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APG EMBRIOLOGIA DO SISTEMA DIGESTÓRIO POLLIANY FOLLMANN O sistema digestório é constituído pelo tubo digestório, desde a boca até o ânus, com todas as suas glândulas e órgãos associados. O intestino primitivo forma-se durante a 4a semana conforme a cabeça, a eminência caudal (cauda) e as pregas laterais incorporam-se à parte dorsal da vesícula umbilical. O intestino primitivo é fechado, inicialmente, na extremidade cranial pela membrana bucofaríngea e na extremidade caudal pela membrana cloacal. O endoderma do intestino primitivo e o mesoderma esplâncnico adjacente formam a maior parte do intestino, do epitélio e das glândulas. As células mesenquimais derivadas do epitélio celômico (transformação epiteliomesenquimal) contribuem para o mesoderma, que já envolve o intestino primitivo, e, além disso, também estão envolvidas na formação do tecido conjuntivo e dos vasos sanguíneos no intestino. Fatores mesenquimais, proteínas FoxF, controlam a proliferação do epitélio endodérmico, que secreta as proteínas sonic hedgehog (Shh). O epitélio das extremidades cranial e caudal do sistema digestório deriva do ectoderma do estomodeu e da fosseta anal (proctodeu). Os fatores de crescimento de fibroblastos (FGFs) desempenham um papel importante no padrão axial anteroposterior inicial, e parece que os sinais FGF-4 do ectoderma e do mesoderma adjacentes induzem o endoderma. Outros fatores secretados, como ativinas, membros da superfamília do fator de transformação do crescimento β, contribuem para a formação do endoderma. O endoderma especifica as informações temporais e posicionais, que são essenciais para o desenvolvimento do intestino. O tecido muscular, o tecido conjuntivo e outras camadas da parede do tubo digestório são derivados do mesênquima esplâncnico, que circunda o intestino primitivo. Para fins descritivos, o intestino primitivo é dividido em três partes: intestino anterior, intestino médio e intestino posterior. INTESTINO ANTERIOR Os derivados do intestino anterior são os seguintes: • A faringe primitiva e seus derivados • O sistema respiratório inferior • O esôfago e o estômago • O duodeno, proximal à abertura do ducto biliar • O fígado, as vias biliares (ductos hepáticos, vesícula biliar e ducto biliar) e o pâncreas. Esses derivados do intestino anterior, além da faringe, do sistema respiratório inferior e da maior parte do esôfago, são supridos pelo tronco celíaco, a artéria do intestino anterior Desenvolvimento do esôfago O esôfago desenvolve-se a partir do intestino anterior imediatamente caudal à faringe. Inicialmente, o esôfago é curto, mas alonga-se rapidamente, principalmente devido ao crescimento e à realocação do coração e dos pulmões. O esôfago atinge seu comprimento relativo final na 7a semana. Seu epitélio e suas glândulas derivam do endoderma, que prolifera e oblitera, em parte ou completamente, o lúmen do esôfago. No entanto, a recanalização do esôfago ocorre, normalmente, no final da 8a semana. O músculo estriado que forma a camada muscular externa do terço superior do esôfago deriva do mesênquima no quarto e no sexto arcos faríngeos. O músculo liso, principalmente no terço inferior do esôfago, desenvolve-se a partir do mesênquima esplâncnico circundante. Estudos recentes indicam a transdiferenciação das células musculares lisas, na parte superior do esôfago, em músculo estriado, que é dependente de fatores reguladores miogênicos. Ambos os tipos de músculo são inervados por ramos do nervo vago (nervo craniano X), que suprem os arcos faríngeos caudais. Vista lateral de um embrião de 4 semanas mostrando a relação do intestino primitivo com o ducto onfaloentérico. B. Desenho de corte mediano do embrião mostrando o início do sistema digestório e seu suprimento sanguíneo. Desenvolvimento do estômago Inicialmente, a parte distal do intestino anterior é uma estrutura tubular. Durante a 4a semana, uma discreta dilatação indica o local do estômago primitivo. Essa dilatação aparece primeiro como um aumento fusiforme da parte caudal (distal) do intestino anterior e está, inicialmente, orientada no plano mediano. A parede esquerda do estômago primitivo logo aumenta e se alarga anteroposteriormente. Durante as 2 semanas seguintes, devido à polarização e ao rearranjo radial do epitélio, a margem posterior da parede direita do estômago cresce mais rapidamente do que a anterior, o que demarca o desenvolvimento da curvatura maior do estômago. Tal assimetria esquerda-direita e a rotação do intestino são reguladas por forças extrínsecas e pela expressão de genes de padronização esquerda-direita (Foxj1, Nodal e Pitx2). Rotação do estômago As mudanças na posição e na realocação do estômago e do intestino são descritas como rotação passiva. O aumento do mesentério e dos órgãos adjacentes, bem como o crescimento das paredes do estômago, contribuem para a rotação do estômago. À medida que o estômago aumenta e adquire seu formato final, ele gira, lentamente, 90° no sentido horário (visto a partir da extremidade cranial) em torno de seu eixo longitudinal. Os efeitos da rotação no estômago são os seguintes: • A margem anterior (curvatura menor) move-se para a direita e a margem posterior (curvatura maior), para a esquerda • O lado esquerdo original torna-se a superfície anterior e o lado direito original torna-se a superfície posterior • Antes da rotação, as extremidades cranial e caudal do estômago estão no plano mediano. Durante a rotação e o crescimento do estômago, a região cranial move-se para a esquerda e ligeiramente para baixo e a região caudal move-se para a direita e para cima • Após a rotação, o estômago assume sua posição final, com o eixo longo quase transversal ao eixo longo do corpo. A rotação e o crescimento do estômago explicam por que o nervo vago esquerdo supre a parede anterior do estômago do adulto e o nervo vago direito inerva a parede posterior. Mesentérios do estômago O estômago está suspenso da parede dorsal da cavidade abdominal por um mesentério dorsal, o mesogástrio dorsal primitivo. Esse mesentério, originalmente no plano mediano, é levado para a esquerda durante a rotação do estômago e a formação da bolsa omental. O mesentério também contém o baço e a artéria celíaca. O mesogástrio ventral primitivo une-se ao estômago; ele também une o duodeno ao fígado e à parede anterior do abdome. Bolsa omental Fendas isoladas desenvolvem-se no mesênquima, formando o mesogástrio dorsal espesso. As fendas logo se coalescem para formar uma única cavidade, a bolsa omental ou o saco peritoneal menor. A rotação do estômago puxa o mesogástrio para a esquerda, aumentando a bolsa, um grande recesso na cavidade peritoneal. A bolsa expande-se transversal e cranialmente e logo fica entre o estômago e a parede posterior do abdome. A bolsa, semelhante