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Presidência da República Jair Messias Bolsonaro Ministério da Justiça e Segurança Pública Anderson Gustavo Torres Secretaria de Gestão e Ensino em Segurança Pública Ana Cristina Melo Santiago Diretoria de Ensino e Pesquisa Roberto Glaydson Ferreira Leite Coordenação-Geral de Ensino Juliana Antunes Barros Amorim Coordenação de Ensino a Distância Juliana Antunes Barros Amorim Coordenação-Geral de Gerenciamento de Projetos Pedagógicos e Inovação Alessandra Verissimo Lima Santos Coordenação de Inovação e Tecnologia Aplicada Alessandra Verissimo Lima Santos Coordenação Pedagógica Gisele Matos Gervásio Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Cristiane Rodrigues Britto Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial Paulo Roberto Diretoria de Políticas Étnico-Raciais Luciana Valéria Pinheiro Gonçalves Coordenação-Geral de Políticas Étnico-Raciais Vanderlei Lourenço Coordenação de Políticas Étnico- Raciais Pollyanna Azevedo Conteudistas Antônio Carlos Arruda da Silva / Fabio Francisco Esteves Gerente de curso Danilo Bruno Moreira / Sergio Borges de Nogueira Revisão Técnica José Vicente Revisão Textual Henrique Rufino de Sousa Neto Revisão Pedagógica Ardmon dos Santos Barbosa / Marcio Raphael Nascimento Maia Programação e Edição / Designer Renato Antunes dos Santos Designer Instrucional Luana Manuella de Sales MendesSEGURANÇA DE GRUPOS VULNERÁVEIS: PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL Sumário APRESENTAÇÃO DO CURSO ........................................................................................................................... 5 MENSAGEM DOS CONTEUDISTAS... ............................................................................................................... 6 OBJETIVOS DO CURSO .................................................................................................................................. 10 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ............................................................................................................................... 10 ESTRUTURA DO CURSO ................................................................................................................................ 11 MÓDULO 1 - PERCURSO SOCIAL, POLÍTICO E JURÍDICO DA POPULAÇÃO NEGRA NO BRASIL ........................... 12 OBJETIVOS DO MÓDULO .............................................................................................................. 12 ESTRUTURA DO MÓDULO ............................................................................................................ 12 AULA 1. O DIA DEPOIS DA LIBERTAÇÃO. ................................................................................... 13 AULA 2. NOVA REPÚBLICA: DEMOCRACIA PARA QUEM? ......................................................... 16 AULA 3. UM DESTINO NADA FELIZ ............................................................................................... 16 AULA 4. BRANQUEAMENTO, IMIGRAÇÃO, DESEMPREGO E FAVELIZAÇÃO ........................... 18 AULA 5. A CRIMINALIZAÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA .............................................................. 21 5.1. POR QUE CRIMINALIZAR A CAPOEIRA? ........................................................................... 22 AULA 6. NEGROS E NEGRAS SÃO CRIMINOSOS NATOS?........................................................ 25 AULA 7. E A TAL DEMOCRACIA RACIAL? .................................................................................... 29 FINALIZANDO ................................................................................................................................. 33 MÓDULO 2 – IDENTIDADE E ESTRUTURA: CONCEITOS DE ESTEREÓTIPO, PRECONCEITO, DISCRIMINAÇÃO, IDENTIDADES E RACISMO. ............................................................................................................................ 34 OBJETIVOS DO MÓDULO .............................................................................................................. 35 ESTRUTURA DO MÓDULO ............................................................................................................ 35 AULA 1. ESTEREÓTIPO, PRECONCEITO, IDENTIDADE, DISCRIMINAÇÃO ............................... 36 1.1. ESTEREÓTIPO ..................................................................................................................... 37 1.2. ESTIGMAS ........................................................................................................................... 42 1.3. PRECONCEITO ................................................................................................................... 44 1.4. IDENTIDADE ........................................................................................................................ 53 1.5. DISCRIMINAÇÃO ................................................................................................................. 56 1.6. DIFERENÇA ENTRE DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO ................................................ 59 1.7. DISCRIMINAÇÃO RACIAL ................................................................................................... 60 AULA 2. RACISMO E ORGANIZAÇÃO SOCIAL ............................................................................ 69 2.1. ENTÃO, O QUE É O RACISMO? .......................................................................................... 72 2.2. AS VÁRIAS MANIFESTAÇÕES DO RACISMO .................................................................... 74 2.3. RACISMO MULTIDIMENSIONAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL ............................................. 76 2.3.1 - MERCADO DE TRABALHO .......................................................................................... 78 I - O DELEGADO .................................................................................................................. 79 II - O AGENTE POLICIAL CIVIL ............................................................................................ 79 III - A AGENTE DE TRÂNSITO ............................................................................................. 79 IV - A ENFERMEIRA ............................................................................................................. 79 V - A ESTUDANTE ................................................................................................................ 80 VI – A PROFESSORA ........................................................................................................... 80 VII – O OFICIAL .................................................................................................................... 80 2.3.2 - TAXA DE DESEMPREGO E DIFERENÇA SALARIAL .................................................. 81 2.3.3 ESCOLARIDADE ............................................................................................................. 82 2.3.4 SAÚDE ............................................................................................................................ 83 2.3.5 - COMÉRCIO ................................................................................................................... 84 2.3.6 - RACISMO RECREATIVO .............................................................................................. 86 2.4. INFLUÊNCIA DA COR NO POLICIAMENTO OSTENSIVO ................................................... 88 FINALIZANDO ................................................................................................................................. 90 MÓDULO 3 - SISTEMA LEGAL DE PROTEÇÃO E A PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL .................................... 91 OBJETIVOS DO MÓDULO .............................................................................................................. 91 ESTRUTURA DO MÓDULO ............................................................................................................91 AULA 1. A CONSTITUIÇÃO DE 1988.............................................................................................. 92 AULA 2. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS ................................................ 93 AULA 3. CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS - PACTO DE SAN JOSÉ DA COSTA RICA ................................................................................................................................... 94 AULA 4. PACTO INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS ................................ 95 AULA 5. A CONVENÇÃO INTERNACIONAL SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO RACIAL .............................................................................................................. 97 AULA 6. CONVENÇÃO INTERAMERICANA CONTRA O RACISMO, A DISCRIMINAÇÃO RACIAL E FORMAS CORRELATAS DE INTOLERÂNCIA ............................................................................... 98 AULA 7. CRIMES DE RACISMO E INJÚRIA RACIAL ..................................................................... 99 AULA 8. ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL ............................................................................ 104 FINALIZANDO ............................................................................................................................... 106 MÓDULO 4 – ATIVIDADE POLICIAL E IGUALDADE RACIAL ............................................................................ 107 OBJETIVOS DO MÓDULO ............................................................................................................ 108 ESTRUTURA DO MÓDULO .......................................................................................................... 108 AULA 1. COMBATER PRECONCEITOS E ESTEREÓTIPOS ....................................................... 109 1.1 OS ÓRGÃOS DO SUSP ....................................................................................................... 113 1.2 AS POLÍCIAS CIVIS E O PAPEL DA AUTORIDADE POLICIAL ........................................... 115 1.3 GRUPOS POLICIAIS ESPECIALIZADOS ............................................................................ 120 1.4 AS POLÍCIAS MILITARES E O COMBATE AO RACISMO .................................................. 122 1.5 A LETALIDADE PODE SER DIMINUÍDA ............................................................................. 124 AULA 02. ANÁLISE E REFLEXÃO SOBRE AS ABORDAGENS POLICIAIS ................................. 127 2.1 TIPO FÍSICO E PERFIL SOCIOECONÔMICO ..................................................................... 128 2.2 ORIENTAÇÃO RELIGIOSA .................................................................................................. 128 FINALIZANDO ............................................................................................................................... 132 MÓDULO 5 – IGUALDADE RACIAL: BOAS PRÁTICAS NA SEGURANÇA PÚBLICA ............................................. 133 OBJETIVOS DO MÓDULO ............................................................................................................ 134 ESTRUTURA DO MÓDULO .......................................................................................................... 134 AULA 1. BOAS PRÁTICAS DA POLÍCIA OSTENSIVA NA PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL ...................................................................................................................................................... 135 1.1 POLÍCIA COMUNITÁRIA: A CONSTRUÇÃO COLETIVA DE UM MODELO JÁ CONHECIDO ................................................................................................................................................... 137 1.2 VIDAS NEGRAS IMPORTAM............................................................................................... 138 AULA 2. GOVERNANÇA E ENFRENTAMENTO AO RACISMO: EXPERIÊNCIAS NA SEGURANÇA PÚBLICA ....................................................................................................................................... 141 AULA 3. INICIATIVAS NO COMBATE AOS CRIMES RACIAIS E DE INTOLERÂNCIA................. 144 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................................... 148 5 APRESENTAÇÃO DO CURSO Caro (a) aluno (a), Seja bem-vindo(a) ao curso de Segurança de Grupos Vulneráveis: Promoção da Igualdade Racial. Essa é uma capacitação que integra uma série de iniciativas do Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria de Gestão e Ensino em Segurança Pública (Segen) e do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, através da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SNPIR). As ações objetivam fortalecer o papel dos agentes de segurança pública e de defesa social na promoção da cidadania, na proteção dos direitos humanos e no enfrentamento ao racimo e à discriminação étnico-racial. O curso possui carga de 40 horas, estruturado em lições, intencionalmente planejadas, que visam à reflexão e conscientização do profissional de segurança quanto à necessidade de desempenhar suas funções ancoradas em princípios de igualdade, respeito à diversidade e proteção dos Direitos e Garantias Fundamentais. Para uma capacitação efetiva é fundamental que você venha com o “espírito desarmado” de forma a [re]conhecer e combater os próprios preconceitos. Isso porque a construção de um país forte e desenvolvido só é possível através da superação da desigualdade, baseado na tolerância, no respeito e união. Você será apresentado aos fatores históricos, culturais e sociais do fenômeno criminal, que acabam por inserir a população negra em condições de vulnerabilidade, de vitimização e marginalização de direitos, despertando para a necessidade de agir de forma ética, legal, técnica e transparente. 6 Figura 1 - O papel do agente de segurança na superação do racismo - uma discussão necessária Fonte: Canva.com. Nesse sentido, serão destacados os legados da escravidão a partir da perspectiva de sujeitos sociais que sofreram - e ainda sofrem - os impactos do processo de colonização. Em seguida será analisada a legislação daquele período e suas nuances com o direito contemporâneo. Ao longo do curso você terá contato com as definições que permitirão o reconhecimento de preconceitos, ações discriminatórias, do racismo e das medidas legais que combatem sua ocorrência. Por fim, será exposto o papel dos órgãos e agentes de segurança na abordagem de pessoas em ações policiais, as quais devem ser isentas de estereótipos e preconceitos e, para isso, traz uma análise das boas práticas da segurança pública na promoção da igualdade racial. MENSAGEM DOS CONTEUDISTAS... O homem se torna EU na relação com o TU (Martin Buber) Antes de iniciarmos é necessário compartilhar uma recomendação que julgamos de fundamental importância: não se deixe levar por preconceitos relativos às normas de direitos humanos, perceba-as como instrumentos de legitimação da sua ação enquanto agente de segurança. Absolutamente, não pretendem restringir ou dificultar o trabalho no combate à violência, pelo contrário, são a sua garantia de proteção, bússola que orientará sua atuação funcional, seja em relação ao atendimento adequado em ocorrências profissionais, seja quanto à aplicação da força em determinado cenário. 7 Figura 2 - Construir uma sociedade livre justa e solidária Fonte: Flickr / DFID. Este curso reforça o compromisso do Estado brasileiro assumido junto à ONU quando da realização da III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata em Durban – África do Sul - em 2001 – que, no Plano de Ação, item 133, recomenda a educação antirracista, particularmente entreos serviços de segurança, penitenciários e de polícia: 133. Educação em direitos humanos para funcionários públicos e outros profissionais. - Insta os Estados a desenvolverem e fortalecerem a capacitação em direitos humanos com enfoque antirracistas e antissexista para servidores públicos, incluindo o pessoal da administração da justiça, particularmente os serviços de segurança, serviços penitenciários e de polícia, bem como entre as autoridades de serviços de saúde, educação e migração;1 Encerrado esse ponto, partimos para um convite muito especial e que vai além do compromisso com a busca pelo conhecimento: você está convidado para o exercício da empatia, com a abertura genuína dos corações e mentes para a compreensão da dor do outro, não apenas se colocando no lugar dele, mas trazendo 1 Fonte: http://www.unfpa.org.br/Arquivos/declaracao_durban.pdf http://www.unfpa.org.br/Arquivos/declaracao_durban.pdf 8 o outro para o seu lugar. Assim, propõe-se uma atuação consciente e ética, pautada na cooperação e alteridade. Pois bem, não é possível que olhemos ao nosso redor e não nos deparemos com as diferenças, somos pessoas de todas as cores, de todas as belezas, de todos os lugares, idades, desejos, pensamentos, vontades, crenças e não-crenças. Ocorre que nem sempre a harmonia entre os diferentes é uma realidade. Os conflitos, a intolerância e a violência são desafios para as instituições encarregadas da organização social, responsáveis pela coordenação dos iguais direitos e deveres aos indivíduos. Observamos constantemente lutas por direitos, lutas por reconhecimento, lutas por melhores condições de vida - algumas sem razões legítimas, pois estão em busca apenas de garantir privilégios para uns poucos - mas temos outras que são necessárias e importantes para que afirmemos viver em verdadeira democracia, o que não significa apenas ter o direito de eleger, por maioria, os nossos governos. É importante que as decisões das maiorias sejam respeitadas, que as maiorias escolham o que for melhor para a sociedade, mas isto não pode ser à custa dos direitos das pessoas, especialmente de quem consideramos diferente e, que por isto, às vezes, qualificamos como indesejável. A equação é simples: se alguém acredita que sua forma de vida é boa, que ela não prejudica terceiros, então, do mesmo jeito, outras existências que também estejam buscando o mesmo projeto de felicidade, não podem ser inferiorizadas e desprezadas. O problema surge quando julgamos que o estilo de vida do outro não tem o mesmo valor que o nosso, que não é o padrão ou que causa prejuízos para aquilo que qualificamos como normalidade. Assim, cremos que não deve ser tolerado, mesmo sendo aquela maneira de existir similar ao que defendemos para as nossas vidas apenas com uma roupagem diferente. Negamos o direito de as pessoas existirem simplesmente porque construímos uma exigência, não legítima, quanto ao que é necessário para viver em sociedade, segundo nossos valores, que não admitem o diferente. Evidente que a questão não é tão simples e que tais práticas não são meros caprichos. Veremos que a intolerância e julgamentos que desqualificam o outro como ser inferior, é resultado 9 de um longo processo sistêmico, que permanece vivo e latente, através de expressões e comportamentos - irracionais e irrefletidos, todavia perniciosos e que devem ser combatidos. Há razões de ordem econômica, social, política e de poder, em termos mais amplos, pois, ao prevalecer o meu julgamento intolerante, que se soma ao de outro, ele cresce, até se tornar maioria. Dessa forma, se pode garantir privilégios materiais, prestígio social e domínios sobre os indesejáveis. Não discriminamos pessoas pelo simples desejo de inferiorizá-las, há um projeto neste processo, que é o de estabelecer quem tem poder daqueles que não tem e todas as consequências que desta relação hierárquica decorrem. Neste contexto, dificilmente é possível afirmar a existência de uma sociedade democrática. Ainda que sejam originárias de relações anteriores e complexas, incorporadas em diversos meios, o combate e a superação do racismo exigem o envolvimento ativo de cada um de nós – sobretudo enquanto profissional da segurança pública, cujo comportamento serve de modelo para a sociedade. As diferenças não precisam implicar em desigualdades, entretanto é o que se verifica a partir de questões como, raça, sexo, cor, idade, religião e outras formas correlatas. Quanto à população negra do Brasil, observamos que ela ainda está longe de poder exercer os mesmos direitos que os demais cidadãos e cidadãs. São desigualdades de renda, de acesso à educação, à saúde, à moradia e até mesmo à proteção do Estado. Nesse ponto, em decorrência da vulnerabilidade em que se encontram, estão sujeitos às diversas manifestações da violência, desde aquela manifestada nas ruas, como em hospitais, escolas, igrejas, empresas etc. A cor da pele, os demais traços físicos e a herança do povo negro do Brasil desenham uma diferença não tolerada, por isso inferiorizada e determinante para o acesso e o exercício desigual de direitos. À esta altura podemos nos perguntar: este contexto é afetado pelas atividades de segurança pública? Com toda certeza podemos responder positivamente e, por isso, iniciamos essa jornada para o aperfeiçoamento da nossa formação. Nesse curso, específico para as questões raciais, temos como objetivo a capacitação para a prestação de um serviço comprometido com a redução das 10 desigualdades entre brancos e negros como destinatários do serviço de segurança pública, enquanto bem imaterial, dever e direito - de todos e para todos, de acordo com a essência do princípio da igualdade. É uma obrigação e um prazer participar do aperfeiçoamento de tão importantes quadros profissionais, que desempenham um relevante trabalho na construção de uma sociedade justa e igualitária. Sejam todos bem-vindos a uma nova segurança pública para o Brasil! OBJETIVOS DO CURSO A Segurança Pública, por meio de seus integrantes, possui papel estratégico nas medidas de superação das desigualdades. Este curso objetiva aprimorar os conhecimentos dos profissionais acerca da temática, dotando-os de novas e eficientes ferramentas para enfrentar, combater, não aceitar e superar qualquer forma de discriminação baseada na cor, raça e condição social de qualquer pessoa. OBJETIVOS ESPECÍFICOS ● aprimorar as ações dos profissionais de segurança pública na defesa da igualdade racial e no cumprimento dos direitos e garantias fundamentais; ● destacar o papel pedagógico do agente, que ora atua como guardião, ora facilitador dos direitos individuais, sociais, políticos e difusos na promoção da igualdade racial; ● preparar o profissional do Susp quanto à aplicação da Lei de acordo com critérios técnicos, procedimentais e atitudinais previstos no ordenamento jurídico brasileiro; ● listar os principais eventos históricos (sociais, políticos e jurídicos), que trataram da condição do negro no Brasil; ● conceituar preconceito, discriminação e racismo; definir como os estereótipos e estigmas reproduzem o racismo; 11 ● identificar os elementos que relacionam a questão racial e o serviço de segurança pública e descrever o sistema legal de proteção contra a discriminação e de promoção da igualdade racial; e ● analisar a transversalidade da legislação nacional com as normas de direitos e princípios internacionais dos quais o Brasil é signatário2 ou incorporou em seu sistema legal transformando-os em Emenda Constitucional.3 ESTRUTURA DO CURSO Este curso está dividido em 5 módulos de aprendizagem, sendo eles: Módulo 1 - Percurso Social, Político e Jurídico da população negra no Brasil. Módulo 2 - Identidade e estrutura: conceitos de estereótipo, preconceito, discriminação,identidades e racismo. Módulo 3 - Sistema legal de proteção e a promoção da igualdade racial. Módulo 4 - Atividade policial e igualdade racial. Módulo 5 – Igualdade Racial: boas práticas na segurança pública Aproveite! 2 Quando se diz que determinado país é signatário, significa que esta nação assinou algum tipo de manifesto, contrato, acordo, carta ou outro documento com o qual concorda com o conteúdo apresentado. 3 Artigo 5º, LXXVIII, parágrafo 3º “os tratados e convenções internacionais sobre Direitos Humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais” 12 MÓDULO 1 - PERCURSO SOCIAL, POLÍTICO E JURÍDICO DA POPULAÇÃO NEGRA NO BRASIL Neste módulo, trataremos da trajetória de marginalização da população negra no Brasil. Assim, teremos a dimensão do racismo, do preconceito da discriminação e da intolerância religiosa, que hoje tanto é necessário enfrentar. Ao final, teremos aptidão para descrever o processo de transição do regime da escravidão para o de trabalho livre; apontar as principais consequências do branqueamento da população com a política de imigração; discorrer sobre o processo de criminalização da população negra; e, descrever o projeto de democracia racial. OBJETIVOS DO MÓDULO ● Apresentar o processo de transição da escravidão para o trabalho livre; ● Relacionar as consequências da política imigratória percebida pelo país; ● Descrever as ações históricas de criminalização da população negra; e ● Compreender os princípios que regem a democracia racial. ESTRUTURA DO MÓDULO Este módulo está dividido em 7 aulas: Aula 1 - O dia depois da libertação. Aula 2 - Nova República: Democracia para quem? Aula 3 - Um destino nada feliz Aula 4 - Branqueamento, imigração, desemprego e favelização Aula 5 - A criminalização da população negra Aula 6 - Os negros e negras são criminosos natos? Aula 7 - E a tal democracia racial? 13 AULA 1. O DIA DEPOIS DA LIBERTAÇÃO. Declarada extinta a escravidão no dia 13, é certo que amanhecemos naquele 14 de maio em um novo Brasil, afinal teria acabado o mais longo regime de escravidão que existiu no mundo e o último a ser extinto, correto? ... ... Errado! Figura 3 - Reflexões Fonte: Rosstek. Trata-se de uma afirmação que está longe de ser verdadeira. Está enganado quem imagina que os escravos, agora emancipados, passaram a gozar da igualdade de direitos ou mesmo da liberdade. Ocorreu justamente o inverso: ao contrário do reconhecimento da cidadania e da criação de políticas para o acesso ao trabalho, moradia, educação, saúde e outras condições para uma vida digna, foram adotadas medidas de controle e até mesmo de eliminação da população negra, a partir de estudos que procuravam atestar a inferioridade da raça (a eugenia) e com isso, impor medidas criminais, isolamento e o branqueamento. 14 Figura 4 - Chaves para a liberdade Fonte: YAY Images. Ao tempo da abolição, a população brasileira era de 14.333.935 habitantes, destes 8.031.717 eram pardos e pretos, de acordo com o Censo de 1890 (destaca-se que, neste período, a classificação de pessoas negras tinha outros termos). O percentual de pessoas escravizadas foi levantado no Censo de 1872, dando conta de que 15,24% dos recenseados não eram pessoas livres. Figura 5 - Mercado de escravos no Recife Fonte: Zacharias Wagner - Domínio Público / Wikimedia. 15 Figura 6 - Congado em Minas Gerais (Rui Santos – 1876) Fonte: Domínio Público / Wikimedia - Original: Lago, Bia Corrêa do; Corrêa do Lago, Pedro. Coleção Princesa Isabel: Fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008. Esse contingente de pessoas negras no Brasil, aproximadamente 56% da população - o maior fora do continente africano, representa o primeiro entrave para a promoção da igualdade, pois contrariava os objetivos da nova República (inaugurada em 1889), de ser vista como uma nação moderna e desenvolvida no modelo europeu do homem branco. A identidade do Brasil é marcada pela questão racial, ou seja, a racialização de pessoas negras e indígenas, isso é, empregar a raça como um instrumento de manipulação científica e política. Nesta primeira parte, serão descritas as condições desfavoráveis que foram impostas à população negra no período pós-escravidão até os dias atuais, que foram e ainda são componentes das relações sociais estabelecidas entre o grupo formado por pessoas brancas, de um lado e o de negros, de outro, posicionados hierarquicamente - aqueles dominantes, enquanto os últimos - subalternos. Assim, o 14 de maio de 1889 não fez raiar o sol da liberdade e menos ainda o da igualdade. 16 AULA 2. NOVA REPÚBLICA: DEMOCRACIA PARA QUEM? Com a chegada da República em 1889 e com ela o direito de escolher os governantes através do voto, tem-se a primeira negação de cidadania das pessoas negras, pois não poderia exercer este direito. A segunda Constituição do Brasil, a de 1891, dispôs que não poderiam alistar-se eleitores para as eleições federais ou para as dos Estados: os mendigos e os analfabetos. Ocorre que a Lei nº 1, de 14 de janeiro de 1837, dispôs sobre aquelas pessoas proibidas de acessar as escolas públicas. Ficam proibidos de frequentar as escolas públicas: Primeiro: pessoas que padecem de moléstias contagiosas. Segundo: os escravos e os pretos africanos, ainda que sejam livres ou libertos. Ou seja, a população negra quase inteiramente analfabeta não poderia exercer este caro direito político, menos ainda cogitar de ser votada, razão pela qual ainda hoje persiste a tão baixa representação de negros nas casas legislativas brasileiras. A lei acima é uma demonstração bastante clara de como a liberdade não veio acompanhada dos princípios de igualdade para os negros, pois mesmo já não sendo mais submetidos ao trabalho forçado, era evidente o controle e dominação, que os colocavam em lugares inferiores eram práticas oficiais. Esse dado é importante para que compreendamos como foram formadas as relações sociais no Brasil e a maneira que a questão racial as atravessou. Assim, já vamos compreendendo a construção e complexidade do racismo sistêmico no Brasil. AULA 3. UM DESTINO NADA FELIZ Em nossa simples compreensão sobre o tema, é razoável supor que a população negra, escravizada por mais de 350 anos e agora liberta, deveria, no mínimo, ser beneficiada por alguma política pública para que se tornassem, de fato, cidadãos, certo? Não! 17 O projeto abolicionista, como sabemos, não se desenvolveu em razão do reconhecimento da desumanização da expropriação da força de trabalho dos negros cativos, mas para atender demanda internacional no contexto de uma sociedade que pretendia se modernizar, conforme nos ensina Gilberto Maringoni (2011). Figura 7 - Senhor e seus escravos (Militao de Azevedo) Fonte: Wikimedia / Domínio Público. Assim, o trabalho escravo se torna um entulho a ser removido e com esta pecha, qualquer programa de assistência material aos futuros libertos representava ainda mais entraves para a transição do regime, que por outro lado, já contava com a importação de mão-de-obra barata e com padrão europeu, que ainda viria contribuir para a diminuir (branqueando), a expressão do retrato-imagem do então território negro, símbolo de atraso. Figura 8 - Escravo açoitado Fonte: Arquivo Nacional. 18 Não é possível dizer que os ex-escravos foram deixados à própria sorte porque não se tratou de mero esquecimento do poder político, mas de uma ação arquitetada para a negação de direitos e qualquer auxílio material, inclusive o trabalho assalariado, ocupado pelo imigrante. O sociólogo Florestan Fernandes, citadopor Gilberto Maringoni, oferece descrição que sintetiza a condição econômica que esperava pelos libertos: A preocupação pelo destino do escravo se mantivera em foco enquanto se ligou a ele o futuro da lavoura. Ela aparece nos vários projetos que visaram regular, legalmente, a transição do trabalho escravo para o trabalho livre, desde 1823 até a assinatura da Lei Áurea. [...] Com a Abolição pura e simples, porém, a atenção dos senhores se volta especialmente para seus próprios interesses. [...] A posição do negro no sistema de trabalho e sua integração à ordem social deixam de ser matéria política. Era fatal que isso sucedesse. (FERNANDES, 1964 s/p) Desta forma, restou à população negra viver em condições degradantes pela falta de acesso ao mínimo existencial para uma vida digna, fato não muito diferente do que ainda se apresenta no nosso tempo presente. AULA 4. BRANQUEAMENTO, IMIGRAÇÃO, DESEMPREGO E FAVELIZAÇÃO O fim da escravidão e a Proclamação da República implicaram na complexa discussão sobre a formação da identidade nacional uma vez que, no retrato da população, os negros apareciam e desfiguravam a imagem e semelhança europeia. Lilia Schwarcz, em Espetáculo da miscigenação (1994. p.138), relata que o mesmo tema gerava paradoxos: implicava admitir a inexistência de futuro para uma nação de raças mistas como a nossa. Isto é, o conjunto dos modelos evolucionistas não só elogiava o progresso e a civilização, como concluía que a mistura de raças heterogêneas era sempre um erro, e levava à degeneração não só do indivíduo como de toda a coletividade. Schucman (2016, p. 61) vai além e aponta que além da abolição, mudanças estruturais aconteciam no país, como a industrialização, a proletarização e a urbanização. A questão da identidade nacional brasileira e o futuro da nação eram 19 amplamente discutidos pelos intelectuais brasileiros. As questões importantes que surgiam neste momento histórico eram: (I) O que fazer com a massa de recém libertos na sociedade brasileira? (II) Como tornar a diversidade de populações aqui presentes em um só povo e nação? Neste momento, a Europa difundia os ideais do racismo científico, que proclamava que a raça branca seria mais civilizada e mais associada ao progresso da humanidade. Para o racismo científico, a miscigenação desqualificava e degenerava a humanidade. Era evidente que este racismo científico colocava um entrave para a possibilidade de desenvolvimento do país, já que a nação era formada por uma parcela grande de negros e mestiços. Continua a autora sustentando que para solucionar este dilema, intelectuais como Oliveira Viana, Sílvio Romero, Euclides da Cunha, entre outros, trabalharam para ver a miscigenação como um valor positivo para o progresso. Daí surgiu o ideal de “branqueamento”, uma teoria tipicamente brasileira, aceita entre 1889 e 1914 pela maioria da elite brasileira (Ibidem). O processo de miscigenação, fundamentado na exploração sexual da mulher negra, foi erguido como um fenômeno de puro e simples genocídio. O “problema” seria resolvido pela eliminação da população afrodescendente. Com o crescimento da população mulata, a raça negra iria desaparecendo sob a coação do progressivo clareamento da população do país. Tal propósito foi recebido com elogios calorosos e grandes sinais de alívio otimista pela preocupada classe dominante (NASCIMENTO, 2016, p. 84). A orientação predominantemente racista da política imigratória foi outro instrumento básico nesse processo de embranquecer o país. A assunção prevalente, inspirando nossas leis de imigração, considerava a população brasileira como feia e geneticamente inferior por causa da presença do sangue africano (NASCIMENTO, 2016, p. 85). O Decreto de 28 de junho de 1890 concebe que: “é inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho [...] Excetuados os indígenas da Ásia ou da África, que somente mediante a autorização do Congresso Nacional poderão ser admitidos”. 