomatose florida (oral) – (FIGURA 18); • Condiloma acuminado gigante de Buschke- Loewenstein (anogenital) – (FIGURA 19); • Epitelioma cuniculatum (CEC localizado na região plantar) – (FIGURA 20). Diagnóstico Lesão ceratósica de crescimento progressivo, que se instala em pele sã e/ou, preferencialmente, em pele já comprometida, em pessoas adultas, leva à suspeita de CEC, impondo-se o exame histopatológico. A biopsia deve ser realizada, sem nenhum inconveniente, o mais rapidamente possível. Úlcera De Marjolin Qualquer que seja a sua natureza (leishmaniose, queimadura, lúpus eritematoso, tuberculose luposa, úlcera angiodérmica), úlceras e cicatrizes antigas podem, eventualmente, sofrer transformação para o CEC, o que constitui a chamada úlcera de Marjolin. Descrito inicialmente em queimaduras, o termo tem sido empregado de modo mais abrangente para designar também os CEC que surgem a partir de úlceras e cicatrizes antigas; reconhece-se essa transformação quando, na borda da úlcera ou em uma brida da cicatriz, começa a surgir lesão vegetante, muitas vezes hemorrágica; nessa fase, deve-se considerar no diagnóstico diferencial, histologicamente, a hiperplasia pseudocarcinomatosa. Em geral, são tumores com poucas atipias e bem diferenciados que podem requerer múltiplas biopsias para um diagnóstico de certeza. A luz de Wood pode auxiliar no local a ser escolhido para biopsia, pois, eventualmente, gera fluorescênciaque lembra brasa no local da transformação. Nos casos advindos de queimadura, tem comportamento mais agressivo. Melanoma É o tumor maligno com origem nos melanócitos, que geralmente tem a pele como local primário (embora possa acometer outros tecidos), sendo considerado o mais agressivo dos tipos de câncer de pele devido ao seu alto potencial para produzir metástases. A letalidade do câncer de pele melanoma é elevada, porém sua incidência é relativamente baixa (representa apenas 4% das neoplasias cutâneas). Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. Epidemiologia Este tumor é predominante em indivíduos de pele clara (98%), com maior incidência em áreas equatoriais (sobretudo África do Sul e Austrália), o que revela a importância da exposição solar. Ocorre geralmente em adultos jovens de 20-50 anos de idade. O melanoma localiza-se predominantemente no tronco, em homens, em contraste com as pernas e o quadril, nas mulheres. O risco de desenvolvimento do melanoma está associado a fatores genéticos, ambientais e individuais. Entre os fatores, a exposição solar é um dos grandes vilões. Um dado para auxiliar o paciente com os cuidados com o sol é o índice ultravioleta. O Índice Ultravioleta (IUV) mede o nível de radiação solar na superfície da Terra. Quanto mais alto, maior o risco de danos à pele e de aparecimento de câncer. O índice UV é calculado com base em vários fatores, segue abaixo alguns exemplos: • espessura da camada de ozônio sobre sua cidade (detectada com o uso de satélites); • cobertura de nuvens sobre sua cidade (as nuvens bloqueiam a radiação UV em graus variados); • época do ano (no inverno, a radiação UV é mais baixa do que no verão em razão do ângulo do sol); • altitude de sua cidade (altitudes mais altas recebem mais radiação UV). O IUV é apresentado como um número inteiro. De acordo com recomendações da Organização Mundial da Saúde, esses valores são agrupados em categorias de intensidades. Os indivíduos de fenótipo claro (olhos, pele, cabelo loiro ou ruivo) têm maior risco em relação aos indivíduos de pele negra, para o aparecimento de lesões malignas, e isto se deve à maior quantidade de melanina que a raça negra apresenta, que confere um papel protetor. A exposição solar na infância e a fotoexposição intermitente levando à queimadura são fatores mais importantes para o melanoma do que a exposição contínua sem queimadura (ao contrário do CEC, que depende da exposição cumulativa). Culturalmente, algumas regiões associam pele bronzeada a sinal de beleza, e muitos aderem à prática das câmaras de bronzeamento artificial, outro fator de risco, que está proibido pela Anvisa. Pacientes do sexo masculino apresentam pior prognóstico. O sol pode agravar diversas dermatoses, como por exemplo: pênfigo foliáceo, lúpus, psoríase, xeroderma pigmentoso, pelagra etc. A presença de nevos também deve ser destacada, ainda que a maioria dos melanomas não tenha o nevo como lesão pré-neoplásica (apenas 1/4 dos casos apresentam correlação histológica). Indivíduos com nevos melanocíticos apresentam maior risco; sobretudo os congênitos gigantes (> 20 cm). A síndrome do nevo displásico representa um fator de risco para melanoma (dez vezes), geralmente mais precoces e menos espessos. O risco também aumenta se o paciente apresenta mais que 50 nevos. Quanto ao fator genético, os mais importantes estão no locus CDKN2A (relacionado a dois genes de supressão tumoral – p16 e p14ARF), no locus CSK4, na via RAS e no gene MITF. O xeroderma pigmentoso, doença autossômica recessiva caracterizada por deficiência no mecanismo de