a um saco, facilita os movimentos do estômago. Figura: Desenvolvimento do estômago e formação da bolsa omental e do omento maior. A. Corte mediano do abdome de um embrião de 28 dias. B. Vista anterolateral do embrião mostrada em A. C. Embrião de aproximadamente 35 dias. D. Embrião de aproximadamente 40 dias. E. Embrião de aproximadamente 48 dias. F. Vista lateral do estômago e do omento maior em um embrião de aproximadamente 52 dias. G. Corte sagital mostrando a bolsa omental e o omento maior. A seta em F e em G indicam o local do forame omental. A parte superior da bolsa omental é cortada conforme o desenvolvimento do diafragma, formando um espaço fechado, a bolsa infracardíaca. Se o espaço persistir, ele, geralmente, fica medial à base do pulmão direito. A região inferior da parte superior da bolsa persiste como o recesso superior da bolsa omental. À medida que o estômago aumenta, a bolsa omental expande e adquire o recesso inferior da bolsa omental entre as camadas do mesogástrio dorsal alongado, o omento maior. Essa membrana pende sobre os intestinos em desenvolvimento. O recesso inferior desaparece à medida que as camadas do omento maior se unem. A bolsa omental comunica-se com a cavidade peritoneal por meio de uma abertura, o forameomental. Figura: Desenvolvimento do estômago e dos mesentérios e formação da bolsa omental. A. Embrião de 5 semanas. B. Corte transversal que mostra as fendas no mesogástrio dorsal. C. Estágio avançado após a coalescência das fendas para formar a bolsa omental. D. Corte transversal que mostra a aparência inicial da bolsa omental. E. Mesentério dorsal distendido e bolsa omental aumentada. F a G. Cortes transversal e sagital, respectivamente, mostrando o alongamento do mesogástrio dorsal e a expansão da bolsa omental. H. Embrião de 6 semanas mostrando o omento maior e a expansão da bolsa omental. I a J. Cortes transversal e sagital, respectivamente, mostrando o recuo inferior da bolsa omental e do forame omental. As setas em E, F e I indicam o local do forame omental. Em J, a seta indica o recuo inferior da bolsa omental. Desenvolvimento do duodeno No início da 4a semana começa o desenvolvimento do duodeno a partir da parte caudal do intestino anterior, da parte cranial do intestino médio e do mesênquima esplâncnico associado a essas partes do intestino primitivo. A junção de duas partes do duodeno está distal à origem do ducto biliar. O duodeno em desenvolvimento cresce rapidamente, formando uma alça em forma de C que se projeta ventralmente. À medida que o estômago gira, a alça duodenal gira para a direita e é pressionada contra a parede posterior da cavidade abdominal, ou para a posição retroperitoneal (externa ao peritônio). Em virtude da sua derivação do intestino anterior e do intestino médio, o duodeno é suprido pelos ramos do tronco celíaco e pelas artérias mesentéricas superiores que suprem essas partes do intestino primitivo. Durante a 5a e a 6a semana, o lúmen do duodeno torna-se progressivamente menor e é temporariamente obliterado por causa da proliferação de suas células epiteliais. Normalmente, a vacuolização ocorre conforme as células epiteliais se degeneram; como resultado, o duodeno torna-se recanalizado no final do período embrionário. A essa altura, a maior parte do mesentério ventral do duodeno desapareceu. Desenvolvimento do fígado e do aparelho biliar O fígado, a vesícula biliar e o sistema de ductos biliares surgem como uma projeção endodérmica ventral, o divertículo hepático, da parte distal do intestino anterior no início da 4a semana. A via de sinalização Wnt/β-catenina é crucial nesse processo, que inclui a proliferação e a diferenciação das células progenitoras hepáticas (hepatoblastos) para formar os hepatócitos e os colangiócitos (células epiteliais dos ductos biliares intra-hepáticos). Tanto o divertículo hepático quanto o broto ventral do pâncreas desenvolvem-se a partir de duas populações de células no endoderma embrionário. Em níveis suficientes, os FGFs, secretados pelo coração em desenvolvimento, interagem com as células bipotenciais e induzem a formação do divertículo hepático. Figura: Estágios progressivos no desenvolvimento do duodeno, fígado, pâncreas e sistema biliar extra-hepático. A. Embrião de 4 semanas. B e C. Embrião de 5 semanas. D. Embrião de 6 semanas. Durante o desenvolvimento embriológico, os botões pancreáticos dorsal e ventral, eventualmente, fundem-se, formando o pâncreas. Observe que a entrada do ducto biliar no duodeno muda gradualmente da posição inicial para a posterior. Isso explica por que o ducto biliar nos adultos passa posteriormente ao duodeno e à cabeça do pâncreas. O divertículo invade o septo transverso, a massa do mesoderma esplâncnico que separa as cavidades pericárdica e peritoneal. O septo forma o mesogástrio ventral nessa região. O divertículo hepático aumenta rapidamente e se divide em duas partes à medida que cresce entre as camadas do mesogástrio ventral ou do mesentério da porção dilatada do intestino anterior e do futuro estômago. A parte cranial maior do divertículo hepático é o primórdio do fígado, a parte caudal menor torna-se o primórdio da vesícula biliar. As células endodérmicas em proliferação formam cordões entrelaçados de hepatócitos e dão origem ao revestimento epitelial da parte intra-hepática do sistema biliar. Os cordões hepáticos anastomosam-se ao redor dos espaços revestidos de endotélio, os primórdios dos sinusoides hepáticos. A sinalização do fator de crescimento endotelial vascular Flk-1 parece ser importante para o início da morfogênese dos sinusoides hepáticos (sistema vascular primitivo). Os tecidos fibrosos e hematopoéticos derivam do mesênquima no septo transverso, enquanto as células de Kupffer do fígado originam-se dos precursores da vesícula umbilical. O desenvolvimento do sistema biliar intra-hepático depende da sinalização Notch. O fígado cresce rapidamente da 5a à 10a semana e preenche grande parte da cavidade abdominal superior. A quantidade de sangue oxigenado que flui da veia umbilical para o fígado determina o desenvolvimento e a segmentação funcional do fígado. Inicialmente, os lobos direito e esquerdo são aproximadamente do mesmo tamanho, mas o lobo direito logo se torna maior. A hematopoese (formação e desenvolvimento de vários tipos de células sanguíneas) começa no fígado durante a 6a semana, com a migração das células-tronco hematopoéticas da aorta dorsal para o fígado. A formação de sangue dá ao fígado uma aparência avermelhada e brilhante. Na 9a semana, o fígado é responsável por aproximadamente 10% do peso total do feto. A formação de bile pelas células hepáticas começa durante a 12a semana. A pequena parte caudal do divertículo hepático torna-se a vesícula biliar, e o pedúnculo do divertículo forma o ducto cístico. Inicialmente, o sistema