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HISTÓRIA DO BRASIL: IMPÉRIO E REPÚBLICA Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira GRADUAÇÃO Unicesumar C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; PEREIRA, Luciene Maria Pires. História do Brasil : Império e República. Luciene Maria Pires Pereira. Maringá-Pr.: UniCesumar, 2018. 293 p. “Graduação - EaD”. 1. Brasil. 2. História. 3. Império. 4. República EaD. I.Título. ISBN: 978-85-459-0129-7 CDD - 22 ed. 981 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Direção Operacional de Ensino Kátia Coelho Direção de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha Direção de Operações Chrystiano Mincoff Direção de Mercado Hilton Pereira Direção de Polos Próprios James Prestes Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida Direção de Relacionamento Alessandra Baron Head de Produção de Conteúdos Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli Gerência de Produção de Conteúdos Gabriel Araújo Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo Supervisão de Projetos Especiais Daniel F. Hey Coordenador de Conteúdo Priscilla Campiolo Manesco Paixão Design Educacional Rossana Costa Giani Iconografia Amanda Peçanha dos Santos Ana Carolina Martins Prado Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa André Morais de Freitas Editoração Robson Yuiti Saito Revisão Textual Simone Limonta Viviane Favaro Notari Ilustração André Luís Onishi Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e so- lução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsabilida- de: as escolhas que fizermos por nós e pelos nos- sos farão grande diferença no futuro. Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar assume o compromisso de democratizar o conhe- cimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão – “promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” –, o Centro Universi- tário Cesumar busca a integração do ensino-pes- quisa-extensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consci- ência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar al- meja ser reconhecido como uma instituição uni- versitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; con- solidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrati- va; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relaciona- mento permanente com os egressos, incentivan- do a educação continuada. Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quan- do investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequente- mente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capa- zes de alcançar um nível de desenvolvimento compa- tível com os desafios que surgem no mundo contem- porâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialó- gica e encontram-se integrados à proposta pedagó- gica, contribuindo no processo educacional, comple- mentando sua formação profissional, desenvolvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inse- ri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproxi- mação entre você e o conteúdo”, desta forma possi- bilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pes- soal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cres- cimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos peda- gógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possi- bilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e en- quetes, assista às aulas ao vivo e participe das discus- sões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica. Pró-Reitor de Ensino de EAD Diretoria de Graduação e Pós-graduação Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira Graduação em História pela Universidade Estadual de Maringá (2005). Especialização em História Econômica pela Universidade Estadual de Maringá (2008). Mestrado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/FCL de Assis (2011). Especialização em Educação Especial pelo Instituto Paranaense de Ensino – Maringá/PR (2013). Especialização em Psicopedagogia Institucional pelo Instituto Paranaense de Ensino-Maringá/PR (em andamento). Especialização em Atendimento Educacional Especializado – UniCesumar (em andamento). Membro da Sociedade Internacional de Estudos Jesuíticos. A U TO R A SEJA BEM-VINDO(A)! Caro(a) acadêmico(a) do curso de Licenciatura em História da UniCesumar, o livro que você está prestes a estudar foi elaborado com muito carinho e satisfação e tem por obje- tivo auxiliá-lo(a) no processo de aprendizagem sobre a formação e a evolução do Brasil, do período imperial à contemporaneidade. Antes de iniciarmos nosso estudo, gostaria de fazer uma breve apresentação sobre mi- nha formação. Sou formada em História pela Universidade Estadual de Maringá, no Pa- raná, na qual também realizei uma especialização em História Econômica. Possuo uma especialização em Educação Especial, realizada no Instituto Paranaense de Ensino – Ma- ringá/PR e sou mestre em História, na linha de Políticas: ações e representações, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP. Além do Ensino Supe- rior, trabalho na Educação Básica, na rede regular e na educação especial. Feita a apresentação, gostaria de ressaltar que o objetivo deste livro é possibilitar que você adquira o conhecimento necessário sobre o período abordado para que possa atuar como professor(a) de História. Nesse sentido, o livro conta com informações fun- damentadas em autores clássicos, especialistas no período e que você deve conhecer. Além disso, traz sugestões de livros, documentos históricos, filmes, sites e atividades de análise e de reflexão que vão enriquecer a sua aprendizagem. Compreender o processo de formação do Brasil desde a independência de Portugal até a (re)construção da sociedade após o período da ditadura militar (1964-1985) não é ta- refa simples. Por essa razão, é importante que você tenha disciplina e dedicação para vencer os assuntos e as atividades propostas ao longo de todo o livro, além de aprovei- tar ao máximo os recursos eas dicas apresentados aqui e, também, aqueles oferecidos pela UniCesumar. Com o livro que apresento e com o seu esforço e a sua dedicação, tenho certeza de que nossa viagem pela história do Brasil ocorrerá de maneira prazerosa e você apreenderá as nuances que caracterizaram esse rico período da nossa história. Ao longo deste livro, caro(a) acadêmico(a), discorreremos acerca das conjunturas que permearam o processo de emancipação política do Brasil em 1822, evidenciando o pro- cesso de construção da identidade nacional do país recém-emancipado até a segunda metade do século XX. Iniciamos nossa primeira unidade com uma análise do processo de independência do Brasil e buscamos a compreensão de como o novo país se organizou enquanto nação independente. Entender como os projetos e as ideologias presentes nas lutas pela inde- pendência se organizaram e se articularam após 1822 também é uma preocupação so- bre a qual nos debruçaremos nessa primeira unidade, que discute as relações políticas, econômicas e sociais até o período das regências. Na segunda unidade, nosso objetivo é compreender as conjunturas que caracterizaram o reinado de D. Pedro II e que possibilitaram a discussão sobre a mudança do regime imperial para o republicano. Analisar o contexto e as circunstâncias que permitiram que APRESENTAÇÃO HISTÓRIA DO BRASIL: IMPÉRIO E REPÚBLICA os movimentos abolicionista e republicano ganhassem espaço na sociedade brasi- leira é fundamental para que sejamos capazes de apreender as mudanças nas bases sobre as quais o Brasil se sustentava. A terceira unidade é dedicada ao estudo da consolidação da República no Brasil e à análise das rupturas e das continuidades das características das forças políticas, econômicas e sociais no país. Compreender a ideia de democracia que a sociedade do final do século XIX e início do século XX tinha contribui para que possamos en- tender as transformações pelas quais o país passou ao longo do século XX. Na quarta unidade, nosso objeto de estudo é a ascensão dos regimes autoritários no Brasil a partir do governo de Getúlio Vargas e do golpe de 1964 que instaurou a ditadura militar no Brasil. Nesse momento, o objetivo é verificar como o conceito de democracia foi manipulado a partir dos interesses de uma minoria e como a socie- dade reagiu a essa manipulação. Na quinta e última unidade de nosso livro, discutiremos o período da ditadura mili- tar brasileira, com o objetivo de conhecermos e compreendermos a realidade bra- sileira numa época na qual as liberdades, os direitos e a democracia deixaram de existir para a maioria da população. Conhecer essa parte da história do Brasil é vital para que, em tempos de turbulências políticas, econômicas e sociais, não se evoque um passado que deixou marcas indeléveis nos brasileiros. Terminamos nosso estu- do sobre nosso país analisando o processo de redemocratização do Brasil e a sua organização a partir de 1985. Espero, caro(a) acadêmico(a), que você aprecie o livro que recebe e que o aproveite ao máximo para conhecer nossa história, enriquecendo o seu conhecimento, e que você leve o conhecimento aqui adquirido para as salas de aula, contribuindo para a formação de cidadãos críticos e conscientes. Espero, também, que o desejo de se aprofundar nas temáticas aqui apresentadas desperte o interesse pela pesquisa acadêmica, essencial para nossa completa formação. APRESENTAÇÃO SUMÁRIO 09 UNIDADE I O IMPÉRIO DO BRASIL: ESTUDO DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL E A CONSTITUIÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO 15 Introdução 16 Análise do Processo de Independência do Brasil 25 Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O Primeiro Reinado 38 A Crise do Primeiro Reinado e a Abdicação de D. Pedro I 47 O Período Regencial (1831-1840) 58 Considerações Finais UNIDADE II O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: ANÁLISE DO PROCESSO DE TRANSIÇÃO DO FIM DA MONARQUIA PARA O INÍCIO DA REPÚBLICA BRASILEIRA 67 Introdução 68 O Segundo Reinado: O Governo de D. Pedro II 79 A Economia no Período Imperial Brasileiro 86 O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial 96 O Movimento Republicano e o Fim da Monarquia no Brasil 104 Considerações Finais SUMÁRIO UNIDADE III DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA NO BRASIL E AS TRANSFORMAÇÕES NA SOCIEDADE BRASILEIRA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 111 Introdução 112 República Velha ou República da Espada 135 Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado: As Transformações Econômico-Sociais na Primeira República 151 Fim da República Oligárquica: O Golpe de 1930 161 Considerações Finais UNIDADE IV A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL E A SUPRESSÃO DA “DEMOCRACIA” BRASILEIRA: DA ERA VARGAS À DITADURA MILITAR 169 Introdução 170 Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) 186 A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) 201 Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil 218 Considerações Finais SUMÁRIO 11 UNIDADE V OS ANOS DE CHUMBO: A DITADURA MILITAR NO BRASIL E O LONGO PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO 225 Introdução 226 A Consolidação do Golpe de 1964 e a Organização do Estado Militar 235 O “Endurecimento” do Regime e a Resistência Popular: Manifestações e Organizações Populares Contra a Repressão 247 As Esperanças Renovadas: O Longo Caminho da Redemocratização do País 268 Considerações Finais 275 Conclusão 277 Referências U N ID A D E I Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira O IMPÉRIO DO BRASIL: ESTUDO DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL E A CONSTITUIÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar o processo de Independência do Brasil. ■ Compreender o processo de formação do Estado brasileiro após a separação de Portugal. ■ Entender as discussões acerca da organização política e econômica do Estado em formação. ■ Verificar a constituição social do Brasil pós-independência e suas relações e participações na construção do Estado brasileiro. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Análise do processo de Independência do Brasil ■ Aspectos da formação do Estado brasileiro pós-independência: o Primeiro Reinado ■ A crise do Primeiro Reinado e a abdicação de D. Pedro I ■ O Período Regencial (1831-1840) INTRODUÇÃO Prezado(a) aluno(a), ao longo da disciplina de Brasil Colônia, você se debruçou sobre o início da ocupação e da colonização do território brasileiro por parte de Portugal e sobre a formação de uma sociedade baseada nos princípios do Pacto Colonial. Após conhecer e analisar o desenvolvimento do Brasil durante todo o período em que esse esteve sob domínio de Portugal, você analisará o desenvol- vimento do país enquanto Estado e nação independente. Nesta primeira unidade, discorreremos acerca do contexto no qual se desen- volveu o projeto de emancipação política do Brasil, analisando os fatores políticos, econômicos e sociais que permearam esse processo e compreenderemos a ação dos atores sociais que atuaram e/ou contribuíram para a concretização do pro- jeto de separação entre Brasil e Portugal. Ao abordarmos o pretenso fim da dependência política do Brasil em relação a Portugal, é imprescindível nos atentarmos para a maneira como o recém-in- dependente país buscou constituir suas bases e construir uma identidade que representasse a miscelânea de povos e de culturas que aqui se encontravam, levan- do-se em consideração a influência de ideias largamente difundidas na Europa naquele momento que se contrapunham à realidade política e social do Brasil. Nesse sentido, nossa análise sobre esse primeiro momento do Brasil enquanto país independente irá se fundamentar na discussão sobre as rupturas e/ou as permanências de ideias e de instituições presentes no contexto do processo de emancipação política do Brasil e na fundamentação das bases organizacionais do país, contrapondoo discurso adotado ao longo das lutas de independência à estrutura colocada em prática após a separação de Portugal. Compreendendo essa primeira unidade da evolução histórica do Brasil enquanto Estado, você, caro(a) aluno(a), terá dado o primeiro passo para um melhor entendimento das instituições e dos conceitos vigentes em nosso país na atualidade. Pronto para começarmos? Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 15 ANÁLISE DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL Embora o marco da emancipação política do Brasil tenha sido definido em 7 de setembro de 1822, a ideia ou antes o desejo de uma ruptura com Portugal configurou-se no interior da colônia muito antes dessa data. Analisando a histo- riografia a respeito desse tema, é possível observar a corroboração de inúmeros estudiosos à ideia de que a transferência da família real portuguesa para as ter- ras brasileiras, no início do século XIX, contribuiu para o estabelecimento de uma conjuntura que fez nascer – ou que intensificou – o vislumbre da formação de um país livre do julgo dominador de Portugal. Tais conjunturas dizem respeito à configuração de uma estrutura governa- mental que representou uma modificação do papel da colônia dentro do contexto do antigo sistema colonial, na medida em que o Brasil adquiriu status de sede do governo imperial, este estabelecido em um primeiro momento na Bahia e, posteriormente, na cidade do Rio de Janeiro. Essa nova condição da colônia exigiu uma série de investimentos na criação de uma estrutura condizente com sua nova realidade que suscitou o debate acerca da relevância do país diante do cenário que se desenhava. Monumento à Proclamação da Independência – São Paulo O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E16 Análise do Processo de Independência do Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 17 Conforme aponta Faoro (1976, p. 249), as consequências imediatas da chegada e da instalação da família real portuguesa no Brasil traduziu-se no fechamento dos portos da metrópole, fato que a impossibilitava de exportar produtos e/ou adquirir bens e produtos necessários à sua subsistência, na ruptura do Pacto Colonial a partir da abertura dos portos brasileiros à Inglaterra e às nações amigas e, por fim, na centralização do poder que aglutinava as “dispersas e desarticu- ladas capitanias”. Diante do estabelecimento desse novo cenário que, no entendimento de mui- tos historiadores, representava um prolongamento das instituições existentes em Lisboa – antiga sede do governo colonial português – e que não respeitava as características próprias da colônia, os conflitos entre essas duas partes do império português se acentuaram, levando ao início de uma guerra política e ideológica que teve como consequência as lutas pela emancipação da colônia. As revoltas ocorridas ao longo do período colonial, sobretudo a Inconfidência Mineira (1789) e a Conjuração Baiana (1798), ambas com caráter separatista, já demonstravam a insatisfação de setores da sociedade brasileira com a adminis- tração portuguesa, insatisfação essa que ganhou corpo quando da transferência da família real para esse território e das consequências decorrentes desse evento durante a primeira metade do século XIX. No momento em que o Brasil foi elevado à condição de reino, passando a integrar o Reino Unido de Portugal e Algarves (1815), as divergências ideológi- cas entre os que viviam deste e do outro lado do Atlântico foram acentuadas e a manutenção da ordem vigente até então tornou-se cada vez mais difícil. Tufy Kairuz não havia divergências "ideológicas", antes havia um alinhamento se considerando que a elite colonial era formada quase exclusivamente em Portugal. Ver José Murilo de Carvalho A construção da ordem : a elite imperial. Teatro de sombras". Os que viviam" é uma generalização sem muita utilidade para se definir a quem a autora se refere. Tufy Kairuz trecho confuso. "Traduziu-se no fechamento dos portos"? O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E18 Carta de Lei elevando o Brasil a Reino Unido ao de Portugal e do Algarves, RJ, Arquivo Nacional, 1815 Fonte: MultiRio (online). Inseridos nesse quadro de instabilidade e de dificuldades da monarquia portu- guesa em conciliar diferentes interesses em uma sociedade composta por grupos sociais diversificados, aqueles que, entre as décadas finais do século XVII e iní- cio do século XVIII, esboçaram o ideal separatista e tiveram que articular seus interesses a uma discussão e a um movimento que, para além de questões polí- ticas, perpassava o entendimento e – conforme veremos após a declaração de independência – a adaptação das ideologias presentes nos discursos que emba- savam a concepção de uma emancipação política do Brasil. A presença de instituições portuguesas em solo brasileiro e a constante intervenção das Cortes de Lisboa na administração do Brasil, impedindo o seu progresso, deram aos intelectuais do período os motivos para elaborarem um discurso influenciado pelos últimos acontecimentos da Europa e da América, quais sejam: a Revolução Francesa e as independências dos Estados Unidos e das colônias espanholas. Tufy Kairuz não ocorreram movimentos separatistas no final do séc. XVII. Análise do Processo de Independência do Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 19 A esse fato somou-se uma realidade na qual os portugueses que aqui se ins- talaram a partir de 1808 eram nomeados para cargos na administração joanina ou enriqueciam devido aos privilégios a eles concedidos pela coroa, aumentando a insatisfação dos brasileiros. Além dessa insatisfação, o incremento do comér- cio, ocorrido a partir da abertura dos portos e do fim dos monopólios impostos pelo Pacto Colonial, fez com que brasileiros de diferentes setores sociais passas- sem a apoiar os intelectuais e seus ideais liberais, embora com uma interpretação própria desse conceito, voltada para a defesa de seus próprios interesses. Nesse sentido, de acordo com Faoro (1976, p. 246), o liberalismo que embalava os ideais separatistas no Brasil entre os séculos XVII e XVIII era mais justifica- dor do que doutrinário, visto que aqueles que compunham o estrato mais rico da sociedade brasileira defendiam uma política liberal em prol de seus próprios interesses, combatendo uma possível participação política das classes menos pri- vilegiadas de nossa sociedade. Corroborando com a análise de Faoro sobre a concepção de liberalismo no Brasil, Emília Viotti da Costa destaca que Na Europa, o liberalismo era uma ideia burguesa voltada contra as Ins- tituições do Antigo Regime, os excessos do poder real, os privilégios da nobreza, os entraves do feudalismo ao desenvolvimento da economia. No Brasil, as ideias liberais teriam um significado mais restrito, não se apoiariam nas mesmas bases sociais, nem teriam exatamente a mes- ma função. Os princípios liberais não se forjaram, no Brasil, na luta da burguesia contra os privilégios da aristocracia e da realeza. Foram importados da Europa. Não existia no Brasil da época uma burguesia dinâmica e ativa que pudesse servir de suporte a essas ideias. Os adep- tos das ideias liberais pertenciam às categorias rurais e sua clientela. As camadas senhoriais empenhadas em conquistar e garantir a liberdade de comércio e a autonomia administrativa e judiciária não estavam, no entanto, dispostas a renunciar ao latifúndio ou à propriedade escrava (COSTA, 2010, p. 28). O que esse contexto nos permite observar é que, embora com a instalação da famíliareal no Rio de Janeiro e a elevação do Brasil à condição de Reino Unido de Portugal e Algarves o país tenha recebido investimentos que contribuíram para a melhoria das condições econômicas e sociais – mesmo que estas tenham sido sentidas de maneiras diferentes pelos diferentes setores da sociedade bra- sileira –, a administração joanina precisou lidar com a fragilidade do seu poder Tufy Kairuz trecho que confirma a inexistência de uma divergência ideológica mencionada no comentário anterior. Tufy Kairuz incorreto. Não havia ideias liberais no Brasil colonial no séc. XVII. O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E20 real, visto que setores e ideias distintas em relação à situação vigente começa- ram a emergir tanto no interior do Brasil quanto em Portugal. As revoluções de 1817 (Pernambuco) e 1820 (Lisboa) mostram que os rumos adotados por D. João VI na condução da administração de seus domínios não satisfaziam os interesses de muitos. A primeira, representada pela “aliança entre propriedade agrária e as concepções liberais definiu um ideário com o liberalismo forrado de energia republicana” (FAORO, 1976. p.263) e a segunda, era repre- sentada pelo questionamento da elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal e Algarves, questionamento esse suscitado pelo desenvolvimento do Brasil em detrimento de Portugal. Em 1817, no Campo das Princesas, em Recife, os revoltosos dominaram o antigo Palácio do Governo Fonte: MultiRio (online). Diante do crescente antagonismo que caracterizava a manutenção da relação dependente entre Portugal e Brasil, já invertida em seu sentido mais profundo no início do século XIX, tornou-se quase impossível evitar o fortalecimento e a defesa das ideias e dos movimentos emancipatórios ao longo desse período. Desse modo, a elite brasileira chegou ao poder em 1822 na figura de D. Pedro com a tarefa de organizar uma nação independente, com bases nos princípios liberais, sem, no entanto, ferir seus interesses. Análise do Processo de Independência do Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 21 A figura de D. Pedro, regente do Brasil após a volta de D. João VI para Portugal diante da pressão das cortes lisboetas, aglutinou em torno de si as principais mentes do processo de emancipação política do Brasil. A crise que se instalou no Brasil após a partida de D. João VI tem no seu interior o medo de uma pos-sível retomada da exploração e do atraso resultantes da condição de colônia do país e acentuaram o discurso pela independência. Nesse contexto, D. Pedro apro-ximou-se dos brasileiros e, gradativamente, deixou-se influenciar pela ideia do rompimento com seu pai e Portugal. Percebendo as ações em torno de D. Pedro no Brasil, as cortes portugue-sas o pressionavam para que retornasse a Portugal, fato que levou um dos mais expressivos defensores da independência, José Bonifácio, a intervir junto ao regente e convencê-lo a permanecer no Brasil e conduzir a libertação e a reor-ganização do país. O Dia do Fico (09 de janeiro de 1822) desencadeou os movimentos que levaram ao rompimento oficial entre Portugal e Brasil, com a declaração de inde- pendência deste último em 7 de setembro de 1822. O fim das relações coloniais entre Portugal e Brasil foi analisado sob vários ângulos e aspectos, o que significa que o processo de eman- cipação política do Brasil recebeu inúmeras interpretações, que variavam – e ainda variam – de acordo com o momento histórico em que foram elaboradas. “A independência de uma sociedade é o conjunto de condicionamentos his- tóricos e político que não se confundem com um único evento” Fonte: Oliveira (2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009). Os intelectuais brasileiros e as abordagens sobre a independência do Brasil D. Pedro I Fonte: Revista de História (online). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E22 Logo após o 7 de setembro de 1822, José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, procurou legitimar o novo Estado por meio da continuidade da dinastia dos Bragança, colocando a independência do Brasil como o marco fundador do país, realizada sob o singular regime monárquico de um herdeiro dos Bragança (NEVES, 2009, apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 98). Em sua análise sobre a independência do Brasil, Varnhagem demonstrou que essa sig- nificou uma “continuidade entre o passado colonial e o novo projeto nacional, enfatizando a influência civilizadora da colonização portu- guesa sobre o novo país nos trópicos” (NEVES, 2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 99). O liberal e amigo próximo da família imperial Joaquim Manuel de Macedo, ao tratar do assunto, considerou o processo e a independência do Brasil como um período de criação de “uma nação como memória coletiva e idealizada de acontecimentos e personagens excepcionais, organizados em nar- rativa linear” (NEVES, 2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 99). Além de intensa participação na política do período imperial, Joaquim Ma- nuel de Macedo foi também professor, jornalista, poeta e escritor, cujo o ro- mance de maior expressão foi A Moreninha, publicado em 1844. Para conhecer mais sobre a biografia desse intelectual do período imperial, acesse o conteúdo disponível em: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/ cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=905&sid=218>. Acesso em: 10 abr. 2015. Fonte: a autora. Análise do Processo de Independência do Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 23 Como é possível observar, caro(a) aluno(a), até a década de 1850, as análises sobre a independência do Brasil adotaram um viés que destacava a continui- dade das características da colonização portuguesa no Brasil, isto é, apontavam para uma herança colonial que fortalecia a imagem da família real portuguesa e ressaltava a importância de D. Pedro I para a constituição do novo país, numa tentativa de forçar uma união da sociedade em torno dos Bragança. Essa ideia de herança portuguesa vai dominar as análises sobre a indepen- dência até a década de 1860, quando uma nova corrente de intelectuais defendeu a ideia de ruptura com as instituições portuguesas e o nosso passado colonial. Para esses intelectuais, a independência do Brasil ocorreu de fato em 07 de abril de 1831, quando D. Pedro I abdicou do trono e retornou a Portugal. No início do século XX, a ideia de ruptura e da construção de uma nação caracterizada por algo além das influências portuguesas foi reforçada pelo Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, visando uma aproximação entre os processos de independência do Brasil e dos demais países da América Latina (NEVES, 2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 100). Nesse mesmo período, as análises de Caio Prado Jr. realçaram a abordagem marxista, evidenciando os aspectos econômicos do processo de emancipação política do Brasil e enquadrando-o no contexto da falência do sistema colonial. A tese de Caio Prado Jr. foi corroborada por muitos intelectuais a partir da década de 1970 e do crescimento dos cursos de pós-graduação no Brasil. Nomes como Fernando Novais e Guilherme Motta também analisaram a independên- cia do Brasil no contexto da crise do antigo sistema colonial. Para esses autores, a independência foi o momento inicial de um longo processo de ruptura, resul- tado da desagregação do sistema colonial e da montagem do Estado Nacional (NEVES, 2009 apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 101). Os intelectuais do século XX produziram inúmeras análises sobre a inde- pendência do Brasil e a historiografia passou a contar com uma diversidade de ideias e de opiniões sobre esse assunto que contribuíram para o alargamento das discussões acerca não só do período colonialbrasileiro, mas também do con- texto que se instalou com a Proclamação da República. O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E24 Além da questão da continuidade ou da permanência da herança portuguesa ou, ainda, de uma ruptura com as instituições coloniais, essas análises possibili- taram o conhecimento de outros aspectos do início do Brasil imperial, trazendo para o cerne do debate a participação de outros setores da sociedade que não aqueles que compunham a elite, considerando o papel desses na formação de uma identidade nacional. As discussões acerca das conjunturas que marcaram o processo de indepen- dência do Brasil ainda despertam o interesse de historiadores renomados que buscam, por meio da análise de documentos, compreender os interes- ses por trás dos discursos e movimentos emancipatórios. Em 2015, os histo- riadores José Murilo de Carvalho, Lúcia Bastos e Marcello Basile publicaram uma obra na qual apresentam uma documentação inédita que remonta aos anos de 1820 a 1823 e permite novas abordagens sobre esse período de nossa história. Para maiores detalhes, acesse o conteúdo disponível em: <http://oglobo.globo.com/cultura/livros/livro-reune-panfletos-que-permi- tem-novas-interpretacoes-da-independencia-do-brasil-15720391>. Acesso em: 10 abr. 2015. Fonte: a autora. Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O Primeiro Reinado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 25 ASPECTOS DA FORMAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO PÓS-INDEPENDÊNCIA: O PRIMEIRO REINADO Caro(a) aluno(a), após a análise apresentada no tópico anterior, você pode se perguntar: qual é o papel do povo brasileiro durante todo o processo de eman- cipação política do Brasil? Para responder a essa questão, recorreremos a Emília Viotti da Costa, a qual afirma que a independência do Brasil foi articulada e levada a cabo por uma elite composta de fazendeiros, comerciantes e membros de sua clientela, ligados à eco- nomia de importação e exportação e interessados na manutenção das estruturas tradicionais de produção cuja base era o sistema de trabalho escravo e a grande propriedade (COSTA, 2010, p. 11). Essa elite, ao longo dos primeiros anos da independência, reivindicou a participa- ção, senão o comando do país, acentuando os conflitos e as divergências políticas e ideológicas que fizeram parte das lutas pela independência até o momento da abdicação de D. Pedro I em 1831. O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E26 Os demais indivíduos que compunham a sociedade brasileira, como os escravos e os indígenas, foram deixados à margem do processo e, após a inde- pendência, o entendimento próprio que a elite tinha do conceito de liberalismo não permitiu que esses indivíduos tivessem uma maior participação nos enca- minhamentos do novo período. O 07 de setembro de 1822 entrou para a história do Brasil como o início da organização de uma sociedade não mais presa aos laços do Pacto Colonial ou de fidelidade para com Portugal. Significou, ainda, a ascensão de D. Pedro como o primeiro imperador do Brasil, o qual, em teoria, conduziria o país recém-liberto à reestruturação política, econômica e social, orientado pelos princípios liberais. Para Oliveira, o uso do termo independência tinha por objetivo (...) construir a “independência nacional”, articulando a monarquia a uma Constituição que estabelecesse limites ao poder real e garantisse direitos e liberdades civis e políticas aos cidadãos do império. Preten- dia-se, por essa via, entre outras exigências, contestar o absolutismo representado por D. João VI e o “despotismo” exercido por ministros, por conselheiros e pela corte radicada no Rio de Janeiro desde 1808. (OLIVEIRA, 2009 apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 18-19). Portanto, 07 de setembro de 1822 deveria representar, ao menos no imaginá- rio de parte daqueles que lutaram pela emancipação, sobretudo os intelectuais brasileiros, um novo período da história do Brasil caracterizado pelo fim das ins- tituições absolutistas que estiveram presentes nesse território desde a chegada da família real portuguesa e sua corte. Não foi o que aconteceu. De acordo com a mesma autora, o período que abrange a chegada da corte portuguesa (1808) até a abdicação de D. Pedro I (1831) “se configurou como uma das balizas definidoras do surgimento e do perfil do Estado monárquico e da nação no Brasil do século XIX” (OLIVEIRA, 2009 apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 17). D. Pedro I, realizada a independência, enfrentou o conflito oriundo das dife- renças entre os grupos que participaram das discussões e dos desdobramentos do processo de independência e que estavam divididos entre os radicais e os moderados. José Bonifácio, importante articulador da emancipação, mostrou- -se nesse momento novamente ao lado do imperador, buscando garantir a união dos diferentes grupos em torno da lealdade ao império e à figura do imperador. Tufy Kairuz seria mais razoável mencionar que a grande maioria da população livre ficou à margem do processo, pois "escravos e índios" não seriam incluídos em nenhum processo liberal. na época, por mais radical que fosse. José da Silva Lisboa (Visconde de Cairu) Fonte: Matta (online) Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O Primeiro Reinado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 27 A elite que ajudou a colocar D. Pedro I como imperador do Brasil, atingido o seu objetivo de livrar o Brasil das amarras impostas pela submissão a Portugal, buscou consolidar o poder em suas mãos, subjugando o próprio imperador na defesa de seus interesses. Por essa razão, o Brasil pós 1822 se constituiu sob as mesmas bases das instituições tradicionais de ordem econômica dos tempos do período colonial, moldando e manipulando os conceitos de liberalismo e nacio- nalismo à sua própria realidade. O que a historiografia brasileira tem demonstrado é a fidelidade não apenas do príncipe regente D. Pedro, mas da cúpula política “modera- da” que o cercava, ao modelo político da monarquia dual. A evolução da conjuntura política ao longo desses dois anos evidencia que foi a ação das lideranças políticas nas Cortes portuguesas, inclusive neutra- lizando a atuação de D. João VI, que colocou o Brasil diante do impasse da recolonização ou independência (WEHLING, 2004, p. 239). Essa adaptação e manipulação dos conceitos de liberalismo e de nacionalismo à realidade brasileira e sua articulação com os interesses das elites locais nos aju- dam a compreender por que uma nação, que no desenrolar do seu processo de independência baseava seu discurso na construção de uma sociedade constitu- ída sob o liberalismo, manteve viva a escravidão por várias décadas, relutando em abrir mão das “vantagens” da manutenção desse modo de produção. O grupo composto pelos modera- dos, que tinha nomes como José Bonifácio Joaquim Gonçalves Ledo, Januário da Cunha Barbosa e José da Silva Lisboa (Visconde de Cairu), defendia a organização do país sob uma monarquia constitucional e tinha o apoio dos proprietários rurais do país, inte- ressados em manter a salvo seus interesses pessoais. Esse grupo buscou o fortalecimento da imagem da D. Pedro I, tendo nas ideias de José da Silva Lisboa a expressão de seus ideais de união do país, exaltando a figura do imperador. O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E28 Contrapondo-se a esse grupo, estavam os defensores da República e da democracia. Os indivíduos que compunham esse grupo desenvolviam ativida- des relacionadas às cidades, estando distantes dos proprietários rurais doRio de Janeiro e de São Paulo na defesa de interesses como a manutenção da escra- vidão. Conforme analisa Wehling (2004, p. 240), (...) não foi apenas a força do poder central do Imperador Pedro I que os derrotou, mas o apoio a este de vastos setores da propriedade rural nordestina. Faltava a esse grupo, ademais, um projeto de estado e de nação, afora os princípios mais gerais dessa forma de governo. Havia ainda um terceiro grupo na disputa pelo comando do Brasil e com ideias que iam em direção contrária ao ideal de independência. Esse grupo era com- posto por portugueses e defendiam a recolonização do Brasil com a volta das conjunturas que marcaram as relações entre Brasil e Portugal até 1808. A organização do país passava pela articulação das correntes ideológicas diver- gentes em seu interior, numa tentativa de equilibrar os interesses de D. Pedro I e os anseios da população. Para tanto, os deputados que compunham a Assembleia Constituinte – convocada antes da independência, mas quando esta já se deline- ava na cabeça dos brasileiros – começaram a elaborar a primeira Constituição do Brasil, à qual deveria D. Pedro I submeter sua forma de governo. A CONSTITUIÇÃO OUTORGADA DE 1824 A Assembleia Constituinte encarregada de elaborar a primeira Constituição do Brasil era composta por sacerdotes (...), funcionários públicos ou profissionais liberais: advoga- dos, médicos, professores diplomados na Universidade de Coimbra ou em alguma outra instituição europeia, uma vez que não existiam uni- versidades no Brasil. Havia também comerciantes e fazendeiros. Mas, qualquer que fosse sua condição social ou profissional, os deputados à Assembleia Constituinte estavam unidos por laços de família, amizade ou patronagem a grupos ligados à agricultura e ao comércio interno. Não é, pois, de espantar que tenham organizado a nação de acordo com os interesses desses grupos (COSTA, 2010, p. 134). Tufy Kairuz defensores da República apenas. República e democracia não são sinônimos. Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O Primeiro Reinado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 29 Esse grupo de indivíduos estabeleceu que a forma de governo no Brasil seria a monarquia constitucional, que tinha como objetivo limitar o poder de D. Pedro I e, também, manter o controle sobre a população. A Constituição que resultou dessa Assembleia foi inspirada nos ideais do liberalismo, mas, como já dito ante- riormente, em um liberalismo adaptado à realidade brasileira, ou seja, entendido “a partir das peculiaridades da burguesia local e da ausência das duas classes que na Europa constituíram o seu ponto de referência obrigatório: a aristocracia e o proletariado” (COSTA, 2010, p. 136). As discussões travadas entre os deputados que compunham a Assembleia Constituinte tinham, em primeiro lugar, a tarefa de definir quem eram de fato os brasileiros que aqui viviam, ou seja, quem, diante da inegável miscelânea de povos e culturas que ocupou esse território desde a sua “descoberta” e do início da colo- nização portuguesa, teria seus direitos enquanto brasileiro realmente assegurados. Os deputados Souza França e Araújo Lima defendiam que o termo cidadão não poderia designar todos os indivíduos que se encontravam em terras brasileiras, devendo excluir dessa denominação os crioulos ou filhos de escravos. Nesse sen- tido, a concessão de direitos políticos também deveria ser limitada, haja vista que nem todos estavam aptos a desempenhar as atividades decorrentes da participa- ção política (RIBEIRO; PEREIRA, 2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 151). Rocha Franco defendia que, para ser considerado cidadão brasileiro, era necessário ser residente do Brasil e possuir propriedade, comprovando, dessa maneira, a participação em uma cidade e, consequentemente, na sociedade. Já o deputado Nicolau Campos Vergueiro ia na contramão desses argumentos e defendia que todos aqueles que vivessem em solo brasileiro eram considerados cidadãos brasileiros, sendo que apenas no que dizia respeito aos direitos políti- cos é que deveria se estabelecer uma condição ou diferenciação. Essa condição residiria no valor da renda do indivíduo, isto é, àquele que possuísse determi- nada renda seria garantido as prerrogativas políticas (RIBEIRO; PEREIRA, 2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 152-153). Na tentativa de determinar a quem serviria o título de cidadão no Brasil, o deputado Montezuma discursou dividindo os brasileiros em cidadãos ativos e passivos. Os cidadãos ativos seriam os brancos e os passivos os negros e seus des- cendentes. Seguindo essa linha de raciocínio, os direitos políticos ficariam restritos Membros da Assembleia Constituinte na abertura dos trabalhos Fonte: MultiRio (online) O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E30 aos cidadãos ativos, enquanto os cidadãos passivos ficariam à margem dos acon- tecimentos (MARTINS, 2007, p. 45). O que podemos observar das discussões ocorridas na Assembleia Constituinte sobre o tema é que a parcela dos brasileiros que não correspondiam aos europeus ou a seus descendentes foi excluída do processo de constituição do Estado brasi- leiro, em uma negação da cultura dos povos que aqui já se encontravam antes da chegada do branco europeu – como os índios – bem como a negação da hetero- geneidade que caracterizava a sociedade brasileira. Sendo assim, o projeto de Constituição previa a restrição da designação do termo de cidadão e, como resultado, da concessão de direitos civis e políticos a uma parcela significativa da sociedade brasileira, representada pelos estrangei- ros, índios, mestiços, crioulos e escravos, esses últimos entendidos como uma mercadoria, uma “coisa” que, embora necessária para a organização e para a estruturação do trabalho, não eram vistos como pessoas. Ao “coisificar” o negro escravo e ao negar-lhe a prerrogativa de cidadão e a concessão dos direitos civis e políticos, o projeto de Constituição elaborado pela Assembleia Constituinte em 1823 defen- dia a manutenção do regime escravocrata no país, protegendo os interesses dos pro- prietários de terra do Brasil e garantindo as condições sobre as quais se apoiava a economia brasileira do período. Além da polêmica em torno da defi- nição do cidadão brasileiro, os deputados reunidos em 1823 divergiam sobre os limites do poder de D. Pedro I. Divididos entre o Partido Português e o Partido Brasileiro, os deputados tentaram estabe- lecer as bases sobre as quais o imperador deveria conduzir o seu governo. Tufy Kairuz negro escravizado? E os libertos? Tufy Kairuz não está claro quem seriam os "estrangeiros". Sede da Assembleia Constituinte no Rio de Janeiro Fonte: MultiRio (online). Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O Primeiro Reinado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 31 O Partido Português defendia que a D. Pedro I cabia o poder absoluto, sendo indispensável que o imperador tivesse autonomia para fazer os encaminhamentos necessários para a organização do novo Estado. Indo de encontro a essa ideia, o Partido Brasileiro defendia a divisão do poder – a exemplo das constituições euro- peias – em três níveis, que tinham, por objetivo restringir o poder do imperador. Como resultado desse debate, optou-se pela adoção de um sistema político estruturado e a divisão do poder foi feita em Poder Executivo, Poder Legislativo e Poder Judiciário. De acordo com essa divisão, o Poder Executivo seria exercido pelo imperador D. Pedro I, o Poder Legislativo pelos deputados e senadores e o Poder Executivo pelos juízes. A novidade estava no fato de que o poder Executivo estaria submetido ao Legislativo, ou seja, o poder do imperador D. PedroI esta- ria limitado pela sanção dos deputados e dos senadores aos seus projetos. A submissão do Poder Executivo ao Poder Legislativo e a consequente limi- tação do poder de ação de D. Pedro I desagradou o imperador, que planejara exercer o comando do Brasil de forma absolutista e centralizadora. Diante do cenário imposto pela Assembleia, D. Pedro I dissolveu a Assembleia Constituinte e convocou o Conselho de Estado para a elaboração de uma Constituição que preservasse seus interesses. A dissolução da Assembleia Constituinte ocorreu na noite de 12 de novembro de 1823, num episódio que ficou conhe- cido como Noite da Agonia, quando o brigadeiro José Manuel de Moraes inva- diu a sede da Assembleia no Rio de Janeiro a mando de D. Pedro I e decretou o fim dos trabalhos dos deputados ali reunidos. O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E32 Após a dissolução da Assembleia Constituinte e a nomeação de um Conselho de Estado, D. Pedro I retomou a elaboração da Constituição do Brasil. O Conselho de Estado nomeado por ele manteve alguns dos pontos expostos no projeto ela-borado pelos deputados da Assembleia Constituinte, garantindo a manutenção dos privilégios das classes dominantes e a divisão dos brasileiros em cidadãos ativos e passivos (ROMPATTO, 2001, p. 190). O ponto mais importante desse novo projeto de Constituição que se deli- neava corresponde à aproximação de D. Pedro I ao absolutismo, na medida em que esse articulou para garantir que seus interesses políticos fossem sobrepostos aos dos liberais. Nesse sentido, a Constituição, embora mantivesse os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, adicionou um quarto poder que garantia ao imperador a submissão do corpo político às suas decisões. Tratava-se do Poder Moderador, que seria exercido exclusivamente pelo imperador e garantia-lhes poderes absolutos (ROMPATTO, 2001, p. 191). Os principais jornais do período eram utilizados para divulgar as notícias das discussões que ocorriam na Assembleia, demonstrando o importante papel da imprensa para os desdobramentos dos trabalhos da Assembleia. Fonte: a autora. Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O Primeiro Reinado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 33 PODER MODERADOR PODER EXECUTIVO CONSELHO DE ESTADO CÂMARA DOS DEPUTADOS PODER JUDICIÁRIO IMPERADOR CONSELHOS PROVINCIAIS SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA PRESIDENTE DAS PROVÍNCIAS PODER LEGISLATIVO ASSEMBLEIA GERAL SENADO Figura 1: Organograma da Constituição de 1824 Fonte: a autora. A Carta Constitucional foi outorgada à população brasileira em 25 de março de 1824, a qual não viu com bons olhos o documento que não representava os anseios de uma parcela significativa daquela sociedade. Diante disso, algumas províncias do Brasil recusaram-se a jurar a Constituição, iniciando um período de manifestações contrárias à sua imposição. Nesse contexto de revolta contra a outorga de uma Constituição que conce- dia poderes sem limites ao imperador, destaca-se o movimento conhecido como Confederação do Equador, que teve início quando as ideias centrali- zadoras e absolutistas de D. Pedro I começaram a esboçar-se após a inde- pendência. O movimento de caráter separatista iniciou-se em Pernambuco, liderado por Cipriano Barata e Frei Caneca e teve o apoio de várias provín- cias do Nordeste. A historiadora Amy Caldwell de Farias, em seu livro Mergulho no Letes: uma reinterpretação político-histórica da Confederação do Equador, de 2006, faz uma análise do movimento, objetivando questionar a historio- grafia tradicional sobre o movimento e trazer à cena novos fatos e atores, por meio de novas abordagens. Fonte: a autora. A região da Cisplatina Fonte: MultiRio (online). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E34 A GUERRA DA CISPLATINA O governo de D. Pedro I foi marcado por agitações políticas no âmbito interno e externo do Império do Brasil. Do momento de sua coroação como Imperador do Brasil até a sua abdicação em 1831, o Brasil esteve envolvido em confl itos que contribuíram para abalar a confi ança e o poder do imperador. Ainda envolvido nos confl itos decorrentes da outorga da Constituição de 1824, D. Pedro I precisou voltar sua atenção para uma disputa envolvendo o Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata, que teve início em 1825 e perdu- rou até o ano de 1828. Esse confl ito começou a desenrolar-se muito antes de D. Pedro tornar-se impera- dor do Brasil. Pouco depois da chegada da família real portuguesa ao Brasil, as tropas de Napoleão Bonaparte tomaram a Espanha destituindo a coroa dos Bourbons. Carlota Joaquina era irmã de Fernando VII, o rei espanhol deposto por Napoleão e, portanto, herdeira da coroa espanhola, a qual objeti- vava ocupar e defender, objetivo esse que não foi alcançado, na medida em que a princesa não foi capaz de tecer alianças e conquistar o apoio necessário para ascender ao trono espanhol (PEREIRA, 2012). Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O Primeiro Reinado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 35 No período que abordamos, a Espanha possuía o controle das Províncias Unidas do Rio da Prata, atuais territórios da Argentina, Paraguai e Uruguai (na época, denominado de Banda Oriental do Uruguai), regiões importantes para o desenvolvimento comercial devido à proximidade com rios que facilitavam o escoamento de produtos. Por essa razão, D. João VI tinha interesse em domi- nar a região, mas devido às relações pouco amigáveis com a princesa Carlota Joaquina e não acreditando na sua lealdade ao assumir o comando da Espanha, optou por ocupar ele próprio a região e garantir sua submissão ao Reino de Portugal, Brasil e Algarves. A conquista da região deu-se em 1821, quando o general Carlos Frederico Lecor, a serviço de D. João VI, derrotou as tropas de José Gervasio Artigas e os territórios foram anexados ao reino português. Destacamos, caro(a) aluno(a), que manter a região sob o domínio português significou lidar com os conflitos políticos existentes na região, conflitos esses que agravaram-se ainda mais durante o processo de emancipação do Bra- sil, quando houve uma alteração no balanço de poder do local. Lecor apoiou nossa independência e manteve-se fiel à D. Pedro I. Porém, a conjuntura platina alterou-se profundamente “com um movimento militar que prenunciava deflagrar em conflito armado”, quando muitos dos habitantes se mantiveram fiéis a Portugal (PEREIRA, 2012, p. 86). O chefe militar D. Álvaro da Costa defendia que as Províncias Unidas do Rio da Prata deveriam permanecer ao lado de Portugal e a este submeter-se após a independência do Brasil. Contando com o apoio de boa parte da população da região, D. Álvaro da Costa incitava os habitantes das Províncias Unidas do Rio da Prata à rebelar-se contra a dominação brasileira e manter-se fiel a D. João VI e Portugal. Em seus discursos, pregava que O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E36 Quando os laços de mútua conveniência não prendem os povos uns aos outros, não desata por si. Não acrediteis a doutrina contrária que vos pregam. Vós só podeis tirar dessa luta as tristes recordações do pai, do irmão, do parente morto e dos míseros filhos desamparados que uma infernal política sacrificou. Abandonai a odiosa pretensão em que vossos chefes se empenharam; eles só defendem seus interesses e não vossos direitos, porque aqui não há ninguém que os pretenda usurpar; [...] Recordai o amor, a obediência, a fidelidade que vossos pais sem- pre tiveram aos nossosreis: voltai aos vossos lares e pregai a doutrina do homem justo e convidai todos os vossos concidadãos a reentrar na obediência e fidelidade que deveis ao benigno de todos os monarcas, ao nosso Augusto Rei, o senhor d. João VI [...] (ARQUIVO NACIONAL apud PEREIRA, 2012, p. 88). Os conflitos na Cisplatina somaram-se ao enfrentamento entre as tropas brasileiras e as portuguesas que se encontravam na Bahia, região que também questionava a separação de Portugal. Desse modo, observamos, caro(a) aluno(a), que garantir a soberania nacional após 1822 representou um trabalho árduo para D. Pedro I e seus aliados. De norte a sul do país, eclodiram manifestações contrárias à inde- pendência e de apoio à Portugal. Desse conflito entre o Brasil e as Províncias do Rio da Prata resultou a incor- poração da Banda Oriental do Uruguai ao território brasileiro e o reconhecimento da independência do Brasil pelas Províncias Unidas do Rio da Prata em 1824. No entanto, já em 1825, desenrolava-se um novo conflito envolvendo essa região. A Banda Oriental do Uruguai, também denominada de Cisplatina, tornou- -se alvo de uma disputa entre o Império do Brasil e a Argentina. A região da Cisplatina pertencia ao Brasil, mas a Argentina reivindicava sua reincorpora- ção às Províncias Unidas do Rio da Prata. O conflito desenrolou-se quando o representante do governo argentino Manoel José Garcia enviou um documento para o governo brasileiro no qual reivindicava a reincorporação da Cisplatina, chamada por ele de Província Oriental (PEREIRA, 2012, p. 90). Em resposta a esse documento, D. Pedro I declarou guerra à Argentina, jus- tificando tal ação no argumento de que a região da Cisplatina fora anexada de maneira legal, não sendo fundamentada a tentativa de sua usurpação por parte da Argentina. Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O Primeiro Reinado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 37 O confronto entre as duas regiões foi mais um fator a colaborar com o des- gaste da imagem do imperador. A crise que se estabeleceu nos negócios entre a Bahia e a Cisplatina com o fechamento do porto da Prata, os gastos com a guerra, o recrutamento e o alistamento forçado dos homens para lutarem na guerra e o saldo de mortes abalaram a imagem de D. Pedro I. A situação chegou ao fim em 1828 com a assinatura de acordo de paz entre Brasil e Argentina, em um momento em que ambos os países encontravam-se desgastados e fragilizados economicamente. Por esse acordo, intermediado pela Inglaterra, Brasil e Argentina, reconheciam a criação do Estado Independente do Uruguai. Principais locais de batalha, povoações e fortes durante a Guerra da Cisplatina (1825-1828) Fonte: Universidade Federal do Paraná (online). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E38 A CRISE DO PRIMEIRO REINADO E A ABDICAÇÃO DE D. PEDRO I Manchete sobre a abdicação de D. Pedro I em 1831 Fonte: Arquivo Nacional (online). A Crise do Primeiro Reinado e a Abdicação de D. Pedro I Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 39 Como podemos notar até o momento, caro(a) acadêmico(a), desde que assu- miu a condição de defensor perpétuo do Brasil e, posteriormente, imperador do Brasil, D. Pedro I precisou lutar e coordenar diferentes interesses e situações na busca pela construção do Estado brasileiro. Em seu caminho, deparou-se com ideologias e conflitos cujos desdobra- mentos contribuíram para que o imperador fosse perdendo aliados e apoio da população brasileira. Nesse cenário, sua reputação e capacidade de estar à frente de uma nação que buscava sua afirmação diante de outras e de si mesma foi ques- tionada e colocada à prova. Somadas essas questões às tendências monarquistas e absolutistas de D. Pedro I, seu governo foi marcado por uma intensa agitação no país que refletia os anseios dos “cidadãos” brasileiros e, também, a influência dos acontecimen- tos externos tanto no âmbito político quanto no econômico e no cultural. Internamente, eclodiram manifestações e motins contrários ao governo de D. Pedro I e à repressão sofrida por aqueles que se opunham à administração do imperador. A situação de descaso com a maioria dos brasileiros, os de cama- das inferiores e a concessão de privilégios a portugueses imigrados distanciavam D. Pedro I da população local. Além disso, o seu amplo poder conquistado por meio da criação do Poder Moderador e sua política externa não agradavam a elite da época. Externamente, a influência da Inglaterra ao longo de todo o Primeiro Reinado gerou desconfiança e preocupações por parte das elites brasileiras, que temiam que o imperador cedesse à pressão inglesa pelo fim da escravidão no Brasil, fato que prejudicaria essa camada social, colocando em risco seus interesses e privilégios. Nesse contexto, instalou-se um cenário de insatisfação com o governo e com a figura de D. Pedro I, que foi o ponto de partida para a sua abdicação em 1831. Na defesa pelo afastamento de D. Pedro, indivíduos, embora com ideias, interes- ses e propostas diversas, uniram-se para acabar de vez com o poder de D. Pedro I. O amplo descontentamento que levou à revolução da Abdicação em 1831 foi pouco coeso no que diz respeito aos atores, formas de conce- ber a política e a sociedade, haja vista a profunda diversidade e hierar- quização social, política e étnica que caracterizava a sociedade imperial brasileira nas primeiras décadas do século XIX. Por um lado, havia uma massa populacional pobre formada em sua maioria por libertos e Tufy Kairuz pelo fim do tráfico atlãntico de escravizados não pelo fim da escravidão. O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E40 mestiços que vivia em acentuada pobreza. A esta população livre pobre se somavam os escravos de ganho que circulavam pelas ruas da Corte em seus diversos ofícios e atividades. Tal população trouxe sempre pre- ocupações para as autoridades, que, através da Intendência de Polícia e legislação punitiva e coercitiva – com rondas noturnas e revistas – pro- curava manter, embora com dificuldades, a ordem nas ruas (RAUTER, 2011, p. 98). Chamamos sua atenção, caro(a) aluno(a), para o fato de que, mais uma vez, a sociedade, embora unida no desejo de ver afastado o imperador, dividia-se na defesa de ideologias distintas e que representavam, cada uma ao seu modo, os interesses de apenas alguns indivíduos. De um lado, estavam os chamados liberais moderados, que defendiam a redução do poder de D. Pedro I em benefício do poder da Assembleia. Embora considerados liberais, não defendiam o fim da escravidão, visto que isso iria contra seus interesses econômicos e eram contrários à adoção do sistema repu- blicano. O liberalismo a que se referiam dizia respeito apenas à questão do fim do absolutismo de D. Pedro I. No outro lado, encontravam-se os liberais exaltados, que defendiam a república mesmo que fosse preciso uma revolução. De acordo com Rauter (2011, p. 100), Ao contrário dos moderados, os exaltados eram francamente revolu- cionários. Até a abdicação, eram mais discretos no seu republicanismo e no seu federalismo, mas, no governo regencial, o propalaram aber- tamente. A insurreição era para eles um “direito dos povos” na luta contra a tirania e o despotismo, e a república a melhor forma de go- verno. Porém, a revolução era considerada um recurso extremo, a que se recorrer em situações limite onde imperava o despotismo absoluto, o que, na visão dos exaltados estava acontecendo naquele momento, tanto no final do primeiro reinado, quanto nos primeiros anos da re- gência. Tratava-se de uma revolução de caráter popular que instauraria um governo liberal e diversasoutras transformações de caráter social. Gravura anônima, Maria da Glória, filha de D. Pedro I Fonte: MultiRio (online). A Crise do Primeiro Reinado e a Abdicação de D. Pedro I Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 41 A SUCESSÃO DO TRONO PORTUGUÊS Uma questão que acentuou os conflitos nas relações entre D. Pedro I e os bra- sileiros esteve relacionada com a sucessão do trono português, após a morte de D. João VI, em 1826. Com a morte do monarca português, D. Pedro I assumiu o lugar de seu pai no comando de Portugal. Entretanto sua ideia era abdicar do trono português em favor de sua filha D. Maria II e, enquanto esta não pudesse assumir o trono, visto que era ainda uma criança, seria nome- ada uma regência liderada pela irmã de D. Maria II, D. Isabel Maria, que gover- naria Portugal até que a herdeira legítima do trono pudesse se casar com D. Miguel – irmão de D. Pedro I – e este assumisse, então, a coroa portuguesa (VIANNA, 2013, p. 43-44). A solução para essa questão não saiu de acordo com os desejos de D. Pedro I e este foi aclamado Rei Absoluto de Portugal em 1828. Essa nomeação interferiu diretamente na situação política do Brasil, agravando ainda mais as já complicadas relações entre o imperador e os brasileiros. A situação agravou-se quando D. Miguel usurpou o trono portu- guês e autodeclarou-se rei de Portugal, anulando a Constituição outorgada por Nesse momento de agitação política e social, as elites intelectuais do Brasil e os demais indivíduos da sociedade brasileira uniram-se independentemen- te de suas condições sociais em torno de um objetivo comum, o que não significava que as barreiras e as diferenças sociais haviam sido superadas. Fonte: a autora. O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E42 D. Pedro I à Portugal. Diante da atitude de D. Miguel, D. Pedro precisou voltar suas atenções para Portugal, na tentativa de expulsar seu irmão do trono e devol- vê-lo à sua legítima herdeira, D. Maria II. Honoré Daumier, Caricatura, D. Pedro e D. Miguel, “Dois Hipócritas Que Não Se Farão Grande Mal Fonte: MultiRio (online). A elite política brasileira acusava D. Pedro I de dedicar maior atenção às questões que envolviam a sucessão do trono português do que os problemas internos do Brasil. Somaram-se a essa crítica as manifestações contrárias ao fato de que, ao invés de se dedicarem aos assuntos brasileiros, os ministros, deputados e diplo- matas brasileiros precisavam voltar suas atenções para a solução do problema dinástico português, haja vista que esse assunto envolvia a infanta brasileira D. Maria e significava o envolvimento de outros países como Inglaterra e Áustria – ambos visando defender seus próprios interesses – no desenvolvimento da dis- cussão. Além disso, o fantasma da recolonização do Brasil voltou a assombrar a sociedade diante da coroação de D. Pedro I como rei de Portugal. Jornal A Aurora Fluminense Fonte: MultiRio (online). A Crise do Primeiro Reinado e a Abdicação de D. Pedro I Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 43 A ABDICAÇÃO DE D. PEDRO I. A oposição a D. Pedro I ganhava força com a ação da imprensa, representada pelos jornais A Astréia, fundado em 1826 por Antônio José do Amaral e José Joaquim Vieira Souto; Aurora Fluminense, fundado em 1827 e que teve em Evaristo Ferreira da Veiga sua voz mais expressiva; o Malagueta, que voltou à ativa em 1828 com críticas ferozes ao imperador, que levaram à repressão de Luiz Augusto May, redator do jornal (VIANNA, 2013, p. 50). Diante do crescente ataque de seus opo- sitores por meio da imprensa, D. Pedro I reprimiu legalmente as publicações, além de continuar promovendo perseguições e ataques utilizando-se também de periódi- cos escritos por seus aliados. Esse cenário foi se consolidando e, em 1830, a divergência entre os brasileiros e os portugueses que apoiavam D. Pedro I tor- nara-se insustentável, resultando em uma troca de acusações entre representantes das duas nacionalidades por meio da imprensa e no aumento do número de deputados de oposição a D. Pedro I. Após uma viagem a Minas Gerais, rea- lizada no final de 1830, da qual retornou em abril de 1831, D. Pedro I foi recebido por seus aliados, dentre eles, portugueses e alguns brasileiros que ainda enxergavam no imperador a figura do defensor do Brasil, com manifestações de apoio (VIANNA, 2013, p. 53). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E44 No entanto, durante a recepção de D. Pedro I, brasileiros de oposição ao governo e contrários aos portugueses que aqui viviam, chamados de exaltados, promoveram ataques aos portugueses que ovacionavam D. Pedro I. Durante as festividades pela chegada de D. Pedro I, os exaltados atacavam os portugue- ses que usavam de garrafas e outros artifícios para se defender. Os conflitos que marcaram esses eventos ficaram conhecidos como a Noite das Garrafadas (VIANNA, 2013, p. 54). A noite das garrafadas representou o auge das diferenças entre brasileiros e portugueses e a crescente oposição a D. Pedro I. Os eventos que se seguiram àqueles dias levaram ao extremo as relações entre o imperador, os liberais e os demais brasileiros. Não havia mais respeito por aquele que um dia representou o início e a defesa de um novo capítulo na história do Brasil. Suas tentativas de moldar e de manipular a sociedade e a Constituição para restaurar a monarquia absolutista e governar sem a interferência da Assembleia minaram gradativa- mente a confiança nele antes depositada. As críticas e as acusações diárias, nem todas verdadeiras, publicadas na imprensa provocaram uma agitação social a qual os ministros da guerra e da justiça de D. Pedro I não conseguiam conter. A situação era clara: o imperador perdera o apoio, a confiança e a lealdade de seus súditos brasileiros. Quando D. Pedro I nomeou para ministros nomes impopulares, como o marquês de Paranaguá, o visconde Alcântara, o marquês de Baependi, o conde de Lages e o marquês de Aracati, os brasileiros saíram às ruas para manifestarem sua insatisfação e contavam com o apoio dos soldados do quartel de infantaria. O senador Vergueiro, Evaristo da Veiga e Odorico Mendes – organizadores do movimento liberal contra o imperador – endossaram os discursos e os protes- tos contra D. Pedro I (LUSTOSA, s.d., p. 613). Em reposta a essa manifestação, D. Pedro enviou um comunicado à popu- lação, no qual dizia: A Crise do Primeiro Reinado e a Abdicação de D. Pedro I Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 45 Brasileiros! Uma só vontade nos una. Para que tantas desconfianças, que não podem trazer à pátria senão desgraças? Desconfiais de mim? Assentais que poderei ser traidor àquela mesma pátria que adotei para minha? Ao Brasil? Àquele mesmo Brasil por quem tenho feito tantos sacrifícios? Podereis querer atentar contra a Constituição, que vos ofe- reci e que convosco jurei? Ah, brasileiros! Sossegai. Eu vos dou minha imperial palavra de que sou constitucional de coração e sempre sus- tentarei essa Constituição. Confiai em mim e no ministério: ele está animado dos mesmos sentimentos que eu; aliás, [se assim não fosse] eu não o nomearia. União e tranqüilidade, obediência às leis, respeito às autoridades constituídas (LUSTOSA, s. d., p. 614-615). As palavras de D. Pedro I não tiveram efeito sobre os manifestantes, que exi- giam a demissão dos novos ministros, os quais não eram dignos de confiança. D. Pedro I recusou-se a satisfazer o desejo da população e manteve-se firme em sua posição. Porém, o imperador já dava sinaisde compreender que sua per- manência como chefe de Estado do Brasil não mais se sustentaria. Diante disso, escreveu ao antigo aliado José Bonifácio pedindo que este aceitasse o cargo de tutor de seu filho D. Pedro de Alcântara. No dia 07 de Abril de 1831, D. Pedro I abdicou do trono brasileiro em favor de seu filho D. Pedro de Alcântara, então com cinco anos de idade. Chegava ao fim o Primeiro Reinado, com uma ruptura dramática entre o Brasil e o impe- rador, que afirmava: “entre mim e o Brasil tudo está acabado e para sempre” (LUSTOSA, s.d., p. 618). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E46 D. Pedro entregando o ato de renúncia Fonte: MultiRio (online). Para os opositores de D. Pedro I, a sua abdicação significou uma ruptura defi- nitiva com Portugal, uma vez que o Brasil não mais seria governado por um representante que possuía também direitos monárquicos sobre aquela nação. A sensação de liberdade tomou conta dos brasileiros naquele momento e essa sen- sação era expressa na imprensa como a felicitar os indivíduos pela conquista. No jornal Nova Luz Brasileira, de Ezequiel Corrêa dos Santos, era possí- vel encontrar o que a abdicação de D. Pedro I representou para seus opositores: Abdicou o tirano; e nas mãos da liberdade existe hoje o cetro d´ouro que o monstro havia convertido em virga-férrea. Os Brasileiros come- çam finalmente a possuir uma pátria; e o Brasil vai-se querendo situar na América Livre (MATTOS apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 19). Para alguns historiadores estudiosos do período, 1831 é considerada a data da verdadeira independência do Brasil, data em que o país passa a ser de fato dos brasileiros, governado por brasileiros. O Período Regencial (1831-1840) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 47 O PERÍODO REGENCIAL (1831-1840) Com a abdicação de D. Pedro I, em 07 de abril de 1831, caro(a) aluno(a), encer- rou-se o primeiro capítulo da história da formação do Brasil enquanto Estado independente. A partir dessa data, o processo de evolução da sociedade brasi- leira entrou em uma fase em que as divergências políticas e ideológicas ganharam novo fôlego e por todo país assistimos a eclosão de movimentos que buscavam a consolidação de projetos distintos para o país. Mais uma vez, cabe ressaltar que as discussões acerca dos encaminhamen- tos políticos do país ganhavam destaque e dividiam a sociedade. As palavras de um contemporâneo do período mostram o clima na sociedade brasileira a par- tir de 1831: Nasci e me criei no tempo das regências; e nesse tempo o Brasil vivia, por assim dizer, muito mais na praça pública do que mesmo no lar doméstico; ou em outros termos, vivia em uma atmosfera tão essen- cialmente política que o menino, que em casa muito depressa aprendia a falar liberdade e pátria, quando ia para a escola, apenas sabia soletrar a doutrina cristã, começava logo a ler a aprender a constituição política do Império (RESENDE, 1944 apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 28). Tal era o clima nas ruas do Brasil a partir de 1831. As ideologias e os projetos políticos presentes no momento após a abdicação de D. Pedro I eram represen- tados pelos liberais moderados – que eram a maioria na Câmara dos Deputados –, pelos liberais exaltados – que, embora tivessem ajudado no processo que levou à abdicação de D. Pedro I, tiveram seus interesses e ideais colocados de lado após o 07 de abril, quando os moderados assumiram o controle do governo – e pelos restauradores (também chamados de caramurus), que apoiavam a volta de D. Pedro I. O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E48 REGÊNCIA TRINA PROVISÓRIA (1831) E REGÊNCIA TRINA PERMANENTE (1831-1835) Nesse momento da história do Brasil, o primeiro ponto a ser resolvido era a questão da sucessão de D. Pedro I no comando do país, uma vez que o príncipe herdeiro D. Pedro de Alcântara tinha apenas cinco anos de idade. Mesmo sendo imediatamente após a renúncia de D. Pedro I, coroado imperador do Brasil com o nome de D. Pedro II, Pedro de Alcântara não tinha como governar o país devido à sua pouca idade. Os moderados assumiram a frente das discussões em busca da solução para a questão que se apresentava. De acordo com a Constituição de 1824, até que o novo imperador atingisse a idade necessária para assumir o comando do país, este deveria ser governado por um membro da família imperial com mais de 25 anos de idade, o que não existia no Brasil, visto que as irmãs de D. Pedro II que aqui viviam também eram menores de idade (VIANNA, 2013, p. 59). “Os moderados seguiam os postulados clássicos do liberalismo, tendo em Locke, Montesquieu, Guizot e Constant suas principais referências; preten- diam, e conseguiram, efetuar reformas político-institucionais que reduziam os poderes do imperador, conferiam maiores prerrogativas à Câmara dos Deputados e autonomia ao Judiciário, e garantiam a observância de direi- tos previstos na Constituição, almejando uma liberdade moderna, que não ameaçasse a ordem imperial. Já os exaltados, adeptos de um liberalismo ra- dical de feições jacobinistas, inspirado sobretudo em Rousseau, buscavam conjugar princípios liberais clássicos com ideais democráticos, pleiteando profundas reformas políticas e sociais, como uma república federativa, a ex- tensão da cidadania política e civil a todos os segmentos sociais livres, o fim gradual da escravidão, uma relativa igualdade social e até um tipo de refor- ma agrária. Por sua vez, os caramurus filiavam-se à vertente conservadora do liberalismo, tributária de Burke; críticos ferozes da Abdicação e avessos a qualquer reforma na Constituição, vistas como quebra arbitrária do pacto social, almejavam uma monarquia constitucional fortemente centralizada, ao estilo do Primeiro Reinado e, excepcionalmente, nutriam anseios restau- radores”. Fonte: Basile (2006, p. 31-57). O Período Regencial (1831-1840) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 49 Diante desse cenário, ainda de acordo com o que estabelecia a Constituição de 1824, cabia aos senadores e aos deputados que compunham a Assembleia Geral eleger uma Regência composta por três membros que seria presidida pelo membro mais velho. Essa solução também não pôde ser colocada em prática de imediato, na medida em que muitos membros da Assembleia Geral encontra- vam-se ausentes do Rio de Janeiro por conta do período de férias (VIANNA, 2013, p. 59). Levando-se em consideração a urgência de se definir um novo comando para o Brasil, os senadores e deputados que se encontravam no Rio de Janeiro reuni- ram-se e elegeram uma Regência Provisória até que a Assembleia Geral tivesse condições de eleger uma Regência Permanente. Os senadores e deputados que permaneceram no Rio de Janeiro elegeram os senadores José Joaquim Carneiro de Campos (Marquês de Caravelas), Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e o brigadeiro Francisco de Lima e Silva para com- por a Regência Trina Provisória. A escolha desses três nomes para a Regência Trina Provisória reafirmou a liderança dos moderados nesse período de transição. Francisco de Lima e Silva representava o Exército no Governo Fonte: MultiRio (online). Nicolau P. de Campos, um senador moderado com ideias liberais Fonte: MultiRio (online). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E50 A Regência Trina Provisória governou por um curto período de tempo, sendo eleita em abril de 1831 e dissolvida em 17 de junho de 1831, quando os mem- bros da Assembleia Geral elegeram os nomes que compunham a Regência Trina Permanente. Para formar a Regência Trina Permanente, foramescolhidos os deputados José da Costa Carvalho e João Bráulio Muniz, além de manter-se o brigadeiro Francisco de Lima e Silva. Mais uma vez, todos os membros repre- sentavam os liberais moderados. O Padre Diogo Antônio Feijó foi nomeado Ministro da Justiça e adotou medidas radicais para conter a agitação social que dominava o país desde os tem- pos de oposição ao imperador D. Pedro I e que não diminuíram após a renúncia dele. Os liberais exaltados e os restauradores (ou caramurus) demonstravam sua insatisfação com o governo, promovendo ataques pela imprensa e instigando a população contra as atitudes da Regência, o que levou ao surgimento de vários motins ao longo do período de governo da Regência Trina Permanente. O ministro da Justiça Padre Diogo Antônio Feijó acusava José Bonifácio, que integrava o grupo dos restauradores, de liderar as manifestações e os protestos contra o governo. Assim, passou a articular para que ele fosse retirado do cargo de tutor do jovem D. Pedro II, desejo que realizou em 1833, após uma acusa- ção de conspiração de Bonifácio contra o governo. Em seu lugar, foi nomeado para tutor do jovem imperador Aureliano Coutinho, marquês de Intanhaém (VIANNA, 2013, p. 66). “A imprensa conheceu desenvolvimento sem precedentes na década de 1830. (...). Esse desenvolvimento da imprensa vincula-se intimamente às dis- putas políticas, à emergência de diferentes projetos políticos e à mobiliza- ção da opinião pública. Foi a arena na qual os debates transcorreram com maior abertura e amplitude (...)”. Fonte: Basile (2009, p. 65). O Período Regencial (1831-1840) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 51 ATO ADICIONAL DE 1834 O Ato Adicional de 1834 foi a resposta aos desejos da elite política de uma reforma na Constituição de 1824, considerada ultrapassada diante da nova conjuntura política do país, qual seja, a existência de uma Regência. Dentre os principais pontos questionados na Constituição em vigor, estavam os que tratavam da administração das Províncias, da continuidade do Conselho de Estado, do mandato vitalício dos Senadores e discutia-se, ainda, a possibili- dade de transformar a Regência Trina em Regência Una, ou seja, eleger apenas um indivíduo para estar à frente do Brasil durante a impossibilidade do impe- rador de assumir o trono (VIANNA, 2013, p. 66-67). Perceba, caro(a) aluno(a), que as discussões apontavam para alterações em pontos importantes da Carta Constitucional de 1824, uma vez que buscava-se uma autonomia maior para as Províncias, o que poderia gerar alguns incômodos para a administração central, por exemplo, a adoção de medidas contrárias às propostas pelo governo. Além disso, a alteração do caráter vitalício dos Senadores não foi bem aceita por eles, por razões óbvias. Mesmo com algumas propostas que mexiam na estrutura de organização do país, os parlamentares reuniram-se e, em 1832, decidiram que as discussões e as votações dessas propostas ocorreriam em 1834. Diante disso, em 12 de agosto de 1834, as propostas foram votadas e reunidas no documento denominado Ato Adicional à Constituição, o qual alterava alguns pontos da Carta de 1824. Dentre as alterações estabelecidas pelo Ato Adicional, destacam-se a cria- ção das Assembleias Legislativas Provinciais, que garantiam o poder de legislar sobre as questões civis, jurídicas e eclesiásticas das Províncias, concebendo maior autonomia às províncias; a extinção do Conselho de Estado criado por D. Pedro I após a dissolução da Assembleia Legislativa em 1823, a transforma- ção da Regência Trina para Regência Una, com eleição popular para o regente que teria um mandato de quatro anos. (VIANNA, 2013, p. 67-68). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E52 Regência Una de Padre Diogo Antônio Feijó e Regência Una de Araújo Lima Com a instituição do Ato Adicional de 1834 que transformara a Regência Trina em Regência Una, as eleições para escolher o novo regente ocorreram em 1835. Os cidadãos ativos brasileiros, aqueles que tinham direito ao voto, de acordo com a Constituição de 1824, deveriam escolher entre os candidatos o senador Padre Diogo Antônio Feijó, do Partido Moderado e o deputado Antonio Francisco de Paula Holanda Cavalcanti de Albuquerque, representante da aris- tocracia nordestina. O senador Padre Diogo Antonio Feijó venceu as eleições e tornou-se o Regente do Brasil. Seu governo foi marcado por forte oposição tanto de mem- bros do próprio partido quanto da população, fato que fez crescer o número de revoltas por todo o país. As eleições de 1835 tiveram um caráter diferente das eleições para cargos da administração do Brasil ocorridas até então, devido às conjunturas sob as quais se realizaram. Para saber mais sobre o processo eleitoral de 1835, suas conjunturas e seus resultados, leia: CRUZ, Fábio S. Santa. Moderadores em disputa: considera- ções sobre o pleito de 1835 para a escolha do Regente Uno do Império do Brasil. In: Revista Em tempos de História. nº 6, 2002. Fonte: a autora. O Período Regencial (1831-1840) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 53 Diante da oposição sofrida dentro de seu partido, o Regente Feijó e seus aliados fundaram um novo partido, denominado Progressista, contra o qual seus opositores fundaram o Regressista. Esses dois partidos posteriormente foram transforma- dos nos Partidos Liberal (antes Progressistas) e Conservador (antes Regressistas). A oposição a Diogo Feijó crescia à medida que ele apresentava projetos que iam de encon- tro aos interesses da elite e da aristocracia do país, sobretudo no que diz respeito à questão da escravidão. Feijó era a favor do fim da escravidão, uma vez que essa instituição representava uma contradição com o discurso liberal adotado pela elite política e intelectual do país desde os tempos das lutas pela independência. A defesa do fim do regime escravocrata levantou a ira dos proprietários de terras e aumentou a oposição ao regente. Diante da crescente onda de insatisfação e dos motins e das revoltas que demonstravam a falta de apoio a seu governo e da falta de condições e de apoio para lidar com a situação, o Padre Diogo Antonio Feijó renunciou ao cargo de Regente do Brasil em 1837. O Padre Diogo Antônio Feijó colocou em destaque a questão da escravidão durante o período em que foi Regente do Brasil, dando evidência à contra- dição entre o discurso de uma nação liberal e a manutenção do regime que representava a supressão dos direitos e das liberdades individuais. Fonte: a autora. O Regente Feijó Fonte: MultiRio (online). Pedro de Araújo Lima, Marquês de Olinda Fonte: MultiRio (online). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E54 Em seu lugar assumiu o Ministro do Império, o senador pernambucano Pedro de Araújo Lima, passando este a ser Regente inte- rino até as eleições realizadas em 1838, nas quais ele saiu vitorioso, tornando-se o segundo Regente Uno do país. O governo de Araújo Lima foi marcado por alguns avanços para a sociedade brasileira, na medida em que ele preocupou-se com aspec- tos do desenvolvimento cultural da nação que até então, devido às agitações políticas e sociais que assolaram o país desde o início da perda de popularidade de D. Pedro I, estavam em segundo plano nas preocupações daqueles que comandavam o país. Foi na Regência de Araújo Lima que o Imperial Colégio de Pedro II, o Instituto Histórico e Geográfi co Brasileiro e o Arquivo Nacional foram criados, demonstrando conquistas importantes para o desenvolvimento cultural e cien- tífi co do Brasil (VIANNA, 2013, p. 73). Embora o governo de Araújo Lima mereça destaque por essas inovações,a luta para acalmar as agitações e as revoltas que eclodiam em todo o país desde o período da Regência de Feijó também foi um aspecto importante do seu mandato, sendo ele capaz de vencer a Cabanagem (ocorrida no Grão-Pará) e a Sabinada (desenrolada na Bahia) (VIANNA, 2013, p. 73). Araújo Lima foi eleito como Regente Uno em 1838 e por essa razão seu mandato deveria durar até 1842, quando seriam promovidas novas eleições. No entanto, em 1840, o regente foi deposto diante da organização de um golpe que objetivou colocar D. Pedro II no comando do Brasil antes mesmo de comple- tar a maioridade. O chamado Golpe da Maioridade será o tema de abertura da nossa próxima unidade, caro(a) aluno(a). O Período Regencial (1831-1840) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 55 AS REVOLTAS DO PERÍODO REGENCIAL Caro(a) aluno(a), como podemos perceber até o momento, o período que se seguiu à independência do Brasil e à coroação de D. Pedro como imperador do Brasil foi marcado por divergências ideológicas e pelo surgimento de projetos políticos de formação de uma identidade nacional divergentes, que acirraram a disputa pelo poder no país. No período regencial sobre o qual nos debruçamos nesse momento, encon- tram-se algumas das mais expressivas revoltas que apontam para a complexidade da organização da sociedade pós-independência e para as divergências internas. Dentre as revoltas iniciadas nesse período e que tiveram desdobramen- tos ao longo do Segundo Reinado, em nosso estudo, destacamos a Cabanagem (1835-1840), a Sabinada (1837-1838), a Balaiada (1838-1841) e a Revolução Farroupilha (1835-1845). Movimentos Sociais no Período Regencial Fonte: MultiRio (online). O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E56 Essas revoltas traziam em si propostas que iam de encontro ao direciona- mento tomado pelo governo central no período regencial. De acordo com Basile, Ponto importante a destacar nesses quatro movimentos diz respeito às propostas e medidas de secessão e de república; a primeira só não en- saiada na Balaiada, e a segunda proclamada na Revolução Farroupilha (tanto no Rio Grande do Sul como em Santa Catarina) e na Sabinada. Cumpre observar, todavia, que em nenhuma dessas revoltas tais ideias parecem ter constituído objetivo prévio ou vieram depois se conver- ter em causa maior que congregasse os revoltosos. Salvo raríssimas e pontuais exceções, não havia ideais separatistas presentes nos projetos políticos das facções regenciais, nelas incluídos os liberais exaltados, que capitanearam tais levantes. Quanto à adoção da República, embora fizesse parte, sem dúvida, do projeto e dos exaltados, o ponto central defendido por esse grupo no tocante à forma de governo era a imple- mentação do federalismo – de preferência republicano para a maioria, mas, se necessário (e não raro até mesmo de bom grado), monárquico. (BASILE apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 71). O Período Regencial (1831-1840) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 57 N O M E A N O LO C A L CO M PO SI Ç Ã O TE N D ÊN CI A C A U SA S RE SU LT A D O S G ue rr a do s Ca ba no s ou Ca ba na da 18 32 18 35 Pe rn am bu co Se to re s m ai s ba ix os d a po pu la - çã o co m o ín di os e e sc ra vo s. Ca ra m ur u Ex ig ia m o re to rn o de D . P ed ro I e o fi m d as R eg ên ci as . Fr ac as so u ap ós a m or te de D . P ed ro I em 1 83 4 Ca ba na ge m 18 35 18 40 Be lé m Co nfl ito e nt re m on ar qu is ta s e re gi on al is ta s an tip or tu gu es es e en tr e a el ite (c om er ci an te s e fa ze nd ei ro s e o pr ol et ar ia do (ín di os )). Ex al ta da Bu sc av am a in de pe nd ên ci a da re gi ão d o G rã o- Pa rá . R ei vi nd i- ca va m m el ho re s co nd iç õe s de vi da e a m pl ia çã o da p ar tic ip a- çã o po lít ic a. Fr ac as so u di an te d o av an ço d as tr op as im pe ria is . E st im a- se qu e ho uv e ce rc a de 3 0 m il m or to s du ra nt e o co nfl ito . Sa bi na da 18 37 18 38 Ba hi a M ili ta re s, m éd ic os , j or na lis ta s e ta m bé m re pr es en ta nt es da s ca m ad as m ai s ba ix as d a so ci ed ad e. Ex al ta da Te ve in íc io c om u m m an ife st o co nt ra o Im pé rio q ue re iv in di - ca va a in de pe nd ên ci a do E s- ta do . T ra ns fo rm ou -s e ta m bé m em u m c on fli to ra ci al . Fo ra m d er ro ta do s pe la s fo rç as d o go ve rn o ce nt ra l Ba la ia da 18 38 18 41 M ar an hã o Es cr av os , í nd io s e ba nd id os fu gi tiv os . Ex al ta da Lu ta va m c on tr a a do m in aç ão po lít ic a e ec on ôm ic a do s fa ze nd ei ro s da re gi ão . Fr ac as so u di an te d as fo rç as m ili ta re s do go ve rn o m ar an he ns e, ap oi ad as p or o ut ra s pr ov ín ci as . G ue rr a do s Fa rr ap os 18 35 18 45 Ri o G ra nd e do S ul e S an ta Ca ta rin a Es ta nc ie iro s, pr od ut or es d e ch ar qu e, e sc ra vo s. Ex al ta da D es co nt en ta - m en to c om a p ol íti ca im pe ria l, bu sc a po r m ai or a ut on om ia da s pr ov ín ci as , r ev og aç ão do s al to s im po st os c ob ra do s, fim d a en tr ad a de c ha rq ue d e ou tr os p aí se s no B ra si l. A pó s a lo ng a du ra çã o do c on fli to e a p ro cl a- m aç ão d a Re pú bl ic a Ri o G ra nd en se , o s fa rr ap os fo ra m d er ro ta do s pe lo go ve rn o im pe ria l. Q ua dr o 1: P rin ci pa is Re vo lta s d o Pe río do R eg en ci al Fo nt e: a da pt ad o de S ki dm or e (2 00 3) . O IMPÉRIO DO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E58 Diante dessa exposição, caro(a) aluno(a), ressaltamos que a eclosão desses movimentos e dos demais que ocorreram ao longo de todo o período regencial refletem o descontentamento de setores da sociedade em relação à forma de con-trole adotada pelo governo central. Por essa razão, algumas dessas revoltas vão se prolongar pelo Segundo Reinado e contribuirão para o acirramento das dis-cussões acerca do momento político em questão. CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), nosso objetivo nesta primeira unidade foi apresentar um pano- rama do processo de formação da sociedade brasileira após a Independência, visando analisar criticamente as conjunturas que caracterizaram os primeiros passos na construção de uma identidade nacional para o país recém-emancipado. Com esse objetivo em mente, nos debruçamos sobre as interpretações da historiografia acerca do processo de emancipação política do Brasil, buscando compreender de que maneira a ruptura entre Brasil e Portugal em 1822 signifi- cou a libertação de fato do Brasil da dominação estrangeira. Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 59 O que pudemos observar foi que a consolidação e o reconhecimento do Brasil enquanto nação independente foi um processo que não se concluiu nos primeiros anos pós-independência, na medida em que a influência de Portugal e de outras nações estrangeiras, como foi o caso da Inglaterra, estiveram muito presentes na organização do novo país, fato que, porvárias vezes, contribuiu para que os enca- minhamentos tomados pelo governo brasileiro não respondessem aos anseios dos brasileiros que aqui viviam. Essa influência pôde ser sentida nas diversas esferas de organização da vida nesse território, tanto nos direcionamentos polí- ticos e econômicos quanto no que diz respeito aos aspectos sociais e culturais. Os indivíduos que lutaram pela separação de Portugal visando a um futuro baseado nos princípios liberais e na esperança de construção de uma sociedade na qual seus interesses fossem defendidos, viram suas esperanças diluídas quando o projeto da primeira Constituição após a independência dividiu a sociedade entre cidadãos ativos e cidadãos passivos, ou seja, entre aqueles a que teriam os direitos e os interesses assegurados e aqueles a quem apenas caberia assistir à evolução do país à margem do processo. Na busca pela defesa de interesses próprios e de projetos políticos que beneficia- vam apenas parte da sociedade, o liberalismo em seu sentido pleno foi substituído no Brasil por uma ideologia que, ao mesmo tempo em que se dizia liberal, assenta- va-se em elementos que impediam o verdadeiro progresso da nação como um todo 1. “Direitos Civis e Direitos Políticos são expressões sinônimas, que querem dizer Direito da Cidade; porém, os Publicistas, para enriquecer a nomenclatura da Ci- ência, lhes têm dado significação diversa, tomando a primeira pelos direitos que nascem das relações de indivíduo com indivíduo, e a segunda pelos direitos que nascem das relações do indivíduo com a sociedade”. (ANAIS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS apud RIBEIRO; PEREIRA apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 152). O debate acerca da definição do conceito de cidadão no Brasil após a independên- cia gerou conflitos entre os parlamentares até que se chegasse a um consenso. Explique o que representou para a sociedade brasileira a divisão dos brasi- leiros entre cidadãos ativos e passivos prevista no projeto de Constituição elaborado pela Assembleia Constituinte em 1823. 2. “Legisladores! É chegado o tempo de estabelecerdes a nossa Liberdade sobre bases menos frágeis; mais filosóficas e justas do que essas que regem a oprimi- da Europa. Em vossas mãos está hoje a felicidade presente no Povo brasileiro”. (NOVA LUZ BRASILEIRA apud MATTOS apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 19). A abdicação de D. Pedro I em 1831 representava a esperança da conquista da ver- dadeira liberdade do povo brasileiro das influências internacionais. Descreva os fatores internos e externos que contribuíram para que D. Pedro I abrisse mão do governo brasileiro. 3. Após a renúncia de D. Pedro I abriu-se um período de discussões acerca dos ru- mos do desenvolvimento do Estado brasileiro. Com relação ao início do Período Regencial no Brasil e aos projetos políticos apresentados nesse momento, assi- nale a alternativa correta. a) Com a volta de D. Pedro I para Portugal, a elite política do Brasil conseguiu en- contrar um equilíbrio entre suas propostas políticas, evitando que os conflitos que marcaram o Primeiro Reinado reaparecessem. b) O grupo dos exaltados apresentavam, em 1831, um projeto para o Brasil basea- do na adoção de uma nação com ideais republicanos e organizado com a mão de obra assalariada. c) Os restauradores foram assim chamados devido à defesa que faziam do retorno de D. João VI como monarca do Brasil e à retomada do projeto colonizador, ideal para o desenvolvimento de seus interesses. d) As ideologias e os projetos políticos presentes no momento após a abdicação de D. Pedro I eram representados pelos liberais moderados, que defendiam a redu- ção dos poderes do imperador, pelos liberais exaltados, que defendiam a adoção de uma República Federativa e pelos restauradores, críticos da abdicação. e) Com o acirramento dos debates na Assembleia Legislativa, os Deputados e os Senadores do Brasil optaram por permitir que uma junta composta por repre- sentantes dos moderadores, dos exaltados e dos restauradores assumissem o comando do Brasil até que D. Pedro II pudesse assumir o trono. 