reparo do DNA, apresenta risco até 2.000 vezes maior que a população normal. O albinismo também aumenta a chance de desenvolvimento da neoplasia. A história pessoal de melanoma, por sua vez, aumenta a chance de ter outro melanoma em até nove vezes e o paciente deve ser mantido sob vigilância ao longo de toda a vida. Outro fator, a história familiar, tem um risco cinco vezes maior, ainda que apenas 5-10% destas neoplasias sejam verdadeiramente familiares. Histopatologia No melanoma, as principais características histopatológicas são assimetria da arquitetura, margens mal definidas e perda da arquitetura névica, com variação no tamanho e na forma dos ninhos; alguns tornam-se confluentes e as células no interior dos ninhos mostram-se menos coesas. Há também migração de melanócitos atípicos para as camadas superiores da epiderme. Essas células são DOPA-positivas e apresentam abundante atividade tirosinásica. Em uma fase inicial, limitam-se à epiderme e, eventualmente, a seus anexos, a não ser nos casos metastáticos ou que tenham origem em NMC, ou no nevo azul (origem dérmica). Em uma fase posterior, ocorre perda de maturação dos melanócitos quando estes penetram na derme. As células são volumosas, com núcleos atípicos, hipercromáticos e nucléolos proeminentes. Dependendo da forma e da fase, as células são chamadas de pagetoides, pois lembram as células da doença de Paget . Um infiltrado inflamatório composto por linfócitos costuma estar presente. Na fase de crescimento vertical, as alterações citológicas são mais intensas, diminuindo inclusive a síntese do pigmento melânico que pode estar ausente (melanoma amelanótico). Nesse caso, a confirmação é feita por imuno-histoquímica. Ulceração, o índice de Breslow ou maior espessura tumoral, e o número de mitoses por milímetro quadrado são de grande importância patológica, tendo em vista sua repercussão prognóstica. A ulceração, definida por interrupção microscópica da superfície epitelial acometida pelo tumor, tem sido descrita como o melhor indicador de probabilidade do envolvimento linfonodal, sendo capaz de redefinir o estágio do melanoma entre A e B e, junto ao número aumentado de mitoses, ajudar a definir os tumores finos, menores que 0,8 mm (anteriormente 1 mm) de espessura, como de mau prognóstico. Uma das dificuldades associadas ao método de Clark é a falta de uniformidade entre patologistas na interpretação dos vários níveis, particularmente na Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. distinção dos níveis II, III e IV. Os limites histológicos entre a derme papilar e a derme reticular são frequentemente de difícil visualização, especialmente na pele danificada pelo sol. Além disso, a espessura da derme varia de acordo com a localização anatômica: por exemplo, uma lesão de nível IV na face seria provavelmente um nível II no dorso. O índice de Breslow é, isoladamente, o fator prognóstico mais fidedigno. É medido com um micrômetro ocular do topo da camada granulosa ao ponto de maior profundidade do tumor ou em lesões ulceradas da base da úlcera. É, portanto, uma mensuração objetiva, independente da interpretação do observador, o que justifica sua maior acurácia prognóstica. É considerado melanoma fino aquele com até 0,8 mm de espessura; os intermediários, entre 0,8 e 4 mm; e os espessos, maiores que 4 mm. No melanoma in situ, restrito à epiderme, a sobrevida de 5 anos é de quase 100%. A espessura do tumor mostra que, quanto mais espesso, pior o prognóstico; as lesões com menos de 1 mm de espessura resultam em metástase em apenas 5% dos casos. As metástases ocorrem por via linfática, nas adjacências do tumor (microssatelitose e lesões satélites) e nos gânglios regionais; por via sanguínea, atingem, com maior frequência, a pele, os pulmões, o sistema nervoso central e o fígado. Há raros casos de metástase por via transplacentária. Clínica As lesões do melanoma costumam ser únicas e predominam em áreas fotoexpostas, especialmente aquelas com exposição intermitente (ex.: dorso nos homens, porção inferior dos membros inferiores nas mulheres). É importante que ele relate se aquelenevo cresceu, se tem prurido (coceira), se sangra. Devemos fotografar todos os nevos suspeitos. Não podemos esquecer das formas mais raras de melanoma, que são os melanomas primários de mucosa, os amelanóticos, os raríssimos de órgãos internos, e os excepcionais congênitos. Qualquer das formas clínicas pode se tornar amelanótico. Diagnóstico e Estadiamento No diagnóstico clínico é importante lembrar a regra do ABCDE, para lesões pigmentadas nas quais as variáveis a serem analisadas são: Assimetria; Bordas irregulares; Cores diversas – maior ou igual a duas cores (preto, azul, marrom, cinza, vermelho, branco) na mesma lesão; Diâmetro maior que 6 mm; Evolução (qualquer alteração que tenha ocorrido na lesão – tamanho, formato, novos sintomas). O diagnóstico diferencial deve ser feito com nevos, CBC pigmentado, granuloma piogênico, ceratose seborreica, melanoniquia estriada, trauma etc. A dermatoscopia (“lente de aumento especial”) é uma ferramenta útil na avaliação de lesões pigmentadas, tornando possível identificar a origem celular da lesão; no entanto, o diagnóstico definitivo é histopatológico. A biópsia deve ser excisional com margens de 2-3 mm, com exceção para tumores maiores ou em locais anatômicos nobres, nos quais realizaremos uma biópsia incisional na área mais suspeita (área mais pigmentada ou mais elevada). O melanoma possui dois tipos de crescimento: radial (cresce para os lados, portanto tem melhor prognóstico) e vertical (cresce para baixo, tendo pior prognóstico, maior chance de enviar metástase, temos como exemplo o melanoma nodular). Assim, é fundamental que a amostra de pele seja retirada até o tecido celular subcutâneo, já que a espessura vertical do tumor é o valor preditivo mais importante para o prognóstico, tratamento e seguimento. Segundo as recomendações do GBM (Grupo Brasileiro de Melanoma), o laudo deve conter: tipo histológico do melanoma, fase de crescimento (radial ou vertical), níveis de invasão (Classificação de Clark), profundidade (Índice de Breslow), número de mitoses por milímetro quadrado, infiltrado inflamatório linfocitário peritumoral/intratumoral, invasão vascular linfática e sanguínea, invasão perineural, ulceração, regressão, satelitose microscópica e margens cirúrgicas. Por último, dispomos da imuno-histoquímica como ferramenta diagnóstica, capaz de identificar a natureza da linhagem celular, sendo utilizada para a identificação de tumores primários ou metastáticos pouco diferenciados, tumores de células fusiformes, melanomas amelanóticos e no diagnóstico diferencial com outras condições. Os marcadores principais são a proteína S-100 e o HMB-45. Uma limitação do exame é que ele não é capaz de diferenciar a lesão melanocítica em benigna ou maligna. O índice de Breslow determina a espessura tumoral (dimensão vertical a partir do ponto mais profundo de invasão ao topo da camada granulosa ou à célula mais superficial em caso de ulceração), usando uma ocular micrométrica. Havia uma classificação de Breslow anterior que usava como parâmetros: in situ, até 0,76 mm, de 0,76 a 1,5 mm, de 1,5 a 4 mm e acima de 4 mm. A principal forma de estadiamento do melanoma se dá pelo sistema TNM. Segundo dados norte-americanos para a sobrevida em cinco anos, teríamos 96% para o estágio 0; 92,5% e 74,8% para estágios I e II; 49% nos casos de metástase linfonodal (estágio III) e 17,9% para o estágio IV (metástases à distância). Entre os fatores prognósticos desfavoráveis, poderiam ser incluídos: localização (cabeça, pescoço e tronco), sexo masculino, idade acima de 60 anos, intensidade da infiltração linfocitária, regressão tumoral, tipo histológico, índice mitótico, microssateliose, tipo celular predominante, Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. marcadores imuno-histoquímicos e citomorfometria nucleolar. Diversos fatores, tanto locais quanto sistêmicos, podem influenciar o processo de reparação tecidual, provocando desfechos desfavoráveis, como cicatrizes hipertróficas e queloides ou mesmo úlceras crônicas, como úlceras de perna, úlceras de pressão e mal perfurante plantar. A infecção é uma causa importante de retardo na reparação. A colonização bacteriana considerada crítica pode provocar prolongamento da fase inflamatória e comprometer a reparação. Em relação aos fatores sistêmicos, aspectos tanto nutricionais quanto do estilo de vida (tabagismo, etilismo), uso de alguns medicamentos (como corticosteroides) ou doenças sistêmicas, como diabetes melito, podem comprometer o processo de reparação. Úlcera é definida como qualquer interrupção na solução de continuidade do tecido cutâneo-mucoso, acarretando alterações na estrutura anatômica ou função fisiológica dos tecidos afetados. As úlceras podem ser classificadas, quanto: - à causa, em: cirúrgicas, não cirúrgicas; - segundo o tempo de reparação, em agudas e crônicas, - com a profundidade, em relação à extensão da parede tissular envolvida (epiderme, derme, subcutâneo e tecidos mais profundos, como músculos, tendões, ossos e outros), em graus, I, II, III e IV. Grau I: ocorre um comprometimento da epiderme; a pele se encontra íntegra, mas apresenta sinais de hiperemia, descoloração ou endurecimento. Grau II: ocorre a perda parcial de tecido envolvendo a epiderme ou a derme; a ulceração é superficial e se apresenta em forma de escoriação ou bolha. Grau III: existe comprometimento da epiderme, derme e hipoderme (tecido subcutâneo). Grau IV: comprometimento da epiderme, derme, hipoderme e tecidos mais profundos. Úlcera Venosa A úlcera venosa é devida à insuficiência venosa crônica por varizes primárias, seqüela de trombose profunda, anomalias valvulares venosas ou outras causas que interferem no retorno do sangue venoso. As características clínicas são extremidade quente, edema, presença de varizes, alterações cutâneas como eczema de estase, esclerose e hiperpigmentação. O doente apresenta queixa de dor em pontada ou contínua. A