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ENTENDER A FISIOPATOLOGIA DO CÂNCER DE PELE (CBC, CEC E MELANOMA) (AZULAY) Carcinogênese Embora só recentemente se tenha começado a desvendar os mecanismos intrínsecos da transformação cancerígena, já se sabe há bastante tempo, em bases clínicas e experimentais, da existência de fatores carcinogênicos de diversas naturezas: • físicos: raios ultravioleta, sobretudo na faixa de 290 a 320 nm (RUV-B); radiação ionizante (raios Grenz, raios X); calor e traumatismo; • químicos: alcatrão e seus derivados; arsênico etc.; • biológicos: vírus e hormônios. Isolados ou concomitantemente, esses fatores agem sob a epiderme e/ou derme do tegumento, provocando alterações iniciais (bioquímicas e ultraestruturais) que podem regredir - nessa fase ou após um período de latência -, passar à fase proliferativa ou neoplásica propriamente dita. Ainda aqui pode ocorrer a regressão espontânea, até mesmo em câncer já plenamente constituído (melanoma e carcinomas). É notória a propensão ao desenvolvimento, em especial, de carcinoma espinocelular (CEC) em pacientes imunodeprimidos. Pacientes com AIDS apresentam risco aumentado de 3 a 5 vezes para o desenvolvimento de câncer de pele não melanoma. Em patologia, com frequência, observa-se infiltrado inflamatório predominantemente linfocitário peritumoral (é inclusive um dos critérios histopatológicos no diagnóstico do melanoma). Esses fatos mostram a importância do sistema imune além da das células natural killer, que teriam a incumbência de destruir células tumorais. O conceito de "áreas imunologicamente vulneráveis" estaria relacionado com a dificuldade de circulação dessas células ou com a estimulação angiogênica, como ocorre nos linfedemas de qualquer natureza, favorecendo o aparecimento de neoplasias. Iniciação E o primeiro estágio da indução ao câncer. Ocorre quando determinado agente é capaz de gerar alterações permanentes no genoma da célula e de sua progênie. São exemplos: hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, agentes alquilantes, aminas aromáticas, ultravioleta (UV) etc. Promoção Deve ocorrer após a iniciação e o agente deve ser aplicado repetidas vezes, causando alterações reversíveis como inflamação, irritação, hiperplasia. São exemplos: óleo de cróton, antralina, UV etc. Carcinógeno completo Seria o agente capaz de iniciar e promover desenvolvimento do tumor. Um exemplo é a radiação ultravioleta (RUV). Cocarcinogênese Quando houver efeito aditivo e, às vezes, sinérgico entre dois agentes, sendo pelo menos um deles necessariamente carcinógeno, o outro poderia atuar aumentando a suscetibilidade da célula-alvo ou modificando a cinética do carcinógeno. Um exemplo é a combinação de UV e mostarda nitrogenada no tratamento da micose fungoide. Protoncogenes Seriam os genes normais relacionados com o crescimento e a diferenciação celular. Atuariam por meio da elaboração de fatores de crescimento, receptores, proteínas e fatores de transcrição. Estão presentes em todas as espécies. Ao sofrerem algum tipo de mutação, ou saírem do ambiente em que exerceriam um controle, tornam-se tumorigênicos. Atuam de modo dominante sobre o funcionamento da célula. Oncogenes (ou genes transformadores) é um termo genérico aplicado para um grupo de genes reguladores que, quando alterados e ativados, contribuem para o desenvolvimento do câncer. O oncogene MYC atuaria predominantemente no núcleo, enquanto a ação do RAS seria mais citoplasmática. Este codifica, normalmente, um sinalizador intermediário crítico envolvido na resposta a múltiplos fatores de crescimento; encontra-se mutado e ativado em diversas neoplasias. Genes supressores Teriam como função modular o crescimento celular ao atuarem nos mecanismos que regulam a proliferação e a diferenciação celulares, a estabilidade genômica e a apoptose. O gene supressor mais conhecido é o P53, que está localizado no braço curto do cromossomo 17 e que codifica uma fosfoproteína de 53 kDa. A mutação dessa proteína faz com que haja perda da função, possibilitando o crescimento celular desordenado. Trata-se do gene mutante mais frequentemente documentado em câncer humano, inclusive nos de figado, bexiga, mama, pulmão, órgãos hematopoiéticos etc. A família Hedgehog de proteínas sinalizadoras intercelulares está implicada no desenvolvimento da maioria dos carcinomas basocelulares (CBC). Mecanismos desencadeadores da carcinogênese A RUV é o principal carcinógeno para a pele e age de duas maneiras: a primeira gerando dímeros de timina (iniciação) e a segunda estaria relacionada com a imunodepressão que causa ao depletar células de Langerhans da epiderme e estimular o aparecimento de clones de linfócitos supressores (promoção), facilitando o crescimento tumoral. As lesões pré-cancerosas mais frequentes são as ceratoses (actínica, alcatrão, arsênico). Os raios UV são do tipo A (320 a 400 nm), B (290 a 320 nm) e C (200 a 290 nm); o último não atravessa a ionosfera, de modo que apenas o A e o B atingem a pele do homem, provocando alterações benéficas e maléficas; estas últimas dependem de dois fatores básicos: a intensidade da radiação solar e a cor da pele. A intensidade é dada pela região geográfica, ou seja, está na dependência da latitude; pela exposição de áreas do corpo, de acordo com os hábitos culturais e de vestimenta; e pela profissão (marinheiros, lavradores). A pele mais vulnerável é aquela que nunca se pigmenta, isto é, que apenas se torna eritematosa após exposição solar, fototipo I. As ceratoses actínicas, assim como os carcinomas e melanomas, localizam-se preferentemente nas áreas mais expostas ao sol (face, pescoço, mãos e braços) e, em determinadas profissões (marinheiros, lavradores), também no tronco; cerca de 90% dos cânceres cutâneos têm localização em áreas expostas. Com relação à cor da pele, independentemente da latitude, sabe-se que, no negro, a incidência de ceratose actínica, carcinomas e melanomas é baixíssima (muito menor que nos indivíduos de pele branca, nas localizações de áreas expostas). Não há dúvida quanto à relação com o pigmento, pois a contraprova está na observação de albinos (racialmente negros) terem uma frequência muito alta de câncer cutâneo; esse fato também já foi observado entre os índios albinos do Caribe (los hijos de la luna) que morrem, quase todos, na idade adulta jovem, vitimados por câncer cutâneo. É ainda a duração da exposição solar durante a vida que justifica a maior frequência de carcinoma entre os homens; em determinadas regiões onde o homem é quem, por decorrência profissional, mais se expõe ao sol, a diferença é grande (16/1) com relação às mulheres. Em outras regiões onde ambos se expõem igualmente ao sol, essa diferença é nula. Além disso, essa diferença só ocorre em populações brancas, sendo inexistente entre os negros. Por outro lado, enquanto nas populações brancas a relação CBC/CEC é elevada, entre os negros bantus predomina o CEC, sendo raro o CBC. O efeito cancerígeno da radiação solar sobre a pele é cumulativo, de modo que o fato justifica, pelo menos em parte, a maior frequência de carcinomas nas últimas décadas da vida. Postula-se que na gênese do CBC e do melanoma parece ter valor apenas a exposição intermitente à radiação solar. O UVB é mais carcinogênico do que o UVA. Os vírus ou suas partículas ao se integrarem ao DNA da célula, ajudam a causar alterações cromossômicas como deleções, translocações etc. Os vírus de DNA estão mais relacionados com neoplasias do que os de RNA, à exceção dos retrovírus. Por outro lado, há trabalhos experimentais demonstrando a interação de vírus e substâncias químicas e/ou radiações, no sentido de um efeito sinérgico cancerígeno. As culturas de células sofrem uma transformação neoplásica mais rápida e mais intensa pela ação dos vírus quando essas células apresentam, previamente, alterações cromossômicas induzidas por substâncias químicas cancerígenas ou radiações de vários tipos, o que é explicado pelas alterações provocadas no DNA, originando-se,então, mutações celulares com características neoplásicas. Está bem estabelecido o potencial oncogênico dos papilomavírus humano , sobretudo de algumas cepas (HPV 5, 16, 18, 31, 33 etc.) na gênese do CEC. É preciso mencionar aqui o possível papel da genética na carcinogênese; sabe-se que existem famílias com tendência a certas estirpes de câncer. Um ponto digno de nota é a existência de autênticas genodermatoses suscetíveis à cancerização, como xeroderma pigmentoso, síndrome de Bloom e outras que são atualmente classificadas como doenças caracterizadas por instabilidade do DNA. O uso terapêutico indiscriminado de raios X no passado viabilizou a verificação de elevada frequência de CEC secundários a radiodermites crônicas. A elevada frequência de CEC em membros inferiores (60% desses tumores) entre os negros bantus é justificada por traumatismo e cicatrizes de queimaduras e úlceras crônicas; ainda nessa tribo, a frequência de melanoma é maior na região plantar em função, provavelmente, de traumatismo pela falta de uso de sapatos. A radiação calórica (radiação infravermelha) também leva ao aparecimento de câncer cutâneo, como já se observou em certos povos (Industão) que aplicam calor em determinadas áreas do corpo (Kangri-câncer); o número elevado de câncer trocanteriano em chineses que dormem em camas de tijolos aquecidos é outro bom exemplo do efeito cancerígeno da radiação calórica. O CEC de glande em indivíduos não circuncidados mostra o papel cancerígeno da irritação persistente, o que não ocorre entre os circuncidados. Desde o século 18, já se conhecia a elevada incidência de câncer de mama nos usuários de rapé, e câncer de escroto nos limpadores de chaminés, em decorrência dos resíduos de carvão nas dobras escrotais (Percivall Pott, 1775). A observação posterior de elevada incidência de câncer cutâneo em trabalhadores da indústria do petróleo e derivados e a reprodução experimental de CEC em ratos, com aplicação tópica prolongada de coaltar, realizada em 1918, por Yamagiwa e Ichikawa, não deixam dúvidas quanto à ação cancerígena dessas substâncias; as mais ativas são os compostos hidrocarbonetos aromáticos, policíclicos, de benzopireno e benzantraceno. É elevada a frequência de ceratoses por alcatrão entre os trabalhadores na indústria dessas substâncias, bem como nos portadores de dermatoses crônicas tratadas, a longo prazo, com coaltar; esse fato foi muito usual entre os brasileiros, quando se usava esse tipo de tratamento no pênfigo foliáceo. Outra substância química cancerígena é o arsênico; o alto índice de ceratose, de doença de Bowen, de CEC e, até mesmo, CBC em pessoas que residem em áreas cuja água é rica em arsênico, ou em pessoas que, no passado, ingeriram arsênico como terapêutica (licor de Fowler), constitui uma evidência da ação cancerígena do arsênico trivalente. O mesmo ocorre entre os trabalhadores da indústria do arsênico ou com agricultores que lidam com inseticidas e herbicidas arsenicais; apenas o arsênico inorgânico é