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BIO
QUÍ
M
EMA
GRE
C
OQ
UÍM
ICA
AG
REC
IM
BIOQUÍMICA DO
EMAGRECIMENTO
(MUITO ALÉM DE APENAS DÉFICIT CALÓRICO)
DUDU HALUCH
TANISE MICHELOTTI
UÍM
IC
 
 
 
 
 
 
 
BIOQUÍMICA DO 
EMAGRECIMENTO 
 MUITO ALÉM DE APENAS DÉFICIT CALÓRICO 
 
 
 
 
 
DUDU HALUCH 
TANISE MICHELOTTI 
 
 
Balneário Camboriú 
2023 
 
 
 
“Dudu Haluch”: Carlos Eduardo Ferreira Haluch 
 
 
 
Copyright © 2023 por Carlos Eduardo Ferreira Haluch - “Dudu Haluch” 
 
Todos os direitos reservados. 
 
 
Capa 
Dudu Haluch, Thaís Essu 
 
Figuras 
Dudu Haluch, Tanise Michelotti, Thaís Essu 
 
Editor 
Dudu Haluch 
 
Site: www.duduhaluch.com.br 
E-commerce: www.livrosduduhaluch.com.br 
facebook.com/eduardo.haluch.5 
instagram.com/duduhaluch 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 6 
1.1 Ganho de peso e obesidade................................................................................ 7 
1.2 Balanço energético .............................................................................................. 9 
2 CARBOIDRATOS .................................................................................................... 12 
2.1 Digestão dos carboidratos ................................................................................. 14 
2.2 Metabolismo dos carboidratos ........................................................................... 15 
2.3 Qual a quantidade de carboidratos necessária para estimular a liberação de 
insulina? .................................................................................................................. 17 
2.4 Glicólise e glicogênese ...................................................................................... 18 
2.5 Gliconeogênese ................................................................................................ 21 
2.6 Metabolismo de carboidratos e perda de peso .................................................. 24 
2.7 Dietas altas em carboidratos contribuem para o ganho de gordura corporal? ... 26 
2.8 Insulina e emagrecimento ................................................................................. 33 
2.9 Melhora da sensibilidade à insulina ................................................................... 35 
2.10 Flexibilidade metabólica .................................................................................. 37 
REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 39 
3 LIPIDEOS ................................................................................................................ 41 
3.1 Digestão dos lipídeos ........................................................................................ 42 
3.2 Lipogênese de novo e ganho de gordura .......................................................... 44 
3.3 Lipólise e oxidação de ácidos graxos ................................................................ 48 
3.3.1 Lipólise ....................................................................................................... 50 
3.3.2 Oxidação .................................................................................................... 53 
3.4 Formação de corpos cetônicos e dieta cetogênica ............................................ 55 
3.4.1 Por que a cetose não otimiza a perda de gordura? ..................................... 59 
3.4.2 Cetogênese acelera o metabolismo? .......................................................... 60 
3.5 A gordura queima em uma chama de carboidratos? ......................................... 61 
3.6 O adipócito e a leptina na perda de peso .......................................................... 64 
3.7 Tecido adiposo, obesidade e resistência à insulina ........................................... 66 
REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 69 
4 PROTEÍNAS ............................................................................................................ 71 
4.1 Aminoácidos essenciais, não essenciais e condicionalmente essenciais .......... 72 
4.2 Digestão e absorção ......................................................................................... 73 
4.3 Metabolismo de proteínas ................................................................................. 74 
4.3.1 Destino do nitrogênio .................................................................................. 75 
4.4 Aminoácidos e gliconeogênese ......................................................................... 77 
 
 
4.5 Insulina e inibição da degradação proteica ........................................................ 78 
4.6 Metabolismo de proteínas e perda de peso ....................................................... 79 
4.7 Dietas hiperproteicas e emagrecimento ............................................................ 80 
4.7.1 Proteínas, termogênese e saciedade .......................................................... 82 
4.7.2 Proteínas e composição corporal ................................................................ 85 
REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 87 
5 CICLO DE KREBS ................................................................................................... 89 
REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 93 
6 FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA ................................................................................. 94 
REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 97 
7 MECANISMOS REGULATÓRIOS DA FOME E DA SACIEDADE ............................ 98 
7.1 Resistência à insulina ...................................................................................... 101 
7.2 Resistência à leptina ....................................................................................... 110 
7.3 Alimentos processados - impactos sobre o metabolismo ................................ 112 
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 115 
8 ADAPTAÇÕES FISIOLÓGICAS NA PERDA DE PESO ......................................... 116 
8.1 Termogênese adaptativa (adaptação metabólica) ........................................... 116 
8.1.1 Adaptação metabólica persistente 6 anos após a competição “The Biggest 
Loser” ................................................................................................................ 118 
8.2 Aumento do apetite ......................................................................................... 121 
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 124 
9 METABOLISMO DO JEJUM INTERMITENTE ....................................................... 125 
9.1 Eficácia do jejum intermitente no emagrecimento e na otimização da composição 
corporal ................................................................................................................. 127 
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 130 
10 PERDA DE PESO RÁPIDA X PERDA DE PESO GRADUAL .............................. 131 
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 136 
11 TERMOGÊNICOS E INIBIDORES DO APETITE ................................................. 137 
11.1 Introdução ..................................................................................................... 137 
11.2 Receptores adrenérgicos .............................................................................. 138 
11.3 Chá verde ......................................................................................................140 
11.4 Cafeína.......................................................................................................... 143 
11.5 Citrus aurantium ............................................................................................ 145 
11.6 Capsaicina e capsiate ................................................................................... 145 
11.7 Ioimbina ......................................................................................................... 146 
11.8 Efedrina ......................................................................................................... 148 
11.9 Clembuterol ................................................................................................... 150 
11.10 Salbutamol .................................................................................................. 152 
 
 
11.11 Ozempic e análogos de GLP-1 .................................................................... 152 
11.12 Metformina .................................................................................................. 156 
11.13 Sibutramina ................................................................................................. 157 
11.14 Orlistat ......................................................................................................... 158 
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 160 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
6 
 
 
1 
 INTRODUÇÃO 
 
Há muitos anos o emagrecimento é amplamente debatido, seja por 
profissionais da saúde, seja por pessoas leigas. Entretanto, nos últimos anos 
esse tema vem ganhando destaque devido ao grande aumento no número de 
pessoas com sobrepeso e obesidade. 
Você, como profissional, ou não, da saúde certamente já ouviu diversas 
afirmações acerca de emagrecimento, como “água com limão emagrece” ou 
“água gelada acelera o metabolismo”. Embora a maioria de vocês já tenha 
tomado conhecimento que essas afirmações não são verídicas, é preciso ter 
uma visão muito mais ampla de todos os processos que envolvem o 
emagrecimento e entender o mínimo de bioquímica é primordial para não sair 
afirmando que algo é ou não verídico, sem ao menos conhecer suas bases 
teóricas. 
Existem diversas perguntas que com certeza já foram feitar-nos ou 
pensadas: “consumir abaixo da taxa metabólica basal é prejudicial?”, “dietas low 
carb apresentam vantagens sobre o emagrecimento?”, “dieta cetogênica acelera 
o metabolismo?”, “suplementos termogênicos contribuem para o aumento do 
gasto calórico?”, “como evitar o efeito platô?”. Essas, entre outras, são apenas 
exemplos de perguntas que você, profissional da saúde, precisa ter a capacidade 
de respondê-las e explicá-las, principalmente se você trabalha com 
emagrecimento. 
Comumente é encontrado frases como “para emagrecer basta déficit 
calórico” ou “basta apenas ingerir menos e gastar mais”. Essas frases, embora 
verídicas, fazem-nos pensar que não é necessário nutricionistas, educadores 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
7 
 
físicos ou médicos para tratar um paciente com obesidade. Reduzir o 
emagrecimento e a nutrição apenas a contar calorias pode refletir tanto na 
sensação de incapacidade do paciente quanto na simplificação do trabalho 
profissional. Embora seja relativamente fácil promover a perda de peso em um 
paciente, precisamos nos perguntar: Como que essa perda foi promovida? Por 
quanto tempo irá se pendurar? Como será o reganho? Como ficará a sua saúde, 
incluindo questões psicológicas? Quais são os motivos que estão impedindo o 
paciente de emagrecer? O nosso trabalho não é apenas promover a perda de 
peso e o emagrecimento, lidamos com diversas questões envolvidas e com 
certeza entender a bioquímica do emagrecimento trará a vocês maior segurança 
nos atendimentos e leituras subsequentes. 
Portanto, o nutricionista, educador físico ou qualquer outro profissional da 
saúde precisa ter uma visão tanto macro quanto microscópica de todos os 
processos que ocorrem com o nosso corpo antes de apenas reproduzir frases 
prontas. 
 
1.1 GANHO DE PESO E OBESIDADE 
A obesidade é, de forma geral, uma consequência de uma ingestão 
calórica excessiva associada a um baixo gasto calórico por um período crônico 
(balanço calórico positivo). Entretanto, há diversos fatores que podem ter levado 
esses indivíduos ao balanço calórico positivo, como questões socioculturais e 
emocionais, sedentarismo, utilização de medicamentos, falta de conhecimento 
acerca de questões básicas sobre nutrição, fatores genéticos, ambientais etc. 
Portanto, afirmar que a obesidade e/ou o sobrepeso são ocasionados apenas 
pelo excesso alimentar é, embora verídico, muito simplista, pois ignora os 
diversos fatores responsáveis por levar esses indivíduos ao aumento do 
consumo calórico. 
Provavelmente não seja nenhuma novidade que a obesidade vem 
aumentando expressivamente. Em 2016 foi publicado um artigo na Lancet 
mostrando que no ano de 1975 havia 71 milhões de mulheres com obesidade no 
mundo e 34 milhões de homens. Em 2014 esse número subiu para 375 milhões 
de mulheres e 266 milhões de homens. Percebam que o número de pessoas 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
8 
 
com obesidade aumentou cerca de 5 a 7 vezes ao longo de 39 anos e, se, de 
fato, fizesse algum sentido afirmações acerca da obesidade é falta de vontade, 
não haveria milhares de pessoas sofrendo-a. Por esse e outros motivos que 
devemos entender quais as repercussões metabólicas estão presentes na 
obesidade e quais são as suas bases bioquímicas. 
O excesso de tecido adiposo tem sido considerado um fator de risco para 
doenças cardiovasculares e diabetes mellitus 2. No entanto, várias observações 
destacam que, mais do que o excesso de gordura em si, a distribuição de 
gordura, em especial nas regiões centrais do corpo (também denominadas como 
gordura visceral, intra-abdominal ou omental), desempenha um papel importante 
nestas associações. Estudos têm mostrado que indivíduos com obesidade 
central apresentam uma elevada incidência de resistência à insulina, quando 
comparados àqueles com obesidade subcutânea e que a obesidade central é o 
maior fator de ligação com a síndrome metabólica. 
 
Observação: Um dos principais parâmetros para se avaliar a presença de 
obesidade é o índice de massa corporal (IMC). Embora esse índice apresente 
falhas, é amplamente utilizado tanto na prática clínica, quanto em estudos 
científicos. Nesse sentido, o IMC não deve ser utilizado em pacientes que 
apresentam uma grande quantidade de massa muscular, como fisiculturistas, 
pois é um parâmetro que leva em consideração apenas o peso e altura do 
paciente, não diferenciando massa magra e massa gorda. Por outro lado, pode 
ser útil para a população que apresenta excesso de peso (obviamente qualquer 
pessoa saberá diferenciar um fisiculturismo de um indivíduo obeso, logo, é 
simples filtrar o público que o utilizará). Portanto, não podemos afirmar que o 
IMC é um parâmetro inútil, embora seja simplista, pois a sua utilização 
dependerá do público e cabe ao profissional utilizá-lo ou não em sua prática 
clínica. 
 
Atualmente, um assunto que é amplamente debatido é a predisposição à 
obesidade. Quem nunca ouviu e até mesmo já pronunciou a seguinte frase “não 
faço dieta porque tenho tendência a ganhar peso, logo, não irá resolver”. De fato, 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
9 
 
há indivíduos mais susceptíveis a desenvolver sobrepeso ou obesidade do que 
outros, no entanto, essa predisposição não pode ser considerada o único fator 
responsável. Uma interação de fatores genéticos, epigenéticos, sociais e 
ambientais circundam esse quadro. Nesse sentido, mesmo que uma pessoa 
nasçacom predisposição à obesidade, ela não a desenvolverá se não for 
exposta ambientalmente à fatores obesogênicos. Por exemplo, um ambiente 
onde o gasto energético é baixo e há uma alta disponibilidade de alimentos 
palatáveis, a variação do peso tende a ser grande devido a existência de um 
balanço energético positivo crônico que impede esses indivíduos de perderem 
peso. Por outro lado, por mais que o indivíduo possua uma predisposição à 
obesidade, se ele possuir um estilo de vida ativo e manter uma alimentação 
saudável, a variação no seu peso corporal tende a ser pequena, justamente pelo 
fato de existir um balanço energético negativo que impede que esses indivíduos 
ganhem peso excessivamente. Portanto, realmente existem pessoas que 
apresentam predisposição genética à obesidade, no entanto, quem irá 
determinar isso será o ambiente. É importante que o ambiente esteja interagindo 
para que esse gene determine as suas expressões. 
 
1.2 BALANÇO ENERGÉTICO 
Durante a maior parte da nossa vida adulta, a tendência do nosso peso 
corporal é se manter estável por longos períodos (meses, anos). Podem ocorrer 
pequenas oscilações diárias devido ao ganho e a perda de água, mas a 
composição corporal tende a se manter estável. As grandes mudanças que 
ocorrem durante a fase de crescimento e desenvolvimento (infância e 
adolescência) são devido às influências hormonais (hormônio do crescimento, 
testosterona, estrogênio, insulina, hormônios tireoidianos). Para que um 
indivíduo adulto mantenha seu peso estável é necessário que seu gasto 
energético diário seja igual a sua ingestão de calorias diárias (ingestão 
energética), ou seja, ele deve manter um balanço energético neutro: 
Gasto Energético = Ingestão Energética 
O nosso corpo tem um sistema homeostático que funciona incrivelmente 
bem a maior parte do tempo, de forma que mudanças no gasto energético e na 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
10 
 
ingestão energética tendem a se equiparar ao longo de vários dias. Na 
sequência, iremos compreender os componentes do gasto energético para 
entender como funciona esse sistema homeostático que mantém o peso corporal 
estável a maior parte do tempo. 
O gasto energético diário total (GET) tem basicamente três componentes: 
o gasto energético de repouso (GER), que se refere ao gasto energético para 
manter a temperatura do organismo e suas funções vitais normais (batimento 
cardíaco, respiração etc.); o gasto energético da atividade física (GAF), que inclui 
o gasto energético devido ao exercício físico e o gasto energético das atividades 
do dia a dia (andar, trabalhar, brincar etc.), que é a principal variável que 
diferencia o gasto energético diário entre diferentes indivíduos; e o efeito térmico 
dos alimentos (ETA), que é o gasto energético devido a um aumento do 
metabolismo por causa dos processos de digestão, absorção e armazenamento 
no organismo, e normalmente contribui com 10% do gasto energético diário. 
Cerca de 50 a 70% do gasto energético diário corresponde ao GER. O 
GAF pode variar muito entre indivíduos sedentários e indivíduos muito ativos, 
podendo ser mais de 50% do GET. A contribuição do gasto energético para 
refeições de carboidratos e gorduras não passa de 5%, enquanto uma refeição 
rica em proteínas pode levar a um gasto energético de até 30% das calorias 
ingeridas. Dessa forma, o gasto energético diário pode ser escrito da seguinte 
forma: 
GET = GER + ETA + GAF 
Se um indivíduo ganha peso e gordura isso significa que sua ingestão 
energética (IE) é maior do que seu GET: 
 
IE > GET (balanço energético positivo) 
 
Nesse caso, dizemos que o indivíduo está em balanço energético positivo, 
pois está ingerindo mais calorias do que seu corpo está gastando. Nessa 
situação, o excesso de calorias tende a ser armazenado principalmente na forma 
de gordura (mas também ocorre aumento da massa magra). 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
11 
 
Se um indivíduo perde peso significa que sua ingestão energética (IE) é 
menor do que seu GET: 
IE < GET (balanço energético negativo) 
 
Nesse caso, dizemos que o indivíduo está em balanço energético 
negativo, pois está ingerindo menos calorias do que seu corpo está gastando. 
Nessa situação a maior parte do peso perdido tende a ser gordura corporal, mas 
em algumas situações o indivíduo pode perder muita massa magra (massa 
muscular, massa dos outros órgãos e tecidos, e água). 
Embora pareça simples mudar o peso corporal alterando as variáveis do 
GET ou a ingestão energética, nosso corpo tem mecanismos homeostáticos que 
tornam essas mudanças mais difíceis e ajudam a manter balanço energético 
equilibrado a maior parte do tempo. Essa homeostase é mantida por meio do 
controle da ingestão energética por um sistema neuroendócrino que regula a 
fome e à saciedade, e por alterações compensatórias nos componentes do gasto 
energético que ocorrem com a perda ou ganho de peso. 
Na sequência iremos estudar o metabolismo de carboidratos e lipídeos, 
para posteriormente estudar os fatores envolvidos no emagrecimento, bem como 
no ganho de peso. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
12 
 
2 
CARBOIDRATOS 
 
Os carboidratos, na grande maioria das vezes, são os principais 
componentes da dieta. Os carboidratos podem ser classificados em quatro 
grupos (monossacarídeos, dissacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos). 
Os monossacarídeos são os carboidratos mais simples existentes e os 
mais comumente encontrados nos alimentos são a glicose, a frutose e a 
galactose. A glicose (ou dextrose) é o monossacarídeo mais abundante na 
natureza e a principal fonte de energia para o ser humano. A glicose está 
presente em diversos tipos de alimentos, seja na sua forma livre, presente no 
mel e nas frutas, seja ligada a outras moléculas de glicose ou a outros 
monossacarídeos. A frutose também pode ser encontrada na sua forma livre nas 
frutas e no mel, entretanto, é encontrada principalmente na sacarose (açúcar de 
mesa). A galactose, por outro lado, é encontrada nos alimentos apenas quando 
se liga a glicose, formando a lactose. Dessa forma, embora esses 
monossacarídeos possam ser encontrados na sua forma livre nos alimentos, são 
encontrados principalmente ligados a outros monossacarídeos (formando 
dissacarídeos e polissacarídeos), conforme explicado abaixo. 
A união de duas moléculas de monossacarídeos dá origem a um 
dissacarídeo. Nesse sentido, quando uma molécula de glicose forma uma 
ligação glicosídica com uma molécula de frutose, tem-se o dissacarídeo 
sacarose, encontrado, principalmente, no açúcar de mesa. A sacarose é 
considerada o açúcar padrão, uma vez que a doçura dos demais açúcares e 
edulcorantes é avaliada em relação a ela, sendo a glicose menos doce que a 
sacarose e a frutose 30% mais doce que a sacarose. Da mesma forma, quando 
a galactose se associa a molécula de glicose por meio de uma ligação 
glicosídica, forma-se o dissacarídeo lactose, encontrado em produtos lácteos. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
13 
 
Por fim, quando duas moléculas de glicose se associam forma-se o dissacarídeo 
maltose, encontrado na cerveja e após a degradação do amido no processo de 
digestão. 
Os oligossacarídeos compreendem carboidratos compostos por 3 a 10 
monossacarídeos, entretanto, há divergência entre os livros na quantidade de 
monossacarídeos, sendo que alguns os classificam diretamente como 
polissacarídeos. A rafinose (trissacarídeo) e estaquiose (tetrassacarídeo) são 
exemplos de oligossacarídeos encontradas, principalmente, no feijão e são 
compostos por galactose, frutose e glicose. As enzimas digestórias humanas 
não são capazes de hidrolisá-los, entretanto, as bactérias intestinais hidrolisam-
nas e por esse motivo algumas pessoas sentem flatulência após seu consumo. 
Por fim,a maior parte da dieta humana é composta por polissacarídeos. 
Polissacarídeos são vários monossacarídeos unidos entre si por ligações 
glicosídicas. Os principais exemplos de polissacarídeos são o amido e o 
glicogênio. O amido é o principal polissacarídeo de origem vegetal e é 
encontrado em diversos alimentos como arroz, batata, mandioca, macarrão e 
pão. O glicogênio é um polissacarídeo de armazenamento (fonte de reserva 
energética). Quando consumimos uma determinada quantidade de carboidratos, 
uma parcela pode ser direcionada ao nosso fígado e ao nosso músculo para 
armazenamento (principais locais de armazenamento do glicogênio). Os 
estoques de glicogênio serão importantes em períodos de jejum para manter a 
glicemia estável. 
Além desses dois importantes polissacarídeos, os seres humanos 
também consomem polissacarídeos não amido, os quais não podem ser 
digeridos pelo nosso organismo, mais conhecidos como fibras alimentares 
(celulose, hemicelulose, pectinas). 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
14 
 
2.1 DIGESTÃO DOS CARBOIDRATOS 
A digestão de carboidratos tem início na boca com o processo de 
mastigação e ação da enzima amilase salivar (ptialina), que inicia o processo de 
hidrólise (quebra) do amido. Ao chegar no estômago essa enzima é inativada 
devido ao baixo pH estomacal (pH ~ 2). A digestão enzimática dos carboidratos 
continua no intestino delgado, onde a chegada do bolo alimentar promove a 
liberação do hormônio secretina, que alcaliniza o meio por promover a secreção 
de bicarbonato pelo pâncreas. No intestino delgado, o pH levemente alcalino (pH 
~ 7 - 8) permite a atividade das enzimas amilase pancreática e glicoamilase, 
responsáveis pela degradação do amido. Os produtos da degradação do amido 
e dos oligossacarídeos são monossacarídeos (glicose, frutose) e dissacarídeos 
(sacarose, maltose, isomaltose). Apenas monossacarídeos podem ser 
absorvidos pelas microvilosidades intestinais, enquanto os dissacarídeos 
precisam sofrer hidrólise por enzimas presentes na borda em escova do 
intestino. Essas enzimas são chamadas de dissacaridases, e três delas têm 
intensa atividade na borda em escova: a sacarase, que atua sobre a sacarose, 
produzindo glicose e frutose; a maltase, que atua sobre a maltose, produzindo 
duas moléculas de glicose; e a lactase, que atua sobre a lactose, produzindo 
glicose e galactose. 
Os produtos da digestão dos carboidratos são os monossacarídeos 
glicose, frutose e galactose. A absorção desses monossacarídeos no intestino 
delgado ocorre por diferentes mecanismos, envolvendo moléculas 
transportadoras distintas. A glicose e a galactose são transportadas para o 
interior das células da mucosa intestinal por um processo ativo (que requer gasto 
de energia, ATP), pela proteína transportadora SGLT-1 (cotransportador de 
glicose 1 dependente de sódio). Já a frutose é transportada para o interior das 
células intestinais pela proteína transportadora GLUT-5, processo conhecido 
como difusão facilitada. 
Após a absorção, quase toda frutose e galactose são convertidas em 
glicose no fígado. Essa glicose será utilizada como fonte de energia pelos 
diferentes tecidos do organismo, e uma boa parte é armazenada na forma de 
glicogênio, principalmente pelo fígado e pelos músculos. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
15 
 
 
 
Figura 2.1 – Digestão dos carboidratos. A digestão dos carboidratos começa na boca, 
com o processo de mastigação, pela ação da enzima α-amilase salivar (ptialina). Logo 
após, os carboidratos passam pelo esôfago e pelo estômago, todavia, a maior parte de 
sua digestão ocorre no intestino delgado pela ação das enzimas pancreáticas α-amilase 
pancreática e glicoamilase, responsáveis por degradar o amido. Dessa forma, a quebra 
do amido resulta em partículas menores (maltose e isomaltose), que, da mesma forma 
que a sacarose e a lactose, sofrem degradação pelas dissacaridases (maltase, 
isomaltase, sacarase e lactase) na borda em escova do intestino delgado. A degradação 
dos dissacarídeos resulta em monossacarídeos (glicose, frutose e galactose), que são 
absorvidos no intestino delgado. As fibras alimentares não sofrem ação das enzimas 
digestivas e, com isso, são direcionadas ao intestino grosso, onde podem sofrer 
fermentação pelas bactérias presentes nessa região (microbiota). 
 
2.2 METABOLISMO DOS CARBOIDRATOS 
Conforme visto, após serem consumidos, os carboidratos são 
degradados, principalmente, pelas enzimas amilase salivar (boca) e amilase 
pancreática (intestino delgado). Nesse sentido, a degradação do amido no 
intestino delgado resulta em moléculas de glicose (após a ação das 
dissacaridases intestinais), que após serem absorvidas no intestino, entram na 
corrente sanguínea, sendo direcionadas aos tecidos. A glicose é então captada 
pelos tecidos que precisam utilizá-la como fonte de energia através de proteínas 
transportadoras chamadas GLUTs. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
16 
 
Tabela 2.1 - Transportadores de glicose (GLUTs) são proteínas encontradas nas 
membranas celulares que transportam a glicose para o interior das células. O 
GLUT-2 pode tanto transportar a glicose do sangue para a célula, quanto da 
célula para o sangue. O GLUT-4 é o principal transportador de glicose presente 
no tecido muscular e adiposo e é dependente da ação da insulina, exceto durante 
o exercício, quando esses tecidos têm a captação de glicose aumentada mesmo 
com os níveis de insulina reduzidos. 
 
 
 
Existem diferentes tipos de GLUTs, dependendo do tecido em que atuam. 
Boa parte dos tecidos realiza a captação de glicose sem a necessidade da ação 
da insulina, mas o tecido muscular e o tecido adiposo dependem da ação da 
insulina para captar a maior parte da glicose da corrente sanguínea. Nesses 
tecidos, a glicose é captada pela proteína GLUT-4, que é estimulada pela 
insulina. Após entrar nos tecidos, a glicose sofre a ação da enzima hexoquinase. 
A hexoquinase é responsável por adicionar um grupo fosfato a molécula de 
glicose, formando glicose-6-fosfato. Esse processo é indispensável para que a 
molécula de glicose permaneça dentro da célula, uma vez que a maioria das 
células não apresentam transportadores para açúcares fosforilados na 
membrana plasmática. 
Portanto, após ser captada pelas células e fosforilada pela hexoquinase, 
a glicose-6-fosfato pode ser utilizada como fonte de energia na glicólise 
(produzindo ATP) ou ser armazenada na forma de glicogênio, principalmente no 
fígado e no músculo esquelético. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
17 
 
2.3 QUAL A QUANTIDADE DE CARBOIDRATOS NECESSÁRIA 
PARA ESTIMULAR A LIBERAÇÃO DE INSULINA? 
Há quatro isoenzimas diferentes de hexoquinase (isoenzimas são 
enzimas diferentes que realizam a mesma reação), hexoquinase I, II, III e IV, 
codificados por quatro genes diferentes, destacando-se a I, II e a IV. A 
hexoquinase I é expressa, predominantemente, no cérebro e nos eritrócitos 
(hemácias). A hexoquinase II é expressa, predominantemente, nos miócitos 
(células musculares) e a hexoquinase IV, predominantemente, no fígado e no 
pâncreas. 
Todas as isoformas de hexoquinase apresentam diferentes Km de acordo 
com o tecido que será expresso. O Km é definido como a concentração de 
substrato (glicose) para a qual a velocidade da reação é metade da velocidade 
máxima. Dessa forma, o Km é inversamente proporcional à afinidade pelo 
substrato, quanto maior o Km da enzima, menor será sua afinidade pelo 
substrato e quando menor o Km, maior será a afinidade. 
A hexoquinase I apresenta Km de 0,2mM e a hexoquinase II, de 0,1mM. 
Ambas são inibidas pela glicose-6-fosfato, ou seja, sempre que a concentração 
intracelular de glicose-6-fosfato se eleva acima do seu nível normal, essas 
enzimas são inibidas temporariamente. Por outro lado, a hexoquinase IVapresenta um Km de 10mM (maior que a concentração de glicose sanguínea, 
que é 3-5mM) e não se satura, dessa forma, pode continuar agindo quando o 
acúmulo de glicose inibe as demais hexoquinases (ao mesmo tempo, contribui 
para evitar uma hiperglicemia). A hexoquinase I e II apresentam um Km 50 e 100 
vezes inferior a hexoquinase IV, respectivamente. Logo, o cérebro, os eritrócitos 
e os miócitos apresentam uma afinidade muito maior pela glicose do que o 
pâncreas ou o fígado. É por esse motivo que pequenas quantidades de 
carboidratos não estimulam diretamente a liberação de insulina, pelo contrário, 
caso você ofereça uma pequena quantidade de substrato (glicose), o seu corpo 
irá priorizar a geração de energia a nível central ou muscular (incluindo músculo 
cardíaco), ao invés de enviá-la diretamente ao pâncreas para liberação de 
insulina. Entretanto, é preciso compreender que essa regra é válida apenas 
quando pequenas quantidades de carboidratos são ingeridas após um período 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
18 
 
de inanição, pois dessa forma o corpo estará necessitando de glicose para suprir 
suas demandas básicas, como o adequado funcionamento cerebral e 
cardiovascular. Por exemplo, supondo que você esteja a 12h sem se alimentar 
e decide consumir uma bala, considerando que a quantidade de carboidratos 
presente nessa bala é pequena e que o tempo sem se alimentar é longo, não 
haverá liberação de insulina, uma vez que o seu corpo apresenta outras 
prioridades ao invés de enviá-la diretamente ao pâncreas para liberação de 
insulina (todavia, o mesmo não ocorre caso você já tenha realizado uma refeição 
contendo um alto conteúdo de carboidratos e após 30 min consumir uma bala). 
Portanto, a liberação ou não de insulina irá depender do tempo sem se alimentar 
e da quantidade de carboidratos ingerida. 
Observação: É importante compreender que a liberação de insulina nunca está 
zerada, exceto em pacientes diabéticos tipo 1, e o que ocorre é uma maior ou 
uma menor liberação ao longo do dia. 
 
2.4 GLICÓLISE E GLICOGÊNESE 
 Dois caminhos que a glicose pode percorrer após sofrer a ação da enzima 
hexoquinase é gerar energia (glicólise) e ser armazenada na forma de glicogênio 
(glicogênese). Além disso, a glicose pode ser direcionada para síntese de ácidos 
graxos e para a via das pentose-fosfato. 
Existem basicamente dois tipos de glicólise: glicólise aeróbia, que ocorre 
apenas com a presença de oxigênio e em células com mitocôndrias; glicólise 
anaeróbia, que ocorre sem a presença de oxigênio e em células sem 
mitocôndrias (eritrócitos, medula adrenal). Na glicólise aeróbia, a glicose é 
degradada até um composto chamado “piruvato” em uma série de 10 reações. 
O piruvato é convertido em acetil-Coa pela enzima piruvato desidrogenase 
(PDH). O acetil-Coa é o intermediário comum do metabolismo de carboidratos, 
gorduras e proteínas. A maior parte da produção de energia da via glicolítica 
ocorre com a oxidação do acetil-Coa no ciclo de Krebs, que ocorre na 
mitocôndria. A oxidação de glicose pela glicólise aeróbia produz um total de 32 
ATP por molécula de glicose. Essa via é a principal responsável pelo 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
19 
 
fornecimento de energia pelos carboidratos. Dessa forma, a glicose é 
direcionada a glicólise quando a célula necessidade de energia. 
A glicólise anaeróbia ocorre quando a célula não recebe oxigênio (hipóxia) 
ou quando a célula não apresenta mitocôndrias (hemácias). É um processo 
comum que ocorre nas fibras musculares em exercícios de alta intensidade 
(musculação, HIIT), quando a demanda energética da célula aumenta 
rapidamente e a produção de ATP pela via aeróbia é mais lenta para suprir as 
necessidades do músculo. Nesse caso, a glicose é degradada em piruvato, mas 
o piruvato não forma acetil-Coa, e sim lactato. O lactato pode sair da célula e 
virar glicose no fígado (gliconeogênese) ou também ser convertido em piruvato 
pela enzima lactato desidrogenase em outros tecidos (coração, rins) e ser 
oxidado pelo ciclo de Krebs. 
Quando existe um grande aporte de carboidratos na dieta, parte da glicose 
é utilizada como fonte de energia pelo organismo, e o excesso é armazenado na 
forma de glicogênio no fígado e no músculo esquelético. O fígado pode 
armazenar cerca de 70-100 g de glicogênio, e o músculo esquelético pode 
armazenar cerca de 400-500 g de glicogênio. Considerando que os estoques de 
glicogênio são limitados, um grande excesso de carboidratos em conjunto com 
um superávit calórico pode favorecer a síntese de ácidos graxos a partir da 
glicose, processo conhecido como lipogênese. 
A síntese de glicogênio acontece principalmente pela ação de uma 
enzima, a glicogênio sintase. Esse processo é conhecido como glicogênese e é 
estimulado pelos altos níveis de glicose e insulina, ou seja, ocorre de forma 
intensa logo após as refeições com grande aporte de carboidratos. 
O fígado não precisa da insulina para captar glicose, uma vez que a 
proteína que transporta glicose para dentro das células hepáticas, GLUT-2, 
funciona independente da insulina. Por outro lado, o músculo esquelético precisa 
da insulina para captar as moléculas de glicose presentes na corrente 
sanguínea. Essa captação ocorre porque a insulina aumenta a quantidade de 
proteínas GLUT-4, responsáveis pela captação da glicose no músculo e no 
tecido adiposo. No entanto, durante o exercício, a captação de glicose via GLUT-
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
20 
 
4 é independente da insulina (já que os níveis de insulina estão reduzidos), 
mediada pela proteína AMPK. 
O glicogênio armazenado no fígado e no músculo funciona como reserva 
de energia para o organismo, mas existem algumas diferenças no uso desse 
glicogênio. O glicogênio hepático fornece glicose para a corrente sanguínea no 
período após as refeições e essa glicose é fundamental para fornecer energia 
para o cérebro e os tecidos dependentes de glicose (eritrócitos, medula adrenal, 
retina). Já o glicogênio muscular não é capaz de fornecer glicose para os demais 
tecidos, apenas para o músculo esquelético; devido à ausência de uma enzima, 
a glicose6-fosfatase. Portanto, o glicogênio hepático tende a se esgotar mais 
rapidamente durante um período de jejum, enquanto o glicogênio muscular 
depende mais do trabalho muscular para ser esgotado. 
 
Figura 2.2 - Glicogênese e glicogenólise. A insulina aumenta a síntese de glicogênio 
pelo estímulo da enzima glicogênio sintase e inibe a degradação do glicogênio pela 
inibição da enzima glicogênio fosforilase. Os hormônios antagônicos da insulina 
glucagon e adrenalina (epinefrina) realizam o oposto. O glucagon e a adrenalina 
aumentam quando os níveis de glicose e insulina estão baixos, como no jejum e durante 
o exercício físico. Esses hormônios inibem a glicogênio sintase e estimulam a glicogênio 
fosforilase, inibindo a glicogênese e estimulando a glicogenólise. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
21 
 
Conforme mencionado acima, o glicogênio funciona como uma reserva 
energética e para seja possível utilizar o glicogênio como fonte de energia é 
necessário a ação de uma enzima chamada de glicogênio fosforilase. A 
glicogênio fosforilase é responsável por degradar o glicogênio em várias 
moléculas de glicose, processo chamado de glicogenólise. A glicogenólise 
ocorre de forma mais acentuada quando os níveis de glicose e insulina estão 
baixos. Nessa fase, o organismo utiliza as reservas de glicogênio como fonte de 
energia, embora a gordura (ácidos graxos) também seja uma importante fonte 
de energia nesse período. 
 
