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HISTÓRIA DO 
BRASIL: IMPÉRIO E 
REPÚBLICA
Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira
GRADUAÇÃO
Unicesumar
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a 
Distância; PEREIRA, Luciene Maria Pires.
História do Brasil : Império e República. Luciene Maria Pires 
Pereira. 
Maringá-Pr.: UniCesumar, 2018. 
293 p.
“Graduação - EaD”.
1. Brasil. 2. História. 3. Império. 4. República EaD. I.Título.
ISBN: 978-85-459-0129-7 CDD - 22 ed. 981
CIP - NBR 12899 - AACR/2
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário 
João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828
Impresso por:
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor de Administração
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor de EAD
Willian Victor Kendrick de Matos Silva
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi
NEAD - Núcleo de Educação a Distância
Direção Operacional de Ensino
Kátia Coelho
Direção de Planejamento de Ensino
Fabrício Lazilha
Direção de Operações
Chrystiano Mincoff
Direção de Mercado
Hilton Pereira
Direção de Polos Próprios
James Prestes
Direção de Desenvolvimento
Dayane Almeida 
Direção de Relacionamento
Alessandra Baron
Head de Produção de Conteúdos
Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli
Gerência de Produção de Conteúdos
Gabriel Araújo
Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais
Nádila de Almeida Toledo
Supervisão de Projetos Especiais
Daniel F. Hey
Coordenador de Conteúdo
Priscilla Campiolo Manesco Paixão
Design Educacional
Rossana Costa Giani
Iconografia
Amanda Peçanha dos Santos
Ana Carolina Martins Prado
Projeto Gráfico
Jaime de Marchi Junior
José Jhonny Coelho
Arte Capa
André Morais de Freitas
Editoração
Robson Yuiti Saito
Revisão Textual
Simone Limonta
Viviane Favaro Notari
Ilustração
André Luís Onishi
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um 
grande desafio para todos os cidadãos. A busca 
por tecnologia, informação, conhecimento de 
qualidade, novas habilidades para liderança e so-
lução de problemas com eficiência tornou-se uma 
questão de sobrevivência no mundo do trabalho.
Cada um de nós tem uma grande responsabilida-
de: as escolhas que fizermos por nós e pelos nos-
sos farão grande diferença no futuro.
Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar 
assume o compromisso de democratizar o conhe-
cimento por meio de alta tecnologia e contribuir 
para o futuro dos brasileiros.
No cumprimento de sua missão – “promover a 
educação de qualidade nas diferentes áreas do 
conhecimento, formando profissionais cidadãos 
que contribuam para o desenvolvimento de uma 
sociedade justa e solidária” –, o Centro Universi-
tário Cesumar busca a integração do ensino-pes-
quisa-extensão com as demandas institucionais 
e sociais; a realização de uma prática acadêmica 
que contribua para o desenvolvimento da consci-
ência social e política e, por fim, a democratização 
do conhecimento acadêmico com a articulação e 
a integração com a sociedade.
Diante disso, o Centro Universitário Cesumar al-
meja ser reconhecido como uma instituição uni-
versitária de referência regional e nacional pela 
qualidade e compromisso do corpo docente; 
aquisição de competências institucionais para 
o desenvolvimento de linhas de pesquisa; con-
solidação da extensão universitária; qualidade
da oferta dos ensinos presencial e a distância;
bem-estar e satisfação da comunidade interna;
qualidade da gestão acadêmica e administrati-
va; compromisso social de inclusão; processos de
cooperação e parceria com o mundo do trabalho,
como também pelo compromisso e relaciona-
mento permanente com os egressos, incentivan-
do a educação continuada.
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está 
iniciando um processo de transformação, pois quan-
do investimos em nossa formação, seja ela pessoal 
ou profissional, nos transformamos e, consequente-
mente, transformamos também a sociedade na qual 
estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando 
oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capa-
zes de alcançar um nível de desenvolvimento compa-
tível com os desafios que surgem no mundo contem-
porâneo. 
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de 
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo 
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens 
se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialó-
gica e encontram-se integrados à proposta pedagó-
gica, contribuindo no processo educacional, comple-
mentando sua formação profissional, desenvolvendo 
competências e habilidades, e aplicando conceitos 
teóricos em situação de realidade, de maneira a inse-
ri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais 
têm como principal objetivo “provocar uma aproxi-
mação entre você e o conteúdo”, desta forma possi-
bilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos 
conhecimentos necessários para a sua formação pes-
soal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de cres-
cimento e construção do conhecimento deve ser 
apenas geográfica. Utilize os diversos recursos peda-
gógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possi-
bilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente 
Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e en-
quetes, assista às aulas ao vivo e participe das discus-
sões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de 
professores e tutores que se encontra disponível para 
sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de 
aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui-
lidade e segurança sua trajetória acadêmica.
Pró-Reitor de 
Ensino de EAD
Diretoria de Graduação 
e Pós-graduação
Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira
Graduação em História pela Universidade Estadual de Maringá (2005).
Especialização em História Econômica pela Universidade Estadual de Maringá 
(2008).
Mestrado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita 
Filho/FCL de Assis (2011).
Especialização em Educação Especial pelo Instituto Paranaense de Ensino – 
Maringá/PR (2013).
Especialização em Psicopedagogia Institucional pelo Instituto Paranaense de 
Ensino-Maringá/PR (em andamento).
Especialização em Atendimento Educacional Especializado – UniCesumar 
(em andamento).
Membro da Sociedade Internacional de Estudos Jesuíticos.
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TO
R
A
SEJA BEM-VINDO(A)!
Caro(a) acadêmico(a) do curso de Licenciatura em História da UniCesumar, o livro que 
você está prestes a estudar foi elaborado com muito carinho e satisfação e tem por obje-
tivo auxiliá-lo(a) no processo de aprendizagem sobre a formação e a evolução do Brasil, 
do período imperial à contemporaneidade.
Antes de iniciarmos nosso estudo, gostaria de fazer uma breve apresentação sobre mi-
nha formação. Sou formada em História pela Universidade Estadual de Maringá, no Pa-
raná, na qual também realizei uma especialização em História Econômica. Possuo uma 
especialização em Educação Especial, realizada no Instituto Paranaense de Ensino – Ma-
ringá/PR e sou mestre em História, na linha de Políticas: ações e representações, pela 
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP. Além do Ensino Supe-
rior, trabalho na Educação Básica, na rede regular e na educação especial.
Feita a apresentação, gostaria de ressaltar que o objetivo deste livro é possibilitar que 
você adquira o conhecimento necessário sobre o período abordado para que possa 
atuar como professor(a) de História. Nesse sentido, o livro conta com informações fun-
damentadas em autores clássicos, especialistas no período e que você deve conhecer. 
Além disso, traz sugestões de livros, documentos históricos, filmes, sites e atividades de 
análise e de reflexão que vão enriquecer a sua aprendizagem.
Compreender o processo de formação do Brasil desde a independência de Portugal até 
a (re)construção da sociedade após o período da ditadura militar (1964-1985) não é ta-
refa simples. Por essa razão, é importante que você tenha disciplina e dedicação para 
vencer os assuntos e as atividades propostas ao longo de todo o livro, além de aprovei-
tar ao máximo os recursos eas dicas apresentados aqui e, também, aqueles oferecidos 
pela UniCesumar.
Com o livro que apresento e com o seu esforço e a sua dedicação, tenho certeza de que 
nossa viagem pela história do Brasil ocorrerá de maneira prazerosa e você apreenderá 
as nuances que caracterizaram esse rico período da nossa história.
Ao longo deste livro, caro(a) acadêmico(a), discorreremos acerca das conjunturas que 
permearam o processo de emancipação política do Brasil em 1822, evidenciando o pro-
cesso de construção da identidade nacional do país recém-emancipado até a segunda 
metade do século XX.
Iniciamos nossa primeira unidade com uma análise do processo de independência do 
Brasil e buscamos a compreensão de como o novo país se organizou enquanto nação 
independente. Entender como os projetos e as ideologias presentes nas lutas pela inde-
pendência se organizaram e se articularam após 1822 também é uma preocupação so-
bre a qual nos debruçaremos nessa primeira unidade, que discute as relações políticas, 
econômicas e sociais até o período das regências.
Na segunda unidade, nosso objetivo é compreender as conjunturas que caracterizaram 
o reinado de D. Pedro II e que possibilitaram a discussão sobre a mudança do regime
imperial para o republicano. Analisar o contexto e as circunstâncias que permitiram que 
APRESENTAÇÃO
HISTÓRIA DO BRASIL: IMPÉRIO E REPÚBLICA
os movimentos abolicionista e republicano ganhassem espaço na sociedade brasi-
leira é fundamental para que sejamos capazes de apreender as mudanças nas bases 
sobre as quais o Brasil se sustentava.
A terceira unidade é dedicada ao estudo da consolidação da República no Brasil e 
à análise das rupturas e das continuidades das características das forças políticas, 
econômicas e sociais no país. Compreender a ideia de democracia que a sociedade 
do final do século XIX e início do século XX tinha contribui para que possamos en-
tender as transformações pelas quais o país passou ao longo do século XX.
Na quarta unidade, nosso objeto de estudo é a ascensão dos regimes autoritários 
no Brasil a partir do governo de Getúlio Vargas e do golpe de 1964 que instaurou a 
ditadura militar no Brasil. Nesse momento, o objetivo é verificar como o conceito de 
democracia foi manipulado a partir dos interesses de uma minoria e como a socie-
dade reagiu a essa manipulação.
Na quinta e última unidade de nosso livro, discutiremos o período da ditadura mili-
tar brasileira, com o objetivo de conhecermos e compreendermos a realidade bra-
sileira numa época na qual as liberdades, os direitos e a democracia deixaram de 
existir para a maioria da população. Conhecer essa parte da história do Brasil é vital 
para que, em tempos de turbulências políticas, econômicas e sociais, não se evoque 
um passado que deixou marcas indeléveis nos brasileiros. Terminamos nosso estu-
do sobre nosso país analisando o processo de redemocratização do Brasil e a sua 
organização a partir de 1985.
Espero, caro(a) acadêmico(a), que você aprecie o livro que recebe e que o aproveite 
ao máximo para conhecer nossa história, enriquecendo o seu conhecimento, e que 
você leve o conhecimento aqui adquirido para as salas de aula, contribuindo para 
a formação de cidadãos críticos e conscientes. Espero, também, que o desejo de 
se aprofundar nas temáticas aqui apresentadas desperte o interesse pela pesquisa 
acadêmica, essencial para nossa completa formação.
APRESENTAÇÃO
SUMÁRIO
09
UNIDADE I
O IMPÉRIO DO BRASIL: ESTUDO DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO 
BRASIL E A CONSTITUIÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO
15 Introdução
16 Análise do Processo de Independência do Brasil 
25 Aspectos da Formação do Estado Brasileiro Pós-Independência: O 
Primeiro Reinado 
38 A Crise do Primeiro Reinado e a Abdicação de D. Pedro I 
47 O Período Regencial (1831-1840) 
58 Considerações Finais 
UNIDADE II
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
ANÁLISE DO PROCESSO DE TRANSIÇÃO DO FIM DA MONARQUIA PARA 
O INÍCIO DA REPÚBLICA BRASILEIRA
67 Introdução
68 O Segundo Reinado: O Governo de D. Pedro II 
79 A Economia no Período Imperial Brasileiro 
86 O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial 
96 O Movimento Republicano e o Fim da Monarquia no Brasil 
104 Considerações Finais 
SUMÁRIO
UNIDADE III
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA 
REPÚBLICA
NO BRASIL E AS TRANSFORMAÇÕES NA SOCIEDADE BRASILEIRA NO 
INÍCIO DO SÉCULO XX
111 Introdução
112 República Velha ou República da Espada 
135 Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho 
Assalariado: As Transformações Econômico-Sociais na Primeira República
151 Fim da República Oligárquica: O Golpe de 1930 
161 Considerações Finais 
UNIDADE IV
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
E A SUPRESSÃO DA “DEMOCRACIA” BRASILEIRA: DA ERA VARGAS À 
DITADURA MILITAR
169 Introdução
170 Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937) 
186 A Ditadura de Vargas: O Estado Novo (1937-1945) 
201 Enfim Democracia? As Esperanças Renovadas e o Novo Golpe: Início da 
Ditadura Militar no Brasil
218 Considerações Finais 
SUMÁRIO
11
UNIDADE V
OS ANOS DE CHUMBO: A DITADURA MILITAR NO BRASIL E O LONGO 
PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO
225 Introdução
226 A Consolidação do Golpe de 1964 e a Organização do Estado Militar 
235 O “Endurecimento” do Regime e a Resistência Popular: Manifestações e 
Organizações Populares Contra a Repressão
247 As Esperanças Renovadas: O Longo Caminho da Redemocratização do País 
268 Considerações Finais 
275 Conclusão
277 Referências
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Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira
O IMPÉRIO DO BRASIL: 
ESTUDO DO PROCESSO DE 
INDEPENDÊNCIA DO BRASIL E A 
CONSTITUIÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO
Objetivos de Aprendizagem
■ Analisar o processo de Independência do Brasil.
■ Compreender o processo de formação do Estado brasileiro após a
separação de Portugal.
■ Entender as discussões acerca da organização política e econômica
do Estado em formação.
■ Verificar a constituição social do Brasil pós-independência e suas
relações e participações na construção do Estado brasileiro.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■ Análise do processo de Independência do Brasil
■ Aspectos da formação do Estado brasileiro pós-independência: o
Primeiro Reinado
■ A crise do Primeiro Reinado e a abdicação de D. Pedro I
■ O Período Regencial (1831-1840)
INTRODUÇÃO
Prezado(a) aluno(a), ao longo da disciplina de Brasil Colônia, você se debruçou 
sobre o início da ocupação e da colonização do território brasileiro por parte de 
Portugal e sobre a formação de uma sociedade baseada nos princípios do Pacto 
Colonial. Após conhecer e analisar o desenvolvimento do Brasil durante todo o 
período em que esse esteve sob domínio de Portugal, você analisará o desenvol-
vimento do país enquanto Estado e nação independente.
Nesta primeira unidade, discorreremos acerca do contexto no qual se desen-
volveu o projeto de emancipação política do Brasil, analisando os fatores políticos, 
econômicos e sociais que permearam esse processo e compreenderemos a ação 
dos atores sociais que atuaram e/ou contribuíram para a concretização do pro-
jeto de separação entre Brasil e Portugal.
Ao abordarmos o pretenso fim da dependência política do Brasil em relação 
a Portugal, é imprescindível nos atentarmos para a maneira como o recém-in-
dependente país buscou constituir suas bases e construir uma identidade que 
representasse a miscelânea de povos e de culturas que aqui se encontravam, levan-
do-se em consideração a influência de ideias largamente difundidas na Europa 
naquele momento que se contrapunham à realidade política e social do Brasil.
Nesse sentido, nossa análise sobre esse primeiro momento do Brasil enquanto 
país independente irá se fundamentar na discussão sobre as rupturas e/ou as 
permanências de ideias e de instituições presentes no contexto do processo de 
emancipação política do Brasil e na fundamentação das bases organizacionais 
do país, contrapondoo discurso adotado ao longo das lutas de independência à 
estrutura colocada em prática após a separação de Portugal.
Compreendendo essa primeira unidade da evolução histórica do Brasil 
enquanto Estado, você, caro(a) aluno(a), terá dado o primeiro passo para um 
melhor entendimento das instituições e dos conceitos vigentes em nosso país na 
atualidade. Pronto para começarmos?
Introdução
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ANÁLISE DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO 
BRASIL
Embora o marco da emancipação política do Brasil tenha sido definido em 7 
de setembro de 1822, a ideia ou antes o desejo de uma ruptura com Portugal 
configurou-se no interior da colônia muito antes dessa data. Analisando a histo-
riografia a respeito desse tema, é possível observar a corroboração de inúmeros 
estudiosos à ideia de que a transferência da família real portuguesa para as ter-
ras brasileiras, no início do século XIX, contribuiu para o estabelecimento de 
uma conjuntura que fez nascer – ou que intensificou – o vislumbre da formação 
de um país livre do julgo dominador de Portugal.
Tais conjunturas dizem respeito à configuração de uma estrutura governa-
mental que representou uma modificação do papel da colônia dentro do contexto 
do antigo sistema colonial, na medida em que o Brasil adquiriu status de sede 
do governo imperial, este estabelecido em um primeiro momento na Bahia e, 
posteriormente, na cidade do Rio de Janeiro. Essa nova condição da colônia 
exigiu uma série de investimentos na criação de uma estrutura condizente com 
sua nova realidade que suscitou o debate acerca da relevância do país diante do 
cenário que se desenhava.
Monumento à Proclamação da Independência – São Paulo
O IMPÉRIO DO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Análise do Processo de Independência do Brasil
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Conforme aponta Faoro (1976, p. 249), as consequências imediatas da chegada 
e da instalação da família real portuguesa no Brasil traduziu-se no fechamento 
dos portos da metrópole, fato que a impossibilitava de exportar produtos e/ou 
adquirir bens e produtos necessários à sua subsistência, na ruptura do Pacto 
Colonial a partir da abertura dos portos brasileiros à Inglaterra e às nações amigas 
e, por fim, na centralização do poder que aglutinava as “dispersas e desarticu-
ladas capitanias”.
Diante do estabelecimento desse novo cenário que, no entendimento de mui-
tos historiadores, representava um prolongamento das instituições existentes em 
Lisboa – antiga sede do governo colonial português – e que não respeitava as 
características próprias da colônia, os conflitos entre essas duas partes do império 
português se acentuaram, levando ao início de uma guerra política e ideológica 
que teve como consequência as lutas pela emancipação da colônia.
As revoltas ocorridas ao longo do período colonial, sobretudo a Inconfidência 
Mineira (1789) e a Conjuração Baiana (1798), ambas com caráter separatista, já 
demonstravam a insatisfação de setores da sociedade brasileira com a adminis-
tração portuguesa, insatisfação essa que ganhou corpo quando da transferência 
da família real para esse território e das consequências decorrentes desse evento 
durante a primeira metade do século XIX.
No momento em que o Brasil foi elevado à condição de reino, passando a 
integrar o Reino Unido de Portugal e Algarves (1815), as divergências ideológi-
cas entre os que viviam deste e do outro lado do Atlântico foram acentuadas e a 
manutenção da ordem vigente até então tornou-se cada vez mais difícil.
Tufy Kairuz
não havia divergências "ideológicas", antes havia um alinhamento se considerando que a elite colonial era formada quase exclusivamente em Portugal.  Ver José Murilo de Carvalho A construção da ordem : a elite imperial. Teatro de sombras". Os que viviam" é uma generalização sem muita utilidade para se definir a quem a autora se refere.
Tufy Kairuz
trecho confuso. "Traduziu-se no fechamento dos portos"?
O IMPÉRIO DO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Carta de Lei elevando o Brasil a Reino Unido ao de Portugal e do Algarves, RJ, Arquivo Nacional, 1815
Fonte: MultiRio (online). 
Inseridos nesse quadro de instabilidade e de dificuldades da monarquia portu-
guesa em conciliar diferentes interesses em uma sociedade composta por grupos 
sociais diversificados, aqueles que, entre as décadas finais do século XVII e iní-
cio do século XVIII, esboçaram o ideal separatista e tiveram que articular seus 
interesses a uma discussão e a um movimento que, para além de questões polí-
ticas, perpassava o entendimento e – conforme veremos após a declaração de 
independência – a adaptação das ideologias presentes nos discursos que emba-
savam a concepção de uma emancipação política do Brasil.
A presença de instituições portuguesas em solo brasileiro e a constante 
intervenção das Cortes de Lisboa na administração do Brasil, impedindo o seu 
progresso, deram aos intelectuais do período os motivos para elaborarem um 
discurso influenciado pelos últimos acontecimentos da Europa e da América, 
quais sejam: a Revolução Francesa e as independências dos Estados Unidos e 
das colônias espanholas. 
Tufy Kairuz
não ocorreram movimentos separatistas no final do séc. XVII.
Análise do Processo de Independência do Brasil
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A esse fato somou-se uma realidade na qual os portugueses que aqui se ins-
talaram a partir de 1808 eram nomeados para cargos na administração joanina 
ou enriqueciam devido aos privilégios a eles concedidos pela coroa, aumentando 
a insatisfação dos brasileiros. Além dessa insatisfação, o incremento do comér-
cio, ocorrido a partir da abertura dos portos e do fim dos monopólios impostos 
pelo Pacto Colonial, fez com que brasileiros de diferentes setores sociais passas-
sem a apoiar os intelectuais e seus ideais liberais, embora com uma interpretação 
própria desse conceito, voltada para a defesa de seus próprios interesses. 
Nesse sentido, de acordo com Faoro (1976, p. 246), o liberalismo que embalava 
os ideais separatistas no Brasil entre os séculos XVII e XVIII era mais justifica-
dor do que doutrinário, visto que aqueles que compunham o estrato mais rico 
da sociedade brasileira defendiam uma política liberal em prol de seus próprios 
interesses, combatendo uma possível participação política das classes menos pri-
vilegiadas de nossa sociedade. 
Corroborando com a análise de Faoro sobre a concepção de liberalismo no 
Brasil, Emília Viotti da Costa destaca que
Na Europa, o liberalismo era uma ideia burguesa voltada contra as Ins-
tituições do Antigo Regime, os excessos do poder real, os privilégios da 
nobreza, os entraves do feudalismo ao desenvolvimento da economia. 
No Brasil, as ideias liberais teriam um significado mais restrito, não se 
apoiariam nas mesmas bases sociais, nem teriam exatamente a mes-
ma função. Os princípios liberais não se forjaram, no Brasil, na luta 
da burguesia contra os privilégios da aristocracia e da realeza. Foram 
importados da Europa. Não existia no Brasil da época uma burguesia 
dinâmica e ativa que pudesse servir de suporte a essas ideias. Os adep-
tos das ideias liberais pertenciam às categorias rurais e sua clientela. As 
camadas senhoriais empenhadas em conquistar e garantir a liberdade 
de comércio e a autonomia administrativa e judiciária não estavam, no 
entanto, dispostas a renunciar ao latifúndio ou à propriedade escrava 
(COSTA, 2010, p. 28).
O que esse contexto nos permite observar é que, embora com a instalação da 
famíliareal no Rio de Janeiro e a elevação do Brasil à condição de Reino Unido 
de Portugal e Algarves o país tenha recebido investimentos que contribuíram 
para a melhoria das condições econômicas e sociais – mesmo que estas tenham 
sido sentidas de maneiras diferentes pelos diferentes setores da sociedade bra-
sileira –, a administração joanina precisou lidar com a fragilidade do seu poder 
Tufy Kairuz
trecho que confirma a inexistência de uma divergência ideológica mencionada no comentário anterior.
Tufy Kairuz
incorreto. Não havia ideias liberais no Brasil colonial no séc. XVII.
O IMPÉRIO DO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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real, visto que setores e ideias distintas em relação à situação vigente começa-
ram a emergir tanto no interior do Brasil quanto em Portugal.
As revoluções de 1817 (Pernambuco) e 1820 (Lisboa) mostram que os rumos 
adotados por D. João VI na condução da administração de seus domínios não 
satisfaziam os interesses de muitos. A primeira, representada pela “aliança entre 
propriedade agrária e as concepções liberais definiu um ideário com o liberalismo 
forrado de energia republicana” (FAORO, 1976. p.263) e a segunda, era repre-
sentada pelo questionamento da elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal 
e Algarves, questionamento esse suscitado pelo desenvolvimento do Brasil em 
detrimento de Portugal.
Em 1817, no Campo das Princesas, em Recife, os revoltosos dominaram o antigo Palácio do Governo 
Fonte: MultiRio (online).
Diante do crescente antagonismo que caracterizava a manutenção da relação 
dependente entre Portugal e Brasil, já invertida em seu sentido mais profundo 
no início do século XIX, tornou-se quase impossível evitar o fortalecimento e 
a defesa das ideias e dos movimentos emancipatórios ao longo desse período. 
Desse modo, a elite brasileira chegou ao poder em 1822 na figura de D. Pedro 
com a tarefa de organizar uma nação independente, com bases nos princípios 
liberais, sem, no entanto, ferir seus interesses.
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A figura de D. Pedro, regente do Brasil após a volta de D. João VI para Portugal 
diante da pressão das cortes lisboetas, aglutinou em torno de si as 
principais mentes do processo de emancipação política do Brasil. A crise que 
se instalou no Brasil após a partida de D. João VI tem no seu interior o medo 
de uma pos-sível retomada da exploração e do atraso resultantes da condição 
de colônia do país e acentuaram o discurso pela independência. Nesse contexto, 
D. Pedro apro-ximou-se dos brasileiros e, gradativamente, deixou-se 
influenciar pela ideia do rompimento com seu pai e Portugal. 
Percebendo as ações em torno de D. Pedro no Brasil, as cortes 
portugue-sas o pressionavam para que retornasse a Portugal, fato que levou 
um dos mais expressivos defensores da independência, José Bonifácio, a 
intervir junto ao regente e convencê-lo a permanecer no Brasil e conduzir a 
libertação e a reor-ganização do país.
O Dia do Fico (09 de janeiro de 1822) desencadeou os movimentos que 
levaram ao rompimento oficial entre Portugal e Brasil, com a declaração de inde-
pendência deste último em 7 de setembro de 1822.
O fim das relações coloniais entre 
Portugal e Brasil foi analisado sob 
vários ângulos e aspectos, o que 
significa que o processo de eman-
cipação política do Brasil recebeu 
inúmeras interpretações, que 
variavam – e ainda variam – de 
acordo com o momento histórico 
em que foram elaboradas.
“A independência de uma sociedade é o conjunto de condicionamentos his-
tóricos e político que não se confundem com um único evento”
Fonte: Oliveira (2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009).
Os intelectuais brasileiros e as abordagens sobre a 
independência do Brasil
D. Pedro I
Fonte: Revista de História (online). 
O IMPÉRIO DO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Logo após o 7 de setembro de 1822, José da Silva Lisboa, o Visconde de 
Cairu, procurou legitimar o novo Estado por meio da continuidade da dinastia 
dos Bragança, colocando a independência do Brasil como o marco fundador do 
país, realizada sob o singular regime monárquico de um herdeiro dos Bragança 
(NEVES, 2009, apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 98). 
Em sua análise sobre a independência do 
Brasil, Varnhagem demonstrou que essa sig-
nificou uma “continuidade entre o passado 
colonial e o novo projeto nacional, enfatizando 
a influência civilizadora da colonização portu-
guesa sobre o novo país nos trópicos” (NEVES, 
2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 99). 
O liberal e amigo próximo da família imperial 
Joaquim Manuel de Macedo, ao tratar do assunto, 
considerou o processo e a independência do Brasil 
como um período de criação de “uma nação como 
memória coletiva e idealizada de acontecimentos 
e personagens excepcionais, organizados em nar-
rativa linear” (NEVES, 2009 apud GRINBERG; 
SALLES, 2009, p. 99). 
Além de intensa participação na política do período imperial, Joaquim Ma-
nuel de Macedo foi também professor, jornalista, poeta e escritor, cujo o ro-
mance de maior expressão foi A Moreninha, publicado em 1844.
Para conhecer mais sobre a biografia desse intelectual do período imperial, 
acesse o conteúdo disponível em: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/
cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=905&sid=218>. Acesso em: 10 abr. 2015.
Fonte: a autora.
Análise do Processo de Independência do Brasil
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Como é possível observar, caro(a) aluno(a), até a década de 1850, as análises 
sobre a independência do Brasil adotaram um viés que destacava a continui-
dade das características da colonização portuguesa no Brasil, isto é, apontavam 
para uma herança colonial que fortalecia a imagem da família real portuguesa 
e ressaltava a importância de D. Pedro I para a constituição do novo país, numa 
tentativa de forçar uma união da sociedade em torno dos Bragança.
Essa ideia de herança portuguesa vai dominar as análises sobre a indepen-
dência até a década de 1860, quando uma nova corrente de intelectuais defendeu 
a ideia de ruptura com as instituições portuguesas e o nosso passado colonial. 
Para esses intelectuais, a independência do Brasil ocorreu de fato em 07 de abril 
de 1831, quando D. Pedro I abdicou do trono e retornou a Portugal.
No início do século XX, a ideia de ruptura e da construção de uma nação 
caracterizada por algo além das influências portuguesas foi reforçada pelo Instituto 
Histórico e Geográfico do Brasil, visando uma aproximação entre os processos 
de independência do Brasil e dos demais países da América Latina (NEVES, 
2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 100).
Nesse mesmo período, as análises de Caio Prado Jr. realçaram a abordagem 
marxista, evidenciando os aspectos econômicos do processo de emancipação 
política do Brasil e enquadrando-o no contexto da falência do sistema colonial. 
A tese de Caio Prado Jr. foi corroborada por muitos intelectuais a partir da 
década de 1970 e do crescimento dos cursos de pós-graduação no Brasil. Nomes 
como Fernando Novais e Guilherme Motta também analisaram a independên-
cia do Brasil no contexto da crise do antigo sistema colonial. Para esses autores, 
a independência foi o momento inicial de um longo processo de ruptura, resul-
tado da desagregação do sistema colonial e da montagem do Estado Nacional 
(NEVES, 2009 apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 101).
Os intelectuais do século XX produziram inúmeras análises sobre a inde-
pendência do Brasil e a historiografia passou a contar com uma diversidade de 
ideias e de opiniões sobre esse assunto que contribuíram para o alargamento das 
discussões acerca não só do período colonialbrasileiro, mas também do con-
texto que se instalou com a Proclamação da República.
O IMPÉRIO DO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Além da questão da continuidade ou da permanência da herança portuguesa 
ou, ainda, de uma ruptura com as instituições coloniais, essas análises possibili-
taram o conhecimento de outros aspectos do início do Brasil imperial, trazendo 
para o cerne do debate a participação de outros setores da sociedade que não 
aqueles que compunham a elite, considerando o papel desses na formação de 
uma identidade nacional.
As discussões acerca das conjunturas que marcaram o processo de indepen-
dência do Brasil ainda despertam o interesse de historiadores renomados 
que buscam, por meio da análise de documentos, compreender os interes-
ses por trás dos discursos e movimentos emancipatórios. Em 2015, os histo-
riadores José Murilo de Carvalho, Lúcia Bastos e Marcello Basile publicaram 
uma obra na qual apresentam uma documentação inédita que remonta aos 
anos de 1820 a 1823 e permite novas abordagens sobre esse período de 
nossa história.
Para maiores detalhes, acesse o conteúdo disponível em: 
<http://oglobo.globo.com/cultura/livros/livro-reune-panfletos-que-permi-
tem-novas-interpretacoes-da-independencia-do-brasil-15720391>. Acesso 
em: 10 abr. 2015.
Fonte: a autora.
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ASPECTOS DA FORMAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO 
PÓS-INDEPENDÊNCIA: O PRIMEIRO REINADO 
Caro(a) aluno(a), após a análise apresentada no tópico anterior, você pode se 
perguntar: qual é o papel do povo brasileiro durante todo o processo de eman-
cipação política do Brasil? 
Para responder a essa questão, recorreremos a Emília Viotti da Costa, a qual 
afirma que a independência do Brasil foi articulada e levada a cabo por uma 
elite composta de 
fazendeiros, comerciantes e membros de sua clientela, ligados à eco-
nomia de importação e exportação e interessados na manutenção das 
estruturas tradicionais de produção cuja base era o sistema de trabalho 
escravo e a grande propriedade (COSTA, 2010, p. 11).
Essa elite, ao longo dos primeiros anos da independência, reivindicou a participa-
ção, senão o comando do país, acentuando os conflitos e as divergências políticas 
e ideológicas que fizeram parte das lutas pela independência até o momento da 
abdicação de D. Pedro I em 1831.
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Os demais indivíduos que compunham a sociedade brasileira, como os 
escravos e os indígenas, foram deixados à margem do processo e, após a inde-
pendência, o entendimento próprio que a elite tinha do conceito de liberalismo 
não permitiu que esses indivíduos tivessem uma maior participação nos enca-
minhamentos do novo período.
O 07 de setembro de 1822 entrou para a história do Brasil como o início da 
organização de uma sociedade não mais presa aos laços do Pacto Colonial ou de 
fidelidade para com Portugal. Significou, ainda, a ascensão de D. Pedro como o 
primeiro imperador do Brasil, o qual, em teoria, conduziria o país recém-liberto 
à reestruturação política, econômica e social, orientado pelos princípios liberais.
Para Oliveira, o uso do termo independência tinha por objetivo
(...) construir a “independência nacional”, articulando a monarquia a 
uma Constituição que estabelecesse limites ao poder real e garantisse 
direitos e liberdades civis e políticas aos cidadãos do império. Preten-
dia-se, por essa via, entre outras exigências, contestar o absolutismo 
representado por D. João VI e o “despotismo” exercido por ministros, 
por conselheiros e pela corte radicada no Rio de Janeiro desde 1808. 
(OLIVEIRA, 2009 apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 18-19).
Portanto, 07 de setembro de 1822 deveria representar, ao menos no imaginá-
rio de parte daqueles que lutaram pela emancipação, sobretudo os intelectuais 
brasileiros, um novo período da história do Brasil caracterizado pelo fim das ins-
tituições absolutistas que estiveram presentes nesse território desde a chegada 
da família real portuguesa e sua corte. 
Não foi o que aconteceu. De acordo com a mesma autora, o período que 
abrange a chegada da corte portuguesa (1808) até a abdicação de D. Pedro I 
(1831) “se configurou como uma das balizas definidoras do surgimento e do 
perfil do Estado monárquico e da nação no Brasil do século XIX” (OLIVEIRA, 
2009 apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 17).
D. Pedro I, realizada a independência, enfrentou o conflito oriundo das dife-
renças entre os grupos que participaram das discussões e dos desdobramentos 
do processo de independência e que estavam divididos entre os radicais e os 
moderados. José Bonifácio, importante articulador da emancipação, mostrou-
-se nesse momento novamente ao lado do imperador, buscando garantir a união 
dos diferentes grupos em torno da lealdade ao império e à figura do imperador.
Tufy Kairuz
seria mais razoável mencionar que a grande maioria da população livre ficou à margem do processo, pois "escravos e índios" não seriam incluídos em nenhum processo liberal. na época, por mais radical que fosse.
José da Silva Lisboa (Visconde de Cairu)
Fonte: Matta (online) 
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A elite que ajudou a colocar D. Pedro I como imperador do Brasil, atingido 
o seu objetivo de livrar o Brasil das amarras impostas pela submissão a Portugal, 
buscou consolidar o poder em suas mãos, subjugando o próprio imperador na
defesa de seus interesses. Por essa razão, o Brasil pós 1822 se constituiu sob as
mesmas bases das instituições tradicionais de ordem econômica dos tempos do
período colonial, moldando e manipulando os conceitos de liberalismo e nacio-
nalismo à sua própria realidade.
O que a historiografia brasileira tem demonstrado é a fidelidade não 
apenas do príncipe regente D. Pedro, mas da cúpula política “modera-
da” que o cercava, ao modelo político da monarquia dual. A evolução 
da conjuntura política ao longo desses dois anos evidencia que foi a 
ação das lideranças políticas nas Cortes portuguesas, inclusive neutra-
lizando a atuação de D. João VI, que colocou o Brasil diante do impasse 
da recolonização ou independência (WEHLING, 2004, p. 239).
Essa adaptação e manipulação dos conceitos de liberalismo e de nacionalismo à 
realidade brasileira e sua articulação com os interesses das elites locais nos aju-
dam a compreender por que uma nação, que no desenrolar do seu processo de 
independência baseava seu discurso na construção de uma sociedade constitu-
ída sob o liberalismo, manteve viva a escravidão por várias décadas, relutando 
em abrir mão das “vantagens” da manutenção 
desse modo de produção. 
O grupo composto pelos modera-
dos, que tinha nomes como José Bonifácio 
Joaquim Gonçalves Ledo, Januário da Cunha 
Barbosa e José da Silva Lisboa (Visconde 
de Cairu), defendia a organização do país 
sob uma monarquia constitucional e tinha o 
apoio dos proprietários rurais do país, inte-
ressados em manter a salvo seus interesses 
pessoais. Esse grupo buscou o fortalecimento 
da imagem da D. Pedro I, tendo nas ideias 
de José da Silva Lisboa a expressão de seus 
ideais de união do país, exaltando a figura 
do imperador.
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Reprodução proibida. A
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Contrapondo-se a esse grupo, estavam os defensores da República e da 
democracia. Os indivíduos que compunham esse grupo desenvolviam ativida-
des relacionadas às cidades, estando distantes dos proprietários rurais doRio 
de Janeiro e de São Paulo na defesa de interesses como a manutenção da escra-
vidão. Conforme analisa Wehling (2004, p. 240), 
(...) não foi apenas a força do poder central do Imperador Pedro I que 
os derrotou, mas o apoio a este de vastos setores da propriedade rural 
nordestina. Faltava a esse grupo, ademais, um projeto de estado e de 
nação, afora os princípios mais gerais dessa forma de governo.
Havia ainda um terceiro grupo na disputa pelo comando do Brasil e com ideias 
que iam em direção contrária ao ideal de independência. Esse grupo era com-
posto por portugueses e defendiam a recolonização do Brasil com a volta das 
conjunturas que marcaram as relações entre Brasil e Portugal até 1808.
A organização do país passava pela articulação das correntes ideológicas diver-
gentes em seu interior, numa tentativa de equilibrar os interesses de D. Pedro I e 
os anseios da população. Para tanto, os deputados que compunham a Assembleia 
Constituinte – convocada antes da independência, mas quando esta já se deline-
ava na cabeça dos brasileiros – começaram a elaborar a primeira Constituição 
do Brasil, à qual deveria D. Pedro I submeter sua forma de governo.
A CONSTITUIÇÃO OUTORGADA DE 1824
A Assembleia Constituinte encarregada de elaborar a primeira Constituição do 
Brasil era composta por 
sacerdotes (...), funcionários públicos ou profissionais liberais: advoga-
dos, médicos, professores diplomados na Universidade de Coimbra ou 
em alguma outra instituição europeia, uma vez que não existiam uni-
versidades no Brasil. Havia também comerciantes e fazendeiros. Mas, 
qualquer que fosse sua condição social ou profissional, os deputados à 
Assembleia Constituinte estavam unidos por laços de família, amizade 
ou patronagem a grupos ligados à agricultura e ao comércio interno. 
Não é, pois, de espantar que tenham organizado a nação de acordo com 
os interesses desses grupos (COSTA, 2010, p. 134).
Tufy Kairuz
defensores da República apenas. República e democracia não são sinônimos.
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Esse grupo de indivíduos estabeleceu que a forma de governo no Brasil seria a 
monarquia constitucional, que tinha como objetivo limitar o poder de D. Pedro 
I e, também, manter o controle sobre a população. A Constituição que resultou 
dessa Assembleia foi inspirada nos ideais do liberalismo, mas, como já dito ante-
riormente, em um liberalismo adaptado à realidade brasileira, ou seja, entendido 
“a partir das peculiaridades da burguesia local e da ausência das duas classes que 
na Europa constituíram o seu ponto de referência obrigatório: a aristocracia e o 
proletariado” (COSTA, 2010, p. 136).
As discussões travadas entre os deputados que compunham a Assembleia 
Constituinte tinham, em primeiro lugar, a tarefa de definir quem eram de fato os 
brasileiros que aqui viviam, ou seja, quem, diante da inegável miscelânea de povos 
e culturas que ocupou esse território desde a sua “descoberta” e do início da colo-
nização portuguesa, teria seus direitos enquanto brasileiro realmente assegurados.
Os deputados Souza França e Araújo Lima defendiam que o termo cidadão 
não poderia designar todos os indivíduos que se encontravam em terras brasileiras, 
devendo excluir dessa denominação os crioulos ou filhos de escravos. Nesse sen-
tido, a concessão de direitos políticos também deveria ser limitada, haja vista que 
nem todos estavam aptos a desempenhar as atividades decorrentes da participa-
ção política (RIBEIRO; PEREIRA, 2009 apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 151). 
Rocha Franco defendia que, para ser considerado cidadão brasileiro, era 
necessário ser residente do Brasil e possuir propriedade, comprovando, dessa 
maneira, a participação em uma cidade e, consequentemente, na sociedade. Já 
o deputado Nicolau Campos Vergueiro ia na contramão desses argumentos e
defendia que todos aqueles que vivessem em solo brasileiro eram considerados
cidadãos brasileiros, sendo que apenas no que dizia respeito aos direitos políti-
cos é que deveria se estabelecer uma condição ou diferenciação. Essa condição
residiria no valor da renda do indivíduo, isto é, àquele que possuísse determi-
nada renda seria garantido as prerrogativas políticas (RIBEIRO; PEREIRA, 2009 
apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 152-153).
Na tentativa de determinar a quem serviria o título de cidadão no Brasil, o 
deputado Montezuma discursou dividindo os brasileiros em cidadãos ativos e 
passivos. Os cidadãos ativos seriam os brancos e os passivos os negros e seus des-
cendentes. Seguindo essa linha de raciocínio, os direitos políticos ficariam restritos 
Membros da Assembleia Constituinte na abertura dos trabalhos
Fonte: MultiRio (online) 
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aos cidadãos ativos, enquanto os cidadãos passivos ficariam à margem dos acon-
tecimentos (MARTINS, 2007, p. 45).
O que podemos observar das discussões ocorridas na Assembleia Constituinte 
sobre o tema é que a parcela dos brasileiros que não correspondiam aos europeus 
ou a seus descendentes foi excluída do processo de constituição do Estado brasi-
leiro, em uma negação da cultura dos povos que aqui já se encontravam antes da 
chegada do branco europeu – como os índios – bem como a negação da hetero-
geneidade que caracterizava a sociedade brasileira.
Sendo assim, o projeto de Constituição previa a restrição da designação do 
termo de cidadão e, como resultado, da concessão de direitos civis e políticos a 
uma parcela significativa da sociedade brasileira, representada pelos estrangei-
ros, índios, mestiços, crioulos e escravos, esses últimos entendidos como uma 
mercadoria, uma “coisa” que, embora necessária para a organização e para a 
estruturação do trabalho, não eram vistos 
como pessoas.
Ao “coisificar” o negro escravo e ao 
negar-lhe a prerrogativa de cidadão e a 
concessão dos direitos civis e políticos, 
o projeto de Constituição elaborado pela 
Assembleia Constituinte em 1823 defen-
dia a manutenção do regime escravocrata 
no país, protegendo os interesses dos pro-
prietários de terra do Brasil e garantindo 
as condições sobre as quais se apoiava a
economia brasileira do período.
Além da polêmica em torno da defi-
nição do cidadão brasileiro, os deputados 
reunidos em 1823 divergiam sobre os 
limites do poder de D. Pedro I. Divididos 
entre o Partido Português e o Partido 
Brasileiro, os deputados tentaram estabe-
lecer as bases sobre as quais o imperador 
deveria conduzir o seu governo.
Tufy Kairuz
negro escravizado? E os libertos?
Tufy Kairuz
não está claro quem seriam os "estrangeiros".
Sede da Assembleia Constituinte no Rio de Janeiro
Fonte: MultiRio (online).
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O Partido Português defendia que a D. Pedro I cabia o poder absoluto, sendo 
indispensável que o imperador tivesse autonomia para fazer os encaminhamentos 
necessários para a organização do novo Estado. Indo de encontro a essa ideia, o 
Partido Brasileiro defendia a divisão do poder – a exemplo das constituições euro-
peias – em três níveis, que tinham, por objetivo restringir o poder do imperador.
Como resultado desse debate, optou-se pela adoção de um sistema político 
estruturado e a divisão do poder foi feita em Poder Executivo, Poder Legislativo 
e Poder Judiciário. De acordo com essa divisão, o Poder Executivo seria exercido 
pelo imperador D. Pedro I, o Poder Legislativo pelos deputados e senadores e o 
Poder Executivo pelos juízes. A novidade estava no fato de que o poder Executivo 
estaria submetido ao Legislativo, ou seja, o poder do imperador D. PedroI esta-
ria limitado pela sanção dos deputados e dos senadores aos seus projetos.
A submissão do Poder Executivo ao Poder Legislativo e a consequente limi-
tação do poder de ação de D. Pedro I desagradou o imperador, que planejara 
exercer o comando do Brasil de forma absolutista e centralizadora. Diante do 
cenário imposto pela Assembleia, D. Pedro I dissolveu a Assembleia Constituinte 
e convocou o Conselho de Estado para a elaboração de uma Constituição que 
preservasse seus interesses.
A dissolução da 
Assembleia Constituinte 
ocorreu na noite de 12 de 
novembro de 1823, num 
episódio que ficou conhe-
cido como Noite da Agonia, 
quando o brigadeiro José 
Manuel de Moraes inva-
diu a sede da Assembleia no 
Rio de Janeiro a mando de D. 
Pedro I e decretou o fim dos 
trabalhos dos deputados ali 
reunidos.
O IMPÉRIO DO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
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IU N I D A D E32
Após a dissolução da Assembleia Constituinte e a nomeação de um Conselho de 
Estado, D. Pedro I retomou a elaboração da Constituição do Brasil. O Conselho 
de Estado nomeado por ele manteve alguns dos pontos expostos no projeto 
ela-borado pelos deputados da Assembleia Constituinte, garantindo a 
manutenção dos privilégios das classes dominantes e a divisão dos brasileiros 
em cidadãos ativos e passivos (ROMPATTO, 2001, p. 190). 