cancerígeno. O conceito de campos de cancerização advém de situações em que pacientes que apresentam neoplasia tem maior probabilidade de desenvolver outra neoplasia primária ou ainda recorrência da mesma devido ao comprometimento do tecido peritumoral. A explicação para isso seria que as células contíguas ou próximas apresentariam alterações genéticas (mutações) ou displasias semelhantes, porém menos intensas do que as do próprio tumor, já que foram submetidas às mesmas agressões. Um bom exemplo na pele é o que ocorre em idosos calvos de longa duração. Diversos órgãos também podem apresentá-los, como: cavidade oral, orofaringe, esôfago, pulmão, vulva, cérvix uterina, mama, cólon, e bexiga. • Fatores intrísecos Fatores genéticos (CLÍNICA MÉDICA) O câncer, em geral, é causado pela interação entre fatores genéticos e ambientais. As células da pele são constantemente bombardeadas pela radiação UV e certos genes são responsáveis pelo reparo dos danos celulares que esta produz. Um gene chamado patched foi recentemente descoberto e, quando inativo, leva a uma proliferação celular excessiva (gene supressor de tumor). Esse gene é um homólogo humano da Drosophila e está ligado ao CBC. Seu locus cromossômico encontra-se no braço longo do cromossomo 9 e é diretamente responsável pela morte programada das células (apoptose). Outro gene de grande importância no desenvolvimento de CPNM é o gene supressor p53; localiza-se no braço curto do cromossomo 17 e sintetiza uma proteí- na que tem como função deter o crescimento celular enquanto se faz o reparo do DNA celular lesado. Também pode levar a apoptose nas células que apresentam lesão no seu genoma funcionando como um mecanismo de defesa. A radiação UV seria uma das principais responsáveis pela mutação do p53. Se um desses dois genes patched ou p53 é herdado na forma mutada, suas funções estarão afetadas, e a chance de se desenvolver o câncer cutâneo é grande. Os que recebem o p53 em sua forma mutada têm 50% de chance de desenvolver câncer cutâneo até os 30 anos de idade e 90% até os 70 anos. Genodermatoses (CLÍNICA MÉDICA) Uma série de doenças genéticas raras tem sido associada com o aumento da suscetibilidade da pele à radiação UV e, consequentemente, ao maior risco de se desenvolver CPNM. O xeroderma pigmentoso é uma doença autossômica recessiva caracterizada pela hipersensibilidade à radiação UV e o desenvolvimento de múltiplos cânceres cutâ- neos (CBC, CEC e melanoma) em indivíduos muito jovens. Essa patologia caracteriza-se pelo defeito no reparo e na síntese do DNA das células após irradiação UV. A síndrome do nevo basocelular é uma doença autossômica dominante que cursa com múltiplos CBC, cistos de mandíbula, anormalidades ósseas, pits palmo- plantares e calcificações cerebrais. O albinismo é uma doença autossômica recessiva caracterizada por perda da melanina e aumento no risco de desenvolver câncer cutâneo, principalmente o CEC. A epidermodisplasia verruciforme é de herança autossômica recessiva, sendo que seus portadores apresentam suscetibilidade aumentada ao HPV, muitos deles oncogênicos, fazendo com que, nas áreas verrucosas, principalmente de exposição solar, desenvolvam-se CPNM. A epidermólise bolhosa distrófica é condição autossômica dominante e recessiva. Caracteriza-se pela formação de bolhas que dão origem a áreas exulceradas crônicas da pele, unhas e membranas mucosas podendo desenvolver-se CEC sobre essas áreas. Lesões precursoras (CLÍNICA MÉDICA) São poucas as lesões precursoras dos CBC, talvez a mais importante seja o nevo sebáceo, com possibilidade de transformação de 6 a 14%; outras são frutos de rela- tos ocasionais, como cicatrizes de queimaduras ou úlceras crônicas. Nos CEC, o desenvolvimento desses tumores em áreas de tecidos cicatriciais de queimadura ou sequelas de dermatoses são bem documentadas. Assim como sobre áreas de inflamação crônica como úlceras ou dermatoses inflamatórias. A condição pré-maligna mais frequente no desenvolvimento do CEC é a ceratose actínica. É marcador importante do efeito cumulativo da radiação solar sobre a pele. O risco de um doente com numerosas ceratoses actínicas desenvolver CEC é de aproximadamente 12%. As duas formas de CEC in situ, a doença de Bowen e a eritroplasia de Queirat, podem transformar-se em CEC invasivo, assim como, mais raramente, a papulose bowenóide, associada com o vírus HPV. Fatores imunológicos (CLÍNICA MÉDICA) A imunossupressão predispõe o indivíduo a desenvolver muitos cânceres, entre eles os de pele. Doentes transplantados, submetidos a imunoterapia supressiva, portadores de tumores ocultos ou de infecção pelo HIV, apresentam com maior frequência CPNM por perda de sua imunovigilância contra esses tumores. (AZULAY) CARCINOMA BASOCELULAR (CBC) (carcinoma tricoblástico, basalioma ou epitelioma basocelular) É uma neoplasia maligna da pele de crescimento lento, localmente invasiva e que raramente leva a metástases. Deriva-sedas células basais das camadas inferiores da epiderme e estruturas anexiais. O CBC é, em média, três vezes mais comum que o CEC e, embora ambos se originem de células epidérmicas, apresentam diferenças clínicas e comportamentais. Os fatores de risco individuais para CBC incluem sexo, idade, imunossupressão, doenças genéticas (por exemplo, síndrome de Gorlin-Goltz) e tipos de pele I e II de Fitzpatrick. A radiação ultravioleta (UV) desempenha o papel mais importante na patogênese do CBC, embora a relação entre a radiação UV e o desenvolvimento do CBC permaneça altamente controversa. O CBC se desenvolve principalmente na pele exposta ao sol. Na verdade, o CBC raramente é encontrado nas superfícies palmoplantares e nunca aparece na mucosa. Indivíduos que desenvolvem CBC têm um risco elevado de desenvolver novos focos de CBC, bem como outros tipos de câncer de pele, incluindo melanoma e CEC. Epidemiologia É a neoplasia maligna mais comum (cerca de 50%) com relação a totalidade das neoplasias malignas; no que concerne aos cânceres de pele, sua frequência é a maior (cerca de 70%). Incide preferencialmente na idade adulta (mais de 90% acima dos 30 anos de idade), sendo discretamente mais usual no sexo feminino (58%:42%). Em outras estatísticas, predomina o sexo masculino, o que depende da população em estudo. É raro no negro, devido à proteção do pigmento quanto á radiação solar. Sua frequência entre brancos é tanto maior quanto mais claro for o indivíduo (olhos claros, cabelos louros, pele clara que não se pigmenta quando exposta aos raios solares), sobretudo quando submetidos a maior exposição de raio solares (marinheiros, lavradores). Etiopatogenia Ressaltam-se como fatores etiológicos: radiações de todos os tipos, desde as calóricas até as ionizantes, certas substâncias químicas, como os derivados do alcatrão e o arsênico e, em escala quase desprezível, cicatrizes antigas (raro quando comparado ao carcinoma espinocelular). Como fatores relevantes, temos ainda a cor da pele e profissões de maior exposição às radiações (médicos, técnicos, marinheiros e lavradores). Atualmente, está sendo questionada a exposição solar continuada, visto que o CBC não é reproduzível em animais de laboratório em exposição constante à luz e, sim, o carcinoma espinocelular (CEC). Acredita-se na importância da exposição de maneira intermitente. Certas síndromes genéticas apresentam elevada frequência do tumor, caso da síndrome do nevo basocelular (SNBC). Em 1996, foram identificadas mutações no gene patched (PTCH), localizado no cromossomo 9q22.3, em pacientes portadores desta síndrome. Posteriormente, foi demonstrado que essas mutações também ocorrem nas formas esporádicas de CBC. O gene PTCH codifica uma proteína homônima que, na verdade, é um receptor proteico transmembrana que participa na via de sinalização Sonic Hedgehog, agindo como supressor tumoral. O gene Hedgehog codifica uma série de proteínas mediadoras de processos cruciais para o desenvolvimento embrionário de vertebrados e invertebrados. Nos vertebrados, existem 3 genes homólogos: Sonic Hedgehog (Shh); Indian Hedgehog (Ihh) e Desert Hedgehog (Dhh). Nos seres humanos, a mutação desse gene, ainda no período fetal, resulta em graves malformações da linha média, como holoprosencefalia, ciclopia, agenesia nasal e fenda palatina. Nos adultos, o gene participa do processo de homeostase tecidual, renovação celular e manutenção das células-tronco. A ocorrência de mutações no gene, em especial o Shh, ou desequilíbrio da via sinalizadora das proteínas Hedgehog (Hh) desempenha papel essencial no processo de carcinogênese em vários tipos celulares: é o que ocorre no CBC, meduloblastoma, dentre outros. A cascata de sinalização celular tem início com a ligação da proteína Hh à proteína transmembrana Patched 1 (PTCH1). Na ausência de um ligante Hh, a PTCH inibe a atividade da proteína transmembrana Smoothened (SMO). A ligação da Hh à PTCH resulta na inativação da PTCH e na consequente ativação da proteína SMO, a qual irá transduzir o sinal da Hh ao citoplasma da célula. Esse sinal será transmitido por uma série de proteínas, dentre as quais a proteína SUFU (suppression fused), que normalmente age como inibidora desta via. Após a ligação da Hh à PTCH, essa atividade inibitória da SUFU cessa, causando desequilíbrio entre as formas ativadoras e supressoras da família GLI (glioma-associated oncogene) de fatores de transcrição (sendo GLI-1 e GLI-2 ativadoras da via e GLI-3, supressora), e resultando na expressão dos genes-alvo. O complexo Hh/PTCH é então internalizado na célula, sendo posteriormente degradado. A maior parte dos CBC apresenta 2 tipos distintos de mutações que alteram a via Hedgehog: mutações inativadoras no alelo PTCHI (90 a 85%), e mutações ativadoras no gene que codifica a proteína SMO (10%). Desse modo, sendo esses tumores independentes da ligação da proteína Hh, para que uma substância seja efetiva nesses casos, é necessário que ela atue na cascata de sinalização no nível da proteína SMO ou abaixo dela. Clínica A lesão mais característica do CBC é a lesão "perolada", ou seja, lesão papulosa translúcida e brilhante de coloração amarelo-palha, que é frequente em quase todas as suas manifestações clínicas. Às vezes, a lesão papulosa perolada de dimensões pequenas (alguns milímetros) é a única manifestação do CBC; outras vezes, a pérola ocorre na borda da lesão, que cresce centrifugamente; em outras, ainda, a pérola cresce como tal, tornando-se uma lesão globosa, em cuja superfície há discretas telangiectasias - essa lesão globosa acaba, mais cedo ou mais tarde, por ulcerar-se; de outras vezes, a lesão é vegetante ou ulcerovegetante. Em torno das lesões, não há inflamação, ou seja, as lesões estão encastoadas em pele sã; não há comprometimento ganglionar ou sistêmico A localização preferencial é na região cefálica (cerca de 90%), seguida do tronco e, finalmente, dos membros. Em nossa estatística, encontramos 83% na cabeça e pescoço, e a região nasal foi a mais acometida (27% do total dos casos); em outras estatísticas, a localização mais