20 Em várias oportunidades no período de 1921 a 1923, a Câmara dos Deputados considerou e discutiu leis nas quais se proibia qualquer entrada no Brasil “de indivíduos humanos das raças de cor preta”. Quase no fim do seu governo ditatorial, Getúlio Vargas assina, em 18 de setembro de 1945, o Decreto-Lei 7967, regulando a entrada de imigrantes de acordo com “necessidade de preservar e desenvolver na composição ética da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia” (NASCIMENTO, 2016, p. 86). O branqueamento como melhoramento das raças, fundamentado na eugenia, tornou-se medida constitucional. As Constituições de 1934 (art. 138) e de 1937 instituíram oficialmente a educação eugênica. Para o projeto, a imigração foi ingrediente elementar. Milhares de italianos, portugueses, espanhóis e alemães desembarcaram no Brasil entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. A vinda de estrangeiros foi política pública instituída para a promoção do branqueamento da população, conforme se verifica do art. 2º do Decreto-Lei 7.967, de 18/9/45, citado anteriormente. O programa de imigração afetou gravemente as oportunidades para a ocupação dos postos de trabalho pela população negra. Segundo Bárbara Pereira (2019): O trabalhador “nacional” não incluía, portanto, a população negra escravizada durante mais de três séculos. Ao valorizar a entrada de imigrantes de “ascendência europeia” e descartar a possibilidade de inserção da população negra nos espaços de poder, o Estado brasileiro intentou minar suas chances de desenvolvimento e “ascensão” social. Através das transformações no mundo do trabalho, do cativo para o liberto, negros e negras foram descartados. Mais do que isso, foram integrados perfeitamente ao seu papel marginalizado, de reserva, para manter, também, as transformações do capital. Assim, o mínimo existencial para a sobrevivência da população fica bastante comprometido, agravando a disputa pela ocupação de espaços para moradia que empurra a população negra para as periferias. Costa e Azevedo (2016), assevera que o(a) escravo(a) passará a ocupar o ambiente urbano e a disputar o uso do solo urbano. Com o notório desenvolvimento das cidades brasileiras, os espaços da cidade passaram a possuir cor e classe social. Os bairros centrais passaram a ter valores altíssimos, em contrapartida com os bairros periféricos que eram ocupados ilegalmente. Os autores citam Carril (2006, p.17), para 21 quem, estudos sobre o crescimento da cidade de São Paulo mostram como a população ficava mais escura à medida em que se afastava em direção à periferia. A essa altura já podemos compreender o contexto social no qual se encontrava a população negra no período pós-abolição. A transição nada mais foi do que uma reinvenção sofisticada das formas escravistas, talvez bem mais grave, o branqueamento da população, oficialmente executado pelo Estado, não pode ser considerado diverso de algum tipo de genocídio. Liberdade e igualdade para os negros não cruzaram horizonte algum da então nova nação brasileira de 1889, ao contrário, para eles sobrou a condição de objetos de pseudociências, que trataram de reduzi-los a uma raça inferior, atrasada e sem condições de integrar um país que se pretendia desenvolvido e inserido no capitalismo mundial. Por isso, enquanto não houvesse a extinção dessa população, preferível que ela tomasse os empregos precários, as favelas e os restos dos outros para que pudessem sobreviver. E, havendo rebeldia, o cárcere os esperava. AULA 5. A CRIMINALIZAÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA Sabe-se que uma das formas de controle social é a criminalização de condutas que causam danos aos direitos fundamentais individuais ou coletivos, mas o direito penal e o sistema de justiça como um todo são resultados de decisões políticas dasociedade que os definem. Aí, se não há democracia, igualdade de participação e poderes iguais entres grupos sociais, a dominação de uns em desfavor de outros é certa, e o sistema penal se torna em um instrumento central para este objetivo. Assim, o nosso Código Penal de 1890, dedicou um capítulo inteiro aqueles que denominou como “dos vadios e capoeiras” e tipificou como crime práticas eugenistas: deixar de exercitar profissão, officio, ou qualquer mister em que ganhe a vida, não possuindo meios de subsistencia e domicílio certo em que habite; prover a subsistencia por meio de occupação prohibida por lei, ou manifestamente offensiva da moral e dos bons costumes (art. 399, Código Penal - 1890). Veja, mesmo subtraindo todas as condições mínimas para que um ser humano sobreviva, o Estado e a sociedade, ainda escravocratas, depois da abolição, criminalizaram a população negra por situações por eles mesmo criadas e impostas: ausência de empregos, moradia, alimentação etc. 22 É preciso repisar que os eventuais empregos que poderiam ser ocupados pelos libertos foram direcionados aos imigrantes que chegavam ao Brasil no fim do século 19. O mesmo código previu ainda que “pela mesma sentença que condemnar o infractor como vadio, ou vagabundo, será elle obrigado a assignar termo de tomar occupação dentro de 15 dias, contados do cumprimento da pena” (§1º, Art. 399). A disposição é clara no objetivo de garantir que os ex-escravos teriam de aceitar quaisquer condições de trabalho, pois se deixassem a atividade laboral, poderiam ser processados e condenados, inclusive à obrigação de contratar algum emprego após o cumprimento da reprimenda. É possível imaginar o que estaria o condenado disposto a aceitar para se apresentar ocupado profissionalmente. Se o condenado reincidisse, o art. 400, dispunha que: si o termo for quebrado, o que importará reincidencia, o infractor será recolhido, por um a tres annos, a colonias penaes que se fundarem em ilhas maritimas, ou nas fronteiras do territorio nacional, podendo para esse fim ser aproveitados os presidios militares existentes. Aproveitados em presídios militares? Trabalho forçado? Na hipótese de o indivíduo ser menor, dispôs o Código que: “os maiores de 14 annos serão recolhidos a estabelecimentos disciplinares industriaes, onde poderão ser conservados até a idade de 21 annos” (§2º, Art. 399). Em estabelecimentos disciplinares industriais? Remunerados? A criminalização ainda alcança a cultura negra. O Código Penal previu como crime: “fazer nas ruas e praças publicas exercicios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal.” (Art. 402, caput). 5.1. POR QUE CRIMINALIZAR A CAPOEIRA? Além de criminalizar a prática, o parágrafo único previa agravantes: pertencer o capoeira à alguma banda ou malta torna o crime mais severo. Os líderes eram 23 punidos com o dobro da reprimenda. No caso de reincidência, a pena seria de 6 anos. Figura 9 - Escravos sendo perseguidos por autoridades Fonte: Agência Senado / Augustus Earle. À capoeira foi dada a pecha de uma atividade violenta e bandalheira, tanto que o art. 404, dispôs que: si nesses exercicios de capoeiragem perpetrar homicidio, praticar alguma lesão corporal, ultrajar o pudor publico e particular, perturbar a ordem, a tranquilidade ou segurança publica, ou for encontrado com armas, incorrerá cumulativamente nas penas comminadas para taes crimes. Com pretexto de proteger a saúde pública, a religião também foi criminalizada, os artigos 157 e 158 criminalizaram a prática do espiritismo e magia, e o curandeirismo. Não é preciso muito para compreender que as pessoas criminalizadas por esses artigos eram negras e praticantes de religiosidade de origem africana, haja vista que o cerne dessas práticas gira em torno de uma compreensão das plantas de usos medicinais e que estas são utilizadas nos tratamentos de pessoas que a elas busquem (BASÍLIO DE OLIVEIRA, 2018, p. 6). Sustenta ainda o autor que é interessante notar, entretanto, que havia uma hierarquização entre os praticantes do chamado alto espiritismo, associado a práticas 24 kardecistas, e o baixo espiritismo relacionado à macumba e ao candomblé, sendo o primeiro mais tolerado que o segundo e hierarquicamente superior, como sugere a própria designação. Em sua opinião, essa divisão hierárquica permanece atualmente? Por fim, Basílio conclui que por trás do discurso higienista (preservar a saúde pública), positivista e comteano (manutenção da ordem) que sustenta tais decretos e que foi largamente utilizado na construção da República, há o racismo de toda e qualquer prática religiosa que não fosse a eurocentrada - cristã que, nesse caso, abre espaço para o espiritismo científico, tendo em vista a estruturação cristã e a larga influência do positivismo em sua formulação (Idem, p. 8). O Código Penal de 1890 foi revogado 50 anos depois, pelo Código Penal de 1940 - vigente até hoje. Pouca coisa mudou, o crime de vadiagem tornou-se contravenção penal (art. 59, da LCP), junto com o novo tipo da mendicância (art. 60), este já revogado. A Lei de Contravenções Penais previu ainda que se presume perigoso o condenado por vadiagem ou mendicância (art. 14, inciso II). Nesse mesmo raciocínio, o código de 1890, estabelecia em seu artigo 157 a proibição da prática do espiritismo, magia e uso de talismans com propósitos exotéricos ou de cura, prevendo a punição de até 6 meses de prisão além de multa de até 500 mil reis: Art. 157. Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilegios, usar de talismans e cartomancias para despertar sentimentos de odio ou amor, inculcar cura de molestias curaveis ou incuraveis, emfim, para fascinar e subjugar a credulidade publica: Penas - de prisão cellular por um a seis mezes e multa de 100$ a 500$000. A criminalização das religiões de matriz africana continua no novo Código Penal nos artigos 283 e 284, práticas definidas como charlatanismo e curandeirismo, respectivamente. Esse fenômeno da criminalização da população negra se revela, de maneira bem consistente, como o racismo moldou as relações sociais no Brasil. Perceba que 25 a criminalização da condição econômica-social, da cultura e da religião visou ao controle da pobreza e de toda a subalternidade que ela produziu para a população negra. Não podemos, de forma alguma, conceber este processo como encerrado, um dado da história. Ele se reinventa e se reproduz de forma cada vez mais sofisticada que chegamos ao ponto de assimilá-lo, mesmo numa realidade democrática e de proteção dos direitos fundamentais. Figura 10 - Escravizados e livres condenados pela Justiça do Império Fonte: Agência Senado / Imagens: Biblioteca Nacional/Brasiliana Fotográfica. Neste sentido, provocando a uma reflexão, a atual “Lei de Drogas” poderia ser considerada uma reinvenção daquele sistema punitivo contra a população negra e pobre? O que nos diz o percentual de 22% dos presos brasileiros terem sido condenados pela prática de tráfico de drogas, sendo que pouco deles exercem a macrotraficância? AULA 6. NEGROS E NEGRAS SÃO CRIMINOSOS NATOS? Registra Munanga que, como acontece geralmente na maioria dos países colonizados, a elite brasileira do fim do século XIX e início do século XX foi buscar seus quadros de pensamento na ciência europeia ocidental, tida como desenvolvida, para poder, não apenas teorizar e explicar a situação racial do seu país, mas também e sobretudo propor caminhos para a construção de sua nacionalidade, tida como problemática por causa da diversidade racial (MUNANGA, 1999, 50). https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/ha-190-anos-1o-codigo-penal-do-brasil-fixou-punicoes-distintas-para-livres-e-escravos/montagem-01/@@images/imagemhttps://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/ha-190-anos-1o-codigo-penal-do-brasil-fixou-punicoes-distintas-para-livres-e-escravos/montagem-01/@@images/imagem 26 Raimundo Nina Rodrigues foi um médico brasileiro que no final do século XIX buscou, entre outras coisas, desvendar os mistérios da mente e do espírito dos negros brasileiros. Racista, eugenista, conservador, foi um intelectual rejeitado a partir da segunda metade do século XX por conta destas características que, se não eram, à época, exclusivas dele, tornaram-se malditas: hoje em dia seu nome quase não é citado, a não ser em revisões críticas da história dos estudos raciais. Sua produção não foi muito extensa temporalmente – cerca de vinte anos – mas foi intensa, no sentido de que escreveu muito sobre temas diversos, apesar de ter se mantido fiel aos chamados estudos do negro” (RODRIGUES 2015). Figura 11 - A estigmatização da população negra Fonte: The Two Platforms (1866) / Library of Congress. Foi principalmente baseado nas teorias lombrosianas que Nina Rodrigues desenvolveu as ideias apresentadas em “As Raças Humanas”, no qual o autor considerava um “simples ensaio de psicologia criminal brasileira”. O livro tinha como propósito apresentar as modificações que as condições de raça imprimiriam à responsabilidade penal, assim como criticar o Código Penal Brasileiro de 1890. Considerado por Leite (1992), a exposição explícita de preconceito contra índios e negros, Nina Rodrigues defendeu um tratamento diferenciado para negros, índios e mestiços – produtos das chamadas raças inferiores – no Código Penal Brasileiro. Seu argumento partia do pressuposto de que haveria uma diferença fundamental entre as raças no que se referia à sua constituição mental (Rodrigues, 2015, p. 1121). Aplicando tais conceitos à realidade do Brasil, Nina Rodrigues sustentou que os crimes cometidos por indígenas, negros ou mestiços só poderiam ser analisados a 27 partir de um ponto de vista racial que levasse em conta os valores morais e as noções de justiça vigentes nos seus respectivos grupos (Rodrigues, 2015 p. 1123). Para Nina Rodrigues, (1957, p.120): Que, por seu desenvolvimento intellectual e por sua civilisação, os negros africanos sejam inferiores a massa das populações européas, ninguem evidentemente pode pôr em dúvida. Ninguem pode duvidar tão pouco de que anatomicamente o negro esteja menos adiantado em evolução do que o branco. Os negros africanos são o que são: nem melhores nem peiores que os brancos; simplesmente elles pertencem a uma outra phase do desenvolvimento intellectual e moral. Essas populações infantis não puderam chegar a uma mentalidade muito adiantada e para esta lentidão de evolução tem havido causas complexas. Entre essas causas, umas podem ser procuradas na organisação mesma das raças negriticas, as outras podem selo na natureza do habitat onde essas raças estão confinadas. Entretanto, o que se pode garantir com experiencia adquirida, é que pretender impor a um povo negro a civilisação européa é uma pura aberração. Com estas conclusões, Nina Rodrigues defendia um código que fosse adequado à incapacidade e atenuasse a responsabilidade dos negros. Já é possível ter uma ideia do que se tornariam os manicômios judiciais, não é? No caso dos mestiços, a situação seria diferente, em “Mestiçagem, Degenerescência e Crime”, buscou distinguir a influência da degeneração nos criminosos. Assim, conduziu a análise dos casos de forma a confirmar sua tese de que os crimes são mais fruto da degenerescência recorrente pelo cruzamento de raças distintas, do que de responsabilidade individual, e por isso deveriam ser atenuados "(Rodrigues, 2015 p. 1127). Em que pese sejam teorias ultrapassadas, precisamos ter cuidado para que não as concebamos apenas como dado histórico e deixemos de refletir sobre o quanto elas ainda ditam a reprodução e atribuição de sentidos estereotipados e estigmatizados de que o homem e a mulher negros são intelectualmente prejudicados, o que os tornam sem habilidades e competências para assumirem os espaços de poder, e mais grave ainda, que devam ocupar lugares controlados, a exemplo das prisões, como resultado da atuação do sistema de segurança pública e de justiça, que partem da presunção de que seus comportamentos estão impregnados de periculosidade, suspeição de ilicitude ou desvios morais. A desproporcionalidade na quantidade de negros no sistema prisional e no quantitativo dos alijados do acesso às funções públicas ou privadas com expressão 28 de poder, não seria possível sem que uma rede de estereótipos e estigmas negativos circulassem reproduzindo sentidos de inaptidão intelectual, quando não de selvageria. Figura 12 - Pintura da Dra. Lisa Whittington retratando Emmett Till (14 anos). O jovem foi morte em Money, Mississippi em 1955 por dois homens brancos Fonte: Wikimedia / Mississippi Civil Rights Museum. A mesma coisa é a condição da mulher negra destinada a toda sorte de violência (imensamente maior que mulheres brancas) e a ocupar as senzalas modernas. • Quais sentidos atribuímos às mulheres negras para que este cenário seja normalizado? • Quais sentidos atribuímos à vida dos jovens negros para que suas mortes em massa sejam tão indiferentes? • O que faz um homem, ou uma mulher, ou uma família, ou até mesma uma população, negra suspeita e merecedora das consequências daí resultantes? 29 Figura 13 - Castigos físicos no pelourinho Fonte: Wikimedia Commons. AULA 7. E A TAL DEMOCRACIA RACIAL? É muito comum ouvir pessoas negando ou atenuando o racismo existente no Brasil, sob o argumento de que todos são iguais, de que o país é miscigenado ou um grande caldeirão de cores e raças. Estas alegações são produto de um projeto que pretendia - e ainda pretende, fazer parecer uma nação homogênea. Discurso que obteve relativo êxito ao definir que o Brasil é um paraíso racial. Começam afirmando que o nosso regime de escravidão teria sido bem mais benevolente e cordial do que de outros países e finalizam quando estabelecem que o racismo é mania de perseguição e vitimização. Barbara Pereira (2019) relata que a necessidade de camuflar os conflitos no Brasil é antiga e que a ideia da existência de um “paternalismo” dos senhores no trato/convívio com a população escravizada foi disseminada por bastante tempo. De acordo com Nascimento (1978), por séculos o sistema escravista daqui ganhou fama internacional pelos seus traços considerados mais “suaves” e “humanitários”, apregoando a “democracia racial”, enquanto ideologia dominante. A história contada por quem comanda a escrita padece 30 refém de uma única visão, que foi a principal responsável pela criação desta realidade paralela, que considerava “cordial” e “afetuosa” a relação entre as raças que aqui conviviam. A população mestiça é eleita, inclusive, como símbolo desta “democracia”. Figura 14 - Democracia e equidade Fonte: Roche. A década de 1930, em especial, marca o início de uma valorização estereotipada do mestiço. Antes visto como problema, agora este é visto como representação oficial da nação (PEREIRA, 2019). Ao contrário do que se pretendia construir, a realidade da escravidão no Brasil é marcada pela crueldade, sadismo e torturas. Vilson Pereira do Santos, em seu artigo Técnicas de Tortura: Punições e Castigos de Escravos no Brasil Escravista destaca: anavalhamento do corpo, seguido do uso de salmoura; mutilações; estupros de negras escravas; castração de homens; amputação de seios; fraturas de dentes e ossos feitas a marteladas. Criou-se no interior da sociedade escravista uma longa tradição de formas requintadas de crueldade contra os escravos, algumas que chegaram às raias de práticas comuns ao sadismo. (DOS SANTOS, 2013) Nas prisões e senzalas do mundocolonial, outra forma bastante disseminada de tortura entre escravos fugidos era a mutilação, como a quebra de ossos, arranchamento de membros ou dedos, golpes nas unhas e dentes, entre outros. Um método comum era a extração de genitais ou castração por faca quente. Essas torturas ocorriam principalmente nas prisões do Estado, que marcaram o Período Joanino. A escritora Flora Thompson-Deveaux, em Notas sobre o Calabouço publicada na Revista Piauí, 2018, lembra: “não eram poucos 31 os escravos que morriam ainda na prisão em decorrência dos ferimentos, e muitos provavelmente morreram depois de sair do Calabouço”. (NOGUEIRA, 2020) Em termos literários, desde os estudos pioneiros de Gilberto Freyre4 no início dos anos 30, seguidos por Donald Pierson nos anos 40, até pelo menos os anos 70, a pesquisa especializada de antropólogos e sociólogos, de um modo geral, reafirmou (e tranquilizou) tanto aos brasileiros quanto ao resto do mundo o caráter relativamente harmônico de nosso padrão de relações raciais. (GUIMARÃES, 1995, p. 26). Kabengele Munanga (1999) sustenta que o mito da democracia racial, que se baseia em dupla mestiçagem biológica e cultural entre as três raças originárias, tem uma penetração muito profunda na sociedade brasileira: exalta a ideia de convivência harmoniosa entre os indivíduos de todas as camadas sociais e grupos étnicos, permitindo às elites dominantes dissimular as desigualdades e impedindo os membros das comunidades não-brancas de terem consciência dos sutis mecanismos de exclusão da qual são vítimas na sociedade. Ou seja, encobre os conflitos raciais, possibilitando a todos se reconhecerem como brasileiros e afastando das comunidades subalternas a tomada de consciência de suas características culturais que teriam contribuído para a construção e expressão de uma identidade própria. Essas características são "expropriadas", "dominadas" e "convertidas" em símbolos nacionais pelas elites dirigentes (MUNANGA, 1999, p. 80). Em 1962, que Gilberto Freyre havia se autoproclamado defensor do patriotismo brasileiro. Naquele ano, Freyre empregou pela primeira vez o termo democracia racial, que viria a defender com fervor. O conceito de democracia racial, que chegaria a seu ápice como dogma no governo militar entre 1964 e 1985, perdurou também no período de maior crescimento do Brasil (TELLES, 2003, p. 57). Aliás, a democracia racial se tornou uma estratégia autoritária. Durante o Regime Militar de 1964-1981, aquele que ousasse afirmar que havia desigualdade 4 A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que doutro modo teria conservado enorme entre casa-grande e a mata tropical; entre casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelo feito social da miscigenação (FREYRE, 1989, p. 1). 32 racial no Brasil seria considerado subversivo e responderia pelo crime previsto no inciso II, do art. 22, da Lei de Segurança Nacional. Se de fato temos uma democracia racial, por que é tão fácil perceber o quanto de desigualdade racial existe quando observamos a renda, o acesso à educação, à saúde, à segurança e à ocupação de espaços de poder por pessoas negras? A pobreza afeta brancos e negros na mesma proporção? É democracia racial o retrato do encarceramento no Brasil? A violência, inclusive a estatal, atinge pessoas brancas e negras de mesma forma? Os direitos fundamentais das pessoas negras são igualmente protegidos? Figura 15 - Infográfico – Violência contra negros e negras no Brasil Fonte: Observatório da Democracia, Direitos Humanos e Políticas Públicas. Com tranquilidade podemos responder negativamente a todos os questionamentos. Desse modo, o mito da democracia social nada mais é que uma estratégia para acobertar as desigualdades e profundas distorções, historicamente verificadas no tecido social brasileiro. 33 Dessa forma, chegamos ao final desse módulo... Reconstruímos, ainda que muito breve, o percurso histórico da formação da sociedade brasileira pós-escravidão e notamos que a transição do regime não apresentou condições para que a população negra alcançasse o status de igualdade e liberdade na novara república, ao contrário, para além do desprezo, um processo de branqueamento, precarização de um mínimo existencial digno, favelização e a criminalização foram medidas que atravessaram a constituição da sociedade brasileira do início do século XX. FINALIZANDO Ao longo deste módulo você estudou: ● O processo de transição do regime escravista para o trabalho livre; ● Que após a libertação não foram oferecidas condições materiais para possibilitar a sobrevivência em condições de dignidade para a população negra; ● As políticas públicas de branqueamento promovidas pelo Estado brasileiro através da imigração, subtraiu os empregos dos negros; ● Que houve uma criminalização da identidade, cultura e religião daquela população; e ● O mito da democracia racial brasileira, que foi uma estratégia para acobertar as mazelas raciais da sociedade brasileira. 34 MÓDULO 2 – IDENTIDADE E ESTRUTURA: CONCEITOS DE ESTEREÓTIPO, PRECONCEITO, DISCRIMINAÇÃO, IDENTIDADES E RACISMO. Neste módulo você encontrará os conceitos necessários para identificar situações vivenciadas em âmbito pessoal e profissional que possam configurar práticas racistas, contrapondo meios para que se possa atuar de maneira ética e legal diante desses ocorridos. São lições que servirão para que você compreenda o racismo que existe além do significado linguístico, enraizado e naturalizado por meio de práticas individuais e coletivas. Conhecendo-os bem, você, que integra o Sistema Único de Segurança Pública, poderá aperfeiçoar procedimentos e aprimorar a prestação de serviços, sempre em consonância com os princípios dos direitos humanos. A partir desse estudo, você conhecerá melhor o que é o racismo multidimensional ou sistêmico, que de maneira injusta impede e/ou compromete que grande parte da população brasileira tenha desenvolvimento profissional, educacional e econômico em razão da cor da sua pele. Figura 16 - Cooperação Fonte: Canva.com. A não-aceitação da autodefinição das pessoas quanto à própria raça também será tema deste módulo, muito importante para aprimorar a sua atuação como agente público de segurança. Se você, como muitos de nós, não reconhece ou não admite carregar dentro de si estereótipos e preconceitos que, quando não controlados, passam a ser 35 discriminação, intolerância, racismo - sentimentos que precisam ser refreados, estancados, esta é uma grande oportunidade de reflexão e modificação de comportamentos. O racismo é um círculo vicioso que deve ser imediatamente interrompido, pois, além de prejudicar grande parcela da sociedade, impede o desenvolvimento social, cultural e econômico do país, por meio da validação de discursos e políticas que dividem e promovem a desigualdade. Para a compreensão e enfrentamento da desigualdade racial é necessário que visitemos alguns conceitos que nos ajudarão a identificar como se reproduz o racismo. OBJETIVOS DO MÓDULO Ao final deste módulo o aluno terá condições de: ● Conceituar estereótipos e estigmas; ● Identificar as práticas que estigmatizam e prejudicam a democracia racial; ● Descrever o processo de discriminação; e ● Compreender as práticas e tipos de racismo. ESTRUTURA DO MÓDULO O Módulo 2 está dividido em 2 aulas, sendo elas: Aula 1 - Estereótipo, preconceito, identidade, discriminação Aula 2 - Racismo e estrutura social. 36 AULA 1. ESTEREÓTIPO, PRECONCEITO, IDENTIDADE,DISCRIMINAÇÃO A sociedade institui como as pessoas devem ser e torna esse dever como algo natural e normal. Um estranho em meio a essa naturalidade não passa despercebido, pois lhe são conferidos atributos que o tornam diferente, podendo resultar na marginalização de indivíduos dentro de uma comunidade. Você seria capaz de definir características que marcam as pessoas retratadas abaixo? Figura 17 - Culturas e características Fonte: Microsoft Images (CC). 37 Ao propor respostas, você cogitou a hipótese de os personagens serem artistas voluntários em eventos beneficentes nos horários de folga e policiais durante o serviço? Seria possível admitir que algumas imagens te aproximariam ou não, da pessoa retratada? Por que tendemos a formar opiniões e julgar? 1.1. ESTEREÓTIPO O doutor em sociologia Luiz Antonio Guerra traz um excelente conceito e explicação sobre Estereótipo que a seguir reproduzimos5: Os estereótipos são pressupostos ou rótulos sociais, criados sobre características de grupos para moldar padrões sociais. Um estereótipo se refere a certo conjunto de características que são vinculadas aos membros de um determinado grupo social. É, portanto, uma generalização e uma simplificação que relaciona atributos gerais a características coletivas como idade, raça, gênero, profissão, nacionalidade, região de origem, preferências musicais, comportamento etc. Os estereótipos funcionam também como modelos que pressupõem e impõem padrões sociais esperados para um indivíduo vinculado à determinada coletividade. São reproduzidos culturalmente e interferem (grande parte das vezes inconscientemente) nas relações sociais. De acordo com o sociólogo Erving Goffman, o estereótipo se relaciona com o estigma social nos processos de construção dos significados através da interação. Dessa forma, funcionam como uma espécie de rótulo ou carimbo que marca um indivíduo pertencente à determinada coletividade, estigmatizada a partir do pré- julgamento sobre suas características, em detrimento de suas verdadeiras qualidades individuais. Grande parte das vezes, os estereótipos carregam aspectos negativos, errôneos e simplistas e, por isso, formam a base de crenças preconceituosas. Estereótipos e preconceitos podem se expressar através de ironia, piada, antipatia, humilhação, insultos verbais ou gestuais, chegando inclusive a reações mais hostis e violentas. 5 Fonte: https://www.infoescola.com/sociologia/estereotipo/ https://www.infoescola.com/sociologia/estigma-social/ https://www.infoescola.com/sociologia/preconceito/ https://www.infoescola.com/linguistica/ironia/ https://www.infoescola.com/sociologia/estereotipo/ https://www.infoescola.com/sociologia/estereotipo/ https://www.infoescola.com/sociologia/estereotipo/ 38 É comum um estereótipo orientar a primeira impressão de alguém sobre o outro, evitando o contato entre os indivíduos, de maneira que a experiência de interação social se restrinja ao preconceito previamente estabelecido, reproduzindo-o e perpetuando o estigma e a marginalização de certos indivíduos e grupos. Na sua profissão, existem estereótipos que, inconscientemente, acabam influenciando a prática coletiva do grupo que você representa? Vejamos algumas situações... Um exemplo muito comum de estereótipo é o de que, especialmente para a grande parte da população negra, todo policial fardado ou uniformizado é violento e atira para matar negros e pobres. De outro lado, como se fosse aceitável termos lados opostos, a polícia de maneira geral, exclusivamente pelo critério da cor, inúmeras vezes aborda, com uso abusivo da força, jovens, mulheres e homens negros, seja pela forma de andar, vestir, pelo celular que estão usando, veículo que estão conduzindo ou espaço público em que se encontram, simplesmente porque “não é lugar de negro” ou porque só existem delinquentes naquela “quebrada”. A escravização de negros e, em escala menor também de indígenas no Brasil, teve como justificativa o estereótipo de que essas pessoas não-brancas, não eram portadoras da mesma humanidade que os europeus. Dessa forma, as invasões no mundo novo (Caribe e demais países da América) assim como aquelas registradas na África utilizaram desse subterfúgio para validar a escravização e o tratamento desigual. Valiam-se de argumentos como: os suplícios e trabalhos forçados, elevariam e humanizariam tais povos. De alguma maneira esses estereótipos sobrevivem e provocam o tratamento desigual a que muitas pessoas são submetidas. Para compreendermos o processo de reprodução do racismo, é necessário identificar o papel dos estereótipos nesta operação. Para Adilson Moreira (2020, p. 368), estereótipos podem então ser definidos como opiniões baseadas em crenças que expressam falsas generalizações sobre membros de grupos sociais. Essas convicções moldam as percepções sobre características desses indivíduos e os lugares que podem 39 ocupar na sociedade. Embora expressem opiniões de indivíduos particulares, estereótipos são construídos a partir de ideias compartilhadas por membros de um grupo, geralmente dos que tem poder para tornar seus pontos de vista uma visão cultural hegemônica sobre classes de pessoas. Atualmente, os meios de comunicação e informação possuem importante papel para reforçar (ou desconstruir) os estereótipos. Já conseguimos mentalmente enumerar algumas dessas falsas crenças sobre as pessoas, não é? Elas são apreendidas pelos indivíduos nas suas interações pessoais, nas várias produções culturais, em livros didáticos ou na forma como são representadas nos meios de comunicação. Embora sejam aprendidas, elas podem adquirir novas formas na mente dos indivíduos, pois são articulados com as disposições psicológicas de cada um (Idem, p. 369). A televisão brasileira é um motor de construção e reprodução do estereótipo negativo da população negra, são dezenas de personagens escravos, criminosos, especialmente traficantes, serviçais, favelados, ignorantes (ausentes de instrução), mulheres sempre deselegantes, jovens na rua etc. Enquanto os papéis com expressão de poder, competência e inteligência são interpretados por pessoas brancas. Figura 18 - A sub-representação de negros em telenovelas brasileiras – Resultados preliminares da pesquisa: A Raça e o Gênero das novelas nos últimos 20 anos Fonte: Gemaa / IESP.UERJ (2014). 