biliar extra-hepático está ocluído com células epiteliais, mas é canalizado posteriormente por causa da vacuolização resultante da degeneração dessas células. Os colangiócitos (células epiteliais) dos ductos extra-hepáticos derivam do endoderma. A conexão do pedúnculo do divertículo com os ductos hepático e cístico ao duodeno torna-se o ducto biliar. Inicialmente, esse ducto se liga ao aspecto ventral da alça duodenal, entretanto, à medida que o duodeno cresce e gira, a entrada do ducto biliar é levada para o lado dorsal do duodeno. A bile, que entra no duodeno através do ducto biliar após a 13a semana, dá ao mecônio (eliminação intestinal do feto) uma cor verde-escura. Mesentério ventral O mesentério ventral, uma membrana fina, de camada dupla, dá origem: • Ao omento menor, que passa do fígado para a curvatura menor do estômago (ligamento hepatogástrico) e do fígado para o duodeno (ligamento hepatoduodenal) • Ao ligamento falciforme, que se estende do fígado à parede anterior do abdome. A veia umbilical passa pela margem livre do ligamento falciforme no seu caminho do cordão umbilical para o fígado. O mesentério ventral, derivado do mesogástrio, também forma o peritônio visceral do fígado. Este é coberto pelo peritônio, exceto na área nua, que está em contato direto com o diafragma Desenvolvimento do pâncreas O pâncreas desenvolve-se entre as camadas do mesentério, a partir dos brotos pancreáticos dorsal e ventral das células endodérmicas, que surgem da parte caudal do intestino anterior. A maior parte do pâncreas deriva do broto pancreático dorsal maior, que aparece primeiro e se desenvolve a uma ligeira distância cranial do broto ventral. O broto pancreático ventral menor desenvolve-se próximo à entrada do ducto biliar no duodeno e cresce entre as camadas do mesentério ventral. Conforme o duodeno gira para a direita e adquire forma de C, o broto é transportado dorsalmente com o ducto biliar. Logo ele fica posterior ao broto pancreático dorsal e depois se funde a ele. O broto pancreático ventral forma o processo uncinado e parte da cabeça do pâncreas. À medida que o estômago, o duodeno e o mesentério ventral giram, o pâncreas fica ao longo da parede posterior do abdome (em posição retroperitoneal). Conforme os botões pancreáticos se unem, seus ductos se anastomosam ou se abrem um no outro. A formação do ducto pancreático se dá a partir do ducto do broto ventral e da parte distal do ducto do broto dorsal. A parte proximal do ductodo broto dorsal frequentemente persiste como um ducto pancreático acessório, que se abre na papila menor do duodeno, localizada aproximadamente 2 cm cranial ao ducto principal. Os dois ductos geralmente se comunicam um com o outro. Em aproximadamente 9% das pessoas, os ductos pancreáticos não se fundem, resultando em dois ductos. Estudos moleculares mostram que o pâncreas ventral se desenvolve a partir de uma população de células bipotenciais na região ventral do duodeno, onde há a expressão do fator de transcrição PDX1. Um mecanismo predefinido envolvendo o FGF-2, que é secretado pelo coração em desenvolvimento, parece desempenhar um papel. A formação do broto pancreático dorsal depende da notocorda secretora de ativina e da FGF-2, que bloqueiam a expressão da Shh no endoderma associado, e do fator de transcrição Myte, que é expresso nas células progenitoras endócrinas do pâncreas. Histogênese do pâncreas O parênquima (tecido celular básico) do pâncreas é derivado do endoderma dos brotos pancreáticos, que formam uma rede de túbulos. No início do período fetal, os ácinos pancreáticos (porções secretoras de uma glândula acinosa) começam a se desenvolver a partir de aglomerados de células ao redor das extremidades desses túbulos (ductos pancreáticos primitivos). As ilhotas pancreáticas desenvolvem-se a partir de grupos de células que se separam dos túbulos e ficam entre os ácinos. Estudos recentes mostram que o fator 1 derivado da célula estromal (SDF-1), quimiocina, expresso no mesênquima, controla a formação e a ramificação dos túbulos. A expressão do fator de transcrição neurogenina-3 é necessária para a diferenciação das células endócrinas das ilhotas pancreáticas. A secreção de insulina começa durante o início do período fetal (na 10a semana). As células que contêm glucagon e somatostatina desenvolvem-se antes da diferenciação das células beta que secretam insulina. O glucagon tem sido detectado no plasma fetal na 15a semana. A bainha de tecido conjuntivo e os septos interlobulares do pâncreas desenvolvem-se a partir do mesênquima esplâncnico adjacente. Quando há diabetes melito materno, as células beta, que secretam insulina no pâncreas fetal, são cronicamente expostas a altos níveis de glicose. Como resultado, essas células hipertrofiam para aumentar a taxa de secreção de insulina. Desenvolvimento do baço O baço deriva de massa de células mesenquimais localizadas entre as camadas do mesogástrio posterior. O baço, um órgão linfático vascular, começa a desenvolver-se durante a 5a semana, mas não adquire seu formato característico até o início do período fetal. Experimentos com mutação ou ruptura de um locus específico de um gene mostram que capsulina, um fator de transcrição hélice-alça básico e genes homeobox NKx2-5, Hox11 e Bapx1 regulam o desenvolvimento do baço. O baço fetal é lobulado, mas os lóbulos normalmente desaparecem antes do nascimento. Os entalhes na margem superior do baço adulto são remanescentes dos sulcos que separavam os lóbulos fetais. À medida que o estômago gira, a superfície esquerda do mesogástrio se funde com o peritônio sobre o rim esquerdo. Essa fusão explica por que o ligamento esplenorrenal tem uma inserção posterior e a artéria esplênica adulta, o maior ramo do tronco celíaco, tem um trajeto tortuoso posterior à bolsa omental e anterior ao rim esquerdo. As células mesenquimais no primórdio esplênico diferenciam-se para formar a cápsula, a estrutura de tecido conjuntivo e o parênquima do baço. O baço funciona como um centro hematopoético até a vida fetal tardia; no entanto, ele mantém o seu potencial para a formação de células sanguíneas, mesmo na vida adulta. Figura: Lado esquerdo do estômago e estruturas associadas no final da 5a semana. Observe que o pâncreas, o baço e o tronco celíaco estão entre as camadas do mesogástrio dorsal. B. Corte transversal de fígado, estômago e baço no nível mostrado em A ilustra a relação dessas estruturas com os mesentérios dorsal e ventral. C. Corte transversal de um feto que mostra a fusão do mesogástrio dorsal com o peritônio na parede posterior do abdome. D a E. Cortes similares que mostram o movimento do fígado à direita e a rotação do estômago. Observe a fusão do mesogástrio dorsal com a parede posterior do abdome. Em consequência, o pâncreas torna-se localizado em uma posição