O ponto mais importante desse novo projeto de Constituição que se deli-
neava corresponde à aproximação de D. Pedro I ao absolutismo, na medida em 
que esse articulou para garantir que seus interesses políticos fossem sobrepostos 
aos dos liberais. Nesse sentido, a Constituição, embora mantivesse os poderes 
Executivo, Legislativo e Judiciário, adicionou um quarto poder que garantia ao 
imperador a submissão do corpo político às suas decisões. Tratava-se do Poder 
Moderador, que seria exercido exclusivamente pelo imperador e garantia-lhes 
poderes absolutos (ROMPATTO, 2001, p. 191). 
Os principais jornais do período eram utilizados para divulgar as notícias das 
discussões que ocorriam na Assembleia, demonstrando o importante papel 
da imprensa para os desdobramentos dos trabalhos da Assembleia. 
Fonte: a autora.
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PODER MODERADOR
PODER EXECUTIVO
CONSELHO DE ESTADO
CÂMARA DOS DEPUTADOS
PODER JUDICIÁRIO
IMPERADOR
CONSELHOS PROVINCIAIS
SUPREMO TRIBUNAL
DE JUSTIÇA
PRESIDENTE DAS
PROVÍNCIAS
PODER LEGISLATIVO
ASSEMBLEIA GERAL
SENADO
Figura 1: Organograma da Constituição de 1824
Fonte: a autora.
A Carta Constitucional foi outorgada à população brasileira em 25 de março de 
1824, a qual não viu com bons olhos o documento que não representava os 
anseios de uma parcela significativa daquela sociedade. Diante disso, 
algumas províncias do Brasil recusaram-se a jurar a Constituição, iniciando 
um período de manifestações contrárias à sua imposição.
Nesse contexto de revolta contra a outorga de uma Constituição que conce-
dia poderes sem limites ao imperador, destaca-se o movimento conhecido 
como Confederação do Equador, que teve início quando as ideias centrali-
zadoras e absolutistas de D. Pedro I começaram a esboçar-se após a inde-
pendência. O movimento de caráter separatista iniciou-se em Pernambuco, 
liderado por Cipriano Barata e Frei Caneca e teve o apoio de várias provín-
cias do Nordeste.
A historiadora Amy Caldwell de Farias, em seu livro Mergulho no Letes: 
uma reinterpretação político-histórica da Confederação do Equador, 
de 2006, faz uma análise do movimento, objetivando questionar a historio-
grafia tradicional sobre o movimento e trazer à cena novos fatos e atores, 
por meio de novas abordagens.
Fonte: a autora.
A região da Cisplatina
Fonte: MultiRio (online).
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A GUERRA DA CISPLATINA
O governo de D. Pedro I foi marcado por agitações políticas no âmbito interno 
e externo do Império do Brasil. Do momento de sua coroação como Imperador 
do Brasil até a sua abdicação em 1831, o Brasil esteve envolvido em confl itos que 
contribuíram para abalar a confi ança e o poder do imperador.
Ainda envolvido nos confl itos decorrentes da outorga da Constituição de 
1824, D. Pedro I precisou voltar sua atenção para uma disputa envolvendo o 
Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata, que teve início em 1825 e perdu-
rou até o ano de 1828.
Esse confl ito começou a desenrolar-se 
muito antes de D. Pedro tornar-se impera-
dor do Brasil. Pouco depois da chegada da 
família real portuguesa ao Brasil, as tropas 
de Napoleão Bonaparte tomaram a Espanha 
destituindo a coroa dos Bourbons. Carlota 
Joaquina era irmã de Fernando VII, o rei 
espanhol deposto por Napoleão e, portanto, 
herdeira da coroa espanhola, a qual objeti-
vava ocupar e defender, objetivo esse que não 
foi alcançado, na medida em que a princesa 
não foi capaz de tecer alianças e conquistar 
o apoio necessário para ascender ao trono 
espanhol (PEREIRA, 2012).
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No período que abordamos, a Espanha possuía o controle das Províncias 
Unidas do Rio da Prata, atuais territórios da Argentina, Paraguai e Uruguai (na 
época, denominado de Banda Oriental do Uruguai), regiões importantes para 
o desenvolvimento comercial devido à proximidade com rios que facilitavam o 
escoamento de produtos. Por essa razão, D. João VI tinha interesse em domi-
nar a região, mas devido às relações pouco amigáveis com a princesa Carlota 
Joaquina e não acreditando na sua lealdade ao assumir o comando da Espanha, 
optou por ocupar ele próprio a região e garantir sua submissão ao Reino de 
Portugal, Brasil e Algarves.
A conquista da região deu-se em 1821, quando o general Carlos Frederico 
Lecor, a serviço de D. João VI, derrotou as tropas de José Gervasio Artigas e os 
territórios foram anexados ao reino português.
Destacamos, caro(a) aluno(a), que manter a região sob o domínio português 
significou lidar com os conflitos políticos existentes na região, conflitos esses que 
agravaram-se ainda mais durante o processo de emancipação do Bra-
sil, quando houve uma alteração no balanço de poder do local. Lecor 
apoiou nossa independência e manteve-se fiel à D. Pedro I. Porém, a 
conjuntura platina alterou-se profundamente “com um movimento 
militar que prenunciava deflagrar em conflito armado”, quando muitos 
dos habitantes se mantiveram fiéis a Portugal (PEREIRA, 2012, p. 86).
O chefe militar D. Álvaro da Costa defendia que as Províncias Unidas do Rio 
da Prata deveriam permanecer ao lado de Portugal e a este submeter-se após a 
independência do Brasil. Contando com o apoio de boa parte da população da 
região, D. Álvaro da Costa incitava os habitantes das Províncias Unidas do Rio 
da Prata à rebelar-se contra a dominação brasileira e manter-se fiel a D. João VI 
e Portugal. Em seus discursos, pregava que
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Quando os laços de mútua conveniência não prendem os povos uns 
aos outros, não desata por si. Não acrediteis a doutrina contrária que 
vos pregam. Vós só podeis tirar dessa luta as tristes recordações do pai, 
do irmão, do parente morto e dos míseros filhos desamparados que 
uma infernal política sacrificou. Abandonai a odiosa pretensão em que 
vossos chefes se empenharam; eles só defendem seus interesses e não 
vossos direitos, porque aqui não há ninguém que os pretenda usurpar; 
[...] Recordai o amor, a obediência, a fidelidade que vossos pais sem-
pre tiveram aos nossosreis: voltai aos vossos lares e pregai a doutrina 
do homem justo e convidai todos os vossos concidadãos a reentrar na 
obediência e fidelidade que deveis ao benigno de todos os monarcas, ao 
nosso Augusto Rei, o senhor d. João VI [...] (ARQUIVO NACIONAL 
apud PEREIRA, 2012, p. 88).
Os conflitos na Cisplatina somaram-se ao enfrentamento entre as tropas brasileiras 
e as portuguesas que se encontravam na Bahia, região que também questionava a 
separação de Portugal. Desse modo, observamos, caro(a) aluno(a), que garantir 
a soberania nacional após 1822 representou um trabalho árduo para D. Pedro I e 
seus aliados. De norte a sul do país, eclodiram manifestações contrárias à inde-
pendência e de apoio à Portugal.
Desse conflito entre o Brasil e as Províncias do Rio da Prata resultou a incor-
poração da Banda Oriental do Uruguai ao território brasileiro e o reconhecimento 
da independência do Brasil pelas Províncias Unidas do Rio da Prata em 1824. No 
entanto, já em 1825, desenrolava-se um novo conflito envolvendo essa região.
A Banda Oriental do Uruguai, também denominada de Cisplatina, tornou-
-se alvo de uma disputa entre o Império do Brasil e a Argentina. A região da 
Cisplatina pertencia ao Brasil, mas a Argentina reivindicava sua reincorpora-
ção às Províncias Unidas do Rio da Prata. O conflito desenrolou-se quando o 
representante do governo argentino Manoel José Garcia enviou um documento 
para o governo brasileiro no qual reivindicava a reincorporação da Cisplatina, 
chamada por ele de Província Oriental (PEREIRA, 2012, p. 90).
Em resposta a esse documento, D. Pedro I declarou guerra à Argentina, jus-
tificando tal ação no argumento de que a região da Cisplatina fora anexada de 
maneira legal, não sendo fundamentada a tentativa de sua usurpação por parte 
da Argentina.
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O confronto entre as duas regiões foi mais um fator a colaborar com o des-
gaste da imagem do imperador. A crise que se estabeleceu nos negócios entre a 
Bahia e a Cisplatina com o fechamento do porto da Prata, os gastos com a guerra, 
o recrutamento e o alistamento forçado dos homens para lutarem na guerra e o 
saldo de mortes abalaram a imagem de D. Pedro I. 
A situação chegou ao fim em 1828 com a assinatura de acordo de paz entre 
Brasil e Argentina, em um momento em que ambos os países encontravam-se 
desgastados e fragilizados economicamente. Por esse acordo, intermediado pela 
Inglaterra, Brasil e Argentina, reconheciam a criação do Estado Independente 
do Uruguai.
Principais locais de batalha, povoações e fortes durante a Guerra da Cisplatina (1825-1828)
Fonte: Universidade Federal do Paraná (online). 
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A CRISE DO PRIMEIRO REINADO E A ABDICAÇÃO DE D. 
PEDRO I
Manchete sobre a abdicação de D. Pedro I em 1831
Fonte: Arquivo Nacional (online).
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Como podemos notar até o momento, caro(a) acadêmico(a), desde que assu-
miu a condição de defensor perpétuo do Brasil e, posteriormente, imperador do 
Brasil, D. Pedro I precisou lutar e coordenar diferentes interesses e situações na 
busca pela construção do Estado brasileiro.
Em seu caminho, deparou-se com ideologias e conflitos cujos desdobra-
mentos contribuíram para que o imperador fosse perdendo aliados e apoio da 
população brasileira. Nesse cenário, sua reputação e capacidade de estar à frente 
de uma nação que buscava sua afirmação diante de outras e de si mesma foi ques-
tionada e colocada à prova.
Somadas essas questões às tendências monarquistas e absolutistas de D. 
Pedro I, seu governo foi marcado por uma intensa agitação no país que refletia 
os anseios dos “cidadãos” brasileiros e, também, a influência dos acontecimen-
tos externos tanto no âmbito político quanto no econômico e no cultural.
Internamente, eclodiram manifestações e motins contrários ao governo de 
D. Pedro I e à repressão sofrida por aqueles que se opunham à administração 
do imperador. A situação de descaso com a maioria dos brasileiros, os de cama-
das inferiores e a concessão de privilégios a portugueses imigrados distanciavam 
D. Pedro I da população local. Além disso, o seu amplo poder conquistado por 
meio da criação do Poder Moderador e sua política externa não agradavam a 
elite da época.
Externamente, a influência da Inglaterra ao longo de todo o Primeiro Reinado 
gerou desconfiança e preocupações por parte das elites brasileiras, que temiam que 
o imperador cedesse à pressão inglesa pelo fim da escravidão no Brasil, fato que 
prejudicaria essa camada social, colocando em risco seus interesses e privilégios.
Nesse contexto, instalou-se um cenário de insatisfação com o governo e com 
a figura de D. Pedro I, que foi o ponto de partida para a sua abdicação em 1831. 
Na defesa pelo afastamento de D. Pedro, indivíduos, embora com ideias, interes-
ses e propostas diversas, uniram-se para acabar de vez com o poder de D. Pedro I. 
O amplo descontentamento que levou à revolução da Abdicação em 
1831 foi pouco coeso no que diz respeito aos atores, formas de conce-
ber a política e a sociedade, haja vista a profunda diversidade e hierar-
quização social, política e étnica que caracterizava a sociedade imperial 
brasileira nas primeiras décadas do século XIX. Por um lado, havia 
uma massa populacional pobre formada em sua maioria por libertos e 
Tufy Kairuz
pelo fim do tráfico atlãntico de escravizados não pelo fim da escravidão.
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mestiços que vivia em acentuada pobreza. A esta população livre pobre 
se somavam os escravos de ganho que circulavam pelas ruas da Corte 
em seus diversos ofícios e atividades. Tal população trouxe sempre pre-
ocupações para as autoridades, que, através da Intendência de Polícia e 
legislação punitiva e coercitiva – com rondas noturnas e revistas – pro-
curava manter, embora com dificuldades, a ordem nas ruas (RAUTER, 
2011, p. 98).
Chamamos sua atenção, caro(a) aluno(a), para o fato de que, mais uma vez, a 
sociedade, embora unida no desejo de ver afastado o imperador, dividia-se na 
defesa de ideologias distintas e que representavam, cada uma ao seu modo, os 
interesses de apenas alguns indivíduos.
De um lado, estavam os chamados liberais moderados, que defendiam a 
redução do poder de D. Pedro I em benefício do poder da Assembleia. Embora 
considerados liberais, não defendiam o fim da escravidão, visto que isso iria 
contra seus interesses econômicos e eram contrários à adoção do sistema repu-
blicano. O liberalismo a que se referiam dizia respeito apenas à questão do fim 
do absolutismo de D. Pedro I.
No outro lado, encontravam-se os liberais exaltados, que defendiam a república 
mesmo que fosse preciso uma revolução. De acordo com Rauter (2011, p. 100),
Ao contrário dos moderados, os exaltados eram francamente revolu-
cionários. Até a abdicação, eram mais discretos no seu republicanismo 
e no seu federalismo, mas, no governo regencial, o propalaram aber-
tamente. A insurreição era para eles um “direito dos povos” na luta 
contra a tirania e o despotismo, e a república a melhor forma de go-
verno. Porém, a revolução era considerada um recurso extremo, a que 
se recorrer em situações limite onde imperava o despotismo absoluto, 
o que, na visão dos exaltados estava acontecendo naquele momento, 
tanto no final do primeiro reinado, quanto nos primeiros anos da re-
gência. Tratava-se de uma revolução de caráter popular que instauraria 
um governo liberal e diversasoutras transformações de caráter social.
Gravura anônima, Maria da Glória, filha de D. Pedro I
Fonte: MultiRio (online).
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A SUCESSÃO DO TRONO PORTUGUÊS
Uma questão que acentuou os conflitos nas relações entre D. Pedro I e os bra-
sileiros esteve relacionada com a sucessão do trono português, após a morte de 
D. João VI, em 1826.
Com a morte do monarca português, 
D. Pedro I assumiu o lugar de seu pai 
no comando de Portugal. Entretanto sua 
ideia era abdicar do trono português em 
favor de sua filha D. Maria II e, enquanto 
esta não pudesse assumir o trono, visto 
que era ainda uma criança, seria nome-
ada uma regência liderada pela irmã de 
D. Maria II, D. Isabel Maria, que gover-
naria Portugal até que a herdeira legítima 
do trono pudesse se casar com D. Miguel 
– irmão de D. Pedro I – e este assumisse, 
então, a coroa portuguesa (VIANNA, 
2013, p. 43-44).
A solução para essa questão não saiu 
de acordo com os desejos de D. Pedro 
I e este foi aclamado Rei Absoluto de 
Portugal em 1828. Essa nomeação interferiu diretamente na situação política 
do Brasil, agravando ainda mais as já complicadas relações entre o imperador e 
os brasileiros. A situação agravou-se quando D. Miguel usurpou o trono portu-
guês e autodeclarou-se rei de Portugal, anulando a Constituição outorgada por 
Nesse momento de agitação política e social, as elites intelectuais do Brasil e 
os demais indivíduos da sociedade brasileira uniram-se independentemen-
te de suas condições sociais em torno de um objetivo comum, o que não 
significava que as barreiras e as diferenças sociais haviam sido superadas. 
Fonte: a autora. 
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D. Pedro I à Portugal. Diante da atitude de D. Miguel, D. Pedro precisou voltar 
suas atenções para Portugal, na tentativa de expulsar seu irmão do trono e devol-
vê-lo à sua legítima herdeira, D. Maria II.
Honoré Daumier, Caricatura, D. Pedro e D. Miguel, “Dois Hipócritas Que Não Se Farão Grande Mal
Fonte: MultiRio (online).
A elite política brasileira acusava D. Pedro I de dedicar maior atenção às questões 
que envolviam a sucessão do trono português do que os problemas internos do 
Brasil. Somaram-se a essa crítica as manifestações contrárias ao fato de que, ao 
invés de se dedicarem aos assuntos brasileiros, os ministros, deputados e diplo-
matas brasileiros precisavam voltar suas atenções para a solução do problema 
dinástico português, haja vista que esse assunto envolvia a infanta brasileira D. 
Maria e significava o envolvimento de outros países como Inglaterra e Áustria 
– ambos visando defender seus próprios interesses – no desenvolvimento da dis-
cussão. Além disso, o fantasma da recolonização do Brasil voltou a assombrar 
a sociedade diante da coroação de D. Pedro I como rei de Portugal.
Jornal A Aurora Fluminense
Fonte: MultiRio (online).
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A ABDICAÇÃO DE D. PEDRO I.
A oposição a D. Pedro I ganhava força com a ação da imprensa, representada 
pelos jornais A Astréia, fundado em 1826 por Antônio José do Amaral e José 
Joaquim Vieira Souto; Aurora Fluminense, fundado em 1827 e que teve em 
Evaristo Ferreira da Veiga sua voz mais expressiva; o Malagueta, que voltou à 
ativa em 1828 com críticas ferozes ao imperador, que levaram à repressão de 
Luiz Augusto May, redator do jornal (VIANNA, 2013, p. 50).
Diante do crescente ataque de seus opo-
sitores por meio da imprensa, D. Pedro I 
reprimiu legalmente as publicações, além 
de continuar promovendo perseguições e 
ataques utilizando-se também de periódi-
cos escritos por seus aliados.
Esse cenário foi se consolidando e, em 
1830, a divergência entre os brasileiros e os 
portugueses que apoiavam D. Pedro I tor-
nara-se insustentável, resultando em uma 
troca de acusações entre representantes das 
duas nacionalidades por meio da imprensa 
e no aumento do número de deputados de 
oposição a D. Pedro I. 
Após uma viagem a Minas Gerais, rea-
lizada no final de 1830, da qual retornou 
em abril de 1831, D. Pedro I foi recebido 
por seus aliados, dentre eles, portugueses e 
alguns brasileiros que ainda enxergavam no 
imperador a figura do defensor do Brasil, 
com manifestações de apoio (VIANNA, 
2013, p. 53).
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No entanto, durante a recepção de D. Pedro I, brasileiros de oposição ao 
governo e contrários aos portugueses que aqui viviam, chamados de exaltados, 
promoveram ataques aos portugueses que ovacionavam D. Pedro I. Durante 
as festividades pela chegada de D. Pedro I, os exaltados atacavam os portugue-
ses que usavam de garrafas e outros artifícios para se defender. Os conflitos 
que marcaram esses eventos ficaram conhecidos como a Noite das Garrafadas 
(VIANNA, 2013, p. 54).
A noite das garrafadas representou o auge das diferenças entre brasileiros 
e portugueses e a crescente oposição a D. Pedro I. Os eventos que se seguiram 
àqueles dias levaram ao extremo as relações entre o imperador, os liberais e os 
demais brasileiros. Não havia mais respeito por aquele que um dia representou 
o início e a defesa de um novo capítulo na história do Brasil. Suas tentativas de 
moldar e de manipular a sociedade e a Constituição para restaurar a monarquia 
absolutista e governar sem a interferência da Assembleia minaram gradativa-
mente a confiança nele antes depositada.
As críticas e as acusações diárias, nem todas verdadeiras, publicadas na 
imprensa provocaram uma agitação social a qual os ministros da guerra e da 
justiça de D. Pedro I não conseguiam conter. A situação era clara: o imperador 
perdera o apoio, a confiança e a lealdade de seus súditos brasileiros.
Quando D. Pedro I nomeou para ministros nomes impopulares, como o 
marquês de Paranaguá, o visconde Alcântara, o marquês de Baependi, o conde 
de Lages e o marquês de Aracati, os brasileiros saíram às ruas para manifestarem 
sua insatisfação e contavam com o apoio dos soldados do quartel de infantaria. 
O senador Vergueiro, Evaristo da Veiga e Odorico Mendes – organizadores do 
movimento liberal contra o imperador – endossaram os discursos e os protes-
tos contra D. Pedro I (LUSTOSA, s.d., p. 613).
Em reposta a essa manifestação, D. Pedro enviou um comunicado à popu-
lação, no qual dizia:
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Brasileiros! Uma só vontade nos una. Para que tantas desconfianças, 
que não podem trazer à pátria senão desgraças? Desconfiais de mim? 
Assentais que poderei ser traidor àquela mesma pátria que adotei para 
minha? Ao Brasil? Àquele mesmo Brasil por quem tenho feito tantos 
sacrifícios? Podereis querer atentar contra a Constituição, que vos ofe-
reci e que convosco jurei? Ah, brasileiros! Sossegai. Eu vos dou minha 
imperial palavra de que sou constitucional de coração e sempre sus-
tentarei essa Constituição. Confiai em mim e no ministério: ele está 
animado dos mesmos sentimentos que eu; aliás, [se assim não fosse] eu 
não o nomearia. União e tranqüilidade, obediência às leis, respeito às 
autoridades constituídas (LUSTOSA, s. d., p. 614-615).
As palavras de D. Pedro I não tiveram efeito sobre os manifestantes, que exi-
giam a demissão dos novos ministros, os quais não eram dignos de confiança. 
D. Pedro I recusou-se a satisfazer o desejo da população e manteve-se firme em 
sua posição. Porém, o imperador já dava sinaisde compreender que sua per-
manência como chefe de Estado do Brasil não mais se sustentaria. Diante disso, 
escreveu ao antigo aliado José Bonifácio pedindo que este aceitasse o cargo de 
tutor de seu filho D. Pedro de Alcântara. 
No dia 07 de Abril de 1831, D. Pedro I abdicou do trono brasileiro em favor 
de seu filho D. Pedro de Alcântara, então com cinco anos de idade. Chegava ao 
fim o Primeiro Reinado, com uma ruptura dramática entre o Brasil e o impe-
rador, que afirmava: “entre mim e o Brasil tudo está acabado e para sempre” 
(LUSTOSA, s.d., p. 618).
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D. Pedro entregando o ato de renúncia
Fonte: MultiRio (online).
Para os opositores de D. Pedro I, a sua abdicação significou uma ruptura defi-
nitiva com Portugal, uma vez que o Brasil não mais seria governado por um 
representante que possuía também direitos monárquicos sobre aquela nação. A 
sensação de liberdade tomou conta dos brasileiros naquele momento e essa sen-
sação era expressa na imprensa como a felicitar os indivíduos pela conquista. 
No jornal Nova Luz Brasileira, de Ezequiel Corrêa dos Santos, era possí-
vel encontrar o que a abdicação de D. Pedro I representou para seus opositores:
Abdicou o tirano; e nas mãos da liberdade existe hoje o cetro d´ouro 
que o monstro havia convertido em virga-férrea. Os Brasileiros come-
çam finalmente a possuir uma pátria; e o Brasil vai-se querendo situar 
na América Livre (MATTOS apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 19).
Para alguns historiadores estudiosos do período, 1831 é considerada a data da 
verdadeira independência do Brasil, data em que o país passa a ser de fato dos 
brasileiros, governado por brasileiros.
O Período Regencial (1831-1840)
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O PERÍODO REGENCIAL (1831-1840)
Com a abdicação de D. Pedro I, em 07 de abril de 1831, caro(a) aluno(a), encer-
rou-se o primeiro capítulo da história da formação do Brasil enquanto Estado 
independente. A partir dessa data, o processo de evolução da sociedade brasi-
leira entrou em uma fase em que as divergências políticas e ideológicas ganharam 
novo fôlego e por todo país assistimos a eclosão de movimentos que buscavam 
a consolidação de projetos distintos para o país.
Mais uma vez, cabe ressaltar que as discussões acerca dos encaminhamen-
tos políticos do país ganhavam destaque e dividiam a sociedade. As palavras de 
um contemporâneo do período mostram o clima na sociedade brasileira a par-
tir de 1831:
Nasci e me criei no tempo das regências; e nesse tempo o Brasil vivia, 
por assim dizer, muito mais na praça pública do que mesmo no lar 
doméstico; ou em outros termos, vivia em uma atmosfera tão essen-
cialmente política que o menino, que em casa muito depressa aprendia 
a falar liberdade e pátria, quando ia para a escola, apenas sabia soletrar 
a doutrina cristã, começava logo a ler a aprender a constituição política 
do Império (RESENDE, 1944 apud GRIMBERG; SALLES, 2009, p. 28).
Tal era o clima nas ruas do Brasil a partir de 1831. As ideologias e os projetos 
políticos presentes no momento após a abdicação de D. Pedro I eram represen-
tados pelos liberais moderados – que eram a maioria na Câmara dos Deputados 
–, pelos liberais exaltados – que, embora tivessem ajudado no processo que levou 
à abdicação de D. Pedro I, tiveram seus interesses e ideais colocados de lado 
após o 07 de abril, quando os moderados assumiram o controle do governo – 
e pelos restauradores (também chamados de caramurus), que apoiavam a volta 
de D. Pedro I.
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REGÊNCIA TRINA PROVISÓRIA (1831) E REGÊNCIA TRINA 
PERMANENTE (1831-1835)
Nesse momento da história do Brasil, o primeiro ponto a ser resolvido era a 
questão da sucessão de D. Pedro I no comando do país, uma vez que o príncipe 
herdeiro D. Pedro de Alcântara tinha apenas cinco anos de idade. Mesmo sendo 
imediatamente após a renúncia de D. Pedro I, coroado imperador do Brasil com o 
nome de D. Pedro II, Pedro de Alcântara não tinha como governar o país devido 
à sua pouca idade. Os moderados assumiram a frente das discussões em busca 
da solução para a questão que se apresentava. 
De acordo com a Constituição de 1824, até que o novo imperador atingisse 
a idade necessária para assumir o comando do país, este deveria ser governado 
por um membro da família imperial com mais de 25 anos de idade, o que não 
existia no Brasil, visto que as irmãs de D. Pedro II que aqui viviam também eram 
menores de idade (VIANNA, 2013, p. 59).
 “Os moderados seguiam os postulados clássicos do liberalismo, tendo em 
Locke, Montesquieu, Guizot e Constant suas principais referências; preten-
diam, e conseguiram, efetuar reformas político-institucionais que reduziam 
os poderes do imperador, conferiam maiores prerrogativas à Câmara dos 
Deputados e autonomia ao Judiciário, e garantiam a observância de direi-
tos previstos na Constituição, almejando uma liberdade moderna, que não 
ameaçasse a ordem imperial. Já os exaltados, adeptos de um liberalismo ra-
dical de feições jacobinistas, inspirado sobretudo em Rousseau, buscavam 
conjugar princípios liberais clássicos com ideais democráticos, pleiteando 
profundas reformas políticas e sociais, como uma república federativa, a ex-
tensão da cidadania política e civil a todos os segmentos sociais livres, o fim 
gradual da escravidão, uma relativa igualdade social e até um tipo de refor-
ma agrária. Por sua vez, os caramurus filiavam-se à vertente conservadora 
do liberalismo, tributária de Burke; críticos ferozes da Abdicação e avessos 
a qualquer reforma na Constituição, vistas como quebra arbitrária do pacto 
social, almejavam uma monarquia constitucional fortemente centralizada, 
ao estilo do Primeiro Reinado e, excepcionalmente, nutriam anseios restau-
radores”. 
Fonte: Basile (2006, p. 31-57). 
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Diante desse cenário, ainda de acordo com o que estabelecia a Constituição 
de 1824, cabia aos senadores e aos deputados que compunham a Assembleia 
Geral eleger uma Regência composta por três membros que seria presidida pelo 
membro mais velho. Essa solução também não pôde ser colocada em prática de 
imediato, na medida em que muitos membros da Assembleia Geral encontra-
vam-se ausentes do Rio de Janeiro por conta do período de férias (VIANNA, 
2013, p. 59).
Levando-se em consideração a urgência de se definir um novo comando para 
o Brasil, os senadores e deputados que se encontravam no Rio de Janeiro reuni-
ram-se e elegeram uma Regência Provisória até que a Assembleia Geral tivesse 
condições de eleger uma Regência Permanente. 
Os senadores e deputados que permaneceram no Rio de Janeiro elegeram os 
senadores José Joaquim Carneiro de Campos (Marquês de Caravelas), Nicolau 
Pereira de Campos Vergueiro e o brigadeiro Francisco de Lima e Silva para com-
por a Regência Trina Provisória. A escolha desses três nomes para a Regência 
Trina Provisória reafirmou a liderança dos moderados nesse período de transição.
Francisco de Lima e Silva representava o 
Exército no Governo
Fonte: MultiRio (online).
Nicolau P. de Campos, um senador 
moderado com ideias liberais
Fonte: MultiRio (online).
O IMPÉRIO DO BRASIL: 
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A Regência Trina Provisória governou por um curto período de tempo, sendo 
eleita em abril de 1831 e dissolvida em 17 de junho de 1831, quando os mem-
bros da Assembleia Geral elegeram os nomes que compunham a Regência Trina 
Permanente. Para formar a Regência Trina Permanente, foramescolhidos os 
deputados José da Costa Carvalho e João Bráulio Muniz, além de manter-se o 
brigadeiro Francisco de Lima e Silva. Mais uma vez, todos os membros repre-
sentavam os liberais moderados.
O Padre Diogo Antônio Feijó foi nomeado Ministro da Justiça e adotou 
medidas radicais para conter a agitação social que dominava o país desde os tem-
pos de oposição ao imperador D. Pedro I e que não diminuíram após a renúncia 
dele. Os liberais exaltados e os restauradores (ou caramurus) demonstravam sua 
insatisfação com o governo, promovendo ataques pela imprensa e instigando a 
população contra as atitudes da Regência, o que levou ao surgimento de vários 
motins ao longo do período de governo da Regência Trina Permanente.
O ministro da Justiça Padre Diogo Antônio Feijó acusava José Bonifácio, que 
integrava o grupo dos restauradores, de liderar as manifestações e os protestos 
contra o governo. Assim, passou a articular para que ele fosse retirado do cargo 
de tutor do jovem D. Pedro II, desejo que realizou em 1833, após uma acusa-
ção de conspiração de Bonifácio contra o governo. Em seu lugar, foi nomeado 
para tutor do jovem imperador Aureliano Coutinho, marquês de Intanhaém 
(VIANNA, 2013, p. 66).
“A imprensa conheceu desenvolvimento sem precedentes na década de 
1830. (...). Esse desenvolvimento da imprensa vincula-se intimamente às dis-
putas políticas, à emergência de diferentes projetos políticos e à mobiliza-
ção da opinião pública. Foi a arena na qual os debates transcorreram com 
maior abertura e amplitude (...)”.
Fonte: Basile (2009, p. 65).
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ATO ADICIONAL DE 1834
O Ato Adicional de 1834 foi a resposta aos desejos da elite política de uma reforma 
na Constituição de 1824, considerada ultrapassada diante da nova conjuntura 
política do país, qual seja, a existência de uma Regência.
Dentre os principais pontos questionados na Constituição em vigor, estavam 
os que tratavam da administração das Províncias, da continuidade do Conselho 
de Estado, do mandato vitalício dos Senadores e discutia-se, ainda, a possibili-
dade de transformar a Regência Trina em Regência Una, ou seja, eleger apenas 
um indivíduo para estar à frente do Brasil durante a impossibilidade do impe-
rador de assumir o trono (VIANNA, 2013, p. 66-67).
Perceba, caro(a) aluno(a), que as discussões apontavam para alterações em 
pontos importantes da Carta Constitucional de 1824, uma vez que buscava-se 
uma autonomia maior para as Províncias, o que poderia gerar alguns incômodos 
para a administração central, por exemplo, a adoção de medidas contrárias às 
propostas pelo governo. Além disso, a alteração do caráter vitalício dos Senadores 
não foi bem aceita por eles, por razões óbvias.
Mesmo com algumas propostas que mexiam na estrutura de organização do 
país, os parlamentares reuniram-se e, em 1832, decidiram que as discussões e as 
votações dessas propostas ocorreriam em 1834. Diante disso, em 12 de agosto 
de 1834, as propostas foram votadas e reunidas no documento denominado 
Ato Adicional à Constituição, o qual alterava alguns pontos da Carta de 1824.
Dentre as alterações estabelecidas pelo Ato Adicional, destacam-se a cria-
ção das Assembleias Legislativas Provinciais, que garantiam o poder de legislar 
sobre as questões civis, jurídicas e eclesiásticas das Províncias, concebendo 
maior autonomia às províncias; a extinção do Conselho de Estado criado por 
D. Pedro I após a dissolução da Assembleia Legislativa em 1823, a transforma-
ção da Regência Trina para Regência Una, com eleição popular para o regente 
que teria um mandato de quatro anos. (VIANNA, 2013, p. 67-68).
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Regência Una de Padre Diogo Antônio Feijó e Regência Una de Araújo Lima
Com a instituição do Ato Adicional de 1834 que transformara a Regência 
Trina em Regência Una, as eleições para escolher o novo regente ocorreram 
em 1835. Os cidadãos ativos brasileiros, aqueles que tinham direito ao voto, de 
acordo com a Constituição de 1824, deveriam escolher entre os candidatos o 
senador Padre Diogo Antônio Feijó, do Partido Moderado e o deputado Antonio 
Francisco de Paula Holanda Cavalcanti de Albuquerque, representante da aris-
tocracia nordestina.
O senador Padre Diogo Antonio Feijó venceu as eleições e tornou-se o 
Regente do Brasil. Seu governo foi marcado por forte oposição tanto de mem-
bros do próprio partido quanto da população, fato que fez crescer o número de 
revoltas por todo o país.
As eleições de 1835 tiveram um caráter diferente das eleições para cargos 
da administração do Brasil ocorridas até então, devido às conjunturas sob 
as quais se realizaram.
Para saber mais sobre o processo eleitoral de 1835, suas conjunturas e seus 
resultados, leia: CRUZ, Fábio S. Santa. Moderadores em disputa: considera-
ções sobre o pleito de 1835 para a escolha do Regente Uno do Império do 
Brasil. In: Revista Em tempos de História. nº 6, 2002.
Fonte: a autora.
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Diante da oposição sofrida dentro de seu partido, 
o Regente Feijó e seus aliados fundaram um novo 
partido, denominado Progressista, contra o qual 
seus opositores fundaram o Regressista. Esses 
dois partidos posteriormente foram transforma-
dos nos Partidos Liberal (antes Progressistas) e 
Conservador (antes Regressistas).
A oposição a Diogo Feijó crescia à medida 
que ele apresentava projetos que iam de encon-
tro aos interesses da elite e da aristocracia do 
país, sobretudo no que diz respeito à questão da 
escravidão. Feijó era a favor do fim da escravidão, 
uma vez que essa instituição representava uma 
contradição com o discurso liberal adotado pela 
elite política e intelectual do país desde os tempos das lutas pela independência.
A defesa do fim do regime escravocrata levantou a ira dos proprietários de 
terras e aumentou a oposição ao regente. Diante da crescente onda de insatisfação 
e dos motins e das revoltas que demonstravam a falta de apoio a seu governo e da 
falta de condições e de apoio para lidar com a situação, o Padre Diogo Antonio 
Feijó renunciou ao cargo de Regente do Brasil em 1837.
O Padre Diogo Antônio Feijó colocou em destaque a questão da escravidão 
durante o período em que foi Regente do Brasil, dando evidência à contra-
dição entre o discurso de uma nação liberal e a manutenção do regime que 
representava a supressão dos direitos e das liberdades individuais.
Fonte: a autora.
O Regente Feijó
Fonte: MultiRio (online).
Pedro de Araújo Lima, Marquês de Olinda
Fonte: MultiRio (online).
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Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Em seu lugar assumiu o Ministro do 
Império, o senador pernambucano Pedro de 
Araújo Lima, passando este a ser Regente inte-
rino até as eleições realizadas em 1838, nas 
quais ele saiu vitorioso, tornando-se o segundo 
Regente Uno do país.
O governo de Araújo Lima foi marcado por 
alguns avanços para a sociedade brasileira, na 
medida em que ele preocupou-se com aspec-
tos do desenvolvimento cultural da nação que 
até então, devido às agitações políticas e sociais 
que assolaram o país desde o início da perda 
de popularidade de D. Pedro I, estavam em 
segundo plano nas preocupações daqueles que 
comandavam o país.
Foi na Regência de Araújo Lima que o Imperial Colégio de Pedro II, o 
Instituto Histórico e Geográfi co Brasileiro e o Arquivo Nacional foram criados, 
demonstrando conquistas importantes para o desenvolvimento cultural e cien-
tífi co do Brasil (VIANNA, 2013, p. 73).
Embora o governo de Araújo Lima mereça destaque por essas inovações,a 
luta para acalmar as agitações e as revoltas que eclodiam em todo o país desde o 
período da Regência de Feijó também foi um aspecto importante do seu mandato, 
sendo ele capaz de vencer a Cabanagem (ocorrida no Grão-Pará) e a Sabinada 
(desenrolada na Bahia) (VIANNA, 2013, p. 73).
Araújo Lima foi eleito como Regente Uno em 1838 e por essa razão seu 
mandato deveria durar até 1842, quando seriam promovidas novas eleições. No 
entanto, em 1840, o regente foi deposto diante da organização de um golpe que 
objetivou colocar D. Pedro II no comando do Brasil antes mesmo de comple-
tar a maioridade. O chamado Golpe da Maioridade será o tema de abertura da 
nossa próxima unidade, caro(a) aluno(a).
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AS REVOLTAS DO PERÍODO REGENCIAL
Caro(a) aluno(a), como podemos perceber até o momento, o período que se 
seguiu à independência do Brasil e à coroação de D. Pedro como imperador do 
Brasil foi marcado por divergências ideológicas e pelo surgimento de projetos 
políticos de formação de uma identidade nacional divergentes, que acirraram a 
disputa pelo poder no país. 
No período regencial sobre o qual nos debruçamos nesse momento, encon-
tram-se algumas das mais expressivas revoltas que apontam para a complexidade 
da organização da sociedade pós-independência e para as divergências internas.
Dentre as revoltas iniciadas nesse período e que tiveram desdobramen-
tos ao longo do Segundo Reinado, em nosso estudo, destacamos a Cabanagem 
(1835-1840), a Sabinada (1837-1838), a Balaiada (1838-1841) e a Revolução 
Farroupilha (1835-1845).
Movimentos Sociais no Período Regencial
Fonte: MultiRio (online).
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Essas revoltas traziam em si propostas que iam de encontro ao direciona-
mento tomado pelo governo central no período regencial. De acordo com Basile,
Ponto importante a destacar nesses quatro movimentos diz respeito às 
propostas e medidas de secessão e de república; a primeira só não en-
saiada na Balaiada, e a segunda proclamada na Revolução Farroupilha 
(tanto no Rio Grande do Sul como em Santa Catarina) e na Sabinada. 
Cumpre observar, todavia, que em nenhuma dessas revoltas tais ideias 
parecem ter constituído objetivo prévio ou vieram depois se conver-
ter em causa maior que congregasse os revoltosos. Salvo raríssimas e 
pontuais exceções, não havia ideais separatistas presentes nos projetos 
políticos das facções regenciais, nelas incluídos os liberais exaltados, 
que capitanearam tais levantes. Quanto à adoção da República, embora 
fizesse parte, sem dúvida, do projeto e dos exaltados, o ponto central 
defendido por esse grupo no tocante à forma de governo era a imple-
mentação do federalismo – de preferência republicano para a maioria, 
mas, se necessário (e não raro até mesmo de bom grado), monárquico. 
(BASILE apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 71).
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Diante dessa exposição, caro(a) aluno(a), ressaltamos que a eclosão desses 
movimentos e dos demais que ocorreram ao longo de todo o período 
regencial refletem o descontentamento de setores da sociedade em relação à 
forma de con-trole adotada pelo governo central. Por essa razão, algumas 
dessas revoltas vão se prolongar pelo Segundo Reinado e contribuirão para o 
acirramento das dis-cussões acerca do momento político em questão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a) aluno(a), nosso objetivo nesta primeira unidade foi apresentar um pano-
rama do processo de formação da sociedade brasileira após a Independência, 
visando analisar criticamente as conjunturas que caracterizaram os primeiros 
passos na construção de uma identidade nacional para o país recém-emancipado.
Com esse objetivo em mente, nos debruçamos sobre as interpretações da 
historiografia acerca do processo de emancipação política do Brasil, buscando 
compreender de que maneira a ruptura entre Brasil e Portugal em 1822 signifi-
cou a libertação de fato do Brasil da dominação estrangeira.
Considerações Finais
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O que pudemos observar foi que a consolidação e o reconhecimento do Brasil 
enquanto nação independente foi um processo que não se concluiu nos primeiros 
anos pós-independência, na medida em que a influência de Portugal e de outras 
nações estrangeiras, como foi o caso da Inglaterra, estiveram muito presentes na 
organização do novo país, fato que, porvárias vezes, contribuiu para que os enca-
minhamentos tomados pelo governo brasileiro não respondessem aos anseios 
dos brasileiros que aqui viviam. Essa influência pôde ser sentida nas diversas 
esferas de organização da vida nesse território, tanto nos direcionamentos polí-
ticos e econômicos quanto no que diz respeito aos aspectos sociais e culturais.
Os indivíduos que lutaram pela separação de Portugal visando a um futuro 
baseado nos princípios liberais e na esperança de construção de uma sociedade 
na qual seus interesses fossem defendidos, viram suas esperanças diluídas quando 
o projeto da primeira Constituição após a independência dividiu a sociedade 
entre cidadãos ativos e cidadãos passivos, ou seja, entre aqueles a que teriam os 
direitos e os interesses assegurados e aqueles a quem apenas caberia assistir à 
evolução do país à margem do processo.
Na busca pela defesa de interesses próprios e de projetos políticos que beneficia-
vam apenas parte da sociedade, o liberalismo em seu sentido pleno foi substituído 
no Brasil por uma ideologia que, ao mesmo tempo em que se dizia liberal, assenta-
va-se em elementos que impediam o verdadeiro progresso da nação como um todo
1. “Direitos Civis e Direitos Políticos são expressões sinônimas, que querem dizer 
Direito da Cidade; porém, os Publicistas, para enriquecer a nomenclatura da Ci-
ência, lhes têm dado significação diversa, tomando a primeira pelos direitos que 
nascem das relações de indivíduo com indivíduo, e a segunda pelos direitos que 
nascem das relações do indivíduo com a sociedade”. (ANAIS DA CÂMARA DOS 
DEPUTADOS apud RIBEIRO; PEREIRA apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 152). O 
debate acerca da definição do conceito de cidadão no Brasil após a independên-
cia gerou conflitos entre os parlamentares até que se chegasse a um consenso. 
Explique o que representou para a sociedade brasileira a divisão dos brasi-
leiros entre cidadãos ativos e passivos prevista no projeto de Constituição 
elaborado pela Assembleia Constituinte em 1823.
2. “Legisladores! É chegado o tempo de estabelecerdes a nossa Liberdade sobre 
bases menos frágeis; mais filosóficas e justas do que essas que regem a oprimi-
da Europa. Em vossas mãos está hoje a felicidade presente no Povo brasileiro”. 
(NOVA LUZ BRASILEIRA apud MATTOS apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 19). A 
abdicação de D. Pedro I em 1831 representava a esperança da conquista da ver-
dadeira liberdade do povo brasileiro das influências internacionais. Descreva os 
fatores internos e externos que contribuíram para que D. Pedro I abrisse 
mão do governo brasileiro.
3. Após a renúncia de D. Pedro I abriu-se um período de discussões acerca dos ru-
mos do desenvolvimento do Estado brasileiro. Com relação ao início do Período 
Regencial no Brasil e aos projetos políticos apresentados nesse momento, assi-
nale a alternativa correta.
a) Com a volta de D. Pedro I para Portugal, a elite política do Brasil conseguiu en-
contrar um equilíbrio entre suas propostas políticas, evitando que os conflitos 
que marcaram o Primeiro Reinado reaparecessem. 
b) O grupo dos exaltados apresentavam, em 1831, um projeto para o Brasil basea-
do na adoção de uma nação com ideais republicanos e organizado com a mão 
de obra assalariada.
c) Os restauradores foram assim chamados devido à defesa que faziam do retorno 
de D. João VI como monarca do Brasil e à retomada do projeto colonizador, ideal 
para o desenvolvimento de seus interesses.
d) As ideologias e os projetos políticos presentes no momento após a abdicação de 
D. Pedro I eram representados pelos liberais moderados, que defendiam a redu-
ção dos poderes do imperador, pelos liberais exaltados, que defendiam a adoção 
de uma República Federativa e pelos restauradores, críticos da abdicação.
e) Com o acirramento dos debates na Assembleia Legislativa, os Deputados e os 
Senadores do Brasil optaram por permitir que uma junta composta por repre-
sentantes dos moderadores, dos exaltados e dos restauradores assumissem o 
comando do Brasil até que D. Pedro II pudesse assumir o trono.
61 
4. O Período Regencial iniciado em 1831 representou um período conturbado da 
história brasileira no qual se configurou um cenário de agitações sociais e de mu-
danças políticas. Levando-se em consideração as discussões apresentadas nesta 
unidade, leias as afirmações abaixo:
I. A escolha dos membros que compunham a Regência Trina Provisória reafirmou 
a liderança dos moderados nesse período de transição.
II. O Ato Adicional de 1834 foi a resposta aos desejos da elite política de uma refor-
ma na Constituição de 1824, considerada ultrapassada diante da nova conjuntu-
ra política do país, qual seja, a existência de uma Regência.
III. A dissolução da Regência Trina Permanente ocorreu devido à vontade de D. Pe-
dro II assumir o trono, visto que já ele se encontrava em idade suficiente para o 
exercício da administração.