61 4. O Período Regencial iniciado em 1831 representou um período conturbado da história brasileira no qual se configurou um cenário de agitações sociais e de mu- danças políticas. Levando-se em consideração as discussões apresentadas nesta unidade, leias as afirmações abaixo: I. A escolha dos membros que compunham a Regência Trina Provisória reafirmou a liderança dos moderados nesse período de transição. II. O Ato Adicional de 1834 foi a resposta aos desejos da elite política de uma refor- ma na Constituição de 1824, considerada ultrapassada diante da nova conjuntu- ra política do país, qual seja, a existência de uma Regência. III. A dissolução da Regência Trina Permanente ocorreu devido à vontade de D. Pe- dro II assumir o trono, visto que já ele se encontrava em idade suficiente para o exercício da administração. IV. A oposição a Diogo Feijó crescia à medida que este apresentava projetos que iam de encontro aos interesses da elite e da aristocracia do país, sobretudo no que diz respeito à questão da escravidão. Estão corretas as afirmativas: a) I. b) III e IV. c) I, II e III. d) I, II e IV. e) II e IV. UM ARTISTA NA CORTE: O BRASIL NA VISÃO DE JEAN-BAPTISTE DEBRET Jean-Baptiste Debret foi um pintor francês que, em suas viagens ao Brasil, procurou re- tratar por meio da pintura suas impressões acerca da sociedade formada na América nos tempos do governo joanino e no Primeiro Império. Debret permaneceu no Brasil por quinze anos, entre 1816 e 1831 e como resultado des- sa estadia em nosso país produziu uma obra na qual retratou a escravidão no Brasil e outros aspectos de nossa sociedade e da nossa cultura, ainda em formação no período de sua visita. Desse modo, suas obras relacionadas ao Brasil são documentos importan- tes para compreendermos um pouco de nossa própria história, na visão de um artista preocupado não só em retratar os elementos que compunham a política e a economia de nossa sociedade, mas também elementos sociais de nossa cultura. No período em que permaneceu no Brasil, Debret foi testemunha dos eventos que mar- caram a nossa evolução, desde a elevação do Brasil à condição de Reino Unido até a abdicação de D. Pedro I. Nesse sentido, teve a oportunidade de analisar e de retratar, por meio de sua pintura histórica, suas impressões acerca desses eventos. Sua maior obra em relação ao que viu e viveu no Brasil, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, foi publicada em três volumes entre os anos de 1834 e 1839, em Paris na Fran- ça, e representa mais do que o incentivo de D. João VI para instalação de uma Academia de Belas Artes. As representações presentes nesses três volumes – que por muito tempo não tiveram seu valor histórico reconhecido – demonstram o interesse e o envolvimento pessoal que o artista desenvolveu pelo Brasil no período em que aqui esteve. Analisar a obra de Jean-Baptiste Debret em relação ao Brasil permite ao professor de história ampliar as possibilidades de estudo e instigar aqueles sob sua tutela. Fonte: adaptado de LIMA (2004). Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Título: O Tempo e o Vento Autor: Érico Veríssimo Editora: Companhia das Letras Sinopse: O Tempo e o Vento é uma coletânea de livros composta por sete livros que contam a história da formação e evolução do Rio Grande do Sul. A obra compreende o período de 1745 a 1945, contemplando dessa maneira, eventos importantes da região e do Brasil, por exemplo, os eventos que marcaram a Guerra da Cisplatina (1825-1828) e a evolução da Revolução Farroupilha (1835-1845). Érico Veríssimo conduz sua análise da história do Rio Grande do Sul com uma narrativa que permite ao leitor compreender de maneira hábil o desenrolar dos acontecimentos. O historiador Bóris Fausto faz uma análise do período imperial brasileiro, discutindo os elementos que marcaram o processo de independência do Brasil e a organização do novo país após a emancipação política de Portugal.Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FIoM1gz-pdE. Acesso em: 01 jul. 2015. Título: Uma História de Amor e Fúria Ano: 2013. Direção: Luiz Bolognesi Sinopse: O fi lme aborda a história do Brasil desde o seu “descobrimento” até um futuro fi ctício no ano de 2096. A história é contada a partir dos confl itos que marcaram a evolução histórica do nosso país, como os confl itos indígenas, as revoltas do período imperial brasileiro bem como do período de vigência da ditadura militar brasileira. Trata-se de uma animação que busca evidenciar as infl uências dos confl itos na formação da identidade nacional. U N ID A D E II Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: ANÁLISE DO PROCESSO DE TRANSIÇÃO DO FIM DA MONARQUIA PARA O INÍCIO DA REPÚBLICA BRASILEIRA Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar o governo de D. Pedro II. ■ Compreender o processo de desenvolvimento da economia cafeeira. ■ Entender as discussões acerca da escravidão e o movimento abolicionista ao longo do Império. ■ Verificar as conjunturas que marcaram o fim do período monárquico no Brasil e a Proclamação da República. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O Segundo Reinado: o governo de D. Pedro Il. ■ A economia no período imperial brasileiro. ■ O movimento abolicionista no Brasil Imperial. ■ O movimento republicano e o fim da monarquia no Brasil. INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), estudamos na unidade I os aspectos políticos e sociais que mar- caram o início do período imperial do Brasil, com o governo de D. Pedro I e de que maneira o Estado brasileiro buscou constituir-se e consolidar-se enquanto nação livre perante as demais nações. Nesta unidade, o objetivo é dar continuidade à análise desse processo, evi- denciando os elementos que caracterizaram o governo de D. Pedro II, buscando compreender a lógica seguida por esse imperador para levar adiante o processo de constituição de uma identidade brasileira. Destacamos na unidade anterior que os primeiros anos do Brasil após sua independência de Portugal não foram tranquilos, enfrentando o imperador con- flitos tanto de ordem interna quanto externa. Ao estudarmos o governo de D. Pedro II, perceberemos que as tensões políticas, econômicas e sociais continua- rão presentes, promovendo, mais uma vez, transformações profundas nas bases de organização do país. Veremos acirrarem-se as discussões em torno do liberalismo e a continuidade do sistema escravocrata estará no centro dessas discussões. Com o crescimento do movimento abolicionista, os proprietários de terras e de escravos no Brasil buscam alianças e mecanismos para perpetuar a escravidão e evitar o que, para eles, significaria a redução de seus ganhos. Com a abolição da escravidão em 1888, a monarquia brasileira perderá sua principal base de sustentação, conforme veremos, e chegará ao fim no ano seguinte, em um processo que denota a maneira pela qual o país se organizará a partir daquele momento, com a concentração do poder nas mãos da aristocra- cia em detrimento, mais uma vez, das camadas populares. Portanto, caro(a) aluno(a), as discussões apresentadas nesta unidade reque- rem atenção, haja vista tratarem da análise de um momento decisivo na história da formação do Estado brasileiro. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 67 D. Pedro II Fonte: Portal do Instituto Brasileiro de Museus (online). O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E68 O SEGUNDO REINADO: O GOVERNO DE D. PEDRO II D. Pedro I abdicou do trono brasileiro em 7 de Abril de 1831, deixando o país nas mãos de seu filho Pedro de Alcântara de cinco anos de idade, o que o impossibilitava de assumir o comando do Brasil. Diante dessa impossibilidade, uma junta de três membros foi formada para administrar o país até que Pedro de Alcântara, agora D. Pedro II, atin- gisse a maioridade. Tinha início o Período Regencial que perdurou até 1840. O Regente Uno Araújo Lima fora eleito em 1838 após a renúncia do Regente Padre Diogo Antônio Feijó e deveria governar o Brasil até 1842, quando haveria novas eleições para escolherem seu sucessor. No entanto, Araújo Lima deixou o comando do Brasil em 1840, dois anos antes do fim do seu mandato. A precocidade do fim do mandato de Araújo Lima explica-se pela aprova- ção da Lei de Interpretação do Ato Adicional de 1834, aprovada em 1840. De acordo com essa lei, as medidas impostas pelo Ato de 1834 que garantiam maior autonomia às Províncias e aos Municípios foram revogadas, restaurando a ação centralizadora do governo central. A aprovação da Lei Interpretativa deve ser entendida pelo caráter conserva- dor do governo de Araújo Lima (VIANNA, 2013, p. 73), que tinha o apoio dos membros do Partido Regressista, no contexto da eclosão das inúmeras revoltas em todo o país, conforme elencamos na unidade anterior. Nesse sentido, a descen- tralização do poder decorrente do aumento da autonomia das Províncias gerou um desconforto e uma desconfiança por parte dos defensores da monarquia, que temiam que o governo central não mais recuperasse o controle da situação. O Segundo Reinado: O Governo de D. Pedro II Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 69 Diante desse cenário, a elite brasileira demonstrava o desejo de ver o país novamente regido por um poder central forte, capaz de evitar a onda de mani- festações e de ameaças separativas que se espalhavam pelo país. Nesse contexto a ideia de emancipação da maioridade de D. Pedro II surge entre os membros tanto do Partido Progressista quando do Partido Regressista, ambos preocupados com os rumos que a nação tomava, mesmo após a aprovação da Lei Interpretativa. De acordo com Olivieri, De qualquer modo, o Rio de Janeiro era a sede do poder no país. Um país constantemente ameaçado pela desunião das Províncias e pelo des- membramento. Nesse sentido, D. Pedro II, embora criança, teve grande contribuição a dar ao Brasil. Como imperador, era o símbolo vivo da unidade de uma pátria há pouco tempo conquistada aos portugueses. Essa posição lhe dava, diante da opinião pública, uma autoridade maior do que a de qualquer regência. (OLIVIERI, 2001, p. 10). Com essa imagem construída diante dos brasileiros, D. Pedro II passou a ser considerado, mesmo que ainda muito jovem, como o único capaz de resolver a situação conflituosa na qual o Brasil se encontrava. Assim, a elite política do país buscou medidas para driblar a Constituição de 1824 – que dizia que o imperador deveria ter 18 anos para assumir o trono – e antecipar a ascensão de D. Pedro II ao cargo de chefe do Estado brasileiro. “Ninguém lembrou de perguntar sobre os méritos do régio adolescente. Mais uma vez era o símbolo que se impunha à pessoa. Era a representação e o prestígio da instituição que deveria ‘salvar a nação’”. Fonte: Schwarcz (1998. p. 68). D. Pedro II na época da sagração, RJ, Fundação Biblioteca Nacional Fonte: MultiRio (online). O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E70 O GOLPE DA MAIORIDADE E A COROAÇÃO DE D. PEDRO II A solução encontrada para a questão foi ignorar o que dizia a Constituição e intensificar, em 1840, a campanha pela redução da maioridade do imperador com a criação do Clube da Maioridade, pelo Partido Liberal, e que não encon- trou oposição dentre os adversários políticos. De acordo com Schwarcz, “era a instabilidade da ordem política e a inquietação diante das várias rebeliões que levaram a se enterrar o regime antes da sua morte” (1998, p. 68). Apoiado pelo povo e incentivado por seu tutor, o Visconde de Intanhém,aos 15 anos de idade D. Pedro II foi coro- ado imperador do Brasil. (OLIVIERI, 2011, p. 12). A coroação de D. Pedro II foi cele- brada com uma grande festa que, de acordo com Schwarcz (1998, p. 78), para além da importância política do aconte- cimento, demonstrou a suntuosidade do momento para a construção de uma cul- tura local. Ainda segundo a autora, O Segundo Reinado: O Governo de D. Pedro II Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 71 Talvez a sagração de d. Pedro II represente mesmo um primeiro mo- mento em que se fundem duas instâncias. De um lado, era evidente o lado instrumental do ritual por parte das elites, que com ele recoloca- vam um imperador como símbolo da nação, e encontravam na monar- quia um sistema necessário de arbitramento dos conflitos entre elas. Ou seja, tomado desse ângulo, tratava-se claramente de um golpe das elites para as elites. De outro lado, porém, a riqueza do ritual e da força de sua divulgação levaram a uma explosão do imaginário popular, que, na “chave das festas”, relia a mística desse pequeno rei brasileiro, “sagra- do e encantado”. (SCHWARCZ, 1998, p. 83). DIRETRIZES DO GOVERNO DE D. PEDRO II Passada a festa e os rituais que marcaram sua coroação, o jovem D. Pedro II pre- cisou lidar com as agitações políticas e sociais que permeavam o país. A principal preocupação do imperador era em relação às revoltas que surgiram ainda no Período Regencial. Algumas delas foram controladas e sufocadas, mas outras, como a Revolução Farroupilha – iniciada em 1835 no Rio Grande do Sul – con- tinuavam a merecer atenção. Além dessa revolta, apenas a Revolução Praieira ocorrida em Pernambuco em 1848 representou uma ameaça aos planos de D. Pedro II. A Revolução Praieira de 1848 articula-se no contexto das revoluções demo- cráticas que ocorreram na Europa no mesmo período. Período conhecido como Primavera dos Povos, as revoluções de 1848 representaram um mo- vimento das camadas populares contra governos centralizadores e autori- tários que não levavam em consideração a defesa dos interesses do povo. Para um conhecimento mais aprofundado sobre a Primavera dos Povos, leia: HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 2009. Fonte: a autora. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E72 O poder voltou às mãos do imperador e mais uma vez o Poder Moderador garantiu a centralização que Liberais e Conservadores buscavam após o Período Regencial e sobretudo o Ato Adicional de 1834. Para consolidar seu poder e governar com relativa estabilidade, D. Pedro II foi aconselhado a se aproximar da aristocracia e conceder-lhe algum privilégio, numa tentativa de acalmar aqueles que o criticavam por sua postura mais favorável ao fim da escravidão (FAUSTO, 1995, p. 177-178). Da aliança entre o imperador e a aristocracia, Começou a funcionar um sistema de governo assemelhado ao parla- mentar, mas que não se confunde com o parlamentarismo no sentido próprio da expressão. Em primeiro lugar, lembremos o fato de que a Constituição de 1824 não tinha nada de parlamentarista. De acordo com seus dispositivos, o Poder Executivo era chefiado pelo imperador e exercido por ministros de Estado livremente nomeados por ele. Esse critério é diverso do parlamentarismo, pois nesse sistema o ministério – chamado de gabinete – depende essencialmente do Parlamento, de onde sai a maioria de seus membros. (FAUSTO, 1995, p. 179). Na construção dessa base política, a aristocracia encontrou no Partido Liberal seu maior aliado devido às ideias defendidas por este de construção de um governo federalista com maior participação dos poderes locais e, portanto – embora defendendo a monarquia – a sua não colaboração para a manutenção do Poder Moderador. O Partido Conservador, por sua vez, assentou sua base de apoio nos comerciantes e nos senhores de crédito, na defesa do fim do tráfico de escravos e na elaboração das leis abolicionistas (FAORO, 1976, p. 341-342). Coube a D. Pedro II equilibrar os antagonismos de ambos os partidos com a nomeação de políticos tanto de um quanto de outro para a composição do legislativo. Nomeava seus ministros com vistas à defesa de seus interesses, não se obstando de demiti-los diante da contrariedade destes. Ademais, embora os cargos de deputados e de senadores fossem preenchidos por meio de elei- ções populares, esse preenchimento era feito de acordo com a vontade e com os interesses do imperador e por indivíduos que, na maioria das vezes, não repre- sentavam o voto dos brasileiros. Angelo Agostini, As fraudes eleitorais são satirizadas durante o segundo reinado, Biblioteca Municipal de SP. Fonte: MultiRio (online). “O ‘grande imperador’ era, então, apenas uma representação de si, cumprin- do de forma ritual, pomposa e elaborada uma agenda oficial feita para apre- sentá-lo apenas em momentos destacados”. Fonte: Schwarcz (1998, p. 85-86). O Segundo Reinado: O Governo de D. Pedro II Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 73 Faoro (1976) e Schwarcz (1998) apontam que, ao menos nos primei- ros anos de seu governo, D. Pedro II manteve-se distante dos aconte- cimentos e das agitações políticas do Brasil, exercendo seu comando por meio da nomeação de ministros a quem confiava a direção do país, supervisionando seus atos. Segundo os autores, o imperador dedicava-se à sua educação, voltando seu inte- resse para as artes e para a ciência, o que explica o desenvolvimento des- ses setores e a criação de algumas instituições que marcaram o desen- volvimento do Rio de Janeiro no período em questão. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E74 Se o imperador dedicava-se mais às artes e às ciências, cabia ao seu Ministério discutir as questões mais importantes do governo, estas voltadas à política e à economia. Os ministros Araújo Lima, Eusébio de Queiroz, Paulino José Soares de Sousa e Joaquim José Rodrigues Torres juntamente com a câmara dos depu-tados – composta em sua maioria por membros do Partido Conservador – foram os que tiveram de lidar com as questões relativas à economia brasileira, por exemplo, a estrutura agrária e a escravidão, sendo esta última um assunto con-troverso e que envolvia uma série de considerações que foram calorosamente debatidas ao longo de todo o Segundo Reinado e à qual dedicaremos especial atenção mais adiante. A GUERRA DO PARAGUAI (1864-1870) A Guerra do Paraguai marcou o governo de D. Pedro II na medida em que representou o maior conflito armado ocorrido nesse período. Mais uma vez, o Brasil envolveu-se em uma batalha com as províncias que compunham a região do Prata (Argentina e Uruguai). No entanto, ao contrário do que ocorrera no passado, dessa vez o Brasil aliou-se a esses países para lutar contra o Paraguai, formando a Tríplice Aliança. Guerra do Paraguai Fonte: Estudo Prático (online). O Segundo Reinado: O Governo de D. Pedro II Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 75 A historiografia destaca que vários fatores contribuíram para o início do conflito, sendo este analisado por diversos ângulos que incluem a emergência dos países após a crise do sistema colonial no século XIX, as relações conflitan- tes entre Brasil e Uruguai no início da década de 1860 e as disputas em torno dos rios Paraguai e Uruguai devido às suas possibilidades comerciais. O Paraguai, ao contrário do que ocorrera em vários países, após sua inde- pendência da Espanha no início do século XIX, adotou medidas de governo que visavama alcançar o desenvolvimento do país, livrando-o da dependência econômica de outras nações. Com essas medidas, o Paraguai conquistou uma situação diferenciada em relação aos demais países da América Latina que pas- saram por processos de independência no mesmo período. Nesse contexto de busca pelo seu desenvolvimento e por sua independência econômica, na segunda metade do século XIX, o Paraguai adotou uma política expansionista, liderada pelo ditador Francisco Solano Lopez que pretendia alcan- çar e conquistar terras na região da Bacia do Prata, abrindo um caminho para o Oceano Atlântico. A eclosão da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai ocorrerá nesse contexto e trará diferentes resultados para os países envolvidos. De acordo com Enrique Amayo (1995), a Guerra do Paraguai deve ser enten- dida dentro do contexto do desenvolvimento do imperialismo e, sobretudo, no que comete à Inglaterra nesse período. Para saber mais sobre a relação entre o desenvolvimento inglês e a Guerra do Paraguai acesse o conteúdo disponível em: <http://www.scielo.br/scielo. php?pid=S0103-40141995000200013&script=sci_arttext>. Acesso em: 01 maio 2015. Fonte: Amayo (1995). Tufy Kairuz esta é uma visão superada e a historiografia do tema não aceita mais essa abordagem. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E76 Para o Brasil, a postura do Paraguai ameaçava a sua ideia de promover a livre navegação na bacia do Prata, o que representava uma alternativa de comu- nicação mais viável entre as Províncias do Centro-Oeste, Mato Grosso e Goiás, além da tentativa de impedir a reorganização do antigo Vice-Reino do Prata. (SALLES, 2015). No que diz respeito à Argentina, a relação com o Paraguai e sua busca pelo crescente desenvolvimento foi permeada pelo confronto entre os paraguaios e a burguesia portenha de Buenos Aires, à qual não pretendia submeter-se. Os paraguaios pretendiam ter autonomia e livre acesso aos rios Paraná e Paraguai, desafiando a dominação dos argentinos na região. (FAUSTO, 1995, p. 211). Posto de Comerciantes no rio Paraná, século XIX Fonte: MultiRio (online). O Uruguai, por sua vez, vivia momentos de instabilidade interna, na medida em que estava dividido entre os grupos denominados blancos – proprietários rurais que não viam com bons olhos a aproximação e as influências de potên-cias europeias sobre o país– e os colorados – próximos dos comerciantes e que defendiam os ideais liberais e o fortalecimento das relações com as nações euro-peias (FAUSTO, 1995, p. 210). O envolvimento do Uruguai com o Paraguai e o desenrolar de suas relações estavam diretamente ligadas à influência que o Brasil exercia no Uruguai. O Segundo Reinado: O Governo de D. Pedro II Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 77 De acordo com Bóris Fausto, Na primeira metade do século XIX, a posição do Brasil diante dos seus vizinhos pode ser assim resumida. A maior preocupação do governo imperial se concentrava na Argentina. Temia-se a unificação do país, que poderia se transformar em uma República forte, capaz de neutrali- zar a hegemonia brasileira e atrair a inquieta província do Rio Grande do Sul. No que diz respeito ao Uruguai, houve sempre uma política de influ- ência brasileira no país. Os gaúchos tinham interesses econômicos no Uruguai, como criadores de gado, e viam com maus olhos medidas de repressão ao contrabando na fronteira. O Brasil colocou-se ao lado dos colorados, cuja linha política se aproximava de seus interesses. (...). As relações do Brasil com o Paraguai, na primeira metade do século XIX, dependeram do estado das relações entre o Brasil e a Argentina. Quando as rivalidades entre os dois países aumentavam, o governo im- perial tendia aproximar-se do Paraguai. Quando as coisas se acomoda- vam, vinham à tona as diferenças entre Brasil e Paraguai. As divergên- cias diziam respeito às questões de fronteira e à insistência brasileira na garantia de livre navegação pelo Rio Paraguai, principal via de acesso a Mato Grosso. (FAUSTO, 1995, p. 211). As análises feitas pelo autor acima citado nos ajudam a compreender a forma- ção da aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai que começou a se desenhar em 1862 quando se formou um governo republicano na Argentina – com princí- pios que eram comuns aos liberais brasileiros – e o Brasil aliou-se aos colorados no Uruguai. Diante da aliança entre o Brasil e os colorados do Uruguai, o Paraguai passou a apoiar os blancos na defesa de seu território e contra a acusação dos rio gran- denses de que os uruguaios roubavam seu gado e abrigavam escravos fugitivos. Com a intensificação da interferência brasileira no Uruguai e das divergências entre blancos e rio grandenses, o Paraguai declarou guerra ao Brasil, confiante de que teria o apoio da Argentina e na força de seu exército. (SALLES, 2015). Solano Lopez se enganou. Sem o apoio da Argentina, que se aliou ao Brasil e ao Uruguai formando a Tríplice Aliança, no decorrer dos seis anos em que a guerra perdurou, o exército paraguaio foi submetido a sucessivas derrotas e o país viu sua economia retroceder diante dos investimentos para o conflito. Além disso, estima-se que 2/3 da população paraguaia sofreu com o ônus da guerra. Tufy Kairuz caso se refira às baixas é uma estática incorreta. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E78 Os três chefes de Estado do Uruguai, Brasil e Argentina, numa caricatura da revista A Semana Ilustrada, 1865 Fonte: MultiRio (online). Os efeitos da Guerra do Paraguai para o Brasil influenciou no processo de fim da escravidão (1888) e da Proclamação da República (1889). Embora a Tríplice Aliança tenha saído vitoriosa da guerra, todos os países envolvidos sofreram com as consequências no âmbito político, econômico e social. Para conhecer um pouco mais sobre os efeitos da Guerra do Paraguai para os países envolvidos, veja o conteúdo disponível em: <http://www.scielo.br/ scielo.php?pid=S0103-40141995000200012&script=sci_arttext&tlng=es>. Acesso em: 02 maio 2015. © shutterstock A Economia no Período Imperial Brasileiro Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 79 A ECONOMIA NO PERÍODO IMPERIAL BRASILEIRO No período da história brasileira sobre o qual nos debruçamos neste momento, o período imperial, teve como um de seus elementos característicos a conso- lidação da cafeicultura como o carro-chefe da economia do país. Os grandes proprietários de terras, das fazendas de café e senhores de escravos fortaleceram- -se enquanto classe econômica, compondo uma elite que participou ativamente dos encaminhamentos políticos que permearam a organização do Brasil após a independência. Após a transferência da família real portuguesa para o Brasil e o fim do Pacto Colonial – uma das consequências dessa mudança, a Grã-Bretanha passou a ter privilégios na relação comercial com o Brasil na medida em que a importação de seus produtos para o Brasil estava sujeita a tarifas alfandegárias menores, garan- tindo uma dependência maior do Brasil em relação a esses produtos. A dependência econômica do Brasil em relação à Grã-Bretanha foi uma das razões que contribuíram para que no período imperial o país atravessasse uma crise que influenciou a eclosão de várias revoltas em todo o país, algumas das quais mencionamos na unidade anterior. A partir do governo de D. Pedro II, a cafeicultura se desenvolveu e o café transformou-se no principal produto de exportação do Brasil, garantindo alguma estabilidade para um país em um contexto até então permeado por oscilações políticas e inquietação social. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E80 De acordo com Lago, Em tal contexto, quando se considera o desempenho econômico do país como um todo, o período que vai de 1808 a 1850 pode ser vis- to como uma era de estagnação, apesar de progressos específicos em determinadas regiões. Após 1808, os produtos manufaturados britâni- cos logo inundaram o mercado brasileiro, sendo vendidos até mesmo em áreas remotas. (...). No entanto, o aumento das importações não foi acompanhado por um crescimento equivalente da capacidade de importar, uma vez que os termos de troca (relação entre os preços de importação e de importação) passaram a ser desfavoráveis ao Brasil, e assim o país foi perdendo aos poucos sua posição relativamente fa- vorável nos mercados internacionais de seus produtos de exportação tradicionais. (LAGO, 2014, p. 64). Diante da queda nas exportações dos produtos que, durante o período colonial, garantiram a inserção do Brasil no mercado mundial, o crescimento da produção cafeeira e de sua exportação possibilitou que a economia brasileira novamente tivesse chances de competir no mercado mundial, haja vista a crescente demanda por este produto por parte de países europeus e dos Estados Unidos. Victor Frond, Fazenda Produtora de Café, 1861 Fonte: MultiRio (online). A Economia no Período Imperial Brasileiro Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 81 As maiores fazendas de café concentravam-se no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, o que significa que essas regiões transformaram-se, ao longo do período imperial, no centro econômico do país. A concentração das fazendas de café nessas regiões nos ajuda a compreender o maior desenvolvimento alcan- çado por essas regiões em comparação com as demais regiões do país. O Rio de Janeiro, por exemplo, receberá maiores investimentos, garantindo seu status de capital do Império e ampliando a participação política da aristocracia carioca nos anos seguintes. Uma dinastia da aristocracia cafeeira fluminense Fonte: MultiRio (online). Com o desenvolvimento da economia cafeeira, o tráfico de escravos também ganhou fôlego, visto que a manutenção da produção assentava-se nesse tipo de mão de obra, que representava para os barões do café um investimento mínimo comparado ao uso da mão de obra assalariada, aumentando sua margem de lucro. Além do declínio das atividades que ocuparam o centro da economia brasi-leira no século XVIII, outra razão para o aumento da produção cafeeira no Brasil e para sua exportação reside nas transformações pelas quais o cenário mundial estava passando. Marquese e Tomich (apud GRINBERG; SALLES, 2009), ao ana-lisarem a evolução da produção cafeeira no Brasil, relatam que O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E82 A escala e o caráter do mercado se modificaram de modo igualmente profundo no século XIX. Na década de 1880, a produção total de café no globo era dez vezes maior do que cem anos antes. Entre uma data e outra, a grande novidade foi o aparecimento dos Estados Unidos como comprador. Nesse período, sua população aumentou 15 vezes e o con- sumo per capita anual passou de apenas 25 gramas para quatro quilos. Tratava-se de um mercado aberto, livre de tarifas de importação desde 1832, que pouco exigia a respeito da qualidade do café adquirido. Os demais grandes compradores do período, todos localizados no norte de uma Europa em rápido processo de industrialização e urbanização, também se distinguiram no século XIX pela explosão demográfica e pelo notável aumento nas taxas de consumo per capita. Interessa desta- car nisso tudo que a passagem do mercado restrito e de luxo do século XVIII para o mercado de massa industrial do século XIX foi claramen- te induzida pela oferta a baixo custo do produto. (MARQUESE; TOMI- CH apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 361). Seguindo a análise dos autores mencionados, a transformação e a evolução do mercado mundial exigiu que os países economicamente pautados nas atividades agrícolas aumentassem sua produção para atender às necessidades das econo- mias internacionais, cada vez mais voltadas para a industrialização. Além disso, os autores chamam nossa atenção para o fato de que a manutenção do sistema escravocrata no Brasil foi um fator decisivo para que o país conseguisse se desta- car em relação aos seus concorrentes (MARQUESE; TOMICH apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 361). Nesse cenário, a escravidão perpetuava-se como instituição necessária e fundamental para a continuidade do crescimento econômico do país. Para a aristocracia, lutar contra a escravidão era lutar contra o desenvolvimento econômico do país. Fonte: a autora. A Economia no Período Imperial Brasileiro Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 83 1850: A PROPRIEDADE DA TERRA E O TRÁFICO DE ESCRAVOS Nesse contexto de desenvolvimento e de expansão da produção cafeeira, as questões relacionadas à propriedade da terra e as discussões sobre a escravidão ocupavam a mente da elite política e aristocrática do país, devido à intrínseca relação entre essas duas esferas da sociedade. As diretrizes legais que regulamentavam a propriedade da terra no Brasil até o ano de 1822 estavam fundamentadas no sistema de doações, formalizado pela Lei de Sesmarias, criada nos primeiros anos da colonização do Brasil. Com a independência do Brasil, a Lei de Sesmarias perdeu seu efeito e não houve a regulamentação de uma nova lei em relação à propriedade da terra até a metade do século XIX. Nesse período que se estende de 1822 – com o fim da Lei de Sesmarias – a 1850 – quando é publicada a Lei de Terras – o acesso à terra no Brasil deu-se principalmente por meio da ocupação. Por essa razão, ao discutir uma nova legis- lação fundiária para o Brasil, foi preciso levar em consideração aspectos que iam além da extensão das propriedades, como os relativos à situação dos posseiros e às suas condições de submeter-se e adaptar-se às necessidades do modelo agro- exportador da economia brasileira no século XIX. Em conformidade com a realidade econômica do país caracterizada pela expansão do caráter agroexportador do setor cafeeiro, em 1850 foi aprovada a Lei de Terras, que regulamentava o acesso à terra a partir daquele momento. De acordo com essa lei, o único meio legal de garantir a propriedade da terra era por meio da compra. As doações, as concessões ou as posses foram considera- das ilegais, sendo que os indivíduos com propriedades nessa situação estavam sujeitos às sanções do governo central. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E84 A publicação da Lei de Terras em 1850 significou o alinhamento da política central com o novo contexto econômico do Brasil, caracterizado pela desestrutu- ração do complexo agroexportador açucareiro e a ascensão da atividade cafeeira, com o consequente deslocamento do centro econômico da região Nordeste para o Sudeste do país. Nesse sentido, a lei de 1850 veio ao encontro dos interesses da aristocracia cafeeira, representando uma forma de proteger seus investimentos das tentativas ou possibilidades de indivíduos de outras camadas sociais terem acesso à terra, durante o desenvolvimento da produção. Charles Ribeyrolles, A Casa Grande de uma fazenda de café no século XIX Fonte: MultiRio (online). A promulgação da Lei de Terras em 1850 esteve relacionada também aos rumos que o debate acerca da escravidão estava tomando naquele momento. Desde os tempos da transferência da família real portuguesa para o Brasil, a Inglaterra, que ajudou o Brasil nesse processo, pressionava o governo para colocar fim ao tráfico de escravos eà escravidão. Durante a primeira metade do século XIX, o Brasil adotou uma postura que na teoria aceitava as imposições feitas pela Inglaterra no que dizia respeito à escravidão, embora na prática, até 1850, nada tenha feito de efetivo para cumprir os acordos estabelecidos com o país. Entretanto, em 1850, diante da crescente pressão inglesa e também da inten- sificação do movimento abolicionista, o governo brasileiro publicou a Lei Eusébio de Queirós, que proibia e condenava o tráfico negreiro. Portanto, a partir dessa data, a entrada de escravos no Brasil por meio dos navios negreiros estava proi- bida, o que afetava diretamente a economia do país, na medida em que a mão de obra utilizada nas propriedades rurais era essencialmente escrava. Embora a elite econômica do país tenha se mostrado contrária à aplicação Tufy Kairuz abolia o tráfico atlántico de cativos Tufy Kairuz não havia movimento abolicionista organizado na época. Tufy Kairuz no que diz respeito ao tráfico atlântico de escravizados. Tufy Kairuz com aquele país? Eusébio de Queirós, responsável pela aprovação da lei de extinção do tráfico negreiro Fonte: MultiRio (online). A Economia no Período Imperial Brasileiro Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 85 da Lei, ela foi colocada em prática e foi preciso que os proprietários rurais bus- cassem novas formas de assegurar a mão de obra nas suas fazendas. Uma das soluções encontradas foi o aperfeiçoamento do tráfico interprovincial de escra- vos, ou seja, o comércio interno de escravos, o que elevou o valor do escravo enquanto mercadoria e foi um dos fatores que contribuiu para a gradativa subs- tituição da mão de obra empregada nas fazendas produtoras de café, assunto sobre o qual nos aprofundaremos em outro momento. Caro(a) aluno(a), devemos estar atentos para o significado do ano de 1850 para o estabelecimento de novas diretrizes sobre as quais a sociedade brasileira vai se organizar a partir de então. As transformações na economia com o deslo- camento do centro econômico do Nordeste para o Sudeste do Brasil, a criação de uma nova legislação fundiária que limitava o acesso à terra por meio da compra e impedia que trabalhadores livres conquistassem o direito à propriedade devido ao alto valor da terra e a suspensão do tráfico negreiro com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós mostram os conflitos e as divergências políticas e ideológicas existentes no interior da sociedade brasileira, além de representar o grau de influ- ência de fatores externos na organização do país. A partir da segunda metade do século XIX, as diferenças e as contradições presentes na sociedade brasileira foram levadas ao extremo e tive- ram como consequência eventos que tornaram insustentável a manuten- ção da ordem vigente, culminando no fim da escravidão e no conse- quente fim do regime monárquico. Tufy Kairuz o eixo econõmico se deslocou já na 2a metade do séc. XVIII. Tufy Kairuz abolição O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E86 O MOVIMENTO ABOLICIONISTA NO BRASIL IMPERIAL Na segunda metade do século XIX, a produção cafeeira encontrava-se desen- volvida e representava a principal fon te de recursos para o país, sustentada pela mão de obra escrava. Mesmo quando os primeiros imigrantes começaram a che- gar ao Brasil para servir de mão de obra em diversos setores, a escravidão vai ser ainda, até a Lei Áurea, a base de sustentação não só da economia, mas tam- bém da monarquia brasileira. Quando o Brasil tornou-se independente de Portugal, na primeira metade do século XIX, o discurso da elite política e intelectual, responsável pela organi- zação do país recém-emancipado, estava fundamentado nos princípios liberais, tão em voga na Europa e que já tinha influenciado o processo de independên- cia e de organização de outras regiões da América. No entanto, ao evocar o liberalismo e fazer dele a diretriz de orientação para a constituição do novo Estado, os intelectuais brasileiros adotaram sua própria versão do liberalismo, na medida em que a escravidão, já enraizada no Brasil e nos brasileiros, mesmo representando a antítese dos fundamentos liberais, não poderia deixar de existir, ao menos não até que uma forma de trabalho tão van- tajosa quanto ela fosse adotada, sem comprometer os lucros dos detentores do poder econômico no Brasil. Tratado da Amizade e Aliança Fonte: MultiRio (online). O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 87 Conforme aponta Alfredo Bosi, Para entender a articulação de ideologia liberal com a prática escravista é preciso refletir sobre os modos de pensar dominantes da classe políti- ca brasileira que se impôs nos anos da independência e trabalhou pela consolidação do novo império entre 1831 e 1860 aproximadamente. O que atuou eficazmente em todo esse período de construção do Bra- sil como Estado autônomo foi um ideário de fundo conservador; no caso, um complexo de normas jurídico-políticas capazes de garantir a propriedade fundiária e escrava até seu limite possível. (BOSI, 1992, p. 195) No decorrer do período imperial, devido à aproximação e à dependência da Grã-Bretanha, o debate sobre a questão da escravidão foi recorrente em maior ou menor grau, dependendo do grupo político que estava no comando do país, ao lado do imperador. A questão da escravidão, destaca Lilia Schwarcz (1998), foi em grande medida a responsável pela alternância dos partidos Liberal e Conservador nos principais cargos do governo brasileiro. A Grã-Bretanha havia colocado fim ao tráfico de escravos e à escravidão em suas pos- sessões no século XVIII e impelia o Brasil a fazer o mesmo desde o momento em que se aliou a Portugal contra a França, ajudando D. João VI e sua família a fugir para o Brasil, então sua colônia, no início do século XIX. Nessa ocasião, Portugal firmou um acordo com a Grã-Bretanha no qual se comprome- tia a acabar gradativamente com o tráfico negreiro. O Tratado de Amizade e Aliança assinado em 1810 foi o primeiro ato contra a escravidão no Brasil, influenciado pelo aliado europeu de Portugal. Tufy Kairuz Incorreto. A Inglaterra aboliu o tráfico escravo no início do século XIX (1807) e a escravidão em suas colônias em 1838. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E88 Os primeiros acordos firmados entre Portugal e a Grã-Bretanha objetivando o fim da escravidão nas colônias americanas não saíram do papel. Levar-se-ia anos ainda até que o Brasil abdicasse da prática escravocrata e adotasse a mão de obra livre e assalariada. Seria preciso superar o preceito de que a escravidão era um mal necessário ao desenvolvimento do país. Por essa razão, a abolição da escravidão foi um processo lento, construído ao longo de todo o império. A pressão britânica para a abolição da escravidão no Brasil não surtiu efeito de fato até 1850, uma vez que a sociedade não se encontrava pronta para tal acon- tecimento e não havia uma alternativa de substituição de mão de obra escrava que não comprometesse os lucros dos proprietários rurais e, consequentemente, esfriasse os investimentos na agricultura. O CAMINHO PARA A LIBERDADE A Lei Eusébio de Queirós de 1850 foi o primeiro passo efetivo no processo que culminou com a abolição da escravidão no Brasil, embora há tempos a discus- são acerca desse tema estivesse presente nos círculos intelectuais do país. Cabe ressaltar, caro(a) aluno(a), que, enquanto o debate sobre a escravidão esteve restrito aos centros da intelectualidade da sociedade, pouco se avançou na pro- moção do fim dessa instituição. “Nos países em que se processou a RevoluçãoIndustrial os novos gru- pos ligados ao capitalismo industrial que passaram a influenciar a política condenaram a escravidão. A existência de uma grande massa de escravos nas regiões coloniais parecia-lhes um entrave à expansão de mercados e à modernização dos métodos de produção. Os setores agrários haviam sido escravistas, os novos grupos desvinculados da Grande Lavoura apontavam todos os aspectos negativos da escravidão. A partir de então o sistema es- cravista estava condenado”. Fonte: Costa (2010, p. 274). Tufy Kairuz esta é uma interpretação que não se sustenta mais como única razão para a abolição tráfico de escravizados e na erradicação da escravidão. O livro deveria oferecer visões alternativas que explicam de forma mais elaborada e multifacetada a abolição do tráfico atlãntico de cativos relacionado à mudanças ideológicas, à ideias religiosas e a transformações econômicas na Europa e no continente americano como sugere Davi Eltis e Seymour Drescher. Escravos na colheita de café, Vale do Paraíba, 1882 (Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles) Fonte: História Ilustrada (online). O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 89 Os intelectuais defenso- res da abolição perceberam que aproximar a sociedade como um todo nos deba- tes acerca da escravidão permitiria que o tema se transformasse em uma questão social, forçando a compreensão de que, a partir da segunda metade do século XIX, a substituição do trabalho escravo por outras formas de trabalho era apenas uma questão de tempo. A partir da compreensão de que o fim da escravidão era um fato irreversí- vel, era necessário estabelecer os termos e as diretrizes sobre as quais o processo de abo- lição ocorreria (COSTA, 2010). Intelectuais, aristocracia, liberais e conservadores passa- ram a debater sobre, cada um sob uma óptica que dizia respeito à preservação de seus inte- resses, qual era a melhor maneira de levar a cabo o fim da escravidão. Os possíveis prejuízos à economia não podiam deixar de ser levados em considera- ção. Por essa razão, uma das propostas para a concessão de liberdade para os escravos afri- canos baseava-se na promulgação de leis que objetivavam preparar o país para a concre- tização da abolição. Além de propor o fim gradual da escravidão, esse projeto – proposto pelos liberais – previa ainda uma indenização para os proprietários de escravos, numa ten- tativa de reparar as perdas que esles teriam ao alforriar seus escravos, perdendo, consequen- temente, a força de trabalho de suas lavouras. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E90 O projeto dos liberais forne- ceu as bases para a promulgação da Lei do Ventre Livre em 1871, proposta pelo Visconde do Rio Branco e que estabelecia que os filhos de escravas nascidos a partir daquela data seriam considerados livres e da Lei dos Sexagenários em 1885, que declarava livre os escravos com idade acima dos 60 anos (COSTA, 2010, p. 364). Mesmo diante da oposição da elite latifundiária brasileira, a sociedade enten-dia que a escravidão era uma instituição que não mais se encaixava na realidade brasileira. Com isso queremos dizer que a população, pelo menos em sua maio-ria, apoiava o fim do regime escravocrata e reforçava o discurso e a campanha dos intelectuais abolicionistas. Nesse contexto de acirramento das discussões sobre a escravidão, os escravos também manifestavam suas opiniões a respeito, demonstrando toda a ansiedade pelo fim do regime que lhes fora imposto. As fugas dos escravos tornaram-se constantes e “a escravidão tornou-se uma instituição desmoralizada” (COSTA, 2010, p. 364). Como nos mostram Pereira e Machado, A Lei dos Sexagenários teve pouco efeito prático, na medida em que era raro um escravo no Brasil atingir a idade ideal para ser beneficiado pela lei. A expectativa de vida de um escravo brasileiro era de aproximadamente 30 anos. Fonte: a autora. Lei Áurea, de 1888 Fonte: Silva (online). O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 91 Cientes de que a escravidão perdia a legitimidade, os grupos de es- cravos passavam a ganhar em ousadia e articulação, utilizando-se da quebra do consenso sobre a escravidão para avançar em todo tipo de reivindicação. Revoltando-se, fugindo, cometendo crimes, demandan- do melhorias, assim como salário e autonomia de ir e vir, os escravos, no decorrer da década, mostraram que confrontavam a escravidão tan- to por dentro do sistema quanto por fora dele, exigindo simplesmente a liberdade. (PEREIRA e MACHADO, apud GRINBERG e SALLES, 2009, v. 3, p. 376). Como é possível observar, caro(a) aluno(a), na década de 1880, o movimento abolicionista ganhara força e adeptos, tornando a manutenção do regime escra- vocrata uma afronta à sociedade brasileira. Era imprescindível que o imperador tomasse uma atitude definitiva. A questão adquiriu proporção e urgência que não mais podia esperar discussões ou definições sobre indenizações. D. Pedro II, que desde o início de seu governo preocupou-se mais com assuntos relacionados à arte e à cultura do que com a política e a economia do país, nesse momento de efervescência em que se encontrava a sociedade brasileira, mais uma vez preferiu dedicar-se a temas menos urgentes do que ao “problema” que ganhava força no interior do país. As viagens do imperador para a Europa eram frequentes e sua autoridade passou a ser questionada diante dos cons- tantes períodos em que se ausentava do país. Sua imagem enquanto monarca e imperador do Brasil ficaram abaladas. Acusavam-no de fugir das questões polí- ticas que imperavam no Brasil naquele momento (SCHWARCZ, 1998, p. 429). O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E92 Em 1887 o imperador mais uma vez decidiu viajar para a Europa, igno- rando o crescimento do movimento abolicionista e das agitações em torno das ideias republicanas. Em seu lugar assumiu sua filha, a princesa Isabel, a quem coube a responsabilidade de lidar com as agitações que assolavam o país naquele momento, colocando fim à questão da escravidão. Com tendências abolicionistas, a Princesa Isabel, em 13 de Maio de 1888 assinou a Lei Áurea, colocando um fim na escravidão no Brasil. Segundo Lilia Schwarcz, “não havia mais como adiar o processo. Redigido de maneira sim- ples, o texto da lei era curto e direto: ‘É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário’”. (1998, p. 437). DEPOIS DA ABOLIÇÃO Manchete no jornal Gazeta de Notícias sobre a abolição da escravidão Fonte: Museu Afro Brasil (online). O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 93 A assinatura da Lei Áurea foi comemorada dentro e fora do Brasil, uma vez que desde o início do século XVIII nações estrangeiras combatiam a escravidão e pressionavam o Brasil para colocar fim à instituição no país. A Princesa Isabel entrou para a história como a redentora dos escravos, o que contribuiu para que o desgaste da monarquia, representada por um imperador cuja popularidade e autoridade estavam em decadência, fosse revertido em apoio à princesa. Porém, é preciso analisar, caro(a) aluno(a), o que aconteceu após a publi- cação da Lei Áurea. Como se processou a concessão de alforria aos escravos e como a sociedade se organizou para receber essa massa de indivíduos a par- tir de então libertos. A questão em torno de como a massa de escravoslibertos foi incorporada na sociedade a partir de 1888 muito nos diz sobre a atitude da Princesa Isabel. Vimos que o projeto dos liberais com relação à escravidão baseava-se no fim gradual dessa instituição com o pagamento de uma indenização aos senhores de escravos. Dessa forma, o Brasil conseguiria organizar-se e preparar-se para o fim definitivo do regime escravista, sem grandes prejuízos para a monarquia e eco- nomia. No entanto, mesmo se considerarmos que a escravidão demorou para ser abolida do país na medida em que as discussões acerca do tema remontam ao início do século XIX, quando ela de fato acontece, o Brasil não estava pronto. Conforme veremos mais adiante, em algumas regiões do país, como no Nordeste e no Sul, o trabalho escravo estava sendo gradativamente substituído pelo uso da mão de obra estrangeira, mas os resultados dessas primeiras experi- ências não foram satisfatórios, por razões que discutiremos em outro momento. Diante disso, persistia ainda no país a questão de como as propriedades rurais iriam manter o funcionamento de suas atividades, tão importantes para o desen- volvimento econômico do Brasil. Tufy Kairuz desde o início do séc. XIX. Tufy Kairuz aqui se tem a impressão que havia mão de obra estrangeira não-africana sendo utilizada no Nordeste. Tufy Kairuz não há nenhuma menção ao projeto de "branqueamento" que foi um fator relevante na abolição da esvravidão e ao incentivo à imigração europeia. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E94 Além da questão de substituição da mão de obra nas fazendas produtoras em todo o país, outro problema desencadeado pela promulgação da Lei Áurea dizia respeito à alocação dos escravos recém-libertos na sociedade brasileira. Havia emprego para todos esses indivíduos? Eles teriam condições de manter- -se e suprir suas necessidades básicas longe das grandes fazendas? A sociedade estava aberta a recebê-los em seu seio e reconhecê-los enquanto cidadãos com os mesmos direitos e deveres que o “branco”? Não estaria a escravidão tão profun- damente enraizada no interior da sociedade que, mesmo com o manifesto apoio de muitos ao movimento abolicionista, ao concretizar-se a abolição, percebeu-se que o preconceito já era uma característica intrínseca a muitos indivíduos após tanto tempo de existência da escravidão? Estes foram questionamentos que, ao nosso entender, não receberam a devida atenção no momento em que se con- firmou a abolição. Após a abolição os escravos buscaram se fixar em locais longe dos centros urbanos, sendo que, no início do século XX, com a política do branquea- mento, eles foram levados para bairros ainda mais longe dos centros das cidades. Para conhecer um pouco mais da situação dos negros após a publicação da Lei Áurea, acesse o conteúdo disponível em: <http://www.ipea.gov.br/ desafios/index.php?option=com_content&id=2673%3Acatid%3D28&Ite- mid=23>. Acesso em: 10 abr. 2015. O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 95 Os negros recém-libertos não encontraram seu lugar na sociedade imedia- tamente após a abolição e, por essa razão, muitos acabaram permanecendo nas fazendas onde viviam até então, não mais na condição de escravos, mas em troca de salários tão baixos que se assemelhavam mais a um simbolismo da existência de um trabalho livre e assalariado. Mesmo recebendo por seu trabalho um valor meramente representativo, os que decidiam permanecer nas fazendas o faziam em troca da garantia de moradia e de alimentação. Aqueles que optavam por deixarem as fazendas e buscarem oportunidades nas cidades exercendo qualquer tipo de ofício deparavam-se com a falta de habi-lidades que garantisse colocação no mercado de trabalho, ou ainda com uma sociedade preconceituosa que ainda enxergava o negro como uma mercadoria, como escravo. Aos que conseguiam estabelecer-se nas cidades e conquistavam um emprego, recebiam em troca salários mais baixos que os demais emprega-dos, o que dificultava seu perfeito estabelecimento nas cidades e proporcionava a má garantia de sua sobrevivência. Portanto, caro(a) aluno(a), a Lei Áurea garantiu ao negro a liberdade ape- nas no papel, na teoria, porque, na prática, ele continuava preso a uma sociedade que não conhecia outra maneira de enxergá-lo e que, mesmo tentando negar, não conseguia deixar de demonstrar o quanto os mais de trezentos anos de exis- tência da escravidão havia internalizado o preconceito racial. Levar-se-ia ainda muitas décadas para que os negros pudessem exercer sua liberdade de fato e, ao que parece, esse processo ainda hoje não se completou. Atualmente existem pessoas que defendem a ideia de que o Brasil tem uma dívida histórica com os negros. Por essa razão, busca-se desenvolver políti- cas afirmativas que visam reparar os danos causados aos negros no passado. E você, o que pensa a respeito? Fonte: a autora. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E96 O MOVIMENTO REPUBLICANO E O FIM DA MONARQUIA NO BRASIL Proclamação da República. Pintura de Benedito Calixto. Fonte: Amaral (2014, p.13). Já dissemos em vários momentos nesta unidade, caro(a) aluno(a), que a escravi- dão era a base de sustentação da monarquia, na medida em que as bases políticas e econômicas do país estavam ligadas à elite agrária, dependente da mão de obra escrava. Por essa razão, ao abolir o regime escravocrata no Brasil, o governo, representado nesse ato pela Princesa Isabel, abriu o caminho para o fortaleci- mento das ideias de substituição do regime monárquico já, ideias essas em voga no interior do país, que levaram ao consequente fim da monarquia brasileira. Portanto, se por um lado o ato da Princesa Isabel libertou os escravos e colo- cou o Brasil mais perto dos princípios liberais há tempos evocados por uma parte da elite intelectual do país, por outro lado, criou condições para que a oposi- ção ao governo de seu pai crescesse e, mais uma vez, as bases de organização do país fossem repensadas. O Movimento Republicano e o Fim da Monarquia no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 97 Ao analisar o fim da escravidão, Lilia Scwarcz destaca que (...) a abolição definitiva gerava também perdas materiais e levava ao desprestígio de uma minoria muito ativa e extremamente ligada ao tro- no e que depressa se bandeou para o lado dos republicanos. Por mais que a monarquia premiasse os proprietários rurais com títulos de ba- ronato e alegasse o caráter inevitável da medida, a falta de indenização selava o rompimento com o Estado. (...). Divorciavam-se, portanto, nesse momento, duas instâncias de repre- sentação. A monarquia, decadente em seus rituais, recuperava o imagi- nário ao vincular-se ao ato mais popular do Império: a abolição. Mais uma vez a “realeza política” era associada à “realeza mística”, senhora da “justiça” e da “segurança”. Paradoxalmente, porém, ao afastar-se das elites proprietárias o Império perdia seu esteio e distinguia-se de sua versão mais institucional. Dessa forma, se na iconografia oficial era a imagem popular que “aclamou Isabel nas ruas” que estará presente, nos rumos políticos os caminhos eram bem mais tortuosos. Esse parecia ser mesmo o último grande ato da monarquia. (SCHWARCZ, 1998, p. 438). A ideia de uma República no Brasil não surge apenas quando finda a escravidão. As discussões sobre uma possível mudança no regime de governo esteve pre- sente já no século XVIII, quando algumas manifestações contrárias ao governo brasileiro – como foi o caso da Inconfidência Mineira e da Conjuração Baiana – manifestaram o desejo da adoção de um regime republicano.No entanto, esses movimentos não tiveram sucesso e mesmo após a ruptura com Portugal em 1822, a forma de governo continuou sendo a monarquia. Mesmo com a reafirmação da monarquia como regime político do Brasil, a circulação das propostas de reforma política que incluíam a adoção do sistema republicano continuou em voga no país e ganhou força em 1870, com a funda- ção do Partido Republicano. Embora haja controvérsia sobre as ideologias presentes no movimento republicano e sobre o grau de envolvimento dos diversos setores da sociedade brasileira, o que podemos afirmar é que a proclamação da República em 1889 foi resultado das transformações políticas, econômicas e sociais pela qual o Brasil passava, desde meados do século XIX, e da ineficiência do governo central em administrar os conflitos ideológicos presentes no interior da sociedade. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E98 Renato Lemos aponta que Em uma perspectiva de longo prazo, tem-se a alternativa republicana conectada ao processo de transformação estrutural da sociedade bra- sileira. Mais precisamente, o sentido histórico de seu surgimento, im- plantação e consolidação afirmou-se no período que se pode balizar pelos anos de 1850 e 1900. Trata-se de um momento histórico marcado por acontecimentos econômicos, sociais, ideológicos e políticos que se associaram nas bases da sociedade brasileira: extinção do tráfico inter- nacional de escravos, Lei de Terra, intensas migrações internas, Guerra do Paraguai, movimento abolicionista, deslocamento do polo dinâmi- co da cafeicultura do Vale do Paraíba para o oeste paulista, imigração europeia, expansão do trabalho livre, renovação intelectual de vários setores sociais pela absorção de variantes do liberalismo e do cientifi- cismo, conflitos entre o Estado, a Igreja Católica e os segmentos mili- tares, abolição da escravidão, derrubada da monarquia e implantação da república, primeira crise de superprodução cafeeira, e estabilização da ordem republicana nos termos da “política dos governadores”. (LE- MOS apud GRINBERG e SALLES, 2009, v. 3, p. 405). Portanto, caro(a) aluno(a), o fim da monarquia e a instalação do regime repu- blicano no Brasil remonta a uma série de fatores que estiveram presentes no seio da sociedade brasileira desde a sua formação enquanto Estado independente – e até mesmo anteriormente – como é o caso da questão da escravidão, abordada no tópico anterior. Mesmo após 1889, essas questões influenciaram a organiza- ção do país sob os novos ideais que se delineavam e que não mais podiam ser negligenciados. Representando, para os adversários da monarquia, uma alternativa para a solução da crise generalizada que havia se agravado no governo de D. Pedro II, o movimento republicano conquistou adeptos e apoio de setores da sociedade que, pelo menos até a abolição da escravidão, não pensavam na alteração do regime político, como é o caso de indivíduos ligados à oligarquia cafeeira, desconten- tes com os rumos que a discussão acerca da mão de obra das lavouras cafeeiras estava tomando. O fim da escravidão se aproximava, disso já não restavam dúvi- das, e as propostas de alternativas para a substituição do trabalho escravo ainda não havia se concretizado. A experiência com a imigração estrangeira já estava em curso, mas ainda não se apresentava viável para boa parte dos cafeicultores. O Movimento Republicano e o Fim da Monarquia no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 99 Permeado por esse contexto de agitações, a ideologia republicana ganhou espaço e partidos e clubes republicanos foram criados, com destaque para São Paulo e Rio Grande do Sul. No restante do país, a adesão ao movimento repu- blicano ocorreu de forma mais lenta e gradual, sendo que algumas províncias não conseguiram organizar partidos republicanos até o fim da monarquia, como o Amazonas e a Paraíba, por exemplo. Nas províncias do Ceará, Maranhão, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro, a fundação de Partidos Republicanos ocorreu após a abolição da escravidão que possibilitou o apoio dos senhores de escravos insatisfeitos com a Lei Áurea. (LEMOS apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 414, ). Emília Viotti da Costa, ao descrever o pensamento dos defensores da República no Brasil, destacou que eles, (...) lembrando as revoluções e pronunciamentos que, desde a Inconfi- dência, tiveram por alvo instalar um regime republicano no Brasil, afir- mam que a República sempre foi uma aspiração nacional. Esposando uma ideia já enunciada no Manifesto Republicano de 1870, consideram a Monarquia uma anomalia na América, onde só existem repúblicas. Repetindo as críticas feitas durante o Império ao Poder Moderador, afirmam que as liberdades foram cerceadas com grande prejuízo para a nação. Apontam as deficiências de D. Pedro como estadista. Criticam a centralização excessiva do governo monárquico, a vitaliciedade do Senado, a fraude eleitoral que possibilita ao governo vencer sempre as eleições, e consideram a República a solução natural para os problemas. (COSTA, 2010, p. 389). O Manifesto Republicano de 1870 deixou transparecer as vertentes que guiaram o movimento republicano nos anos seguintes. A primeira vertente era com- posta pelos indivíduos ligados às cidades, por políticos e por idealistas que não se viam representados na monarquia. A segunda vertente estava representada pelos fazendeiros, descontentes, sobretudo com a política da mão de obra a par- tir da segunda metade do século XIX (FAORO, 1976). A esses grupos aliou-se o Exército, descontente com o pouco apoio, pouco investimento e pouca valo- rização por parte do governo monárquico, descontentamento que foi agravado após a Guerra do Paraguai. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E100 Raymundo Faoro evidenciou essa atmosfera de descontentamento com os rumos que o Brasil estava tomando descritas pelos republicanos ao escrever que Decepcionados da ascensão pelo sistema cooptativo, pela mão bene- volente e carinhosa das influências de cima, apelam para os recursos representativos, com a mobilidade de todos os postos, só dependentes, para serem preenchidos, da vontade eleitoral, da soberania popular. Este caldo psicológico responde a uma transformação mais profunda: emerge, no quadro estamental e hierárquico, comunitariamente seleti- va, progressivamente fechada, a sociedade de classes. O fazendeiro, o fabricante de açúcar, os criadores de gado não se sentem mais senhores, são apenas lavradores e pecuaristas; os poderosos não se aperfeiçoam no título de barão ou visconde, mas percebem que seu privilégio de- pende de assentos artificiais, sem futuro. A sociedade, ao se desmiti- ficar, sofre a convulsiva pressão de elementos que, nunca postos em debate e em dúvida, pareciam inexistentes. (FAORO, 1976, p. 537). Como é possível observar, caro(a) aluno(a), a República vai se desenhando ao longo da segunda metade do século XIX, surgindo, ao menos em teoria, como a diretriz necessária e inevitável para o realinhamento das forças sociais e para o estabelecimento de uma sociedade pautada em bases igualitárias. A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA As transformações ocorridas na sociedade brasileira no Segundo Reinado, mais precisamente a partir de 1850, fizeram com que vários setores do país questio- nassem a política centralizadora do imperador, garantida pelo Poder Moderador. Esses setores – dentre os quais destacamos a aristocracia prejudicada pelo fim da escravidão e os indivíduos ligados às camadas urbanas, que necessitavam de práticas políticas que não necessariamente alinhavam-se aos interesses da elite agrícola – reivindicavam mudanças que lhes assegurassem a defesa de seus direitos e interesses.Nesse sentido, a ideia de se estabelecer no Brasil um sistema federativo, que possibilitaria maior autonomia às províncias e aos indivíduos, parecia ser a melhor situação para se resolver o impasse no qual se encontrava a sociedade brasileira. O Movimento Republicano e o Fim da Monarquia no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 101 A ideia de um regime republicano no Brasil seguia três vertentes de pro- postas de como esse modelo seria colocado em prática no país. A proposta dos proprietários rurais, reunida no Partido Republicano Paulista, o mais organi- zado do período, baseava-se na adoção de um modelo republicano nos moldes da república americana, ou seja, Convinha-lhes a definição individual do pacto social. Ela evitava o ape- lo à ampla participação popular tanto na implantação como no gover- no da República. Mais ainda, ao definir o público como a soma dos interesses individuais, ela lhes fornecia a justificativa para a defesa de seus interesses particulares. (...). Convinha-lhes também a ênfase americana na organização do poder, não apenas por estar na tradição do país, mas, principalmente, pela preocupação com a ordem social e política, própria de uma classe de ex-senhores de escravos. Convinha-lhes, de modo especial, a solução federalista americana. Para os republicanos de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, três das principais províncias do Império, o fede- ralismo era talvez o aspecto mais importante que buscavam no novo regime. (CARVALHO, 1990, p. 24-25). Esse modelo de República proposto pelos proprietários rurais não se enquadrava nas ideias que partiam dos representantes dos setores urbanos, como os peque- nos proprietários, jornalistas, profissionais liberais, professores e estudantes. Para estes indivíduos, o ideal republicano fundamentava-se em aspectos abstratos da liberdade, da igualdade, da participação e do controle de recursos do poder eco- nômico e social, que lhes garantissem vantagens em um cenário de competição livre (CARVALHO, 1990, p. 26). A terceira proposta de organização de um Estado republicano tinha entre seus defensores mais expressivos os militares. Essa vertente entendia que “o Estado era o meio mais eficaz de conseguirem seus objetivos” (CARVALHO, 1990, p. 26) e, por essa razão, não eram contra o Estado, e sim contra o regime monárquico. Para esse grupo, a República assentava-se em um Executivo forte e intervencionista. Essa vertente do movimento republicano teve grande adesão dos republicanos do Rio Grande do Sul, uma vez que “os republicanos gaúchos formavam uma minoria que precisava de uma doutrina capaz de lhes dar forte coesão e os habilitasse a lutar contra a corrente política tradicional, represen- tada pelo partido Liberal” (FAUSTO, 1995, p. 245). O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E102 Enquanto as discussões sobre a implantação da República e de como esta iria organizar-se corriam o país, os aliados da monarquia buscavam maneiras de conter o movimento e garantir o Terceiro Reinado e a continuidade do regime monárquico. Para tanto, o Visconde de Ouro Preto – presidente do Conselho de Ministros do Império – propôs uma série de reformas em junho de 1889 que tinham por objetivo acalmar os ânimos dos liberais e conter o avanço do movimento republicano. Entre as reformas propostas pelo ministro, destacam- -se a ampliação da representação civil, a plena autonomia dos municípios e das províncias, fim do senado vitalício, elaborar um Código Civil e fim do caráter político do Conselho de Estado, preservando apenas seu caráter administrativo (COSTA, 2010, p. 489). As propostas de Ouro Preto não foram aceitas pelo Conselho de Estado e pela Câmara, que consideraram o pacote de reformas apresentado radical e com forte tendência republicana. Diante da decisão da Câmara, esta foi dissolvida em 17 de junho de 1889. A dissolução da Câmara acirrou os ânimos e intensificou a crise e a indisposição contra o governo. Entre junho de 1889 e novembro do mesmo ano, o movimento republicano buscou reafirmar o apoio dos militares ao fim da Monarquia, explorando os boa- tos de reformas que atingiriam o Exército de maneira desfavorável. No entanto, o próprio exército precisava lidar com as diferenças em seu interior. Fausto (1995, p. 246) aponta que os militares brasileiros estavam divididos em dois grupos. No primeiro, sob a liderança do Marechal Deodoro da Fonseca, encontravam-se os veteranos que lutaram na Guerra do Paraguai e cuja maio- ria não havia frequentado a Escola Militar. Participaram do 15 de Novembro no intuito de salvar o Exército e garantir que este tivesse maior representati- vidade no novo regime, mesmo não possuindo uma ideia clara da República. O segundo grupo reuniu-se em torno de Floriano Peixoto e era composto por jovens militares que frequentaram a Escola Militar e que estavam sob a influên- cia do positivismo francês e para os quais a República representava progresso, traduzido na forma de crescimento industrial, expansão da comunicação e dos conhecimentos técnicos. Marechal Deodoro da Fonseca Fonte: Biblioteca da Presidência da República (online). O Movimento Republicano e o Fim da Monarquia no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 103 À parte das diferenças ideológicas em seu inte-rior, o Exército brasileiro estabeleceu um consenso em relação à monarquia, de que este regime não mais satisfazia seus interesses ou oportunizava uma parti- cipação maior na representação política do país. Por essa razão, os republicanos entendiam que o apoio do Exército seria crucial para a mudança do regime. Desse modo, Benjamin Constant, Aristides Lobo, Quintino Bocaiúva, Francisco Glicério e o coronel Sólon tentaram convencer o Marechal Deodoro da Fonseca a liderar o Exército e a derrubada da monar- quia (COSTA, 2010, p. 491). De acordo com a historiografia, Deodoro da Fonseca convenceu-se da necessidade de intervir junto ao movimento republicano diante dos boatos de que o ministro Ouro Preto decretara sua prisão. Dessa forma, segundo Lilia Schwarcz (1998, p. 458), no dia 15 de Novembro de 1889, Deodoro da Fonseca invadiu o quartel-gene- ral, prendeu o Ministro Ouro Preto e informou que ele mesmo comunicaria a D. Pedro II – que se encontrava em Petrópolis – a formação do novo governo. Extinguia-se a monarquia e tinha início a República no Brasil. Durante muito tempo reproduziu-se nos livros de história a máxima de que a Proclamação da República, feita em 15 de Novembro de 1889, foi obra do Exército brasileiro, reforçando a ideia de um consenso entre os militares – de todas as patentes – contra o regime monárquico e unidos em torno das figuras de Marechal Deodoro da Fonseca e do tenente-coronel Benjamim Constant, então protagonistas do fim da monarquia e início do período re- publicano. Para conhecer mais sobre o desenvolvimento dos ideais republicanos no Exército brasileiro, acesse o conteúdo disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/ producao/dossies/FatosImagens/ProclamacaoRepublica>. Acesso em: 10 abr. 2015. O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E104 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), nesta unidade procuramos discorrer acerca do governo de D. Pedro II, evidenciando as diretrizes de sua administração e os elementos que desencadearam a crise da Monarquia e a evolução do movimento republicano que culminou na Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. O Segundo Reinado compreende o período no qual as forças que contribuí- ram para a consolidação da independência em 1822 buscam uma representação maior no direcionamento político do Brasil,o que leva a uma acentuação das divergências ideológicas presentes no interior dessas forças. Nesse sentido, a unidade em torno do imperador e da própria monarquia torna-se um desafio. Despido do espírito político e de liderança que caracterizaram seu pai, D. Pedro II, muito mais ligado às questões relacionadas à arte, à cultura e às ciên- cias, viu-se envolto em disputas pelo poder que contribuíram para fragilizar sua imagem enquanto chefe do Estado brasileiro. Nesse cenário o crescimento do movimento abolicionista e a promulgação de leis que visavam o fim da escravidão suscitaram o debate acerca das prioridades do governo e colocaram em xeque a capacidade do imperador e de seus minis- tros de contornar a crise que se formava a partir dos encaminhamentos para a abolição da escravidão. A assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel precipi- tou os eventos que levaram ao fim da monarquia. Após a abolição da escravidão em 1888, tornou-se cada vez mais difícil ao imperador e a seus aliados controlar o avanço das forças contrárias à monar- quia. O Exército, os fazendeiros do Oeste Paulista e os setores médios urbanos, descontentes com a política de D. Pedro II, aproveitaram-se da falta de prestígio que a monarquia conquistara nos últimos anos e fortaleceram o ideal republi- cano, levando à mudança do regime por meio de um golpe liderado pelo Exército em 1889. O Brasil entrava em uma nova fase de sua história. 105 1. D. Pedro II subiu ao trono do Brasil aos quinze anos de idade com a missão de, nas palavras de Lilia Schwarcz (1998), “salvar a nação”. Analise os primeiros anos do governo de D. Pedro II, discutindo a maneira pela qual o imperador esta- beleceu sua forma de governo no início do Segundo Reinado. 2. No decorrer do Segundo Reinado, a produção cafeeira ocupou lugar de desta- que na economia brasileira. Reflita sobre a importância que a exportação do café teve para a economia brasileira, relacionando a publicação da Lei de Terras de 1850 aos interesses dos cafeicultores brasileiro. 3. A questão do fim da escravidão esteve presente no Brasil desde o início do sécu- lo XIX, quando a Grã-Bretanha ajudou na transferência da família real portugue- sa para o Brasil e passou a insistir na adoção de uma política que colocasse fim à instituição aqui no país. Com relação ao movimento abolicionista no Brasil e ao processo que levou ao fim da escravidão no país, assinale a alternativa correta. a) O fim da escravidão foi um projeto que sempre esteve presente nas diretrizes políticas de D. João VI, o qual priorizou a questão durante seu reinado no Brasil. b) Com a expansão da produção cafeeira, a mão de obra escrava cedeu lugar ao trabalho livre e assalariado, facilitando o processo de abolição da escravidão. c) A existência do regime de escravidão estava em consonância com os ideais libe- rais difundidos na Europa e que influenciaram os intelectuais brasileiros. d) A escravidão no Brasil contrastava com os princípios liberais em voga na Europa e, por essa razão, a elite brasileira adaptou tais princípios para justificar a manu- tenção da escravidão. e) Intelectuais e aristocracia brasileira concordavam que o fim da escravidão era o caminho correto a ser adotado no Brasil, uma vez que a instituição já havia che- gado ao fim no restante da América. 4. A abolição da escravidão em 1888 influenciou diretamente o processo de procla- mação da República no ano seguinte. Sobre o avanço do movimento republi- cano no Brasil, leia as afirmações abaixo: I. A escravidão era a base de sustentação da monarquia, na medida em que as bases políticas e econômicas do país estavam ligadas à elite agrária, dependente da mão de obra escrava. II. O fim da monarquia e a instalação do regime republicano no Brasil remonta a uma série de fatores que estiveram presentes no seio da sociedade brasileira desde a sua formação enquanto Estado independente. III. A proposta republicana representava o interesse da maioria da população bra- sileira, sendo que as camadas sociais mais baixas e sem grande representação política participaram ativamente das manifestações contrárias à monarquia. IV. O Exército teve um papel secundário no processo de instalação do regime repu- blicano no Brasil, uma vez que os principais líderes militares eram próximos ao imperador D. Pedro II. Assinale a alternativa correta: a) Somente a afirmação I está correta. b) Somente a afirmação III está correta. c) Somente as afirmações II e IV estão corretas. d) Somente as afirmações I e III estão corretas. e) Somente as afirmações I, II e III estão corretas. 107 MACHADO DE ASSIS E A QUESTÃO DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO “Bons dias! Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar. (...). No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado. Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pe- diu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. (...). No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: – Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que… – Oh! meu senhô! fico. – …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cres- ceste imensamente. (...). Pancrácio aceitou tudo (...). O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleito- res, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políti- cos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e inca- pazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu. Boas noites”. Fonte: Assis (online). MATERIAL COMPLEMENTAR Título: As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. Autor: Lilia Moritz Schwarcz Editora: Companhia das Letras Sinopse: A autora aborda o período do governo de D. Pedro II no Brasil, destacando os aspectos culturais que fi zeram-se presentes na sociedade brasileira nesse período. Sem deixar de lado as análises a respeito da governabilidade de D. Pedro II, Lilia M. Schwarcz chama a atenção do leitor para aspectos como a arte e o costume da sociedade brasileira, evidenciando a maneira pela qual a cultura local mesclou-se com a cultura europeia, presente nos hábitos e costumes da corte, como suas construções palacianas, festas e rituais. Título: HISTÓRIA DO BRASIL POR BÓRIS FAUSTO - REPÚBLICA VELHA (vídeo completo). Sinopse: O historiador Bóris Fausto apresenta um panorama do início do período republicano no Brasil, analisando os aspectos políticos, econômicose sociais do Brasil, destacando os signifi cados do processo de transição do Império para a República no país. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=XuiF0uzp22E>. Acesso em: 2 jul. 2015. Título: Mauá, o Imperador e o Rei Ano: 1999 Direção: Sérgio Rezende Sinopse: O fi lme narra a história de Irineu Evangelista de Sousa (1813– 1889), o Barão e Visconde de Mauá, defensor da industrialização do Brasil no século XIX e que, por essa razão, era contrário à escravidão. Mauá aliou-se a empresários ingleses que infl uenciaram suas iniciativas capitalistas no Brasil, contribuindo para que o barão se tornasse o primeiro grande empresário do Brasil. Ao acompanhar a trajetória do empresário, o fi lme mostra os contrastes da sociedade brasileira no século XIX e o desafi o do imperador D. Pedro II para equilibrar os antagonismos políticos do país. U N ID A D E III Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA NO BRASIL E AS TRANSFORMAÇÕES NA SOCIEDADE BRASILEIRA NO INÍCIO DO SÉCULO XX Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar o processo de consolidação do regime republicano no Brasil. ■ Compreender o modelo político-administrativo instalado no Brasil na chamada Primeira República. ■ Verificar as transformações econômico-sociais do início da República. ■ Discorrer acerca das conjunturas que levaram ao golpe de 1930 e o início da chamada Era Vargas. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ República Velha ou República da Espada. ■ Aspectos da imigração europeia e a consolidação do trabalho assalariado: as transformações econômico-sociais na Primeira República. ■ O fim da República Oligárquica: o golpe de 1930. INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), nesse momento de nosso estudo vamos analisar a formação e consolidação do regime republicano no Brasil, evidenciando as transformações pelas quais a sociedade brasileira passou ao longo desse primeiro momento do regime republicano. Após o 15 de novembro de 1889, o Brasil entra em um novo momento, cujas estruturas governamentais foram reformuladas e os efeitos dessa reformulação foram sentidos por toda a população. Novamente teremos nesse momento refle- xões acerca da construção de uma identidade nacional para o povo brasileiro. A elaboração de uma nova Constituição para o país trouxe à tona novamente os temas que estiveram presentes no momento em que se pensava a Carta Constitucional de 1824. Ao findar-se 1889 havia um novo contexto político e social. O Brasil havia se transformado em uma República, que ainda precisava definir e estabelecer as bases sobre as quais iria fundamentar-se. Havia novos atores sociais em cena como a massa de escravos libertos presentes nas cidades (sem uma política que viabilizasse sua integração à sociedade), além dos imigrantes que chegavam ao Brasil, sobretudo os europeus, nos primeiros momentos da transição do traba- lho escravo para o trabalho assalariado. Nos anos iniciais do regime republicano no Brasil, havia muitos interesses a serem satisfeitos e, consequentemente, ao privilegiar-se um grupo em detrimento dos interesses de outro, os conflitos e as agitações sociais novamente fazem-se presentes no seio da sociedade, criando condições para a emergência de novos ideais de mudanças. O golpe de 1930 que leva Getúlio Vargas à presidência do Brasil deve ser entendido também dentro dessas conjunturas que marcaram os primeiros anos da República no Brasil. Um momento político, econômico e social importante para a história do Brasil é o que discutiremos nesta unidade e, por essa razão, atenção e disciplina nos estudos são essenciais. Um ótimo trabalho! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 111 Notícia sobre a proclamação da República Fonte: Memória da Administração Pública Brasileira (online). DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E112 REPÚBLICA VELHA OU REPÚBLICA DA ESPADA Derrubada a monarquia e ins- talada a República no Brasil, era preciso então definir as bases sobre as quais ela se sustentaria. Deodoro da Fonseca, considerado o líder do movimento que colocou fim ao regime monárquico, ao invadir o quartel-general e declarar a inaugu- ração de um novo modelo político, assumiu o posto de primeiro presi- dente da República do Brasil. O governo de Deodoro da Fonseca representava um governo de transição, uma vez que os par- tidos políticos não tinham força suficiente para representar o elemento unificador e centralizador que o país pre- cisava naquele momento. Esse papel foi dirigido ao Exército, na medida em que comandou o processo de mudança do regime político-administrativo do Brasil. A oligarquia e os proprietários rurais esperavam que o Marechal promovesse as reformas necessárias para que as províncias e os munícipios conquistassem maior autonomia, o que possibilitaria também uma maior liberdade de ação para os proprietários, ainda se adaptando à alternativa de mão de obra livre e assalariada. Além disso, não podemos nos esquecer dos trabalhadores urbanos, operários das fábricas e primeiras indústrias do país, dos quais trataremos com maior ênfase nesta unidade. Com isso, entendemos que os proprietários rurais defendiam a adoção do sistema federalista, proposta que favorecia seus interesses. Além disso, o federa- lismo também significava que esse grupo estaria mais próximo do poder local, possibilitando a sua ascensão política, fato que, como veremos, vai se confirmar nos anos seguintes à instalação da República. República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 113 Para os liberais, é imperativo o alinhamento político com os princípios libe- rais, o que, de acordo com Faoro, permite a valorização da livre concorrência, da oferta e da procura, das trocas internacionais sem impedimentos artificiais e protecionistas. O pro- dutor agrícola e o exportador, bem como o comerciante importador, prosperam dentro das coordenadas liberais, favorecidos com a troca internacional sem restrições e a mão-de-obra abundante, sustentada em mercadorias baratas (FAORO, 1976, p. 592). Preocupados em impedir a instalação de uma ditadura militar no país, os libe- rais apontam para a necessidade da convocação de uma Assembleia Constituinte para a elaboração de uma Constituição que substituísse a de 1824 e contemplasse o novo momento político, econômico e social do Brasil (FAUSTO, 1995, p. 249). No entanto, levou-se um tempo até que a elaboração da nova Constituição fosse concluída, o que ocorreu em 1891 e, nesse período, entre a proclamação da República e a promulgação da Constituição, foi Deodoro da Fonseca quem dire- cionou a política no país. Foi ele quem indicou os governadores das províncias e os ministros, além de alguns deputados e senadores que compunham a Assembleia Constituinte, sendo todos os indicados militares (FAORO, 1976, p. 641). Desse modo, observamos que a represen- tatividade popular no novo governo – uma das promes- sas da campanha republicana – não se consolidou. Os mili- tares assumiram o comando do Brasil, representados por Deodoro da Fonseca e dire- cionaram sua administração, vislumbrando estabelecer mais do que um governo provisório. DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E114 Ao impor seu modelo administrativo, Deodoro da Fonseca acabou por gerar insatisfações nas oligarquias provinciais, que não viam com bons olhos alguns nomes de militares indicados para governador dasprovíncias, visto que, como dito anteriormente, buscavam uma representação maior por meio de uma par- ticipação política mais incisiva. Portanto, o Marechal precisou conciliar e buscar meios de amenizar as relações conflituosas com esse setor da sociedade, que ainda não havia esquecido o fato de que um governo centralizador colocou fim à escra- vidão sem pagar as indenizações e sem garantir qualquer tipo de auxílio para a adoção da mão de obra livre. Essa camada social não estava disposta a mais uma vez deixar-se prejudicar por um governo que não representava seus interesses. A CONSTITUIÇÃO DE 1891 A primeira Constituição da República brasileira foi promulgada em 24 de feve- reiro de 1891 e foi inspirada na Constituição dos Estados Unidos da América, reafirmando o caráter liberal e federativo da nova organização do país. Texto de Abertura da primeira Constituição do período republicano no Brasil Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 115 Dentre os principais pontos dessa Constituição, destacam-se, como dito, o estabelecimento do federalismo, sendo as Províncias transformadas em Estados Unidos do Brasil e adquirindo relativa autonomia. Também houve a separa- ção entre Igreja e Estado, a divisão dos poderes em Executivo – exercido pelo presidente da República eleito para um mandato de quatro anos –, Legislativo – composto pelos deputados e senadores, os quais passaram a ter um mandato de nove anos e não mais vitalícios – e Judiciário. O Poder Moderador, símbolo da centralização política do regime monárquico foi extinto, uma das premissas do movimento republicano (FAUSTO, 1995, p. 250). Texto da Constituição de 1891 que definiu a forma de governo no Brasil após a proclamação da República Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A nova C onstituição também redefiniu os termos que designavam os cidadãos brasileiros, estabelecendo que Art. 69. São cidadãos brazileiros: 1º Os nascidos no Brazil, ainda que de pae estrangeiro, não residindo este a serviço de sua nação; 2º Os filhos de pae hrazileiro e os illegitimos de mãe brazileira, nasci- dos em paiz estrangeiro, si estabelecerem domicilio na Republica; DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E116 3º Os filhos de pae brazileiro, que estiver noutro paiz ao serviço da Republica, embora nella não venha domiciliar-se; 4º Os estrangeiros, que, achando-se no Brazil aos 15 de novembro de 1889, não declararem, dentro em seis mezes depois de entrar em vigor a Constituição, o animo de conservar a nacionalidade de origem; 5.º Os estrangeiros, que possuirem bens immoveis no Brazil, e forem casados com brasileiras ou tiverem filhos brazileiros, comtanto que re- sidam no Brazil, salvo si manifestarem a intenção de não mudar de nacionalidade; 6º Os estrangeiros por outro modo naturalisados (BRASIL, online). Observando o que diz a Constituição acerca da definição do cidadão brasi- leiro, chamamos sua atenção, caro(a) aluno(a), para o artigo 4º, exposto acima, e para o artigo 72, o qual estabelece que “a Constituição assegura a brazileiros e a estrangeiros residentes no paiz a inviolabilidade dos direitos concernentes á liberdade, á segurança individual e á propriedade nos termos seguintes (...)” (BRASIL, online). Esses artigos evidenciam a importância de garantir aos estran- geiros, sobretudo aos europeus que chegavam ao Brasil desde os tempos finais do Império para substituir os escravos no trabalho nas lavouras e também nas indústrias, a ideia de que o Brasil era um país no qual eles teriam assegurada a liberdade para exercerem sua cultura e sua religião. Ao definir os cidadãos brasileiros, a Constituição também determinou seus direitos, dentre os quais o direito de voto e o direito de ser voltado. De acordo com o documento, Art. 70. São eleitores os cidadãos maiores de 21 annos, que se alistarem na fórma da lei. § 1º Não podem alistar-se eleitores para as eleições federaes, ou para as dos Estados: 1º Os mendigos 2º Os analphabetos; 3º As praças de pré, exceptuando os alumnos das escolas militares de ensino superior; 4º Os religiosos de ordens monasticas. companhias, congregações, ou communidades de qualquer denominação, sujeitas a voto de obedien- cia, regra, ou estatuto, que importe a renuncia da liberdade individual. República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 117 § 2º.São inelegiveis os cidadãos não alistaveis (BRASIL, online). O documento de 1891 representou, por um lado e em certa medida, uma amplia- ção ao direito de participação política por meio do voto dos brasileiros ao eliminar das condições necessárias para exercer esse direito um limite de renda, expresso na Constituição de 1824. Entretanto, por outro lado, determinou que o direito de voto seria concedido aos maiores de 21 anos desde que não fossem analfabe- tos, o que acabou por limitar a participação política a uma pequena parcela da população brasileira. Além disso, às mulheres também não foi dado o direito de voto, embora essa afirmação não apareça de maneira clara na Constituição. Texto de conclusão da Constituição de 1891 Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). O ENCILHAMENTO E A CRISE DO GOVERNO DE DEODORO DA FONSECA A postura rígida de Deodoro da Fonseca, herança da sua formação militar, levou-o a alguns conflitos com vários atores sociais e contribuiu para que logo nos primeiros anos de seu governo sua presidência fosse contestada. Além disso, o direcionamento econômico defendido pelo seu Ministro da Fazenda descon- tentou boa parte da população brasileira. DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E118 O nome escolhido pelo primeiro presidente da República para o ministério da Fazendo, um dos mais importantes do governo, foi o do intelectual liberal Rui Barbosa, cuja estratégia adotada para impulsionar a economia brasileira, após o conturbado fim do trabalho escravo e o surgimento de novas formas de tra- balho, resultou na instalação de uma nova crise econômica que teve influência direta no fim do governo de Deodoro da Fonseca. As diretrizes econômicas de Rui Barbosa visavam ao fortalecimento da indús- tria, segmento que representava o novo momento da história do Brasil e o único capaz de levar o país ao desenvolvimento, ao progresso e à independência em relação ao capital estrangeiro. Para o ministro, o desenvolvimento da indústria não é somente, para o Estado, ques- tão econômica: é, ao mesmo tempo, uma questão política. No regime decaído, todo de exclusivismo e privilégio, a nação, com toda a sua atividade social, pertencia a classes ou famílias dirigentes. Tal sistema não permitia a criação de uma democracia laboriosa e robusta, que pudesse inquietar a bem-aventurança dos posseiros do poder, verda- deira exploração a benefício de privilegiados. Não pode ser assim sob o sistema republicano. A República só se consolidará, entre nós, sobre alicerces seguros, quando as suas funções só se firmarem na democra- cia do trabalho industrial, peça necessária no mecanismo do regime, que lhe trará o equilíbrio conveniente ( BARBOSA, 1889 apud FAORO, 2001, p. 609). Esse investimento seria feito por meio da reforma do sistema financeiro do país, iniciado já nos últimos anos do Império. Em 1888, o Visconde de Ouro Preto criou uma lei a qual estabelecia que dividia a responsabilidade de emissão de papel moeda do Tesouro Nacional com os bancos, em vista às necessidades oriundas da introdução da mão de obra assalariadaintensificada após a aboli- ção da escravidão. O sucesso da medida criada por Ouro Preto levou à criação do Banco Nacional do Brasil que seria a instituição, mediante contratos com o Tesouro Nacional, responsável por controlar e por regularizar as emissões de papel moeda. República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 119 Cédula de trinta mil réis, emitida pelo Banco da República do Brazil entre 1892 e 1896 Fonte: Faber (online). Com a instalação de uma crise que atingiu uma parcela signifi cativa dos proprietários rurais, os setores econômicos e produtivos dos centros urbanos também viram seus interesses prejudicados, na medida em que boa parte da sua clientela concentrava suas atividades no campo. Diante dessas conjunturas eco-nômicas, quando Rui Barbosa assumiu o Ministério da Fazenda, a pressão por reformas que atendessem e resolvessem o quadro de desestabilidade existente veio tanto de setores ligados à produção agrícola quanto dos setores ligados à indústria e ao comércio. “A lei (Decreto n.