2.5 GLICONEOGÊNESE 
Nosso cérebro consome cerca de 100-120 g de glicose por dia, 
quantidade que pode ser obtida facilmente pela ingestão de carboidratos (amido, 
açúcares). Diferente da maioria dos órgãos e tecidos do organismo,que utilizam 
ácidos graxos (gordura) além da glicose, o cérebro depende quase 
exclusivamente da glicose como fonte de energia (pode utilizar corpos cetônicos 
também). Quando consumimos uma boa quantidade de carboidratos, uma parte 
é utilizada pelos tecidos para obter energia através da via glicolítica, e o excesso 
é armazenado como glicogênio no fígado e no músculo esquelético. 
As reservas de glicogênio muscular e hepático suprem as necessidades 
energéticas do organismo no período após as refeições (pós-prandial) e durante 
o exercício físico. O glicogênio muscular fornece glicose apenas para a 
contração muscular, não podendo fornecer energia para os demais tecidos do 
organismo. Já as reservas de glicogênio do fígado podem fornecer glicose para 
os demais tecidos do organismo, sendo o cérebro e os músculos os maiores 
consumidores desse substrato durante o período pós-prandial. O glicogênio 
hepático é consumido totalmente depois de 12-18 horas de jejum. 
Depois de algumas horas de jejum, o glicogênio hepático reduz 
drasticamente e os níveis de insulina estão reduzidos, enquanto os de glucagon 
estão aumentados. Nesse período, o fígado passa a sintetizar glicose a partir de 
outros compostos não carboidratos (aminoácidos, lactato e glicerol). Esse 
processo é conhecido como gliconeogênese e acontece predominantemente no 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
22 
 
fígado, embora os rins também possam contribuir significativamente durante o 
jejum prolongado. A função da gliconeogênese é manter os níveis de glicose 
sanguínea estáveis durante o jejum, quando as reservas de glicogênio hepático 
estão baixas e não há consumo de carboidratos. 
A gliconeogênese é estimulada pelo glucagon e pela adrenalina, sendo 
que os aminoácidos são os principais substratos para a síntese de glicose, 
principalmente alanina (ciclo alanina glicose) e glutamina. O cortisol é outro 
hormônio que estimula a gliconeogênese e mobiliza os aminoácidos do músculo 
esquelético para participar do processo, aumentando a degradação das 
proteínas musculares. O hormônio do crescimento (GH) também estimula a 
gliconeogênese durante o jejum e o exercício, mas tem menor importância 
comparado ao glucagon e ao cortisol. 
O glicerol é outro composto utilizado pelo fígado para sintetizar glicose no 
período de jejum. O glicerol é um composto obtido a partir da degradação dos 
triacilgliceróis no tecido adiposo, processo conhecido como lipólise. A lipólise é 
a quebra dos triacilgliceróis em ácidos graxos e glicerol, sendo estimulada 
durante o jejum e o exercício físico pelos hormônios contrarreguladores da 
insulina (glucagon, adrenalina, cortisol e GH). Os ácidos graxos resultantes da 
lipólise são utilizados como fonte de energia por diversos tecidos do organismo, 
enquanto o glicerol se dirige até o fígado para formar glicose. 
O lactato é outro composto importante que participa da gliconeogênese. 
O lactato é produzido pela glicólise anaeróbia em células sem mitocôndrias 
(eritrócitos), em células em condições de hipóxia e nas fibras musculares no 
exercício de alta intensidade. O lactato produzido nessas situações vai até o 
fígado para formar piruvato pela ação da enzima lactato desidrogenase (LDH). 
O piruvato forma glicose pela gliconeogênese. Essa glicose pode ser utilizada 
novamente no músculo pela via glicolítica, produzindo lactato, que pode ser 
reaproveitado na gliconeogênese. Esse ciclo glicose → lactato → glicose é 
chamado de ciclo de Cori. 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
23 
 
 
 
Tabela 2.2 - Substratos para gliconeogênese e suas principais características. 
 
 
 
Figura 2.3 - Gliconeogênese é a síntese de glicose a partir de compostos não 
carboidratos. Depois de algumas horas de jejum o glicogênio hepático reduz 
drasticamente e os níveis de insulina estão reduzidos, enquanto os de glucagon e 
cortisol estão aumentados. Nesse período, o fígado passa a sintetizar glicose a partir de 
outros compostos não carboidratos (aminoácidos, lactato e glicerol). A gliconeogênese 
acontece predominantemente no fígado, embora os rins também possam contribuir 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
24 
 
significativamente durante o jejum prolongado. A função da gliconeogênese é manter 
os níveis de glicose sanguínea estáveis durante o jejum, quando as reservas de 
glicogênio hepático estão baixas e não há consumo de carboidratos. 
 
 
2.6 METABOLISMO DE CARBOIDRATOS E PERDA DE PESO 
Durante o processo de perda de peso, é comumente observarmos a 
restrição de carboidratos pela alimentação como parte do déficit calórico. 
Algumas dietas da moda propõem a retirada quase completa dos carboidratos 
(Atkins, dieta Dukan), enquanto outras são mais conservadoras (dieta da zona, 
dieta South Beach). Essa premissa se baseia, principalmente, na liberação do 
hormônio insulina. Sabe-se que a restrição de calorias e de carboidratos pela 
dieta reduz os níveis de insulina, favorecendo uma redução da relação 
insulina/glucagon e, portanto, estimulando os processos de glicogenólise 
(quebra da molécula de glicogênio) e gliconeogênese (formação de glicose a 
partir de aminoácidos e glicerol). A glicogenólise e a gliconeogênese hepática 
objetivam manter as concentrações de glicose no sangue estáveis. 
A insulina é muitas vezes vista como vilã no processo de emagrecimento 
por pelo menos quatro mecanismos. O primeiro é devido a insulina inibir a lipólise 
(quebra dos triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol). A lipólise é o passo 
anterior a oxidação de ácidos graxos (utilização da gordura como fonte de 
energia). Para que a gordura seja eliminada do nosso organismo, é necessário 
ambos os processos (lipólise + oxidação), e esse é o principal motivo pelo qual 
a insulina é demonizada no processo de emagrecimento. Segundo, a insulina 
favorece a formação de gordura a partir do excesso de carboidratos (processo 
denominado de lipogênese de novo). Todavia, esse processo ocorre em 
decorrência do excesso calórico e a insulina está apenas exercendo o seu papel 
(imagine que você cometeu um crime e o papel do policial é de o prender. O 
culpado pela prisão é você e não o policial, o policial está apenas fazendo o seu 
trabalho). Terceiro, a insulina favorece a entrada de ácidos graxos nas células 
adiposas e é após a entrada dos ácidos graxos que ocorre a formação de 
triglicerídeos para armazenamento (ao contrário do que muitas pessoas 
acreditam, a entrada de ácidos graxos na célula adiposa e seu posterior 
armazenamento na forma de triglicerídeo é benéfico. A célula adiposa é propícia 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
25 
 
para armazenamento de triglicerídeos e se, porventura, os ácidos graxos não 
fossem captados por essas células, seriam captados e armazenados por outras 
células, como pelas células hepáticas, por exemplo), causando impactos 
indesejáveis ao metabolismo. Quarto, a insulina favorece a entrada de glicose 
na célula adiposa (os adipócitos apresentam GLUT-4, dependente de insulina), 
e uma vez na célula adiposa, a glicose pode formar glicerol-3-fosfato. O glicerol-
3-fosfato de junta com 3 moléculas de ácidos graxos (que também foram 
captados pelo estímulo da insulina) para formar os triglicerídeos. 
Nesse sentido, a restrição de calorias/carboidratos estimula a lipólise e a 
oxidação de ácidos graxos (queima de gordura). Considerando que a ingestão 
de carboidratos foi reduzida, o organismo passa a usar suas reservas de gordura 
como fonte energética (uma vez que a insulina reduzida favorece a lipólise e 
oxidação). No entanto, o organismo também pode utilizar as proteínas como 
fonte de energia, embora exista uma preferência pelo uso da gordura. A insulina 
é um hormônio anticatabólico, logo, uma grande redução do aporte calórico e da 
insulina favorece a degradação das proteínas musculares,aumentando o uso de 
aminoácidos para a síntese de glicose no fígado (gliconeogênese). Esse 
processo é favorecido pelo cortisol, que atua de forma antagônica à insulina, 
aumentando a degradação de proteínas e estimulando a gliconeogênese. 
Portanto, uma redução mais agressiva de calorias e de carboidratos acaba 
favorecendo não apenas perda de gordura corporal, mas também um aumento 
do catabolismo muscular. 
Dessa forma, a redução de calorias/carboidratos da dieta estimula 
processos catabólicos (glicogenólise, lipólise e proteólise) e inibe processos 
anabólicos (síntese de glicogênio, síntese de proteínas e síntese de ácidos 
graxos). Nessa condição, os níveis de insulina estão mais baixos, enquanto seus 
hormônios contrarreguladores estão aumentados, principalmente glucagon, 
adrenalina e cortisol. Apesar do GH ser um hormônio lipolítico e anabólico no 
tecido muscular, ele não é capaz de evitar a perda de massa muscular em dietas 
que restringem calorias e carboidratos de forma agressiva. Para atenuar o 
catabolismo proteico muscular em dietas que reduzem carboidratos, é comum 
aumentar o aporte de proteínas na dieta, sendo recomendado um consumo de 
até 2,0-3,0 g/kg em alguns estudos. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
26 
 
 
 
Figura 2.4 - Metabolismo durante o processo de restrição de carboidratos. 
 
2.7 DIETAS ALTAS EM CARBOIDRATOS CONTRIBUEM PARA 
O GANHO DE GORDURA CORPORAL? 
É comumente observarmos debates acerca da superioridade ou 
inferioridade de determinadas dietas para perda de peso e emagrecimento. Há 
quem defenda dietas com baixo teor de gorduras e alto teor de carboidratos 
(High Carb), enquanto há quem aponte a restrição de carboidratos (Low Carb) 
como sendo mais eficaz. A premissa por trás dessa última se baseia no modelo 
carboidrato-insulina da obesidade, a qual considera que um consumo elevado 
de carboidratos ocasiona uma maior liberação do hormônio insulina pelo 
pâncreas. Sabe-se que a insulina inibe a oxidação (queima) de gorduras e 
estimula a lipogênese (formação de gorduras). Portanto, torna-se intuitivo pensar 
que dietas Low Carb apresentam superioridade no processo de emagrecimento 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
27 
 
por causarem uma menor liberação de insulina e, consequentemente, 
aumentarem a oxidação de gorduras. Entretanto, será que apenas esse fato é 
suficiente para julgá-la mais ou menos eficaz? 
Primeiramente, precisamos entender que embora o carboidrato seja o 
principal macronutriente responsável por estimular a liberação de insulina, ele 
não é o único, as proteínas também podem apresentar potencial insulinogênico. 
Nesse sentido, foi avaliado as respostas pós-prandiais de insulina com porções 
de 240Kcal de 38 alimentos diferentes, ou seja, os níveis de insulina foram 
monitorados em todos os participantes após consumirem cada alimento 
isoladamente. Observou-se, por exemplo, que o peixe ou a carne vermelha 
causou uma maior liberação de insulina do que o macarrão branco. Por outro 
lado, a batata inglesa apresentou uma maior liberação de insulina quando 
comparada ao peixe ou a carne vermelha. Todavia, é necessário ter muita 
cautela ao analisar esses dados. Primeiramente, o estudo avaliou a ingestão de 
alimentos isoladamente e não dentro do contexto de uma refeição. Dificilmente 
alguém irá consumir apenas 240kcal de macarrão isoladamente, na prática 
consumimos uma refeição contendo, por exemplo, macarrão, carne, queijo e 
salada. O macarrão contém principalmente carboidratos, a carne, proteínas e 
gorduras e a salada, fibras. Dessa forma, tanto as fibras quanto as proteínas e 
as gorduras ocasionarão um retardo no esvaziamento gástrico e, 
consequentemente, uma liberação mais lenta dos alimentos digeridos para 
circulação, os quais podem impactar diretamente na velocidade de liberação de 
insulina. Além disso, os resultados apresentados são referentes a uma média 
dos 41 participantes, há quem apresente maior liberação de insulina do que outro 
participante consumindo o mesmo alimento e a mesma quantidade calórica. 
Logo, não há um consenso de “alimento X estimula mais a insulina do que 
alimento Y”, pois a liberação de insulina pode apresentar grande variabilidade 
individual e ser influenciada por diversos fatores, como por exemplo, pela 
composição da microbiota intestinal, visto que já há estudos mostrando que a 
depender da sua composição, alimentos iguais podem ocasionar respostas 
glicêmicas diferentes. 
Outro detalhe importante de mencionar é que o estudo avaliou os 
diferentes alimentos por seus teores de calorias, logo, 240Kcal de batata inglesa 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
28 
 
representa um volume muito maior do que 240Kcal de carne ou peixe, por 
exemplo. Portanto, torna-se pouco aplicável na prática clínica, visto que é 
improvável que ocorra o consumo isolado de alguns alimentos, como batata 
inglesa e macarrão, por exemplo. Logo, deve-se ter um olhar macroscópio e não 
apenas de um alimento específico. Apesar disso, o estudo é importante para 
desmitificar a teoria de que dietas Low Carb são superiores para o 
emagrecimento por estimularem menos a liberação de insulina (e se o seu 
paciente apresentar um potencial maior de liberar insulina consumindo peixe ao 
invés de macarrão? Essa teoria cai por terra). Dessa forma, podemos observar 
que não se pode punir os carboidratos pelo insucesso ao longo do processo de 
emagrecimento, considerando que essa teoria se baseia na maior liberação de 
insulina e que já foi mostrado que ela pode apresentar grande variabilidade 
individual. Todavia, torna-se importante conhecer alguns estudos que avaliaram 
dietas High Carb e emagrecimento. 
Foi publicado, em 2021, um artigo onde 20 participantes foram expostos 
a uma alimentação ad libitum, ou seja, sem colocar qualquer limite na ingestão 
calórica, entretanto, as duas dietas ofertadas apresentavam teores diferentes de 
carboidratos e lipídeos. A primeira apresentava 75% de carboidratos, 10% de 
lipídeos e 15% de proteínas (High Carb) e a segunda, 10% de carboidratos, 75% 
de lipídeos e 15% de proteínas (Low Carb). Todos os participantes foram 
expostos a ambas as dietas, sendo duas semanas de dieta Low Carb seguidas 
de duas semanas de High Carb e vice-versa, totalizando quatro semanas de 
estudo. É importante observar que os participantes permaneceram internados 
ao longo do estudo e todos os alimentos foram fornecidos. Os resultados 
mostraram que os participantes ingeriram uma quantidade menor de comida 
quando expostos a dieta rica em carboidratos, logo, apresentaram vantagens na 
redução da gordura corporal. Porém, quando os indivíduos ingeriram a dieta 
baixa em carboidratos, o peso corporal e a massa livre de gordura mostraram-
se menores em comparação a dieta alta em carboidratos. De fato, dietas baixas 
em carboidratos promovem uma maior perda de peso inicial, todavia, esse peso 
perdido não se refere apenas a gordura e, sim, a água corporal. Sabe-se que a 
cada grama de glicogênio armazenado, acumula-se juntamente 3ml de água. 
Dessa forma, quando se reduz o aporte de carboidratos pela alimentação, reduz-
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
29 
 
se também os estoques de glicogênio hepático e muscular e, portanto, a 
quantidade de água armazenada, a qual influencia diretamente o peso corporal. 
Da mesma forma, massa livre de gordura não reflete apenas massa magra, 
todos os componentes corporais que não são gordura, incluindo água, 
enquadram-se nessa categoria; e por esse motivo foi observado maior redução 
da massa livre de gordura com a dieta baixa em carboidratos. Logo, essas 
alterações são comuns em dietas restritas em carboidratos e a perda de peso 
inicial advinda da perda de água pode dar a falsa sensação de que se está 
perdendo gordura. Conforme já mencionado, os participantesexpostos a dieta 
High Carb apresentaram vantagem no emagrecimento. Esses resultados podem 
ser atribuídos a uma menor densidade energética e a um maior teor de fibras 
nos alimentos contendo carboidratos (compare 200kcal de batata inglesa com 
200kcal de nozes, o primeiro representa 385g do alimento, enquanto o segundo, 
32g, portanto, a batata inglesa irá apresentar um poder sacietogênico maior 
quando comparado as nozes). Em visto disso, se os carboidratos e a insulina 
realmente impedissem o emagrecimento, a dieta com 75% de carboidratos não 
obteria maior redução de gordura corporal quando comparada a dieta com 10% 
e, portanto, esse estudo contraria o modelo carboidrato-insulina da obesidade. 
Semelhantemente, foi publicado em 2009 um artigo na revista New 
England Journal of Medicine, onde 645 participantes obesos ou com sobrepeso 
foram separados em quatro grupos diferentes ao longo de 2 anos. O primeiro 
grupo recebeu uma dieta contendo 20% de gordura, 15% de proteína e 65% de 
carboidratos (baixo teor de gordura e médio de proteína). O segundo grupo 
recebeu uma dieta contendo 20% de gordura, 25% de proteína e 55% de 
carboidratos (baixo teor de gordura e alto teor de proteína). O terceiro recebeu 
uma dieta contendo 40% de gordura, 15% de proteína e 45% de carboidratos 
(alto teor de gordura e médio de proteína). E o quarto recebeu uma dieta 
contendo 40% de gordura, 25% de proteína e 35% de carboidratos (alto teor de 
gordura e alto teor de proteína). Logo, as dietas variaram entre 35 a 65% em 
seus teores de carboidratos e todas apresentavam um déficit calórico de 750kcal 
por dia. Todavia, os participantes receberam apenas orientações nutricionais e 
não houve internação, como descrito no estudo acima (imagine internar 645 
indivíduos ao longo de 2 anos? Seria inviável). Os resultados mostraram que o 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
30 
 
peso corporal não apresentou variações entre as dietas contendo 35%, 55% ou 
65% de carboidratos e ao final dos 2 anos de estudo, 31 a 37% dos participantes 
perderam pelo menos 5% do peso corporal inicial, 14 a 15% dos participantes 
em cada grupo de dieta perderam pelo menos 10% do peso inicial e 2 a 4% 
perderam 20 kg ou mais. Foi observado uma maior diminuição na concentração 
de lipoproteína de baixa densidade (LDL) com a dieta de baixo teor de gordura 
e alto teor de carboidrato. Dessa forma, embora nem todos os participantes 
tenham aderidos aos respectivos teores de macronutrientes prescritos, parece 
que dietas contendo teores maiores de carboidratos não são as responsáveis 
pela obesidade, caso contrário, os participantes apresentariam um aumento ou 
estagnação do peso corporal. 
Ainda, outro artigo foi publicado, em 2018, pela revista Journal of the 
American Medical Association (JAMA) comparou dietas Low Carb com dietas 
Low Fat em 609 participantes obesos ou com sobrepeso ao longo de 12 meses, 
e da mesma forma que o estudo anterior, os participantes apenas receberam 
orientações nutricionais. Prioridades mais altas foram dadas a alimentos 
específicos de acordo com a dieta, por exemplo, a redução de óleos, carnes 
gordurosas, laticínios integrais e nozes foi priorizada para o grupo Low Fat, 
enquanto a redução de cereais, grãos, arroz, vegetais ricos em amido e 
leguminosas foi priorizada para o grupo Low Carb. Os resultados mostraram que 
embora os participantes não tenham recebido orientações acerca de reduzirem 
a ingestão calórica, houve uma redução média de 500 a 600kcal por dia para 
ambos os grupos e a mudança média de peso ao final dos 12 meses foi de −5,3 
kg para o grupo Low Fat e −6,0 kg para o grupo Low Carb, porém, não foi 
observado diferença estatística. Entre os desfechos secundários, as variáveis 
clínicas que apresentaram diferenças significativas foram os resultados no perfil 
lipídico. Reduções nas concentrações de lipoproteína de baixa densidade (LDL) 
foram favorecidas com a dieta Low Fat, enquanto reduções nas concentrações 
de triglicerídeos, com a dieta Low Carb. Dessa forma, embora a perda de peso 
tenha sido semelhante entre os grupos, a variabilidade individual deve ser levada 
em consideração, visto que a composição dos macronutrientes da dieta pode 
impactar, por exemplo, no perfil lipídico e, portanto, sugere-se que nenhuma 
dieta deva ser recomendada universalmente. Os autores, ainda, concluem que 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
31 
 
ao invés de dar tanta ênfase para determinadas dietas, Low Carb ou High Carb, 
Low Fat ou High Fat, deve-se enfatizar a qualidade nutricional e a adesão do 
paciente, logo, deve-se priorizar boas fontes de gorduras e carboidratos e ter um 
consumo adequado de fibras, incluindo frutas e vegetais. 
Por último, em 2017 foi publicado outro artigo na revista The Lancet, onde 
307 chineses não obesos receberam dietas isocalóricas variando em seus teores 
de carboidratos e gorduras. A primeira dieta, High Carb e Low Fat, apresentou 
um teor de 66% de carboidratos, 20% de lipídeos e 14% de proteínas. A segunda 
dieta, com teor moderado de carboidratos e gorduras, apresentou 56% de 
carboidratos, 30% de lipídeos e 14% de proteínas; enquanto a terceira dieta, Low 
Carb e High Fat, apresentou um teor de 46% de carboidratos, 40% de lipídeos e 
14% de proteínas (reparem que embora a segunda dieta tenha sido classificada 
como Low Carb, o seu teor de carboidratos não foi muito baixo). Ao longo dos 6 
meses de intervenção, os participantes receberam todos os alimentos, logo, foi 
possível obter um controle maior do que os dois últimos estudos descritos acima. 
Os resultados mostraram que todos os participantes perderam peso, entretanto, 
foi observado, embora leve, maiores reduções no peso corporal e na 
circunferência da cintura no grupo que recebeu a dieta High Carb e Low Fat. 
Reparem que o estudo cita dieta isocalórica, então como é possível perda de 
peso se os participantes não estavam em déficit calórico? A perda de peso foi 
pequena, variando de 1 a 1,6 kg e isso certamente foi ocasionado por um leve 
déficit calórico devido a uma redução na ingestão calórica ao longo dos 6 meses, 
uma vez que apenas uma refeição por dia foi supervisionada. 
Portanto, com base nos artigos citados, o que irá determinar a eficácia na 
perda de peso e no emagrecimento será o déficit calórico, ou seja, você consumir 
menos calorias do que o seu corpo necessita (se falta energia, o corpo irá extrai-
la principalmente das gorduras estocadas no tecido adiposo). Logo, os estudos, 
de maneira geral, não mostram diferenças significativas entre dietas Low ou High 
Carb, considerando que haja déficit calórico envolvido e adesão. Embora dietas 
Low Carb possam promover uma maior perda peso inicial, devido a maior 
eliminação de água, essa diferença tende a de igualar no decorrer do tempo. Os 
carboidratos podem, inclusive, auxiliar no processo de emagrecimento, visto que 
muitos apresentam fibras e uma baixa densidade energética em sua 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
32 
 
composição, auxiliando no controle da fome e do apetite. Todavia, esse fato não 
indica que todas as dietas voltadas para o emagrecimento devam ser High Carb, 
uma vez que dietas Low Carb ou com teor médio de carboidratos podem 
trabalhar com uma grande margem de carboidratos, sendo possível encaixar 
diversos alimentos, como frutas, batata inglesa, pão, arroz, feijão etc. 
Embora de maneira geral os resultados sejam semelhantes entre a 
adoção de dietas High e Low Carb em déficit calórico, há estudos que mostram 
que adotar uma dieta contendo baixo teor de carboidratos e alto teor de fibras, 
proteínas e gorduras (a depender da composição) para indivíduos diabéticos ou 
pré-diabéticos pode ser interessante para o controle do peso corporal e do 
estado glicêmico. Cornier et al. (2005) observaram que mulheres obesas com 
resistência à insulinaperderam mais peso quando submetidas a uma dieta 
hipocalórica Low Carb e High Fat (40% de carboidratos, 40% de lipídeos e 20% 
de proteínas), enquanto a dieta hipocalórica High Carb e Low Fat (60% de 
carboidratos, 20% de lipídeos e 20% de proteínas) apresentou vantagens em 
mulheres sensíveis a insulina. Dessa forma, embora todas as participantes 
tenham perdido peso, a sua magnitude variou de acordo com o grau de 
sensibilidade à insulina. Todavia, não se deve ignorar o aspecto qualitativo da 
alimentação, visto que já se mostrou que uma dieta rica em leguminosas e fibras, 
contendo 60% de carboidratos, foi eficaz em melhorar o controle glicêmico em 
indivíduos diabéticos e o estudo de Cornier foi realizado com o número pequeno 
de mulheres (21) e por um período curto (16 semanas), portanto, deve-se ter 
cautela ao sair replicando seus resultados. 
Além disso, a distribuição dos macronutrientes e a qualidade da 
alimentação influenciam alguns parâmetros clínicos, como LDL, triglicerídeos, 
glicemia etc. Sabe-se que dietas baixas em gorduras saturadas e ricas em 
gorduras poli e monoinsaturadas são eficazes para reduzir os níveis de LDL; e 
dietas com teores reduzidos de carboidratos refinados são eficazes para diminuir 
os níveis de triglicerídeos e a glicemia. Logo, uma dieta específica não pode ser 
adotada da maneira universal e a avaliação individual torna-se imprescindível 
para determinar qual a melhor estratégia dietética a ser adotada, visto que 
algumas estratégias podem funcionar melhor para alguns pacientes do que para 
outros e vice-versa. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
33 
 
 
2.8 INSULINA E EMAGRECIMENTO 
É amplamente difundido o papel da insulina no emagrecimento, 
principalmente devido ao seu papel na inibição da lipólise. Todavia, além de já 
ter sido mostrado que a insulina não é a culpada pelo insucesso no 
emagrecimento, a Figura 2.5 mostra as diversas funções da insulina, além de 
inibir a lipólise. 
A insulina favorece o uso de glicose como fonte de energia (glicólise) pelo 
musculo esquelético e pelo tecido adiposo. Lembrem que esses tecidos 
apresentam GLUT-4, dependentes de insulina, responsáveis por captar a glicose 
sanguínea. Além disso, quando há grandes quantidades de glicose na corrente 
sanguínea, a insulina favorece a síntese de glicogênio pela ativação da enzima 
glicogênio sintase (responsável pela glicogênese) e pela inibição da glicogênio 
fosforilase (responsável pela glicogenólise). Nesse sentido, o glicogênio 
desempenha diversas funções importantes ao organismo. Sabe-se que o 
glicogênio armazenado no fígado é utilizado como reserva de energia nos 
períodos de jejum e que o cérebro precisa de glicose como fonte de energia, 
logo, o glicogênio hepático fornece parte dessa glicose nos períodos de jejum. 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
34 
 
Figura 2.5 – Efeitos fisiológicos da insulina. 
 
 
A insulina também contribui para o aumento da síntese de proteínas e 
para redução da degradação de proteínas musculares. Dessa forma, quando os 
níveis de insulina estão baixos, há aumento do catabolismo proteico, podendo 
ocorrer perda de massa muscular. 
A insulina, ainda, aumenta a captação de ácidos graxos pelos tecidos e a 
síntese de ácidos graxos a partir do excesso de carboidratos e proteínas 
(lipogênese). Esse efeito da insulina ocorre logo após as refeições e favorece o 
ganho de gordura quando o indivíduo está em superávit calórico. Apesar da 
lipogênese contribuir para o acúmulo de gordura, a insulina favorece o acúmulo 
de gordura principalmente através da inibição da lipólise e da oxidação de 
gordura. Esse fato ocorre porque a insulina inibe a enzima lipase hormônio 
sensível (LHS), responsável pela quebra dos triacilgliceróis em ácidos graxos e 
glicerol (lipólise). Além disso, CPT-1, responsável pelo transporte dos ácidos 
graxos para o interior das mitocôndrias a fim de serem oxidados também é 
inibida pela insulina. 
Dessa forma, quando os níveis de insulina estão aumentados, a oxidação 
de carboidratos é estimulada e a oxidação de gorduras é suprimida. A captação 
de ácidos graxos pelo tecido adiposo também é aumentada devido ao estímulo 
da insulina sob a enzima lipase lipoproteica (LL), responsável por hidrolisar os 
triglicerídeos presentes nos quilomícrons em ácidos graxos e glicerol para 
armazenamento. 
Por último, a insulina inibe a gliconeogênese e a cetogênese. A 
gliconeogênese ocorre principalmente em períodos de jejum, objetivando 
fornecer glicose a tecidos que a necessitam, como cérebro e hemácias. A 
insulina inibe esse processo porque a glicose está sendo ofertada pela 
alimentação e não há necessidade de sintetizá-la. A cetogênese fornece corpos 
cetônicos a partir do catabolismo de ácidos graxos, sendo responsáveis por 
fornecer energia aos tecidos, principalmente ao cérebro, quando a glicose não 
está presente ou quando ela não consegue entrar eficientemente nas células 
devido a resistência à insulina. Entretanto, quando se oferta carboidratos pela 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
35 
 
alimentação, não há sentido de continuar sintetizando-os, uma vez que a glicose 
supre a necessidade energética dos tecidos (excesso em indivíduos diabéticos). 
 
2.9 M ELHORA DE SENSIBILIDADE À INSULINA 
A sensibilidade à insulina se refere a eficiência do organismo em 
responder a esse hormônio. A insulina tem a função principal de aumentar a 
captação de glicose pelos tecidos, principalmente músculo e tecido adiposo. O 
transporte de glicose para dentro das células desses tecidos ocorre quando a 
insulina se liga no seu receptor na superfície da célula. Ao se ligar ao receptor, 
uma cascata de sinalização intracelular é ativada e a resposta é um aumento do 
deslocamento dos transportadores de glicose GLUT-4 do interior da célula para 
a sua superfície. Uma vez na superfície, o GLUT-4 transporta a glicose do 
sangue para o interior da célula (Figura 2.6). 
 
Figura 2.6 – Mecanismo de translocação de GLUT-4 para membrana plasmática das 
células. A insulina se liga ao seu receptor (IRS) e sinaliza uma cascata de sinalizações 
intracelulares, ocasionando a translocação do GLUT-4 para membrana plasmática. Uma 
vez na membrana plasmática, o GLUT-4 pode captar a glicose da circulação e a 
direcionar para dentro da célula, diminuindo a glicemia. 
Fonte: Thorn et al., 2013. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
36 
 
 
 
Após entrar nas células, a glicose sofre a ação da enzima hexoquinase. A 
hexoquinase é responsável por adicionar um grupo fosfato a molécula de glicose, 
formando glicose-6-fosfato. Esse processo é indispensável para que a molécula 
de glicose permaneça dentro da célula, uma vez que a maioria das células não 
apresentam transportadores para açúcares fosforilados na membrana 
plasmática. Portanto, após ser captada pelas células e fosforilada pela 
hexoquinase, a glicose-6-fosfato pode ser utilizada como fonte de energia, pode 
ser armazenada na forma de glicogênio, principalmente no fígado e no músculo 
esquelético, ou pode ser utilizada para síntese de gordura (o destino irá 
depender das necessidades do organismo naquele momento). 
Nesse sentido, a insulina favorece a translocação do GLUT-4 para a 
membrana plasmática, o qual capta a glicose da circulação e a direciona a 
tecidos sensíveis a ela (músculo e tecido adiposo). Logo, em indivíduos 
sensíveis à insulina, a utilização de carboidratos (glicose) como fonte energia se 
torna mais eficiente, em conjunto com um aumento na síntese de glicogênio 
muscular. Sabe-se que o carboidrato é o principal macronutriente a ser utilizado 
como fonte de energia em exercícios de alta intensidade e depleção dos 
estoques de glicogênio muscular pode ser uma das causas de fadiga periférica 
durante o exercício. Portanto, uma boa sensibilidade à insulinaapresenta 
diversos benefícios metabólicos, estéticos e performáticos. 
Além disso, a insulina inibe a lipólise. Embora muitas pessoas considerem 
esse fato indesejável, ele se torna um problema apenas em pessoas resistentes 
à insulina e não em pessoas sensíveis à insulina. Quando um indivíduo é 
sensível à insulina, há uma melhor flexibilidade metabólica, ou seja, os níveis 
elevados de insulina (após uma refeição) fazem com que o corpo queime 
carboidratos com eficiência (devido a maior captação de glicose pelas células) e 
quando os níveis de insulina estão reduzidos (jejum), há uma maior eficiência do 
corpo em queimar as gorduras estocadas no tecido adiposo. Portanto, a 
sensibilidade a insulina faz com que o corpo mude o substrato energético, de 
carboidrato no estado alimentado para gordura no estado de jejum, com 
eficiência. Na resistência à insulina, essa mudança de substrato energético não 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
37 
 
é realizada de forma eficiente, logo, o corpo apresenta dificuldade para queimar 
a gordura corporal no jejum e para utilizar o carboidrato ingerido como fonte de 
energia. 
Uma forma prática de detectar sinais para saber se você é sensível ou 
resistente à insulina é observar sua resposta a uma elevada ingestão de 
carboidratos. Um indivíduo sensível à insulina se sente com músculos cheios e 
bombeados após uma refeição rica em carboidratos, com níveis de energia 
estáveis. Além disso, indivíduos sensíveis à insulina apresentam percentual de 
gordura estável ou baixo (a depender da quantidade calórica) seguindo dietas 
altas em carboidratos. O indivíduo mais resistente à insulina se sente inchado, 
retido, pode ficar sonolento e com fome após uma refeição rica em carboidratos, 
e seu percentual de gordura tende a se elevar facilmente quando aumenta a 
ingestão de carboidratos na dieta. 
 
2.10 FLEXIBILIDADE METABÓLICA 
Conforme mencionado acima, uma boa sensibilidade à insulina está 
associada a uma boa flexibilidade metabólica. Quando o indivíduo é sensível à 
insulina, a captação de glicose pelas células ocorre de forma rápida e eficiente. 
Após a glicose ser captada pelas células, seus níveis plasmáticos reduzem, em 
conjunto com uma diminuição dos níveis de insulina (para que liberar mais 
insulina se a glicose já foi captada?). Considerando que a insulina inibe a queima 
de gordura, uma diminuição nos seus valores permite com que o corpo utilize as 
gorduras estocadas no tecido adiposo como fonte de energia no período de 
jejum. Portanto, um indivíduo com boa flexibilidade metabólica consegue oxidar 
rapidamente o carboidrato ingerido e pouco tempo depois oxidar a gordura 
estocada no tecido adiposo. 
Pessoas com resistência à insulina apresentam menor flexibilidade 
metabólica, pois a insulina não consegue sinalizar eficientemente a captação de 
glicose pelas células. Essa menor sinalização resulta em aumento nos níveis 
plasmáticos de glicose e de insulina (a insulina continua sendo liberada pois o 
corpo pensa “secretei insulina e a glicemia continua elevada? Vou secretar 
mais”). Portanto, um indivíduo com inflexibilidade metabólica apresenta 
dificuldade em oxidar o carboidrato ingerido e a gordura estocado no tecido 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
38 
 
adiposo, pois a insulina elevada inibe a utilização de gordura como fonte de 
energia. A Figura 2.7 ilustra as adaptações que ocorrem em alguém que 
apresenta uma boa flexibilidade metabólica. 
 
 
Figura 2.7 - Flexibilidade metabólica. Durante o sono, o músculo esquelético aumenta 
a oxidação de gorduras e diminui a oxidação de glicose, e sob condições pós-absortivas, 
aumenta a oxidação de carboidratos, em conjunto com aumento dos estoques de 
glicogênio, e diminui a oxidação de gorduras. O tecido adiposo, durante o sono, aumenta 
a lipólise e diminui os estoques de gordura, e após uma refeição, diminui lipólise e 
aumenta os estoques de gordura. Durante o exercício, o musculo aumenta a oxidação 
de carboidratos e de gordura como fonte de energia e o tecido adiposo aumenta a taxa 
de lipólise. 
Fonte: Goodpaster; Sparks, 2017. 
 
 
 A flexibilidade metabólica pode ser melhorada com exercício e com 
restrição calórica. Entretanto, existe um componente genético que mostra 
grande variabilidade na sensibilidade à insulina e na flexibilidade metabólica 
entre diferentes indivíduos. Indivíduos com maior flexibilidade metabólica oxidam 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
39 
 
gordura com mais facilidade e são mais resistentes ao ganho de gordura quando 
estão em superávit calórico. 
 