40 Figura 19 - Participações de brancos (%) em telenovelas Coordenadores: João Feres Júnior / Luiz Augusto Campos. Pesquisadores: Gabriella Moratelli, Leandro Guedes e Marcia Rangel Candido Fonte: Gemaa / IESP.UERJ (2014). Figuras 20 a 25 - Estereótipos das Novelas Brasileiras O negro malandro A criada ingênua e grata 41 Fonte: Memória Globo Nodeoito http://nodeoito.com/estereotipos-racistas-novelas-brasileiras/. Fora do mundo do entretenimento, a vida imita a arte, os estereótipos construídos e reproduzidos nas telas são aplicados na realidade e nos demais segmentos profissionais das emissoras, onde as pessoas brancas ocupam as funções de jornalistas, apresentadores, produtores, diretores e, as pessoas negras, os cargos que expressam menor importância. Estereótipos podem ser descritivos porque designam supostos traços de todos os membros de um grupo e podem ser prescritivos porque indicam os supostos lugares que as pessoas podem ocupar na sociedade. Dessa maneira, cumprem uma função muito importante para a manutenção das relações hierárquicas do poder nas sociedades humanas: naturalizam as divisões sociais nelas presentes por meio da atribuição da situação à condição natural das pessoas. Os estudos sobre estereótipos demonstram não apenas sua presença pervasiva, mastambém suas funções dentro de processos sociais mais amplos. É importante observar que as falsas generalizações sobre o outro concorrem para a reprodução da marginalização de muitos grupos sociais, porque a mente opera para A mãe dócil, devotada e cuidadora O jagunço fiel O escravo protetor, forte e saudável A negra sexualizada http://nodeoito.com/estereotipos-racistas-novelas-brasileiras/ 42 confirmar as informações que já possui sobre as pessoas. Os seres humanos não procuram obter novas informações sobre as pessoas todas as vezes que se encontram com um novo membro de determinado grupo; na verdade procuram confirmar os julgamentos morais que já possuem sobre aquela categoria de indivíduos (idem, p. 370-371). Inúmeros experimentos no campo da psicologia cognitiva demonstraram o caráter automático da associação de características negativas atribuídas a minorias raciais, na maior parte dos casos às pessoas negras, em situações distintas. A percepção do caráter criminoso atribuído a uma pessoa varia de acordo com a raça da pessoa envolvida na mesma situação. Em partes do experimento, os indivíduos enxergam pessoas negras cometendo atos criminosos, inclusive, em situações nas quais elas estão ausentes. Essas pesquisas mostram constantes relações entre negros e criminalidade e entre brancos e inocência, associações presentes na mente dos indivíduos, mesmo entre aqueles conscientemente contrários a essas práticas. Tais inclinações, implícitas, influenciaram a vida das pessoas em situações importantes, como entrevistas de emprego ou no contato com agentes policiais. O perfilhamento racial é um exemplo de como as associações operam no comportamento, processo responsável por um número bem mais significativo de prisões arbitrárias de pessoas negras, uma vez que decorre de constante representação destas como naturalmente perigosas. Isso faz com que ações corriqueiras sejam interpretadas como sinais de perigo. Algumas pesquisas demonstram como muitos policiais rapidamente interpretam objetos nas mãos de pessoas negras como armas, sendo que elas estavam carregando itens com funções distintas (Idem, p. 371-372). 1.2. ESTIGMAS O estigma representa uma identidade imputada a alguém ou a um grupo e decorre de um processo de atribuição de sentidos, de traços, que marca e desqualifica (Idem, p. 385). É o caso do homem negro quanto à sua suposta vantagem genital ou virilidade exacerbada, que acaba por reproduzir a objetificação. Da mesma forma a falsa identidade quanto à ausência de inteligência e competência. A atribuição de personalidade voltada para o crime é um estigma. 43 Segundo Goffman (1988, p.5), o termo “estigma” surgiu na Grécia, e indicava as marcas corporais feitas em alguns indivíduos nos quais a sociedade deveria evitar, ou seja, indivíduos que deveriam ser vistos de forma negativa, como escravos e criminosos em geral. Sendo assim, a partir do seu conceito originário, pode se dizer que estigma significa marcar ou deixar cicatriz; e estigmatizar, seria, portanto, censurar ou marcar negativamente alguém por determinadas condições. Este conceito pode ser estendido até os dias atuais, pois os estigmas estão presentes corriqueiramente nas relações sociais, exercendo forte influência na vida política e econômica, tanto dos indivíduos presente na sociedade quanto do indivíduo estigmatizado. Todavia, Santos (2014, p. 20) afirma que num conceito mais moderno da palavra, os estigmas não se caracterizam apenas pela sua influência no tocante aos atributos físicos. Eles atuam como meta-regra, pois traçam os preceitos que devem ser seguidos pelas pessoas, mexendo com a imagem desse indivíduo perante a sociedade. Cria-se uma caricatura desse ser. De tanto se estigmatizar um sujeito ele acaba se convencendo de que ele realmente possui aquela coisa ruim imposta a ele, mas tudo em razão do estigma. Apenas à guisa de exemplo, pode-se salientar o estigma criado em torno das práticas e rituais religiosos de matrizes africanas, a respeito das quais se criou o mito de que se trata de práticas demoníacas, o que gera medo e preconceito na sociedade. Assim, impõe uma situação problemática: é uma forma de identidade virtual socialmente criada que não corresponde à particularidade de indivíduos. Estigmas provocam danos consideráveis às pessoas porque limitam oportunidades individuais, limitam a possibilidade de os indivíduos escolherem e buscarem projetos de vida. Esse processo pode ser visto como uma construção social porque os estigmas adquirem sentido dentro da lógica das relações de poder, se estabelecem entre grupos, responsáveis pela ideia de que a situação de desvantagem decorre das ações dos indivíduos, além de ser uma representação do outro como uma forma de alteridade radical, que não pode ser reconhecida como possuidora da mesma humanidade (idem, p. 385). 44 O estigma racial, enquanto instrumento ideológico, absorvido por grande parcela dos membros da sociedade sem qualquer avaliação crítica e passa a fazer parte das ideias e do imaginário popular (SANTOS, 2014, p. 264). 1.3. PRECONCEITO Como seu nome indica é um "pré" conceito, uma opinião, um palpite que se tem antecipadamente sem contar com informação suficiente para fazer um julgamento, ou seja, conceito sem estar fundamentado, conscientemente elaborado sobre uma determinada pessoa ou grupo social. São “opiniões” individuais que nascem da repetição impensada, maquinal, que muitas vezes nos leva a nutrir sentimento hostil, de antipatia, intolerância por uma determinada pessoa ou grupo, seja por conta de segmentos étnicos, religiosos ou origem, por exemplo, sem qualquer fundamento racional que possa validá-lo. Dificilmente poderíamos afirmar que somos desprovidos de preconceitos. Não é raro absorvermos uma informação, na maior parte das vezes negativa, sobre alguém, um grupo ou uma coisa e a certificarmos como verdadeira, mesmo pairando sobre ela sérias dúvidas ou até mesmo alguma falsidade. Não nos damos ao trabalho de buscar a veracidade da informação, e o pior, realizamos a partir dela juízos de valor e em várias situações até atuamos de acordo estas avaliações. Roger Raupp Rios (2008, p. 16-17), apresenta a abordagem psicológica que busca na dinâmica interna dos indivíduos as raízes do preconceito. Já a abordagem sociológica, define preconceito como uma forma de relação intergrupal onde, no quadro específico das relações de poder entre os grupos, desenvolvem-se e expressam-se atitudes negativas e depreciativas, além de comportamentos hostis e discriminatórios em relação aos membros de um grupo. O preconceito pode então ser definido como atitude irracional em relação a um grupo de pessoas. A irracionalidade aqui presente decorre do fato de que a atitude negativa em relação a certos grupos não encontra base adequada porque expressa conhecimento falso da realidade. Dessa forma, o preconceito pode ser visto como uma suspensão do dever e da necessidade de buscarmos conhecimento correto do mundo no qual vivemos (MOREIRA, 2020, p. 365). 45 Não podemos ignorar algo importante sobre esse processo: o preconceito também tem uma dimensão estratégica porque expressa o interesse de certos grupos em legitimar arranjos sociais que os beneficiam. Preconceitos motivam atitudes individuais e coletivas que se expressam por meio da discriminação de grupos, comportamentos que almejam manter arranjos sociais que beneficiam grupos e prejudicam outros (idem, p. 366). Você, profissional de segurança pública, precisa impedir que os seus (eventuais) preconceitos invadam a esfera de trabalho e, para isso é fundamental entender e identificar quais os tipos de preconceitos mais comuns nas sociedades em todo o mundo. Dessa forma, o preconceito tem diversas formas de ser percebido e ao longo do tempo também vai se modificando, todavia,alguns tipos são comuns e reconhecidos, dentre os quais destacam-se: a) Preconceito racial O preconceito racial é o mais comum dos preconceitos existentes no Brasil, atinge diretamente os negros e indígenas e está diretamente ligado ao fato de não terem origens europeias, sendo menosprezados por sua cor, cultura, organização política e social além de serem considerados menos capazes. b) Preconceito religioso Temos basicamente dois tipos de preconceito religioso hoje no Brasil, o que pode até causar alguma estranheza6. O primeiro preconceito religioso é de parte dos cristãos, de maneira geral, em relação às religiões de comunidades tradicionais de matriz africana e povo de terreiro, basicamente umbanda e candomblé; e em menor escala o preconceito que os cristãos frequentemente têm em relação ao xamanismo e ao islamismo que, por desconhecimento, costumam ser associados ao terrorismo. O judaísmo, a rigor, não enfrenta preconceito religioso que seja dirigido aos seus seguidores. Todavia, em geral, os judeus são preconceituados como 6 https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/intolerancia-religiosa.htm https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/intolerancia-religiosa.htm 46 pessoas abastadas, mesquinhas e exploradoras. Assim, tais práticas se enquadram também no conceito anterior, de preconceito racial. O segundo preconceito religioso é o existente entre os próprios cristãos, uma vez que a tradição católica do Brasil, trazida pelos portugueses, teve a quebra da sua hegemonia com a chegada de imigrantes europeus, especialmente os de origem alemã, que eram cristãos protestantes, mas acabaram sendo aceitos. Noutra ponta, evangélicos de algumas vertentes praticam e sofrem com o preconceito de fiéis de denominações distintas, como por exemplo, neopentecostais. c) Preconceito cultural O preconceito cultural é qualquer forma de depreciação da expressão ou manifestação cultural de um grupo social. O preconceito cultural provavelmente é o que mais se modifica e muitas vezes isso acontece rapidamente porque as manifestações culturais de um povo ou de parte dele, que no momento inicial sofre do preconceito, aos poucos transforma-se em um elemento característico de boa parte da população e passa a ser reconhecido e valorizado cultural e economicamente. Existe até um refrão bastante conhecido de autoria de Amilcka e Chocolate7 que se refere ao preconceito cultural: “É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado.”8 O funk e o rap exemplificam duas manifestações culturais de massa que atraem a juventude, não por coincidência negras, que cresceram nas periferias das cidades brasileiras, se transformaram em fenômenos que atraem fãs e multidões em seus eventos. Hoje, no Brasil e no mundo, o funk brasileiro é um ritmo consumido por milhões de pessoas de diversos perfis raciais e condições econômicas. Isso nos remete à história do samba que também foi considerado transgressor, marginal, "coisa de preto" e depois transformou-se em produto de exportação, um cartão de visitas do país. Com as escolas de samba, não foi diferente 7 Autores de funk - funkeiros - do Rio de Janeiro 8 Audiovisual em: https://www.youtube.com/watch?v=Z4aai7Bj2NY https://www.youtube.com/watch?v=Z4aai7Bj2NY 47 e hoje são responsáveis pelo Carnaval Brasileiro, maior espetáculo popular do planeta. O samba “Pra que discutir com Madame”9 de autoria de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa e que ficou conhecido pela interpretação de João Gilberto resume esse preconceito de forma irônica: “Madame diz que o samba tem cachaça É mistura de raça É mistura de cor, Madame diz que o samba é democrata É música barata Sem nenhum valor”10 Esses eventos vistos no seu surgimento como coisa de gente de “segunda classe”, gente de favela, do gueto, desrespeitosa de valores e costumes tradicionais, com o tempo são responsáveis por uma grande movimentação financeira para suas realizações, com faturamentos gigantescos para suas cidades, geradores de milhares de empregos e aumento de renda importantes onde se realizam. Isso acaba com o preconceito completamente ou ao menos diminui muito a forma preconceituosa como eram vistos. d) Preconceito linguístico Regionalmente em países de tamanho continental como o Brasil encontraremos formas diferentes de falar, muito embora todos nos expressamos através da língua oficial do país, o português. Os sotaques também são bastante distintos e a partir da forma de se expressar, muitas vezes, o preconceito leva a qualificar ou desqualificar uma pessoa ou grupo. A forma de falar do carioca, do paulista, do mineiro, do nordestino, do sulista, que numa região ou outra são bastante perceptíveis, podem levar uma pessoa ou grupo a ser preconceituosamente (des)classificado de alguma maneira. O preconceito linguístico também é observado em situações quando a pessoa é de comunidade periférica das grandes cidades, com baixa educação ou 9 Gravado pela primeira vez em 1945 10 Audiovisual em: https://youtu.be/ojr0HdBH_T8 https://youtu.be/ojr0HdBH_T8 48 pelas já culturais expressões locais, gírias. O jeitão de falar acompanhado, algumas vezes de gingas, desenvolvidas nas comunidades, especialmente entre os jovens cidadãos, acabam por ser motivo de preconceito linguístico, seja pela escolha das palavras ou expressões não-verbais. Em determinadas situações, o preconceito se expressa de forma agressiva e compromete até a segurança e ascensão social dessas pessoas. O uso de algumas expressões culturalizadas nos guetos são recebidas com preconceito em ambientes e grupos diferentes, especialmente entre policiais, que muitas vezes transformam essas falas em ações discriminatórias, sendo imprescindível reconhecer essa realidade e evitar que aconteça. Fato similar é observado no acesso ao mercado de trabalho formal, aquele de carteira assinada. Como ocorre com as manifestações culturais de música e da dança, as expressões idiomáticas - preconceituosamente chamadas de gíria - também são incorporadas por todos os setores da sociedade. Caô, parada, maneiro, tá ligado, integram algumas dessas expressões idiomáticas atuais que sem preconceito, a Rede Rio Hotéis, incluiu em sua plataforma11 para que turistas no Rio de Janeiro, o maior destino turístico do Brasil, estabeleçam melhor comunicação com os cariocas. Antes de julgar, perceba que as gírias são expressões populares típicas de grupos que buscam se identificar e fazer se representar. Palavras como “CARA” e “CARETA” eram típicas de grupos marginalizados que foram ganhando espaço social e aceitação coletiva, até que se tornaram populares e integram os diálogos atuais. Da mesma forma: você seria capaz de discriminar alguém pelo uso de termos como “grilado” ou “rachar o bico”? Ambas já foram estigmatizadas. Não é razoável relacionar as falas de um grupo ao caráter de um indivíduo. Expressões originárias das ruas não devem ser associadas às práticas de violência, por exemplo. Menos razoável é fundar o preconceito em palavras ou expressões de um grupo. e) Preconceito geográfico É o preconceito que existe em relação ao local de moradia, em geral acomete pessoas nas grandes e médias cidades do Brasil. 11 Fonte: https://rederiohoteis.com/conheca-as-girias-cariocas/ https://rederiohoteis.com/conheca-as-girias-cariocas/ 49 Uma abordagem policial, que se vale de outros preconceitos aqui citados para ser iniciada, pode se agravar quando o cidadão abordado responde que reside em um bairro pobre, periférico. Esse fato se torna especialmente mais delicado quando o abordado informa ser morador de uma favela conhecida, ou morro considerado perigoso. Essa situação, muitas vezes, é suficiente para considerar a suspeição de atos infracionais. Pacheco oportuniza a reflexão ao discorrer sobre a temática: quando se fala emlocais afastados, aqueles que possuem menor infraestrutura e maior abandono do poder público, logo já se pensa em violência e pobreza. As pessoas que habitam essas regiões fazem parte desse imaginário em virtude do qual são estigmatizadas. É como se o lugar fosse condenado e quem faz parte dele também. Figura 26 - Morro da Providência (RJ) por Arne Müeseler Tanto a maioria de nós quanto a polícia tendemos a presumir que as chances de um negro ser assaltante são inúmeras vezes maiores que as de sermos assaltados por um “branco”. Afinal, quem é maioria nas favelas, nos arredores dos lixões, nas periferias marginalizadas, nos diferentes locais onde a miséria é a tônica, onde o tráfico impera, (...) negando de todas as formas a cidadania? Fonte: Wikimedia / CC BY-SA 3.0 DE. A realidade que associa pobreza, racismo e violência não é nova e tampouco se restringe às grandes cidades. Estudando o Rio de Janeiro da década de 1950, Costa Pinto afirmava que, enquanto de cada 100 habitantes da cidade 27 eram “de cor”, nas favelas esse número se alterava radicalmente: nelas, para cada 100 moradores, 71 eram negros. A isso ele já chamava, na época, de “segregação étnica”. Quase meio século depois, em 2001, Ney dos Santos Oliveira utilizaria dados da PNAD de 1996 para analisar a desigualdade social na favela do Morro do Estado, http://arne-mueseler.com/ 50 localizada em Niterói, cidade que detinha na ocasião o índice de melhor qualidade de vida do Estado. Incrivelmente, os dados praticamente se repetem, não obstante o crescimento do País e, principalmente, das grandes cidades. Niterói registrava no seu centro 72% de moradores brancos e 28% de negros; no Morro do Estado, esses números simplesmente se invertiam, revelando 27,4% de brancos e 72,6% de negros. Figuras 27 e 28 - Mapa Racial de Pontos Fonte: Blog Desigualdades Espaciais. 51 Veja mais sobre a distribuição da população por localidade segundo os padrões de renda e moradia: https://desigualdadesespaciais.wordpress.com/2015/11/04/mapa-racial-da-cidade-do-rio-de- janeiro/ O preconceito geográfico também é visto como forte impeditivo de obtenção de emprego porque “se reside na favela é bom ficar esperto, não precisamos correr riscos” como se posicionam alguns recrutadores e empregadores. f) Preconceito profissional Trata-se de outra forma comum de conceitos prévios que a sociedade desenvolveu, que não tem fundamento e infelizmente pode levar uma pessoa à morte, como ocorreu no mês de maio de 2021 com o jovem negro Leandro Patrocínio. Ele estava num baile funk na favela de Heliópolis, em São Paulo, se divertindo como qualquer outro jovem, mas, quando identificada sua profissão de Policial Militar, foi barbaramente torturado, assassinado e enterrado em vala comum. Ele era um policial rodoviário e foi morto por bandidos em razão exclusivamente da sua profissão. As mulheres comissárias de bordo, garçonetes, motoristas, modelos, mecânicas, dançarinas, empregadas domésticas sofrem com o preconceito, inúmeras vezes, decorrentes de fetiches masculinos ou do sugestionamento quanto à identidade e expressão cultural. Preconceito que se percebe, ao verificar incontáveis casos de falsos profissionais que, sem a imprescindível formação, se apresentam como especialistas de atividades consideradas de elite, exercendo funções sem que sejam questionados. Por outro lado, quem se apresenta como operador de atividades modestas ou não aparenta pertencer a uma classe típica do serviço contratado, tende a ser desacreditado e discriminado, muitas vezes sendo obrigado a comprovar por diversos meios sua afirmação. g) Preconceito estético O preconceito estético é dos mais comuns nas abordagens policiais e acontece com muita frequência com jovens negros. Ultimamente tem acontecido também com pessoas de origem andina (peruanos e bolivianos), paraguaios e de https://desigualdadesespaciais.wordpress.com/2015/11/04/mapa-racial-da-cidade-do-rio-de-janeiro/ https://desigualdadesespaciais.wordpress.com/2015/11/04/mapa-racial-da-cidade-do-rio-de-janeiro/ 52 países com histórico de refúgio e emigração, cada vez mais presentes nas cidades brasileiras. Os negros estrangeiros de religião muçulmana ou que em razão de suas culturas usam vestimentas diferentes dos habituais do povo brasileiro também são muitas vezes abordados, porque no entender do ato discriminatório os primeiros são “terroristas” em potencial e os segundos “traficantes de drogas”. Os jovens negros, homens e mulheres das periferias com seus cabelos afros, roupas coloridas, bonés, calças largas chamam muito a atenção, mas, destacam-se os que andam vestidos com roupas, tênis, celulares de marcas consagradas, “normalmente usadas e adquiridas pelos jovens brancos” que residem nos bolsões de riqueza das grandes cidades. “Como um negro pode usar esses tênis?” Onde arrumou esse "X-phone"? h) Preconceito de gênero Ocorre quando se considera que pessoas pertencentes a determinada identidade de gênero são superiores aquelas de gênero diferente. Uma forma que, se verifica em maior frequência, de sentimentos negativos dos homens pelas mulheres. O sentimento de superioridade pelos homens, os levam a ter ações de desprezo direcionado às mulheres; e o que é mais grave, de se considerarem proprietários de suas namoradas, esposas, companheiras, algo que tem sido motivo de elevados registros de feminicídio. i) Preconceito social Finalmente chegamos ao preconceito social que é uma síntese de todos os demais, porque, no fundo, todas as formas de julgamento anteriormente estudadas estão associadas a uma relação de “superioridade versus inferioridade” de pessoas, do padrão de vida, do local e da casa onde se reside, da profissão exercida, da roupa que se veste entre todas as outras estudadas. Os estratos sociais no Brasil acabam se definindo no preconceito social e assim demarcando espaço geográfico, ocupação nas estruturas de poder, capacidade econômico-financeira, relações de emprego e na educação superior de boa qualidade. A desigualdade Étnico racial ainda é latente como consta nos dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que aponta:[...] a vulnerabilidade social de pessoas negras era 49% maior que de pessoas 53 brancas e esta diferença continuou alta em 2010, igual a 48%. Em números absolutos, os resultados evidenciam que a desigualdade de cor continua significativa, ou seja, os dez anos de referência não foram suficientes para minimizar ou reduzir esta desigualdade. (IPEA, 2017) Fica sempre evidenciada uma minuciosa divisão entre os que tem muito, os que tem o suficiente e os miseráveis. Esses últimos integram a parcela dos que não tem nada, porque no olhar preconceituoso, não teriam mérito para ter alguma coisa e estão ao final de tudo porque esse é o seu lugar. Podemos afirmar que, embora condenável, o preconceito não é a pior coisa nas relações sociais, uma vez que ele em si não se expressa, ele é íntimo, reservado, fechado, escondido. O problema passa a existir quando é externado, colocado para fora transformando-se em ato de DISCRIMINAÇÃO, que veremos um pouco mais adiante. 1.4. IDENTIDADE A identidade é um conjunto de características de um indivíduo que o distingue dos outros e o torna único. Essas características são pessoais, próprias e exclusivas, com as quais se podem diferenciá-lo de qualquer outra pessoa e saber quem “uma pessoa é.” Por certo você já compreendeu que aqui não estamos tratando de documento de identidade, conquanto, tenha uma forte semelhança que é a unicidade da identificação. A identidade aqui tratada é a do resultado de cada ser humano dentro da sua pessoalidade, da forma diferenciada de tomar atitudes, adotar determinado comportamento, expressar seus pensamentos, demonstrar ou esconder suas emoções,enfim, ter uma característica que permita inclusive, prever os seus comportamentos futuros. Sendo então a identidade reconhecida como um conjunto de características pessoais que torna um cidadão distinto de todos os outros, o tratamento personalizado, respeitoso, com dignidade humana deve sempre ser objeto da sua atenção. 54 Figura 29 - Identidade e cultura Fonte: Wikimedia. Você que atua na segurança pública deverá de sempre acautelar-se e reconhecer que uma pessoa manterá comportamentos coerentes com a sua construção de caráter, porque formou-se de determinada maneira ao longo da sua vida e traz influências do ambiente social em que foi criada e das experiências pessoais da família, escola, da religião e tudo o mais que a cercou ao longo da sua existência. Esse assunto é de tal complexidade que tem sido objeto de vários campos de estudos como, por exemplo, a psicologia, a antropologia, a política, o direito e a sociologia. Não temos como aprofundar em cada um deles, todavia, abordaremos especificamente alguns pontos relevantes da identidade sob o olhar multidisciplinar do tema. a) Identidade de Raça A população negra pelas diversas formas de discriminação que a atinge desenvolveu mecanismos de resistência que lhe dá característica de identidade racial específica, constatada por exemplo, com a necessidade de realização deste curso, que tem como objetivo reduzir o tratamento discriminatório que a alcança pelas diferentes instituições e seus servidores. 55 Ao estudar o tópico preconceito você já encontrou lados dessa realidade que mostram uma identidade definida e exclusiva de pessoas negras que são marcantes nessa comunidade. Alguns marcadores de identidade, tais como vestimenta, comportamento, identidades culturais como o ritmo, a dança, a religião, expressões verbais, dentre outros, apesar de não serem fundamentalmente exclusivos de pessoas negras, fomentam justificativas – como já vistas historicamente – que marginalizam a população negra. Expressões como “Isso é coisa de preto!” podem demonstrar exatamente o que estamos tratando. Sobretudo, considera-se que a identidade racial da população negra é estigmatizada. Está disseminada no nosso cotidiano e circula por todas as outras identidades sociais. b) Social Identidade social é o sentimento de um indivíduo para enquadrar-se a um determinado grupo e está intimamente ligada à sua posição, em relação ao lugar dos demais indivíduos dentro da sociedade em geral ou ao menos dentro do seu grupo social. Quando você escolheu ser um integrante do serviço público de segurança pública você definiu o seu grupo social por diferentes razões, como respeito social, capacidade financeira, poder de comando, poder político. Isso lhe dá uma condição de se colocar socialmente em diversos espaços e compará-lo ao de diversos outros indivíduos. c) Cultural Identidade cultural é aquela construída por todas as pessoas nas diversas formas de organização que integram o seu entorno. Apesar de cada indivíduo ser único e carregar a sua própria identidade, ele é moldado no seu meio ambiente, por isso, muitas vezes é fácil de ser identificado o grupo social onde foi formado e ser discriminado positiva ou negativamente. A Identidade Cultural enseja tradições, privilégios, crenças, preconceitos, preferências, conceitos advindos da sua categoria profissional ou outros que lhe sejam referência, como a dos policiais militares, dos médicos, dos cristãos etc. 56 d) De Gênero A identidade como uma pessoa se sente e se define em relação a si mesmo. Pode não estar diretamente relacionado com os órgãos genitais de quando nasceu, masculino ou feminino. O mais grave para os que não se identificam nas categorias que o seu físico lhes impôs, são as violações aos seus direitos humanos, como se para essas pessoas, tanto quanto para os que são étnica e racialmente discriminados, eles não existissem ou estariam condicionados ao que os discriminadores entendem como certo e errado. “A violência e a discriminação contra as pessoas com base na orientação sexual, identidade de gênero e características sexuais biológicas viola os direitos humanos e empobrece comunidades inteiras.” (Charles Radcliffe, Chefe de Assuntos Globais do Escritório de Direitos Humanos da ONU) 1.5. DISCRIMINAÇÃO Diz respeito a toda distinção, exclusão, diferenciação ou restrição baseada no sexo, raça, cor da pele, linhagem, origem nacional ou étnica, condição social, religião, idade, deficiência física ou mental etc., que tenha por objeto ou por resultado anular ou depreciar o reconhecimento, gozo ou exercício e em condições de igualdade de direitos de qualquer pessoa ou grupo de pessoas, violando, desta forma os direitos humanos e liberdades fundamentais e pode ocorrer em todas as esferas: pública, privada, política, econômica, cultural ou civil. Sabe-se que não somos iguais, o que não significa que não mereçamos igual tratamento, mesmo com as nossas diferenças. Discriminar, a princípio, não é uma ação negativa, aliás em determinadas circunstâncias é até positiva. Considerar que as diferenças geracionais são elementos para que discriminemos os idosos (os colocando em um grupo à parte), não consiste, repita-se, a princípio, em violação da dignidade dos membros deste grupo. Dessa forma, pode ser uma medida necessária para que os protejamos. 57 Figura 30 - Direito de expressão Fonte: Pickit. A discriminação é uma violência quando, de maneira arbitrária, se atribui a uma pessoa ou grupo social uma característica que o(s) torna(m) socialmente inferior(es) e, portanto, não merecedores de igual consideração e respeito. Discriminar, enquanto violência inferiorizar. Considerar que uma pessoa ou grupo não ostenta as mesmas qualidades morais que outra pessoa ou grupo. Por que atribuiríamos a alguém ou grupo social um sentido de inferioridade? O professor Adilson Moreira (2020, p. 328), ensina que a intenção de discriminar alguém está frequentemente baseada no interesse de preservação de arranjos sociais que mantêm certos grupos em uma situação de privilégio e outros em uma condição subordinada. Então, não se discrimina gratuitamente, existem intenções específicas: garantir algum privilégio, status ou uma utilidade material. Para tanto, o procedimento é complexo e sofisticado para que o desprezo seja reproduzido contra a pessoa discriminada - é preciso desqualificá-la, o que é feito quando atribuímos a ela sentidos negativos. Os procedimentos utilizados para isso são legitimados por série de estereótipos culturais, representações criadas por grupo majoritários, segmentos que têm o poder simbólico e político para construir e difundir sentidos culturais. Exercitemos... 58 Na atuação policial, o tratamento dispensado é igual para todas as pessoas? O que faz um homem negro ser considerado um suspeito nato? Certamente muitos diriam que a recorrência da prática de crime por homens negros faz presumir que sejam violentos, mas, trata-se de uma presunção que nunca foi comprovada, que não foi objeto de um experimento ou estudo que demonstre a verdade acerca dessa afirmação. De onde teria surgido, então, essa presunção? Sabe-se que crime é o que a sociedade decide que será, consequentemente, criminoso é quem a sociedade decide que será. Já perceberam que existe um grupo de pessoas que, por mais que se comportem de maneira altamente reprovável está livre de qualquer censura criminal? Nosso país ficou escandalizado quando os intocáveis começaram a ser presos e condenados por corrupção, algo inimaginável. O que os protegia até então? Com certeza o poder da decisão sobre o que será crime e quem será o criminoso. Para manter essa cobertura, é preciso direcionar as atenções, criar os bodes expiatórios.Não se pode descaradamente criar um crime para punir a conduta de um grupo e deixar outro se comportando de maneira tão ou mais grave, isento de reprovação. É necessário que o grupo que será o bode expiatório represente uma periculosidade que justifique a criminalização. Esta característica é arbitrariamente atribuída, como a de que o homem negro é perigoso e que o homem branco de olhos azuis não tem “cara de bandido”. Veja que neste processo se promove a separação entre quem é bom e quem é mau, quem é civilizado e quem é selvagem, o superior do inferior. Eis a perpetração da discriminação com as graves consequências de que dela decorrem. O que se confirma Adilson Moreira (Idem, p.329): Um ato se torna discriminatório quando ele impede o acesso de alguém a alguma oportunidade a partir de um critério que não possui relevância para o desempenho da atividade. Ele pode ser visto com injusto porque decorre de preconceitos contra integrantes de determinados grupos, preconceito generalizado que transforma uma característica em estigma. Esse ato pode ser visto como discriminatório porque perpetua a condição de subordinação dos membros de certo grupo. 