IV. A oposição a Diogo Feijó crescia à medida que este apresentava projetos que 
iam de encontro aos interesses da elite e da aristocracia do país, sobretudo no 
que diz respeito à questão da escravidão.
Estão corretas as afirmativas:
a) I.
b) III e IV.
c) I, II e III.
d) I, II e IV.
e) II e IV.
UM ARTISTA NA CORTE: O BRASIL NA VISÃO DE JEAN-BAPTISTE DEBRET
Jean-Baptiste Debret foi um pintor francês que, em suas viagens ao Brasil, procurou re-
tratar por meio da pintura suas impressões acerca da sociedade formada na América nos 
tempos do governo joanino e no Primeiro Império.
Debret permaneceu no Brasil por quinze anos, entre 1816 e 1831 e como resultado des-
sa estadia em nosso país produziu uma obra na qual retratou a escravidão no Brasil e 
outros aspectos de nossa sociedade e da nossa cultura, ainda em formação no período 
de sua visita. Desse modo, suas obras relacionadas ao Brasil são documentos importan-
tes para compreendermos um pouco de nossa própria história, na visão de um artista 
preocupado não só em retratar os elementos que compunham a política e a economia 
de nossa sociedade, mas também elementos sociais de nossa cultura.
No período em que permaneceu no Brasil, Debret foi testemunha dos eventos que mar-
caram a nossa evolução, desde a elevação do Brasil à condição de Reino Unido até a 
abdicação de D. Pedro I. Nesse sentido, teve a oportunidade de analisar e de retratar, por 
meio de sua pintura histórica, suas impressões acerca desses eventos.
Sua maior obra em relação ao que viu e viveu no Brasil, Viagem Pitoresca e Histórica 
ao Brasil, foi publicada em três volumes entre os anos de 1834 e 1839, em Paris na Fran-
ça, e representa mais do que o incentivo de D. João VI para instalação de uma Academia 
de Belas Artes. As representações presentes nesses três volumes – que por muito tempo 
não tiveram seu valor histórico reconhecido – demonstram o interesse e o envolvimento 
pessoal que o artista desenvolveu pelo Brasil no período em que aqui esteve.
Analisar a obra de Jean-Baptiste Debret em relação ao Brasil permite ao professor de 
história ampliar as possibilidades de estudo e instigar aqueles sob sua tutela.
Fonte: adaptado de LIMA (2004). 
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
Título: O Tempo e o Vento
Autor: Érico Veríssimo
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: O Tempo e o Vento é uma coletânea de livros composta 
por sete livros que contam a história da formação e evolução do 
Rio Grande do Sul. A obra compreende o período de 1745 a 1945, 
contemplando dessa maneira, eventos importantes da região e do 
Brasil, por exemplo, os eventos que marcaram a Guerra da Cisplatina 
(1825-1828) e a evolução da Revolução Farroupilha (1835-1845). 
Érico Veríssimo conduz sua análise da história do Rio Grande do Sul 
com uma narrativa que permite ao leitor compreender de maneira 
hábil o desenrolar dos acontecimentos. 
O historiador Bóris Fausto faz uma análise do período imperial brasileiro, discutindo os 
elementos que marcaram o processo de independência do Brasil e a organização do 
novo país após a emancipação política de Portugal.Disponível em: 
https://www.youtube.com/watch?v=FIoM1gz-pdE. Acesso em: 01 jul. 2015.
Título: Uma História de Amor e Fúria
Ano: 2013.
Direção: Luiz Bolognesi
Sinopse: O fi lme aborda a história do Brasil desde o seu 
“descobrimento” até um futuro fi ctício no ano de 2096. A história é 
contada a partir dos confl itos que marcaram a evolução histórica 
do nosso país, como os confl itos indígenas, as revoltas do período 
imperial brasileiro bem como do período de vigência da ditadura 
militar brasileira. Trata-se de uma animação que busca evidenciar 
as infl uências dos confl itos na formação da identidade nacional.
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Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
ANÁLISE DO PROCESSO DE TRANSIÇÃO 
DO FIM DA MONARQUIA PARA O INÍCIO 
DA REPÚBLICA BRASILEIRA
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Analisar o governo de D. Pedro II.
 ■ Compreender o processo de desenvolvimento da economia cafeeira.
 ■ Entender as discussões acerca da escravidão e o movimento 
abolicionista ao longo do Império.
 ■ Verificar as conjunturas que marcaram o fim do período monárquico 
no Brasil e a Proclamação da República.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ O Segundo Reinado: o governo de D. Pedro Il.
 ■ A economia no período imperial brasileiro. 
 ■ O movimento abolicionista no Brasil Imperial.
 ■ O movimento republicano e o fim da monarquia no Brasil.
INTRODUÇÃO
Caro(a) aluno(a), estudamos na unidade I os aspectos políticos e sociais que mar-
caram o início do período imperial do Brasil, com o governo de D. Pedro I e de 
que maneira o Estado brasileiro buscou constituir-se e consolidar-se enquanto 
nação livre perante as demais nações.
Nesta unidade, o objetivo é dar continuidade à análise desse processo, evi-
denciando os elementos que caracterizaram o governo de D. Pedro II, buscando 
compreender a lógica seguida por esse imperador para levar adiante o processo 
de constituição de uma identidade brasileira.
Destacamos na unidade anterior que os primeiros anos do Brasil após sua 
independência de Portugal não foram tranquilos, enfrentando o imperador con-
flitos tanto de ordem interna quanto externa. Ao estudarmos o governo de D. 
Pedro II, perceberemos que as tensões políticas, econômicas e sociais continua-
rão presentes, promovendo, mais uma vez, transformações profundas nas bases 
de organização do país.
Veremos acirrarem-se as discussões em torno do liberalismo e a continuidade 
do sistema escravocrata estará no centro dessas discussões. Com o crescimento 
do movimento abolicionista, os proprietários de terras e de escravos no Brasil 
buscam alianças e mecanismos para perpetuar a escravidão e evitar o que, para 
eles, significaria a redução de seus ganhos.
Com a abolição da escravidão em 1888, a monarquia brasileira perderá 
sua principal base de sustentação, conforme veremos, e chegará ao fim no ano 
seguinte, em um processo que denota a maneira pela qual o país se organizará a 
partir daquele momento, com a concentração do poder nas mãos da aristocra-
cia em detrimento, mais uma vez, das camadas populares.
Portanto, caro(a) aluno(a), as discussões apresentadas nesta unidade reque-
rem atenção, haja vista tratarem da análise de um momento decisivo na história 
da formação do Estado brasileiro.
Introdução
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D. Pedro II
Fonte: Portal do Instituto Brasileiro de Museus 
(online). 
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O SEGUNDO REINADO: O GOVERNO DE D. PEDRO II
D. Pedro I abdicou do trono brasileiro em 7 
de Abril de 1831, deixando o país nas mãos 
de seu filho Pedro de Alcântara de cinco 
anos de idade, o que o impossibilitava de 
assumir o comando do Brasil. Diante dessa 
impossibilidade, uma junta de três membros 
foi formada para administrar o país até que 
Pedro de Alcântara, agora D. Pedro II, atin-
gisse a maioridade. Tinha início o Período 
Regencial que perdurou até 1840.
O Regente Uno Araújo Lima fora eleito 
em 1838 após a renúncia do Regente Padre 
Diogo Antônio Feijó e deveria governar o 
Brasil até 1842, quando haveria novas eleições 
para escolherem seu sucessor. No entanto, 
Araújo Lima deixou o comando do Brasil 
em 1840, dois anos antes do fim do seu 
mandato.
A precocidade do fim do mandato de Araújo Lima explica-se pela aprova-
ção da Lei de Interpretação do Ato Adicional de 1834, aprovada em 1840. De 
acordo com essa lei, as medidas impostas pelo Ato de 1834 que garantiam maior 
autonomia às Províncias e aos Municípios foram revogadas, restaurando a ação 
centralizadora do governo central. 
A aprovação da Lei Interpretativa deve ser entendida pelo caráter conserva-
dor do governo de Araújo Lima (VIANNA, 2013, p. 73), que tinha o apoio dos 
membros do Partido Regressista, no contexto da eclosão das inúmeras revoltas 
em todo o país, conforme elencamos na unidade anterior. Nesse sentido, a descen-
tralização do poder decorrente do aumento da autonomia das Províncias gerou 
um desconforto e uma desconfiança por parte dos defensores da monarquia, 
que temiam que o governo central não mais recuperasse o controle da situação.
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Diante desse cenário, a elite brasileira demonstrava o desejo de ver o país 
novamente regido por um poder central forte, capaz de evitar a onda de mani-
festações e de ameaças separativas que se espalhavam pelo país. Nesse contexto a 
ideia de emancipação da maioridade de D. Pedro II surge entre os membros tanto 
do Partido Progressista quando do Partido Regressista, ambos preocupados com 
os rumos que a nação tomava, mesmo após a aprovação da Lei Interpretativa.
De acordo com Olivieri,
De qualquer modo, o Rio de Janeiro era a sede do poder no país. Um 
país constantemente ameaçado pela desunião das Províncias e pelo des-
membramento. Nesse sentido, D. Pedro II, embora criança, teve grande 
contribuição a dar ao Brasil. Como imperador, era o símbolo vivo da 
unidade de uma pátria há pouco tempo conquistada aos portugueses. 
Essa posição lhe dava, diante da opinião pública, uma autoridade maior 
do que a de qualquer regência. (OLIVIERI, 2001, p. 10).
Com essa imagem construída diante dos brasileiros, D. Pedro II passou a ser 
considerado, mesmo que ainda muito jovem, como o único capaz de resolver a 
situação conflituosa na qual o Brasil se encontrava. Assim, a elite política do país 
buscou medidas para driblar a Constituição de 1824 – que dizia que o imperador 
deveria ter 18 anos para assumir o trono – e antecipar a ascensão de D. Pedro II 
ao cargo de chefe do Estado brasileiro.
 “Ninguém lembrou de perguntar sobre os méritos do régio adolescente. 
Mais uma vez era o símbolo que se impunha à pessoa. Era a representação e 
o prestígio da instituição que deveria ‘salvar a nação’”.
Fonte: Schwarcz (1998. p. 68).
D. Pedro II na época da sagração, RJ, Fundação 
Biblioteca Nacional
Fonte: MultiRio (online). 
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E70
O GOLPE DA MAIORIDADE E A COROAÇÃO DE D. PEDRO II
A solução encontrada para a questão foi ignorar o que dizia a Constituição e 
intensificar, em 1840, a campanha pela redução da maioridade do imperador 
com a criação do Clube da Maioridade, pelo Partido Liberal, e que não encon-
trou oposição dentre os adversários políticos. De acordo com Schwarcz, “era a 
instabilidade da ordem política e a inquietação diante das várias rebeliões que 
levaram a se enterrar o regime antes da sua morte” (1998, p. 68).
 Apoiado pelo povo e incentivado por 
seu tutor, o Visconde de Intanhém,aos 
15 anos de idade D. Pedro II foi coro-
ado imperador do Brasil. (OLIVIERI, 
2011, p. 12).
A coroação de D. Pedro II foi cele-
brada com uma grande festa que, de 
acordo com Schwarcz (1998, p. 78), para 
além da importância política do aconte-
cimento, demonstrou a suntuosidade do 
momento para a construção de uma cul-
tura local. Ainda segundo a autora,
 
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Talvez a sagração de d. Pedro II represente mesmo um primeiro mo-
mento em que se fundem duas instâncias. De um lado, era evidente o 
lado instrumental do ritual por parte das elites, que com ele recoloca-
vam um imperador como símbolo da nação, e encontravam na monar-
quia um sistema necessário de arbitramento dos conflitos entre elas. 
Ou seja, tomado desse ângulo, tratava-se claramente de um golpe das 
elites para as elites. De outro lado, porém, a riqueza do ritual e da força 
de sua divulgação levaram a uma explosão do imaginário popular, que, 
na “chave das festas”, relia a mística desse pequeno rei brasileiro, “sagra-
do e encantado”. (SCHWARCZ, 1998, p. 83).
DIRETRIZES DO GOVERNO DE D. PEDRO II
Passada a festa e os rituais que marcaram sua coroação, o jovem D. Pedro II pre-
cisou lidar com as agitações políticas e sociais que permeavam o país. A principal 
preocupação do imperador era em relação às revoltas que surgiram ainda no 
Período Regencial. Algumas delas foram controladas e sufocadas, mas outras, 
como a Revolução Farroupilha – iniciada em 1835 no Rio Grande do Sul – con-
tinuavam a merecer atenção. Além dessa revolta, apenas a Revolução Praieira 
ocorrida em Pernambuco em 1848 representou uma ameaça aos planos de D. 
Pedro II. 
A Revolução Praieira de 1848 articula-se no contexto das revoluções demo-
cráticas que ocorreram na Europa no mesmo período. Período conhecido 
como Primavera dos Povos, as revoluções de 1848 representaram um mo-
vimento das camadas populares contra governos centralizadores e autori-
tários que não levavam em consideração a defesa dos interesses do povo.
Para um conhecimento mais aprofundado sobre a Primavera dos Povos, leia: 
HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 
2009.
Fonte: a autora.
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Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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O poder voltou às mãos do imperador e mais uma vez o Poder Moderador 
garantiu a centralização que Liberais e Conservadores buscavam após o Período 
Regencial e sobretudo o Ato Adicional de 1834. Para consolidar seu poder e 
governar com relativa estabilidade, D. Pedro II foi aconselhado a se aproximar da 
aristocracia e conceder-lhe algum privilégio, numa tentativa de acalmar aqueles 
que o criticavam por sua postura mais favorável ao fim da escravidão (FAUSTO, 
1995, p. 177-178).
Da aliança entre o imperador e a aristocracia, 
Começou a funcionar um sistema de governo assemelhado ao parla-
mentar, mas que não se confunde com o parlamentarismo no sentido 
próprio da expressão. Em primeiro lugar, lembremos o fato de que a 
Constituição de 1824 não tinha nada de parlamentarista. De acordo 
com seus dispositivos, o Poder Executivo era chefiado pelo imperador 
e exercido por ministros de Estado livremente nomeados por ele. Esse 
critério é diverso do parlamentarismo, pois nesse sistema o ministério 
– chamado de gabinete – depende essencialmente do Parlamento, de 
onde sai a maioria de seus membros. (FAUSTO, 1995, p. 179).
Na construção dessa base política, a aristocracia encontrou no Partido Liberal seu 
maior aliado devido às ideias defendidas por este de construção de um governo 
federalista com maior participação dos poderes locais e, portanto – embora 
defendendo a monarquia – a sua não colaboração para a manutenção do Poder 
Moderador. O Partido Conservador, por sua vez, assentou sua base de apoio nos 
comerciantes e nos senhores de crédito, na defesa do fim do tráfico de escravos 
e na elaboração das leis abolicionistas (FAORO, 1976, p. 341-342).
Coube a D. Pedro II equilibrar os antagonismos de ambos os partidos com 
a nomeação de políticos tanto de um quanto de outro para a composição do 
legislativo. Nomeava seus ministros com vistas à defesa de seus interesses, não 
se obstando de demiti-los diante da contrariedade destes. Ademais, embora 
os cargos de deputados e de senadores fossem preenchidos por meio de elei-
ções populares, esse preenchimento era feito de acordo com a vontade e com os 
interesses do imperador e por indivíduos que, na maioria das vezes, não repre-
sentavam o voto dos brasileiros.
 
Angelo Agostini, As fraudes eleitorais são satirizadas 
durante o segundo reinado, Biblioteca Municipal de SP.
Fonte: MultiRio (online).
 “O ‘grande imperador’ era, então, apenas uma representação de si, cumprin-
do de forma ritual, pomposa e elaborada uma agenda oficial feita para apre-
sentá-lo apenas em momentos destacados”.
Fonte: Schwarcz (1998, p. 85-86).
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Faoro (1976) e Schwarcz (1998) 
apontam que, ao menos nos primei-
ros anos de seu governo, D. Pedro 
II manteve-se distante dos aconte-
cimentos e das agitações políticas 
do Brasil, exercendo seu comando 
por meio da nomeação de ministros 
a quem confiava a direção do país, 
supervisionando seus atos. Segundo 
os autores, o imperador dedicava-se 
à sua educação, voltando seu inte-
resse para as artes e para a ciência, o 
que explica o desenvolvimento des-
ses setores e a criação de algumas 
instituições que marcaram o desen-
volvimento do Rio de Janeiro no 
período em questão.
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Se o imperador dedicava-se mais às artes e às ciências, cabia ao seu Ministério 
discutir as questões mais importantes do governo, estas voltadas à política e 
à economia. Os ministros Araújo Lima, Eusébio de Queiroz, Paulino José 
Soares de Sousa e Joaquim José Rodrigues Torres juntamente com a câmara 
dos depu-tados – composta em sua maioria por membros do Partido 
Conservador – foram os que tiveram de lidar com as questões relativas à 
economia brasileira, por exemplo, a estrutura agrária e a escravidão, sendo 
esta última um assunto con-troverso e que envolvia uma série de 
considerações que foram calorosamente debatidas ao longo de todo o 
Segundo Reinado e à qual dedicaremos especial atenção mais adiante.
A GUERRA DO PARAGUAI (1864-1870)
A Guerra do Paraguai marcou o governo de D. Pedro II na medida em que 
representou o maior conflito armado ocorrido nesse período. Mais uma vez, o 
Brasil envolveu-se em uma batalha com as províncias que compunham a região 
do Prata (Argentina e Uruguai). No entanto, ao contrário do que ocorrera no 
passado, dessa vez o Brasil aliou-se a esses países para lutar contra o Paraguai, 
formando a Tríplice Aliança.
Guerra do Paraguai
Fonte: Estudo Prático (online).
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A historiografia destaca que vários fatores contribuíram para o início do 
conflito, sendo este analisado por diversos ângulos que incluem a emergência 
dos países após a crise do sistema colonial no século XIX, as relações conflitan-
tes entre Brasil e Uruguai no início da década de 1860 e as disputas em torno dos 
rios Paraguai e Uruguai devido às suas possibilidades comerciais.
O Paraguai, ao contrário do que ocorrera em vários países, após sua inde-
pendência da Espanha no início do século XIX, adotou medidas de governo 
que visavama alcançar o desenvolvimento do país, livrando-o da dependência 
econômica de outras nações. Com essas medidas, o Paraguai conquistou uma 
situação diferenciada em relação aos demais países da América Latina que pas-
saram por processos de independência no mesmo período. 
Nesse contexto de busca pelo seu desenvolvimento e por sua independência 
econômica, na segunda metade do século XIX, o Paraguai adotou uma política 
expansionista, liderada pelo ditador Francisco Solano Lopez que pretendia alcan-
çar e conquistar terras na região da Bacia do Prata, abrindo um caminho para 
o Oceano Atlântico. A eclosão da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai
ocorrerá nesse contexto e trará diferentes resultados para os países envolvidos.
De acordo com Enrique Amayo (1995), a Guerra do Paraguai deve ser enten-
dida dentro do contexto do desenvolvimento do imperialismo e, sobretudo, 
no que comete à Inglaterra nesse período. 
Para saber mais sobre a relação entre o desenvolvimento inglês e a Guerra 
do Paraguai acesse o conteúdo disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?pid=S0103-40141995000200013&script=sci_arttext>. Acesso em: 01 
maio 2015.
Fonte: Amayo (1995).
Tufy Kairuz
esta é uma visão superada e a historiografia do tema não aceita mais essa abordagem.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
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Para o Brasil, a postura do Paraguai ameaçava a sua ideia de promover a 
livre navegação na bacia do Prata, o que representava uma alternativa de comu-
nicação mais viável entre as Províncias do Centro-Oeste, Mato Grosso e Goiás, 
além da tentativa de impedir a reorganização do antigo Vice-Reino do Prata. 
(SALLES, 2015). 
No que diz respeito à Argentina, a relação com o Paraguai e sua busca pelo 
crescente desenvolvimento foi permeada pelo confronto entre os paraguaios e 
a burguesia portenha de Buenos Aires, à qual não pretendia submeter-se. Os 
paraguaios pretendiam ter autonomia e livre acesso aos rios Paraná e Paraguai, 
desafiando a dominação dos argentinos na região. (FAUSTO, 1995, p. 211).
Posto de Comerciantes no rio Paraná, século XIX
Fonte: MultiRio (online). 
O Uruguai, por sua vez, vivia momentos de instabilidade interna, na medida em 
que estava dividido entre os grupos denominados blancos – proprietários 
rurais que não viam com bons olhos a aproximação e as influências de 
potên-cias europeias sobre o país– e os colorados – próximos dos 
comerciantes e que defendiam os ideais liberais e o fortalecimento das relações 
com as nações euro-peias (FAUSTO, 1995, p. 210). O envolvimento do 
Uruguai com o Paraguai e o desenrolar de suas relações estavam diretamente 
ligadas à influência que o Brasil exercia no Uruguai.
O Segundo Reinado: O Governo de D. Pedro II
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De acordo com Bóris Fausto, 
Na primeira metade do século XIX, a posição do Brasil diante dos seus 
vizinhos pode ser assim resumida. A maior preocupação do governo 
imperial se concentrava na Argentina. Temia-se a unificação do país, 
que poderia se transformar em uma República forte, capaz de neutrali-
zar a hegemonia brasileira e atrair a inquieta província do Rio Grande 
do Sul.
No que diz respeito ao Uruguai, houve sempre uma política de influ-
ência brasileira no país. Os gaúchos tinham interesses econômicos no 
Uruguai, como criadores de gado, e viam com maus olhos medidas de 
repressão ao contrabando na fronteira. O Brasil colocou-se ao lado dos 
colorados, cuja linha política se aproximava de seus interesses. (...).
As relações do Brasil com o Paraguai, na primeira metade do século 
XIX, dependeram do estado das relações entre o Brasil e a Argentina. 
Quando as rivalidades entre os dois países aumentavam, o governo im-
perial tendia aproximar-se do Paraguai. Quando as coisas se acomoda-
vam, vinham à tona as diferenças entre Brasil e Paraguai. As divergên-
cias diziam respeito às questões de fronteira e à insistência brasileira na 
garantia de livre navegação pelo Rio Paraguai, principal via de acesso a 
Mato Grosso. (FAUSTO, 1995, p. 211).
As análises feitas pelo autor acima citado nos ajudam a compreender a forma-
ção da aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai que começou a se desenhar em 
1862 quando se formou um governo republicano na Argentina – com princí-
pios que eram comuns aos liberais brasileiros – e o Brasil aliou-se aos colorados 
no Uruguai.
Diante da aliança entre o Brasil e os colorados do Uruguai, o Paraguai passou 
a apoiar os blancos na defesa de seu território e contra a acusação dos rio gran-
denses de que os uruguaios roubavam seu gado e abrigavam escravos fugitivos. 
Com a intensificação da interferência brasileira no Uruguai e das divergências 
entre blancos e rio grandenses, o Paraguai declarou guerra ao Brasil, confiante 
de que teria o apoio da Argentina e na força de seu exército. (SALLES, 2015).
Solano Lopez se enganou. Sem o apoio da Argentina, que se aliou ao Brasil 
e ao Uruguai formando a Tríplice Aliança, no decorrer dos seis anos em que a 
guerra perdurou, o exército paraguaio foi submetido a sucessivas derrotas e o 
país viu sua economia retroceder diante dos investimentos para o conflito. Além 
disso, estima-se que 2/3 da população paraguaia sofreu com o ônus da guerra.
Tufy Kairuz
caso se refira às baixas é uma estática incorreta.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E78
Os três chefes de Estado do Uruguai, Brasil e Argentina, numa caricatura da revista A Semana 
Ilustrada, 1865
Fonte: MultiRio (online).
Os efeitos da Guerra do Paraguai para o Brasil influenciou no processo de 
fim da escravidão (1888) e da Proclamação da República (1889). Embora a 
Tríplice Aliança tenha saído vitoriosa da guerra, todos os países envolvidos 
sofreram com as consequências no âmbito político, econômico e social.
Para conhecer um pouco mais sobre os efeitos da Guerra do Paraguai para 
os países envolvidos, veja o conteúdo disponível em: <http://www.scielo.br/
scielo.php?pid=S0103-40141995000200012&script=sci_arttext&tlng=es>. 
Acesso em: 02 maio 2015.
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A ECONOMIA NO PERÍODO IMPERIAL BRASILEIRO
No período da história brasileira sobre o qual nos debruçamos neste momento, 
o período imperial, teve como um de seus elementos característicos a conso-
lidação da cafeicultura como o carro-chefe da economia do país. Os grandes
proprietários de terras, das fazendas de café e senhores de escravos fortaleceram-
-se enquanto classe econômica, compondo uma elite que participou ativamente
dos encaminhamentos políticos que permearam a organização do Brasil após
a independência.
Após a transferência da família real portuguesa para o Brasil e o fim do Pacto 
Colonial – uma das consequências dessa mudança, a Grã-Bretanha passou a ter 
privilégios na relação comercial com o Brasil na medida em que a importação de 
seus produtos para o Brasil estava sujeita a tarifas alfandegárias menores, garan-
tindo uma dependência maior do Brasil em relação a esses produtos.
A dependência econômica do Brasil em relação à Grã-Bretanha foi uma das 
razões que contribuíram para que no período imperial o país atravessasse uma 
crise que influenciou a eclosão de várias revoltas em todo o país, algumas das 
quais mencionamos na unidade anterior.
A partir do governo de D. Pedro II, a cafeicultura se desenvolveu e o café 
transformou-se no principal produto de exportação do Brasil, garantindo alguma 
estabilidade para um país em um contexto até então permeado por oscilações 
políticas e inquietação social.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E80
De acordo com Lago, 
Em tal contexto, quando se considera o desempenho econômico do 
país como um todo, o período que vai de 1808 a 1850 pode ser vis-
to como uma era de estagnação, apesar de progressos específicos em 
determinadas regiões. Após 1808, os produtos manufaturados britâni-
cos logo inundaram o mercado brasileiro, sendo vendidos até mesmo 
em áreas remotas. (...). No entanto, o aumento das importações não 
foi acompanhado por um crescimento equivalente da capacidade de 
importar, uma vez que os termos de troca (relação entre os preços de 
importação e de importação) passaram a ser desfavoráveis ao Brasil, 
e assim o país foi perdendo aos poucos sua posição relativamente fa-
vorável nos mercados internacionais de seus produtos de exportação 
tradicionais. (LAGO, 2014, p. 64).
Diante da queda nas exportações dos produtos que, durante o período colonial, 
garantiram a inserção do Brasil no mercado mundial, o crescimento da produção 
cafeeira e de sua exportação possibilitou que a economia brasileira novamente 
tivesse chances de competir no mercado mundial, haja vista a crescente demanda 
por este produto por parte de países europeus e dos Estados Unidos.
Victor Frond, Fazenda Produtora de Café, 1861
Fonte: MultiRio (online). 
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As maiores fazendas de café concentravam-se no Rio de Janeiro, São Paulo 
e Minas Gerais, o que significa que essas regiões transformaram-se, ao longo do 
período imperial, no centro econômico do país. A concentração das fazendas 
de café nessas regiões nos ajuda a compreender o maior desenvolvimento alcan-
çado por essas regiões em comparação com as demais regiões do país. O Rio de 
Janeiro, por exemplo, receberá maiores investimentos, garantindo seu status de 
capital do Império e ampliando a participação política da aristocracia carioca 
nos anos seguintes.
Uma dinastia da aristocracia cafeeira fluminense
Fonte: MultiRio (online).
Com o desenvolvimento da economia cafeeira, o tráfico de escravos também 
ganhou fôlego, visto que a manutenção da produção assentava-se nesse tipo 
de mão de obra, que representava para os barões do café um investimento 
mínimo comparado ao uso da mão de obra assalariada, aumentando sua 
margem de lucro.
Além do declínio das atividades que ocuparam o centro da economia 
brasi-leira no século XVIII, outra razão para o aumento da produção cafeeira no 
Brasil e para sua exportação reside nas transformações pelas quais o cenário 
mundial estava passando. Marquese e Tomich (apud GRINBERG; SALLES, 
2009), ao ana-lisarem a evolução da produção cafeeira no Brasil, relatam que
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E82
A escala e o caráter do mercado se modificaram de modo igualmente 
profundo no século XIX. Na década de 1880, a produção total de café 
no globo era dez vezes maior do que cem anos antes. Entre uma data e 
outra, a grande novidade foi o aparecimento dos Estados Unidos como 
comprador. Nesse período, sua população aumentou 15 vezes e o con-
sumo per capita anual passou de apenas 25 gramas para quatro quilos. 
Tratava-se de um mercado aberto, livre de tarifas de importação desde 
1832, que pouco exigia a respeito da qualidade do café adquirido. Os 
demais grandes compradores do período, todos localizados no norte 
de uma Europa em rápido processo de industrialização e urbanização, 
também se distinguiram no século XIX pela explosão demográfica e 
pelo notável aumento nas taxas de consumo per capita. Interessa desta-
car nisso tudo que a passagem do mercado restrito e de luxo do século 
XVIII para o mercado de massa industrial do século XIX foi claramen-
te induzida pela oferta a baixo custo do produto. (MARQUESE; TOMI-
CH apud GRINBERG; SALLES, 2009, p. 361).
Seguindo a análise dos autores mencionados, a transformação e a evolução do 
mercado mundial exigiu que os países economicamente pautados nas atividades 
agrícolas aumentassem sua produção para atender às necessidades das econo-
mias internacionais, cada vez mais voltadas para a industrialização. Além disso, 
os autores chamam nossa atenção para o fato de que a manutenção do sistema 
escravocrata no Brasil foi um fator decisivo para que o país conseguisse se desta-
car em relação aos seus concorrentes (MARQUESE; TOMICH apud GRINBERG; 
SALLES, 2009, p. 361).
Nesse cenário, a escravidão perpetuava-se como instituição necessária e 
fundamental para a continuidade do crescimento econômico do país. Para 
a aristocracia, lutar contra a escravidão era lutar contra o desenvolvimento 
econômico do país.
Fonte: a autora.
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1850: A PROPRIEDADE DA TERRA E O TRÁFICO DE ESCRAVOS
Nesse contexto de desenvolvimento e de expansão da produção cafeeira, as 
questões relacionadas à propriedade da terra e as discussões sobre a escravidão 
ocupavam a mente da elite política e aristocrática do país, devido à intrínseca 
relação entre essas duas esferas da sociedade.
As diretrizes legais que regulamentavam a propriedade da terra no Brasil 
até o ano de 1822 estavam fundamentadas no sistema de doações, formalizado 
pela Lei de Sesmarias, criada nos primeiros anos da colonização do Brasil. Com 
a independência do Brasil, a Lei de Sesmarias perdeu seu efeito e não houve a 
regulamentação de uma nova lei em relação à propriedade da terra até a metade 
do século XIX. 
Nesse período que se estende de 1822 – com o fim da Lei de Sesmarias – a 
1850 – quando é publicada a Lei de Terras – o acesso à terra no Brasil deu-se 
principalmente por meio da ocupação. Por essa razão, ao discutir uma nova legis-
lação fundiária para o Brasil, foi preciso levar em consideração aspectos que iam 
além da extensão das propriedades, como os relativos à situação dos posseiros e 
às suas condições de submeter-se e adaptar-se às necessidades do modelo agro-
exportador da economia brasileira no século XIX.
Em conformidade com a realidade econômica do país caracterizada pela 
expansão do caráter agroexportador do setor cafeeiro, em 1850 foi aprovada a 
Lei de Terras, que regulamentava o acesso à terra a partir daquele momento. De 
acordo com essa lei, o único meio legal de garantir a propriedade da terra era 
por meio da compra. As doações, as concessões ou as posses foram considera-
das ilegais, sendo que os indivíduos com propriedades nessa situação estavam 
sujeitos às sanções do governo central.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E84
A publicação da Lei de Terras em 1850 significou o alinhamento da política 
central com o novo contexto econômico do Brasil, caracterizado pela desestrutu-
ração do complexo agroexportador açucareiro e a ascensão da atividade cafeeira, 
com o consequente deslocamento do centro econômico da região Nordeste para 
o Sudeste do país. Nesse sentido, a lei de 1850 veio ao encontro dos interesses da
aristocracia cafeeira, representando uma forma de proteger seus investimentos
das tentativas ou possibilidades de indivíduos de outras camadas sociais terem
acesso à terra, durante o desenvolvimento da produção.
Charles Ribeyrolles, A Casa Grande de uma fazenda de café no século XIX
Fonte: MultiRio (online).
A promulgação da Lei de Terras em 1850 esteve relacionada também aos 
rumos que o debate acerca da escravidão estava tomando naquele momento. 
Desde os tempos da transferência da família real portuguesa para o Brasil, a 
Inglaterra, que ajudou o Brasil nesse processo, pressionava o governo para colocar 
fim ao tráfico de escravos eà escravidão. Durante a primeira metade do século 
XIX, o Brasil adotou uma postura que na teoria aceitava as imposições feitas 
pela Inglaterra no que dizia respeito à escravidão, embora na prática, até 1850, 
nada tenha feito de efetivo para cumprir os acordos estabelecidos com o país.
Entretanto, em 1850, diante da crescente pressão inglesa e também da inten-
sificação do movimento abolicionista, o governo brasileiro publicou a Lei Eusébio 
de Queirós, que proibia e condenava o tráfico negreiro. Portanto, a partir dessa 
data, a entrada de escravos no Brasil por meio dos navios negreiros estava proi-
bida, o que afetava diretamente a economia do país, na medida em que a mão 
de obra utilizada nas propriedades rurais era essencialmente escrava.
Embora a elite econômica do país tenha se mostrado contrária à aplicação 
Tufy Kairuz
abolia o tráfico atlántico de cativos
Tufy Kairuz
não havia movimento abolicionista organizado na época.
Tufy Kairuz
no que diz respeito ao tráfico atlântico de escravizados.
Tufy Kairuz
com aquele país?
Eusébio de Queirós, responsável pela aprovação da lei de 
extinção do tráfico negreiro
Fonte: MultiRio (online).
A Economia no Período Imperial Brasileiro
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da Lei, ela foi colocada em prática e foi preciso que os proprietários rurais bus-
cassem novas formas de assegurar a mão de obra nas suas fazendas. Uma das 
soluções encontradas foi o aperfeiçoamento do tráfico interprovincial de escra-
vos, ou seja, o comércio interno de escravos, o que elevou o valor do escravo 
enquanto mercadoria e foi um dos fatores que contribuiu para a gradativa subs-
tituição da mão de obra empregada nas fazendas produtoras de café, assunto 
sobre o qual nos aprofundaremos em outro momento.
Caro(a) aluno(a), devemos estar atentos para o significado do ano de 1850 
para o estabelecimento de novas diretrizes sobre as quais a sociedade brasileira 
vai se organizar a partir de então. As transformações na economia com o deslo-
camento do centro econômico do Nordeste para o Sudeste do Brasil, a criação de 
uma nova legislação fundiária que limitava o acesso à terra por meio da compra 
e impedia que trabalhadores livres conquistassem o direito à propriedade devido 
ao alto valor da terra e a suspensão do tráfico negreiro 
com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós 
mostram os conflitos e as divergências políticas 
e ideológicas existentes no interior da sociedade 
brasileira, além de representar o grau de influ-
ência de fatores externos na organização do país.
A partir da segunda metade do século XIX, as 
diferenças e as contradições presentes na sociedade 
brasileira foram levadas ao extremo e tive-
ram como consequência eventos que 
tornaram insustentável a manuten-
ção da ordem vigente, culminando 
no fim da escravidão e no conse-
quente fim do regime monárquico. 
Tufy Kairuz
o eixo econõmico se deslocou já na 2a metade do séc. XVIII.
Tufy Kairuz
abolição
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E86
O MOVIMENTO ABOLICIONISTA NO BRASIL IMPERIAL
Na segunda metade do século XIX, a produção cafeeira encontrava-se desen-
volvida e representava a principal fon te de recursos para o país, sustentada pela 
mão de obra escrava. Mesmo quando os primeiros imigrantes começaram a che-
gar ao Brasil para servir de mão de obra em diversos setores, a escravidão vai 
ser ainda, até a Lei Áurea, a base de sustentação não só da economia, mas tam-
bém da monarquia brasileira.
Quando o Brasil tornou-se independente de Portugal, na primeira metade 
do século XIX, o discurso da elite política e intelectual, responsável pela organi-
zação do país recém-emancipado, estava fundamentado nos princípios liberais, 
tão em voga na Europa e que já tinha influenciado o processo de independên-
cia e de organização de outras regiões da América.
No entanto, ao evocar o liberalismo e fazer dele a diretriz de orientação para 
a constituição do novo Estado, os intelectuais brasileiros adotaram sua própria 
versão do liberalismo, na medida em que a escravidão, já enraizada no Brasil e 
nos brasileiros, mesmo representando a antítese dos fundamentos liberais, não 
poderia deixar de existir, ao menos não até que uma forma de trabalho tão van-
tajosa quanto ela fosse adotada, sem comprometer os lucros dos detentores do 
poder econômico no Brasil.
Tratado da Amizade e Aliança
Fonte: MultiRio (online).
O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial
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Conforme aponta Alfredo Bosi, 
Para entender a articulação de ideologia liberal com a prática escravista 
é preciso refletir sobre os modos de pensar dominantes da classe políti-
ca brasileira que se impôs nos anos da independência e trabalhou pela 
consolidação do novo império entre 1831 e 1860 aproximadamente.
O que atuou eficazmente em todo esse período de construção do Bra-
sil como Estado autônomo foi um ideário de fundo conservador; no 
caso, um complexo de normas jurídico-políticas capazes de garantir 
a propriedade fundiária e escrava até seu limite possível. (BOSI, 1992, 
p. 195)
No decorrer do período imperial, devido à aproximação e à dependência da 
Grã-Bretanha, o debate sobre a questão 
da escravidão foi recorrente em maior ou 
menor grau, dependendo do grupo político 
que estava no comando do país, ao lado do 
imperador. A questão da escravidão, destaca 
Lilia Schwarcz (1998), foi em grande medida 
a responsável pela alternância dos partidos 
Liberal e Conservador nos principais cargos 
do governo brasileiro.
 A Grã-Bretanha havia colocado fim ao 
tráfico de escravos e à escravidão em suas pos-
sessões no século XVIII e impelia o Brasil a 
fazer o mesmo desde o momento em que se 
aliou a Portugal contra a França, ajudando 
D. João VI e sua família a fugir para o Brasil,
então sua colônia, no início do século XIX.
Nessa ocasião, Portugal firmou um acordo 
com a Grã-Bretanha no qual se comprome-
tia a acabar gradativamente com o tráfico 
negreiro. O Tratado de Amizade e Aliança 
assinado em 1810 foi o primeiro ato contra a 
escravidão no Brasil, influenciado pelo aliado 
europeu de Portugal.
Tufy Kairuz
Incorreto. A Inglaterra aboliu o tráfico escravo no início do século XIX (1807) e a escravidão em suas colônias em 1838.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E88
Os primeiros acordos firmados entre Portugal e a Grã-Bretanha objetivando 
o fim da escravidão nas colônias americanas não saíram do papel. Levar-se-ia
anos ainda até que o Brasil abdicasse da prática escravocrata e adotasse a mão
de obra livre e assalariada. Seria preciso superar o preceito de que a escravidão
era um mal necessário ao desenvolvimento do país. Por essa razão, a abolição
da escravidão foi um processo lento, construído ao longo de todo o império.
A pressão britânica para a abolição da escravidão no Brasil não surtiu efeito 
de fato até 1850, uma vez que a sociedade não se encontrava pronta para tal acon-
tecimento e não havia uma alternativa de substituição de mão de obra escrava 
que não comprometesse os lucros dos proprietários rurais e, consequentemente, 
esfriasse os investimentos na agricultura. 
O CAMINHO PARA A LIBERDADE
A Lei Eusébio de Queirós de 1850 foi o primeiro passo efetivo no processo que 
culminou com a abolição da escravidão no Brasil, embora há tempos a discus-
são acerca desse tema estivesse presente nos círculos intelectuais do país. Cabe 
ressaltar, caro(a) aluno(a), que, enquanto o debate sobre a escravidão esteve 
restrito aos centros da intelectualidade da sociedade, pouco se avançou na pro-
moção do fim dessa instituição. 
 “Nos países em que se processou a RevoluçãoIndustrial os novos gru-
pos ligados ao capitalismo industrial que passaram a influenciar a política 
condenaram a escravidão. A existência de uma grande massa de escravos 
nas regiões coloniais parecia-lhes um entrave à expansão de mercados e à 
modernização dos métodos de produção. Os setores agrários haviam sido 
escravistas, os novos grupos desvinculados da Grande Lavoura apontavam 
todos os aspectos negativos da escravidão. A partir de então o sistema es-
cravista estava condenado”.
Fonte: Costa (2010, p. 274).
Tufy Kairuz
esta é uma interpretação que não se sustenta mais como única razão para a abolição tráfico de escravizados e na erradicação da escravidão. O livro deveria oferecer visões alternativas que explicam  de forma mais elaborada e multifacetada a abolição do tráfico atlãntico de cativos relacionado à  mudanças ideológicas, à ideias religiosas e a transformações econômicas  na Europa e no continente americano como sugere Davi Eltis e Seymour Drescher.
Escravos na colheita de café, Vale do Paraíba, 
1882 (Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/
Acervo Instituto Moreira Salles)
Fonte: História Ilustrada (online).
O Movimento Abolicionista no Brasil Imperial
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Os intelectuais defenso-
res da abolição perceberam 
que aproximar a sociedade 
como um todo nos deba-
tes acerca da escravidão 
permitiria que o tema se 
transformasse em uma questão social, forçando a compreensão de que, a partir 
da segunda metade do século XIX, a substituição do trabalho escravo por outras 
formas de trabalho era apenas uma questão de tempo.
A partir da compreensão de que o fim da escravidão era um fato irreversí-
vel, era necessário estabelecer os termos e as 
diretrizes sobre as quais o processo de abo-
lição ocorreria (COSTA, 2010). Intelectuais, 
aristocracia, liberais e conservadores passa-
ram a debater sobre, cada um sob uma óptica 
que dizia respeito à preservação de seus inte-
resses, qual era a melhor maneira de levar a 
cabo o fim da escravidão.
Os possíveis prejuízos à economia não 
podiam deixar de ser levados em considera-
ção. Por essa razão, uma das propostas para a 
concessão de liberdade para os escravos afri-
canos baseava-se na promulgação de leis que 
objetivavam preparar o país para a concre-
tização da abolição. Além de propor o fim 
gradual da escravidão, esse projeto – proposto 
pelos liberais – previa ainda uma indenização 
para os proprietários de escravos, numa ten-
tativa de reparar as perdas que esles teriam ao 
alforriar seus escravos, perdendo, consequen-
temente, a força de trabalho de suas lavouras.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E90
O projeto dos liberais forne-
ceu as bases para a promulgação 
da Lei do Ventre Livre em 1871, 
proposta pelo Visconde do Rio 
Branco e que estabelecia que 
os filhos de escravas nascidos 
a partir daquela data seriam 
considerados livres e da Lei 
dos Sexagenários em 1885, 
que declarava livre os escravos 
com idade acima dos 60 anos 
(COSTA, 2010, p. 364).
Mesmo diante da oposição da elite latifundiária brasileira, a sociedade enten-dia 
que a escravidão era uma instituição que não mais se encaixava na realidade 
brasileira. Com isso queremos dizer que a população, pelo menos em sua 
maio-ria, apoiava o fim do regime escravocrata e reforçava o discurso e a 
campanha dos intelectuais abolicionistas. 
Nesse contexto de acirramento das discussões sobre a escravidão, os escravos 
também manifestavam suas opiniões a respeito, demonstrando toda a ansiedade 
pelo fim do regime que lhes fora imposto. As fugas dos escravos tornaram-se 
constantes e “a escravidão tornou-se uma instituição desmoralizada” (COSTA, 
2010, p. 364). Como nos mostram Pereira e Machado,
A Lei dos Sexagenários teve pouco efeito prático, na medida em que era 
raro um escravo no Brasil atingir a idade ideal para ser beneficiado pela lei. 
A expectativa de vida de um escravo brasileiro era de aproximadamente 30 
anos.
Fonte: a autora.
Lei Áurea, de 1888
Fonte: Silva (online).
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Cientes de que a escravidão perdia a legitimidade, os grupos de es-
cravos passavam a ganhar em ousadia e articulação, utilizando-se da 
quebra do consenso sobre a escravidão para avançar em todo tipo de 
reivindicação. Revoltando-se, fugindo, cometendo crimes, demandan-
do melhorias, assim como salário e autonomia de ir e vir, os escravos, 
no decorrer da década, mostraram que confrontavam a escravidão tan-
to por dentro do sistema quanto por fora dele, exigindo simplesmente 
a liberdade. (PEREIRA e MACHADO, apud GRINBERG e SALLES, 
2009, v. 3, p. 376).
Como é possível observar, caro(a) aluno(a), na década de 1880, o movimento 
abolicionista ganhara força e adeptos, tornando a manutenção do regime escra-
vocrata uma afronta à sociedade brasileira. Era imprescindível que o imperador 
tomasse uma atitude definitiva. A questão adquiriu proporção e urgência que 
não mais podia esperar discussões ou definições sobre indenizações.
D. Pedro II, que desde o início de seu governo preocupou-se mais com
assuntos relacionados à arte e à cultura do que com a política e a economia do 
país, nesse momento de efervescência em 
que se encontrava a sociedade brasileira, 
mais uma vez preferiu dedicar-se a temas 
menos urgentes do que ao “problema” 
que ganhava força no interior do país. 
As viagens do imperador para a 
Europa eram frequentes e sua autoridade 
passou a ser questionada diante dos cons-
tantes períodos em que se ausentava do 
país. Sua imagem enquanto monarca e 
imperador do Brasil ficaram abaladas. 
Acusavam-no de fugir das questões polí-
ticas que imperavam no Brasil naquele 
momento (SCHWARCZ, 1998, p. 429).
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E92
Em 1887 o imperador mais uma vez decidiu viajar para a Europa, igno-
rando o crescimento do movimento abolicionista e das agitações em torno das 
ideias republicanas. Em seu lugar assumiu sua filha, a princesa Isabel, a quem 
coube a responsabilidade de lidar com as agitações que assolavam o país naquele 
momento, colocando fim à questão da escravidão.
Com tendências abolicionistas, a Princesa Isabel, em 13 de Maio de 1888 
assinou a Lei Áurea, colocando um fim na escravidão no Brasil. Segundo Lilia 
Schwarcz, “não havia mais como adiar o processo. Redigido de maneira sim-
ples, o texto da lei era curto e direto: ‘É declarada extinta desde a data desta lei 
a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário’”. (1998, p. 437).
DEPOIS DA ABOLIÇÃO
Manchete no jornal Gazeta de Notícias sobre a abolição da escravidão
Fonte: Museu Afro Brasil (online).
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A assinatura da Lei Áurea foi comemorada dentro e fora do Brasil, uma vez que 
desde o início do século XVIII nações estrangeiras combatiam a escravidão e 
pressionavam o Brasil para colocar fim à instituição no país. A Princesa Isabel 
entrou para a história como a redentora dos escravos, o que contribuiu para que 
o desgaste da monarquia, representada por um imperador cuja popularidade e
autoridade estavam em decadência, fosse revertido em apoio à princesa.
Porém, é preciso analisar, caro(a) aluno(a), o que aconteceu após a publi-
cação da Lei Áurea. Como se processou a concessão de alforria aos escravos e 
como a sociedade se organizou para receber essa massa de indivíduos a par-
tir de então libertos. A questão em torno de como a massa de escravoslibertos 
foi incorporada na sociedade a partir de 1888 muito nos diz sobre a atitude da 
Princesa Isabel.
Vimos que o projeto dos liberais com relação à escravidão baseava-se no fim 
gradual dessa instituição com o pagamento de uma indenização aos senhores de 
escravos. Dessa forma, o Brasil conseguiria organizar-se e preparar-se para o fim 
definitivo do regime escravista, sem grandes prejuízos para a monarquia e eco-
nomia. No entanto, mesmo se considerarmos que a escravidão demorou para 
ser abolida do país na medida em que as discussões acerca do tema remontam 
ao início do século XIX, quando ela de fato acontece, o Brasil não estava pronto. 
Conforme veremos mais adiante, em algumas regiões do país, como no 
Nordeste e no Sul, o trabalho escravo estava sendo gradativamente substituído 
pelo uso da mão de obra estrangeira, mas os resultados dessas primeiras experi-
ências não foram satisfatórios, por razões que discutiremos em outro momento. 
Diante disso, persistia ainda no país a questão de como as propriedades rurais 
iriam manter o funcionamento de suas atividades, tão importantes para o desen-
volvimento econômico do Brasil.
Tufy Kairuz
desde o início do séc. XIX.
Tufy Kairuz
aqui se tem a impressão que havia mão de obra estrangeira  não-africana sendo utilizada no Nordeste.
Tufy Kairuz
não há nenhuma menção ao projeto de "branqueamento" que foi um fator relevante na abolição da esvravidão e ao incentivo à imigração europeia.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E94
Além da questão de substituição da mão de obra nas fazendas produtoras 
em todo o país, outro problema desencadeado pela promulgação da Lei Áurea 
dizia respeito à alocação dos escravos recém-libertos na sociedade brasileira. 
Havia emprego para todos esses indivíduos? Eles teriam condições de manter-
-se e suprir suas necessidades básicas longe das grandes fazendas? A sociedade 
estava aberta a recebê-los em seu seio e reconhecê-los enquanto cidadãos com os 
mesmos direitos e deveres que o “branco”? Não estaria a escravidão tão profun-
damente enraizada no interior da sociedade que, mesmo com o manifesto apoio 
de muitos ao movimento abolicionista, ao concretizar-se a abolição, percebeu-se 
que o preconceito já era uma característica intrínseca a muitos indivíduos após 
tanto tempo de existência da escravidão? Estes foram questionamentos que, ao 
nosso entender, não receberam a devida atenção no momento em que se con-
firmou a abolição.
Após a abolição os escravos buscaram se fixar em locais longe dos centros 
urbanos, sendo que, no início do século XX, com a política do branquea-
mento, eles foram levados para bairros ainda mais longe dos centros das 
cidades. 
Para conhecer um pouco mais da situação dos negros após a publicação 
da Lei Áurea, acesse o conteúdo disponível em: <http://www.ipea.gov.br/
desafios/index.php?option=com_content&id=2673%3Acatid%3D28&Ite-
mid=23>. Acesso em: 10 abr. 2015.
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Os negros recém-libertos não encontraram seu lugar na sociedade imedia-
tamente após a abolição e, por essa razão, muitos acabaram permanecendo 
nas fazendas onde viviam até então, não mais na condição de escravos, mas em 
troca de salários tão baixos que se assemelhavam mais a um simbolismo da 
existência de um trabalho livre e assalariado. Mesmo recebendo por seu 
trabalho um valor meramente representativo, os que decidiam permanecer 
nas fazendas o faziam em troca da garantia de moradia e de alimentação.
Aqueles que optavam por deixarem as fazendas e buscarem 
oportunidades nas cidades exercendo qualquer tipo de ofício deparavam-se 
com a falta de habi-lidades que garantisse colocação no mercado de trabalho, 
ou ainda com uma sociedade preconceituosa que ainda enxergava o negro 
como uma mercadoria, como escravo. Aos que conseguiam estabelecer-se nas 
cidades e conquistavam um emprego, recebiam em troca salários mais baixos 
que os demais emprega-dos, o que dificultava seu perfeito estabelecimento 
nas cidades e proporcionava a má garantia de sua sobrevivência.
Portanto, caro(a) aluno(a), a Lei Áurea garantiu ao negro a liberdade ape-
nas no papel, na teoria, porque, na prática, ele continuava preso a uma sociedade 
que não conhecia outra maneira de enxergá-lo e que, mesmo tentando negar, 
não conseguia deixar de demonstrar o quanto os mais de trezentos anos de exis-
tência da escravidão havia internalizado o preconceito racial. Levar-se-ia ainda 
muitas décadas para que os negros pudessem exercer sua liberdade de fato e, ao 
que parece, esse processo ainda hoje não se completou.
Atualmente existem pessoas que defendem a ideia de que o Brasil tem uma 
dívida histórica com os negros. Por essa razão, busca-se desenvolver políti-
cas afirmativas que visam reparar os danos causados aos negros no passado. 
E você, o que pensa a respeito?
Fonte: a autora. 
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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O MOVIMENTO REPUBLICANO E O FIM DA 
MONARQUIA NO BRASIL
Proclamação da República. Pintura de Benedito Calixto.
Fonte: Amaral (2014, p.13).
Já dissemos em vários momentos nesta unidade, caro(a) aluno(a), que a escravi-
dão era a base de sustentação da monarquia, na medida em que as bases políticas 
e econômicas do país estavam ligadas à elite agrária, dependente da mão de obra 
escrava. Por essa razão, ao abolir o regime escravocrata no Brasil, o governo, 
representado nesse ato pela Princesa Isabel, abriu o caminho para o fortaleci-
mento das ideias de substituição do regime monárquico já, ideias essas em voga 
no interior do país, que levaram ao consequente fim da monarquia brasileira.
Portanto, se por um lado o ato da Princesa Isabel libertou os escravos e colo-
cou o Brasil mais perto dos princípios liberais há tempos evocados por uma parte 
da elite intelectual do país, por outro lado, criou condições para que a oposi-
ção ao governo de seu pai crescesse e, mais uma vez, as bases de organização do 
país fossem repensadas.
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Ao analisar o fim da escravidão, Lilia Scwarcz destaca que
(...) a abolição definitiva gerava também perdas materiais e levava ao 
desprestígio de uma minoria muito ativa e extremamente ligada ao tro-
no e que depressa se bandeou para o lado dos republicanos. Por mais 
que a monarquia premiasse os proprietários rurais com títulos de ba-
ronato e alegasse o caráter inevitável da medida, a falta de indenização 
selava o rompimento com o Estado. (...).
Divorciavam-se, portanto, nesse momento, duas instâncias de repre-
sentação. A monarquia, decadente em seus rituais, recuperava o imagi-
nário ao vincular-se ao ato mais popular do Império: a abolição. Mais 
uma vez a “realeza política” era associada à “realeza mística”, senhora 
da “justiça” e da “segurança”. Paradoxalmente, porém, ao afastar-se das 
elites proprietárias o Império perdia seu esteio e distinguia-se de sua 
versão mais institucional. Dessa forma, se na iconografia oficial era a 
imagem popular que “aclamou Isabel nas ruas” que estará presente, nos 
rumos políticos os caminhos eram bem mais tortuosos. Esse parecia 
ser mesmo o último grande ato da monarquia. (SCHWARCZ, 1998, 
p. 438).
A ideia de uma República no Brasil não surge apenas quando finda a escravidão. 
As discussões sobre uma possível mudança no regime de governo esteve pre-
sente já no século XVIII, quando algumas manifestações contrárias ao governo 
brasileiro – como foi o caso da Inconfidência Mineira e da Conjuração Baiana – 
manifestaram o desejo da adoção de um regime republicano.No entanto, esses 
movimentos não tiveram sucesso e mesmo após a ruptura com Portugal em 1822, 
a forma de governo continuou sendo a monarquia.
Mesmo com a reafirmação da monarquia como regime político do Brasil, a 
circulação das propostas de reforma política que incluíam a adoção do sistema 
republicano continuou em voga no país e ganhou força em 1870, com a funda-
ção do Partido Republicano. 
Embora haja controvérsia sobre as ideologias presentes no movimento 
republicano e sobre o grau de envolvimento dos diversos setores da sociedade 
brasileira, o que podemos afirmar é que a proclamação da República em 1889 foi 
resultado das transformações políticas, econômicas e sociais pela qual o Brasil 
passava, desde meados do século XIX, e da ineficiência do governo central em 
administrar os conflitos ideológicos presentes no interior da sociedade.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
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IIU N I D A D E98
Renato Lemos aponta que
Em uma perspectiva de longo prazo, tem-se a alternativa republicana 
conectada ao processo de transformação estrutural da sociedade bra-
sileira. Mais precisamente, o sentido histórico de seu surgimento, im-
plantação e consolidação afirmou-se no período que se pode balizar 
pelos anos de 1850 e 1900. Trata-se de um momento histórico marcado 
por acontecimentos econômicos, sociais, ideológicos e políticos que se 
associaram nas bases da sociedade brasileira: extinção do tráfico inter-
nacional de escravos, Lei de Terra, intensas migrações internas, Guerra 
do Paraguai, movimento abolicionista, deslocamento do polo dinâmi-
co da cafeicultura do Vale do Paraíba para o oeste paulista, imigração 
europeia, expansão do trabalho livre, renovação intelectual de vários 
setores sociais pela absorção de variantes do liberalismo e do cientifi-
cismo, conflitos entre o Estado, a Igreja Católica e os segmentos mili-
tares, abolição da escravidão, derrubada da monarquia e implantação 
da república, primeira crise de superprodução cafeeira, e estabilização 
da ordem republicana nos termos da “política dos governadores”. (LE-
MOS apud GRINBERG e SALLES, 2009, v. 3, p. 405).
Portanto, caro(a) aluno(a), o fim da monarquia e a instalação do regime repu-
blicano no Brasil remonta a uma série de fatores que estiveram presentes no seio 
da sociedade brasileira desde a sua formação enquanto Estado independente – e 
até mesmo anteriormente – como é o caso da questão da escravidão, abordada 
no tópico anterior. Mesmo após 1889, essas questões influenciaram a organiza-
ção do país sob os novos ideais que se delineavam e que não mais podiam ser 
negligenciados.
Representando, para os adversários da monarquia, uma alternativa para a 
solução da crise generalizada que havia se agravado no governo de D. Pedro II, o 
movimento republicano conquistou adeptos e apoio de setores da sociedade que, 
pelo menos até a abolição da escravidão, não pensavam na alteração do regime 
político, como é o caso de indivíduos ligados à oligarquia cafeeira, desconten-
tes com os rumos que a discussão acerca da mão de obra das lavouras cafeeiras 
estava tomando. O fim da escravidão se aproximava, disso já não restavam dúvi-
das, e as propostas de alternativas para a substituição do trabalho escravo ainda 
não havia se concretizado. A experiência com a imigração estrangeira já estava 
em curso, mas ainda não se apresentava viável para boa parte dos cafeicultores.
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Permeado por esse contexto de agitações, a ideologia republicana ganhou 
espaço e partidos e clubes republicanos foram criados, com destaque para São 
Paulo e Rio Grande do Sul. No restante do país, a adesão ao movimento repu-
blicano ocorreu de forma mais lenta e gradual, sendo que algumas províncias 
não conseguiram organizar partidos republicanos até o fim da monarquia, como 
o Amazonas e a Paraíba, por exemplo. Nas províncias do Ceará, Maranhão,
Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro, a fundação de Partidos
Republicanos ocorreu após a abolição da escravidão que possibilitou o apoio dos 
senhores de escravos insatisfeitos com a Lei Áurea. (LEMOS apud GRINBERG;
SALLES, 2009, p. 414, ).
Emília Viotti da Costa, ao descrever o pensamento dos defensores da 
República no Brasil, destacou que eles,
(...) lembrando as revoluções e pronunciamentos que, desde a Inconfi-
dência, tiveram por alvo instalar um regime republicano no Brasil, afir-
mam que a República sempre foi uma aspiração nacional. Esposando 
uma ideia já enunciada no Manifesto Republicano de 1870, consideram 
a Monarquia uma anomalia na América, onde só existem repúblicas. 
Repetindo as críticas feitas durante o Império ao Poder Moderador, 
afirmam que as liberdades foram cerceadas com grande prejuízo para 
a nação. Apontam as deficiências de D. Pedro como estadista. Criticam 
a centralização excessiva do governo monárquico, a vitaliciedade do 
Senado, a fraude eleitoral que possibilita ao governo vencer sempre as 
eleições, e consideram a República a solução natural para os problemas. 
(COSTA, 2010, p. 389).
O Manifesto Republicano de 1870 deixou transparecer as vertentes que guiaram 
o movimento republicano nos anos seguintes. A primeira vertente era com-
posta pelos indivíduos ligados às cidades, por políticos e por idealistas que não
se viam representados na monarquia. A segunda vertente estava representada
pelos fazendeiros, descontentes, sobretudo com a política da mão de obra a par-
tir da segunda metade do século XIX (FAORO, 1976). A esses grupos aliou-se
o Exército, descontente com o pouco apoio, pouco investimento e pouca valo-
rização por parte do governo monárquico, descontentamento que foi agravado
após a Guerra do Paraguai.
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Raymundo Faoro evidenciou essa atmosfera de descontentamento com os 
rumos que o Brasil estava tomando descritas pelos republicanos ao escrever que
Decepcionados da ascensão pelo sistema cooptativo, pela mão bene-
volente e carinhosa das influências de cima, apelam para os recursos 
representativos, com a mobilidade de todos os postos, só dependentes, 
para serem preenchidos, da vontade eleitoral, da soberania popular. 
Este caldo psicológico responde a uma transformação mais profunda: 
emerge, no quadro estamental e hierárquico, comunitariamente seleti-
va, progressivamente fechada, a sociedade de classes. O fazendeiro, o 
fabricante de açúcar, os criadores de gado não se sentem mais senhores, 
são apenas lavradores e pecuaristas; os poderosos não se aperfeiçoam 
no título de barão ou visconde, mas percebem que seu privilégio de-
pende de assentos artificiais, sem futuro. A sociedade, ao se desmiti-
ficar, sofre a convulsiva pressão de elementos que, nunca postos em 
debate e em dúvida, pareciam inexistentes. (FAORO, 1976, p. 537).
Como é possível observar, caro(a) aluno(a), a República vai se desenhando ao 
longo da segunda metade do século XIX, surgindo, ao menos em teoria, como 
a diretriz necessária e inevitável para o realinhamento das forças sociais e para 
o estabelecimento de uma sociedade pautada em bases igualitárias.
A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA
As transformações ocorridas na sociedade brasileira no Segundo Reinado, mais 
precisamente a partir de 1850, fizeram com que vários setores do país questio-
nassem a política centralizadora do imperador, garantida pelo Poder Moderador. 
Esses setores – dentre os quais destacamos a aristocracia prejudicada pelo 
fim da escravidão e os indivíduos ligados às camadas urbanas, que necessitavam 
de práticas políticas que não necessariamente alinhavam-se aos interesses da 
elite agrícola – reivindicavam mudanças que lhes assegurassem a defesa de seus 
direitos e interesses.Nesse sentido, a ideia de se estabelecer no Brasil um sistema 
federativo, que possibilitaria maior autonomia às províncias e aos indivíduos, 
parecia ser a melhor situação para se resolver o impasse no qual se encontrava 
a sociedade brasileira.
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A ideia de um regime republicano no Brasil seguia três vertentes de pro-
postas de como esse modelo seria colocado em prática no país. A proposta dos 
proprietários rurais, reunida no Partido Republicano Paulista, o mais organi-
zado do período, baseava-se na adoção de um modelo republicano nos moldes 
da república americana, ou seja, 
Convinha-lhes a definição individual do pacto social. Ela evitava o ape-
lo à ampla participação popular tanto na implantação como no gover-
no da República. Mais ainda, ao definir o público como a soma dos 
interesses individuais, ela lhes fornecia a justificativa para a defesa de 
seus interesses particulares. (...).
Convinha-lhes também a ênfase americana na organização do poder, 
não apenas por estar na tradição do país, mas, principalmente, pela 
preocupação com a ordem social e política, própria de uma classe de 
ex-senhores de escravos. Convinha-lhes, de modo especial, a solução 
federalista americana. Para os republicanos de São Paulo, Minas Gerais 
e Rio Grande do Sul, três das principais províncias do Império, o fede-
ralismo era talvez o aspecto mais importante que buscavam no novo 
regime. (CARVALHO, 1990, p. 24-25).
Esse modelo de República proposto pelos proprietários rurais não se enquadrava 
nas ideias que partiam dos representantes dos setores urbanos, como os peque-
nos proprietários, jornalistas, profissionais liberais, professores e estudantes. Para 
estes indivíduos, o ideal republicano fundamentava-se em aspectos abstratos da 
liberdade, da igualdade, da participação e do controle de recursos do poder eco-
nômico e social, que lhes garantissem vantagens em um cenário de competição 
livre (CARVALHO, 1990, p. 26).
A terceira proposta de organização de um Estado republicano tinha entre 
seus defensores mais expressivos os militares. Essa vertente entendia que “o 
Estado era o meio mais eficaz de conseguirem seus objetivos” (CARVALHO, 
1990, p. 26) e, por essa razão, não eram contra o Estado, e sim contra o regime 
monárquico. Para esse grupo, a República assentava-se em um Executivo forte 
e intervencionista. Essa vertente do movimento republicano teve grande adesão 
dos republicanos do Rio Grande do Sul, uma vez que “os republicanos gaúchos 
formavam uma minoria que precisava de uma doutrina capaz de lhes dar forte 
coesão e os habilitasse a lutar contra a corrente política tradicional, represen-
tada pelo partido Liberal” (FAUSTO, 1995, p. 245).
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
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IIU N I D A D E102
Enquanto as discussões sobre a implantação da República e de como esta 
iria organizar-se corriam o país, os aliados da monarquia buscavam maneiras de 
conter o movimento e garantir o Terceiro Reinado e a continuidade do regime 
monárquico. Para tanto, o Visconde de Ouro Preto – presidente do Conselho 
de Ministros do Império – propôs uma série de reformas em junho de 1889 
que tinham por objetivo acalmar os ânimos dos liberais e conter o avanço do 
movimento republicano. Entre as reformas propostas pelo ministro, destacam-
-se a ampliação da representação civil, a plena autonomia dos municípios e das
províncias, fim do senado vitalício, elaborar um Código Civil e fim do caráter
político do Conselho de Estado, preservando apenas seu caráter administrativo
(COSTA, 2010, p. 489).
 As propostas de Ouro Preto não foram aceitas pelo Conselho de Estado e 
pela Câmara, que consideraram o pacote de reformas apresentado radical e com 
forte tendência republicana. Diante da decisão da Câmara, esta foi dissolvida em 
17 de junho de 1889. A dissolução da Câmara acirrou os ânimos e intensificou 
a crise e a indisposição contra o governo.
Entre junho de 1889 e novembro do mesmo ano, o movimento republicano 
buscou reafirmar o apoio dos militares ao fim da Monarquia, explorando os boa-
tos de reformas que atingiriam o Exército de maneira desfavorável. No entanto, 
o próprio exército precisava lidar com as diferenças em seu interior.
Fausto (1995, p. 246) aponta que os militares brasileiros estavam divididos
em dois grupos. No primeiro, sob a liderança do Marechal Deodoro da Fonseca, 
encontravam-se os veteranos que lutaram na Guerra do Paraguai e cuja maio-
ria não havia frequentado a Escola Militar. Participaram do 15 de Novembro 
no intuito de salvar o Exército e garantir que este tivesse maior representati-
vidade no novo regime, mesmo não possuindo uma ideia clara da República. 
O segundo grupo reuniu-se em torno de Floriano Peixoto e era composto por 
jovens militares que frequentaram a Escola Militar e que estavam sob a influên-
cia do positivismo francês e para os quais a República representava progresso, 
traduzido na forma de crescimento industrial, expansão da comunicação e dos 
conhecimentos técnicos.
Marechal Deodoro da Fonseca
Fonte: Biblioteca da Presidência da 
República (online).
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À parte das diferenças ideológicas em seu inte-rior, 
o Exército brasileiro estabeleceu um consenso em 
relação à monarquia, de que este regime não mais 
satisfazia seus interesses ou oportunizava uma parti-
cipação maior na representação política do país. Por 
essa razão, os republicanos entendiam que o apoio 
do Exército seria crucial para a mudança do regime. 
Desse modo, Benjamin Constant, Aristides Lobo, 
Quintino Bocaiúva, Francisco Glicério e o coronel 
Sólon tentaram convencer o Marechal Deodoro da 
Fonseca a liderar o Exército e a derrubada da monar-
quia (COSTA, 2010, p. 491).
De acordo com a historiografia, Deodoro da 
Fonseca convenceu-se da necessidade de intervir 
junto ao movimento republicano diante dos boatos 
de que o ministro Ouro Preto decretara sua prisão. 
Dessa forma, segundo Lilia Schwarcz (1998, p. 458), 
no dia 15 de Novembro de 1889, Deodoro da Fonseca invadiu o quartel-gene-
ral, prendeu o Ministro Ouro Preto e informou que ele mesmo comunicaria a 
D. Pedro II – que se encontrava em Petrópolis – a formação do novo governo.
Extinguia-se a monarquia e tinha início a República no Brasil.
Durante muito tempo reproduziu-se nos livros de história a máxima de que 
a Proclamação da República, feita em 15 de Novembro de 1889, foi obra do 
Exército brasileiro, reforçando a ideia de um consenso entre os militares – 
de todas as patentes – contra o regime monárquico e unidos em torno das 
figuras de Marechal Deodoro da Fonseca e do tenente-coronel Benjamim 
Constant, então protagonistas do fim da monarquia e início do período re-
publicano.
Para conhecer mais sobre o desenvolvimento dos ideais republicanos no 
Exército brasileiro, acesse o conteúdo disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/
producao/dossies/FatosImagens/ProclamacaoRepublica>. Acesso em: 10 
abr. 2015.
O SEGUNDO REINADO NO BRASIL: 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a) aluno(a), nesta unidade procuramos discorrer acerca do governo de D. 
Pedro II, evidenciando as diretrizes de sua administração e os elementos que 
desencadearam a crise da Monarquia e a evolução do movimento republicano 
que culminou na Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.
O Segundo Reinado compreende o período no qual as forças que contribuí-
ram para a consolidação da independência em 1822 buscam uma representação 
maior no direcionamento político do Brasil,o que leva a uma acentuação das 
divergências ideológicas presentes no interior dessas forças. Nesse sentido, a 
unidade em torno do imperador e da própria monarquia torna-se um desafio. 
Despido do espírito político e de liderança que caracterizaram seu pai, D. 
Pedro II, muito mais ligado às questões relacionadas à arte, à cultura e às ciên-
cias, viu-se envolto em disputas pelo poder que contribuíram para fragilizar sua 
imagem enquanto chefe do Estado brasileiro.
Nesse cenário o crescimento do movimento abolicionista e a promulgação de 
leis que visavam o fim da escravidão suscitaram o debate acerca das prioridades 
do governo e colocaram em xeque a capacidade do imperador e de seus minis-
tros de contornar a crise que se formava a partir dos encaminhamentos para a 
abolição da escravidão. A assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel precipi-
tou os eventos que levaram ao fim da monarquia.
Após a abolição da escravidão em 1888, tornou-se cada vez mais difícil ao 
imperador e a seus aliados controlar o avanço das forças contrárias à monar-
quia. O Exército, os fazendeiros do Oeste Paulista e os setores médios urbanos, 
descontentes com a política de D. Pedro II, aproveitaram-se da falta de prestígio 
que a monarquia conquistara nos últimos anos e fortaleceram o ideal republi-
cano, levando à mudança do regime por meio de um golpe liderado pelo Exército 
em 1889.
O Brasil entrava em uma nova fase de sua história.
105 
1. D. Pedro II subiu ao trono do Brasil aos quinze anos de idade com a missão de,
nas palavras de Lilia Schwarcz (1998), “salvar a nação”. Analise os primeiros anos 
do governo de D. Pedro II, discutindo a maneira pela qual o imperador esta-
beleceu sua forma de governo no início do Segundo Reinado.
2. No decorrer do Segundo Reinado, a produção cafeeira ocupou lugar de desta-
que na economia brasileira. Reflita sobre a importância que a exportação do
café teve para a economia brasileira, relacionando a publicação da Lei de
Terras de 1850 aos interesses dos cafeicultores brasileiro.
3. A questão do fim da escravidão esteve presente no Brasil desde o início do sécu-
lo XIX, quando a Grã-Bretanha ajudou na transferência da família real portugue-
sa para o Brasil e passou a insistir na adoção de uma política que colocasse fim à
instituição aqui no país. Com relação ao movimento abolicionista no Brasil e ao
processo que levou ao fim da escravidão no país, assinale a alternativa correta.
a) O fim da escravidão foi um projeto que sempre esteve presente nas diretrizes
políticas de D. João VI, o qual priorizou a questão durante seu reinado no Brasil.
b) Com a expansão da produção cafeeira, a mão de obra escrava cedeu lugar ao
trabalho livre e assalariado, facilitando o processo de abolição da escravidão.
c) A existência do regime de escravidão estava em consonância com os ideais libe-
rais difundidos na Europa e que influenciaram os intelectuais brasileiros.
d) A escravidão no Brasil contrastava com os princípios liberais em voga na Europa
e, por essa razão, a elite brasileira adaptou tais princípios para justificar a manu-
tenção da escravidão.
e) Intelectuais e aristocracia brasileira concordavam que o fim da escravidão era o
caminho correto a ser adotado no Brasil, uma vez que a instituição já havia che-
gado ao fim no restante da América.
4. A abolição da escravidão em 1888 influenciou diretamente o processo de procla-
mação da República no ano seguinte. Sobre o avanço do movimento republi-
cano no Brasil, leia as afirmações abaixo:
I. A escravidão era a base de sustentação da monarquia, na medida em que as 
bases políticas e econômicas do país estavam ligadas à elite agrária, dependente 
da mão de obra escrava.
II. O fim da monarquia e a instalação do regime republicano no Brasil remonta a 
uma série de fatores que estiveram presentes no seio da sociedade brasileira 
desde a sua formação enquanto Estado independente.
III. A proposta republicana representava o interesse da maioria da população bra-
sileira, sendo que as camadas sociais mais baixas e sem grande representação 
política participaram ativamente das manifestações contrárias à monarquia.
IV. O Exército teve um papel secundário no processo de instalação do regime repu-
blicano no Brasil, uma vez que os principais líderes militares eram próximos ao 
imperador D. Pedro II.
Assinale a alternativa correta:
a) Somente a afirmação I está correta.
b) Somente a afirmação III está correta.
c) Somente as afirmações II e IV estão corretas.
d) Somente as afirmações I e III estão corretas.
e) Somente as afirmações I, II e III estão corretas.
107 
MACHADO DE ASSIS E A QUESTÃO DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO
“Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou 
como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda 
a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, 
antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus 
dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido 
por mil e quinhentos, e dei um jantar. (...).
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu 
com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, 
há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a 
nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, 
que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os 
pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pe-
diu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando 
ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei 
a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. 
(...).
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais 
um ordenado, um ordenado que…
– Oh! meu senhô! fico.
– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cres-
ceste imensamente. (...).
Pancrácio aceitou tudo (...).
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleito-
res, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, 
libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse 
escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor 
de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políti-
cos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: 
és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e inca-
pazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites”. 
Fonte: Assis (online). 
MATERIAL COMPLEMENTAR
Título: As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos.
Autor: Lilia Moritz Schwarcz
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: A autora aborda o período do governo de D. Pedro II no Brasil, 
destacando os aspectos culturais que fi zeram-se presentes na sociedade 
brasileira nesse período. Sem deixar de lado as análises a respeito da 
governabilidade de D. Pedro II, Lilia M. Schwarcz chama a atenção do 
leitor para aspectos como a arte e o costume da sociedade brasileira, 
evidenciando a maneira pela qual a cultura local mesclou-se com a 
cultura europeia, presente nos hábitos e costumes da corte, como suas 
construções palacianas, festas e rituais.
Título: HISTÓRIA DO BRASIL POR BÓRIS FAUSTO - REPÚBLICA VELHA (vídeo completo).
Sinopse: O historiador Bóris Fausto apresenta um panorama do início do período 
republicano no Brasil, analisando os aspectos políticos, econômicose sociais do Brasil, 
destacando os signifi cados do processo de transição do Império para a República no 
país.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=XuiF0uzp22E>. Acesso em: 2 jul. 
2015.
Título: Mauá, o Imperador e o Rei
Ano: 1999
Direção: Sérgio Rezende
Sinopse: O fi lme narra a história de Irineu Evangelista de Sousa (1813–
1889), o Barão e Visconde de Mauá, defensor da industrialização do 
Brasil no século XIX e que, por essa razão, era contrário à escravidão. 
Mauá aliou-se a empresários ingleses que infl uenciaram suas iniciativas 
capitalistas no Brasil, contribuindo para que o barão se tornasse o 
primeiro grande empresário do Brasil. Ao acompanhar a trajetória 
do empresário, o fi lme mostra os contrastes da sociedade brasileira 
no século XIX e o desafi o do imperador D. Pedro II para equilibrar os 
antagonismos políticos do país.
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Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 
1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
NO BRASIL E AS TRANSFORMAÇÕES NA 
SOCIEDADE BRASILEIRA NO INÍCIO DO 
SÉCULO XX
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Analisar o processo de consolidação do regime republicano no Brasil.
 ■ Compreender o modelo político-administrativo instalado no Brasil na 
chamada Primeira República.
 ■ Verificar as transformações econômico-sociais do início da República.
 ■ Discorrer acerca das conjunturas que levaram ao golpe de 1930 e o 
início da chamada Era Vargas.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ República Velha ou República da Espada.
 ■ Aspectos da imigração europeia e a consolidação do trabalho 
assalariado: as transformações econômico-sociais na Primeira 
República.
 ■ O fim da República Oligárquica: o golpe de 1930.
INTRODUÇÃO
Caro(a) aluno(a), nesse momento de nosso estudo vamos analisar a formação e 
consolidação do regime republicano no Brasil, evidenciando as transformações 
pelas quais a sociedade brasileira passou ao longo desse primeiro momento do 
regime republicano.
Após o 15 de novembro de 1889, o Brasil entra em um novo momento, cujas 
estruturas governamentais foram reformuladas e os efeitos dessa reformulação 
foram sentidos por toda a população. Novamente teremos nesse momento refle-
xões acerca da construção de uma identidade nacional para o povo brasileiro. 
A elaboração de uma nova Constituição para o país trouxe à tona novamente 
os temas que estiveram presentes no momento em que se pensava a Carta 
Constitucional de 1824. 
Ao findar-se 1889 havia um novo contexto político e social. O Brasil havia 
se transformado em uma República, que ainda precisava definir e estabelecer 
as bases sobre as quais iria fundamentar-se. Havia novos atores sociais em cena 
como a massa de escravos libertos presentes nas cidades (sem uma política que 
viabilizasse sua integração à sociedade), além dos imigrantes que chegavam ao 
Brasil, sobretudo os europeus, nos primeiros momentos da transição do traba-
lho escravo para o trabalho assalariado.
Nos anos iniciais do regime republicano no Brasil, havia muitos interesses a 
serem satisfeitos e, consequentemente, ao privilegiar-se um grupo em detrimento 
dos interesses de outro, os conflitos e as agitações sociais novamente fazem-se 
presentes no seio da sociedade, criando condições para a emergência de novos 
ideais de mudanças. O golpe de 1930 que leva Getúlio Vargas à presidência do 
Brasil deve ser entendido também dentro dessas conjunturas que marcaram os 
primeiros anos da República no Brasil.
Um momento político, econômico e social importante para a história do 
Brasil é o que discutiremos nesta unidade e, por essa razão, atenção e disciplina 
nos estudos são essenciais.
Um ótimo trabalho!
Introdução
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 Notícia sobre a proclamação da República
Fonte: Memória da Administração Pública Brasileira (online).
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REPÚBLICA VELHA OU REPÚBLICA DA ESPADA
Derrubada a monarquia e ins-
talada a República no Brasil, era 
preciso então definir as bases sobre 
as quais ela se sustentaria. Deodoro 
da Fonseca, considerado o líder do 
movimento que colocou fim ao 
regime monárquico, ao invadir o 
quartel-general e declarar a inaugu-
ração de um novo modelo político, 
assumiu o posto de primeiro presi-
dente da República do Brasil.
O governo de Deodoro da 
Fonseca representava um governo 
de transição, uma vez que os par-
tidos políticos não tinham força 
suficiente para representar o elemento unificador e centralizador que o país pre-
cisava naquele momento. Esse papel foi dirigido ao Exército, na medida em que 
comandou o processo de mudança do regime político-administrativo do Brasil. 
A oligarquia e os proprietários rurais esperavam que o Marechal promovesse 
as reformas necessárias para que as províncias e os munícipios conquistassem 
maior autonomia, o que possibilitaria também uma maior liberdade de ação 
para os proprietários, ainda se adaptando à alternativa de mão de obra livre e 
assalariada. Além disso, não podemos nos esquecer dos trabalhadores urbanos, 
operários das fábricas e primeiras indústrias do país, dos quais trataremos com 
maior ênfase nesta unidade.
Com isso, entendemos que os proprietários rurais defendiam a adoção do 
sistema federalista, proposta que favorecia seus interesses. Além disso, o federa-
lismo também significava que esse grupo estaria mais próximo do poder local, 
possibilitando a sua ascensão política, fato que, como veremos, vai se confirmar 
nos anos seguintes à instalação da República.
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Para os liberais, é imperativo o alinhamento político com os princípios libe-
rais, o que, de acordo com Faoro, permite 
a valorização da livre concorrência, da oferta e da procura, das trocas 
internacionais sem impedimentos artificiais e protecionistas. O pro-
dutor agrícola e o exportador, bem como o comerciante importador, 
prosperam dentro das coordenadas liberais, favorecidos com a troca 
internacional sem restrições e a mão-de-obra abundante, sustentada 
em mercadorias baratas (FAORO, 1976, p. 592).
Preocupados em impedir a instalação de uma ditadura militar no país, os libe-
rais apontam para a necessidade da convocação de uma Assembleia Constituinte 
para a elaboração de uma Constituição que substituísse a de 1824 e contemplasse 
o novo momento político, econômico e social do Brasil (FAUSTO, 1995, p. 249). 
No entanto, levou-se um tempo até que a elaboração da nova Constituição 
fosse concluída, o que ocorreu em 1891 e, nesse período, entre a proclamação da 
República e a promulgação da Constituição, foi Deodoro da Fonseca quem dire-
cionou a política no país. Foi ele quem indicou os governadores das províncias e 
os ministros, além de alguns deputados e senadores que compunham a Assembleia 
Constituinte, sendo todos os 
indicados militares (FAORO, 
1976, p. 641). Desse modo, 
observamos que a represen-
tatividade popular no novo 
governo – uma das promes-
sas da campanha republicana 
– não se consolidou. Os mili-
tares assumiram o comando 
do Brasil, representados por 
Deodoro da Fonseca e dire-
cionaram sua administração, 
vislumbrando estabelecer 
mais do que um governo 
provisório.
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Ao impor seu modelo administrativo, Deodoro da Fonseca acabou por gerar 
insatisfações nas oligarquias provinciais, que não viam com bons olhos alguns 
nomes de militares indicados para governador dasprovíncias, visto que, como 
dito anteriormente, buscavam uma representação maior por meio de uma par-
ticipação política mais incisiva. Portanto, o Marechal precisou conciliar e buscar 
meios de amenizar as relações conflituosas com esse setor da sociedade, que ainda 
não havia esquecido o fato de que um governo centralizador colocou fim à escra-
vidão sem pagar as indenizações e sem garantir qualquer tipo de auxílio para a 
adoção da mão de obra livre. Essa camada social não estava disposta a mais uma 
vez deixar-se prejudicar por um governo que não representava seus interesses.
A CONSTITUIÇÃO DE 1891
A primeira Constituição da República brasileira foi promulgada em 24 de feve-
reiro de 1891 e foi inspirada na Constituição dos Estados Unidos da América, 
reafirmando o caráter liberal e federativo da nova organização do país.
Texto de Abertura da primeira Constituição do período republicano no Brasil
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
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Dentre os principais pontos dessa Constituição, destacam-se, como dito, o 
estabelecimento do federalismo, sendo as Províncias transformadas em Estados 
Unidos do Brasil e adquirindo relativa autonomia. Também houve a separa-
ção entre Igreja e Estado, a divisão dos poderes em Executivo – exercido pelo 
presidente da República eleito para um mandato de quatro anos –, Legislativo 
– composto pelos deputados e senadores, os quais passaram a ter um mandato
de nove anos e não mais vitalícios – e Judiciário. O Poder Moderador, símbolo
da centralização política do regime monárquico foi extinto, uma das premissas
do movimento republicano (FAUSTO, 1995, p. 250).
Texto da Constituição de 1891 que definiu a forma de governo no Brasil após a proclamação da 
República
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
A nova C onstituição também redefiniu os termos que designavam os cidadãos 
brasileiros, estabelecendo que 
Art. 69. São cidadãos brazileiros:
1º Os nascidos no Brazil, ainda que de pae estrangeiro, não residindo 
este a serviço de sua nação;
2º Os filhos de pae hrazileiro e os illegitimos de mãe brazileira, nasci-
dos em paiz estrangeiro, si estabelecerem domicilio na Republica;
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3º Os filhos de pae brazileiro, que estiver noutro paiz ao serviço da 
Republica, embora nella não venha domiciliar-se;
4º Os estrangeiros, que, achando-se no Brazil aos 15 de novembro de 
1889, não declararem, dentro em seis mezes depois de entrar em vigor 
a Constituição, o animo de conservar a nacionalidade de origem;
5.º Os estrangeiros, que possuirem bens immoveis no Brazil, e forem 
casados com brasileiras ou tiverem filhos brazileiros, comtanto que re-
sidam no Brazil, salvo si manifestarem a intenção de não mudar de 
nacionalidade;
6º Os estrangeiros por outro modo naturalisados (BRASIL, online).
Observando o que diz a Constituição acerca da definição do cidadão brasi-
leiro, chamamos sua atenção, caro(a) aluno(a), para o artigo 4º, exposto acima, 
e para o artigo 72, o qual estabelece que “a Constituição assegura a brazileiros 
e a estrangeiros residentes no paiz a inviolabilidade dos direitos concernentes 
á liberdade, á segurança individual e á propriedade nos termos seguintes (...)” 
(BRASIL, online). Esses artigos evidenciam a importância de garantir aos estran-
geiros, sobretudo aos europeus que chegavam ao Brasil desde os tempos finais 
do Império para substituir os escravos no trabalho nas lavouras e também nas 
indústrias, a ideia de que o Brasil era um país no qual eles teriam assegurada a 
liberdade para exercerem sua cultura e sua religião. 
Ao definir os cidadãos brasileiros, a Constituição também determinou seus 
direitos, dentre os quais o direito de voto e o direito de ser voltado. De acordo 
com o documento,
Art. 70. São eleitores os cidadãos maiores de 21 annos, que se alistarem 
na fórma da lei.
§ 1º Não podem alistar-se eleitores para as eleições federaes, ou para as 
dos Estados:
1º Os mendigos
2º Os analphabetos;
3º As praças de pré, exceptuando os alumnos das escolas militares de 
ensino superior;
4º Os religiosos de ordens monasticas. companhias, congregações, ou 
communidades de qualquer denominação, sujeitas a voto de obedien-
cia, regra, ou estatuto, que importe a renuncia da liberdade individual.
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§ 2º.São inelegiveis os cidadãos não alistaveis (BRASIL, online).
 O documento de 1891 representou, por um lado e em certa medida, uma amplia-
ção ao direito de participação política por meio do voto dos brasileiros ao eliminar 
das condições necessárias para exercer esse direito um limite de renda, expresso 
na Constituição de 1824. Entretanto, por outro lado, determinou que o direito 
de voto seria concedido aos maiores de 21 anos desde que não fossem analfabe-
tos, o que acabou por limitar a participação política a uma pequena parcela da 
população brasileira. Além disso, às mulheres também não foi dado o direito 
de voto, embora essa afirmação não apareça de maneira clara na Constituição.
Texto de conclusão da Constituição de 1891
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
O ENCILHAMENTO E A CRISE DO GOVERNO DE DEODORO DA 
FONSECA
A postura rígida de Deodoro da Fonseca, herança da sua formação militar, 
levou-o a alguns conflitos com vários atores sociais e contribuiu para que logo 
nos primeiros anos de seu governo sua presidência fosse contestada. Além disso, 
o direcionamento econômico defendido pelo seu Ministro da Fazenda descon-
tentou boa parte da população brasileira.
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
Reprodução proibida. A
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O nome escolhido pelo primeiro presidente da República para o ministério 
da Fazendo, um dos mais importantes do governo, foi o do intelectual liberal Rui 
Barbosa, cuja estratégia adotada para impulsionar a economia brasileira, após 
o conturbado fim do trabalho escravo e o surgimento de novas formas de tra-
balho, resultou na instalação de uma nova crise econômica que teve influência 
direta no fim do governo de Deodoro da Fonseca.
As diretrizes econômicas de Rui Barbosa visavam ao fortalecimento da indús-
tria, segmento que representava o novo momento da história do Brasil e o único 
capaz de levar o país ao desenvolvimento, ao progresso e à independência em 
relação ao capital estrangeiro. Para o ministro, 
o desenvolvimento da indústria não é somente, para o Estado, ques-
tão econômica: é, ao mesmo tempo, uma questão política. No regime 
decaído, todo de exclusivismo e privilégio, a nação, com toda a sua 
atividade social, pertencia a classes ou famílias dirigentes. Tal sistema 
não permitia a criação de uma democracia laboriosa e robusta, que 
pudesse inquietar a bem-aventurança dos posseiros do poder, verda-
deira exploração a benefício de privilegiados. Não pode ser assim sob 
o sistema republicano. A República só se consolidará, entre nós, sobre 
alicerces seguros, quando as suas funções só se firmarem na democra-
cia do trabalho industrial, peça necessária no mecanismo do regime, 
que lhe trará o equilíbrio conveniente ( BARBOSA, 1889 apud FAORO, 
2001, p. 609).
Esse investimento seria feito por meio da reforma do sistema financeiro do 
país, iniciado já nos últimos anos do Império. Em 1888, o Visconde de Ouro 
Preto criou uma lei a qual estabelecia que dividia a responsabilidade de emissão 
de papel moeda do Tesouro Nacional com os bancos, em vista às necessidades 
oriundas da introdução da mão de obra assalariadaintensificada após a aboli-
ção da escravidão. O sucesso da medida criada por Ouro Preto levou à criação 
do Banco Nacional do Brasil que seria a instituição, mediante contratos com o 
Tesouro Nacional, responsável por controlar e por regularizar as emissões de 
papel moeda. 
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Cédula de trinta mil réis, emitida pelo Banco da República do Brazil entre 1892 e 1896
Fonte: Faber (online).
Com a instalação de uma crise que atingiu uma parcela signifi cativa dos 
proprietários rurais, os setores econômicos e produtivos dos centros 
urbanos também viram seus interesses prejudicados, na medida em que boa 
parte da sua clientela concentrava suas atividades no campo. Diante dessas 
conjunturas eco-nômicas, quando Rui Barbosa assumiu o Ministério da 
Fazenda, a pressão por reformas que atendessem e resolvessem o quadro de 
desestabilidade existente veio tanto de setores ligados à produção agrícola 
quanto dos setores ligados à indústria e ao comércio.
 “A lei (Decreto n.º 3403, de 24 de novembro de 1888) assegura aos bancos a 
emissão de bilhetes ao portador, conversíveis em moeda corrente, median-
te o depósito, na Caixa de Amortização, de igual valor em títulos da dívida 
pública”.
Fonte: Faoro (2001, p. 594).
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
Reprodução proibida. A
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IIIU N I D A D E120
A política econômica adotada por Rui Barbosa, embora baseada em lei pro-
mulgada em outro contexto político, ia ao encontro dos interesses dos industriais 
brasileiros, que tiveram suas esperanças renovadas diante da proposta do minis-
tro que acreditava que somente a indústria poderia elevar o Brasil ao status de 
uma grande potência política e econômica.
Conforme demonstra Raymundo Faoro (2001), Rui Barbosa colocou em 
prática a emissão de apólices da dívida pública no início de 1890, adotando tam-
bém medidas que visavam a impedir a especulação financeira, que já na época 
do Império tinha sido responsável por uma alta na inflação. A lógica defendida 
pelo ministro era que a emissão de papel moeda levaria ao desenvolvimento 
da indústria, limitando cada vez mais a entrada do capital estrangeiro no país. 
Desse modo, gradativamente, a riqueza deixaria de se concentrar nas proprie-
dades rurais e passariam a concentra-se nos centros urbanos, com a atividade 
industrial. Nota-se aqui a intenção de anular o poder e a influência das oligar-
quias agrárias.
Com a aplicação das medidas econômicas de Rui Barbosa, o que se viu foi o 
aumento da circulação monetária no país. Devido a essa grande quantidade de 
dinheiro circulando no país, começaram a surgir empresas fictícias, criadas com 
o objetivo de conseguir investimentos por parte do governo. Como resultado, o
que ocorreu foi uma ilusão de crescimento econômico, na medida em que cada
vez mais se observava o aumento da circulação de dinheiro. No entanto, a real
situação não demorou a aparecer, quando se percebeu que o volume de papel
moeda emitido não correspondia à realidade da produção industrial.
Dessa discrepância entre a liberação de crédito por parte do Banco da 
República dos Estados Unidos do Brasil e a produção industrial resultou o 
aumento da inflação e uma elevação dos preços das mercadorias produzidas no 
país. Segundo Filomeno, 
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Assim, caiu-se num círculo vicioso: a emissão monetária exercia pres-
são sobre o câmbio, que se desvalorizava sob o impacto da escassez de 
divisas, aumentando a inflação e o serviço da dívida externa em moeda 
nacional, tornando ineficazes as medidas de correção dos desequilí-
brios financeiros, agravando o clima de insatisfação política e impli-
cando maiores gastos do governo e novas emissões monetárias. Desse 
modo, o déficit orçamentário, o desequilíbrio das contas externas do 
país e as emissões imoderadas provocaram uma rápida desvalorização 
da moeda nacional. (FILOMENO, 2010, p. 159).
A oligarquia cafeeira acompanhava atenta as medidas adotas por Rui Barbosa e 
que tinham por objetivo beneficiar o desenvolvimento industrial no país. O café 
continuava sendo, ainda nos primeiros anos da República, o principal produto 
da economia brasileira e, por essa razão, os proprietários rurais não viam com 
bons olhos a política do Ministro da Fazenda.
Aos produtores de café do período não era interessante que os investimentos 
nos setores urbano-industriais ultrapassassem os investimentos na agricultura 
e quando a crise do encilhamento adveio, passaram a pressionar o Ministro da 
Fazenda e o presidente da República. A alta dos preços de produtos essenciais 
para a população, como os alimentos, por exemplo, também gerou insatisfação 
nas camadas populares.
A crise econômica desencadeou uma crise política e o Ministro da Fazenda 
Rui Barbosa renunciou ao cargo no início de 1891. O presidente Marechal 
Deodoro da Fonseca também foi pressionado tanto pela oligarquia cafeeira 
quanto pelos setores populares da sociedade a encontrar uma solução para a 
crise que se instalara. Em desacordo com os membros da Assembleia e amea-
çado pela Marinha, Deodoro da Fonseca renunciou ao cargo de presidente no 
final de 1891. O vice-presidente, Floriano Peixoto, assumiu então a presidência 
do Brasil e juntamente com o novo Ministro da Fazenda, Rodrigues Alves, tinha 
a difícil tarefa de solucionar a crise econômica e equilibrar as forças dissidentes 
no interior da sociedade.
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IIIU N I D A D E122
O FIM DA “REPÚBLICA DA ESPADA”
Floriano Peixoto assumiu a presidência do Brasil em meio a uma crise econô-
mica – o encilhamento – após a renúncia do presidente Marechal Deodoro da 
Fonseca. Logo que assumiu a presidência, Floriano recebeu críticas por não res-
peitar a Constituição de 1891 ao aceitar o posto de presidente da República sem 
convocar novas eleições, como determinava a Constituição em caso de o presi-
dente eleito ficar por menos de dois anos no comando do país.
Segundo Bóris Fausto (1995, p. 254), um governo de Floriano Peixoto não era 
bem visto pelos fazendeiros, principalmente os reunidos no Partido Republicano 
Paulista (PRP), que tinham uma visão diferente da visão do novo presidente sobre 
como deveria organizar-se a República no Brasil. Segundo o autor, o Marechal 
“pensava construir um governo estável, centralizado, vagamente nacionalista, 
baseado, sobretudo no Exército e na mocidade das escolas civis e militares, 
enquanto os fazendeiros desejavam uma República “liberal e descentralizadora” 
e “viam com suspeita o reforço do Exército e as manifestações da população 
urbana do Rio de Janeiro”.
Apesar das diferenças ideológicas, os fazendeiros representados pelo PRP e 
o presidente estabeleceram um acordo de apoio mútuo, baseado no fato de 
ambos os lados entendiam que esse apoio seria a única maneira de manter
o regime republicano no país.
Fonte: a autora.
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Embora tenha conseguido o apoio do PRP, Floriano Peixoto enfrentou a opo-
sição daqueles que contestavam o fato do Marechal assumir a chefia do Brasil sem 
a convocação de novas eleições, conforme estabelecido pela Constituição. Para 
enfrentar seus opositores, o presidente contou com o apoio do PRP, do Exército 
e de representantes dos setores urbanos, satisfeitos com as medidas populares 
do novo governo.
Entre os anos de 1891 e 1894,Floriano Peixoto precisou lutar para manter 
seu governo. Em 1892 alguns generais do Exército assinaram um documento 
denominado Manifesto dos Treze Generais, que contestava a presidência do 
Marechal e exigiam novas eleições. Floriano acusou os generais de insubordi-
nação e os condenou à prisão, sufocando o movimento.
Contrariada pelo desprestígio em comparação com as forças do Exército e 
com a política populista de Floriano Peixoto – que representava um risco para a 
permanência dos militares no poder – em 1893 a Marinha iniciou uma revolta 
que tinha por objetivo forçar a convocação de novas eleições presidenciais, 
como determinava a Constituição de 1891. Essa revolta, lideradas pelo almirante 
Custódio José de Melo, ficou conhecida como Segunda Revolta da Armada e, 
além dos vários oficiais da Marinha, contou com o apoio de pessoas ligadas à 
Monarquia e que não aceitavam o fim do regime. 
A Primeira Revolta da Armada ocorreu no governo do Marechal Deodoro da 
Fonseca em virtude do encilhamento – crise resultante da política econô-
mica de Rui Barbosa – e da dissolução da Assembleia pelo então presidente 
Deodoro. A Primeira Revolta da Armada contribuiu para que Deodoro da 
Fonseca renunciasse ao cargo de presidente da República em novembro de 
1891.
Fonte: a autora.
Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, 1894. Vê-se o tubo de um 
canhão sendo suspenso para ser transportado
Fonte: Museu Histórico Nacional (online).
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IIIU N I D A D E124
O presidente conseguiu conter os ataques da Marinha à cidade do Rio de 
Janeiro no ano de 1894 com o apoio do PRP, do Exército e de nações estran-
geiras, que interviram no conflito, interessados em garantir a estabilidade da 
República no Brasil. Segundo Pereira (2009, p. 6), o interesse de países como 
Inglaterra, França, Itália, Portugal e Estados Unidos no fim da Segunda Revolta 
da Armada residia no fato de que o conflito prejudicava as relações comerciais 
entre esses países e o Brasil, na medida em que bloqueava o Porto do Rio de 
Janeiro, na baía de Guanabara.
Simultaneamente à Segunda Revolta da Armada, ocorria no Rio Grande 
do Sul a Revolução Federalista, uma guerra civil entre os republicanos posi-
tivistas organizados no Partido Republicano Riograndense (PRR) e liderados 
pelo presidente da província – como 
eram chamados os governadores de 
Estado na época – Júlio de Castilhos 
e os liberais, organizados no Partido 
Federalista, cujo líder era Silveira 
Martins.
A Revolução teve início devido 
às diferenças ideológicas entre os dois 
partidos, que defendiam formas dis-
tintas de governo no Rio Grande do 
Sul. A Constituição estadual do Rio 
Grande do Sul, aprovada em 1891, 
previa a instalação de um governo 
centralizado e fundamentado nos 
ideais positivistas, o que desagra-
dou os federalistas, que defendiam 
a instalação de um regime parlamen-
tar (FAUSTO, 1995).
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A Revolução Federalista teve como objetivo maior tirar Júlio de Castilhos da 
presidência da província rio-grandense para, em seu lugar, assumir Silveira 
Martins. O conflito que inicialmente era local alcançou um âmbito maior 
na medida em que os federalistas avançaram sob os territórios de Santa 
Catarina e do Paraná. Nesse momento, conquistaram o apoio dos opositores 
de Floriano Peixoto, uma vez que muitos dos revoltosos eram pessoas 
ligadas ao governo federal.
Mesmo com esse apoio, os revoltosos não conseguiram alcançar seus 
obje-tivos, pois Floriano Peixoto colocou-se ao lado de Júlio de Castilhos do 
PRR, garantindo o apoio do Exército. Diante do apoio federal aos seus rivais, 
os fede-ralistas renderam-se em 1895, já no governo de Prudente de 
Moraes. Como resultado do conflito, o PRR conseguiu manter Júlio de 
Castilhos no cargo de presidente da província do Rio Grande do Sul.
Após conter a Segunda Revolta da Armada e a Revolução Federalista, Floriano 
Peixoto, mesmo com o apoio de parte da sociedade civil urbana, resolveu dei-
xar a presidência do Brasil e convocou novas eleições presidenciais em 1894. O 
candidato eleito foi Prudente de Morais, que se tornou o primeiro presidente 
civil do Brasil, colocando fim ao governo dos militares no país. Chegava ao fim 
o período conhecido como República da Espada.
 “Castilhos liderou o grupo conhecido como pica paus. Ficaram conhecidos 
desta forma, devido às listras brancas nos uniformes militares, e ao barulho 
das armas. Mais tarde estes homens usaram o lenço branco, para diferir dos 
maragatos. Os membros do Partido Federalista foram chamados por Júlio 
de Castilhos, líder do Partido Republicano, de “maragatos” devido à migra-
ção dos moradores da região de Maragateria na Espanha, para a região de 
fronteira entre Uruguai e Brasil. Posteriormente para os Pampas no Rio Gran-
de do Sul. A imagem de gaúcho que nos foi ensinada é originária dos ma-
ragatos: roupas largas, bombacha e lenço vermelho amarrado no pescoço. 
Também são conhecidos pelo seu amor à liberdade, à religião e sua honra 
de cavaleiro. Os principais representantes maragatos eram Gaspar Silveira 
Martins e Gumercindo Saraiva”.
Fonte: Castro e Rezende Filho (online).
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A ASCENSÃO DA OLIGARQUIA E O PERÍODO DA REPÚBLICA 
OLIGÁRQUICA
Nas discussões sobre as eleições de 1894, articulavam-se estratégias para garan-
tir que não houvesse a continuidade do governo militar no Brasil e sim para que 
os interesses dos Estados pudessem estar representados por meio de um candi-
dato de um partido federal. Na defesa desse ideário, em 1893 criou-se no Rio de 
Janeiro o Partido Republicano Federal liderado por Francisco Glicério, ex-minis-
tro do governo de Deodoro da Fonseca e com o objetivo de “firmar a autoridade 
dos Estados, mantendo escrupulosamente os seus direitos, tão sagrados como 
os da União” (FAORO, 1976, p. 663). Por trás do PRF, escondiam-se as mano-
bras da oligarquia, sobretudo a de São Paulo, para assumir o poder no Brasil.
O PRF constituiu-se como aglutinador dos interesses de todos os Estados e 
teve o apoio, sobretudo de São Paulo. No entanto, os Estados de Minas Gerais 
e do Rio Grande do Sul não participaram da convenção do partido que lan-
çou a candidatura do paulista Prudente de Moraes para presidente e do baiano 
Manuel Vitorino para vice-presidente. Com a vitória de Prudente de Morais, a 
oligarquia cafeeira paulista acreditou ter finalmente garantido sua hegemonia 
no comando do país.
Prudente de Morais herdou o país ainda mergulhado na crise econômica 
decorrente do encilhamento, além de ter que lidar com os conflitos entre “a elite 
política dos grandes Estados e o republicanismo jacobino, concentrado no Rio 
de Janeiro” (FAUSTO, 1995, p. 256). A realidade do contexto do governo de 
Prudente de Moraes o adverte de que, para que consiga consolidar seu governo 
ante a oposição que sofre dos apoiadores de Floriano Peixoto, mesmo após a 
morte desse, seria preciso conciliar os interesses dos Estados que ajudaram a 
elegerem-no e apaziguar o país, o que não seria tarefa fácil.
A Guerra de Canudos foi um dos eventos conflituosos que marcaram o 
governo de Prudente de Morais e foi um exemplo do descontentamento das regi-
ões afastadas do centro político com a pouca atenção e pouco investimento por 
parte do governo central pelos interesses e pelas necessidades dessas regiões. O 
conflito desenrolou-se entre 1896 e 1897 no sertão da Bahia e constitui-se em 
um ponto de oposição ao governo central que representava naquele momento 
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os interesses da oligarquia, sobretudo a oligarquia cafeeira paulista. 
O Arraial de Canudos foi uma comunidade fundada em 1893 em uma fazenda 
localizada no sertão baiano e que abrigava sertanejos que viviam diante de uma 
realidade permeada por miséria, por fome, por carestia, por seca e por explora-
ção de mão de obra, situação essa decorrente do descaso do governo central e 
da desestruturação da produção açucareira, que em outros tempos havia repre-
sentado a pujança da economia brasileira.
Vista parcial de Canudos ao sul. Segundo o registro oficial do exército, foram contados 5200 casebres 
no arraial de Antônio Conselheiro, 1897 (Flávio de Barros/Acervo Museu da República)
Fonte: História Ilustrada (online).
Esses sertanejos reuniram-se em Arraial de Canudos e sob a liderança de 
Antônio Vicente Mendes Maciel, ou Antônio Conselheiro, organizaram 
uma comunidade que buscava uma vida diferente e, mesclando interesses 
políticos, econômicos e sociais com o fanatismo religioso, mostraram-se 
contrários à situ-ação vigente, transformando-se em foco de oposição ao 
governo.
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IIIU N I D A D E128
Antônio Conselheiro e seus seguidores do Arraial de Canudos não aceitavam 
o fim da monarquia e as mudanças trazidas com a Proclamação da República
que, para eles, não contribuíam para o desenvolvimento daquela região do país
e não satisfaziam as necessidades da população mais pobre que sofria desde o
declínio do complexo açucareiro na região nordestina do país. Ao contrário do
que ocorria nas cidades, na comunidade liderada por Antônio Conselheiro, não
havia a cobrança de impostos e a produção era dividida entre as famílias que
compunham a comunidade e o excedente comercializado com outras cidades
(SOUZA, 2012).
Antônio Conselheiro e sua comunidade começaram a representar uma ame-
aça tanto ao governo da Bahia quanto ao governo federal, na medida em que a 
comunidade crescia e a fama e as ideias de seu líder se espalhavam pelo sertão. Ao 
questionar a legitimidade da República, as mudanças econômicas estabelecidas, 
ao desafiar o coronelismo, ao divulgar a crença no Sebastianismo e declarar-se 
um messias, Antônio Conselheiro transformou-se em alvo das lideranças esta-
duais, federais e também da Igreja Católica que não via com bons olhos a perda 
de fiéis para a comunidade de Arraial de Canudos.
Para conter o fortalecimento da comunidade de Arraial de Canudos, o 
governo federal iniciou uma guerra contra Antônio Conselheiro em 1896 enviando 
tropas para destruir a comunidade. Foram necessárias quatro expedições mili-
tares para conseguir derrotar os jagunços e os sertanejos liderados por Antônio 
Conselheiro. Somente em 1897 as tropas do governo federal conseguiram apri-
sionar os seguidores de Antônio Conselheiro, colocando fim à comunidade de 
Arraial de Canudos em um conflito que dizimou a população. 
“A história da luta em Canudos mostra o encontro de dois brasis, como sa-
lientava Euclides da Cunha, o litorâneo, moderno, rico e educado, e o serta-
nejo, com o saber de experiência feito, como diria Camões, heroico, cabe-
çudo, bem entrosado com seu próprio meio e desejoso de ser respeitado e 
reconhecido”.
Fonte: Mello (2014, p, 9).
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Mulheres e crianças canudenses prisioneiras, este foi um dos poucos grupos de prisioneiros (apenas 
algumas centenas de uma população de mais de 5 mil habitações) que não foi morto pelo exército, 1897 
(Flávio de Barros/Acervo Museu da República).
Fonte: História Ilustrada (online).
POLÍTICA DOS GOVERNADORES
O sucessor de Prudente de Moraes na presidência do Brasil foi outro paulista, 
Campos Sales, eleito em 1898, o que consolidou a República liberal, representante 
da elite política dos grandes Estados, como São Paulo (FAUSTO, 1995, p. 258).
A base sobre a qual se assentará o governo de Campos Sales será um acordo 
entre as elites políticas dos Estados com o objetivo de conciliar os interesses 
dessas elites, o que, de acordo com Raymundo Faoro (1976, p. 673), significava 
“apagar as dissensões que dividiam o Congresso e constituir nele uma unidade 
forte, patriótica e decidida a prestar o seu concurso ao governo”.
Para alcançar seu objetivo, Campos Sales firmou um acordo com os Estados 
que ficou conhecido como política dos governadores. Esse acordo consistia no 
apoio dos Estados à política do presidente da República em troca do apoio dele 
aos grupos dominantes de cada Estado (FAUSTO, 1995, p. 259). Para garantir o 
sucesso do acordo entre o governo federal e os governos estaduais, Campos Sales 
promoveu uma modificação no processo eleitoral para a Câmara dos Deputados, 
 “Cada Estado terá seu dono, pessoal ou da família, de um chefe ou de um 
grupo fechado”.
Fonte: Faoro (2001, p. 680).
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que garantia que o presidente da Câmera fosse alguém de confiança do presi-
dente da República.
Com esse esquema político, garantiu-se a preservação dos interesses de um 
pequeno grupo cujo domínio econômico determinou o domínio político. 
São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, as três maiores economias do 
Brasil, organizaram-se de maneira a influenciar os rumos políticos do país, a 
partir do estabelecimento da política dos governadores. 
O êxito da política dos governadores dependia da vitória dos candidatos 
a governador dos Estados e dos deputados eleitos para a Câmara. Os eleitos 
deve-riam ser indivíduos afinados com o discurso e com as ideias do 
presidente. Para tanto, as eleições realizavam-se em meio a fraudes e a 
coações, negando, mais uma vez, a participação da população na vida política 
do país. A manipulação da população e dos votos foi o elemento fundamental 
para a manutenção desse sistema e para a consolidação da oligarquia no 
poder, principalmente para São Paulo e para Minas Gerais, os dois Estados 
que comandaram o cenário político até 1930, quando o Rio Grande do Sul, 
alijado do comando, impõe sua soberania.
Dentro desse contexto político permeado por acordos e por manipulação 
das eleições, a figura dos coronéis ganhou destaque, na medida em que esses 
indiví-duos eram responsáveis em grande parte pelas fraudes nas eleições por 
meio da coação e da compra de votos em favor de determinado candidato. 
O coronelismo – como foi chamada a influência dos coronéis no sistema 
eleitoral da Primeira República – significou o apoio do qual dependia a política 
dos governadores. Os coronéis garantiam os votos necessários para determinado 
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candidato em troca de favores que preservassem seus interesses e a manutenção 
de seu status dentro do contexto social do período.
Conforme demonstra Leal,
“coronelismo” é sobretudo um compromisso, uma troca de proveitos 
entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente in-
fluência social dos chefes locais, notadamente dos senhores de terras. 
Não é possível, pois, compreender o fenômeno sem referência à nossa 
estrutura agrária, que fornece a base de sustentação das manifestações 
de poder privado ainda tão visíveis no interior do Brasil. (LEAL, 2012, 
p. 23).
Figura 2: Charge
Fonte: Portal do Professor (online).
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POLÍTICA DO CAFÉ COM LEITE
São Paulo conseguiu manter sua hegemonia no cenário político federal por meio 
da organização do PRP e do apoio de outros Estados, como Minas Gerais. Os 
três primeiros presidentes civis da República foram paulistas, fato que legitimou 
o poder e a influência da elite paulista nas esferas política e econômica do país.
Essa hegemonia foi fortemente contestada nas eleições de 1909, quando foi 
escolhido o sucessor Nilo Peçanha, que assumiu a presidência em 14 de junho 
de 1906 após a morte do presidente Afonso Pena, que havia sido eleito em 1906.
Nas eleições de 1910, Minas Gerais apoiou o Marechal Hermes da Fonseca, 
o candidato à presidência indicado pelo Rio Grande do Sul, que disputaria a elei-
ção com o candidato paulista Rui Barbosa. Hermes da Fonseca saiu vitorioso e 
governou o país de 1910 a 1914.
Durante seu governo, Hermes da Fonseca enfrentou uma série de conflitos 
– como a Revolta da Chibata em 1910 e a Guerra do Contestado em 1912 – 
que o levaram a adotar medidas que nem sempre agradavam às oligarquias até 
então acostumadas ao poder. Sua política intervencionista também desagradou 
às forças políticas dos Estados e o colocou em conflito com várias regiões, como 
Pernambuco, Bahia, Ceará e Alagoas.
O governo de Campos Sales chegou ao fim em 1902 e Rodrigues Alves foi 
eleito o novo presidente do Brasil para um mandato de 1902 a 1906. Dentre 
as medidas de seu governo, destacamos a obrigatoriedade da vacinação da 
população contra a varíola, atendendo a um pedido do médico sanitarista 
Oswaldo Cruz, fato que originou a Revolta da Vacina, em 1904.
Para saber um pouco mais sobre a história da Revolta da vacina, acesse o 
conteúdo disponível em: <http://www.ccms.saude.gov.br/revolta/revolta.
html>. Acesso em: 13 maio 2015.
República Velha ou República da Espada
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Diante da instabilidade do governo de Hermes da Fonseca, São Paulo e Minas 
Gerais fi rmaram um acordo em 1913 no qual os dois Estados indicariam os pró-
ximos presidentes da República, que iriam se revezar no exercício do poder, com 
o apoio mútuo dos dois Estados. Esse acordo resultou na política do café com 
leite, uma vez que representava a defesa dos interesses da oligarquia cafeeira de 
São Paulo e dos criadores de gado leiteiro de Minas Gerais.
Figura 3: Charge 2
Fonte: Portal do Professor (online).
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DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A política do café com leite mais uma vez excluía do processo político os 
demais Estados da República brasileira. Como nos mostra Renato 
Monseff Perissinotto,
(...) a aliança entre os representantes políticos de Minas Gerais e os de 
São Paulo teve como resultado político mais importante o domínio dos 
centros de decisão do aparelho estatal pelos representantes desses dois 
estados. Tanto o executivo federal, como é bastante conhecido, quan-
to o legislativo e as suas principais comissões (finanças, obras públi-
cas etc.) estavam sob seu controle. A contrapartida desse predomínio 
político rigidamente controlado através do regime político oligárquico 
foi, evidentemente, a exclusão freqüente dos interesses ligados às ou-
tras classes e frações dominantes desses mesmos centros de decisão, em 
especial aquelas vinculadas à produção para o mercado interno, cujo 
representante mais forte, o Rio Grande do Sul, ocupava a posição de 
satélite em torno dos estados líderes. (PERISSINOTTO, 1996, p. 194).
A partir do estabelecimento desse acordo, São Paulo e Minas Gerais domina-
ram a cena política do país, utilizando-se do coronelismo como instrumento 
para garantir a eleição dos candidatos por eles indicados. Esse sistema de reve-
zamento entre presidentes paulistas e mineiros existiu até 1930, quando um 
golpe de Estado levou ao poder um representante do Rio Grande do Sul à pre-
sidência do Brasil. 
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Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado
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ASPECTOS DA IMIGRAÇÃO EUROPEIA E A 
CONSOLIDAÇÃO DO TRABALHO ASSALARIADO: 
AS TRANSFORMAÇÕES ECONÔMICO-SOCIAIS NA 
PRIMEIRA REPÚBLICA
Acompanhamos até o momento, caro(a) acadêmico(a), algumas das mais rele-
vantes transformações políticas e estruturais pelas quais o Brasil passou desde 
a Proclamação da República em 1889. Essas transformações trouxeram consigo 
mudanças que se refletiram também na economia e no desenvolvimento social 
do Brasil.
O crescimento e o desenvolvimento da produção cafeeira após 1822 em detri-
mento da produção açucareira no Nordeste fizeram com que o centro econômico 
do país se deslocasse daquela região para o Sudeste, intensificando o desenvol-
vimento de cidades como São Paulo e Minas Gerais e Rio de Janeiro, bem como 
da região do Vale da Paraíba. 
Entre 1889 e 1930, período da República Velha ou Primeira República, não 
só a economia agrícola passou por mudanças, mas também o setor industrial 
e o comércio ganharam mais atenção do governo central, sobretudo a partir 
do governo de Deodoro da Fonseca, quando Rui Barbosa, então Ministro da 
Fazenda, iniciou uma política econômica voltada para o crescimento industrial. 
IIIU N I D A D E136
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Nesse novo cenário econômico que se apresentava, os aspectos sociais tam-
bém se modificavam na medida em que novos atores entravam em cena. As 
cidades evoluíram e a população brasileira aumentou, fato que contribuiu para 
a chegada dos imigrantes europeus que vieram trabalhar nas lavouras de café e 
nas indústrias, em substituição da mão de obra escrava, sobretudo após a pro-
mulgação da Lei Áurea em 1888.
O apoio das oligarquias aos governos federal e estadual e o domínio desse 
setor no campo político e econômico abriram margem para alterações nas rela-
ções sociais não só no campo, como também nos centros urbanos, na medida 
em que as atividades comerciais internas dependiam também do sucesso eco-
nômico dos produtores rurais. 
Desse modo, caro(a) aluno(a), devemos entender que os contextos político, 
econômico e social estão interligados e uma alteração em qualquer um desses 
aspectos afeta a organização do país na sua totalidade, sendo muito difícil estu-
dá-los isoladamente.
A SUBSTITUIÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO PELO TRABALHO 
ASSALARIADO: A IMIGRAÇÃO EUROPEIA
Desde que a família real portuguesa trans-
feriu-se para o Brasil no início do século 
XIX com o apoio da Inglaterra, houve uma 
pressão deste país para que D. João VI aca-
basse com a escravidão na sua colônia. 
Naquele momento, o então rei de Portugal 
e do Brasil firmou o Tratado de Aliança 
e Amizade pelo qual se comprometia a 
extinguir o trabalho escravo no Brasil 
nos anos seguintes. No entanto, durante 
muito tempo as promessas de D. João VI 
à Inglaterra não saíram do papel.
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A monarquia brasileira era em grande medida sustentada pelo trabalho 
escravo, uma vez que a economia do país e a elite que apoiava o regime eram 
essencialmente agrárias e dependentes da mão de obra escrava. Acabar com a 
organização escravocrata significava desestruturar e prejudicar a economia do 
país e, consequentemente, perder o apoio de uma parte significativa da elite polí-
tica e intelectual do país. Até mesmo os padres jesuítas que viveram ao Brasil 
reconheceram que a escravidão era um mal necessário.
Embora D. João VI tenha conseguido resistir durante um longo período à 
pressãoinglesa, conforme o século XIX avançava, as discussões acerca da exis-
tência de um regime escravocrata no Brasil ganharam corpo e tornaram-se mais 
incisivos. Durante o processo de lutas pela emancipação política do Brasil e após 
a proclamação da independência em 1822, os intelectuais responsáveis pelas 
novas diretrizes de organização do país defendiam a formação de uma nação 
pautada nos princípios liberais, revelando a influência dos eventos que se desen-
rolavam na Europa e na América do Norte. Entretanto, conforme já discutimos 
anteriormente, no Brasil, o liberalismo defendido fora adaptado para conceber 
a permanência de um regime cuja base residia na supressão das liberdades indi-
viduais, como a escravidão.
 O regime escravocrata no Brasil conviveu, então, com a difusão dos ideais 
liberais sem que esses ideais representassem a intenção de suprimir o alicerce 
da economia naquele momento. Será apenas de maneira lenta e gradual que o 
Brasil conseguirá superar a dependência do trabalho escravo.
Como foi dito, o debate acerca do fim da escravidão existia desde o início do 
século XIX, mas somente em 1850 foi aprovada a primeira lei que de fato colo-
cou o país no caminho da abolição. A lei Eusébio de Queirós determinou o fim 
do tráfico negreiro no Brasil e levou governos e proprietários rurais a buscarem 
alternativas para a substituição do trabalho do escravo africano nos setores pro-
dutivos do país.
Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado
IIIU N I D A D E138
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A promulgação da Lei do Ventre Livre em 1871, da Lei dos Sexagenários em 
1885 e o contexto político daquele período acirraram os debates acerca do fim 
da escravidão e das alternativas para a substituição da mão de obra. Quando a 
abolição da escravidão finalmente ocorreu – com a assinatura da Lei Áurea em 
1888, pela Princesa Isabel – uma parte dos proprietários rurais e dos setores 
urbanos já estava preparada para lidar com os infortúnios causados pela medida.
Mesmo tratando-se de um assunto complexo, visto que afetava a organiza-
ção do país como um todo, a abolição, a partir de 1850, tornou-se uma realidade 
irreversível, sendo que seria uma questão de tempo até que ela se consolidasse. 
O fato de ela ter ocorrido de maneira lenta deu aos proprietários de terras e de 
escravos a possibilidade de buscarem, embora relutantes, uma alternativa para 
o cultivo de suas terras com o menor prejuízo possível.
O emprego de mão de obra assalariada há muito tempo já era utilizada em
outros países e podemos considerar que, nessa questão, o Brasil estava atrasado 
em relação aos países europeus. Além das questões relativas aos custos para o 
emprego da mão de obra assalariada, no Brasil da primeira metade do século 
XIX, havia ainda barreiras impostas pela falta de uma população livre suficiente 
para suprir as necessidades das lavouras e também pelo fato de que os imigran-
tes europeus preferiam dirigir-se para os Estados Unidos. Conforme aponta 
Emília Viotti da Costa, 
A população dessas regiões onde a pressão para imigração atuava mais 
fortemente era canalizada para os Estados Unidos. A organização de-
mocrática das colônias americanas do Norte, o progresso econômico 
dessa região, a rede de transporte que ai se instalara precocemente, o 
clima de liberdade religiosa, a relativa semelhança da paisagem ameri-
cana com a europeia, ambas dentro de uma mesma área de clima tem-
perado, a maior proximidade da Europa, o que significava passagens 
mais baratas, tudo contribuía para dar aos Estados Unidos uma pri-
mazia absoluta entre os países americanos. Para lá se dirigia esponta-
neamente a corrente migratória. Nada que se lhe comparasse oferecia 
o Brasil. Terra ignota, sobre a qual corriam lendas as mais extraordi-
nárias; terra distante, agreste, coberta de matas tropicais indevassáveis,
onde, sob um clima que se dizia causticante e incompatível com o ho-
mem branco, grassavam epidemias, o Brasil não oferecia condições
atraentes aos imigrantes (COSTA, 2010, p. 198).
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Diante desse quadro, até 
meados do século XIX a imi-
gração foi pouco significativa 
no Brasil. Não havia interesse 
dos estrangeiros em seguir 
espontaneamente para nosso 
país e também não havia 
ainda interesse suficiente 
por parte do governo e dos 
proprietários rurais em esti-
mular essa prática, uma vez 
que a mão de obra escrava era abundante e suficiente tanto para o trabalho nas 
lavouras quanto para as atividades das cidades.
A partir de 1850 com a proibição do tráfico negreiro, começou a vislumbrar-se 
mais efetivamente a necessidade de se buscar meios para promover a substitui-
ção da mão de obra escrava. O emprego da mão de obra estrangeira suscitou os 
debates e retomou-se a ideia de incentivar a vinda de europeus para o Brasil a 
fim de que eles se dedicassem aos trabalhos antes desempenhados pelos escravos.
Segundo Emília Viotti, 
A fórmula usada desde os tempos de D. João VI, cuja finalidade fora 
especificamente servir a uma política demográfica, não era a solução 
ideal para atender às necessidades da lavoura, que exigia braços para a 
cultura de café e não núcleos coloniais de povoamento. Ideou-se, então, 
o sistema de parcerias. A par dos núcleos coloniais oficiais ou particula-
res, organizados segundo o sistema tradicional de distribuição de terras 
agrupadas em núcleos autônomos, surgiu um novo tipo de colonização 
que visava a fixação dos colonos nas fazendas (COSTA, 2010, p. 205).
A organização do sistema de colônias de parceria representou uma tentativa 
de substituir gradativamente o trabalho escravo nas fazendas de café. O sistema 
consistia na contratação de colonos europeus que teriam as despesas da viagem 
até o Brasil e o transporte para as fazendas custeadas pelos fazendeiros interes-
sados em aderir às colônias de parceria. O proprietário rural também fornecia 
uma quantidade de dinheiro para que o colono garantisse seu sustento até o iní-
cio do trabalho na lavoura.
Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado
IIIU N I D A D E140
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Emília Viotti destaca também que cada família de colonos recebia uma parte 
dos cafeeiros em concordância com sua capacidade de cultivar, e também 
lhes era assegurado o direito de plantar os produtos necessários ao seu 
sustento, em locais pré-estabelecidos pelo proprietário. Além disso, o acordo 
firmado entre as duas partes estabelecia que parte do lucro líquido obtido com 
a venda da pro-dução deveria ser entregue ao colono (COST A, 2010, p. 208).
 “(...) na região Sul não havia uma numerosa classe de grandes proprietários 
demandando trabalhadores em grande número, de forma que os governos 
provinciais e o governo imperial puderam implementar uma política de co-
lonização baseada na criação de estabelecimentos rurais de tamanho fami-
liar. Também se concederam estímulos pecuniários e outras vantagens aos 
particulares dispostos a fundar colônias nas mesmas linhas das que foram 
criadas pelo governo. Por volta de 1870, existiam milhares de famílias euro-
peias, principalmente alemãs, estabelecidas em pequenas propriedades em 
diversas colônias públicas e privadas, produzindo excedentes apreciáveis de 
gêneros alimentícios a serem vendidos para outras províncias”.
Fonte: Corrêa do Lago (2014, p. 78).
Na região Nordeste do país, a falta de mão de obra escrava agravou-se de-
vido a uma epidemia de cólera que atingiu de maneira mais grave a po-
pulação escrava na década de 1850. Por essa razão, os agricultores dessa 
região aderiram ao trabalho livre e assalariado e,em 1870, o trabalho livre 
já era predominante na região, principalmente nas fazendas dos criadores 
de gado.
Fonte: Corrêa do Lago (2014, p. 77).
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Um olhar superficial sobre o estabelecimento das colônias de parceria e as 
regras que regiam o contrato entre o proprietário da terra e o colono pode levar 
a um erro de julgamento, ao induzir o leitor a acreditar nos benefícios que a 
parceria garantia tanto a um quanto ao outro. No entanto, esse sistema demons-
trou-se vantajoso apenas para o proprietário da terra.
Todo o dinheiro investido pelos proprietários rurais no estabelecimento dos 
colonos em suas terras eram depois cobrados do próprio colono. As despesas de 
viagem e de instalação dos colonos eram pagas pelos fazendeiros na condição de 
adiantamento dos lucros e dos salários pagos aos imigrantes. Sobre esse adianta-
mento, eram cobrados juros de até 6%, os quais os colonos deveriam pagar assim 
que recebessem as primeiras quantias resultantes da venda da produção. Desse 
modo, a parte dos lucros da venda do café que correspondia aos imigrantes, vol-
tavam para as mãos e para os bolsos dos proprietários das fazendas, como parte 
do pagamento da dívida adquirida com a transferência para o Brasil. 
Estima-se que entre a década de 1850 e 1880, aproximadamente 430 mil 
imigrantes europeus tenham entrado no Brasil em busca de novas oportu-
nidades. Para conhecer as razões que levaram esses imigrantes a deixarem 
seus países de origem e virem para o Brasil acesse o conteúdo disponível 
em: <http://acervo.estadao.com.br/noticias/topicos,imigracao,885,0.htm>. 
Acesso em: 15 maio 2015.
Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado
IIIU N I D A D E142
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Desembarque de imigrantes no Brasil
Fonte: História de São Paulo (online).
A sorte dos imigrantes que vieram para o Brasil para compor as colônias de 
parceria ficou, então, nas mãos dos proprietários rurais. Para os imigrantes, 
o sistema de colônias de parceria representou uma dependência econômica em
relação aos fazendeiros a qual não era possível vislumbrar o fim, na medida em
que até mesmo os produtos necessários para sua subsistência e manutenção de
sua casa e família tinham que ser adquiridos em locais indicados pelos fazendei-
ros de café, os quais geralmente eram de propriedade dos próprios fazendeiros
e onde o preço dos produtos estavam acima da média.
Aos colonos imigrantes não restavam muitas opções, haja vista que, de 
acordo com o contrato que assinavam ainda na Europa, não podiam abandonar 
o serviço nos cafezais ou mesmo deixar as fazendas a menos que conseguisse
quitar toda a dívida com os proprietários que os contrataram, o que se tornara
quase impossível.
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. O sistema de colônias de parceria logo começou a dar sinais de que não teria 
longa duração. As condições impostas aos trabalhadores imigrantes por meio 
de seus contratos e a situação em que viviam nas fazendas levaram-nos a decep-
cionar-se com a realidade encontrada nas fazendas de café, muito diferentes das 
promessas feitas pelos agentes responsáveis por suas contratações na Europa.
Reclamava-se contra os pesos e medidas usados pelos fazendeiros e seus 
representantes, que, segundo diziam, avaliavam a mercadoria sempre 
em prejuízo do colono. Consideravam injusta a entrega de metade do 
excedente de produção dos gêneros alimentícios. Apontavam-se como 
desonestos a contagem dos juros e os cálculos da conversão da moe-
da. Suspeitava-se da ação da justiça, ligada aos interesses senhoriais e, 
portanto, pouco inclinada em dar razão ao colono em caso de dissídio. 
Queixavam-se ainda os colonos do peso excessivo das dívidas que reca-
íam sobre eles, já ao chegar nas fazendas, em virtude dos preços da via-
gem e transporte até a sede, muitas vezes distante do porto de Santos, 
onde eram desembarcados. Sobre aqueles preços ainda eram cobrados 
juros. Apontavam dificuldades de ordem religiosa. Chegava-se mesmo 
a dizer que os colonos sujeitos a esse sistema de parceria não passavam 
de “pobres coitados, miseravelmente espoliados, de perfeitos escravos, 
nem mais nem menos, e que encontravam, às vezes, maior dificuldade 
em se libertar do que os próprios pretos” (COSTA, 2010, p. 218-219).
O sistema de colônias de parceria foi adotado, sobretudo na chamada re-
gião de maior concentração e produção cafeeira, composta pelo Rio de Ja-
neiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, onde a produção cafeeira ex-
pandia-se de maneira vertiginosa e a demanda por mão de obra mostrou-se 
mais urgente. 
Fonte: a autora.
Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado
IIIU N I D A D E144
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
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rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Diante dessa realidade e da falta de esperança de livrar-se do domínio dos 
fazendeiros, muitos colonos entregaram-se aos vícios e deixaram de dedicar-
se aos cultivos da lavoura, gerando alguns prejuízos para os fazendeiros. 
Assim, os proprietários também ficaram insatisfeitos e desgostosos com o 
sistema de parceria. Alguns proprietários chegaram mesmo a demitir os 
colonos diante da indisciplina e da baixa produtividade dos imigrantes.
Apesar do fracasso das colônias de parceria em algumas regiões do país, sobretudo 
na zona cafeeira de São Paulo, a imigração europeia continuou a ser incentivada 
como forma de conseguir os trabalhadores necessários para manter a produção 
nas lavouras e nas cidades. A partir da década de 1880, o governo de São Paulo, 
diante da falta de interesse dos proprietários em arcar com as despesas de via-
gens dos imigrantes, passou ele mesmo a custear essas viagens, ocasionando um 
novo impulso às imigrações (CORRÊA DO LAGO, 2014, p. 93).
 “(...) na região amazônica, no início da década de 1870, a produção de bor-
racha já predominava sobre as outras atividades e continuava a se expandir 
aceleradamente, levando a rápidos ganhos do trabalho livre em relação ao 
escravo. Já era evidente, para os observadores da época, que a Abolição não 
teria efeitos negativos substanciais sobre a economia da região, e a preocu-
pação no Pará e no Amazonas era obter, de outras regiões, trabalhadores 
livres em número suficiente para explorar novas áreas de florestas”.
Fonte: Corrêa do Lago (2014, p. 77).
Ao analisarmos o sistema de parceria percebemos que um dos fatores que 
contribuíram para o seu fracasso foi que os proprietários rurais não haviam 
compreendido as bases do trabalho livre e assalariado. 
Fonte: a autora.
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As transformações nos centros urbanos
Fonte: História de São Paulo (online).
A transferência da família real portuguesa para o Brasil e sua instalação no Rio 
de Janeiro – que se tornou sede do governo monárquico e, posteriormente, 
capital do Império e da República – representou o fortalecimento do processo 
de urbanização no país com o reavivamento das cidades e das atividades a ela 
relacionadas.
A vida na corte tornou-se o centro das atenções e os investimentos feitos 
na cidade do Rio de Janeiro, a partir do século XIX, despertaram o interesse de 
muitos indivíduos que, pouco a pouco, deixaram o campo e instalaram-se na 
cidade. A criação de universidades no Rio de Janeiro, de Recife e de São Paulo 
possibilitou a formação de intelectuais que desempenharam papeis importan-
tes em momentos decisivos da história política do Brasil.
Ofim dos monopólios comerciais e a abertura dos portos brasileiros em 
1810 contribuíram para que as atividades comerciais do país se desenvolvessem 
e levassem ao desenvolvimento de outros setores, como o de construção de fer-
rovias e maiores investimentos nos portos por onde as mercadorias saiam com 
destino ao mercado europeu.
Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado
IIIU N I D A D E146
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, inaugurada em 1914
Fonte: Projeto Memória Ferroviária (online).
Entretanto, mesmo diante dessas mudanças nos centros urbanos nos primeiros 
anos do século XIX, Emília Viotti da Costa chama nossa atenção para o fato de que
Não obstante as condições serem mais favoráveis ao processo de ur-
banização, a partir da independência as linhas gerais da produção 
brasileira não foram alteradas. A exportação de produtos agrários 
continuou a base da economia. Sobreviveram o latifúndio e o traba-
lho escravo (abolido apenas em 1888). A alta lucratividade da empresa 
agrária, exportadora, o caráter limitado do comércio interno, a com-
petição estrangeira inibiram o desenvolvimento das manufaturas. As 
elites no poder, beneficiando-se da produção agrícola, procuraram 
manter intacta a estrutura tradicional de produção, revelando-se pou-
co simpáticas às empresas industriais. Dessa forma, as condições que 
haviam inibido o desenvolvimento urbano no período colonial conti-
nuaram a atuar durante a primeira metade do século XIX. Por isso os 
viajantes que percorreram o país nessa época continuaram a observar 
o profundo contraste que havia entre as cidades portuárias mais movi-
mentadas, mais modernas, mais europeizadas e os núcleos urbanos do
interior que, na sua quase totalidade, viviam à margem da civilização,
meras extensões das zonas rurais (COSTA, 2010, p. 243).
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A partir das palavras da autora, percebemos que o processo de urbanização 
e de industrialização no Brasil, a partir do século XIX, teve maior intensidade 
nas cidades litorâneas, sobretudo na região Centro Sul, impulsionado, dentre 
outros fatores, pelo crescimento da economia cafeeira.
As cidades do período colonial e do Império estavam atreladas às proprie-
dades e às atividades rurais, sendo que somente nos primórdios da República 
haverá uma mudança significativa nas suas estruturas, uma vez que a ideia de 
europeização do Brasil ganhou força e buscou-se a modernização dos centros 
urbanos e o refinamento da população. A parir de então assistiremos uma evo-
lução nos centros urbanos que implicará em uma mudança tanto nos aspectos 
políticos e econômicos do país como nos aspectos sociais e culturais.
A presença maciça dos estrangeiros, após a segunda metade do século XIX, 
contribuiu para uma mudança na paisagem dos centros urbanos. Muitos imi-
grantes, sobretudo após o fracasso das colônias de parceria, deslocaram-se para 
as cidades e dedicaram-se à atividades ligadas ao comércio e ao artesanato. 
Além disso, havia ainda os estrangeiros que chegaram ao Brasil para trabalhar 
nas nascentes fábricas e primeiras indústrias, estando as principais localizadas 
nas regiões do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Minas Gerais e do Rio Grande 
do Sul (COSTA, 2010, p. 259).
Segundo Bóris Fausto (1995, p. 288), as principais indústrias instaladas no 
Brasil entre o final do século XIX e início do século XX foram as indústrias têx-
teis, de alimentação e de vestuário, sendo que as indústrias de base (cimento e 
ferro, por exemplo) ainda levariam um tempo para aparecerem no país e, por 
essa razão, mesmo em processo de industrialização, o Brasil continuou a depen-
der da importação de materiais de base.
Merece destaque em nosso estudo, caro(a) aluno(a), as transformações ocor-
ridas na cidade do Rio de Janeiro durante a Primeira República, inspiradas na 
Belle Époque parisiense.
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DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
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O Rio de Janeiro era a capital da República, mas os cortiços, as casas popu-
lares, a falta de uma infraestrutura básica que mantivesse a cidade limpa e 
com as questões relacionadas à higiene em dia construíram uma visão pouco 
agradá-vel da cidade. Diante disso, com as transformações políticas e 
econômicas pelas quais o país passava entre o final do século XIX e o início do 
século XX, as auto-ridades brasileiras sentiram a necessidade de submeter a 
capital da República a uma transformação, visando moderniza-la e adapta-la à 
nova realidade do país.
“A Belle Époque se caracteriza pela expressão do grande entusiasmo advin-
do do trunfo da sociedade capitalista nas últimas décadas do século XIX e 
primeiras, do século XX, momento em que se notabilizaram as conquistas 
materiais e tecnológicas, ampliaram-se as redes de comercialização e foram 
incorporadas à dinâmica da economia internacional vastas áreas do globo 
antes isoladas. Época marcada pela crença de que o progresso material pos-
sibilitaria equacionar tecnicamente todos os problemas da humanidade.
Nesse contexto, as cidades assumiram redobrado valor como locus da ati-
vidade civilizatória, espaço privilegiado para usufruir o conforto material e 
contemplar as inovações introduzidas pela modernidade. Para isso, as cida-
des precisavam renovar suas feições de modo a se mostrarem modernas, 
progressistas e civilizadas. As cidades modernizadas constituíram então a 
maior expressão do progresso material e civilizatório de um período que se 
convencionou chamar de Belle Époque”.
Fonte: Follis (2004, p. 15).
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Com esse objetivo, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos (1902-1906), 
iniciou uma reforma na cidade que levantou a insatisfação da população 
mais pobre da cidade. A proposta levada a cabo por Pereira Passos estabelecia 
medidas como a transferência dos trabalhadores mais pobres do centro para a 
periferia das cidades, a destruição dos cortiços, a derrubada de casas antigas, 
o alarga-mento das ruas e a construção de avenidas.
“As reformas urbanas do Rio de Janeiro ocorridas entre 1902 e 1906 mar-
caram um momento crucial por que passava o país: a passagem do meio 
de produção mercantil para o capitalismo. É um momento em que se nota 
de forma escancarada a ação do Estado em privilégio do capital, e de certo 
modo a transferência de responsabilidades ao setor privado, ou seja, trata-
-se de um momento em que o Estado delega ao capital privado a função de
estruturar a cidade – tendência observada até hoje. Sem a intervenção es-
tatal, a lógica de crescimento da cidade passa a seguir a lógica do mercado,
que leva à valorização do solo nas áreas centrais e à periferização das classes 
baixas, sem a criação de uma estrutura que permita sequer o deslocamento
do morador da periferia até as áreas centrais da cidade, bem como um cres-
cente esvaziamento dos centros históricos. O Rio particularmente se notabi-
liza pela ocupação dos “vazios urbanos” por parte dessa população carente,
mas é importante ressaltar que a proximidade dessas ocupações não lhes
garante qualquer atenção do Estado. São áreas que fisicamente estão pró-
ximas dos grandes centros, mas que historicamente sempre estiveram na
periferia das prioridades do Estado”.
Fonte: Ruchaud (online).
Aspectos da Imigração Europeia e a Consolidação do Trabalho Assalariado
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IIIU N I D A D E150
Reurbanização do Rio de Janeiro, no início do século XX
Fonte: Suppia e Scarabello (online).
As medidas de Pereira Passos refletiam os interesses das novas categorias 
sociais resultantes das mudanças político-econômicas do início da República 
no Brasil. A oligarquia cafeeira enriquecida, a burguesia comerciante e 
industrial e os banqueiros entendiam que era necessária uma reconfiguração 
da cidade do Rio de Janeiro com o intuito de deixar a cidade mais adequada 
ao seu status e afastar os perigos decorrentes do crescimento desorganizado, 
como a violência e a proliferação de doenças.
A reforma promovida por Pereira Passos e apoiada pelo então presidente da 
República Rodrigues Alves demonstrava o desprezo em relação às camadas 
mais baixas da população brasileira, dentre as quais se encontravam os es-
cravos libertos, os imigrantes e brasileiros que não se destacavam economi-
camente dentro do contexto da República Oligárquica.
Fonte: a autora.
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Getúlio Vargas no Palácio do Catete em 31 de Outubro de 1930, alguns dias pós a Revolução de 1930. 
Fonte: Netleland (online).
As primeiras décadas do regime republicano no Brasil caracterizaram-se 
pela hegemonia da elite ligada à agricultura agroexportadora como detentoras 
do poder político e econômico. Os investimentos no setor industrial, embora 
tenham feito progredir a indústria e o comércio no Brasil, não foram suficien-
tes para fazer com que esses setores tomassem a dianteira do desenvolvimento 
econômico do país.
Com o fortalecimento do setor agrícola do país, os proprietários de terra ocu-
param durante muito tempo um lugar de destaque na sistematização do cenário 
político do país, influenciando a máquina administrativa do país. Nesse contexto, 
estabeleceu-se o predomínio de um cenário político cujos donos do poder cria-
ram estratégias para garantirem a viabilização de seus interesses e manterem-se 
no poder por meio de alianças entre as forças estaduais e federais, deixando à 
margem da organização política, os demais indivíduos e setores que compu-
nham a sociedade brasileira.
As forças oligárquicas que comandavam o cenário político e econômico do 
país, entre o final do século XIX e o início do século XX, encontraram resistência 
ao modelo de administração implantado, uma vez que esse modelo mostrava-
-se incapaz de integrar os novos elementos que eram introduzidos na sociedade 
– como escravo liberto, os imigrantes europeus e, posteriormente, os imigran-
tes asiáticos – e de assimilar as novas características que o país assumia a partir 
do processo de industrialização e das reformas urbanas.
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Movimentos como a Guerra de Canudos (1896-1897), os conflitos em 
Juazeiro, no Ceará (1872-1924), a Guerra do Contestado (1912-1916) e os con-
flitos gerados devido à insatisfação dos primeiros imigrantes que chegaram ao 
Brasil para trabalhar nas fazendas de café de São Paulo representaram o descon-
tentamento dos excluídos das principais discussões e decisões do país, decisões 
essas que afetavam direta ou indiretamente a vida de todos os que aqui viviam.
Nas cidades, os investimentos, as reformas, o desenvolvimento e a presença de 
novos atores sociais também desencadearam manifestações que externalizavam 
o desejo por mudanças. A instalação de fábricas e de indústrias, o florescimento
das atividades comerciais e a presença dos estrangeiros possibilitaram a circulação 
de ideias oriundas da Europa e que chegavam ao Brasil trazidas pelo imigrante
que aqui vinha instalar-se. Dentre essas ideias, destacavam-se as que fundamen-
tavam a luta dos trabalhadores e dos operários por melhores salários e condições. 
Matéria de primeira página do Jornal A Capital, do dia 23/07/1917
Fonte: Laboratório de Ensino e Material Didático (online).
O avanço dos ideais socialistas na Europa, sobretudo após a Primeira Guerra 
Mundial (1914-1918), propagou-se pelo Brasil e embasou os movimentos 
operários do início do século XX. De acordo com Bóris Fausto,
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O número de greves cresceu muito, chegando entre 1917 e 1920, segun-
do os dados mais confiáveis, à casa dos cem, em São Paulo, e mais de 
sessenta, no Rio de Janeiro, afora pequenas paralisações não registradas 
pela imprensa. A sindicalização ganhou ímpeto, embora não existam 
dados seguros da proporção de operários sindicalizados (FAUSTO, 
1995, p. 300).
O avanço do movimento operário no Brasil, nas primeiras décadas do século 
XX, representava uma ameaça à ordem vigente e ao modelo político-
econômico existente no país. Na década de 1920, o setor industrial havia se 
desenvolvido significativamente e os industriais procuravam cada vez mais 
conquistar o reco-nhecimento da importância de suas atividades para a 
evolução econômica do país e ter maior participação política.
Diante desse quadro, o que se percebe, caro(a) aluno(a), é que o 
sistema oligárquico, na década de XX, representado pela política do café com 
leite, pas-sou a enfrentar a pressão exercida pela burguesia industrial e na 
medida em que caminhava para o fim desse período, os problemas oriundos do 
fim da Primeira Guerra Mundial em 1918, começaram a ser sentidos mais 
sistematicamente no Brasil, comprometendo a estabilidade e a hegemonia que 
o setor agroexportador havia conquistado nas décadas anteriores. Para São 
Paulo e Minas Gerais, torna-va-se mais difícil lidar com o descontentamento 
dos demais Estados brasileiros.
“A imagem sobre o movimento operário no Brasil relaciona-se diretamente 
à vitória dos comunistas na Revolução Russa, aos diferentes fluxos de en-
tradas de imigrantes europeus para o país, a organização de associações de 
bairro, ajuda mútua, clubes de futebol e recreação e às greves nos grandes 
centros urbanos. Diferentes grupos de trabalhadores operários, tanto na Eu-
ropa, Brasil, como nos Estados Unidos da América do Norte, entre outros 
locais, acreditavam no fim da exploração capitalista e na construção de um 
homem e sociedade nova”.
Fonte: Schwartz (2010, p. 1).
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A CRISE DA REPÚBLICA OLIGÁRQUICA
No processo eleitoral de 1921, quando São Paulo e Minas lançaram como can-
didato à presidência o nome de Artur Bernardes, que disputaria as eleições com 
Nilo Peçanha, apoiado pelas lideranças do Rio Grande do Sul, Pernambuco e 
Rio de Janeiro, que formavam a Reação Republicana, houve o crescimento da 
insatisfação dos Estados, dos setores e dos indivíduos menos privilegiados ou 
beneficiados pela política dos governadores e pela política do café com leite, 
que acirrou as disputas eleitorais da década de 1920. (FAUSTO, 1995, p. 306).
Nilo Peçanha, durante sua campanha, criticou abertamente o esquema de 
revezamento no governo federal criado por São Paulo e Minas Gerais, os quais 
estabeleceram um negligenciamento dos interesses das demais regiões do país, 
uma vez que esse esquema visava, dentre outras coisas, proteger os interesses 
das oligarquias desses dois Estados.
A candidatura de Nilo Peçanha contava também com o apoio da burguesia 
industrial que reclamava uma política que beneficiasse seus investimentos e que 
garantisse a proteção de seus interesses. Além disso, proprietários rurais com 
uma expressividade menor no contexto políticoe econômico também aliaram-
-se à aliança liderada pelo Rio Grande do Sul, por meio de Borges de Medeiros.
Como podemos observar, caro(a) aluno(a), as críticas ao sistema do café 
com leite intensificaram-se a partir da década de 1920 e tiveram como resultado 
a organização da sociedade para fazer frente à realidade que se apresentava. A 
Semana de Arte Moderna de 1922, a fundação do Partido Comunista do Brasil, 
a Revolução de 1924, a Coluna Prestes e o Movimento Tenentista são exemplos 
da reação à dominação das oligarquias de São Paulo e de Minas Gerais na esfera 
política federal (FAGUNDES, 2010, p. 128).
Na eclosão de alguns desses movimentos, como a Revolução de 1824, a Coluna 
Prestes e, como o próprio nome sugere, o Movimento Tenentista, o exército – 
ou pelo menos uma fração dele – teve uma participação definitiva e, conforme 
destaca Fagundes (2010, p. 128), “o Tenentismo passou a ser interpretado no 
bojo do conjunto de episódios que marcaram a chamada ‘crise dos anos 1920’”.
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Os levantes militares que sacodem o Brasil, desde os eventos do Forte de 
Copacabana, em 1922, até a insurreição integralista, em 1938, e de que são 
responsáveis diretos os tenentes, se podem ser explicados, em parte, pelas 
suas características militares – como ‘coisas de quartéis’ – sintetizam e ex-
pressam, no entanto, as contradições existentes em toda a sociedade. Parti-
lhando do controle de um dos instrumentos fundamentais do poder, isto é, 
da força de coerção e da violência, relativamente organizados e possuidores 
de uma cultura dos problemas nacionais acima da média da população em 
geral, os tenentes, pressionados aparentemente por motivos profissionais, 
com os suboficiais e os soldados aparecem como espécie de ‘mediadores in-
conscientes’ das demandas sociais e políticas dos cidadãos (TAVARES, 1985, 
p. 62 apud BRAVO, 2011, p. 186).
Para conhecer mais sobre o Movimento Tenentista, acesse o conteúdo dis-
ponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/
CrisePolitica/MovimentoTenentista. Acesso em: 21 maio 2015.
A influência do exército na organização dos movimentos que tinham por 
base a crítica à República Oligárquica nos anos de 1920 é um indicativo da 
relevância dessa instituição desde o momento da Proclamação da República 
em 1889. E na atualidade, qual é o papel exercido pelo exército no cenário 
brasileiro? 
Fonte: a autora.
DA REPÚBLICA DA ESPADA AO GOLPE DE 1930: A CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA
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IIIU N I D A D E156
O GOLPE DE 1930
No processo eleitoral de 1921, a Reação Republicana, liderada pelo Rio Grande 
do Sul, lançou o candidato Nilo Peçanha para concorrer com Artur Bernardes, 
o nome que representava o acordo político de São Paulo e Minas Gerais. Apesar
do apoio significativo que o candidato da Reação Republicana recebeu, Artur
Bernardes venceu o pleito, reafirmando a força do esquema do café com leite,
assegurado por meio da fraude eleitoral. Embora não tenha conseguido colocar
fim à hegemonia política das duas maiores economias do país, o Rio Grande do
Sul permaneceu com o objetivo de suplantar o sistema vigente e iniciar um novo 
capítulo na história política do país.
Na década de 1920, o Rio Grande do Sul contava com um setor industrial 
bem desenvolvido, fato que colocou o Estado como o terceiro mais produtivo do 
país. Desse modo, tornou-se imprescindível para o Estado que o governo fede-
ral adotasse medidas que beneficiassem e protegessem os interesses não apenas 
do setor agroexportador, mais precisamente do setor cafeeiro, mas que colabo-
rasse também para o desenvolvimento das atividades industriais. Buscando tais 
objetivos, os gaúchos, ao longo da década de 1920, elaboraram estratégias que 
modificaram as conjunturas políticas dominantes até então.
Como dito anteriormente, a década de 1920 representou um período de agi-
tações sociais que questionavam o modelo político existente e que colocou em 
prova a força da política dos governadores e do café com leite. Associados às 
questões internas do país, os eventos que sacudiam a Europa no mesmo período 
– muitos deles resultado da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) – também
contribuíram para abalar as estruturas políticas, econômicas e sociais do Brasil.
Os presidentes que comandaram o país nesse período – Artur Bernardes (1922-
1926) e Washington Luiz (1926-1930) – precisaram lidar com as forças internas
e externas que ameaçavam a manutenção do poder constituído.
Mesmo diante de um cenário de agitações de ordem política, econômica 
e social, a política do café com leite mantinha-se segura por meio das fraudes 
nos processos eleitorais, garantindo o apoio às suas respectivas elites políticas 
e econômicas. Nas eleições de 1930, no entanto, o presidente Washington Luiz 
(representante do Estado de São Paulo) decidiu indicar e garantir a candidatura 
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de Júlio Prestes à sucessão presidência. Júlio Prestes também era paulista e sua 
candidatura representava a ruptura do acordo estabelecido com Minas Gerais, 
de onde deveria vir o próximo presidente do Brasil.
Segundo Bóris Fausto (1995, p. 319), não há um consenso ou uma opi-
nião definitiva sobre as razões que levaram Washington Luiz a romper o acordo 
com Minas Gerais, colocando um fim à política do café com leite. O fato é que 
a decisão do então presidente da República fez com que Minas Gerais se unisse 
ao Rio Grande do Sul e apoiasse a indicação de um candidato gaúcho à presi-
dência do Brasil.
O candidato que concorreria com Júlio Prestes era Getúlio Vargas, sendo João 
Pessoa seu candidato à vice-presidente. Getúlio Vargas e João Pessoa formaram 
a Aliança Liberal e receberam o apoio da Paraíba e de uma parte da sociedade 
paulista, enquanto Júlio Prestes recebeu o apoio de 17 Estados brasileiros, inclu-
sive de dissidentes do Partido Republicano Mineiro (FAUSTO, 1995, p. 319).
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Carta de Antônio Carlos ao chefe político gaúcho Flores da Cunha em apoio à candidatura de Vargas, 
1930. Juiz de Fora (MG). (CPDOC/GV 1930.06.16)
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
As eleições ocorreram no início de 1930 e Júlio Prestes foi eleito presidente do 
Brasil. A Aliança Liberal não concordou com o resultado das eleições e ques-
tionava o sistema eleitoral, acusando-o de fraudes. Diante do reconhecimento 
da vitória de Prestes, a Aliança Liberal articulou uma estratégia para impedir 
Júlio Prestes de assumir a presidência do Brasil.
Em julho de 1930 o candidato à vice de Getúlio Vargas, João Pessoa, 
foi assassinado e a Aliança Liberal imediatamente acusou Júlio Prestes de ser o 
res-ponsável pelo crime. Com essa justificativa, Getúlio Vargas e a AL 
iniciaram um movimento revolucionário apoiado pela burguesia comercial e 
industrial, por uma parte do exército e pelas oligarquias dissidentes. com o 
objetivo de impe-dir a posse de Júlio Prestes.
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Desse modo, as forças apoiadoras de Getúlio Vargas depuseram o presidente 
Washington Luiz e entregaram a chefia do governo ao candidato gaúcho. Como 
descreve BórisFausto, 
Getúlio Vargas deslocou-se de trem a São Paulo e dai seguiu para o Rio, 
onde chegou precedido por 3 mil soldados gaúchos. O homem que, 
no comando da nação, iria insistir no tema da unidade nacional, fez 
questão de fazer transparecer, naquele momento, seus traços regionais. 
Desembarcou na capital da República em uniforme militar, ostentan-
do um grande chapéu dos pampas. O simbolismo do triunfo regional 
se completou quando os gaúchos foram amarrar seus cavalos em um 
obelisco existente na Avenida Rio Branco. A posse de Getúlio Vargas 
na presidência, a 3 de novembro de 1930, marcou o fim da Primeira Re-
pública e o início de novos tempos, naquela altura ainda mal definidos 
(FAUSTO, 1995, p. 325).
Nesse momento, tinha início a chamada Era Vargas, assunto de nossa próxima 
unidade.
Considerações Finais
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a) aluno(a), nesta unidade estudamos o processo de implantação da 
República no Brasil, destacando as forças políticas, econômicas e sociais que 
permearam a consolidação do regime republicano no Brasil. Por meio desse 
estudo, pudemos compreender que, desde seu nascimento, a República do Brasil 
alicerçou-se sobre a defesa dos interesses de alguns poucos cidadãos, negligen-
ciando as necessidades e os interesses da maioria de sua população.
Embora sobre a égide de um regime político novo, as forças políticas que 
comandaram o Brasil até 1930 pouco se diferenciaram do período imperial. No 
entanto, se no campo político e econômico a realidade brasileira levaria ainda 
algum tempo para ser modificada, no que diz respeito às bases sociais e cultu-
rais do país a história seria diferente.
A incorporação de novos atores sociais no país possibilitou a modificação 
da paisagem urbana e foi um elemento de inovação e até mesmo de renovação 
da cultura e das ideais presentes na sociedade brasileira. As propriedades rurais 
e os centros urbanos conheceram aspectos dos hábitos e da cultura europeia 
tanto pela presença do imigrante europeu quanto a partir das reformas urbanas 
promovidas por Pereira Passos no início do século XX. A ideologia estrangeira 
somou-se ao contexto social interno – resultado do desenvolvimento do capita-
lismo e das relações conflituosas entre patrões e operários – e contribuiu para a 
emergência de conflitos tanto no campo quanto nas cidades.
A ascensão de uma elite cujas atividades não se baseavam no uso da terra 
acirrou a disputa pelo poder e provocou a desarticulação de um sistema político 
alicerçado na aliança entre os Estados com maior representatividade econô-
mica. A chamada política do café com leite foi vítima de seus próprios anseios, 
fato que deu margem para a organização de um golpe que mais uma vez provo-
cou mudanças significativas nas bases de organização da sociedade brasileira. 
1. Ao instalar-se a República no Brasil, o quadro geral do país apresentava uma
diversidade de interesses e ideais, os quais esperavam ser contemplados com
o novo sistema político. No entanto, a adoção de um regime político diferente
não resultou necessariamente em uma ruptura da hegemonia de alguns grupos
políticos e econômicos. Com base no que foi estudado nesta unidade, analise o 
contexto político e econômico da sociedade brasileira nas primeiras déca-
das do regime republicano e aponte os interesses defendidos pelos setores 
responsáveis pela organização da Primeira República no Brasil.
2. A abolição da escravidão em 1888 influenciou o aumento da entrada de imigran-
tes europeus no Brasil entre o fim do século XIX e o início do século XX. Discorra
acerca da maneira como a chegada do trabalhador europeu contribuiu para 
as transformações sociais e culturais da sociedade brasileira no início do
século XX.
3. O trabalho livre foi implantado no Brasil a partir da utilização da mão de obra
estrangeira. Com relação a esse processo, leia as afirmações abaixo e assinale
a alternativa correta.
a) Desde meados do século XIX, a imigração foi amplamente incentivada no Brasil,
na medida em que havia forte interesse dos estrangeiros em seguir espontane-
amente para nosso país.
b) O emprego da mão de obra estrangeira nas lavouras de café no Brasil seguiu um
rígido sistema de organização, o qual garantiu o sucesso do sistema em todas as
regiões do país.
c) A relação entre os cafeicultores e os imigrantes europeus desenvolveu-se de ma-
neira tranquila, uma vez que foram fornecidas aos trabalhadores recém chega-
dos todas as oportunidades de crescimento e enriquecimento.
d) A organização do sistema de colônias de parceria representou uma tentativa de
substituir gradativamente o trabalho escravo nas fazendas de café e organizou-
-se de maneira diversa nas regiões do país.
e) Com o fracasso das colônias de parceria, os proprietários rurais foram gradativa-
mente substituindo as atividades agrícolas pelas atividades comerciais e indus-
triais, deslocando-se para os centros urbanos.
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4. Leia o documento a seguir: “Prezados amigos – Segue esta carta por porta-
dor especial, afim de levar-lhes a sciencia de que as nossas combinações no Rio
tiveram aqui integral aprovação. A palavra de honra por mim empenhada será
honrada pelo Rio Grande todo, nos precisos termos da acção por nós assentada.
Envio-lhe meu afectuoso abraço”. (Bilhete de Lindolfo Collor e Oswaldo Aranha
confirmando o dia 3 de outubro como data da deflagração do movimento revo-
lucionário, 1930. Porto Alegre (RS). CPDOC/PEB 1930.09.25). Analise as afirma-
ções abaixo:
I. Na década de 1920, o Rio Grande do Sul encontrava-se atrasado no seu desen-
volvimento industrial se comparado ao Estado de São Paulo, devido à forte pre-
sença de uma elite proprietária de terra.
II. A década de 1920 representou um período de agitações sociais que questiona-
vam o modelo político existente e que colocou em prova a força da política dos
governadores e do café com leite.
III. Getúlio Vargas e João Pessoa formaram a Aliança Liberal e receberam o apoio da
Paraíba e de uma parte da sociedade paulista, enquanto Júlio Prestes recebeu o
apoio de 17 Estados brasileiros.
IV. A vitória de Getúlio Vargas nas eleições de 1930 representou a vitória da burgue-
sia industrial e comercial do país.
Estão corretas as alternativas:
a) I.
b) I e IV.
c) II e IV
d) IV.
e) II e III.
SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922
Mal começado, o ano de 1922 guardava inusitadas surpresas aos paulistanos. Primeiro, 
um tremor atingiu a capital. De pequena magnitude, gerou uma série de matérias na 
imprensa, detalhadas explicações científicas e algumas analogias bem humoradas. Uma 
nota no Jornal do Comércio de 31 de janeiro comparava o abalo sísmico a crises histéri-
cas de esposas que sofriam dos nervos.
Pouco depois, a fuga de presos da cadeia pública situada à avenida Tiradentes causaria 
pânico entre os habitantes da cidade. Aproveitando-se do descuido da sentinela, os de-
tentos evadiram-se pelos fundos misturando-se a operários que trabalhavam no local. 
O choque maior, porém, ainda estava por vir. Perdidos entre as páginas dos jornais de 
fevereiro, pequenos “reclames” anunciavam o Festival de Arte Moderna, abrilhantado 
pelo “concurso” de Guiomar Novais e Heitor Villa-Lobos.
Mas quem se dispôs a desembolsar 186 mil-réis que davam direito às três récitas levou 
um susto. Ao transpor os treze degraus de acesso ao Teatro Municipal, os cavalheiros de 
fraque e cartola, acompanhados por damas elegantemente vestidas, paravam estarreci-
dos. E não era para menos. Convertido em museu improvisado, o suntuoso hall apresen-
tava pinturas e esculturas que, com raras exceções, desdenhavam de todos os cânones 
artísticos até então ensinados nas melhores academias de arte do país e d` além-mar.
À direita da escadaria interna, um desfigurado homem amarelo padecia severamente 
do fígado. Adiante, um Cristo de tranças escarnecia o penitente catolicismo do público, 
que se benziaindeciso defronte o painel Ao pé da cruz, de Di Cavalcanti. Sem culpa nem 
explicações, um sem-fim de sacrilégios religiosos e artísticos penalizavam os incautos 
visitantes. Quadros sem perspectivas, cores berrantes, figuras deformadas, manchas 
indecifráveis e paisagens sombrias viravam pelo avesso as normas básicas da estética 
convencional. E pouco adiantava correr atrás de coerência ou rima nos versos a serem 
declamados no palco. Ali, uma enxurrada de desatinos literários feria sensibilidades re-
fratárias a experimentalismos linguísticos. Delírios poéticos sobre aeroplanos, estradas 
da Via láctea, sapos e guerra provocavam os expectadores, que revidaram numa bem 
orquestrada vaia regida pelos estudantes do alto das galerias.
Abrindo ruidosamente as comemorações do Centenário da Independência, a Semana 
de 22 vinha alvoroçar o universo artístico e literário da Paulicéia. Sob a genérica denomi-
nação de “os novos”, mas também apelidados de “futuristas”, seus artífices articulariam 
um movimento cultural que teve o primeiro ato público naquela Semana de Arte Mo-
derna – em verdade, três noitadas de conferências, audições musicais, leitura de poemas 
e uma exposição de artes aberta de segunda a sábado no saguão do Teatro Municipal, 
cuja imponência contrastava com a tônica irreverente dos vanguardistas. 
165 
Derivados de modernus, vocábulo de origem medieval ironicamente cunhado com o 
propósito de desviar a atenção das novidades e depreciá-las em relação a épocas mais 
antigas e mais sábias, o modernismo surgiu em meados do século XIX na Alemanha. 
Percorreria a Europa e os Estados Unidos até chegar à América espanhola, ganhando ali 
conotações múltiplas, derivadas das circunstâncias históricas, econômicas, sociais e cul-
turais de cada lugar, ampliando e fortalecendo seu domínio. Em termos gerais, aplica-se 
aos vários movimentos artísticos e literários, como cubismo, expressionismo, futurismo, 
vorticismo, construtivismo russo, dadaísmo, etc., que, entre fins do século XIX e prelúdio 
do século XX, essencialmente na Europa, questionaram e desconstruíram os sistemas 
estéticos da arte consagrada.
Fonte: CAMARGOS (2002, p. 17-19).
MATERIAL COMPLEMENTAR
Título: Os Sertões
Autor: Euclides da Cunha
Editora: Francisco Alves
Sinopse: Euclides da Cunha aborda neste livro, cuja primeira edição é 
de 1902, a Guerra de Canudos, a qual acompanhou como jornalista do 
jornal O Estado de São Paulo. O livro é dividido em três partes – A Terra, 
O Homem e A Luta – e pode ser considerado um misto de literatura e 
história, no qual o autor oferece um retrato do Brasil no fi nal do século 
XIX.
Para saber mais sobre as revoluções ocorridas na década de 30, assista “1930 tempo de 
revolução”, disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=vOPeTl3fzd>. Acesso 
em 06 jul. 2015.
Título: Eternamente Pagú
Ano: 1987
Direção: Norma Benguell
Sinopse: O fi lme retrata a vida da escritora e jornalista 
Patrícia Rehder Galvão, uma ativista política contrária ao 
governo de Getúlio Vargas. Amiga de vários artistas que 
participaram da Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia 
– que adotou o apelido Pagú – foi casada com Oswald de 
Andrade e foi uma fi gura polêmica para sua época devido 
ao seu engajamento político. Por meio do fi lme é possível 
conhecer o cenário político e cultural da primeira metade 
do século XX e entender a efervescência que tomou conta 
do país naquele momento.
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Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira
A ASCENSÃO DOS REGIMES 
AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
E A SUPRESSÃO DA “DEMOCRACIA” 
BRASILEIRA: DA ERA VARGAS À 
DITADURA MILITAR
Objetivos de Aprendizagem
■ Verificar as conjunturas do primeiro período do governo de Getúlio
Vargas (1930-1937).
■ Analisar o período do Estado Novo (1937-1945) e as diretrizes
políticas da ditadura getulista.
■ Verificar o processo de redemocratização do país após o fim do
Estado Novo.
■ Analisar o contexto político, econômico e sociocultural que permeou
a instalação da ditadura militar no Brasil.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■ Os primeiros anos do governo de Getúlio Vargas (1930-1937).
■ A ditadura de Vargas: o Estado Novo (1937-1945).
■ Enfim a democracia? As esperanças renovadas e o novo golpe: início
da ditadura militar no Brasil.
INTRODUÇÃO
O golpe de 1930 levou ao poder uma das figuras mais polêmicas e controversas 
da história política do Brasil, Getúlio Vargas. Comandando as forças contrárias à 
política oligárquica, o político gaúcho ascendeu ao poder representando a espe-
rança dos setores até então relegados à margem do processo governamental de 
conquistar um espaço maior no encaminhamento da vida política do país. Essa 
esperança em breve seria derrotada. Ao assumir a presidência do Brasil, Getúlio 
Vargas mostrou que não tinha a intenção de dividir o comando do país.
Nesta unidade vamos estudar as diretrizes que fundamentaram o estado getu-
lista e que contribuíram para que Getúlio Vargas se mantivesse no poder por 15 
anos ininterruptos, sendo amado por alguns e odiado por outros. Vamos enten-
der também porque mesmo após estabelecer uma ditadura no Brasil, Getúlio 
Vargas reassumiu o posto de presidente do Brasil em 1950, cinco anos após dei-
xar o cargo e por meio das vias democráticas.
Neste momento de nosso estudo, caro(a) aluno(a), percorreremos também o 
caminho que levou à instalação da ditadura militar no Brasil, verificando as con-
junturas que marcaram a organização do país após o fim do segundo governo de 
Getúlio Vargas (1950-1954) até o golpe de 1964. Nosso objetivo neste momento 
é refletir sobre um período da história brasileira que deixou marcas indeléveis 
na sociedade e que se fazem muito presentes em nossa atualidade.
Discutir e analisar o período da ditadura militar brasileira é imprescindível 
para que possamos entender o significado e a importância dos eventos que se 
seguiram a esse período e compreender o sentido da palavra democracia, mui-
tas vezes esquecido. Com a análise proposta nesta unidade esperamos que você, 
caro(a) aluno(a), tenha discernimento para refletir sobre o momento político e 
social que se apresenta, procurando não repetir um discurso pautado na falta 
de conhecimento do passado histórico brasileiro e que contribui para a repeti-
ção de erros anteriores. Por que, o que de antemão podemos afirmar, é que esse 
passado não deve ser esquecido por representar um retrocesso em nossa histó-
ria e uma afronta à liberdade e à democracia.
Introdução
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OS PRIMEIROS ANOS DO GOVERNO DE GETÚLIO 
VARGAS (1930-1937)
Getúlio Vargas
Fonte: Universidade de São Paulo (online).
Quando Getúlio Vargas assumiu a presidência do Brasil em 1930, teve o apoio 
das oligarquias que não eram privilegiadas pela política do café com leite, de 
setores do Exército e da burguesia industrial e comercial. O que esses setores 
esperavam de Getúlio Vargas era que ele conduzisse o processo de transição de 
um governo pautado na defesa dos interesses e privilégio de alguns para um 
governo que garantisse a ampliação da participação política e consolidasse o 
exercício da democracia no Brasil.
No entanto, o que os apoiadores de Getúlio Vargas assistiram durante a 
Revolução de 1930, após a vitória do golpe em novembro de 1930, foi o fim de suas 
expectativas e o início de um governo fundamentado na supressão da democracia, 
levado a cabo por um discurso que manipulava parte da população e a colocava 
a seu favor, mesmo diante de medidas autoritárias. Desse modo, Getúlio Vargas 
conseguiu manter-se no poder ao longo de 15 anos, embora tenha, logo no iní-
cio desse período, perdido o apoio daqueles que o ajudaram a chegar no poder.
OsPrimeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937)
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Em 1930 o Brasil passava por um momento conturbado, influenciado – além 
do contexto interno – pelos acontecimentos internacionais. O fim da Primeira 
Guerra Mundial, o avanço das ideias socialistas e a crise norte-americana de 1929 
afetaram de maneira considerável os países europeus e o Brasil.
Com o fim da Primeira Guerra, os países europeus depararam-se com uma 
realidade permeada por crises econômicas oriundas dos gastos e dos investimen-
tos no conflito. Mesmo os países considerados vencedores da Primeira Guerra, 
ao fim do embate, eles estavam endividados e a população sofria com a desor-
dem política, as crises de abastecimento, o desemprego e a carestia. A exceção 
a esse quadro eram os Estados Unidos, que em meio ao caos provocado pela 
Primeira Guerra conseguiu, terminado o conflito, manter o desenvolvimento e 
o fortalecimento de sua economia.
A euforia norte-americana manteve-se até o final de 1929, quando a que-
bra da bolsa de Nova Iorque jogou o país em uma crise econômica que teve um 
efeito global devido às relações existentes entre os E.U.A e os países europeus. 
Dessa forma, a crise dos países europeus acirrou-se, afetando diretamente a eco-
nomia brasileira.
De acordo com o que estudamos nas unidades anteriores, a economia bra-
sileira do século XIX e início do século XX tinha um caráter agroexportador, 
sendo o café o principal produto de exportação do país. A valorização do café 
no mercado internacional foi responsável pelo avanço econômico do Brasil e 
também teve grande influência no contexto político do país, conforme apon-
tado nas discussões anteriores.
Com a crise política, econômica e social que assolava a Europa desde o fim 
da Primeira Guerra Mundial e que se intensificou no final da década de 1920, a 
economia brasileira também entrou em colapso. As exportações do café foram 
reduzidas, uma vez que os países europeus eram os principais consumidores 
do produto brasileiro, fazendeiros foram arruinados, nas cidades o movimento 
operário ganhou força a partir do avanço das ideias socialistas, a produção indus-
trial também foi afetada, acarretando a elevação na taxa de desemprego. Esse foi 
o contexto que Getúlio Vargas encontrou ao assumir o comando do Brasil no
final de 1930. Portanto, cabia ao novo presidente a tarefa de reorganizar a socie-
dade brasileira e colocar o Brasil novamente no caminho do desenvolvimento.
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
Reprodução proibida. A
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IVU N I D A D E172
O GOVERNO PROVISÓRIO E A CENTRALIZAÇÃO POLÍTICA
Ao que parece, para alcançar a estabilidade política, econômica e social do país, 
para Getúlio Vargas, eram necessárias medidas drásticas. Por essa razão, logo no 
início de seu governo, que deveria ser apenas provisório, adotou medidas que 
lhe garantiram o controle total do país. 
Desde novembro de 1930, Getúlio vinha governando por decreto, após 
suspender a Constituição Federal, dissolver o Congresso, as Assem-
bleias Legislativas e as Câmaras municipais, destituir prefeitos e gover-
nantes dos estados, eliminar as prerrogativas individuais e instituir um 
tribunal de exceção para julgar crimes políticos. Autoatribuindo-se po-
deres discricionários, o Governo Provisório, originário do movimento 
civil-militar que conduzira o político gaúcho ao Catete, também apo-
sentara compulsoriamente, por “imperiosas razões de ordem pública”, 
seis ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), considerados com-
prometidos com o antigo regime (NETO, 2013, p. 7).
Desse modo, o novo presidente estabeleceu um governo centralizador, uma 
demonstração do que pretendia Getúlio Vargas: governar sem a interferência 
externa. Nos Estados, após demitir os governadores, nomeou interventores alia-
dos para impedir a insurreição contra seu governo autoritário.
Para combater a crise econômica do país no início da década de 1930, Getúlio 
Vargas adotou uma política de valorização do café – ainda o produto de maior 
expressão da economia brasileira – elaborando estratégias para garantir o preço 
do produto no mercado nacional e internacional, afetado pela crise mundial 
desencadeada a partir de 1929. 
Para tanto, Getúlio determinou que o governo federal combateria a crise de 
superprodução do setor cafeeiro comprando o excedente do produto que não 
fosse comercializado no mercado internacional. Dessa maneira, garantiria o 
valor do produto, minimizando os prejuízos dos cafeicultores. O excedente da 
produção comprado pelo governo federal seria queimado, reduzindo a oferta 
do produto e assegurando o seu valor (FAUSTO, 1995, p. 334). 
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Além de defender os cafeicultores, Vargas procurou elaborar estratégias que 
mantivessem sob controle os setores que representavam uma ameaça à consoli-
dação do seu governo. Dessa forma, criou em 1930 o Ministério do trabalho, por 
meio do qual estabeleceu uma série de reformas trabalhistas que colocavam as rela-
ções de trabalho sob a tutela do governo federal. De acordo com Cláudio Recco,
O Estado criou fórmulas diversas para garantir o controle e apoio dos 
sindicatos. A política assistencialista e algumas leis, como a nova Lei de 
Férias; o novo Código de Menores; a regulamentação do trabalho femi-
nino, e o estabelecimento de convenções coletivas de trabalho. Durante 
a década de 1930, foram criados institutos de aposentadoria e pensões 
de várias categorias como industriários, comerciários, bancários e fun-
cionários públicos (RECCO, 2010, p. 65).
Além disso, segundo o mesmo autor, 
Em dezembro de 1930 foi decretada a Lei de nacionalização do traba-
lho, pela qual as empresas eram obrigadas a empregar pelo menos dois 
terços de brasileiros entre os seus funcionários. Dessa maneira Vargas 
reforçou seu discurso nacionalista, eliminou parte dos trabalhadores 
de origem imigrante – que eram mais conscientes politicamente e mais 
organizados – e criou um novo setor operário, que chegou aos postos 
de trabalho “graças ao governo” (RECCO, 2010, p. 65).
Com a criação dessa legislação trabalhista, Vargas pretendia conter o avanço 
dos movimentos sindicais e a oposição ao seu governo, manipulando os tra-
balhadores. Essa tendência do governo varguista será uma característica que o 
acompanhará ao longo de todo seu governo e que será um dos motivos a con-
tribuir para sua eleição em 1934 e em 1950.
A centralização praticada por Getúlio Vargas desagradou antigos aliados e 
o colocou em confronto com as forças oposicionistas ao golpe de 1930. O con-
flito entre a política intervencionista de Vargas e a elite de São Paulo gerou um
dos eventos mais importantes desse primeiro período do governo Vargas.
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
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IVU N I D A D E174
A nomeação de um interventor que não era paulista para comandar o Estado 
de São Paulo acirrou a oposição das elites dessa região, contrárias às medidas 
adotadas pelo novo governo federal. O Partido Republicano Paulista e o Partido 
Democrático uniram-se à porção do Exército que não participara da revolução 
de 1930 e deflagraram um movimento revolucionário que tinha por objetivo 
forçar a convocação de uma Assembleia Constituinte para elaborar uma nova 
Constituição para o país, uma vez que o documento de 1891havia sido revogado 
por Getúlio Vargas (SKIDMORE, 2003, p. 156).
A Revolução Constitucionalista, como foi chamado o movimento revo-
lucionário, desenrolou-se entre julho e outubro de 1932 e foi liderada pelo 
Exército. Sem o apoio de outros Estados, a RevoluçãoConstitucionalista não 
obteve sucesso, sendo as forças do Exército paulista derrotadas pelas forças do 
Exército federal (SKIDMORE, 2010, p. 157). No entanto, embora fracassada, a 
Revolução de 1932 mostrou ao governo central que era o momento de estabe-
lecer o fim do governo provisório e garantir, por meios legais, a permanência 
de Getúlio Vargas à frente do Estado brasileiro. Com esse propósito, em maio 
de 1933, foram convocadas eleições para a Assembleia Constituinte, que atuou 
entre 1933 e 1934 na elaboração da nova Constituição do país.
De novembro de 1933 a julho de 1934 o país viveu sob a égide da Assem-
bleia Nacional Constituinte encarregada de elaborar a nova Constituição 
brasileira que iria substituir a Constituição de 1891. Foram meses de intensa 
articulação e disputa política entre o governo e os grupos que compunham 
a Constituinte. Para o primeiro, a futura ordenação jurídica do país deve-
ria incorporar o conjunto de mudanças que vinham sendo promovidas nos 
campos social, político e econômico. Essas posições também eram defendi-
das por lideranças tenentistas eleitas para a Constituinte. Para a Igreja Cató-
lica, o momento era de afirmação e de maior intervenção na vida política do 
país. Já para os grupos oligárquicos, a nova Constituição deveria assegurar 
aos estados um papel de relevo. O maior desafio dos constituintes foi tentar 
encontrar caminhos capazes de atender a essa gama variada de projetos e 
interesses.
Fonte: A ERA Vargas (online) 
Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937)
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Cartão Postal do MMDC, 1932. São Paulo (SP). (CPDOC/ CDA Roberto Costa)
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
Após a derrota da Revolução de 1932, São Paulo sentiu a necessidade de for-
mar uma nova elite capaz de contribuir para o aperfeiçoamento do governo 
e para a melhoria do país. Com esse objetivo um grupo de empresários fun-
dou a Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP), em 1933, e o interventor 
Armando Sales criou a Universidade de São Paulo (USP), em 1934. Como 
disse Sergio Milliet, “de São Paulo não sairão mais guerras civis anárquicas”, 
e sim “uma revolução intelectual e científica suscetível de mudar as con-
cepções econômicas e sociais dos brasileiros”. A busca de conhecimentos 
aplicáveis à vida do país vinha reforçar a crítica à cultura bacharelesca e à 
formação deficiente das escolas de direito.
Fonte: Criação da Universidade de São Paulo (online).
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
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IVU N I D A D E176
O GOVERNO CONSTITUCIONAL (1934-1937)
A nova Carta Constitucional do Brasil ficou pronta em julho de 1934 e, segundo 
Thomas Skidmore (2003, p. 157) “era uma mescla de liberalismo político e refor-
mismo socioeconômico”. O novo documento, em linhas gerais, reforçava a política 
nacionalista empreendida por Getúlio Vargas desde o início de seu governo, 
reconhecia a autoridade do Executivo – cujo representante seria eleito para um 
mandato de quatro anos – mas defendia a redemocratização do país por meio 
da retomada do sistema federativo e a instalação de um poder Judiciário mais 
justo e imparcial (SKIDMORE, 2003, p. 158). 
A Constituição de 1934 determinava que novas eleições presidenciais fos-
sem realizadas, as quais foram vencidas por Getúlio Vargas, uma vez que o 
documento estabelecia que a primeira eleição realizada após sua promulgação 
seria por meio do voto indireto, ou seja, o novo presidente seria escolhido pelos 
membros da Assembleia Constituinte, que eram, na sua maioria, partidários de 
Getúlio Vargas.
Nessa nova fase de seu governo, Getúlio Vargas deveria ter suas prerrogativas 
políticas limitadas pela Constituição, governando em conjunto com o Congresso. 
No entanto, o acirramento das disputas entre as ideologias presentes no interior 
do Brasil levaram o presidente a buscar alternativas de garantir sua autonomia 
em relação ao Congresso e às forças regionais. As ideologias citadas referem-
-se, principalmente, aos modelos de governo defendidos pela Ação Integralista 
Brasileira (AIB) e à Aliança Nacional Libertadora (ANL).
Criada em 1932 e com inspiração no fascismo italiano – embora o elemento 
racista não fizesse parte da ideologia integralista – a Ação Integralista Brasileira 
era liderada por Plínio Salgado, escritor, jornalista e ex-deputado estadual pelo 
PRP. Era composta por indivíduos das classes média e alta, oficiais da Marinha, 
membros do clero, intelectuais, profissionais liberais, funcionários públicos e 
militares (RECCO, 2010, p. 68), que defendiam a criação de um “Brasil cristão 
baseado numa sociedade disciplinada com pouca tolerância para a ação revo-
lucionária da esquerda” (SKIDMORE, 2003, p. 159). O lema da AIB era Deus, 
Pátria e Família.
Segundo o historiador João Fábio Bertonha,
Os Primeiros Anos do Governo de Getúlio Vargas (1930-1937)
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A base do pensamento de Plínio Salgado era a oposição entre mate-
rialismo e espiritualismo, concepções antagônicas em conflito desde o 
início dos tempos. No mundo dos anos 20 e 30, Salgado identificava 
uma vitória do materialismo e do individualismo e afirmava que, para 
vencê-los, deveria haver uma revolução espiritual.
Essa revolução deveria ter como alvos o capitalismo liberal, fortemente 
injusto e desigual, e principalmente o comunismo, visto como o auge 
da civilização materialista e ateísta. Para Salgado, o Brasil estava sob o 
domínio do materialismo, mas haveria um fundo espiritualista – espe-
cialmente no interior do país, não contaminado pelas idéias estrangei-
ras – que um movimento renovador poderia captar. Esse movimento 
seria o integralismo.
Nessa perspectiva, Plínio Salgado propunha a defesa da nacionalidade, 
a ordem, a disciplina, a organização corporativa e hierárquica dos bra-
sileiros em um Estado integral, como forma de garantir a prosperidade 
geral e o retorno a um estado de espiritualidade. Este geraria a gande 
civilização integralista, de repercussões mundiais (BERTONHA, 2004, 
p. 64).
Fonte: Beier (online).
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
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IVU N I D A D E178
A ideologia oposta ao modelo defendido pela AIB era representada pela 
Aliança Nacional Libertadora (ANL), que era uma extensão do Partido 
Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922. A ANL foi criada em 1935 e 
seu líder era Luiz Carlos Prestes, a quem Getúlio Vargas havia oferecido, anos 
antes, o comando militar da Revolução de 1930 (SKIDMORE, 2003, p. 158).
Luiz Carlos Prestes vivia em Moscou, onde viveu intensamente o comunismo, 
retornando ao Brasil clandestinamente em 1935, com o objetivo de promover 
a revolução comunista no Brasil e instalar um governo baseado nas ideias da 
Internacional Comunista.
A proposta de governo defendida pelos membros da ANL – dentre os quais 
estavam os “comunistas, socialistas, os ‘tenentes liberais e católicos’” (RECCO, 
2010, p. 68) – baseava-se na organização dos trabalhadores urbanos como forma 
de ação revolucionária para instalar um governo democrático e nacionalista. Suas 
principais propostas consistiam na suspensão do pagamento da dívida externa, 
no combate ao nazi-fascismo, na reforma agrária, na nacionalização das empre-
sas estrangeiras, na garantia das liberdades populares e na constituição de um 
governo popular (FAUSTO, 1995, p. 359).
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A história da Internacional Comunista remonta a 1864,quando foi criada a 
Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), integrada por organiza-
ções operárias de diversos países europeus. O mentor e principal líder da 
AIT era Karl Marx. A repressão e as crescentes divergências internas enfra-
queceram a organização, que acabou sendo extinta em 1876. Treze anos 
depois, em 1889, foi criada em Paris a II Internacional dos Trabalhadores. 
Sua direção seguia a doutrina marxista, mas encontravam-se presentes em 
seu interior diferentes correntes do movimento operário. Até a eclosão da 
Primeira Guerra Mundial em 1914, a luta contra a guerra foi uma das prin-
cipais bandeiras da Internacional. Com o desenrolar do conflito, entretanto, 
as divergências vieram à tona e terminaram por enfraquecer a unidade da 
associação. Em 1919, logo após a vitória dos comunistas na Revolução Rus-
sa, foi criada a III Internacional, ou Internacional Comunista, ou ainda Ko-
mintern. Seu principal objetivo era criar uma União Mundial de Repúblicas 
Socialistas Soviéticas. 
Fonte: Internacional Comunista (online).
A ANL fundamentava sua ideologia na organização dos trabalhadores urba-
nos, mas na década de 1930 o Brasil ainda era um país agrário e os operá-
rios brasileiros ainda não possuíam uma consciência de classe desenvolvida 
como os operários europeus comunistas.
Fonte: a autora.
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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As divergências ideológicas entre a AIB e a ANL contribuíram para o aumento da 
tensão política do Brasil na década de 1930. A organização da ANL em torno 
dos operários gerou desconfiança e medo na sociedade, que temia uma 
revolu-ção e um novo golpe que colocasse o país nas mãos dos comunistas.
Diante do avanço das ideias comunistas no Brasil, em 1935 foi aprovada a 
Lei de Segurança Nacional e a ANL foi considerada ilegal. Mesmo com a 
pressão do Congresso, a ANL continuou desenvolvendo suas atividades na 
clandestini-dade até que, após uma tentativa de instaurar um golpe em 
novembro de 1935 e derrubar o governo Vargas, a organização foi vencida 
pelas forças do governo federal e acabou, por fim, desarticulada.
Rebeldes do 3º RI a caminho do presídio da Ilha Grande, 1935. (Rio de Janeiro). (CPDOC/ CDA Vargas)
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
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A Ação Integralista Brasileira teve uma vida mais longa, sendo extinta apenas em 
1938 após uma tentativa frustrada de golpe de Estado, no qual os membros da 
AIB atacaram o palácio presidencial no Rio de Janeiro, acreditando que teriam 
o apoio da população civil e do Exército. No entanto, o Exército manteve-se fiel
a Getúlio Vargas e a organização integralista foi formalmente eliminada por
Vargas (BERTONHA, 2004, p. 63).
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Carta de presos comunistas a Getúlio Vargas em apoio ao esmagamento da intentona integralista 
ocorrida na capital federal no dia 11 de maio, 1938. Rio de Janeiro (RJ). (CPDOC/ GV 1938.05.13)
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
A partir da atuação da AIB e da ANL no cenário político do Brasil, Getúlio 
Vargas aproveitou-se do fato de o Congresso ter se afastado das decisões 
polí-ticas e tentou retomar o modelo de governo centralizador dos seus 
primeiros anos à frente do país.
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A ELABORAÇÃO DO GOLPE DE 1937
A Constituição de 1934 previa que as eleições presidenciais marcadas para 1938 
ocorreriam por meio do voto secreto e direto. Dessa foram, já em fins de 1936 
os interessados em concorrer ao pleito começaram a se organizar para desen-
volver suas respectivas campanhas. 
Os candidatos que concorreriam às eleições de 1938 eram Armando de Salles 
Oliveira, que concorreria pelo Partido Constitucionalista, Plínio Salgado, can-
didato pela Ação Integralista – convertida em partido político em 1936 – e José 
Américo de Almeida, que era o candidato oficial de Getúlio Vargas (RECCO, 
2010, p. 69).
O cenário imposto pelo avanço das ideias comunistas no Brasil, por meio da 
ação das forças integralistas, permitiu que Getúlio Vargas manipulasse o medo 
da sociedade da instalação de um governo comunista a fim de adotar medidas 
repressivas que o ajudariam a reforçar o seu poder como chefe do Estado brasi-
leiro. Após um levante coordenado pelo PCB que atacou Natal, Recife e o Rio de 
Janeiro em 1935, Getúlio Vargas, com a desculpa de combater a ameaça comu-
nista no Brasil e com o apoio do Congresso, decretou estado de emergência e 
suspendeu os direitos civis estabelecidos pela Constituição de 1934.
Conforme destaca Lira Neto, após os levantes comunistas de 1935, 
(...) Getúlio continuou abraçando a tese oficialesca de que os legalistas 
foram eliminados de forma torpe, enquanto dormiam. “A reação do es-
pírito público contra os rebeldes e as crueldades praticadas está a exigir 
um castigo exemplar”, registrou em seu diário. “A Constituição, porém, 
não permite várias medidas aconselhadas. Só suspendendo parcial-
mente os efeitos da própria Constituição”. Aquelas anotações, tomadas 
no calor da hora, eram apenas o prenúncio do ciclone político e institu-
cional que muito em breve assolaria o país (NETO, 2013, p. 204).
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Reprodução proibida. A
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Esse contexto de agitação tomou conta do Brasil e, entre 1936 e 1937, determinou 
os rumos da conjuntura política brasileira. Com o decreto de estado de emer-
gência, Getúlio Vargas iniciou uma caça a seus inimigos, lotando as delegacias 
e cadeias do país com indivíduos acusados de compactuar com o comunismo 
e contra o governo. Com a intenção de anular as eleições previstas para janeiro 
de 1938 e continuar no cargo de presidente, Getúlio Vargas elaborou um plano 
que lhe garantiu a permanência no poder.
O chamado Plano Cohen serviu de pretexto para que Getúlio Vargas colo-
casse em prática o golpe de Estado que permitiria que ele continuasse como 
presidente do Brasil. De acordo com a historiografia, em 1937 foi apresentado 
ao presidente um plano elaborado pela Ação Integralista Brasileira, o qual esta-
belecia a 
(...) mobilização dos trabalhadores para a realização de uma greve ge-
ral, o incêndio de prédios públicos, a promoção de manifestações po-
pulares que terminariam em saques e depredações e até a eliminação 
física das autoridades civis e militares que se opusessem à insurreição 
(RECCO, 2010, p. 70).
Hoje é sabido que esse plano foi uma farsa criada por Getúlio Vargas para legiti-
mar suas ações centralizadoras e ditatoriais, mas em 1937, quando o presidente 
do Brasil divulgou por meio de uma transmissão de rádio a existência de um 
plano comunista à população, a veracidade do documento não foi questionada.
Com a divulgação do Plano Cohen, Getúlio convenceu o Congresso a decre-
tar o estado de guerra, o que garantia ao presidente em exercício a suspensão da 
Constituição por noventa dias. Com plenos poderes em mãos, Vargas suspen-
deu as eleições de 1938 e dissolveu a Câmara dos Deputados e o Senado. Em 10 
de novembro de 1937, decretou que o Brasil entrava em uma nova fase política. 
Tinha início o Estado Novo (FAUSTO, 1995, p. 364).
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Trecho do diário manuscrito de Getúlio Vargas,07/11/1937. (CPDOC/ GV remsup 30-10-03 vol.16)
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
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IVU N I D A D E186
A DITADURA DE VARGAS: O ESTADO NOVO 
(1937-1945)
Constituição de 1937
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
Ao decretar o Estado Novo, Getúlio apresentou à população brasileira uma nova 
Constituição que tinha caráter autoritário e ditatorial, inspirada nas Constituições 
dos regimes ditatoriais em voga na Europa e que concedia ao presidente pode-
res ilimitados no comando do país. As instituições do Poder Legislativo foram 
dissolvidas e o estado de emergência foi declarado em todo o país por tempo 
indeterminado, o que significava a suspensão dos direitos civis e a possibilidade 
do presidente governar por meio de decretos-leis até que fossem realizados um 
Plebiscito para legitimar a nova Constituição e as novas eleições para a Assembleia 
Legislativa. O plebiscito e as eleições nunca aconteceram (FAUSTO, 1995, p. 365).
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Nesse período inicial do Estado Novo, Vargas conseguiu controlar a oposi-ção 
de seus inimigos por meio da intensificação da censura – levada a cabo pelo 
DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) –, da perseguição e da 
prisão de seus inimigos. Desde o levante organizado pela ANL em 1935, 
Getúlio ado-tou uma postura de perseguição aos seus inimigos que, de 
acordo com Neto (2003), eram presos e torturados nos porões das delegacias. 
O autor relata que, a partir de 1935, 
Estava dada a senha para uma campanha sistemática de prisões arbitrá-
rias e de perseguição a jornalistas, professores e intelectuais. Entre os 
prisioneiros do regime, logo se incluiria o nome do escritor Graciliano 
Ramos, que legou à posteridade um eloquente testemunho do obscu-
rantismo político em que então vivia o país, nos dois volumes de seu 
já clássico Memórias do cárcere. “Começamos oprimidos pela sintaxe 
e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social”, de-
plorou Graciliano. 
A médica Nise da Silveira, uma das pioneiras no tratamento humani-
tário de esquizofrênicos e de outros pacientes com distúrbios psiqui-
átricos no país, também foi mandada para a cadeia, denunciada por 
participar da União Feminina do Brasil e por possuir livros marxistas 
em sua biblioteca particular. O escritor Jorge Amado, que havia lan-
çado seu quarto romance, Jubiabá, foi outro a ser preso. O professor e 
pedagogo Anísio Teixeira, um dos maiores nomes da história da edu-
cação no país, terminou afastado do cargo de secretário de Educação e 
Cultura do Distrito Federal por suspeita de ligação com os comunistas. 
O cronista Rubem Braga, para continuar a sobreviver como jornalista, 
recorreu a pseudônimos, disfarces e esconderijos na casa de amigos e 
parentes (RECCO, 2013, p. 209).
O Estado Novo foi instaurado no Brasil ao mesmo tempo em que uma onda 
de transformações varria a Europa, instalando governos autoritários e refor-
çando a versão de que a democracia liberal estava definitivamente liquida-
da. Mussolini chegou ao poder na Itália em 1922 e aí implantou o fascismo; 
Salazar se tornou primeiro-ministro (presidente do Conselho de Ministros) 
de Portugal em 1932 e inaugurou uma longa ditadura; Hitler foi feito chan-
celer na Alemanha em 1933 e tornou-se o chefe supremo do nazismo. A 
guerra civil espanhola, que se estendeu de 1936 a 1939, banhou de sangue 
a Espanha antes que Franco começasse a governar o país com mão de ferro.
Fonte: Estado Novo e Facismo (online).
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A ideologia defendida por Getúlio Vargas e seus aliados durante o Estado 
Novo tinha por base a superação das práticas liberais, uma vez que as turbu-
lências econômicas vividas pelo país desde o fim da década de 1920 e início da 
década de 1930 foram causadas por esse sistema político e econômico, o qual 
cabia agora ao presidente combater. A partir de 1937, Getúlio poderia concluir 
o projeto político que tinha em mente para o Brasil e que começou a implantar
após o golpe de 1930, mas que foi interrompido pela promulgação da Constituição 
de 1934, que tinha um caráter liberal.
Os países europeus que viviam sob a égide dos regimes totalitários viram 
com bons olhos a instituição do Estado Novo no Brasil, de acordo com Neto, 
Na Alemanha, a imprensa nazista saudou Getúlio e dedicou generosos 
espaços ao assunto, traçando perfis simpáticos do presidente brasileiro, 
ilustrados com fotografias fornecidas pelo serviço diplomático. (...). O 
ministro italiano do Exterior, Galeazzo Ciano, genro de Mussolini, fi-
cou tão entusiasmado com as notícias recebidas da embaixada de seu 
país no Rio de Janeiro que imaginou a adesão imediata do governo bra-
sileiro ao Pacto Anti-Komintern, selado originalmente no final de 1936 
entre Japão e Alemanha — e, naquele final de 1937, também referen-
dado pela Itália, dando origem ao grupo de nações que ficaria conheci-
do como as Potências do Eixo. (...). De Washington, Oswaldo Aranha 
escreveu telegrama confidencial a Getúlio para lastimar os rumos que 
o governo havia tomado e, por consequência, para informar sua re-
núncia ao cargo de embaixador nos Estados Unidos. Uma entrevista
concedida por Francisco Campos a jornalistas estrangeiros, publicada
pelo New York Times, constrangera Oswaldo. Entre outros pontos, o
ministro da Justiça sugerira aos correspondentes internacionais que a
“ignorância do povo brasileiro” era o principal impeditivo à prática da
democracia no país teria sido plasmada em moldes intervencionistas e,
portanto, autoritários (NETO, 2013, p. 258).
O Estado Novo caracterizou-se pelo corporativismo e o intervencionismo estatal 
– justificado pelo entendimento de que apenas o Estado seria capaz de manter
a união do país e estabelecer a ordem e o desenvolvimento da sociedade –, pelo
alto investimento na industrialização do país, simbolizando a aproximação entre 
o governo central e a burguesia industrial, além da aliança com o Exército como
forma de garantir a estabilidade social e o controle da oposição (FAUSTO, 1995).
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O nacionalismo também seria marcante no regime do Estado Novo. Entre 
1937 e 1940 Getúlio Vargas criou uma série de decretos que regulamentavam 
a vida dos brasileiros sob o novo regime e estabelecia as novas diretrizes sob as 
quais deveriam assentar-se o trabalho e a participação social dos estrangeiros no 
Brasil. Não obstante, foi também por meio da promulgação de um decreto-lei em 
1937 que Getúlio determinou a extinção dos partidos políticos, demonstrando 
que não admitiria oposição ou mesmo a intenção de promover um retorno à 
democracia.
Embora o caráter ditatorial da fase do governo Vargas denominada de Estado 
Novo tenha representado um golpe na democracia brasileira – que, ao nosso 
entender não havia até aquele momento existido em sua plenitude – é inegável 
o avanço promovido no aspecto econômico. O fortalecimento do setor indus-
trial e a passagem de uma economia essencialmente agrária para uma economia
pautada no desenvolvimento industrial possibilitaram o crescimento e a valori-
zação de outros setores, como foi o caso, por exemplo, da educação, visto que,
durante o Estado Novo, foram criadas instituições com o fim de qualificar a
mão de obra para o setor industrial, como o Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial (SENAI).
Para garantir o desenvolvimento da indústria brasileira, Vargas levantou a 
bandeira do nacionalismo, pressionandoas indústrias estrangeiras que haviam 
no país a se tornarem nacionais e investiu no desenvolvimento da indústria de 
base, que conquistou um avanço considerável com a criação da Usina de Volta 
Redonda em 1940 e os primeiros encaminhamentos para a fundação da Petrobrás, 
que foi criada apenas no segundo governo de Vargas (1950-1954).
 Os avanços alcançados pelo setor industrial no Estado Novo – sobretudo 
no que diz respeito à indústria siderúrgica, considerada essencial para o desen-
volvimento do país – contribuiu para o aumento da massa trabalhadora, que 
no regime do Estado Novo mereceu uma atenção especial de Getúlio Vargas. 
Nesse período, Vargas adotou uma política trabalhista voltada para o bem-estar 
do trabalhador, que aproximou o presidente da classe trabalhadora e permi-
tiu o controle e a manipulação desse setor da sociedade brasileira, em favor do 
regime autoritário.
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Ângela de Castro Gomes defende a ideia de que a crise econômica enfrentada 
pelo Brasil desde o início da década de 1930 mostrou a necessidade de proteger 
e promover o bem-estar do trabalhador, uma vez que dependia desse bem-es-
tar para a reestruturação econômica e social do país. De acordo com a autora, 
Os anos 30 inauguraram-se sob esse legado, e as medidas que então se 
implementam são bem uma demonstração da intensidade e atualidade 
do problema que se enfrentava. É a partir desse momento, demarcado 
pela Revolução de 30, que podemos identificar de forma incisiva toda 
uma política de ordenação do mercado de trabalho, materializada na 
legislação trabalhista, previdenciária, sindical e também na instituição 
da Justiça do Trabalho. É a partir daí que podemos igualmente detectar 
— em especial durante o Estado Novo (1937-45) — toda uma estra-
tégia político-ideológica de combate à “pobreza”, que estaria centrada 
justamente na promoção do valor do trabalho. O meio por excelên-
cia de superação dos graves problemas sócioeconômicos do país, cujas 
causas mais profundas radicavam-se no abandono da população, seria 
justamente o de assegurar a essa população uma forma digna de vida. 
Promover o homem brasileiro, defender o desenvolvimento econômico 
e a paz social do país eram objetivos que se unificavam em uma mesma 
e grande meta: transformar o homem em cidadão/trabalhador, respon-
sável por sua riqueza individual e também pela riqueza do conjunto da 
nação (GOMES, 1999, p. 55).
A análise proposta pela autora citada permite uma ampliação da compreensão 
da legislação trabalhista criada por Vargas, na qual as teorias tradicionais enfa-
tizam o seu caráter manipulador, demonstrado por meio da adoção de medidas 
que visavam à valorização do trabalho e do trabalhador e ao controle das ati-
vidades sindicais, com o objetivo – não declarado – de evitar conspirações e 
agitações sociais que pudessem perturbar seu governo. Dentre essas medidas, 
estavam a regulamentação do salário mínimo, da jornada de trabalho e das férias 
remuneradas, medidas organizadas a partir da criação da Consolidação das Leis 
do Trabalho (CLT) em 1943. A legislação trabalhista e a política trabalhista de 
Vargas, de maneira geral, inauguraram a fase do populismo no Brasil.
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Consolidação das leis do trabalho
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
A instauração do Estado Novo permitiu a Vargas levar adiante e sistematizar, 
à sua maneira, a política social iniciada no começo da década de 1930. Re-
tiraram-se de cena as forças político-sociais que nos anos que antecederam 
o golpe de 1937 lutavam no Congresso e nos sindicatos contra a tutela do
Ministério do Trabalho e seu projeto de unidade sindical. Novas leis foram
editadas, com o objetivo de consolidar no país uma estrutura sindical base-
ada no corporativismo. Fortaleceu-se enfim o Ministério do Trabalho, que,
com o decorrer do tempo, se transformou em um órgão político estratégico 
para a construção da imagem de Vargas como o “pai dos pobres”, amigo e
protetor dos trabalhadores.
Fonte: Diretrizes do Estado Novo (1937 - 1945) > Direitos sociais e trabalhis-
tas (online). 
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Manifestação de apoio às medidas trabalhistas de Getúlio Vargas
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
A PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL 
(1939-1945)
Desde o início de seu governo em 1930, Getúlio Vargas procurou estabe-
lecer relações comerciais tanto com os Estados Unidos – sobretudo após a 
sua recuperação econômica depois da crise de 1929 – quanto com países 
europeus, como a Alemanha, a qual entendeu o golpe de 1937 e a instalação 
do Estado Novo como algo positivo no cenário brasileiro e procurou 
estreitar os laços comerciais com o país. Para o Brasil, a consolidação dos 
acordos comerciais era determinada pelos tipos de vantagens que o país 
poderia obter com a negocia-ção. Dessa forma, ora o Brasil aproximava-se dos 
Estados Unidos, ora estreitava os laços com a Alemanha.
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Essa característica da política externa brasileira manteve-se até a eclosão da 
Segunda Guerra Mundial em 1939. A partir da emergência do conflito, Getúlio 
buscou o fortalecimento das relações comerciais com os Estados Unidos, uma 
vez que o poderio econômico norte-americano mostrou-se mais vantajoso aos 
interesses de Vargas e às necessidades do país. Conforme relata Lira Neto,
Com o objetivo de ganhar de vez o Catete para a causa aliada, os Es-
tados Unidos ultimaram um generoso pacote de concessões econômi-
cas e militares ao Brasil, discutidas pelos dois países em uma comissão 
mista de trabalho. Além do empréstimo destinado ao projeto side-
rúrgico, Roosevelt prometeu ampliar a compra de algodão nacional, 
estabelecer cotas favoráveis para o café brasileiro no mercado norte-
-americano e importar ao país toneladas de minérios considerados 
estratégicos em tempos de guerra, como manganês, níquel, bauxita e 
cromo. Por intermédio do chamado Lend-Lease Act — programa de 
ajuda de fornecimento de armas e suprimentos bélicos para as nações 
aliadas —, Washington se comprometia ainda a remeter nada menos de 
100 milhões de dólares em equipamentos bélicos para o Brasil (NETO, 
2013, p. 318).
Diante do alto investimento no Brasil e do cenário desenvolvido após a entrada 
das forças norte-americanas no conflito em 1941, Vargas aderiu ao discurso 
defendido pelos Estados Unidos de promover a defesa das Américas a partir da 
liderança estadunidense e se empenhou em desenvolver estratégias de apoio aos 
Aliados (FAUSTO, 1995).
A declaração de guerra do Brasil às forças do Eixo aconteceu em 1942 após 
cinco navios brasileiros serem afundados por submarinos alemães. A partir de 
então, o Brasil passou a colaborar mais ativamente com os Aliados e em 1944 
os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram enviados para lutar 
contra o Eixo, liderados pelo general Mascarenhas de Moraes (JAMBEIRO, 
2004, p. 101).
A ASCENSÃO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS NO BRASIL 
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Unidades do 2° Escalão da FEB desembarcam na Itália. Nápoles, 1944. (CPDOC/ HB foto 062/18)
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Estados 
Unidos e dos Aliados contribuiu para o crescimento da oposição à ditadura 
de Getúlio na medida em que colocou em xeque a contradição entreseu 
sistema de governo baseado nas influências fascistas e o apoio às nações cujos 
modelos de governo assentavam-se na democracia.
Segundo Thomas Skidmore, 
O ingresso do Brasil na guerra tinha uma importante implicação para 
a política interna. A decisão de unir-se às democracias era um golpe 
contra os autoritaristas que alegavam que a democracia não tinha lugar 
no Brasil, e supunham que Getúlio concordava com eles. Este e seus 
generais, ao questionarem essa suposição, estavam montando o cená-
rio para um debate que iria terminar com o fim da ditadura getulista 
(SKIDMORE, 2003, p, 171).
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O FIM DO ESTADO NOVO
Ao decretar o início do Estado Novo em 1937, Getúlio havia prometido realizar 
novas eleições presidenciais em 1943. Porém, sob o pretexto dos desdobramen-
tos dos acontecimentos internacionais, Vargas alegou que não seria possível a 
realização das eleições antes do fim da guerra, devido à instabilidade e às incer-
tezas que o processo eleitoral traria para o país, afetando, consequentemente, 
as relações internacionais do país naquele momento (SKIDMORE, 2003, 174). 
Com essa medida, os opositores ao Estado Novo entenderam que Getúlio 
não estava disposto a deixar o cargo de presidente. Conforme aponta Neto, 
Para um herdeiro da tradição castilhista-borgista do Rio Grande do 
Sul, não havia dúvida de que o voto continuava sendo um ritual ques-
tionável, se aplicado ao contexto brasileiro. A justificativa de que éra-
mos um país socialmente imaturo, e que o povo precisava ser educado 
o suficiente para só depois conseguir a efetiva emancipação, continuava 
a servir de discurso legitimador ao regime (NETO, 2013, p. 323).
As críticas crescentes ao Estado Novo partiam de diversos setores, conforme des-
taca Othon Jambeiro (2004). Em 1943 um grupo de intelectuais e de profissionais 
liberais de Minas Gerais lançaram o Manifesto Mineiro, no qual enfatizavam a 
luta do governo brasileiro contra os regimes autoritários na Europa ao mesmo 
tempo em que procurava perpetuar a ditadura no Brasil. Com isso, defendiam 
o fim do Estado Novo e a redemocratização do país (RECCO, 2010, p. 74).
Além da elite mineira, São Paulo também representava um foco de oposição 
ao governo de Getúlio Vargas, mesmo sendo esse Estado um dos maiores bene-
ficiados com os investimentos no setor industrial promovidos durante o Estado 
Novo. De acordo com Lira Neto, 
O Estado Novo parece ter nascido, vivido e morrido sob a égide das trans-
formações mundiais. Se o florescimento de regimes autoritários na Europa 
encorajou o presidente Vargas a instaurar no país um regime político auto-
ritário, esse mesmo regime conheceu o apogeu e a queda sob a influência 
da Segunda Guerra.
Fonte: Fatos & Imagens > Estado Novo (online)
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A unidade federativa que mais viria a se beneficiar com a política de in-
dustrialização inaugurada pelo Estado Novo mantinha uma atitude de 
desconfiança permanente em relação ao governo. Desafiando a rigidez 
da censura, o jornal O Estado de S. Paulo se tornara um dos únicos por-
ta-vozes da oposição. Fato que levou o diretor Júlio de Mesquita Filho 
a ser preso catorze vezes em dois anos, antes de seguir para o exílio na 
França (NETO, 2013, p. 320).
Bóris Fausto (1995, p. 383) enfatiza que afora os movimentos pela redemocrati-
zação do país que partiram de setores da sociedade brasileira, a desarticulação 
no interior do próprio governo foi fundamental para a crise do governo getu-
lista e para o seu consequente fim. Oswaldo Aranha, ministro das Relações 
Interiores no Estado Novo foi a figura mais empenhada em reestabelecer as 
liberdades democráticas no país. Góis Monteiro, um dos principais aliados de 
Getúlio Vargas desde o golpe de 1930, também abandonou o governo quando 
percebeu que Getúlio não conseguiria manter o regime por muito mais tempo.
Diante dessa oposição, a qual o DIP não mais conseguia reprimir, em 1945 
Vargas adotou medidas que significaram os primeiros passos rumo à redemo-
cratização, como a promulgação do Ato Adicional à Constituição de 1937, que 
previa a convocação de novas eleições num prazo de noventa dias, liberdade de 
associação, consistia em anistia aos presos políticos (JAMBEIRO, 2004, p. 103).
A situação política se tornou cada vez mais tensa e os jornais oposicionis-
tas mais ferrenhos, como o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, a Folha da 
Manhã, de São Paulo, e os Diários Associados, de Chateaubriand, se constitu-
íram em porta-vozes dos anseios populares contra o Estado Novo. O golpe 
decisivo foi desferido pelo Correio da Manhã, no dia 22 de fevereiro de 1945: 
ao publicar entrevista de José Américo de Almeida ao jornalista Carlos La-
cerda, reivindicando democracia plena, desencadeou o processo de derro-
cada do Estado Novo.
Fonte: Jambeiro (2004, p. 103).
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Com a liberdade de associação restabelecida, os diversos setores da socie-
dade organizaram-se visando as eleições presidenciais. A União Democrática 
Nacional (UDN) reunia os liberais contrários a Vargas representantes da classe 
média e alta e também membros do Exército. A UDN lançou a candidatura de 
Eduardo Gomes à presidente. O Partido Social Democrático (PSD) também se 
formou nesse período e contava com antigos aliados de Getúlio Vargas, que apoia-
vam a candidatura do general Eurico Gaspar Dutra. Outro partido criado nesse 
momento com vistas às eleições de dezembro de 1945 foi o Partido Trabalhista 
Brasileiro (PTB) cujos membros pertenciam aos sindicatos financiados e con-
trolados por Vargas. Esses também defendiam a candidatura de Dutra.
O Partido Comunista Brasileiro que, mesmo na ilegalidade continuou sua 
atuação durante todo o período do governo Vargas, diante dos acontecimentos 
nacionais internacionais, divulgou seu apoio a Getúlio Vargas, em uma manobra 
surpreendente – e influenciada por Luiz Carlos Prestes em acordo com as dire-
trizes comunistas elaboradas em Moscou – diante da história da relação entre 
o presidente e o partido.
O PCB apoiou e instigou a parte da população que defendia a continuidade
de Getúlio Vargas no poder, embora com a convocação de uma Assembleia 
Nacional Constituinte. Esse movimento popular apoiado pelo PCB ficou conhe-
cido com Querenismo devido ao grito de ordem do movimento “queremos 
Getúlio!”. Segundo Neto,
Por volta de oito horas da noite, a vaga humana que se formou no largo 
da Carioca, no centro do Rio, resolveu seguir em direção à rua Senador 
Dantas, a caminho da Glória. O número de manifestantes era tão gi-
gantesco que, quando os primeiros começaram a tomar conta da praça 
Paris, quase dois quilômetros adiante, ainda havia centenas de pessoas 
assumindo lugar na cauda da passeata, no local original da concen-
tração. A caravana ganhou volume ainda mais impressionante ao en-
contrar outro contingente que descia a rua da Lapa, caminhando em 
idêntico sentido. Comprimidos em um bloco compacto, os dois grupos 
rumaram então pela rua do Catete, rumo à sede do governo. Nos es-
tandartes, bandeiras, faixas e cartazes, uma frase se destacava entre as 
demais: “Queremos Getúlio!”.
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Ao tomar conhecimento de que o presidente estava no Guanabara, a 
multidão rumou para as Laranjeiras, tomando caminho pela rua Pais-
sandu. Minutos depois, o mar de gente se concentrou na rua Pinheiro 
Machado, até que os portões do palácio fossem abertosde par em par. 
Os jardins ficaram tomados pela aglomeração em questão de segundos. 
Passava pouco das nove da noite quando Getúlio Vargas apareceu nas 
escadarias, acenando para o público. De todos os lados pipocaram vi-
vas e aplausos.
Que-re-mos Ge-tú-lio! Que-re-mos Ge-tú-lio! Que-re-mos Ge-tú-lio!”, 
ouvia-se, em ritmo cadenciado. (...).
As folhinhas com o retrato oficial do presidente, distribuídas pelo DIP, 
indicavam a data de 30 de agosto de 1945. Não era a primeira vez, nem 
seria a última, que multidões ganhariam as ruas do Rio de Janeiro em 
eventos semelhantes, para exigir a permanência de Getúlio Vargas no 
Catete. A palavra de ordem “Queremos Getúlio” deu origem ao apelido 
do movimento que logo se espalhou como uma catapora política pelo 
país: “queremismo” (NETO, 2013,p. 387).
Queremistas recebidos por Vargas no Palácio Guanabara, 1945. Rio de Janeiro (RJ). (CPDOC/ CDA 
Vargas)
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
Bustos de Getúlio Vargas sendo retirados das ruas, 1945. 
(CPDOC/ GV foto 148)
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
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O movimento queremista preocupou as oposições do Estado Novo, que 
temiam um novo golpe de Getúlio Vargas para manter-se no poder, preocupação 
que se acentuou quando da publicação de um decreto que estabelecia as eleições 
estaduais e municipais para o mesmo dia das eleições presidenciais. A altera-
ção na data das eleições estaduais e municipais representava para os opositores 
de Getúlio uma tentativa de manipular o pleito e garantir a sua permanência no 
poder. (JAMBEIRO, 2004, p. 104). Assim, crescia a desconfiança em torno das 
intenções de Getúlio Vargas.
O clima de desconfiança ganhou força quando Vargas nomeou seu irmão 
Benjamim Vargas para o cargo de chefe de Polícia do Distrito Federal, gerando 
boatos de que ele pretendia prender todos os que se opunham ao regime var-
guista. A nomeação de Benjamim Vargas foi o motivo que a oposição esperava 
para depor o presidente Getúlio Vargas. O general Góis Monteiro, antigo aliado 
de Getúlio Vargas, exigiu a revogação da nomeação de Benjamim Vargas, o que 
Getúlio se recusou a fazer.
Diante da recusa de 
Getúlio Vargas de revogar 
a nomeação de seu irmão a 
chefe de Polícia do Distrito 
Federal, Góis Monteiro, 
apoiado por Eurico Gaspar 
Dutra e por mais uma par-
cela do Exército, decidiram 
impor a renúncia ao presi-
dente da República.
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Às nove da noite, Cordeiro de Farias chegou ao Guanabara como 
representante dos generais, acompanhado de Agamenon Magalhães, 
que finalmente pudera sair do Ministério da Guerra. Não havia mais 
perigo de reação. O Exército já providenciara a mudança de guarda, 
e a segurança do palácio estava submetida a forças favoráveis ao 
golpe. Uma unidade motorizada, sob o comando do tenente-coronel 
Ulhôa Cintra, ocupara os jardins. Tanques de guerra apontavam as 
armas para o edifício. O único oficial leal ao governo e em condições 
de oferecer alguma espécie de resistência armada em todo o Rio de 
Janeiro, o general Renato Paquet, comandante da Vila Militar, recebera 
um telefonema do colega Firmo Freire, chefe do Gabinete Militar da 
Presidência da República, com um recado categórico.
“Paquet, o Dr. Getúlio manda dizer que não quer nenhuma escaramuça 
e que você largue a Vila de mão.” 
O general Odílio Denys, comandante da Polícia Militar e admirador do 
presidente, recebera as mesmas instruções.
Quando viu Cordeiro subir as escadarias, Bejo cutucou o sobrinho Lu-
tero:
Vamos assistir ao que este sujeito vai dizer ao Getúlio. Se faltar ao res-
peito, não sei o que farei.”
Cordeiro de Farias chegou vestido com uma capa de chuva, apesar de 
não haver nenhum indício de nuvem no céu. Mantinha a mão direita 
o tempo todo sob a capa, segurando o revólver, que não hesitaria em
usar se necessário. Encontrou Getúlio sentado atrás da escrivaninha.
De pé, em cada um dos cantos da mesa, posicionavam-se Bejo e Lutero. 
O general, sempre com uma das mãos oculta, entregou ao presidente
uma minuta da declaração de renúncia, rabiscada de próprio punho
por Góes Monteiro.
Getúlio passou os olhos no papel sem demonstrar maior interesse e o 
entregou a Luiz Vergara, para que o secretário tirasse uma cópia datilo-
grafada, em papel timbrado, e depois a trouxesse para ele assinar.
Preferia que os senhores me atacassem, porque eu me defenderia. Mas 
já que se trata de um golpe branco, não serei eu o elemento perturba-
dor. Pode dizer a eles que não sou mais presidente”, disse Getúlio, que 
pediu o prazo de 48 horas para deixar o Palácio.
Precisava encaixotar seus objetos pessoais e selecionar alguns papéis 
particulares antes de ir embora, justificou. Assinou então o termo de 
renúncia e nomeou Agamenon Magalhães como seu representante 
para se entender com os integrantes do novo governo.
Presidente Castello Branco
Fonte: 50 anos... (online).
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Tinha uma última mensagem para Cordeiro de Farias transmitir a 
Góes, Dutra e Eduardo Gomes.
Informe a seus amigos que desejo apenas ir para o Sul. Eles que fiquem 
mexendo esse mingau (NETO, 2013, p. 401-402).
Chegava ao fim o Estado Novo e a Era Vargas.
ENFIM DEMOCRACIA? AS ESPERANÇAS RENOVADAS 
E O NOVO GOLPE: INÍCIO DA DITADURA MILITAR NO 
BRASIL
O processo eleitoral ocorrido em 2 de dezembro de 1945 foi vencido por Eurico 
Gaspar Dutra, candidato do PSD. Dutra e os demais eleitos para o Congresso 
tomaram posse em janeiro de 1946 e a primeira missão dos novos representan-
tes do Brasil era elaborar uma nova Constituição para o país, para substituir a 
Constituição de caráter autoritário vigente no período do Estado Novo.
A nova Carta Constitucional 
ficou pronta em 18 de setembro 
de 1946 e sua principal caracte-
rística era a ênfase na defesa das 
liberdades civis e políticas e na 
democracia. Dentre outros pontos, 
a Constituição de 1946 estabele-
cia “uma rotina democrática para 
as instituições republicanas, com 
eleições diretas para os postos do 
governo no âmbito do Executivo 
e do Legislativo e nas três esfe-
ras da federação – União, estados 
e municípios” (SCHWARCZ; 
STARLING, 2015, p. 396). 
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A nova organização política do Brasil, após o fim da Era Vargas em 1945, 
inseriu-se no contexto de reorganização mundial pós Segunda Guerra Mundial. 
Ao fim do conflito em 1945, o cenário político internacional encontrava-se divi-
dido em dois blocos ideológicos distintos. De um lado, liderados pelos Estados 
Unidos, encontravam-se os países estruturados sobre a égide do liberalismo e 
do capitalismo. Do outro, sob a liderança da União das Repúblicas Socialistas 
Soviéticas estavam os países cujo comunismo e socialismo determinavam as 
diretrizes de organização da sociedade.
O Brasil estava ao lado dos Estados Unidos e, no governo do presidente Dutra, 
os comunistas não puderam desenvolver suas atividades com liberdade. Após 
uma declaração de Luiz Carlos Prestes de que o Partido Comunista Brasileiro 
ficaria ao lado da URSS em um possível confronto entre as duas nações, Dutra 
intensificou a perseguição aos comunistas e novamente o Partido Comunista foi 
posto na ilegalidade (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 398). 
A política econômica do governo Dutra seguia as diretrizes liberais e parecia 
submeter-se aos desígnios norte-americanos, com o favorecimento das impor-tações. De acordo com Bóris Fausto (1995, p. 403), o liberalismo econômico 
adotado por Dutra possibilitou o desenvolvimento da produção para o mercado 
interno e a industrialização do país. De acordo com o autor, entre 1947 e 1950, 
o PIB brasileiro cresceu 8%.
Em 1948 Eurico Gaspar Dutra lançou o Plano Salte, cuja sigla era formada 
pelas iniciais dos setores que seriam beneficiados pelas novas medidas eco-
nômicas do seu governo: Saúde, Alimentação, Transporte e Energia, e que 
representou uma tentativa do governo em resolver os problemas oriundos 
do aumento das importações.
Fonte: adaptado de Schwarcz e Starling (2015).
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O desenvolvimento da indústria e o crescimento do PIB apontados por Bóris 
Fausto não vieram acompanhados do aumento dos salários, o que gerou a insa-
tisfação dos operários e provocou o aumento das greves e das manifestações 
contrárias à política econômica de Dutra. As correntes ideológicas representa-
das pelos liberais – que defendiam o encaminhamento político e econômico de 
Dutra, baseado na abertura ao capital estrangeiro – e pelos defensores de um 
governo nacionalista – entre estes os membros do PCB – levaram as discussões 
ao extremo e contribuíram para que a perseguição aos comunistas se intensifi-
casse (JAMBEIRO, 2004).
O SEGUNDO GOVERNO VARGAS
As eleições para escolher o sucessor de Dutra na presidência do Brasil deve-
riam ocorrer em 1949, mas as articulações políticas começaram a desenhar-se 
já em 1947. Getúlio Vargas, após deixar a presidência em 1945 foi eleito Senador 
e procurou desfrutar de mandado discreto, participando pouco das discussões 
políticas do período que se seguiu ao fim do Estado Novo.
A postura pouco evidente de Getúlio Vargas após 1945 não fora resultado 
de uma falta de compromisso político ou decepção com os acontecimentos que 
marcaram o fim do Estado Novo. Na verdade, Getúlio preparava-se para dispu-
tar novamente as eleições e reassumir o comando do país, dessa vez pelas vias 
democráticas. Dessa forma, no período entre 1945 e 1950, Getúlio e seus aliados 
buscaram definir as estratégias que conduziriam sua campanha e desenvolver as 
estratégias para um novo governo.
Embora a Constituição de 1946 defendesse a liberdade e a democracia, a 
caça do presidente Dutra aos comunistas exibia a contradição entre a teoria 
presente no texto constitucional e a prática social.
Fonte: a autora.
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A política trabalhista adotada por Getúlio nos anos de seu primeiro governo 
garantiu o apoio dos trabalhadores. Além deste setor, era necessário conquistar 
a confiança de antigos desafetos e daqueles que não se beneficiaram do seu pri-
meiro programa de governo. Além disso, era imprescindível mudar a imagem de 
ditador construída ao longo dos anos do Estado Novo e que não cabia na nova 
realidade do país ou mesmo do contexto internacional do pós Segunda Guerra.
Para alcançar seu objetivo, Vargas fundamentou seu programa de governo 
no desenvolvimento e no bem-estar social. Além disso, firmou acordos e alianças 
com nomes importantes no cenário político como Góis Monteiro, o governa-
dor de São Paulo, Ademar de Barros, Café Filho – que combateu o Estado Novo 
e fora membro da ANL – e as lideranças do PSD e do PTB. Conforme aponta 
Lilia Schwarcz e Heloisa Starling,
A estratégia de alianças de Vargas tinha um viés imediatista, era arris-
cada, e cobraria dele um preço alto na hora de governar o país, mas a 
curto prazo funcionava: sua candidatura não se apresentou identificada 
cm um único partido e sim como uma fórmula suprapartidária que 
combinava novas e velhas lideranças políticas e regionais, e misturava 
os empresários interessados nos benefícios da industrialização com a 
força eleitora dos operários, dos trabalhadores e dos setores de baixa 
classe média, em expansão nas grandes cidades (SCHWARCZ; STAR-
LING, 2015, p. 400-401).
Com essa rede de apoio construída ao longo dos cinco anos que se manteve afas-
tado do governo central, Getúlio Vargas venceu as eleições disputadas em 03 de 
outubro de 1950 com 48,7% dos votos. Dessa forma, Getúlio Vargas voltou a 
ocupar a cadeira de presidente da República no Brasil.
O modelo político adotado por Vargas nesse segundo mandato rompia com 
o liberalismo e apostava no nacionalismo e no intervencionismo para promover 
a industrialização do país e o seu consequente progresso. Com esse programa de 
governo em mente, Getúlio montou uma equipe de governo com representantes 
dos diversos partidos políticos, a fim de garantir apoio e minar a oposição à sua
eleição. Os que apoiavam o modelo nacionalista e intervencionista de Getúlio
eram chamados de nacionalistas e os que eram contrários a esse modelo foram
chamados de entreguistas (FAUSTO, 1995, p. 407). Essas eram as principais
correntes ideológicas que Vargas precisou conciliar no seu segundo mandato.
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Os nacionalistas entendiam que cabia ao Estado regular os investimentos e o 
desenvolvimento da economia do país, concentrando-se na ampliação dos seto-
res petrolíferos – haja vista a dependência do Brasil dos produtores estrangeiros 
–, de siderurgia, de transporte e de alimentação, visando à autonomia do país 
e à limitação da entrada de capitais estrangeiros. Já os entreguistas defendiam 
a participação do capital estrangeiro como forma de promover o desenvolvi-
mento econômico, o qual não dependia do avanço industrial, mas sim dessa 
aliança entre economia brasileira e capital estrangeiro (FAUSTO, 1995, p. 407).
Fundamentado no nacionalismo, Vargas investiu na industrialização e criou 
a Petrobrás – projeto que tinha desde 1930 e que finalmente pôde concluir em 
1954 –, a Eletrobrás – que entrou em funcionamento apenas em 1962 –, o Banco 
Nacional do Desenvolvimento (BNDE) e ampliou a capacidade de produção da 
Usina Siderúrgica de Volta Redonda (JAMBEIRO, 2004, p. 151). 
Segundo Schwarcz e Starling (2015, p. 404), o modelo nacionalista de Getúlio 
Vargas entrou em crise já em 1952 motivado tanto pelas questões internas quanto 
externas do período. Internamente, as forças políticas que se aliaram a Vargas 
nas eleições de 1950 começaram a distanciar-se da figura do presidente e a ado-
tar uma postura oposicionista. Externamente, a retirada do apoio financeiro 
norte-americano aos projetos brasileiros e a cobrança vinda do Banco Mundial 
pelos empréstimos feitos ao Brasil e já vencidos levou a um descontrole na eco-
nomia brasileira que gerou o aumento da inflação, o aumento do custo de vida 
e a redução dos salários.
A partir desse momento, o governo de Vargas passou a enfrentar uma série 
de movimentos operários que tinham por objetivo mostrar ao presidente que 
o apoio dos trabalhadores estava condicionado à manutenção das condições de
vida e das prerrogativas trabalhistas. Para enfrentar a série de manifestações, de
paralisações e de greves que ocorreram em todo o país naquele momento, Getúlio 
nomeou João Goulart como Ministro do Trabalho. A escolha de Jango para o
Ministério do Trabalho intensificou a oposição a Getúlio, visto que a nomeação
foi entendida como uma forma de manipular o movimento operário para justifi-
car a instalação de uma república sindicalista, o que desarticularia o movimento 
sindical e o colocaria novamente sob a tutela do Estado.
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Vargas passou a ser atacado mais efetivamente pela UDN e pela imprensa, 
cujo jornalista e deputado federal Carlos Lacerda era a maior expressão. Lacerda 
no início dos anos de 1930 era comunista e apoiou a candidatura de Luiz Carlos 
Prestes nas eleições para presidente da ANL em 1935. No entanto, ao longo dos 
anos passou a combater sua antiga ideologia transformando-se em um grande 
opositor do avanço comunista no Brasil (FAUSTO, 1995, p. 414). Lacerda nos 
anos de 1950 iniciou uma campanha contra o governo de Vargas e por meio de 
seus jornais, o Tribuna da Imprensa, exigia a renúncia do presidente, acusan-
do-o de corrupção e de defender o comunismo.
À campanha oposicionista da UDN, juntaram-se os oficiais do Exército, 
insatisfeitos com a desvalorização representada pela falta de investimentos na 
instituição. Ficava cada vez mais evidente para o presidente que as alianças cons-
tituídas para garantir a vitória nas eleições de 1950 não se consolidaram e manter 
a estabilidade de seu governo tornava-se uma tarefa cada dia mais difícil.
A crise política do governo de Vargas agravou-se com o atentado ao jorna-
lista Carlos Lacerda em agosto de 1954, no qual morreu o major da Aeronáutica 
Rubens Vaz, que estava com Lacerda no momento do atentado. As acusações 
sobre o atentado e o assassinato do major recaíram sobre Getúlio, quando o chefe 
de sua guarda pessoal foi preso pelo crime (SKIDMORE, 2003).
Esse evento representou o auge da crise do segundo governo de Vargas e 
abriu as bases para o afastamento do presidente. A oposição exigia a renún-
cia de Getúlio sob a ameaça de um golpe militar. A resposta de Getúlio veio de 
maneira dramática. Na manhã do dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas sui-
cidou-se com um tiro no peito. Deixou uma carta na qual culpava seus inimigos 
pela situação do país e pela sua morte. 
Manchete noticiando a morte de Getúlio Vargas
Fonte: Portal Brasil (online).
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Trecho da 1ª página da carta-testamento
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
O suicídio de Getúlio fez com que a popu-
lação se comovesse com a sua morte e se 
colocasse contrária aos seus inimigos. 
Dessa forma, a morte de Getúlio foi um 
golpe para os planos de seus opositores, 
que não conseguiram derrubar a imagem 
deixada pelo presidente após sua morte.
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IVU N I D A D E208
O GOVERNO DE JUSCELINO KUBITSCHEK E A POLÍTICA DOS “50 
ANOS EM 5”
Após o suicídio de Getúlio Vargas, o vice-presidente Café Filho assumiu a pre-
sidência com o desafio de amenizar os efeitos da crise acentuada com a morte 
de Getúlio. Para isso, contou com o apoio da UDN, de onde saíram os políticos 
que compuseram o novo quadro ministerial. Café Filho também assegurou a 
realização das eleições presidenciais marcadas para outubro de 1955 (FAUSTO, 
1995, p. 418).
Para a disputa eleitoral de 1955, o PSD e o PTB lançaram a candidatura do 
ex-governador de Minas Gerais Juscelino Kubitschek para presidente e do ex-Mi-
nistro do Trabalho João Goulart para vice-presidente. A UDN lançou como 
candidato o general Juarez Távora e o PSP apoiou a candidatura de Adhemar de 
Barros. Plínio Salgado concorreu à presidência pelo PRP.
As eleições foram vencidas por Juscelino e Jango, o que desagradou a UDN, 
que elaborou um golpe para impedir a posse dos candidatos eleitos. Em meio a 
esse cenário político conturbado, o presidente Café Filho afastou-se do governo 
devido a problemas de saúde e em seu lugar assumiu o presidente da Câmera 
dos Deputados, Carlos Luz. O general Henrique Teixeira Lott, Ministro da 
Guerra, apoiado pelo Congresso, depôs Carlos Luz da presidência, que ficou sob 
o comando do vice-presidente do Senado, Nereu Ramos.
 A deposição de Carlos Luz e a ascensão de Nereu Ramos à presidência colo-
cou o país em estado de sítio, situação que impedia Café Filho de retornar ao 
posto de presidente da República. Essa manobra política, conhecida como golpe 
preventivo, orquestrada pelo general Lott com apoio dos oficiais do Exército, 
garantiu a posse dos candidatos eleitos Juscelino Kubitschek e João Goulart.
Juscelino foi eleito com um percentual baixo, se comparado à aprovação 
conquistada por Getúlio Vargas no seu segundo governo (49%) e por Eurico 
Gaspar Dutra em 1945 (55%). Isso demonstrou que o novo presidente não era 
consenso entre a população e que teria que adotar uma postura cautelosa para 
superar a desconfiança e enfrentar a forte oposição de seus adversários políticos.
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O slogan da campanha política de Juscelino Kubitschek era “50 anos em 5”, 
ou seja, sua meta era investir no desenvolvimento econômico para levar o Brasil 
progredir 50 anos em apenas 5. Sua meta era audaciosa, visto a evolução econô-
mica do país nos últimos anos, e para alcançá-la ele criou o Plano de Metas, que 
visava acelerar o desenvolvimento de vários setores da economia brasileira, por 
meio da união do Estado e dos setores privados, que promoveria a aceleração da 
industrialização e a construção da infraestrutura para sustentá-la (SKDIMORE, 
2003, p. 203).
Segundo Recco (2010, p. 94), o Plano de Metas de Kubitschek “deveria elimi-
nar os principais pontos de estrangulamento do sistema econômico brasileiro”, 
possibilitando o avanço dos setores de “energia, transportes, alimentação, indús-
trias de base e educação”. Além disso, o Plano de Metas estabelecia a construção 
de uma nova capital para o país e sede do governo central, a cidade de Brasília.
Plano de governo de Juscelino Kubstchek
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
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IVU N I D A D E210
A intenção de Juscelino era, além de promover o progresso do Brasil, derrotar 
a oposição ao seu governo promovendo o crescimento e o desenvolvimento de 
todos os setores. Para tanto, criou ou substituiu entidades e instituições públicas 
que representavam obstáculos à execução de seus planos. Com esses objetivos, 
Juscelino criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e 
valorizou o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Além disso, Juscelino 
deixou sob a responsabilidade do economista Celso Furtado o desenvolvimento 
de um trabalho conjunto entre o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico 
(BNDE) e a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) com a finali-
dade de elaborar as diretrizes do programa de desenvolvimento a ser implantado 
no Brasil.
Com seu Plano de Metas, Juscelino conseguiu fazer com que o setor indus-
trial brasileiro crescesse de maneira vertiginosa entre 1956 e 1960. No 
entanto, se por um lado esse desenvolvimento, coroado com a inauguração 
de Brasília em 1961, obteve resultados satisfatórios, por outro lado esse 
crescimento indus-trial também trouxe consequências negativas para o país. 
Nos cinco anos de governo JK, a inflação voltou a crescer chegando a 30%, o 
poder aquisitivo dos trabalhadores urbanos diminuiu e a concentração 
fundiária e de rendas agra-vou a situação dos trabalhadores rurais (RECCO, 
2010, p. 95).
 “A expressão nacional-desenvolvimentismo, em vez de nacionalismo, sinte-
tiza pois uma política econômica que tratava de combinar o Estado, a em-
presa privada nacional e o capital estrangeiro para promover o desenvolvi-
mento, com ênfase na industrialização”.
Fonte: FAUSTO (1995, p. 427).
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Para conseguir estabilizar a economia e equilibrar os contrastes resulta-
dos do seu Plano de Metas, Juscelino considerou recorrer ao Fundo Monetário 
Internacional (FMI), o que gerou grande insatisfação da oposição, que o acu-
sou de subordinar o desenvolvimento do Brasil aos interesses norte-americanos. 
Diante da oposição ao acordo entre o Brasil e o FMI e já preocupado com os 
rumos da sucessão presidencial, em 1959, Juscelino decidiu romper com o FMI, 
mesmo que esse rompimento colocasse em risco a continuidade de seus ideais 
desenvolvimentistas. A decisão garantiu a ele o apoio do PTB, da ala esquerda, 
do Exército e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FAUSTO, 
1955, p. 435-436).
 “Criado em 1946 como agência especializada da ONU, o FMI é constituí-
do por um conjunto de Estados membros que contribuem com uma cota 
correspondente a seu potencial econômico. Seus objetivos expressos são 
promover a cooperação monetária internacional, a expansão do comércio e 
a estabilidade cambial; prestar assistência provisória aos Estados- membros 
em dificuldades em seu balanço de pagamentos. Em si mesmo, o FMI não 
dispõe de grandes recursos, mas tem papel fundamental como auditor, que 
dá sinal verde ao vermelho aos credores públicos e privados no tratamen-
to com os países devedores. O sinal verde significa a possibilidade de que 
grandes bancos americanos, europeus e japoneses, assim como seus gover-
nos, concedam a um determinado devedor, novos créditos, novos prazos 
de pagamentos de juros e do principal, financiamento para exportações e 
importações, etc”.
Fonte: Fausto (1995, p. 434).
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IVU N I D A D E212
O BREVE GOVERNO DE JÂNIO QUADROS
Juscelino Kubitschek encerrou seu mandato em 1961 e o seu sucessor foi Jânio 
Quadros, eleito com o apoio da UDN e com João Goulart novamente como vice-
-presidente. Segundo Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, a campanha presidencial 
de Jânio Quadros fundamentava-se em
[...] ataques à corrupção, à inflação, à alta do custo de vida, ao desperdí-
cio de dinheiro com as obras monumentais de Brasília, acompanhados 
de promessas de crescimento econômico, austeridade pública e conten-
ção de gastos. Jânio jamais explicou de maneira convincente como iria 
superar os limites do governo de Kubitschek ou atacar os problemas 
fundamentais ao desenvolvimento brasileiro. Sua mensagem era anti-
política. Ele se apresentava como um candidato acima dos partidos, 
e expressava profundo desdém pelos políticos tradicionais e por seu 
estilo de atuação (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 429).
Com esse discurso, Jânio Quadros conquistou a população e elegeu-se presidente 
com 48% dos votos, derrotando seu adversário, o general Lott. Ao assumir a pre-
sidência, tinha o desafio de consolidar as promessas feitas durante a campanha 
e conciliar os interesses dos diversos setores e partidos políticos, desafios para 
os quais mostrou que não estava preparado.
Jânio iniciou seu mandato criticando publicamente o governo de Juscelino e 
responsabilizando-o pela crise econômica, moral e social pela qual o país passava, 
irritando, dessa maneira, os parlamentares de oposição e que haviam partici-
pado ativamente dos eventos que marcaram a política econômica do governo 
Juscelino (LOUREIRO, 2009, p. 190).
Além da falta de habilidade para lidar com o cenário político e firmar alian-
ças para conseguir colocar em prática seus projetos de governo, Jânio Quadros 
teve inabilidade administrativa enquanto esteve no comando da presidência do 
Brasil. De acordo com Schwarcz e Starling (2015, p. 431), “Jânio era político de 
província. Conhecia mal as lideranças partidárias nacionais, e desdenhou da pos-
sibilidade de montar uma base parlamentar própria, embora seu governo não 
tivesse maioria no Congresso”.
Com sua postura política pouco inclinada para a democracia e que enxergava 
a Constituição de 1946 um obstáculo para o seu pleno exercício da presidência, 
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Jânio entrou em conflito com o Congresso, com setores da sociedade e com o 
próprio vice-presidente João Goulart. Todos esses conflitos poderiam ser evita-
dos ou superados se Jânio Quadros abrisse espaço para o diálogo. O que nunca 
aconteceu.
Um dos episódios mais polêmicos do governo de Jânio Quadros foi a con-
decoração do ministro da Economia cubana, Ernesto Che Guevara, em agosto 
de 1961. Externamente, a condecoração colocou o Brasil na mira dos Estados 
Unidos, que suspeitava de uma tendência à aproximação entre o Brasil e Cuba. 
Internamente, o gesto de Jânio irritou a UDN e o Exército. Mesmo Carlos Lacerda, 
agora governador da Guanabara e que havia comandado o apoio da UDN à 
candidatura de Jânio Quadros, considerou que a atitude do presidente feria os 
interesses brasileiros e condenou sua intenção de estabelecer acordos com os 
países comunistas (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 433).
Diante da crescente oposição à sua forma de governo e sem condições de 
reverter a situação por meio de diálogos e acordos partidários, no dia 25 de agosto 
de 1961, o então presidente comunicou aos ministros militares que estava deixando 
o comando do país e que eles deveriam organizar uma junta para governar o país.
A CONSTRUÇÃO DO GOLPE DE 1964
Com a renúncia de Jânio Quadros, o vice-presidente João Goulart deveria assumir 
a presidência. Jango encontrava-se ausente do Brasil durante esses aconteci-
mentos, pois estava em visita à China, país comunista. Durante sua ausência, 
o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzili assumiu provisoria-
mente a presidência. 
 Por conta do passado político de Jango, ao longo do qual fora construída 
a ideia que ele ansiava colocar em prática uma república sindicalista, desde os 
tempos em que era Ministro do Trabalho do segundo governo de Getúlio Vargas 
(1950-1954), a sua posse como presidente da República não era bem vista, 
sobretudo pelos militares. Além disso, o fato dele estar em viagem para um país 
comunista abriu caminho para associar seu governo à possibilidade dos comu-
nistas chegarem ao poder no Brasil.
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IVU N I D A D E214
Contra a manifesta intenção dos militares de impedir a posse de Jango, 
ergueu-se o um movimento contrário aos militares liderado pelo governador 
do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. O movimento tinha apoio de uma parte 
do Exército rio-grandense e incitava a população como um todo a mobilizar-se 
contra o golpe militar (REIS FILHO, 2014, p. 30-31).
A conjuntura política do Brasil tomou ares de guerra civil, o que de fato não 
chegou a acontecer, uma vez que foi estabelecida uma negociação entre as forças 
lideradas por Brizola e os militares a qual resultou em uma mudança no sistema 
do governo central brasileiro. A partir desse momento o parlamentarismo subs-
tituía o presidencialismo e garantia a presidência à João Goulart, que governaria 
com poderes limitados, uma vez que, pelo parlamentarismo, o Poder Executivo 
seria exercido de fato por um primeiro-ministro.
Jango tomou posse em 07 de Setembro de 1961 e durante o seu governo os 
movimentos populares se intensificaram, com a organização dos trabalhadores 
rurais, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e com o maior envolvimento 
da igreja nas questões políticas e sociais. Diante desse cenário, elaborou-se as 
Reformas de Base, que abrangiam as discussões sobre reformaagrária, reforma 
urbana, reforma eleitoral, reforma do estatuto do capital estrangeiro e a reforma 
universitária.
Para garantir a aprovação do seu programa de reformas e conseguir colocá-
-lo em prática, Jango precisava recuperar os plenos poderes de presidente. Em 
1963 aconteceu um plebiscito para decidir entre a continuidade do sistema par-
lamentar ou a volta ao presidencialismo. A opção presidencialista saiu vencedora 
e Jango recuperou o direito de exercer a presidência de forma plena.
A partir da divulgação do programa de reformas de base instalou-se um for-
te debate na sociedade. Para saber mais sobre o reformismo do governo 
Jango, acesse o conteúdo disponível em: <https://cpdoc.fgv.br/producao/
dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/As_reformas_de_base>. 
Acesso em: 01 jun. 2015.
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Com os poderes presidenciais recuperados, Jango, com a ajuda do seu minis-
tro do Planejamento Celso Furtado, elaborou o Plano Trienal, o qual tinha por 
objetivo restabelecer o equilíbrio econômico do país. Entretanto, o Plano Trienal 
foi rejeitado por todos os setores da sociedade e acabou sendo deixado de lado. 
Desde então, João Goulart não tinha mais um plano de governo e o país encon-
trava-se mergulhado no caos (REIS FILHO, 2014, p. 36).
A postura de João Goulart após o fracasso do Plano Trienal representou uma 
mudança na sua política conciliatória, adotada desde o início de seu governo. 
Jango optou por fazer valer seus poderes de presidente e levar o programa de 
reformas adiante, mesmo sem o apoio do Congresso ou da sociedade. A radica-
lização de Jango acirrou as críticas ao seu 
governo e fez crescer o movimento que 
desejava sua saída do cargo de presidente 
do Brasil. O avanço do comunismo e do 
socialismo na América Latina também 
contribuiu para o desgaste da imagem 
de João Goulart, sempre associado ao 
ideal comunista.
No dia 19 de março de 1964, qua-
tro dias após um comício realizado pelo 
presidente no Rio de Janeiro, no qual 
anunciou o início do plano reformista, 
realizou-se em São Paulo a primeira 
Marcha da Família com Deus pela 
Liberdade, organizada pelas associações 
das senhoras católicas ligadas à Igreja 
conservadora, apoiadas pelos setores de 
direita alvoroçados por conta das agita-
ções políticas (REIS FILHO, 2014, p. 41).
Campanha pela restauração dos plenos poderes ao 
presidente da República
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
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A crise do governo de Jango agravou-se quando um acontecimento envol-
vendo a Marinha e as forças do Exército criou uma divisão nas forças militares. 
A Associação dos Marinheiros há tempos organizava-se para combater a des-
valorização da profissão e, em 24 de março de 1964. o Ministro da Defesa Silvio 
Mota mandou prender os dirigentes da associação sob a acusação de indisci-
plina e insubordinação. 
No dia seguinte à ordem de prisão, os marinheiros e os dirigentes da asso-
ciação reuniram-se para comemorar o aniversário da instituição e elaborar novas 
reivindicações. O ministro solicitou a ajuda do Exército para reprimir o movi-
mento, que acabou chegando a um acordo com os marinheiros, apaziguando 
a situação. O ministro Silvio Mota não gostou do resultado das negociações e 
entregou o cargo, para o qual Jango nomeou o brigadeiro Paulo Rodrigues que, 
ao determinar que os marinheiros não seriam acusados ou punidos por insubor-
dinação, contrariou os oficiais das altas patentes da Marinha que o acusaram de 
incentivar a rebeldia e a falta de respeito à hierarquia (FAUSTO, 1995, p. 460).
Com esse acontecimento, Jango possibilitou o aprofundamento da oposi-
ção do Exército em relação ao seu governo. A essa altura, diante das conjunturas 
apresentadas, o golpe para afastar João Goulart da presidência da República já 
se encontrava amplamente articulado. Na madrugada de 31 de Março de 1964, 
o general Mourão Filho deslocou as tropas sob seu comando de Minas Gerais 
para o Rio de Janeiro com o objetivo de ocupar o Ministério da Guerra e depor 
o presidente (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 446).
As tropas de Mourão Filho não encontraram resistência. João Goulart havia 
deixado o Rio de Janeiro com destino a Porto Alegre e seus aliados ou os que não 
concordavam com um golpe militar também não organizaram uma estratégia de 
defesa. No dia 2 de Abril, o presidente do Senado Auro de Moura Andrade decla-
rou, em sessão secreta no Congresso Nacional, que a presidência da República 
estava vaga. Era o fim do governo de João Goulart e o fim das liberdades demo-
cráticas do país.
 
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Notícia do jornal O Lince sobre a deposição de João Goulart
Fonte: Brandão (online).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caros(as) alunos(as), nesta unidade debatemos um período importante na histó-
ria do Brasil e que nos permite repensar a trajetória política do país, dispensando 
uma maior atenção às discussões relacionadas com o exercício da democracia 
ao longo da formação do país.
Nos trinta e quatro anos de história política brasileira abordada nesta unidade 
(1930-1964), vimos como os direitos dos cidadãos brasileiros foram manipula-
dos de acordo com os interesses de figuras políticas como Getúlio Vargas, que 
usou da situação difícil em que vivia a maioria da população brasileira no iní-
cio dos anos de 1930 para articular uma estratégia de governo que garantisse a 
sua permanência no poder quase vinte anos, somados os dois períodos em que 
esteve na presidência do Brasil.
Dono de um discurso que conquistou os setores mais baixos da sociedade e 
fundamentando-se em uma política populista – que na verdade diz mais sobre 
sua vontade de permanecer no poder do que sobre sua verdadeira preocupação 
com a população –, Getúlio deixou sua marca na história política do país ao tirar 
a própria vida em 1954 e levar a população a chorar sua morte como se fosse a 
morte de um ente próximo e querido. 
Ao que parece, para os menos comprometidos com os discursos e com as 
análises históricas, ao suicidar-se Getúlio redimiu-se de seu passado ditador 
deixando na lembrança a imagem do “pai dos pobres”. No entanto, lembrem-
-se caro(a) estudante, nós, enquanto historiadores e professores de história, nos 
preocupamos com os discursos e as análises e, portanto, devemos ir além da 
imagem deixada por Vargas após a sua morte. 
Com isso em mente, podemos compreender melhor as heranças deixadas por 
Getúlio e que influenciaram os rumos políticos nos anos seguintes à sua morte. 
Anos que trouxeram a renovação da esperança ao mesmo tempo em que cria-
ram as condições para que o Brasil mergulhasse nos anos de terror da ditadura 
militar, instalada a partir do golpe de 1964 que acabamos de estudar. 
Os 21 anos que marcaram o período da ditadura militar no Brasil será o 
assunto de nossa próxima unidade.
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1. Em 1930 o Brasil passava por um momento conturbado, influenciado – além do 
contexto interno – pelos acontecimentos internacionais. O fim da Primeira Guer-
ra Mundial, o avanço das ideias socialistas e a crise norte-americana de 1929 afe-
taram de maneira considerável os países europeus e o Brasil. Após a leitura desta 
unidade, estabeleça a relação entre a crise econômica desencadeada com 
a quebra da bolsa de Nova Iorque e a crise nos setor agrário-exportadorbrasileiro.
2. Em 1937 Getúlio Vargas deu um golpe de Estado e decretou o início do Estado 
Novo. Descreva de maneira sucinta o que os anos em que o Estado Novo 
esteve vigente significaram para a democracia brasileira.
3. A postura pouco evidente de Getúlio Vargas após 1945 não fora resultado de 
uma falta de compromisso político ou decepção com os acontecimentos que 
marcaram o fim do Estado Novo. Na verdade, Getúlio preparava-se para dispu-
tar novamente as eleições e reassumir o comando do país, dessa vez pelas vias 
democráticas. Dessa forma, no período entre 1945 e 1950, Getúlio e seus aliados 
buscaram definir as estratégias que conduziriam sua campanha e desenvolver as 
estratégias para um novo governo. Leia as alternativas abaixo referentes ao 
segundo governo de Getúlio Vargas e assinale a alternativa correta.
a) Após 1945 Getúlio Vargas afastou-se do cenário político brasileiro devido ao des-
contentamento com os rumos que o país estava tomando. Seu retorno em 1950 
foi possível mediante um acordo entre ele e seus opositores, que lhe garantiu o 
exercício de um governo nos mesmo moldes do Estado Novo.
b) Entre 1950 e 1954 Getúlio Vargas não enfrentou grandes oposições ao modelo 
político-econômico implantado, uma vez que o presidente conseguiu conciliar 
os interesses dos nacionalistas e dos entreguistas.
c) Como tinha conseguido conquistar o apoio do movimento dos trabalhadores ao 
longo do primeiro governo (1930-1945), Getúlio não teve dificuldades em lidar 
com a base operária na sua segunda previdência, evitando conflitos e greves.
d) O modelo político adotado por Vargas nesse segundo mandato rompia com o 
liberalismo e apostava no nacionalismo e no intervencionismo para promover a 
industrialização do país e o seu consequente progresso.
e) Getúlio Vargas encerrou precocemente seu segundo mandato por acreditar que 
dessa forma seus ideais políticos seriam levados adiante, uma vez que seus opo-
sitores teriam que enfrentar as forças populares para promover as mudanças que 
desejavam.
4. Com o fim do Estado Novo acreditava-se que o país enfim gozaria da liberdade e 
a democracia poderia finalmente florescer no Brasil. Leia as alternativas abaixo 
sobre os anos que se seguiram ao fim do Estado Novo e em seguida assinale 
a alternativa que representa a resposta correta.
I. Juscelino Kubitschek foi eleito com um percentual baixo, o que demonstrava 
que o novo presidente não era consenso entre a população e que teria que ado-
tar uma postura cautelosa para superar a desconfiança e enfrentar a forte oposi-
ção de seus adversários políticos.
II. Kubitschek elaborou o Plano de Metas, que visava acelerar o desenvolvimento 
de vários setores da economia brasileira, por meio da ampliação da participação 
estrangeira nas atividades econômicas no país.
III. Jango tomou posse em 1961 e elaborou as chamadas Reformas de Base, que 
abrangiam as discussões sobre reforma agrária, reforma urbana, reforma eleito-
ral, reforma do estatuto do capital estrangeiro e a reforma universitária.
IV. A postura de João Goulart após o fracasso do Plano Trienal representou uma 
mudança na sua política conciliatória, adotada desde o início de seu governo.
5. Estão corretas as alternativas:
a) I.
b) II e IV.
c) I e III.
d) III.
e) I, III e IV.
221 
A EXPRESSÃO CULTURAL NO ESTADO NOVO
A Cultura era entendida como assunto de Estado, e a ditadura fez uso disso para se apro-
ximar de escritores, jornalistas e artistas. Entre o ministério Capanema e o DIP abriu-se 
um mercado de cargos destinados a intelectuais que desejassem se inserir nos espaços 
privilegiados do serviço público, e formou-se uma larga roda de convívio entre intelectu-
ais e artistas e o núcleo decisório do governo. Ainda que alguns entre eles antagonizas-
sem, com sua produção, a ordem estabelecida, uma expressiva parcela dos intelectuais 
brasileiros ao centro, à direita e à esquerda do espectro político aceitou demandas que 
lhe faziam as agências do Estado Novo: poetas, como Carlos Drummond de Andrade, 
Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Rosário Fusco e Menotti Del Picchia; intelectuais, 
como Gilberto Freyre, Alceu Amoroso Lima, Nelson Werneck Sodré; ou escritores, como 
Graciliano Ramos. É bem verdade que havia uma vontade de transformação atravessan-
do o campo da cultura e projetando, em escala nacional, uma estética, uma imaginação 
e um pensamento que já não estavam circunscritos aos regionalismos. O Estado Novo 
forneceu régua e compasso a esse esforço de construção de uma nacionalidade triun-
fante, sustentada, numa ponta, pela crença na autenticidade da cultura popular e, na 
outra, pela mistura heterogênea de elementos culturais originários de várias regiões do 
país. Um turbante de baiana aqui, ali um pandeiro ou um tamborim pinçados do morro 
carioca, acolá um toque de berimbau e um passo de capoeira, mais adiante um mulato 
de voz macia que resume todos os brasileiros – ao sul do equador nada é puro, e tudo 
estaria misturado. Na representação vitoriosa dos anos 1930, o brasileiro nasce, portan-
to, onde começa a mestiçagem. A mistura deixou de ser desvantagem para tornar-se 
elogio, e diversas práticas regionais associadas ao popular – na culinária, na dança, na 
música, na religião – seriam devidamente desafricanizadas, por assim dizer. Transfor-
madas em motivo de orgulho nacional, foram aclamadas, e são até hoje, consideradas, 
marcas da originalidade cultural do país.
Fonte: Schwarcz e Starling (2015, p. 378).
MATERIAL COMPLEMENTAR
Título: Golpe Militar 1964 - Documentário
Sinopse: O documentário aborda o desenvolvimento do golpe de 1964 que afastou o 
presidente João Goulart e instalou o regime militar no Brasil, analisando o apoio dos 
Estados Unidos na consolidação do golpe, enfatizando suas razões e as consequências 
do período da ditadura militar no Brasil. 
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=UqgpnC42Caw>. Acesso em: 13 
jul. 2015.
Título: 1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs fi m ao regime 
democrático e instituiu a ditadura no Brasil.
Autor: Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes
Editora: Civilização Brasileira
Sinopse: O livro discute o processo desencadeado com a chegada 
de Jango à presidência do Brasil e a pressão militar para impedir a 
sua posse. Elaborado de maneira clara e objetiva, a obra permite a 
compreensão por parte do grande público dos acontecimentos que 
levaram à instalação do regime militar no Brasil.
Título: Olga
Ano: 2004
Direção: Jayme Monjardim
Sinopse: O fi lme retrata a vida de Olga Benário, que nasceu na 
Alemanha e tornou-se militante comunista. Ao ser perseguida pelas 
forças de Hitler, fugiu para Moscou, onde recebeu treinamento militar 
e recebeu a missão de acompanhar o brasileiro Luiz Carlos Prestes de 
volta ao seu país. No Brasil, lutam contra o governo de Getúlio Vargas 
e planejam a Intentona Comunista, ao mesmo tempo em que se 
envolvem e se casam. A história aborda aspectos da vida da militante 
comunista no Brasil, destacando aspectos importantes do momento 
histórico vivido pelo Brasil durante o Governo de Getúlio Vargas.
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Professora Me. Luciene Maria Pires Pereira
OS ANOS DE CHUMBO: A DITADURA 
MILITAR NO BRASIL E O LONGO 
PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Analisar os anos iniciais da ditadura militar e o desenvolvimento do 
aparato administrativo militar.
 ■ Discorrer criticamente acerca das medidas autoritárias adotadas pelo 
regime militar a partir da fase de “endurecimento” do regime.
 ■ Debater sobre a organização dos diversos setores da sociedade na 
luta contra a ditadura, analisando as formas de resistência à repressão 
e à adoção da tortura.
 ■ Analisar o desenvolvimento do processo de redemocratização do 
país e a sua organização pós-ditadura.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ A consolidação do golpe de 1964 e a organização do Estado militar
 ■ O “endurecimento” do regime e a resistência popular: manifestações 
eorganizações populares contra a repressão
 ■ As esperanças renovadas: o longo caminho da redemocratização do 
país
INTRODUÇÃO
Caro(a) aluno(a), chegamos em um momento muito rico da história do Brasil, 
rico porque nos permite conhecer a fundo o período onde a supressão dos direitos 
civis, das liberdades e da democracia atingiu seu ápice. Como vimos na unidade 
anterior, durante os anos de 1937 e 1945, sob o comando de Getúlio Vargas, o 
Brasil também estava sob um regime ditatorial. No entanto, o que ocorreu no 
Brasil a partir de 1964 deixou marcas na sociedade que jamais serão esquecidas 
e que não devem ser esquecidas.
Ao longo deste livro vimos como o Brasil buscou construir uma identidade 
após a ruptura com Portugal em 1822. Desde esse momento, os brasileiros luta-
ram para conquistar o reconhecimento enquanto cidadãos e terem seus direitos 
respeitados. Vimos que, durante muito tempo, as vozes dos que não estavam no 
poder foram caladas por meio da repressão e da coação, sendo eles impedidos 
até mesmo de escolher livremente seus representantes nas esferas municipais, 
estaduais e federal.
A organização dos setores populares demorou a ser construída e demorou-se 
mais ainda para que esses setores tivessem seus direitos e interesses defendidos e 
respeitados por aqueles que estavam no poder. Por vários momentos, só foram 
levados em consideração no contexto político e econômico quando vistos como 
manipuláveis e úteis aos interesses alheios.
Quando os brasileiros à margem do poder alcançaram notabilidade e pude-
ram fazer parte de fato do contexto político e econômico do país, quando tiveram 
seus direitos de cidadãos respeitados e quando puderam, enfim, debater e com-
preender o sentido das palavras liberdade e democracia, um novo golpe provocou 
mudanças profundas na sociedade e, mais uma vez, os brasileiros viram essas 
palavras perderem seus sentidos e significados.
Os 21 anos em que o país esteve sob o comando dos militares devem ser 
lembrados e analisados a fundo para que os erros do passado não se repitam. 
Porque, caro(a) aluno(a), a ditadura militar fez com que os brasileiros enten-
dessem o real significado da liberdade e da democracia, uma vez que lhes fora 
proibido até mesmo pensar por si próprios, sob o risco de serem submetidos a 
castigos que feriram o corpo e a alma.
Introdução
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A CONSOLIDAÇÃO DO GOLPE DE 1964 E A 
ORGANIZAÇÃO DO ESTADO MILITAR
O Exército nas ruas durante o regime militar
Fonte: Fundação Getúlio Vargas (online).
Após o golpe que tirou João Goulart do comando do Brasil, o que se esperava 
era o estabelecimento de um governo provisório até a realização das próximas 
eleições, marcadas para 1965. Ninguém imaginava que o que aconteceria era a 
instalação de um regime político que duraria 21 anos e seria baseado na supres-
são dos direitos constitucionais, das liberdades políticas e civis e da democracia. 
Nem mesmo os que apoiaram o golpe esperando conter a “ameaça comunista” 
poderiam imaginar a realidade que seria imposta ao país a partir daquele 31 de 
Março de 1964.
É inegável que o golpe militar e civil foi empreendido sob bandeiras de-
fensivas. Não para construir um novo regime. O que a maioria desejava 
era salvar a democracia, a família, o direito, a lei, a Constituição, enfim, 
os fundamentos do que se considerava uma civilização ocidental cristã. 
Do ponto de vista das Forças Armadas, tratava-se de garantir a hierar-
quia e a disciplina, ameaçadas pelos protestos crescentes de graduados 
e de marinheiros. Finalmente, outra referência acionada com boa acei-
tação, em especial entre as classes médias, era o combate à corrupção, 
pervasiva, segundo os conservadores, desde os últimos anos JK (REIS 
FILHO, 2014, p. 48).
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Quando Moura Andrade declarou vaga a presidência da República, o próprio 
exército ainda não havia definido por completo as novas direções políticas do 
país. Os que já sabiam, já haviam planejado que essa nova diretriz não incluía a 
participação popular. De acordo com Élio Gáspari,
A unidade militar proclamada sobre os escombros do governo Goulart 
era tão falsa quanto aquela que Golbery oferecera no texto de seu mani-
festo na manhã de 1º de abril. Contudo, se os generais podiam divergir 
a respeito de muitas coisas, numa estavam de acordo: dispunham-se a 
utilizar a força contra o que restava do governo civil. Queriam isso não 
só porque achavam necessário o expurgo – “limpeza da casa”, como 
diziam –, mas também porque ele se transformaria imediatamente em 
fonte de poder e legitimidade burocrática (GÁSPARI, 2014, p. 121).
Os militares, assim que assumiram o comado do país, adotaram medidas que 
tinham por objetivo limitar e até eliminar as entidades e as manifestações con-
trárias ao novo regime. Desse modo, para garantir a vitória do golpe iniciado 
em março de 1964 e as realizações pretendidas pelo novo regime, era necessário 
controlar o Congresso Nacional e reduzir a força da oposição no âmbito polí-
tico. Para tanto, em 09 de Abril de 1964, ou seja, quase imediatamente à tomada 
do poder, foi anunciado o Ato Institucional número 1 (AI-1).
Entre os que apoiaram o golpe que tirou João Goulart da presidência esta-
vam os liberais conservadores – corrente formada por Carlos Lacerda, Ma-
galhães Pinto, a UDN, a imprensa jornalística representada pelos jornais O 
Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e o Correio da Manhã e os que defen-
diam a retomada da vocação agrária do país –, os legalistas e os nacional-
-estadistas.
Fonte: Reis Filho (2014).
Ato institucional foi decretado
Fonte: Univesp TV (online)
Para você, qual é o sentido da palavra revolução?
Fonte: a autora.
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O AI-1 foi elaborada por Carlos Medeiros Silva – o mesmo homem que redi-
giu e revisou a Constituição de 1937 – e continha onze artigos que, em síntese, 
limitava o poder e a autonomia do Congresso Nacional, além de conceder ao 
presidente da República poderes para cassar mandados e suspender os direitos 
políticos de qualquer político brasileiro pelo prazo de dez anos (GÁSPARI, 2014, 
p. 124-125). Talvez o ponto mais significativo da instituição do AI-1foi a nome-
ação de uma junta composta 
pelas lideranças das forças 
militares do país para assu-
mir o Comando Supremo 
da Revolução. Com esse 
ato, o golpe adquiriu cará-
ter revolucionário, o que 
trazia implícito a suprema-
cia da Revolução no poder 
sobre os demais órgãos e ins-
tituições do país, inclusive, a 
Constituição (REIS FILHO, 
2014, p. 51).
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Além da restrição do poder e da autonomia do Congresso Nacional, o novo 
regime impôs uma forte repressão aos movimentos sociais de oposição. Em 1º de 
abril de 1964, os militares incendiaram a sede da União Nacional dos Estudantes 
no Rio de Janeiro e colocaram a organização estudantil na clandestinidade.
A ilegalidade da UNE foi apenas uma das medidas tomadas pelo regime 
militar a partir de 1964 para controlar a oposição. No decorrer dos primeiros 
meses do novo regime, uma série de leis foram criadas a fim de subordinar os 
movimentos populares ao governo central.No caso do movimento estudan-
til, no lugar da UNE, foram criados os Diretório Nacional de Estudantes e os 
Diretórios Estaduais de Estudantes. Esses órgãos estavam sujeitos a um estatuto 
definido pelo governo central, o qual tirou deles o caráter de movimento político 
e os reduziam às atividades administrativas e à promoção de eventos recreativos. 
Dessa forma, o movimento estudantil perdia sua essência e identidade.
O mesmo aconteceu com o movimento trabalhista. Os sindicatos não foram 
extintos, mas passaram à tutela do Estado, a exemplo do que já ocorrera em outros 
momentos da história política do Brasil. Uma lei de 1º de junho de 1964 regula-
mentou o direito de greve no país, considerando ilegais as greves do setor público 
e/ou que tivessem um caráter político, religioso ou social. Com isso, restringiu-
-se significativamente o poder de organização dos trabalhadores, obrigando-os 
a submeter-se às medidas políticas e econômicas que, por diversas vezes, mos-
traram-se desfavoráveis a esse setor da sociedade.
O instrumento que legitimava as ações repressivas do novo governo era 
representado pelos Inquéritos Policiais Militares (IPM), responsáveis pela inves-
tigação dos casos de subversão ao regime. Por meio dos IPM, inúmeras pessoas 
foram perseguidas, presas e torturadas já no início do governo militar. A tortura 
foi o meio pelo qual os militares que estiveram no comando do país no período 
da ditadura militar buscaram reprimir as manifestações contrárias ao modelo 
político implantado. Voltaremos a discutir esse instrumento da administração 
militar em momento oportuno.
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O AI-1 estabelecia que um novo presidente deveria ser eleito por meio do 
voto indireto do Congresso Nacional e para um mandato que iria até janeiro de 
1966. Em 11 de abril de 1964, o Congresso – já rechaçado devido às cassações 
realizadas após a instituição do AI-1 – elegeu para presidente o general Castelo 
Branco, o qual, no entender dos que comandavam a “revolução”, personificava 
os interesses tanto dos militares quanto das correntes civis que apoiaram o golpe. 
Conforme destaca Daniel Aarão, Castelo Branco
Fora chefe do Estado-Maior do Exército, nomeado por Jango, porém 
notabilizara-se pela firmeza com que combatera a radicalização do 
reformismo nacional-estatista, consolidando prestígio entre os pares. 
Ex-oficial da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, colega 
apreciado e amigo de militares estadunidenses, ninguém tinha dúvida 
sobre seu decidido anticomunismo. Por outro lado, considerado um 
militar culto e civilista na tradição dos militares-políticos, tão típica 
da República brasileira, dispunha de trânsito e conexões com o Ipês e 
entre políticos e empresários de diferentes orientações (REIS FILHO, 
2014, p. 53).
Castelo Branco foi o responsável por criar as bases que fundamentaram o apare-
lho estatal durante o governo dos militares. Ao assumir a presidência, prometeu 
respeitar a Constituição – com as modificações impostas pelo AI-1 – e realizar as 
eleições presidenciais marcadas para 1965 (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 
448). As promessas não foram cumpridas e o que se assistiu durante o governo 
de Castelo Branco foi o prelúdio de reformas políticas que durante o longo perí-
odo do militarismo no Brasil levaram ao extremo o domínio sobre os indivíduos. 
A criação do Serviço Nacional de Informação (SNI), criado originalmente para 
investigar as denúncias de torturas dos “inimigos do regime”, foi, talvez, o pri-
meiro órgão de manipulação da verdade e de controle dos cidadãos, uma vez 
que serviu de instrumento para perseguições e prisões arbitrárias.
O programa político de Castelo Branco refletia os interesses de parte daque-
les que participaram da derrubada de Jango. Esse programa político foi um dos 
motivos para a elevação da insatisfação dos setores ligados à radicalização do 
regime. Conforme aponta Daniel Aarão,
O seu internacionalismo pretendia romper com as ambições autono-
mistas do nacional-estatismo, propondo um alinhamento estratégico 
com os Estados Unidos. Tratava-se de integrar o Brasil no chamado 
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mundo ocidental, reconhecendo a liderança desempenhada por Tio 
Sam. Ao mesmo tempo, o seu liberalismo queria promover uma re-
dução drástica do Estado e uma abertura radical aos fluxos do capital 
internacional, revogando as limitações políticas e econômicas formula-
das pelo governo deposto (REIS FILHO, 2014, p. 55).
Para resolver os problemas econômicos herdados do governo de Jango e que se 
prolongavam por anos devido ao insucesso dos planos econômicos adotados pelos 
últimos governos, o presidente Castelo Branco adotou um programa denominado 
de Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), que seria coordenado 
pelos Ministros da Fazenda Otávio Gouveia de Bulhões e do Planejamento 
Roberto Campo.
O PAEG tinha por base o objetivo de “reformar o sistema econômico capitalista, 
modernizando-o como um fim em si mesmo e como forma de conter a ame-
aça comunista” (FAUSTO, 1995, p. 470). Dentre as medidas estabelecidas pelo 
PAEG para a estabilização da economia brasileira, encontravam-se “cortes de 
gastos públicos, contenção do crédito, arrocho dos salários” (REIS FILHO, 2014, 
p. 55). Além disso, um dos pontos-chave do programa de Campos e Bulhões foi
o incentivo às exportações, o que contribuiu para o desenvolvimento produtivo
do Brasil (FAUSTO, 1995, p. 470-471).
Foi no governo de Castelo Branco que foi criado o Fundo de Garantia por 
tempo de Serviço, um instrumento usado para substituir o sistema de esta-
bilidade no emprego para aqueles que permanecessem num mesmo em-
prego por mais de dez anos. A criação do FGTS teve por objetivo aliviar as 
despesas das empresas e liberar o capital empregado para respeitar a regra 
de estabilidade para que fosse usado na modernização das empresas.
Fonte: adaptado de Reis Filho (2014).
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Reprodução proibida. A
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Essas medidas, embora inicialmente tenham causado o aumento do custo 
de vida e a contenção dos salários, contribuíram para que a economia brasileira 
avançasse, superando, ao menos em parte, os problemas deixados pelos gover-
nos anteriores, como a alta da inflação que, no governo de Castelo, começou a 
retroceder. 
Uma parte dos que participaram do golpe de 1964 não estava satisfeita com a 
política desenhada por Castelo Branco, considerada por estes como uma pos-
sibilidade de os que se declararam contra o regime militar conseguir derrubar 
o governo e assumir o poder, sobretudo depois que as eleições de 1965 colocou 
no comando dos principais Estado brasileiros governadores contrários ao 
regime militar. Para conter os ânimos, Castelo enrijeceu sua atuação política e 
enterrou de vez a Constituição de 1946.
Em 17 de outubro de 1965, o presidente Castelo Branco promulgou o Ato 
Institucional 2 (AI-2), cujas medidas mais significativas eram o estabelecimento de 
eleições indiretas para presidente da República e governadores com voto aberto, 
o fechamento do Congresso Nacional por alguns períodos e o fim do multipar-
tidarismo com a extinção dos partidos políticos existentes e a criação de apenas
dois partidos, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) – partido que abri-
gava os favoráveis ao regime instalado em 1964 – e o Movimento Democrático
Brasileiro (MDB) – partido da oposição. Em fevereiro de 1966 Castelo promul-
gou o AI-3, que estabelecia o voto indireto para as eleições municipais.
O último lance do governo de Castelo Branco