 
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Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
41 
 
 
3 
 LIPÍDEOS 
 
Os lipídeos constituem um conjunto heterogêneo de substâncias 
orgânicas insolúveis em água e solúveis em solventes orgânicos (clorofórmio, 
éter, acetona). São moléculas orgânicas formadas por carbono, hidrogênio e 
oxigênio, mas também podem conter fósforo, nitrogênioe enxofre. O grupo dos 
lipídeos é representado principalmente pelos triacilgliceróis, pelos fosfolipídeos 
e pelo colesterol. Os lipídeos constituem cerca de 34% das calorias da dieta dos 
seres humanos e estão presentes na dieta na forma de óleos (líquidos) e 
gorduras (sólidos), sendo que cada grama contém cerca de 9 kcal. 
Os lipídeos têm diversas funções no organismo. Os triacilgliceróis são 
uma importante reserva de energia para nosso corpo, sendo armazenados nas 
células de gordura (adipócitos) e também são a principal fonte de lipídio da dieta 
humana (cerca de 90%). Os fosfolipídeos são os principais constituintes das 
membranas celulares. O colesterol é um lipídio que também faz parte da 
membrana das células, sendo responsável pela fluidez da membrana. Ele 
também é um precursor da vitamina D e dos hormônios esteroides (testosterona, 
estrogênio, cortisol), além de ser constituinte da bile. 
Neste capítulo, será abordado o metabolismo de lipídeos e sua relação 
com o ganho e a perda de peso, portanto, iremos nos concentrar no metabolismo 
dos triacilgliceróis, que são os lipídeos que funcionam como reservas 
energéticas do nosso organismo. 
Os triacilgliceróis correspondem aos lipídeos que se encontram em maior 
proporção nos alimentos (~90-95%). Os triglicerídeos são formados por três 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
42 
 
moléculas de ácidos graxos ligadas a uma molécula de glicerol, conforme 
mostrado na Figura 3.1. 
 
Figura 3.1 – O triglicerídeo é uma molécula formada por um glicerol ligado a três ácido 
graxos, sendo a forma em que a gordura é armazenada nas células de gordura 
(adipócitos). 
 
Os ácidos graxos são importantes combustíveis energéticos, fornecendo 
a maioria das calorias provenientes das gorduras alimentares. Eles são ácidos 
carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas. Em outras palavras, apresentam 
uma grande cadeia de carbonos ligados a átomos de hidrogênio (cadeia 
hidrocarbonada), sendo que uma de suas extremidades apresenta um grupo 
carboxila (COOH), por esse motivo recebe o nome de ácido, e a outra 
extremidade apresenta um grupo metil (CH3). A cadeia carbônica, ou 
hidrocarbonada, pode apresentar ligações duplas ou simples entre os átomos de 
carbono e esse fato os classifica como ácido graxos saturados (apenas ligações 
simples) e ácidos graxos insaturados (uma ou mais ligações duplas entre os 
carbonos). Dentre os ácidos graxos insaturados, tem-se os ácidos graxos 
monoinsaturados e os poli-insaturados, sendo que o primeiro apresenta apenas 
uma ligação dupla e o segundo, duas ou mais. Na sequência iremos estudar o 
metabolismo dos triglicerídeos, bem como ocorre o processo de emagrecimento 
e ganho de gordura corporal. 
 
3.1 DIGESTÃO DOS LIPÍDEOS 
A digestão dos lipídeos começa na boca, com os processos de 
mastigação e salivação. A digestão dos triacilgliceróis de cadeia curta e média 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
43 
 
começa com a ação da lipase lingual, que continua sua atividade no estômago 
em conjunto com a ação da lipase gástrica. As lipases “ácidas” (lingual e 
gástrica) são estáveis no pH ácido do estômago (pH ~ 2) e são importantes 
principalmente para neonatos, já que o leite materno é rico em ácidos graxos de 
cadeia curta e média. 
A maior parte da digestão dos lipídeos acontece no intestino delgado, 
onde 70% dos triacilgliceróis são digeridos por meio da ação da lipase 
pancreática e dos sais biliares. No duodeno (primeira porção do intestino 
delgado) ocorre liberação do hormônio colecistocinina (CCK), que estimula a 
secreção de sais biliares pela vesícula biliar e a secreção da lipase pancreática 
pelo pâncreas. A secretina é outro hormônio liberado no duodeno e atua 
estimulando a secreção de bicarbonato pelo pâncreas, tornando o ambiente 
mais alcalino (pH ~ 8), permitindo a atividade das enzimas pancreáticas. 
Para que ocorra ação da lipase pancreática sobre os lipídeos, é 
necessária a emulsificação desses pelos sais biliares. A emulsificação aumenta 
a área da superfície das gotículas de lipídeos hidrofóbicos, facilitando a ação da 
lipase pancreática. O resultado desse processo é a degradação de triacilgliceróis 
em ácidos graxos livres e monoacilglicerol. 
A maior parte do colesterol na dieta está na forma livre. Os ésteres de 
colesterol são hidrolisados pela enzima colesterol esterase (hidrolase dos 
ésteres de colesterol), e os fosfolipídeos são digeridos pelas fosfolipases. 
Os ácidos graxos livres, os monoacilgliceróis e o colesterol são os 
principais produtos da digestão dos lipídeos e são absorvidos no jejuno (segunda 
porção do intestino delgado) em conjunto com as vitaminas lipossolúveis A, D, E 
e K. Os sais biliares são absorvidos no íleo (última porção do intestino delgado). 
No interior dos enterócitos (células do intestino), os ácidos graxos são 
reesterificados com os monoacilgliceróis, formando novamente triacilgliceróis. 
Em conjunto com o colesterol, as vitaminas lipossolúveis e os fosfolipídeos, os 
triacilgliceróis formam os quilomícrons, que são lipoproteínas que transportam 
os lipídeos da dieta para os tecidos (principalmente tecido adiposo) através dos 
vasos linfáticos. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
44 
 
Os triacilgliceróis de cadeia curta e média (TCM) são absorvidos 
diretamente pelo intestino e transportados pela albumina até o fígado através da 
veia porta, sendo absorvidos mais rapidamente que os trialcigliceróis de cadeia 
longa (TCL). 
 
 
Figura 3.2 – Digestão dos lipídeos dietéticos. 
 
3.2 LIPOGÊNESE DE NOVO E GANHO DE GORDURA 
Estudamos no tópico anterior como que os lipídeos são digeridos e 
absorvidos pelo corpo e agora iremos compreender como e quais são os passos 
necessários para que ocorra a sua síntese. Primeiramente, precisamos deixar 
claro que há duas formas principais em que os lipídeos são sintetizados. 
Primeiro, após uma refeição contendo lipídeos, os triglicerídeos contidos nos 
alimentos são depositados no tecido adiposo para armazenamento. Segundo, os 
triglicerídeos podem ser sintetizados endogenamente pelo fígado a partir do 
excesso de carboidratos e de proteínas, conforme será explicado. 
Nesse sentido, é comum observarmos afirmações acerca de carboidratos 
e ganho de gordura corporal. De fato, o excesso de carboidratos pode ser 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
45 
 
convertido em gordura, todavia, não é um processo simplista e automático, são 
necessárias algumas condições para que tal fato ocorra. A principal condição é 
o excesso de energia. Lembre-se, seu corpo é esperto! Se você ofertar uma 
grande quantidade de carboidratos e essa quantidade já tiver sido utilizada pelo 
seu organismo para geração de energia e para o reestabelecimento dos 
estoques de glicogênio, qual a razão de continuar oxidando-a? Pois é, não há 
razão e por conta disso seu corpo irá transformá-la em gordura (triglicerídeos) 
para armazenamento no tecido adiposo. Esse processo é chamado de 
lipogênese de novo e ocorre principalmente no fígado. Agora iremos entender 
em detalhes como ele ocorre. 
Sabe-se que o produto da glicólise são duas moléculas de piruvato. O 
piruvato entra na mitocôndria, onde é convertido em Acetil-CoA pelo complexo 
da piruvato desidrogenase (conjunto de três enzimas) e em oxalacetato pela 
enzima piruvato carboxilase. A união de Acetil-CoA com oxalacetato resulta na 
formação da molécula de citrato. Entretanto, quando há excesso de energia 
(ATP), a enzima isocitrato-desidrogenase é inibida, resultando em um acúmulo 
de citrato e isocitrato na mitocôndria. O citrato é direcionado ao citosol da célula, 
onde é convertido novamente em Acetil-CoA e em oxalacetato pela enzima 
citrato liase (essa rota é necessária porque o Acetil-CoA não pode atravessar 
diretamente a membrana mitocondrial). Dessa forma, o oxalacetato é convertidonovamente em piruvato, processo realizado pela enzima málica, resultando na 
formação de NADPH. Calma, já vamos entender onde que o NADPH irá entrar 
no processo de lipogênese de novo. O Acetil-CoA será transformado em malonil-
CoA pela ação da enzima acetil-CoA carboxilase. O malonil-CoA irá sofrer uma 
série de reações pela enzima ácido graxo sintase até resultar na molécula de 
ácido palmítico, um ácido graxo saturado de 16 carbonos. Entretanto, para que 
esse processo ocorra, é necessário que haja disponibilidade de NADPH, que é 
fornecido principalmente pela via das pentoses fosfato (glicose-6-fosfato é o 
substrato da via) e pela conversão de oxalacetato em piruvato, sendo o primeiro 
o maior contribuinte. Em seguida, o ácido palmítico pode ser convertido em 
triglicerídeo e para que essa reação ocorra é necessário a incorporação da 
molécula de glicerol-3-fosfato. O glicerol-3-fosfato pode ser fornecido tanto pela 
glicose quanto pela hidrólise dos triglicerídeos advindos da alimentação (a 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
46 
 
própria molécula de glicerol pode formar glicerol-3-fosfato). Dessa forma, após a 
molécula de glicerol-3-fosfato ser unida a três moléculas de ácidos graxos, tem-
se a formação da molécula de triglicerídeo, que é transportada do sangue aos 
tecidos, particularmente tecido adiposo, pela lipoproteína VLDL. 
Nesse sentido, imagine que você ingeriu uma grande quantidade de 
carboidratos e seu corpo já o utilizou para síntese de glicogênio e para geração 
de energia, logo, o excedente será utilizado para síntese de ácidos graxos 
(lipogênese de novo). Esse processo é regulado por duas enzimas principais, a 
acetil-Coa-carboxilase (ACC) e a ácido graxo-sintase (AGS). Na primeira etapa, 
a enzima ACC converte o acetil-Coa, formado por 2 carbonos, em malonil-Coa, 
um composto formado por 3 átomos de carbono. O malonil-Coa, por sua vez, é 
o principal substrato utilizado para sintetizar ácidos graxos pela ação da enzima 
AGS, que por meio de diversas reações forma o ácido palmítico, um ácido graxo 
saturado com 16 átomos de carbono. Em seguida, o glicerol-3-fosfato, fornecido 
pela glicose ou pela quebra dos triglicerídeos da dieta, une-se ao ácido palmítico, 
formando o triglicerídeo. 
Além disso, a partir da formação do ácido palmítico é possível formar 
outros ácidos graxos de cadeia mais longa, incluindo ácidos graxos 
monoinsaturados, como o ácido oleico (ômega 9). No entanto, ácidos graxos 
poli-insaturados (ômega 3 e 6) não podem ser sintetizados pelo nosso 
organismo, pois não possuímos enzimas capazes de inserir ligações duplas a 
partir do carbono 10. 
Os triacilgliceróis transportados pelas VLDL sofrem ação da enzima lipase 
lipoproteica, responsável por quebrá-los em ácidos graxos e glicerol, sendo 
reesterificados no tecido adiposo para armazenamento. Lembrem que os ácidos 
graxos obtidos pela alimentação são transportados por outro tipo de lipoproteína, 
os quilomícrons. 
A lipogênese de novo, embora menos favorecida, também pode ocorrer 
por meio do excesso de proteínas, e embora os carboidratos e proteínas possam 
ser utilizados para síntese de ácidos graxos e triacilgliceróis, o acúmulo de 
gordura não ocorre diretamente por um aumento da lipogênese, e sim pelo efeito 
poupador de gordura dos carboidratos. Dessa forma, com o aumento do 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
47 
 
consumo de carboidratos na dieta, ocorre também um aumento da oxidação de 
glicose pelo organismo. O aumento dos níveis de glicose e insulina favorece a 
oxidação de glicose e inibe a lipólise e a oxidação de gordura, ou seja, um maior 
consumo de carboidratos diminui a mobilização e oxidação de gordura, 
favorecendo seu armazenamento no tecido adiposo, uma vez que a gordura 
consumida é direcionada para os adipócitos. 
 
 
Figura 3.3 – Lipogênese de novo. O excesso de carboidratos da dieta gera uma grande 
quantidade de acetil-CoA, sendo parte usado como fonte de energia e o excedente 
usado para a síntese de ácidos graxos. A enzima ACC converte o acetil-CoA em malonil-
CoA. O malonil-CoA, por sua vez, é o principal substrato utilizado para sintetizar ácidos 
graxos pela enzima AGS, formando ácido palmítico (ácido graxo saturado). Dessa 
forma, os ácidos graxos sintetizados no fígado se ligam a molécula de glicerol (glicerol-
3-fosfato), que pode ser formado a partir da glicose, da quebra de triglicerídeos do tecido 
adiposo ou pela alimentação. Os triglicerídeos sintetizados (3 ácidos graxos + glicerol) 
são transportados até o tecido adiposo, principalmente, por lipoproteínas de densidade 
muito baixa (VLDL). As VLDL sofrem ação da enzima lipase lipoproteica (LL), 
estimulada pela insulina, localizada na parede dos capilares. A lipase lipoproteica 
quebra os triacilgliceróis em ácidos graxos e glicerol, sendo reesterificados nos 
adipócitos e armazenados como triacilgliceróis. A insulina, ainda, inibe a enzima lipase 
hormônio sensível (LHS), responsável por hidrolisar os triglicerídeos armazenados no 
tecido adiposo em ácidos graxos e glicerol, evitando que a quebra ocorra 
concomitantemente a síntese. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
48 
 
3.3 LIPÓLISE E OXIDAÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS 
Estudamos no tópico anterior como que o excesso de energia advindo, 
principalmente, dos carboidratos pode ser convertido em gordura. Neste tópico 
será explicado o oposto, ou seja, como que a gordura armazenada é eliminada 
do organismo. 
Primeiramente, precisamos entender em quais situações e por quais 
motivos os estoques de gorduras são mobilizados. Conforme já visto, as 
gorduras corporais são armazenadas principalmente nos adipócitos na forma de 
triglicerídeos (3 ácidos graxos + 1 glicerol). Os ácidos graxos são os principais 
combustíveis energéticos em períodos de jejum para o músculo cardíaco, o 
músculo esquelético e para o fígado (o fígado os converte em corpos cetônicos, 
os quais servem de combustíveis energéticos para outros tecidos). Dessa forma, 
a quebra dos triglicerídeos, estocados no tecido adiposo, objetiva fornecer 
energia nos períodos de jejum. Por exemplo, imagine que você esteja a 24h sem 
se alimentar e seus estoques de glicogênio hepático foram esgotados. Seu corpo 
precisará mobilizar os estoques de gordura a fim de obter energia a partir dos 
ácidos graxos e sintetizar glicose a partir do glicerol. 
Nesse sentido, os triglicerídeos armazenados nos adipócitos são 
mobilizados somente após hormônios específicos (cortisol, glucagon, 
adrenalina, GH) sinalizarem a necessidade de energia. A adrenalina e o 
glucagon, por exemplo, são secretados quando os níveis de glicose estão baixos 
ou ao longo de atividades físicas intensas. Esses hormônios estimulam uma 
enzima chamada de adenilil-ciclase na membrana plasmática dos adipócitos, 
que produz, intracelularmente, o AMP cíclico (AMPc). Esse último, por sua vez, 
ativa a proteína-cinase dependente de AMPc, a PKA, permitindo a ativação da 
enzima lipase hormônio sensível (HSL), responsável por hidrolisar (quebrar) os 
triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol (Figura 3.4). 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
49 
 
Figura 3.4 - Mobilização dos triacilgliceróis armazenados no tecido adiposo. Quando os 
níveis de glicose reduzem, há aumento na secreção de glucagon. O glucagon se liga no 
seu receptor presenta na membrana plasmática dos adipócitos e estimula a enzima 
adenilato-ciclase, produzindo intracelularmente, o AMP cíclico (cAMP). O cAMP ativa 
PKA, que ativa a enzima lipase hormônio sensível (HSL). A HSL permite a hidrólise dos 
triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol. Os ácidos graxos são transportados no 
sangue pela albumina e podem ser utilizados como fonte de energia em outros tecidos 
e o glicerol pode ser utilizado para síntese de glicose (NELSON, 2018). 
 
Após a hidrólise, os ácidos graxos são transportadosdo tecido adiposo ao 
sangue pela proteína albumina e do sangue aos tecidos (lembrem que os ácidos 
graxos são insolúveis, logo, não podem circular livremente pela circulação). Ao 
chegarem nos tecidos (exceto cérebro e eritrócitos), os ácidos graxos são 
oxidados na mitocôndria das células para geração de energia. O glicerol, por 
outro lado, é transportado ao fígado para sofrer a ação da enzima glicerol-cinase, 
formando glicerol-3-fosfato, que poderá ser transformado em glicose 
(gliconeogênese), oxidado para geração de energia ou reesterificado com os 
ácidos graxos para formar novamente triglicerídeo. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
50 
 
Esse processo de quebra das moléculas de triacilgliceróis estocadas no 
tecido adiposo pela enzima HSL é chamado de lipólise. Há diversos suplementos 
termogênicos que promovem maior lipólise, entretanto, sabe-se que seus efeitos 
no emagrecimento são praticamente nulos, uma vez que além de aumentarem 
o gasto calórico de maneira irrisória, a lipólise isoladamente não garante maior 
oxidação, ou seja, os ácidos graxos que foram mobilizados podem retornar ao 
tecido adiposo para serem convertidos novamente em triglicerídeos e estocados. 
Dessa forma, para que ocorra de fato a sua eliminação, os ácidos graxos 
precisam entrar na mitocôndria das células a fim de serem oxidados no ciclo de 
Krebs e subsequentemente na cadeia respiratória. Logo, os termogênicos não 
promovem maior oxidação e sim maior lipólise, processo que a depender do 
indivíduo, pode ser até mesmo prejudicial, como por exemplo, em pacientes 
obesos, uma vez que eles já apresentam uma alta taxa de lipólise. Agora vamos 
entender em maiores detalhes quais são os passos necessários para que o ácido 
graxo seja mobilizado (lipólise) e oxidado. 
 
3.3.1 LIPÓLISE 
Conforme mencionado, os triglicerídeos são mobilizados do tecido 
adiposo após hormônios específicos sinalizarem a necessidade de energia, 
gerando ácidos graxos e glicerol. Os ácidos graxos são transportados no sangue 
pela albumina, que os leva até os tecidos que possuem mitocôndria, pois os 
ácidos graxos só podem ser oxidados no interior das mitocôndrias (ao contrário 
da glicose, que pode ser oxidada no citoplasma da célula pela glicólise 
anaeróbica). Considerando que os eritrócitos não possuem mitocôndria, eles 
dependem unicamente de glicose e são incapazes de utilizar ácidos graxos. 
Dessa forma, após os ácidos graxos chegarem aos tecidos, eles são 
direcionados para o interior das mitocôndrias, pois as enzimas necessárias para 
oxidá-los estão localizadas na matriz mitocondrial. Conforme mostrado na Figura 
3.5, a mitocôndria apresenta duas membranas, a interna e a externa. Portanto, 
os ácidos graxos precisam atravessar ambas para serem oxidados na matriz. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
51 
 
 
Figura 3.5 – Mitocôndria. 
 
Nesse sentido, para que os ácidos graxos sejam direcionados ao interior 
das mitocôndrias, alguns passos são necessários. Os ácidos graxos com 12 
carbonos ou menos entram diretamente na mitocôndria, ou seja, não precisam 
da ajuda de transportadores de membrana. Entretanto, os com 14 carbonos ou 
mais, que constituem a maioria dos ácidos graxos obtidos pela alimentação ou 
liberados pelo tecido adiposo, não conseguem atravessar diretamente a 
membrana e precisam da ajuda de transportadores (carnitina). Todavia, há 
passos que devem ser realizados para que esses transportadores reconheçam 
os ácidos graxos (imagine que você irá visitar algum parente no hospital e 
precisa do crachá de identificação para entrar). 
Primeiramente, o ácido graxo precisa se ligar a uma molécula de CoA 
para produzir o acil-CoA graxo, reação catalisada pela enzima acil-CoA graxo-
sintetase que ocorre no citosol das células. A molécula de acil-CoA graxo, agora, 
pode ser reconhecida pela carnitina e ser transportada para dentro da 
mitocôndria. Nesse sentido, a carnitina, encontrada na membrana externa da 
mitocôndria, irá se ligar ao ácido graxo e formar o acil-carnitina. Essa reação é 
realizada pela enzima carnitina-acil-transferase I (CPT1), na membrana externa, 
e ocorre apenas depois do grupo CoA ser retirado no ácido graxo (sim, o grupo 
CoA é adicionado ao ácido graxo apenas para poder ser reconhecido pela 
carnitina, sendo eliminado e reciclado para o próximo ácido graxo que participar 
da reação). Dessa forma, a carnitina, juntamente com o ácido graxo, é 
direcionada a matriz mitocondrial. Uma vez na matriz, a enzima carnitina-acil-
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
52 
 
transferase 2 (CPT2) irá separar o ácido graxo da carnitina. A carnitina retorna a 
membrana externa para buscar outro ácido graxo e o ácido graxo gerado na 
matriz é unido a uma outra molécula de CoA, formando novamente o acil-CoA 
graxo, que estará pronto para sofrer o processo de β-oxidação e produzir ATP, 
conforme será explicado na sequência (Figura 3.6). 
Portanto, a lipólise trata-se da hidrólise (quebra) dos triglicerídeos em 
ácidos graxos e glicerol pela enzima lipase hormônio sensível (LHS). Os ácidos 
graxos são transportados no sangue pela albumina, chegando aos tecidos. Nos 
tecidos, eles são oxidados para geração de energia ou são utilizados para 
produção de corpos cetônicos (fígado). A HSL apresenta sua atividade inibida 
pela insulina e estimulada pelos hormônios contrarreguladores da insulina 
(glucagon, GH, cortisol e adrenalina). Logo, após uma refeição contendo 
principalmente carboidratos, os níveis de insulina estão elevados, impedindo a 
lipólise. 
Por fim, o glicerol irá tomar outro destino, diferente do ácido graxo, sendo 
transportado ao sangue e do sangue ao fígado. Uma vez no fígado, ele será 
transformado em glicerol-3-fosfato pela enzima glicerol-cinase (enzima presente 
no fígado e no rim), que por sua vez poderá ser transformado em di-
hidroxiacetona-fosfato e gliceraldeído-3-fosfato. Essas duas últimas moléculas 
são intermediários da via glicolítica, logo, podem tomar dois destinos: 1) 
oxidação pela glicólise; 2) formação de glicose (gliconeogênese). Além disso, o 
glicerol-3-fostato pode ser reesterificado com o ácido graxo, formando 
novamente triglicerídeos. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
53 
 
 
Figura 3.6 – Lipólise. TG (triglicerídeo); AG (ácido graxo); LHS: lipase hormônio 
sensível. O glucagon, por exemplo, se liga ao seu receptor na membrana plasmática 
das células adiposas e ativa a enzima adenilil-ciclase, que produz cAMP. Esse último 
ativa a PKA, responsável por ativar HSL e, consequentemente, hidrolisar os 
triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol. O ácido graxo é transportado ao sangue pela 
albumina, que os entrega aos tecidos. Chegando ao tecido muscular, por exemplo, o 
ácido graxo é transformado na molécula de acil-CoA graxo a fim de ser reconhecida 
pela carnitina, seu transportador. Dessa forma, após o acil-CoA graxo perder seu 
grupamento CoA, ele é unido a molécula de carnitina, formando a acil-carnitina e sendo 
transportado a matriz mitocondrial. Uma vez na matriz, a carnitina retorna a membrana 
mitocondrial externa para buscar o próximo ácido graxo e o ácido graxo gerado na matriz 
é unido a uma outra molécula de CoA, gerando novamente o acil-CoA graxo, que estará 
pronto para sofrer o processo de β-oxidação e gerar ATP. O glicerol, por outro lado, é 
direcionado ao fígado para sofrer a ação da enzima glicerol-cinase, gerando glicerol-3-
fosfato, que pode ser oxidado na glicólise (energia), participar da gliconeogênese ou 
formar novamente triglicerídeo. 
 
 
3.3.2 OXIDAÇÃO 
Conforme já estudado, a maioria dos ácidos graxos precisam de 
transportadores para entrarem na mitocôndria. Nesse sentido, após entrarem na 
matriz mitocondrial, os ácidos graxos sofrerão o processo de ß oxidação, que é 
a eliminação dos ácidos graxos pelo organismo na forma de CO2.A ß oxidação 
compreende três etapas. Para entender esses passos, precisamos, 
primeiramente, relembrar que o ácido graxo apresenta vários átomos de carbono 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
54 
 
em sua composição e, dessa forma, eles precisam ser hidrolisados antes de 
serem oxidados no ciclo de Krebs e na cadeia respiratória. O ácido palmítico, por 
exemplo, é um ácido graxo saturado de cadeia longa (16 carbonos) e para que 
seja oxidado necessita passar pelas 3 reações explicadas a seguir. 
Primeiro, considerando que o ácido graxo é uma molécula grande e não 
pode ser oxidado diretamente, torna-se necessário transformá-lo em várias 
moléculas menores. Nesse sentido, há quatro enzimas presentes na matriz 
mitocondrial que irão realizar remoções gradativas de fragmentos de dois 
carbonos dos ácidos graxos a fim de formarem o acetil-CoA. Dessa forma, oito 
moléculas de acetil-CoA são formadas após a hidrólise do ácido palmítico (16/2 
= 8). Lembrem que o acetil-CoA apresenta 2 átomos carbonos em sua estrutura 
e é o produto de todos os macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídeos), 
uma vez que inicia o ciclo de Krebs. Em seguida, na segunda etapa, o acetil-CoA 
é oxidado no ciclo de Krebs e resulta na formação de ATP, CO2, NADH e FADH2, 
sendo que os dois últimos doam seus elétrons para a cadeia respiratória, 
produzindo ATP e água, completando a terceira etapa da ß oxidação. Portanto, 
os lipídeos são eliminados do nosso organismo após sofrerem o processo 
completo de ß oxidação, resultando na produção de CO2, que será eliminado 
pelos pulmões, ATP (energia) e água (Figura 3.7). 
Vamos exemplificar e resumir o que foi recém foi explicado. Supondo que 
você esteja a 24h sem se alimentar e seu corpo necessite mobilizar as gorduras 
estocadas no tecido adiposo para geração de energia. Nesse sentido, hormônios 
específicos irão sinalizar a necessidade de energia e ativar a enzima HSL, 
responsável por hidrolisar os triacilgliceróis em ácidos graxos e glicerol. Os 
ácidos graxos, então, são transportados aos tecidos para sofrerem o processo 
de ß oxidação (queima da gordura), que ocorre na mitocôndria. Dessa forma, 
após entrarem nas células, os ácidos graxos são convertidos no citosol em acil-
CoA graxo e para entrar no interior da mitocôndria (matriz), o acil-CoA precisa 
ser transportado pela carnitina. Uma vez na matriz, o ácido graxo sofre o 
processo de ß-oxidação, que é a remoção gradativa de fragmentos de dois 
carbonos, produzindo acetil-CoA. O acetil-CoA é um intermediário comum do 
metabolismo de carboidratos, lipídeos e proteínas, ou seja, todas essas 
macromoléculas precisam ser degradadas até acetil-CoA para serem oxidadas 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
55 
 
no ciclo de Krebs a fim de produzirem ATP, CO2, NADH e FADH2. As moléculas 
NADH e FADH2 são coenzimas responsáveis por carregar os elétrons gerados 
na oxidação para a cadeia respiratória, produzindo ATP e água. O glicerol, por 
outro lado, é transportado ao fígado para formar glicerol-3-fosfato, o qual pode 
ser convertido em glicose, energia ou novamente em triglicerídeos. 
 
 
Figura 3.7 – Oxidação de ácidos graxos. Todos os três passos ocorrem na matriz 
mitocondrial. 
 
Os processos descritos ocorrem na seguinte ordem: 
 
LIPÓLISE → β-OXIDAÇÃO → CICLO DE KREBS → CADEIA RESPIRATÓRIA 
 
3.4 FORMAÇÃO DE CORPOS CETÔNICOS E DIETA 
CETOGÊNICA 
Você certamente já ouviu falar sobre corpos cetônicos ou dieta 
cetogênica, visto que muitas pessoas a utilizam visando, principalmente, 
potencializar seus resultados ao longo do processo de emagrecimento. Nesse 
sentido, este tópico irá explicar quando e como ocorre a produção de corpos 
cetônicos pelo organismo e se, de fato, a dieta cetônica apresenta vantagens 
sobre o emagrecimento. 
Conforme já estudado neste capítulo, o acetil-CoA formado durante a 
oxidação dos ácidos graxos é direcionado ao ciclo de Krebs e subsequentemente 
a cadeia respiratória. Entretanto, há outro destino que o acetil-CoA pode tomar, 
que é sua conversão a corpos cetônicos no interior dos hepatócitos. Os corpos 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
56 
 
cetônicos são representados por três compostos, acetona, acetoacetato e β-
hidroxibutirato, o primeiro é exalado (hálito cetônico) e os dois últimos são 
transportados pelo sangue para os tecidos extra-hepáticos a fim de gerarem 
energia. Dessa forma, vamos entender melhor como esse processo ocorre. 
Quando ficamos muitas horas em jejum, os níveis de insulina reduzem 
significativamente, juntamente com os estoques de glicogênio hepático. Com 
isso, a degradação dos triglicerídeos (lipólise) do tecido adiposo aumenta de 
forma muito expressiva devido a redução da razão insulina/glucagon. Dessa 
forma, a degradação dos triglicerídeos gera uma grande quantidade de ácidos 
graxos na corrente sanguínea, os quais são transportados pela albumina até os 
tecidos que necessitam de energia e na mitocôndria desses tecidos eles sofrem 
o processo de β-oxidação, produzindo uma grande quantidade de aceti-CoA. 
No fígado, em particular, ocorre um grande acúmulo de acetil-CoA, pois a 
quantidade de oxalacetato, necessária para oxidar o acetil-CoA no ciclo de Krebs 
é insuficiente (o ciclo de Krebs somente se inicia após o oxalacetato se unir com 
o acetil-CoA, formando o citrato. Portanto, é necessário que haja disponibilidade 
suficiente de oxalacetato para que o ciclo de Krebs ocorra e a insuficiência desse 
substrato limita o decorrer do processo). Esse fato ocorre porque durante o jejum 
o oxalacetato, oriundo do metabolismo de aminoácidos, é direcionado para a 
gliconeogênese (os aminoácidos podem gerar oxalacetato após perderem seu 
grupamento α-amina). O oxaloacetato é produzido tanto pelo metabolismo de 
carboidratos quanto pelo metabolismo de proteínas. Com a redução dos 
carboidratos da dieta, a quantidade de oxaloacetato fica limitada, pois a maior 
parte é direcionada para a gliconeogênese. A limitação da disponibilidade de 
oxaloacetato gera um acúmulo de acetil-CoA, que não pode ser oxidado no ciclo 
de Krebs. Dessa forma, as moléculas de acetil-CoA se condensam, dando 
origem aos corpos cetônicos. Esse processo é conhecido como cetogênese e 
ocorre da seguinte forma: 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
57 
 
 
Figura 3.8 – Produção de corpos cetônicos no fígado. A primeira etapa na formação do 
acetoacetil-CoA é a união de duas moléculas de acetil-CoA. O acetoacetil-CoA é unido 
a uma outra molécula de acetil-CoA e forma o HMG-CoA, que por sua vez é quebrado 
acetoacetato e acetil-CoA. O acetoacetato é convertido em acetona e β-hidroxibutirato. 
 
Dessa forma, os corpos cetônicos formados no fígado durante o jejum são 
o acetoacetato, o β-hidroxibutirato e a acetona (Figura 3.8). Os dois primeiros 
podem ser utilizados como combustível energético pelos tecidos periféricos, 
principalmente pelo músculo esquelético e cardíaco. A acetona não é 
metabolizável e é eliminada pela respiração, produzindo um odor característico 
(hálito cetônico). O cérebro também pode usar os corpos cetônicos como fonte 
de energia, principalmente durante o jejum prolongado ou em dietas muito 
restritivas em carboidratos (o encéfalo usa preferencialmente glicose como fonte 
energética, porém, consegue se adaptar ao uso de acetoacetato e β-
hidroxibutirato em condições de jejum prolongado, quando a glicose não está 
disponível). Percebam que os corpos cetônicos são metabolizados apenas em 
tecidos extra-hepáticos, esse fato ocorre porque o fígado não apresenta a 
enzima β-cetoacil-CoA-transferase, necessária para o catabolismo dos corpos 
cetônicos. Logo, o fígado é apenas um produtor e não um consumidor de corpos 
cetônicos. A Figura 3.9 ilustra o catabolismo dos corpos cetônicos, reparem que 
o produto é a molécula de acetil-CoA, que sofreráoxidação no ciclo de Krebs 
(lembrem que o ciclo de Krebs ocorre na mitocôndria e por esse motivo tecidos 
sem mitocôndria não são capazes de utilizar corpos cetônicos para geração de 
energia, como é o caso dos eritrócitos). 
 
Figura 3.9 – Oxidação dos corpos cetônicos em tecidos extra-hepáticos. O β-
hidroxibutirato é oxidado a acetoacetato. Esse último é convertido em acetoacetil-CoA 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
58 
 
pela enzima β-cetoacil-CoA-transferase, ausente no fígado, gerando duas moléculas de 
acetil-CoA, que entram no ciclo de Krebs. Dessa forma, os corpos cetônicos são usados 
como combustíveis energéticos em tecidos extra-hepáticos. 
 
 
Você certamente já ouviu falar que os corpos cetônicos inibem o 
catabolismo muscular. Esse fato ocorre porque com a grande produção de 
corpos cetônicos, o cérebro passa a necessitar menos de glicose, diminuindo a 
gliconeogênese e minimizando a degradação de proteínas musculares. Lembre-
se que a função da gliconeogênese é produzir glicose utilizando aminoácidos, 
glicerol e lactato, quando os estoques de glicogênio são limitados. 
 
 
Figura 3.10 - Formação dos corpos cetônicos com a dieta cetogênica. Com a redução 
de calorias e de carboidratos na dieta, ocorre aumento da lipólise (degradação do 
triacilglicerol em 3 ácidos graxos e glicerol) no tecido adiposo (1). O glicerol entra na 
corrente sanguínea e vai até o fígado participar da gliconeogênese, enquanto os ácidos 
graxos são transportados pela albumina até a mitocôndria das células que precisam de 
energia (2). A redução de carboidratos diminui a disponibilidade de oxalacetato, 
proveniente da degradação da glicose (3) e o oxalacetato gerado pelo catabolismo dos 
aminoácidos é direcionado a gliconeogênese. Dessa forma, quando a disponibilidade 
de oxalacetato é baixa (4), o acetil-Coa proveniente da oxidação dos ácidos graxos se 
acumula na mitocôndria das células hepáticas e dá origem aos corpos cetônicos, 
processo conhecido como cetogênese (5). 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
59 
 
 
 
 
A dieta cetogênica se tornou popular nos anos 70 com a famosa “Dieta do 
Dr. Atkins”, que tinha a pretensão de ser uma solução simples para o problema 
da obesidade. No entanto, essa dieta já era conhecida desde os anos 20 pelos 
seus potenciais efeitos no tratamento da epilepsia. 
Na dieta cetogênica, os carboidratos são limitados a um consumo mínimo 
de aproximadamente 50 g por dia, enquanto o consumo de gorduras é elevado. 
Uma dieta cetogênica padrão tem 60-80% das calorias provenientes de 
gorduras, 20-30% de calorias de proteínas e apenas 5-10% de calorias 
provenientes de carboidratos. 
A dieta cetogênica é muito utilizada em estratégias de emagrecimento, 
pois muitas pessoas acreditam que ela pode promover uma “vantagem 
metabólica”, levando a uma maior perda de peso/gordura do que uma dieta 
hipocalórica com mais carboidratos. No entanto, não existem evidências 
consistentes que entrar em cetose (dieta cetogênica) seja superior para perda 
de gordura do que simplesmente seguir uma dieta low carb sem entrar em 
cetose. Além disso, muitos indivíduos nem chegam a entrar em cetose, devido a 
um consumo mais elevado de proteínas. 
 