localização mais freqüente é a região do maléolo e terço distal da perna; em geral, de progressão lenta, bordas infiltradas, fundo com fibrina e, quase sempre acompanhada de infecção secundária. Surge após trauma e, muitas vezes, é precedida por episódio de erisipela, celulite ou eczema de estase. A fisiopatologia revela que o sangue retorna da perna ao coração através de três conjuntos de veias (profundas, superficiais e intercomunicantes). Se este sistema falhar em um dos seus componentes, o resultado é uma hipertensão venosa que causa distensão e alongamento das alças capilares. O fibrinogênio extravasa para os tecidos através de poros endoteliais alargados e a fibrina é depositada nos capilares, formando um “coxim” que limita a difusão do oxigênio e de outros nutrientes para a pele. Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. Adicionalmente, os leucócitos se acumulam durante os períodos de imobilidade, obstruindo os capilares e, assim, contribuem para a isquemia local. Na palpação do pulso pedioso e tibial posterior, os mesmos devem estar presentes (Figura 9). Úlcera Arterial A úlcera arterial é produzida pela desnutrição cutânea devido a uma insuficiência arterial que tem como resultado a isquemia, caracterizando-se clinicamente por extremidade fria e escura. Há palidez, ausência de estase, retardo no retorno da cor após a elevação do membro, pele atrófica, perda de pêlo, diminuição ou ausência das pulsações das artérias do pé e dor severa aumentada com a elevação das pernas. A úlcera é de bordas cortadas a pique, irregular, localizada nos tornozelos, maléolos e extremidades digitais (perna, calcanhar, dorso do pé ou artelho) (Figura 10). - A dor geralmente exacerba-se após elevação domembro. - A causa mais comum é a doença arterioesclerótica. - O risco de ulceração arterial de extremidades inferiores é aumentado em fumantes, diabéticos, idosos e indivíduos com evidência de doença arterial em outros locais. - Um sintoma clássico da doença arterial é a claudicação intermitente e dor em repouso (aliviada quando as pernas são colocadas em uma posição pendente). - Ao exame físico observam-se: pés frios, pulsos pediosos fracos ou ausentes, enchimento capilar alentecido. As úlceras arteriais são pálidas, arredondadas e com bordas “talhadas a pique”. - Ocorrem com localizações mais distais, frequentemente sobre proeminências ósseas. A pele em torno é fina, atrófica, com pelos ralos. Úlcera Hipertensiva Há aumento da parede arteriolar, proliferação da camada interna, degeneração da camada média e, ocasionalmente, trombose, levando à produção de áreas de isquemia e necrose no terço inferior da perna. É mais freqüente em mulheres, de 50 a 60 anos, sendo a úlcera na maioria das vezes bilateral e observada nas faces anterior, lateral e posterior da perna, pouco profunda, de base descorada e fundo necrótico. Apresenta exsudato escasso e a dor é intensa. O doente deve parar de fumar e o controle da hipertensão arterial é fundamental. As doenças associadas, como diabetes mellitus, gota e a obesidade, também devem ser controladas. Úlcera nas doenças hematológicas Trata-se de úlceras, uma ou várias, em geral justamaleolares, porém podendo aparecer em outras áreas da perna. São, de certo modo, pequenas e bem delimitadas; em cerca de 50% dos casos, há bilateralidade. Acompanham certas hematopatias, a saber: anemias falciforme e hemolítica, policitemia vera, trombocitemia, microglobulinemia e outras. A hidroxiureia utilizada no tratamento de diversas neoplasias, sendo inclusive a medicação de escolha da trombocitemia essencial, é também capaz de causar úlceras dolorosas; portanto, deve ser lembrada no diagnóstico diferencial desse tipo de úlcera. Ectima gangrenoso Essas síndromes têm em comum a característica da invasão vascular por organismos e ocorrem habitualmente em pacientes gravemente imunocomprometidos. Todas as condições, exceto a estrongiloidíase disseminada, compartilham das características de crescimento do organismo no endotélio ou na parede vascular, geralmente em pacientes gravemente imunocomprometidos. O imunocomprometimento se deve habitualmente a uma neutropenia grave e/ou a administração de múltiplos fármacos imunossupressivos potentes, mas pode-se dever a uma doença crônica ou a desnutrição. Características clínicas/patologia Ectima gangrenoso é a síndrome de oclusão por organismos (geralmente bacterianos) proliferando na adventícia dos vasos sanguíneos subcutâneos. O organismo clássico é a Pseudomonas aeruginosa, mas lesões cutâneas semelhantes a do ectima gangrenoso foram descritas associadas a outros organismos, incluindo outras espécies de Pseudomonas spp. (P. cepaia, P. maltophilia), Serratia marcescens, Aeromonas hidrophila, Klebsiella pneumoniae, Vibrio vilnificus, Moraxella spp., Morganella morgagnii, Escherichia coli e Staphylococcus aureus; essas lesões também podem ocorrer por organismos fúngicos, como, por exemplo, Candida albicans, Mucor spp., Aspergillus fumigatus, Fusarium e Scytalidium