retroperitoneal. INTESTINO MÉDIO Os derivados do intestino médio são os seguintes: • Intestino delgado, incluindo o duodeno distal à abertura do ducto biliar • Ceco, apêndice, cólon ascendente e metade a dois terços direitos do cólon transverso. Esses derivados são supridos pela artéria mesentérica superior. Herniação da alça do intestino médio À medida que o intestino médio se alonga, ele forma a alça ventral do intestino médio, em forma de U, que se projeta nos restos do celoma extraembrionário, na parte proximal do cordão umbilical. A alça é uma herniação umbilical fisiológica, que ocorre no começo da 6a semana. A alça comunica-se com a vesícula umbilical pelo estreito ducto onfaloentérico até a 10a semana. A herniação ocorre porque não há espaço suficiente na cavidade abdominal para o rápido crescimento do intestino médio. A escassez de espaço é causada, principalmente, pelo fígado e rins relativamente grandes. A alça do intestino primitivo médio tem um ramo cranial (proximal) e um ramo caudal (distal) e é suspensa da parede posterior do abdome pelo mesentério alongado, o mesogástrio dorsal. lustrações da herniação e da rotação da alça do intestino médio. A. No começo da 6a semana. A1. Corte transversal da alça do intestino médio, ilustrando a relação inicial dos ramos da alça com a artéria mesentérica superior. Observe que a alça do intestino médio está na parte proximal do cordão umbilical. B. Estágio posterior que mostra o começo da rotação do intestino médio. B1. Ilustração da rotação de 90°, no sentido anti-horário, que leva o ramo cranial do intestino médio para a direita. C. Aproximadamente na 10a semana, mostrando o intestino retornando ao abdome. C1. Ilustração de rotação adicional de 90°. D. Aproximadamente na 11a semana, mostrando a localização das vísceras após a retração do intestino. D1. Ilustração de rotação adicional de 90° da víscera, para um total de 270°. E. Mais tarde no período fetal, mostrando o giro do ceco para a sua posição normal no quadrante inferior direito do abdome. O ducto onfaloentérico está unido ao ápice da alça do intestino médio, onde os dois ramos se juntam. O ramo cranial cresce rapidamente e forma as alças do intestino delgado, mas o ramo caudal sofre pouquíssima alteração, exceto pelo desenvolvimento da proeminência cecal (divertículo), do primórdio do ceco e do apêndice vermiforme. Rotação da alça do intestino médio Enquanto a alça do intestino médio está no cordão umbilical, os componentes da alça giram 90° no sentido anti-horário, em torno do eixo da artéria mesentérica superior. Isso leva o ramo cranial (intestino delgado) da alça para a direita e o ramo caudal (intestino grosso) para a esquerda. Durante a rotação, o ramo cranial alonga-se e forma as alças intestinais (p. ex., os primórdios do jejuno e do íleo). A rotação da alça do intestino médio resulta, aparentemente, do crescimento diferencial dos vários componentes; a rotação é um processo passivo. Retração das alças intestinais Durante a 10a semana, os intestinos retornam ao abdome; ocorre, então, a redução da hérnia do intestino médio. Não se sabe o que causa o retorno do intestino, no entanto, o aumento da cavidade abdominal e a relativa diminuição no tamanho do fígado e dos rins são fatores importantes. O intestino delgado (formado a partir do ramo cranial) retorna primeiro, passando por trás da artéria mesentérica superior, e ocupa a parte central do abdome. À medida que o intestino grosso retorna, ele sofre mais uma rotação de 180° no sentido anti-horário. O cólon descendente e o cólon sigmoide movem-se para o lado direito do abdome. O cólon ascendente torna-se reconhecível com o alongamento da parede posterior do abdome. Fixação dosintestinos A rotação do estômago e do duodeno levam o duodeno e o pâncreas para a direita. O cólon aumentado de tamanho pressiona o duodeno e o pâncreas contra a parede posterior do abdome. Como resultado, a maior parte do mesentério duodenal é absorvida. Consequentemente, o duodeno, exceto a primeira parte (derivada do intestino anterior), não tem mesentério e se localiza retroperitonealmente. Da mesma forma, a cabeça do pâncreas torna-se retroperitoneal. A inserção do mesentério dorsal à parede posterior do abdome modifica-se muito depois que os intestinos retornam à cavidade abdominal. A princípio, o mesentério dorsal está no plano mediano. À medida que os intestinos aumentam, alongam-se e adotam suas posições finais, seus mesentérios são pressionados contra a parede posterior do abdome. O mesentério do cólon ascendente funde-se ao peritônio parietal nessa parede e desaparece; consequentemente, o cólon ascendente também se torna retroperitoneal. Outros derivados da alça do intestino médio (p. ex., jejuno e íleo) retêm seus mesentérios. O mesentério está, inicialmente, ligado ao plano mediano da parede posterior do abdome. Depois que o mesentério do cólon ascendente desaparece, o mesentério do intestino delgado, de formato triangular, adquire uma nova linha de fixação, que passa da junção duodenojejunal, inferolateralmente, para a junção ileocecal. Ceco e apêndice vermiforme O primórdio do ceco e do apêndice vermiforme, a dilatação cecal, aparece na 6a semana como uma elevação na margem antimesentérica do ramo caudal da alça do intestino médio. O ápice da dilatação cecal não cresce tão rapidamente quanto o resto; portanto, o apêndice vermiforme, inicialmente, é uma pequena bolsa ou saco aberto a partir do ceco. O apêndice aumenta rapidamente em comprimento; portanto, ao nascimento, ele é um tubo, relativamente longo, resultante da extremidade distal do ceco. Após o nascimento, a parede do ceco cresce de forma desigual; consequentemente, o apêndice vermiforme entra no seu lado medial. Existem variações da posição do apêndice vermiforme. À medida que o cólon ascendente alonga, o apêndice vermiforme pode passar posterior ao ceco (apêndice retrocecal) ou ao cólon (apêndice retrocólico). Ele pode também descer sobre a abertura superior da pelve (apêndice pélvico). Em aproximadamente 64% das pessoas, o apêndice vermiforme está localizado retrocecalmente. FIGURA: Ilustrações mostrando os mesentérios e a fixação do intestino. A. Vista anterior dos intestinos antes da fixação. B. Corte transversal no nível mostrado em A. As setas indicam as áreas de fusão subsequentes. C. Corte sagital no plano mostrado em A, ilustrando o omento maior que pende sobre o cólon transverso. As setas indicam as áreas de fusão subsequentes. D. Vista anterior do intestino após a fixação. E. Corte transversal no nível mostrado em D, após o desaparecimento do mesentério do cólon ascendente e do cólon descendente. F. Corte sagital no plano mostrado em D, ilustrando a fusão do omento maior com o mesentério do cólon transverso e a fusão das camadas do omento maior. Figura: Estágios sucessivos do