3.4.1 POR QUE A CETOSE NÃO OTIMIZA A PERDA DE 
GORDURA? 
Quando o indivíduo fica sem se alimentar (jejum), a cetogênese prolonga 
a sobrevivência por reduzir a necessidade de glicose pelo organismo, atenuando 
o catabolismo de proteínas musculares. Se a cetogênese intensificasse a perda 
de gordura, isso reduziria o tempo de vida do indivíduo já que esgotaria mais 
rapidamente suas reservas energéticas. Ao invés disso, ela é uma adaptação 
eficiente do organismo para poupar o catabolismo intenso de proteínas quando 
o indivíduo fica sem alimento ou sem carboidratos. Se o indivíduo tem muita 
massa muscular, o organismo não vai se preocupar em poupá-la em dietas muito 
restritas em carboidratos, já que se gasta mais energia para manter os músculos. 
Indivíduos com mais gordura corporal, poupam mais massa muscular, pois o 
aumento da lipólise nesses indivíduos intensifica a liberação de glicerol, que 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
60 
 
pode ser utilizado na gliconeogênese e, consequentemente, diminui o uso de 
aminoácidos provenientes da quebra de proteína muscular para essa finalidade. 
A cetogênese é um processo de adaptação ao jejum prolongado e à 
restrição extrema de carboidratos. A maioria dos tecidos do organismo consegue 
utilizar carboidratos, gorduras e proteínas como fonte de energia, sendo os dois 
primeiros os principais combustíveis energéticos. Conforme já estudado, alguns 
tecidos são dependentes de glicose como fonte de energia (cérebro, hemácias, 
medula adrenal). O cérebro utiliza cerca de 120 g por dia de glicose, mas no 
jejum prolongado e na restrição extrema de carboidratos ele pode utilizar corpos 
cetônicos como principal substrato energético (até 75% da energia do SNC pode 
ser fornecida pelos corpos cetônicos). 
Com a restrição de carboidratos, o corpo precisa produzir glicose por 
conta própria e isso é feito por meio da gliconeogênese, que acontece no fígado 
e nos rins. Os aminoácidos são provenientes, principalmente, da degradação 
proteica muscular estimulada pelo cortisol, e o glicerol é proveniente da lipólise 
do tecido adiposo, mas os aminoácidos (alanina, glutamina) são os principais 
substratos para a gliconeogênese. Portanto, se a gliconeogênese permanecesse 
elevada por muitos dias, o catabolismo muscular seria intenso e o indivíduo 
morreria em poucos dias. O uso de corpos cetônicos como fonte de energia pelo 
cérebro atenua o catabolismo muscular depois de aproximadamente 3 dias de 
jejum ou restrição extrema de carboidratos. 
 
3.4.2 CETOGÊNESE ACELERA O METABOLISMO? 
Durante os três primeiros dias de jejum, o gasto energético pode aumentar 
devido à redução dos níveis de glicose, o que leva ao aumento da secreção de 
catecolaminas (adrenalina e noradrenalina). As catecolaminas estimulam a 
resposta simpática, aumentando a mobilização das reservas de energia. Nos 
primeiros dias de jejum, as catecolaminas estimulam a quebra de glicogênio 
muscular e hepático e, também, a lipólise no tecido adiposo. 
O glicogênio hepático mantém os níveis de glicose no sangue no primeiro 
dia de jejum, mas esse estoque esgota rapidamente (~ 20 horas). Como o 
cérebro e as hemácias dependem de glicose como fonte de energia, as 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
61 
 
catecolaminas também estimulam a gliconeogênese hepática (em conjunto com 
o cortisol, GH e glucagon). Nos primeiros dias de jejum, os aminoácidos 
provenientes do catabolismo de proteínas musculares são os principais 
substratos para a produção de glicose hepática, o que leva a um aumento do 
metabolismo e da perda de nitrogênio na urina (na forma de ureia). 
Depois do terceiro dia de jejum, o fígado atenua a produção de glicose 
hepática com um grande aumento da produção de corpos cetônicos a partir dos 
ácidos graxos, e o glicerol passa a contribuir de forma mais significativa para a 
gliconeogênese. Consequentemente, ocorre uma redução do catabolismo 
muscular, da gliconeogênese e, portanto, do gasto energético. O uso de corpos 
cetônicos pelo cérebro, deslocando a glicose como seu principal combustível, 
permitiu ao homem sobreviver a longos períodos de fome. 
Dessa forma, embora o jejum aumente o gasto energético nos primeiros 
dias quando associado à restrição calórica e à perda de peso, o jejum também 
vai levar a uma adaptação metabólica, reduzindo o gasto energético, o que torna 
a perda de peso e gordura cada vez mais lenta. Qualquer estratégia de 
emagrecimento que prometa acelerar o metabolismo só poderia fazer isso por 
um período limitado, normalmente nos primeiros dias de dieta. Além disso, um 
metabolismo lento não costuma sero maior desafio do emagrecimento, e sim o 
aumento do apetite. 
 
3.5 A GORDURA QUEIMA EM UMA CHAMA DE 
CARBOIDRATOS? 
A queima (oxidação) de gordura aumenta com a restrição de carboidratos, 
mas não necessariamente se perde mais gordura. A clássica afirmação "as 
gorduras queimam em uma chama de carboidratos" é muito difundida, 
entretanto, ela não é verídica. O argumento parte do princípio de que a oxidação 
do acetil-CoA proveniente dos ácidos graxos (gordura) precisa do oxalacetato. 
O oxalacetato é um intermediário do ciclo de Krebs, conjunto de reações 
químicas que ocorre na mitocôndria para produzir energia (ATP), e pode ser 
proveniente da degradação de carboidratos ou proteínas. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
62 
 
De fato, quando a dieta é restrita em carboidratos, a maior parte do 
oxalacetato será proveniente de aminoácidos (aspartato, asparagina etc.). Como 
na restrição de carboidratos, o corpo precisa produzir glicose para tecidos que 
são dependentes de glicose (cérebro e hemácias), boa parte do oxalacetato será 
desviado para a gliconeogênese (síntese de glicose a partir de aminoácidos no 
fígado). Por isso se diz que a oxidação de acetil-CoA se torna mais lenta, 
limitando a velocidade de queima de gordura. No entanto, embora haja limitação 
de oxalacetato, o corpo converte o excesso de acetil-CoA em corpos cetônicos 
(no fígado), que podem ser utilizados como fonte de energia pelos tecidos, 
principalmente pelo cérebro. Ou seja, corpos cetônicos são uma forma de usar 
gordura como fonte de energia quando se limita à ingestão de carboidratos. Além 
disso, a oxidação de ácidos graxos continua ocorrendo em outros tecidos, como 
por exemplo, no tecido muscular esquelético e cardíaco (lembrem que o músculo 
não apresenta a enzima glicose-6-fosfatase, logo, não é capaz de realizar 
gliconeogênese e, portanto, o oxalacetato gerado é único ao acetil-coa para 
iniciar o ciclo de Krebs). 
Portanto, mesmo que a oxidação de gordura seja maior em dietas mais 
restritas em carboidratos, a perda de gordura depende da quantidade de gordura 
ingerida e do balanço energético, já que boa parte da gordura ingerida pela 
alimentação será direcionada para o tecido adiposo. 
 
3.6 METABOLISMO DOS LIPÍDEOS DA DIETA E 
EMAGRECIMENTO 
Em uma dieta hipocalórica, os níveis de insulina estão reduzidos, 
principalmente pela diminuição dos carboidratos. A redução de calorias e dos 
níveis de insulina aumenta a lipólise, estimulada principalmente pelo glucagon e 
pela adrenalina. Além do aumento da lipólise, ocorre diminuição da síntese de 
ácidos graxos (lipogênese). 
A redução da razão insulina/glucagon estimula as enzimas responsáveis 
pela lipólise e oxidação de gorduras, como a lipase hormônio sensível (HSL) e a 
carnitina palmitoil transferase 1 (CPT-1). Nesse sentido, os ácidos graxos 
provenientes dos adipócitos são transportados pela albumina até os tecidos que 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
63 
 
precisam de energia, como fígado, coração e músculo esquelético. Após entrar 
nas células desses tecidos, os ácidos graxos são convertidos no citosol em acil-
Coa graxo. Para entrar no interior da mitocôndria, o acil-Coa graxo precisa ser 
transportado pela carnitina. No interior da mitocôndria, o ácido graxo sofre o 
processo conhecido como ß oxidação. 
A oxidação do acetil-Coa proveniente da ß oxidação dos ácidos graxos 
depende da disponibilidade de oxaloacetato, que pode ser proveniente do 
metabolismo de carboidratos e proteínas. A degradação de proteínas 
musculares gera aminoácidos, que são transportados até o fígado (alanina, 
glutamina) para participar da gliconeogênese. A gliconeogênese hepática é 
importante durante o jejum e a restrição de calorias/ carboidratos, porque o 
cérebro precisa de glicose como combustível energético. 
Quando a restrição de calorias e carboidratos é muito agressiva aumenta 
ainda mais a lipólise no tecido adiposo e a gliconeogênese (fígado). O glicerol 
proveniente da degradação de triacilgliceróis também é utilizado para sintetizar 
glicose, além dos aminoácidos oriundos do músculo esquelético. A intensificação 
da lipólise aumenta a quantidade de ácidos graxos na corrente sanguínea, e boa 
parte deles sofre ß oxidação no fígado, gerando uma grande quantidade de 
acetil-Coa. A quantidade de acetil-Coa acaba sendo muito maior que a de 
oxaloacetato disponível para oxidação dessa molécula no ciclo de Krebs. O 
excesso de acetil-Coa é então utilizado para formar os corpos cetônicos 
(cetogênese), já que boa parte do oxaloacetato é utilizada na gliconeogênese. 
Os corpos cetônicos não podem ser utilizados pelo fígado como fonte energética, 
mas podem ser utilizados pelos tecidos periféricos, principalmente coração e 
músculo esquelético. A restrição agressiva de calorias e carboidratos intensifica 
a gliconeogênese, mas a glicose produzida acaba sendo insuficiente para o 
cérebro, que passa também a utilizar corpos cetônicos como fonte de energia. 
Com a produção de corpos cetônicos, a degradação de proteínas musculares é 
atenuada, já que a necessidade de glicose diminui. 
Com a redução de calorias e carboidratos, a síntese de ácidos graxos 
(lipogênese) é inibida. As enzimas lipogênicas acetil-Coa-carboxilase (ACC) e 
ácido graxo-sintase (AGS) são inibidas com redução da insulina e aumento do 
glucagon. A lipase lipoproteica, responsável por aumentar a captação de ácidos 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
64 
 
graxos no tecido adiposo, também é suprimida pela redução dos níveis de 
insulina. Quanto maior a restrição de carboidratos, maior é a oxidação de 
gorduras. No entanto, o fator determinante para a perda de gordura continua 
sendo o déficit calórico, já que a gordura do tecido adiposo utilizada como 
substrato energético pode ser compensada pela gordura proveniente da dieta. 
 
3.6 O ADIPÓCITO E A LEPTINA NA PERDA DE PESO 
O tecido adiposo é a maior reserva de energia do corpo humano, logo, os 
triacilgliceróis são a nossa maior fonte de energia e ficam armazenados nos 
adipócitos (células do tecido adiposo). Essas células podem variar muito de 
tamanho, e quando uma pessoa acumula muita gordura, além de aumentar o 
tamanho dos adipócitos (hipertrofia), pode também ocorrer um grande aumento 
do número dessas células (hiperplasia). Um adulto magro tem cerca de 35 
bilhões de adipócitos, enquanto indivíduos muitos obesos podem ter até 3-4 
vezes mais adipócitos. O tecido adiposo não é formado apenas por adipócitos, 
ele também contém células do sistema imune (macrófagos, linfócitos), 
fibroblastos etc. 
Os adipócitos podem ser de 3 tipos basicamente: adipócito branco, 
adipócito marrom e adipócito bege. O tecido adiposo branco é o mais abundante 
no ser humano e suas células (adipócitos brancos) são grandes reservas de 
triacilgliceróis (gordura), podendo sofrer grande aumento de tamanho. Já os 
adipócitos marrons são células que armazenam pouca gordura, e sua principal 
função é aumentar a produção de calor (termogênese), pois esse tecido contém 
muitas mitocôndrias. O tecido adiposo bege apresenta características do tecido 
adiposo branco e do marrom. Nesse tópico, o foco será nos efeitos metabólicos 
do tecido adiposo branco, que é o mais importante e abundante em indivíduos 
adultos. 
Até pouco tempo atrás se pensava que o tecido adiposo era apenas uma 
simples reserva de energia, até que, em 1994, foi descoberto o hormônio leptina. 
A leptina é um hormônio peptídeo que exerce forte influência sobre a regulação 
do peso corporal e seus níveis variam de acordo com o tamanho das nossas 
reservas de gordura. A leptina controla a ingestão e o gasto de energia por meio 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
65 
 
da sua sinalização sobre o sistema nervoso central (hipotálamo). Nesse sentido, 
quando ocorre aumento da ingestacalórica e ganho de peso/gordura, os níveis 
de leptina se elevam, inibindo o consumo de energia e aumentando a 
termogênese, por meio do aumento da atividade do sistema nervoso simpático. 
No entanto, em indivíduos com obesidade essa regulação está defeituosa, pois 
esses indivíduos apresentam resistência à leptina, além da resistência à insulina. 
 
Curiosidade: Foi mostrado em camundongos obesos que a sinalização da 
leptina no núcleo arqueado do hipotálamo é permanentemente ativada. O 
resultado dessa ativação persistente, oriundo das altas concentrações 
endógenas de leptina circulante, é uma saturação da sinalização da leptina e 
uma falha em responder a esse hormônio (caracterizando a resistência à 
leptina). Esse fato ocorre porque a sinalização persistente da leptina aumenta a 
expressão do supressor da sinalização de citocinas 3 (SOCS3) e da proteína 
tirosina fosfatase (PTP1B), resultando em uma cascata de sinalização de leptina 
bloqueada. Nesse sentido, um estudo publicado em 2019 mostrou que uma 
redução parcial dos níveis de leptina resultou em uma redução da ingestão 
alimentar em camundongos obesos, ocasionando um aumento na sua 
sensibilidade. Dessa forma, nem sempre um aumento nos níveis de leptina trará 
desfechos positivos na regulação da ingestão alimentar, indivíduos obesos já 
apresentam níveis elevados e uma estratégia interessante poderia ser reduzir 
esses níveis. 
 
Além da leptina, o tecido adiposo é responsável por secretar uma série de 
outros hormônios e substâncias, responsáveis por diversos efeitos sobre o nosso 
metabolismo. Algumas dessas substâncias, chamadas de adipocinas, 
contribuem ainda mais para o aumento das reservas de gordura e do estado de 
inflamação crônica associado à obesidade, e que envolve o aumento da 
resistência à insulina. Entre as adipocinas mais importantes secretadas pelo 
tecido adiposo estão: o fator de necrose tumoral (TNF-α), a interleucina 6 (IL-6) 
e a resistina. A adiponectina é um hormônio que se apresenta em menor 
quantidade em indivíduos com obesidade, e sua sinalização é responsável pelo 
aumento da sensibilidade à insulina. A insulina também é um hormônio que inibe 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
66 
 
o apetite, mas indivíduos com obesidade apresentam aumento de adipocinas 
inflamatórias (IL-6, TNF-α) e, consequentemente, aumento da resistência à 
insulina. A resistência à insulina e à leptina aumentam com o ganho de 
peso/gordura, enquanto durante a perda de peso ocorre a redução da secreção 
desses hormônios e o aumento da sensibilidade a eles. 
Durante a perda de peso, o adipócito atrofia, pois seus estoques de 
triacilgliceróis são reduzidos com intenso aumento da lipólise no tecido adiposo. 
O número de adipócitos também é reduzido quando ocorre uma grande perda 
de peso em obesos em um processo de longo prazo. Com a diminuição do 
tamanho dos adipócitos, também ocorre redução dos níveis de leptina e das 
citocinas inflamatórias, como IL-6 e TNF-α. Os níveis de adiponectina também 
aumentam e ocorre melhora da sensibilidade à insulina. O grande problema 
desse processo é que a queda dos níveis de leptina acaba reduzindo a 
saciedade e o indivíduo passa a sentir mais fome. A perda de peso também afeta 
outros hormônios responsáveis pelo controle do apetite (insulina, grelina, CCK, 
PYY) e essas alterações podem durar por muito tempo (> 1 ano), explicando em 
parte porque dietas da moda têm pouca eficácia como tratamento da obesidade 
no longo prazo. 
 
3.7 TECIDO ADIPOSO, OBESIDADE E RESISTÊNCIA À 
INSULINA 
Sabe-se que a obesidade é decorrente de um balanço energético positivo. 
Nesse sentido, conforme o acúmulo de gordura aumenta, o tecido adiposo é 
infiltrado por células do sistema imune, como os macrófagos. Os adipócitos 
(células de gordura) hipertrofiados e os macrófagos passam, então, a secretar 
uma série de substâncias, como as citocinas inflamatórias TNF-α (fator de 
necrose tumoral alfa), IL-6 (interleucina 6) e IL-1 (interleucina 1). Essas proteínas 
atuam sobre o receptor de insulina, prejudicando a sinalização da insulina nos 
tecidos, principalmente no hipotálamo, no músculo esquelético e no fígado. 
Consequentemente, ocorre aumento da resistência à insulina nesses tecidos. A 
resistência à insulina no hipotálamo prejudica a ação anorexígena da insulina 
nesse tecido, promovendo hiperfagia. Portanto, o indivíduo obeso come mais 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
67 
 
não só porque os alimentos ultraprocessados dificultam o controle do apetite, 
mas também porque ele está propenso a sentir mais fome por estar resistente à 
insulina. No músculo esquelético, a resistência à insulina prejudica a captação 
de glicose pelos transportadores GLUT-4, e considerando que o músculo é o 
principal responsável pela captação de glicose no período pós-prandial, ocorre 
uma hiperglicemia. No fígado, onde a insulina tem efeito inibitório sobre a 
gliconeogênese, a ação da insulina também fica prejudicada, aumentando ainda 
mais os níveis de glicose. 
Dessa forma, a resistência à insulina em indivíduos obesos está 
associada ao aumento das concentrações de citocinas inflamatórias, como TNF-
α, IL-6, IL-1 etc. Entretanto, há outras adipocinas relacionadas ao aumento da 
resistência à insulina e da inflamação, como por exemplo, a resistina. Além de 
prejudicarem diretamente a sinalização da insulina, devido a ação no receptor 
de insulina, as citocinas inflamatórias também estimulam a lipólise, 
principalmente no tecido adiposo visceral (gordura intra-abdominal, que se 
acumula entre os órgãos). Embora a lipólise pareça um efeito benéfico quando 
se trata de emagrecimento, seu excesso é prejudicial, pois o excesso de ácidos 
graxos livres na circulação prejudica a sinalização da insulina nos tecidos, como 
músculo, fígado, tecido adiposo e hipotálamo. Lembre-se que para ocorrer 
emagrecimento, não basta apenas ter aumento da lipólise (mobilização da 
gordura), também é necessário que ocorra aumento da oxidação dos ácidos 
graxos (queima de gordura). 
A adiponectina está associada a sensibilidade à insulina e aumenta 
conforme o indivíduo emagrece. Além disso, ela estimula a captação de glicose 
e a oxidação de ácidos graxos através da sinalização da proteína AMPK. A 
Tabela 3.1 resume as principais adipocinas e suas principais características. 
A obesidade é um estado de inflamação crônica de baixa intensidade, 
onde o aumento das citocinas inflamatórias (TNF-α, IL-6, resistina) e dos ácidos 
graxos livres prejudica a sinalização da insulina nos tecidos, principalmente no 
músculo esquelético, no fígado, no tecido adiposo e no hipotálamo. O aumento 
da resistência à insulina no músculo prejudica a captação de glicose, e no fígado, 
a ação prejudicada da insulina dificulta sua ação inibitória sob a gliconeogênese. 
Ambos os efeitos promovem aumento dos níveis de glicose no sangue 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
68 
 
(hiperglicemia). Além disso, a resistência à insulina no tecido adiposo dificulta a 
inibição da lipólise (lembrem que a insulina inibe a lipólise), o que favorece o 
aumento nas concentrações de ácidos graxos livres. Essa situação cria um 
estado de lipotoxicidade (excesso de ácidos graxos circulantes) e glicotoxicidade 
(excesso glicose circulante). Para controlar os níveis de glicose elevados, o 
pâncreas é forçado a liberar mais insulina e, no longo prazo, o indivíduo obeso 
pode desenvolver diabetes tipo 2. 
 
Tabela 3.1 - Principais adipocinas secretadas no tecido adiposo e seus efeitos 
fisiológicos no organismo 
 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
69 
 
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Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
71 
 
4 
PROTEÍNAS 
 
Proteínas são os compostos mais abundantes do nosso organismo 
(perdendo apenas para a água) e desempenham diversas funções, visto que não 
são encontradas apenas no músculo esquelético, mas em todas as partes do 
nosso corpo. Por exemplo, na corrente sanguínea encontramos as proteínas 
hemoglobina e a albumina, que transportam moléculas, como o oxigênio e os 
ácidos graxos, respectivamente, e as imunoglobulinas, que são proteínas 
responsáveis por realizar a defesa do nosso corpo, combatendo bactérias e 
vírus. As proteínas transportadoras das membranas das células, por exemplo, 
carregam e regulam o fluxo de nutrientes para dentro e para fora delas. Da 
mesma forma, enzimas são proteínas responsáveis por realizar todas as reações 
que ocorrem dentro do nosso corpo a fim de manter a vida (imagine se todas as 
enzimas da glicólise faltassem ou apresentassem prejuízos em suas funções, 
certamente a produção de energia apresentar-se-ia prejudicada). Alguns 
hormônios também são proteínas, como por exemplo, a insulina e o glucagon, 
responsáveis por regularem os níveis de glicose no sangue. No músculo 
esquelético e cardíaco, encontram-se as proteínas actina e miosina, 
responsáveis pela contração muscular e batimentos cardíacos, respectivamente. 
Nos ossos, dentes, pele, tendões, cartilagens, cabelos e unhas encontram-se as 
proteínas colágeno, elastina e queratina. Proteínas, ainda, podem atuar como 
tampões, regulando o pH em uma faixa ideal. Dessa forma, todo o corpo é 
formado por diferentes proteínas que desempenham diversas funções 
essenciais à vida. 
É impossível falar de proteínas sem falar de aminoácidos. Os aminoácidos 
são os blocos construtores que formam as proteínas (os tijolos), as unidades 
básicas das proteínas. Proteínas são polímeros de aminoácidos e podem ter os 
mais variados tamanhos. Os aminoácidos são moléculas formadas por carbono 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
72 
 
(C), hidrogênio (H), oxigênio (O) e nitrogênio (N); diferente dos lipídeos e 
carboidratos, que contém os três primeiros átomos na composição (CHO), mas 
não apresentam o nitrogênio. Cerca de 16% da composição das proteínas é 
formada por nitrogênio e isso faz o metabolismo das proteínas ter características 
bem distintas em relação ao metabolismo de carboidratos e lipídeos. O nitrogênio 
pode ser aproveitado para a síntese de novas proteínas e outras moléculas, 
como os ácidos nucleicos (DNA, RNA). No entanto, o excesso de nitrogênio 
precisa ser eliminado do organismo, pois um dos produtos do catabolismo dos 
aminoácidos, a amônia (NH3), é tóxica ao organismo. 
 
4.1 AMINOÁCIDOS ESSENCIAIS, NÃO ESSENCIAIS E 
CONDICIONALMENTE ESSENCIAIS 
Os aminoácidos são classificados como essenciais, não essenciais e 
condicionalmente essenciais. Os aminoácidos essenciais (indispensáveis) não 
são produzidos pelo nosso corpo, pois seus esqueletos de carbono (parte do 
aminoácido sem o nitrogênio) não podem ser sintetizados pelo nosso organismo 
e, portanto, necessitam ser obtidos por meio da alimentação, caso contrário, o 
processo de síntese proteica apresentar-se-ia prejudicado, juntamente com 
algumas funções celulares. Dos 20 aminoácidos presentes nas proteínas, 9 são 
essenciais: fenilalanina, metionina, lisina, leucina, valina, isoleucina, triptofano, 
treonina e histidina. Os aminoácidos não essenciais (dispensáveis), por outro 
lado, são capazes de ser produzidos endogenamente a partir de intermediários 
da glicólise e do ciclo de Krebs, principalmente. Dessa forma, esses aminoácidos 
são chamados de dispensáveis, pois são produzidos pelo organismo mesmo 
sem o consumo de proteínas. Há 11 aminoácidos não essenciais: arginina, 
alanina, tirosina, aspartato, asparagina, glutamato, glutamina, cisteína, serina, 
glicina e prolina. Por último, os aminoácidos condicionalmente essenciais 
referem-se aos aminoácidos não essenciais que sob determinadas condições 
patológicas tornam-se essenciais, pois o organismo fica limitado para produzir 
as quantidades necessárias para os processos fisiológicos. Destaco dois 
exemplos para o seu melhor entendimento. A glutamina é considerada um 
aminoácido não essencial, pois pode ser sintetizada endogenamente, entretanto, 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
73 
 
torna-se um aminoácido essencial em situações hipercatabólicas, pois sua 
demanda fica muito elevada e, consequentemente, sua produção endógena 
torna-se insuficiente para o momento. Além disso, recém-nascidos prematuros, 
muitas vezes, apresentam função de um órgão imaturo e são incapazes de 
sintetizar muitos aminoácidos não essenciais, como cisteína e prolina, por 
exemplo. 
 
4.2 DIGESTÃO E ABSORÇÃO 
Diferente dos carboidratos e lipídeos, que têm sua digestão enzimática 
iniciada na boca, a digestão das proteínas se inicia no estômago, onde o ácido 
clorídrico (HCl) promove “acidificação” do ambiente estomacal, reduzindo seu 
pH para aproximadamente 2. O pH ácido, além de favorecer a eliminação de 
bactérias patogênicas, desempenha um papel importante na digestão das 
proteínas, visto que a enzima responsável por as degradar, a pepsina, é incapaz 
de atuar em um pH básico. A pepsina inicia a digestão das proteínas, 
principalmente do colágeno (importante constituinte do tecido conjuntivo das 
carnes). A pepsina digere apenas de 10 a 20% das proteínas, sendo que o 
restante da digestão ocorre no intestino delgado. 
Ao chegar no duodeno, a primeira parte do intestino delgado, as proteínas 
estimulam a liberação de dois hormônios, a colecistocinina (CCK) e a secretina. 
A primeira estimula a secreção de enzimas pancreáticas que estão inativas 
(zimogênios), e a secretina estimula a liberação de bicarbonato no duodeno, que 
torna o meio mais alcalino (pH ~ 7-8). Nesse ambiente mais alcalino, as 
proteases pancreáticas(tripsina, quimiotripsina, elastase etc.) são ativadas e 
digerem as proteínas, resultando em aminoácidos e peptídeos de 2 a 8 
aminoácidos. Os enterócitos (células absortivas do intestino delgado) só 
conseguem absorver aminoácidos livres, dipeptídeos e tripeptídeos. Os 
peptídeos maiores são degradados por enzimas presentes na superfície dessas 
células. No interior dos enterócitos, os dipeptídeos e tripeptídeos sofrem o último 
processo de degradação por enzimas presentes no interior da célula. Por fim, os 
aminoácidos são levados para a corrente sanguínea e entregue aos tecidos 
(fígado, músculo etc.). 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
74 
 
 
 
Figura 4.1 – Digestão das proteínas. 
 
4.3 METABOLISMO DE PROTEÍNAS 
O nosso corpo está o tempo todo sintetizando e degradando proteínas, 
sendo que muitos dos aminoácidos resultantes do catabolismo das proteínas 
endógenas são reaproveitados para síntese de novas proteínas. Algumas 
proteínas têm uma vida média muito curta, de poucas horas (enzimas 
intracelulares), enquanto outras chegam a ter uma vida média de mais de 100 
dias (hemoglobina) ou até um ano (colágeno). 
Considerando as diferentes taxas de renovação das proteínas (turnover 
proteico), estima-se que o nosso corpo tem um turnover proteico de 300-400 g 
por dia. O catabolismo dos aminoácidos é responsável por cerca de 10% a 15% 
da produção de energia do organismo, sendo que carboidratos e lipídeos têm 
uma contribuição muito maior. Outro ponto importante é que nosso corpo precisa 
de um fornecimento constante de proteínas ricas em aminoácidos essenciais 
para continuar funcionando em harmonia. O exercício físico (musculação, 
aeróbico) aumenta a demanda de proteínas, assim como a restrição de calorias 
e carboidratos. No entanto, quando uma dieta oferece mais proteínas que a 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
75 
 
demanda do organismo, o excesso de aminoácidos não vai elevar a síntese 
proteica e nem será armazenado. Nessa situação, o excesso de aminoácidos é 
catabolizado, seus esqueletos de carbono (aminoácido sem o nitrogênio) são 
oxidados a CO2 e H2O no ciclo de Krebs, que ocorre na mitocôndria das células. 
Além de serem utilizados para sintetizar proteínas e oxidados para 
produzir energia (ATP), os aminoácidos também podem ser usados para 
produzir glicose (gliconeogênese), corpos cetônicos (cetogênese) e ácidos 
graxos (lipogênese). O destino dos aminoácidos, tanto os oriundos da 
alimentação, como os que vem da degradação de proteínas endógenas, 
depende do estado fisiológico e do tecido do organismo. 
Para serem oxidados, utilizados como fonte de energia, ou convertidos 
em glicose e corpos cetônicos, o grupo amino (NH2) dos aminoácidos precisa 
ser removido. O grupo amino dos aminoácidos é removido na forma de amônia 
(NH3), que na sua forma livre é tóxica e precisa ser eliminada do organismo. 
Dessa forma, há o ciclo da ureia, que transforma a amônia em ureia para ser 
eliminada do organismo (ao contrário da molécula de amônia, a ureia pode 
circular livremente pelo organismo, chegando até os rins para ser excretada na 
urina). 
 
4.3.1 DESTINO DO NITROGÊNIO 
Para que um aminoácido seja utilizado como fonte de energia pelo 
organismo, seu nitrogênio precisa ser removido. Isso ocorre porque para os 
aminoácidos serem utilizados como fonte de energia, eles precisam 
primeiramente ser transformados em intermediários do ciclo de Krebs, e os 
intermediários do ciclo de Krebs não apresentam nitrogênio em sua estrutura 
química (da mesma forma que ocorre quando os aminoácidos são convertidos 
em glicose, corpos cetônicos e triglicerídeos). Dessa forma, o grupo amino dos 
aminoácidos é removido na forma de amônia (NH3), e o que sobra da molécula 
é seu esqueleto de carbono ou α-cetoácido (o α-cetoácido é um intermediário do 
ciclo de Krebs). Existem dois processos básicos responsáveis pela remoção do 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
76 
 
nitrogênio dos aminoácidos: a “transaminação oxidativa” e a “desaminação 
oxidativa”. 
Na “transaminação”, o grupo amino dos aminoácidos é transferido para o 
α-cetoglutarato, um composto intermediário do ciclo de Krebs. Quando o α-
cetoglutarato recebe o grupo amino de outro aminoácido, ele forma o aminoácido 
glutamato. As enzimas responsáveis pelos processos de transaminação são 
chamadas de transaminases ou aminotransferases. As duas transaminases 
mais importantes do organismo são a alanina aminotransferase (ALT) e a 
aspartato aminotransferase (AST). A ALT transfere o grupo amino da alanina 
para o α-cetoglutarato e essa reação forma glutamato e piruvato: 
ALT: alanina + α − cetoglutarato ↔ glutamato + piruvato (1) 
A AST transfere o grupo amino do aminoácido aspartato para o α-
cetoglutarato e essa reação forma glutamato e oxaloacetato: 
AST: aspartato + α −cetoglutarato ↔ glutamato + oxaloacetato (2) 
 
As reações 1 e 2 são reversíveis e acontecem em diversos tecidos do 
organismo, como músculo esquelético, fígado e coração. Como podemos ver 
acima, o aminoácido glutamato é o produto das reações de transaminação, e o 
piruvato e o oxaloacetato são os respectivos esqueletos de carbono (α-
cetoácidos) dos aminoácidos alanina e aspartato. As enzimas ALT e AST 
também são chamadas de TGP (transaminase glutâmico pirúvica) e TGO 
(transaminase glutâmico oxalacética). 
Esse glutamato por sua vez pode sofrer o processo de “desaminação 
oxidativa” no fígado. O processo de desaminação oxidativa nada mais é que a 
remoção do grupo amino do glutamato pela ação da enzima glutamato 
desidrogenase (GDH), formando α-cetoglutarato e amônia (NH3). O α-
cetoglutarato é o esqueleto de carbono do glutamato e pode ser utilizado como 
intermediário no ciclo de Krebs para produção de energia ou também formar 
glutamato novamente ao receber nitrogênio de outros aminoácidos. A amônia 
proveniente da desaminação do glutamato pode ser eliminada pela urina ao ser 
convertida em ureia no fígado. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
77 
 
 
4.4 AMINOÁCIDOS E GLICONEOGÊNESE 
A gliconeogênese é a síntese de glicose a partir de compostos não 
carboidratos, como os aminoácidos, o glicerol e o lactato. Esse processo 
acontece predominantemente no fígado, embora os rins também possam 
contribuir significativamente durante o jejum prolongado. A função da 
gliconeogênese é manter os níveis de glicose sanguínea estáveis durante o 
jejum, quando as reservas de glicogênio hepático estão baixas e não há 
consumo de carboidratos. 
Os aminoácidos são os principais substratos para a gliconeogênese, 
sendo a alanina e a glutamina os principais aminoácidos envolvidos nesse 
processo. A alanina é responsável por transportar o nitrogênio (amônia) dos 
tecidos periféricos para o fígado. Nesse órgão, a alanina sofre transaminação e 
produz piruvato, que é utilizado para sintetizar glicose. 
 
 
Figura 4.2 – Ciclo glicose-alanina. Após os aminoácidos sofrerem catabolismo no 
músculo esquelético e nos demais tecidos periféricos, o grupo α-amina dos aminoácidos 
é levado até o fígado por meio dos aminoácidos alanina e glutamina. A alanina, em 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
78 
 
particular, sofre transaminação no fígado, perdendo seu grupo α-amina e formando 
piruvato, que é convertido em glicose (gliconeogênese). A glicose formada no fígado é 
então direcionada para os tecidos periféricos para fornecer energia. As hemácias 
dependem unicamente de glicose como fonte de energia, enquanto o encéfalo é um 
órgão que depende de uma grande quantidade de glicose diariamente (~ 120 g). 
 
 
O glucagon e o cortisol são os principais hormônios reguladores da 
gliconeogênese. O glucagon atua no fígado estimulando a glicogenólise e a 
gliconeogênese, mas não tem receptores no músculo esquelético para estimular 
a degradação deproteínas. O cortisol pode atuar no músculo e promover a 
degradação de proteínas musculares em aminoácidos. Os aminoácidos do 
músculo são levados até o fígado para sintetizar glicose. Como vimos, a 
gliconeogênese tem a função de manter os níveis de glicose estáveis durante o 
jejum e a restrição de carboidratos porque a glicose é combustível energético 
essencial para o sistema nervoso. 
 