dimidiatum. O ectima gangrenoso começa como máculas eritematosas indolores, mas evolui tipicamente para lesões purpúreas ou escaróticas que podem ser bolhosas ou pustulares e demonstram frequentemente características retiformes ou ramificadas. Há uma extensa infiltração bacilar da adventícia, da média e das regiões perivasculares dos vasos sanguíneos, poupando tipicamente o lúmen e a íntima. Com a proliferação das bactérias, a compressão gradual da parede do vaso estreita e oclui finalmente o lúmen de uma arteríola subcutânea que supre um cone de pele sobrejacente. Isso é seguido pela formação de coágulos em muitos vasos sanguíneos naquela área de pele. A terapia antibiótica imediata é crucial, embora o prognóstico seja Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. desfavorável se a neutropenia persistir, se os fármacos antimicrobianos forem ineficazes ou se o processo mórbido estiver avançado. Importante observar que muitos autores incluem lesões cutâneas e achados histopatológicos nesta categoria, mas apropriadamente pode ser classificado como vasculite séptica devido à bacteremia por bastonetes Gram-negativos, quando existem neutrófilos suficientes para fornecer uma resposta local. Em pacientes gravemente imunocomprometidos, fungos que invadem vasos podem ocasionar lesões necrosadas secundárias a invasão e trombose dos vasos. Os fungos oportunistas mais comuns nesse grupo são Aspergillus, Mucor, Absidia e Rhizopus spp. As últimas três são as causas de mucormicose. Em pacientes diabéticos a mucormicose pode manifestar-se na região central da face por necrose cutânea, originando-se presumivelmente de uma infecção da cavidade dos seios da face. Os fungos oportunistas que produzem púrpura retiforme tendem a proliferar e a invadir de dentro do lúmen para a parede do vaso e para ramos vasculares. Trombos se formam em torno dos elementos de hifas e nos vasos, e presumivelmente também no endotélio. Os antibióticos agem por diversos mecanismos ao interferirem: (1) na síntese da parede celular (penicilinas, cefalosporinas e fosfomicina); (2) na permeabilidade da membrana citoplasmática (polimixina, tirotricina, gramicidina e polienos); (3) na síntese dos ácidos nucleicos (no DNA: quinolona e griseofulvina; no RNA: rifampicinas); (4) na síntese de proteínas (clindamicina, eritromicina, tetraciclinas, cloranfenicol e outros). A grande vantagem dos antibióticos é o fato de eles serem seletivos, isto é, atuam, em grande parte, contra determinados microrganismos, respeitando as outras células; daí seu uso em terapêutica. Na verdade, conforme seu mecanismo básico, determinado antibiótico também pode agir contra outras células, originando-se, assim, efeitos colaterais por vezes graves; como exemplo, podemos citar os poliênicos (anfotericina B e outros), que atuam sobre a membrana citoplasmática dos fungos pela conjugação com esteroides nela existentes; produzem também anemia hemolítica, pelo fato de haver esteroides na membrana das hemácias. De acordo com essa seletividade, podemos, com objetivo prático terapêutico, dividir os antibióticos em: • antibactérias Gram-positivas: clindamicina, eritromicina, penicilinas naturais (G e V), isoxazolil- penicilinas (oxacilina, cloxacilina e dicloxacilina), rifampicinas, bacitracina, gramicidina e tirotricina • antibactérias Gram-negativas: gentamicina, estreptomicina, canamicina e polimixinas • anti-Gram-positivo e Gram-negativo, ou seja, de largo espectro: cefalosporinas, cloranfenicol, fosfomicina, penicilinas semissintéticas (ampicilinas) e tetraciclinas • anti-Mycobacteria: estreptomicina, canamicina, ciclosserina, rifampicinas e tetraciclinas • anti-Bedsonia, Mycoplasma e Rickettsia: tetraciclinas, eritromicina e cloranfenicol • anti-Chlamydia: tetraciclinas, rifampicinas, azitromicina e cloranfenicol • antimicóticos: anfotericina B, nistatina, primaricina etc. • antiprotozoários: aminosidina (balantídeos, amebas e giárdias), anfotericina B (leishmânias), primaricina e partricina (tricomonas) • antineoplásicos: actinomicinas, bleomicina, mitomicinas etc São muito amplas as indicações de antibióticos nas doenças de pele; há, contudo, dermatoses nas quais o tratamento básico e efetivo é feito por antibiótico, como a sífilis (penicilina), a hanseníase (rifampicina) e dermatofitoses (griseofulvina, em franco desuso). Penicilinas Atualmente, compreendem várias substâncias bactericidas comatividades diferentes com relação aos microrganismos, dependendo principalmente da estrutura química. As penicilinas agem por meio do grupo ácido 6-aminopenicilânico sobre a parede celular. Podemos dividi-las em 6 grupos principais. • Naturais: Somente podem ser ministradas por via parenteral, pois são destruídas pelo suco gástrico; são de pequeno espectro, agindo sobre cocos Gram- positivos, 2 cocos Gram-negativos (o gono e o meningococo), os treponemas e afins e alguns bacilos Gram-positivos (Clostridium, Corynebacterium) e o Actinomyces bovis. Essas penicilinas naturais não resistem à betalactamase, uma