º 3403, de 24 de novembro de 1888) assegura aos bancos a emissão de bilhetes ao portador, conversíveis em moeda corrente, median- te o depósito, na Caixa de Amortização, de igual valor em títulos da dívida pública”. Fonte: Faoro (2001, p. 594). DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E120 A política econômica adotada por Rui Barbosa, embora baseada em lei pro- mulgada em outro contexto político, ia ao encontro dos interesses dos industriais brasileiros, que tiveram suas esperanças renovadas diante da proposta do minis- tro que acreditava que somente a indústria poderia elevar o Brasil ao status de uma grande potência política e econômica. Conforme demonstra Raymundo Faoro (2001), Rui Barbosa colocou em prática a emissão de apólices da dívida pública no início de 1890, adotando tam- bém medidas que visavam a impedir a especulação financeira, que já na época do Império tinha sido responsável por uma alta na inflação. A lógica defendida pelo ministro era que a emissão de papel moeda levaria ao desenvolvimento da indústria, limitando cada vez mais a entrada do capital estrangeiro no país. Desse modo, gradativamente, a riqueza deixaria de se concentrar nas proprie- dades rurais e passariam a concentra-se nos centros urbanos, com a atividade industrial. Nota-se aqui a intenção de anular o poder e a influência das oligar- quias agrárias. Com a aplicação das medidas econômicas de Rui Barbosa, o que se viu foi o aumento da circulação monetária no país. Devido a essa grande quantidade de dinheiro circulando no país, começaram a surgir empresas fictícias, criadas com o objetivo de conseguir investimentos por parte do governo. Como resultado, o que ocorreu foi uma ilusão de crescimento econômico, na medida em que cada vez mais se observava o aumento da circulação de dinheiro. No entanto, a real situação não demorou a aparecer, quando se percebeu que o volume de papel moeda emitido não correspondia à realidade da produção industrial. Dessa discrepância entre a liberação de crédito por parte do Banco da República dos Estados Unidos do Brasil e a produção industrial resultou o aumento da inflação e uma elevação dos preços das mercadorias produzidas no país. Segundo Filomeno, República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 121 Assim, caiu-se num círculo vicioso: a emissão monetária exercia pres- são sobre o câmbio, que se desvalorizava sob o impacto da escassez de divisas, aumentando a inflação e o serviço da dívida externa em moeda nacional, tornando ineficazes as medidas de correção dos desequilí- brios financeiros, agravando o clima de insatisfação política e impli- cando maiores gastos do governo e novas emissões monetárias. Desse modo, o déficit orçamentário, o desequilíbrio das contas externas do país e as emissões imoderadas provocaram uma rápida desvalorização da moeda nacional. (FILOMENO, 2010, p. 159). A oligarquia cafeeira acompanhava atenta as medidas adotas por Rui Barbosa e que tinham por objetivo beneficiar o desenvolvimento industrial no país. O café continuava sendo, ainda nos primeiros anos da República, o principal produto da economia brasileira e, por essa razão, os proprietários rurais não viam com bons olhos a política do Ministro da Fazenda. Aos produtores de café do período não era interessante que os investimentos nos setores urbano-industriais ultrapassassem os investimentos na agricultura e quando a crise do encilhamento adveio, passaram a pressionar o Ministro da Fazenda e o presidente da República. A alta dos preços de produtos essenciais para a população, como os alimentos, por exemplo, também gerou insatisfação nas camadas populares. A crise econômica desencadeou uma crise política e o Ministro da Fazenda Rui Barbosa renunciou ao cargo no início de 1891. O presidente Marechal Deodoro da Fonseca também foi pressionado tanto pela oligarquia cafeeira quanto pelos setores populares da sociedade a encontrar uma solução para a crise que se instalara. Em desacordo com os membros da Assembleia e amea- çado pela Marinha, Deodoro da Fonseca renunciou ao cargo de presidente no final de 1891. O vice-presidente, Floriano Peixoto, assumiu então a presidência do Brasil e juntamente com o novo Ministro da Fazenda, Rodrigues Alves, tinha a difícil tarefa de solucionar a crise econômica e equilibrar as forças dissidentes no interior da sociedade. DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E122 O FIM DA “REPÚBLICA DA ESPADA” Floriano Peixoto assumiu a presidência do Brasil em meio a uma crise econô- mica – o encilhamento – após a renúncia do presidente Marechal Deodoro da Fonseca. Logo que assumiu a presidência, Floriano recebeu críticas por não res- peitar a Constituição de 1891 ao aceitar o posto de presidente da República sem convocar novas eleições, como determinava a Constituição em caso de o presi- dente eleito ficar por menos de dois anos no comando do país. Segundo Bóris Fausto (1995, p. 254), um governo de Floriano Peixoto não era bem visto pelos fazendeiros, principalmente os reunidos no Partido Republicano Paulista (PRP), que tinham uma visão diferente da visão do novo presidente sobre como deveria organizar-se a República no Brasil. Segundo o autor, o Marechal “pensava construir um governo estável, centralizado, vagamente nacionalista, baseado, sobretudo no Exército e na mocidade das escolas civis e militares, enquanto os fazendeiros desejavam uma República “liberal e descentralizadora” e “viam com suspeita o reforço do Exército e as manifestações da população urbana do Rio de Janeiro”. Apesar das diferenças ideológicas, os fazendeiros representados pelo PRP e o presidente estabeleceram um acordo de apoio mútuo, baseado no fato de ambos os lados entendiam que esse apoio seria a única maneira de manter o regime republicano no país. Fonte: a autora. República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 123 Embora tenha conseguido o apoio do PRP, Floriano Peixoto enfrentou a opo- sição daqueles que contestavam o fato do Marechal assumir a chefia do Brasil sem a convocação de novas eleições, conforme estabelecido pela Constituição. Para enfrentar seus opositores, o presidente contou com o apoio do PRP, do Exército e de representantes dos setores urbanos, satisfeitos com as medidas populares do novo governo. Entre os anos de 1891 e 1894,Floriano Peixoto precisou lutar para manter seu governo. Em 1892 alguns generais do Exército assinaram um documento denominado Manifesto dos Treze Generais, que contestava a presidência do Marechal e exigiam novas eleições. Floriano acusou os generais de insubordi- nação e os condenou à prisão, sufocando o movimento. Contrariada pelo desprestígio em comparação com as forças do Exército e com a política populista de Floriano Peixoto – que representava um risco para a permanência dos militares no poder – em 1893 a Marinha iniciou uma revolta que tinha por objetivo forçar a convocação de novas eleições presidenciais, como determinava a Constituição de 1891. Essa revolta, lideradas pelo almirante Custódio José de Melo, ficou conhecida como Segunda Revolta da Armada e, além dos vários oficiais da Marinha, contou com o apoio de pessoas ligadas à Monarquia e que não aceitavam o fim do regime. A Primeira Revolta da Armada ocorreu no governo do Marechal Deodoro da Fonseca em virtude do encilhamento – crise resultante da política econô- mica de Rui Barbosa – e da dissolução da Assembleia pelo então presidente Deodoro. A Primeira Revolta da Armada contribuiu para que Deodoro da Fonseca renunciasse ao cargo de presidente da República em novembro de 1891. Fonte: a autora. Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, 1894. Vê-se o tubo de um canhão sendo suspenso para ser transportado Fonte: Museu Histórico Nacional (online). DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E124 O presidente conseguiu conter os ataques da Marinha à cidade do Rio de Janeiro no ano de 1894 com o apoio do PRP, do Exército e de nações estran- geiras, que interviram no conflito, interessados em garantir a estabilidade da República no Brasil. Segundo Pereira (2009, p. 6), o interesse de países como Inglaterra, França, Itália, Portugal e Estados Unidos no fim da Segunda Revolta da Armada residia no fato de que o conflito prejudicava as relações comerciais entre esses países e o Brasil, na medida em que bloqueava o Porto do Rio de Janeiro, na baía de Guanabara. Simultaneamente à Segunda Revolta da Armada, ocorria no Rio Grande do Sul a Revolução Federalista, uma guerra civil entre os republicanos posi- tivistas organizados no Partido Republicano Riograndense (PRR) e liderados pelo presidente da província – como eram chamados os governadores de Estado na época – Júlio de Castilhos e os liberais, organizados no Partido Federalista, cujo líder era Silveira Martins. A Revolução teve início devido às diferenças ideológicas entre os dois partidos, que defendiam formas dis- tintas de governo no Rio Grande do Sul. A Constituição estadual do Rio Grande do Sul, aprovada em 1891, previa a instalação de um governo centralizado e fundamentado nos ideais positivistas, o que desagra- dou os federalistas, que defendiam a instalação de um regime parlamen- tar (FAUSTO, 1995). República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 125 A Revolução Federalista teve como objetivo maior tirar Júlio de Castilhos da presidência da província rio-grandense para, em seu lugar, assumir Silveira Martins. O conflito que inicialmente era local alcançou um âmbito maior na medida em que os federalistas avançaram sob os territórios de Santa Catarina e do Paraná. Nesse momento, conquistaram o apoio dos opositores de Floriano Peixoto, uma vez que muitos dos revoltosos eram pessoas ligadas ao governo federal. Mesmo com esse apoio, os revoltosos não conseguiram alcançar seus obje-tivos, pois Floriano Peixoto colocou-se ao lado de Júlio de Castilhos do PRR, garantindo o apoio do Exército. Diante do apoio federal aos seus rivais, os fede-ralistas renderam-se em 1895, já no governo de Prudente de Moraes. Como resultado do conflito, o PRR conseguiu manter Júlio de Castilhos no cargo de presidente da província do Rio Grande do Sul. Após conter a Segunda Revolta da Armada e a Revolução Federalista, Floriano Peixoto, mesmo com o apoio de parte da sociedade civil urbana, resolveu dei- xar a presidência do Brasil e convocou novas eleições presidenciais em 1894. O candidato eleito foi Prudente de Morais, que se tornou o primeiro presidente civil do Brasil, colocando fim ao governo dos militares no país. Chegava ao fim o período conhecido como República da Espada. “Castilhos liderou o grupo conhecido como pica paus. Ficaram conhecidos desta forma, devido às listras brancas nos uniformes militares, e ao barulho das armas. Mais tarde estes homens usaram o lenço branco, para diferir dos maragatos. Os membros do Partido Federalista foram chamados por Júlio de Castilhos, líder do Partido Republicano, de “maragatos” devido à migra- ção dos moradores da região de Maragateria na Espanha, para a região de fronteira entre Uruguai e Brasil. Posteriormente para os Pampas no Rio Gran- de do Sul. A imagem de gaúcho que nos foi ensinada é originária dos ma- ragatos: roupas largas, bombacha e lenço vermelho amarrado no pescoço. Também são conhecidos pelo seu amor à liberdade, à religião e sua honra de cavaleiro. Os principais representantes maragatos eram Gaspar Silveira Martins e Gumercindo Saraiva”. Fonte: Castro e Rezende Filho (online). DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E126 A ASCENSÃO DA OLIGARQUIA E O PERÍODO DA REPÚBLICA OLIGÁRQUICA Nas discussões sobre as eleições de 1894, articulavam-se estratégias para garan- tir que não houvesse a continuidade do governo militar no Brasil e sim para que os interesses dos Estados pudessem estar representados por meio de um candi- dato de um partido federal. Na defesa desse ideário, em 1893 criou-se no Rio de Janeiro o Partido Republicano Federal liderado por Francisco Glicério, ex-minis- tro do governo de Deodoro da Fonseca e com o objetivo de “firmar a autoridade dos Estados, mantendo escrupulosamente os seus direitos, tão sagrados como os da União” (FAORO, 1976, p. 663). Por trás do PRF, escondiam-se as mano- bras da oligarquia, sobretudo a de São Paulo, para assumir o poder no Brasil. O PRF constituiu-se como aglutinador dos interesses de todos os Estados e teve o apoio, sobretudo de São Paulo. No entanto, os Estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul não participaram da convenção do partido que lan- çou a candidatura do paulista Prudente de Moraes para presidente e do baiano Manuel Vitorino para vice-presidente. Com a vitória de Prudente de Morais, a oligarquia cafeeira paulista acreditou ter finalmente garantido sua hegemonia no comando do país. Prudente de Morais herdou o país ainda mergulhado na crise econômica decorrente do encilhamento, além de ter que lidar com os conflitos entre “a elite política dos grandes Estados e o republicanismo jacobino, concentrado no Rio de Janeiro” (FAUSTO, 1995, p. 256). A realidade do contexto do governo de Prudente de Moraes o adverte de que, para que consiga consolidar seu governo ante a oposição que sofre dos apoiadores de Floriano Peixoto, mesmo após a morte desse, seria preciso conciliar os interesses dos Estados que ajudaram a elegerem-no e apaziguar o país, o que não seria tarefa fácil. A Guerra de Canudos foi um dos eventos conflituosos que marcaram o governo de Prudente de Morais e foi um exemplo do descontentamento das regi- ões afastadas do centro político com a pouca atenção e pouco investimento por parte do governo central pelos interesses e pelas necessidades dessas regiões. O conflito desenrolou-se entre 1896 e 1897 no sertão da Bahia e constitui-se em um ponto de oposição ao governo central que representava naquele momento República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt. 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 127 os interesses da oligarquia, sobretudo a oligarquia cafeeira paulista. O Arraial de Canudos foi uma comunidade fundada em 1893 em uma fazenda localizada no sertão baiano e que abrigava sertanejos que viviam diante de uma realidade permeada por miséria, por fome, por carestia, por seca e por explora- ção de mão de obra, situação essa decorrente do descaso do governo central e da desestruturação da produção açucareira, que em outros tempos havia repre- sentado a pujança da economia brasileira. Vista parcial de Canudos ao sul. Segundo o registro oficial do exército, foram contados 5200 casebres no arraial de Antônio Conselheiro, 1897 (Flávio de Barros/Acervo Museu da República) Fonte: História Ilustrada (online). Esses sertanejos reuniram-se em Arraial de Canudos e sob a liderança de Antônio Vicente Mendes Maciel, ou Antônio Conselheiro, organizaram uma comunidade que buscava uma vida diferente e, mesclando interesses políticos, econômicos e sociais com o fanatismo religioso, mostraram-se contrários à situ-ação vigente, transformando-se em foco de oposição ao governo. DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E128 Antônio Conselheiro e seus seguidores do Arraial de Canudos não aceitavam o fim da monarquia e as mudanças trazidas com a Proclamação da República que, para eles, não contribuíam para o desenvolvimento daquela região do país e não satisfaziam as necessidades da população mais pobre que sofria desde o declínio do complexo açucareiro na região nordestina do país. Ao contrário do que ocorria nas cidades, na comunidade liderada por Antônio Conselheiro, não havia a cobrança de impostos e a produção era dividida entre as famílias que compunham a comunidade e o excedente comercializado com outras cidades (SOUZA, 2012). Antônio Conselheiro e sua comunidade começaram a representar uma ame- aça tanto ao governo da Bahia quanto ao governo federal, na medida em que a comunidade crescia e a fama e as ideias de seu líder se espalhavam pelo sertão. Ao questionar a legitimidade da República, as mudanças econômicas estabelecidas, ao desafiar o coronelismo, ao divulgar a crença no Sebastianismo e declarar-se um messias, Antônio Conselheiro transformou-se em alvo das lideranças esta- duais, federais e também da Igreja Católica que não via com bons olhos a perda de fiéis para a comunidade de Arraial de Canudos. Para conter o fortalecimento da comunidade de Arraial de Canudos, o governo federal iniciou uma guerra contra Antônio Conselheiro em 1896 enviando tropas para destruir a comunidade. Foram necessárias quatro expedições mili- tares para conseguir derrotar os jagunços e os sertanejos liderados por Antônio Conselheiro. Somente em 1897 as tropas do governo federal conseguiram apri- sionar os seguidores de Antônio Conselheiro, colocando fim à comunidade de Arraial de Canudos em um conflito que dizimou a população. “A história da luta em Canudos mostra o encontro de dois brasis, como sa- lientava Euclides da Cunha, o litorâneo, moderno, rico e educado, e o serta- nejo, com o saber de experiência feito, como diria Camões, heroico, cabe- çudo, bem entrosado com seu próprio meio e desejoso de ser respeitado e reconhecido”. Fonte: Mello (2014, p, 9). República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 129 Mulheres e crianças canudenses prisioneiras, este foi um dos poucos grupos de prisioneiros (apenas algumas centenas de uma população de mais de 5 mil habitações) que não foi morto pelo exército, 1897 (Flávio de Barros/Acervo Museu da República). Fonte: História Ilustrada (online). POLÍTICA DOS GOVERNADORES O sucessor de Prudente de Moraes na presidência do Brasil foi outro paulista, Campos Sales, eleito em 1898, o que consolidou a República liberal, representante da elite política dos grandes Estados, como São Paulo (FAUSTO, 1995, p. 258). A base sobre a qual se assentará o governo de Campos Sales será um acordo entre as elites políticas dos Estados com o objetivo de conciliar os interesses dessas elites, o que, de acordo com Raymundo Faoro (1976, p. 673), significava “apagar as dissensões que dividiam o Congresso e constituir nele uma unidade forte, patriótica e decidida a prestar o seu concurso ao governo”. Para alcançar seu objetivo, Campos Sales firmou um acordo com os Estados que ficou conhecido como política dos governadores. Esse acordo consistia no apoio dos Estados à política do presidente da República em troca do apoio dele aos grupos dominantes de cada Estado (FAUSTO, 1995, p. 259). Para garantir o sucesso do acordo entre o governo federal e os governos estaduais, Campos Sales promoveu uma modificação no processo eleitoral para a Câmara dos Deputados, “Cada Estado terá seu dono, pessoal ou da família, de um chefe ou de um grupo fechado”. Fonte: Faoro (2001, p. 680). DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E130 que garantia que o presidente da Câmera fosse alguém de confiança do presi- dente da República. Com esse esquema político, garantiu-se a preservação dos interesses de um pequeno grupo cujo domínio econômico determinou o domínio político. São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, as três maiores economias do Brasil, organizaram-se de maneira a influenciar os rumos políticos do país, a partir do estabelecimento da política dos governadores. O êxito da política dos governadores dependia da vitória dos candidatos a governador dos Estados e dos deputados eleitos para a Câmara. Os eleitos deve-riam ser indivíduos afinados com o discurso e com as ideias do presidente. Para tanto, as eleições realizavam-se em meio a fraudes e a coações, negando, mais uma vez, a participação da população na vida política do país. A manipulação da população e dos votos foi o elemento fundamental para a manutenção desse sistema e para a consolidação da oligarquia no poder, principalmente para São Paulo e para Minas Gerais, os dois Estados que comandaram o cenário político até 1930, quando o Rio Grande do Sul, alijado do comando, impõe sua soberania. Dentro desse contexto político permeado por acordos e por manipulação das eleições, a figura dos coronéis ganhou destaque, na medida em que esses indiví-duos eram responsáveis em grande parte pelas fraudes nas eleições por meio da coação e da compra de votos em favor de determinado candidato. O coronelismo – como foi chamada a influência dos coronéis no sistema eleitoral da Primeira República – significou o apoio do qual dependia a política dos governadores. Os coronéis garantiam os votos necessários para determinado República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 131 candidato em troca de favores que preservassem seus interesses e a manutenção de seu status dentro do contexto social do período. Conforme demonstra Leal, “coronelismo” é sobretudo um compromisso, uma troca de proveitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente in- fluência social dos chefes locais, notadamente dos senhores de terras. Não é possível, pois, compreender o fenômeno sem referência à nossa estrutura agrária, que fornece a base de sustentação das manifestações de poder privado ainda tão visíveis no interior do Brasil. (LEAL, 2012, p. 23). Figura 2: Charge Fonte: Portal do Professor (online). DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereirode 1998. IIIU N I D A D E132 POLÍTICA DO CAFÉ COM LEITE São Paulo conseguiu manter sua hegemonia no cenário político federal por meio da organização do PRP e do apoio de outros Estados, como Minas Gerais. Os três primeiros presidentes civis da República foram paulistas, fato que legitimou o poder e a influência da elite paulista nas esferas política e econômica do país. Essa hegemonia foi fortemente contestada nas eleições de 1909, quando foi escolhido o sucessor Nilo Peçanha, que assumiu a presidência em 14 de junho de 1906 após a morte do presidente Afonso Pena, que havia sido eleito em 1906. Nas eleições de 1910, Minas Gerais apoiou o Marechal Hermes da Fonseca, o candidato à presidência indicado pelo Rio Grande do Sul, que disputaria a elei- ção com o candidato paulista Rui Barbosa. Hermes da Fonseca saiu vitorioso e governou o país de 1910 a 1914. Durante seu governo, Hermes da Fonseca enfrentou uma série de conflitos – como a Revolta da Chibata em 1910 e a Guerra do Contestado em 1912 – que o levaram a adotar medidas que nem sempre agradavam às oligarquias até então acostumadas ao poder. Sua política intervencionista também desagradou às forças políticas dos Estados e o colocou em conflito com várias regiões, como Pernambuco, Bahia, Ceará e Alagoas. O governo de Campos Sales chegou ao fim em 1902 e Rodrigues Alves foi eleito o novo presidente do Brasil para um mandato de 1902 a 1906. Dentre as medidas de seu governo, destacamos a obrigatoriedade da vacinação da população contra a varíola, atendendo a um pedido do médico sanitarista Oswaldo Cruz, fato que originou a Revolta da Vacina, em 1904. Para saber um pouco mais sobre a história da Revolta da vacina, acesse o conteúdo disponível em: <http://www.ccms.saude.gov.br/revolta/revolta. html>. Acesso em: 13 maio 2015. República Velha ou República da Espada Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 133 Diante da instabilidade do governo de Hermes da Fonseca, São Paulo e Minas Gerais fi rmaram um acordo em 1913 no qual os dois Estados indicariam os pró- ximos presidentes da República, que iriam se revezar no exercício do poder, com o apoio mútuo dos dois Estados. Esse acordo resultou na política do café com leite, uma vez que representava a defesa dos interesses da oligarquia cafeeira de São Paulo e dos criadores de gado leiteiro de Minas Gerais. Figura 3: Charge 2 Fonte: Portal do Professor (online). IIIU N I D A D E134 DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. A política do café com leite mais uma vez excluía do processo político os demais Estados da República brasileira. Como nos mostra Renato Monseff Perissinotto, (...) a aliança entre os representantes políticos de Minas Gerais e os de São Paulo teve como resultado político mais importante o domínio dos centros de decisão do aparelho estatal pelos representantes desses dois estados. Tanto o executivo federal, como é bastante conhecido, quan- to o legislativo e as suas principais comissões (finanças, obras públi- cas etc.) estavam sob seu controle. A contrapartida desse predomínio político rigidamente controlado através do regime político oligárquico foi, evidentemente, a exclusão freqüente dos interesses ligados às ou- tras classes e frações dominantes desses mesmos centros de decisão, em especial aquelas vinculadas à produção para o mercado interno, cujo representante mais forte, o Rio Grande do Sul, ocupava a posição de satélite em torno dos estados líderes. (PERISSINOTTO, 1996, p. 194). A partir do estabelecimento desse acordo, São Paulo e Minas Gerais domina- ram a cena política do país, utilizando-se do coronelismo como instrumento para garantir a eleição dos candidatos por eles indicados. Esse sistema de reve- zamento entre presidentes paulistas e mineiros existiu até 1930, quando um golpe de Estado levou ao poder um representante do Rio Grande do Sul à pre- sidência do Brasil. 135 Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ASPECTOS DA IMIGRAÇÃO EUROPEIA E A CONSOLIDAÇÃO DO TRABALHO ASSALARIADO: AS TRANSFORMAÇÕES ECONÔMICO-SOCIAIS NA PRIMEIRA REPÚBLICA Acompanhamos até o momento, caro(a) acadêmico(a), algumas das mais rele- vantes transformações políticas e estruturais pelas quais o Brasil passou desde a Proclamação da República em 1889. Essas transformações trouxeram consigo mudanças que se refletiram também na economia e no desenvolvimento social do Brasil. O crescimento e o desenvolvimento da produção cafeeira após 1822 em detri- mento da produção açucareira no Nordeste fizeram com que o centro econômico do país se deslocasse daquela região para o Sudeste, intensificando o desenvol- vimento de cidades como São Paulo e Minas Gerais e Rio de Janeiro, bem como da região do Vale da Paraíba. Entre 1889 e 1930, período da República Velha ou Primeira República, não só a economia agrícola passou por mudanças, mas também o setor industrial e o comércio ganharam mais atenção do governo central, sobretudo a partir do governo de Deodoro da Fonseca, quando Rui Barbosa, então Ministro da Fazenda, iniciou uma política econômica voltada para o crescimento industrial. IIIU N I D A D E136 DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Nesse novo cenário econômico que se apresentava, os aspectos sociais tam- bém se modificavam na medida em que novos atores entravam em cena. As cidades evoluíram e a população brasileira aumentou, fato que contribuiu para a chegada dos imigrantes europeus que vieram trabalhar nas lavouras de café e nas indústrias, em substituição da mão de obra escrava, sobretudo após a pro- mulgação da Lei Áurea em 1888. O apoio das oligarquias aos governos federal e estadual e o domínio desse setor no campo político e econômico abriram margem para alterações nas rela- ções sociais não só no campo, como também nos centros urbanos, na medida em que as atividades comerciais internas dependiam também do sucesso eco- nômico dos produtores rurais. Desse modo, caro(a) aluno(a), devemos entender que os contextos político, econômico e social estão interligados e uma alteração em qualquer um desses aspectos afeta a organização do país na sua totalidade, sendo muito difícil estu- dá-los isoladamente. A SUBSTITUIÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO PELO TRABALHO ASSALARIADO: A IMIGRAÇÃO EUROPEIA Desde que a família real portuguesa trans- feriu-se para o Brasil no início do século XIX com o apoio da Inglaterra, houve uma pressão deste país para que D. João VI aca- basse com a escravidão na sua colônia. Naquele momento, o então rei de Portugal e do Brasil firmou o Tratado de Aliança e Amizade pelo qual se comprometia a extinguir o trabalho escravo no Brasil nos anos seguintes. No entanto, durante muito tempo as promessas de D. João VI à Inglaterra não saíram do papel. 137 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A monarquia brasileira era em grande medida sustentada pelo trabalho escravo, uma vez que a economia do país e a elite que apoiava o regime eram essencialmente agrárias e dependentes da mão de obra escrava. Acabar com a organização escravocrata significava desestruturar e prejudicar a economia do país e, consequentemente, perder o apoio de uma parte significativa da elite polí- tica e intelectual do país. Até mesmo os padres jesuítas que viveram ao Brasil reconheceram que a escravidão era um mal necessário. Embora D. João VI tenha conseguido resistir durante um longo período à pressãoinglesa, conforme o século XIX avançava, as discussões acerca da exis- tência de um regime escravocrata no Brasil ganharam corpo e tornaram-se mais incisivos. Durante o processo de lutas pela emancipação política do Brasil e após a proclamação da independência em 1822, os intelectuais responsáveis pelas novas diretrizes de organização do país defendiam a formação de uma nação pautada nos princípios liberais, revelando a influência dos eventos que se desen- rolavam na Europa e na América do Norte. Entretanto, conforme já discutimos anteriormente, no Brasil, o liberalismo defendido fora adaptado para conceber a permanência de um regime cuja base residia na supressão das liberdades indi- viduais, como a escravidão. O regime escravocrata no Brasil conviveu, então, com a difusão dos ideais liberais sem que esses ideais representassem a intenção de suprimir o alicerce da economia naquele momento. Será apenas de maneira lenta e gradual que o Brasil conseguirá superar a dependência do trabalho escravo. Como foi dito, o debate acerca do fim da escravidão existia desde o início do século XIX, mas somente em 1850 foi aprovada a primeira lei que de fato colo- cou o país no caminho da abolição. A lei Eusébio de Queirós determinou o fim do tráfico negreiro no Brasil e levou governos e proprietários rurais a buscarem alternativas para a substituição do trabalho do escravo africano nos setores pro- dutivos do país. Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado IIIU N I D A D E138 DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. A promulgação da Lei do Ventre Livre em 1871, da Lei dos Sexagenários em 1885 e o contexto político daquele período acirraram os debates acerca do fim da escravidão e das alternativas para a substituição da mão de obra. Quando a abolição da escravidão finalmente ocorreu – com a assinatura da Lei Áurea em 1888, pela Princesa Isabel – uma parte dos proprietários rurais e dos setores urbanos já estava preparada para lidar com os infortúnios causados pela medida. Mesmo tratando-se de um assunto complexo, visto que afetava a organiza- ção do país como um todo, a abolição, a partir de 1850, tornou-se uma realidade irreversível, sendo que seria uma questão de tempo até que ela se consolidasse. O fato de ela ter ocorrido de maneira lenta deu aos proprietários de terras e de escravos a possibilidade de buscarem, embora relutantes, uma alternativa para o cultivo de suas terras com o menor prejuízo possível. O emprego de mão de obra assalariada há muito tempo já era utilizada em outros países e podemos considerar que, nessa questão, o Brasil estava atrasado em relação aos países europeus. Além das questões relativas aos custos para o emprego da mão de obra assalariada, no Brasil da primeira metade do século XIX, havia ainda barreiras impostas pela falta de uma população livre suficiente para suprir as necessidades das lavouras e também pelo fato de que os imigran- tes europeus preferiam dirigir-se para os Estados Unidos. Conforme aponta Emília Viotti da Costa, A população dessas regiões onde a pressão para imigração atuava mais fortemente era canalizada para os Estados Unidos. A organização de- mocrática das colônias americanas do Norte, o progresso econômico dessa região, a rede de transporte que ai se instalara precocemente, o clima de liberdade religiosa, a relativa semelhança da paisagem ameri- cana com a europeia, ambas dentro de uma mesma área de clima tem- perado, a maior proximidade da Europa, o que significava passagens mais baratas, tudo contribuía para dar aos Estados Unidos uma pri- mazia absoluta entre os países americanos. Para lá se dirigia esponta- neamente a corrente migratória. Nada que se lhe comparasse oferecia o Brasil. Terra ignota, sobre a qual corriam lendas as mais extraordi- nárias; terra distante, agreste, coberta de matas tropicais indevassáveis, onde, sob um clima que se dizia causticante e incompatível com o ho- mem branco, grassavam epidemias, o Brasil não oferecia condições atraentes aos imigrantes (COSTA, 2010, p. 198). 139 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Diante desse quadro, até meados do século XIX a imi- gração foi pouco significativa no Brasil. Não havia interesse dos estrangeiros em seguir espontaneamente para nosso país e também não havia ainda interesse suficiente por parte do governo e dos proprietários rurais em esti- mular essa prática, uma vez que a mão de obra escrava era abundante e suficiente tanto para o trabalho nas lavouras quanto para as atividades das cidades. A partir de 1850 com a proibição do tráfico negreiro, começou a vislumbrar-se mais efetivamente a necessidade de se buscar meios para promover a substitui- ção da mão de obra escrava. O emprego da mão de obra estrangeira suscitou os debates e retomou-se a ideia de incentivar a vinda de europeus para o Brasil a fim de que eles se dedicassem aos trabalhos antes desempenhados pelos escravos. Segundo Emília Viotti, A fórmula usada desde os tempos de D. João VI, cuja finalidade fora especificamente servir a uma política demográfica, não era a solução ideal para atender às necessidades da lavoura, que exigia braços para a cultura de café e não núcleos coloniais de povoamento. Ideou-se, então, o sistema de parcerias. A par dos núcleos coloniais oficiais ou particula- res, organizados segundo o sistema tradicional de distribuição de terras agrupadas em núcleos autônomos, surgiu um novo tipo de colonização que visava a fixação dos colonos nas fazendas (COSTA, 2010, p. 205). A organização do sistema de colônias de parceria representou uma tentativa de substituir gradativamente o trabalho escravo nas fazendas de café. O sistema consistia na contratação de colonos europeus que teriam as despesas da viagem até o Brasil e o transporte para as fazendas custeadas pelos fazendeiros interes- sados em aderir às colônias de parceria. O proprietário rural também fornecia uma quantidade de dinheiro para que o colono garantisse seu sustento até o iní- cio do trabalho na lavoura. Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado IIIU N I D A D E140 DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Emília Viotti destaca também que cada família de colonos recebia uma parte dos cafeeiros em concordância com sua capacidade de cultivar, e também lhes era assegurado o direito de plantar os produtos necessários ao seu sustento, em locais pré-estabelecidos pelo proprietário. Além disso, o acordo firmado entre as duas partes estabelecia que parte do lucro líquido obtido com a venda da pro-dução deveria ser entregue ao colono (COST A, 2010, p. 208). “(...) na região Sul não havia uma numerosa classe de grandes proprietários demandando trabalhadores em grande número, de forma que os governos provinciais e o governo imperial puderam implementar uma política de co- lonização baseada na criação de estabelecimentos rurais de tamanho fami- liar. Também se concederam estímulos pecuniários e outras vantagens aos particulares dispostos a fundar colônias nas mesmas linhas das que foram criadas pelo governo. Por volta de 1870, existiam milhares de famílias euro- peias, principalmente alemãs, estabelecidas em pequenas propriedades em diversas colônias públicas e privadas, produzindo excedentes apreciáveis de gêneros alimentícios a serem vendidos para outras províncias”. Fonte: Corrêa do Lago (2014, p. 78). Na região Nordeste do país, a falta de mão de obra escrava agravou-se de- vido a uma epidemia de cólera que atingiu de maneira mais grave a po- pulação escrava na década de 1850. Por essa razão, os agricultores dessa região aderiram ao trabalho livre e assalariado e,em 1870, o trabalho livre já era predominante na região, principalmente nas fazendas dos criadores de gado. Fonte: Corrêa do Lago (2014, p. 77). 141 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Um olhar superficial sobre o estabelecimento das colônias de parceria e as regras que regiam o contrato entre o proprietário da terra e o colono pode levar a um erro de julgamento, ao induzir o leitor a acreditar nos benefícios que a parceria garantia tanto a um quanto ao outro. No entanto, esse sistema demons- trou-se vantajoso apenas para o proprietário da terra. Todo o dinheiro investido pelos proprietários rurais no estabelecimento dos colonos em suas terras eram depois cobrados do próprio colono. As despesas de viagem e de instalação dos colonos eram pagas pelos fazendeiros na condição de adiantamento dos lucros e dos salários pagos aos imigrantes. Sobre esse adianta- mento, eram cobrados juros de até 6%, os quais os colonos deveriam pagar assim que recebessem as primeiras quantias resultantes da venda da produção. Desse modo, a parte dos lucros da venda do café que correspondia aos imigrantes, vol- tavam para as mãos e para os bolsos dos proprietários das fazendas, como parte do pagamento da dívida adquirida com a transferência para o Brasil. Estima-se que entre a década de 1850 e 1880, aproximadamente 430 mil imigrantes europeus tenham entrado no Brasil em busca de novas oportu- nidades. Para conhecer as razões que levaram esses imigrantes a deixarem seus países de origem e virem para o Brasil acesse o conteúdo disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/noticias/topicos,imigracao,885,0.htm>. Acesso em: 15 maio 2015. Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado IIIU N I D A D E142 DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Desembarque de imigrantes no Brasil Fonte: História de São Paulo (online). A sorte dos imigrantes que vieram para o Brasil para compor as colônias de parceria ficou, então, nas mãos dos proprietários rurais. Para os imigrantes, o sistema de colônias de parceria representou uma dependência econômica em relação aos fazendeiros a qual não era possível vislumbrar o fim, na medida em que até mesmo os produtos necessários para sua subsistência e manutenção de sua casa e família tinham que ser adquiridos em locais indicados pelos fazendei- ros de café, os quais geralmente eram de propriedade dos próprios fazendeiros e onde o preço dos produtos estavam acima da média. Aos colonos imigrantes não restavam muitas opções, haja vista que, de acordo com o contrato que assinavam ainda na Europa, não podiam abandonar o serviço nos cafezais ou mesmo deixar as fazendas a menos que conseguisse quitar toda a dívida com os proprietários que os contrataram, o que se tornara quase impossível. 143 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O sistema de colônias de parceria logo começou a dar sinais de que não teria longa duração. As condições impostas aos trabalhadores imigrantes por meio de seus contratos e a situação em que viviam nas fazendas levaram-nos a decep- cionar-se com a realidade encontrada nas fazendas de café, muito diferentes das promessas feitas pelos agentes responsáveis por suas contratações na Europa. Reclamava-se contra os pesos e medidas usados pelos fazendeiros e seus representantes, que, segundo diziam, avaliavam a mercadoria sempre em prejuízo do colono. Consideravam injusta a entrega de metade do excedente de produção dos gêneros alimentícios. Apontavam-se como desonestos a contagem dos juros e os cálculos da conversão da moe- da. Suspeitava-se da ação da justiça, ligada aos interesses senhoriais e, portanto, pouco inclinada em dar razão ao colono em caso de dissídio. Queixavam-se ainda os colonos do peso excessivo das dívidas que reca- íam sobre eles, já ao chegar nas fazendas, em virtude dos preços da via- gem e transporte até a sede, muitas vezes distante do porto de Santos, onde eram desembarcados. Sobre aqueles preços ainda eram cobrados juros. Apontavam dificuldades de ordem religiosa. Chegava-se mesmo a dizer que os colonos sujeitos a esse sistema de parceria não passavam de “pobres coitados, miseravelmente espoliados, de perfeitos escravos, nem mais nem menos, e que encontravam, às vezes, maior dificuldade em se libertar do que os próprios pretos” (COSTA, 2010, p. 218-219). O sistema de colônias de parceria foi adotado, sobretudo na chamada re- gião de maior concentração e produção cafeeira, composta pelo Rio de Ja- neiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, onde a produção cafeeira ex- pandia-se de maneira vertiginosa e a demanda por mão de obra mostrou-se mais urgente. Fonte: a autora. Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado IIIU N I D A D E144 DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Diante dessa realidade e da falta de esperança de livrar-se do domínio dos fazendeiros, muitos colonos entregaram-se aos vícios e deixaram de dedicar- se aos cultivos da lavoura, gerando alguns prejuízos para os fazendeiros. Assim, os proprietários também ficaram insatisfeitos e desgostosos com o sistema de parceria. Alguns proprietários chegaram mesmo a demitir os colonos diante da indisciplina e da baixa produtividade dos imigrantes. Apesar do fracasso das colônias de parceria em algumas regiões do país, sobretudo na zona cafeeira de São Paulo, a imigração europeia continuou a ser incentivada como forma de conseguir os trabalhadores necessários para manter a produção nas lavouras e nas cidades. A partir da década de 1880, o governo de São Paulo, diante da falta de interesse dos proprietários em arcar com as despesas de via- gens dos imigrantes, passou ele mesmo a custear essas viagens, ocasionando um novo impulso às imigrações (CORRÊA DO LAGO, 2014, p. 93). “(...) na região amazônica, no início da década de 1870, a produção de bor- racha já predominava sobre as outras atividades e continuava a se expandir aceleradamente, levando a rápidos ganhos do trabalho livre em relação ao escravo. Já era evidente, para os observadores da época, que a Abolição não teria efeitos negativos substanciais sobre a economia da região, e a preocu- pação no Pará e no Amazonas era obter, de outras regiões, trabalhadores livres em número suficiente para explorar novas áreas de florestas”. Fonte: Corrêa do Lago (2014, p. 77). Ao analisarmos o sistema de parceria percebemos que um dos fatores que contribuíram para o seu fracasso foi que os proprietários rurais não haviam compreendido as bases do trabalho livre e assalariado. Fonte: a autora. 145 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . As transformações nos centros urbanos Fonte: História de São Paulo (online). A transferência da família real portuguesa para o Brasil e sua instalação no Rio de Janeiro – que se tornou sede do governo monárquico e, posteriormente, capital do Império e da República – representou o fortalecimento do processo de urbanização no país com o reavivamento das cidades e das atividades a ela relacionadas. A vida na corte tornou-se o centro das atenções e os investimentos feitos na cidade do Rio de Janeiro, a partir do século XIX, despertaram o interesse de muitos indivíduos que, pouco a pouco, deixaram o campo e instalaram-se na cidade. A criação de universidades no Rio de Janeiro, de Recife e de São Paulo possibilitou a formação de intelectuais que desempenharam papeis importan- tes em momentos decisivos da história política do Brasil. Ofim dos monopólios comerciais e a abertura dos portos brasileiros em 1810 contribuíram para que as atividades comerciais do país se desenvolvessem e levassem ao desenvolvimento de outros setores, como o de construção de fer- rovias e maiores investimentos nos portos por onde as mercadorias saiam com destino ao mercado europeu. Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado IIIU N I D A D E146 DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, inaugurada em 1914 Fonte: Projeto Memória Ferroviária (online). Entretanto, mesmo diante dessas mudanças nos centros urbanos nos primeiros anos do século XIX, Emília Viotti da Costa chama nossa atenção para o fato de que Não obstante as condições serem mais favoráveis ao processo de ur- banização, a partir da independência as linhas gerais da produção brasileira não foram alteradas. A exportação de produtos agrários continuou a base da economia. Sobreviveram o latifúndio e o traba- lho escravo (abolido apenas em 1888). A alta lucratividade da empresa agrária, exportadora, o caráter limitado do comércio interno, a com- petição estrangeira inibiram o desenvolvimento das manufaturas. As elites no poder, beneficiando-se da produção agrícola, procuraram manter intacta a estrutura tradicional de produção, revelando-se pou- co simpáticas às empresas industriais. Dessa forma, as condições que haviam inibido o desenvolvimento urbano no período colonial conti- nuaram a atuar durante a primeira metade do século XIX. Por isso os viajantes que percorreram o país nessa época continuaram a observar o profundo contraste que havia entre as cidades portuárias mais movi- mentadas, mais modernas, mais europeizadas e os núcleos urbanos do interior que, na sua quase totalidade, viviam à margem da civilização, meras extensões das zonas rurais (COSTA, 2010, p. 243). 