desenvolvimento do ceco e do apêndice vermiforme. A. Embrião de 6 semanas. B. Embrião de 8 semanas. C. Feto de 12 semanas. D. Feto ao nascimento. Observe que o apêndice vermiforme é relativamente longo e é contínuo com o ápice do ceco. E. Criança. Observe que a abertura do apêndice vermiforme se encontra no lado medial do ceco. Em aproximadamente 64% das pessoas, o apêndice vermiforme está localizado posteriormente ao ceco (retrocecal). As tênias do cólon são faixas espessas de músculo longitudinal na parede do cólon. INTESTINO POSTERIOR Os derivados do intestino posterior são os seguintes: • De um terço a metade do cólon transverso esquerdo, cólon descendente, cólon sigmoide, reto e parte superior do canal anal • Epitélio da bexiga urinária e maior parte da uretra. Todos os derivados do intestino posterior são supridos pela artéria mesentérica inferior. A junção do segmento do cólon transverso, derivado do intestino médio, com aquele originado do intestino posterior é indicada pela mudança no suprimento sanguíneo do ramo da artéria mesentérica superior para o ramo da artéria mesentérica inferior. O cólon descendente torna-se retroperitoneal quando seu mesentério se une ao peritônio parietal na parede posterior esquerda do abdome, e depois desaparece. O mesentério do cólon sigmoide fetal é retido, mas é menor do que no embrião. Cloaca No início da vida embrionária, a cloaca é uma câmara na qual o intestino posterior e a alantoide se esvaziam. A cloaca, a parte terminal expandida do intestino posterior, é uma câmara revestida por endoderma em contato com o ectoderma superficial na membrana cloacal. Essa membrana é composta por endoderma da cloaca e ectoderma da fosseta anal. A cloaca recebe a alantoide anteriormente, que é um divertículo digitiforme. Segmentação da cloaca A cloaca é dividida em partes dorsal e ventral por uma cunha de mesênquima, o septo urorretal, que se desenvolve no ângulo entre a alantoide e o intestino posterior. A sinalização endodérmica da β-catenina é necessária para a formação do septo urorretal. À medida que o septo cresce em direção à membrana cloacal, ele desenvolve extensões semelhantes a forquilhas que produzem dobramentos das paredes laterais da cloaca. Essas dobras crescem uma em direção à outra e se unem, formando a divisória que separa a cloaca em três partes: o reto, a parte cranial do canal anal e o seio urogenital. FIGURA: Estágios sucessivos na divisão da cloaca em reto e seio urogenital pelo septo urorretal. A, C e E. Vistas a partir do lado esquerdo na 4a, na 6a e na 7a semana, respectivamente. B, D e F. Ampliações da região cloacal. B1 e D1. Cortes transversais da cloaca nos níveis mostrados em B e D. Observe que a porção pós-anal (mostrada em B) degenera e desaparece à medida que o reto é formado. A cloaca é crucial no desenvolvimento anorretal. Novas informações indicam que o septo urorretal não se funde à membrana cloacal; portanto, a membrana anal não existe. Após a ruptura da membrana cloacal por apoptose (morte celular programada), o lúmen anorretal fica temporariamente fechado pelo tampão epitelial (que pode ter sido interpretado erroneamente como a membrana anal). As proliferações mesenquimais produzem elevações do ectoderma superficial em torno do tampão anal epitelial. A recanalização do canal anorretal ocorre por morte celular apoptótica do tampão anal epitelial, que forma a fosseta anal Os dois terços superiores do canal anal adulto derivam do intestino posterior; o terço inferior desenvolve-se a partir da fosseta anal. A junção do epitélio derivado do ectoderma da fosseta anal e o endoderma do intestino posterior é macroscopicamente indicada pela irregular linha pectinada, localizada no limite inferior das válvulas anais. Aproximadamente 2 cm superior ao ânus está a linha anocutânea, onde a composição do epitélio anal muda de células colunares para células escamosas estratificadas. No ânus, o epitélio é queratinizado e contínuo com a pele ao redor dele. As outras camadas da parede do canal anal derivam do mesênquima esplâncnico. A formação do esfíncter anal parece estar sob controle genético do Hox D. Devido à sua origem no intestino posterior, os dois terços superiores do canal anal são irrigados principalmente pela artéria retal superior, uma continuação da artéria mesentérica inferior (artéria do intestino posterior). A drenagem venosa dessa parte superior ocorre principalmente pela veia retal superior, um ramo da veia mesentérica inferior. A drenagem linfática da parte superior é realizada para os linfonodos mesentéricos inferiores. Seus nervos são provenientes da divisão autônoma do sistema nervoso. Por causa de sua origem na fosseta anal, o terço inferior do canal anal é suprido principalmente pelas artérias retais inferiores, ramos da artéria pudenda interna. A drenagem venosa ocorre pela veia retal inferior, um ramo da veia pudenda interna, que drena paraa veia ilíaca interna. A drenagem linfática da parte inferior do canal anal é realizada para os linfonodos inguinais superficiais. A inervação provém do nervo retal inferior; consequentemente, é sensível à dor, à temperatura, ao toque e à pressão. As diferenças na irrigação sanguínea, na inervação e nas drenagens venosa e linfática do canal anal são importantes clinicamente, como quando se pode considerar a metástase (disseminação) das células cancerígenas. As características de um carcinoma (câncer que surge no tecido epitelial) nas duas partes também são diferentes. Os tumores na parte superior são indolores e surgem do epitélio colunar, enquanto os tumores na parte inferior são dolorosos e surgem do epitélio escamoso estratificado. FIGURA: Esboço do reto e do canal anal que mostra a origem do seu desenvolvimento. Observe que os dois terços superiores do canal anal são derivados do intestino posterior, enquanto o terço inferior do canal é derivado da fosseta anal. Por causa de suas origens embriológicas diferentes, as partes superior e inferior do canal anal são supridas por artérias e nervos diferentes e têm drenagens venosa e linfática distintas. Resumo do sistema digestório • O intestino primitivo forma-se a partir da parte posterior da vesícula umbilical, que é incorporada ao embrião. O endoderma do intestino primitivo dá origem ao revestimento epitelial do tubo digestório, com exceção das partes cranial e caudal, que derivam do ectoderma do estomodeu e da membrana cloacal, respectivamente. Os tecidos musculares e conjuntivo que compõem o tubo digestório derivam do mesênquima esplâncnico adjacente ao intestino primitivo • O intestino anterior dá origem a faringe, sistema respiratório inferior, esôfago, estômago, parte proximal do duodeno, fígado, pâncreas e sistema biliar. Como a traqueia e o esôfago têm origem comum no intestino anterior, a divisão incompleta pelo septo