enzima produzida principalmente por muitas cepas de estafilococos; está claro, pois, que não devem ser usadas nas estafilococcias. A maior indicação das penicilinas naturais está nas treponematoses e piodermites por estreptococo. Os 3 grupos de penicilinas naturais (cristalina, procaína e benzatina) têm suas indicações precisas em dermatologia; assim, a cristalina, que é metabolizada e eliminada rapidamente e, por isso mesmo, deve ser aplicada a intervalos curtos (4 h), por via intravenosa, tem sua indicação dermatológica quase que exclusiva na actinomicose, neurossífilis e erisipela grave com doses elevadíssimas (10 a 20 milhões U/dia). A penicilina procaína é exclusivamente de uso IM, e sua absorção e eliminação são mais lentas, o que torna possível a aplicação de 12/12 h (400 a 600.000 U em cada aplicação); pode ser indicada na actinomicose, na sífilis e na gonorreia. A penicilina benzatina é de absorção e eliminação muito lentas (absorção eficaz dentro de 8 h e eliminação dentro de 2 a 3 semanas); é de uso exclusivamente IM (ampolas de 1,2 a 2,4 milhões U); tem sua maior indicação no tratamento das treponematoses e da amigdalite estreptcócica na infância e na profilaxia da erisipela e da febre reumática; as doses são estudadas nos capítulos correspondentes. • Biossintéticas: Formadas a partir de modificação na cadeia lateral de penicilina, são mais bem representadas pela penicilina V, praticamente sem uso na dermatologia. Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. • Penicilinas antiestafilocócicas: São resistentes à ação das penicilinases. A de maior uso é a oxacilina, na dose de 50 a 150 mg/ kg/dia de 4/4 h IV. Quando houver resistência à meticilina, diz-se que o estafilococo é MRSA (methicillin-resistant Staphylococcus aureus), e também apresentará às demais isoxazolilpenicilinas (dicloxacilina, cloxacilina) que compõem o grupo. • Aminopenicilinas: Ampicilina, amoxicilina e bacampicilina. Embora de espectro semelhante, a ampicilina é mais eficaz contra Shigella sp., enquanto a amoxicilina age contra Salmonella sp. Tem alguma ação contra Gram-negativos, que não resistem às penicilinases dos estafilococos. Para adultos, a dose de ampicilina é de 500 mg de 6/6 h, enquanto a de amoxicilina é de 8/8 h. • Carboxipenicilinas: Carbenicilina e ticarcilina. • Ureidopenicilinas e piperazopenicilinas: Azlocilina, mezlocilina e piperacilina. Na prática, esse último grupamento vem substituindo o anterior por ser mais eficaz contra P. aeruginosa. • Combinações com inibidores de betalactamase: Ampicilina + sulbactam, amoxicilina + ácido clavulânico. Apresentam boa indicação no tratamento de estafilococcias, embora sejam ineficazes quando for MRSA. Quando administrada por via oral (VO) para adultos, a dose de amoxicilina + ácido clavulânico é de 500 mg/125 mg ou 875 mg/125 mg, a cada 8 h ou a cada 12 h, respectivamente. Efeitos colaterais Efeitos tóxicos são praticamente nulos; contudo, observam-se importantes efeitos colaterais de ordem imunológica: a do tipo I (anafilaxia) ocorre em menos de 0,01% dos tratamentos e é fatal em menos de 8% dos casos. Outras manifestações tardias de hipersensibilidade são erupções maculopapulares, febre, eosinofilia e nefrite intersticial. Tipo II: anemia hemolítica, trombocitopenia e teste de Coombs positivo na ausência de hemólise. Tipo III: doença do soro. Distúrbio de homeostase, diarreia, leucopenia, síndrome de Stevens-Johnson e elevação de transaminases (oxacilina) podem ocorrer. Cefalosporinas Apresentam o mesmo mecanismo de ação das penicilinas; o seu grupo característico é o ácido 7- aminocefalosporânico – 7-ACA (semelhante ao 6-APA das penicilinas), daí a ocorrência de hipersensibilidade cruzada em cerca de 10% dos casos. Classicamente, as cefalosporinas são divididas em gerações. Em termos gerais, ao longo das gerações, houve perda de atividade contra Gram-positivos e aumento contra Gram- negativos, bem como aumento de penetração no SNC. Todas são inativas contra listéria e enterococos. São muito utilizadas na profilaxia de infecção em cirurgia. São elas: primeira geração: cefalotina, cefazotina, cefalexina e cefadroxil segunda geração: cefaclor, cefamandol, cefoxitina, cefuroxima e cefotelan terceira geração: cefotaxima, ceftriaxona, cefixima e aquelas com ação antipseudomonas (ceftazidima e cefoperazona) quarta geração: cefpirona. Algumas características individuais das cefalosporinas: • cefalotina: é ativa contra estafilococos produtores de penicilinase; no entanto, não contra os meticilina- resistentes. É usada por via intravenosa diluída e infundida em 20 a 30 min, na dose de 1 a 2 g a cada 6 h • cefalexina e cefadroxil: têm espectro semelhante ao da cefalotina. São de uso oral e, portanto, aplicam-se em situações menos graves ou na complementação da terapia intravenosa. Diferem entre si pela meia-vida; a do cefadroxil possibilita uma posologia mais prática de 8/8 h ou mesmo de 12/12 h, enquanto a da cefalexina é de 6/6 h na dose de 500 mg por vez para adultos, excepcionalmente 