 
4.5 INSULINA E INIBIÇÃO DA DEGRADAÇÃO PROTEICA 
A insulina é um hormônio liberado endogenamente, principalmente, após 
a refeições ricas em carboidratos. Notavelmente, muitas pessoas a demonizam 
pelo seu papel na inibição da lipólise e defendem que uma dieta restrita em 
carboidratos é superior para o emagrecimento. Entretanto, embora a insulina 
iniba a lipólise, ela também inibe a proteólise. Proteólise significa quebra de 
proteínas, incluindo proteínas musculares. Certamente, o objetivo da grande 
maioria das pessoas é manter ou aumentar a sua massa muscular, e para esse 
fato ocorrer faz-se necessário que a síntese de proteínas supere a degradação 
(balanço nitrogenado positivo). 
Dessa forma, de que maneira a insulina exerce seu papel na inibição da 
proteólise? Primeiramente, precisamos entender que há receptores de insulina 
no músculo esquelético e quando a insulina se liga a esses receptores, uma 
cascata de sinalizações intracelulares ocorre. Dentre essas sinalizações, 
destaca-se a inibição do fator de transcrição FOXO. O FOXO sintetiza o sistema 
ubiquitina proteassoma, o qual é responsável pela degradação proteica. Além 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
79 
 
disso, a insulina ativa a proteína mTOR, amplamente conhecida por estimular a 
síntese proteica. 
No entanto, não podemos, obviamente, olhar apenas para a síntese ou 
degradação, o processo de hipertrofia é crônico e não será um fato isolado que 
irá ditá-lo. Portanto, por mais que a insulina iniba a lipólise, ela não irá contribuir 
para o ganho de gordura se você estiver em déficit calórico. Além disso, a 
insulina contribui para inibição da proteólise e, se associado aos demais fatores 
necessários, para o ganho de massa muscular. 
 
4.6 METABOLISMO DE PROTEÍNAS E PERDA DE PESO 
Durante a restrição de calorias, ocorre redução dos níveis de insulina e 
glicose, aumento da degradação de glicogênio, de triacilgliceróis no tecido 
adiposo e da degradação de proteínas no músculo esquelético. Dessa forma, a 
restrição de calorias estimula a mobilização das reservas energéticas do 
organismo, principalmente nossas reservas de gordura. 
Em uma dieta para perda de peso, os níveis de insulina estão reduzidos 
e os de glucagon aumentados. A restrição energética também estimula a 
liberação de outros hormônios contrarreguladores da insulina, como adrenalina, 
cortisol e GH. Esses hormônios estimulam a lipólise no tecido adiposo, liberando 
ácidos graxos para que sejam utilizados como fonte energética pelos tecidos do 
organismo. 
No entanto, os ácidos graxos não podem ser utilizados com eficiência pelo 
cérebro como fonte de energia. Esse órgão depende de glicose para seu 
funcionamento, e as reservas de glicogênio hepático se esgotam mais 
rapidamente quando restringimos calorias e carboidratos da dieta. Para manter 
as concentrações de glicose estáveis (entre 70 e 99 mg/dL em jejum), o glucagon 
e o cortisol estimulam a gliconeogênese, que utiliza principalmente aminoácidos 
e glicerol para a síntese de glicose. O glicerol é proveniente da degradação dos 
triacilgliceróis do tecido adiposo, enquanto os aminoácidos são provenientes 
principalmente da degradação de proteínas musculares pela ação do cortisol. 
Uma redução drástica de calorias aumenta a degradação de proteínas 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
80 
 
musculares e pode levar a perda de massa muscular. Por isso, dietas mais 
restritas em carboidratos podem aumentar o catabolismo muscular. 
O cérebro também pode utilizar corpos cetônicos como fonte de energia 
e em situações de dietas muito restritas em carboidratos (cetogênica), eles se 
tornam a maior fonte de combustível energético para esse órgão. Dessa forma, 
a intensa produção de corpos cetônicos pode diminuir a necessidade de 
produção de glicose no fígado, atenuando a degradação de proteínas 
musculares. 
 
4.7 DIETAS HIPERPROTEICAS E EMAGRECIMENTO 
As recomendações de proteínas para adultos saudáveis se baseiam em 
estudos que usam o método do balanço nitrogenado. Esse método avalia a 
perda diária de nitrogênio, que ocorre principalmente pela urina na forma de 
ureia. A ingestão dietética recomendada (RDA) de proteínas para adultos é de 
0,8 g/kg. A RDA avalia a necessidade do nutriente necessária para atender as 
necessidades de aproximadamente 98% da população. 
Embora nosso organismo priorize o uso de carboidratos e gorduras como 
fonte de energia, a oxidação de proteínas diária é aproximadamente 10% do 
gasto energético diário. Para um indivíduo sedentário, pesando 70-80 kg, o gasto 
energético diário (GET) fica em torno de 2500 a 2800 kcal, dependendo do nível 
de atividade física. Calculando 10% do GET e transformando o valor em gramas 
(1 g = 4 kcal), obtemos: 
- 2500 x 0,1 = 250 kcal → 250/4 = 62,5 g (1) 
- 2800 x 0,1 = 280 kcal → 280/4 = 70,0 g (2) 
Considerando a RDA para proteínas de 0,8 g/kg, obtemos: 
- 70 x 0,8 = 56 g - 80 x 0,8 = 64 g 
Que estão bem próximos dos valores encontrados nas relações (1) e (2). 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
81 
 
Com a restrição de calorias, ocorre redução dos níveis de insulina e 
aumento da lipólise, que é degradação de triacilgliceróis do tecido adiposo em 
ácidos graxos e glicerol. Os ácidos graxos são a principal fonte de energia 
durante a restrição calórica e por esse motivo perdemos gordura. Os estoques 
de glicogênio ficam reduzidos quando realizamos dieta para perda de peso, 
principalmente quando também se realizam exercícios (musculação, aeróbico). 
O exercício além de esgotar as reservas de glicogênio rapidamente, também 
eleva a oxidação de ácidos graxos (queima de gordura). Além disso, a restrição 
calórica e o exercício aeróbico estimulam a degradação de proteínas 
musculares. Os aminoácidos provenientes das proteínas do músculo são 
utilizados para a gliconeogênese, que tem a finalidade de manter os níveis de 
glicose estáveis quando os estoques de glicogênio do fígado são reduzidos. 
O uso de proteínas no exercício aeróbico vai depender da duração e 
intensidade do exercício, mas dificilmente irá passar de 5-10% do gasto 
energético do exercício. Durante o exercício de alta intensidade (> 70% do 
VO2máx), o principal substrato energético é o carboidrato, enquanto no exercício 
de baixa intensidade (< 60% do VO2máx) o principal substrato energético é a 
gordura. De qualquer forma, um grande volume de exercício aeróbico (> 2-3 h) 
pode aumentar a degradação de proteínas. É importante mencionar que esse 
fato não significa que o indivíduo irá perder massa muscular, uma vez que as 
proteínas degradadas poderão ser repostas pela alimentação, caso o consumo 
proteico estiver adequado. 
Em indivíduos que praticam treinamento resistido (musculação) a 
necessidade de proteínas fica na faixa de 1,6 a 2,2 g/kg segundo estudos que 
avaliam balanço nitrogenado. Estamos considerando indivíduos que mantém 
uma ingestão normal de energia e carboidratos ou estão em superávit calórico. 
O aumento de calorias e carboidratos na dieta minimiza a degradação de 
proteínas, reduzindo o catabolismo de aminoácidos e favorecendo o uso desses 
para síntese proteica. Esse é o “efeito poupador de proteínas” dos carboidratos. 
Como em dieta hipocalórica a necessidade de proteínas pode ser maior 
devido ao aumento da degradação de proteínas, é prudente aumentar o 
consumo de proteínas para poupar massa muscular, principalmente se o déficit 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluche Tanise Michelotti 
82 
 
calórico for muito grande e a dieta for pobre em carboidratos (low carb). Nessas 
condições, a degradação de proteínas é estimulada pela redução dos níveis de 
insulina (hormônio anticatabólico) e pelo aumento do cortisol, que, além de 
estimular a degradação proteica, também estimula a gliconeogênese. 
Alguns estudiosos recomendam aumentar a ingestão de proteínas para 
2,0-3,0 g/kg em fisiculturistas naturais (que não usam esteroides anabolizantes) 
ou indivíduos magros que buscam atingir um baixo percentual de gordura. Essa 
recomendação é prudente para esses indivíduos porque o catabolismo de 
proteínas é maior em indivíduos magros e menor para obesos. Com menor 
reserva de gordura, as proteínas musculares acabam contribuindo mais para 
produção de energia e para a gliconeogênese. 
 
4.7.1 PROTEÍNAS, TERMOGÊNESE E SACIEDADE 
 
É amplamente debatido acerca dos efeitos termogênicos das proteínas. 
De fato, o nosso corpo gasta mais calorias para metabolizar as proteínas em 
comparação aos carboidratos e lipídeos. Isso ocorre principalmente devido a 
presença do grupo amino das proteínas, uma vez que a sua retirada requer gasto 
de ATP, energia. Para compreender melhor essa questão, imagine que você 
consumiu 100g de frango, que apresenta em média 30g de proteínas. Essa 
proteína será digerida, absorvida e seus aminoácidos constituintes serão 
levados ao fígado. A alanina, um dos aminoácidos presentes no peito de frango, 
precisa ser convertida em um intermediário do ciclo de Krebs a fim de gerar 
energia para a célula (embora também possa sintetizar glicose, corpos cetônicos 
e triglicerídeos a depender das necessidades do organismo). Dessa forma, a 
enzima ALT transfere o grupo amino da alanina para a molécula de α-
cetoglutarato, com isso a alanina se transforma em piruvato e o α-cetoglutarato 
se transforma em glutamato. O piruvato irá se transformar em acetil-coa e dar 
seguimento ao ciclo de Krebs para geração de energia. O glutamato, por sua 
vez, pode doar o seu grupamento amino para vias biossintéticas, como por 
exemplo, para a síntese de aminoácidos não essenciais, ou pode enviá-lo para 
vias de excreção, que eliminam o grupamento amino na forma de ureia na urina 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
83 
 
(pelo ciclo da ureia). Esse último processo gasta ATP, a cada grupo nitrogênio 
são gastas 3 moléculas de ATP no ciclo da ureia (na glicólise, por exemplo, é 
obtido um saldo positivo de 2 ATP). Devido e esse aumento do gasto energético 
para metabolizar as proteínas, menciona-se que as proteínas são termogênicas 
e que o seu excesso não contribui para o ganho de gordura corporal. 
A principal razão para a diferença nos efeitos térmicos dos alimentos pode 
ser devido ao fato de que o corpo não tem capacidade de armazenamento de 
proteína e, portanto, precisa ser metabolizado. As proteínas, de fato, aumentam 
o gasto energético, mas esse aumento é muito pequeno. Em 2004 foi publicado 
um artigo de revisão sistemática avaliando os efeitos de dietas ricas em 
proteínas na termogênese. Em um dos estudos publicados na meta-análise, foi 
descoberto que uma dieta com 30% de proteína teve um efeito térmico de 34 
kj/hora (8 kcal) maior do que uma dieta composta por 15% de proteína. Embora 
muitos possam pensar “um aumento de 8 kcal a hora irá dar 192 kcal ao total 
das 24h”, esse pensamento não é correto. Os autores avaliaram a termogênese 
nas 2,5 horas após a refeição e obviamente, não levaríamos o dia inteiro para 
metabolizá-la, logo, esse aumento de 8 kcal/hora é muito pequeno. Outro estudo 
mostrou que uma dieta com 68% de proteína aumentou em apenas 41 kcal o 
gasto energético em comparação a uma dieta com 10% de proteína. Em 2016 
foi publicado um artigo avaliando a termogênese em 24 indivíduos consumindo 
uma dieta alta em proteína (25%), média (15%) e baixa (5%) com 40% de 
superavit durante 56 dias. Foi mostrado que o aumento no gasto energético após 
o consumo foi positivamente associado a quantidade de proteína consumida (ou 
seja, 25% aumentou mais o gasto energético em comparação com 15 e 5%), 
entretanto, esse aumento foi, novamente, pequeno. A dieta alta em proteína 
aumentou em média 8% o gasto energético após 4 horas de ingestão (supondo 
que o gasto é 2500 kcal, esse aumento de 8% seria equivalente a um aumento 
de 33 kcal). 
Para concluir, em 2002 foi publicado um artigo de revisão, no qual foi 
avaliado 10 artigos que avaliaram o efeito térmico da alimentação em relação a 
diferentes composições de dietas (ao menos duas dietas diferentes no conteúdo 
de proteína). Com base nesses estudos, os autores criaram uma fórmula que 
prevê o impacto da composição da dieta no gasto calórico. Utilizando essa 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
84 
 
fórmula, se um indivíduo consumisse uma dieta para perda de peso de 2000 
kcal/dia e fosse substituir uma dieta rica em proteínas (30% proteína, 30% 
gordura, 40% carboidrato) por uma dieta com 15% proteína, 30% gordura, 55% 
carboidrato, a equação prevê um aumento no gasto energético de 23 kcal/dia, o 
que é aproximadamente equivalente a um aumento de 0,8% do gasto energético 
total. Teoricamente, esse pequeno aumento no gasto energético resultaria em 
perda de peso adicional de 0,09 kg/mês. Portanto, o efeito termogênico da 
proteína é muito pequeno e em dietas para emagrecimento, o aumento de 
proteína irá favorecer principalmente o aumento da saciedade e a manutenção 
de massa magra (ou uma redução na degradação). 
Embora aumentar o consumo de proteínas eleve levemente o gasto 
energético, o efeito das proteínas sobre a saciedade parece ser muito mais 
importante para ajudar na perda de peso e na manutenção da perda de peso em 
dietas hipocalóricas e hiperproteicas. Esse efeito das dietas hiperproteicas sobre 
a saciedade parece ser modulado através de hormônios peptídeos liberados 
pelo trato gastrointestinal. A liberação dos neuropeptídeos anorexígenos GLP-1 
(peptídeo semelhante a glucagon 1), colecistocinina (CCK) e peptídeo YY (PYY) 
intensifica com o aumento da ingestão de proteínas, enquanto as concentrações 
de grelina estão reduzidas. Nesse sentido, uma revisão sistemática avaliou 14 
estudos que compararam uma dieta alta em proteínas com pelo menos um outro 
macronutriente sobre a saciedade, e 11 desses estudos descobriram que a 
refeição com mais proteína aumentou significativamente as avaliações 
subjetivas de saciedade. Por exemplo, em um desses estudos, 16 homens 
consumiram um café da manhã que continham 60% de gordura, proteína, 
carboidrato ou uma mistura dos três. Os indivíduos ficaram mais saciados após 
as refeições com alto teor de proteínas e mistas em comparação com as 
refeições altas em gorduras e altas em carboidratos. 
Não há dúvidas que o aumento da ingestão de proteínas acima da RDA 
seja uma importante estratégia nutricional no processo de emagrecimento, 
principalmente por auxiliar na manutenção da massa muscular e no controle do 
apetite. As proteínas não devem ser consumidas pensando em efeito térmico e 
sim em saciedade. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
85 
 
4.7.2 PROTEÍNAS E COMPOSIÇÃO CORPORAL 
Durante o processo de emagrecimento, o ajuste proteico torna-se muito 
importante. Dietas hipocalóricas e com baixos teores de carboidratos aumentam 
o catabolismo muscular e aumentar o consumo proteico é uma das formas de 
amenizá-lo (em conjunto com um déficit não muito agressivo). Em uma dieta 
reduzida em calorias e carboidratos, as proteínas musculares podem ser 
degradas para síntese de glicose e de energia, embora esse último seja 
fornecido principalmente pelos ácidos graxos oriundos da lipólise. Portanto, a 
necessidade de proteína aumenta à medida que o déficit calórico aumenta. 
Nesse sentido, um estudo publicado em 2013 buscou avaliar diferentes teores 
de proteínana composição corporal durante uma dieta hipocalórica por 31 dias. 
As quantidades de proteínas foram 0,8 g/kg (quantidade recomendada pela 
RDA), 1,6 g/kg (2 x RDA) e 2,4 g/kg (3 x RDA). Foi mostrado que todos os grupos 
perderam peso, entretanto, a proporção de perda de massa gorda foi maior no 
grupo que consumiu 2 e 3 vezes a RDA, da mesma forma que a perda de massa 
livre de gordura foi menor. 
De forma semelhante, em 2005 foi publicado outro um artigo comparando 
duas dietas hipocalóricas em conjunto com exercícios sobre a composição 
corporal por um período de 4 meses. As dietas eram iguais em quantidade 
calórica (1700kcal/dia) e lipídeos (30%), mas diferiam na quantidade de 
carboidratos (< 1,5 g/kg vs > 3,5 g/kg) e proteínas (0,8 g/kg vs 1,6 g/kg). As 
comparações de exercícios foram atividades cotidianas (controle) e um 
programa de treinamento supervisionado (5 dias por semana caminhada e 2 dias 
por semana treinamento de força). O grupo alto em proteína e exercício perdeu 
mais peso corporal total e mais massa gorda, em conjunto com uma menor perda 
de massa magra, do que os grupos que consumiram a dieta mais alta em 
carboidratos e o grupo que consumiu a dieta mais alta em carboidratos em 
conjunto com exercício. Portanto, uma dieta alta em proteínas em combinação 
com exercícios, principalmente exercícios resistidos, melhora a composição 
corporal. 
É muito difundido acerca do excesso de proteínas ser ou não ser 
convertido em gordura. Para as proteínas se transformarem em gorduras, os 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
86 
 
aminoácidos precisam ser, primeiramente, convertidos em intermediários do 
ciclo de Krebs (os intermediários do ciclo de Krebs não apresentam nitrogênio 
em suas estruturas químicas). Nesse processo, há a retirada dos grupamentos 
aminos, que serão eliminados no ciclo da ureia, contribuindo para o aumento do 
gasto energético pela maior utilização de ATP. Há alguns trabalhos publicados 
na ISSN mostrando que o excesso de calorias advindo exclusivamente de 
proteínas não contribui para o ganho de gordura corporal. Entretanto, são 
estudos publicados na mesma revista e pelo mesmo autor, com um péssimo 
controle dietético, apresentando muitos vieses metodológicos. Certamente não 
podemos afirmar que o excesso de proteínas terá as mesmas repercussões que 
o excesso de carboidratos ou que o excesso de gorduras, entretanto, não 
podemos afirmar que o excesso de proteínas é inofensivo. O excesso de 
proteínas pode sim ser transformado em gordura, mas se esse fato irá ou não 
impactar na composição corporal irá depender da quantidade consumida. Além 
disso, na maioria das vezes não consumimos alimentos contendo apenas 
proteínas. Carnes, por exemplo, irão apresentar gorduras em sua composição, 
whey protein pode apresentar um pouco de carboidratos etc. Em uma dieta com 
superávit calórico, não há motivos para deixar a proteína elevada, justamente 
porque há menor necessidade de proteínas pela menor degradação proteica. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
87 
 
REFERÊNCIAS 
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Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
89 
 
5 
CICLO DE KREBS 
 
Todos os macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídeos) podem ser 
transformados em acetil-CoA. Entretanto, a glicose é a única molécula capaz de 
gerar energia tanto em condições aeróbicas (com presença de oxigênio), quanto 
anaeróbicas (sem presença de oxigênio). Nesse sentido, após a glicose entrar 
na célula, ela pode tomar diferentes destinos, conforme estudado no capítulo 2, 
e quando não for utilizada para síntese de glicogênio, é degrada na glicólise até 
resultar na molécula de piruvato, a qual pode apresentar dois destinos: 
transformar-se em lactato (glicólise anaeróbica) ou em acetil-CoA (glicólise 
aeróbica). O lactato é formado quando não há disponibilidade de oxigênio 
(células sem mitocôndrias) ou em condições de baixa disponibilidade (exercício 
físico intenso). Por outro lado, o acetil-CoA é gerado na mitocôndria após o 
piruvato passar pelo complexo da piruvato desidrogenase (conjunto de enzimas 
responsáveis por transformar piruvato em acetil-CoA), sendo necessário a 
presença de oxigênio. É por esse motivo que tecidos sem mitocôndria 
(eritrócitos, medula renal e retina) dependem da glicólise anaeróbica. Dessa 
forma, embora existam tecidos que utilizem tanto a via aeróbia quanto a 
anaeróbica (por exemplo, tecido muscular), há tecidos que dependem 
unicamente da glicólise anaeróbica para geração de energia. Todavia, a glicólise 
anaeróbica fornece apenas 2 moléculas de ATP, sendo que maior parte é 
fornecido após a geração do acetil-CoA na mitocôndria. Portanto, iremos estudar 
neste capítulo o destino do acetil-CoA independentemente de ter sido gerado por 
carboidratos (glicose), proteínas (aminoácidos) ou lipídeos (ácidos graxos). 
O acetil-CoA é a forma na qual os macronutrientes entram no ciclo de 
Krebs (com exceção de alguns aminoácidos, que geram outros intermediários 
do ciclo de Krebs, como oxalacetato, succinil-CoA e α-cetoglutarato). Entretanto, 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
90 
 
embora todos possam gerar acetil-CoA, a forma de gerá-lo é diferente. A glicose, 
primeiramente, precisa ser transformada em piruvato no citosol, que depois será 
levado até a mitocôndria para sofrer a ação do complexo da piruvato 
desidrogenase, gerando, finalmente, a molécula de acetil-CoA. Os ácidos 
graxos, após entrarem na mitocôndria pelo transportador carnitina, irão sofrer 
várias remoções sucessivas de dois carbonos, gerando o acetil-CoA. 
Dessa forma, uma vez na mitocôndria, o acetil-CoA, gerado pelos 
macronutrientes, está pronto para ser oxidado no ciclo de Krebs (Figura5.1). 
Você não precisa, necessariamente, decorar as reações do ciclo, apenas 
entender alguns pontos chaves explicados a seguir. Após comermos 
determinados alimentos contendo carboidratos, proteínas e lipídeos, o nosso 
corpo irá degradá-los em glicose, aminoácidos e ácidos graxos, que serão 
utilizados para formação de acetil-CoA. O acetil-CoA, por sua vez, dará início ao 
ciclo de Krebs no interior das mitocôndrias. O principal objetivo do ciclo é coletar 
elétrons dos intermediários gerados na forma de NADH e FADH2 (carreadores 
de elétrons), uma vez que eles serão indispensáveis para que ocorra a produção 
de ATP na cadeia respiratória, etapa subsequente. 
Nesse sentido, ao longo do ciclo há a formação de vários intermediários 
(isocitrato, α-cetoglutarato, succinato, malato) que vão sendo oxidados por 
enzimas diferentes a fim de formarem ATP, NADH, FADH2 e CO2. Três 
moléculas de NADH, uma molécula de FADH2, uma molécula de ATP e duas 
moléculas de CO2 são gerados a cada volta no ciclo. Os NADH e o FADH2 
formados irão para a cadeia respiratória, o ATP será utilizado como energia e o 
CO2 será levado aos pulmões para ser expelido pela respiração (agora você 
entende por que não faz sentido aumentar a quantidade de suor objetivando 
perder mais gordura corporal, uma vez que a gordura armazenada, os 
triglicerídeos, apenas será eliminada após passar por todas essas etapas do 
ciclo, sendo que o CO2 é apenas a forma de expeli-la). Portanto, o objetivo do 
nosso corpo após comermos alimentos é extrair seus elétrons, que serão 
coletados na forma de NADH e FADH2, os quais serão utilizados na cadeia 
respiratória para produção de ATP, energia. Nesse sentido, a oxidação de NADH 
e FADH2 pela cadeia respiratória resulta respectivamente em 2,5 ATP e 1,5 ATP 
para cada molécula de NADH e FADH2. Sendo assim, considerando que cada 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
91 
 
volta do ciclo de Krebs gera 1 ATP, 3 NADH e 1 FADH2, a oxidação de uma 
molécula de acetil-Coa resulta em 10 ATPs. 
 
 
Figura 5.1 - A degradação de carboidratos, proteínas e triacilgliceróis resulta em glicose, 
aminoácidos e ácidos graxos, respectivamente, e o catabolismo dessas moléculas pode 
produzir acetil-Coa, que entra no ciclo de Krebs para ser oxidado e produzir ATP. O ciclo 
de Krebs é um conjunto de reações químicas que acontece na mitocôndria das células 
e tem início quando o acetil-Coa se combina com o oxaloacetato. O ciclo de Krebs tem 
início com a formação do citrato. Os ácidos graxos só fornecem acetil-Coa, enquanto 
carboidratos e proteínas podem contribuir com a formação de outros intermediários do 
ciclo. 
 
Tratando-se da glicose, a glicólise aeróbia resulta na produção de 2 ATPs 
e 2 NADH pela conversão da glicose em 2 moléculas de piruvato e mais 1 NADH 
e 1 acetil-Coa pela conversão de cada piruvato em acetil-Coa pelo complexo da 
piruvato-desidrogenase (lembrem que a cada molécula de glicose, duas 
moléculas de piruvato são formadas). O resultado, então, da glicólise aeróbia é 
2 ATPs, 4 NADH e 2 moléculas de acetil-Coa. Como a oxidação de 4 NADH pela 
cadeia respiratória gera 10 ATPs (4 x 2,5) e a oxidação de cada acetil-Coa 
também gera 10 ATPs, o resultado da glicólise aeróbia é a produção de 32 ATPs 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
92 
 
(2 ATPs + 4 NADH + 2 acetil-Coa), conforme ilustrado na figura 5.2. Por isso 
fala-se que a maior produção de ATP pela oxidação da glicose ocorre quando 
há a presença de oxigênio. 
 
Figura 5.2 – O saldo final da glicólise aeróbica são 32 moléculas de ATP. Cada molécula 
de glicose gera 2 moléculas de piruvato, e essa reação resulta na produção de 2 ATP e 
2 NADH. As 2 moléculas de piruvato formadas são transformadas em 2 moléculas de 
acetil-CoA, com produção de 2 NADH. As moléculas de acetil-CoA entram no ciclo de 
Krebs e a cada volta no ciclo, há a formação de 3 NADH, 1 FADH2 e 2 ATP 
(considerando que são 2 moléculas de acetil-CoA, há formação de 6 NADH, 2 FADH2 e 
4 ATP). Considerando que cada molécula de NADH gera 2,5 ATP e cada molécula de 
FADH2, 1,5 ATP, o resultado é 32 moléculas de ATP a cada molécula de glicose. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
93 
 
REFERÊNCIAS 
FERRIER, Denise R. Bioquímica Ilustrada-7. Artmed Editora, 2018. 
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Marks-Uma abordagem Clínica. Artmed, 2007. 
NELSON, David L.; COX, Michael M. Princípios de Bioquímica de Lehninger-7. 
Artmed Editora, 2018. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
94 
 
6 
FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA 
 
Estudamos no capítulo anterior que todos os macronutrientes 
(carboidratos, proteínas e lipídeos) podem gerar acetil-CoA, que por sua vez 
entra no ciclo de Krebs a fim de formar CO2, ATP, NADH e FADH2. Os dois 
últimos, em particular, irão participar da cadeia respiratória, ou fosforilação 
oxidativa. A cadeia respiratória ocorre dentro da mitocôndria e é responsável 
pela maior produção de ATP advinda dos alimentos e, como o próprio nome 
sugere, não acontece sem a presença de oxigênio. 
Primeiramente, precisamos relembrar que o NADH e o FADH2 são 
carreadores de elétrons. Nesse sentido, os alimentos apresentam elétrons em 
sua composição, que serão doados ao NAD+ e ao FAD+, formando NADH e 
FADH2. Logo, será a retirada desses elétrons, na cadeia respiratória, que 
impulsionará a geração de energia (ATP) a fim de suprir as funções corporais. 
Dessa forma, vamos compreender, de maneira geral, como ocorre a cadeia 
respiratória. 
A mitocôndria contém duas membranas, a interna e a externa, sendo que 
a primeira separa o espaço intermembrana da matriz e a segunda, o espaço 
intermembrana do citosol. Sabe-se que o ciclo de Krebs ocorre na matriz 
mitocondrial e que gera os carreadores NADH e FADH2, responsáveis por levar 
os elétrons a uma série de transportadores de elétrons, denominado de cadeia 
respiratória. Dessa forma, a cadeia respiratória apresenta uma série de 
carreadores de elétrons localizados na membrana mitocondrial interna, sendo 
que cada carreador recebe elétrons e, então, os doa para o próximo carreador, 
gerando um fluxo de elétrons, até chegar ao seu aceptor final, o oxigênio, com 
formação de água (por esse motivo que a cadeia respiratória é também 
denominada de cadeia transportadora de elétrons). Além disso, esse fluxo de 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
95 
 
elétrons fornece energia para que prótons (H+) sejam bombeadas da matriz para 
o espaço intermembrana, sendo que será o retorno desses prótons a matriz que 
impulsionará a síntese de ATP (Figura 6.1). Esses carreadores estão localizados 
em complexos proteicos inseridos na membrana mitocondrial interna, chamados 
de complexo I, complexo II, complexo III e complexo IV. 
 
Figura 6.1 – Cadeia respiratória. 
 
• Saldo 
Já sabemos que a maior produção de ATP ocorre na cadeia respiratória, 
porém, de quantos ATPs estamos falando? A oxidação de NADH e FADH2 pela 
cadeia transportadora de elétrons resulta respectivamente em 2,5 ATP e 1,5 ATP 
para cada molécula. Como cada volta do ciclo de Krebs gera 1 ATP, 3 NADH e 
1 FADH2, a oxidação de uma molécula de acetil-CoA resulta em 10 ATPs. 
Entretanto, a quantidade de NADH e FADH2 gerada será diferente a depender 
do macronutriente oxidado, portanto, a quantidade de ATP também será 
diferente. Por exemplo, a oxidação de uma molécula de glicose gera 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
96 
 
aproximadamente 32 moléculas de ATP e a oxidação de um ácido graxo 
saturado de 16 carbonos (ácido palmítico), gera aproximadamente108 
moléculas de ATP. Esses ATPs produzidos podem ser convertidos em trabalho 
biológico pela célula, por exemplo, transporte de íons, síntese de 
macromoléculas (proteínas, lipídeos, ácidos nucleicos), contração muscular etc. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
97 
 
REFERÊNCIAS 
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Marks-Uma abordagem Clínica. Artmed, 2007. 
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Artmed Editora, 2018. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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98 
 
7 
MECANISMOS REGULATÓRIOS DA FOME E 
DA SACIEDADE 
 
Em concordância com o título deste e-book, o emagrecimento vai muito 
além de déficit calórico. É comumente ouvirmos diariamente de profissionais da 
saúde ou de blogueiras que “emagrecimento é déficit calórico” ou que “para 
emagrecer basta apenas comer menos e gastar mais”. De fato, o déficit calórico 
é essencial, uma vez que as reservas de gordura só serão mobilizadas e 
oxidadas quando houver privação de energia. Entretanto, o processo de 
emagrecimento é complexo e há diversos outros fatores que devem ser levados 
em consideração, conforme explicado ao longo deste tópico. 
 Dessa forma, precisamos entender quais são os mecanismos 
responsáveis pela regulação da fome e da saciedade. O hipotálamo é o 
responsável por regular o apetite. O hipotálamo é localizado no cérebro e 
apresenta vários núcleos que regimentam diversas funções tanto cerebrais 
quanto endócrinas. Nesse sentido, o núcleo arqueado, localizado no hipotálamo, 
apresenta neurônios anorexígenos e neurônios orexígenos. O primeiro está 
associado à supressão do apetite e o segundo, ao aumento do apetite. Dessa 
forma, os neurônios orexígenos compreendem o AgRP (proteína relacionada 
à agouti) e o NPY (neuropeptídeo YY) e os neurônios anorexígenos 
compreendem o POMC (proopiomelanocortina) e CART (transcrito de cafeína e 
anfetamina). 
Você pode estar se perguntando: como que esses neurônios são ativados 
e como que eles regulam o estímulo ou a supressão do apetite? O núcleo 
arqueado recebe informações de diversos órgãos do corpo, como do intestino, 
do estômago e do tecido adiposo. Esses órgãos secretam hormônios ou 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
99 
 
peptídeos que atuam ativando ou inativando os neurônios orexígenos e 
anorexígenos, conforme explicado abaixo. 
A grelina, secretada pelo estômago, atua no aumento do consumo 
alimentar (efeito orexígeno) ao ativar NPY e AgRP, e é liberada, principalmente, 
quando há aumento do esvaziamento gástrico. Por esse e outros motivos que 
pode ser interessante focar em alimentos que apresentam uma menor densidade 
calórica (quando o objetivo é emagrecimento e aumentar a saciedade). Imagine 
que você consumiu 300g de vegetais (alface, tomate, cenoura, brócolis, couve 
etc.) ou 300g de chocolate, qual ocupará um volume maior no estômago? Com 
certeza os vegetais. Dessa forma, optar por alimentos que apresentam uma 
densidade calórica menor irá proporcionar uma saciedade maior devido ao maior 
volume alimentar consumido. 
O intestino, por outro lado, secreta os hormônios GLP-1, peptídeo YY 
(PYY) e GIP (peptídeo dependente de glicose), que atuam inibindo e controlando 
o consumo de alimentos (efeito anorexígeno) por meio da inibição de NPY e 
AgRP e ativação de POMC e CART. Além disso, a colecistoquinina (CCK), 
secretada pelo intestino em resposta a ingestão de proteínas e gorduras, atua 
retardando o esvaziamento gástrico e controlando a fome. O tecido adiposo 
também secreta hormônios, sendo o principal a leptina. A leptina é responsável 
por controlar a fome ao inibir NPY e AgRP e ativar POMC e CART (conforme 
será visto ao longo deste e-book, indivíduos com obesidade e com sobrepeso 
apresentam resistência à leptina). E, por último, ao contrário do que muitas 
pessoas acreditam, o hormônio insulina atua inibindo a fome e esse é um dos 
motivos pelo qual pessoas com resistência à insulina apresentam menos efeitos 
sobre a supressão da ingestão alimentar. 
 Portanto, podemos observar que há diferentes órgãos se comunicando 
com o sistema nervoso central com o objetivo de aumentar ou suprimir a ingestão 
alimentar. Esses processos regulatórios são essenciais e embora atrele-se o 
aumento do consumo alimentar ao ganho de peso, o efeito orexígeno é um 
processo fisiológico normal, pois permite que com que o organismo obtenha 
energia quando há privação. O grande problema é que pessoas com sobrepeso 
e com obesidade apresentam os mecanismos descritos acima alterados. Por 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
100 
 
exemplo, a resistência a leptina e a insulina prejudicam a sinalização da 
saciedade, fazendo com que a ingestão alimentar se torne maior. O tópico 
seguinte irá explicá-las em maiores detalhes. 
Observação: Saciedade é diferente de saciação. A saciação ocorre logo entre 
o início e o final do consumo de alimentos e é caracterizada pela sensação de 
distensão gástrica. A saciedade, por outro lado, ocorre no intervalo entre uma 
refeição e outra, na qual o indivíduo não tem percepção de apetite aumentado. 
Tabela 7.1 – Hormônios que controlam a ingestão alimentar por meio da sinalização no 
núcleo arqueado do hipotálamo. 
 
 
 
Figura 7.1. Regulação da fome e da saciedade no hipotálamo pelos hormônios leptina, 
insulina e grelina. A leptina (secretada pelo tecido adiposo) e a insulina (secretada pelo 
pâncreas) controlam o apetite atuando no hipotálamo, inibindo neurônios que secretam 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
101 
 
peptídeos orexígenos (NPY, AgRP) e estimulando neurônios que secretam peptídeos 
anorexígenos (POMC, CART). A grelina, secretada pelo estômago, estimula a liberação 
de NPY e AgRP no hipotálamo, aumentando a fome. 
 
 
7.1 RESISTÊNCIA À INSULINA 
Conforme mencionado no tópico anterior, indivíduos obesos e/ou com 
sobrepeso apresentam respostas alteradas de fome e saciedade, dificultando o 
processo de emagrecimento e facilitando o de ganho de peso. A principal 
condição associada à obesidade e/ou sobrepeso é a resistência à insulina, termo 
que geralmente remete a incapacidade do hormônio insulina de manter a 
homeostase da glicose. Entretanto, precisamos ter em mente que embora essa 
condição ocorra principalmente em indivíduos com sobrepeso e obesidade, 
também pode estar presente em indivíduos eutróficos, principalmente naqueles 
que apresentam uma distribuição de gordura predominantemente na região 
central. Para entendermos como ocorre e quais são os impactos da resistência 
à insulina, precisamos entender, primeiramente, como ocorre a cascata de 
sinalização da insulina em indivíduos sensíveis a ela. 
A insulina é secretada pelas células beta pancreáticas em resposta 
principalmente à ingestão de carboidratos. Conforme já mencionado ao longo 
deste ebook, o estímulo a liberação de insulina também pode ocorrer com 
proteínas e em menor magnitude, com lipídeos. Entretanto, considerando que o 
carboidrato é o seu principal estimulador, iremos basear nossa explicação a 
partir dele. Quando consumimos arroz, por exemplo, que contém amido 
(polissacarídeo composto por diversas moléculas de glicose), diferentes enzimas 
presentes ao longo do trato gastrointestinal atuam com o objetivo de degradá-lo 
em seus monossacarídeos correspondentes (moléculas de glicose) para serem 
absorvidos pelo intestino delgado e direcionados à circulação. Uma vez na 
circulação, as moléculas de glicose passam por vários órgãos (imagine que você 
estáviajando de carro pelo estado de Santa Catarina e durante esse percurso 
passa por diversas cidades. O estado de SC refere-se à circulação, você a 
molécula de glicose e as cidades, aos órgãos). Dessa forma, a glicose é captada 
pelas células pelos transportadores GLUTs. Conforme já explicado, há tecidos 
dependentes e independentes de insulina. O pâncreas apresenta o transportador 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
102 
 
GLUT-2, sendo independente de insulina. Ao ser captada pelo pâncreas, a 
glicose é fosforilada pela enzima hexoquinase para produção de glicose-6-
fosfato, que por sua vez será oxidada na glicólise e no ciclo de Krebs, resultando 
na produção de ATP. O aumento na razão ATP/ADP, ocasionada pela oxidação 
da glicose, desencadeia o fechamento de canais de potássio na membrana das 
células pancreáticas, despolarizando-a. Como resultado da despolarização da 
membrana, os canais de cálcio abrem-se, permitindo o influxo de cálcio para 
dentro da célula. Dessa forma, a concentração elevada de cálcio intracelular 
provoca a liberação de insulina, que estava armazenada em grânulos. A figura 
7.2 ilustra o mecanismo de liberação de insulina. 
 
 
Figura 7.2 – Liberação de insulina pelo pâncreas. 
 
A insulina, ao ser liberada, consegue se ligar a receptores presentes na 
membrana plasmática das células para desempenhar suas ações. Dessa forma, 
a insulina liga-se a receptores chamados de receptores de insulina (RI), 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
103 
 
desencadeando a fosforilação da tirosina, aminoácido presente nas proteínas do 
receptor (o receptor é uma proteína, logo, é composto por diversos aminoácidos). 
Com isso, há ativação da via PI3 quinase, que promove a ativação de AKT para 
desencadear vários efeitos intracelulares, como translocação de GLUT-4, 
estímulo à síntese de glicogênio, inibição da gliconeogênese e estímulo a 
lipogênese. Nesse sentido, a insulina pode se ligar a receptores presentes em 
diferentes tipos de células, como fígado, tecido muscular, tecido adiposo e 
cérebro. No fígado, a insulina promove a ativação da enzima glicogênio sintase, 
responsável pela síntese de glicogênio e inibe a gliconeogênese, processo de 
formação de glicose a partir de compostos não glicídicos, como aminoácidos, 
glicerol e lactato. Esse fato impede com que haja síntese de glicose quando já 
há quantidades suficientes na corrente sanguínea, evitando hiperglicemia. No 
tecido muscular, a insulina promove a ativação da enzima glicogênio sintase e a 
translocação de GLUT-4 (lembrem que o tecido muscular é sensível à insulina). 
Ambos favorecem a captação de glicose pela célula muscular e, portanto, a 
normalização da glicemia. No tecido adiposo, a insulina promove a captação de 
glicose e de ácidos graxos e a inibição da lipólise (insulina inibe a enzima lipase 
hormônio sensível, responsável por hidrolisar os triglicerídeos em ácidos graxos 
e glicerol). A captação de glicose ocorre pela translocação de GLUT-4 e a de 
ácidos graxos, pela ativação da enzima lipase lipoproteica. Dessa forma, a 
insulina atua no tecido adiposo favorecendo a captação e a síntese de 
triglicerídeos, enquanto inibe a lipólise (esse fato impede um ciclo fútil, que seria 
a síntese e a degradação de triglicerídeos). Por último, a insulina atua no sistema 
nervoso central, estimulando neurônios anorexígenos e controlando o peso 
corporal. 
Portanto, podemos observar que após a insulina ser liberada e ligar-se 
aos seus receptores, diversos sinais intracelulares são desencadeados, 
promovendo a captação de glicose, de ácidos graxos, inibindo a gliconeogênese 
e promovendo saciedade. Em pessoas sensíveis à insulina, essas respostas 
ocorrem de forma rápida e eficiente, enquanto em indivíduos resistentes a 
insulina, esses processos encontram-se prejudicados, conforme explicado na 
sequência. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
104 
 
 
Figura 7.3 – A insulina se liga em seus receptores e promove diferentes ações a 
depender do tecido. No tecido adiposo, a insulina inibe a lipólise e estimula a captação 
de glicose e de ácidos graxos. Ao diminuir a lipólise, há diminuição no fluxo de ácidos 
graxos e glicerol ao fígado. Os ácidos graxos, uma vez convertidos em acetil-CoA, 
atuam estimulando a gliconeogênese no fígado ao ativar a enzima piruvato carboxilase 
(PC), que catalisa a primeira etapa da gliconeogênese hepática. Em adição, o glicerol é 
um substrato para a gliconeogênese. Além disso, a insulina no fígado promove a inibição 
de gliconeogênese por inibir o fator de transcrição FOXO, responsável por sintetizar 
enzimas gliconeogênicas. No fígado, a insulina também promove aumento na síntese 
de glicogênio por ativar a enzima glicogênio sintase. No tecido muscular, a insulina 
promove a captação de glicose e o estímulo a síntese de glicogênio (SANTORO et al., 
2022). 
 
A resistência à insulina representa um processo chave no 
desenvolvimento do diabetes mellitus tipo 2. Vocês já devem ter observado que 
há indivíduos resistentes à insulina com a glicemia normal. Esse fato ocorre 
porque no estágio pré-diabetes, o pâncreas secreta uma grande quantidade de 
insulina para normalizar os níveis de glicose circulantes (o paciente sensível a 
insulina precisa de uma quantidade muito menor de insulina para que a glicose 
seja captada pelas células eficientemente, enquanto o paciente resistente a 
insulina precisa de uma quantidade muito maior de insulina para ter a mesma 
captação). Nesse sentido, é comumente observamos exames de sangue com a 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
105 
 
glicemia normal e a insulina elevada, indicando que a glicemia foi normalizada 
às custas de uma grande liberação de insulina. Entretanto, com o passar o 
tempo, as células β pancreáticas falham em secretar insulina e tem-se o 
desenvolvimento do DM2. 
Nesse sentido, em indivíduos com resistência à insulina e/ou com 
diabetes, a insulina falha em desempenhar suas funções adequadamente e, 
consequentemente, diversos tecidos apresentam suas funções comprometidas. 
No fígado, a insulina falha em inibir a gliconeogênese (produção hepática 
de glicose). Como consequência, tem-se hiperglicemia, pois além da glicose ser 
ofertada pela alimentação, ela é sintetizada endogenamente a partir de 
compostos que não são carboidratos. Esse fato ocorre porque a insulina é o 
hormônio mensageiro que avisa o fígado “não precisa sintetizar glicose, já tem 
quantidades suficientes circulantes”. Considerando que a insulina não conseguiu 
avisá-lo de maneira adequada, a produção hepática de glicose não é inibida, 
resultando em hiperglicemia e hiperinsulinemia. Esse último é caracterizado 
como a secreção excessiva de insulina na circulação pelas células beta 
(lembrem que é necessária uma grande quantidade de insulina para que a 
glicose seja captada em indivíduos resistentes a insulina). Sabe-se que o 
pâncreas secreta insulina em resposta aos níveis circulantes de glicose, 
considerando que a glicose não foi captada eficientemente pelas células e que 
o fígado a produziu (hiperglicemia), o pâncreas continua liberando insulina (é 
como se ele pensasse “o que está acontecendo? Eu libero insulina e a glicose 
continua elevada? vou liberar ainda mais”, entretanto, chega um momento em 
que o pâncreas se cansa e para de produzi-la). Além disso, a resistência à 
insulina prejudica a ativação da enzima glicogênio sintase, comprometendo o 
armazenando de glicose na forma de glicogênio hepático e aumentando a sua 
degradação. Por último, há um aumento na produção de corpos cetônicos 
(lembrem que os corpos cetônicos são produzidos pelo fígado) e diminuição da 
exportação de triglicerídeos na forma de VLDL, contribuindo para esteatose 
hepática. 
No musculo esquelético, a resistência à insulina prejudica a captação de 
glicose e a glicogênese.Lembrem que o tecido muscular apresenta GLUT-4, 
sendo dependente de insulina. Considerando que a insulina não consegue ativar 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
106 
 
adequadamente vias intracelulares (PI3K/AKT), a translocação de GLUT-4 não 
ocorre, ou ocorre ineficientemente. Sabe-se que o tecido muscular apresenta um 
papel significativo na normalização dos níveis de glicose, sendo assim, a 
glicemia permanece elevada e tem-se um quadro de hiperglicemia e 
hiperinsulinemia. Além disso, há aumento na degradação das proteínas 
musculares para serem utilizados como substratos na gliconeogênese (lembrem 
que o fígado aumenta a produção hepática de glicose principalmente a partir da 
degradação de proteínas), uma vez que a insulina é um hormônio anticatólico. 
No tecido adiposo, a insulina age estimulando a captação de glicose e de 
ácidos graxos e inibindo a lipólise. O tecido adiposo apresenta GLUT-4, 
dependente de insulina, logo, indivíduos resistências a insulina apresentam 
captação prejudicada de glicose pelas células adiposas. A insulina também ativa 
a enzima lipase lipoproteica (LPL), responsável por hidrolisar os triglicerídeos 
das lipoproteínas em ácidos graxos e glicerol, os ácidos graxos são captados 
pelo tecido adiposo e o glicerol é captado pelo fígado. Considerando um 
indivíduo resistência à insulina, a captação de ácidos graxos encontra-se 
prejudicada. Além disso, a insulina inibe a enzima lipase hormônio sensível, 
responsável por hidrolisar os triglicerídeos armazenados no tecido adiposo em 
ácidos graxos e glicerol (lembrem que os ácidos graxos são transportados ao 
sangue pela albumina). Indivíduos resistentes à insulina apresentam lipólise 
aumentada e, portanto, excesso de ácidos graxos livres na circulação. Embora 
muitas pessoas associem lipólise a emagrecimento, o excesso de lipólise nesses 
indivíduos é prejudicial, pois não há aumento da oxidação. Nesse sentido, a 
liberação de ácidos graxos livres pode ser o fator mais crítico na modulação da 
sensibilidade à insulina. Níveis aumentados de ácidos graxos livres são 
observados na obesidade e diabetes tipo 2, e estão associados à resistência à 
insulina observada em ambos (os ácidos graxos livres podem se ligar aos 
receptores de insulina, prejudicando sua sinalização). Além disso, esses ácidos 
graxos podem ser enviados ao fígado para formarem novamente triglicerídeos. 
Esse processo pode resultar na formação de diacilglicerol (dois ácidos graxos 
ligados a uma molécula de glicerol), que por sua vez, ativa a cascata 
serina/treonina, levando a fosforilação de serina/treonina no receptor de insulina 
(lembrem que ele deve ser fosforilado no aminoácido tirosina). Como 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
107 
 
consequência, os efeitos a jusante da cascata de sinalização da insulina são 
diminuídos. 
Além disso, a resistência à insulina prejudica o controle da ingestão 
alimentar. Sabe-se que os neurônios POMC, bem como AgRP e NPY 
apresentam receptores de insulina no hipotálamo. Nesse sentido, no núcleo 
arqueado do hipotálamo, os neurônios anorexígenos, POMC e CART, são 
relacionados a supressão da ingestão alimentar, enquanto os orexígenos, ArRP 
e NPY, ao estímulo da ingestão alimentar. Os neurônios que expressam POMC 
liberam o hormônio estimulador de melanócitos α (α-MSH) que atua nos 
receptores de malanocortina 4 (MC4R) em neurônios que são responsáveis por 
reduzir a ingestão alimentar e aumentar o gasto energético. Por outro lado, a 
ativação dos neurônios AgRP / NPY induz a alimentação e reduz o gasto de 
energia (Figura 7.4). Dessa forma, observem que a insulina atua no SNC 
reduzindo a ingestão alimentar e controlando o peso corporal. Em indivíduos 
resistentes à insulina, a insulina falha em reduzir a ingestão alimentar esse é um 
dos motivos pelos quais esses pacientes apresentam aumento da fome e, 
portanto, da ingestão alimentar. 
Portanto, o indivíduo obeso não come mais apenas porque alimentos 
ultraprocessados dificultam o controle do apetite, mas também porque ele está 
propenso a sentir mais fome devido a resistência à insulina e à leptina (a 
resistência à leptina será explicada no tópico seguinte). 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
108 
 
 
Figura 7.4 – Controle da ingestão alimentar em indivíduos magros e obesos. Os 
neurônios que expressam POMC liberam o hormônio estimulador de α-melanócitos (α-
MSH), produto de clivagem de POMC, que atua nos receptores de melanocortina 4 
(MC4R) em neurônios-alvo a jusante para reduzir a ingestão de alimentos, aumentar o 
gasto de energia e regular o metabolismo da glicose. Em contraste, a ativação de 
neurônios AgRP/NPY induz a alimentação e reduz o gasto de energia. Tanto os 
receptores de insulina quanto os de leptina são expressos nos neurônios POMC e 
AgRP/NPY. Dessa forma, indivíduos obesos resistentes à insulina, há prejuízo da 
insulina em sinalizar a supressão da ingestão alimentar (BRUNING, 2012). 
 
A Figura 7.5 resume todos os processos que podem ocorrer em indivíduos 
com obesidade e diabetes tipo 2 (lembrem: chegará um momento em que o 
pâncreas irá se cansar de liberar muita insulina e com isso irá parar de produzi-
la). A diminuição da liberação de insulina pelo pâncreas pode ocasionar 
desregulação nos níveis de glicose, diminuindo a supressão da gliconeogênese 
no fígado e reduzindo a eficiência de captação de glicose em tecidos sensíveis 
à insulina (músculo e tecido adiposo). A diminuição da insulina também pode 
prejudicar o metabolismo dos adipócitos, aumentando a lipólise e os níveis de 
ácidos graxos circulantes. Elevação tanto de glicose quanto de ácidos graxos 
podem ocorrer simultaneamente e, juntos, são mais deletérios para a saúde das 
ilhotas pancreáticas do que eles isoladamente. Dessa forma, o processo de 
diabetes avança de maneira lenta. Além disso, há diminuição na sinalização da 
insulina no hipotálamo, levando ao aumento da ingestão de alimentos e ganho 
de peso. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
109 
 
 
 
Figura 7.5 - Papel crítico da liberação prejudicada de insulina na relação de obesidade 
com resistência à insulina e diabetes tipo 2. 
 
Além disso, a obesidade contribui para o quadro de resistência à insulina 
de diversas maneiras. Sabe-se que o ganho de peso é resultante de um balanço 
calórico positivo. Cronicamente, o balanço calórico positivo contribui para o 
excesso de gordura corporal e embora a gordura corporal não seja desejável 
para grande maioria das pessoas, por questões estéticas, o tecido adiposo, além 
de apresentar funções importantes ao organismo, é um local fisiológico para 
armazenamento de triglicerídeos. Dessa forma, é preferível que ocorra acúmulo 
de gordura no tecido adiposo do que em outros tecidos, como fígado, pâncreas, 
tecido muscular e cardíaco. Em visto disto, o tecido adiposo previne uma 
lipotoxicidade que poderia vir a ocorrer em outros tecidos, a questão, 
obviamente, está no excesso de triglicerídeos estocados no tecido adiposo. 
Quando há aumento do peso e da gordura corporal, o tecido adiposo sobre tanto 
hipertrofia (aumento de tamanho) quanto hiperplasia (aumento do número). Com 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
110 
 
isso, há infiltração de células imunes, como macrófagos, responsáveis por 
secretar mediadores inflamatórios (TNF-α, IL-6), que prejudicam a sinalização 
da cascata da insulina por meio da fosforilação do aminoácido serina no receptor 
de insulina (o receptor de insulina deve ser fosforilado no aminoácido tirosina). 
O processo de obesidade, ainda, está associado a um processo 
inflamatório. Há vários fatores envolvendo a inflamação, incluindo um aumento 
de citocinas inflamatórias. As citocinas inflamatórias, como TNF-α e IL-6 podem 
se ligar a receptores presente na membrana plasmática das célulasadiposas e 
musculares e desencadearem a ativação de uma proteína intracelular, a IKK, 
que fosforila o complexo IKB-NFKB. Ao ser fosforilado, há uma dissociação do 
IKB e do NFKB. O NFKB é um fator de transcrição e após ser liberado da IKB, é 
migrado ao núcleo da célula para impedir, por exemplo, a síntese do gene 
Slc2A4, responsável pela produção de GLUT-4. Dessa forma, a inflamação 
gerada pelo excesso de tecido adiposo também pode contribuir para resistência 
à insulina por meio da diminuição da síntese da proteína GLUT-4. Os 
diacilgliceróis (dois ácidos graxos ligados a uma molécula de glicerol) também 
podem ativar a proteína IKK e, consequentemente, desencadear os mesmos 
efeitos das citocinas. 
 
7.2 RESISTÊNCIA À LEPTINA 
A leptina é a principal adipocina sintetizada pelos adipócitos e tem a 
função de regular peso corporal e a ingestão alimentar. Com a perda de peso e 
gordura, ocorre redução dos níveis de leptina e aumento do apetite, além de 
redução do gasto energético. Os níveis de leptina reduzem após algumas horas 
de jejum e aumentam com a superalimentação. Com o ganho de peso e gordura, 
ocorre aumento dos níveis de leptina, mas indivíduos obesos apresentam 
resistência à leptina, além da resistência à insulina. 
A leptina, ainda, pode aumentar a produção de TRH. O TRH é o hormônio 
liberador de tireotrofina, sendo secretado pelo hipotálamo. Após ser secretado, 
o TRH atua na hipófise estimulando a secreção do hormônio TSH 
(tireoestimulante). Esse último, por sua vez, exerce vários efeitos sobre a 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
111 
 
tireoide, sendo o principal aumentar a secreção de T4 (tiroxina) e triiodotironina 
(T3). Dessa forma, o excesso de leptina produzida por indivíduos obesos pode 
resultar em um aumento fisiológico dos níveis de TRH, que por sua vez, irá 
aumentar os níveis de TSH. Além disso, o excesso de leptina também pode 
ativar a enzima deiodinase, responsável por converter T4 em T3, podendo 
resultar em um aumento nos níveis de T3. Em vista disto, ao analisar exames de 
sangue de pacientes obesos, muitos profissionais podem imaginar um quadro 
de hipotireoidismo subclínico, entretanto, esses exames devem ser analisados 
com cautela e, muitas vezes, apenas uma redução do peso corporal já é capaz 
de normalizá-los, uma vez que haverá redução dos níveis de leptina. 
 
Curiosidade: Foi mostrado em camundongos obesos que a sinalização da 
leptina no núcleo arqueado do hipotálamo é permanentemente ativada. O 
resultado dessa ativação persistente, oriundo das altas concentrações 
endógenas de leptina circulante, é uma saturação da sinalização da leptina e 
uma falha em responder a esse hormônio (caracterizando a resistência à 
leptina). Esse fato ocorre porque a sinalização persistente da leptina aumenta a 
expressão do supressor da sinalização de citocinas 3 (SOCS3) e da proteína 
tirosina fosfatase (PTP1B), resultando em uma cascata de sinalização de leptina 
bloqueada. Nesse sentido, um estudo publicado em 2019 mostrou que uma 
redução parcial dos níveis de leptina resultou em uma redução da ingestão 
alimentar em camundongos obesos, ocasionando um aumento na sua 
sensibilidade. Dessa forma, nem sempre um aumento nos níveis de leptina trará 
desfechos positivos na regulação da ingestão alimentar, indivíduos obesos já 
apresentam níveis elevados e uma estratégia interessante poderia ser reduzir 
esses níveis. 
 
Além da leptina, o tecido adiposo secreta, por exemplo, o hormônio 
adiponectina. A adiponectina desempenha funções em diversos tecidos e sua 
sinalização é responsável pelo aumento da sensibilidade à insulina. O fígado é 
o principal alvo de ação desse hormônio. Conforme já estudado neste e-book, o 
fígado é um dos órgãos que se tornam resistências à insulina e considerando 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
112 
 
que ele é responsável pela produção de glicose, seja pela gliconeogênese seja 
pela glicogenólise, a resistência à insulina intensifica esses processos (lembrem 
que a insulina inibe a gliconeogênese e glicogenólise). Nesse sentido, a 
adiponectina estimula a ativação da proteína AMPK, responsável por diminuir a 
síntese de fosfoenolpiruvato carboxicinase (PEPCK) e glicose-6-fosfatase 
(G6Pase), enzimas envolvidas com a produção hepática de glicose 
(gliconeogênese). Além disso, a ativação da AMPK estimula a translocação de 
GLUT-4 na célula muscular, aumentando a captação de glicose e, 
consequentemente, diminuindo seus níveis plasmáticos. Entretanto, no processo 
de aumento de gordura corporal (especialmente visceral), há uma redução da 
produção de adiponectina, contribuindo para o agravamento do quadro de 
resistência à insulina. Portanto, percebam que o paciente obeso e/ou com 
sobrepeso apresenta diversas respostas hormonais alteradas, que contribuem 
tanto para o aumento do apetite (resistência à leptina e à insulina) quanto para 
o agravamento da resistência à insulina (diminuição de adiponectina, aumento 
de citocinas inflamatórias, excesso de ácidos graxos livres). 
 
7.3 ALIMENTOS PROCESSADOS - IMPACTOS SOBRE O 
METABOLISMO 
Uma das recomendações gerais acerca de alimentação saudável é evitar 
o consumo de alimentos ultra processados, devido a seus altos teores calóricos 
e baixos valores nutricionais. Dessa forma, alimentos ultra processados são 
baratos, práticos, com alta densidade energética e com quantidades mínimas de 
micronutrientes necessários ao adequado funcionamento corporal. Nesse 
sentido, sabendo que o aumento da obesidade ocorreu com o aumento 
concomitante do consumo de industrializado, foi publicado um estudo em 2019, 
na revista Cell Metabolism, acerca do consumo de alimentos industrializados e 
seus impactos sobre o consumo alimentar. Nesse estudo, 10 homens e 10 
mulheres foram designados a receber dois tipos de dietas, a dieta processada e 
a não processada por 14 dias. Todos os participantes receberam ambas as 
dietas, totalizando 28 dias de estudo. Durante cada fase de dieta, os 
participantes receberam três refeições diárias (todos os alimentos foram 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
113 
 
fornecidos e os participantes permaneceram internados por 28 dias), sendo 
instruídos a consumir a quantidade desejada, sem restrições. Dessa forma, os 
participantes receberam três refeições diárias compostas por alimentos 
processados durante um período de 14 dias, seguido de uma dieta não 
processada por 14 dias, ou vice-versa. 
Os resultados desse estudo mostram que a ingestão energética foi em 
média 500 kcal por dia maior durante a dieta processada e esse aumento foi 
resultante principalmente da ingestão de carboidratos e de lipídeos. Sabe-se que 
a proteína é o principal macronutriente responsável pela saciedade, logo, a 
diminuição da sua ingestão, na dieta processada, pode ter sido um dos fatores 
pelo qual os participantes aumentaram sua ingestão calórica quando comparada 
a dieta não processada. Dessa forma, os participantes ganharam 0,9 kg na dieta 
processada e perderam 0,9 kg na dieta não processada, com um aumento de 
0,4 kg de gordura na dieta processada e perda de 0,3 kg de gordura na dieta não 
processada. 
Por último, não foi observado diferença entre as dietas para os exames 
de sensibilidade à insulina e de glicemia. Entretanto, esse fato pode ter sido pelo 
curto período de dieta (14 dias) e pelo nível de atividade física dos participantes, 
uma vez que eles realizavam 1h de exercícios diários e sabe-se que o exercício 
pode amenizar os efeitos deletérios que uma alimentação desequilibrada pode 
ocasionar. 
Portanto, podemos concluir que, de fato, alimentos processados 
contribuem para uma maior ingestão energética e, consequentemente, para o 
maior ganho de gordura corporal. Esses alimentos, na grande maioria das vezes, 
apresentam grandes quantidades de carboidratos, gorduras saturadase pouca 
fibra. A combinação de carboidrato e gordura torna o alimento mais palatável e 
a deficiência de fibras em menor poder sacietogêno. Dessa forma, embora não 
haja problemas em consumi-los esporadicamente, não é interessante tê-los 
como parte primordial da dieta. As recomendações de priorizar alimentos in 
natura, aumentar o consumo de frutas e vegetais, consumir grãos integrais, 
oleaginosas e boas fontes de gorduras continua sendo válida e deve nortear 
nossas escolhas alimentares para o adequado funcionamento do organismo e 
para o aumento da longevidade. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
114 
 
Além disso, dietas com alimentos de baixa qualidade nutricional não 
afetam apenas a ingestão alimentar e o peso. Em 2018 foi publicado um artigo 
mostrando que uma dieta do tipo ocidental, rica em gorduras saturadas e 
açúcares, e pobre em frutas e vegetais, foi capaz de comprometer a camada de 
muco do cólon intestinal, aumentando sua penetrabilidade. Ambos os fatores são 
primordiais à saúde do hospedeiro, pois impedem que substâncias indesejáveis, 
como por exemplo, bactérias patogénicas, translouquem-se do intestino para a 
circulação sistêmica. A dieta ocidental, ainda, reduziu a abundância de bactérias 
benéficas que degradam as fibras dietéticas, uma vez que as fibras não estavam 
sendo ofertadas de forma adequada pela dieta. Dessa forma, ignorar o aspecto 
qualitativo da dieta e focar apenas no quantitativo ignora tanto os fatores 
composicionais dos alimentos (presença de fibras, vitaminas, minerais e 
fitoquímicos) quanto as repercussões metabólicas que podem ser ocasionadas. 
Portanto, precisamos entender que emagrecimento vai muito além de 
déficit calórico e há outros fatores que devem ser levados em consideração, 
como a qualidade da dieta (não podemos comparar 100g de morango com 100g 
de brigadeiro). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
115 
 
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Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
116 
 
8 
ADAPTAÇÕES FISIOLÓGICAS NA PERDA 
DE PESO 
 
Durante o processo de emagrecimento, a perda de peso com a dieta não 
ocorre de forma linear. A perda de peso é maior nas primeiras semanas e meses 
de dieta e vai atenuando conforme o peso corporal reduz, mesmo que se 
mantenha ou aumente o déficit energético através da restrição de calorias ou 
aumento do volume de treinamento. Como não bastasse, a restrição calórica e 
a perda de peso aumentam a fome, tornando a perda de peso um processo cada 
vez mais árduo. A dificuldade de perda de peso devido à redução do gasto 
energético e ao aumento da fome devido às alterações nos níveis de hormônios 
que controlam o apetite (redução da leptina e aumento da grelina) são respostas 
do organismo à perda de peso, efeitos fisiológicos que visam atenuar a perda de 
peso e restaurar as reservas de gordura e o peso corporal. 
Essas respostas fisiológicas do organismo que visam manter a 
homeostase são adaptações metabólicas induzidas pelo processo de perda de 
peso. Isso acontece porque nosso organismo foi programado geneticamente 
pela evolução para ser uma máquina eficiente de armazenamento de energia 
(gordura), a fim de assegurar as reservas energéticas nos períodos de fome 
durante a evolução do homem (hipótese do “genótipo econômico”). 
 
8.1 TERMOGÊNESE ADAPTATIVA (ADAPTAÇÃO 
METABÓLICA) 
O gasto energético total (GET) é dado por três componentes: o gasto 
energético de repouso (GER), o gasto energético de não-repouso (GAF = 
exercício físico e outras atividades diárias, NEAT) e o efeito térmico dos 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
117 
 
alimentos (ETA). Todos esses componentes sofrem redução com a perda de 
peso, mas essa redução do GET com a perda de peso é maior do que a prevista 
pela redução do peso corporal. Esse processo de redução do GET é 
independente da redução da massa magra e é conhecido como termogênese 
adaptativa. 
O famoso experimento da fome de Minessota (Minessota Starvation 
Experiment, 1944) foi o primeiro a descrever quantitativamente a termogênese 
adaptativa. Nesse estudo, o GER reduziu aproximadamente 600 kcal, e cerca de 
35% da queda induzida pela fome no GER (~ 200 kcal) foi independente das 
perdas na massa livre de gordura (MLG), ou seja, efeito da termogênese 
adaptativa. 
A termogênese adaptativa é uma resposta do organismo à perda de peso 
e na obesidade, essa adaptação fisiológica é considerada parcialmente 
responsável por atenuar o processo de perda de peso e predispor os indivíduos 
ao reganho de peso. A termogênese adaptativa explica parcialmente por que 
qualquer dieta tende a ter uma eficácia limitada no longo prazo, 
independentemente da estratégia utilizada. Esse é um dos motivos pelos quais 
indivíduos com percentual de gordura muito elevado (cerca de 30% ou mais) 
dificilmente chegariam em um percentual de gordura muito baixo no período de 
poucas semanas ou meses. 
Um estudo que avaliou perda massiva de peso em indivíduos obesos que 
participaram do programa The Biggest Loser mostrou uma adaptação metabólica 
de cerca de 500 kcal, que foi persistente mesmo depois de 6 anos da perda de 
peso inicial, conforme mencionado abaixo. De qualquer forma, para a grande 
maioria das pessoas, a termogênese adaptativa não parece ser um fator tão 
importante para evitar a perda de peso ou favorecer o reganho de peso. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
118 
 
 
Figura 8.1 - O processo de perda de peso / gordura ocorre de forma cada vez mais 
lenta conforme o tempo de dieta devido às adaptações metabólicas (termogênese 
adaptativa), que levam a redução do metabolismo basal. Importante lembrar que o GER 
já reduz normalmente pela própria redução do peso corporal. 
 
8.1.1 ADAPTAÇÃO METABÓLICA PERSISTENTE 6 ANOS APÓS A 
COMPETIÇÃO “THE BIGGEST LOSER” 
É comumente observar afirmações acerca da estagnação da perda de 
peso e diminuição da taxa metabólica de repouso (quem nunca ouviu ou afirmou: 
“não consigo mais emagrecer porque o meu metabolismo ficou lento”). Conforme 
explicado acima, o metabolismo, de fato, diminui com a perda de peso, todavia,dificilmente a estagnação da perda de peso ocorre por esse motivo. Para 
compreender de forma mais minuciosa essa questão, vamos analisar um artigo 
que avaliou justamente a diminuição da taxa metabólica de repouso (TMR) em 
indivíduos que perderam bastante peso no programa “The Biggest Loser”. 
Em 2012, foi investigado as mudanças na TMR em 16 participantes do 
programa “The Biggest Loser”. Os participantes apresentavam obesidade grau 
III e foram submetidos a intensa intervenção de dieta e exercícios. Após 6 anos, 
14 dos 16 participantes foram avaliados novamente sobre a composição corporal 
e a TMR (as medições da TMR foram realizadas usando o aparelho de 
calorimetria indireta, padrão ouro). Esses 14 participantes pesavam em média 
149 kg no início do programa e 90,6 kg ao final da competição, a qual durou 30 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
119 
 
semanas. Após 6 anos do programa, esses participantes estavam com uma 
média de 131 kg. 
Após 6 anos, a maioria dos participantes recuperaram uma quantidade 
significativa de peso perdido durante o programa, todavia, houve um amplo grau 
de variação individual e uma perda média de peso de 11,9 kg. Reparem no 
gráfico abaixo que todos os participantes, exceto um, recuperaram parte do peso 
perdido. Além disso, foi observado que aproximadamente 80% das alterações 
no peso nas 30 semanas e nos 6 anos foram atribuíveis a massa gorda (ao 
contrário do que muitas pessoas ainda acreditam, o nosso corpo não irá priorizar 
o tecido muscular para geração de energia, principalmente em indivíduos 
obesos. Ele irá priorizar a geração de energia oriundo dos triglicerídeos 
armazenados no tecido adiposo). 
 
 
 
A TMR no início do programa era de 2607 kcal e ao final das 30 semanas, 
1996 kcal. Após 6 anos, a TMR estava na média de 1903 kcal. Portanto, os 
autores observaram que apesar da recuperação de peso nos 6 anos seguintes 
ao programa “The Biggest Loser”, a TMR permaneceu reduzida. A TMR média 
após 6 anos foi de aproximadamente 500 kcal menor do que o esperado com 
base nas alterações medidas na composição corporal e no aumento da idade 
dos participantes. Embora muitas pessoas possam olhar para esses dados e 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
120 
 
fazer várias alegações negativas a perda de peso, os participantes com a maior 
perda de peso no final da competição também tiveram a maior diminuição na 
TMR. Da mesma forma, os participantes que tiveram maior sucesso em manter 
o peso perdido após 6 anos também experimentaram maior diminuição da TMR. 
Essas observações sugerem que a adaptação metabólica (redução da TMR) foi 
uma resposta à intervenção concomitante no estilo de vida. 
Nesse sentido, em 2023, o escritor Kevin Hall publicou um artigo acerca 
desse estudo. Segundo Kevin Hall, ele esperava que a TMR suprimida se 
normalizasse após a recuperação de parte do peso perdido, afinal, a adaptação 
metabólica em indivíduos com peso estável após intervenções de perda de peso 
de longo prazo é tipicamente muito menor do que as observadas nos 
participantes do “The Biggest Loser”. O motivo dessa grande adaptação 
metabólica sustentada era um mistério, e não estava claro se os resultados 
poderiam ser extrapolados para intervenções menos extremas. No entanto, os 
dados foram amplamente mal interpretados como evidência de que as dietas 
para perda de peso “destroem o metabolismo” e a maioria das intervenções no 
estilo de vida estão fadadas ao fracasso – embora os participantes do “The 
Biggest Loser” tenham mantido uma média clinicamente significativa de 
aproximadamente 12% de perda de peso após 6 anos. E conforme já 
mencionado, o grau da adaptação metabólica no final da competição não esteve 
relacionado com a recuperação do peso subsequente e os participantes que 
mantiveram as maiores perdas de peso em 6 anos também experimentaram a 
maior adaptação metabólica contínua. 
Além disso, foi observado que o gasto com atividade física aumentou 
acentuadamente nos participantes após o início da competição e isso estava de 
acordo com suas várias horas diárias de exercícios vigorosos. Curiosamente, o 
gasto com atividade física permaneceu alto 6 anos depois, com um aumento 
médio de ~80% em 6 anos em comparação com a linha de base, 
correspondendo a um aumento de ~395 kcal/d ou ~5,3 kcal/d por quilograma de 
peso corporal. Os participantes que mantiveram maiores aumentos no gasto com 
atividade física após 6 anos também mantiveram maiores perdas de pesos e 
maiores reduções da TMR. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
121 
 
Essas observações mencionadas acima levaram ao modelo de gasto 
energético restrito, pelo qual um aumento no gasto com atividade física pode 
ocasionar reduções compensatórias no gasto para outros processos (TMR). 
Pontzer et al. (2012) especularam que a adaptação metabólica pode refletir 
reduções nos processos fisiopatológicos que melhoram com o aumento da 
atividade física, como redução da inflamação crônica. Nesse sentido, surge a 
pergunta “os aumentos no gasto com atividades físicas nos competidores de The 
Biggest Loser poderiam ter causado adaptações metabólicas persistentes para 
diminuir a TMR? Caso a resposta for “sim”, isso pode explicar em parte porque 
graus semelhantes de adaptação metabólica não foram observados em resposta 
a programas de perda de peso de longo prazo que não envolveram grande 
aumento da atividade física. Suporte adicional para esta interpretação do estudo 
“The Biggest Loser” foi recentemente fornecido em uma análise transversal, a 
qual demonstrou que pessoas com maior gasto energético de atividade física 
também tiveram uma menor TMR, e o efeito foi maior para aqueles com maior 
gordura corporal. 
Portanto, por mais que a redução da TMR tenha sido maior que o 
esperado e se pendurado ao longo de 6 anos, os participantes apresentaram 
resultados positivos sobre o peso corporal. Dessa forma, esses resultados não 
devem ser interpretados como “a perda de peso/emagrecimento estraga o 
metabolismo”, mas sim como uma adaptação metabólica que proporcionou aos 
indivíduos maior perda de peso. Caso essa diminuição tivesse trazido alguma 
repercussão negativa, os participantes com maiores reduções da TMR não 
teriam sido os mesmos participantes que tiveram maior sucesso na perda de 
peso. 
 
8.2 AUMENTO DO APETITE 
Outro grande desafio durante o processo de perda de peso é o aumento 
do apetite, que faz com que muitas pessoas não consigam manter a consistência 
da dieta e fracassem logo nas primeiras semanas ou meses de dieta. Esse 
aumento do apetite durante a dieta acontece principalmente porque a restrição 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
122 
 
calórica e a perda de peso afetam diversos hormônios responsáveis pelo 
controle da saciedade e da fome no hipotálamo. 
 
Figura 8.2 - Embora a redução do gasto energético (termogênese adaptativa) dificulte 
o emagrecimento no longo prazo, a principal explicação para a estagnação do peso no 
curto prazo e o posterior reganho de peso é o aumento do apetite, devido às alterações 
que ocorrem nos hormônios que controlam a fome (grelina) e a saciedade (leptina, 
insulina). 
 
O principal hormônio regulador da saciedade é a leptina, secretada pelos 
adipócitos (células do tecido adiposo). A leptina é responsável por regular a 
ingestão energética e o peso corporal. A leptina controla o apetite atuando no 
hipotálamo inibindo neurônios que secretam peptídeos orexígenos (NPY, AgRP) 
e estimulando neurônios que secretam peptídeos anorexígenos (POMC, CART). 
Além de controlar a ingestão de calorias, a leptina também afeta o gasto 
energético. A redução da ingestão calórica e a perda de gordura provocam 
redução dos níveis de leptina. Com a redução das concentrações de leptina, a 
saciedade diminui. Para piorar a situação, ocorre aumento dosníveis de grelina, 
hormônio secretado principalmente no estômago e responsável pelo aumento da 
fome. Outros hormônios que controlam a saciedade também sofrem redução 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
123 
 
durante a restrição calórica e perda de peso, entre os quais, a insulina, a 
colecistocinina (CCK), o PYY e a amilina. 
Estudos mostram que mesmo meses após a perda de peso (~ 1 ano), as 
concentrações desses hormônios continuam alteradas, tornando difícil a 
manutenção de um baixo peso corporal, principalmente de um baixo percentual 
de gordura. 
“A restrição calórica resulta em uma rápida e profunda redução nos níveis 
circulantes de leptina e no gasto energético e um aumento no apetite. Outros 
efeitos da perda de peso induzida pela dieta incluem níveis aumentados de 
grelina e níveis reduzidos de peptídeo YY e colecistocinina. Nosso estudo mostra 
que após a perda de peso induzida pela dieta, existem alterações na liberação 
pós-prandial de amilina e polipeptídeo pancreático e, mais importante, que 
alterações nos níveis de leptina, grelina, peptídeo YY, polipeptídeo inibidor 
gástrico, polipeptídeo pancreático, amilina e colecistocinina, bem como 
alterações no apetite, persistem por 12 meses. Além disso, é esperado que 
essas alterações facilitem a recuperação do peso perdido, com exceção da 
alteração no nível do polipeptídeo pancreático, que reduz a ingestão de 
alimentos” (SUMITHRAN, 2011). 
 
Os fisiculturistas mais experientes sabem que a manutenção de um baixo 
percentual de gordura é inviável sem manter uma restrição grande de calorias 
e/ou uso de drogas termogênicas, esteroides anabolizantes e GH. A alteração 
nos hormônios que controlam os mecanismos de fome e saciedade e o aumento 
da sensibilidade do sistema de recompensa são as principais justificativas para 
o reganho de peso. 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
124 
 
REFERÊNCIAS 
FOTHERGILL, Erin et al. Persistent metabolic adaptation 6 years after “The 
Biggest Loser” competition. Obesity, v. 24, n. 8, p. 1612-1619, 2016. 
GREENWAY, F. Physiological adaptations to weight loss and factors favouring 
weight regain. Int J Obes (Lond). Aug; 39(8):1188-96, 2015. 
HALL, K. et al. Energy balance and its components: implications for body weight 
regulation. Am J Clin Nutr. Apr;95(4):989-94, 2012. 
HALL, K. et al. Quantification of the effect of energy imbalance on bodyweight. 
Lancet. Aug 27; 378(9793):826-37, 2011. 
HALL, Kevin D. Energy compensation and metabolic adaptation:“The Biggest 
Loser” study reinterpreted. Obesity, v. 30, n. 1, p. 11-13, 2022. 
HALUCH, Dudu. Emagrecimento e metabolismo, 2021. 
LEIBEL, R.; ROSENBAUM, M.; HIRSCH, J. Changes in energy expenditure 
resulting from altered body weight. N Engl J Med. Mar 9;332(10):621-8, 1995. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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125 
 
9 
METABOLISMO DO JEJUM INTERMITENTE 
 
Certamente você já ouviu falar ou leu algo relacionado ao jejum 
intermitente. O jejum intermitente é uma prática comum entre muitas religiões há 
milhares de anos, entretanto, recentemente vem sendo amplamente difundido 
no meio fitness devido a grande quantidade de livros de divulgação e artigos em 
blogs, muitas vezes exaltando o jejum intermitente como sendo um protocolo 
revolucionário para o tratamento da obesidade. Entretanto, será que ele 
realmente apresenta alguma superioridade ou é apenas mais uma “dieta da 
moda”? Vamos entendê-lo por meio do conhecimento adquiro em bioquímica ao 
longo deste livro, para posteriormente associá-lo a prática. 
Existem diversos protocolos de jejum intermitente, sendo que os três mais 
conhecidos e estudados são: jejum em dias alternados, jejum periódico e 
alimentação com restrição de tempo (time-restricted feeding, TRF). 
Independente do protocolo, o jejum intermitente caracteriza-se por um período 
sem se alimentar, por exemplo, você consumiu a última refeição as 20h e a sua 
próxima refeição será apenas as 12h do dia seguinte (jejum de 16h), ou apenas 
as 20h (jejum de 24h). Na sequência, iremos entender como ocorre seu 
metabolismo. 
Durante o jejum, nosso corpo muda gradativamente de uma 
predominância do metabolismo de carboidratos para uma predominância do 
metabolismo de lipídeos. Nesse sentido, após as refeições, os níveis de glicose 
e insulina estão elevados e a insulina favorece a captação de glicose no tecido 
muscular e adiposo, sendo armazenada como glicogênio, oxidada para 
produção de energia ou transformada em glicerol-3-fosfato (tecido adiposo). Os 
demais tecidos também utilizam glicose como fonte de energia no período pós-
prandial, entretanto, não necessitam da sinalização de insulina para sua 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
126 
 
captação. Além da insulina estimular a captação, oxidação e armazenamento de 
glicose, ela inibe a degradação proteica muscular, a lipólise e a oxidação de 
ácidos graxos (queima de gordura). Dessa forma, quando os níveis de insulina 
estão elevados, nosso organismo prioriza a oxidação de carboidratos e inibe a 
oxidação de gorduras. 
Algumas horas após as refeições, os níveis de glicose e insulina estão 
reduzidos e os níveis de glucagon estão aumentados. O glucagon estimula a 
glicogenólise hepática, a gliconeogênese e a lipólise no tecido adiposo. Esse fato 
ocorre porque a manutenção da glicemia no período pós-prandial é importante 
para o cérebro e para as hemácias, uma vez que são dependentes de glicose. 
Depois de algumas horas de jejum, outros hormônios antagônicos da insulina 
(cortisol, adrenalina e GH) se elevam e estimulam a lipólise, liberando os ácidos 
graxos do tecido adiposo para serem utilizados pelos demais tecidos e órgãos 
do organismo. Dessa forma, durante o jejum, os ácidos graxos passam a ser o 
substrato energético predominante para a maioria dos tecidos (exceto cérebro e 
hemácias), principalmente ao músculo esquelético. 
Considerando que o cérebro e que as hemácias são dependentes de 
glicose, o cortisol desempenha um papel muito importante nas primeiras horas 
de jejum, pois estimula degradação de proteínas no músculo esquelético, 
liberando aminoácidos (alanina, glutamina) para serem convertidos em glicose 
no fígado e nos rins (gliconeogênese). A gliconeogênese ganha muita 
importância conforme os níveis de glicogênio hepático ficam reduzidos. No 
entanto, um aumento da gliconeogênese intensifica o catabolismo de proteínas 
e para contrabalançar os efeitos do cortisol durante o jejum, ocorre aumento dos 
níveis de GH. O GH, assim como o cortisol, também estimula a lipólise e a 
gliconeogênese. Todavia, no tecido muscular, o GH atua reduzindo a 
degradação de proteínas. O efeito do GH na redução do catabolismo proteico 
parece estar relacionado a um aumento da lipólise e da oxidação de ácidos 
graxos, pois ao usar mais ácidos graxos como fonte de energia, o músculo 
diminui a oxidação de aminoácidos. 
Portanto, conforme o tempo de jejum aumenta (>12 horas), a lipólise e a 
gliconeogênese se intensificam, embora com predominâncias diferentes. O 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
127 
 
cérebro é um ávido consumidor de glicose, consumindo cerca de 100-120g de 
glicose ao dia e é por esse motivo que a degradação de proteínas 
(gliconeogênese) aumenta nos primeiros dias de jejum. Ao mesmo tempo, o 
jejum e os baixos níveis de glicose e de insulina intensificam a lipólise no tecido 
adiposo. Dessa forma, muitos ácidos graxos inundam o fígado e se convertem 
em corpos cetônicos. No jejum prolongado (>2 dias), os corpos cetônicos 
passam a se tornar um importante combustível energético para os tecidos, 
incluindo o cérebro, que passa a consumir menos glicose. 
Logo, fica claro que durante o jejum, a gordura passa a ser o combustível 
energético primordial do organismo, seja na forma deácidos graxos ou por meio 
da sua conversão em corpos cetônicos. Pode-se dizer, então, que quanto mais 
tempo em jejum, maior será a oxidação de gorduras. Todavia, embora a 
oxidação de gorduras seja indispensável para o emagrecimento, maior oxidação 
não reflete em maior emagrecimento se o saldo calórico estiver positivo 
(consumo > gasto). 
 
9.1 EFICÁCIA DO JEJUM INTERMITENTE NO EMAGRECIMENTO 
E NA OTIMIZAÇÃO DA COMPOSIÇÃO CORPORAL 
Iniciarei este tópico com uma simples pergunta. O jejum intermitente é 
uma estratégia mais eficiente para promover perda de gordura e, 
consequentemente, emagrecimento? 
Embora diversos estudos em animais e em humanos mostrem benefícios 
do jejum intermitente na saúde cardiometabólica (aumento da sensibilidade à 
insulina, perfil lipídico, perda de peso, redução da pressão arterial), não está 
claro se esses benefícios do jejum são independentes da perda de peso. Há 
diversos estudos que investigaram os efeitos do jejum intermitente na perda de 
peso, entretanto, a maioria desses estudos mostra que o jejum intermitente não 
promove maior perda de peso e de gordura quando comparado a uma estratégia 
convencional de dieta, ou seja, restrição calórica contínua. Nesse sentido, uma 
revisão sistemática de 40 estudos com seres humanos avaliou 12 estudos que 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
128 
 
faziam comparação do jejum intermitente com restrição calórica contínua (dieta 
tradicional) e a conclusão foi a seguinte: 
 
“Embora o jejum intermitente pareça produzir efeitos semelhantes à restrição contínua 
de energia para reduzir o peso corporal, a massa gorda, a massa livre de gordura e 
melhorar a homeostase da glicose e reduzir o apetite, ele não parece atenuar outras 
respostas adaptativas à restrição energética ou melhorar a eficiência da perda de peso, 
embora a maioria das publicações revisadas não tenha capacidade para avaliar esses 
resultados. O jejum intermitente representa, portanto, uma opção válida – embora 
aparentemente não superior – à restrição contínua de energia para perda de peso” 
(SEIMON, 2015). 
 
 
Comer a cada 3 horas é uma prática comum entre fisiculturistas e 
praticantes de musculação, pois muitos têm medo de perder massa muscular 
dando intervalos maiores. No entanto, as principais evidências científicas 
mostram que o jejum intermitente não aumenta o risco de catabolismo muscular, 
uma vez que o catabolismo depende de outros fatores, como tamanho da 
restrição calórica, quantidade de proteínas consumida e destreinamento. 
O jejum intermitente, portanto, é uma estratégia que pode funcionar muito 
bem para alguns indivíduos, mas não tão bem para outros. Nesse sentido, pode 
ser interessante em indivíduos que visam emagrecimento, pois precisarão 
reduzir o seu consumo calórico ao longo do dia. Entretanto, para indivíduos que 
visam hipertrofia, essa estratégia pode não ser tão interessante, pois o consumo 
calórico é maior e há quem apresente dificuldade em consumir uma grande 
quantidade de comida em um período limitado. 
Além disso, um longo período sem ingerir proteínas diminui a síntese 
proteica muscular e aumenta a degradação. Dessa forma, o jejum intermitente 
pode ser uma estratégia limitada para promover hipertrofia muscular, embora 
não pareça ser um problema quando se trata de manutenção da massa muscular 
e otimização da perda de gordura. 
Tratando-se de fisiculturismo, o jejum intermitente pode ser uma 
estratégia interessante, principalmente na fase de pré-competição. Entretanto, 
isso não significa que ele seja um método melhor ou pior, significa apenas que 
pode ser útil para alguns indivíduos. De qualquer forma, não há nenhuma 
necessidade de comer a cada 2 ou 3 horas ou de fazer jejum intermitente para 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
129 
 
otimizar a composição corporal. Planejamento dietético individualizado aliado a 
um planejamento de treinamento é superior a qualquer estilo específico de dieta. 
O método de jejum intermitente mais comumente utilizado no meio fitness 
é o que preconiza períodos de 16 horas em jejum com períodos de 8 horas para 
se alimentar. Porém, muitos indivíduos adotam períodos maiores em jejum, 
como 18 a 24 horas (Tabela 9.1). 
 
Tabela 9.1 – Jejum intermitente. A tabela ilustra dois modelos de dieta: dieta padrão 
com maior frequência de refeições e jejum intermitente com 16 horas de jejum e 3 
refeições (modelo TRF). 
 
 
 
Concluindo, o jejum não oferece uma maior perda de peso quando 
comparado a um regime de restrição calórica contínua, não sendo uma 
estratégia diferenciada quando se trata de perda de peso e emagrecimento. 
Entretanto, esse fato não o torna inútil e sim uma opção adicional para aqueles 
indivíduos que desejam variar a estratégia dietética por motivos específicos. Por 
exemplos, indivíduos que não sentem fome nas primeiras horas do dia e que são 
acostumados a fracionarem menos as refeições podem se adaptar a essa 
estratégia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
130 
 
REFERÊNCIAS 
CAMPBELL, B. et al. Intermittent Energy Restriction Attenuates the Loss of Fat 
Free Mass in Resistance Trained Individuals. A Randomized Controlled Trial. J. 
Funct. Morphol. Kinesiol. 2020, 5(1), 19. 
FERRIER, Denise R. Bioquímica Ilustrada-7. Artmed Editora, 2018. 
HALUCH, Dudu. Emagrecimento e metabolismo, 2021. 
NELSON, David L.; COX, Michael M. Princípios de Bioquímica de Lehninger-7. 
Artmed Editora, 2018. 
PATTERSON, R. et al. Intermittent Fasting and Human Metabolic Health. J Acad 
Nutr Diet. Aug; 115(8): 1203–1212, 2015. 
SAINSBURY, A. et al. Rationale for novel intermittent dieting strategies to 
attenuate adaptive responses to energy restriction. Obes Rev. Dec;19 Suppl 
1:47-60, 2018. 
SEIMON, R. et al. Do intermittent diets provide physiological benefits over 
continuous diets for weight loss? A systematic review of clinical trials. Mol Cell 
Endocrinol. Dec 15;418 Pt 2:153-72, 2015. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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131 
 
10 
PERDA DE PESO RÁPIDA X PERDA DE 
PESO GRADUAL 
 
A ideia de que a perda de peso rápida favorece um maior reganho do peso 
a longo prazo quando comparada a perda de peso gradual é amplamente 
debatida. Nesse sentido, a maioria das pessoas acredita que realizar dietas com 
pequenos déficits calóricos pode ser superior a realizar dietas com maiores 
déficits calóricos, pois esse fato resultaria em uma perda de peso mais gradual 
e, consequentemente, menor seriam as chances de reganho. Essas afirmações 
decorrem-se, em parte, da ideia de que a obesidade é ocasionada por maus 
hábitos alimentares e a perda de peso gradual permitiria um tempo maior para 
que tais mudanças ocorram. Na sequência iremos analisar artigos que avaliaram 
se o sucesso na perda de peso era prejudicado em dietas extremamente baixas 
em calorias quando comparada a dietas com restrições mais brandas. 
O primeiro artigo que trago a vocês foi publicado em 2016, onde 57 
indivíduos com sobrepeso e obesidade foram submetidos a seguir um programa 
dietético divido em três etapas. A primeira consistia em um período de perda de 
peso e os participantes foram divididos em dois grupos, o grupo de dieta baixa 
em caloria (1250 kcal/dia), que durou 12 semanas, e o grupo de dieta muito baixa 
em caloria (500 kcal/dia), que durou 5 semanas. A segunda e terceira etapa 
consistiam, respectivamente, em um período de estabilidade do peso por 4 
semanas, ou seja, os participantes ingeriam dietas isocalóricas, seguido por um 
período de acompanhamento por 9 meses. Os resultados mostraram que os 
participantes perderam 8,2 kg após 12 semanas da dieta baixa em caloria e 9Kg 
após 5 semanas da dieta muito baixa em caloria. Entretanto, após completarem 
os 9 meses de acompanhamento, os participantes recuperaram 4,2 kg na dieta 
baixaem caloria e 4,5 kg na dieta muito baixa em caloria, não havendo diferença 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
132 
 
significativa entre os grupos. Portanto, podemos observar que os participantes 
reganharam em média 50% do peso perdido após 9 meses, independente da 
perda de peso ter ocorrido de forma rápida (5 semanas) ou gradual (12 
semanas). 
Outro estudo publicado na revista Lancet, em 2014, objetivou estudar a 
diferença entre a perda de peso realizada de forma rápida ou gradual. Nesse 
estudo, os participantes eram obesos e foram submetidos, aleatoriamente, a 
seguir dois tipos de dieta. A primeira continha entre 400 e 800 kcal/dia e durou 
12 semanas (perda de peso rápida) e a segunda consistiu em uma dieta com 
déficit calórico de 400 a 500 kcal/dia e durou 36 semanas (perda de peso 
gradual). Dessa forma, para ambos os grupos foram prescritos um déficit de 
105.000 kcal, a única diferença é que esse déficit foi atingido durante 12 ou 
durante 36 semanas. Na sequência, os participantes que atingiram uma perda 
de peso de pelo menos 12,5% foram submetidos a fase 2, que consistiu em uma 
dieta normocalórica por 144 semanas (obviamente que esses participantes 
receberam apenas orientações, pois seria inviável acompanhá-los de perto ao 
longo de quase 3 anos). 
Os resultados desse estudo mostraram que 81% dos participantes do 
grupo perda rápida concluíram a fase 1 (atingiram pelo menos 12,5% de perda 
de peso), contra 62% do grupo perda gradual. Esse fato pode se dar pela maior 
motivação dos pacientes, visto que perderam peso de forma mais rápida. 
Entretanto, o principal resultado do estudo está mostrado na Figura 10.1, a qual 
mostra o reganho de peso ao longo das 144 semanas. Sabe-se que uma das 
maiores dificuldades do processo de emagrecimento é mantê-lo por um período 
longo, justamente porque o nosso metabolismo vai sofrendo alterações à medida 
que o peso reduz, como aumento do apetite e redução do gasto calórico. Nesse 
sentido, a figura mostra que a média de reganho de peso foi de 10,4 kg nos 
participantes do grupo perda gradual e 10,3 kg nos participantes de perda rápida, 
não havendo diferença significativa entre os grupos. Reparem que embora os 
participantes tenham reganhado uma grande parcela do peso perdido, eles 
finalizaram o estudo pesando menos do que quando iniciaram, logo, a perda de 
peso foi sucedida. Além disso, não foi observado diferenças na composição 
corporal entre os grupos após as 144 semanas. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
133 
 
Os autores, também, avaliaram as concentrações de leptina, hormônio 
relacionado à saciedade. Conforme esperado, a leptina apresentou uma 
diminuição em ambos os grupos durante a fase 1, sendo mais pronunciada no 
grupo perda rápida. Ao final da fase 2, as concentrações de leptina aumentaram 
em ambos os grupos. Esses resultados são esperados, uma vez que a leptina é 
um hormônio secretado pelo tecido adiposo e apresenta forte influência sobre a 
regulação do peso corporal, uma vez que há diminuição dos seus níveis 
resultante da diminuição do tecido adiposo e da ingestão alimentar. 
Considerando que os participantes reganharam em média 10 kg após as 144 
semanas, seus estoques de tecido adiposo aumentam e, consequentemente, 
seus níveis de leptina também. 
 
 
Figura 10.1 – Ao final do estudo, a média de reconheço de peso entre os participantes 
do grupo perda rápida de peso (vermelho) e perda gradual de peso (azul) não teve 
diferença estatística (PURCELL et al., 2014). 
 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
134 
 
Portanto, os autores concluem que as evidências não apoiam uma 
abordagem de perda gradual de peso em relação a perda rápida de peso na 
prevenção da recuperação do peso perdido, pois a recuperação do peso perdido 
foi semelhante após uma perda de peso rápida ou gradual. 
Entretanto, precisamos ter cautela ao analisar esses resultados. 
Percebam que em ambos os estudos, os participantes apresentavam obesidade 
ou sobrepeso, logo, não podemos extrapolá-los para indivíduos eutróficos. Sabe-
se que a massa gorda apresenta um efeito protetivo sobre a massa muscular, 
portanto, pacientes com maiores percentuais de gordura utilizam predominante 
gordura, estocada no tecido adiposo, como fonte de energia, poupando o tecido 
muscular. É importante ter em mente que esse fato apenas reduz, e não zera, a 
magnitude de utilização do tecido muscular como fonte de energia quando 
comparado a pacientes eutróficos. Dessa forma, pacientes com sobrepeso e 
obesidade podem se beneficiar de uma perda rápida de peso, visto que já se 
tomou conhecimento que esse fato não irá impactar negativamente no reganho 
de peso a longo prazo, além disso, uma perda de peso de forma mais rápida 
pode contribuir para que o paciente se sinta mais motivado em seguir o 
planejamento dietético. Por outro lado, em pacientes eutróficos e em atletas, 
essa estratégia pode não ser muito interessante e uma perda de peso de forma 
gradual com um adequado aporte de proteínas é mais interessante, visando a 
manutenção da massa muscular (o tamanho do déficit calórico também irá 
influenciar na magnitude da perda de massa muscular). 
Ademais, há pessoas que acreditam que a perda rápida de peso favorece 
uma maior diminuição da taxa metabólica basal (energia necessária para manter 
as funções fisiológicas básicas de um organismo em repouso) e esse fato 
contribuiria para o maior reganho de peso. Lembrem que um dos componentes 
da taxa metabólica basal é o peso corporal, portanto, independente da perda de 
peso ter sigo gerada de forma rápida ou gradual, haverá impacto sobre da taxa 
metabólica basal, diminuindo-a. 
Obviamente, o peso corporal apresenta diferentes componentes e a 
composição corporal impacta na taxa metabólica basal. Sabe-se que 1 kg de 
massa muscular aumenta o gasto energético em 13 kcal e 1 kg de tecido 
adiposo, em 4,5 kcal. Portanto, embora o tecido muscular gaste mais calorias 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
135 
 
quando comparado ao tecido adiposo, 1 kg de massa muscular não aumenta o 
metabolismo de forma expressiva, uma vez que 5 kg de tecido muscular 
aumentariam em 65 kcal o gasto energético. A tabela 10.1 mostra a taxa 
metabólica basal dos diferentes tecidos. 
 
Tabela 10.1 - Taxa metabólica dos órgãos/tecidos (WANG, 2010). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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136 
 
REFERÊNCIAS 
PURCELL, Katrina et al. The effect of rate of weight loss on long-term weight 
management: a randomised controlled trial. The Lancet Diabetes & 
Endocrinology, v. 2, n. 12, p. 954-962, 2014. 
VINK, Roel G. et al. The effect of rate of weight loss on long‐term weight regain 
in adults with overweight and obesity. Obesity, v. 24, n. 2, p. 321-327, 2016. 
WANG, Z. et al. Specific metabolic rates of major organs and tissues across 
adulthood: evaluation by mechanistic model of resting energy expenditure. Am J 
Clin Nutr. Dec; 92 (6): 1369–1377, 2010. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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137 
 
11 
TERMOGÊNICOS E INIBIDORES DO 
APETITE 
 
11.1 INTRODUÇÃO 
Os suplementos termogênicos estão entre os mais vendidos nas lojas de 
suplementos, e apresentam a premissa de auxiliarem no processo de 
emagrecimento. Considerando que um dos principais desejos da maioria das 
pessoas é perder ou controlar a gordura corporal, não é à toa que os 
suplementos termogênicos movimentam um grande fluxo de capital. Há diversos 
suplementos termogênicos disponíveis comercialmente e iremos discuti-los na 
sequência, uma vez que precisamos, primeiramente, entender o que, de fato, 
são termogênicos. 
Os termogênicos são compostos voltados para o aumento do gasto 
energético e objetivam auxiliar naperda de peso. Sabe-se que a perda de 
gordura corporal ocorre quando há um balanço calórico negativo (déficit calórico) 
e os termogênicos, teoricamente, auxiliariam nesse processo, aumentando o 
gasto e contribuindo para o déficit calórico. Irei utilizar um exemplo bem simples 
para o melhor entendimento. Pablo gasta 2500 kcal por dia, ingere 2000 kcal e 
utiliza 6 mg/kg de cafeína como pré-treino. Imagine que a cafeína aumente o 
gasto energético em 300 kcal, logo, Pablo que estava com um déficit de 500 kcal 
pela alimentação, passa para um déficit de 800 kcal (500 kcal da alimentação + 
300 kcal da cafeína). Percebam que a cafeína entrou como um coadjuvante, 
permitindo com que o déficit calórico pela alimentação de Pablo seja menor. 
Infelizmente, este foi apenas um exemplo ilusório, embora uma parte de nós 
desejasse não ser. Em primeiro lugar, a maioria dos termogênicos não 
promovem um aumento significativo no gasto calórico e em segundo, estamos 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
138 
 
considerando um cenário perfeito onde o indivíduo segue dieta. Você verá ao 
longo deste tópico que os termogênicos considerados seguros são pouco 
eficazes no processo de emagrecimento e que, na grande maioria das vezes, o 
seu uso não está associado a um déficit calórico promovido pela alimentação. 
Conforme mencionado, há diversos suplementos termogênicos 
disponíveis comercialmente e iremos discuti-los na sequência deste capítulo. 
Primeiramente, iremos estudar acerca dos receptores adrenérgicos, uma vez 
que vários dos suplementos ou fármacos utilizados possuem mecanismos de 
ação pela ligação direta ou indireta nesses receptores. Na sequência iremos 
estudar os termogênicos naturais e os termogênicos farmacológicos. 
 
11.2 RECEPTORES ADRENÉRGICOS 
Primeiramente, precisamos entender o que é um receptor. Receptores, de 
maneira geral, são proteínas localizadas na membrana plasmática das células 
(por exemplo, há diferentes receptores nas células adiposas, nas células 
musculares, nos hepatócitos, nas células pancreáticas etc.). A ligação de 
moléculas específicas a esses receptores desencadeia respostas fisiológicas. 
Por exemplo, a ligação do hormônio insulina ao seu receptor no tecido muscular 
permite a translocação de GLUT4 e, consequentemente, a entrada de glicose. 
As catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) exercem seus efeitos fisiológicos 
por meio de sua ligação a receptores adrenérgicos na membrana das células. 
Existem diferentes receptores adrenérgicos e os efeitos das catecolaminas 
variam de acordo com o receptor em que ela está ligada. Nesse sentido, agentes 
simpatomiméticos são substâncias que podem se ligar diretamente a receptores 
adrenérgicos (simpatomiméticos de ação direta) ou que podem aumentar a 
liberação de catecolaminas (simpatomiméticos de ação indireta), as quais se 
ligam nos receptores adrenérgicos. Os receptores adrenérgicos subdividem-se 
em α-1 e α-2, β-1, β-2 e β-3. Os quatro tipos de receptores adrenérgicos são 
encontrados em tecidos-alvo diferentes e controlam respostas diferentes, como 
aumento na degradação de glicogênio e gordura. Considerando que os 
receptores adrenérgicos são encontrados em diferentes tecidos, um único 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
139 
 
fármaco, sem seletividade, pode desencadear diferentes respostas fisiológicas, 
como por exemplo aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca. 
Conforme iremos estudar ao longo deste capítulo, os efeitos lipolíticos de 
alguns termogênicos estão associados a ligação desses fármacos a alguns 
desses receptores, ou ao aumento de catecolaminas. Dois receptores 
adrenérgicos desempenham um papel importante, o receptor α-2 e o receptor β-
2. Drogas que são antagonistas do receptor α-2 (Ioimbina) e drogas agonistas 
do receptor β-2 (Efedrina, Clembuterol, Salbutamol) aumentam a lipólise e a 
oxidação de gordura. 
 
 
Figura 11.1 - Essa figura ilustra os principais fármacos com efeitos termogênicos 
utilizados no fisiculturismo e os principais receptores adrenérgicos envolvidos na 
atividade de cada uma dessas drogas. A seta indica atividade agonista sobre o receptor 
e a seta com barra (na Ioimbina) indica atividade antagonista do fármaco no receptor. 
 
Observação: Os agonistas são análogos estruturais que se ligam a um receptor 
e mimetizam o efeito normal do ligante natural; os antagonistas são análogos 
que se ligam ao receptor sem disparar o efeito normal e, desta forma, bloqueiam 
os efeitos dos agonistas, incluindo o ligante biológico. Em alguns casos, a 
afinidade do receptor por agonistas ou antagonistas sintéticos é maior do que 
pelo agonista natural. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
140 
 
Tabela 11.1 - Efeitos fisiológicos das catecolaminas de acordo com os receptores α e 
β-adrenérgicos. 
 
 
 
11.3 CHÁ VERDE 
O chá verde é a planta Camellia sinensis, a qual é rica em polifenóis, 
principalmente catequinas. Há quatro principais catequinas presentes no chá 
verde: epicatequina, epicatequina-3-galato, epigalocatequina e 
epigalocatequina-3-galato, sendo a última a mais estudada. São as catequinas 
que, de fato, irão exercer os efeitos fisiológicos da suplementação com chá 
verde. 
O mecanismo de ação do chá verde é devido a inibição da enzima Catecol 
O-Metiltransferase (COMT). Essa enzima degrada as catecolaminas ativas 
(dopamina, adrenalina e noradrenalina), logo, quanto maior é a expressão de 
COMT, menor será a concentração de catecolaminas. Conforme mencionado, 
as catecolaminas exercem seus efeitos fisiológicos por meio de sua ligação a 
receptores adrenérgicos na membrana das células. Na célula adiposa, por 
exemplo, a adrenalina se liga em seu receptor β-adrenérgico e promove a lipólise 
(quebra dos triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol). 
Conforme mostrado na figura 11.2, a adrenalina se liga no seu receptor e 
ativa a enzima adenilato-ciclase, responsável por quebrar o ATP em AMPc. O 
AMPc, por sua vez, ativa a proteína-cinase dependente de cAMP, também 
chamada de proteína-cinase A ou PKA, a qual fosforila (adiciona um grupo 
fosfato) e, consequentemente, ativa a enzima lipase hormônio sensível (LHS). A 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
141 
 
enzima LHS é uma das enzimas responsáveis pelo processo de lipólise. Dessa 
forma, o aumento de catecolaminas induzido pela inibição de COMT causaria 
uma maior taxa de lipólise e, consequentemente, auxiliariam no processo de 
emagrecimento. Embora existam estudos em humanos mostrando aumento nas 
concentrações de catecolaminas com a suplementação de chá verde, o 
mecanismo de inibição da enzima COMT pelo chá verde não é totalmente 
comprovado em humanos. 
 
Figura 11.2 - Ligação de adrenalina ao receptor β-adrenérgico presente na célula 
adiposa. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
142 
 
Dessa forma, o chá verde exerce efeito termogênico, mas em uma 
magnitude muito pequena. Alguns estudos de meta-análise mostram que o chá 
verde pode aumentar o gasto energético em ~5% (por exemplo, um indivíduo 
com gasto de 3000 kcal, aumentaria o seu gasto em 150 kcal). Embora essa taxa 
de ~5% possa parecer significativa em alguns casos, os estudos que a mostram 
apresentam muitos vieses e não podemos confiar em seus resultados. Quando 
se avalia a suplementação de cafeína em conjunto com a suplementação de chá 
verde, os resultados sobre o aumento do gasto calórico são pequenos (60 a 150 
kcal) e a maioria dos estudos não controla a dieta dos participantes. Não 
controlar a dieta dos participantes configura um viés muito grande para os 
estudos, uma vez que não podemos afirmar que os resultados encontrados 
foram devido a suplementação ou a mudanças na dieta (por exemplo, Carlos 
perdeu 1 kg após suplementar chá verde. Pelo fato da dieta de Carlos não ter 
sido controlada,essa diferença de 1 kg pode ter sido devido a uma restrição 
calórica ou a uma prática maior de atividade física, e não a suplementação de 
chá verde). 
Além disso, alguns estudos são realizados com asiáticos. A população 
asiática apresenta maior expressão da enzima COMT e, consequentemente, são 
mais responsivos a suplementação com chá verde. Nesse sentido, é importante 
cuidar a população do estudo que avaliou a suplementação de chá verde, uma 
vez que não podemos comparar os resultados de asiáticos com outras 
populações, como por exemplo, de brasileiros. 
De maneira geral, os estudos mostram um aumento mínimo no gasto 
calórico com o uso de suplementos termogênicos naturais e a quantidade 
calórica gasta pode ser facilmente anulada com o consumo de uma maçã, por 
exemplo. Em 2005, Belza e Jessen observaram que a ingestão de um 
termogênico, contendo extrato de chá verde, capsaicina, cafeína e tirosina, 
aumentou o gasto energético de repouso em apenas 2%. Considerando que 
você apresenta um gasto de 2000Kcal, o termogênico aumentou em apenas 
40Kcal (uma maçã apresenta, em média, 70kcal). Em 2007, Belza et al. 
encontraram que a cafeína aumentou em 6% a taxa metabólica de repouso 
(±100-120kcal/dia), enquanto o extrato de chá verde aumentou em 2% a taxa 
metabólica de repouso. Por último, Janssens et al. (2015) não observaram 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
143 
 
diferença significativa na composição corporal após a suplementação com 
extrato de chá verde. 
Portanto, as catequinas presentes no chá verde, de fato, aumentam o 
gasto calórico, todavia, esse aumento é pequeno e dificilmente terá relevância 
clínica no processo de emagrecimento. 
 