59 A discriminação assume a forma de uma imposição indevida de arbitrariedade nas costas de membros de certos grupos porque adquire um caráter sistêmico, afetando diferentes esferas da vida das pessoas. Essas considerações nos mostram que discriminação pode ser vista como inferiorização e antipatia. A primeira está relacionada com os processos de sistema sociais de discriminação responsáveis pelas diferenciações de status entre grupos; a segunda indica a animosidade contra minorias em função de estigmas culturais que acompanham a vida das pessoas ao longo de toda a vida. Podemos dizer então que grupos majoritários discriminam grupos minoritários porque possuem interesse material na discriminação, uma vez que sistemas de discriminação têm o objetivo específico de manter vantagens materiais nas mãos de seus membros. (grifos nossos). A discriminação e suas consequências contrariam qualquer concepção de igualdade que poderíamos formular. Aniquilar as diferenças não é produzir igualdade, só tem sentido em falar deste princípio se for para garantir igual proteção aos diferentes; e ela implica na eliminação da inferiorização amparada nas esteriotizações e estigmatizações legitimadoras de violências. Na próxima seção trataremos da discriminação racial consistente na diferenciação e inferiorização dos indivíduos em razão da raça a que pertencem. 1.6. DIFERENÇA ENTRE DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO A discriminação ocorre quando um ou mais tipos de preconceitos se materializam em relação a alguma pessoa ou grupo por uma dessas ações. Com a devida cautela pode-se dizer que o preconceito é mera opinião, um pré-julgamento, um achismo que não causa danos ou prejuízo enquanto não acontece. A DISCRIMINAÇÃO, POR SUA VEZ, É A AÇÃO QUE PROVOCA UM RESULTADO. É fácil compreender, vejamos o exemplo: 60 Muito embora uma chefia não tenha simpatia pela crença religiosa de um subordinado, não o diferencia em relação aos demais subordinados na distribuição de tarefas, na progressão salarial, no tratamento respeitoso que tem com todos, assim ele controla o seu preconceito e não o discrimina profissionalmente tampouco como pessoa. Caso fosse o contrário e as ações do chefe fossem pautadas na diferenciação que agride, diminui e prejudica, o preconceito se transformaria em uma medida discriminatória e ele estaria, bem como a empresa, sujeito a diversas sanções judiciais e administrativas. Então muito cuidado ao executar sua função pública ou quando lhe for apresentado um fato que você tenha que decidir, conhecer e ter discernimento se é preconceito ou discriminação. Se houve a ação ou manifestação que externou o preconceito, transformou-se em discriminação. Dentre as diferentes formas de discriminação neste curso você está conhecendo de forma mais detalhada a discriminação racial. 1.7. DISCRIMINAÇÃO RACIAL Discriminação racial é toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo, ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais. (artigo 1º, § 1º do Estatuto da Igualdade Racial, Lei 12.288/10.)12 A discriminação por origem étnico-racial é uma das formas mais comuns no Brasil e traz muitas consequências prejudiciais às pessoas negras (leia-se pessoas de cores pretas e pardas, segundo classificação do IBGE). 12 Fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm 61 Figura 31 - Perfil Fonte: Yay Images. Em diversas ocasiões a discriminação racial se manifesta por atitudes involuntárias ou comportamentos inadequados ainda que bem-intencionados e isso não é estranho, veja esse exemplo: Uma pessoa branca convida diversas pessoas, dos diferentes lugares que socialmente frequenta, como local de trabalho, associação de moradores do bairro, vizinhança e igreja para uma festa em sua casa. Dentre os diversos convidados, chega uma família negra, a qual o anfitrião apresenta o pai da família para diferentes convidados brancos nos seguintes termos: “Este é o engenheiro da empresa onde trabalho, Fulano de Tal que fez pós-graduação nos Estados Unidos.” A apresentação continua e ao se referir sobre o amigo branco para o convidado negro, assim o faz: “_ Este é meu amigo Sicrano”. Percebeu? Para justificar a presença de uma família negra, ele se sentiu na obrigação de descrever a função e pontuar o currículo para seu outro convidado, a quem ele tratou apenas como um amigo, o Sicrano. O negro tinha que ser mais que um colega do trabalho para justificar perante as demais pessoas a sua presença naquele evento festivo: engenheiro e pós- graduado nos Estados Unidos. O autor da ação não notou sua discriminação e fez um comentário que entendeu elogioso, porém, necessário para justificar a sua relação com um negro que convida para uma festa na sua casa. Atos assim, não maldosos, entretanto intencionais, por vezes causam desconforto para o discriminado. 62 ATENÇÃO! A ofensa à honra ou à dignidade de alguém é crime de injúria. A injúria racial é classificada como crime contra honra e consiste na ofensa à dignidade de alguém, de forma individual, utilizando-se de elementos referentes à raça ou cor. O bem jurídico tutelado é a honra subjetiva do ofendido. O STF equiparou os crimes de Injúria racial aos crimes previstos na Lei 7716/89 (Crime de Racismo). A partir desta decisão a injúria racial torna- se imprescritível e inafiançável. O racismo consiste em um rol de diversas condutas discriminatórias direcionadas a um grupo social referido devido à sua cor, raça, etnia ou procedência nacional, cujo bem jurídico tutelado é a igualdade e, por isso, o crime possui natureza mais grave e é de ação penal pública incondicionada, devendo ser processado pelo Ministério Público. Vejamos um pouco mais sobre condutas consideradas discriminatórias. a) Discriminação positiva - ação afirmativa A discriminação em algum momento pode ser positiva? SIM! A essa forma de discriminação é chamada de Ação Afirmativa, que consiste num conjunto de medidas especiais voltadas a grupos discriminados e, historicamente defasados em relação a outros grupos sociais por fatos ocorridos no passado em que foram subjugados, que se mantém no presente. O objetivo das ações afirmativas é o de eliminar as desigualdades de forma que o grupo social que está em desvantagem e que quase sempre representa a maior parte da população, tenha políticas públicas e privadas para compensar a sua desvantagem competitivainicial em relação ao grupo social, geralmente minoritário, nas oportunidades de formação escolar, de empregos, saúde e desenvolvimento econômico. As ações afirmativas são executadas através de discriminações positivas tratando de forma desigual os grupos para que se criem oportunidades verdadeiras. 63 Um exemplo de ação afirmativa com tratamento desigual utilizado em diversos países foi a criação de um escalonamento de aplicações de vacinas para enfrentar a pandemia da COVID 19 iniciando o tratamento a partir dos mais velhos para os mais novos. Na falta de vacinas para imunizar em curto espaço de tempo toda população, os idosos foram discriminados positivamente porque integram o grupo de maior risco de gravidade e morte pela infecção. Outra forma de discriminação positiva e essa de todos conhecida, é a que estabelece cotas para negros que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas de forma garantir o acesso às universidades. Marcar racialmente a desigualdade no acesso ao ensino superior aumentou o número de universitários negros nas universidades públicas brasileiras na graduação e na pós-graduação. Duas reflexões sobre as ações afirmativas de cotas precisam ser feitas: I - A primeira é a que discute uma alegada “injustiça” porque tira o “mérito” dos melhores. II - A segunda reflexão a fazer é mostrar a discriminação racial e social contra alunos cotistas sob a alegação de que essa política de ação afirmativa inclui pessoas despreparadas, sem mérito para universidades públicas. Adiante... Pense! De um lado um menor número de jovens vestibulandos filhos de famílias que puderam desde antes do seu nascimento lhe dar condições de conforto, saúde, escolas particulares com excelentes professores, onde tiveram atenção especial para superar suas deficiências escolares, cursos complementares, viagens, férias, nenhuma preocupação com a sua sobrevivência e de sua família. De outro lado e em muito maior número, jovens que enfrentaram moradias simples, escolas públicas precárias, professores desvalorizados e com condições precárias de trabalho, reduzida carga horária, interrupções pelos mais diferentes motivos, trabalho nos horários que deveriam ser de folga 64 e/ou no período de férias para complementar a renda da família, alimentação da merenda escolar, constante pressão para trazer dinheiro para casa. Diante dessa realidade de milhões de pessoas no Brasil é possível alegar que o jovem negro que fará o vestibular concorrendo com o jovem branco das classes alta e média-alta, tem menor mérito e deveria ser tratado de forma absolutamente igual para ingressar na universidade pública criada e mantida com os impostos pagos por todos? Claro que não! As cotas foram introduzidas para suprimir apenas parte dessa distância e mostram excelentes resultados, como será apresentado no segundo ponto da nossa reflexão. A segunda reflexão a fazer é mostrar a discriminação racial e social contra alunos cotistas sob a alegação de que essa política de ação afirmativa inclui pessoas despreparadas, sem mérito para universidades públicas. Trata-se de um pensamento equivocado e que pode ser superado por meio de diversas pesquisas que se dedicaram a estudar sobre o tema. Estudiosos têm comprovado, dentro e fora do ambiente acadêmico, que o desempenho de alunos e alunas cotistas é tão bom e muitas vezes até superior ao dos demais alunos. São estudos baseados nos mais de 20 anos em que essa política foi adotada de forma pioneira pela UERJ – Universidade do Rio de Janeiro, até o momento em que a prática se espalhou, nos anos seguintes, por diversas outras universidades. A seguir, algumas pesquisas sobre o assunto: UNESP – Universidade Estadual Paulista13: Em 2014, a Unesp iniciou uma política de inclusão social por meio de cotas com a reserva 50% das vagas da graduação de cada curso e turno para alunos que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas, e deste montante, 35% das vagas reservadas para pretos, pardos e indígenas (PPI). Em 2020, um estudo coletou dados de mais de 30 mil alunos (cotistas e não cotistas) entre os anos de 2014 e 2017, para avaliar se houve alguma diferença 13Fonte:https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/36309/desempenho-de-cotistas-e-igual-ao-dos-demais- alunos-na-unesp https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/36309/desempenho-de-cotistas-e-igual-ao-dos-demais-alunos-na-unesp https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/36309/desempenho-de-cotistas-e-igual-ao-dos-demais-alunos-na-unesp 65 de desempenho acadêmico ou de frequência entre alunos cotistas e não cotistas. A conclusão principal é que não há diferenças relevantes entre os dois grupos. FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo14: A qualificação dos formandos que ingressaram no ensino superior por meio de ações de inclusão (cotas raciais e sociais, Prouni ou Fies) equivale ou até mesmo supera a de seus colegas. Esta foi a conclusão de um estudo que comparou o desempenho de mais de 1 milhão de alunos no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), no triênio 2012-2014. A pesquisa foi realizada por Jacques Wainer, professor titular do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas, e Tatiana Melguizo, professora associada da Rossier School of Education the University of Southern California. UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais: Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)15 mostrou que o desempenho dos alunos cotistas é igual ou superior ao dos demais graduandos em 95% dos cursos. IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada: Segundo o Ipea, os alunos cotistas apresentam desempenho próximo, similar ou até melhor em relação aos alunos não cotistas16. No Brasil 54 universidades públicas adotaram o sistema nos últimos anos, dentre elas a UNICAMP, Universidade Federal de Bahia (UFBa), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e desmistificaram essa ideia de que a cota vai “fazer o aluno desistir do curso por não acompanhar o ritmo” ou que o sistema de cotas “infla ainda mais o ódio racial”. Na Universidade de Brasília (UnB), 92,9% dos cotistas foram aprovados desde 2004, quando a política de cotas raciais foi instituída. O índice 14 Fonte: https://agencia.fapesp.br/politicas-de-inclusao-formam-estudantes-tao-capacitados-quanto- seus-colegas/24812/ 15 Fonte: https://www.otempo.com.br/cidades/alunos-cotistas-se-destacam-em-95-dos-cursos-da- ufmg-1.2070583 16 Fonte: https://jornalnc.com/Noticia/Cotistas-tem-melhores-notas-em-universidades--segundo- Ipea/351 https://agencia.fapesp.br/politicas-de-inclusao-formam-estudantes-tao-capacitados-quanto-seus-colegas/24812/ https://agencia.fapesp.br/politicas-de-inclusao-formam-estudantes-tao-capacitados-quanto-seus-colegas/24812/ https://www.otempo.com.br/cidades/alunos-cotistas-se-destacam-em-95-dos-cursos-da-ufmg-1.2070583 https://www.otempo.com.br/cidades/alunos-cotistas-se-destacam-em-95-dos-cursos-da-ufmg-1.2070583 https://jornalnc.com/Noticia/Cotistas-tem-melhores-notas-em-universidades--segundo-Ipea/351 https://jornalnc.com/Noticia/Cotistas-tem-melhores-notas-em-universidades--segundo-Ipea/351 66 para os demais universitários foi de 88,9%. A nota média dos cotistas foi de 3,79, contra 3,57 dos demais – na UnB a nota é de 0 a 5. Na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Estadual de São Paulo (Unicamp) a história se repete. Na primeira, os cotistas tiveram melhor rendimento em 11 dos 16 cursos da instituição e, na Unicamp, em 31 dos 55 cursos. Um estudo da ONG Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes (Educafro) junto à Uerj, estudantes negros e oriundos da rede pública, ingressantes entre 2003 e 2007, apresentaram maior coeficiente de rendimento médio (6,41 e 6,56 respectivamente) em relação aos não cotistas (6,37). b)Direito às Ações Afirmativas – dever do Estado, direito da cidadania Considerando que a discriminação racial positiva expressada pelas Ações afirmativas diminui as desigualdades e, assim, fazem a justiça social, se verifica que essa política pública encontra resistência sob a alegação da igualdade de todos nos termos do Texto Constitucional - o que é falso. Você deve sempre se lembrar que a Constituição Federal é formada por um conjunto de princípios e que seus artigos não podem ser analisados sem que se considere isso. Esses princípios estão inseridos em diversos momentos, desde o seu preâmbulo, passando pelos seus valores e em diversos artigos, em que dispôs a igualdade como um dos bens supremos da Federação. A constituição Federal estabelece no artigo 3º, incisos III e IV que constituem objetivos fundamentais do Brasil: III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. O artigo 5º caput dispõe que: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de igual natureza...” Sob a luz dos princípios fundantes do Brasil incluídos na Constituição Federal, os itens mencionados já seriam suficientes para justificar constitucionalmente as Ações Afirmativas, mas, para que não restasse dúvida a respeito dessa legalidade, o Supremo Tribunal Federal em todas as ações em que foi chamado a julgar a 67 legalidade dela, manifestou-se, sempre por unanimidade pela constitucionalidade. Destaque-se os trechos do voto do Ministro Celso de Mello17 que assim votou: Se a Constituição diz que todos são iguais perante a lei, cabe ao Estado adotar medidas para compensar “profundas desvantagens sociais” que impedem a concretização do princípio de igualdade. Em última análise, a falta de medidas desse tipo, chamadas de “ações afirmativas”, significa negar a um grupo de pessoas a dignidade da pessoa humana, outra garantia constitucional.” (...) “O tratamento diferenciado a ser conferido à pessoa negra, longe de vulnerar o princípio da isonomia, tem por precípua finalidade recompor o próprio sentido de igualdade que anima as instituições republicanas, motivo pelo qual o intérprete há de observar, no processo de indagação do texto normativo que beneficia as pessoas negras, os vetores que buscam dar concreção ao postulado segundo o qual todos são iguais perante a lei”, completou o ministro Celso de Mello, em seu voto. (...) “A adoção de mecanismos compensatórios, fundada em políticas públicas de ação afirmativa, tem por explícita finalidade contribuir para a realização, no plano material, do princípio constitucional da igualdade, além de revelar extrema fidelidade à exigência, que é também constitucional, de viabilizar a promoção do bem-estar de todos, de erradicar a marginalização e de fazer respeitar o postulado da dignidade da pessoa humana. (grifamos)I A seguir você verá outros instrumentos legais de ações afirmativas. c) Estatuto da Igualdade Racial A norma legal brasileira que regulamentou os dispositivos constitucionais de promoção da igualdade racial é o Estatuto da Igualdade Racial criado pela Lei 12.288/201018 que, em seu artigo 1º caput, esclarece de maneira precisa a sua vocação: "destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica." 17 Fonte: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADC41votoCM.pdf 18 Fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADC41votoCM.pdf http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm 68 Esse Estatuto define a efetividade da igualdade de oportunidades, que são as Ações Afirmativas, de modo prático no artigo 4º inciso II e em seu parágrafo único: Art. 4o A participação da população negra, em condição de igualdade de oportunidade, na vida econômica, social, política e cultural do País será promovida, prioritariamente, por meio de: (...) II - adoção de medidas, programas e políticas de ação afirmativa; Parágrafo único. Os programas de ação afirmativa constituir-se-ão em políticas públicas destinadas a reparar as distorções e desigualdades sociais e demais práticas discriminatórias adotadas, nas esferas pública e privada, durante o processo de formação social do País. d) Normas internacionais de ações afirmativas Como você já sabe, o Brasil como um país importante no contexto mundial é integrante das mais respeitadas organizações de regulação da ordem internacional como a Organização das Nações Unidas (ONU), Organização dos Estados Americanos (OEA), Banco Mundial (BIRD), Fundo Monetário Internacional (FMI) e diversas outras. Assume compromissos legais através de convenções, tratados e acordos, que passam a integrar o nosso sistema normativo19 e devem obrigatoriamente serem cumpridos, sob pena de o País sofrer sanções internacionais. Há condenações do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos20, órgão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos – CIDH, como a ocorrida no caso Simone André Diniz, 12.001, encerrado em 21 de outubro de 2006.21 19 Constituição Federal – Artigo 5º § 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais; § 4º O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão. 20 A Corte Interamericana de Direitos Humanos é um órgão judicial autônomo que tem sede em San José, Costa Rica, cujo propósito é aplicar e interpretar a Convenção Americana de Direitos Humanos e outros tratados de Direitos Humanos. Faz parte do chamado Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos.Saiba mais em: http://www.cidh.org/annualrep/2006port/BRASIL.12001port.htm 21 http://www.cidh.org/annualrep/2006port/brasil.12001port.htm http://www.cidh.org/annualrep/2006port/BRASIL.12001port.htm http://www.cidh.org/annualrep/2006port/brasil.12001port.htm 69 Alguns desses instrumentos legais que o Brasil é signatário trazem em seu bojo de forma expressa o direito de aplicação de ações afirmativas como a: 1. Convenção 111 da OIT Artigo 2 Qualquer Membro para o qual a presente convenção se encontre em vigor compromete-se a formular e aplicar uma política nacional que tenha por fim promover, por métodos adequados às circunstâncias e aos usos nacionais, a igualdade de oportunidades e de tratamento em matéria de emprego e profissão, com o objetivo de eliminar toda discriminação nessa matéria; 2. Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. Artigo 1 – 4. "Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar a tais grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais, contando que, tais medidas não conduzam, em consequência, à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sidos alcançados os seus objetivos. É de se concluir então que a discriminação contém dois aspectos: (i) o negativo que expõe os preconceitos e estereótipos e; (ii) o positivo que é uma forma de reconhecer a necessidade de ações políticas de medidas especiais com o objetivo de aniquilar as desigualdades. AULA 2. RACISMO E ORGANIZAÇÃO SOCIAL Antes de aprofundarmos os estudossobre o racismo e a organização social, é preciso discutir uma afirmação ancorada no senso comum e rotineira: como já vimos, o conceito de raça, a partir do critério biológico, foi abandonado há tempos, todavia cuidamos hoje de uma acepção a partir do seu aspecto sociopolítico. Estudos mais recentes sobre raça classificam-na como uma construção social. Os que compreendem dessa forma argumentam que a raça não existe como uma realidade biológica, mas sim como um mecanismo de classificação de indivíduos decorrente de um processo cultural chamado de racialização. Membros de um grupo racial dominante tem o poder de criar sentidos culturais, poderes que utilizam para 70 RACISMO Método Instrumento Efeito Objetivo Espaço Extensão atribuir conotações negativas a traços fenotípicos dos grupos humanos que querem explorar economicamente. Assim, não temos raças humanas, mas processos culturais a partir dos quais categorias de classificação dos seres são criadas num contexto histórico específico (MOREIRA, 2020, p. 560). Compreendido o conceito de raça no sentido acima transcrito, podemos definir a discriminação racial (racismo) como processo de inferiorização de uma pessoa ou grupo social por meio de um processo de desprezo à raça, impondo-lhes, de forma sistemática, desvantagens jurídicas, econômicas e sociais. Para Adilson Moreira (2020, p.555), uma sociedade que opera com uma ordem racial classifica grupos humanos em grupos raciais, o que será utilizado para atribuir um status social privilegiado a certas pessoas e um status social subordinado a outras. Os que pertencem ao primeiro grupo terão acesso privilegiado a oportunidades de recursos, enquanto os pertencentes ao segundo grupo são impedidos de exercer a cidadania de forma plena porque são sempre discriminados. Os membros do grupo racial dominante mantêm o controle sobre os recursos econômicos e sobre a vida política, o que garante o domínio sobre minorias raciais ao longo do tempo. A possibilidade de mobilidade social de membros discriminados é limitada por normas legais, muitas vezes discriminatórias pela utilização de práticas sociais e representações culturais que têm o propósito de impedir que chances de inserção coletiva estejam abertas às minorias raciais. Para compreender a dinâmica do racismo, o citado professor sistematiza as suas definições da seguinte forma: Figura 32 - Dinâmica do Racismo Fonte: CEAD/Segen. 71 I - SOBRE O MÉTODO Ela (a discriminação racial), pode expressar por uma motivação baseada nos diversos estereótipos raciais negativos sobre minorias que circulam no meio social (MOREIRA, 2020, p. 562). Os estereótipos negativos sobre as pessoas negras contribuem decisivamente para a reprodução do racismo, pois constituem representações sociais sobre o grupo ao qual elas pertencem como não tendo o mesmo status que o grupo dominante. Para segregar os grupos sociais, os estereótipos são indispensáveis. Na atividade policial, por exemplo, os julgamentos dos comportamentos das pessoas são operados a partir de estereótipos, sejam aqueles que sustentam que determinadas pessoas estão acima de qualquer suspeita, sejam aqueles que determinam que outras são naturalmente suspeitas. O caminho do meio – a averiguação objetiva dos fatos - é uma tarefa complexa, especialmente diante da ação deliberada e sofisticada de grupos dominantes em promover a reprodução e circulação dos estereótipos que preservem os seus status e que favoreça a subordinação de outros. Figura 33 - Pesquisar para compreender Fonte: Pickit. II - SOBRE OS INSTRUMENTOS A discriminação racial implica na existência de prática arbitrárias dirigidas contra minorias raciais, como impedir o acesso de minorias raciais a empregos públicos, oportunidades educacionais em instituições públicas ou privadas ou impedir a ascensão profissional (Idem, p. 563). Podemos acrescentar ainda, o acesso ao sistema de justiça criminal, como são processadas e julgadas as pessoas negras. III - SOBRE OS EFEITOS As consequências podem assumir diversas formas e dependem da consideração do contexto social e do momento histórico no qual práticas discriminatórias correm: marginalização cultural, exclusão econômica, segregação espacial, danos físicos e psicológicos; (Idem, p. 564). 72 IV - ACERCA DO OBJETIVO A discriminação racial faz parte de um programa de dominação social que tem como objetivo a manutenção dos privilégios raciais que beneficiam os membros dos grupos racialmente dominante (Ibdem). V - NO QUE REFERE AO ESPAÇO A discriminação racial se reproduz tanto no ambiente público quanto o privado (Idem, p. 565). VI - QUANTO À EXTENSÃO A discriminação racial possui um caráter cumulativo porque os padrões de discriminação racial ocorrem nos diversos sistemas sociais. Eles estão presentes na vida política, no campo cultural, na dimensão econômica. Não apenas em um momento histórico, mas ao longo das gerações. A discriminação racial pode ocorrer na forma de microagressões, mas elas não acontecem isoladamente e nem na vida de alguns membros de minorias raciais. Elas estão presentes nas diferentes instâncias da vida dos indivíduos, e o impactos delas importa em custos significativos para membros de minorias raciais (Ibdem). 2.1. ENTÃO, O QUE É O RACISMO? É a crença, segundo a qual, as capacidades humanas são determinadas pela raça ou origem étnica, muitas vezes expressada na forma de uma afirmação de superioridade de uma raça ou grupo sobre os outros. Figura 34 - Sérias consequências Fonte: Pickit. 73 A Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, um dos principais tratados internacionais em matéria de Direitos Humanos do qual o Brasil é signatário, foi adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 21/12/1965, que entrou em nosso ordenamento jurídico em 4 de janeiro de 1969 com a edição do Decreto 65.810/69,22 define assim o racismo: Artigo I 1. Nesta Convenção, a expressão “discriminação racial” significará qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseadas em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tem por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício num mesmo plano, (em igualdade de condição), de direitos humanos e liberdades fundamentais no domínio político econômico, social, cultural ou em qualquer outro domínio de vida pública. No Brasil e em outros países do continente americano, a maioria - não a totalidade – das pessoas escravizadas eram negras trazidas do continente africano e com isso, a subalternidade e a discriminação das pessoas de cor negra ainda persistem, apesar da existência de mais esse instrumento legal de caráter internacional. Também os indígenas escravizados, que têm características físicas marcantes, são vítimas da discriminação étnico-racial no Brasil e nos demais países da América, muito embora sejam seus habitantes originários. Merece atenção, igualmente o racismo em relação aos orientais de origem japonesa, que já foram negativamente discriminados no Brasil, que hoje ocorre com os orientais de origens chinesa e coreana. Outro instrumento legal de reconhecimento do racismo é a Declaração de Durban, produzido durante a III Conferência Mundial Contra o Racismo23, que afirma: racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, quando equivalem a racismo e discriminação racial, constituem graves violações de todos os direitos humanos e obstáculos ao pleno gozo destes direitos, e negam a verdade patente de que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e 22 Decreto 65.810/69: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1950-1969/D65810.html 23 Declaração de Durban: https://brazil.unfpa.org/pt-br/publications/declaracao-de-durbanhttp://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1950-1969/D65810.html https://brazil.unfpa.org/pt-br/publications/declaracao-de-durban 74 direitos, constituem um obstáculo para relações amistosas e pacíficas entre povos e nações, e figuram entre as causas básicas de muitos conflitos internos e internacionais, incluindo conflitos armados e o consequente deslocamento forçado das populações. 2.2. AS VÁRIAS MANIFESTAÇÕES DO RACISMO Figura 35 - Manifestações diversas Fonte: YaY Images. Definido e caracterizado o racismo, avancemos sobre as suas diversas manifestações: Individual – o racismo pode assumir a forma de uma discriminação interpessoal, situação na qual um ato discriminatório tem origem nas representações que um indivíduo específico guarda em relação aos membros de minorias raciais (Idem, p. 571). Institucional – ocorre na forma de negação de oportunidades, na dificuldade de se obter promoção dentro de uma instituição, no tratamento diferenciado quanto à oferta de serviços, bem como no acesso a eles. Essa manifestação de racismo motiva diversos tipos de tratamentos arbitrários contra pessoas negras, como prisões ilegais, assassinatos por agentes da segurança 75 pública, violência obstétrica, discriminação no mercado de trabalho, entre outras. O racismo institucional também pode ocorrer por meio de práticas e normas que causam um impacto negativo em membros de minorias raciais. (Idem, p. 573). Simbólico – Opera de acordo com lógica da cultura individualista, segundo a qual a eliminação de mecanismos oficiais de discriminação implicaria na automática retirada dos obstáculos à integração de minorias (Ibdem), ou seja, abolida a escravidão, a igualdade e liberdade reinaria para todos. Aversivo – os racistas aversivos sentem desconforto significativo no contato com pessoas negras, o que os levam a evitar esse contato. Eles estão convencidos de que a discriminação racial é algo contrário aos valores democráticos, mas ainda são influenciados por estereótipos negativos em relação a grupos minoritários (Idem, p. 574). Recreativo – este tipo opera pelo uso estratégico do humor racista por pessoas brancas e por instituições que também são controladas por pessoas brancas. Este tipo de humor permite que elas expressem condescendência, desprezo e ódio por minorias raciais, ao mesmo tempo em que possibilita a manutenção de uma imagem social positiva [sobre ele]. Nessa manifestação, se alega que todas as expressões de humor têm um caráter benigno (Idem, p. 574-575). Ao longo desse módulo veremos um pouco mais sobre essa modalidade. Racismo sem racistas – esse tipo de racismo tem um objetivo específico: deslegitimar medidas de inclusão racial. Seu tema central é a defesa da neutralidade racial como uma forma de justiça social (Idem, p. 576). Encoberto – aparece oculto por normas e práticas relacionadas às formas de associação ou afiliação de pessoas a grupos ou instituições. Assim, preferências por membros do grupo racial dominante são mascaradas por formas de discurso baseados na escolha por afinidade pessoal, por critérios meritocratas que não estão baseados em regras claras (Idem, p. 577). Estatístico ou racional – situação em que aquele que discrimina utiliza a identidade racial como sinal provável de outra característica, geralmente de caráter negativo (Ibidem). É o típico caso das generalizações estereotipadas do tipo que o negro é violento ou que o jovem negro é perigoso. Sistêmico/Organizacional ou Multidimensional – o racismo que transcende o âmbito da ação individual, frisa a dimensão do poder como elemento constitutivo das relações raciais, mas não somente o poder de um indivíduo, de uma 76 raça sobre outra, mas de um grupo sobre o outro. Em resumo: o racismo é decorrente da própria estrutura social, dos arranjos de poder, ou seja, do modo “normal” de se relacionar que acabam por disseminar e perpetuar práticas racistas. Consiste na organização e no funcionamento tradicional das instituições sob fundamentos complexos e multifacetados. São percebidos nas diversas relações existentes (sociais, políticas, econômicas, jurídicas e até familiares), não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. Comportamentos individuais e processos institucionais são derivados de uma sociedade cujo racismo é regra e não exceção, daí seu caráter multidimensional. A- Sistema Social Importante conceito é o de estrutura social... vejamos! A estrutura social refere-se à colocação e à posição de indivíduos e de grupos dentro de um sistema, partindo-se da constatação de que os membros e os grupos de uma sociedade são unidos por um conjunto de relações e obrigações, isto é, por uma série de direitos e deveres. Em outras palavras, o agrupamento de indivíduos, de acordo com as posições que resultam dos padrões essenciais de relações de obrigação, constitui a estrutura social de uma sociedade. Tal organização revela padrões, realidades, que dão a cada um de nós, um sentido para o lugar ao qual pertencemos, o que se espera que façamos e como nós devemos pensar e agir.24 Agora que você sabe o que é racismo e a complexidade dos elementos que o compõe, vamos entender um assunto muito tratado atualmente no Brasil, que é o multidimensional. 