1 g/vez • ceftriaxona: tem excelente atividade contra bactérias aeróbicas Gram-negativas. É o mais ativo dos compostos betalactâmicos contra Neisseria sp. e Haemophilus sp., incluindo os cocos Gram-positivos produtores de betalactamase. É ativa contra Treponema pallidum, Salmonella sp. e Streptococcus pneumoniae. É usada na dose de 1 g a cada 24 h ou a cada 12 h IM ou IV. Efeitos colaterais Flebite, reações cutâneas de hipersensibilidade, diarreia, elevação discreta de transaminases, nefrotoxicidade, teste de Coombs positivo, hipoprotrombinemia etc. A probenecida bloqueia a secreção renal de quase todas as cefalosporinas e, portanto, as potencializa. Quinolonas As fluoroquinolonas são extremamente eficazes e concentram-se bem no interior de fagócitos, sendo, portanto, muito efetivas contra organismos intracelulares, como micobactérias, Salmonella sp. e Brucella sp. São bactericidas que agem na girase DNA bacteriana, enzima essencial no processo de transcrição do DNA. São substâncias de amplo espectro por atuarem contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas. São extremamente ativas contra bactérias enteropatogênicas (Shigella, Salmonella, Campylobacter e Yersinia). Apresentam ação contra Neisseria sp., Mycoplasma, H. influenzae, Legionella sp. e P. aeruginosa. Têm sido empregadas com sucesso em algumas doenças sexualmente transmissíveis – DST (cancro mole, gonorreia e infecções por Chlamydia). São efetivas contra estafilococos, inclusive os MRSA; no entanto, durante o tratamento, costumam desenvolver resistência. Não são muito eficazes contra estreptococos (incluindo pneumococos e enterococos). Na hanseníase, o ofloxacino parece ser mais ativo que os demais medicamentos do grupo. Pefloxacino, ciprofloxacino e ofloxacino têm eficácia semelhante e superior à do norfloxacino. Além das infecções já citadas, são extremamente úteis no tratamento de infecções urinárias e osteomielite por Gram-negativos. O pefloxacino penetra melhor no SNC, especialmente em casos com inflamação meníngea. São medicamentos de baixa toxicidade e, portanto, bem tolerados.Apresentam boa aceitação por via oral, mas também existem na apresentação injetável. Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. Efeitos colaterais O principal efeito colateral é o seu acúmulo em cartilagens, acarretando erosão e parada de crescimento dessas, impedindo assim o seu uso em crianças e grávidas. Outros efeitos menos importantes são cefaleia, fadiga, insônia, intolerância gastrintestinal e erupção cutânea. Laboratorialmente, podemos ter eosinofilia, anemia, leucopenia, elevação de transaminases e escórias nitrogenadas. A apresentação e a posologia são: ofloxacino, 200 a 400 mg de 12/12 h VO ou IV; pefloxacino, 400 mg de 12/12 h VO ou IV; ciprofloxacino, 500 a 750 mg de 12/12 h VO, ou 200 mg de 12/12 h IV; norfloxacino, 400 mg de 12/12 h VO. Tetraciclinas Apresentam amplo espectro; seu uso mais comum em dermatologia é no tratamento da acne, por onde, além da ação anti-Propionibacterium acnes, exerce outras ações (ver adiante). De maneira geral, pode-se dizer que a minociclina e a dicloxacilina são mais efetivas. São medicamentos importantes no tratamento das infecções por Chlamydia sp., Mycoplasma sp., riquetsioses, peste, tularemia, doença de Lyme e brucelose. São extremamente eficazes no tratamento das DST (cancro mole, linfogranuloma venéreo, donovanose, gonorreia e sífilis em pacientes alérgicos à penicilina). Podem ser usadas em algumas infecções estreptocócicas; não são recomendáveis para estafilococcias, a não ser no MRSA comunitário, visto que muitas vezes é sensível, em especial à minociclina. À exceção da doxiciclina e da limeciclina, não podem ser administradas próximo às refeições (uma hora antes ou duas depois), nem com leite ou antiácidos. As tetraciclinas são classificadas em: de ação curta (tetraciclina e oxitetraciclina: meia-vida de 8,5 h – 250 a 500 mg, 6/6 h); ação intermediária (demeclociclina, metaciclina e limeciclina – 150 a 300 mg, 12/12 h) e ação longa (doxiciclina: meiavida de 14 a 22 h – 100 mg de 12/12 h e minociclina; meia-vida de 11 a 13 h – 100 mg de 24/24 h). Além da ação antimicrobiana, as tetraciclinas têm atividade anti-inflamatória, por inibirem a migração de neutrófilos; também inibem a proteólise (colagenases e gelatinases), a angiogênese, a apoptose e a formação de granulomas (em especial, a minociclina); por essas propriedades, têm sido indicadas nas buloses, sarcoidose cutânea, rosácea, acne, artrite reumatoide etc. Devido a todas essas características, somadas à lipossolubilidade, o que favorece a penetração nos comedões em que é encontrada maior quantidade de P. acnes, as ciclinas são, de longe, os antibióticos de escolha no tratamento da acne. É crescente o número de cepas resistentes de P. acnes. A tigeciclina (Tygacil®) é uma glicilciclina por dispor de uma porção glicilamido ligada à posição 9 da minociclina. A dose de ataque é de 100 mg, seguida de 50 mg a cada 12 h, em infusão venosa por 30 