147 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A partir das palavras da autora, percebemos que o processo de urbanização e de industrialização no Brasil, a partir do século XIX, teve maior intensidade nas cidades litorâneas, sobretudo na região Centro Sul, impulsionado, dentre outros fatores, pelo crescimento da economia cafeeira. As cidades do período colonial e do Império estavam atreladas às proprie- dades e às atividades rurais, sendo que somente nos primórdios da República haverá uma mudança significativa nas suas estruturas, uma vez que a ideia de europeização do Brasil ganhou força e buscou-se a modernização dos centros urbanos e o refinamento da população. A parir de então assistiremos uma evo- lução nos centros urbanos que implicará em uma mudança tanto nos aspectos políticos e econômicos do país como nos aspectos sociais e culturais. A presença maciça dos estrangeiros, após a segunda metade do século XIX, contribuiu para uma mudança na paisagem dos centros urbanos. Muitos imi- grantes, sobretudo após o fracasso das colônias de parceria, deslocaram-se para as cidades e dedicaram-se à atividades ligadas ao comércio e ao artesanato. Além disso, havia ainda os estrangeiros que chegaram ao Brasil para trabalhar nas nascentes fábricas e primeiras indústrias, estando as principais localizadas nas regiões do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul (COSTA, 2010, p. 259). Segundo Bóris Fausto (1995, p. 288), as principais indústrias instaladas no Brasil entre o final do século XIX e início do século XX foram as indústrias têx- teis, de alimentação e de vestuário, sendo que as indústrias de base (cimento e ferro, por exemplo) ainda levariam um tempo para aparecerem no país e, por essa razão, mesmo em processo de industrialização, o Brasil continuou a depen- der da importação de materiais de base. Merece destaque em nosso estudo, caro(a) aluno(a), as transformações ocor- ridas na cidade do Rio de Janeiro durante a Primeira República, inspiradas na Belle Époque parisiense. Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado IIIU N I D A D E148 DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. O Rio de Janeiro era a capital da República, mas os cortiços, as casas popu- lares, a falta de uma infraestrutura básica que mantivesse a cidade limpa e com as questões relacionadas à higiene em dia construíram uma visão pouco agradá-vel da cidade. Diante disso, com as transformações políticas e econômicas pelas quais o país passava entre o final do século XIX e o início do século XX, as auto-ridades brasileiras sentiram a necessidade de submeter a capital da República a uma transformação, visando moderniza-la e adapta-la à nova realidade do país. “A Belle Époque se caracteriza pela expressão do grande entusiasmo advin- do do trunfo da sociedade capitalista nas últimas décadas do século XIX e primeiras, do século XX, momento em que se notabilizaram as conquistas materiais e tecnológicas, ampliaram-se as redes de comercialização e foram incorporadas à dinâmica da economia internacional vastas áreas do globo antes isoladas. Época marcada pela crença de que o progresso material pos- sibilitaria equacionar tecnicamente todos os problemas da humanidade. Nesse contexto, as cidades assumiram redobrado valor como locus da ati- vidade civilizatória, espaço privilegiado para usufruir o conforto material e contemplar as inovações introduzidas pela modernidade. Para isso, as cida- des precisavam renovar suas feições de modo a se mostrarem modernas, progressistas e civilizadas. As cidades modernizadas constituíram então a maior expressão do progresso material e civilizatório de um período que se convencionou chamar de Belle Époque”. Fonte: Follis (2004, p. 15). 149 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Com esse objetivo, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos (1902-1906), iniciou uma reforma na cidade que levantou a insatisfação da população mais pobre da cidade. A proposta levada a cabo por Pereira Passos estabelecia medidas como a transferência dos trabalhadores mais pobres do centro para a periferia das cidades, a destruição dos cortiços, a derrubada de casas antigas, o alarga-mento das ruas e a construção de avenidas. “As reformas urbanas do Rio de Janeiro ocorridas entre 1902 e 1906 mar- caram um momento crucial por que passava o país: a passagem do meio de produção mercantil para o capitalismo. É um momento em que se nota de forma escancarada a ação do Estado em privilégio do capital, e de certo modo a transferência de responsabilidades ao setor privado, ou seja, trata- -se de um momento em que o Estado delega ao capital privado a função de estruturar a cidade – tendência observada até hoje. Sem a intervenção es- tatal, a lógica de crescimento da cidade passa a seguir a lógica do mercado, que leva à valorização do solo nas áreas centrais e à periferização das classes baixas, sem a criação de uma estrutura que permita sequer o deslocamento do morador da periferia até as áreas centrais da cidade, bem como um cres- cente esvaziamento dos centros históricos. O Rio particularmente se notabi- liza pela ocupação dos “vazios urbanos” por parte dessa população carente, mas é importante ressaltar que a proximidade dessas ocupações não lhes garante qualquer atenção do Estado. São áreas que fisicamente estão pró- ximas dos grandes centros, mas que historicamente sempre estiveram na periferia das prioridades do Estado”. Fonte: Ruchaud (online). Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do CódigoPenal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E150 Reurbanização do Rio de Janeiro, no início do século XX Fonte: Suppia e Scarabello (online). As medidas de Pereira Passos refletiam os interesses das novas categorias sociais resultantes das mudanças político-econômicas do início da República no Brasil. A oligarquia cafeeira enriquecida, a burguesia comerciante e industrial e os banqueiros entendiam que era necessária uma reconfiguração da cidade do Rio de Janeiro com o intuito de deixar a cidade mais adequada ao seu status e afastar os perigos decorrentes do crescimento desorganizado, como a violência e a proliferação de doenças. A reforma promovida por Pereira Passos e apoiada pelo então presidente da República Rodrigues Alves demonstrava o desprezo em relação às camadas mais baixas da população brasileira, dentre as quais se encontravam os es- cravos libertos, os imigrantes e brasileiros que não se destacavam economi- camente dentro do contexto da República Oligárquica. Fonte: a autora. Fim da República Oligárquica: O Golpe de 1930 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 151 FIM DA REPÚBLICA OLIGÁRQUICA: O GOLPE DE 1930 Getúlio Vargas no Palácio do Catete em 31 de Outubro de 1930, alguns dias pós a Revolução de 1930. Fonte: Netleland (online). As primeiras décadas do regime republicano no Brasil caracterizaram-se pela hegemonia da elite ligada à agricultura agroexportadora como detentoras do poder político e econômico. Os investimentos no setor industrial, embora tenham feito progredir a indústria e o comércio no Brasil, não foram suficien- tes para fazer com que esses setores tomassem a dianteira do desenvolvimento econômico do país. Com o fortalecimento do setor agrícola do país, os proprietários de terra ocu- param durante muito tempo um lugar de destaque na sistematização do cenário político do país, influenciando a máquina administrativa do país. Nesse contexto, estabeleceu-se o predomínio de um cenário político cujos donos do poder cria- ram estratégias para garantirem a viabilização de seus interesses e manterem-se no poder por meio de alianças entre as forças estaduais e federais, deixando à margem da organização política, os demais indivíduos e setores que compu- nham a sociedade brasileira. As forças oligárquicas que comandavam o cenário político e econômico do país, entre o final do século XIX e o início do século XX, encontraram resistência ao modelo de administração implantado, uma vez que esse modelo mostrava- -se incapaz de integrar os novos elementos que eram introduzidos na sociedade – como escravo liberto, os imigrantes europeus e, posteriormente, os imigran- tes asiáticos – e de assimilar as novas características que o país assumia a partir do processo de industrialização e das reformas urbanas. DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E152 Movimentos como a Guerra de Canudos (1896-1897), os conflitos em Juazeiro, no Ceará (1872-1924), a Guerra do Contestado (1912-1916) e os con- flitos gerados devido à insatisfação dos primeiros imigrantes que chegaram ao Brasil para trabalhar nas fazendas de café de São Paulo representaram o descon- tentamento dos excluídos das principais discussões e decisões do país, decisões essas que afetavam direta ou indiretamente a vida de todos os que aqui viviam. Nas cidades, os investimentos, as reformas, o desenvolvimento e a presença de novos atores sociais também desencadearam manifestações que externalizavam o desejo por mudanças. A instalação de fábricas e de indústrias, o florescimento das atividades comerciais e a presença dos estrangeiros possibilitaram a circulação de ideias oriundas da Europa e que chegavam ao Brasil trazidas pelo imigrante que aqui vinha instalar-se. Dentre essas ideias, destacavam-se as que fundamen- tavam a luta dos trabalhadores e dos operários por melhores salários e condições. Matéria de primeira página do Jornal A Capital, do dia 23/07/1917 Fonte: Laboratório de Ensino e Material Didático (online). O avanço dos ideais socialistas na Europa, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), propagou-se pelo Brasil e embasou os movimentos operários do início do século XX. De acordo com Bóris Fausto, Fim da República Oligárquica: O Golpe de 1930 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 153 O número de greves cresceu muito, chegando entre 1917 e 1920, segun- do os dados mais confiáveis, à casa dos cem, em São Paulo, e mais de sessenta, no Rio de Janeiro, afora pequenas paralisações não registradas pela imprensa. A sindicalização ganhou ímpeto, embora não existam dados seguros da proporção de operários sindicalizados (FAUSTO, 1995, p. 300). O avanço do movimento operário no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, representava uma ameaça à ordem vigente e ao modelo político- econômico existente no país. Na década de 1920, o setor industrial havia se desenvolvido significativamente e os industriais procuravam cada vez mais conquistar o reco-nhecimento da importância de suas atividades para a evolução econômica do país e ter maior participação política. Diante desse quadro, o que se percebe, caro(a) aluno(a), é que o sistema oligárquico, na década de XX, representado pela política do café com leite, pas-sou a enfrentar a pressão exercida pela burguesia industrial e na medida em que caminhava para o fim desse período, os problemas oriundos do fim da Primeira Guerra Mundial em 1918, começaram a ser sentidos mais sistematicamente no Brasil, comprometendo a estabilidade e a hegemonia que o setor agroexportador havia conquistado nas décadas anteriores. Para São Paulo e Minas Gerais, torna-va-se mais difícil lidar com o descontentamento dos demais Estados brasileiros. “A imagem sobre o movimento operário no Brasil relaciona-se diretamente à vitória dos comunistas na Revolução Russa, aos diferentes fluxos de en- tradas de imigrantes europeus para o país, a organização de associações de bairro, ajuda mútua, clubes de futebol e recreação e às greves nos grandes centros urbanos. Diferentes grupos de trabalhadores operários, tanto na Eu- ropa, Brasil, como nos Estados Unidos da América do Norte, entre outros locais, acreditavam no fim da exploração capitalista e na construção de um homem e sociedade nova”. Fonte: Schwartz (2010, p. 1). DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E154 A CRISE DA REPÚBLICA OLIGÁRQUICA No processo eleitoral de 1921, quando São Paulo e Minas lançaram como can- didato à presidência o nome de Artur Bernardes, que disputaria as eleições com Nilo Peçanha, apoiado pelas lideranças do Rio Grande do Sul, Pernambuco e Rio de Janeiro, que formavam a Reação Republicana, houve o crescimento da insatisfação dos Estados, dos setores e dos indivíduos menos privilegiados ou beneficiados pela política dos governadores e pela política do café com leite, que acirrou as disputas eleitorais da década de 1920. (FAUSTO, 1995, p. 306). Nilo Peçanha, durante sua campanha, criticou abertamente o esquema de revezamento no governo federal criado por São Paulo e Minas Gerais, os quais estabeleceram um negligenciamento dos interesses das demais regiões do país, uma vez que esse esquema visava, dentre outras coisas, proteger os interesses das oligarquias desses dois Estados. A candidatura de Nilo Peçanha contava também com o apoio da burguesia industrial que reclamava uma política que beneficiasse seus investimentos e que garantisse a proteção de seus interesses. Além disso, proprietários rurais com uma expressividade menor no contexto políticoe econômico também aliaram- -se à aliança liderada pelo Rio Grande do Sul, por meio de Borges de Medeiros. Como podemos observar, caro(a) aluno(a), as críticas ao sistema do café com leite intensificaram-se a partir da década de 1920 e tiveram como resultado a organização da sociedade para fazer frente à realidade que se apresentava. A Semana de Arte Moderna de 1922, a fundação do Partido Comunista do Brasil, a Revolução de 1924, a Coluna Prestes e o Movimento Tenentista são exemplos da reação à dominação das oligarquias de São Paulo e de Minas Gerais na esfera política federal (FAGUNDES, 2010, p. 128). Na eclosão de alguns desses movimentos, como a Revolução de 1824, a Coluna Prestes e, como o próprio nome sugere, o Movimento Tenentista, o exército – ou pelo menos uma fração dele – teve uma participação definitiva e, conforme destaca Fagundes (2010, p. 128), “o Tenentismo passou a ser interpretado no bojo do conjunto de episódios que marcaram a chamada ‘crise dos anos 1920’”. Fim da República Oligárquica: O Golpe de 1930 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 155 Os levantes militares que sacodem o Brasil, desde os eventos do Forte de Copacabana, em 1922, até a insurreição integralista, em 1938, e de que são responsáveis diretos os tenentes, se podem ser explicados, em parte, pelas suas características militares – como ‘coisas de quartéis’ – sintetizam e ex- pressam, no entanto, as contradições existentes em toda a sociedade. Parti- lhando do controle de um dos instrumentos fundamentais do poder, isto é, da força de coerção e da violência, relativamente organizados e possuidores de uma cultura dos problemas nacionais acima da média da população em geral, os tenentes, pressionados aparentemente por motivos profissionais, com os suboficiais e os soldados aparecem como espécie de ‘mediadores in- conscientes’ das demandas sociais e políticas dos cidadãos (TAVARES, 1985, p. 62 apud BRAVO, 2011, p. 186). Para conhecer mais sobre o Movimento Tenentista, acesse o conteúdo dis- ponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/ CrisePolitica/MovimentoTenentista. Acesso em: 21 maio 2015. A influência do exército na organização dos movimentos que tinham por base a crítica à República Oligárquica nos anos de 1920 é um indicativo da relevância dessa instituição desde o momento da Proclamação da República em 1889. E na atualidade, qual é o papel exercido pelo exército no cenário brasileiro? Fonte: a autora. DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E156 O GOLPE DE 1930 No processo eleitoral de 1921, a Reação Republicana, liderada pelo Rio Grande do Sul, lançou o candidato Nilo Peçanha para concorrer com Artur Bernardes, o nome que representava o acordo político de São Paulo e Minas Gerais. Apesar do apoio significativo que o candidato da Reação Republicana recebeu, Artur Bernardes venceu o pleito, reafirmando a força do esquema do café com leite, assegurado por meio da fraude eleitoral. Embora não tenha conseguido colocar fim à hegemonia política das duas maiores economias do país, o Rio Grande do Sul permaneceu com o objetivo de suplantar o sistema vigente e iniciar um novo capítulo na história política do país. Na década de 1920, o Rio Grande do Sul contava com um setor industrial bem desenvolvido, fato que colocou o Estado como o terceiro mais produtivo do país. Desse modo, tornou-se imprescindível para o Estado que o governo fede- ral adotasse medidas que beneficiassem e protegessem os interesses não apenas do setor agroexportador, mais precisamente do setor cafeeiro, mas que colabo- rasse também para o desenvolvimento das atividades industriais. Buscando tais objetivos, os gaúchos, ao longo da década de 1920, elaboraram estratégias que modificaram as conjunturas políticas dominantes até então. Como dito anteriormente, a década de 1920 representou um período de agi- tações sociais que questionavam o modelo político existente e que colocou em prova a força da política dos governadores e do café com leite. Associados às questões internas do país, os eventos que sacudiam a Europa no mesmo período – muitos deles resultado da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) – também contribuíram para abalar as estruturas políticas, econômicas e sociais do Brasil. Os presidentes que comandaram o país nesse período – Artur Bernardes (1922- 1926) e Washington Luiz (1926-1930) – precisaram lidar com as forças internas e externas que ameaçavam a manutenção do poder constituído. Mesmo diante de um cenário de agitações de ordem política, econômica e social, a política do café com leite mantinha-se segura por meio das fraudes nos processos eleitorais, garantindo o apoio às suas respectivas elites políticas e econômicas. Nas eleições de 1930, no entanto, o presidente Washington Luiz (representante do Estado de São Paulo) decidiu indicar e garantir a candidatura Fim da República Oligárquica: O Golpe de 1930 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 157 de Júlio Prestes à sucessão presidência. Júlio Prestes também era paulista e sua candidatura representava a ruptura do acordo estabelecido com Minas Gerais, de onde deveria vir o próximo presidente do Brasil. Segundo Bóris Fausto (1995, p. 319), não há um consenso ou uma opi- nião definitiva sobre as razões que levaram Washington Luiz a romper o acordo com Minas Gerais, colocando um fim à política do café com leite. O fato é que a decisão do então presidente da República fez com que Minas Gerais se unisse ao Rio Grande do Sul e apoiasse a indicação de um candidato gaúcho à presi- dência do Brasil. O candidato que concorreria com Júlio Prestes era Getúlio Vargas, sendo João Pessoa seu candidato à vice-presidente. Getúlio Vargas e João Pessoa formaram a Aliança Liberal e receberam o apoio da Paraíba e de uma parte da sociedade paulista, enquanto Júlio Prestes recebeu o apoio de 17 Estados brasileiros, inclu- sive de dissidentes do Partido Republicano Mineiro (FAUSTO, 1995, p. 319). DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E158 Fim da República Oligárquica: O Golpe de 1930 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 159 Carta de Antônio Carlos ao chefe político gaúcho Flores da Cunha em apoio à candidatura de Vargas, 1930. Juiz de Fora (MG). (CPDOC/GV 1930.06.16) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). As eleições ocorreram no início de 1930 e Júlio Prestes foi eleito presidente do Brasil. A Aliança Liberal não concordou com o resultado das eleições e ques- tionava o sistema eleitoral, acusando-o de fraudes. Diante do reconhecimento da vitória de Prestes, a Aliança Liberal articulou uma estratégia para impedir Júlio Prestes de assumir a presidência do Brasil. Em julho de 1930 o candidato à vice de Getúlio Vargas, João Pessoa, foi assassinado e a Aliança Liberal imediatamente acusou Júlio Prestes de ser o res-ponsável pelo crime. Com essa justificativa, Getúlio Vargas e a AL iniciaram um movimento revolucionário apoiado pela burguesia comercial e industrial, por uma parte do exército e pelas oligarquias dissidentes. com o objetivo de impe-dir a posse de Júlio Prestes. DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E160 Desse modo, as forças apoiadoras de Getúlio Vargas depuseram o presidente Washington Luiz e entregaram a chefia do governo ao candidato gaúcho. Como descreve BórisFausto, Getúlio Vargas deslocou-se de trem a São Paulo e dai seguiu para o Rio, onde chegou precedido por 3 mil soldados gaúchos. O homem que, no comando da nação, iria insistir no tema da unidade nacional, fez questão de fazer transparecer, naquele momento, seus traços regionais. Desembarcou na capital da República em uniforme militar, ostentan- do um grande chapéu dos pampas. O simbolismo do triunfo regional se completou quando os gaúchos foram amarrar seus cavalos em um obelisco existente na Avenida Rio Branco. A posse de Getúlio Vargas na presidência, a 3 de novembro de 1930, marcou o fim da Primeira Re- pública e o início de novos tempos, naquela altura ainda mal definidos (FAUSTO, 1995, p. 325). Nesse momento, tinha início a chamada Era Vargas, assunto de nossa próxima unidade. Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 161 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), nesta unidade estudamos o processo de implantação da República no Brasil, destacando as forças políticas, econômicas e sociais que permearam a consolidação do regime republicano no Brasil. Por meio desse estudo, pudemos compreender que, desde seu nascimento, a República do Brasil alicerçou-se sobre a defesa dos interesses de alguns poucos cidadãos, negligen- ciando as necessidades e os interesses da maioria de sua população. Embora sobre a égide de um regime político novo, as forças políticas que comandaram o Brasil até 1930 pouco se diferenciaram do período imperial. No entanto, se no campo político e econômico a realidade brasileira levaria ainda algum tempo para ser modificada, no que diz respeito às bases sociais e cultu- rais do país a história seria diferente. A incorporação de novos atores sociais no país possibilitou a modificação da paisagem urbana e foi um elemento de inovação e até mesmo de renovação da cultura e das ideais presentes na sociedade brasileira. As propriedades rurais e os centros urbanos conheceram aspectos dos hábitos e da cultura europeia tanto pela presença do imigrante europeu quanto a partir das reformas urbanas promovidas por Pereira Passos no início do século XX. A ideologia estrangeira somou-se ao contexto social interno – resultado do desenvolvimento do capita- lismo e das relações conflituosas entre patrões e operários – e contribuiu para a emergência de conflitos tanto no campo quanto nas cidades. A ascensão de uma elite cujas atividades não se baseavam no uso da terra acirrou a disputa pelo poder e provocou a desarticulação de um sistema político alicerçado na aliança entre os Estados com maior representatividade econô- mica. A chamada política do café com leite foi vítima de seus próprios anseios, fato que deu margem para a organização de um golpe que mais uma vez provo- cou mudanças significativas nas bases de organização da sociedade brasileira. 1. Ao instalar-se a República no Brasil, o quadro geral do país apresentava uma diversidade de interesses e ideais, os quais esperavam ser contemplados com o novo sistema político. No entanto, a adoção de um regime político diferente não resultou necessariamente em uma ruptura da hegemonia de alguns grupos políticos e econômicos. Com base no que foi estudado nesta unidade, analise o contexto político e econômico da sociedade brasileira nas primeiras déca- das do regime republicano e aponte os interesses defendidos pelos setores responsáveis pela organização da Primeira República no Brasil. 2. A abolição da escravidão em 1888 influenciou o aumento da entrada de imigran- tes europeus no Brasil entre o fim do século XIX e o início do século XX. Discorra acerca da maneira como a chegada do trabalhador europeu contribuiu para as transformações sociais e culturais da sociedade brasileira no início do século XX. 3. O trabalho livre foi implantado no Brasil a partir da utilização da mão de obra estrangeira. Com relação a esse processo, leia as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta. a) Desde meados do século XIX, a imigração foi amplamente incentivada no Brasil, na medida em que havia forte interesse dos estrangeiros em seguir espontane- amente para nosso país. b) O emprego da mão de obra estrangeira nas lavouras de café no Brasil seguiu um rígido sistema de organização, o qual garantiu o sucesso do sistema em todas as regiões do país. c) A relação entre os cafeicultores e os imigrantes europeus desenvolveu-se de ma- neira tranquila, uma vez que foram fornecidas aos trabalhadores recém chega- dos todas as oportunidades de crescimento e enriquecimento. d) A organização do sistema de colônias de parceria representou uma tentativa de substituir gradativamente o trabalho escravo nas fazendas de café e organizou- -se de maneira diversa nas regiões do país. e) Com o fracasso das colônias de parceria, os proprietários rurais foram gradativa- mente substituindo as atividades agrícolas pelas atividades comerciais e indus- triais, deslocando-se para os centros urbanos. 163 4. Leia o documento a seguir: “Prezados amigos – Segue esta carta por porta- dor especial, afim de levar-lhes a sciencia de que as nossas combinações no Rio tiveram aqui integral aprovação. A palavra de honra por mim empenhada será honrada pelo Rio Grande todo, nos precisos termos da acção por nós assentada. Envio-lhe meu afectuoso abraço”. (Bilhete de Lindolfo Collor e Oswaldo Aranha confirmando o dia 3 de outubro como data da deflagração do movimento revo- lucionário, 1930. Porto Alegre (RS). CPDOC/PEB 1930.09.25). Analise as afirma- ções abaixo: I. Na década de 1920, o Rio Grande do Sul encontrava-se atrasado no seu desen- volvimento industrial se comparado ao Estado de São Paulo, devido à forte pre- sença de uma elite proprietária de terra. II. A década de 1920 representou um período de agitações sociais que questiona- vam o modelo político existente e que colocou em prova a força da política dos governadores e do café com leite. III. Getúlio Vargas e João Pessoa formaram a Aliança Liberal e receberam o apoio da Paraíba e de uma parte da sociedade paulista, enquanto Júlio Prestes recebeu o apoio de 17 Estados brasileiros. IV. A vitória de Getúlio Vargas nas eleições de 1930 representou a vitória da burgue- sia industrial e comercial do país. Estão corretas as alternativas: a) I. b) I e IV. c) II e IV d) IV. e) II e III. SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 Mal começado, o ano de 1922 guardava inusitadas surpresas aos paulistanos. Primeiro, um tremor atingiu a capital. De pequena magnitude, gerou uma série de matérias na imprensa, detalhadas explicações científicas e algumas analogias bem humoradas. Uma nota no Jornal do Comércio de 31 de janeiro comparava o abalo sísmico a crises histéri- cas de esposas que sofriam dos nervos. Pouco depois, a fuga de presos da cadeia pública situada à avenida Tiradentes causaria pânico entre os habitantes da cidade. Aproveitando-se do descuido da sentinela, os de- tentos evadiram-se pelos fundos misturando-se a operários que trabalhavam no local. O choque maior, porém, ainda estava por vir. Perdidos entre as páginas dos jornais de fevereiro, pequenos “reclames” anunciavam o Festival de Arte Moderna, abrilhantado pelo “concurso” de Guiomar Novais e Heitor Villa-Lobos. Mas quem se dispôs a desembolsar 186 mil-réis que davam direito às três récitas levou um susto. Ao transpor os treze degraus de acesso ao Teatro Municipal, os cavalheiros de fraque e cartola, acompanhados por damas elegantemente vestidas, paravam estarreci- dos. E não era para menos. Convertido em museu improvisado, o suntuoso hall apresen- tava pinturas e esculturas que, com raras exceções, desdenhavam de todos os cânones artísticos até então ensinados nas melhores academias de arte do país e d` além-mar. À direita da escadaria interna, um desfigurado homem amarelo padecia severamente do fígado. Adiante, um Cristo de tranças escarnecia o penitente catolicismo do público, que se benziaindeciso defronte o painel Ao pé da cruz, de Di Cavalcanti. Sem culpa nem explicações, um sem-fim de sacrilégios religiosos e artísticos penalizavam os incautos visitantes. Quadros sem perspectivas, cores berrantes, figuras deformadas, manchas indecifráveis e paisagens sombrias viravam pelo avesso as normas básicas da estética convencional. E pouco adiantava correr atrás de coerência ou rima nos versos a serem declamados no palco. Ali, uma enxurrada de desatinos literários feria sensibilidades re- fratárias a experimentalismos linguísticos. Delírios poéticos sobre aeroplanos, estradas da Via láctea, sapos e guerra provocavam os expectadores, que revidaram numa bem orquestrada vaia regida pelos estudantes do alto das galerias. Abrindo ruidosamente as comemorações do Centenário da Independência, a Semana de 22 vinha alvoroçar o universo artístico e literário da Paulicéia. Sob a genérica denomi- nação de “os novos”, mas também apelidados de “futuristas”, seus artífices articulariam um movimento cultural que teve o primeiro ato público naquela Semana de Arte Mo- derna – em verdade, três noitadas de conferências, audições musicais, leitura de poemas e uma exposição de artes aberta de segunda a sábado no saguão do Teatro Municipal, cuja imponência contrastava com a tônica irreverente dos vanguardistas. 165 Derivados de modernus, vocábulo de origem medieval ironicamente cunhado com o propósito de desviar a atenção das novidades e depreciá-las em relação a épocas mais antigas e mais sábias, o modernismo surgiu em meados do século XIX na Alemanha. Percorreria a Europa e os Estados Unidos até chegar à América espanhola, ganhando ali conotações múltiplas, derivadas das circunstâncias históricas, econômicas, sociais e cul- turais de cada lugar, ampliando e fortalecendo seu domínio. Em termos gerais, aplica-se aos vários movimentos artísticos e literários, como cubismo, expressionismo, futurismo, vorticismo, construtivismo russo, dadaísmo, etc., que, entre fins do século XIX e prelúdio do século XX, essencialmente na Europa, questionaram e desconstruíram os sistemas estéticos da arte consagrada. Fonte: CAMARGOS (2002, p. 17-19). MATERIAL COMPLEMENTAR Título: Os Sertões Autor: Euclides da Cunha Editora: Francisco Alves Sinopse: Euclides da Cunha aborda neste livro, cuja primeira edição é de 1902, a Guerra de Canudos, a qual acompanhou como jornalista do jornal O Estado de São Paulo. O livro é dividido em três partes – A Terra, O Homem e A Luta – e pode ser considerado um misto de literatura e história, no qual o autor oferece um retrato do Brasil no fi nal do século XIX. Para saber mais sobre as revoluções ocorridas na década de 30, assista “1930 tempo de revolução”, disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=vOPeTl3fzd>. Acesso em 06 jul. 2015. Título: Eternamente Pagú Ano: 1987 Direção: Norma Benguell Sinopse: O fi lme retrata a vida da escritora e jornalista Patrícia Rehder Galvão, uma ativista política contrária ao governo de Getúlio Vargas. Amiga de vários artistas que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia – que adotou o apelido Pagú – foi casada com Oswald de Andrade e foi uma fi gura polêmica para sua época devido ao seu engajamento político. Por meio do fi lme é possível conhecer o cenário político e cultural da primeira metade do século XX e entender a efervescência que tomou conta do país naquele momento. U N ID A D E IV Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL E A SUPRESSÃO DA “DEMOCRACIA” BRASILEIRA: DA ERA VARGAS À DITADURA MILITAR Objetivos de Aprendizagem ■ Verificar as conjunturas do primeiro período do governo de Getúlio Vargas (1930-1937). ■ Analisar o período do Estado Novo (1937-1945) e as diretrizes políticas da ditadura getulista. ■ Verificar o processo de redemocratização do país após o fim do Estado Novo. ■ Analisar o contexto político, econômico e sociocultural que permeou a instalação da ditadura militar no Brasil. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Os primeiros anos do governo de Getúlio Vargas (1930-1937). ■ A ditadura de Vargas: o Estado Novo (1937-1945). ■ Enfim a democracia? As esperanças renovadas e o novo golpe: início da ditadura militar no Brasil. INTRODUÇÃO O golpe de 1930 levou ao poder uma das figuras mais polêmicas e controversas da história política do Brasil, Getúlio Vargas. Comandando as forças contrárias à política oligárquica, o político gaúcho ascendeu ao poder representando a espe- rança dos setores até então relegados à margem do processo governamental de conquistar um espaço maior no encaminhamento da vida política do país. Essa esperança em breve seria derrotada. Ao assumir a presidência do Brasil, Getúlio Vargas mostrou que não tinha a intenção de dividir o comando do país. Nesta unidade vamos estudar as diretrizes que fundamentaram o estado getu- lista e que contribuíram para que Getúlio Vargas se mantivesse no poder por 15 anos ininterruptos, sendo amado por alguns e odiado por outros. Vamos enten- der também porque mesmo após estabelecer uma ditadura no Brasil, Getúlio Vargas reassumiu o posto de presidente do Brasil em 1950, cinco anos após dei- xar o cargo e por meio das vias democráticas. Neste momento de nosso estudo, caro(a) aluno(a), percorreremos também o caminho que levou à instalação da ditadura militar no Brasil, verificando as con- junturas que marcaram a organização do país após o fim do segundo governo de Getúlio Vargas (1950-1954) até o golpe de 1964. Nosso objetivo neste momento é refletir sobre um período da história brasileira que deixou marcas indeléveis na sociedade e que se fazem muito presentes em nossa atualidade. Discutir e analisar o período da ditadura militar brasileira é imprescindível para que possamos entender o significado e a importância dos eventos que se seguiram a esse período e compreender o sentido da palavra democracia, mui- tas vezes esquecido. Com a análise proposta nesta unidade esperamos que você, caro(a) aluno(a), tenha discernimento para refletir sobre o momento político e social que se apresenta, procurando não repetir um discurso pautado na falta de conhecimento do passado histórico brasileiro e que contribui para a repeti- ção de erros anteriores. Por que, o que de antemão podemos afirmar, é que esse passado não deve ser esquecido por representar um retrocesso em nossa histó- ria e uma afronta à liberdade e à democracia. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 169 A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E170 OS PRIMEIROS ANOS DO GOVERNO DE GETÚLIO VARGAS (1930-1937) Getúlio Vargas Fonte: Universidade de São Paulo (online). Quando Getúlio Vargas assumiu a presidência do Brasil em 1930, teve o apoio das oligarquias que não eram privilegiadas pela política do café com leite, de setores do Exército e da burguesia industrial e comercial. O que esses setores esperavam de Getúlio Vargas era que ele conduzisse o processo de transição de um governo pautado na defesa dos interesses e privilégio de alguns para um governo que garantisse a ampliação da participação política e consolidasse o exercício da democracia no Brasil. No entanto, o que os apoiadores de Getúlio Vargas assistiram durante a Revolução de 1930, após a vitória do golpe em novembro de 1930, foi o fim de suas expectativas e o início de um governo fundamentado na supressão da democracia, levado a cabo por um discurso que manipulava parte da população e a colocava a seu favor, mesmo diante de medidas autoritárias. Desse modo, Getúlio Vargas conseguiu manter-se no poder ao longo de 15 anos, embora tenha, logo no iní- cio desse período, perdido o apoio daqueles que o ajudaram a chegar no poder. OsPrimeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 171 Em 1930 o Brasil passava por um momento conturbado, influenciado – além do contexto interno – pelos acontecimentos internacionais. O fim da Primeira Guerra Mundial, o avanço das ideias socialistas e a crise norte-americana de 1929 afetaram de maneira considerável os países europeus e o Brasil. Com o fim da Primeira Guerra, os países europeus depararam-se com uma realidade permeada por crises econômicas oriundas dos gastos e dos investimen- tos no conflito. Mesmo os países considerados vencedores da Primeira Guerra, ao fim do embate, eles estavam endividados e a população sofria com a desor- dem política, as crises de abastecimento, o desemprego e a carestia. A exceção a esse quadro eram os Estados Unidos, que em meio ao caos provocado pela Primeira Guerra conseguiu, terminado o conflito, manter o desenvolvimento e o fortalecimento de sua economia. A euforia norte-americana manteve-se até o final de 1929, quando a que- bra da bolsa de Nova Iorque jogou o país em uma crise econômica que teve um efeito global devido às relações existentes entre os E.U.A e os países europeus. Dessa forma, a crise dos países europeus acirrou-se, afetando diretamente a eco- nomia brasileira. De acordo com o que estudamos nas unidades anteriores, a economia bra- sileira do século XIX e início do século XX tinha um caráter agroexportador, sendo o café o principal produto de exportação do país. A valorização do café no mercado internacional foi responsável pelo avanço econômico do Brasil e também teve grande influência no contexto político do país, conforme apon- tado nas discussões anteriores. Com a crise política, econômica e social que assolava a Europa desde o fim da Primeira Guerra Mundial e que se intensificou no final da década de 1920, a economia brasileira também entrou em colapso. As exportações do café foram reduzidas, uma vez que os países europeus eram os principais consumidores do produto brasileiro, fazendeiros foram arruinados, nas cidades o movimento operário ganhou força a partir do avanço das ideias socialistas, a produção indus- trial também foi afetada, acarretando a elevação na taxa de desemprego. Esse foi o contexto que Getúlio Vargas encontrou ao assumir o comando do Brasil no final de 1930. Portanto, cabia ao novo presidente a tarefa de reorganizar a socie- dade brasileira e colocar o Brasil novamente no caminho do desenvolvimento. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E172 O GOVERNO PROVISÓRIO E A CENTRALIZAÇÃO POLÍTICA Ao que parece, para alcançar a estabilidade política, econômica e social do país, para Getúlio Vargas, eram necessárias medidas drásticas. Por essa razão, logo no início de seu governo, que deveria ser apenas provisório, adotou medidas que lhe garantiram o controle total do país. Desde novembro de 1930, Getúlio vinha governando por decreto, após suspender a Constituição Federal, dissolver o Congresso, as Assem- bleias Legislativas e as Câmaras municipais, destituir prefeitos e gover- nantes dos estados, eliminar as prerrogativas individuais e instituir um tribunal de exceção para julgar crimes políticos. Autoatribuindo-se po- deres discricionários, o Governo Provisório, originário do movimento civil-militar que conduzira o político gaúcho ao Catete, também apo- sentara compulsoriamente, por “imperiosas razões de ordem pública”, seis ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), considerados com- prometidos com o antigo regime (NETO, 2013, p. 7). Desse modo, o novo presidente estabeleceu um governo centralizador, uma demonstração do que pretendia Getúlio Vargas: governar sem a interferência externa. Nos Estados, após demitir os governadores, nomeou interventores alia- dos para impedir a insurreição contra seu governo autoritário. Para combater a crise econômica do país no início da década de 1930, Getúlio Vargas adotou uma política de valorização do café – ainda o produto de maior expressão da economia brasileira – elaborando estratégias para garantir o preço do produto no mercado nacional e internacional, afetado pela crise mundial desencadeada a partir de 1929. Para tanto, Getúlio determinou que o governo federal combateria a crise de superprodução do setor cafeeiro comprando o excedente do produto que não fosse comercializado no mercado internacional. Dessa maneira, garantiria o valor do produto, minimizando os prejuízos dos cafeicultores. O excedente da produção comprado pelo governo federal seria queimado, reduzindo a oferta do produto e assegurando o seu valor (FAUSTO, 1995, p. 334). Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 173 Além de defender os cafeicultores, Vargas procurou elaborar estratégias que mantivessem sob controle os setores que representavam uma ameaça à consoli- dação do seu governo. Dessa forma, criou em 1930 o Ministério do trabalho, por meio do qual estabeleceu uma série de reformas trabalhistas que colocavam as rela- ções de trabalho sob a tutela do governo federal. De acordo com Cláudio Recco, O Estado criou fórmulas diversas para garantir o controle e apoio dos sindicatos. A política assistencialista e algumas leis, como a nova Lei de Férias; o novo Código de Menores; a regulamentação do trabalho femi- nino, e o estabelecimento de convenções coletivas de trabalho. Durante a década de 1930, foram criados institutos de aposentadoria e pensões de várias categorias como industriários, comerciários, bancários e fun- cionários públicos (RECCO, 2010, p. 65). Além disso, segundo o mesmo autor, Em dezembro de 1930 foi decretada a Lei de nacionalização do traba- lho, pela qual as empresas eram obrigadas a empregar pelo menos dois terços de brasileiros entre os seus funcionários. Dessa maneira Vargas reforçou seu discurso nacionalista, eliminou parte dos trabalhadores de origem imigrante – que eram mais conscientes politicamente e mais organizados – e criou um novo setor operário, que chegou aos postos de trabalho “graças ao governo” (RECCO, 2010, p. 65). Com a criação dessa legislação trabalhista, Vargas pretendia conter o avanço dos movimentos sindicais e a oposição ao seu governo, manipulando os tra- balhadores. Essa tendência do governo varguista será uma característica que o acompanhará ao longo de todo seu governo e que será um dos motivos a con- tribuir para sua eleição em 1934 e em 1950. A centralização praticada por Getúlio Vargas desagradou antigos aliados e o colocou em confronto com as forças oposicionistas ao golpe de 1930. O con- flito entre a política intervencionista de Vargas e a elite de São Paulo gerou um dos eventos mais importantes desse primeiro período do governo Vargas. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E174 A nomeação de um interventor que não era paulista para comandar o Estado de São Paulo acirrou a oposição das elites dessa região, contrárias às medidas adotadas pelo novo governo federal. O Partido Republicano Paulista e o Partido Democrático uniram-se à porção do Exército que não participara da revolução de 1930 e deflagraram um movimento revolucionário que tinha por objetivo forçar a convocação de uma Assembleia Constituinte para elaborar uma nova Constituição para o país, uma vez que o documento de 1891havia sido revogado por Getúlio Vargas (SKIDMORE, 2003, p. 156). A Revolução Constitucionalista, como foi chamado o movimento revo- lucionário, desenrolou-se entre julho e outubro de 1932 e foi liderada pelo Exército. Sem o apoio de outros Estados, a RevoluçãoConstitucionalista não obteve sucesso, sendo as forças do Exército paulista derrotadas pelas forças do Exército federal (SKIDMORE, 2010, p. 157). No entanto, embora fracassada, a Revolução de 1932 mostrou ao governo central que era o momento de estabe- lecer o fim do governo provisório e garantir, por meios legais, a permanência de Getúlio Vargas à frente do Estado brasileiro. Com esse propósito, em maio de 1933, foram convocadas eleições para a Assembleia Constituinte, que atuou entre 1933 e 1934 na elaboração da nova Constituição do país. De novembro de 1933 a julho de 1934 o país viveu sob a égide da Assem- bleia Nacional Constituinte encarregada de elaborar a nova Constituição brasileira que iria substituir a Constituição de 1891. Foram meses de intensa articulação e disputa política entre o governo e os grupos que compunham a Constituinte. Para o primeiro, a futura ordenação jurídica do país deve- ria incorporar o conjunto de mudanças que vinham sendo promovidas nos campos social, político e econômico. Essas posições também eram defendi- das por lideranças tenentistas eleitas para a Constituinte. Para a Igreja Cató- lica, o momento era de afirmação e de maior intervenção na vida política do país. Já para os grupos oligárquicos, a nova Constituição deveria assegurar aos estados um papel de relevo. O maior desafio dos constituintes foi tentar encontrar caminhos capazes de atender a essa gama variada de projetos e interesses. Fonte: A ERA Vargas (online) Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 175 Cartão Postal do MMDC, 1932. São Paulo (SP). (CPDOC/ CDA Roberto Costa) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). Após a derrota da Revolução de 1932, São Paulo sentiu a necessidade de for- mar uma nova elite capaz de contribuir para o aperfeiçoamento do governo e para a melhoria do país. Com esse objetivo um grupo de empresários fun- dou a Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP), em 1933, e o interventor Armando Sales criou a Universidade de São Paulo (USP), em 1934. Como disse Sergio Milliet, “de São Paulo não sairão mais guerras civis anárquicas”, e sim “uma revolução intelectual e científica suscetível de mudar as con- cepções econômicas e sociais dos brasileiros”. A busca de conhecimentos aplicáveis à vida do país vinha reforçar a crítica à cultura bacharelesca e à formação deficiente das escolas de direito. Fonte: Criação da Universidade de São Paulo (online). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E176 O GOVERNO CONSTITUCIONAL (1934-1937) A nova Carta Constitucional do Brasil ficou pronta em julho de 1934 e, segundo Thomas Skidmore (2003, p. 157) “era uma mescla de liberalismo político e refor- mismo socioeconômico”. O novo documento, em linhas gerais, reforçava a política nacionalista empreendida por Getúlio Vargas desde o início de seu governo, reconhecia a autoridade do Executivo – cujo representante seria eleito para um mandato de quatro anos – mas defendia a redemocratização do país por meio da retomada do sistema federativo e a instalação de um poder Judiciário mais justo e imparcial (SKIDMORE, 2003, p. 158). A Constituição de 1934 determinava que novas eleições presidenciais fos- sem realizadas, as quais foram vencidas por Getúlio Vargas, uma vez que o documento estabelecia que a primeira eleição realizada após sua promulgação seria por meio do voto indireto, ou seja, o novo presidente seria escolhido pelos membros da Assembleia Constituinte, que eram, na sua maioria, partidários de Getúlio Vargas. Nessa nova fase de seu governo, Getúlio Vargas deveria ter suas prerrogativas políticas limitadas pela Constituição, governando em conjunto com o Congresso. No entanto, o acirramento das disputas entre as ideologias presentes no interior do Brasil levaram o presidente a buscar alternativas de garantir sua autonomia em relação ao Congresso e às forças regionais. As ideologias citadas referem- -se, principalmente, aos modelos de governo defendidos pela Ação Integralista Brasileira (AIB) e à Aliança Nacional Libertadora (ANL). Criada em 1932 e com inspiração no fascismo italiano – embora o elemento racista não fizesse parte da ideologia integralista – a Ação Integralista Brasileira era liderada por Plínio Salgado, escritor, jornalista e ex-deputado estadual pelo PRP. Era composta por indivíduos das classes média e alta, oficiais da Marinha, membros do clero, intelectuais, profissionais liberais, funcionários públicos e militares (RECCO, 2010, p. 68), que defendiam a criação de um “Brasil cristão baseado numa sociedade disciplinada com pouca tolerância para a ação revo- lucionária da esquerda” (SKIDMORE, 2003, p. 159). O lema da AIB era Deus, Pátria e Família. Segundo o historiador João Fábio Bertonha, Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 177 A base do pensamento de Plínio Salgado era a oposição entre mate- rialismo e espiritualismo, concepções antagônicas em conflito desde o início dos tempos. No mundo dos anos 20 e 30, Salgado identificava uma vitória do materialismo e do individualismo e afirmava que, para vencê-los, deveria haver uma revolução espiritual. Essa revolução deveria ter como alvos o capitalismo liberal, fortemente injusto e desigual, e principalmente o comunismo, visto como o auge da civilização materialista e ateísta. Para Salgado, o Brasil estava sob o domínio do materialismo, mas haveria um fundo espiritualista – espe- cialmente no interior do país, não contaminado pelas idéias estrangei- ras – que um movimento renovador poderia captar. Esse movimento seria o integralismo. Nessa perspectiva, Plínio Salgado propunha a defesa da nacionalidade, a ordem, a disciplina, a organização corporativa e hierárquica dos bra- sileiros em um Estado integral, como forma de garantir a prosperidade geral e o retorno a um estado de espiritualidade. Este geraria a gande civilização integralista, de repercussões mundiais (BERTONHA, 2004, p. 64). Fonte: Beier (online). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E178 A ideologia oposta ao modelo defendido pela AIB era representada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), que era uma extensão do Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922. A ANL foi criada em 1935 e seu líder era Luiz Carlos Prestes, a quem Getúlio Vargas havia oferecido, anos antes, o comando militar da Revolução de 1930 (SKIDMORE, 2003, p. 158). Luiz Carlos Prestes vivia em Moscou, onde viveu intensamente o comunismo, retornando ao Brasil clandestinamente em 1935, com o objetivo de promover a revolução comunista no Brasil e instalar um governo baseado nas ideias da Internacional Comunista. A proposta de governo defendida pelos membros da ANL – dentre os quais estavam os “comunistas, socialistas, os ‘tenentes liberais e católicos’” (RECCO, 2010, p. 68) – baseava-se na organização dos trabalhadores urbanos como forma de ação revolucionária para instalar um governo democrático e nacionalista. Suas principais propostas consistiam na suspensão do pagamento da dívida externa, no combate ao nazi-fascismo, na reforma agrária, na nacionalização das empre- sas estrangeiras, na garantia das liberdades populares e na constituição de um governo popular (FAUSTO, 1995, p. 359). Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 179 A história da Internacional Comunista remonta a 1864,quando foi criada a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), integrada por organiza- ções operárias de diversos países europeus. O mentor e principal líder da AIT era Karl Marx. A repressão e as crescentes divergências internas enfra- queceram a organização, que acabou sendo extinta em 1876. Treze anos depois, em 1889, foi criada em Paris a II Internacional dos Trabalhadores. Sua direção seguia a doutrina marxista, mas encontravam-se presentes em seu interior diferentes correntes do movimento operário. Até a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, a luta contra a guerra foi uma das prin- cipais bandeiras da Internacional. Com o desenrolar do conflito, entretanto, as divergências vieram à tona e terminaram por enfraquecer a unidade da associação. Em 1919, logo após a vitória dos comunistas na Revolução Rus- sa, foi criada a III Internacional, ou Internacional Comunista, ou ainda Ko- mintern. Seu principal objetivo era criar uma União Mundial de Repúblicas Socialistas Soviéticas. Fonte: Internacional Comunista (online). A ANL fundamentava sua ideologia na organização dos trabalhadores urba- nos, mas na década de 1930 o Brasil ainda era um país agrário e os operá- rios brasileiros ainda não possuíam uma consciência de classe desenvolvida como os operários europeus comunistas. Fonte: a autora. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E180 As divergências ideológicas entre a AIB e a ANL contribuíram para o aumento da tensão política do Brasil na década de 1930. A organização da ANL em torno dos operários gerou desconfiança e medo na sociedade, que temia uma revolu-ção e um novo golpe que colocasse o país nas mãos dos comunistas. Diante do avanço das ideias comunistas no Brasil, em 1935 foi aprovada a Lei de Segurança Nacional e a ANL foi considerada ilegal. Mesmo com a pressão do Congresso, a ANL continuou desenvolvendo suas atividades na clandestini-dade até que, após uma tentativa de instaurar um golpe em novembro de 1935 e derrubar o governo Vargas, a organização foi vencida pelas forças do governo federal e acabou, por fim, desarticulada. Rebeldes do 3º RI a caminho do presídio da Ilha Grande, 1935. (Rio de Janeiro). (CPDOC/ CDA Vargas) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 181 A Ação Integralista Brasileira teve uma vida mais longa, sendo extinta apenas em 1938 após uma tentativa frustrada de golpe de Estado, no qual os membros da AIB atacaram o palácio presidencial no Rio de Janeiro, acreditando que teriam o apoio da população civil e do Exército. No entanto, o Exército manteve-se fiel a Getúlio Vargas e a organização integralista foi formalmente eliminada por Vargas (BERTONHA, 2004, p. 63). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E182 Carta de presos comunistas a Getúlio Vargas em apoio ao esmagamento da intentona integralista ocorrida na capital federal no dia 11 de maio, 1938. Rio de Janeiro (RJ). (CPDOC/ GV 1938.05.13) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A partir da atuação da AIB e da ANL no cenário político do Brasil, Getúlio Vargas aproveitou-se do fato de o Congresso ter se afastado das decisões polí-ticas e tentou retomar o modelo de governo centralizador dos seus primeiros anos à frente do país. Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 183 A ELABORAÇÃO DO GOLPE DE 1937 A Constituição de 1934 previa que as eleições presidenciais marcadas para 1938 ocorreriam por meio do voto secreto e direto. Dessa foram, já em fins de 1936 os interessados em concorrer ao pleito começaram a se organizar para desen- volver suas respectivas campanhas. Os candidatos que concorreriam às eleições de 1938 eram Armando de Salles Oliveira, que concorreria pelo Partido Constitucionalista, Plínio Salgado, can- didato pela Ação Integralista – convertida em partido político em 1936 – e José Américo de Almeida, que era o candidato oficial de Getúlio Vargas (RECCO, 2010, p. 69). O cenário imposto pelo avanço das ideias comunistas no Brasil, por meio da ação das forças integralistas, permitiu que Getúlio Vargas manipulasse o medo da sociedade da instalação de um governo comunista a fim de adotar medidas repressivas que o ajudariam a reforçar o seu poder como chefe do Estado brasi- leiro. Após um levante coordenado pelo PCB que atacou Natal, Recife e o Rio de Janeiro em 1935, Getúlio Vargas, com a desculpa de combater a ameaça comu- nista no Brasil e com o apoio do Congresso, decretou estado de emergência e suspendeu os direitos civis estabelecidos pela Constituição de 1934. Conforme destaca Lira Neto, após os levantes comunistas de 1935, (...) Getúlio continuou abraçando a tese oficialesca de que os legalistas foram eliminados de forma torpe, enquanto dormiam. “A reação do es- pírito público contra os rebeldes e as crueldades praticadas está a exigir um castigo exemplar”, registrou em seu diário. “A Constituição, porém, não permite várias medidas aconselhadas. Só suspendendo parcial- mente os efeitos da própria Constituição”. Aquelas anotações, tomadas no calor da hora, eram apenas o prenúncio do ciclone político e institu- cional que muito em breve assolaria o país (NETO, 2013, p. 204). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E184 Esse contexto de agitação tomou conta do Brasil e, entre 1936 e 1937, determinou os rumos da conjuntura política brasileira. Com o decreto de estado de emer- gência, Getúlio Vargas iniciou uma caça a seus inimigos, lotando as delegacias e cadeias do país com indivíduos acusados de compactuar com o comunismo e contra o governo. Com a intenção de anular as eleições previstas para janeiro de 1938 e continuar no cargo de presidente, Getúlio Vargas elaborou um plano que lhe garantiu a permanência no poder. O chamado Plano Cohen serviu de pretexto para que Getúlio Vargas colo- casse em prática o golpe de Estado que permitiria que ele continuasse como presidente do Brasil. De acordo com a historiografia, em 1937 foi apresentado ao presidente um plano elaborado pela Ação Integralista Brasileira, o qual esta- belecia a (...) mobilização dos trabalhadores para a realização de uma greve ge- ral, o incêndio de prédios públicos, a promoção de manifestações po- pulares que terminariam em saques e depredações e até a eliminação física das autoridades civis e militares que se opusessem à insurreição (RECCO, 2010, p. 70). Hoje é sabido que esse plano foi uma farsa criada por Getúlio Vargas para legiti- mar suas ações centralizadoras e ditatoriais, mas em 1937, quando o presidente do Brasil divulgou por meio de uma transmissão de rádio a existência de um plano comunista à população, a veracidade do documento não foi questionada. Com a divulgação do Plano Cohen, Getúlio convenceu o Congresso a decre- tar o estado de guerra, o que garantia ao presidente em exercício a suspensão da Constituição por noventa dias. Com plenos poderes em mãos, Vargas suspen- deu as eleições de 1938 e dissolveu a Câmara dos Deputados e o Senado. Em 10 de novembro de 1937, decretou que o Brasil entrava em uma nova fase política. Tinha início o Estado Novo (FAUSTO, 1995, p. 364). Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 185 Trecho do diário manuscrito de Getúlio Vargas,07/11/1937. (CPDOC/ GV remsup 30-10-03 vol.16) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E186 A DITADURA DE VARGAS: O ESTADO NOVO (1937-1945) Constituição de 1937 Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). Ao decretar o Estado Novo, Getúlio apresentou à população brasileira uma nova Constituição que tinha caráter autoritário e ditatorial, inspirada nas Constituições dos regimes ditatoriais em voga na Europa e que concedia ao presidente pode- res ilimitados no comando do país. As instituições do Poder Legislativo foram dissolvidas e o estado de emergência foi declarado em todo o país por tempo indeterminado, o que significava a suspensão dos direitos civis e a possibilidade do presidente governar por meio de decretos-leis até que fossem realizados um Plebiscito para legitimar a nova Constituição e as novas eleições para a Assembleia Legislativa. O plebiscito e as eleições nunca aconteceram (FAUSTO, 1995, p. 365). A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 187 Nesse período inicial do Estado Novo, Vargas conseguiu controlar a oposi-ção de seus inimigos por meio da intensificação da censura – levada a cabo pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) –, da perseguição e da prisão de seus inimigos. Desde o levante organizado pela ANL em 1935, Getúlio ado-tou uma postura de perseguição aos seus inimigos que, de acordo com Neto (2003), eram presos e torturados nos porões das delegacias. O autor relata que, a partir de 1935, Estava dada a senha para uma campanha sistemática de prisões arbitrá- rias e de perseguição a jornalistas, professores e intelectuais. Entre os prisioneiros do regime, logo se incluiria o nome do escritor Graciliano Ramos, que legou à posteridade um eloquente testemunho do obscu- rantismo político em que então vivia o país, nos dois volumes de seu já clássico Memórias do cárcere. “Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social”, de- plorou Graciliano. A médica Nise da Silveira, uma das pioneiras no tratamento humani- tário de esquizofrênicos e de outros pacientes com distúrbios psiqui- átricos no país, também foi mandada para a cadeia, denunciada por participar da União Feminina do Brasil e por possuir livros marxistas em sua biblioteca particular. O escritor Jorge Amado, que havia lan- çado seu quarto romance, Jubiabá, foi outro a ser preso. O professor e pedagogo Anísio Teixeira, um dos maiores nomes da história da edu- cação no país, terminou afastado do cargo de secretário de Educação e Cultura do Distrito Federal por suspeita de ligação com os comunistas. O cronista Rubem Braga, para continuar a sobreviver como jornalista, recorreu a pseudônimos, disfarces e esconderijos na casa de amigos e parentes (RECCO, 2013, p. 209). O Estado Novo foi instaurado no Brasil ao mesmo tempo em que uma onda de transformações varria a Europa, instalando governos autoritários e refor- çando a versão de que a democracia liberal estava definitivamente liquida- da. Mussolini chegou ao poder na Itália em 1922 e aí implantou o fascismo; Salazar se tornou primeiro-ministro (presidente do Conselho de Ministros) de Portugal em 1932 e inaugurou uma longa ditadura; Hitler foi feito chan- celer na Alemanha em 1933 e tornou-se o chefe supremo do nazismo. A guerra civil espanhola, que se estendeu de 1936 a 1939, banhou de sangue a Espanha antes que Franco começasse a governar o país com mão de ferro. Fonte: Estado Novo e Facismo (online). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E188 A ideologia defendida por Getúlio Vargas e seus aliados durante o Estado Novo tinha por base a superação das práticas liberais, uma vez que as turbu- lências econômicas vividas pelo país desde o fim da década de 1920 e início da década de 1930 foram causadas por esse sistema político e econômico, o qual cabia agora ao presidente combater. A partir de 1937, Getúlio poderia concluir o projeto político que tinha em mente para o Brasil e que começou a implantar após o golpe de 1930, mas que foi interrompido pela promulgação da Constituição de 1934, que tinha um caráter liberal. Os países europeus que viviam sob a égide dos regimes totalitários viram com bons olhos a instituição do Estado Novo no Brasil, de acordo com Neto, Na Alemanha, a imprensa nazista saudou Getúlio e dedicou generosos espaços ao assunto, traçando perfis simpáticos do presidente brasileiro, ilustrados com fotografias fornecidas pelo serviço diplomático. (...). O ministro italiano do Exterior, Galeazzo Ciano, genro de Mussolini, fi- cou tão entusiasmado com as notícias recebidas da embaixada de seu país no Rio de Janeiro que imaginou a adesão imediata do governo bra- sileiro ao Pacto Anti-Komintern, selado originalmente no final de 1936 entre Japão e Alemanha — e, naquele final de 1937, também referen- dado pela Itália, dando origem ao grupo de nações que ficaria conheci- do como as Potências do Eixo. (...). De Washington, Oswaldo Aranha escreveu telegrama confidencial a Getúlio para lastimar os rumos que o governo havia tomado e, por consequência, para informar sua re- núncia ao cargo de embaixador nos Estados Unidos. Uma entrevista concedida por Francisco Campos a jornalistas estrangeiros, publicada pelo New York Times, constrangera Oswaldo. Entre outros pontos, o ministro da Justiça sugerira aos correspondentes internacionais que a “ignorância do povo brasileiro” era o principal impeditivo à prática da democracia no país teria sido plasmada em moldes intervencionistas e, portanto, autoritários (NETO, 2013, p. 258). O Estado Novo caracterizou-se pelo corporativismo e o intervencionismo estatal – justificado pelo entendimento de que apenas o Estado seria capaz de manter a união do país e estabelecer a ordem e o desenvolvimento da sociedade –, pelo alto investimento na industrialização do país, simbolizando a aproximação entre o governo central e a burguesia industrial, além da aliança com o Exército como forma de garantir a estabilidade social e o controle da oposição (FAUSTO, 1995). A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 189 O nacionalismo também seria marcante no regime do Estado Novo. Entre 1937 e 1940 Getúlio Vargas criou uma série de decretos que regulamentavam a vida dos brasileiros sob o novo regime e estabelecia as novas diretrizes sob as quais deveriam assentar-se o trabalho e a participação social dos estrangeiros no Brasil. Não obstante, foi também por meio da promulgação de um decreto-lei em 1937 que Getúlio determinou a extinção dos partidos políticos, demonstrando que não admitiria oposição ou mesmo a intenção de promover um retorno à democracia. Embora o caráter ditatorial da fase do governo Vargas denominada de Estado Novo tenha representado um golpe na democracia brasileira – que, ao nosso entender não havia até aquele momento existido em sua plenitude – é inegável o avanço promovido no aspecto econômico. O fortalecimento do setor indus- trial e a passagem de uma economia essencialmente agrária para uma economia pautada no desenvolvimento industrial possibilitaram o crescimento e a valori- zação de outros setores, como foi o caso, por exemplo, da educação, visto que, durante o Estado Novo, foram criadas instituições com o fim de qualificar a mão de obra para o setor industrial, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Para garantir o desenvolvimento da indústria brasileira, Vargas levantou a bandeira do nacionalismo, pressionandoas indústrias estrangeiras que haviam no país a se tornarem nacionais e investiu no desenvolvimento da indústria de base, que conquistou um avanço considerável com a criação da Usina de Volta Redonda em 1940 e os primeiros encaminhamentos para a fundação da Petrobrás, que foi criada apenas no segundo governo de Vargas (1950-1954). Os avanços alcançados pelo setor industrial no Estado Novo – sobretudo no que diz respeito à indústria siderúrgica, considerada essencial para o desen- volvimento do país – contribuiu para o aumento da massa trabalhadora, que no regime do Estado Novo mereceu uma atenção especial de Getúlio Vargas. Nesse período, Vargas adotou uma política trabalhista voltada para o bem-estar do trabalhador, que aproximou o presidente da classe trabalhadora e permi- tiu o controle e a manipulação desse setor da sociedade brasileira, em favor do regime autoritário. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E190 Ângela de Castro Gomes defende a ideia de que a crise econômica enfrentada pelo Brasil desde o início da década de 1930 mostrou a necessidade de proteger e promover o bem-estar do trabalhador, uma vez que dependia desse bem-es- tar para a reestruturação econômica e social do país. De acordo com a autora, Os anos 30 inauguraram-se sob esse legado, e as medidas que então se implementam são bem uma demonstração da intensidade e atualidade do problema que se enfrentava. É a partir desse momento, demarcado pela Revolução de 30, que podemos identificar de forma incisiva toda uma política de ordenação do mercado de trabalho, materializada na legislação trabalhista, previdenciária, sindical e também na instituição da Justiça do Trabalho. É a partir daí que podemos igualmente detectar — em especial durante o Estado Novo (1937-45) — toda uma estra- tégia político-ideológica de combate à “pobreza”, que estaria centrada justamente na promoção do valor do trabalho. O meio por excelên- cia de superação dos graves problemas sócioeconômicos do país, cujas causas mais profundas radicavam-se no abandono da população, seria justamente o de assegurar a essa população uma forma digna de vida. Promover o homem brasileiro, defender o desenvolvimento econômico e a paz social do país eram objetivos que se unificavam em uma mesma e grande meta: transformar o homem em cidadão/trabalhador, respon- sável por sua riqueza individual e também pela riqueza do conjunto da nação (GOMES, 1999, p. 55). A análise proposta pela autora citada permite uma ampliação da compreensão da legislação trabalhista criada por Vargas, na qual as teorias tradicionais enfa- tizam o seu caráter manipulador, demonstrado por meio da adoção de medidas que visavam à valorização do trabalho e do trabalhador e ao controle das ati- vidades sindicais, com o objetivo – não declarado – de evitar conspirações e agitações sociais que pudessem perturbar seu governo. Dentre essas medidas, estavam a regulamentação do salário mínimo, da jornada de trabalho e das férias remuneradas, medidas organizadas a partir da criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943. A legislação trabalhista e a política trabalhista de Vargas, de maneira geral, inauguraram a fase do populismo no Brasil. A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 191 Consolidação das leis do trabalho Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A instauração do Estado Novo permitiu a Vargas levar adiante e sistematizar, à sua maneira, a política social iniciada no começo da década de 1930. Re- tiraram-se de cena as forças político-sociais que nos anos que antecederam o golpe de 1937 lutavam no Congresso e nos sindicatos contra a tutela do Ministério do Trabalho e seu projeto de unidade sindical. Novas leis foram editadas, com o objetivo de consolidar no país uma estrutura sindical base- ada no corporativismo. Fortaleceu-se enfim o Ministério do Trabalho, que, com o decorrer do tempo, se transformou em um órgão político estratégico para a construção da imagem de Vargas como o “pai dos pobres”, amigo e protetor dos trabalhadores. Fonte: Diretrizes do Estado Novo (1937 - 1945) > Direitos sociais e trabalhis- tas (online). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E192 Manifestação de apoio às medidas trabalhistas de Getúlio Vargas Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945) Desde o início de seu governo em 1930, Getúlio Vargas procurou estabe- lecer relações comerciais tanto com os Estados Unidos – sobretudo após a sua recuperação econômica depois da crise de 1929 – quanto com países europeus, como a Alemanha, a qual entendeu o golpe de 1937 e a instalação do Estado Novo como algo positivo no cenário brasileiro e procurou estreitar os laços comerciais com o país. Para o Brasil, a consolidação dos acordos comerciais era determinada pelos tipos de vantagens que o país poderia obter com a negocia-ção. Dessa forma, ora o Brasil aproximava-se dos Estados Unidos, ora estreitava os laços com a Alemanha. A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 193 Essa característica da política externa brasileira manteve-se até a eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939. A partir da emergência do conflito, Getúlio buscou o fortalecimento das relações comerciais com os Estados Unidos, uma vez que o poderio econômico norte-americano mostrou-se mais vantajoso aos interesses de Vargas e às necessidades do país. Conforme relata Lira Neto, Com o objetivo de ganhar de vez o Catete para a causa aliada, os Es- tados Unidos ultimaram um generoso pacote de concessões econômi- cas e militares ao Brasil, discutidas pelos dois países em uma comissão mista de trabalho. Além do empréstimo destinado ao projeto side- rúrgico, Roosevelt prometeu ampliar a compra de algodão nacional, estabelecer cotas favoráveis para o café brasileiro no mercado norte- -americano e importar ao país toneladas de minérios considerados estratégicos em tempos de guerra, como manganês, níquel, bauxita e cromo. Por intermédio do chamado Lend-Lease Act — programa de ajuda de fornecimento de armas e suprimentos bélicos para as nações aliadas —, Washington se comprometia ainda a remeter nada menos de 100 milhões de dólares em equipamentos bélicos para o Brasil (NETO, 2013, p. 318). Diante do alto investimento no Brasil e do cenário desenvolvido após a entrada das forças norte-americanas no conflito em 1941, Vargas aderiu ao discurso defendido pelos Estados Unidos de promover a defesa das Américas a partir da liderança estadunidense e se empenhou em desenvolver estratégias de apoio aos Aliados (FAUSTO, 1995). A declaração de guerra do Brasil às forças do Eixo aconteceu em 1942 após cinco navios brasileiros serem afundados por submarinos alemães. A partir de então, o Brasil passou a colaborar mais ativamente com os Aliados e em 1944 os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram enviados para lutar contra o Eixo, liderados pelo general Mascarenhas de Moraes (JAMBEIRO, 2004, p. 101). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E194 Unidades do 2° Escalão da FEB desembarcam na Itália. Nápoles, 1944. (CPDOC/ HB foto 062/18) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Estados Unidos e dos Aliados contribuiu para o crescimento da oposição à ditadura de Getúlio na medida em que colocou em xeque a contradição entreseu sistema de governo baseado nas influências fascistas e o apoio às nações cujos modelos de governo assentavam-se na democracia. Segundo Thomas Skidmore, O ingresso do Brasil na guerra tinha uma importante implicação para a política interna. A decisão de unir-se às democracias era um golpe contra os autoritaristas que alegavam que a democracia não tinha lugar no Brasil, e supunham que Getúlio concordava com eles. Este e seus generais, ao questionarem essa suposição, estavam montando o cená- rio para um debate que iria terminar com o fim da ditadura getulista (SKIDMORE, 2003, p, 171). A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 195 O FIM DO ESTADO NOVO Ao decretar o início do Estado Novo em 1937, Getúlio havia prometido realizar novas eleições presidenciais em 1943. Porém, sob o pretexto dos desdobramen- tos dos acontecimentos internacionais, Vargas alegou que não seria possível a realização das eleições antes do fim da guerra, devido à instabilidade e às incer- tezas que o processo eleitoral traria para o país, afetando, consequentemente, as relações internacionais do país naquele momento (SKIDMORE, 2003, 174). Com essa medida, os opositores ao Estado Novo entenderam que Getúlio não estava disposto a deixar o cargo de presidente. Conforme aponta Neto, Para um herdeiro da tradição castilhista-borgista do Rio Grande do Sul, não havia dúvida de que o voto continuava sendo um ritual ques- tionável, se aplicado ao contexto brasileiro. A justificativa de que éra- mos um país socialmente imaturo, e que o povo precisava ser educado o suficiente para só depois conseguir a efetiva emancipação, continuava a servir de discurso legitimador ao regime (NETO, 2013, p. 323). As críticas crescentes ao Estado Novo partiam de diversos setores, conforme des- taca Othon Jambeiro (2004). Em 1943 um grupo de intelectuais e de profissionais liberais de Minas Gerais lançaram o Manifesto Mineiro, no qual enfatizavam a luta do governo brasileiro contra os regimes autoritários na Europa ao mesmo tempo em que procurava perpetuar a ditadura no Brasil. Com isso, defendiam o fim do Estado Novo e a redemocratização do país (RECCO, 2010, p. 74). Além da elite mineira, São Paulo também representava um foco de oposição ao governo de Getúlio Vargas, mesmo sendo esse Estado um dos maiores bene- ficiados com os investimentos no setor industrial promovidos durante o Estado Novo. De acordo com Lira Neto, O Estado Novo parece ter nascido, vivido e morrido sob a égide das trans- formações mundiais. Se o florescimento de regimes autoritários na Europa encorajou o presidente Vargas a instaurar no país um regime político auto- ritário, esse mesmo regime conheceu o apogeu e a queda sob a influência da Segunda Guerra. Fonte: Fatos & Imagens > Estado Novo (online) A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E196 A unidade federativa que mais viria a se beneficiar com a política de in- dustrialização inaugurada pelo Estado Novo mantinha uma atitude de desconfiança permanente em relação ao governo. Desafiando a rigidez da censura, o jornal O Estado de S. Paulo se tornara um dos únicos por- ta-vozes da oposição. Fato que levou o diretor Júlio de Mesquita Filho a ser preso catorze vezes em dois anos, antes de seguir para o exílio na França (NETO, 2013, p. 320). Bóris Fausto (1995, p. 383) enfatiza que afora os movimentos pela redemocrati- zação do país que partiram de setores da sociedade brasileira, a desarticulação no interior do próprio governo foi fundamental para a crise do governo getu- lista e para o seu consequente fim. Oswaldo Aranha, ministro das Relações Interiores no Estado Novo foi a figura mais empenhada em reestabelecer as liberdades democráticas no país. Góis Monteiro, um dos principais aliados de Getúlio Vargas desde o golpe de 1930, também abandonou o governo quando percebeu que Getúlio não conseguiria manter o regime por muito mais tempo. Diante dessa oposição, a qual o DIP não mais conseguia reprimir, em 1945 Vargas adotou medidas que significaram os primeiros passos rumo à redemo- cratização, como a promulgação do Ato Adicional à Constituição de 1937, que previa a convocação de novas eleições num prazo de noventa dias, liberdade de associação, consistia em anistia aos presos políticos (JAMBEIRO, 2004, p. 103). A situação política se tornou cada vez mais tensa e os jornais oposicionis- tas mais ferrenhos, como o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, a Folha da Manhã, de São Paulo, e os Diários Associados, de Chateaubriand, se constitu- íram em porta-vozes dos anseios populares contra o Estado Novo. O golpe decisivo foi desferido pelo Correio da Manhã, no dia 22 de fevereiro de 1945: ao publicar entrevista de José Américo de Almeida ao jornalista Carlos La- cerda, reivindicando democracia plena, desencadeou o processo de derro- cada do Estado Novo. Fonte: Jambeiro (2004, p. 103). A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 197 Com a liberdade de associação restabelecida, os diversos setores da socie- dade organizaram-se visando as eleições presidenciais. A União Democrática Nacional (UDN) reunia os liberais contrários a Vargas representantes da classe média e alta e também membros do Exército. A UDN lançou a candidatura de Eduardo Gomes à presidente. O Partido Social Democrático (PSD) também se formou nesse período e contava com antigos aliados de Getúlio Vargas, que apoia- vam a candidatura do general Eurico Gaspar Dutra. Outro partido criado nesse momento com vistas às eleições de dezembro de 1945 foi o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) cujos membros pertenciam aos sindicatos financiados e con- trolados por Vargas. Esses também defendiam a candidatura de Dutra. O Partido Comunista Brasileiro que, mesmo na ilegalidade continuou sua atuação durante todo o período do governo Vargas, diante dos acontecimentos nacionais internacionais, divulgou seu apoio a Getúlio Vargas, em uma manobra surpreendente – e influenciada por Luiz Carlos Prestes em acordo com as dire- trizes comunistas elaboradas em Moscou – diante da história da relação entre o presidente e o partido. O PCB apoiou e instigou a parte da população que defendia a continuidade de Getúlio Vargas no poder, embora com a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Esse movimento popular apoiado pelo PCB ficou conhe- cido com Querenismo devido ao grito de ordem do movimento “queremos Getúlio!”. Segundo Neto, Por volta de oito horas da noite, a vaga humana que se formou no largo da Carioca, no centro do Rio, resolveu seguir em direção à rua Senador Dantas, a caminho da Glória. O número de manifestantes era tão gi- gantesco que, quando os primeiros começaram a tomar conta da praça Paris, quase dois quilômetros adiante, ainda havia centenas de pessoas assumindo lugar na cauda da passeata, no local original da concen- tração. A caravana ganhou volume ainda mais impressionante ao en- contrar outro contingente que descia a rua da Lapa, caminhando em idêntico sentido. Comprimidos em um bloco compacto, os dois grupos rumaram então pela rua do Catete, rumo à sede do governo. Nos es- tandartes, bandeiras, faixas e cartazes, uma frase se destacava entre as demais: “Queremos Getúlio!”. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E198 Ao tomar conhecimento de que o presidente estava no Guanabara, a multidão rumou para as Laranjeiras, tomando caminho pela rua Pais- sandu. Minutos depois, o mar de gente se concentrou na rua Pinheiro Machado, até que os portões do palácio fossem abertosde par em par. Os jardins ficaram tomados pela aglomeração em questão de segundos. Passava pouco das nove da noite quando Getúlio Vargas apareceu nas escadarias, acenando para o público. De todos os lados pipocaram vi- vas e aplausos. Que-re-mos Ge-tú-lio! Que-re-mos Ge-tú-lio! Que-re-mos Ge-tú-lio!”, ouvia-se, em ritmo cadenciado. (...). As folhinhas com o retrato oficial do presidente, distribuídas pelo DIP, indicavam a data de 30 de agosto de 1945. Não era a primeira vez, nem seria a última, que multidões ganhariam as ruas do Rio de Janeiro em eventos semelhantes, para exigir a permanência de Getúlio Vargas no Catete. A palavra de ordem “Queremos Getúlio” deu origem ao apelido do movimento que logo se espalhou como uma catapora política pelo país: “queremismo” (NETO, 2013,p. 387). Queremistas recebidos por Vargas no Palácio Guanabara, 1945. Rio de Janeiro (RJ). (CPDOC/ CDA Vargas) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). Bustos de Getúlio Vargas sendo retirados das ruas, 1945. (CPDOC/ GV foto 148) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 199 O movimento queremista preocupou as oposições do Estado Novo, que temiam um novo golpe de Getúlio Vargas para manter-se no poder, preocupação que se acentuou quando da publicação de um decreto que estabelecia as eleições estaduais e municipais para o mesmo dia das eleições presidenciais. A altera- ção na data das eleições estaduais e municipais representava para os opositores de Getúlio uma tentativa de manipular o pleito e garantir a sua permanência no poder. (JAMBEIRO, 2004, p. 104). Assim, crescia a desconfiança em torno das intenções de Getúlio Vargas. O clima de desconfiança ganhou força quando Vargas nomeou seu irmão Benjamim Vargas para o cargo de chefe de Polícia do Distrito Federal, gerando boatos de que ele pretendia prender todos os que se opunham ao regime var- guista. A nomeação de Benjamim Vargas foi o motivo que a oposição esperava para depor o presidente Getúlio Vargas. O general Góis Monteiro, antigo aliado de Getúlio Vargas, exigiu a revogação da nomeação de Benjamim Vargas, o que Getúlio se recusou a fazer. Diante da recusa de Getúlio Vargas de revogar a nomeação de seu irmão a chefe de Polícia do Distrito Federal, Góis Monteiro, apoiado por Eurico Gaspar Dutra e por mais uma par- cela do Exército, decidiram impor a renúncia ao presi- dente da República. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E200 Às nove da noite, Cordeiro de Farias chegou ao Guanabara como representante dos generais, acompanhado de Agamenon Magalhães, que finalmente pudera sair do Ministério da Guerra. Não havia mais perigo de reação. O Exército já providenciara a mudança de guarda, e a segurança do palácio estava submetida a forças favoráveis ao golpe. Uma unidade motorizada, sob o comando do tenente-coronel Ulhôa Cintra, ocupara os jardins. Tanques de guerra apontavam as armas para o edifício. O único oficial leal ao governo e em condições de oferecer alguma espécie de resistência armada em todo o Rio de Janeiro, o general Renato Paquet, comandante da Vila Militar, recebera um telefonema do colega Firmo Freire, chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, com um recado categórico. “Paquet, o Dr. Getúlio manda dizer que não quer nenhuma escaramuça e que você largue a Vila de mão.” O general Odílio Denys, comandante da Polícia Militar e admirador do presidente, recebera as mesmas instruções. Quando viu Cordeiro subir as escadarias, Bejo cutucou o sobrinho Lu- tero: Vamos assistir ao que este sujeito vai dizer ao Getúlio. Se faltar ao res- peito, não sei o que farei.” Cordeiro de Farias chegou vestido com uma capa de chuva, apesar de não haver nenhum indício de nuvem no céu. Mantinha a mão direita o tempo todo sob a capa, segurando o revólver, que não hesitaria em usar se necessário. Encontrou Getúlio sentado atrás da escrivaninha. De pé, em cada um dos cantos da mesa, posicionavam-se Bejo e Lutero. O general, sempre com uma das mãos oculta, entregou ao presidente uma minuta da declaração de renúncia, rabiscada de próprio punho por Góes Monteiro. Getúlio passou os olhos no papel sem demonstrar maior interesse e o entregou a Luiz Vergara, para que o secretário tirasse uma cópia datilo- grafada, em papel timbrado, e depois a trouxesse para ele assinar. Preferia que os senhores me atacassem, porque eu me defenderia. Mas já que se trata de um golpe branco, não serei eu o elemento perturba- dor. Pode dizer a eles que não sou mais presidente”, disse Getúlio, que pediu o prazo de 48 horas para deixar o Palácio. Precisava encaixotar seus objetos pessoais e selecionar alguns papéis particulares antes de ir embora, justificou. Assinou então o termo de renúncia e nomeou Agamenon Magalhães como seu representante para se entender com os integrantes do novo governo. Presidente Castello Branco Fonte: 50 anos... (online). Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 201 Tinha uma última mensagem para Cordeiro de Farias transmitir a Góes, Dutra e Eduardo Gomes. Informe a seus amigos que desejo apenas ir para o Sul. Eles que fiquem mexendo esse mingau (NETO, 2013, p. 401-402). Chegava ao fim o Estado Novo e a Era Vargas. ENFIM DEMOCRACIA? AS ESPERANÇAS RENOVADAS E O NOVO GOLPE: INÍCIO DA DITADURA MILITAR NO BRASIL O processo eleitoral ocorrido em 2 de dezembro de 1945 foi vencido por Eurico Gaspar Dutra, candidato do PSD. Dutra e os demais eleitos para o Congresso tomaram posse em janeiro de 1946 e a primeira missão dos novos representan- tes do Brasil era elaborar uma nova Constituição para o país, para substituir a Constituição de caráter autoritário vigente no período do Estado Novo. A nova Carta Constitucional ficou pronta em 18 de setembro de 1946 e sua principal caracte- rística era a ênfase na defesa das liberdades civis e políticas e na democracia. Dentre outros pontos, a Constituição de 1946 estabele- cia “uma rotina democrática para as instituições republicanas, com eleições diretas para os postos do governo no âmbito do Executivo e do Legislativo e nas três esfe- ras da federação – União, estados e municípios” (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 396). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E202 A nova organização política do Brasil, após o fim da Era Vargas em 1945, inseriu-se no contexto de reorganização mundial pós Segunda Guerra Mundial. Ao fim do conflito em 1945, o cenário político internacional encontrava-se divi- dido em dois blocos ideológicos distintos. De um lado, liderados pelos Estados Unidos, encontravam-se os países estruturados sobre a égide do liberalismo e do capitalismo. Do outro, sob a liderança da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas estavam os países cujo comunismo e socialismo determinavam as diretrizes de organização da sociedade. O Brasil estava ao lado dos Estados Unidos e, no governo do presidente Dutra, os comunistas não puderam desenvolver suas atividades com liberdade. Após uma declaração de Luiz Carlos Prestes de que o Partido Comunista Brasileiro ficaria ao lado da URSS em um possível confronto entre as duas nações, Dutra intensificou a perseguição aos comunistas e novamente o Partido Comunista foi posto na ilegalidade (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 398). A política econômica do governo Dutra seguia as diretrizes liberais e parecia submeter-se aos desígnios norte-americanos, com o favorecimento das impor-tações. De acordo com Bóris Fausto (1995, p. 403), o liberalismo econômico adotado por Dutra possibilitou o desenvolvimento da produção para o mercado interno e a industrialização do país. De acordo com o autor, entre 1947 e 1950, o PIB brasileiro cresceu 8%. Em 1948 Eurico Gaspar Dutra lançou o Plano Salte, cuja sigla era formada pelas iniciais dos setores que seriam beneficiados pelas novas medidas eco- nômicas do seu governo: Saúde, Alimentação, Transporte e Energia, e que representou uma tentativa do governo em resolver os problemas oriundos do aumento das importações. Fonte: adaptado de Schwarcz e Starling (2015). Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 203 O desenvolvimento da indústria e o crescimento do PIB apontados por Bóris Fausto não vieram acompanhados do aumento dos salários, o que gerou a insa- tisfação dos operários e provocou o aumento das greves e das manifestações contrárias à política econômica de Dutra. As correntes ideológicas representa- das pelos liberais – que defendiam o encaminhamento político e econômico de Dutra, baseado na abertura ao capital estrangeiro – e pelos defensores de um governo nacionalista – entre estes os membros do PCB – levaram as discussões ao extremo e contribuíram para que a perseguição aos comunistas se intensifi- casse (JAMBEIRO, 2004). O SEGUNDO GOVERNO VARGAS As eleições para escolher o sucessor de Dutra na presidência do Brasil deve- riam ocorrer em 1949, mas as articulações políticas começaram a desenhar-se já em 1947. Getúlio Vargas, após deixar a presidência em 1945 foi eleito Senador e procurou desfrutar de mandado discreto, participando pouco das discussões políticas do período que se seguiu ao fim do Estado Novo. A postura pouco evidente de Getúlio Vargas após 1945 não fora resultado de uma falta de compromisso político ou decepção com os acontecimentos que marcaram o fim do Estado Novo. Na verdade, Getúlio preparava-se para dispu- tar novamente as eleições e reassumir o comando do país, dessa vez pelas vias democráticas. Dessa forma, no período entre 1945 e 1950, Getúlio e seus aliados buscaram definir as estratégias que conduziriam sua campanha e desenvolver as estratégias para um novo governo. Embora a Constituição de 1946 defendesse a liberdade e a democracia, a caça do presidente Dutra aos comunistas exibia a contradição entre a teoria presente no texto constitucional e a prática social. Fonte: a autora. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E204 A política trabalhista adotada por Getúlio nos anos de seu primeiro governo garantiu o apoio dos trabalhadores. Além deste setor, era necessário conquistar a confiança de antigos desafetos e daqueles que não se beneficiaram do seu pri- meiro programa de governo. Além disso, era imprescindível mudar a imagem de ditador construída ao longo dos anos do Estado Novo e que não cabia na nova realidade do país ou mesmo do contexto internacional do pós Segunda Guerra. Para alcançar seu objetivo, Vargas fundamentou seu programa de governo no desenvolvimento e no bem-estar social. Além disso, firmou acordos e alianças com nomes importantes no cenário político como Góis Monteiro, o governa- dor de São Paulo, Ademar de Barros, Café Filho – que combateu o Estado Novo e fora membro da ANL – e as lideranças do PSD e do PTB. Conforme aponta Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, A estratégia de alianças de Vargas tinha um viés imediatista, era arris- cada, e cobraria dele um preço alto na hora de governar o país, mas a curto prazo funcionava: sua candidatura não se apresentou identificada cm um único partido e sim como uma fórmula suprapartidária que combinava novas e velhas lideranças políticas e regionais, e misturava os empresários interessados nos benefícios da industrialização com a força eleitora dos operários, dos trabalhadores e dos setores de baixa classe média, em expansão nas grandes cidades (SCHWARCZ; STAR- LING, 2015, p. 400-401). Com essa rede de apoio construída ao longo dos cinco anos que se manteve afas- tado do governo central, Getúlio Vargas venceu as eleições disputadas em 03 de outubro de 1950 com 48,7% dos votos. Dessa forma, Getúlio Vargas voltou a ocupar a cadeira de presidente da República no Brasil. O modelo político adotado por Vargas nesse segundo mandato rompia com o liberalismo e apostava no nacionalismo e no intervencionismo para promover a industrialização do país e o seu consequente progresso. Com esse programa de governo em mente, Getúlio montou uma equipe de governo com representantes dos diversos partidos políticos, a fim de garantir apoio e minar a oposição à sua eleição. Os que apoiavam o modelo nacionalista e intervencionista de Getúlio eram chamados de nacionalistas e os que eram contrários a esse modelo foram chamados de entreguistas (FAUSTO, 1995, p. 407). Essas eram as principais correntes ideológicas que Vargas precisou conciliar no seu segundo mandato. Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 205 Os nacionalistas entendiam que cabia ao Estado regular os investimentos e o desenvolvimento da economia do país, concentrando-se na ampliação dos seto- res petrolíferos – haja vista a dependência do Brasil dos produtores estrangeiros –, de siderurgia, de transporte e de alimentação, visando à autonomia do país e à limitação da entrada de capitais estrangeiros. Já os entreguistas defendiam a participação do capital estrangeiro como forma de promover o desenvolvi- mento econômico, o qual não dependia do avanço industrial, mas sim dessa aliança entre economia brasileira e capital estrangeiro (FAUSTO, 1995, p. 407). Fundamentado no nacionalismo, Vargas investiu na industrialização e criou a Petrobrás – projeto que tinha desde 1930 e que finalmente pôde concluir em 1954 –, a Eletrobrás – que entrou em funcionamento apenas em 1962 –, o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDE) e ampliou a capacidade de produção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda (JAMBEIRO, 2004, p. 151). Segundo Schwarcz e Starling (2015, p. 404), o modelo nacionalista de Getúlio Vargas entrou em crise já em 1952 motivado tanto pelas questões internas quanto externas do período. Internamente, as forças políticas que se aliaram a Vargas nas eleições de 1950 começaram a distanciar-se da figura do presidente e a ado- tar uma postura oposicionista. Externamente, a retirada do apoio financeiro norte-americano aos projetos brasileiros e a cobrança vinda do Banco Mundial pelos empréstimos feitos ao Brasil e já vencidos levou a um descontrole na eco- nomia brasileira que gerou o aumento da inflação, o aumento do custo de vida e a redução dos salários. A partir desse momento, o governo de Vargas passou a enfrentar uma série de movimentos operários que tinham por objetivo mostrar ao presidente que o apoio dos trabalhadores estava condicionado à manutenção das condições de vida e das prerrogativas trabalhistas. Para enfrentar a série de manifestações, de paralisações e de greves que ocorreram em todo o país naquele momento, Getúlio nomeou João Goulart como Ministro do Trabalho. A escolha de Jango para o Ministério do Trabalho intensificou a oposição a Getúlio, visto que a nomeação foi entendida como uma forma de manipular o movimento operário para justifi- car a instalação de uma república sindicalista, o que desarticularia o movimento sindical e o colocaria novamente sob a tutela do Estado. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.IVU N I D A D E206 Vargas passou a ser atacado mais efetivamente pela UDN e pela imprensa, cujo jornalista e deputado federal Carlos Lacerda era a maior expressão. Lacerda no início dos anos de 1930 era comunista e apoiou a candidatura de Luiz Carlos Prestes nas eleições para presidente da ANL em 1935. No entanto, ao longo dos anos passou a combater sua antiga ideologia transformando-se em um grande opositor do avanço comunista no Brasil (FAUSTO, 1995, p. 414). Lacerda nos anos de 1950 iniciou uma campanha contra o governo de Vargas e por meio de seus jornais, o Tribuna da Imprensa, exigia a renúncia do presidente, acusan- do-o de corrupção e de defender o comunismo. À campanha oposicionista da UDN, juntaram-se os oficiais do Exército, insatisfeitos com a desvalorização representada pela falta de investimentos na instituição. Ficava cada vez mais evidente para o presidente que as alianças cons- tituídas para garantir a vitória nas eleições de 1950 não se consolidaram e manter a estabilidade de seu governo tornava-se uma tarefa cada dia mais difícil. A crise política do governo de Vargas agravou-se com o atentado ao jorna- lista Carlos Lacerda em agosto de 1954, no qual morreu o major da Aeronáutica Rubens Vaz, que estava com Lacerda no momento do atentado. As acusações sobre o atentado e o assassinato do major recaíram sobre Getúlio, quando o chefe de sua guarda pessoal foi preso pelo crime (SKIDMORE, 2003). Esse evento representou o auge da crise do segundo governo de Vargas e abriu as bases para o afastamento do presidente. A oposição exigia a renún- cia de Getúlio sob a ameaça de um golpe militar. A resposta de Getúlio veio de maneira dramática. Na manhã do dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas sui- cidou-se com um tiro no peito. Deixou uma carta na qual culpava seus inimigos pela situação do país e pela sua morte. Manchete noticiando a morte de Getúlio Vargas Fonte: Portal Brasil (online). Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 207 Trecho da 1ª página da carta-testamento Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). O suicídio de Getúlio fez com que a popu- lação se comovesse com a sua morte e se colocasse contrária aos seus inimigos. Dessa forma, a morte de Getúlio foi um golpe para os planos de seus opositores, que não conseguiram derrubar a imagem deixada pelo presidente após sua morte. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E208 O GOVERNO DE JUSCELINO KUBITSCHEK E A POLÍTICA DOS “50 ANOS EM 5” Após o suicídio de Getúlio Vargas, o vice-presidente Café Filho assumiu a pre- sidência com o desafio de amenizar os efeitos da crise acentuada com a morte de Getúlio. Para isso, contou com o apoio da UDN, de onde saíram os políticos que compuseram o novo quadro ministerial. Café Filho também assegurou a realização das eleições presidenciais marcadas para outubro de 1955 (FAUSTO, 1995, p. 418). Para a disputa eleitoral de 1955, o PSD e o PTB lançaram a candidatura do ex-governador de Minas Gerais Juscelino Kubitschek para presidente e do ex-Mi- nistro do Trabalho João Goulart para vice-presidente. A UDN lançou como candidato o general Juarez Távora e o PSP apoiou a candidatura de Adhemar de Barros. Plínio Salgado concorreu à presidência pelo PRP. As eleições foram vencidas por Juscelino e Jango, o que desagradou a UDN, que elaborou um golpe para impedir a posse dos candidatos eleitos. Em meio a esse cenário político conturbado, o presidente Café Filho afastou-se do governo devido a problemas de saúde e em seu lugar assumiu o presidente da Câmera dos Deputados, Carlos Luz. O general Henrique Teixeira Lott, Ministro da Guerra, apoiado pelo Congresso, depôs Carlos Luz da presidência, que ficou sob o comando do vice-presidente do Senado, Nereu Ramos. A deposição de Carlos Luz e a ascensão de Nereu Ramos à presidência colo- cou o país em estado de sítio, situação que impedia Café Filho de retornar ao posto de presidente da República. Essa manobra política, conhecida como golpe preventivo, orquestrada pelo general Lott com apoio dos oficiais do Exército, garantiu a posse dos candidatos eleitos Juscelino Kubitschek e João Goulart. Juscelino foi eleito com um percentual baixo, se comparado à aprovação conquistada por Getúlio Vargas no seu segundo governo (49%) e por Eurico Gaspar Dutra em 1945 (55%). Isso demonstrou que o novo presidente não era consenso entre a população e que teria que adotar uma postura cautelosa para superar a desconfiança e enfrentar a forte oposição de seus adversários políticos. Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 209 O slogan da campanha política de Juscelino Kubitschek era “50 anos em 5”, ou seja, sua meta era investir no desenvolvimento econômico para levar o Brasil progredir 50 anos em apenas 5. Sua meta era audaciosa, visto a evolução econô- mica do país nos últimos anos, e para alcançá-la ele criou o Plano de Metas, que visava acelerar o desenvolvimento de vários setores da economia brasileira, por meio da união do Estado e dos setores privados, que promoveria a aceleração da industrialização e a construção da infraestrutura para sustentá-la (SKDIMORE, 2003, p. 203). Segundo Recco (2010, p. 94), o Plano de Metas de Kubitschek “deveria elimi- nar os principais pontos de estrangulamento do sistema econômico brasileiro”, possibilitando o avanço dos setores de “energia, transportes, alimentação, indús- trias de base e educação”. Além disso, o Plano de Metas estabelecia a construção de uma nova capital para o país e sede do governo central, a cidade de Brasília. Plano de governo de Juscelino Kubstchek Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E210 A intenção de Juscelino era, além de promover o progresso do Brasil, derrotar a oposição ao seu governo promovendo o crescimento e o desenvolvimento de todos os setores. Para tanto, criou ou substituiu entidades e instituições públicas que representavam obstáculos à execução de seus planos. Com esses objetivos, Juscelino criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e valorizou o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Além disso, Juscelino deixou sob a responsabilidade do economista Celso Furtado o desenvolvimento de um trabalho conjunto entre o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE) e a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) com a finali- dade de elaborar as diretrizes do programa de desenvolvimento a ser implantado no Brasil. Com seu Plano de Metas, Juscelino conseguiu fazer com que o setor indus- trial brasileiro crescesse de maneira vertiginosa entre 1956 e 1960. No entanto, se por um lado esse desenvolvimento, coroado com a inauguração de Brasília em 1961, obteve resultados satisfatórios, por outro lado esse crescimento indus-trial também trouxe consequências negativas para o país. Nos cinco anos de governo JK, a inflação voltou a crescer chegando a 30%, o poder aquisitivo dos trabalhadores urbanos diminuiu e a concentração fundiária e de rendas agra-vou a situação dos trabalhadores rurais (RECCO, 2010, p. 95). “A expressão nacional-desenvolvimentismo, em vez de nacionalismo, sinte- tiza pois uma política econômica que tratava de combinar o Estado, a em- presa privada nacional e o capital estrangeiro para promover o desenvolvi- mento, com ênfase na industrialização”. Fonte: FAUSTO (1995, p. 427). Enfim Democracia? As EsperançasRenovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 211 Para conseguir estabilizar a economia e equilibrar os contrastes resulta- dos do seu Plano de Metas, Juscelino considerou recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o que gerou grande insatisfação da oposição, que o acu- sou de subordinar o desenvolvimento do Brasil aos interesses norte-americanos. Diante da oposição ao acordo entre o Brasil e o FMI e já preocupado com os rumos da sucessão presidencial, em 1959, Juscelino decidiu romper com o FMI, mesmo que esse rompimento colocasse em risco a continuidade de seus ideais desenvolvimentistas. A decisão garantiu a ele o apoio do PTB, da ala esquerda, do Exército e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FAUSTO, 1955, p. 435-436). “Criado em 1946 como agência especializada da ONU, o FMI é constituí- do por um conjunto de Estados membros que contribuem com uma cota correspondente a seu potencial econômico. Seus objetivos expressos são promover a cooperação monetária internacional, a expansão do comércio e a estabilidade cambial; prestar assistência provisória aos Estados- membros em dificuldades em seu balanço de pagamentos. Em si mesmo, o FMI não dispõe de grandes recursos, mas tem papel fundamental como auditor, que dá sinal verde ao vermelho aos credores públicos e privados no tratamen- to com os países devedores. O sinal verde significa a possibilidade de que grandes bancos americanos, europeus e japoneses, assim como seus gover- nos, concedam a um determinado devedor, novos créditos, novos prazos de pagamentos de juros e do principal, financiamento para exportações e importações, etc”. Fonte: Fausto (1995, p. 434). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E212 O BREVE GOVERNO DE JÂNIO QUADROS Juscelino Kubitschek encerrou seu mandato em 1961 e o seu sucessor foi Jânio Quadros, eleito com o apoio da UDN e com João Goulart novamente como vice- -presidente. Segundo Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, a campanha presidencial de Jânio Quadros fundamentava-se em [...] ataques à corrupção, à inflação, à alta do custo de vida, ao desperdí- cio de dinheiro com as obras monumentais de Brasília, acompanhados de promessas de crescimento econômico, austeridade pública e conten- ção de gastos. Jânio jamais explicou de maneira convincente como iria superar os limites do governo de Kubitschek ou atacar os problemas fundamentais ao desenvolvimento brasileiro. Sua mensagem era anti- política. Ele se apresentava como um candidato acima dos partidos, e expressava profundo desdém pelos políticos tradicionais e por seu estilo de atuação (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 429). Com esse discurso, Jânio Quadros conquistou a população e elegeu-se presidente com 48% dos votos, derrotando seu adversário, o general Lott. Ao assumir a pre- sidência, tinha o desafio de consolidar as promessas feitas durante a campanha e conciliar os interesses dos diversos setores e partidos políticos, desafios para os quais mostrou que não estava preparado. Jânio iniciou seu mandato criticando publicamente o governo de Juscelino e responsabilizando-o pela crise econômica, moral e social pela qual o país passava, irritando, dessa maneira, os parlamentares de oposição e que haviam partici- pado ativamente dos eventos que marcaram a política econômica do governo Juscelino (LOUREIRO, 2009, p. 190). Além da falta de habilidade para lidar com o cenário político e firmar alian- ças para conseguir colocar em prática seus projetos de governo, Jânio Quadros teve inabilidade administrativa enquanto esteve no comando da presidência do Brasil. De acordo com Schwarcz e Starling (2015, p. 431), “Jânio era político de província. Conhecia mal as lideranças partidárias nacionais, e desdenhou da pos- sibilidade de montar uma base parlamentar própria, embora seu governo não tivesse maioria no Congresso”. Com sua postura política pouco inclinada para a democracia e que enxergava a Constituição de 1946 um obstáculo para o seu pleno exercício da presidência, Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 213 Jânio entrou em conflito com o Congresso, com setores da sociedade e com o próprio vice-presidente João Goulart. Todos esses conflitos poderiam ser evita- dos ou superados se Jânio Quadros abrisse espaço para o diálogo. O que nunca aconteceu. Um dos episódios mais polêmicos do governo de Jânio Quadros foi a con- decoração do ministro da Economia cubana, Ernesto Che Guevara, em agosto de 1961. Externamente, a condecoração colocou o Brasil na mira dos Estados Unidos, que suspeitava de uma tendência à aproximação entre o Brasil e Cuba. Internamente, o gesto de Jânio irritou a UDN e o Exército. Mesmo Carlos Lacerda, agora governador da Guanabara e que havia comandado o apoio da UDN à candidatura de Jânio Quadros, considerou que a atitude do presidente feria os interesses brasileiros e condenou sua intenção de estabelecer acordos com os países comunistas (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 433). Diante da crescente oposição à sua forma de governo e sem condições de reverter a situação por meio de diálogos e acordos partidários, no dia 25 de agosto de 1961, o então presidente comunicou aos ministros militares que estava deixando o comando do país e que eles deveriam organizar uma junta para governar o país. A CONSTRUÇÃO DO GOLPE DE 1964 Com a renúncia de Jânio Quadros, o vice-presidente João Goulart deveria assumir a presidência. Jango encontrava-se ausente do Brasil durante esses aconteci- mentos, pois estava em visita à China, país comunista. Durante sua ausência, o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzili assumiu provisoria- mente a presidência. Por conta do passado político de Jango, ao longo do qual fora construída a ideia que ele ansiava colocar em prática uma república sindicalista, desde os tempos em que era Ministro do Trabalho do segundo governo de Getúlio Vargas (1950-1954), a sua posse como presidente da República não era bem vista, sobretudo pelos militares. Além disso, o fato dele estar em viagem para um país comunista abriu caminho para associar seu governo à possibilidade dos comu- nistas chegarem ao poder no Brasil. A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E214 Contra a manifesta intenção dos militares de impedir a posse de Jango, ergueu-se o um movimento contrário aos militares liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. O movimento tinha apoio de uma parte do Exército rio-grandense e incitava a população como um todo a mobilizar-se contra o golpe militar (REIS FILHO, 2014, p. 30-31). A conjuntura política do Brasil tomou ares de guerra civil, o que de fato não chegou a acontecer, uma vez que foi estabelecida uma negociação entre as forças lideradas por Brizola e os militares a qual resultou em uma mudança no sistema do governo central brasileiro. A partir desse momento o parlamentarismo subs- tituía o presidencialismo e garantia a presidência à João Goulart, que governaria com poderes limitados, uma vez que, pelo parlamentarismo, o Poder Executivo seria exercido de fato por um primeiro-ministro. Jango tomou posse em 07 de Setembro de 1961 e durante o seu governo os movimentos populares se intensificaram, com a organização dos trabalhadores rurais, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e com o maior envolvimento da igreja nas questões políticas e sociais. Diante desse cenário, elaborou-se as Reformas de Base, que abrangiam as discussões sobre reformaagrária, reforma urbana, reforma eleitoral, reforma do estatuto do capital estrangeiro e a reforma universitária. Para garantir a aprovação do seu programa de reformas e conseguir colocá- -lo em prática, Jango precisava recuperar os plenos poderes de presidente. Em 1963 aconteceu um plebiscito para decidir entre a continuidade do sistema par- lamentar ou a volta ao presidencialismo. A opção presidencialista saiu vencedora e Jango recuperou o direito de exercer a presidência de forma plena. A partir da divulgação do programa de reformas de base instalou-se um for- te debate na sociedade. Para saber mais sobre o reformismo do governo Jango, acesse o conteúdo disponível em: <https://cpdoc.fgv.br/producao/ dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/As_reformas_de_base>. Acesso em: 01 jun. 2015. Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 215 Com os poderes presidenciais recuperados, Jango, com a ajuda do seu minis- tro do Planejamento Celso Furtado, elaborou o Plano Trienal, o qual tinha por objetivo restabelecer o equilíbrio econômico do país. Entretanto, o Plano Trienal foi rejeitado por todos os setores da sociedade e acabou sendo deixado de lado. Desde então, João Goulart não tinha mais um plano de governo e o país encon- trava-se mergulhado no caos (REIS FILHO, 2014, p. 36). A postura de João Goulart após o fracasso do Plano Trienal representou uma mudança na sua política conciliatória, adotada desde o início de seu governo. Jango optou por fazer valer seus poderes de presidente e levar o programa de reformas adiante, mesmo sem o apoio do Congresso ou da sociedade. A radica- lização de Jango acirrou as críticas ao seu governo e fez crescer o movimento que desejava sua saída do cargo de presidente do Brasil. O avanço do comunismo e do socialismo na América Latina também contribuiu para o desgaste da imagem de João Goulart, sempre associado ao ideal comunista. No dia 19 de março de 1964, qua- tro dias após um comício realizado pelo presidente no Rio de Janeiro, no qual anunciou o início do plano reformista, realizou-se em São Paulo a primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada pelas associações das senhoras católicas ligadas à Igreja conservadora, apoiadas pelos setores de direita alvoroçados por conta das agita- ções políticas (REIS FILHO, 2014, p. 41). Campanha pela restauração dos plenos poderes ao presidente da República Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E216 A crise do governo de Jango agravou-se quando um acontecimento envol- vendo a Marinha e as forças do Exército criou uma divisão nas forças militares. A Associação dos Marinheiros há tempos organizava-se para combater a des- valorização da profissão e, em 24 de março de 1964. o Ministro da Defesa Silvio Mota mandou prender os dirigentes da associação sob a acusação de indisci- plina e insubordinação. No dia seguinte à ordem de prisão, os marinheiros e os dirigentes da asso- ciação reuniram-se para comemorar o aniversário da instituição e elaborar novas reivindicações. O ministro solicitou a ajuda do Exército para reprimir o movi- mento, que acabou chegando a um acordo com os marinheiros, apaziguando a situação. O ministro Silvio Mota não gostou do resultado das negociações e entregou o cargo, para o qual Jango nomeou o brigadeiro Paulo Rodrigues que, ao determinar que os marinheiros não seriam acusados ou punidos por insubor- dinação, contrariou os oficiais das altas patentes da Marinha que o acusaram de incentivar a rebeldia e a falta de respeito à hierarquia (FAUSTO, 1995, p. 460). Com esse acontecimento, Jango possibilitou o aprofundamento da oposi- ção do Exército em relação ao seu governo. A essa altura, diante das conjunturas apresentadas, o golpe para afastar João Goulart da presidência da República já se encontrava amplamente articulado. Na madrugada de 31 de Março de 1964, o general Mourão Filho deslocou as tropas sob seu comando de Minas Gerais para o Rio de Janeiro com o objetivo de ocupar o Ministério da Guerra e depor o presidente (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 446). As tropas de Mourão Filho não encontraram resistência. João Goulart havia deixado o Rio de Janeiro com destino a Porto Alegre e seus aliados ou os que não concordavam com um golpe militar também não organizaram uma estratégia de defesa. No dia 2 de Abril, o presidente do Senado Auro de Moura Andrade decla- rou, em sessão secreta no Congresso Nacional, que a presidência da República estava vaga. Era o fim do governo de João Goulart e o fim das liberdades demo- cráticas do país. Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da Ditadura Militar no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 217 Notícia do jornal O Lince sobre a deposição de João Goulart Fonte: Brandão (online). A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E218 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caros(as) alunos(as), nesta unidade debatemos um período importante na histó- ria do Brasil e que nos permite repensar a trajetória política do país, dispensando uma maior atenção às discussões relacionadas com o exercício da democracia ao longo da formação do país. Nos trinta e quatro anos de história política brasileira abordada nesta unidade (1930-1964), vimos como os direitos dos cidadãos brasileiros foram manipula- dos de acordo com os interesses de figuras políticas como Getúlio Vargas, que usou da situação difícil em que vivia a maioria da população brasileira no iní- cio dos anos de 1930 para articular uma estratégia de governo que garantisse a sua permanência no poder quase vinte anos, somados os dois períodos em que esteve na presidência do Brasil. Dono de um discurso que conquistou os setores mais baixos da sociedade e fundamentando-se em uma política populista – que na verdade diz mais sobre sua vontade de permanecer no poder do que sobre sua verdadeira preocupação com a população –, Getúlio deixou sua marca na história política do país ao tirar a própria vida em 1954 e levar a população a chorar sua morte como se fosse a morte de um ente próximo e querido. Ao que parece, para os menos comprometidos com os discursos e com as análises históricas, ao suicidar-se Getúlio redimiu-se de seu passado ditador deixando na lembrança a imagem do “pai dos pobres”. No entanto, lembrem- -se caro(a) estudante, nós, enquanto historiadores e professores de história, nos preocupamos com os discursos e as análises e, portanto, devemos ir além da imagem deixada por Vargas após a sua morte. Com isso em mente, podemos compreender melhor as heranças deixadas por Getúlio e que influenciaram os rumos políticos nos anos seguintes à sua morte. Anos que trouxeram a renovação da esperança ao mesmo tempo em que cria- ram as condições para que o Brasil mergulhasse nos anos de terror da ditadura militar, instalada a partir do golpe de 1964 que acabamos de estudar. Os 21 anos que marcaram o período da ditadura militar no Brasil será o assunto de nossa próxima unidade. 219 1. Em 1930 o Brasil passava por um momento conturbado, influenciado – além do contexto interno – pelos acontecimentos internacionais. O fim da Primeira Guer- ra Mundial, o avanço das ideias socialistas e a crise norte-americana de 1929 afe- taram de maneira considerável os países europeus e o Brasil. Após a leitura desta unidade, estabeleça a relação entre a crise econômica desencadeada com a quebra da bolsa de Nova Iorque e a crise nos setor agrário-exportadorbrasileiro. 2. Em 1937 Getúlio Vargas deu um golpe de Estado e decretou o início do Estado Novo. Descreva de maneira sucinta o que os anos em que o Estado Novo esteve vigente significaram para a democracia brasileira. 3. A postura pouco evidente de Getúlio Vargas após 1945 não fora resultado de uma falta de compromisso político ou decepção com os acontecimentos que marcaram o fim do Estado Novo. Na verdade, Getúlio preparava-se para dispu- tar novamente as eleições e reassumir o comando do país, dessa vez pelas vias democráticas. Dessa forma, no período entre 1945 e 1950, Getúlio e seus aliados buscaram definir as estratégias que conduziriam sua campanha e desenvolver as estratégias para um novo governo. Leia as alternativas abaixo referentes ao segundo governo de Getúlio Vargas e assinale a alternativa correta. a) Após 1945 Getúlio Vargas afastou-se do cenário político brasileiro devido ao des- contentamento com os rumos que o país estava tomando. Seu retorno em 1950 foi possível mediante um acordo entre ele e seus opositores, que lhe garantiu o exercício de um governo nos mesmo moldes do Estado Novo. b) Entre 1950 e 1954 Getúlio Vargas não enfrentou grandes oposições ao modelo político-econômico implantado, uma vez que o presidente conseguiu conciliar os interesses dos nacionalistas e dos entreguistas. c) Como tinha conseguido conquistar o apoio do movimento dos trabalhadores ao longo do primeiro governo (1930-1945), Getúlio não teve dificuldades em lidar com a base operária na sua segunda previdência, evitando conflitos e greves. d) O modelo político adotado por Vargas nesse segundo mandato rompia com o liberalismo e apostava no nacionalismo e no intervencionismo para promover a industrialização do país e o seu consequente progresso. e) Getúlio Vargas encerrou precocemente seu segundo mandato por acreditar que dessa forma seus ideais políticos seriam levados adiante, uma vez que seus opo- sitores teriam que enfrentar as forças populares para promover as mudanças que desejavam. 4. Com o fim do Estado Novo acreditava-se que o país enfim gozaria da liberdade e a democracia poderia finalmente florescer no Brasil. Leia as alternativas abaixo sobre os anos que se seguiram ao fim do Estado Novo e em seguida assinale a alternativa que representa a resposta correta. I. Juscelino Kubitschek foi eleito com um percentual baixo, o que demonstrava que o novo presidente não era consenso entre a população e que teria que ado- tar uma postura cautelosa para superar a desconfiança e enfrentar a forte oposi- ção de seus adversários políticos. II. Kubitschek elaborou o Plano de Metas, que visava acelerar o desenvolvimento de vários setores da economia brasileira, por meio da ampliação da participação estrangeira nas atividades econômicas no país. III. Jango tomou posse em 1961 e elaborou as chamadas Reformas de Base, que abrangiam as discussões sobre reforma agrária, reforma urbana, reforma eleito- ral, reforma do estatuto do capital estrangeiro e a reforma universitária. IV. A postura de João Goulart após o fracasso do Plano Trienal representou uma mudança na sua política conciliatória, adotada desde o início de seu governo. 5. Estão corretas as alternativas: a) I. b) II e IV. c) I e III. d) III. e) I, III e IV. 221 A EXPRESSÃO CULTURAL NO ESTADO NOVO A Cultura era entendida como assunto de Estado, e a ditadura fez uso disso para se apro- ximar de escritores, jornalistas e artistas. Entre o ministério Capanema e o DIP abriu-se um mercado de cargos destinados a intelectuais que desejassem se inserir nos espaços privilegiados do serviço público, e formou-se uma larga roda de convívio entre intelectu- ais e artistas e o núcleo decisório do governo. Ainda que alguns entre eles antagonizas- sem, com sua produção, a ordem estabelecida, uma expressiva parcela dos intelectuais brasileiros ao centro, à direita e à esquerda do espectro político aceitou demandas que lhe faziam as agências do Estado Novo: poetas, como Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Rosário Fusco e Menotti Del Picchia; intelectuais, como Gilberto Freyre, Alceu Amoroso Lima, Nelson Werneck Sodré; ou escritores, como Graciliano Ramos. É bem verdade que havia uma vontade de transformação atravessan- do o campo da cultura e projetando, em escala nacional, uma estética, uma imaginação e um pensamento que já não estavam circunscritos aos regionalismos. O Estado Novo forneceu régua e compasso a esse esforço de construção de uma nacionalidade triun- fante, sustentada, numa ponta, pela crença na autenticidade da cultura popular e, na outra, pela mistura heterogênea de elementos culturais originários de várias regiões do país. Um turbante de baiana aqui, ali um pandeiro ou um tamborim pinçados do morro carioca, acolá um toque de berimbau e um passo de capoeira, mais adiante um mulato de voz macia que resume todos os brasileiros – ao sul do equador nada é puro, e tudo estaria misturado. Na representação vitoriosa dos anos 1930, o brasileiro nasce, portan- to, onde começa a mestiçagem. A mistura deixou de ser desvantagem para tornar-se elogio, e diversas práticas regionais associadas ao popular – na culinária, na dança, na música, na religião – seriam devidamente desafricanizadas, por assim dizer. Transfor- madas em motivo de orgulho nacional, foram aclamadas, e são até hoje, consideradas, marcas da originalidade cultural do país. Fonte: Schwarcz e Starling (2015, p. 378). MATERIAL COMPLEMENTAR Título: Golpe Militar 1964 - Documentário Sinopse: O documentário aborda o desenvolvimento do golpe de 1964 que afastou o presidente João Goulart e instalou o regime militar no Brasil, analisando o apoio dos Estados Unidos na consolidação do golpe, enfatizando suas razões e as consequências do período da ditadura militar no Brasil. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=UqgpnC42Caw>. Acesso em: 13 jul. 2015. Título: 1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs fi m ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil. Autor: Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes Editora: Civilização Brasileira Sinopse: O livro discute o processo desencadeado com a chegada de Jango à presidência do Brasil e a pressão militar para impedir a sua posse. Elaborado de maneira clara e objetiva, a obra permite a compreensão por parte do grande público dos acontecimentos que levaram à instalação do regime militar no Brasil. Título: Olga Ano: 2004 Direção: Jayme Monjardim Sinopse: O fi lme retrata a vida de Olga Benário, que nasceu na Alemanha e tornou-se militante comunista. Ao ser perseguida pelas forças de Hitler, fugiu para Moscou, onde recebeu treinamento militar e recebeu a missão de acompanhar o brasileiro Luiz Carlos Prestes de volta ao seu país. No Brasil, lutam contra o governo de Getúlio Vargas e planejam a Intentona Comunista, ao mesmo tempo em que se envolvem e se casam. A história aborda aspectos da vida da militante comunista no Brasil, destacando aspectos importantes do momento histórico vivido pelo Brasil durante o Governo de Getúlio Vargas. U N ID A D E V Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira OS ANOS DE CHUMBO: A DITADURA MILITAR NO BRASIL E O LONGO PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar os anos iniciais da ditadura militar e o desenvolvimento do aparato administrativo militar. ■ Discorrer criticamente acerca das medidas autoritárias adotadas pelo regime militar a partir da fase de “endurecimento” do regime. ■ Debater sobre a organização dos diversos setores da sociedade na luta contra a ditadura, analisando as formas de resistência à repressão e à adoção da tortura. ■ Analisar o desenvolvimento do processo de redemocratização do país e a sua organização pós-ditadura. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ A consolidação do golpe de 1964 e a organização do Estado militar ■ O “endurecimento” do regime e a resistência popular: manifestações eorganizações populares contra a repressão ■ As esperanças renovadas: o longo caminho da redemocratização do país INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), chegamos em um momento muito rico da história do Brasil, rico porque nos permite conhecer a fundo o período onde a supressão dos direitos civis, das liberdades e da democracia atingiu seu ápice. Como vimos na unidade anterior, durante os anos de 1937 e 1945, sob o comando de Getúlio Vargas, o Brasil também estava sob um regime ditatorial. No entanto, o que ocorreu no Brasil a partir de 1964 deixou marcas na sociedade que jamais serão esquecidas e que não devem ser esquecidas. Ao longo deste livro vimos como o Brasil buscou construir uma identidade após a ruptura com Portugal em 1822. Desde esse momento, os brasileiros luta- ram para conquistar o reconhecimento enquanto cidadãos e terem seus direitos respeitados. Vimos que, durante muito tempo, as vozes dos que não estavam no poder foram caladas por meio da repressão e da coação, sendo eles impedidos até mesmo de escolher livremente seus representantes nas esferas municipais, estaduais e federal. A organização dos setores populares demorou a ser construída e demorou-se mais ainda para que esses setores tivessem seus direitos e interesses defendidos e respeitados por aqueles que estavam no poder. Por vários momentos, só foram levados em consideração no contexto político e econômico quando vistos como manipuláveis e úteis aos interesses alheios. Quando os brasileiros à margem do poder alcançaram notabilidade e pude- ram fazer parte de fato do contexto político e econômico do país, quando tiveram seus direitos de cidadãos respeitados e quando puderam, enfim, debater e com- preender o sentido das palavras liberdade e democracia, um novo golpe provocou mudanças profundas na sociedade e, mais uma vez, os brasileiros viram essas palavras perderem seus sentidos e significados. Os 21 anos em que o país esteve sob o comando dos militares devem ser lembrados e analisados a fundo para que os erros do passado não se repitam. Porque, caro(a) aluno(a), a ditadura militar fez com que os brasileiros enten- dessem o real significado da liberdade e da democracia, uma vez que lhes fora proibido até mesmo pensar por si próprios, sob o risco de serem submetidos a castigos que feriram o corpo e a alma. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 225 OS ANOS DE CHUMBO: A DITADURA MILITAR NO BRASIL E O LONGO PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E226 A CONSOLIDAÇÃO DO GOLPE DE 1964 E A ORGANIZAÇÃO DO ESTADO MILITAR O Exército nas ruas durante o regime militar Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online). Após o golpe que tirou João Goulart do comando do Brasil, o que se esperava era o estabelecimento de um governo provisório até a realização das próximas eleições, marcadas para 1965. Ninguém imaginava que o que aconteceria era a instalação de um regime político que duraria 21 anos e seria baseado na supres- são dos direitos constitucionais, das liberdades políticas e civis e da democracia. Nem mesmo os que apoiaram o golpe esperando conter a “ameaça comunista” poderiam imaginar a realidade que seria imposta ao país a partir daquele 31 de Março de 1964. É inegável que o golpe militar e civil foi empreendido sob bandeiras de- fensivas. Não para construir um novo regime. O que a maioria desejava era salvar a democracia, a família, o direito, a lei, a Constituição, enfim, os fundamentos do que se considerava uma civilização ocidental cristã. Do ponto de vista das Forças Armadas, tratava-se de garantir a hierar- quia e a disciplina, ameaçadas pelos protestos crescentes de graduados e de marinheiros. Finalmente, outra referência acionada com boa acei- tação, em especial entre as classes médias, era o combate à corrupção, pervasiva, segundo os conservadores, desde os últimos anos JK (REIS FILHO, 2014, p. 48). A Consolidação do Golpe de 1964 e a Organização do Estado Militar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 227 Quando Moura Andrade declarou vaga a presidência da República, o próprio exército ainda não havia definido por completo as novas direções políticas do país. Os que já sabiam, já haviam planejado que essa nova diretriz não incluía a participação popular. De acordo com Élio Gáspari, A unidade militar proclamada sobre os escombros do governo Goulart era tão falsa quanto aquela que Golbery oferecera no texto de seu mani- festo na manhã de 1º de abril. Contudo, se os generais podiam divergir a respeito de muitas coisas, numa estavam de acordo: dispunham-se a utilizar a força contra o que restava do governo civil. Queriam isso não só porque achavam necessário o expurgo – “limpeza da casa”, como diziam –, mas também porque ele se transformaria imediatamente em fonte de poder e legitimidade burocrática (GÁSPARI, 2014, p. 121). Os militares, assim que assumiram o comado do país, adotaram medidas que tinham por objetivo limitar e até eliminar as entidades e as manifestações con- trárias ao novo regime. Desse modo, para garantir a vitória do golpe iniciado em março de 1964 e as realizações pretendidas pelo novo regime, era necessário controlar o Congresso Nacional e reduzir a força da oposição no âmbito polí- tico. Para tanto, em 09 de Abril de 1964, ou seja, quase imediatamente à tomada do poder, foi anunciado o Ato Institucional número 1 (AI-1). Entre os que apoiaram o golpe que tirou João Goulart da presidência esta- vam os liberais conservadores – corrente formada por Carlos Lacerda, Ma- galhães Pinto, a UDN, a imprensa jornalística representada pelos jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e o Correio da Manhã e os que defen- diam a retomada da vocação agrária do país –, os legalistas e os nacional- -estadistas. Fonte: Reis Filho (2014). Ato institucional foi decretado Fonte: Univesp TV (online) Para você, qual é o sentido da palavra revolução? Fonte: a autora. OS ANOS DE CHUMBO: A DITADURA MILITAR NO BRASIL E O LONGO PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E228 O AI-1 foi elaborada por Carlos Medeiros Silva – o mesmo homem que redi- giu e revisou a Constituição de 1937 – e continha onze artigos que, em síntese, limitava o poder e a autonomia do Congresso Nacional, além de conceder ao presidente da República poderes para cassar mandados e suspender os direitos políticos de qualquer político brasileiro pelo prazo de dez anos (GÁSPARI, 2014, p. 124-125). Talvez o ponto mais significativo da instituição do AI-1foi a nome- ação de uma junta composta pelas lideranças das forças militares do país para assu- mir o Comando Supremo da Revolução. Com esse ato, o golpe adquiriu cará- ter revolucionário, o que trazia implícito a suprema- cia da Revolução no poder sobre os demais órgãos e ins- tituições do país, inclusive, a Constituição (REIS FILHO, 2014, p. 51). A Consolidação do Golpe de 1964 e a Organização do Estado Militar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 229 Além da restrição do poder e da autonomia do Congresso Nacional, o novo regime impôs uma forte repressão aos movimentos sociais de oposição. Em 1º de abril de 1964, os militares incendiaram a sede da União Nacional dos Estudantes no Rio de Janeiro e colocaram a organização estudantil na clandestinidade. A ilegalidade da UNE foi apenas uma das medidas tomadas pelo regime militar a partir de 1964 para controlar a oposição. No decorrer dos primeiros meses do novo regime, uma série de leis foram criadas a fim de subordinar os movimentos populares ao governo central.No caso do movimento estudan- til, no lugar da UNE, foram criados os Diretório Nacional de Estudantes e os Diretórios Estaduais de Estudantes. Esses órgãos estavam sujeitos a um estatuto definido pelo governo central, o qual tirou deles o caráter de movimento político e os reduziam às atividades administrativas e à promoção de eventos recreativos. Dessa forma, o movimento estudantil perdia sua essência e identidade. O mesmo aconteceu com o movimento trabalhista. Os sindicatos não foram extintos, mas passaram à tutela do Estado, a exemplo do que já ocorrera em outros momentos da história política do Brasil. Uma lei de 1º de junho de 1964 regula- mentou o direito de greve no país, considerando ilegais as greves do setor público e/ou que tivessem um caráter político, religioso ou social. Com isso, restringiu- -se significativamente o poder de organização dos trabalhadores, obrigando-os a submeter-se às medidas políticas e econômicas que, por diversas vezes, mos- traram-se desfavoráveis a esse setor da sociedade. O instrumento que legitimava as ações repressivas do novo governo era representado pelos Inquéritos Policiais Militares (IPM), responsáveis pela inves- tigação dos casos de subversão ao regime. Por meio dos IPM, inúmeras pessoas foram perseguidas, presas e torturadas já no início do governo militar. A tortura foi o meio pelo qual os militares que estiveram no comando do país no período da ditadura militar buscaram reprimir as manifestações contrárias ao modelo político implantado. Voltaremos a discutir esse instrumento da administração militar em momento oportuno. OS ANOS DE CHUMBO: A DITADURA MILITAR NO BRASIL E O LONGO PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E230 O AI-1 estabelecia que um novo presidente deveria ser eleito por meio do voto indireto do Congresso Nacional e para um mandato que iria até janeiro de 1966. Em 11 de abril de 1964, o Congresso – já rechaçado devido às cassações realizadas após a instituição do AI-1 – elegeu para presidente o general Castelo Branco, o qual, no entender dos que comandavam a “revolução”, personificava os interesses tanto dos militares quanto das correntes civis que apoiaram o golpe. Conforme destaca Daniel Aarão, Castelo Branco Fora chefe do Estado-Maior do Exército, nomeado por Jango, porém notabilizara-se pela firmeza com que combatera a radicalização do reformismo nacional-estatista, consolidando prestígio entre os pares. Ex-oficial da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, colega apreciado e amigo de militares estadunidenses, ninguém tinha dúvida sobre seu decidido anticomunismo. Por outro lado, considerado um militar culto e civilista na tradição dos militares-políticos, tão típica da República brasileira, dispunha de trânsito e conexões com o Ipês e entre políticos e empresários de diferentes orientações (REIS FILHO, 2014, p. 53). Castelo Branco foi o responsável por criar as bases que fundamentaram o apare- lho estatal durante o governo dos militares. Ao assumir a presidência, prometeu respeitar a Constituição – com as modificações impostas pelo AI-1 – e realizar as eleições presidenciais marcadas para 1965 (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 448). As promessas não foram cumpridas e o que se assistiu durante o governo de Castelo Branco foi o prelúdio de reformas políticas que durante o longo perí- odo do militarismo no Brasil levaram ao extremo o domínio sobre os indivíduos. A criação do Serviço Nacional de Informação (SNI), criado originalmente para investigar as denúncias de torturas dos “inimigos do regime”, foi, talvez, o pri- meiro órgão de manipulação da verdade e de controle dos cidadãos, uma vez que serviu de instrumento para perseguições e prisões arbitrárias. O programa político de Castelo Branco refletia os interesses de parte daque- les que participaram da derrubada de Jango. Esse programa político foi um dos motivos para a elevação da insatisfação dos setores ligados à radicalização do regime. Conforme aponta Daniel Aarão, O seu internacionalismo pretendia romper com as ambições autono- mistas do nacional-estatismo, propondo um alinhamento estratégico com os Estados Unidos. Tratava-se de integrar o Brasil no chamado A Consolidação do Golpe de 1964 e a Organização do Estado Militar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 231 mundo ocidental, reconhecendo a liderança desempenhada por Tio Sam. Ao mesmo tempo, o seu liberalismo queria promover uma re- dução drástica do Estado e uma abertura radical aos fluxos do capital internacional, revogando as limitações políticas e econômicas formula- das pelo governo deposto (REIS FILHO, 2014, p. 55). Para resolver os problemas econômicos herdados do governo de Jango e que se prolongavam por anos devido ao insucesso dos planos econômicos adotados pelos últimos governos, o presidente Castelo Branco adotou um programa denominado de Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), que seria coordenado pelos Ministros da Fazenda Otávio Gouveia de Bulhões e do Planejamento Roberto Campo. O PAEG tinha por base o objetivo de “reformar o sistema econômico capitalista, modernizando-o como um fim em si mesmo e como forma de conter a ame- aça comunista” (FAUSTO, 1995, p. 470). Dentre as medidas estabelecidas pelo PAEG para a estabilização da economia brasileira, encontravam-se “cortes de gastos públicos, contenção do crédito, arrocho dos salários” (REIS FILHO, 2014, p. 55). Além disso, um dos pontos-chave do programa de Campos e Bulhões foi o incentivo às exportações, o que contribuiu para o desenvolvimento produtivo do Brasil (FAUSTO, 1995, p. 470-471). Foi no governo de Castelo Branco que foi criado o Fundo de Garantia por tempo de Serviço, um instrumento usado para substituir o sistema de esta- bilidade no emprego para aqueles que permanecessem num mesmo em- prego por mais de dez anos. A criação do FGTS teve por objetivo aliviar as despesas das empresas e liberar o capital empregado para respeitar a regra de estabilidade para que fosse usado na modernização das empresas. Fonte: adaptado de Reis Filho (2014). OS ANOS DE CHUMBO: A DITADURA MILITAR NO BRASIL E O LONGO PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E232 Essas medidas, embora inicialmente tenham causado o aumento do custo de vida e a contenção dos salários, contribuíram para que a economia brasileira avançasse, superando, ao menos em parte, os problemas deixados pelos gover- nos anteriores, como a alta da inflação que, no governo de Castelo, começou a retroceder. Uma parte dos que participaram do golpe de 1964 não estava satisfeita com a política desenhada por Castelo Branco, considerada por estes como uma pos- sibilidade de os que se declararam contra o regime militar conseguir derrubar o governo e assumir o poder, sobretudo depois que as eleições de 1965 colocou no comando dos principais Estado brasileiros governadores contrários ao regime militar. Para conter os ânimos, Castelo enrijeceu sua atuação política e enterrou de vez a Constituição de 1946. Em 17 de outubro de 1965, o presidente Castelo Branco promulgou o Ato Institucional 2 (AI-2), cujas medidas mais significativas eram o estabelecimento de eleições indiretas para presidente da República e governadores com voto aberto, o fechamento do Congresso Nacional por alguns períodos e o fim do multipar- tidarismo com a extinção dos partidos políticos existentes e a criação de apenas dois partidos, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) – partido que abri- gava os favoráveis ao regime instalado em 1964 – e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) – partido da oposição. Em fevereiro de 1966 Castelo promul- gou o AI-3, que estabelecia o voto indireto para as eleições municipais. O último lance do governo de Castelo Branco