2.3. RACISMO MULTIDIMENSIONAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL Sob o ponto de vista das relações sistêmicas da sociedade, formal e informal tem-se que o racismo é multifacetado ou multidimensional. Isso é, organiza- se por meio de ações ou omissões nas distintas esferas da administração (pública e 24 Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Estrutura_social https://pt.wikipedia.org/wiki/Estrutura_social 77 privada), tal qual entre as organizações empresariais e sociais. A sistematização e o aprofundamento do tratamento desigual nas relações sociais acaba por influenciar e validar práticas institucionais. Isso é, um arranjo que tende a permitir o tratamento normal e natural de práticas de inferiorização e injustiças, como a imputação injustificada de elementos de suspeição, a atribuição de práticas de delitos ou a adoção de discursos que colocam a população negra como potencialmente delinquente. Revela-se por meio de normas ou ausência delas, de comportamentos que enfatizam situações vexatórias, de piadas e práticas que inferiorizam e são consideradas aceitas, ainda que gerem consequências negativas, ou seja, ilegais. Enfim, uma série de ocorrências discriminatórias que não causam indignação. O Racismo multidimensional, sistêmico e social se reflete também na aprovação de leis que mantém a exclusão e a falta de oportunidades para os desiguais sob a alegação de isonomia e assim impedem a adoção de medidas de ações afirmativas que possam efetivamente diminuir a diferença em relação aos não negros. Com base nesses pontos, o racismo no Brasil não é uma escolha intencional de cada indivíduo, é sempre o resultado da nossa estrutura social, presente em quase todas as relações de forma subjacente, ou seja, escondido, disfarçado. O Racismo no Brasil faz parte da nossa organização social e infelizmente é visto com normalidade por grande parte da sociedade. CUIDADO! Entender que o racismo é sistêmico e não um ato isolado de um indivíduo ou de um grupo, nos torna ainda mais responsáveis pelo combate ao racismo e às práticas consideradas racistas. Desse modo, não há que se duvidar da existência do racismo no Brasil ou tampouco afirmar que aqui ele é menos intenso que nos Estados Unidos ou qualquer outro lugar do Mundo. Tais fatos podem ser verificados a partir do momento em que a legislação se mostrou historicamente discriminatória, utilizou dos meios institucionais para perpetuar a desigualdade e a classe dominante não promove ações afirmativas. Permanece intenso, presente e constante na vida da população negra.78 Em nosso cotidiano, casos de racismo, discriminação racial, intolerância, são comuns, banalizados e só tomam uma dimensão maior quando entram nas redes sociais, o que hoje é muito comum e, posteriormente, repercutidos pela grande imprensa. O racismo multidimensional é cientificamente demonstrado e você pode constatar essa afirmação analisando: os números da violência, as menores oportunidades no mercado de trabalho, a população nos presídios, no comércio, nas universidades, na saúde e por aí afora. Os resultados mostram que o racismo brasileiro está introjetado na nossa estrutura social de forma que mal percebemos os seus danos ou muitas vezes o praticamos com naturalidade. Destaco alguns pontos que você precisa saber para reconhecer situações de racismo no seu trabalho e adotar as providências legais pertinentes. 2.3.1 - MERCADO DE TRABALHO Com cruel ironia, o negro, que foi escravizado para trabalhar gratuitamente por mais de 350 anos tem que enfrentar o racismo sistêmico ou multidimensional para obter emprego formal e, quando o consegue, costuma não ser tratado em igualdade de remuneração e de progressão profissional como seus colegas não negros. Gonzales (1979) explanou sobre essa diferença: Quando se trata de competir para o preenchimento de posições que implicam em recompensas materiais ou simbólicas, mesmo que os negros possuam a mesma capacitação, os resultados são sempre favoráveis aos competidores brancos. E isto ocorre em todos os níveis dos diferentes segmentos sociais. O que existe no Brasil, efetivamente, é uma divisão racial do trabalho.25 Existe no inconsciente mediano da população brasileira a colocação automática de pessoas negras em posição de subalternidade nos mais diversos ambientes de trabalho e mesmo que exerçam profissões de destaque e de reconhecida relevância para a sociedade, muitas situações constrangedoras acontecem como será a seguir demonstrado. 25 Lélia Gonzalez, 1979, p-2 GONZALEZ, Lélia. A juventude negra brasileira e a questão do desemprego. Texto apresentado na Segunda Conferência Anual do African Heritage Studies Association–abril 26-29. 1979. 79 I - O DELEGADO Presos por suspeita de desacatar guarda ofendem homem sem saber que era o delegado. Ainda de acordo com o delegado, o crime pode ser visto como um caso de racismo sistêmico ou multidimensional. “_ Eles não falaram nada racista, portanto, nenhuma injúria racial, mas ficou bem claro. Não cogitaram que eu fosse delegado em razão do racismo estrutural, por eu ser negro, ‘não posso ser um delegado?’ questionou.”26 II - O AGENTE POLICIAL CIVIL Policial civil negro é abordado e agredido por PM enquanto levava suspeitos: “- Vai, negão, deita no chão. Que polícia que nada, seu filho da P*** ". Essas foram as ordens que o policial civil negro W.V.S., 39, teria recebido de um policial militar branco, em frente à delegacia em que trabalha, no centro de São Paulo, enquanto conduzia três suspeitos para o Distrito Policial."27 III - A AGENTE DE TRÂNSITO Mulher é presa por injúria racial contra agente do Detran, no DF; passageira desceu do carro e chamou a servidora de 'preta velha do cabelo ruim'. Caso ocorreu durante abordagem em Samambaia.28 Mesmo em momento de gravidade como o trazido pela pandemia o racismo prepondera em algumas situações... IV - A ENFERMEIRA Enfermeira denuncia que homem não a deixou aplicar vacina contra Covid-19 por ser negra: 'Não tive reação'. O caso aconteceu em Ilhéus, no sul da Bahia. Estudante concluindo o curso de enfermagem e atuando, de forma voluntária, 26 Fonte: https://atarde.uol.com.br/brasil/noticias/2164859-presos-por-suspeita-de-desacatar-guarda- ofendem-homem-sem-saber-que-era-o-delegado 27 Fonte: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/06/10/policial-civil-e-abordado-e- agredido-por-pm-enquanto-conduzia-suspeito-a-dp.htm?cmpid=copiaecola 28 Fonte: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/mulher-e-presa-por-injuria-racial-contra- agente-do-detran-no-df-veja-video.ghtml https://atarde.uol.com.br/brasil/noticias/2164859-presos-por-suspeita-de-desacatar-guarda-ofendem-homem-sem-saber-que-era-o-delegado https://atarde.uol.com.br/brasil/noticias/2164859-presos-por-suspeita-de-desacatar-guarda-ofendem-homem-sem-saber-que-era-o-delegado https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/06/10/policial-civil-e-abordado-e-agredido-por-pm-enquanto-conduzia-suspeito-a-dp.htm?cmpid=copiaecola https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/06/10/policial-civil-e-abordado-e-agredido-por-pm-enquanto-conduzia-suspeito-a-dp.htm?cmpid=copiaecola https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/mulher-e-presa-por-injuria-racial-contra-agente-do-detran-no-df-veja-video.ghtml https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/mulher-e-presa-por-injuria-racial-contra-agente-do-detran-no-df-veja-video.ghtml 80 na vacinação contra o coronavírus em um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) da cidade.29 V - A ESTUDANTE Homem é preso por racismo após insultar voluntária negra da vacinação contra Covid em Pelotas, diz polícia. Estudante de curso técnico de Enfermagem fazia conferência dos documentos quando o homem reclamou que 'negro só atrapalha'.30 VI – A PROFESSORA Uma professora e historiadora viralizou nas redes sociais após relatar um caso de racismo sofrido em Belo Horizonte. Ela caminhava pela rua quando foi abordada por uma senhora branca que perguntou se ela fazia faxina (...) Ela respondeu: “faço mestrado” e comentou quando entrevistada sobre o episódio: “No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel.”31 VII – O OFICIAL Leia o depoimento abaixo: "Eu ministrava uma palestra on-line a pedido do Instituto de Relações Internacionais da USP. A proposta era falar sobre o programa da Polícia Militar de estruturação de métodos para mitigar o racismo estrutural fora e dentro da instituição. Mas fui interrompido por alguém que colocou uma animação na tela, com um som muito alto. Depois, a pessoa invadiu as minhas transparências e começou a escrever um ‘M’. Quando escreveu o ‘A’, eu já falei: ‘Vão escrever macaco’. Rabiscaram as minhas apresentações com raiva, fizeram desenhos obscenos e escreveram palavrões. Disse aos participantes, na maioria policiais e especialistas em segurança: “Nós estamos sendo vítimas de um ataque 29 Fonte: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2021/05/18/enfermeira-voluntaria-relata-que-homem- nao-deixou-ela-aplicar-vacina-contra-covid-19-porque-ela-era-negra-nao-tive-reacao.ghtml 30 Fonte: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2021/07/09/homem-e-preso-por-racismo- apos-insultar-voluntaria-negra-da-vacinacao-contra-covid-em-pelotas-diz-policia.ghtml 31 Fonte: https://www.cartacapital.com.br/educacao/voce-faz-faxina-nao-faco-mestrado-sou- professora/ https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2021/05/18/enfermeira-voluntaria-relata-que-homem-nao-deixou-ela-aplicar-vacina-contra-covid-19-porque-ela-era-negra-nao-tive-reacao.ghtml https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2021/05/18/enfermeira-voluntaria-relata-que-homem-nao-deixou-ela-aplicar-vacina-contra-covid-19-porque-ela-era-negra-nao-tive-reacao.ghtml https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2021/07/09/homem-e-preso-por-racismo-apos-insultar-voluntaria-negra-da-vacinacao-contra-covid-em-pelotas-diz-policia.ghtml https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2021/07/09/homem-e-preso-por-racismo-apos-insultar-voluntaria-negra-da-vacinacao-contra-covid-em-pelotas-diz-policia.ghtml https://www.cartacapital.com.br/educacao/voce-faz-faxina-nao-faco-mestrado-sou-professora/ https://www.cartacapital.com.br/educacao/voce-faz-faxina-nao-faco-mestrado-sou-professora/81 cibernético de crime de ódio e racismo. Vamos usar isso didaticamente aqui na aula”. Tenho 31 anos de PM e fui treinado para ter autocontrole. Engoli em seco, perdi parte do conteúdo didático e do raciocínio preparados para a apresentação. Absorvi o golpe e transformei a cena em exemplo para o momento."32 Os exemplos acima não autorizam qualquer margem de dúvida sobre como o racismo sistêmico afeta as relações de trabalho e você pode se aprofundar mais e melhor nesse tema acessando o site do CEERT - Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades - https://ceert.org.br/ Ainda sobre o racismo nas relações de trabalho veja algumas outras informações relevantes: 2.3.2 - TAXA DE DESEMPREGO E DIFERENÇA SALARIAL A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)33, revelou que, no final do quarto semestre de 2016, a taxa de desemprego entre os pretos era de 14,4% enquanto pardos representavam 14,1% e brancos 9,5%. A média nacional foi de 12%. Os trabalhadores brasileiros que estão empregados recebem em média R$ 2.043. O rendimento dos brancos é de R$ 2.660, dos pardos R$ 1.480 e dos pretos R$ 1.461. Ou seja, o ganho dos brancos está acima da média nacional enquanto o de negros está abaixo. a) Trabalho formal e informal A diferença entre os tipos de emprego contribui para essas desigualdades. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), cerca de metade dos brancos estão empregados em vagas com carteira assinada, enquanto negros se concentram no mercado informal, o que representa trabalhos mais instáveis e com alta rotatividade. 32 Fonte: https://veja.abril.com.br/brasil/engoli-em-seco-lembra-tenente-coronel-da-pm-sp-apos- ataque-racista/ 33 https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de- noticias/releases/25989-pretos-ou-pardos-estao-mais-escolarizados-mas-desigualdade-em-relacao- aos-brancos-permanece https://ceert.org.br/ https://veja.abril.com.br/brasil/engoli-em-seco-lembra-tenente-coronel-da-pm-sp-apos-ataque-racista/ https://veja.abril.com.br/brasil/engoli-em-seco-lembra-tenente-coronel-da-pm-sp-apos-ataque-racista/ https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/25989-pretos-ou-pardos-estao-mais-escolarizados-mas-desigualdade-em-relacao-aos-brancos-permanece https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/25989-pretos-ou-pardos-estao-mais-escolarizados-mas-desigualdade-em-relacao-aos-brancos-permanece https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/25989-pretos-ou-pardos-estao-mais-escolarizados-mas-desigualdade-em-relacao-aos-brancos-permanece 82 Figura 36 - Rendimento médio do trabalhador por cor Fonte: IPEA, 2021. A Convenção Nº 111 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sobre discriminação em matéria de emprego e profissão, anexo XXVIII do Decreto 10.088/2019: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Decreto/D10088.htm#art5 2.3.3 ESCOLARIDADE De acordo com o IBGE, a taxa de analfabetismo é de 22,3% entre negros e 5% entre brancos.34 A presença de negros nas universidades quase dobrou entre 2005 e 2015 como resultado da implementação de ações afirmativas através das cotas raciais e sociais. Em 2005, apenas 5,5% dos jovens pretos e pardos frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram ao ensino superior. Crescimento de mais de 200%. A desigualdade, porém, não acabou! 34 Saiba mais em: https://educacao.uol.com.br/noticias/2020/07/15/analfabetismo-entre-negros-e- quase-tres-vezes-maior-do-que-entre-brancos.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Decreto/D10088.htm#art5 https://educacao.uol.com.br/noticias/2020/07/15/analfabetismo-entre-negros-e-quase-tres-vezes-maior-do-que-entre-brancos.htm https://educacao.uol.com.br/noticias/2020/07/15/analfabetismo-entre-negros-e-quase-tres-vezes-maior-do-que-entre-brancos.htm 83 Comparados aos brancos, o número de negros no ensino superior ainda é menor e equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade, que é de 26,5% em 2015. Os negros (pretos e pardos) representam aproximadamente 56% da população brasileira, e, devido às políticas de cotas, o número de alunos negros no ensino superior cresceu quase 400%, entre 2010 e 2019, chegando a 38,15% do total de matriculados, segundo dados do site Quero Bolsa. Apesar disso, os negros ainda são minoria em cargos de liderança em empresas no Brasil. Dados do Instituto iDados35, de 2020, mostram que 37,9% dos homens e 33,2% das mulheres negras com diploma de ensino superior trabalham em cargos que não exigem o diploma. Essa pesquisa mostra que, apesar da escravidão ter sido abolida do Brasil há 134 anos, resquícios da estrutura social que segrega negros podem persistir até hoje. 2.3.4 SAÚDE A cada 5 brasileiros que possuem somente o SUS como serviço de saúde, 4 são negros. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2015, das pessoas que já se sentiram discriminadas nos serviços, por médicos ou outros profissionais de saúde, 13,6% destacam o viés racial da discriminação. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), a população negra apresenta os piores indicadores de saúde se comparados aos brancos. Além disso, 37,8% da população adulta e negra brasileira considera a própria saúde entre regular e muito ruim. Entre os brancos, a taxa é de 29,7%. Os dados são do Ministério da Saúde e apontam também que a proporção de pretos e pardos que fizeram consultas médicas em um ano é menor que a média nacional.36 I - Mortes na Pandemia Homens negros são os que mais morreram pela covid-19 no país: foram 250 óbitos pela doença a cada 100 mil habitantes. Entre os brancos, foram 157 mortes 35 https://www.em.com.br/app/noticia/diversidade/2022/03/21/noticia-diversidade,1354302/brasil-tem- mais-negros-em-universidades-mas-eles-sao-minoria-nas-empresas.shtml 36 Saiba mais em: https://www.medicina.ufmg.br/negros-morrem-mais-pela-covid-19/ https://www.em.com.br/app/noticia/diversidade/2022/03/21/noticia-diversidade,1354302/brasil-tem-mais-negros-em-universidades-mas-eles-sao-minoria-nas-empresas.shtml https://www.em.com.br/app/noticia/diversidade/2022/03/21/noticia-diversidade,1354302/brasil-tem-mais-negros-em-universidades-mas-eles-sao-minoria-nas-empresas.shtml https://www.medicina.ufmg.br/negros-morrem-mais-pela-covid-19/ 84 a cada 100 mil. Entre as mulheres, as que têm a pele preta também morreram mais: foram a 140 mortes por 100 mil habitantes, contra 85 por 100 mil entre as brancas. Os dados são do levantamento da ONG Instituto Polis37, que analisou casos da cidade de São Paulo entre 01 de março e 31 de julho de 2020. Outro levantamento, desta vez pelo IBGE, mostrou que mulheres, negros e pobres são os mais afetados pela doença. A cada dez pessoas que relatam mais de um sintoma da covid-19, sete são pretas ou pardas. A explicação para essa consequência da pandemia na população negra evidencia o que você está vendo nesse tópico do racismo organizacional em relação às desigualdades sociais. Os negros têm as piores condições de moradia, os que mais utilizam transporte público, os que tem menos oportunidade de trabalhar em casa (home office), as mulheres negras são, em boa parte, trabalhadoras domésticas, portanto, essa população de modo geral são os que frequentam ambientes de maior aglomeração. 2.3.5 - COMÉRCIO A população negra é fortemente discriminada nas relações de consumo e os/as profissionais de segurança pública exercem um forte papel de discriminação nos diversos atos de racismo que são comumente apresentados. Lojas, supermercados, shopping centers...Dos locais mais simples como supermercados e lojas em bairros populares aos estabelecimentos comerciais em bairros ricos e em shopping centers, é muito comum que mulheres, homens e mesmo crianças negras sejam racialmente discriminados e inúmeras vezes feridos em sua dignidade humana com: (i) conduções coercitivas e ilegais para cárceres privados existentes nesses estabelecimentos, muitas vezes acompanhadas de agressões físicas e tortura; (ii) revistas pessoais e vexatórias em público; (iii) chamada da PM para deter e conduzir à presença de autoridades policiais, negros acusados vítimas de versões mentirosas do ocorrido. 37 https://polis.org.br/estudos/raca-e-covid-no-msp/ https://polis.org.br/estudos/raca-e-covid-no-msp/ 85 São muitos os exemplos, destacando-se a morte de João Alberto no Carrefour Porto Alegre, em 20 de novembro – Dia da Consciência Negra – de 2020.38 Essa mesma rede de supermercados protagonizou evento muito semelhante 12 anos antes, com um funcionário da segurança da USP, acusado pelos seguranças do supermercado de roubar o seu próprio carro que, àquela época, era “muito luxuoso” para pertencer a um homem negro.39 I - Crianças negras Ainda mais grave são os atos de racismo contra crianças no comércio. Existem diversos casos de crianças negras que são agredidas fisicamente e obrigadas a comprovar que compraram as guloseimas que estão consumindo ou carregando na saída do supermercado. Há casos também de crianças negras acompanhando seus pais brancos que são colocadas para fora de estabelecimentos, como o ocorrido numa loja de grife em São Paulo (nesse caso pai e filho estavam sentados na calçada em um banco defronte a loja).40 Em uma concessionária de automóveis importados, em que o filho negro de um casal branco, enquanto seus pais compravam um carro, assistia a um desenho animado na televisão do estabelecimento, foi incitado a sair da loja pelo vendedor.41 Fato gravíssimo foi o de uma criança negra de 6 anos, nascida na Etiópia, não residente no Brasil, que não entende e não fala português, estava com seus pais espanhóis que entraram num restaurante para almoçar e em poucos minutos o menino que andava pelo estabelecimento ao sair da vista dos pais, que consultavam o cardápio, foi colocado para fora do estabelecimento, na rua, sozinho, “confundido com um moleque de rua”. 38 Matéria jornalística sobre o caso em: https://www.youtube.com/watch?v=hNMSJHxRN78&ab_channel=JornalismoTVCultura 39 Matéria jornalística sobre o caso em: https://www.assufrgs.org.br/2009/08/18/servidor-da-usp-e- espancado-por-ser-negro-suspeito-de-roubar-o-proprio-carro-no-estacionamento-do-carrefour/ 40 Matéria jornalística sobre o caso em: https://vejasp.abril.com.br/cidades/marca-de-roupas-animale- e-condenada-por-episodio-de-racismo/ 41 Matéria jornalística sobre o caso em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/01/casal-acusa- concessionaria-bmw-de-racismo-contra-filho-de-7-anos-no-rio.html https://www.youtube.com/watch?v=hNMSJHxRN78&ab_channel=JornalismoTVCultura https://www.assufrgs.org.br/2009/08/18/servidor-da-usp-e-espancado-por-ser-negro-suspeito-de-roubar-o-proprio-carro-no-estacionamento-do-carrefour/ https://www.assufrgs.org.br/2009/08/18/servidor-da-usp-e-espancado-por-ser-negro-suspeito-de-roubar-o-proprio-carro-no-estacionamento-do-carrefour/ https://vejasp.abril.com.br/cidades/marca-de-roupas-animale-e-condenada-por-episodio-de-racismo/ https://vejasp.abril.com.br/cidades/marca-de-roupas-animale-e-condenada-por-episodio-de-racismo/ http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/01/casal-acusa-concessionaria-bmw-de-racismo-contra-filho-de-7-anos-no-rio.html http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/01/casal-acusa-concessionaria-bmw-de-racismo-contra-filho-de-7-anos-no-rio.html 86 II) Carros de aplicativos: via de duas mãos Também em relação aos carros de aplicativos são bastante comuns os casos de racismo com uma característica mais comum do que em outros lugares do comércio onde ele também acontece, o racismo pode ser do motorista ou do usuário. (1) Motoristas racistas Existem muitos relatos de usuários, pessoas negras, especialmente homens, que não são atendidos quando o motorista vê a foto pelo aplicativo e cancela a corrida; ou se aproxima e vê que os clientes são negros e não param, seguem em frente ou, muitas vezes durante o percurso chamam a polícia, que aborda o veículo e submete os passageiros à revista, identificação e interrogatório. (2) Usuários racistas. Por outro lado, são significativos os casos de motoristas negros que, ao se apresentarem ao usuário que pediu o serviço, são dispensados pelo fato de serem negros. Campanha antirracismo A mais conhecida dessas plataformas, lançou no final de 2020 uma campanha de combate ao racismo no seu serviço com ampla veiculação publicitária, inclusive nas ruas das cidades e tem banido dos seus serviços, tanto motoristas quanto usuários racistas. 2.3.6 - RACISMO RECREATIVO Identificado anteriormente, voltemos rapidamente ao tema, considerando a sua presença nos meios vivenciados: o racismo recreativo. Em muitas oportunidades, notadamente em encontros informais ou profissionais, a existência de diversas pessoas, dentre elas negros, registram-se frequentemente em tom de intimidade, brincadeiras e piadas discriminatórias que expõem o racismo disfarçado do autor da “brincadeira”. 87 Essa forma de racismo foi objeto de estudo elaborado pelo constitucionalista doutorado pela Universidade de Harvard, Prof. Dr. Adilson Moreira, que o conceituou como racismo recreativo. O professor estudou em sua tese as implicações das piadas e brincadeiras com a questão racial que apontaram à conclusão: O humor racista é um tipo de discurso de ódio, é um tipo de mensagem que comunica desprezo, que comunica condescendência por minorias raciais. (...) O humor racista opera como um mecanismo cultural que propaga o racismo, mas que ao mesmo tempo permite que pessoas brancas possam manter uma imagem positiva de si mesmas. Elas conseguem então propagar a ideia de que o racismo não tem relevância social. Não podemos esquecer que o humor é uma forma de discurso que expressa valores sociais presentes em uma dada sociedade. O racismo recreativo existe dentro de uma nação altamente hierárquica e profundamente racista que formulou uma narrativa cultural de cordialidade racial. Ele reproduz estigmas raciais que legitimam uma estrutura social discriminatória, ao mesmo tempo que encobre o papel essencial da raça na construção das disparidades entre negros e brancos.”42 O agente de segurança pública precisa conhecer essa forma de manifestação racial para: (1) não a reproduzir e; (2) para não considerar irrelevante quando assistir ou quando for chamado a intervir na sua atividade funcional a aplicar a lei e porque o racismo em nenhuma situação é uma mera e inocente brincadeira. 42 Fonte: https://www.cartacapital.com.br/justica/adilson-moreira-o-humor-racista-e-um-tipo-de- discurso-de-odio/ https://www.cartacapital.com.br/justica/adilson-moreira-o-humor-racista-e-um-tipo-de-discurso-de-odio/ https://www.cartacapital.com.br/justica/adilson-moreira-o-humor-racista-e-um-tipo-de-discurso-de-odio/ 88 2.4. INFLUÊNCIA DA COR NO POLICIAMENTO OSTENSIVO Partimos para a última seção deste módulo e recorreremos aos elementos empíricos de reprodução dos conceitos estudados, que impactam a vida de milhões de brasileiros e brasileiras, colhidas ao longo do trabalho policial. Pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Carlos analisou dados sobre a abordagem policial em relação às variáveis cor/raça no Distrito Federal, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Foram dois tipos de informações colhidas: dados sobre ocorrências policiais e depoimentos de policiais. Nos casos de Minas Gerais e Distrito Federala população não branca – composta por afrodescendentes e descendentes de indígenas – corresponde a mais da metade da população. Mas as proporções de pessoas presas e mortas pela polícia chegam a ser 3 vezes maiores e, em alguns casos, é bem maior que isso. Em Minas Gerais, a discrepância de pessoas negras sancionadas pela polícia chega a ser quase 6 vezes maior do que a proporção de brancos. A pesquisa aponta ainda que pessoas negras sofrem de 3 a 7 vezes mais punições do que brancas. As informações apresentadas evidenciam que a maior parte das ocorrências registradas correspondem aos crimes contra a pessoa, patrimônio e uso de entorpecentes. Nestas três categorias, o número de pessoas negras sancionadas em flagrante é de duas a três vezes maior que o número de pessoas não negras (UFSCAR, 2020, p. 135). Na comparação interna aos grupos da análise, os negros são desproporcionalmente punidos em crimes contra o patrimônio e nos crimes envolvidos a entorpecentes, enquanto não negros são desproporcionalmente sancionados em crimes de trânsito e na categoria “outros”, evidenciando claramente os critérios de filtragem social e racial nestas categorias (Idem, 136). Os dados apresentam claro critério racial na atuação da polícia ostensiva, seja para o determinado tipo crime flagrado, seja pela natureza da prisão e por fim pela chance de ser preso em flagrante. Nesse sentido, percebe-se a reprodução de estigmas e estereótipos raciais que desnivela o status dos negros, impacta-os negativamente quantos ao direito, à liberdade e à igualdade, cuja finalidade não é outra que não a dominação. 89 Assim, posto está o desafio, extinguir o fardo de desvantagens que recai sobre a população negra quando se trata da prestação do serviço de segurança pública. Não se trata da ausência deste serviço para promover a proteção dessa população, mas da sua prestação orientada pelo princípio da igualdade. A Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado (art.9). Também prevê que todo o homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa (art. 11.1). Também é preciso observar o que dispõe a Convenção Americana Sobre Direitos Humanos - Pacto de San José: Ninguém pode ser submetido a detenção ou encarceramento arbitrários (art. 7.3). Assim como o art. 11, que estabelece que: 1. Toda pessoa tem direito ao respeito de sua honra e ao reconhecimento de sua dignidade. 2. Ninguém pode ser objeto de ingerências arbitrárias ou abusivas em sua vida privada, na de sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas ilegais à sua honra ou reputação. 3. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou tais ofensas. Dispositivos que nos auxiliam na compreensão do significado dos resultados da pesquisa acima colacionados. Por fim, não podemos deixar de invocar o Pacto internacional Sobre Direitos Civis e Políticos, artigos 10 e 17, que exigem: - Toda pessoa privada de sua liberdade deverá ser tratada com humanidade e respeito à dignidade inerente à pessoa humana (art. 10.1). - Ninguém poderá ser objeto de ingerências arbitrárias ou ilegais em sua vida privada, em sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas ilegais às suas honra e reputação. (art. 17.1). - Toda pessoa terá direito à proteção da lei contra essas ingerências ou ofensas. (art. 17.2). Chamamos a atenção ao trazer estes documentos para o robusto significado que carregam: a proteção dos indivíduos diante das interferências estatais. 90 A mensagem da comunidade internacional, que não é de proibição de intervenções, mas a imperiosa necessidade de respeito à dignidade da pessoa, à liberdade e à igualdade. A coletânea de normas internacionais apontadas não significa a inexistência de arcabouço legal no Brasil, inclusive, veremos no próximo módulo as principais normativas que tratam do tema e da atuação do profissional de segurança pública no atendimento à população. Para tanto, deve-se promover a antidiscriminação, haja vista que a omissão é igualmente racista. No próximo módulo, vamos conhecer vários mecanismos antidiscriminatórios presentes na nossa legislação. FINALIZANDO Neste módulo você estudou: ● A definição de racismo e os efeitos adversos da prática; ● Estudou os conceitos de estrutura e como as instituições são responsáveis pela extinção ou manutenção da prática discriminatória em seus ambientes; ● Aprendeu as diversas manifestações do racismo que promovem danos irreversíveis aos projetos de vida das pessoas discriminadas; ● Verificou situações que podem evidenciar a prática do racismo e que independente da intencionalidade, devem ser superados e a prática combatida. ● Discursos de superioridade que promovem a noção de seres inferiores, que utilizam de estereótipos para manutenção de condições de subserviência. ● Por fim, verificou com maior afinco, as características do que é conhecido por racismo sistêmico ou multidimensional e o potencial efeito desagregador que tende a gerar nas sociedades. 91 MÓDULO 3 - SISTEMA LEGAL DE PROTEÇÃO E A PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL O Brasil conta com um robusto sistema legal de proteção contra a discriminação racial, o qual vamos conhecer a partir de agora. Mas, os textos de leis não têm vida sem uma atitude interpretativa que apreenda fielmente a realidade brasileira e os horizontes históricos de uma sociedade marcadamente estruturada pelo racismo. A ação antidiscriminatória não cabe apenas às entidades públicas ou privadas, cabe aos agentes públicos e privados, encarregados da construção de uma sociedade livre, justa e solidária. OBJETIVOS DO MÓDULO ● Elencar os dispositivos constitucionais que reprimem a discriminação racial. ● Descrever os principais preceitos das convenções internacionais que o Brasil é signatário; ● Apontar e caracterizar as diferenças entre os crimes de injúria e o racismo; e ● Compreender os mais relevantes dispositivos do Estatuto da Igualdade Racial. ESTRUTURA DO MÓDULO Este módulo está dividido em 8 aulas: AULA 1 – A Constituição De 1988 AULA 2 – Declaração Universal Dos Direitos Humanos AULA 3 - Convenção Americana Sobre Direitos Humanos - Pacto De San José Da Costa Rica AULA 4 – Pacto Internacional Sobre Direitos Civis E Políticos AULA 5 - A Convenção Internacional Sobre A Eliminação De Todas As Formas De Discriminação Racial AULA 6 - Convenção Interamericana Contra O Racismo, A Discriminação Racial E Formas Correlatas De Intolerância AULA 7 - Crimes De Racismo E Injúria Racial AULA 8 - Estatuto Da Igualdade Racial 92 AULA 1. A CONSTITUIÇÃO DE 1988 A nossa Constituição cidadã, comprometida com a igualdade previu no artigo 1º que são fundamentos da República Federativa do Brasil, entre outros, a cidadania e a dignidade da pessoa humana. O art. 3º da Constituição dispôs os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; [...] IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. A igualdade está prevista no artigo 5º: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Trata-se de proibição de aplicação arbitrária da lei a qualquer pessoa e garante que todos tenham iguais oportunidades para realizar os seus projetos de vida. Impõe que todos tenhamigual consideração e respeito pelos agentes públicos e privados. Assim, três são as dimensões da igualdade: a formal, que garante igual tratamento perante a lei; a material, que reconhece a igualdade de oportunidade para acesso aos recursos; e, como reconhecimento, igual consideração aos projetos de vida de cada um, esta última, impede que grupos sistematicamente marginalizados e inferiorizados persistam nestas condições. Para impedir a discriminação racial, o inciso XLI dispõe que a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais. Previu pela primeira vez a repressão severa para o crime de racismo: XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei. O art. 216, § 5º, previu que ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos e o 93 art. 68, do Atos e Disposições Transitórias dispõe que aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. AULA 2. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS Trata-se do documento internacional mais significativo das conquistas civilizatórias no mundo moderno. O Brasil assinou a Declaração Universal dos Direitos Humanos no mesmo dia de sua adoção e proclamação, 10 de dezembro de 1948. A declaração condena qualquer discriminação, inclusive a de raça, que impeça que uma pessoa goze dos seus direitos. Não apenas garante que a pessoa exerça o direito ameaçado, como tenha o direito de que a discriminação seja punida: ARTIGO 2 1) Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. ARTIGO 7 Todos são iguais perante a lei e tem direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação. No que se refere à atividade policial, voltamos a citar o art. 9: Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado e o art. 11.1: todo o homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. Não é preciso dizer que o Brasil como adotante da Declaração se compromete em cumprir as suas determinações sob pena de sanção. 94 AULA 3. CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS - PACTO DE SAN JOSÉ DA COSTA RICA Outro conjunto de normas internacionais adotado pelo Brasil, em 25 de setembro de 1992, a Convenção Americana Sobre Direitos Humanos, pela qual se compromete a respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita a sua jurisdição, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social (art. 1). Na esfera das atividades interventivas, o Brasil se comprometeu a garantir que: ARTIGO 7 - Direito à liberdade pessoal 1. Toda pessoa tem direito à liberdade e à segurança pessoal. 2. Ninguém pode ser privado de sua liberdade física, salvo pelas causas e nas condições previamente fixadas pelas constituições políticas dos Estados Partes ou pelas leis de acordo com elas promulgadas. 3. Ninguém pode ser submetido a detenção ou encarceramento arbitrários. 4. Toda pessoa detida ou retida deve ser informada das razões da sua detenção e notificada, sem demora, da acusação ou acusações formuladas contra ela. 5. Toda pessoa detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença de um juiz ou outra autoridade autorizada pela lei a exercer funções judiciais e tem direito a ser julgada dentro de um prazo razoável ou a ser posta em liberdade, sem prejuízo de que prossiga o processo. Sua liberdade pode ser condicionada a garantias que assegurem o seu comparecimento em juízo. ARTIGO 11 - Proteção da honra e da dignidade 1. Toda pessoa tem direito ao respeito de sua honra e ao reconhecimento de sua dignidade. 2. Ninguém pode ser objeto de ingerências arbitrárias ou abusivas em sua vida privada, na de sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas ilegais à sua honra ou reputação. 3. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou tais ofensas. 95 A seguir, destacam-se outras importantes proteções previstas no Pacto e que demandam empenho especial das autoridades brasileiras, pois não são igualmente conferidas a todas as pessoas e a raça tem sido fato distintivo. Trata-se do direito à liberdade de consciência e de religião: ARTIGO 12 - Liberdade de consciência e de religião 1. Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de religião. Esse direito implica a liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crença, bem como a liberdade de professar e divulgar sua religião ou suas crenças, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado. 2. Ninguém pode ser objeto de medidas restritivas que possam limitar sua liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças. 3. A liberdade de manifestar a própria religião e as próprias crenças está sujeita unicamente às limitações prescritas pela lei e que sejam necessárias para proteger a segurança, a ordem, a saúde ou a moral pública ou os direitos ou liberdades das demais pessoas. 4. Os pais, e quando for o caso os tutores, têm direito a que seus filhos ou pupilos recebam a educação religiosa e moral que esteja acorde com suas próprias convicções. As violações ao disposto nesta Convenção podem gerar sérias consequências para o Brasil. Já são vários processos, inclusive por excessos das interferências estatais, instaurados ou com condenações do Brasil por violações de direitos humanos. AULA 4. PACTO INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS Mais um importante documento internacional, cujas disposições, em 24 de janeiro de 1992, o Brasil decidiu seguir, em manifesto compromisso pela proteção dos direitos humanos, ameaçados por entre outras violações, pelas mais diversas formas de discriminação. Por isso, no art. 2, se compromete a: [...] a respeitar e a garantir a todos os indivíduos que se achem em seu território e que estejam sujeito a sua jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, religião, opinião política ou outra natureza, 96 origem nacional ou social, situação econômica, nascimento ou qualquer outra condição. Especificamente para as atividades de segurança pública o art. 9, prevê: ARTIGO 9 1. Toda pessoa tem direito à liberdade e à segurança pessoais. Ninguém poderá ser preso ou encarcerado arbitrariamente. Ninguém poderá ser privado de sua liberdade, salvo pelos motivos previstos em lei e em conformidade com os procedimentos. 2. Qualquer pessoa, ao ser presa, deverá ser informada das razões da prisão e notificada, sem demora, das acusações formuladas contra ela. 3. Qualquer pessoa presa ou encarcerada em virtude de infração penal deverá ser conduzida, sem demora, à presença do juiz ou de outra autoridade habilitada por lei a exercer funções judiciais e terá o direito de ser julgada em prazo razoável ou de ser posta em liberdade. A prisão preventiva de pessoas que aguardam julgamento não deverá constituira regra geral, mas a soltura poderá estar condicionada a garantias que assegurem o comparecimento da pessoa em questão à audiência, a todos os atos do processo e, se necessário for, para a execução da sentença. ARTIGO 10 1. Toda pessoa privada de sua liberdade deverá ser tratada com humanidade e respeito à dignidade inerente à pessoa humana. ARTIGO 17 1. Ninguém poderá ser objeto de ingerências arbitrárias ou ilegais em sua vida privada, em sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas ilegais às suas honra e reputação. 2. Toda pessoa terá direito à proteção da lei contra essas ingerências ou ofensas. O Pacto não deixou de se atentar para a discriminação racial, responsável por violações sistemáticas dos direitos humanos: Artigo 26 Todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito, sem discriminação alguma, a igual proteção da lei. A este respeito, a lei deverá proibir qualquer forma de discriminação e garantir a todas as pessoas proteção igual e eficaz contra qualquer discriminação por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, situação econômica, nascimento ou qualquer outra situação. 97 AULA 5. A CONVENÇÃO INTERNACIONAL SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO RACIAL A Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial foi adotada pelo Brasil em 1969, por meio da aprovação do Decreto nº 65.810, de 8 de dezembro. Sua ratificação expressou compromisso a adotar políticas de eliminação, em todas as suas formas, da discriminação racial. O art. II dispõe que os Estados partes condenam a discriminação racial e comprometem-se a adotar, por todos os meios apropriados e sem tardar uma política de eliminação da discriminação racial em todas as suas formas e de promoção de entendimento entre todas as raças e, para esse fim cada Estado Parte compromete- se a: ● efetuar nenhum ato ou prática de discriminação racial contra pessoas, grupos de pessoas ou instituições e fazer com que todas as autoridades públicas nacionais ou locais, se conformem com esta obrigação; ● não encorajar, defender ou apoiar a discriminação racial praticada por uma pessoa ou uma organização qualquer; ● tomar as medidas eficazes, a fim de rever as políticas governamentais nacionais e locais e para modificar, ab-rogar ou anular qualquer disposição regulamentar que tenha como objetivo criar a discriminação ou perpetrá-la onde já existir; ● proibir e pôr fim à discriminação racial praticada por pessoa, por grupo ou organizações por meio de todos os meios apropriados, inclusive se as circunstâncias o exigirem, por medidas legislativas; ● favorecer, quando for o caso, as organizações e movimentos multirraciais e outros meios próprios a eliminar as barreiras entre as raças e a desencorajar o que tende a fortalecer a divisão racial. Entre os dispositivos, o que mais nos interessa aqui é o art. V, que prevê: De conformidade com as obrigações fundamentais enunciadas no artigo 2, Os Estados Partes comprometem-se a proibir e a eliminar a discriminação racial em todas suas formas e a garantir o direito de cada uma à igualdade perante a lei sem distinção de raça, de cor ou de origem nacional ou étnica, principalmente no gozo dos seguintes direitos: 98 [...] b) direito à segurança da pessoa ou à proteção do Estado contra violência ou lesão corporal cometida que por funcionários de Governo, quer por qualquer indivíduo, grupo ou instituição. AULA 6. CONVENÇÃO INTERAMERICANA CONTRA O RACISMO, A DISCRIMINAÇÃO RACIAL E FORMAS CORRELATAS DE INTOLERÂNCIA Aprovada pelo Decreto Legislativo nº 1, de 18 de fevereiro de 2021 e promulgada pelo Decreto 10.932 de 10 de janeiro de 2022, o Brasil adotou esta importante Convenção para o combate ao racismo e a discriminação racial. Vale destacar que a Convenção foi aprovada pelo Brasil com status de emenda constitucional, portanto, é norma constitucional e como tal serve de fundamento a todas as normas jurídicas do país. Assim, qualquer lei ou ato normativo do poder público que contrariar a Convenção perderá a sua validade. Feito este esclarecimento, vamos conhecer algumas de suas disposições. Prevê o Artigo 2º que: “Todo ser humano é igual perante a lei e tem direito à igual proteção contra o racismo, a discriminação racial e formas correlatas de intolerância, em qualquer esfera da vida pública ou privada.” O art. 4º, por sua vez, estabelece que: Os Estados se comprometem a prevenir, eliminar, proibir e punir, de acordo com suas normas constitucionais e com as disposições desta Convenção, todos os atos e manifestações de racismo, discriminação racial e formas correlatas de intolerância, inclusive: [...] V. qualquer ação repressiva fundamentada em qualquer dos critérios enunciados no Artigo 1.1, em vez de basear-se no comportamento da pessoa ou em informações objetivas que identifiquem seu envolvimento em atividades criminosas; O artigo 7º garante o acesso aos serviços públicos e outros bens: Os Estados Partes comprometem-se a adotar legislação que defina e proíba expressamente o racismo, a discriminação racial e formas 99 correlatas de intolerância, aplicável a todas as autoridades públicas, e a todos os indivíduos ou pessoas físicas e jurídicas, tanto no setor público como no privado, especialmente nas áreas de emprego, participação em organizações profissionais, educação, capacitação, moradia, saúde, proteção social, exercício de atividade econômica e acesso a serviços públicos, entre outras, bem como revogar ou reformar toda legislação que constitua ou produza racismo, discriminação racial e formas correlatas de intolerância. Especialmente para o serviço de segurança, o combate ao racismo e à discriminação está previsto no art. 8º: Os Estados Partes comprometem-se a garantir que a adoção de medidas de qualquer natureza, inclusive aquelas em matéria de segurança, não discrimine direta ou indiretamente pessoas ou grupos com base em qualquer critério mencionado no Artigo 1.1 desta Convenção. Para os agentes de segurança pública há um dever adicional, o de combater o racismo e à discriminação sem desqualificar a ação do ofensor, como corriqueiramente ocorre nas autuações de crimes de injuria e racismo, especialmente com a alegação de que não houve a intenção de ofender, que se tratava de uma brincadeira, sendo que o nome dela é racismo recreativo, como denomina o Professor Adilson Moreira. Por isso, Artigo 10 - Os Estados Partes comprometem-se a garantir às vítimas do racismo, discriminação racial e formas correlatas de intolerância um tratamento equitativo e não discriminatório, acesso igualitário ao sistema de justiça, processo ágeis e eficazes e reparação justa nos âmbitos civil e criminal, conforme pertinente. AULA 7. CRIMES DE RACISMO E INJÚRIA RACIAL É comum as pessoas terem dúvidas sobre as diferenças que existem entre os crimes de racismo e injúria racial. Apesar da confusão, diferenciá-los exige análise quanto ao direcionamento da ofensa praticada. A injúria é uma ofensa contra uma pessoa específica, utilizando-se do 100 elemento raça para inferiorizá-la, como por exemplo, xingar uma pessoa de macaco, dizer que alguém deve voltar para a senzala ou a reprovação de algum comportamento porque a indivíduo é negro. O Código Penal prevê uma punição de reclusão de um a três anos e multa para a prática do crime de injúria racial, conforme artigo 140: “Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: § 3o Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”. Fique ligado! Em recente decisão, o Supremo Tribunal Federal considerou que o crime de injúria racial tambémé imprescritível, assim como ocorre com o crime de racismo, logo, pode ser apresentado em juízo a qualquer tempo. O entendimento fixado, a partir de agora, pelo Tribunal é o de que o legislador aproximou os tipos penais de racismo ao da injúria, inclusive quanto ao prazo da pretensão punitiva, ao aprovar a Lei 12.033/09, que alterou o parágrafo único do artigo 145 do Código Penal para tornar pública condicionada a ação penal para processar e julgar os crimes de injúria racial. Para mais detalhes, acesse: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=475646 No caso da injúria racial, apesar de aviltante, cabe suspensão condicional do processo e a reparação pode culminar numa prestação de serviços à comunidade ou no pagamento de cestas básicas. Todavia, sua prática exige intervenção do agente de segurança pública com a adequada prestação de atendimento pelo profissional à vítima. O racismo é crime direcionado ao grupo, ao coletivo, em decorrência da raça. Desta forma, pode-se notar que a caracterização do racismo reside no objetivo de ultrajar uma raça como um todo, seja uma comunidade negra, ou aos adeptos de uma religião em geral, como os judeus ou os católicos etc. https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=475646 101 É crime com potencial efeito danoso a um número elevado de vítimas, por isso, considerando-se a gravidade da prática, demandam a proteção extensiva pelo poder público. Trata-se de delito imprescritível e inafiançável, isto é, que pode ser apreciado e julgado pelo poder judiciário a qualquer tempo, sua prática não permite que seja arbitrada fiança. Desta forma, além de poder ser denunciado em qualquer momento, ainda que decorrido vários anos, ele está ao lado de crimes considerados excepcionalmente graves, como a ação de grupos armados, que não permite o usufruto do benefício da fiança, por exemplo. O racismo é uma ideologia e uma prática discriminatória. Enquanto ideologia afeta a coletividade de uma raça com a pretensão de inferiorização, marginalização e dominação, instituídas, na prática, pelos processos de discriminação sistemática. Quando falamos que a sociedade brasileira é racista, significa dizer que não há só desprezo e inferiorização de pessoas negras, mas também uma prática estruturante da marginalização que bloqueia o acesso destas pessoas às oportunidades para realização dos seus projetos de vida. Além disso, a discriminação racial enquanto prática, também viola direitos individuais, razão pela qual a lei pune comportamentos discriminatórios, conforme veremos a seguir. Outra legislação que deve ser minuciosamente analisada é a Lei 7.716, de 5 janeiro de 1989, prevê os crimes resultantes da discriminação de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. A norma estabelece penas para práticas que sejam consideradas discriminatórias e dispõe em seu artigo 16, que um dos efeitos da condenação é a perda do cargo ou função pública, para o servidor público, que deve ser motivada pelo juiz. É CRIME PRATICAR ALGUMA DAS CONDUTAS EM RAZÃO DA RAÇA DA PESSOA... - Impedir ou obstar o acesso de alguém, devidamente habilitado, a qualquer cargo da Administração Direta ou Indireta, bem como das concessionárias de serviços públicos; - Negar ou obstar emprego em empresa privada; recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm 102 cliente ou comprador; - Recusar, negar ou impedir a inscrição ou ingresso de aluno em estabelecimento de ensino público ou privado de qualquer grau; - Impedir o acesso ou recusar hospedagem em hotel, pensão, estalagem, ou qualquer estabelecimento similar; - Impedir o acesso ou recusar atendimento em restaurantes, bares, confeitarias, ou locais semelhantes abertos ao público; - Impedir o acesso ou recusar atendimento em estabelecimentos esportivos, casas de diversões, ou clubes sociais abertos ao público; - Impedir o acesso ou recusar atendimento em salões de cabeleireiros, barbearias, termas ou casas de massagem ou estabelecimento com as mesmas finalidades; - Impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residenciais e elevadores ou escada de acesso aos mesmos; - Impedir o acesso ou uso de transportes públicos, como aviões, navios barcas, barcos, ônibus, trens, metrô ou qualquer outro meio de transporte concedido; - Impedir ou obstar o acesso de alguém ao serviço em qualquer ramo das Forças Armadas; - Impedir ou obstar, por qualquer meio ou forma, o casamento ou convivência familiar e social; - Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Figuras 37, 38 e 39 - Segregação entre brancos e negros 103 Fonte: Wikimedia. Infelizmente, a legislação ainda não é devidamente aplicada na maioria dos casos que configuram repugnantes cenas violência, às quais assistimos diariamente. A desqualificação das condutas é rotina nas delegacias, no Ministério Público e até no Poder Judiciário, restando uma mera conduta jocosa, sem intenção, deslize do ofensor, apenas. 104 AULA 8. ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL A Lei nº 12.288/10 instituiu o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica. O art. 4º do Estatuto traça as diretrizes gerais de políticas públicas e ações afirmativas para a redução das desigualdades raciais e garantia da participação da população negra, em condição de igualdade de oportunidade, na vida econômica, social, política e cultural do País. Entre outras questões, exige a implementação de programas de ações afirmativas destinados ao enfrentamento das desigualdades étnicas no tocante à educação, cultura, esporte e lazer, saúde, segurança, trabalho, moradia, meios de comunicação de massa, financiamentos públicos, acesso à terra, à Justiça, e outros (inciso VII). Para o que interessa à segurança pública de maneira específica, a disposição do inciso III é de enorme importância: modificação das estruturas institucionais do Estado para o adequado enfrentamento e a superação das desigualdades étnicas decorrentes do preconceito e da discriminação. Da mesma forma, o inciso V, que exige a promoção de ajustes normativos para aperfeiçoar o combate à discriminação étnica e às desigualdades em todas as suas manifestações individuais, institucionais e estruturais. Entre os direitos fundamentais da população negra são destacados o direito à saúde (art. 6º ao 8º), o direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer (art. 9º ao 22). O direito à liberdade religiosa, de consciência e de crença e ao livre exercício dos cultos religiosos de matriz africana, tão importante para a parcela da população negra que as professam, está garantido nos artigos 23 a 26. As disposições sobre o acesso à terra e à moradia adequada estão previstas nos artigos 27 a 42. Destaque para o art. 39, que estabelece que: o poder público promoverá ações que assegurem a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho para a população negra, inclusive mediante a implementação de medidas visando à promoção da igualdade nas contratações do setor público e o incentivo à adoção de medidas similares nas empresas e organizações privadas. 105 Na linha destas medidas veio a Lei 12.990/2014 que instituiu a reserva aos negros de 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração públicafederal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União. A referida Lei ainda disciplinou a atuação dos meios de comunicação nos art. 43 a 46. O primeiro dispositivo estabelece que a produção veiculada pelos órgãos de comunicação valorizará a herança cultural e a participação da população negra na história do País. Foi instituído com a citada Lei o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) como forma de organização e de articulação voltadas à implementação do conjunto de políticas e serviços destinados a superar as desigualdades étnicas existentes no País, prestados pelo poder público federal. Como vimos, leis não faltam para que promovamos a igualdade racial. Acreditamos que consciência sobre a discriminação que abate sobre a população negra também não falte. Agora, a questão é atitude. Enquanto pessoas e agentes públicos temos o dever de cumprir o compromisso público do país, de dar ao texto frio da lei o significado da igualdade, da igual consideração e respeito a todo cidadão e cidadã deste Brasil. A segurança pública é elemento essencial para organização de uma sociedade composta por associados e associadas que devem ostentar o mesmo status político, jurídico, social e cultural, portanto, receber igual proteção do Estado e o igual dever de tolerância às interferências estatais. Segurança pública que protege de forma desigual e realiza a persecução penal de forma diferenciada em razão da raça não é segurança pública, talvez seja a segurança de um determinado público. 106 FINALIZANDO Neste módulo você estudou: ● O sistema normativo que está à disposição para o enfrentamento da discriminação e do racismo. ● Os tratados e principais instrumentos de proteção e combate ao racismo, como a Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, Convenção Interamericana Contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância e a Constituição Federal. ● Identificou os Crimes de racismo e injúria racial, e o detalhamento de pontos importantes do Estatuto da Igualdade Racial. 107 MÓDULO 4 – ATIVIDADE POLICIAL E IGUALDADE RACIAL A abordagem policial - modo informal de nomear a prática policial da busca pessoal43 - é um momento tenso, mas que deve ser técnico e exige do profissional de segurança pública preparação adequada, não devendo exteriorizar qualquer preconceito, ou seja, não discriminar para alcançar o objetivo da sua ação, evitando o enfrentamento entre o cidadão-policial e o cidadão abordado. Você deve observar se a sua ação está baseada nos fundamentos que autorizam e recomendam tecnicamente a abordagem, que não deve estar calcada em estereótipos, estigmas ou pré-julgamentos feitos antecipadamente face ao cidadão abordado. Sempre que os agentes de segurança pública cumprem a sua atividade com diligência e respeito à dignidade humana, os cidadãos que a acompanham ficam conscientes, orgulhosos e seguros de que outorgaram o direito do uso da força para quem a executa nos estritos limites da legalidade e em cumprimento aos princípios dos direitos humanos. Ao abordar uma pessoa perceba se não são os preconceitos e os estereótipos que estão conduzindo a “sua certeza” e guiando você para uma providência contra um cidadão apenas “pelo jeitão dele”. Tenha sempre presente o que você estudou no módulo anterior, no qual ficou demonstrado que além dos limites estabelecidos pela nossa Constituição Federal, o Brasil é integrante de um sistema regulatório de normas internacionais que devem ser obedecidas e replicadas. Dentre esse conjunto de regras encontra-se o “Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei”44 – estabelecido pela ONU através da Resolução 34/169 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 17 de dezembro de 1979. Lembre-se que, para o sucesso de uma boa e correta abordagem são necessários elementos relacionados ao planejamento, orientação, treinamento, 43 Ten.Cel. Ribeiro, Airton Edno. “A relação da Polícia Militar paulista com a comunidade negra e o respeito à dignidade humana: a questão da abordagem policial - Dissertação (Mestrado)-Universidade Federal de São Carlos 44 Acesso completo ao Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei - Resolução 34/169 da Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU) em 17 de dezembro de 1979 pelo link: https://cutt.ly/omJENIG https://cutt.ly/omJENIG 108 constante requalificação e definição de metas - e esta inclui a superação do racismo, não permitindo que os preconceitos e estereótipos conduzam as suas decisões. OBJETIVOS DO MÓDULO São objetivos do módulo: ● Definir as condições necessárias para o exercício legal e ético dos agentes da segurança pública; ● Apresentar os conceitos de dignidade da pessoa humana e correlacioná-los aos instrumentos normativos internos e externos; ● Reconhecer ações discriminatórias e instrumentos que combatam a sua prática; ● Identificar nas instituições de segurança condutas que denotam a prática do racismo sistêmico e institucional. ● Conscientizar o profissional que atua na proteção do cidadão sobre a importância de agir dentro dos limites éticos e legais esperados pela sociedade. ESTRUTURA DO MÓDULO Este módulo está dividido em 2 aulas: Aula 01 - Combater preconceitos e estereótipos Aula 02 – Análise e reflexão sobre as Abordagens Policiais 109 AULA 1. COMBATER PRECONCEITOS E ESTEREÓTIPOS O racismo, como você já sabe, é parte da estrutura social, das relações econômicas e de poder, que dificultam a ascensão da comunidade afro-brasileira nos mais diferentes campos de atuação - fato que impede o aperfeiçoamento da democracia constitucionalmente prevista. Como você viu no Módulo 2, os preconceitos, estereótipos, racismo e discriminação são coisas distintas e influenciam, quase sempre de forma prejudicial, tudo o que nos cerca. Em relação às instituições que promovem a segurança pública essa realidade, infelizmente, se faz presente. Há nesse contexto um agravante: quando agentes da segurança atuam sob a influência de preconceitos e estereótipos, transformam atos discriminatórios e racistas em atributos do exercício funcional, desvirtuando e mascarando as reais causas de seu intento. Os resultados nesses casos, infelizmente, são danosos e muitas vezes fatais. Nesse ponto, cabe uma reflexão: o racismo praticado pelo agente de segurança pública é mais grave, uma vez que ele tem capacidade de destruir vidas, prejudicar a relação do indivíduo com o Estado, afastar a população mais vulnerável e manchar internacionalmente a imagem de todo o país. As estatísticas e estudos acadêmicos45, inclusive das próprias forças de segurança pública (como veremos no módulo 5) reconhecem esse problema, sendo necessário sair do imobilismo e promover medidas para superar o tratamento desigual que vitimiza a população negra. É o que você faz ao acessar este curso, parabéns! Figura 40 - Abordagem e estereótipos Fonte: Canva. 45 https://www.scielo.br/j/sausoc/a/ctHxJZn497TXLJBhpSB8GRn/?lang=pt 110 Por serem órgãos do Estado, as instituições de segurança pública que agem através de seus servidores públicos são as legítimas detentoras da prerrogativa do uso da força o que, contudo, não as autorizam desempenhá-la de forma discriminatória e arbitrária, sob o falso escudo protetor do “cumprimento do dever.” Ao exercer suas prerrogativas de Estado, os agentes de segurança pública devem observar com precisão os princípios fundamentais previstos na Constituição Federal, com destaque para o artigo 3º e incisos que preceituam ser objetivo da República, entre outros princípios nela contidos: construiruma sociedade justa e solidária e erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. A palavra promover aqui grifada significa “possibilitar, propiciar, viabilizar”, que não aconteça abordagem, blitz ou operações policiais, motivados pela raça, cor ou qualquer outra forma de discriminação calcada em conceitos prévios ou estigmas. A abordagem policial, aqui alargada no seu entendimento para além daquelas feitas pelas polícias militares e civis, inclui ainda a condução, a apresentação e a guarda do detido à autoridade do delegado de polícia ou outra autoridade competente. Todos os envolvidos devem obedecer de forma rígida o PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, conforme determinação do inciso III, artigo 1 º da Constituição Federal. E o que é esse princípio da dignidade humana? A dignidade da pessoa humana é o princípio que visa proteger o ser humano contra tudo que lhe possa levar ao menosprezo e à desqualificação. A dignidade humana está garantida, além da nossa Lei Magna, por diversos outros diplomas legais internacionais do qual o Brasil é signatário (alguns já estudados anteriormente). É uma qualidade que todo ser humano possui, sem qualquer pré- requisito, independente da nacionalidade, sexo, cor, religião, raça, posição social, origem étnica, regional etc. A dignidade da pessoa humana surge para o indivíduo, no momento da concepção, antes mesmo do nascimento e o acompanhará eternamente, inclusive após deixar a vida. É tão importante que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é assim iniciada: Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e seus 111 direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo.46 Tal princípio foi reiterado na CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS PACTO DE SAN JOSÉ, que dispõe: Art. 11. Proteção da honra e da dignidade: Toda pessoa tem direito ao respeito de sua honra e ao reconhecimento de sua dignidade.” 47 A dignidade da pessoa humana não é mero direito, trata-se de muito mais que isso! É atributo inerente a cada ser humano, que não pode ser disposto, transacionado ou retirado. Está na essência do ser humano, é universal e considerada por muitos doutrinadores o valor constitucional mais importante dentre todos previstos pela Lei Maior. Após essa importante introdução, analisaremos algumas práticas adotadas pelas polícias administrativas e judiciárias com objetivo de chamar a atenção para as violações da dignidade humana que ocorrem nessas instituições. ATENÇÃO PARA RECENTE DECISÃO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA Revista pessoal baseada em “atitude suspeita” é ilegal. A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) considerou ilegal a busca pessoal ou veicular, sem mandado judicial, motivada apenas pela impressão subjetiva da polícia sobre a aparência ou atitude suspeita do indivíduo. Por unanimidade, os ministros consideraram que, para a realização de busca pessoal – conhecida popularmente como "baculejo", "enquadro" ou "geral" –, é necessário que a fundada suspeita a que se refere o artigo 244 do Código de Processo Penal seja descrita de modo objetivo e justificada por indícios de que o indivíduo esteja na posse de drogas, armas ou outros objetos ilícitos, evidenciando-se a urgência para a diligência. 46 https://declaracao1948.com.br/declaracao-universal/declaracao-direitos- humanos/?gclid=CjwKCAjwruSHBhAtEiwA_qCppgnZHoED2nuos6WGMcQqnhlTfFr0wYew0PIptAxV8 Xbmmz0cmkq7HRoCrY8QAvD_BwE 47 https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.htm#art244 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.htm#art244 https://declaracao1948.com.br/declaracao-universal/declaracao-direitos-humanos/?gclid=CjwKCAjwruSHBhAtEiwA_qCppgnZHoED2nuos6WGMcQqnhlTfFr0wYew0PIptAxV8Xbmmz0cmkq7HRoCrY8QAvD_BwE https://declaracao1948.com.br/declaracao-universal/declaracao-direitos-humanos/?gclid=CjwKCAjwruSHBhAtEiwA_qCppgnZHoED2nuos6WGMcQqnhlTfFr0wYew0PIptAxV8Xbmmz0cmkq7HRoCrY8QAvD_BwE https://declaracao1948.com.br/declaracao-universal/declaracao-direitos-humanos/?gclid=CjwKCAjwruSHBhAtEiwA_qCppgnZHoED2nuos6WGMcQqnhlTfFr0wYew0PIptAxV8Xbmmz0cmkq7HRoCrY8QAvD_BwE https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm 112 De acordo com o ministro relator do caso, a suspeita assim justificada deve se relacionar, necessariamente, à probabilidade de posse de objetos ilícitos, pois a busca pessoal tem uma finalidade legal de produção de provas. De outro modo, seria dado aos agentes de segurança um "salvo-conduto para abordagens e revistas exploratórias baseadas em suspeição genérica", sem relação específica com a posse de itens ilícitos. Diante da total ausência de descrição sobre o que teria motivado a suspeita no momento da abordagem, o ministro afirmou que não é possível acolher a justificativa para a conduta policial. A violação das regras legais para a busca pessoal, "resulta na ilicitude das provas obtidas em decorrência da medida", dando margem ainda à possível responsabilização penal dos policiais envolvidos. Abordagens policiais revelam racismo sistêmico Uma das razões para se exigir que a busca pessoal seja justificada em elementos sólidos – disse o ministro – é "evitar a repetição de práticas que reproduzem preconceitos estruturais arraigados na sociedade, como é o caso do perfilamento racial, reflexo direto do racismo estrutural". "Em um país marcado por alta desigualdade social e racial, o policiamento ostensivo tende a se concentrar em grupos marginalizados e considerados potenciais criminosos ou usuais suspeitos, assim definidos por fatores subjetivos como idade, cor da pele, gênero, classe social, local da residência, vestimentas etc." – declarou em seu voto. Passado mais de um século desde o fim da escravatura, apontou o magistrado, é inevitável constatar que a circulação dos negros no espaço público continua a ser controlada sob o viés da suspeição racial, por meio de abordagens policiais a pretexto de averiguação. "Infelizmente, ter pele preta ou parda, no Brasil, é estar permanentemente sob suspeita", acrescentou. 