a 60 min. A dose não precisa ser reajustada nos pacientes com insuficiência hepática moderada e nos renais em diálise. Está indicada no tratamento das estafilococcias cutâneas inclusive por MRSA, infecções intra-abdominais complicadas por E. coli, Enterococcus fecalis, Streptococcus anginosus, Bacteroides fragilis, Clostridium perfrigens etc. É contraindicada em gestantes, na lactação, em menores de 18 anos e em pacientes alérgicos às tetraciclinas. Efeitos colaterais Reações fototóxicas são frequentes, inclusive com onicólise; reações cutâneas de hipersensibilidade são raras; distúrbios gastrintestinais (diarreia, náuseas e vômitos) podem ocorrer, assim como retenção nitrogenada na insuficiência pré-renal. Dentre os antibióticos, são os que, com maior frequência, desencadeiam candidíase. A minociclina causa zumbido, cefaleia e vertigem com frequência. As tetraciclinas não podem ser utilizadas em crianças, na gravidez ou lactentes por conta da deposição em ossos e dentes em processo de calcificação, levando à pigmentação permanente dos dentes e à parada temporária de crescimento. Reduzem a atividade de anticoagulantes e de pílulas anticoncepcionais. Os principais efeitos colaterais da tigeciclina são náuseas, vômitos, cefaleia e diarreia, o que deve provocar suspeita até mesmo de colite pseudomembranosa, seguidos de tontura, alterações hepáticas, coagulação, flebite, ureia e reações no local da infusão, e raramente reações anafilactoides e mesmo anafilaxia, assim como pancreatite. Cloranfenicol É indicado em poucas dermatoses: donovanose, linfogranuloma venéreo e riquetsioses; como efeito colateral grave, temos hipersensibilidade no nível da medula, levando a citopenias dose-dependentes e à anemia aplásica, que é idiossincrásica (1/40.000). Apresenta amplo espectro, atuando contra Gram- positivos e negativos, anaeróbios, micoplasmas e Chlamydias; tem boa absorção via oral, baixo custo e excelente penetração no SNC. A dose é de 50 a 100 mg/kg/dia, 6/6 h. Antibióticos de uso local Ao prescrevê-los, deve-se optar por aqueles que não sejam de uso sistêmico, pois, em caso de eventual eczematização, é possível inviabilizá-los em uma situação clínica importante. As principais opções atuais exclusivamente de uso local são mupirocina a 2% (é um inibidor da síntese de proteína), derivada da Pseudomonas fluorescens, é útil no tratamento de impetigo e outras infecções de pele gram-positivas graves, entre as quais infecções causadas por Staphylococcus aureus resistente à meticilina; e ácido fusídico a 2%, derivado do grupo dos fusidanos, 3 vezes/dia; no entanto, a mupirocina deveria ter o seu uso reservado apenas para descolonização de estafilococos MRSA. A retapulina é um novo antibiótico tópico, primeiro da classe dos pleuromutilinas, com as mesmas indicações dos demais, embora com maior comodidade posológica, que é de 2 vezes/ dia durante 5 dias. Não está indicada no tratamento de MRSA. É um novo inibidor da síntese de proteínas que trata o impetigo. Os efeitos adversos são mínimos com esse fármaco. Em geral, consiste em reação cutânea local leve Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 03 Abertura. Outros antibióticos de uso também local são a neomicina associada ou não a bacitracina (um antimicrobiano peptídico ativo contra vários microrganismos gram- positivos), gentamicina e rifampicina (verdadeiro absurdo em um país endêmico de tuberculose e hanseníase). Formulações oftalmológicas utilizam muito as quinolonas associadas ou não a corticosteroides. A neomicina em associação com outros fármacos e também a gentamicina pode ser usadas no tratamento de infecções cutâneas causadas por microrganismos gram-negativos como Pseudomonas, Escherichia coli e Klebsiella sp. O uso tópico desses fármacos raramente causa efeitos adversos sistêmicos. Reações adversas raras, como dermatite alérgica e outras sensibilidades, ocorrem com neomicina. Na dermatologia associações muito empregadas contêm gentamicina 0,1% + dipropionato de betametasona 0,05%, gentamicina 0,1% + desonida 0,05%, ácido fusídico + valerato de betametasona 0,1%, neomicina 0,35% + fludroxicortida 0,0125% e neomicina 0,35% + valerato de betametasona 0,1%. Também há outras, cuja prescrição revela, devido ao excesso de componentes, a incerteza diagnóstica; por exemplo: neomicina + betametasona + cetoconazol, neomicina + gramicidina + triancinolona + nistatina, entre outros. Somos absolutamente contrários ao uso inconstante de antibióticos tópicos na acne. Não questionamos a eficácia, pelo menos em princípio, e sim a facilidade com que se produz a resistência do P. acnes por motivos como monoterapia, agente no interior do comedão (não sendo alcançado pelo antibiótico), assim como aplicação tópica irregular, inclusive com menor quantidade à medida que se aproxima do pescoço,o que favorece a seleção de cepas resistentes. Referências: AZULAY, R.D.; AZULAY, D.R.; AZULAY-ABULAFIA, L. Dermatologia - 7. ed., rev. e atual - Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.