11.4 CAFEÍNA 
A cafeína é encontrada em diferentes alimentos (grãos de café, folhas de 
chá, chocolate, grãos de cacau), mas a sua maior concentração é no café. Em 
150ml de café de infusão, encontra-se 20 a 50mg de cafeína, enquanto 150ml 
de café expresso, encontra-se cerca de 100mg de cafeína. Em contrapartida, 
240ml de chá verde apresenta cerca de 30mg de cafeína. 
A cafeína tem diferentes mecanismos de ação, sendo principalmente 
antagonista dos receptores de adenosina. A adenosina é um neurotransmissor 
que ao se ligar em seu receptor estimula a sensação de sono e cansaço. Dessa 
forma, a cafeína antagoniza os receptores de adenosina e prejudica a ligação da 
adenosina, diminuindo a sensação de sono e cansaço e aumentando a sensação 
de alerta (é importância mencionar que o consumo de cafeína pode aumentar os 
receptores de adenosina, voltando aos níveis basais em média 2 semanas após 
cessar o uso). Esse é o principal motivo pelo qual a cafeína aumenta a 
performance. Além disso, a cafeína pode aumentar a liberação de catecolaminas 
(adrenalina, noradrenalina), exercendo seus possíveis efeitos termogênicos. 
Esse fato parece ocorrer porque a adenosina, ao se ligar no seu receptor, diminui 
a liberação de noradrenalina. Logo, ao antagonizar os receptores de adenosina, 
a cafeína aumenta os níveis de noradrenalina. 
As doses recomendadas de cafeína para melhora do desempenho 
esportiva são de 3 a 6 mg/kg. Embora a cafeína apresente uma boa 
comprovação para melhora do desempenho esportivo, o mesmo não ocorre com 
o emagrecimento, uma vez que o efeito termogênico da cafeína é muito 
pequeno. Nesse sentido, um estudo publicado por Acheson et al. (2004) mostrou 
que a suplementação com 10 mg/kg de cafeína aumentou em 13% o gasto 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
144 
 
energético. Embora esse aumento de 13% pareça muito, ele foi referente apenas 
as 4 horas em que os participantes do estudo permaneceram na calorimetria 
indireta (o grupo placebo gastou 1,4 kcal/min e o grupo cafeína, 1,55 kcal/min, 
sendo que no final das 4 horas de teste, o aumento no gasto energético foi de 
apenas 36 kcal). Algumas pessoas podem pensar “se a suplementação de 
cafeína aumentou o gasto energético em 36 kcal durante 4 horas, ela aumenta 
em 216 kcal durante 24 horas”, esse pensamento não é correto, uma vez que a 
cafeína tem um pico de ação plasmática por volta de 60 – 120 minutos, logo, 
esse aumento no gasto energético é maior nas duas primeiras horas e após as 
4 horas de teste na calorimetria indireta, o aumento no gasto energético tende a 
ser praticamente nulo. Além disso, as doses utilizadas de cafeína foram elevadas 
(10 mg/kg), uma vez que a recomendação é de até 6 mg/kg. Em 1989 foi 
publicado um estudo na American Journal of Clinical Nutrition mostrando que a 
suplementação com 100 mg de cafeína aumentou o gasto energético de repouso 
em apenas 3 a 4% ao longo de 150 minutos (por exemplo, se um indivíduo tem 
o gasto energético de repouso de 1800 kcal, iria aumentá-lo em apenas 54 – 72 
kcal). Nessa mesma revista, foi publicado outro artigo onde a suplementação 
com 8 mg/kg de cafeína aumentou a taxa metabólica em 16% ao longo de 3 
horas após a sua ingestão. Conforme já mencionado, embora esse aumento 
16% pareça muito, ele foi referente apenas as 3 horas após a suplementação 
com cafeína, não se mantendo constante ao longo das 24h (por exemplo, para 
um indivíduo com gasto de 1800 kcal ao dia, representaria um aumento de 
apenas 36 kcal). Além disso, tem estudos mostrando que a suplementação com 
5 mg/kg de cafeína nem aumentou o gasto energético. Portanto, a cafeína pode, 
sim, aumentar o gasto energético, porém é um aumento muito pequeno e que 
não apresenta relevância clínica. 
 
Curiosidade: O principal local de metabolização da cafeína é no fígado por meio 
do sistema do citocromo P450 1A2 (CYP1A2), composto por uma família de 
enzimas. O CYP1A2 é responsável por aproximadamente 95% do metabolismo 
da cafeína e demonstra ampla variabilidade na atividade enzimática entre os 
indivíduos. Tem indivíduos que apresentam uma alta atividade das enzimas 
CYP1A2, enquanto outros, uma baixa atividade. Esse fato explica por que 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
145 
 
existem indivíduos que se beneficiam com a suplementação de cafeína, 
aumentando sua performance (metabolizadores rápidos de cafeína), enquanto 
outros apresentam efeitos contrários e indesejáveis (metabolizadores lentos de 
cafeína). 
 
11.5 CITRUS AURANTIUM 
O Citrus aurantium vem da laranja amarga e ficou conhecido pelo produto 
advantra Z, composto principalmente por Citrus aurantium. O principal 
constituinte do Citrus aurantium é a sinefrina, especificamente a isoforma p-
sinefrina. Nesse sentido, alguns estudos mostram que a p-sinefrina atua 
principalmente nos receptores β-3 adrenérgicos, presentes principalmente no 
tecido adiposo. Considerando a presença de receptores β-3 adrenérgicos no 
tecido adiposo, a citrus aurantium poderia aumentar a lipólise e o gasto 
energético, ao mesmo tempo que não causaria aumento da pressão arterial e da 
frequência cardíaca. A dose padrão de Citrus aurantium é de 500 mg por dia, o 
que resulta em 50 mg de p-sinefrina. 
Os efeitos termogênicos da p-sinefrina são muito pequenos, da mesma 
forma que o chá verde. Foi observado que a suplementação com 100 mg/kg de 
p-sinefrina em combinação com 100 mg de cafeína aumentou a oxidação de 
gorduras, porém, a magnitude do aumento foi muito pequena, não sendo 
relevante para a prática clínica. Além disso, a maioria dos estudos que avaliam 
perda de peso são estudos mal controlados, não podendo afirmar que a 
suplementação de p-sinefrina auxilia na perda de peso. 
 
11.6 CAPSAICINA E CAPSIATE 
A pimenta vermelha (capsaicina) e a pimenta doce (capsiate) podem 
ativar o receptor TRPV1, aumentando a liberação de catecolaminas (adrenalina, 
noradrenalina), as quais podem aumentar a ativação dos receptores 
adrenérgicos e, consequentemente, aumentar a lipólise e o gasto energético. 
Nesse sentido, uma meta-análise mostrou que a suplementação de 30-130 mg 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch eTanise Michelotti 
146 
 
capsaicina e 6-9 mg de capsiate aumentou o gasto energético e a oxidação de 
gorduras. Todavia, os estudos publicados nesse meta-análise são limitados e os 
autores concluem que a suplementação com capsaicina e capsiate não 
apresentou efeitos clínicos sobre a perda de peso. Outra meta-análise mostrou 
aumento de apenas 70 kcal com a suplementação de capsaicina e capsiate. 
Dessa forma, percebam que os termogênicos considerados seguros não 
aumentam o gasto calórico de maneira significativa. Além disso, quando nos 
encontramos em situações de repouso, os ácidos graxos liberados do tecido 
adiposo podem ser novamente reesterificados a triglicerídeos para 
armazenamento (por qual motivo o seu corpo iria oxidá-los? Para você assistir 
Netflix no sofá de casa? O seu corpo é esperto, ele não irá produzir energia à 
toa). 
 
11.7 IOIMBINA 
A ioimbina é um fármaco derivado da planta Pausinystalia yohimbe e da 
planta Rauwolfia Serpentina. Alguns suplementos apresentam na composição 
extrato de yohimbe, que apresenta em média 3 a 5% de ioimbina pura. Portanto, 
é importante deixar claro que extrato de yohimbe não é o mesmo que ioimbina 
(a ioimbina pura é encontrada na medicação “Yomax”). Esse fármaco apresenta 
5,4 mg de cloridrato de ioimbina (ioimbina pura), sendo utilizado para o 
tratamento de disfunção erétil, uma vez que a ioimbina pode exercer um efeito 
vasodilatador. 
A ioimbina é uma antagonista de receptores α-2 adrenérgicos. Os 
receptores α-2 adrenérgicos estão espalhados por diversos tecidos do 
organismo e no tecido adiposo, quando ativados, esses receptores possuem 
efeitos anti-lipolíticos. Nesse sentido, quando há uma redução na ativação de 
receptores α-2 adrenérgicos, há aumento na liberação de noradrenalina e 
aumento nos níveis de AMPc, contribuindo para o aumento da lipólise. 
Um assunto muito abordado é acerca da ioimbina ter um efeito maior em 
mulheres. Nesse sentido, considerando que a ioimbina é uma antagonista de 
receptores α-2 adrenérgicos e que o estrogênio causa um up regulation de 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
147 
 
receptores α-2 adrenérgicos, a ioimbina teoricamente exerceria seu efeito 
lipolítico principalmente em mulheres, uma vez que as mulheres apresentam 
proporcionalmente mais estrogênio e, portanto, maior expressão de receptores 
α-2 adrenérgicos. 
Além disso, esse aumento de estrogênio é o responsável pela deposição 
de gordura clássica de mulheres pré-menopausa (maior gordura nas coxas e nos 
glúteos e menor gordura na região abdominal). Mulheres pós-menopausa ocorre 
o oposto, com menor deposição de gordura nas coxas e nos glúteos e maior 
deposição na região abdominal. Nesse sentido, menciona-se que a ioimbina 
auxilia na perda de gordura localizada, uma vez que os receptores α-2 
adrenérgicos nas mulheres estão localizados na região glúteo femoral. Porém, 
são apenas mecanismos e não há estudos avaliando efeito maior da ioimbina 
em mulheres. 
A ioimbina apresenta uma baixa comprovação cientifica para o 
emagrecimento, uma vez que os estudos com ioimbina voltados para o 
emagrecimento são muito limitados, não apresentando controle de dieta. Nesse 
sentido, 1986, foi publicado um estudo onde 21 mulheres com obesidade 
consumiram 400 kcal durante 4 semanas, incluindo 7 dias com 15 mg de 
ioimbina. Nessa semana de utilização de ioimbina, as mulheres perderam em 
média 0,66 kg a mais do que o grupo placebo. Entretanto, o estudo não teve um 
controle adequado da ingestão calórica, dificultando a confiabilidade dos 
resultados. Em conjunto, o estudo observou aumento de ácidos graxos livres, 
indicando uma maior lipólise. Conforme já mencionado, aumentar lipólise não, 
necessariamente, irá se refletir em emagrecimento. Em 2011 foi publicado outro 
estudo com 20 jogadores de futebol de elite utilizando 20 mg de ioimbina 
fracionada em duas doses de 10 mg ao dia. Os autores observaram uma perda 
de quase 2 kg de gordura com a utilização de ioimbina, entretanto, a dieta foi 
controlada apenas 7 dias antes dos testes. Percebam que é muito difícil avaliar 
um suplemento e/ou um fármaco sobre o emagrecimento quando não há controle 
de dieta, pois não é possível afirmar se os resultados encontrados foram devido 
a mudanças na dieta e/ou exercício ou se foram devido a introdução do 
suplemento e/ou do fármaco. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
148 
 
Portanto, os dados com ioimbina são muito limitados e não podemos 
afirmar que ela funciona ou que não funciona. Além disso, é importante 
compreender que a ioimbina pode causar efeitos colaterais. Os efeitos colaterais 
mais comuns da ioimbina incluem tremores, insônia, aumento de pressão arterial 
e da frequência cardíaca, ansiedade, dores de cabeça e tontura, enjoos e ânsia 
de vomito (esses últimos dois efeitos colaterais são observados principalmente 
com a suplementação em jejum.). Nas doses de 5 a 20 mg/dia os estudos 
mostram pouco ou mesmo nenhum efeito colateral. 
 
11.8 EFEDRINA 
A Efedrina é um fármaco da classe das aminas simpatomiméticas, ou 
seja, atua aumentando a liberação de catecolaminas e é agonista dos receptores 
adrenérgicos β-1, β-2 e α-1. Em sua forma natural, a efedrina é conhecida como 
Ma Huang e tem sido utilizada na medicina tradicional chinesa como estimulante 
e anti-asmática desde a antiguidade. É utilizada terapeuticamente como 
descongestionante nasal, broncodilatador (asma, bronquite) e no tratamento da 
hipotensão. No Brasil pode ser encontrada em medicamentos como Franol (15 
mg) e Marax (25 mg). 
Essa droga tem sido utilizada por fisiculturistas na fase de pré-
competição, visando aumento da queima de gordura. Também é utilizada por 
atletas de força como um estimulante, além de ter potencial para aumento de 
força. A efedrina age no sistema nervoso central e nos receptores α e β-
adrenérgicos, diferente do clembuterol e do salbutamol, que são agonistas 
seletivos dos receptores adrenérgicos β-2. A efedrina também aumenta a 
liberação de noradrenalina e inibe sua recaptação, aumentando a atividade 
desse hormônio nos receptores adrenérgicos (α e β). Efedrina não tem uma 
afinidade tão forte com os receptores β-2, como o clembuterol. Por isso não é 
tão poderosa para queima de gordura como esse fármaco. No entanto, ela tem 
vantagens adicionais, como inibidora do apetite e também pode ser usada 
continuamente por mais tempo, já que não leva uma saturação tão rápida dos 
receptores adrenérgicos β-2, como é o caso do clembuterol e do salbutamol. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
149 
 
A efedrina é utilizada por fisiculturistas geralmente na fase de pré-contest, 
visando aumento da lipólise, do metabolismo e também supressão do apetite. 
Estudos indicam que essa droga é mais potente para queima de gordura quando 
combinada com cafeína (combo EC), mas também existem atletas que 
combinam efedrina com cafeína e aspirina, o famoso combo ECA. Estudos 
mostram que a aspirina (cerca de 300 mg/dia) potencializa o efeito termogênico 
do combo. Fisiculturistas geralmente utilizam efedrina em dosagens que variam 
de 15 a 30 mg três vezes ao dia. Muitos usuários evitam seu uso próximo ao 
horário de dormir para evitar insônia. O combo EC é um dos mais utilizados por 
atletas na fase de pré-competição. Atletas de levantamento de peso gostam de 
utilizar efedrina antes dos treinos e das competições como estimulante e visando 
aumento de força. 
Nesse sentido, um estudo publicado em 1991 utilizou 10 mg e 20 mg de 
efedrina com 100 mg ou 200 mg de cafeína de forma isolada ou em combinação. 
O grupo que utilizou 20 mg de efedrina com 200 mg de cafeína foi o que mais 
aumentou o gasto energético. Esse aumento no gasto foi de 30 kcal em 3 horas, 
uma média de 10 kcal por hora, e em teoria, em 24h, aumentaria 240 kcal. Outro 
estudo avaliou 20 mg de efedrina com 200mg de cafeína três vezes ao dia, 
totalizando 60 mg de efedrina e 600 mg de cafeína ao dia. A perda de peso total 
do grupo efedrina + cafeína não foi muito diferente do grupo placebo (1,7kg), 
mas a composição corporal sim. O grupo efedrina + cafeína perder 4,5 kg a mais 
de peso gordo e perdeu 2,8 kg a menos de massa magra quando comparado ao 
grupo placebo. Além disso, o grupo efedrina teve um aumento muito maior na 
oxidação de gorduras. O grupo efedrina reduziu menos o gasto energético em 
relação ao grupo placebo, mesmo perdendo mais peso. 
Dessa forma, ao analisar os estudos com efedrina, não é observado um 
grande impacto no aumento do gasto calórico, mas sim na oxidação de gorduras 
e na supressão do apetite. A efedrina pode atuar a nível do sistema nervoso 
central, influenciando nos neurônios anorexígenos, além de ter efeito sobre o 
esvaziamento gástrico. Nesse sentido, um estudo utilizou 50 mg de efedrina, 15 
mg de ioimbina ou placebo, e o grupo que usou efedrina teve um retardo no 
esvaziamento gástrico. 
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150 
 
Diferente do clembuterol e do salbutamol, a efedrina pode ser utilizada por 
várias semanas continuamente, sem risco de perda de eficácia, já que não leva 
a uma saturação tão rápida dos receptores β-adrenérgicos. 
Os efeitos colaterais mais comuns da efedrina são insônia, perda do 
apetite, tremores nas mãos, dores de cabeça, taquicardia, tontura. Essa droga 
não é indicada para indivíduos com problemas renais e cardiovasculares. Um 
dos motivos dessa droga ser banida pela FDA nos EUA foram alguns casos de 
morte associados ao seu abuso. É importante deixar claro que os sintomas são 
dose dependentes e que irá ocorrer efeito rebote ao cessar o uso, uma vez que 
o gasto calórico reduz e a fome aumenta. 
 
11.9 CLEMBUTEROL 
Clembuterol é um fármaco da classe das drogas simpatomiméticas, um 
agonista seletivo dos receptores adrenérgicos β-2 (ação direta e seletiva no 
receptor β-2), usado terapeuticamente como broncodilatador para tratar 
distúrbios respiratórios como a asma. No Brasil e nos EUA essa droga é de uso 
exclusivo veterinário. É encontrado principalmente na forma de gel (Pulmonil, 
Lavizzo). 
Os receptores β-2 estão presentes em diversos tecidos do organismo 
como musculatura lisa do trato respiratório, músculo esquelético e tecido 
adiposo. Atuando nos receptores do trato respiratório, o clembuterol reverte a 
obstrução das vias aéreas, agindo como um broncodilatador. No tecido adiposo, 
ao ativar os receptores β-2, o clembuterol aumenta a lipólise, e no músculo 
esquelético aumenta a oxidação de ácidos graxos. Clembuterol também mostrou 
efeito anabólico em animais e humanos, mas em indivíduos treinados esse efeito 
é pouco provável. 
Parece que foi Dan Duchaine que introduziu o clembuterol no 
fisiculturismo, sendo um dos termogênicos mais potentes e favoritos desses 
atletas, utilizado principalmente na fase de pré-contest. Por ser um potente 
agonista dos receptores adrenérgicos β-2 – inclusive mais potente que o 
salbutamol (aprovado para uso em humanos) – clembuterol leva a uma rápida 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
151 
 
dessensibilização dos receptores β-2. Por esse motivo muitos atletas ciclam 
essa droga em protocolos do tipo 15 ON/15 OFF ou 2 ON/2 OFF, sendo os dias 
OFF períodos em que se retira a droga para que as concentrações de receptores 
voltem ao normal. É comum também a combinação de clembuterol com 
hormônios da tireoide (T3 e T4) e/ou cetotifeno com a finalidade de prolongar o 
uso, já que essas drogas fazem up regulation dos receptores β-adrenérgicos. 
Essa combinação sinérgica permite o uso contínuo e efetivo do clembuterol por 
4-6 semanas. As doses utilizadas entre atletas variam de 20 a 160 mcg por dia. 
Geralmente fisiculturistas relatam iniciar com 20-40 mcg/dia, subindo 
gradativamente a dosagem até 160 mcg/dia. Obviamente muitos atletas acabam 
extrapolando essas dosagens e isso tende a aumentar o risco de problemas 
cardiovasculares. Clembuterol tem uma meia-vida de cerca de 35 horas e suas 
doses são geralmente divididas durante o dia, evitando o uso na parte da noite 
para evitar insônia. 
Clembuterol parece aumentar o metabolismo de forma mais potente que 
salbutamol e efedrina, embora não tenha um efeito estimulante e inibidor do 
apetite tão potente como essa última droga. Apesar de alguns estudos indicarem 
efeitos anabólicos em animais, os efeitos anabólicos em humanos não são tão 
claros. 
Não há muitos estudos em humanos com clembuterol para perda de peso, 
uma vez que ele não é um fármaco voltado para esse fim. Há apenas um estudo 
em humanos avaliando esse efeito, realizado com 6 homens saudáveis 
utilizando 80 mcg de clembuterol. Apenas 2 pessoas relataram efeitos colaterais, 
sendo que um participante relatou taquicardia, tontura e sonolência. Além disso, 
foi observado aumento de 38% na frequência cardíaca. Os efeitos colaterais 
mais comuns do clembuterol são tremores nas mãos, insônia, sudorese, dores 
de cabeça, taquicardia, hipocalemia, câimbras. Com o tempo de uso o usuário 
tende a se adaptar aos efeitos colaterais dessa droga. Nesse mesmo estudo, o 
clembuterol aumentou em 21% o gasto calórico e em 39% a oxidação de 
gorduras (por exemplo, se um indivíduo tem um gasto calórico de 3000 kcal por 
dia, ele irá subir 630 kcal). 
 Portanto, o clembuterol tem um efeito termogênico potente por aumentar 
de forma significativa o metabolismo, mas também tem efeito debote e efeitos 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
152 
 
colaterais, uma vez que qualquer composto que aumente de forma significativa 
o gasto energético terá efeito rebote (os termogênicos naturais não apresentam 
efeito rebote justamente porque o efeito termogênico é muito pequeno). 
 
11.10 SALBUTAMOL 
Sulfato de salbutamol também é um agonista seletivo dos receptores 
adrenérgicos β-2. Tem efeitos semelhantes ao clembuterol, mas é considerado 
um termogênico menos potente. No Brasil, o salbutamol é comercializado para 
uso humano com o nome de Aerolin, sendo indicado como um broncodilatador 
para o tratamento da asma e outras doenças pulmonares obstrutivas. É 
encontrado nas formas de spray, xarope e comprimidos. Assim como o 
clembuterol, o salbutamol também provoca saturação dos receptores β-2. Atletas 
costumam combinar o uso com cetotifeno e/ou T3/T4 para atenuar esse efeito. 
Fisiculturistas costumam usar salbutamol em ciclos de 15 a 30 dias ON, 
alternando com períodos OFF. As doses usuais entre atletas são semelhantes 
ao uso terapêutico, iniciando com 2-4 mg/dia e subindo gradativamente até 16 
mg por dia, dividindo as doses durante o dia. Alguns atletas combinam 
salbutamol com efedrina e cafeína ou apenas com cafeína. Porém, é importante 
lembrar que a efedrina também atua sobre os receptores β-2, embora seja um 
agonista mais fraco desses receptores. Essa combinação pode levar a uma 
saturação mais rápida dos receptores β-2, assim como potencializar os efeitos 
colaterais, principalmente sobre o sistema cardiovascular. Os efeitos colaterais 
mais comuns do salbutamol são tremores (nas mãos principalmente), dores de 
cabeça, sudorese, insônia, taquicardia e câimbras. 
 
11.11 OZEMPIC E ANÁLOGOS DE GLP-1 
O ozempic é um medicamento amplamente utilizado no tratamento de 
diabetes tipo 2 e obesidade, sendo um agonista do receptor do peptídeo 
semelhante a glucagon 1 (GLP-1). O GLP-1 é uma incretina produzida pelas 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
153 
 
células intestinais, podendo atuar em diferentes locais. No pâncreas, o GLP-1 
estimula a liberação de insulina e reduz a secreção de glucagon, reduzindo a 
glicemia. No trato gastrointestinal, o GLP-1 retarda o esvaziamento gástrico e, 
consequentemente, aumenta a saciedade. No sistema nervoso central, o GLP-1 
atua aumentandoa saciedade por estimular neurônios anorexígenos (POMC, 
CART) e inibir neurônios orexígenos (NPY, AgRP). 
 
Figura 11.3 - Mecanismo de ação dos análogos de GLP-1. 
 
 Dessa forma, o ozempic atua melhorando a saciedade e o controle 
glicêmico, promovendo emagrecimento e melhora da sensibilidade à insulina. 
Além disso, diferentemente da maioria dos fármacos utilizados para tratamento 
da obesidade, o ozempic não acarreta alterações cardíacas significativas 
(embora ele possa aumentar um pouco a frequência cardíaca, esse aumento é 
de apenas ~3 a 5 batimentos por minutos). 
Os estudos que avaliaram perda de peso com ozempic são realizados 
com períodos longos, objetivando observar a manutenção da perda de peso e a 
segurança do fármaco. Nesse sentido, existe uma segurança nos análogos de 
GLP-1 e os colaterais mais associados são enjoos, náuseas, ânsia de vomito e 
algumas vezes desconfortos gastrointestinais. Em 2021, foi publicado um artigo 
na The New England Journal of Medicine, onde 1961 adultos com obesidade 
utilizaram 2,4 mg de semaglutida (princípio ativo do ozempic) durante 68 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
154 
 
semanas, associados a mudanças no estilo de vida. Essa dose de 2,4 mg é a 
dose aprovado para o tratamento da obesidade, no entanto, as doses utilizadas 
são comumente menores (0,25 mg a 0,5 mg), uma vez que o fármaco é caro e 
a dose de 2,4 mg aumentaria muito o custo para o paciente. Os resultados 
mostraram que a redução de peso foi -15,3 kg em comparação com -2,6 kg do 
grupo placebo. 
Percebam que o estudo acima teve uma duração de 1 ano e 6 meses, 
associados a mudanças no estilo de vida, portanto, é necessário que a sua 
utilização seja acompanhada por mudanças dietéticas e práticas de atividades 
físicas, caso contrário, o peso voltará a subir após a interrupção do uso (por 
exemplo, se o paciente perdeu 15 kg durante a utilização do fármaco, ele poderá 
voltar a ganhar esses 15 kg caso não realizar mudanças no estilo de vida). Além 
disso, quando o paciente utiliza ozempic e não muda os seus hábitos 
alimentares, ele pode reduzir muito o consumo proteico e, consequentemente, 
perder massa muscular. Embora em pacientes com obesidade a perda de massa 
muscular seja menor, ela não é nula, e se for associada a um consumo proteico 
insuficiente e a não realização de exercícios de musculação, o paciente perde 
sim massa muscular, contribuindo para o aumento da fome após a interrupção 
do uso. 
Em 2022 foi publicado outro artigo na JAMA, onde 175 participantes com 
sobrepeso ou obesidade receberam prescrições semanais de 1,7 mg ou 2,4 mg 
de semaglutida por 3 a 6 meses. Foi observado que a perda de peso média após 
3 meses foi de 6,7 kg e após 6 meses, de 12,3 kg. Todavia, esse estudo não 
menciona sobre mudanças no estilo de vida (alimentação e exercícios), logo, 
não sabemos como os participantes ficaram após o uso. 
Dessa forma, é extremamente importante o paciente realizar 
acompanhamento com nutricionista e psicólogo durante o uso da medicação 
para que ele aprenda a se alimentar melhor e ter uma melhor relação com a 
comida, além da prática de atividades físicas. Ao retirar o medicamente, é mais 
interessante realizar o desmame e não o tirar por completo. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
155 
 
Além disso, é importante mencionar que existem outros análogos de GLP-
1, como liraglutida (nome comercial de saxenda e victoza), entretanto, ela é 
menos utilizada do que a semaglutida (ozempic), pois os estudos mostram que 
a semaglutida é superior a liraglutida para a perda de peso. Em 2015, foi 
publicado um artigo em que 3731 indivíduos com sobrepeso, que utilizam 3 mg 
de liraglutida ou placebo durante 56 semanas. Foi observado uma perda média 
de -8,4 kg no grupo liraglutida e de -2,8 kg no grupo placebo. Recentemente, foi 
publicado um artigo objetivando calcular o custo necessário para atingir uma 
redução de 1% no peso corporal usando semaglutida ou liraglutida. Foi mostrado 
que a liraglutida resultou em uma perda de peso de 5,4% e a semaglutida, em 
uma perda de peso de 12,4%, O custo total da terapia com liraglutida durante o 
estudo foi estimado em $ 17.585 em comparação com $ 22.878 com 
semaglutida. Consequentemente, o custo necessário para tratar 1% de redução 
de peso corporal com liraglutida é estimado em $ 3.256 em comparação com $ 
1.845 com semaglutida. Dessa forma, os autores concluíram que a semaglutida 
oferece uma relação custo-benefício significativamente melhor do que a 
liraglutida para redução de peso. Por fim, em 2022 foi publicado uma meta-
análise mostrando que 3 mg liraglutida foi inferior a 2,4 mg de semaglutida para 
perda de peso. 
Existe também a tirzepatida, que além de ser um agonista de GLP-1, é 
um agonista de GIP (peptídeo inibidor gástrico). A potência que a tirzepatida tem 
de ativar o receptor de GIP, é a mesma potência que o próprio GIP. Ao ativar o 
receptor de GIP, semelhante ao GLP-1, há aumento de saciedade e aumento da 
secreção de insulina. Em 2022, 2539 participantes receberam tirzepatida 
subcutânea uma vez por semana (5 mg, 10 mg ou 15 mg) ou placebo durante 
72 semanas. O grupo placebo perdeu 3,1% do peso corporal, o grupo 5 mg 
perdeu 15%, o grupo 10 mg perdeu 19,5% e o grupo 15 mg perdeu 20,9%. 
Portanto, esse fármaco mostrou resultados bastante satisfatórios para a perda 
de peso, entretanto, o valor é alto a inviabiliza a utilização pela maioria da 
população. 
 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
156 
 
11.12 METFORMINA 
A metformina é um medicamento hipoglicemiante, utilizada como terapia 
para o tratamento do diabetes tipo 2, usada sozinha ou em combinação com 
outros medicamentos. O mecanismo de ação da metformina é através da 
ativação da via da proteína AMPK (proteína cinase ativada por AMP) – um 
sinalizador celular de esgotamento dos estoques energéticos –, estimulando a 
captação muscular de glicose (pelo aumento da translocação de GLUT4), 
inibindo a gliconeogênese hepática e favorecendo a oxidação de ácidos graxos. 
A AMPK é estimulada principalmente durante o exercício e parece ser a principal 
via de ação para explicar os efeitos metabólicos da metformina. 
 
 
Figura 11.4 - O mecanismo de ação da metformina parece ser mediado pela ativação 
de AMPK. 
 
A comprovação cientifica da metformina para pacientes diabéticos é alta, 
justamente por promover diminuição nos níveis de glicose no sangue pela 
estimulação da proteína AMPK, que promove aumento da translocação de 
GLUT-4 (aumentando consequentemente a captação de glicose e reduzindo os 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
157 
 
seus níveis plasmáticos) e diminuindo a gliconeogênese hepática (diminuindo a 
produção hepática de glicose, diminui-se os níveis de glicose no sangue). 
Algumas pessoas saudáveis utilizam metformina no bulking objetivando 
melhorar a sensibilidade à insulina, entretanto, ela não foi desenvolvida para 
esse fim e não apresenta vantagens em indivíduos saudáveis e sensíveis a 
insulina. Inclusive, há estudos em humanos mostrando prejuízo na hipertrofia 
com o uso de metformina, uma vez que a AMPK é uma via antagônica a via 
mTOR. Portanto, a sua utilização deve ser realizada apenas para pessoas com 
diabetes e com resistência à insulina. 
Os efeitos colaterais mais comuns da metformina são sintomas 
gastrointestinais, que incluem: náusea, vômito, desconforto abdominal e diarreia. 
A absorção de vitamina normalmente B12 é reduzida com a sua utilização. 
 
11.13 SIBUTRAMINA 
Outro fármaco utilizado para perda de peso é a sibutramina. O principal 
efeito da sibutramina é reduzir a recaptação de noradrenalina e de serotonina 
pelos neurônios hipotalâmicos (figura 11.5). Ao reduzir a recaptação, há 
aumento da interação de noradrenalina e de serotonina na fenda sináptica, o que 
pode resultarem maior saciedade e aumento do gasto energético (a recaptação 
desses neurotransmissores na fenda sináptica por transportadores encerra a 
sua sinalização). O aumento na saciedade ocorre porque a serotonina estimula 
POMC e CART e inibe AgRP e NPY, e o aumento do gasto energético ocorre 
pela noradrenalina, uma vez que ela interage com receptores β3-adrenérgicos. 
Esse último, por sua vez, pode causar aumento da pressão arterial. 
Em 2018 foi publicado um artigo avaliando a eficácia e a segurança da 
sibutramina a longo prazo. Foi observado resultados significativos na perda de 
peso em 92,5% dos casos (redução de peso ≥ 5%), os quais não foram 
acompanhados de aumento de pressão arterial. Em 2002 foi publicado uma 
meta-análise avaliando a sibutramina nas doses de 10 a 20 mg/dia. Foi 
observado uma redução de peso média de 2,78 kg em 3 meses e de 4,45 kg em 
1 ano. A perda de peso com sibutramina foi associada a aumentos modestos na 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
158 
 
frequência cardíaca e na pressão arterial. Outra meta-análise publicada em 2012 
objetivou avaliar a sibutramina sobre a perda de peso e pressão arterial, na qual 
se mostrou eficaz para perda de peso, mas aumentou significativamente a 
pressão arterial. De maneira geral, os estudos mostram que os resultados sobre 
a perda de peso com a utilização de sibutramina são inferiores aos análogos de 
GLP-1, mas apresenta a vantagem de ser mais barato. Nesse sentido, os 
estudos mostram uma perda de peso média de 5-10% (4-8kg) com a utilização 
de sibutramina na maioria dos pacientes obesos e com sobrepeso. 
Acerca do aumento do gasto energético com a utilização de sibutramina, 
alguns estudos mostram uma menor diminuição do gasto energético após a 
perda de peso, entretanto, essa diferença é pequena (<100 kcal) e não parece 
trazer resultados clínicos significativos. 
 
Figura 11.5 - Mecanismo de ação da sibutramina. A sibutramina inibe a recaptação de 
serotonina e noradrenalina, prolongando a ação desses neurotransmissores em seus 
receptores pós-sinápticos (YANOVSKI, 2002). 
 
11.14 ORLISTAT 
 O orlistat atua como um inibidor da enzima lipase pancreática (figura 
11.6). Essa enzima desempenha um papel fundamental na digestão da gordura 
dietética, logo, o fármaco atua diminuindo a absorção de gordura 
(aproximadamente 30% dos triglicerídeos ingeridos não são digeridos e são 
excretados principalmente nas fezes). Nesse caso, é comum os indivíduos 
apresentarem esteatorréia (excesso de gordura nas fezes), podendo também 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
159 
 
causar diminuição na absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K). Ao 
utilizar orlistat, não é recomendado seguir uma dieta alta em gordura, deixando-
a no máximo em 25-30% (embora muitas pessoas possam pensar “qual a lógica 
de utilizar um inibidor de lipase e ingerir pouca gordura?”. A lógica é evitar 
colaterais como esteatorréia, além disso, uma dieta low fat obviamente não é 
isenta gorduras, e as gorduras presentes podem ser em parte eliminadas pelas 
fezes). A dose padrão de orlistat é 120 mg 3 vezes ao dia (antes das principais 
refeições). 
 
Figura 11.6 - Mecanismo de ação do orlistat. Ao bloquear a atividade da lipase, o orlistat 
inibe a degradação dos triglicerídeos dietéticos em ácidos graxos e glicerol (WHARTON, 
2015). 
 
A perda de peso esperada com a utilização de orlistat é de 3 kg ao ano. 
Uma meta-análise da Cochrane de 11 ensaios clínicos randomizados (120 mg 
de orlistat 3 vezes ao dia) mostrou uma perda de peso média 2,9 kg, ou 2,9% do 
peso inicial. Imagine que você consome uma dieta de 2500 kcal com 25% de 
gordura (70g de gordura), uma diminuição de 30% resulta em uma redução de 
20g de gordura ao dia (180 kcal). Sabe-se que 180 kcal não é uma perda 
significativa, embora possa ajudar alguns indivíduos. Nesse sentido, exceto 
alguns análogos de GLP-1, a maioria dos fármacos aprovados para o tratamento 
da obesidade promovem uma perda média de 5% do peso. 
Bioquímica do Emagrecimento Dudu Haluch e Tanise Michelotti 
160 
 
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