99% das buscas pessoais são infrutíferas 113 O ministro mencionou estatísticas oficiais das Secretarias de Segurança Pública de todo o país, segundo as quais só são encontrados objetos ilícitos em 1% dessas abordagens policiais – ou seja, a cada 100 pessoas revistadas pela polícia no Brasil, apenas uma é autuada por alguma ilegalidade. Além de ineficientes, comentou Schietti, tais práticas da polícia contribuem para a piora de sua imagem perante a sociedade, que passa a enxergá-la como uma instituição autoritária e discriminatória. O relator enfatizou, por fim, a necessidade de que todos os integrantes do sistema de Justiça criminal – incluindo delegados, membros do Ministério Público e magistrados – reflitam sobre seu papel na manutenção da seletividade racial, ao validarem, muitas vezes, medidas ilegais e abusivas cometidas pelos agentes de segurança. Leia o voto do relator no RHC 158.580. https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/20042022-Revista-pessoal-baseada-em- %E2%80%9Catitude-suspeita%E2%80%9D-e-ilegal--decide-Sexta-Turma.aspx 1.1 OS ÓRGÃOS DO SUSP Os órgãos que integram o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) possuem responsabilidades no enfrentamento ao racismo e fundamental papel no processo multiplicador da perspectiva pedagógica do respeito. As instituições de segurança e defesa social acabam por lidar inúmeras vezes com esse fenômeno sem identificá-lo nas práticas criminais cotidianas, como por exemplo, as reais motivações dos crimes contraà pessoa, nas agressões e ofensas que afetam a honra. Na maioria dos casos deixam de perceber que o racismo motiva grande parte das violações descritas. Ainda nesse sentido, devem enfrentar atos criminosos e auxiliar na superação de práticas racistas que, presentes nas diversas relações profissionais, vão desde aquelas descritas como racismo recreativo até às manifestações de discriminação inseridas nas atividades diárias de patrulhamento. https://www.stj.jus.br/sites/portalp/SiteAssets/documentos/noticias/RHC%20158580%20Ministro%20Rogerio%20Schietti%20Cruz.pdf https://www.stj.jus.br/sites/portalp/SiteAssets/documentos/noticias/RHC%20158580%20Ministro%20Rogerio%20Schietti%20Cruz.pdf https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/20042022-Revista-pessoal-baseada-em-%E2%80%9Catitude-suspeita%E2%80%9D-e-ilegal--decide-Sexta-Turma.aspx https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/20042022-Revista-pessoal-baseada-em-%E2%80%9Catitude-suspeita%E2%80%9D-e-ilegal--decide-Sexta-Turma.aspx 114 Piadas destinadas a colegas de farda, jocosas e ofensivas, afetam a estima, o desempenho, a percepção enquanto agente e sua confiança. O mesmo ocorre com pessoas abordadas, cujo tratamento que a desqualifica, pode motivar uma escalada de estranhamentos, que agravam ocorrências e são iniciadas por palavras ou atitudes discriminatórias, conscientes ou inconscientes, empregadas pelo profissional de segurança quando inicia a identificação do cidadão, por exemplo. Observe a situação: um servidor de segurança dá uma ordem para que alguém se identifique e utiliza termos pejorativos em sua fala: “Qual seu nome, neguinho safado?”. Aqui proponho uma breve pausa para uma reflexão... Caso você tenha filhos, amigos próximos ou conhecidos, na faixa de 18 a 20 anos, como acha que esses jovens irão reagir em situações de injustiça, de racismo e de defesa das minorias? Lembre-se que além dessa fase ser naturalmente conflituosa (cobranças, futuro e pressão, sendo considerado jovens para determinadas práticas e adultos para outras), trata-se de uma geração que surge consciente de direitos e deveres. Logo, como você espera que reajam? Retornando ao nosso caso: o comportamento inadequado do profissional, tende a despertar uma postura não-colaborativa pelo jovem, que se vê aviltado e passa a agir de forma a demonstrar sua insatisfação com o ato discriminatório sofrido. Verifique que o simples fato de ser negro, trajar roupas entendidas como diferentes, ou caminhar por um bairro qualquer, o agente usa do poder de polícia e insulta a raça e cultura do indivíduo. A reação do abordado tende a ser interpretada como resistência, em alguns casos como desobediência e parte para uma escalada que passa pelo desacato e pode chegar ao confronto. São cenas do que chamamos de espiral do conflito que, nesse caso originada do preconceito, instalada mediante a replicação de ações que possuem em seu âmago o racismo. Situações assim podem ser evitadas pela simples prática policial de agir segundo princípios éticos e legais, norteados pelo respeito à dignidade e enfrentamento à discriminação. 115 Seguindo os estudos, passemos a abordar a subcultura percebida nos meios policiais e que consiste em enxergar a função policial como a das Forças Armadas, que saem para a rua prontos para combater inimigos em situações de guerra. Essa perspectiva prejudica o papel previsto para o agente militar nos tempos pós Constituição Federal de 1988, qual seja o de garantidor da cidadania. Pensar a existência de dois lados na sociedade: “nós” contra “eles”, exclui o agente da própria comunidade e o exime da responsabilidade enquanto pedagogo da cidadania. Ao agente é preciso destacar que a polícia busca oferecer condições de proteção esperadas pelas famílias que não participam dessas instituições. Em outras palavras, a farda e a arma não retiram do agente sua condição de cidadão, pelo contrário, imputam expectativa de que agirá de forma diferente, de modo a dar fim nas injustiças vivenciadas em situações passadas. Por fim, enfatiza-se que o medo não gera pessoas melhores ou sensação de segurança, ele pode criar, no máximo, melhores formas (mais elaboradas) de se fazer aquilo que se pretende. Agentes de segurança melhores é que espelham melhores práticas sociais. O ciclo do desenvolvimento social, com confiança e parceria exigem profissionais devotados com o propósito da igualdade. Considerando o número de ocorrências relacionadas às denúncias de abuso decorrentes do racismo, tem-se que aquelas cometidas por profissionais do Susp, destacam-se aquelas com origem nas polícias civis e militares, cuja participação é fundamental para a superação das discriminações. 1.2 AS POLÍCIAS CIVIS E O PAPEL DA AUTORIDADE POLICIAL O preconceito e estereótipos que prejudicam as pessoas negras em suas relações são evidentes em análises realizadas com base nos registros efetuados pelas polícias civis. A conscientização de um número cada vez maior de pessoas sobre as reais causas das ofensas e violências sofridas tem despertado nas vítimas o desejo por justiça e apenas algumas situações assumem força e despertam o interesse popular. Muitas vezes essas ocorrências são finalizadas antes do registro, por falta de interesse ou qualificação dos responsáveis pela proteção, guarda e orientação destinada à vítima. 116 Sobre o tema, o Anuário da Segurança Pública, de julho de 2021, mostra uma subnotificação de casos de racismo nas delegacias de polícia de todo Brasil, contradizendo as informações trazidas pela mídia e pelas redes sociais, que têm trazido à tona cada vez mais um número maior de situações que denotam a prática desse tipo penal. Ocorre que essa tomada de consciência não tem sido acompanhada pelos registros policiais de racismo, seja por omissão, seja por falta de preparo dos agentes e da autoridade policial em identificar a presença dessas práticas. O pesquisador Dennis Pacheco responsável pela pesquisa assim definiu essa situação: As polícias não reconhecem crimes de ódio, não acham que enfrentá-los seja trabalho da polícia e parte dos seus efetivos naturaliza sua incorporação enquanto discurso ideológico. Por conta dessa falta de vontade política de produzir e sistematizar dados de injúria e racismo, esses dados acabam ficando defasados.48 Vamos então, sem preconceito, sem qualquer juízo prévio de valor enfrentar o tema. • DELEGADO É AUTORIDADE POLICIAL. O direito processual penal estabelece que autoridade policial é o Delegado de Polícia, que na sua prerrogativa funcional detém o comando das ações da polícia judiciária assumindo a responsabilidade para atuar contra os infratores da lei. Passa então à esfera de responsabilidade da Autoridade Policial a titularidade da apuração de infração penal em que uma pessoa ou grupo é apontado como autor de uma violação da lei. Nesse momento sensível não pode o Delegado de Polícia se deixar influenciar por estereótipos e preconceitos porque é, na prática, um primeiro “juiz” do fato criminoso a ele apresentado. Dessa forma é indispensável a sua isenção e o tratamento sem discriminação pois, a ele caberá, exclusivamente, emitir parecer técnico a respeito da 48 https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/07/15/em-queda-registros-de-racismo- esbarram-em-falta-de-criterios-nacionais.htm?cmpid=copiaecola https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/07/15/em-queda-registros-de-racismo-esbarram-em-falta-de-criterios-nacionais.htm?cmpid=copiaecola https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/07/15/em-queda-registros-de-racismo-esbarram-em-falta-de-criterios-nacionais.htm?cmpid=copiaecola 117 materialidade e autoria do delito, conduzindo o inquérito policial para que faça uma apuração detalhada e verdadeira do fato criminosoque lhe foi noticiado. É de relevante importância a não contaminação preconceituosa por parte do Delegado de Polícia e o seu empenho na investigação do fato, já que essa peça investigatória deve conter as provas que serão analisadas em juízo e que no seu conjunto, quase sempre, são irrepetíveis. O inquérito policial tem que ser idôneo, com a confirmação dos indícios que se transformarão em provas judiciais, portanto, livres de ações que protejam ou levem ao indiciamento por preconceito racial, como o de algumas situações e hipóteses a seguir citadas: 1. Falta de enquadramento correto, justo e legal para autores dos crimes de racismo em que muitas vezes são “desclassificados” para injúria racial ou calúnia em nome de aliviar consequências para a pessoa que cometeu a ação criminosa. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 202049 identifica essa prática e a menciona nesses termos: O racismo, tão notório nesses indicadores, parece desaparecer quando procuramos por ele nas estatísticas de registros criminais. O resultado é que, se pelos indicadores sociais e trabalhistas o racismo é visivelmente gigante, pelas lentes dos registros criminais, ele parece minúsculo. Há, portanto, baixa eficácia do aparato penal no combate ao racismo, à xenofobia, e ao racismo religioso no Brasil, pelo menos no que tange à criminalização de condutas discriminatórias (anuário fls.110). 2. Agravamento do registro de ocorrência de delitos praticados por jovens negros é a consequência inversa e a manifestação perversa da discriminação racial; O sistema de justiça criminal, que muitas vezes se inicia com o ato da prisão em flagrante de uma pessoa acusada de ter cometido uma infração, quando envolve um cidadão negro, particularmente os jovens, já parte do pressuposto da culpa, em um juízo que muitas vezes está enviesado e contaminado por estigmas relacionado à juventude negra. Nessas situações é comum observar relatórios rápidos, concisos e quase nunca existe investigação para apurar a verdade dos fatos. Em situações desse tipo, a "verdade" é a versão do condutor e em algumas ocasiões também da “vítima” sem a oportunidade de que o acusado seja 49 Fonte: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/02/anuario-2020-final-100221.pdf https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/02/anuario-2020-final-100221.pdf 118 ouvido com isenção, quando quase sempre a ocorrência se finda com a manutenção do acusado no cárcere. É importante lembrar que a Constituição Federal (artigo 5º, LVII) regulamentada pelo artigo 283 do Código Processual Penal, além do artigo 7º da Convenção Americana de Direitos Humanos (consulte a nota de rodapé 48), prevê a liberdade como regra, que somada ao princípio da dignidade humana torna a prisão de alguém exceção que deve ser muito bem fundamentada. Estima-se que 90% das ações criminais se iniciam por meio do inquérito policial. O inquérito policial presta-se a dar sustentação à condução do suspeito, entretanto é indispensável e obrigação da polícia judiciária uma investigação criminal criteriosa, com todas as técnicas admitidas pelo direito para subsidiar com provas o Estado acusador, o que se dá através do Ministério Público - titular da ação penal. Essa seria a forma constitucional para embasar uma ação penal justa e isenta de qualquer discriminação. O racismo quando originário na Delegacia de Polícia promove, além da discriminação anteriormente demonstrada, o abrandamento da tipificação de delitos de racistas brancos, realidade visível por meio da verificação dos registros de ocorrências de jovens por tráfico de drogas. Pesquisa da Agência Pública de Jornalismo Investigativo em São Paulo50 demonstrou que a quantidade de maconha apreendida com pessoas brancas é em média de 1,15kg, enquanto a média de maconha encontrada com pessoas negras é de 145 gr. O que é possível inferir da análise desses dados? É possível afirmar que o portador de 145 gramas de maconha é um usuário e, se justamente analisada, é quase dez vezes menor do que a média apreendida com pessoas brancas. O Poder Judiciário, por sua vez, quando o acusado é negro também é mais severo, fato que a pesquisa demonstrou com base nos resultados obtidos em que negros são os mais condenados (71,35% contra 64,36% dos brancos). Isso 50 Fonte: https://apublica.org/2019/05/negros-sao-mais-condenados-por-trafico-e-com-menos-drogas- em-sao-paulo/ https://apublica.org/2019/05/negros-sao-mais-condenados-por-trafico-e-com-menos-drogas-em-sao-paulo/ https://apublica.org/2019/05/negros-sao-mais-condenados-por-trafico-e-com-menos-drogas-em-sao-paulo/ 119 acontece na apreensão de todos os tipos de entorpecentes. “Brancos acabam sendo classificados como usuários enquanto negros, como traficantes”, conclui a pesquisa. Essas condenações seriam evitadas caso o registro da ocorrência não sofresse os efeitos do racismo. 3. Detenção e condução de jovens negros para – sem o cometimento de qualquer delito – serem fotografados e inseridos no álbum de “reconhecimento de infratores” em delegacias.51 Por mais espantoso que isso possa parecer é uma prática racista ainda bastante praticada pelas polícias civis de muitos estados brasileiros, com graves consequências para as vítimas, que muitas vezes são aprisionadas sem qualquer culpa. Conforme pesquisa elaborada pelo Colégio Nacional de Defensores Públicos Gerais 83% das pessoas presas injustamente baseada no reconhecimento fotográfico são negras, jovens, pobres e INOCENTES.52 Em setembro de 2020 acórdão do STJ53 concluiu pela nulidade desse tipo de produção de prova em processo criminal por conta do seu caráter racista: A jurisprudência desta Corte é firme no sentido de que o reconhecimento fotográfico do denunciado pode servir como meio idôneo de prova para fundamentar a condenação, desde que ratificado em juízo e em harmonia com as demais provas, hipótese não ocorrida nos autos. Outros acórdãos da corte seguiram igual entendimento e um deles foi objeto de menção pelo Conselho Nacional de Justiça: O reconhecimento do suspeito de um crime por mera exibição de fotografias há de ser visto como etapa antecedente a eventual reconhecimento pessoal e, portanto, não pode servir como prova em ação penal54, ainda que confirmado em juízo. Com esse entendimento, a 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça concedeu a ordem de Habeas Corpus para absolver um homem condenado pelo roubo a uma churrascaria em Tubarão (SC) 51 Fonte: https://www.migalhas.com.br/quentes/336217/negros-sao-vitimas-de-condenacoes-que-tem- foto-como-prova--afirma-juiz 52 Fonte: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2021/02/21/exclusivo-83percent-dos-presos- injustamente-por-reconhecimento-fotografico-no-brasil-sao-negros.ghtml 53 Fonte: https://www.conjur.com.br/2020-out-27/reconhecimento-foto-nao-embasar-condenacao-stj 54 Fonte: https://www.conjur.com.br/2020-out-27/reconhecimento-foto-nao-embasar-condenacao-stj https://www.migalhas.com.br/quentes/336217/negros-sao-vitimas-de-condenacoes-que-tem-foto-como-prova--afirma-juiz https://www.migalhas.com.br/quentes/336217/negros-sao-vitimas-de-condenacoes-que-tem-foto-como-prova--afirma-juiz https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2021/02/21/exclusivo-83percent-dos-presos-injustamente-por-reconhecimento-fotografico-no-brasil-sao-negros.ghtml https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2021/02/21/exclusivo-83percent-dos-presos-injustamente-por-reconhecimento-fotografico-no-brasil-sao-negros.ghtml https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2021/02/21/exclusivo-83percent-dos-presos-injustamente-por-reconhecimento-fotografico-no-brasil-sao-negros.ghtml https://www.conjur.com.br/2020-out-27/reconhecimento-foto-nao-embasar-condenacao-stj https://www.conjur.com.br/2020-out-27/reconhecimento-foto-nao-embasar-condenacao-stj 120 exclusivamente com base no reconhecimento feito por meio de foto feitapelas vítimas.55 1.3 GRUPOS POLICIAIS ESPECIALIZADOS Em grande parte dos Estados, as polícias têm criado comandos destinados às operações especiais para atuação em ocorrências que exijam atendimento especializado. Fenômeno relativamente recente entre as polícias civis, são agrupamentos mais comuns entre as polícias militares. São diversos os exemplos: CORE – Coordenadoria de Recursos Especiais existentes nos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, por exemplo. GARRA - Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos que absorveu o GOE – Grupo de Operações Especiais. Em alguns Estados as siglas se alternam, todavia, as funções para as quais foram criados, costumam ser o embate especializado a determinadas práticas criminais, que exijam preparo e treinamento diferenciado (ROTA, ROTAM, BOPE etc.). Esses comandos são formados por agentes policiais que se caracterizam por meio de uniformes especiais, em geral, “camuflados” – termo que, inclusive, costuma ser utilizado por parte da sociedade para identificar seus integrantes. Em razão da ostensividade evidente, são percebidos como grupamento destinado ao emprego da força, que jamais recua, e aliados ao uniforme, armas de grande porte, em geral letais, quase sempre prontas para uso. O alerta destinado a esses grupos diz respeito a duas questões: I – As restrições na atuação desses profissionais que, apesar do elevado poder de fogo, não devem lançar mão desse armamento sem avaliar os requisitos que possibilitam seu uso. Esses agentes estão igualmente subordinados 55 Fonte: https://www.cnj.jus.br/stj-rejeita-prova-por-reconhecimento-fotografico-e-absolve-assistido- da-dpmg/ https://www.cnj.jus.br/stj-rejeita-prova-por-reconhecimento-fotografico-e-absolve-assistido-da-dpmg/ https://www.cnj.jus.br/stj-rejeita-prova-por-reconhecimento-fotografico-e-absolve-assistido-da-dpmg/ 121 aos princípios do uso da força que alcançam todos os demais integrantes da segurança pública, os quais destacamos: a - Limitação e forma do uso de armas de fogo imposta pela Lei 13.060/2014, a qual prioriza a utilização de instrumentos e armas de menor potencial ofensivo em detrimento de armas letais; b - A norma internacional editada por resolução da ONU intitulada: Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação56 da Lei desde setembro de 1990. c - Portaria Interministerial nº. 4.226, de 31 de dezembro de 2010 que estabelece o uso da força e critérios para seu emprego: O uso da força por agentes de segurança pública deverá obedecer aos princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência [...] ● Princípio da Conveniência: A força não poderá ser empregada quando, em função do contexto, possa ocasionar danos de maior relevância do que os objetivos legais pretendidos. ● Princípio da Legalidade: Os agentes de segurança pública só poderão utilizar a força para a consecução de um objetivo legal e nos estritos limites da lei. ● Princípio da Moderação: O emprego da força pelos agentes de segurança pública deve sempre que possível, além de proporcional, ser moderado, visando sempre reduzir o emprego da força. ● Princípio da Necessidade: Determinado nível de força só pode ser empregado quando níveis de menor intensidade não forem suficientes para atingir os objetivos legais pretendidos. ● Princípio da Proporcionalidade: O nível da força utilizado deve sempre ser compatível com a gravidade da ameaça representada pela ação do opositor e com os objetivos pretendidos pelo agente de segurança pública.” (BRASIL, 2010). II - A especialização demanda maior responsabilidade, pressuposto que chama a atenção: esses profissionais devem estar aptos para enfrentar ameaças 56 http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/ajus/prev20.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/ajus/prev20.htm 122 por meio de procedimentos alternativos, menos letais, ao contrário daqueles que seriam utilizados por agentes sem o mesmo treinamento. Diz respeito à capacidade oriunda da expertise, fundada em conhecimentos técnicos e métodos avançados de resposta ao crime. Por fim, o cerne que justifica a aludida especialização é a prestação qualificada dos serviços aos que mais precisam, destinada a reduzir baixas por meio do emprego da tecnologia, da estratégia e dos recursos de inteligência. Dessa forma, seu emprego não deve estar associado a fatalidades, mas sim à perícia e técnica. 1.4 AS POLÍCIAS MILITARES E O COMBATE AO RACISMO Por delegação da Constituição Federal artigo 144 parágrafo 5º às Polícias Militares compete a preservação da ordem por meio do policiamento ostensivo (emprego de uniforme, apresentação de armamento), previsão legal que tem levado à interpretação equivocada do dispositivo, incorrendo em práticas que violam os direitos humanos. As polícias militares, assim como as guardas municipais, corpo de bombeiros e rodoviárias federais costumam chegar imediatamente às ocorrências criminais, em geral, para prestar o primeiro atendimento às vítimas e avaliar a existência de agressores. Consideradas as competências de cada órgão, o primeiro momento é marcado por salvar vidas, preservar e isolar locais, coletar as primeiras informações e relacionar os envolvidos. É nesse momento que se percebe a importância do serviço prestado e que o registro completo dos envolvidos, com o máximo de fidelidade e detalhamento dos eventos, auxiliarão na prestação de serviços de qualidade pelo sistema de justiça criminal, evitando injustiças, enquadramentos equivocados e melhor produção de provas. Práticas que permitirão a apuração e repressão dos crimes de racismo. Avançando no estudo da atividade policial militar frente ao racismo, constata-se uma justificativa bastante comum sobre o comportamento incorreto de alguns seus integrantes, que apontam para o fato de que, apesar dos cursos de preparação e aperfeiçoamento, eles são agentes oriundos da sociedade e por essa razão chegam nas corporações com todas as qualidades e defeitos dessa “camada”. 123 A aparente veracidade da assertiva contrapõe-se ao conceito que especifica a própria atuação policial: a formação necessária para o desempenho exigido. Os cursos de formação e os treinamentos contínuos destinam-se exatamente ao cumprimento da exigência de atuar de forma legal, imparcial e isenta de julgamentos pessoais. Ao policial compete representar o Estado, cumprir as leis e defender direitos, mesmo que contrário às convicções individuais. Em outra ponta, considerando que a afirmação anterior possui validade, temos que considerar o caráter orgânico das instituições de segurança e, nessa questão cabe aos segmentos policiais, receber os indivíduos de todas as classes sociais, raças e culturas para que o próprio órgão possa usufruir dos benefícios indiscutíveis dessa pluralidade e oxigenação. A força pública, portanto, deve representar toda diversidade existente na população que protegerá sem qualquer preconceito, ampliando as noções de direito e oportunidades. Assim sendo, aos profissionais que ingressam nas Forças Auxiliares - onde se espera tenham longa carreira, fazem jus à formação, inclusive preenchendo as deficiências que a educação formal não deu conta de resolver. É necessário que o desenvolvimento do policial ocorra em todos os campos da sua atividade, priorizando seu mais importante dever: defender o cidadão independentemente do sexo, raça, cor da pele, linhagem, origem nacional ou étnica, gênero, condição social, religião, idade, deficiência física ou mental. Outra alegação frequente faz referência às instituições, que por terem em seus quadros policiais negros, não deve ser considerada estrutura racista. Essa “justificativa” precisa ser relativizada na medida em que impera uma cultura sistêmica do racismo, históricae prejudicial, que invariavelmente promove uma “lavagem étnica, cultural e socioeconômica”. A formação dos agentes policiais de aplicação da lei, por equivocada distorção, tem levado parte dos seus integrantes a negar sua origem étnica, sua identidade racial, para assumir uma “identidade policial” como se fosse possível desvencilhar-se de suas raízes. O agente de segurança pública ao se deparar com uma pessoa da “sua comunidade” em situação de conflito com a lei tenderá a ser mais duro, mais ríspido por conta da mácula que o “indivíduo” causa a todos os que são daquela comunidade – lembrando que a transgressão pode ser apenas suposta, mas que, nesse caso, a 124 verdadeira culpabilidade não importa e estar em situação suspeita, acaba por prejudicar o semelhante. Existem inúmeros registros de casos de aparente ilegalidade, reforçada por estereótipo ou preconceito, cujo desfecho se revela bastante diverso do imaginado. O mesmo pode acontecer com seus pares, superiores ou subordinados, simplesmente por conta da raça. As polícias e as demais instituições de segurança pública precisam enfrentar as questões das diversidades da cidadania, da qual seus integrantes são parte, prevenir abusos e excessos ligados à pretensão de agir como julgadores e executores de próprias decisões, o que tende a explicar em parte a desproporcional letalidade sofrida pela população negra. 1.5 A LETALIDADE PODE SER DIMINUÍDA Estatísticas apontam um número excessivo e desproporcional na morte de negros57, notadamente os jovens em operações e resultantes da abordagem policial. Nesse sentido, propomos o seguinte exercício: realize uma análise dos infográficos a seguir, elaborados a partir de dados compilados sobre registros criminais nos anos de 2019 e 2017, respectivamente: 57 Segundo pesquisa, 78% dos mortos pela polícia são negros Levantamento com dados de 2020 revela que abordagens policiais refletem o racismo histórico no país. De cada cinco mortos, quase quatro são negros. https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/07/letalidade-da-policia- aumenta-e-numero-de-mortes-em-2020-e-recorde/ https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/07/letalidade-da-policia-aumenta-e-numero-de-mortes-em-2020-e-recorde/ https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/07/letalidade-da-policia-aumenta-e-numero-de-mortes-em-2020-e-recorde/ 125 Figura 41 - Infográfico 2020 – A Violência contra negros e negros no Brasil Fontes: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/11/infografico-violencia- desigualdade-racial-2021-v3.pdf Figura 42 - Infográfico – A Violência contra negros e negros no Brasil (2017) https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/11/infografico-violencia-desigualdade-racial-2021-v3.pdf https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/11/infografico-violencia-desigualdade-racial-2021-v3.pdf 126 Fontes: Atlas da Violência, 2017; Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ano 11, 2017; Pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, 2017; Pesquisa Instinto de Vida, 2017; Medo da Violência e Apoio ao Autoritarismo no Brasil; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esses registros possibilitam identificar que muitas eram evitáveis, bastando que as ocorrências fossem encaradas sem julgamentos discriminatórios e por meio de técnicas aprendidas nos centros de formação: 1. O emprego da força deve seguir princípios de moderação e proporcionalidade; 2. Abordagens devem ser fundadas em elementos de justificada suspeição; 3. Deve-se privilegiar armas menos letais; 4. A resolução de conflitos é útil no combate à escalada da violência e no controle da espiral de conflitos; 127 5. Comunicação clara é fundamental; 6. Disparos não devem ser dados com objetivo de advertência; 7. Receber tratamento ríspido de alguém não é ofensa pessoal; 8. A regra é a inocência e a prisão é exceção. 9. Deve-se sempre observar os Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei58 10. Privilegiar técnicas de tiro que sejam voltadas para não-letalidade; 11. O controle da atividade policial é obrigação das instituições; 12. A transparência é regra; 13. Não há dois lados e os policiais integram a sociedade; 14. A periculosidade deve ser analisada com base na ameaça externada, não se deve à cor, gênero, etnia e religião dos envolvidos. AULA 02. ANÁLISE E REFLEXÃO SOBRE AS ABORDAGENS POLICIAIS A busca pessoal não deve levar em conta tipos físicos, o perfil socioeconômico ou a orientação religiosa do abordado. Ela exige rigor técnico e sobretudo LEGAL para que seja considerada lícita, demanda, portanto, fundada suspeita que, mais que razoável, deve ser reconhecida. Para se ter uma ideia da exigência de cumprimento ao estabelecido acima, a jurisprudência tem decidido que a busca pessoal originada por meio de volumes considerados estranhos em vestimentas, ou com base em denúncias anônimas são igualmente ilegais e, portanto, os eventuais ilícitos constatados pela ação, deverão ser desconsiderados no processo penal. Reveja, se entender necessário, a decisão do STJ aqui apresentada anteriormente sobre o princípio legal da abordagem policial. Além disso, para que o agente cumpra seu dever de forma legal, deve atender ao disposto nas normativas estudadas, a fim de se evitar abusos, por meio de ações ou omissões. 58 http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/ajus/prev20.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/ajus/prev20.htm 128 2.1 TIPO FÍSICO E PERFIL SOCIOECONÔMICO O policial tem que desvencilhar-se de estereótipos e preconceitos para não usar como justificativa de uma operação a cor da pele, o cabelo, a forma de caminhar que caracterizam o tipo racial. De igual forma deve abster-se de pré- julgamento relacionado ao perfil socioeconômico do cidadão que será inquirido/abordado. Roupas diferentes das usuais, no caso da população negra, não deve estar relacionada à temática da segurança pública, consiste em expressão cultural, muitas vezes baseadas em suas origens africanas, religiosa e social. Argumentos que se aplicam ao uso de equipamentos eletrônicos como celulares, caixas de som – especialmente entre jovens - o veículo conduzido por um cidadão e coisas assim, não devem ser definidoras da suspeição para abordagem. O ensino nas escolas de formação da PM precisa inserir em seus cursos como o policial deve se comportar em uma ocorrência envolvendo pessoas da comunidade negra e de outras comunidades vulneráveis e/ou minoritárias, como ciganos, indígenas, orientais, porque, ao invés de incluir especificidades da diversidade da população brasileira, as lições pregam a igualdade de todos perante a lei sem qualquer distinção e desconsideram tratamentos diversos a grupos diversos, que demandam ações e conhecimentos específicos. Sabe-se que esta pregação da igualdade legal está impregnada de preconceitos existentes na própria sociedade, que se refletem na formação do policial e esse tratamento de indistinção deve ser revisto. Utiliza-se desses ensinamentos para eximir-se da responsabilidade de proteger estratos que demandam maior cuidado. Há necessidade de romper esse paradigma de pregação moral e reforçar procedimentos operacionais em condutas não- racistas, de efetivo respeito aos direitos humanos e considerando-se a diversidade existente na sociedade brasileira. (Ten. Cel. Airton Edno Ribeiro) 2.2 ORIENTAÇÃO RELIGIOSA Como parte do racismo sistêmico, é necessário jogar luz às ações discriminatórias das polícias em relação às religiões de matrizes africanas, constantemente objeto de abordagens eivadas de preconceitos, estereótipos e comportamentos discriminatórios, em sua maioria impregnados pela ignorância129 quanto às práticas e preceitos professados. Essa discriminação muitas vezes se estende dentro de quartéis, delegacias e estabelecimentos prisionais. Templos e igrejas são locais comunitários de união e fé, tal qual ocorre com terreiros, centros, barracões e demais espaços destinados à prática das religiões de origem africana, as principais em número, no Brasil, são o Candomblé e Umbanda. Quando o direito de religião é violado, há o descumprimento constitucional do respeito à dignidade humana e desrespeito ao inciso VI do artigo 5º que dispõe: Inciso VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. O Brasil é um país laico desde a promulgação da Constituição de 1891 e o direito à liberdade religiosa desde então foi assegurado em todas as Constituições seguintes. Ademais, como você teve a oportunidade anteriormente, nosso país é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que prevê o direito à liberdade de religião em seu artigo 18: Todos os seres humanos têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular. Não são raros os casos noticiados de agressões decorrentes da intolerância e racismo. Figura 42 - Notícia - Intolerância religiosa Fonte: Correio Braziliense (2021). https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2021/06/4932387-em-buscas-por-lazaro-policiais-invadem-terreiros-entre-aguas-lindas-e-cocalzinho.html 130 Figura 43 - Notícia – Denúncias de intolerância religiosa Fonte: Brasil de Fato (2020). Figura 44 - Notícia – Crime e agressão Fonte: Notícias UOL (2020). https://www.youtube.com/watch?v=oP4IJ_gDQgM https://www.brasildefato.com.br/2020/01/21/denuncias-de-intolerancia-religiosa-aumentaram-56-no-brasil-em-2019 https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/02/06/terreiro-de-umbanda-e-alvo-de-bomba-e-praticantes-sao-espancados-em-sp.htm https://www.youtube.com/watch?v=oP4IJ_gDQgM 131 As agressões relatadas têm origem racista e demandam estratégias dos órgãos policiais com o propósito de garantir o exercício regular desse direito, que é universal e deve ser protegido. Não é concebível práticas de injúrias, desrespeito, piadas e inferiorização dos seguidores e dos ambientes que promovem essas religiões. Fora dos templos, a forma discriminatória de abordagem se dá quando devotos praticam algum sacramento, o que é bastante comum, já que essas religiões são ligadas às forças da natureza, em lugares abertos (rios, matas, praias, cachoeiras, encruzilhadas). Em momentos assim é que são abordados, muitas vezes de forma violenta, desrespeitosa e com a destruição de suas oferendas. Práticas relacionadas à macumba, às ofertas e as festividades, são expressões religiosas que devem ser respeitadas e estão asseguradas pela Constituição Federal. Aos agentes policiais compete cumprir a lei em respeito aos princípios da diversidade e tolerância. Aos demais membros da sociedade, compete o respeito e suplantar mitos, vencendo a ignorância por meio do estudo e conhecimento das crenças exercidas. Assim, imagens como essas mostradas deverão deixar de ser rotina em jornais e redes sociais. Figura 45 - Notícia – Imagem é queimada Fonte: G1 (2021). https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2021/08/27/video-imagem-de-ogum-e-queimada-na-praca-dos-orixas-em-brasilia.ghtml 132 FINALIZANDO Neste módulo estudou: ● Os procedimentos adequados para a realização de buscas e abordagens por meio de critérios legais, técnicos e adequados; ● A necessidade de agir imparcialmente e eximir-se de valores pessoais e convicções ideológicas na defesa das garantias individuais; ● Que a ação de busca pessoal realizada dentro da legalidade e tecnicamente bem executada é motivo de satisfação e tranquilidade das pessoas; ● A tolerância religiosa é dever do agente que atua na segurança pública; ● As instituições devem se comprometer com as práticas antidiscriminatórias; e ● A importância de métodos de defesa não-letais. 