frequente é a orbitopalpebral. Quando a localização é nas orelhas, tende a ser mais agressivo, o que pode ser explicado por meio da patologia, pois comumente é do tipo esclerodermiforme, infiltrativo, basescamoso ou micronodular: O acometimento de mucosas ocorre exclusivamente por contiguidade. • Manifestações clínicas: Papulonodular, globosa ou nodulocística Na realidade, a pápula é a lesão inicial (alguns milímetros, com aspecto perolado); seu crescimento, após anos, leva à forma globosa ou nodular, que pode medir vários centímetros e que, se não for tratada, certamente ulcerará. É a apresentação mais comum. Ulcerada Pode iniciar-se já como pequena úlcera ou em consequência do crescimento da forma globosa; a inflamação é mínima, e a secreção serosa é praticamente inexistente; a borda, no entanto, é sempre perolada. Terebrante (ulcus rodens) É uma forma ulcerada com invasão rápida, provocando grande destruição do maciço central da face, reunindo em um só orifício boca e fossas nasais; instala-se, assim, a síndrome da gangosa. Outras vezes, a forma terebrante destrói o globo ocular, podendo invadir até mesmo a calota craniana. Plano cicatricial É relativamente superficial e cresce centrifugamente, de modo que a parte central apresenta um aspecto cicatricial e a periferia é sempre perolada. Na lesão, podem ocorrer microulcerações com cicatrização posterior e, assim ir crescendo. É relativamente comum na região orbitária. Lembra a recidiva em um paciente submetidos a um retalho. Superficial, eritematosa ou pagetoide É representada por área geralmente oval, eritematoescamosa ou superficial, lembrando o lúpus eritematoso; a borda é nítida, no entanto, delimitada por um cordão muito fino, nem sempre perceptível. É mais frequente no tronco; tem certa correlação com a ingestão de arsênico; lembra a doença deBowen (DB). É a apresentação do CBC própria dos pacientes submetidos à radioterapia, porém sem evidências clínicas de radiodermite. Na patologia, há vários brotos superficiais do tumor, a partir da epiderme. Esclerodermiforme, fibrosante ou morfeia-símile Assemelha-se a uma placa de esclerodermia, e a borda não é nítida nem perolada; a superfície é lisa e brilhante, de cor amarelada; à palpação, sente-se certo grau de dureza devido à fibrose; é uma forma rara, de limites pouco definidos e infiltrativa. Na patologia, encontram-se poucas camadas de células tumorais por entre as fibras colágenas, tornando-o mais infiltrativo. É altamente recidivante. Pigmentada Trata-se de uma lesão papulosa, globosa ou ulcerada, com grande quantidade de melanina, o que provoca certa confusão com o melanoma. E mais comum em negros. Vegetante É muito rara. Fibroepitelial ou fibroepitelioma de Pinkus Caracteriza-se por lesões solitárias ou múltiplas, moles, muitas vezes pedunculadas, localizadas no dorso, lembrando fibromas. A histologia mostra massas tumorais estreitas interconectadas com estroma proeminente, que lembram a ceratose seborreica reticulada. Síndrome do nevo basocelular (síndrome de Gorlin-Goltz) Caracteriza-se pelo aparecimento, já na infância, de tumores que, com a idade, aumentam consideravelmente em número e tamanho. Os tumores podem lembrar nevos ou fibromas. Outras manifestações clínicas são: depressões puntiformes na região palmoplantar, cistos odontogênicos na mandíbula, anormalidades nas costelas, espinha bífida, calcificação da foice do cérebro e eventual retardo mental. É de herança autossômica dominante; a mutação é no receptor PTCH. Síndrome do nevo basocelular linear unilateral Caracteriza-se por inúmeros tumores e comedões, em distribuição linear, já presentes ao nascimento. É raríssima. Síndrome de Bazex Caracteriza-se por atrofodermia folicular já ao nascimento e desenvolvimento de numerosos basaliomas na face, a partir da adolescência. A localização preferencial das cicatrizes foliculares é o dorso das mãos e pés. Pili torti e hipoidrose, sobretudo facial, podem ocorrer: A herança é autossômica dominante ou X-linked. É necessário atenção para não confundir com doença de Bazex. CARCINOMA ESPINOCELULAR (carcinoma epidermoide, espinalioma) Trata-se de uma neoplasia maligna, isto é, com capacidade de invasão local e de metastatizar, originária das células epiteliais do tegumento (pele e mucosa), com certo grau, maior ou menor, de diferenciação no sentido da ceratinização; são exceções a este último aspecto os carcinomas espinocelulares (CEC), altamente indiferenciados. Epidemiologia Ocorre em todas as raças; sua frequência é menor que a do carcinoma basocelular (CBC); no entanto, de algum modo, é elevada (cerca de 20% dos cânceres cutâneos). Ocorre com mais frequência no sexo masculino (54%) e após a 6ª década de vida (é mais tardio que o CBC). Etiopatogenia Relaciona-se de maneira direta com exposição solar e é o mais frequente dos tumores relacionados com a imunossupressão. Algumas síndromes genéticas estão associadas ao seu aparecimento, tais como xeroderma pigmentoso, albinismo oculocutâneo, epidermodisplasia verruciforme. O CEC progride de lesões pré-malignas, ou seja, ceratoses actínicas para CEC in situ e, finalmente, para CEC invasivo. O aspecto clínico do CEC é variável, podendo ser observado como placa endurecida e lisa ou lesão exofítica e ulcerativa. As lesões precursoras, ceratoses actínicas e CEC in situ, nem sempre são clinicamente distintas das lesões de CEC. Assim, o diagnóstico de CEC primário depende do exame histopatológico da biópsia lesional. Apenas uma parte das ceratoses actínicas progredirá para CEC invasivo. O risco de CEC invasivo aumenta se várias lesões de ceratoses actínicas estiverem presentes, e as ceratoses actínicas são os fatores preditivos mais potentes para a progressão do CEC. A ocorrência de várias lesões simultâneas de ceratose actínica em um paciente com CEC é um sinal de cancerização de campo e aumenta o risco de um segundo CEC primário ou metástase nodal. No entanto, foi demonstrado que as lesões de ceratose actínica ou CEC in situ detectadas antes do diagnóstico de CEC se correlacionam com menor risco de metástase e podem funcionar como um fator protetor para metástase de CEC. As metástases são normalmente detectadas em linfonodos locorregionais e metástases à distância são menos comuns. Os fatores de risco associados ao tumor para metástases no CEC primário são localização na têmpora, diâmetro do tumor acima de 20 mm, invasão tumoral além da gordura subcutânea, rápido crescimento do tumor, recorrência prévia de tumor de CEC, presença de vários tumores de CEC e sintomas neurológicos (parestesia e dor). Os fatores de risco histológicos para recorrência local e metástase são profundidade de invasão, invasão perineural ou linfovascular, baixo grau de diferenciação e subtipos histológicos específicos, como CEC acantolítico, adenoescamoso, sarcomatóide ou desmoplásico. Além disso, os CECs que se desenvolvem em certas áreas da pele protegidas pelo sol, como a sola dos pés ou o períneo, estão associados a um maior risco de metástase. Alterações moleculares na patogênese do CEC O CEC é um tumor maligno complexo com alto nível de heterogeneidade molecular. A frequência mutacional média mais de 50 mutações por mega par de bases de DNA, é maior do que em qualquer outro tipo de tumor comum, por exemplo, melanoma, pulmão ou câncer colorretal. Uma assinatura mutacional típica causada pela irradiação UVB, com transições C → T predominantes, foi detectada em tumores de CEC. A inativação mutacional de TP53 em queratinócitos epidérmicos é um evento precoce no desenvolvimento de CEC. O p53 desempenha um papel importante na manutenção da estabilidade genômica e sua inativação resulta em acúmulo acentuado de mutações simples induzidas por UV. Mutações TP53 já são encontradas em ceratoses actínicas. Em CECs primários, uma frequência de mutação de TP53 é de 50-60%, enquanto em CECs metastáticos, quase 95% das amostras mostram alterações genéticas no TP53 , destacando o papel da exposição crônica a UV na progressão do CEC. Mutações inativadoras do CDKN2A , que codifica importantes reguladores do ciclo celular p16 (INK4a) e p14 (ARF), também são c o m u n s n o C E C . Curiosamente, a inativação de CDKN2A ocorre em um e s t á g i o p o s t e r i o r n a progressão de ceratose actínica para CEC, uma vez que não sofre mutação na pele normal exposta ao sol. Uma meta-análise recente de dados de sequenciamento disponíveis publicamente mostra vários novos genes que são frequentemente mutados no CEC, por exemplo, EP300 , PBRM1 , USP28 e CHUK. Os supressores tumorais p300 e SWI/SNF, e EP300 e PBRM1 estão envolvidos na regulação epigenética da expressão gênica de Notch1 e na remodelação da cromatina. Uma alta frequência de mutações truncadas foi encontrada na USP28 , que codifica uma deubiquitinase que estabiliza proteínas-chave envolvidas no reparo do DNA. CHUK codifica IκB quinase α, que está envolvida na sinalização NFκB. Além disso, a comparação do status de mutação do CEC local e metastático revelou que mutações nos genes TP53 , CDKN2A e TERT são mais comuns em CECs metastáticos do que locais. Por outro lado, mutações em SPEN , MLL3 , NOTCH2 , MLL2 , CREBBP , SPTA1 , NF1 e EP300 são detectadas com mais frequência em CEC locais. Mutações adicionais detectadas no CEC incluem ativação de PIK3CA e HRAS e inativação de NOTCH1, NOTCH2, TGFBR1 e TGFBR2. NOTCH1 e NOTCH2 sofrem mutação em até 85% do CEC, resultando em receptores Notch truncados e sinalização anulada. Mutações NOTCH1 ocorrem precocemente na progressão do CEC, e mutações desse gene são comuns na pele normal exposta ao sol. É possível que as mutações do NOTCH1 precedam as mutações do p53 no desenvolvimento do CEC. Foi demonstrado que Notch1 é um fator importante na carcinogênese dequeratinócitos induzida por HRAS , uma vez que os CECs induzidos por vemurafenib, inibidor de BRAF, com HRAS mutado abrigam um número maior de mutações de NOTCH1 do que CECs esporádicos. A perda de Notch1 combinada com a expressão oncogênica de Hras induziu a formação de tumores agressivos, enquanto a expressão oncogênica de HRAS sozinha resultou em tumores pequenos ou nenhum tumor em um modelo de tumor de xenoenxerto. Clínica Pode surgir em pele sã, embora origine-se mais frequentemente em pele alterada por um processo anterior. Dentre as lesões que originam os CEC, destacamos ceratoses actínicas e tóxicas, radiodermites, úlceras crônicas, doenças cutâneas crônicas (lúpus vulgar, lúpus eritematoso), cicatrizes antigas, sobretudo de queimaduras (úlceras de Marjolin) e certas genodermatoses (xeroderma pigmentoso, albinismo). Quer se instale em pele sã ou em pele previamente comprometida, a lesão inicial surge como uma pequena pápula com certo grau de ceratose. Seu crescimento é mais rápido do que nos CBC, isto é, se processa em função de semestres: ocorre no sentido vertical para fora (vegetante) ou para dentro (invasão para a derme e hipoderme); o crescimento pode ser no sentido longitudinal, resultando em área de infiltração mais palpável do que visível, o que é relativamente comum no lábio inferior e em mucosas, de maneira geral. Além do crescimento, um ponto de referência importante é o sangramento discreto, embora frequente. Como resultado, temos lesões ulceradas de crescimento contínuo, ulcerovegetantes, vegetações verrucosas (secas) ou condilomatosas (úmidas), infiltrações e, menos frequentemente, nódulos. As localizações mais comuns são as áreas expostas ao sol, sobretudo face e dorso das mãos; o tronco (dependendo dos hábitos e da raça) também é um local de acometimento. Nos negros, essa localização preferencial nas áreas expostas não é válida, pelo papel protetor da melanina; no entanto, é digna de nota a elevada frequência de CEC nos membros inferiores, em negros de determinadas regiões (bantos), devido à frequência de úlceras tórpidas, traumatismo e cicatrizes nessas áreas. O CEC corresponde a 90 a 95% das neoplasias malignas da mucosa oral, com localização preferencial na borda lateral da língua e no assoalho oral. Em geral e com certo valor prático, verifica-se que os carcinomas acima da linha que vai da comissura labial ao lóbulo da orelha são CBC, enquanto os abaixo são CEC; ao contrário dos CBC, os CEC surgem, com certa frequência, nas mucosas e semimucosas (boca, lábio inferior, glande e vulva). É relevante a transformação da queilite actínica do lábio inferior (devido à incidência da radiação) em CEC; nesse caso, observa-se apenas uma superfície erosiva e sangrante, no entanto, com infiltração acima da expectativa à palpação, o que é característico. Outro ponto importante é o das leucoplasias; essas lesões brancas, sobretudo as decorrentes do fumo, quando começam a erosar, ulcerar e sangrar, já indicam transformação para CEC. O HPV está implicado na gênese do CEC da base da língua, da orofaringe e do colo uterino. O CEC apresenta maior capacidade de metastatizar quando localizado em superfície mucosa do que em semimucosa, e nesta maior do que na pele. No CEC do lábio, glande ou vulva, a ocorrência de metástase ganglionar é precoce; os gânglios crescem de volume, tornam-se duros, inicialmente móveis; contudo, depois, aderem entre si aos planos superficial e profundo, terminando em ulceração. Posteriormente, surgem metástases, por via hematogênica, em vários órgãos (pulmões, figado, SNC, pele e ossos). A frequência de metástase do CEC também varia de acordo com a lesão que lhe deu origem; assim: ceratose actínica 0,5%; cicatriz de queimadura 17%; radiodermite crônica 20%; e fistula de osteomielite crônica 31%. Em pacientes imunossuprimidos, o CEC é a neoplasia de aparecimento mais frequente (64,1%), seguida pelo CBC (17,9%) e doença de Bowen (10,2%) e carcinoma basoescamoso (5,1%). O vemurafenibe - utilizado no tratamento do melanoma metastático - é capaz de desencadear CEC em mais de 20% dos pacientes rapidamente (<2 meses). MELANOMA É um tumor maligno originário dos melanócitos, em geral de localização cutânea primária, podendo, eventualmente, surgir em outras áreas (olhos, mucosas, meninges e outros); o melanoma da pele é muito mais prevalente que as formas não cutâneas. Esses tumores caracterizam-se por seu potencial metastático e consequente letalidade. Um número razoável de casos origina-se de nevo preexistente. Epidemiologia Ocorre em todas as raças, porém é raro em negros (nestes, a localização frequente é palmoplantar); nos caucasianos, os melanomas são tanto mais usuais quanto mais branca for a pele, mais claros os cabelos e olhos e maior a presença de efélides ou número de nevos, principalmente os atípicos; incidem com maior frequência em áreas mais próximas à região do Equador (guardadas, é claro, as noções anteriores), estando associados a história de queimadura solar, o que sugere uma ação etiológica solar, pelo menos na raça branca. Desse modo, sua incidência é maior na Austrália e na África do Sul. As diferenças em relação ao sexo não são relevantes quanto à incidência, havendo, antes dos 60 anos, uma distribuição mais frequente no tronco entre os homens e nos membros inferiores entre as mulheres. No sexo feminino, o prognóstico é melhor em todos os estágios do melanoma. Até agora não se sabe o motivo disso, e todas as tentativas de associar este melhor prognóstico a algum fator hormonal não obtiveram êxito. Os melanomas tendem a ocorrer depois da puberdade e tem um pico de incidência na 5ª década. São mais comuns em adultos jovens, tendo o expansivo superficial como o subtipo mais comum. Na 7ª década, ocorre um segundo pico de incidência, com predominância do lentigo maligno, que surge em áreas cronicamente fotoexpostas. De acordo com as observações de Chang et al. (1998), a distribuição do melanoma segundo sua localização é: pele - 91,2%, olho - 5,3%, local primário ignorado - 2,2%, mucosas - 1,3%. O local primário desconhecido ou ignorado está relacionado com o melanoma mestastático em que não foi possível fazer o diagnóstico do tumor primário. Algumas vezes, manchas acrômicas podem denunciar o local da lesão inicial ou mesmo a distância; na verdade, elas representam uma reação imunológica do organismo frente a esta neoplasia. O número de mortes em decorrência do melanoma da pele é três vezes maior que o número de mortes de todas as demais neoplasias cutâneas em conjunto. Entretanto, essa mortalidade varia entre subgrupos populacionais. Entre negros, 36% das mortes relacionadas com o câncer da pele são devidas ao melanoma, enquanto, na população branca entre 15 e 50 anos, 90% das mortes causadas por câncer da pele são devidas ao melanoma. Apesar de a mortalidade relacionada com o melanoma aumentar de acordo com a faixa etária, sua proporção em relação às outras neoplasias cutâneas cai para 44% nos indivíduos com mais de 85 anos, excetuando- se os casos de lentigo maligno. Portanto, a importância relativa do melanoma na taxa de mortalidade de uma população declina com a faixa etária, apesar de permanecer representando uma parcela significativa das mortes entre todas as raças e grupamentos etários. É a principal causa de morte em dermatologia, e sua frequência está aumentando de maneira considerável; 1975 a 2010, quase triplicou o número de novos: de 7,9 para 23,6 por 100.000 habitantes. Entre adultos jovens, é a segunda neoplasia mais frequentemente diagnosticada, estando atrás apenas dos linfomas. Em 2013, houve 76.690 casos novos, tornando-o o 5° mais frequente, atrás do de próstata, mama, pulmão e brônquios, e cólon e reto. Na Austrália, onde dois fatores importantes estão reunidos (pele clara e muito sol), ocorre o maior índice de melanomas do mundo (59,1/100.000 habitantes entre os homens e 42,2/100.000 entre as mulheres). Entretanto, tem-seobservado uma tendência à diminuição da incidência do melanoma em pacientes com menos de 60 anos. Isto, provavelmente, é reflexo do esforço das campanhas de prevenção iniciadas décadas atrás que geraram mudanças comportamentais e uso de fotoproteção. No Brasil, a maior incidência ocorre em Santa Catarina, e no Rio Grande do Sul (8,2/100.000 entre os homens e 7,2/100.000 entre as mulheres), sendo o pico de ocorrência na 7ª década. Etiopatogenia De etiologia ainda não completamente esclarecida, sabe-se que alguns fatores, como genética, exposição solar, fototipo, número de nevos e síndrome do nevo displásico (SND) têm grande importância. Exposição solar intermitente, com queimadura, parece ser o fator mais importante entre os caucasianos, assim como bronzeamento artificial e, em menor grau, fototerapia com UVA e UVB. A idade na qual o indivíduo inicia o hábito de se expor ao sol parece ser fundamental na determinação da chance de se desenvolver a doença. Dessa maneira, indivíduos que se expõem ao sol desde a infância, de forma intermitente ou preferentemente com queimaduras, têm maiores chances de desenvolver melanoma na idade adulta. É dificil precisar a frequência de transformação de lesão névica preexistente em melanoma, pois nem sempre é possível saber se a lesão inicial era ou não um melanoma desde o início; no entanto, como já mencionado, na histologia, em cerca de 20 a 70% dos melanomas, registram-se características névicas remanescentes. Quando ocorre antes da puberdade, a regra é originar-se nos nevos melanocíticos congênitos, sobretudo o gigante. Um grupo especialmente propenso é o das famílias com SND. Estima-se que 5 a 12% dos melanomas cutâneos ocorram em indivíduos com história familial de melanoma, os quais são denominados de melanoma familial que, em geral, são mais precoces, menos espessos e por vezes múltiplos. Acredita-se que a transformação maligna do melanócito ocorra por acúmulo sequencial de alterações genéticas e moleculares, algumas vezes induzidas pelo UV. Apesar de os mecanismos patogênicos envolvidos no desenvolvimento do melanoma ainda não serem completamente conhecidos, diversos genes e vias de sinalização já foram identificados como locais dessas alterações. De todas as alterações genéticas envolvidas na gênese do melanoma, as mais frequentes estão no locus CDKN2A e no RAS. O locus CDKN24 tem dois genes de supressão tumoral, o p16 e o p14ARF, além da proteína p53. Já a via RAS, talvez a mais importante, está intimamente ligada ao BRAF, que, por sua vez, participa na via de ativação da MAPK (proteinoquinase mitógeno-ativada). Esta é a proteinoquinase mais frequentemente mutada em neoplasias humanas, sendo detectada em até 66% dos melanomas. Quando ocorrem mutações no BRAF, principalmente por uma única substituição (V600E), a proteína passa a um estado permanentemente ativado, independente da estimulação pelo RAS e, dessa maneira, induz à proliferação celular e à oncogênese, como também à perda de controle da apoptose. A maioria (97,3%) das mutações ativadoras do BRAF ocorre em virtude de uma única substituição do aminoácido ácido glutâmico (E) por valina (V) na posição 600 (BRAF-V600E). Essa proteína é um alvo específico para um dos medicamentos empregados no tratamento do melanoma metastático. Essas mutações são encontradas principalmente nos tumores avançados (lesões em fase de crescimento vertical) e na doença metastática. O gene CDKN2A é um importante fator na gênese e na predisposição ao melanoma. Este gene é encontrado no cromossomo 9p21 e codifica duas proteínas supressoras de tumor: p16CDKN2A e p14CDKN2A. Nos casos familiais, com dois ou mais parentes afetados, essas mutações podem ser encontradas em até 35% dos pacientes. Além disso, a ocorrência de mutações no gene CDKN2A também é mais elevada nos pacientes com melanomas múltiplos, sincrônicos ou não. Melanomas familiais com mutações neste gene expressam preferencialmente um fenótipo histopatológico caracterizado por densa pigmentação, células não fusiformes e intensa disseminação de células pagetoides. Em especial, a pl6CDKN2A também está muitas vezes presente em casos familiais de adenocarcinoma de pâncreas. A partir desta constatação, criou-se o conceito da síndrome melanoma-câncer de pâncreas; portanto, todos os pacientes com história familial para essas doenças devem pesquisar a presença deste gene. Outros carcinomas associados a esse gene são o de mama e o de pulmão. Outro gene implicado, relacionado co m a mesma via do gene CDKN24, é o CDK4 localizado no cromossomo 12q13, que codifica uma proteína que interage com o p16CDKN2A. Mutações neste gene são mais raras, porém são de alta penetrância. Um interesse crescente vem sendo direcionado à atividade do gene MITF (microphthalmia-associated transcription factor), considerado um regulador crucial da diferenciação da linhagem melanocítica e que se encontra alterado em alguns casos de melanoma. Outro grupo distinto de melanomas apresenta mutações no receptor tirosinoquinase (KIT). Essas mutações são mais frequentes na forma acral lentiginosa e em melanomas de mucosas. O PTEN é outro elemento importante na transdução alterada do melanoma humano. Trata-se um gene de supressão tumoral, cuja expressão é perdida em até 30% de linhagens celulares de melanoma em estudos in vitro. Em resumo, as mutações ocorrem na via RAS isoladamente, PTEN e BRAF ou BRAF apenas. As alterações do BRAF não guardam relação com a espessura tumoral, enquanto as do PTEN estão mais presentes em lesões avançadas. Clínica e classificação O melanoma pode advir de lesão preexistente ou surgir em pele sã. Os precursores são NMC, nevus displásicos, nevus spilus e proliferações melanocíticas de mucosas e extremidades ou névicas. Modificações indicadoras de malignização são: sensação de prurido, alterações da pigmentação e do crescimento assimétrico da lesão, inflamação, ulceração e sangramento; um sinal indubitável é o derrame de pigmento além das bordas da lesão; quando ultrapassa a borda do tecido periungueal tem-se o sinal de Hutchinson. Antes de se classificar os melanomas, é conveniente informar que, no seu comportamento biológico, devem ser considerados dois tipos de crescimento: o horizontal, isto é, a expansão em superfície e que ocorre na maioria das lesões por um tempo que pode ser longo (até mesmo muitos anos); e o vertical, ou seja, a expansão para a profundidade; sendo esta última a mais grave. Na fase de crescimento vertical, com exceção do melanoma nodular, os melanomas passam por um período denominado microinvasivo, quando as células tumorais ainda não apresentam capacidade de metastatização. Considerando que a célula-origem é a mesma, provavelmente ocorre participação do sistema imune do hospedeiro no processo invasivo. Mais recentemente, estudos genéticos têm questionado se estas lesões têm a mesma origem biológica. Classicamente, o melanoma é dividido em quatro formas clínicas: lentigo maligno, melanoma extensivo superficial, nodular e acral. Há de se considerar, ainda, os melanomas primários de mucosas (cerca de 1/3 são amelanocíticos, os amelanocíticos, os raros de órgãos internos e os excepcionais congênitos), e os seguintes aspectos: qualquer das formas clínicas, com o tempo, pode ulcerar e sangrar; qualquer das formas clínicas pode tornar-se Nos casos ab initio, surge uma pequena mancha hipercrômica, com crescimento lento, porém indiscutível, às vezes apenas em superfície, entretanto, outras vezes, também em profundidade, originando-se uma pápula e, depois, um nódulo. O estudo clínico de melanomas deve ser feito, de maneira mais precisa, de acordo com a sua forma clínica. parcial ou totalmente, acrômica (melanoma amelanocítico). Além da localização cutânea, podem ser locais primários de melanoma: mucosas (oral, anal, uretral, vaginal), globo ocular (iris, corpo ciliar e principalmente coroide, 5%) e, eventualmente, outras regiões (bexiga, nervos periféricos,leptomeninge, pulmões, parótidas e outros). Algumas particularidades em relação à localização devem ser referidas. Em Uganda, 60% dos melanomas localizam-se nos pés e, inclusive, nas mucosas, enquanto praticamente não ocorrem na cabeça e no tronco, ou seja, exatamente o contrário do que acontece em pacientes de fototipo claro de outras áreas do mundo; uma situação intermediária ocorre em países cujos habitantes têm pele morena (Egito e Índia). Em pacientes de fototipo claro com idade inferior a 60 anos, a localização preferencial no sexo masculino é o tronco e, nas mulheres, os membros inferiores. A partir da 6ª década, a incidência de lesões do tipo lentigo maligno aumenta na cabeça e no pescoço em ambos os sexos. Mais recentemente, estudos australianos demonstraram uma significativa redução da incidência do melanoma nodular, o tipo clínico mais associado à queimadura solar e exposição intermitente. No Brasil, alguns relatos demonstraram também maior predomínio do melanoma extensivo superficial sobre as demais formas clínicas do tumor. Os melanomas amelanóticos, em geral, são mais espessos, provavelmente pela demora em se reconhecer a lesão como maligna. Acredita-se que, pelo fato de serem incapazes de produzir melanina, que é sua função básica, essas células estariam em um estágio tal de indiferenciação que teriam maior capacidade de metastatização, justificando seu comportamento mais agressivo. Prevalecem no sexo masculino em torno da 6ª década de vida e em áreas fotoexpostas. Outros tipos histológicos menos frequentes são os melanomas desmoplásicos, neurotrópicos que se caracterizam por serem localmente agressivos e com altos índices de recorrência, em torno de 25%. O nome desmoplásico deve-se ao seu aspecto morfológico disposto em células fusiformes formando feixes (fibroblastos-símile), com neurotropismo. Clinicamente, esses melanomas manifestam-se como mácula pigmentada com ou sem componente nodular ou, então, como um nódulo eritematoso despigmentado, podendo assemelhar-se a lesões cicatriciais. O comprometimento ganglionar caracteriza-se por gânglios duros, palpáveis e aderidos; depois, há invasão dos planos subjacentes e suprajacentes, levando à ulceração; entre a lesão primária e os gânglios regionais, pode haver comprometimento de vasos linfáticos (satelitose). Em raros casos, ocorre uma infiltração linfática maciça da pele, com eritema e enrijecimento cutâneo simulando um quadro infeccioso, denominado melanoma erisipeloide. As metástases internas ocorrem por via hemática ou linfática, e podem ficar silenciosas por muito tempo ou ter sintomatologia peculiar, dependendo dos órgãos afetados; a frequência aproximada é: pulmão (18 a 36%), sistema nervoso central (12 a 20%), fígado (14 a 20%), ossos (11 a 17%), tubo gastrintestinal (1 a 7%) e pele, subcutâneo ou linfonodo (42 a 59%). As lesões metastáticas sanguíneas cutâneas são frequentemente nodulares de início e, muitas vezes, amelanóticas. Raramente pode ocorrer melanose generalizada, inclusive com melanúria, devido à metastatização generalizada. Manifestações metastáticas podem ocorrer até 18 anos após a extirpação do tumor; caracterizando a denominada metástase tardia. Outras vezes tem-se uma reação vitiligoide generalizada ou não, representando a resposta imunológica, não seletiva, ao tumor. CONHECER OS FATORES DE RISCO PARA O CÂNCER SE PELE E A RELAÇÃO COM A ESCALA DE FITIZPATRICK MINISTÉRIO DA SAÚDE Qualquer pessoa pode desenvolver o câncer de pele, mas aquelas com pele muito clara, albinas, com vitiligo ou em tratamento com imunossupressores, são mais sensíveis ao sol. O câncer de pele é mais comum em pessoas com mais de 40 anos. É considerado raro em crianças e pessoas negras, exceto pessoas com essas características que tenham algum outro tipo de problema cutâneo. Apesar desse índice, a média da idade vem diminuindo com o passar dos anos, tendo em vista que pessoas jovens têm se exposto constantemente aos raios solares. Os principais fatores de risco para o câncer de pele não melanoma são: • Pessoas de pele clara, olhos claros, albinos ou sensíveis à ação dos raios solares; • Pessoas com história pessoal ou familiar deste câncer; • Pessoas com doenças cutâneas prévias; • Pessoas que trabalham sob exposição direta ao sol; • Exposição prolongada e repetida ao sol; • Exposição a câmeras de bronzeamento artificial. (ARTIGO) A maioria dos cânceres de pele é causada por uma combinação de fatores de risco não modificáveis (por exemplo, genéticos) e modificáveis (por exemplo, ambientais). O fator de risco modificável mais comum para câncer de pele é a exposição à radiação ultravioleta (UV). Fatores de risco genético Fatores genéticos influenciam fortemente o risco de câncer de pele. As seguintes ca- racterísticas individuais aumentam o risco de câncer de pele: ter um tom de pele na- turalmente claro, olhos claros, cabelos loiros ou ruivos, nevos displásicos ou muitas pintas comuns e pele que queima, sardas, fica vermelha ou fica dolorida depois de muito tempo no sol. Ter diagnóstico prévio ou histórico familiar de câncer de pele, principalmente melanoma, também aumenta o risco. Fatores genéticos menos óbvi- os, como variantes genéticas ou mutações, também podem desempenhar um papel em alguns melanomas entre aqueles sem os fatores de risco tradicionais de pele e ca- belos claros e, raramente, síndromes genéticas, como Síndrome do Melanoma Tou- peira Atípico Familiar e xeroderma pigmentoso são responsáveis pelo desenvolvi- mento do melanoma. Os melanócitos, células encontradas na camada basal da pele que dão cor à pele e aos olhos, são geneticamente programadas para produzir uma quantidade específica de melanina. A quantidade de melanina ou grau de pigmentação está inversamente correlacionada com a sensibilidade ao sol e o risco de câncer de pele. A melanina ab- sorve e dispersa a energia da luz UV, protegendo as células epidérmicas contra da- nos. O sistema de fototipagem de pele Fitzpatrick fornece uma classificação numé- rica baseada na reação da pele não exposta à exposição à radiação UVA (bronzea- mento) e UVB (queimadura). Por exemplo, o fototipo Fitzpatrick Tipo I é definido como pele muito clara que queima facilmente e nunca bronzeia; O tipo III é a pele que queima e bronzeia moderadamente; e a pele do Tipo VI nunca queima, bronzeia profusamente e é naturalmente marrom escura. FOTOTIPOS DE PELE - Classificação de Fitzpatrick (SBD) A mais famosa classificação dos fototipos cutâneos é a escala Fitzpatrick, criada em 1976 pelo médico norte-americano Thomas B. Fitzpatrick. Ele classificou a pele em fototipos de um a seis, a partir da capacidade de cada pessoa em se bronzear, assim como, sensibilidade e vermelhidão quando exposta ao sol, sendo: • Pele branca – sempre queima – nunca bronzeia – muito sensível ao sol; • Pele branca – sempre queima – bronzeia muito pouco – sensível ao sol; • Pele morena clara – queima (moderadamente)– bronzeia (moderadamente) – sensibilidade normal ao sol; • Pele morena moderada – queima (pouco) – sempre bronzeia – sensibilidade normal ao Sol; • Pele morena escura – queima (raramente) – sempre bronzeia – pouco sensível ao sol; • Pele negra – queima (raramente) – totalmente pigmentada – minimamente sensível ao sol. Em termos científicos, a sensibilidade é conceituada como a capacidade de perceber sensações físicas, tendência natural a reagir aos estímulos físicos, facilidade para se machucar por algum agente externo. A classificação aborda a sensibilidade de cada indivíduo relacionada exclusivamente à possibilidade de ocorrência de queimaduras solares (conceito de fotossensibilidade). A melanina existente em pele com tons mais escuros absorve e dispersa a energia ultravioleta, concedendo muito mais tolerância à exposição solar. Isso permite, quase sempre, bronzeamento sem queimaduras. No entanto, tons de pele mais escuros ainda podem desenvolver queimaduras solares em algumas situações, como diante de altíssimaexposição ao sol e do uso de medicamentos e tratamentos que tornam a pele mais sensível ao sol. Porém, esse fato não significa que os demais danos relacionados à exposição ultravioleta (aumento do risco de câncer de pele, envelhecimento cutâneo, entre tantos outros) não aconteçam em pessoas com fototipos mais elevados. Fatores de risco modificáveis: exposição UV Embora os fatores genéticos tenham talvez a maior influência no risco de câncer de pele, quase todos os cânceres de pele também estão relacionados, pelo menos em parte, com a exposição aos raios UV. A exposição aos raios UV estimula os melanó- citos a produzir melanina, que pode aparecer como pele bronzeada e indica danos à pele, às células da pele e ao DNA; exposições mais intensas podem resultar em quei- maduras solares, indicando morte celular. Existem três subtipos de radiação UV: UVA, UVB e UVC. Os raios UVA têm o comprimento de onda mais longo. Eles não são absorvidos pela camada de ozônio e penetram profundamente na pele, através da junção epidérmica onde os melanócitos residem na camada basal, e são os principais responsáveis pelo envelhecimento prematuro da pele. Os raios UVB são mais curtos. A exposição UVA e UVB pode resultar em uma aparência bronzeada. O UVB cria um bronzeado ao aumentar a produção de melanina que confere uma quantidade mínima de fotoproteção, equivalente a cerca de um FPS 3, e também indica danos à pele. Acredita-se que o bronzeado induzido por UVA não proporciona fotoproteção. A maior parte da radiação UVB é absorvida pela camada de ozônio, mas as condições climáticas podem afetar a quantidade. A superexposição à radiação UVB causa eritema, inchaço e dor, sinais característicos de queimadura solar, que geralmente levam várias horas para se desenvolver. Os raios UVC são os mais curtos e são absorvidos pela camada de ozônio e pela atmosfera Padrões de exposição UV Os padrões de exposição UV têm sido associados ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer de pele e a diferentes padrões de distribuição anatômica. A exposição cumulativa crônica, incluindo a exposição ocupacional ao ar livre, tem sido associada mais frequentemente ao câncer de pele CBC e CEC. O melanoma está geralmente associado à exposição intermitente e a uma história de queimaduras solares. (AZULAY) MELANOMA A radiação ultravioleta (UV) da luz solar é o principal fator de risco ambiental para o desenvolvimento de câncer de pele melanoma. O risco aumentado de melanoma devido à exposição solar está diretamente associado ao nível de UV e, em particular, ao espectro UV-B. Além disso, os padrões e o tempo de exposição solar foram associados, em vários estudos, a um risco aumentado de melanoma. Em particular, a exposição solar intensa e intermitente (típica na história de queimaduras solares) está associada a um risco mais elevado em comparação com um padrão crônico contínuo de exposição solar que está mais frequentemente associado à ceratose actínica e aos cânceres de pele não melanoma. Além disso, uma história de queimaduras solares na infância ou adolescência está associada ao maior risco de desenvolver melanoma e os indivíduos que sofrem> 5 episódios de queimaduras solares graves têm um risco 2 vezes maior. A exposição UV-A de fontes artificiais também tem sido associada a um risco aumentado de desenvolver melanoma. O acompanhamento de pacientes com psoríase que recebem fototerapia com radiação UV-A, bem como de indivíduos que utilizam solários, revelou um risco aumentado de melanoma nesta população. A luz ultravioleta das espreguiçadeiras foi formalmente classificada como cancerígena humana. Nenhum outro fator ambiental, incluindo dependência de tabaco/fumo, foi associado ao melanoma. Além disso, os fatores de risco do hospedeiro, tais como o número de nevos melanocíticos congênitos e adquiridos , a susceptibilidade genética e a história familiar desempenham um papel central no desenvolvimento do melanoma. Aproximadamente 25% dos casos de melanoma surgem de um nevo pré-existente. Neste contexto, não apenas o número total de nevos, mas também o tamanho e o tipo de nevos, estão individualmente associados a um risco aumentado de melanoma. No que diz respeito à suscetibilidade genética, os polimorfismos do gene do receptor da melanocortina 1 ( MC1R ), são responsáveis pelos diferentes fenótipos da cor da pele humana. Indivíduos com características como cabelos ruivos, pele clara e olhos claros apresentam baixa pigmentação, com consequente maior sensibilidade à exposição UV. Aproximadamente 7–15% dos casos de melanoma ocorrem em pacientes com histórico familiar de melanoma. No entanto, o verdadeiro melanoma hereditário (isto é, linhagem multigeracional, unilateral, múltiplas lesões primárias e início precoce da doença) é pouco frequente; o agrupamento familiar da doença é considerado responsável pela presença de uma mutação genética transmitida. Nos últimos anos, descobriu-se também que os melanomas surgem em famílias que geralmente são propensas a padrões específicos de malignidades, como a síndrome do melanoma múltiplo atípico familiar (síndrome FAMMM) e sua variante, a síndrome do melanoma-astrocitoma (MAS). Mutações germinativas no inibidor da quinase dependente de ciclina 2A ( CDKN2A ou p16) e, menos comuns, mutações na quinase 4 dependente de ciclina ( CDK4 ) são as anomalias genéticas mais frequentes identificadas nestas famílias. Outras condições hereditárias associadas a um risco aumentado de desenvolvimento de melanoma são xeroderma pigmentoso, retinoblastoma familiar, síndrome de Lynch tipo II e síndrome de câncer de Li- Fraumen COMPREENDER O DIAGNÓSTICO DOS TIPOS DE CÂNCER DE PELE A dermatoscopia tem contribuído de forma inegável para a melhor acurácia diagnóstica não apenas dos tumores cutâneos, mas também de várias outras doenças dermatológicas, tanto de caráter inflamatório quanto infeccioso. A dermatoscopia, método não invasivo que permite a identificação de estruturas não visíveis a olho nu, proporciona o diagnóstico do melanoma em estágios muito iniciais, quando ainda não seria reconhecido pela simples aparência clínica. Além disso, em pacientes com múltiplos sinais de pele (nevos melanocíticos), as imagens de dermatoscopia podem ser registradas e comparadas ao longo do tempo (dermatoscopia digital). Desta forma, é possível detectar alterações muito iniciais sugestivas de malignidade e reduzir o número de biópsias desnecessárias das lesões que permanecem estáveis. DIAGNÓSTICO CBC (AZULAY) É realizado com base na idade adulta do paciente e na morfologia da lesão, que é de crescimento lento, em geral na face e com aspecto perolado. Devemos suspeitar quando qualquer lesão passa a sangrar espontaneamente ou por mínimos traumas, crescimento súbito ou sintomatologia local. O exame histopatológico é decisivo. A dermatoscopia possibilita identificar critérios específicos para este diagnóstico. (TRATADO DE ONCOLOGIA) A dermatoscopia de um CBC é típica e bem rica em elementos que corroboram o diagnóstico desse. Apesar disso, o diagnóstico diferencial com melanoma, nos casos de CBCs pigmentados, pode ser bem difícil, sendo necessário o exame anatomopatológico para sua diferenciação. Os critérios mais importantes para o diagnóstico de CBC por meio da dermatoscopia são os grandes ninhos ovoides cinza-azulados, áreas tipo folha, áreas de raio de rod, ulceração e vasos arboriformes. Evolução e prognóstico: A evolução é extremamente lenta (até vários anos); o prognóstico só passa a ser ruim dependendo da localização e da manifestação clínica (destruição da órbita ou do maciço central da face nas formas terebrantes). Na síndrome do nevo basocelular, temos recorrências frequentes, assim como novas lesões. Tumores localizados nos planos de fusão da pele (sulco nasogeniano, nasolabial e prega pré-auricular - "H da face") têm maior chance de recidivar, assim como tumores maiores que 2 cm, CBC esclerodermiformes, com invasão perineuralou vascular e em pacientes imunodeprimidos. DIAGNÓSTICO CEC (AZULAY) Lesão ceratósica de crescimento progressivo, que se instala em pele sã e/ou, preferencialmente, em pele já comprometida, em pessoas adultas, leva à suspeita de CEC, impondo-se o exame histopatológico. A biópsia deve ser realizada, sem nenhum inconveniente, o mais rapidamente possível. (TRATADO DE ONCOLOGIA) Quando há suspeita de CEC, a biópsia da lesão com exame histopatológico deverá ser realizada sempre. Os pacientes devem ser submetidos a exame clínico completo e palpação de linfonodos. Na presença de linfonodo suspeito, deve ser realizado exame por imagem e biópsia do linfonodo por agulha fina para avaliação histopatológica. A pesquisa do linfonodo sentinela para detecção precoce de micrometástases e o valor desse procedimento no aumento da sobrevida é ainda controverso e necessita de estudos clínicos prospectivos controlados. Em um estudo realizado, a pesquisa de linfonodo sentinela permitiu a identificação de micrometástases em 21% de pacientes de alto risco sem linfonodos palpáveis ao exame clínico. A pesquisa de linfonodo sentinela pode ser benéfica para aumentar a sobrevida assim como melhorar o prognóstico de pacientes de alto risco. A metástase linfonodal tem melhor prognóstico que as metástases à distâncias. O estudo por imagem deve ser realizado em pacientes com linfonodos palpáveis e/ ou sintomas sugestivos de envolvimento perineural. A escolha do exame (ultrassonografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética e tomografia com emissão de pósitrons, PET) depende do quadro clínico e orientação da instituição. Estadiamento Até o momento, não existe uma diretriz que oriente a pesquisa de metástase em linfonodos e/ou metástase à distância nos casos de CEC invasivo de alto risco. No entanto, os exames como o PET, biópsia linfonodal guiada por ultrassom e pesquisa de linfonodo sentinela, parecem oferecer um bom subsídio para detecção de metástase subclínica de linfonodo. A maioria dos CECs cutâneos não é metastática na época do diagnóstico, o estadiamento do tumor nesses casos é baseado nas características da lesão primária. Para o estadiamento de doença metastática, leva-se em conta a ausência ou presença de linfonodo comprometido e metástase à distância. DIAGNÓSTICO MELANOMA (AZULAY) São pontos importantes: (1) aparecimento, ab initio, de manchas ou nódulo de crescimento rápido; (2) alterações de cor e tamanho de nevos preexistentes; (3) sintomatologia. A suspeita clínica de melanoma fundamenta-se na regra do ABCDE: A, assimetria; B, bordas irregulares e denteadas; C, variação da cor; D, diâmetro maior que 0,6 cm; E, evolução, ou seja, qualquer alteração que tenha ocorrido na lesão; anteriormente, E referia-se a elevação, aumento da espessura. Outro ponto que tem sido valorizado em relação a lesões suspeitas é o sinal do “patinho feio”, que é baseado na apresentação clínica de uma lesão que se torna suspeita por destoar, em aparência, das demais circunvizinhas. Há uma boa comprovação e reprodutibilidade deste sinal. A dermatoscopia pode ser de grande valia, de preferência como complementação ao exame clínico, pois torna possível identificar, de imediato, a origem celular da lesão e, no caso de lesão melanocítica, se é benigna ou maligna, a não ser nos casos limítrofes, o que é frequente. Trata-se, portanto, de exame complementar eficaz e fácil, mas que não substitui o exame anatomopatológico. Nessas situações, a confirmação deve ser obtida pelo exame histopatológico e, excepcionalmente, pela imuno- histoquímica. O exame dermatológico de rotina é fundamental nas populações de risco. Estima-se que 60% dos melanomas finos são diagnosticados em exames periódicos, sem que houvessem sido notados pelo paciente. A biópsia deve ser excisional, porém em lesões extensas ou situadas em locais anatômicos nobres, uma biópsia incisional é permitida; deve incluir a parte mais elevada da lesão e a mais pigmentada nas planas. As margens de ressecção da lesão suspeita devem ser de 2 a 3 mm. O laudo diagnóstico deve basear-se, preferencialmente, nos cortes em parafina, já que, por congelação, os melanócitos ficam muito alterados, dificultando a interpretação correta da lesão. As recomendações dos itens que devem constar do laudo histopatológico referido pelo GBM devem incluir: tipo histológico do melanoma, fase de crescimento (radial ou vertical), nível de Clark, profundidade (índice de Breslow), número de mitoses por milímetro quadrado, infiltrado inflamatório linfocitário peritumoral, infiltrado inflamatório intratumoral, invasão vascular linfática e sanguínea, invasão perineural, ulceração, regressão, satelitose microscópica, e margens cirúrgicas. Devem-se observar também se a lesão é bem delimitada, se assimétrica; a presença de ninhos de tamanhos irregulares, se melanócitos ou os ninhos “sobem a epiderme”; se as células névicas estão seguindo o seu padrão de maturação, se houver um nevo melanocítico associado. Há casos em que os achados histopatológicos geram controvérsias, quando os diagnósticos podem ser diferentes, mesmo em mãos de histopatologistas experientes (nevo para uns, melanoma para outros). Uma lesão pigmentada excisada no passado e diagnosticada como benigna pode ser a explicação para a presença atual da doença. A imuno-histoquímica é um método de extrema valia na identificação da natureza da linhagem celular da lesão e é utilizada, no caso, na identificação de tumores primários ou metastáticos pouco diferenciados, em tumores de células fusiformes, melanomas amelanóticos e no diagnóstico diferencial com linfomas, carcinomas neuroendócrinos e em certos tumores com células pagetoides (p. ex., Paget extramamário). São dois os marcadores mais utilizados: a proteína S100 e o HMB-45. Este último é específico para lesões melanocíticas, porém é negativo em melanomas desmoplásicos, enquanto a proteína S100 é positiva. Esta, por sua vez, também é positiva para células de Langerhans, nervos, células de Schwann, condrócitos, glândulas écrinas, apócrinas, bem como nos respectivos tumores. Infelizmente, esses marcadores não tornam possível diferenciar se a lesão melanocítica é maligna ou benigna. Nos casos de difícil diagnóstico, técnicas como a hibridização fluorescente in situ têm acrescentado informações valiosas na diferenciação desses tumores. Os pacientes com melanoma igual ou maior que 0,76 mm (espessura intermediária), ou quando a lesão estiver ulcerada, ou apresentar número de mitoses > 1/mm2, são candidatos à biopsia do linfonodo sentinela. O método baseia-se na ideia de progressão tumoral em múltiplas etapas, consistindo na realização de linfocintigrafia para detecção da cadeia linfática de drenagem da área do tumor primário, com posterior aplicação de corante associado a um radiotraçador. O primeiro linfonodo de drenagem é então identificado cirurgicamente com o auxílio de um detector de radiação manual. Esse linfonodo sentinela é submetido a cortes sequenciais com imuno-histoquímica e, se positivo, toda a cadeia deve ser retirada, e o paciente torna- se pertencente ao estágio III, candidato, portanto, a terapia adjuvante com interferon-α (INF-α). Recentemente, tem-se utilizado a técnica de reação de transcriptase reversa associada à reação em cadeia da polimerase (RT-PCR) para detecção de micrometástases no linfonodo sentinela, demonstrando maior sensibilidade em relação às análises imuno-histoquímicas (S100 e HMB-45) e histopatológicas (HE). Até o presente momento, o linfonodo sentinela é considerado a principal ferramenta de estadiamento do melanoma. Entretanto, sua detecção e seu esvaziamento não estão associados a aumento da sobrevida desses pacientes. A presença de tatuagem extensa regional deve ser considerada quando for analisado o pigmento encontrado no linfonodo sentinela, requerendo, portanto, coloração apropriada (Fontana-Masson) ou imuno-histoquímica para confirmação de metástase. A avaliaçãodos pacientes com melanoma inclui exame completo da pele, pesquisa de linfonodos e palpação do abdome. Os seguintes exames complementares podem ser solicitados anualmente: radiografia de tórax, ultrassonografia abdominal e estudo da função hepática e desidrogenase láctica (LDH). A periodicidade do acompanhamento depende do estágio da lesão. A dosagem de LDH deve ser sempre realizada, já que faz parte do estadiamento. Estudos de tomografia e cintigrafia óssea devem ser solicitados quando identificados sinais e sintomas clínicos e se os exames estiverem alterados. PET-CT, se disponível, deve ser realizada em pacientes no estágio III e no estágio IV com metástase única por exames de imagem convencionais. A taxa de detecção de metástase a distância é até 30% maior que com a tomografia convencional em pacientes no estágio III. (TRATADO DE ONCOLOGIA) Uma vez ocorrida a suspeita clínica de melanoma, o diagnóstico pode ser corroborado por uma avaliação dermatoscópica e confirmado pela histologia. • Diagnóstico clínico: O melanoma pode surgir de novo ou estar associado a um nevo (pinta) que mude de aspecto em determinado momento. A regra mnemômica do ABCD é útil para auxiliar no diagnóstico clínico das lesões pigmentadas suspeitas de melanoma. Dentre as lesões precursoras, merecem atenção os chamados nevos atípicos (displásicos), que são pintas normalmente menores que 0,5 cm de diâmetro, com centro mais escuro e periferia mais clara, causando a impressão de "ovo frito". Relato de histórico familiar da doença merece atenção, pois a existência de um ascendente direto, portador de melanoma, faz aumentar a possibilidade de incidência do mesmo. Embora raro na infância, o melanoma deve ser lembrado entre os diagnósticos diferenciais, por ocasião de consultas rotineiras pelo pediatra. O nevo congênito gigante, que é uma mancha de cerca de 20 cm ou mais, de cor enegrecida e frequentemente pilosa, pode estar associado à origem de melanoma, em cerca de 2 a 5% dos casos". Classicamente, há quatro tipos clínicos fundamentais de melanoma, assim divididos: • melanoma disseminativo superficial (MDS): é o mais comum, correspondendo a cerca de 60 a 65% das apresentações; normalmente associado à lesão pré-existente, tem forma de crescimento radial presente por período de tempo relativamente lon- go, permitindo diagnóstico em fase precoce; seu tratamento adequado é compatível com a cura, em percentual significativo e sua apresentação clínica é a que mais se ajusta a regra do ABCD; • melanoma nodular (MN): corresponde a 15 a 20% das formas de apresentação, sendo agressivo por não possuir a fase de crescimento radial, invadindo desde o início as camadas dérmicas e, portanto, com alto poder de metastatização; • melanoma acral lentiginoso (MAL): mais comum em indivíduos da cor não branca e amarela, nas superfícies palmo-plantares. Melanoníquia estriada é uma lesão merecedora de atenção especial, pois pode ser precursora do subtipo subungueal de melanoma acral . • melanoma lentigo maligno (MLM): é a forma clínica menos agressiva, comum na face das pessoas idosas, correspondendo a 2 a 5% dos casos, apresentando a fase de crescimento radial mais longa de todos os subtipos clínicos. Além desses quatro tipos principais, há outros tipos: melanoma desmoplásico (lesão usualmente não pigmentada, com aspecto ora nodular, ora cicatricial, mais comumente encontrada em cabeça e pescoço), melanoma neurotrópico, nevo azul maligno, melanoma em nevo congênito, melanoma com desvio mínimo, melanoma de partes moles ou sarcoma de células claras e schwanoma melanocítico maligno. O médico deve estar sempre atento para lesões que merecem diagnóstico diferencial com melanoma pigmentado, entre os quais citamos: nevo displásico ou atípico, nevo de Spitz, carcinoma basocelular pigmentado, nevo azul, hemangioma, queratose seborreica pigmentada e alguns tumores de anexos cutâneos. Nos casos de melanoma amelanótico, diagnóstico diferencial deve incluir dermatofibroma, carcinoma basocelular nodular, carcinoma espinocelular, particularmente em regiões palmo plantares e outros tumores de células fusiformes. • Diagnóstico dermatoscópico: É um método auxiliar de grande valia, desde que adequadamente executado. Tem enorme importância no diagnóstico diferencial, diminuindo a necessidade de procedimentos cirúrgicos e aumentando a acurácia no diagnóstico de lesões precoces. Baseia-se no uso de sistema de lentes e física óptica, cuja adequação aumenta em cerca de 10 a 40 vezes a visão de estruturas da derme, permitindo sua análise direta ou mesmo a captura dessas imagens em sistemas computacionais, acopladas ao dermatoscópio manual. Tem excelente aplicabilidade no acompanhamento de portadores de múltiplos nevos, em particular nos dias de hoje em que o mapeamento corporal é feito pela captação de imagens sequenciais de segmentos corporais, permitindo visões comparativas periódicas, a depender especificamente de cada caso. • Diagnóstico histológico: Deve ser feito preferentemente a partir de uma biópsia excisional. Na impossibilidade de se efetuar a biópsia de maneira excisional, por razões anatômicas ou tamanho extenso da lesão, a biópsia incisional (em cunha ou por punch, nunca por shaving) não prejudica a evolução, devendo ser efetuada na parte mais espessa da lesão suspeita. O requisitante do exame anatomopatológico deverá fornecer dados completos do paciente, tais como: nome, sexo, idade, cor, profissão, possíveis antecedentes pessoais e/ou familiares relevantes e sítio anatômico da lesão. Um adequado laudo do exame histopatológico deverá conter: subtipo histológico; espessura de Breslow'; nível de Clark®; presença ou não de ulceração; presença ou não de regressão; índice mitótico; grau de infiltração linfomononuclear; dimensão das margens de ressecção. A espessura de Breslow é medida por película milimetrada adequada a micrômetro ocular, medida esta feita a partir do topo da camada granulosa até o ponto mais profundo em que são identificadas células malignas; em casos de lesão ulcerada, essa medida deve ser feita a partir da base da úlcera. Por definição, o melanoma in situ não permite a medida da espessura de Breslow, pois não há invasão abaixo da camada basal. Os níveis de Clark são cinco, assim definidos: I = melanoma in situ, em que as células neoplásicas permanecem ao nível da membrana basal; II = células tumorais atingem a camada papilar; III = células malignas atingem a interface entre as dermes papilar e reticular, sem infiltrar esta; IV = células malignas penetram a derme reticular; V = tumor atinge o tecido celular subcutâneo. Experiência do patologista na análise de lesões pigmentadas é requisito essencial, pois é frequente o engano diagnóstico nesses tipos de lesões, levando a tratamentos supra ou subestimados, com prejuízos inestimáveis ao paciente. Estadiamento e prgnóstico A evolução pode ser arrastada, como no melanoma do lentigo maligno, ou rápida, como no nodular; o prognóstico é tanto pior quanto mais demorado for o início da terapêutica, em função da precocidade de metástase. Idealmente, "ninguém deveria morrer de melanoma" (A.B. Ackerman), pois a população geral (por meio de campanhas educativas) e os médicos deveriam estar conscientes da importância desse tumor para uma pronta identificação e rápido tratamento. Se o diagnóstico e a cirurgia forem precoces, a sobrevida pode ir próximo a 100% dos casos. Outros fatores prognósticos desfavoráveis incluem a localização na cabeça, no pescoço e no tronco, o sexo masculino e a idade superior a 60 anos, a intensidade da infiltração linfocitária, o tipo histológico, a regressão tumoral, o índice mitótico, a microssatelitose, o tipo celular predominante, os marcadores imuno-histoquímicos e a citomorfometria nucleolar. Em termos de prognóstico, é fundamental estabeler o estadiamento de acordo com a fase da doença. Um sistema de estadiamento padronizado e uniforme é um requisito fundamental para que dadosde diferentes populações possam ser comparados. Segue-se o prognóstico de sobrevida em função da espessura e da presença de metástase. A gravidez não exerce efeito desfavorável em relação ao prognóstico. No entanto, existe a recomendação de evitá-la por pelo menos 2 anos após a excisão de lesões com espessura maior de 1,5 mm, pelo alto risco de desenvolvimento de metástases ocultas, e por pelo menos 5 anos após metástase linfonodal. A avaliação acurada da extensão real da doença é fundamental para se ter um adequado prognóstico de cada paciente portador de melanoma. O atual sistema de estadiamento é resultado de esforços para tentar entender uma variedade de fatores prognósticos que indiquem eventuais riscos e orientação em condutas terapêuticas. Exame físico geral, seguido do exame locorregional e dermatológico global, inclusive com exame das mucosas, é o procedimento inicial para o adequado estadiamento clínico e avaliação da lesão primária, das cadeias linfonodais e eventuais lesões secundárias de interesse. É acompanhado pelos exames laboratoriais para detecção de eventuais lesões à distância. Os exames laboratoriais pedidos, em casos iniciais (estádio clínico I/II), são a radiografia de tórax (anteroposterior e perfil esquerdo) e dosagem da dehidrogenase lática (DHL), que servem de linha de base no seguimento dos pacientes. A ultrassonografia abdominal, com especial interesse na área hepática, é uma prática com o propósito de documentar eventuais lesões congênitas, tais como hemangiomas, os quais poderiam, mais tarde, serem confundidos com lesões secundárias. Casos que apresentam lesões linfonodais suspeitas e/ou confirmadas histológicamente (estádio clínico III) ao primeiro exame, são merecedores do uso de tomografia computadorizada (TC) toracoabdominal, incluindo pelve (primários abaixo da cicatriz umbili-cal), ressonância nuclear magnética (RNM) cerebral e outros exames eventualmente indicados. A tomografia computadorizada por emissão de pósitrons para pesquisa de metabolismo celular por fluor-deoxiglicose (PET-CT) é exame que vem se mostrando útil no caso de pacientes em estádio clínico III/IV ou nos casos de recidiva, para adequação de conduta terapêutica; no EC III, esse exame tem uma taxa de detecção de metástase à distância de até 30% a mais que com a TC convencional. Para fins práticos, pode-se fazer uma análise prognóstica entre a sobrevida e o agrupamento dos pacientes por estádios, conforme a seguir: • estádio I: T1-T2aNOMO (sobrevida em 10 anos = 90%); • estádio II: T2b-T4bNOMO (sobrevida em 10 anos = 60%); • estádio III: qqN1-3M0 (sobrevida em 10 anos = 45%); • estádio IV: qqTqqNM1 (sobrevida em 10 anos = 10%); BIÓPSIA É sempre preferível a biópsia excisional (margens tridimensionais de 1,0 a 2,0 mm), tendo em mente a necessidade de orientar as incisões pelas linhas de força no tronco e longitudinal nas extremidades, o que facilita a cirurgia definitiva, diminui a necessidade de enxerto e não dificulta a possível pesquisa de linfonodo sentinela. Em lesões muito extensas ou localizadas em área em que a excisão acarrete prejuízos estéticos, a biópsia incisional pode ser feita na área mais significativa. É contraindicado o uso da técnica de shaving por poder deixar tumor residual, subestimar a espessura do tumor, causar fibrose e prejudicar encontro de tumor residual. EXCISIONAL: Melhor maneira de fazer o diagnóstico chama-se biópsia excisional quando retiramos toda a lesão com uma margem mínima de até 2mm, com uma porção de subcutâneo na profundidade tridimensional. O sentido da excisão elíptica deve ser longitudinal quando localizada nos membros e preferencialmente sempre no sentido da drenagem linfática nas lesões de tórax. A biópsia deve ser excisional, porém em lesões extensas ou situadas em locais anatômicos nobres, uma biopsia incisional é permitida; deve incluir a parte mais elevada da lesão e a mais pigmentada nas planas. As margens de ressecção da lesão suspeita devem ser de 2 a 3 mm. Fornece ao patologista toda a lesão para ser examinada e só assim se pode confirmar se realmente é um melanoma, o tipo e o grau de invasão histológica. Melanomas podem se disseminar por continuidade e por implante, além das vias linfáticas e hematogênicas deve-se infiltrar lentamente com anestesia local, injetando ao redor e nunca diretamente na lesão, pois a pressão positiva e o trauma poderiam deslocar e disseminar células neoplásicas. INCISIONAL: É a remoção parcial da lesão, que não afeta a sobrevida e a probabilidade de metástases - impossibilita ao patologista definir com segurança o grau de invasão histológica - pode haver falso microestadiamento. É mais indicada para casos de lesões maiores na face, regiões palmo-plantares e subungueais e deve ser feita no local da lesão que aparenta ser o mais espesso, com bisturi ou punch. Pode ser feita no CBC, devido à localização, extensão e potencial dano estético. COMPREENDER O LETRAMENTO EM SAÚDE E AS ESTRATÉGIAS DE EDUCAÇÃO EM AÚDE NO CONTEXTO DO CÂNCER DE PELE A fotoproteção vai além do simples uso do filtro solar. Para que sua pele fique a salvo, é necessário também usar barreiras físicas, como chapéus, bonés, barracas, guarda-sóis, óculos de sol e roupas feitas com tecido com proteção UV. Outra forma de cuidar da saúde da pele é ficar à sombra e evitar a exposição nos horários mais quentes, especialmente entre 9h e 15h. Logo cedo, o filtro solar deve ser o primeiro produto aplicado sobre a pele, antes de qualquer maquiagem, hidratante ou repelente. O ideal é esperar que ele seque, antes de passar outro creme. Ao sair, lembre-se: é necessário esperar, pelo menos, 15 minutos entre a aplicação e o início da exposição ao sol. Na hora de comprar o protetor solar, preste atenção a essas dicas: • Os produtos com cor protegem mais do que os tradicionais. • O Fator de Proteção ao Sol (FPS) número 30 significa que o produto já funciona bem. No entanto, pessoas de pele clara devem usar filtro com FPS 50 ou 70. • Pessoas com tendência à acne devem optar por protetor em gel, creme ou produtos livres de óleo. Praticantes de atividade física e pessoas que suam muito devem evitar protetores em gel, pois saem facilmente. A fotoproteção começa cedo. A partir dos seis meses de idade, todas as crianças devem usar filtro solar diariamente. E um alerta: antes dessa idade, os bebês não devem ser expostos diretamente ao sol. Para os bebês entre seis meses e dois anos também é indicado usar filtros físicos, além de chapéus, bonés e roupas com proteção UVA, e evitar sair ao ar livre nas horas mais quentes. Grande parte de trabalhadores não possuem conhecimento sobre os riscos para câncer de pele, assim como não praticam medidas de proteção solar. O alto custo dos filtros solares é o principal fator usado para justificar a não utilização do produto visto que os mesmos não possuem condição financeira para adquiri-lo, no entanto após palestras os profissionais foram sensibilizados para o uso de outros métodos de igual importância como usar roupas de manga longa e chapéu, mesmo em dias quentes, para diminuir essa exposição. Os filtros solares possuem em sua composição filtros ultravioletas (filtros UV), que tem capacidade de diminuir e/ou bloquear a radiação incidente, possuindo mecanismos de ação como: reflexão, dispersão e absorção. Foi constatado por meio do questionário desta pesquisa que parte significativa dos entrevistados não tem o hábito de uso ou usa de forma incorreta o filtro solar. REFERÊNCIAS OBJETIVO 1, 2 e 3: • AZULAY, David Rubem; ABULAFIA, Luna Azulay. Dermatologia. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. • DARIO, Didona et al. Non Melanoma Skin Cancer Pathogenesis Overview. Biomedicines. vol. 6. 2 Jan. 2018. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/ pmc/articles/PMC5874663/ >. Acesso em: 24 nov. 2023. • HOFF, Paulo Marcelo Gehm. Tratado de Oncologia. São Paulo: Atheneu, 2013. • LEONARDI, Giulia C. et. al. Cutaneous melanoma:From pathogenesis to therapy (Review). Internacional Journal of Oncology. 27 Fevereiro 2018. p. 1071-1080. Disponível em:<https://www.spandidos-publications.com/10.3892/ ijo.2018.4287 >. Acesso em 24 nov. 2023. OBJETIVO 2: • SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Classificação dos fototipos de pele. Disponível em:<https://www.sbd.org.br/cuidados/ classificacao-dos-fototipos-de-pele/ >. Acesso em: 24 nov. 2023. • SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Câncer de pele: pintas que mudam de cor, tamanho e formato são alerta. Disponível em:< https://www.sbd.org.br/cancer-da-pele-pintas-que-mudam-de-cor-tamanho-e- formato-sao-alerta/ >. Acesso em 24nov. 2023. • WATSON. Meg et. al. 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