traqueoesofágico resulta em estenoses ou em atresias, com ou sem fístulas entre elas • O divertículo hepático, o primórdio do fígado, da vesícula biliar e do sistema de ductos biliares, é a extensão do revestimento epitelial endodérmico do intestino anterior. Os cordões epiteliais do fígado desenvolvem-se a partir do divertículo hepático e crescem no septo transverso. Entre as camadas do mesentério ventral, derivadas do septo transverso, as células primitivas diferenciam-se em tecidos hepáticos e nos revestimentos dos ductos do sistema biliar • A atresia duodenal congênita resulta de falha no processo de vacuolização e recanalização após o estágio de desenvolvimento sólido normal do duodeno. Habitualmente, as células epiteliais degeneram e o lúmen do duodeno é restaurado. A obstrução do duodeno também pode ser causada pelo pâncreas anular ou por estenose pilórica • O pâncreas desenvolve-se a partir dos brotos pancreáticos, que se formam do revestimento endodérmico do intestino anterior. Quando o duodeno gira para a direita, o broto pancreático ventral é deslocado posteriormente e se funde ao broto pancreático dorsal. O broto pancreático ventral forma a maior parte da cabeça do pâncreas, incluindo o processo uncinado. O broto pancreático dorsal forma o restante do pâncreas. Em alguns fetos, os sistemas de ductos dos dois brotos não se fundem e formam o ducto pancreático acessório • O intestino médio dá origem a duodeno (a parte distal à abertura do ducto biliar), jejuno, íleo, ceco, apêndice, cólon ascendente e metade a dois terços da parte direita do cólon transverso. O intestino médio forma uma alça intestinal em forma de U, que se hernia para o cordão umbilical durante a 6a semana porque não há espaço para ela no abdome. Enquanto está no cordão umbilical, a alça do intestino médio gira 90° no sentido anti-horário. Durante a 10a semana, o intestino retorna ao abdome, girando mais 180° • As onfaloceles, as más rotações e a fixação anormal do intestino resultam da falha no retorno ou na rotação anormal do intestino. Como o intestino, normalmente, está ocluído durante a 5a e a 6a semana, a estenose (obstrução parcial), a atresia (obstrução completa) e as duplicações resultam de falha da recanalização ou anormalidade desse processo. Resquícios do ducto onfaloentérico podem persistir. Os divertículos ileais são comuns; no entanto, pouquíssimos inflamam e provocam dor • O intestino posterior origina um terço a metade da parte esquerda do cólon transverso, o cólon descendente e o cólon sigmoide, o reto e a parte superior do canal anal. A parte inferior do canal anal se desenvolve a partir da fosseta anal. A parte caudal do intestino posterior divide a cloaca no seio urogenital e no reto. O seio urogenital dá origem à bexiga urinária e à uretra. O reto e a parte superior do canal anal são separados do exterior pelo tampão epitelial. Essa massa de células epiteliais se decompõe no final da 8a semana • A maioria dos defeitos anorretais resulta da divisão anormal da cloaca no reto e no canal anal, posteriormente, e na bexiga urinária e na uretra, anteriormente. O crescimento interrompido e/ou o desvio do septo urorretal causa a maioria dos defeitos anorretais, como a atresia retal e as fístulas entre o reto e a uretra, a bexiga urinária ou a vagina. Fenda labial e fenda palatina As fendas do lábio superior e do palato são as anomalias congênitas craniofaciais mais comuns. Um relato de 2014 do U.S. Department of Health and Human Services indicou que aproximadamente 7.000 recém-nascidos apresentaram fendas bucofaciais a cada ano nos EUA. No início do segundo trimestre (ver Figura 9.25), características da face fetal podem ser identificadas usando a sonografia. Essa técnica de imagem (Figura 9.38) permite a detecção de defeitos faciais, como o lábio leporino. Os defeitos são normalmente classificados de acordo com critérios de desenvolvimento, com a fossa incisiva utilizada como um marco de referência (ver Figura 9.35B). Essas fendas são especialmente conspícuas, pois resultam em uma aparência facial anormal e fala defeituosa. Existem dois grupos principais de fendas labiais e palatinas (Figuras 9.39, 9.40 e 9.41): •Defeitos na fenda anterior incluem fenda labial com ou sem uma fenda da parte alveolar da maxila. Em um defeito na fenda anterior completa, a fenda estende-se através do lábio superior e parte alveolar da maxila para a fossa incisiva, separando as partes anterior e posterior do palato (ver Figura 9.40E e F). Defeitos na fenda anterior resultam de uma deficiência do mesênquima nas proeminências maxilares e do processo palatino mediano (ver Figura 9.32E) • Defeitos na fenda posterior incluem fendas do palato secundário que se estendem através das regiões dos palatos mole e duro até a fossa incisiva, separando as partes anterior e posterior do palato (Figura 9.40G e H). Os defeitos das fendas posteriores resultam de um desenvolvimento defeituoso do palato secundário e distorções de crescimento dos processos palatinos laterais que impedem sua fusão. Outros fatores, como a largura do estomodeu, a mobilidade dos processos palatinos laterais (prateleira palatina) e os locais de degeneração focal alterada do epitélio palatino, podem contribuir para esses defeitos de nascimento. Uma fenda labial com ou sem uma fenda palatina ocorre em aproximadamente 1 em cada 1.000 nascimentos, mas a frequência varia amplamente entre os grupos étnicos. Entre 60 e 80% dos recém-nascidos afetados são do sexo masculino. As fendas variam de fenda labial incompleta para aquelas que se estendem para o nariz e através da parte alveolar da maxila (ver Figuras 9.39 e 9.41A e B). As fendas labiais podem ser unilaterais ou bilaterais. Uma fenda labial unilateral (ver Figuras 9.39, 9.40E e F e 9.41A) resulta de uma falha da proeminência maxilar no lado afetado em unir-se com as proeminências nasais mediais. A falha das massas mesenquimais em fundir-se e do mesênquima em proliferar e suavizar o epitélio sobrejacente resulta em um sulco labial persistente (Figura 9.42D). O epitélio no sulco labial torna-se esticado, e o tecido no assoalho do sulco se rompe,resultando em um lábio dividido em partes medial e lateral (ver Figura 9.42G e H). Uma ponte de tecido, chamada faixa de Simonart, algumas vezes, junta as partes da fenda labial unilateral incompleta. Uma fenda labial bilateral resulta de uma falha das massas mesenquimais de ambas as proeminências maxilares em se encontrar e fundir com as proeminências nasais mediais (Figura 9.43C e D; ver Figura 9.41B). O epitélio em ambos os sulcos labiais torna-se esticado e se rompe (ver Figura 9.42H). Nos casos bilaterais, os defeitos podem ser diferentes, com vários graus de alteração em cada lado. Quando ocorrer uma fenda bilateral completa do lábio e da parte alveolar da maxila, o processo palatino mediano fica com uma borda livre e se projeta anteriormente (ver Figura 9.41B). Esses defeitos são especialmente deformantes em consequência da perda de continuidade do músculo orbicular dos lábios, que fecha a boca e aperta os lábios. Uma fenda labial mediana é um defeito raro que resulta de uma deficiência mesenquimal. Esse defeito causa falha parcial ou completa das proeminências nasais mediais em se fundir e formar os processos palatinos medianos. Uma fenda labial mediana é um aspecto característico da síndrome de Mohr, que é transmitida como um traço autossômico recessivo. Uma fenda mediana do lábio inferior é também rara e resulta da falha de massas mesenquimais nas proeminências mandibulares em se fundirem completamente e assim suavizar a fenda embrionária entre si. Uma fenda palatina com ou sem fenda labial ocorre aproximadamente em 1 em cada 2.500 nascimentos, e é mais comum em meninas do que em meninos. A fenda pode envolver apenas a úvula (uma úvula fendida tem a aparência de uma cauda de peixe; ou pode se estender através das regiões dos palatos mole e duro. Em casos graves, quando associados à fenda labial, a fenda no palato estende-se através da parte alveolar da maxila e dos lábios em ambos os lados. Uma fenda palatina completa indica o grau máximo de fenda de qualquer tipo particular. Por exemplo, uma fenda completa do palato posterior é um defeito no qual a fenda se estende através do palato mole e anteriormente à fossa incisiva. O marco para distinguir entre defeitos da fenda anterior e da posterior é a fossa incisiva. Fendas unilaterais e bilaterais do palato são classificadas em três grupos: •Fendas do palato anterior (fendas anteriores à fossa incisiva) resultam da falha de massas mesenquimais dos processos palatinos laterais em se encontrarem e fundirem com o mesênquima no palato primário •Fendas do palato posterior (fendas posteriores à fossa incisiva) resultam da falha das massas mesenquimais dos processos palatinos laterais em se encontrarem e fundirem entre si e com o septo nasal •Fendas das partes secundárias do palato (fendas dos palatos anterior e posterior) resultam da falha das massas mesenquimais dos processos palatinos laterais em se encontrarem e fundirem com o mesênquima no palato primário entre si e com o septo nasal. A maioria das fendas do lábio superior e do palato resulta de múltiplos fatores genéticos e não genéticos (herança multifatorial; com cada um causando um pequeno distúrbio do desenvolvimento. Diversos estudos mostram que o gene do fator regulatório da interferona-6 (IRF6) está envolvido na formação das fendas isoladas. Algumas fendas do lábio e/ou do palato aparecem como parte de síndromes determinadas por genes mutantes únicos. Outras fendas são partes de síndromes cromossômicas, especialmente a trissomia do 13. Uns poucos casos de fendas labiais e/ou do palato parecem ser causados por agentes teratogênicos (p. ex., medicamentos anticonvulsivantes). Estudos em gêmeos indicam que os fatores genéticos são mais importantes em casos de fenda labial com ou sem fenda palatina do que uma fenda palatina isolada. Um irmão de uma criança com fenda palatina tem risco elevado de apresentar fenda palatina, mas não tem um aumento no risco de fenda labial. Uma fenda do lábio e do processo alveolar da maxila que continua através do palato é normalmente transmitida por meio de um gene ligado ao sexo masculino. Quando nenhum dos pais é afetado, o risco de recorrência em irmãos subsequentes é de aproximadamente 4%. IMPACTOS: ↠ A fissura labiopalatal é uma anomalia que causa grande impacto na vida do indivíduo portador, provocando problemas funcionais, estéticos e psíquicos. ↠ Diversos problemas decorrentes da presença de fissura labial e/ou fenda palatina podem acometer seu portador desde o nascimento, tais como dificuldades no aleitamento materno devido a sucção, deglutição e respiração prejudicadas, distúrbios na audição e fonação, com prejuízos na comunicação, além da baixa aceitação social. A soma desses fatores pode implicar ainda em complicadores psicológicos, afetando tanto a criança quanto sua família. ↠ A mesma provoca danos físicos que se refletem no sistema respiratório, auditivo, digestivo, dentição e na articulação da fala, além de um forte impacto psicológico trazido pelo preconceito. Esse quadro se agrava quando a deformidade não é tratada no primeiro ano de vida do paciente - problema que ocorre mais comumente nas camadas carentes da população. ↠ Estas disfunções nem sempre corrigíveis e mesmo com cirurgia corretiva, nem sempre é possível evitar sequelas anátomo-fisiológicas na face, sequelas psicossociais e/ou distúrbios na comunicação oral. Estas podem se tornar barreiras para inserção social das pessoas com fissura labiopalatal e para o desenvolvimento de suas habilidades individuais, seja na escola, no trabalho ou na comunidade. ↠ O portador de fissura labiopalatal depara-se com uma sociedade de fetiches, que valoriza o que é bonito e perfeito, e o julga como incapaz e inabilitado para uma aceitação social plena. O fissurado pode vir a sentir-se desajustado socialmente, já que pode ser visto como diferente, sendo passível de discriminação e estigmatização. ↠ Os comprometimentos psicossocias que o indivíduo com fissura pode apresentar são sentimentos como: · ➢ Isolamento; · ➢ Retraimento; · ➢ Timidez; · ➢ Vergonha; · ➢ Indiferença ao meio social, que favorecem o ↠ Estes sentimentos podem comprometer suas relações interpessoais, bem como sua adaptação social, com implicações na formação e estruturação de sua identidade Realizaram um estudo para compreender a experiência emocional e social das mães de crianças com fissura labiopalatal, a partir de uma avaliação de respostas de enfrentamento empregadas por elas, para lidar com a condição de ter um filho com fissura. O estudo contou com a participação de 14 mães, donas de casa, com filhos com fissura de 0 a 5 anos, residente em Deli e nos seus subúrbios. Os resultados mostram que a maioria das mães passaram por um processo de negação e tiveram uma aceitação gradual da criança fissurada, devido às tensões das alterações físicas e questões financeiras voltadas para o cuidado. A presença de apoio social melhorou a qualidade de vida das crianças e da mãe. As intervenções precisam ser desenvolvidas para ajudar os pais a lidarem com o impacto social da estigmatização e com as preocupações referentes ao lábio e palato. EMBRIOLOGIA DA CAVIDADE ORAL ↠ Ao final da segunda semana, o endoderma da parte média do terço cefálico do disco apresenta um espessamento arredondado, denominado placa precordal, que adere firmemente ao ectoderma. Essa região de firme adesão entre ectoderma e endoderma constitui o que será a membrana bucofaríngea. ↠ Fusão similar ocorre na região caudal, entre as pequenas regiões arredondadas dos dois folhetos, formando a membrana cloacal. Nesse período, determinam-se as duas extremidades do tubo digestivo que irá se formar: a boca e o ânus DESENVOLVIMENTO DA CAVIDADE ORAL PRIMITIVA ↠ Na extremidade cefálica, a cavidade oral primitiva, ou estomódeo, originada por uma invaginação do ectoderma, é separada do intestino anterior ou cefálico por uma fina membrana ectodérmica/endodérmica - a membrana bucofaríngea -, que se forma no 22o dia do desenvolvimento ↠ Logoem seguida, no 27o dia, ocorre a perfuração da membrana, estabelecendo-se a comunicação entre a cavidade oral primitiva e o intestino anterior. ARCOS, BOLSAS, SULCOS E MEMBRANAS BRANQUIAIS ↠ O aparelho branquial é composto de arcos, bolsas e sulcos branquiais. Essas estruturas contribuem para a maior parte da formação da face e do pescoço. ↠ Os arcos branquiais iniciam seu desenvolvimento nos primeiros dias da quarta semana de gestação, quando também ocorre a migração das células da crista neural. Os arcos são separados externamente pelos sulcos branquiais, que também são numerados em sequência craniocaudal. ↠ O primeiro arco branquial é subdividido em dois processos: mandibular – o maior, que formará a mandíbula –, e maxilar – que formará a maxila, o arco zigomático e a porção escamosa do osso temporal. Esses processos delimitam a cavidade oral ↠ Nas etapas iniciais, cada arco contém escasso mesênquima, recoberto externamente por ectoderma e internamente por endoderma. Em seguida, o mesênquima é invadido por células provenientes da crista neural. Essas células, apesar de serem de origem ectodérmica, formam o tecido denominado ectomesênquima, responsável pelas estruturas ósseas, dentárias (com exceção do esmalte), conjuntivas e musculares da região craniofacial DESENVOLVIMENTO DA LÍNGUA ↠ A língua tem origem na parede ventral da orofaringe, na região dos quatro primeiros arcos branquiais ↠ Na quarta semana de gestação, duas saliências do ectomesênquima aparecem no aspecto interno do primeiro arco branquial, formando, assim, as saliências linguais. Atrás e entre essas saliências, aparece uma eminência medial, denominada tubérculo ímpar; sua margem caudal forma o forame cego ↠ As saliências linguais crescem e fundem-se, cobrindo o tubérculo ímpar, de modo a formar a mucosa dos dois terços anteriores da língua, cujo epitélio é de origem ectodérmica. As porções centrais do segundo, terceiro e quarto arcos branquiais elevam-se juntamente para formar uma proeminência denominada cópula. O endoderma desses arcos branquiais e a cópula formam a superfície do terço posterior da língua. ↠ A combinação das diferentes origens embriológicas da língua é demonstrada pela sua complexa inervação. O primeiro arco branquial, cujo nervo é o trigêmeo, dá origem ao ramo lingual, responsável pela sensação tátil geral da língua. O segundo arco branquial, cujo nervo é o facial, pelo ramo corda do tímpano, é responsável pela sensação gustativa. Os terceiro e quarto arcos contribuem para as sensações tátil e gustativa da região da base da língua, por meio dos nervos glossofaríngeo e vago SEGMENTO INTRA MAXILAR ↠ Como resultado do crescimento das proeminências maxilares, as duas proeminências nasais mediais se fusionam não apenas superficialmente, mas também em nível mais profundo. ↠ A estrutura formada pela fusão das duas proeminências é o segmento intermaxilar. Ela é formada por: ➢ um componente labial, que forma o filtro do lábio superior ➢ o componente da mandíbula superior, que carrega os quatro dentes incisivos; ➢ um componente palatal, que forma o palato primário triangular. ↠ O segmento intermaxilar da origem ao filtro do lábio superior DESENVOLVIMENTO DO PALATO ↠ No início do desenvolvimento do palato, as cavidades oral e nasal comunicam-se, e o espaço entre elas é ocupado pela língua em desenvolvimento e delimitado anteriormente pelo palato primário. ↠ O palato primário é derivado do segmento intermaxilar ↠ As cristas palatinas (prateleiras palatinas), a princípio, estão voltadas para baixo, a cada lado da língua. Com o contínuo crescimento, após a sétima semana, ocorre um rebaixamento aparente da língua, possibilitando que as cristas palatinas sejam elevadas, fundindo-se entre si e com o palato primário, formando o palato secundário ↠ Somente quando o palato secundário se desenvolve é que as cavidades oral e nasal se separam. A formação do palato secundário ocorre entre a sétima e a oitava semana de gestação, decorrente de uma fusão medial das cristas palatinas, formadas a partir dos processos maxilares ↠ Anteriormente, as prateleiras se fusionam com o palato primário triangular, e o forame incisivo torna-se a referência na linha média entre os palatos primário e secundário DESENVOLVIMENTO DAS GLÂNDULAS ↠ Durante a sexta e sétima semanas, as glândulas salivares, sob a influência da via de sinalização Notch, desenvolvem-se como uma estrutura altamente ramificada pela morfogênese de ramificação a partir de brotos epiteliais maciços a partir da cavidade oral primitiva. ↠ O tecido conjuntivo das glândulas é derivado de células da crista neural. Todo tecido do parênquima (secretor) surge pela proliferação do epitélio oral. GLÂNDULAS PARÓTIDAS ↠ As glândulas parótidas são as primeiras a se desenvolverem e aparecem no início da sexta semana. ↠ Elas se desenvolvem a partir de brotos que surgem do revestimento ectodérmico oral próximo aos ângulos do estomodeu. ↠ O alongamento das mandíbulas causa estiramento do ducto da parótida, com a glândula remanescente próxima ao seu local de origem ↠ Posteriormente os brotos se canalizam (desenvolvem um lúmen) e se tornam ductos por volta da 10a semana. As extremidades arredondadas dos cordões diferenciam- se em ácinos (estruturas em forma de uva). A atividade secretora começa com 18 semanas. A cápsula e o tecido conjuntivo desenvolvem-se a partir do mesênquima circundante GLÂNDULAS SUBMANDIBULARES ↠ As glândulas submandibulares aparecem no final da sexta semana. ↠ Elas se desenvolvem de brotos endodérmicos no assoalho do estomodeu. Processos celulares sólidos crescem lateral e posteriormente à língua em desenvolvimento. Mais tarde, elas se ramificam e se diferenciam. ↠ Os ácinos começam a se formar com 12 semanas e a atividade secretora inicia-se com 16 semanas. O crescimento das glândulas continua após o nascimento com a formação de ácinos mucosos. Lateralmente, à língua em desenvolvimento, forma-se um sulco linear que logo se fecha para formar o ducto submandibular. GLÂNDULAS SUBLINGUAIS ↠ As glândulas sublinguais aparecem durante a oitava semana, aproximadamente 2 semanas mais tarde do que outras glândulas ↠ Elas se desenvolvem a partir de múltiplos brotos epiteliais endodérmicos que se ramificam e se canalizam para formar entre 10 e 12 ductos, que se abrem independentemente no assoalho da boca