133 MÓDULO 5 – IGUALDADE RACIAL: BOAS PRÁTICAS NA SEGURANÇA PÚBLICA Você chegou ao quinto módulo! Esta é a última parte do curso e você estudará boas práticas na segurança pública e promoção da igualdade racial A segurança pública por meio das suas diferentes instituições deve proteger o cidadão e a sociedade, esse é o seu papel primordial. A proteção da soberania do Estado é de competência das Forças Armadas, ainda que as polícias militares e bombeiros militares, órgãos de segurança pública, sejam constitucionalmente designadas pelo artigo 144 da Constituição Federal como forças auxiliares e reservas do Exército. Nesse sentido, atuarão se forem convocadas no enfrentamento de inimigos que coloquem em risco a segurança nacional (defesa)59 ou, excepcionalmente quando o Exército atuar na garantia da lei e da ordem60. Entre as boas práticas da segurança pública, a promoção da igualdade de tratamento é dever do servidor público de qualquer das instituições da Segurança Pública, porém, o desejável é que essa função de servir seja feita com respeito e satisfação, ou seja, que não seja vista como um fardo, ou obrigação. É perfeitamente possível que a função de segurança pública traga o prazer de servir e, em troca do seu trabalho, receber um sorriso, um abraço, o reconhecimento e o respeito da pessoa e da comunidade atendida. São marcantes os registros de policiais emocionados ao realizarem um parto, ao devolver para a família uma criança perdida, apagar um incêndio e salvar vidas. No entanto, quando a questão é de situações de pessoas em aparente ou real conflito com a lei, não é incomum o uso excessivo da força e isto traz sempre sérias consequências. 59 Soberania Nacional é quando nenhuma força externa ou interna se impõe ao Poder do Estado. 60 Garantia da Lei e da Ordem (GLO) é uma medida provisória que concede ao Exército o poder de polícia, principalmente quando há o esgotamento das forças de segurança pública em situações de crise decretada pelo Presidente da República quando há uma grave ameaça contra a manutenção da ordem e respeito às leis no país (artigo 142 da Constituição Federal). 134 OBJETIVOS DO MÓDULO ● Apresentar estudos que comprovem a tensão existente entre a polícia e a população, ● Apontar possibilidades de superação dos conflitos que envolvem o relacionamento policial e social; ● Conhecer trabalhos realizados em instituições policiais que podem ser replicados e combatem o racismo dentro e fora dos órgãos; ● Analisar resultados obtidos por meio da criação de setores especializados no combate aos crimes raciais e de intolerância; ● Avaliar protocolos e medidas de superação ao racismo desenvolvidos por instituições policiais. ESTRUTURA DO MÓDULO Este módulo está dividido em 3 aulas, sendo elas: Aula 01 – Boas práticas da polícia ostensiva na promoção da igualdade racial Aula 02 - Governança e enfrentamento ao racismo: experiências na segurança pública. Aula 03 - A Polícia Civil no combate aos crimes de intolerância e raciais. 135 AULA 1. BOAS PRÁTICAS DA POLÍCIA OSTENSIVA NA PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL A chegada de Dom João VI ao Brasil, acompanhado de membros da Corte Portuguesa em 1808 fugindo de Napoleão, foi o motivo da criação em 13 de maio de 1809 da Divisão Militar da Guarda Real da Polícia61, que tecnicamente, como o próprio nome dizia, era parte da Guarda Real da Polícia de Lisboa. Essa Guarda substituiria as quadrilhas,nome dado aos milicianos informais que faziam esse trabalho e tinham como principais funções a guarda da família real e de membros da corte, incluindo os locais onde viviam. Fica fácil compreender a tensão histórica existente entre os órgãos de segurança pública e a população graças a dois fatores: (i) a forma como a polícia foi criada no Brasil e; (ii) o papel que cumpriu na proteção do patrimônio dos abastados do Império, especialmente das suas propriedades humanas - os escravos, que eram de rigor o bem patrimonial que poderiam “perder”. Quando a aristocracia escravocrata passou a residir nas cidades, distante das suas fazendas, as forças policiais faziam o controle social dos negros que, àquela época com a urbanização trabalhavam nas ruas no cumprimento dos seus deveres - os chamados escravos de ganho. À polícia cabia impedir suas reuniões, proibir suas festas e manifestações religiosas que não fossem católicas, bem como a captura e devolução de escravos fugidos. Merece destaque no exercício dessa função o papel repressor da polícia, sobretudo em casos de revoltas, que contrariavam interesses da nobreza e previam a manutenção do poder dos abastados. Intervenções violentas marcaram esse período, como as ocorridas na ocasião da Conjuração Baiana (a Revolta dos Alfaiates), em 1798; na Revolta dos Malês, em 25 de janeiro de 1835, ambas na cidade de Salvador; e na Cabanagem de 1835 a 1840 no Grão-Pará. 61 http://mapa.an.gov.br/index.php/menu-de-categorias-2/313-divisao-militar-da-guarda-real-da-policia-1822- 1831 http://mapa.an.gov.br/index.php/menu-de-categorias-2/313-divisao-militar-da-guarda-real-da-policia-1822-1831 http://mapa.an.gov.br/index.php/menu-de-categorias-2/313-divisao-militar-da-guarda-real-da-policia-1822-1831 136 A característica comum dessas revoluções é que elas eram compostas basicamente por gente simples, pobres, escravos e ribeirinhos e foram reprimidas de forma exemplar para que não despertassem novos movimentos. A urbanização e a ocupação desorganizada nas grandes cidades também marcaram o papel das polícias na época. Responsáveis por executar diversos serviços públicos, praticava atos de justiça através do medo. A título ilustrativo citamos fato ocorrido na cidade do Rio de Janeiro, onde a Polícia desempenhou papel vital na desocupação do cortiço “Cabeça de Porco62”. O local foi construído em meados de 1880 e sua destruição finalizada em 1897. A ação previa demolição das precárias moradias com fins eugenistas, expulsando escravos, libertos e pobres. Diante dos fatores históricos mencionados, percebe-se, já naquele período, a inquietação que rondava a instável relação entre a polícia e a maior parcela da população. Pesquisa63 realizada pelo Datafavela64 e pela Central Única das Favelas – CUFA65, apontam que apenas 5% dos brasileiros consideram que a polícia não é racista, enquanto 40% dos ouvidos afirmaram já ter sofrido violência policial. O estudo mostra que metade das pessoas que moram na periferia sente medo só de avistar a polícia, percentual que cai para 23% entre os mais abastados, o que deixa transparecer desigualdade de tratamento, além da ocorrência do preconceito geográfico e social, temas abordados no módulo 2. A pesquisa conclui que a polícia ao invés de oferecer proteção e contribuir para a sensação de segurança, na realidade desperta medo em uma parcela considerável da população. A matéria que publica a pesquisa destaca uma impactante frase de um entrevistado: "A polícia é perigosa para pessoas como eu". 62 https://museudoamanha.org.br/portodorio/?share=timeline-historia/11/o-inderrubavel-cabeca-de- porco 63 https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/07/so-5-dos-brasileiros-acreditam-que-a-policia-nao-e- racista-aponta-pesquisa.shtml 64 O DataFavela é um instituto de pesquisa fundado em novembro de 2013 no Rio de Janeiro, Brasil, por Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas (CUFA), e Renato Meirelles, presidente da Data Popular. https://www.facebook.com/DataFavela/ 65 A CUFA (Central Única das Favelas) é uma organização brasileira reconhecida nacional e internacionalmente nos âmbitos político, social, esportivo e cultural que existe há 20 anos. Foi criada a partir da união entre jovens de várias favelas, principalmente negros, que buscavam espaços para expressarem suas atitudes, questionamentos ou simplesmente sua vontade de viver. - https://www.cufa.org.br/sobre.php https://museudoamanha.org.br/portodorio/?share=timeline-historia/11/o-inderrubavel-cabeca-de-porco https://museudoamanha.org.br/portodorio/?share=timeline-historia/11/o-inderrubavel-cabeca-de-porco https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/07/so-5-dos-brasileiros-acreditam-que-a-policia-nao-e-racista-aponta-pesquisa.shtml https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/07/so-5-dos-brasileiros-acreditam-que-a-policia-nao-e-racista-aponta-pesquisa.shtml https://www.facebook.com/DataFavela/ https://www.cufa.org.br/sobre.php 137 O estudo indica que esse temor ressoa em 54% dos negros, enquanto para brancos a frase faz sentido para 17%. É nesse contexto que o curso de igualdade racial para a segurança pública ganha importância, considerando a necessidade de promover mudanças pelas polícias, por meio de seus integrantes. Por fim, são apresentadas boas práticas na segurança pública, que passam necessariamente pela redução do distanciamento policial e pela construção de vínculos de confiança entre a sociedade e os agentes do Susp. 1.1 POLÍCIA COMUNITÁRIA: A CONSTRUÇÃO COLETIVA DE UM MODELO JÁ CONHECIDO O caput do artigo 144 da Constituição Federal estabelece que a segurança pública é uma construção coletiva, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, a qual tem por finalidade a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas (...). Ao estabelecer que se trata de um direito e responsabilidade de todos, a Constituição faz um chamamento à cidadania para que ela atue diretamente na construção de um modelo colaborativo e participativo, que envolva o governo, a população e a polícia. Essa integração é conhecida por grande parte das polícias e traduz-se na adoção de uma estratégia de policiamento ancorada na mobilização, parceria e compartilhamento de responsabilidades. É a filosofia do policiamento comunitário que prevê a aproximação, instituição de laços e fortalecimento dos vínculos, de forma a reduzir tensões e promover a cooperação. Um avanço dessa boa prática é a recente institucionalização da “Diretriz Nacional de Polícia Comunitária e a criação do Sistema Nacional de Polícia Comunitária” adotadas por intermédio da Portaria 43/201966 do Ministério da Justiça e Segurança Pública que trata enfaticamente da participação popular no processo: 66 https://legado.justica.gov.br/news/collective-nitf-content- 1555096748.16/diretrizbasica_media_08052020.pdf https://legado.justica.gov.br/news/collective-nitf-content-1555096748.16/diretrizbasica_media_08052020.pdf https://legado.justica.gov.br/news/collective-nitf-content-1555096748.16/diretrizbasica_media_08052020.pdf 138 A polícia comunitária, fundamentada no preceito da corresponsabilidade para a construção de um ambiente social saudável, constitui-se em norte primordial para a legitimidade das ações policiais, conforme diretriz da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, insculpida no inciso XII e XIX, do art. 5º, da lei nº 13.675/201867, que preceitua a “ênfase nas ações de policiamento de proximidade, com foco na resolução de problemas” e o “incentivo ao desenvolvimento de programas e projetos com foco na promoção da cultura de paz, na segurança comunitária e na integração das políticas de segurança com as políticas sociais existentes em outros órgãos e entidades não pertencentes ao sistema de segurança pública. Esse modelo tem por princípio o compartilhamento deações, definição de planos voltados para a necessidade da comunidade. Desenvolve-se de forma a legitimar a participação social. Ao definir os pontos de interesse comuns, a polícia estabelece metas e se compromete a prestar contas de forma transparente. Logo, necessidades são alcançadas com base na escuta ativa e os cidadãos contribuirão para a promoção da segurança local. Por conta dos pilares participativos que incentivam a atuação conjunta, reduz-se o distanciamento, reduzindo a desconfiança e estabelecendo parcerias. 1.2 VIDAS NEGRAS IMPORTAM Você certamente ao ler o título deste tópico dirá: QUALQUER VIDA IMPORTA. É exatamente por isso que após o assassinato de George Floyd em Minneápolis – EUA, em maio de 2020, o movimento VIDAS NEGRAS IMPORTAM tomou dimensões mundiais, transformando-se em um alerta internacional de que as vidas de pessoas negras não podem ser tratadas como objeto de pouco valor. 67 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/L13675.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/L13675.htm 139 Figura 46 - Manifestações populares Fonte: Canva. O mesmo apelo de George Floyd para poder respirar foi feito em Porto Alegre por João Alberto. A abordagem policial baseada em estereótipos têm produzido muitas vítimas e aprisionamentos, como visto em graus e número muito maiores que ocasionadas aos brancos: ● 79,1% das vítimas de intervenções policiais que resultaram em morte eram pretas e pardas, índice que deve chocar por conta da disparidade observada. ● Em relação às mortes violentas intencionais, os negros ocupam amplo e triste espaço: 74,4% de todas as vítimas. ● Outro indicador preocupante é percebido entre os policiais negros: são os que mais morrem, vítimas de latrocínio e homicídio, chegando a 65,1% do total. A pesquisa “Por que eu?68” elaborada pelo Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD)69 e pelo Datalab70, "obteve um dado que evidencia o racismo no nosso país: 85% das pessoas que já sofreram abordagens da polícia são negras.” 68 https://www.hypeness.com.br/2021/06/pesquisa-relaciona-truculencia-policial-e-raca-85-das- pessoas-abordadas-sao-negras/ 69 O IDDD é uma organização formada por advogados/as criminais e defensores/as de direitos humanos reunidos/as pela vontade de transformar o sistema de justiça brasileiro. Trabalhamos para que cidadãos e cidadãs, independentemente de origem social, raça ou classe, tenham direito à ampla defesa frente ao poder punitivo do Estado. https://iddd.org.br/o-iddd/ 70 Data Labe é uma organização de mídia e pesquisa com sede na favela da Maré – Rio de Janeiro https://www.hypeness.com.br/2021/06/pesquisa-relaciona-truculencia-policial-e-raca-85-das-pessoas-abordadas-sao-negras/ https://www.hypeness.com.br/2021/06/pesquisa-relaciona-truculencia-policial-e-raca-85-das-pessoas-abordadas-sao-negras/ https://iddd.org.br/o-iddd/ 140 Outra pesquisa, produzida pela Universidade Federal de São Carlos, no Departamento e Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos, denominada "Policiamento e relações raciais: estudo comparado sobre formas contemporâneas de controle do crime", concluiu que: Os resultados apontam para enorme diferença de tratamento e uso da força de negros em relação a não-negros na prática cotidiana do policiamento, evidenciado pelas diferenças nos totais de prisões em flagrante e letalidade policial. Apesar de negarem a existência de racismo institucional nas polícias militares, os policiais testemunharam sobre os mecanismos de racialização de suspeitos, os saberes que orientam o policiamento e sobre como enxergam o papel da polícia numa sociedade atravessada pela desigualdade racial.71 Você pode estar se perguntando: qual o motivo de estarmos apresentando essas pesquisas quando o assunto é o movimento Vidas Negras Importam? Simples, objetiva apresentar dados que demonstrem de maneira inequívoca o quanto as vidas negras têm sido menos importantes ao longo de toda a história do país. Reconhecendo essa preocupação com a população negra, em especial com os jovens, a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) Lei 13.675/2019 na seção IV, objetivos artigo 6º inciso IV faz menção direta estabelecendo: estimular e apoiar a realização de ações de prevenção à violência e à criminalidade, com prioridade para aquelas relacionadas à letalidade da população jovem negra, das mulheres e de outros grupos vulneráveis; formada por gestores, jornalistas, designers e pesquisadores de origem popular que acreditam no futuro democrático a partir de narrativas dissonantes e diversas.https://datalabe.org/sobre/#:~:text=Somos%20uma%20organiza%C3%A7%C3%A3o%20de %20m%C3%ADdia,com%20a%20Escola%20de%20Dados. 71 https://ponte.org/wp-content/uploads/2020/10/policiamento-ostensivo-rel-raciais-2020.pdf https://datalabe.org/sobre/#:%7E:text=Somos%20uma%20organiza%C3%A7%C3%A3o%20de%20m%C3%ADdia,com%20a%20Escola%20de%20Dados https://datalabe.org/sobre/#:%7E:text=Somos%20uma%20organiza%C3%A7%C3%A3o%20de%20m%C3%ADdia,com%20a%20Escola%20de%20Dados https://ponte.org/wp-content/uploads/2020/10/policiamento-ostensivo-rel-raciais-2020.pdf 141 AULA 2. GOVERNANÇA E ENFRENTAMENTO AO RACISMO: EXPERIÊNCIAS NA SEGURANÇA PÚBLICA Existe uma frase clássica nas polícias segundo a qual, a ela cabe "enxugar o chão com a torneira aberta". Esta afirmação reflete o sentimento de que, infelizmente, não está restrita ao seu papel constitucional de oferecer segurança, indo além, quando por diversas vezes tem que resolver problemas de ordem social que não são de sua responsabilidade e competência, como ações de proteção social que seriam de responsabilidade de outros órgãos de Estado. Isto significa que todos os que estão "com os pés molhados", precisam atuar juntos para estancar a água. É necessário reconhecer que a polícia não é responsável por resolver os muitos problemas sociais de desigualdade que o Brasil carrega em sua história e criar diversas políticas públicas para enfrentar essas situações. O que trataremos nessa aula é a questão da governança da segurança pública no enfrentamento da igualdade racial. Dessa forma, o que é governança? Segundo o Tribunal de Contas da União - TCU define: Governança no setor público compreende essencialmente os mecanismos de liderança, estratégia e controle postos em prática para avaliar, direcionar e monitorar a atuação da gestão, com vistas à condução de políticas públicas e à prestação de serviços de interesse da sociedade. Esse reconhecimento da necessidade de envolver outras áreas e a sociedade na Política de Segurança Pública se deu com a edição da Lei.13.675/2018 já citada na aula anterior, com o estabelecimento da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS), na qual estão contidas recomendações expressas para um conjunto de boas práticas que as entidades Segurança Pública devem adotar com princípios, diretrizes, objetivos e estratégias com a finalidade de preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A PNSPDS ressalta que a sua implantação será por meio de atuação conjunta, coordenada, sistêmica e integrada dos órgãos de segurança pública e defesa social em articulação com a sociedade. Destaca a Lei 13.675/2018 no seu 142 Capítulo IV, artigo 20 a criação de Conselhos de Segurança Pública e Defesa Social, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, mediante proposta dos chefes dos Poderes Executivos, encaminhadas aos respectivos Poderes Legislativos. Esse mesmo artigo em seu 2º parágrafo prevê que os citados conselhos terão natureza de colegiado, com competência consultiva, sugestiva e de acompanhamento social das atividades de segurança pública e defesa social e; no parágrafo5º responsabiliza os Conselhos pela proposição de diretrizes para as políticas públicas de segurança pública e defesa social, com vistas à prevenção e à repressão da violência e da criminalidade. O conceito de governança na área da segurança pública criado pelo mesmo instrumento, estabelece que ela deve atuar em conjunto com a comunidade na defesa social do Estado em busca de soluções para as suas outras demandas, mesmo aquelas que não sejam específicas de segurança pública, contribuindo para mudar a cultura existente na sociedade, que de maneira geral considera que o papel da polícia é exclusivamente repressivo. O modelo policial repressivo/punitivo não diminui a criminalidade, como temos acompanhado. A boa prática da governança para a promoção da igualdade racial baseado nesse dispositivo legal possibilita que todos os segmentos da sociedade, sem qualquer discriminação, que façam parte das políticas públicas de segurança pública e se assim for, o movimento organizado negro que, ao ser inserido, representará esse segmento populacional respeitado, espera-se, proporcionalmente. Essa forma de representação está prevista no artigo 21 inciso VI e parágrafo 1º da Lei 13.765/2018. Com certeza a médio e longo prazo essa política pública poderá trazer os resultados desejados com a participação de diversos órgãos de defesa social do Estado e da Sociedade Civil organizada. A seguir citaremos algumas experiências que vêm sendo adotadas no Brasil. PERNAMBUCO 143 A Polícia Militar de Pernambuco criou o Grupo de Trabalho de Enfrentamento ao Racismo Institucional por meio da Portaria do Comando Geral nº 1.255, de 10 de novembro de 2009, publicada no Boletim Geral nº 211, de 20 de novembro de 2009. O GT Racismo foi criado com o objetivo de combater o racismo institucional e a intolerância religiosa e promoveu cursos para formar docentes que estão aptos a ministrar a disciplina de Relações Étnico-raciais, atualmente lecionada nos Cursos de Formação de Soldados. O efetivo que compõe o GT Racismo ministra palestra para os policiais militares em diversas unidades (de escolas a organizações não governamentais), movimentos sociais, comunidades tradicionais e de terreiros, população LGBT, pessoas com deficiência, etc. http://www2.pm.pe.gov.br/web/pmpe/dasdh DISTRITO FEDERAL A Polícia Militar do Distrito Federal, por meio da Portaria 972/2015, que desde a sua edição define os procedimentos a serem adotados quando da ocorrência de crimes de natureza étnico-racial definidos na Constituição Federal, legislação infraconstitucional e o importante caráter preventivo no âmbito institucional. A Portaria reforçou os aspectos conceituais e elencou expressões de caráter depreciativo que ofendem a honra e constituem injúria e crimes de racismo. SÃO PAULO A Polícia Militar criou no ano 2000 em suas escolas de formação a cadeira de Ações Afirmativas e Igualdade Racial que, em sua mais recente atualização - 2020, passou a se chamar Direitos Humanos e Ações Afirmativas com carga de 96 horas aulas. A Ouvidoria da Polícia de São Paulo criou em março de 2021 um Grupo de Trabalho com membros das Polícia Militar, Civil e intelectuais negros para que em curto espaço de tempo sejam apresentadas propostas para o enfrentamento do racismo nessas corporações. Os trabalhos prosseguem em andamento. http://www2.pm.pe.gov.br/web/pmpe/dasdh 144 AULA 3. INICIATIVAS NO COMBATE AOS CRIMES RACIAIS E DE INTOLERÂNCIA Outras ações de governança de segurança pública no enfrentamento ao racismo são as adotadas pelas polícias e serão estudadas a seguir. Em diversos Estados foram instaladas delegacias especializadas no registro e apuração de crimes raciais e intolerância religiosa, homofobia e proteção de vulneráveis como idosos e pessoas fisicamente deficientes. A iniciativa tem se revelado com bastante potencial. Muito embora sejam anteriores à edição do Estatuto da Igualdade Racial algumas DECRADIs - sigla pela qual são mais conhecidas, cumprem o que dispõe o ordenamento, em seus artigos 2º caput (...) defendendo sua dignidade e seus valores religiosos e culturais" e 3º caput (...), como diretriz político-jurídica a inclusão das vítimas de desigualdade étnico-racial, a valorização da igualdade étnica e o fortalecimento da identidade nacional brasileira. As delegacias até agora instaladas, são: Alagoas - Delegacia Especial dos Crimes Contra Vulneráveis da Capital - Lei 8.364/2020. A delegacia não atende ocorrências de fora de Maceió. Amazonas - Delegacia Especializada em Ordem e Política Social - DEOPS, é a unidade especializada para o registro e a investigação dos casos de racismo no Amazonas. Distrito Federal - Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência – DECRIN, que apura crimes apontados pelos Estatutos da Igualdade Racial, da Pessoa com Deficiência, do Idoso e os de Homofobia. Foi instalada em 29 de março de 2016. Espírito Santo - Seção de Investigações Especiais subordinada a Divisão Especializada Metropolitana. Atende pessoas vítimas de discriminação racial, religiosa, sexual e deficiência física. 145 Maranhão - Delegacia de Combate aos Crimes Raciais, Agrários e de Intolerância - DECRADI. Criada e instalada em 27 de setembro de 2018. Minas Gerais - Delegacia Especializada em Repressão aos Crimes de Racismo, Xenofobia, LGBTfobia e Intolerâncias Correlatas – DECRIN Além desse órgão de polícia, conjuntamente existe o Núcleo de Atendimento a Vítimas de Crimes Raciais e de Intolerância - NAVICRADI, que tem entre suas atribuições propiciar o atendimento jurídico, psicológico ou social às vítimas, por meio da prestação de serviços de instituições parceiras. Pará - Delegacia de Combate aos Crimes Discriminatórios e Homofóbicos - DCCDH, que integra a Diretoria de Atendimento a Grupos Vulneráveis Paraíba - Delegacia de Crimes Homofóbicos, Racismo e Intolerância Religiosa, criada em 19 de novembro de 2017 por decreto que ampliou as atribuições da Delegacia de Crimes Homofóbicos e implementou o Disque 197 da Polícia Civil. Rio Grande do Sul - Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância – DPCI. Foi instalada em Porto Alegre em 10 de dezembro de 2020 e está vinculada ao Departamento Estadual de Proteção aos Grupos Vulneráveis - DPGV. Rio de Janeiro - Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância – DECRADI, criada em 2011 pela Lei 5.931/2011 e instalada na cidade do Rio de Janeiro. A Lei 9.271/2021 obriga o Governo do Estado a criar DECRADIS nas diversas regiões fluminenses. São Paulo – Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância – DECRADI. Investiga crimes de racismo, intolerância religiosa e homofobia. Foi instalada em 2006 Sergipe - Delegacia de Atendimento a Crimes Homofóbicos, Racismo e Intolerância Religiosa – DACHRI. As delegacias em processo de criação ou recomendação, são: 146 Bahia - Não tem delegacia especializada para crimes de racismo e intolerância. Tem uma Indicação Nº 23.129/2019 da Assembleia Legislativa da Bahia ao Governo do Estado para que proceda na estrutura da Polícia Civil da Bahia a criação da Delegacia Especializada no Combate a Crimes Raciais e a Intolerância Religiosa. Ceará - O projeto de lei, PL 1222/2019, indica que a delegacia especializada para o registro, investigação, abertura de inquérito e adoção de demais procedimentos policiais necessários para elucidar delitos em casos que envolvam violência, discriminação de natureza religiosa e/ou racismo religioso, inclusive praticados em meio digital. Goiás - Em 16 de junho de 21 a OAB-GO promoveu reunião junto à Polícia Civil de Goiás para discutir a criação do grupo especializado de combate a crimes raciais e delitos de intolerância.Mato Grosso - O projeto de lei, PL 1222/2019, para a criação da Delegacia Especializada na Apuração de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, recebeu parecer favorável da Comissão de Segurança Pública e Comunitária. Atualmente encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça para apreciação. 147 FINALIZANDO Neste módulo você estudou: ● Iniciativas que necessitam serem fortalecidas em todos os âmbitos do poder, fundadas na participação social, aproximação da população com o sistema de justiça criminal, em especial as polícias. ● A filosofia do policiamento comunitário, estruturada compartilhamento de responsabilidades e participação popular; ● Os conselhos de segurança, previstos pela Lei que institucionalizou o Susp e a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Nacional, propiciam a criação de vínculos, a mobilização da comunidade e meios de atuação dos grupos que compõem a região. ● Movimentos que buscam valorizar vidas negras têm como fundamento as disparidades nos índices de vitimização percebidos entre a população branca e negra. ● Por fim, estudou iniciativas desenvolvidas pelas polícias com a instalação de grupos de trabalho e unidades especializadas de atendimento às vítimas do racismo e de combate às ações discriminatórias. 148 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Mariana Amaro Theodoro de. 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OBJETIVOS DO CURSO OBJETIVOS ESPECÍFICOS ESTRUTURA DO CURSO MÓDULO 1 - PERCURSO SOCIAL, POLÍTICO E JURÍDICO DA POPULAÇÃO NEGRA NO BRASIL OBJETIVOS DO MÓDULO ESTRUTURA DO MÓDULO AULA 1. O DIA DEPOIS DA LIBERTAÇÃO. AULA 2. NOVA REPÚBLICA: DEMOCRACIA PARA QUEM? AULA 3. UM DESTINO NADA FELIZ AULA 4. BRANQUEAMENTO, IMIGRAÇÃO, DESEMPREGO E FAVELIZAÇÃO AULA 5. A CRIMINALIZAÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA 5.1. POR QUE CRIMINALIZAR A CAPOEIRA? AULA 6. NEGROS E NEGRAS SÃO CRIMINOSOS NATOS? AULA 7. E A TAL DEMOCRACIA RACIAL? FINALIZANDO MÓDULO 2 – IDENTIDADE E ESTRUTURA: CONCEITOS DE ESTEREÓTIPO, PRECONCEITO, DISCRIMINAÇÃO, IDENTIDADES E RACISMO. OBJETIVOS DO MÓDULO ESTRUTURA DO MÓDULO AULA 1. ESTEREÓTIPO, PRECONCEITO, IDENTIDADE, DISCRIMINAÇÃO 1.1. ESTEREÓTIPO 1.2. ESTIGMAS 1.3. PRECONCEITO 1.4. IDENTIDADE 1.5. DISCRIMINAÇÃO 1.6. DIFERENÇA ENTRE DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO 1.7. DISCRIMINAÇÃO RACIAL AULA 2. RACISMO E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 2.1. ENTÃO, O QUE É O RACISMO? 2.2. AS VÁRIAS MANIFESTAÇÕES DO RACISMO 2.3. RACISMO MULTIDIMENSIONAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 2.3.1 - MERCADO DE TRABALHO I - O DELEGADO II - O AGENTE POLICIAL CIVIL III - A AGENTE DE TRÂNSITO IV - A ENFERMEIRA V - A ESTUDANTE VI – A PROFESSORA VII – O OFICIAL 2.3.2 - TAXA DE DESEMPREGO E DIFERENÇA SALARIAL 2.3.3 ESCOLARIDADE 2.3.4 SAÚDE 2.3.5 - COMÉRCIO 2.3.6 - RACISMO RECREATIVO 2.4. INFLUÊNCIA DA COR NO POLICIAMENTO OSTENSIVO FINALIZANDO MÓDULO 3 - SISTEMA LEGAL DE PROTEÇÃO E A PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL OBJETIVOS DO MÓDULO ESTRUTURA DO MÓDULO AULA 1. A CONSTITUIÇÃO DE 1988 AULA 2. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS AULA 3. CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS - PACTO DE SAN JOSÉ DA COSTA RICA AULA 4. PACTO INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS AULA 5. A CONVENÇÃO INTERNACIONAL SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO RACIAL AULA 6. CONVENÇÃO INTERAMERICANA CONTRA O RACISMO, A DISCRIMINAÇÃO RACIAL E FORMAS CORRELATAS DE INTOLERÂNCIA AULA 7. CRIMES DE RACISMO E INJÚRIA RACIAL AULA 8. ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL FINALIZANDO MÓDULO 4 – ATIVIDADE POLICIAL E IGUALDADE RACIAL OBJETIVOS DO MÓDULO ESTRUTURA DO MÓDULO AULA 1. COMBATER PRECONCEITOS E ESTEREÓTIPOS 1.1 OS ÓRGÃOS DO SUSP 1.2 AS POLÍCIAS CIVIS E O PAPEL DA AUTORIDADE POLICIAL 1.3 GRUPOS POLICIAIS ESPECIALIZADOS 1.4 AS POLÍCIAS MILITARES E O COMBATE AO RACISMO 1.5 A LETALIDADE PODE SER DIMINUÍDA AULA 02. ANÁLISE E REFLEXÃO SOBRE AS ABORDAGENS POLICIAIS 2.1 TIPO FÍSICO E PERFIL SOCIOECONÔMICO 2.2 ORIENTAÇÃO RELIGIOSA FINALIZANDO MÓDULO 5 – IGUALDADE RACIAL: BOAS PRÁTICAS NA SEGURANÇA PÚBLICA OBJETIVOS DO MÓDULO ESTRUTURA DO MÓDULO AULA 1. BOAS PRÁTICAS DA POLÍCIA OSTENSIVA NA PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL 1.1 POLÍCIA COMUNITÁRIA: A CONSTRUÇÃO COLETIVA DE UM MODELO JÁ CONHECIDO 1.2 VIDAS NEGRAS IMPORTAM AULA 2. GOVERNANÇA E ENFRENTAMENTO AO RACISMO: EXPERIÊNCIAS NA SEGURANÇA PÚBLICA AULA 3. INICIATIVAS NO COMBATE AOS CRIMES RACIAIS E DE INTOLERÂNCIA REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS